UMA RESURGÊNCIA DA GNOSE NO SÉCULO XX: O BORELISMO
Expusemos, em nosso estudo sobre "A Gnose, tumor no seio da Igreja", as fórmulas do ensino dos Gnósticos de outrora em 7 proposições fundamentais que, ordenadas entre si, formam um corpo de doutrina marcado por certa coesão interna, embora esteja totalmente separado do real e deixe várias questões fundamentais, por exemplo a do mal, sem resposta satisfatória.
Mostramos que essas fórmulas gnósticas se encontravam nos manuais clássicos da Maçonaria, no ensino da Psicanálise, na eflorescência atual do Hinduísmo, da Teosofia e do Guenonismo, e, finalmente, que constituíam o ponto de partida da filosofia de Hegel e do Marxismo, que é sua aplicação prática.
É surpreendente, à primeira vista, encontrar esse ensino gnóstico em um cristão "de tradição" que tem a pretensão de restaurar o verdadeiro ensino tradicional da Igreja. Essa pretensão é totalmente injustificada, veremos, constituindo o Borelismo, ao contrário, uma ressurgência da velha Gnose no seio do Cristianismo moderno: o exame de um certo número de temas do livro "A Caridade Profanada" será suficiente para demonstrá-lo.
AS FÓRMULAS DO PANTEÍSMO NO SENHOR BORELLA
Como todo ensinante que quer fazer compreender pelo espírito relações abstratas ou verdades imateriais que não caem diretamente sob os sentidos, o Senhor BORELLA usa metáforas e raciocínios por analogia: o que é totalmente legítimo.
Mas não se deve sair da analogia para usar os termos em seu sentido próprio durante o raciocínio. A analogia é bem uma identidade nas relações, mas os termos relacionados são radicalmente heterogêneos. Ora, a tentação de passar do sentido metafórico ao sentido próprio de um mesmo termo durante o discurso é muito forte e é o pecado habitual de todo panteísta.
A Bíblia usa a comparação do oleiro e do vaso de barro para tentar fazer compreender a Criação. Vejamos como o Senhor BORELLA a usa:
"Tocar uma criatura é tocar Deus. Sobre o corpo que toco, Deus colocou sua mão. A linha desse corpo é o próprio gesto de Deus feito carne, é o ato divino como forma e como matéria! E assim da pedra, da árvore e do vento. Em verdade, tocamos Deus em toda parte." (p. 43)
Já lemos fórmulas semelhantes no Evangelho gnóstico de Tomé e em certos cânticos modernos, em particular: "Ele faz dançar os mundos..."
A linha do corpo não é o gesto de Deus, mas o efeito desse gesto. Se Deus colocou sua mão sobre esse corpo, é porque um e outro são distintos. A linha do corpo é o resultado do ato divino; ela tem matéria e forma, mas não o ato divino; ou então Deus não é mais que um fabricante, como o oleiro, que precisa de um órgão composto de matéria, a mão, para formar essa linha do corpo.
Primeiro erro dos panteístas: a confusão ou identificação da causa eficiente e de seu efeito. Se a causa e o efeito são uma única e mesma realidade, não há movimento de um para o outro. É verdade que o efeito está contido na causa, mas não realmente. É a forma do efeito que tem sua origem e seu ponto de partida na causa; mas o ser do efeito não é o ser da causa.
Se o Criador e a Criação são idênticos, não há mais ato criador; e isso também é verdade para a emanação tão cara aos nossos gnósticos; se o emanante e o emanado são idênticos, não há emanação possível, e se são distintos, há entre eles um termo médio, um movimento, uma passagem de um ao outro que os Gnósticos poderão chamar de qualquer nome, mas que funda necessariamente uma dualidade heterogênea e nós voltamos necessariamente à ideia de criação: um ser criador que age, que se chama Divino, e um ser criado que sofre e que não se pode mais chamar de divino sem restabelecer a confusão que se queria evitar; dir-se-á natural (porque começou a ser).
