À DESCOBERTA DO ISLAMISMO - I
DAS ORIGENS À MORTE DE MAOMÉ
Como não abordar neste Boletim a questão do Islã, quando cada dia a mídia, e nossas ruas, estão submersos por sua presença? Além disso, o número de conversões de europeus, ex-cristãos ou outros, cresce sem cessar: cinquenta mil na Espanha, outros tantos na Inglaterra, cem mil na França, diz-se até...
E, sobretudo, não é muito difícil discernir o toque islâmico por trás de toda uma parte do esoterismo que se derrama sobre o Ocidente há cerca de quinze anos e que, doravante, conseguiu se infiltrar no seio do catolicismo mais tradicional, aquele dos fiéis da missa tridentina.
Que este último escândalo só tenha sido possível pela cumplicidade de algumas pessoas, clérigos especialmente, não muda nada na questão: a simples realidade de um fato tão extraordinário, que muitas pessoas sequer conseguem admitir, nos obriga, ao contrário, a nos debruçarmos sobre a questão do Islã, para conhecer primeiro seu quadro, geográfico, histórico e humano, depois as doutrinas, suas variantes e suas fontes - sem negligenciar, muito pelo contrário, os pontos de contato do Islã com o Cristianismo, tanto os encontros de fato quanto as aparências, os equívocos, esses preciosos equívocos que permitem aos esoteristas enganar os cúmplices demasiado ingênuos...
Por mais que possa pretender, cada homem é sempre marcado por suas origens, seja seu destino dos mais humildes ou o conduza ao topo do sucesso e da fama. O meio que o viu nascer e crescer influencia, por sua geografia, seu clima, o modo de vida das populações, suas culturas e suas crenças, na formação de seu caráter e seu comportamento.
É necessário, portanto, fixar este cenário, analisar da melhor forma o consenso no qual Maomé iria se manifestar para se tornar o fundador venerado de uma religião que agrupa milhões de fiéis de todas as raças.
A) A ARÁBIA ANTES DO NASCIMENTO DE MAOMÉ
1) Geografia e história
A geografia física da península arábica não é indiferente ao problema do Islã. Ela carece muito de homogeneidade, e, mesmo, na maioria das vezes de hospitalidade, o que a priori não era favorável ao desenvolvimento de uma religião e de uma cultura elaboradas e unitárias.
Esta vasta plataforma de granito inclinada em direção ao Golfo Pérsico compreende uma planície costeira de largura variável, um rebordo montanhoso selvagem e um planalto de imensas extensões estépicas e desérticas, orientado de Norte a Sul.
O clima é variado, sujeito a diversas influências. O sul, voltado para o Oceano Índico, conhece o regime das monções, favorável às culturas, e compreende o IÉMEN e o HADRAMOUT. O centro e o norte estão sujeitos aos caprichos de chuvas raras e escassas. Apenas os oásis do HEDJAZ, na fachada ocidental, gozam, na Arábia Central, de uma boa posição por estarem situados em uma região vulcânica antiga. Ali se desenvolveu um certo número de cidades, circundando Meca, capital mercantil e caravaneira, verdadeiro coração da Arábia do século VII.
Tradicionalmente, distinguiam-se dois grupos de populações, rivais embora descendentes ambos de Abraão. Os Árabes do Sul ou Iemenitas e os Árabes do Norte ou Nizaritas. Esses dois grupos subdividiam-se em um grande número de tribos independentes, notadamente os Lacmidas e os Gassânidas entre os Iemenitas, os Qais e os Coraixitas entre os Nizaritas.
A Arábia do Sul, favorecida pelas condições climáticas, conheceu muito cedo uma certa civilização. No século IX a.C., existia o Reino Mineu; depois, seguiram-se o Reino de Sabá, enriquecido pelo tráfico de aromas e pedras preciosas com a Índia, e o Reino Himiarita, que durou do século II a.C. ao século IV d.C.
A Arábia do Norte manifestou-se mais tardiamente. Por muito tempo, os nômades que a povoavam, cameleiros e pastores de ovelhas, mal eram organizados, contentando-se em proteger os sedentários ou cobrar-lhes tributos.
Muito antes de Cristo, a corrente comercial já estava estabelecida das Índias e da Pérsia em direção à Síria. As caravanas árabes nômades de que fala o Antigo Testamento circulavam entre o Eufrates e o Mar Morto, passando pela via direta que subia o vale do Eufrates e contornava o deserto sírio pelo norte. No século VI de nossa era, a situação mudou completamente. As rivalidades entre os Bizantinos e os Persas Sassânidas tornaram as rotas do norte incertas. Os comerciantes árabes passaram do norte para o sul. Foi doravante nas margens do Mar Vermelho que se acumularam os depósitos de mercadorias vindas da China, das Índias e da África em um sentido, e do Egito e da Síria no outro.
Aproveitando a decadência Himiarita e as necessidades comerciais, a poderosa tribo dos Coraixitas organizou Meca como uma república mercantil. Fundou sua fortuna no tráfico entre o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por meio de caravanas regulares. Essa instituição é mencionada no Alcorão, na sura CVI, 1-2:
"...Pela união dos Coraixitas, que se unem para as caravanas do inverno e do verão."
Ironia do destino, foi a expansão do Islã e, principalmente, o papel desempenhado pela dinastia dos Abássidas que, a partir de 750, teve Bagdá como capital e realizou a unidade do Oriente Próximo, tornando novamente praticável a antiga rota clássica das caravanas, o que precipitou a ruína econômica de Meca.
Paralelamente, tribos do sul emigraram para o extremo norte, até os confins da Síria. Ali fundaram vários estados. O mais importante foi o Reino dos Nabateus, com capital em Petra, povo de condutores sedentários de caravanas. Existiram também o reino dos Lacmidas, fundado mais tardiamente com capital em Al-Hira, de 328 a 622, e o reino dos Gassânidas, encarregado pelos imperadores bizantinos de guardar a fronteira sírio-palestina no século IV. Deve-se notar que Lacmidas e Gassânidas se converteram ao Cristianismo, mas tornaram-se cismáticos, nestorianos ou monofisistas.
2) A vida religiosa
Os outros árabes permaneceram pagãos na época do nascimento de Maomé. No entanto, na maioria das cidades encontravam-se estrangeiros judeus ou cristãos. Esse paganismo árabe era, na verdade, um polidemonismo; com efeito, as divindades não eram claramente individualizadas como nos velhos politeísmos grego ou romano.
Havia uma multidão de gênios terrestres ou silvestres. Cada país, cada lugar tinha sua divindade própria, habitando geralmente em pedras, árvores ou fontes. É uma situação que se encontra em todo o paganismo, e, Deus sabe como o paganismo ocidental era rico desse aspecto, que deixou tantos vestígios em nossa cultura francesa. O particularismo do paganismo árabe era limitar-se a esse aspecto e não comportar grandes deuses no estilo dos cerca de trinta grandes deuses clássicos.
A maioria dos santuários era composta pelo mesmo conjunto: uma pedra sagrada — o próprio deus —, rodeada por um recinto sagrado, contendo frequentemente algumas árvores e quase sempre uma fonte sagrada.
Era exatamente o caso do centro religioso de Meca, que já existia no século II a.C. Local de peregrinações famoso, a Caaba era uma construção imperfeitamente retangular de doze metros de comprimento, por dez de largura e quinze de altura, coberta por um tapete preto trocado anualmente e fornecido hoje pelos egípcios. O santuário havia sido construído perto do poço de Zemzem, ponto de parada natural para os nômades. Mais tarde, ali se colocou uma pedra negra, objeto de adoração, sem que se tratasse de uma origem celeste. A pedra negra da Caaba ainda existe, selada no ângulo oriental do edifício, a um metro e meio acima do solo. Está em três pedaços e vários fragmentos cingidos de ferro.
Na época, a Caaba era um museu de ídolos... Cada tribo nômade havia depositado ali os objetos de seu culto. Verdadeiro celeiro de divindades, bricabraque de pedras, algumas estátuas grosseiras, continha tantos ídolos quantos dias há no ano.
Esse fenômeno era explicado pela vitalidade extraordinária concedida a Meca devido à sua ascensão como capital comercial. Sua população aumentou drasticamente, e todas as cores de pele, todas as raças se encontravam em uma multidão de miseráveis, pobres, futuros condutores de camelos, aventureiros, pessoas propensas a golpes aptas a defender as caravanas, agiotas e ricos comerciantes experientes...
Apesar disso, muito antes de Maomé, já existiam certas regras gerais de oração. Assim, a maioria das prescrições relativas à peregrinação a Meca já estava codificada: peregrinação a Arafa, local situado a três quilômetros da cidade, com caminhada noturna, sacrifício ao amanhecer, corte de cabelo e vestimenta de roupas limpas... etc.
Na massa de divindades reverenciadas, três deusas o eram de forma mais particular. Por isso, estavam destinadas a causar grandes problemas ao pregador de Meca.
