NEM DIÁLOGO, NEM POLÊMICA...
O Padre Luc J. Lefebvre, diretor do Pensée Catholique, não apreciou nosso estudo sobre o desenvolvimento gnóstico na França contemporânea, compreende-se facilmente, e nos enviou uma carta interessante que submetemos a nossos leitores com alguns breves comentários.
Paris, 21 de junho de 1984,
Prezado Senhor,
Dirijo esta mensagem ao Senhor Paul Raynal, podendo pensar que é ele quem assina P. R. em seu Boletim.
Lamentei a leviandade de seu tom quando fala dos teólogos que me cercam: dois doutores e dois mestres em teologia são, a seus olhos, apenas "cúmplices".
Isso não é sério.
Não conte com diálogo nem com polêmica.
O "combate" seria desigual. De um lado, o meu, que conta apenas com ingênuos, vítimas inconscientes. Do outro lado, o seu, cujos membros são todos infalíveis. Estamos derrotados de antemão.
Permita-me apenas esta observação: será mesmo a vocação dos discípulos de Barruel atacar apenas os teólogos da Igreja Romana, numa hora em que Roma e os romanos são desprezados e rejeitados por todas as potências modernistas e progressistas do fim deste século?
O querido Barruel não deve aprovar seu afinco contra a "Pensée Catholique", que, na verdade, é seu principal alvo. Pois — segundo os advogados de Nancy e Paris — o caso "Borella" não passa de um pretexto.
Vocês não são os primeiros que buscam me derrubar. A maçonaria, a República, a terceira, a quarta e os Jesuítas já atuaram antes de vocês há mais de 60 anos!
Vocês só me "pegarão" quando Deus me chamar para Si.
Sejam pacientes.
Que o Senhor os perdoe, assim como asseguro-lhes meu perdão.
P.S. Para divertir ou superexcitar seus leitores, vocês relatam os textos dos teólogos suprimindo o essencial de sua intervenção.
Que leviandade! Que Barruel jamais teria aceitado.
Luc J. Lefebvre
O Padre Lefèvre não quer diálogo nem polêmica: ele tem toda razão, é muito mais prudente, mesmo com dois doutores e dois mestres em teologia como guarda-costas e cúmplices.
Quanto a qualificar esses advogados do Sr. Borella de teólogos da Igreja Romana, que humor negro! Certamente o foram no passado, mas sua atual atitude prognóstica no mínimo leva a questionar, pois de duas, uma:
- ou esses teólogos eméritos não teriam entendido nada das teses borellianas (nem das de outros gnósticos contemporâneos), bem como de nossas breves explicações a respeito delas, e então seriam idiotas, simplesmente idiotas.
ou eles conhecem o neo-gnosticismo atual e, como o aprovam veementemente e defendem com afinco seus propagadores, são seus cúmplices, ou mesmo adeptos puros e simples. O Padre Lefèvre não nega que seus amigos sejam ingênuos, vítimas inconscientes... .
O desenvolvimento intelectual desses teólogos, aliás, não nos permite inclinar para a primeira explicação e nos força a adotar a segunda; restaria, claro, explicar como homens, padres, que foram católicos em um nível doutrinário tão elevado, puderam mudar de lado dessa forma: fizeram-no mais ou menos inconscientemente, enredados nas teias da mística e nas do esoterismo, talvez... ou sem dúvida.
Mais interessante é a afirmação de que Roma e os romanos estariam sob ataque dos modernistas e progressistas. Que nada! Roma está há muito tempo em suas mãos, e a autoridade romana serve à propagação da Revolução. São coisas que se conhecem bem no Pensée Catholique, e uma afirmação dessas, tão contrária à evidência, abre perspectivas interessantes sobre a vasta manobra de "recentramento" em curso desde o pontificado de João Paulo II, da qual participam muitas pessoas inesperadas: voltaremos a falar disso em breve.
O diretor do Pensée Catholique deveria ter evitado alegar que estamos de olho em sua revista, sendo o caso Borella apenas um pretexto. Ele quer dizer com isso que sua revista é globalmente dedicada à causa gnóstica, sendo o senhor Borella apenas um redator entre outros? Afinal, de tanto insistir, ele acabará nos convencendo disso.
Por outro lado, não o seguiremos por um instante quando ele afirma que a Maçonaria busca destruí-lo, justamente quando ela conseguiu colocar insidiosamente a seu serviço uma revista que foi por muito tempo a única realmente católica na França, e que, por isso mesmo, é tanto mais valiosa para seu trabalho de infiltração nos meios católicos tradicionais.
Quanto às nossas intenções, enfim, elas não são de forma alguma "pegar" o Padre Lefèvre, mas, ao contrário, de esclarecê-lo para evitar que ele tenha que comparecer diante de Deus no papel terrível que desempenha hoje. Que tenhamos fracassado nessa empreitada é mais do que evidente; no entanto, nos consolaremos com o pensamento de seus leitores, que não serão mais suas vítimas no futuro.
P. R.
Nossos leitores são convidados a consultar o conjunto de artigos publicados sobre este tema nos n.º 9, 10, 11, 12, bem como os dois estudos desta presente edição, especialmente "Itinerários para um esoterismo cristão".