Aliás, quando o Senhor BORELLA quer precisar seu pensamento, sua linguagem torna-se singularmente hesitante:
"Há no Homem como tal algo de Deus (?), algo de dado que deve ser devolvido, Deus não nos recusou sua Imanência..."
Sabemos bem que esse algo que deve voltar a DEUS é nossa alma espiritual, pois segundo os gnósticos, ela é uma parcela da alma divina universal, uma centelha jorrada da Luz Incriada, caída por uma queda catastrófica em corpos materiais.
E o Senhor BORELLA continua:
"A substância humana é capaz por si mesma de um comportamento quase divino..." (id).
Sabemos pela filosofia escolástica que a asseidade (a faculdade de ser por si) é própria da divindade. A substância humana é, portanto, divina, segundo o Senhor BORELLA? Sem dúvida.
O que significa a expressão "comportamento quase divino"? Esse comportamento é "como se fosse divino". Mas a proposição comparativa condicional em francês expressa sempre uma condição irreal. Portanto, esse comportamento não é divino e, no entanto, é exatamente a ideia que o autor quis fazer penetrar no espírito do leitor. Veremos frequentemente esse uso do "como se" ou do "quase" que permite ao Senhor BORELLA fazer passar sua ideia subjacente, enquanto protesta não ter querido ensiná-la efetivamente...
Astúcia? Embaraço? Hesitação antes de afirmar? Quem o dirá?
Outra fórmula gnóstica: nossa alma espiritual é uma parcela da Única Alma Universal do Mundo Divino.
Eis a fórmula do Senhor BORELLA:
"O intelecto é o raio cognitivo emanado do Espírito" (p. 130) ."É a atividade cognitiva do Intelecto, natural ao homem, que nos revelou a presença no homem de uma realidade que transcende o humano no sentido ordinário do termo... (porque poderia haver um sentido extraordinário do termo, o humano, Sr. Borella? Qual é, então, esse sentido que o senhor não diz?) Há em nós uma luz propriamente espiritual, isto é, não submetida às condições limitativas da existência individual, e essa luz é o Intelecto..." (Id)
É verdade, diz São Tomás, que o Intelecto é a faculdade que permite ao nosso espírito ver o Universal no singular; mas ele não diz que essa faculdade é emanada do Espírito; ele precisa bem que ela pertence à criatura. O Intelecto é criado e não emanado, e está sim submetido às condições "limitativas da existência individual", senão seria onisciente, o que não é.
O Senhor BORELLA continua:
"O Intelecto não pode receber em si o conhecimento de toda coisa senão porque não é nenhuma das coisas que conhece... O conhecimento é bem a comunhão inteligível do conhecente e do conhecido, mas de certo modo uma comunhão à distância."
Até aí tudo está perfeito, exceto a última fórmula: não é a comunhão que está à distância, mas o objeto conhecido que, embora presente à Inteligência, permanece presente também fora dela. A distância está entre as duas presenças; mas percebe-se a intenção do autor: chegar a uma comunhão sem distância, isto é, à identificação total do conhecente e do conhecido, portanto, do nosso espírito com as coisas. É ainda uma fórmula do Panteísmo.
O Senhor Borella continua:
"Tudo se passa como se (atenção! chegamos a uma condição irreal!) o homem tivesse guardado a lembrança de uma comunhão ontológica entre ele e o mundo, mas que não possa mais realizá-la senão em modo especulativo. O conhecimento (a Gnose) é essa possibilidade mesma, essa última possibilidade, essa lembrança do Paraíso Perdido." (p. 130)
Eis o que era necessário demonstrar e o pensamento profundo do autor. O "como se" é pura cláusula de estilo. A comunhão ontológica? Digamos em bom português, a unidade de uma única substância da qual todos os seres não são senão parcelas "explodidas" (p. 41). O conhecimento de que fala o Senhor BORELLA é, portanto, bem a Gnose dos Gnósticos, pois produz a identificação do homem com o Grande Todo Divino. Reconhece-se ainda aqui a tese da reminiscência, cara aos neoplatônicos, mas em contradição manifesta com a Bíblia, pois o Paraíso Perdido era de fato uma criação de Deus.