A sura LIII, 19-22 nos dá seus nomes:
"Considerastes Al-Lāt e Al-‘Uzzā e Manāt, o terceiro ídolo?"
Al-Lāt, segundo autores gregos como Heródoto, seria Vênus-Urânia, a Astarte dos fenícios, aquela que os cartagineses chamavam de Mãe dos deuses. Era, em todo o Oriente, a grande deusa da Maternidade e da Fecundidade. Também era venerada entre os nabateus do norte.
Al-‘Uzzā era a mais honrada, a maior. Denominada "A Poderosa", parece muito próxima de Al-Lāt, pois seria o equivalente à Afrodite dos persas. Os árabes primitivos sacrificavam jovens a essa deusa, especialmente meninos imolados ao amanhecer, após uma expedição guerreira bem-sucedida.
A história conta, testemunhando assim a importância da deusa, que Maomé enviou um de seus tenentes para destruir o principal santuário localizado a alguns quilômetros de Meca, em Hūrad, para o norte, na estrada para a Síria. Tendo este derrubado as três acácias sagradas que ali se encontravam, uma mulher negra avançou em sua direção. O sacerdote a incitava, dizendo: "Sê corajosa, Al-‘Uzzā, e defende-te!" O soldado, assustado a princípio, recompôs-se e lhe abriu a cabeça com um golpe de espada.
A essa tríade feminina somavam-se deuses masculinos: Wadd (homem), deus do amor muito venerado no Hejaz e entre os nabateus; e outros citados na sura LXXI, 20-24:
"Yagūth (leão), Ya‘ūq (cavalo) e Nasr (águia)."
Entre os árabes pagãos, existia também um sentimento, uma noção evidenciada em todos os povos primitivos pelos historiadores das religiões: a crença em um deus principal, Ba’alshamīn, senhor dos céus, do mundo e da eternidade. A influência judaica do Deus (Elohim) criador é manifesta. Assim, muito antes da pregação mequiana, os árabes conheciam Alá, termo usado para designar o Deus dos judeus e pelos árabes cristãos para nomear seu Deus. O pregador, aliás, dirigiu-se aos politeístas criticando sua atitude para com Alá. Reconhecia, assim, que era adorado na Caaba uma divindade colocada acima das outras. Pode-se, portanto, estabelecer a hierarquia do panteão mequiano: Alá, o deus supremo (enoteísmo), as três deusas, filhas da grande divindade, e cinco figuras inferiores, incluindo Leão, Homem, Cavalo e Águia...
É nesse consenso religioso que o pregador irá atuar para fazer desse povo, amontoado de tribos saqueadoras, de comerciantes ávidos e aventureiros incursores, um adepto de uma nova religião, fortemente marcada pelo Judaísmo e que reconhece apenas um Deus Único.
B) MUḤAMMAD "O selo dos Profetas" Cor. 33, 40. (570 - 632).
1) Sua vida antes do início de sua pregação: 570 - 613.
A história de Maomé antes de se tornar um homem público por sua pregação é muito mal conhecida. O Senhor Padre Joseph Bertuel, que estudou minuciosamente o Alcorão e suas origens, e à obra do qual serão feitos numerosos empréstimos, designa os biógrafos do Profeta sob o termo de "criadores da vida de Maomé". Não se deve, portanto, iludir sobre a exatidão do que se segue.
A data de nascimento é incerta. Situa-se por volta de 570 d.C. Maomé pertencia a uma família da burguesia mercantil de Meca. Seu bisavô Hāshim era um homem importante, armador de caravanas de longo curso, em relações com o Negus da Abissínia e o Imperador de Bizâncio. O filho de Hāshim, ‘Abd al-Muṭṭalib, teria tido, segundo a tradição, uma visão anunciando o nascimento de um descendente destinado a se tornar um conquistador e um profeta. Era também um homem poderoso: fazia parte dos dez dignitários encarregados de distribuir aos peregrinos a água do poço sagrado de Zamzam.
Um dos filhos desse notável, ‘Abd Allāh, casou-se com Āmina bint Wahb: estes são os pais do profeta. ‘Abd Allāh morreu em Medina durante uma viagem à Síria. A partilha da fortuna paterna com seus nove irmãos não lhe havia deixado uma situação brilhante. À sua jovem viúva, legou uma velha escrava e cinco camelos. Grávida por ocasião da morte do marido, a futura mãe teria ouvido advertências em seu sono. Uma voz lhe dizia: "O filho que esperas será o mestre e o profeta de seu povo", e outra lhe intimava a ordem de dar à criança o nome de Aḥmad, que tem o mesmo sentido que Muḥammad, isto é, o ilustre, em grego Péricles.
Pouco após seu nascimento, a criança foi confiada a uma família de beduínos do deserto, os Sad ibn Bakr, e mais particularmente a uma mãe adotiva chamada Halima. Quando completou cinco anos, ela o levou de volta a Meca. Aos sete anos, perdeu sua mãe e, a partir de então, foi criado por seu avô Abd-al-Mottalib. Este viveu por mais dois anos, e Maomé, aos nove anos, foi acolhido por um de seus tios, Abu Tálib, que cuidou dele com muito afeto. Aos doze anos, acompanhou seu tio em uma caravana que ia para a Síria.
Uma anedota interessante é relatada pela lenda muçulmana sobre a viagem. Em Boçra, na Síria, a caravana passou em frente à cela de um monge cristão chamado Balina. Este convidou os árabes a entrar. Tendo observado o jovem Maomé, interrogou-o e depois disse a Abu Tálib: "Volte com seu sobrinho para sua terra e proteja-o dos judeus, pois, se eles o virem e souberem sobre ele o que eu sei, isto é, que ele é um futuro grande profeta, tentarão prejudicá-lo". A veracidade dessa predição será examinada mais tarde... Ainda assim, é bastante plausível que Maomé tenha feito muitas viagens à Síria, senão na infância, pelo menos na idade adulta, como caravanista ou chefe de caravanas. Assim, pôde tomar conhecimento dos costumes e do culto cristão, mas de um culto cismático, monofisista, pois essa cristandade havia rompido com a Bizâncio católica.
MAOMÉ SE CASA...
Quando Maomé completou vinte e cinco anos (595), seu tio, de poucas posses, aconselhou-o a buscar uma situação melhor. Ele então entrou a serviço de uma rica judia, Khadija, viúva de um dos maiores comerciantes de Meca. Tornou-se condutor de caravanas. No retorno de uma expedição, a rica viúva, mais velha que ele, conquistada pela desenvoltura do jovem e sua aptidão para o comando, ofereceu-lhe casamento. Ele aceitou. Tornando-se um homem rico, dispôs assim de lazeres importantes, tornou-se um notável da cidade e viu aumentar sua autoridade sobre os habitantes.
Alguns árabes pagãos costumavam se retirar nas encostas do Monte Hira, próximo a Meca, para meditar à vontade. Era, ao que parece, o hábito de Maomé, que fazia anualmente um retiro de um mês no monte. Foi nesse local que ocorreram os diversos fenômenos relatados a posteriori pela tradição muçulmana.
Os relatos lendários da "revelação" feita a Maomé são todos bastante tardios. Eles fazem parte da "sira" ou Vida de Maomé e variam sensivelmente conforme os autores. O mais antigo conhecido, Ibn Ishaq, morreu em 768, isto é, quase dois séculos após o nascimento do Profeta. Outro historiador é Ibn Sa'd, que compôs no século IX uma enorme biografia de Maomé, de seus sucessores e seus companheiros. Finalmente, Al Bukhari, no século X, reuniu um conjunto de tradições e aforismos atribuídos ao pregador. Esta coletânea goza de grande autoridade, quase comparável à do Alcorão, entre os muçulmanos. Todos os autores seguintes, orientais e depois ocidentais, apenas beberam dessas três fontes... incontroláveis.
MAOMÉ TEM VISÕES...
Foi preciso esperar o ano de 610 para que o evento histórico ocorresse. Quinze anos dos quais ninguém fala...! Portanto, durante seu período de retiro no Monte Hira, com sua família, um enviado de Deus, Gabriel, o visitou. O enviado celestial segurava um estojo de brocado contendo um escrito. O anjo disse a Maomé: "Recita!" Este respondeu: "Não sei recitar". Gabriel lhe pressionou esse escrito contra o peito com tanta força que Maomé se sentiu sufocar. Soltando-o, o anjo repetiu: "Recita". Mesma resposta. A cena se repetiu três vezes. Finalmente, Maomé perguntou: "O que devo recitar?" O anjo respondeu: "Pregue em nome do Teu Senhor que criou, que criou o homem de uma coagulação. Pregue, pois Teu Senhor é o mais generoso, Aquele que ensinou pelo Calvário, que ensinou ao homem o que ele não sabia". Maomé então despertou. Teve a sensação de que algo estava gravado em seu peito. Saiu da caverna onde dormia e partiu para a montanha. Ouviu então uma voz dizendo: "Ó! Maomé! Tu és o apóstolo de Alá e eu sou Gabriel!" Erguendo a cabeça para o Céu, Maomé viu o anjo sob a forma de um homem sentado no horizonte, com as pernas cruzadas e repetindo as mesmas palavras. Embora fixasse vários pontos do céu virando a cabeça, Maomé via sempre o anjo. A visão não era localizada e perseguia Maomé como uma obsessão interior. Finalmente, a visão desapareceu e o novo profeta se juntou aos seus.
Esta cena ocorreu durante a noite dita "Noite do Destino" (Surata XCVII. 1-3), noite durante a qual Deus teria revelado a seu profeta a totalidade do Alcorão, com suas 114 suratas contendo 6 226 versículos. Os historiadores comentadores reconhecem, ao mesmo tempo, que as revelações teriam se escalonado ao longo de cerca de vinte anos.
UMA PREDICAÇÃO SOTURNA...
Maomé continuou sendo muito discreto... enquanto buscava entre seus próximos pessoas para converter. O primeiro alvo foi seu primo Ali, filho de seu tio Abu Tálib, que ele havia acolhido três anos antes. No entanto, para fazer adeptos fora de sua casa, Maomé, inquieto, mostrou habilidade, qualidade eminente nesse homem.
Ele vai, muito astuciosamente, identificar a pessoa mais bem colocada para ser convertida. No santuário da Kaaba, os homens da cidade iam dar uma volta todas as noites. Cada um se prostrava diante do(s) ídolo(s) de sua escolha entre os trezentos e sessenta representados em pedra talhada. Em seguida, grupos se formavam em torno dos diversos notáveis, cada um tendo sua corte pessoal.
O mais importante desses grupos era o reunido em torno de Abu Bakr. Maomé se misturava a ele com muita frequência. Percebera, durante as discussões, que esse notável não estava mais satisfeito com a idolatria politeísta vigente, embora permanecesse um praticante fiel. Foi, portanto, a ele que o astuto Maomé se dirigiu primeiro. Abu Bakr se converteu imediatamente, muito feliz em aderir a uma solução que correspondia aos seus desejos.
Tornou-se assim o primeiro missionário público de Alá. No entanto, também prudente, apesar de sua posição, contentou-se em contatar individualmente aqueles que sabia próximos de suas ideias, por ter discutido com eles durante anos. Em seguida, levava o assunto bem-disposto a Maomé.
É preciso admitir que Maomé e Abu Bakr tinham motivos para prudência. O ambiente de Meca era composto por homens duros, até cruéis, sem piedade e ávidos por lucro. A exigência, contida na predicação, de uma esmola voluntária ou legal apelava para uma generosidade que não era seu forte! Eles só poderiam ficar fortemente irritados contra o propagador de tais ideias, especialmente se estivessem em grupo.
Os homens detectados por Abu Bakr recebiam em particular o ensinamento de Maomé que, em seguida, os fazia pronunciar a profissão de fé. Logo houve vinte e nove adeptos secretos que rezavam ora na casa de Maomé, ora no Monte Hira, pois não ousavam se apresentar ao santuário.
A coisa, no entanto, acabou se espalhando. O primeiro a falar sobre isso com Maomé foi o pai de Ali, o tio Abu Tálib. Recusando-se a mudar de religião, ele admitiu que Maomé obedecesse ao pedido de seu Deus e prometeu-lhe sua proteção. Isso se mostrou muito necessário.
No santuário da Caaba, as línguas tagarelavam, o tom subia. O chefe da tribo dos Banu Makhzum, Abu Jahl, afirmava publicamente que, se Maomé viesse ao santuário e não adorasse os ídolos, lhe estouraria os miolos! Outro de seus mais virulentos inimigos era Omar, o chefe da tribo dos Banu Adi. Mesmo em sua própria tribo dos Banu Hashim, ele contava com violentos opositores, incluindo alguns de seus tios. Aqueles que não lhe eram hostis, como Abbas, o futuro sucessor de Abu Tálib na liderança dos Banu Hashim, não ousavam dizer ou fazer nada em seu favor. Maomé, apesar de seus quarenta partidários, cuidava bem de não se colocar em evidência e, sobretudo, de não praticar ou pregar em público.
A conversão de Omar mudou a situação. Este, visitando sua irmã casada, viu-a e ouviu-a recitar o Alcorão. Intrigado, questionou-a. Fornecidas todas as explicações, ele foi encontrar Maomé, que estava prudentemente em sua casa com Khadija.
À primeira palavra, Omar declarou vir abraçar a nova religião. Pronunciou a fórmula de adesão. Prestes a iniciar a oração, Maomé tendo-lhe aconselhado a rezar em segredo, Omar respondeu: "Nós adoramos Al e Allat em público, e deveríamos adorar a Deus em segredo! Vem, saiamos!" Conhecendo o caráter de Omar e sua posição social, Maomé, sem dizer nada, o seguiu. Eles foram ao santuário, deram a volta no templo e oraram diante de todos os presentes.
A presença de Omar e sua participação no novo culto impediram os notáveis coraixitas de protestar. A partir desse momento, Maomé e seus fiéis vinham livremente ao santuário para orar à sua maneira. No entanto, sempre prudente, Maomé não pregava no santuário. Foi apenas três anos depois, em 613, que Deus lhe ordenou tornar pública sua mensagem.
2) Sua vida, do início da pregação até sua morte: 613-632.
Apesar de uma pregação renovada no santuário da Caaba e nos campos diante de grandes multidões, o sucesso não veio. Até mesmo um de seus tios, Aban Lahat, o amaldiçoou em público. Maomé organizou um grande banquete onde convidou toda a sua família, os Banu Hashim e os Banu Abd-Manaf. Disse-lhes:
"Ó meus tios e primos, eu sou o apóstolo de Deus, enviado a todos os homens e a vós em particular! Crede em Deus e em minha missão, e Deus vos dará o Paraíso eterno!"
O silêncio era geral. Apenas Abu Tálib respondeu:
"Meu filho, tu falaste e nós ouvimos; deixa-nos partir e refletir até amanhã".
O profeta retomou:
"Meus tios e primos, se não buscais o outro mundo, ao menos buscai a felicidade deste mundo, pois Deus espalhará minha religião, e o Império da Arábia, da Pérsia e de Roma me pertencerá. Há alguém que queira responder ao meu chamado e que eu possa nomear meu vigário?"
Novamente o silêncio. Apenas Ali, seu sobrinho, levantou-se e disse:
"Ó Apóstolo de Deus, se ninguém crê, eu sou crente!"
Maomé disse:
"Ó Ali, tu creste e és meu irmão e meu vigário".
Os outros se levantaram, zombando.
PRIMEIRAS VERDADEIRAS DIFICULDADES
A oposição cresceu na cidade. Os amigos do profeta foram agredidos e insultados. Finalmente, o próprio Maomé foi expulso do santuário. Os notáveis conciliadores fizeram intervir Abu Tálib para trazer Maomé à razão. Eles estavam dispostos a admitir muitas coisas, mas não o insulto a seus deuses. O tio tentou essa mediação. Diante da recusa de Maomé, manteve-lhe seu apoio moral, pois não ousava se converter.
Os notáveis enviaram então diretamente a Maomé, um dos seus, Utba, para lhe propor dinheiro, mulheres, ou mesmo o poder político supremo em troca da manutenção da ordem na cidade, pois temiam sobretudo que a pregação causasse tumultos. Foi um fracasso.
Os problemas continuaram para os fiéis do Profeta. As conversões permaneciam raras, exceto entre os árabes do deserto e os de outras cidades, encontrados durante a peregrinação de Arafa. Finalmente, um grave incidente ocorreu: um discípulo do profeta, tendo sido coberto de pedras durante sua oração no Monte Hira, pegou um osso de camelo, uma vez terminada a oração, e rachou o crânio de seu agressor, que voltou ensanguentado para Meca.
Foi um clamor geral contra Maomé. Os coraixitas pediram sua cabeça a Abu Tálib, que recusou, renovando sua proteção. Sendo os notáveis convertidos inatacáveis, os opositores perseguiram as pessoas humildes, chegando até à tortura. Os fiéis do profeta pediram permissão para revidar... mas Deus ordenou paciência. Foi demais para alguns, especialmente para aqueles que não tinham proteção tribal. Solicitaram permissão para deixar a cidade, enquanto esperavam que Deus autorizasse a guerra. Foi assim que, no quinto ano da missão de Maomé (618), cerca de cem de seus fiéis emigraram para a Abissínia, cuja população cristã era conhecida por ser acolhedora. Foi a Primeira Hégira ou Pequena Hégira.
Em Meca, as dificuldades aumentaram ainda mais: um dia, no Templo, alguém jogou uma corda em volta do pescoço do profeta e, apertando-a, fez com que ele saísse do santuário. Sem a intervenção de Abu Bakr, tudo teria terminado muito rapidamente.