Segundo erro dos Panteístas: Antes, eles haviam confundido a causa e o efeito, destruindo sua relação mútua; agora confundem o conhecente e o conhecido, destruindo também sua relação mútua e, portanto, tornando impossível todo conhecimento. É preciso, para que haja ato de conhecimento, um espírito que conhece e um objeto que seja conhecido; é preciso ainda que no próprio ato de conhecimento eles permaneçam distintos e que nunca se fundam um no outro. Sua fusão destruiria toda possibilidade de conhecimento. Ora, a "Gnose" dos Gnósticos é esse ato de fusão, de identificação real. Ela não tem, portanto, nada do sentido da palavra "conhecimento" tal como o entende a filosofia perene.
Outra fórmula gnóstica bem conhecida: O mundo material é uma criação má. Nosso corpo é um invólucro que mantém prisioneira dentro de si nossa alma, centelha divina. Os gnósticos usam as expressões: ganga terrosa, túmulo. Eles gostam de comparar o "soma", o corpo, com o "sêma", o túmulo.
Encontramos tais fórmulas em M. Borella:
"O Mal no mundo é como uma dimensão inevitável do Cosmos" (p. 92)... "Um jardim, isto é, um espaço fechado e cujo fechamento é essa limitação ontológica inerente à criação que se chama Mal..." (p. 93)
Que a limitação seja inerente à Criação, sabemos bem; mas isso não é um Mal, é um Bem. Deus o disse: "E viu que sua obra era boa". Há graus na escala dos seres, que vão do menos perfeito ao mais perfeito. Cada ser tem seu próprio grau de perfeição que realiza mais ou menos...
"O homem", diz ainda M. Borella,
"está encerrado em sua própria natureza como numa carapaça (e essa natureza compreende também, de certa maneira, toda a criação). Deus, nessa carapaça, perfura um buraco que imediatamente a luz divina invade. E essa luz vem de outro lugar, ela é divina; mas, na medida em que ocupa todo o lugar do orifício, ela faz parte da natureza humana..." (p. 181)
A imagem da carapaça é própria de M. Borella, mas tem o mesmo significado que a bainha, a ganga terrosa nos outros gnósticos. Toda a criação, dixit M. Borella, é, portanto, uma carapaça na qual Deus é obrigado a perfurar um buraco para fazer penetrar sua luz.
Mas de onde vem, então, essa carapaça? E que Deus é esse tão desajeitado, incapaz de volatilizar essa matéria inútil e incômoda que faz obstáculo, ou antes tela, ao jorro infinito de sua luz? Ei-lo obrigado a perfurar um buraco; eis sua pobre luz, dita divina, limitada pelo lugar que essa carapaça e seu orifício querem lhe deixar ocupar.
Somos levados a pensar que a carapaça é uma divindade infinitamente mais poderosa que esse pobre Deus-Luz. E essa é justamente a incoerência fundamental de todos os gnósticos: eles são obrigados a fazer coabitar um Deus-Matéria todo-poderoso, capaz de encerrar um Deus-Luz e mantê-lo em xeque... Eis duas divindades mitológicas que repugnam absolutamente à revelação cristã de um Deus único, todo-poderoso, infinito, etc.
TERCEIRO ERRO DOS PANTEÍSTAS: fazer coabitar em Deus o Bem e o Mal, isto é, o ser e o Não-ser, considerados como duas realidades complementares, quando o Mal não é outra coisa senão a negação do Bem e, no plano da atividade humana, a recusa do plano divino, atitude puramente negativa que não pode qualificar a divindade sem destruí-la.
A "RODA CÓSMICA" (ROTA MUNDI) ou o RETORNO À DIVINDADE PRIMORDIAL
Ao final de sua obra, p. 356, M. Borella nos faz uma descrição pitoresca da Roda Cósmica, invenção bem conhecida dos gnósticos:
"O Espírito Santo é o ímã universal que mantém unida a totalidade dos seres criados, equilibrando os efeitos da força criadora centrífuga que se exerce para a periferia da Roda cósmica (rota mundi) pela força atrativa do Amor que aspira a circunferência para seu centro incriado."