Os Banu Hashim e os Banu Makhzam estiveram a ponto de se matarem. A solidariedade tribal, de fato, favorecia Maomé, pois um certo número dos Banu Hashim havia se aliado à nova fé em oposição às outras tribos.
UMA TENTATIVA DE CONCILIAÇÃO.
Uma última tentativa de paz foi proposta pelos coraixitas sob a forma de um sincretismo estendido ao novo Deus de Maomé: esse Deus se tornaria uma divindade adicional na Caaba, cada um praticando o culto do outro. Maomé parece ter hesitado. No entanto, ele acabou recusando.
Diante de sua oposição, os coraixitas concluíram um pacto para colocar os "crentes" no index e cessar toda relação com eles. O que foi feito. Após oito dias, a posição dos muçulmanos tornou-se muito penosa.
Parece bem que, então, Maomé teve a tentação de aceitar a solução sincrética. A história não o diz claramente, mas a aventura da Sura da Estrela dá a entender: o profeta foi ao templo onde os coraixitas estavam reunidos. Ele recitou uma sura que Gabriel, dizia ele, acabara de lhe ensinar, e que afirmava que as três deusas Alate, Al-Uzza e Manat eram ilustres "gharâniq" cuja intercessão deveria ser esperada. Isso agradou aos coraixitas, que todos se prostraram. Maomé fez o mesmo.
Diz-se no Alcorão que Gabriel, posteriormente, repreendeu Maomé pelo que teria sido um acréscimo pessoal. O profeta teve que voltar ao Templo, retratar-se e sofrer a ira das testemunhas não crentes. O mais engraçado é que o boato da conversão dos coraixitas chegou à Abissínia (o telefone árabe...). A maioria dos antigos exilados retornou a Meca, o restante se juntou posteriormente em Medina.
MAOMÉ PERDE SEU PROTETOR
A situação de crise continuou a se desenvolver. Pressionados por Maomé, seus primos os Banu Abd Manaf, muito felizes em humilhar os Banu Makhzam, arrancaram o ato de index afixado no Templo. Relações normais foram retomadas na cidade. Infelizmente, pouco depois, por volta de 620, sua esposa judia Khadija e seu tio Abul Talib morreram um após o outro, deixando-o em uma situação delicada. Abbas, irmão do falecido, homem indolente e sem firmeza, tornou-se o chefe dos Banu Hashim.
Sabendo que ele era incapaz de proteger o profeta, os coraixitas se aproveitaram de sua fraqueza. Um dia, enquanto Maomé estava em oração, prostrado no templo, eles o cobriram de lama! Ele ainda suportou perseguições por dois anos e depois fugiu para Taif, uma grande aglomeração rural a três dias de caminhada de Meca. Os líderes da cidade zombaram dele e o repeliram. As pessoas de Meca, ao saberem disso, planejaram impedi-lo de retornar.
Maomé teve que buscar apoios. Os textos mostram claramente que os contatos foram múltiplos e infrutíferos. Finalmente, ele se dirigiu a Mut'im, dos Banu Abd Manaf, seus primos, e aliado de um notável, Abu Jahl. Este concedeu sua proteção, embora não fosse muçulmano. Ele pôde então retornar ao templo e ali permanecer. Sua pregação não obteve mais sucesso entre os mecanos do que entre os membros das tribos árabes que vinham regularmente para a peregrinação. Os habitantes, aliás, encarregavam-se de dissuadi-los de ouvir o profeta. Apenas alguns habitantes de Medina mostraram-se receptivos...
O APOIO DOS MEDINENSES
Medina, não longe de Meca, era habitada por duas tribos árabes, os Khazraj e os Aus, e várias tribos judaicas que haviam fugido da Síria e da Palestina diante das tropas de Nabucodonosor.
Os primeiros medinenses convertidos por Maomé foram seis khazrajitas, que vieram à peregrinação de Meca. Ao voltarem para casa, falaram a seus compatriotas e converteram um grande número deles. No ano seguinte, uma delegação de doze membros muçulmanos veio ao santuário e se comprometeu por juramento perante o profeta a servi-lo com corpo e bens. A partir desse instante, ele fez o projeto de partir para Medina. Sempre desconfiado, não disse nada e, a conselho de Abbas, enviou a Medina com os doze um de seus fiéis, Mus'ab. Durante um ano, este pregou. Apesar de grandes dificuldades, incluindo uma tentativa de assassinato, obteve conversões na maioria das famílias. Finalmente, o número de medinenses muçulmanos tornou-se importante.
Ao fim do ano, Mus'ab retornou a Meca acompanhado de setenta notabilidades convertidas. O encontro com seu chefe foi marcado durante a noite, na colina de Aqaba, nos arredores da cidade. Lá, Abbas confiou Maomé aos medinenses, depois que eles novamente se comprometeram por juramento a servi-lo e defendê-lo, mesmo ao preço de suas vidas. Por sua vez, o profeta se comprometeu a não abandonar os medinenses, acontecesse o que acontecesse. Parecia, de fato, evidente que sua partida de Meca levaria à guerra.
O clima de semi-segredo no qual essas espécies de negociações se desenrolaram impediu que os mecanos fossem exatamente informados. Melhor ainda, os medinenses que vieram em grande número para a peregrinação, exceto os setenta, ignoravam tudo. Eles puderam, portanto, responder com toda boa-fé às perguntas, permitindo assim que os iniciados mentissem de forma eficaz.
Poucos dias depois, Maomé deixou Meca com alguns de seus fiéis e os peregrinos de Medina. Esse "exílio", em árabe hijra, é a Hégira (622), ponto de partida da era muçulmana.
GUERRA SANTA... E PILHAGEM.
Os coraixitas acreditaram ter se livrado bem dele com essa partida! Mas, logo ao chegar em Medina, Deus ordenou ao profeta que abandonasse a paciência... Gabriel ditou-lhe os seguintes versículos que eram, em suma, a declaração da Guerra Santa, do jihâd:
"Matem os infiéis onde os encontrarem, façam-nos prisioneiros, cerquem-nos, embosquem-nos". "Ó Profeta, combate os infiéis e os hipócritas, trata-os com severidade".
Maomé então enviou destacamentos para armar emboscadas às caravanas. Operações frutíferas cujos espólios ele distribuía a seus fiéis, pois percebera que os refugiados de Meca eram pobres. Essa nova tática não deixou de causar problemas, tanto para alguns muçulmanos chocados com esses atos de pirataria, quanto para outros árabes. Não é possível aprofundar a questão... mas, é preciso notar que o astuto profeta soube, mais uma vez, livrar-se de uma situação crítica graças a uma nova revelação divina...!
A política das incursões pôde, então, se ampliar. Caravanas cada vez maiores foram atacadas, com as colunas muçulmanas agrupando até trezentos homens. As aldeias entre Medina e Meca foram todas assaltadas.
No quinto ano da Hégira, ocorreu um fato de grande significado: o profeta atacou e tomou, após um cerco, a aldeia da tribo judia dos Banu Coraíza. Mandou degolar os oitocentos habitantes do sexo masculino... as mulheres e crianças foram, sem dúvida, levadas como escravas. "Os Cavaleiros de Alá" começavam a cuidar de sua reputação!
É preciso esperar alguns anos para considerar o retorno a Meca. O intervalo permitirá examinar a situação particular que existia em Medina. A cidade era dividida entre duas tribos árabes e três tribos judias. Permanecia uma atmosfera de guerra civil. Isso facilitou o estabelecimento de Maomé e de suas ideias. Suas relações com os judeus eram complexas, mas certas. Casado com uma judia, instalado por ela na riqueza, tendo, no mínimo, vivido por quinze anos no conforto e na atmosfera religiosa judaica, ele não pôde fazer outra coisa, ao chegar em Medina, senão estabelecer Jerusalém como ponto de orientação da oração ritual e o dia de Ashura, festa da Propiciação judaica, como dia festivo.
Aos poucos, os confrontos com os judeus se multiplicaram. Estes não deixavam de reprovar em Maomé o caráter muito pessoal de sua religião e as diferenças com o judaísmo. Era igualmente certo que a força em homens, a aspereza e a vontade de conquista, portanto os meios de expansão, estavam do lado dos árabes. Maomé, mais uma vez inspirado por Deus, decidiu mudar a direção da oração, que a partir de então seria voltada para a Caaba, portanto para Meca.
Essa decisão marca, antes de tudo, uma tomada de posição essencial com repercussões ainda atuais: o Islã recusava suas origens – falaremos disso novamente –, apêndice doutrinário do judaísmo, separava-se definitivamente dele. Pela Caaba, ele se vinculava diretamente a Abraão, por cima dos judeus. Ela prova, além disso, que Maomé sempre teve a intenção oculta de retornar, triunfante, a Meca.
A BATALHA DE BADR
Os ataques às caravanas haviam atingido um nível tal que uma ação decisiva deveria ocorrer um dia: foi a batalha de Badr.
Maomé soube que uma caravana muito importante de Meca, com setenta pessoas, incluindo vários notáveis, transportando uma quantidade considerável de mercadorias vindas da Síria, estava próxima do retorno. Decidiu, por ordem de Gabriel, armar-lhe uma emboscada perto do poço de Badr. Enviou para lá uma coluna de trezentos homens.
Enquanto isso, a caravana escapara dos muçulmanos mudando de rota. Alguns mequenses, vendo-a a salvo, queriam voltar para Meca. O ódio contra Maomé e seu bando foi mais forte. O exército avançou em direção a Badr para ocupar primeiro o poço e assim provocar o inimigo. Maomé já havia chegado. Os dois exércitos acamparam não muito longe um do outro, separados por uma pequena colina.
Desde o nascer do sol, a batalha começou. Maomé exortava seus homens, afirmando: "Para obter o paraíso, basta encontrar o martírio!" — palavra que se tornou uma das bases do jihâd. Os mecanos mataram um certo número de muçulmanos, cuja tropa começou a fraquejar. Maomé dirigiu-se ao seu Deus: "Ó Senhor, se esta tropa que está comigo perecer, todos os crentes abandonarão a verdadeira religião!" Gabriel anunciou-lhe o socorro de vinte mil anjos!
Maomé reuniu-se aos seus homens para lhes anunciar a boa-nova: os anjos lutariam com eles. E assim aconteceu: os anjos perseguiam os mecanos, quebrando-lhes os ossos, de modo que os muçulmanos só precisavam abatê-los. Ao entardecer, foi a derrota. Os fiéis do profeta perseguiram-nos para fazer prisioneiros e acertar contas pessoais. Os muçulmanos vingavam-se da animosidade e da oposição mais ou menos violenta que haviam sofrido desde o início da pregação. Os laços de parentesco e as rivalidades tribais agravavam os ressentimentos.
Maomé, vitorioso, retornou a Medina com setenta prisioneiros e um enorme butim. Maomé afirmava assim seu poder. Em Meca, o retorno dos vencidos semeou consternação... Os coraixitas aceitaram assinar um tratado de paz em Hudaibiya. Todos os historiadores situam nesse momento o início da ascensão que levaria o profeta ao topo do poder.
MAOMÉ VITORIOSO... DOS MECANOS.
Cerca de dois anos depois (630), um conflito eclodiu entre duas tribos dos arredores de Meca, os Banu Bakr, auxiliados pelos notáveis, e os Banu Khuza'a, protegidos do profeta. Estes pediram-lhe socorro. Enquanto isso, Gabriel havia advertido Maomé, intimando-lhe a ordem de atacar a cidade. Este reuniu um exército de dez mil homens, metade medinenses, metade recrutas das tribos árabes vizinhas. Era a época em que o novo imperador bizantino Heráclio, tendo proclamado oficialmente o monotelismo herético como lei do império, combatia vigorosamente os árabes. Maomé fez crer que convocava um exército para marchar sobre a Síria. Surpresa total, ele avançava em direção a Meca fazendo exibição de sua força. A intimidação funcionou. Os coraixitas cederam sem combate. O profeta, sempre prudente ou desconfiado, dividiu seu exército: uma vanguarda de dois mil homens passou pelo lado oriental da cidade, onde estavam concentradas as tropas aliadas dos mecanos; uma força idêntica penetrou na cidade pelo lado ocidental, enquanto o restante do exército, com Maomé, esperava em frente à cidade. A penetração das vanguardas tendo ocorrido sem confrontos sérios, ele entrou com o grosso das forças. Seu primeiro gesto foi dirigir-se à Caaba, onde os notáveis se haviam reunido. Mandando abrir as portas, penetrou a pé no santuário e mandou quebrar todos os ídolos.
Os habitantes tremiam de medo, apesar das promessas de clemência. Apenas uma dezena de pessoas foram mortas... as outras, tendo-se convertido rapidamente ao Islã, salvaram suas cabeças. Consideradas como escravas, o profeta as alforriou todas juntas.
O jihâd mais uma vez definira seu método: o infiel vencido, se não pronunciar a profissão de fé que o torna muçulmano, relegando-o à condição de escravo, deve ser morto. Para os membros das religiões monoteístas, o método tornou-se um pouco mais flexível: eles obtêm um estatuto dito de proteção e devem pagar regularmente um pesado tributo per capita. A necessidade de escravos, especialmente do sexo feminino, não permitiu a aplicação regular desse sistema.
O juramento de aliança foi em seguida prestado a Maomé: durante três dias, a multidão mecana desfilou diante dele para dar, em suas mãos, testemunho de sua submissão.
O triunfo de Maomé não acarretou, de modo algum, a adesão dos outros árabes. Assim que souberam da queda da capital, as tribos de toda a região pegaram em armas. Um certo número de homens já se preparara para socorrer os coraixitas. Um tal de Malik conseguiu reunir as tribos do deserto e agrupar trinta mil guerreiros em Hunaim.
Maomé deixou a cidade com um exército de dez mil medinenses e dois mil mecanos, que colocou de lado no momento da batalha, pois sua confiança era limitada. Os muçulmanos foram rapidamente dispersados, restando apenas uma dezena ao redor do profeta. Abbas, seu tio, conseguiu reunir trezentos fiéis que se haviam escondido nas colinas e partiu com eles para o ataque. Eles romperam as fileiras das tribos árabes, cujos guerreiros começaram a fugir.
Os anjos intervieram da mesma forma que na batalha de Badr! Cada muçulmano podia matar cinquenta infiéis de um só golpe! Note-se, contudo, que Maomé, naquele dia, colocou a mão em sua espada. Foi, diz-se, a única vez em que lutou em vez de ficar em oração.
Com o restante de seu exército reagrupado, ele organizou a perseguição. Enviou mil e quinhentos homens em várias colunas pelo deserto. Mataram todos os fugitivos adultos do sexo masculino e trouxeram seis mil mulheres e crianças como escravos, assim como os rebanhos!
OS ÚLTIMOS ANOS.
Desconfiança ou não, Maomé não ficou em Meca. Retornou a Medina para trabalhar na organização da comunidade muçulmana, tanto do ponto de vista religioso quanto social.
Ele finalmente teve que enfrentar o imperador Heráclio, em 631, na fronteira síria. Doente, o profeta enviou contra os bizantinos um exército comandado por Osama.
Outra fonte de preocupação foi o surgimento, em diferentes pontos da Arábia, de vários outros profetas! Assim, no Iêmen, Aswad entre os beduínos Talaï'ha, da tribo dos Beni Asad. Eles haviam levado um grande número de pessoas a renegar o islamismo. Um terceiro, Massaïlima, assolava a região há cerca de vinte anos.
Por sua influência junto aos príncipes iemenitas, Maomé conseguiu mandar assassinar Aswad. Talaï'ha, provocador, propôs-lhe escolher entre a partilha da Arábia ou a guerra.
O profeta estava cada vez mais doente. Recolhido na casa de sua jovem esposa Aicha, prostrado pela febre, não podia mais ir à mesquita e encarregou Abû Bakr de dirigir a oração em seu lugar.
Após algumas semanas de alternância entre agravamentos e remissões, durante as quais recebeu um grande número de seus fiéis para transmitir-lhes suas últimas recomendações, ele entregou a alma nos braços de Aicha, aos sessenta e dois anos, no ano de 632.
Com a morte de Maomé, as revelações de Deus, feitas em uma noite ou em vinte anos, estavam terminadas. De uma forma ou de outra, o profeta as havia registrado por escrito. O conjunto, 114 suratas ou capítulos compostos por 6.200 versículos, forma o Alcorão (Qo'ran). Este termo, substantivo verbal de Qarad (ler), significa "o que se lê", ou seja, "a lei escrita para ser lida".
Paralelamente, durante a vida do profeta, ao menos durante sua vida pública, fiéis teriam anotado cuidadosamente seus feitos, seus gestos e seus hábitos. Tudo isso forma a sunnat-al-nabî, maneira de viver e agir do profeta. Esta Sunna é a confirmação pura e simples do conjunto corânico. É, em suma, o comentário do Alcorão por Maomé.
MAS DE ONDE VEM, ENTÃO, O ALCORÃO?
Antes de continuar a evocação da expansão árabo-muçulmana, é imperativo debruçar-se mais sobre o conteúdo do Alcorão. Seu conhecimento, mesmo imperfeito e limitado, permitirá compreender melhor as motivações dos Crentes e entender as imensas e irreduzíveis diferenças existentes entre esta religião da suficiência e a religião católica do amor e da humildade.
Anteriormente, é necessário fazer um balanço sobre a verdadeira origem do Alcorão. Parece que, entre todos os islamólogos, apenas dois estudiosos eruditos se debruçaram sobre o problema. O Padre Gabriel Théry, o.p., ajudado pelo Senhor Padre Joseph Bertuel, que terminou sozinho o trabalho, publicaram recentemente, sob o título "De Moisés a Maomé", quatro volumes de estudos e análises dos textos conhecidos. Atualmente, o Padre Joseph Bertuel retoma, simplificando-a, a mesma investigação em "O Islã, suas verdadeiras origens", cujos três livros já foram publicados.