Detenhamo-nos alguns instantes sobre essa frase. As palavras força criadora, centro incriado não devem iludir. Entre a circunferência e seu centro, há distinção de partes de um único e mesmo ser. Não é o centro que cria a circunferência. Suprima o centro ou suprima a circunferência, já não há roda alguma. O verbo "criar" aqui não tem nenhum sentido inteligível. É um trompe-l'oeil para tranquilizar um católico um pouco ingênuo.
Continuemos o texto: "Se os homens vivem, se as plantas crescem e se os astros giram no céu, é porque eles se movem no Espírito Santo. Só Ele os impede de cair no nada. Vê-se por aí que a criação é um ato terrível para as criaturas, pois, em sua explosão criadora, ela afasta do Príncipe. Mas ela é também e simultaneamente o retorno permanente da exterioridade para a interioridade do UM, pois o Espírito Santo reúne o espalhamento cósmico, cercando todas as coisas nos braços de seu Amor eterno..."
A criação, um ato temível para a criatura? Ora, essa! É a obra de amor de Deus por nós... "Reunir para cerrar nos braços" lembra muito "abraçar para sufocar"...
Continuação P. 358: "O Espírito Santo é circular. Ele cria, por sua presença, a circunferência dos mundos, onde cada ponto é trocado por todos os outros. Ele faz dessa circunferência uma vibração que emana do Centro supremo e leva ao centro, por suas vibrações espirituais, o desejo de Eternidade que anima toda coisa criada, do Anjo ao pó do caminho." (P. 358)
Essa roda cósmica é uma pura invenção dos Gnósticos, à qual nada corresponde na realidade. Temos aqui um belo exemplo de verbosidade. Como descrever com precisão o que não existe, senão por um jogo verbal onde as palavras se chocam e perdem todo sentido inteligível? Como pode uma "Explosão" produzir como efeito uma circunferência, que é uma figura ordenada e perfeita em seu gênero?
O que o Senhor Borella chama impropriamente de "Criação" é uma "Explosão", uma "Vibração", uma "Emanação"? Não saberemos nada disso. Uma explosão faz voar em estilhaços os elementos do Todo, que se tornam então destroços, constituindo assim um "espalhamento" cósmico (?) de partículas indiferenciadas, "intercambiáveis", como nos é dito.
O homem, o anjo, o pó do caminho, tudo isso vale mais ou menos como limalha de ferro, e basta um bom ímã para fazer deles um monte, uma pilha onde se equilibram força centrífuga e força centrípeta, vibrações internas ou externas, etc... Falar de Amor, a propósito desse ímã chamado Espírito Santo por antifrase, é realmente zombar do leitor. Um Amor, essa força cega, mecânica, que puxa em todas as direções? Ora, essa!
Falar de um retorno à Divindade primordial é, para um Gnóstico consistente, falar de uma morte e de um aniquilamento. O Sr. Borella não deixa de nos regurgitar a lição de seus mestres. Ouçamo-lo: "É preciso, no final das contas, que a substância humana absorva a substância divina, embora também se consagre ao seu aniquilamento, pois o finito não pode conter o Infinito sem explodir no dilaceramento e fundir-se na paz." (p. 41)
Existe, portanto, também um estilhaçamento no momento do retorno ao centro cósmico; não se deveria mais dizer uma explosão, mas uma "implosão". O resultado, aliás, seria o mesmo, uma redução a destroços e pó, a "Paz" dos cadáveres espalhados pelo campo cósmico...