Como o autor assinala em seu prefácio, trata-se de um ensaio de crítica histórica rigorosa. Ele precisa: "a fé, mesmo recebida por uma longa tradição, não exclui nem a reflexão sobre suas fontes, nem a revisão de certas ideias recebidas até agora... a fé dos muçulmanos é um bem inestimável... saber como a receberam, e de quem, pode fazê-los compreender muitas coisas". O mesmo se dará com todo ocidental interessado no Islã e, a priori, com todo cristão.
Dos trabalhos do Padre Théry e do Padre Bertuel, resumem-se brevemente os seguintes pontos:
Desde seu casamento com a judia Khadidja (595) até a noite "do destino" (610), Maomé recebeu o ensino de um eminente rabino judeu. Era um talmudista que possuía "o judaísmo ressecado dos tempos posteriores à ruína de Jerusalém profetizada por Cristo". O que foi considerado como a noite da revelação do Alcorão não é senão a lembrança, pelo Rabino, da noite em que Deus, no Sinai, revelou a Moisés uma direção e um código de vida para a humanidade. (Sura XCVII 1-3).
Maomé continuou a estudar, a aprender de cor para recitar em público as suratas, fossem elas transmitidas oralmente ou, o que parece aos autores ser a verdade, que o rabino as transcrevesse pouco a pouco no... Alcorão. Em 613, com o texto escrito e a lição aprendida, começou a pregação pública.
Maomé, o Profeta, o Admoestador de Deus, era um homem hábil e inteligente... A história aprendida na escola do rabino, com os grandes exemplos da Bíblia, Noé, Abraão, Moisés, Josué e muitos outros, fará nascer em sua alma a ambição de se tornar o chefe de um povo que é o seu e de convertê-lo ao Judaísmo: o Deus Único revelado aos judeus é vitorioso em todas as batalhas. Da mesma forma, os povos que lhe são fiéis estão certos de triunfar sobre seus adversários... A história dos coraixitas e das tribos árabes pode mudar de rumo e assegurar a grandeza de seu destino se estes se submeterem ao verdadeiro Deus, adotando o Alcorão hebreu.
Tomando para si a noção de "povo eleito", como um novo Josué, Maomé não podia manifestar em suas ordens às tropas senão dureza e crueldade. O massacre de toda a importante tribo judaica ou judaizada, no quinto ano da Hégira, permitiu-lhe afirmar sua independência, cortar-se definitivamente da influência rabínica, por um gesto irreparável, muito mais significativo do que uma mudança na direção da oração.
UM MÉTODO CURIOSO...
O Alcorão de Maomé foi destruído, perdido ou extraviado? Ninguém pode responder a essa pergunta. A edição conhecida foi realizada pelo terceiro califa Uthman, após a destruição por sua ordem de todas as cópias existentes dos textos corânicos, como uma recensão de Abû Bekr ou Ali. Essa edição definitiva não resiste à análise quanto à sua autenticidade. Ele ordenou que todas as folhas, exceto a primeira surata, que permaneceu como estava e se tornou a oração padrão do Islã, fossem organizadas de modo que o capítulo mais longo fosse colocado no início e os demais em sequência, conforme seu comprimento decrescente. Isso teve o efeito de tornar ininteligível, na leitura, a gênese e o desenvolvimento da pregação... Ele podia assim governar em nome de Alá sem ser contestado. Seus sucessores imediatos, provavelmente por razões idênticas de ordem política, nunca restauraram a ordem cronológica das suratas; isso não deveria apresentar grandes dificuldades.
Este Alcorão aparece como uma coletânea de relatos de guerra ou de escaramuças locais, de complôs e disputas, de discursos apologéticos pontuados por juramentos e injúrias, de ensinamentos para a conduta pessoal e a organização social, de passagens de instruções religiosas mais didáticas, ilustradas por trechos da Bíblia e comentários rabínicos.
Para os dois autores citados, o profeta durante sua vida teve poucos amigos íntimos capazes de anotar seu modo de viver, sua forma de agir, seus hábitos. Para os islamólogos sérios e críticos honestos, são contadores árabes de talento incontestável, desde Ibn-Ishaq, falecido em 772, até Al-Balâduri, falecido em 901, e At-Tabari, falecido em 923, que descobriram os mínimos detalhes da vida do Profeta e recolheram os ecos de suas menores palavras. O conjunto desses relatos não merece a confiança dos historiadores.
Não obstante, a Sunna, confirmação pura e simples do conjunto corânico, tornou-se, pouco a pouco, mais impositiva do que o próprio Alcorão.
O que impressiona de imediato no Alcorão é a afirmação da primazia da raça e da língua árabe. "Os árabes são os primeiros dos povos"; "Amai os árabes porque o Alcorão é árabe, porque eu sou árabe, porque a língua do Paraíso é árabe", afirma Maomé. É preciso reconhecer, com o jornalista Peroncel-Hugoz, que o fato histórico da transmissão da mensagem do Céu em árabe a um árabe, espalhada por uma parte da terra por árabes, conferiu ao árabe um status de povo eleito... atualmente não contestado entre os muçulmanos. Entre os próprios árabes, os coraixitas, membros da tribo do Profeta, são "primus inter pares". Maomé insistiu inúmeras vezes nessa supremacia do árabe.
A associação de língua sagrada e dogma absoluto imutável levou os doutores da lei a erigir em dogma a intraduzibilidade do Alcorão. No máximo, ele pode ser interpretado em outra língua. O que obriga a pensar, já que "a revelação corânica tem valor universal, em todo lugar e em todo tempo... que a língua árabe deve se tornar o idioma único dos habitantes da terra, todos muçulmanos em potencial!".
C) AS GRANDES LINHAS DO ISLÃ
Qual é, então, esta religião votada à universalidade?
O Islã proclama solenemente um único Deus; e o faz, ao mesmo tempo, Incognoscível, Puro e Arbitrário, Todo-Poderoso.
Duas consequências assustadoras se impõem então:
— entre o homem e Deus, não há nenhuma mediação possível; pior, não há nenhum mediador sobrenatural ou natural;
— na ordem da criação, não há nada de inteligível para o homem.
Eis, portanto, o homem entregue ao arbitrário de um Deus inacessível.
É a negação da natureza humana e do direito natural;
É, em grande parte, a negação da inteligência e da razão humana e, portanto, o estabelecimento de um nominalismo prático;
É a substituição da vida interior por um ritualismo prático que leva ao fanatismo.
Encontramos assim no Islã uma forte influência judaica, desde o seu monoteísmo intransigente e a simplicidade quase total do seu dogma, até o rigor casuístico de suas prescrições práticas.
A fé (Imân) muçulmana deve ser definida essencialmente como um testemunho prestado... Este testemunho é a condição de validade — exclusiva — do pacto de aliança concedido por Alá à "raça eleita".
Para a conversão ao Islã, basta pronunciar diante de um Sheikh a declaração desse testemunho, ou seja, a shahâda: "La Ilaha illa Alla oua Mohamed rassoul Allah — Não há deus senão Deus e Maomé é seu mensageiro"mensageiro", que o torna maometano em menos tempo do que leva para dizer.
Essa fé implica, para cada indivíduo, cinco obrigações, os Pilares do Islã:
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Pronunciar a shahâda,
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A oração cultual, cinco vezes ao dia, voltado para Meca e terminada com a shahâda; essa oração tem valor purificador para as faltas leves e sua fiel observância assegura a entrada no Paraíso; mais ainda, está escrito que aquele que souber que a oração é obrigatória estará entre os eleitos;
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O jejum do Ramadã. É durante este mês, o nono do calendário islâmico, que entre o vigésimo sexto e o vigésimo sétimo dia se situa "a noite abençoada". Este jejum dura cerca de 28 a 29 dias, exclusivamente diurno, e também implica castidade.
Nos países onde o Islã é religião de Estado, a vida social é como que suspensa da aurora ao pôr do sol. Cabe à polícia de costumes e até mesmo à polícia governamental impedir que se coma, beba ou fume em público;
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A esmola legal, a regulamentação dessa coleta voluntária ou obrigatória, destinada ao Chefe, assegura a purificação dos bens;
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A peregrinação a Meca, comemoração do sacrifício de Abraão, deve ser feita ao menos uma vez na vida por cada muçulmano. Tem valor purificador e engrandece a solidariedade dos crentes.
Quem fala de purificação implica a existência de faltas, atos humanos realizados em oposição aos mandamentos do Deus reverenciado. A situação é simples na religião muçulmana. A tradição não se coloca a questão clara de uma lei moral natural como inscrita na natureza das coisas e que o homem deve progressivamente decifrar. Tudo está escrito no Alcorão, e o Deus que o ditou tem uma atitude muito especial: a falta do crente não atinge a Deus, não ofende a Deus, e Deus, a seu bel-prazer, perdoará em sua mansidão ou castigará segundo sua justiça... Não se trata (a falta) de um ato que faça perder a amizade divina, estado de graça dos católicos, mas que simplesmente decorre da não observância do pacto de aliança. Essa teologia permite negar a missão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte na Cruz, sua Ressurreição e transformá-la em uma operação de teatro grotesco.
As duas grandes faltas são qualquer atentado à pura Unicidade divina — negação da Trindade — e a recusa deliberada da fé, a recusa de ouvir "o chamado do Islã", o que facilita o jihâd necessário para fazer os infiéis mudarem de opinião.
Faltas menos graves são os insultos ou mentiras contra o Profeta, o assassinato de um ser humano, a fornicação ou o adultério, as torpezas contra a natureza, os maus-tratos contra os pais, a magia negra, a calúnia, a fuga no dia do ataque, a apostasia pública... esta, ou seja, o abandono do Islã por outra religião, deveria, segundo a tradição, acarretar na terra a condenação à morte.
É preciso insistir no fato de que são as leis do Estado muçulmano que punem as desobediências. Em última análise, as faltas não comprometem a salvação do crente. Aliás, a peregrinação a Meca, a morte durante o jihad, a alforria de um escravo apagam as grandes faltas, inclusive a morte involuntária de um muçulmano.
As faltas menos importantes que as duas primeiras citadas são apagadas pelo arrependimento sincero, ato interior exclusivamente pessoal, ou diretamente pela realização dos atos rituais.
Nenhuma reparação deve ser considerada em relação a Deus, pois Deus não pode ser atingido pelo ato de sua criatura.
A ressurreição, ou pelo menos uma vida após a morte, é admitida pelo Alcorão: uma eternidade passada no inferno ou no Paraíso. Testemunhando um "judaísmo evoluído", essa noção ultrapassa o estágio hebraico do "sheol", simplesmente morada dos mortos, vaga região de sombras, de trevas espessas onde a vida tem apenas uma forma, por assim dizer, larvar. No entanto, o raciocínio das duas religiões em relação a Deus no que tange ao além leva ao mesmo ponto: "Deus prometeu sua bênção a Israel, assim como a Maomé. Nada pode prevalecer contra essa promessa; portanto, já que não há bênção no sheol, é na terra que a recompensa prometida chegará... Mas os séculos se passaram, e Israel gemeu sobre sua sorte. Periodicamente os inimigos triunfavam... Então a verdadeira solução só pode ser esta: a bênção se realizará em um outro mundo. Foi essa a grande revelação recebida e concebida na desgraça, à qual o Cristo virá dar sua magnífica conclusão"o".
Os judeus crucificaram Nosso Senhor Jesus Cristo ao recusar suas palavras; os muçulmanos param na lei de Moisés... para eles, a recompensa nesta terra conserva todo o seu valor. Certamente, para o judeu e o muçulmano "Deus prometeu sua bênção... Mas ela só será dada àqueles que forem fiéis aos mandamentos de Moisés. Os rebeldes serão aniquilados; se, apesar dessa ameaça, eles permanecerem em plena prosperidade, seu castigo é apenas adiado, pois Deus não mente. Se não forem punidos neste mundo, o serão no outro"outro". Essa noção de "povo eleito" só poderia conduzir à guerra... eterna entre dois vizinhos...!
O Inferno não será praticamente destinado aos muçulmanos, exceto aqueles que se converterem a outra religião. Nele se encontrarão automaticamente, no ferro e no enxofre, segundo uma certa progressão correspondente à gravidade de suas faltas, os adeptos da religião judaica que reconhecem o Deus Único sem admitir Maomé e, por conseguinte, acusados de falsificação das escrituras. Inferno garantido aos cristãos que negam a unicidade, creem na Encarnação e na Ressurreição de Jesus Cristo... os cristãos se desviaram da salvação prometida aos crentes. Sua fé não é uma fé salvadora, um círculo do inferno lhes é reservado, "o fogo devorador" mais duro que o segundo círculo prometido aos judeus.
Judeus e, sobretudo, cristãos, os condenados da terra! Nenhuma piedade lhes será testemunhada.
O PARAÍSO ISLÂMICO...
O Paraíso é, portanto, reservado aos crentes. Está previsto em várias classes, sendo a melhor reservada aos Doutores da Lei.
O pregador de Meca, instrutor de Maomé, conhecia bem os homens a quem se dirigia. Para encorajá-los a obedecer às suas diretrizes e torná-los seus guerreiros, para descrever o Paraíso, ele apela exclusivamente aos seus apetites sensíveis:
"O primeiro prazer será comer, festejar nas salas de banquete... a companhia também será de muito boa qualidade, pois será a nata da humanidade... vestes de cerimônia, vestes de seda... de brocado verde... as joias mais preciosas servirão de adorno para os eleitos... duas refeições por dia serão servidas com um luxo inaudito, o 'cardápio' será um verdadeiro festival de pratos e bebidas magistralmente harmonizados... o amor sob todas as suas formas, as mais concretas e as mais carnais... entre os eleitos circularão efebos imortais, belos como pérolas raras (Surata LXXVI, 19 e Surata LII, 24, LVI 17)... (as mulheres) elas serão como vocês as amam, de grandes olhos negros, ardentes de paixão (Surata LVI, 15-39)... vosso prazer é deflorar virgens, vós vos gloriais disso. Pois bem! No Paraíso... as mulheres que lá encontrareis serão todas virgens (Surata LV, 74) e após vossa união, sua virgindade será restaurada, de modo que no dia seguinte, tereis o prazer de deflorá-las novamente..."
Essa descrição é o reflexo dos gostos e desejos do macho árabe... médio, do nível cultural pré-maometano. Nunca, jamais em nenhum texto se "faz alusão" às alegrias intelectuais, espirituais que os muçulmanos poderiam experimentar no Paraíso. De pregação para trazer adeptos à nova religião, a descrição tornou-se dogma de fé.
"Que se vá, portanto, contar aos muçulmanos de hoje, nos diversos países onde vivem segundo sua religião e suas leis, que não terão mulheres no Paraíso! Seria um verdadeiro golpe de marreta em sua fé!"
AS DUAS ESPADAS?
Diante das obrigações contidas no Alcorão e na Suna, vem à mente uma pergunta: Existe no Islã uma Igreja estruturada, encarregada da conservação, da explicitação, ou mesmo da adaptação aos tempos atuais da mensagem recebida por Maomé? Não.
"Não há Igreja no Islã e o Islã não é uma Igreja. Não há poder espiritual vivo... Não há sacerdócio, nem hierarquia eclesial. Há o povo dos crentes 'unidos por e numa mesma fé e por princípios comuns de organização da cidade'".
"O Islã é ao mesmo tempo religião e comunidade temporal; melhor ainda, uma comunidade que assume, num único e indissociável impulso, as relações de cada crente com Deus e as relações dos crentes entre si no plano moral, social e político."
Daí decorre que, no interior da sociedade muçulmana, a separação, "a distinção cristã entre o espiritual e o temporal não existe. Uma tal distinção, que comportaria harmonia e hierarquização, não tem sentido no Islã. Pois a distinção significaria ruptura, no sentido do laicismo moderno. E essa ruptura, pelo próprio fato da não distinção corânica, comprometeria a própria existência do Islã como religião.o."
Resulta que "as bases da constituição política da cidade são a obediência a quem detém o comando, que é, por isso, instrumento de Deus... O chefe deve consultar seus subordinados... e os crentes devem consultar-se entre si.si." Esse dever não impede que o modo político seja, em suma, um cesaropapismo integral, seja qual for, aliás, a sua estrutura. Louis Massignon, convertido ao Islã, comparava a cidade muçulmana a uma "teocracia laica e igualitária". Nesse plano muito geral, "o magistério legislativo pertence exclusivamente ao Corão; o magistério judiciário pertence a todo crente que, pela leitura assídua do Corão, adquire, com a memória das definições e a inteligência das sanções que ele edita, o direito de aplicá-las; o poder executivo... pertence somente a Deus, e só pode ser exercido por um intermediário, um chefe único"nico".
UM CHEFE ÚNICO, TOTAL.
Esse chefe será ora um Imã, ora um Califa.
Imã significa aquele que marcha à frente, o guia que se imita. Aquele que dirige a oração comum é um Imã. O Imã por excelência é o Guia Supremo da Comunidade, encarregado por Deus do poder executivo. Os tratados de direito muçulmano afirmam atualmente: "É um dever grave para a comunidade ter à sua frente um Imã". O Rei do Marrocos mantém, mas apenas para o seu povo, o título de Imã.