Em outro lugar, o Sr. Borella nos dissera que "A substância humana podia amar, isto é, querer doar-se... Mas esse movimento autônomo de que a criatura é capaz é o da morte e do seu aniquilamento." (p. 43) Se "querer doar-se" é um movimento verdadeiramente autônomo, ele pode muito bem resultar na recusa de doar-se e, portanto, se o homem é autônomo em sua capacidade de morrer, ele pode muito bem não querer seu aniquilamento e, efetivamente, não morrer. Mas sabemos muito bem que a morte é inelutável, que é natural, e não tinha ocorrido a ninguém, mesmo na antiguidade pagã e fora de toda revelação, acreditar que ela fosse um aniquilamento... Voltaremos a isso a propósito da ressurreição dos corpos.
Aliás, esse retorno ao Grande Todo Divino Primordial é apenas um movimento aparente. Na realidade, o Homem nunca deixou de fazer parte dele desde o nascimento até a morte. E serão as hesitações do vocabulário que nos mostrarão isso.
O Sr. Borella nos diz: "A essência individual deve ser considerada como o resultado do encontro entre a essência arquetípica ou pessoal (nossa natureza in divinis, tal como existe no verbo eterno) e o meio no qual essa essência supra-individual se manifesta. Em si, o arquétipo, princípio interno do ser, nosso nome divino, não está sujeito às determinações objetivas de que falamos..." (p. 82)
O Sr. Borella acrescenta: "Não podemos nos tornar nós mesmos senão em Deus..." Mais adiante ele adiciona: "A Glória, no sentido metafísico, designa sempre a Irradiação do princípio, sua presença por irradiação (sem dúvida os raios da Roda Cósmica!) além da esfera divina. Na medida em que é imagem de Deus, o homem é um modo da Glória, pois não é imagem de Deus senão enquanto reflete a irradiação cósmica do divino. (Assim, no interior da face côncava da esfera divina, cada faceta do espelho devolve a Deus sua própria imagem!) A expressão 'de Glória em Glória' indica diferentes graus da irradiação divina, correspondendo a outras tantas estações espirituais que o homem, durante sua transformação em imagem de Deus, percorre sob a ação de Deus que, sendo Espírito, o pneumatiza cada vez mais integralmente até a identificação quase total da imagem com seu modelo." (p. 140)
Encontramos nesses textos as fórmulas clássicas da Gnose: o retorno à Unidade primitiva através das esferas celestes que os antigos gnósticos chamavam de "éons", em geral no número de sete, a chegada ao oitavo céu correspondendo à identificação divina. Tudo isso é muito bom, mas deixa sem resposta as questões prévias mais fundamentais.
Como podemos nos tornar nós mesmos, se já não o somos? E o que significa o verbo "tornar-se" nesse caso? Ele não carrega em si a noção de um movimento, de uma passagem. E o que podemos ser, quando não somos nós mesmos? Outra dificuldade de peso: o Homem, diz o Sr. Borella, é um modo da glória, uma imagem de Deus. Depois ele acrescenta que esse mesmo homem deve percorrer estações espirituais para se transformar em imagem de Deus. Mas o que significa essa transformação, visto que ele já é imagem de Deus, por sua natureza?
Mesma pergunta que anteriormente, mas invertida. Como podemos nos tornar aquilo que já somos? Há etapas a percorrer, "graus de irradiação", nos dizem ainda. Portanto, o homem não é puramente imagem de Deus, pois vai adquirir perfeições progressivamente.
Segundo a metafísica de São Tomás, que é, repetimos sempre, a metafísica natural do espírito humano, segundo o próprio Bergson, uma perfeição adquirida (por exemplo, a do espelho) é um acidente que se acrescenta à substância, acidente divino sem dúvida, mas acidente ainda assim. Ora, a substância do Homem não é esse acidente: imagem ou espelho de Deus.
Gênesis nos diz que o Homem foi criado "à imagem de Deus"; é um modo de ser que segue o modo criador de Deus, mas não é o próprio ser. De fato, a figura dessa pessoa é distinta de sua imagem que vejo no espelho. Posso até encontrar na sala uma posição que me permita ver a imagem no espelho sem ver o rosto que ela reflete. Essa é, aliás, a posição dos Homens aqui na terra: a Criação é um espelho no qual podemos ver, segundo o modo natural de nossa mente, uma imagem imperfeita da Obra divina, mas não o próprio Deus.