O Califa é o tenente... o substituto do Profeta, com ênfase na transmissão sucessiva... e, portanto, na única perpetuidade possível, a da mensagem profética. O Califa não tem poder espiritual; ele é o chefe do executivo... seu poder vem de Deus, mas ele é mandatado pelas pessoas "que desatam e atam", escolhido e, de certa forma, delegado por elas para zelar para que "os direitos corânicos de Deus e dos homens" sejam observados nesta terra. Dessa noção de sucessão do Profeta nascerão as rivalidades que permitiram a formação das diversas correntes islâmicas. A Ummâ, a comunidade, só foi perfeita até a morte de Maomé. Posteriormente, o poder terreno desempenhou um papel importante, por uma certa laicização dos Poderes. As rivalidades fizeram crescer o número de Imãs, Califas ou Comandantes dos Crentes, sem que se pudesse estabelecer uma diferenciação muito nítida entre as três funções.
Aliás, do ponto de vista do modo de governo, não há quadros bem definidos como intangíveis na cidade muçulmana. A evolução histórica levou a oscilações entre a monarquia absoluta ou constitucional, a república parlamentar, autoritária, a democracia social-popular, frequentemente máscaras da ditadura. Um único dogma é levado a sério pelo muçulmano e frequentemente o leva à revolta: a afirmação: "Todo muçulmano deve ser governado por um correligionário do sexo masculino"masculino". Um grande desejo persiste nele: o retorno a uma verdadeira Ummâ, que também suscita diversos movimentos.
A LEI MUÇULMANA.
O que será a lei em país muçulmano?
"A lei é concebida como uma decisão da Vontade e, em sentido rigoroso, só merece o nome de Lei se for decisão da Vontade divina. Deus é o único legislador. Consequentemente, não haverá lei positiva humana, obra da razão humana.
A lei positiva humana, ou
Sharia,Sharia, será toda derivada da Lei divina, ouShar,Shar, o que implica a não existência de um poder legislativo constituído. Nenhuma lei será promulgada. Se um caso novo a resolver se apresentar, seja canônico ou civil, será promulgado apenas um julgamento de conformidade ou não conformidade com oSharShar."."
É a partir do Corão e da Sunna, elementos revelados e intangíveis, fontes exclusivas do Shar, que serão definidas as cinco "notas" ou "estatutos" dos atos: obrigatório, recomendável, repreensível, proibido e neutro. O Ijmâ, ato do consenso unânime da Comunidade interessada, será exigido através de seus representantes qualificados. A decisão desses representantes é obrigatoriamente fundada no Corão.
Numa comunidade definida, esse julgamento prático será obra do Mufti, o homem que dá a solução do "caso de consciência". O Mufti poderá ser consultado individualmente por todo crente que tenha um problema a resolver. Poderá ser também funcionário oficial, conselheiro do poder vigente.
Se o caso a resolver for posto por um processo em que duas partes se confrontam, se se tratar de uma falta pública, a sentença do processo, a condenação ou absolvição do réu, cabe ao juiz propriamente dito, o Qâdi, após o Mufti ter proferido a sentença.
A definição das qualificações exigidas, tanto para designar "os doutores da lei" como para estabelecer o "consenso unânime", acarreta, para Louis Massignon, um modo de formação do consenso e do julgamento inorganizado, flutuante e fraco. Numerosas divergências, surgidas após a expansão muçulmana para fora da Arábia, levaram à formação de diversas escolas jurídicas.
Em que consiste, então, essa Sharia ou Charia, essa lei positiva humana exclusivamente derivada do Alcorão e da Sunna, tradição?
"Ela foi fielmente aplicada em todo o mundo do Islã até meados do século XIX. Desde então, sofreu em alguns países modificações mais ou menos substanciais; atualmente, está sendo reabilitada para reconstruir a Ummâ."
Sem entrar em detalhes, é bom examinar pontos comparativamente muito importantes em relação à civilização cristã ocidental: a situação da mulher, a concepção do casamento e da sexualidade... e, noção indissociável do Islã, a condição dos escravos.
O autor de "A Jangada de Maomé" resumiu muito bem a questão ao fixar a hierarquia ainda atualmente em vigor:
"A lei religiosa impõe a necessidade, para uma sociedade islâmica digna desse nome, de respeitar a supremacia jurídica, fixa, imutável, de três categorias de pessoas: os homens, os muçulmanos, os senhores sobre outras três: as mulheres, os não-muçulmanos, os escravos."
O Alcorão legisla sobre os laços conjugais. A família muçulmana é do tipo patriarcal agnático – filiação, religião, pertencimento clânico ou político dependendo apenas do pai – no casamento, o homem exibe sua supremacia. Se auma jovem esposa é sempre vendida ao seu marido, este pode, na manhã seguinte à noite de núpcias, repudiá-la, afirmando que ela não era virgem. O casamento muçulmano é primeiramente considerado na perspectiva da fornicação legal. Para mostrar a importância "atribuída à união carnal pelos juristas islâmicos, o islamólogo tunisiano Abdelwahab Bouhdibaira chega a usar a expressão 'ética dos esfíncteres'."
O maometano tem o direito de desposar uma israelita ou uma cristã, mas um não-muçulmano não é digno de desposar uma muçulmana. O muçulmano tem o dever e o direito de dar sua própria religião aos seus filhos.
O Alcorão autoriza uma poligamia limitada a quatro esposas legítimas. Permite a repudiação imediata sem apresentar motivo. Dá a guarda dos filhos que atingiram a idade da razão ao pai, e, se a mãe não for muçulmana, essa guarda é atribuída automaticamente.
O marido tem o direito de bater na esposa à vontade, inclusive em público. Ele pode recorrer à força pública para trazer de volta ao lar conjugal a esposa espancada, refugiada na casa de parentes ou amigos.
A mulher casada não tem nenhum direito, a não ser o de manter seu nome de solteira. Ela é mantida na mais completa ignorância. Em caso de herança, a lei é formal: uma disposição reserva aos homens uma parte dupla da atribuída às filhas; quanto à esposa não-muçulmana, ela não tem direito a nada.
Diante de um tribunal, são necessários dois depoimentos femininos para contrabalançar o de um homem.
Duas disposições particulares da Sharia, ao aparentemente proteger a mulher, concedem grande liberdade sexual ao homem. Primeiramente, a constatação de adultério: para que o adultério seja reconhecido, é necessária uma confissão não extorquida dos culpados ou a constatação do ato fornicatório por quatro testemunhas adultas, masculinas e sãs de espírito. Vem em seguida o costume da criança adormecida:
ele permite que qualquer esposa, na ausência de seu cônjuge por até três anos, dê à luz a filhos perfeitamente legítimos aos olhos da lei corânica e sem que sua virtude possa ser minimamente suspeitada.
A expansão guerreira permitiu, durante séculos excessivamente longos, que os árabes obtivessem mulheres de todas as raças para satisfazer e provar sua virilidade. Como em seu Paraíso, havia também entre os cativos os jovens garotos tão apreciados. Impelidos à guerra, ao saque por sua natureza e pela pregação, instigados contra os cristãos, que mantinham todo o mundo organizado e civilizado ao redor do Mediterrâneo e na Europa, pelo zeloso instrutor judeu, os Cavaleiros de Alá invadiriam, ocupariam e viveriam às custas de nações inteiras. As mulheres poupadas, vendidas em praça pública, encerradas nos haréns, os homens convertidos pela espada forneceriam aos novos senhores uma enorme quantidade de escravos. Estes são os seres menos considerados da sociedade islâmica. O Alcorão não proíbe formalmente a escravidão, mas incentiva, pode-se dizer, sua prática ao instituir a alforria como meio de perdão em caso de falta grave.
O desenrolar da história, mesmo recente, provou o gosto dos árabes pelo tráfico de escravos. Com a cumplicidade de brancos inescrupulosos, eles foram os principais agentes do comércio do "ébano". A revolta do Mahdi, no Sudão anglo-egípcio, foi motivada principalmente pelas leis antiescravagistas promulgadas pelo governo inglês.
Não faz muito tempo que a escravidão foi oficialmente proibida em alguns países muçulmanos, em 1962 pela Arábia Saudita, em 1980 pela Mauritânia. Se legalmente não há mais escravos, qual é a situação dos alforriados, dos pobres negros enganados pela peregrinação a Meca e dos novos escravos dos tempos modernos, os trabalhadores muçulmanos de todas as nacionalidades "explorados" nos países do Golfo...
Conhecendo o essencial das ideias que seriam transportadas e semeadas pelos árabes, primeiro, e depois por maometanos sinceros ou interessados pelo poder, nos será possível continuar o histórico do Jihâd em um próximo artigo.
L. D./P. R.
(nota)
Os trabalhos do Padre Théry e os do Padre Bertuel constituem uma soma considerável que permitiu precisar a participação judaica nas origens do Islã. A pesquisa, no entanto, está longe de estar encerrada, e seria conveniente conduzi-la em outras direções complementares: de fato, o período que separa o surgimento do cristianismo do do Islã se distingue por uma profusão de seitas separatistas que veiculam todas um corpo de doutrinas mais ou menos semelhantes, do qual o Islã tira parte de suas origens, tanto quanto do judaísmo.
Seria de extrema importância fazer um balanço desse período na região do Oriente Próximo – tanto para o próprio Islã quanto para seus diversos aspectos esotéricos.