Por fim, terceira questão: O que é essa identificação quase total da imagem com seu modelo? Se essa identificação é quase total, é porque não é totalmente total. Ela é, portanto, parcialmente total... Vejam a que absurdos verbais leva a imprecisão do pensamento e a ambiguidade das fórmulas "como-se" e "quase"...! E se suprimirmos a fórmula, obtemos uma identificação perfeita. Coloquemos então a questão final: O Homem tem o poder de se fazer Deus, se ele já não o é? A resposta é "não". Portanto, o Homem sempre foi Deus. Nunca houve o menor movimento de queda em uma "casca" nem de percurso "através de estações espirituais", nem de ascensão de volta à esfera celeste, etc... Todos esses movimentos não têm razão de ser e toda a história do Cosmos segundo os Gnósticos é uma alta fantasia imaginativa à qual nada corresponde na realidade.
O EVANGELHO SEGUNDO O SENHOR BORELLA
Os Gnósticos são obrigados a reescrever o Evangelho de Jesus Cristo para colocá-lo em harmonia com suas construções imaginativas. Encontramos vários exemplos desses "LOGIA" de Cristo que eles recompunham para dar autoridade às suas elucubrações. Possuímos agora o texto completo do Evangelho de Tomé.
O Senhor Borella também se lançou nessa via das contorções mentais para encontrar no Evangelho, não o que ele realmente contém, mas as teses dos Gnósticos. Damos alguns exemplos:
I - Para descrever a ascensão das almas rumo ao Grande Todo primordial, eis um texto: "Quem quiser ser meu discípulo (isto é, quem quiser se tornar aquilo que é em mim) que tome a sua cruz", "Tomar a sua cruz é realizar dinamicamente essa crucificação do arquétipo pessoal que é estaticamente a essência individual, crucificando-a, ou seja, remontando ao ponto crucial o que era dispersão na periferia horizontal". (p. 83)
Outro texto para sugerir a mesma ideia: "O bom ladrão que se volta para Cristo, ou seja, que retorna ao ponto crucial do qual emana de toda eternidade, e Cristo enuncia essa pontualização declarando: 'Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso'. A fórmula 'comigo' significa a integração ao Eu Divino." (p. 45) Até agora eu acreditava que a preposição "com" introduzia um complemento de companhia. Eu me enganei: "com" quer dizer "dentro de". O Senhor Borella deve reformar não apenas as palavras de Cristo, mas também as regras da gramática!
II - Para expressar essa ideia gnóstica de que a alma é uma partícula divina caída por uma queda infeliz num corpo material, eis outros textos:
"A descida do cérebro para o coração é figurada em várias passagens do Evangelho, quando é dito: 'Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava reclinado sobre o seu peito'. (A descida do cérebro para o coração exige a renúncia da mente, a qual corresponde à coroa de espinhos) e ainda na morte de Cristo: 'Et inclinato capite tradidit spiritum' - E, inclinando a cabeça, entregou o espírito (ao seu Pai)... Diremos que o ouvido de São João percebia sobre o peito de Deus as próprias vibrações do Som primordial 'por quem tudo foi feito'." (p. 234)
O Senhor Borella prossegue: "Enquanto Cristo é homem, e o homem é especificamente definido pelo cérebro (Não, Senhor Borella!) e Cristo é crucificado em sua Humanidade ou ainda enquanto sua humanidade é crucificada por sua divindade, o corpo de Cristo corresponde à mente humana. Ele é sepultado (1) no túmulo cavado na rocha, ou seja, numa gruta." (p. 234 e seguintes)
Eis um texto notável que diz tudo. O homem deve renunciar ao seu corpo, seu cérebro, sua mente, etc. para reencontrar essa centelha divina imortal, sua alma cósmica. Cristo foi condenado a essa mesma renúncia. Ele foi, por uma crucificação bem oportuna, livrado desse corpo material inútil, dessa humanidade da qual não precisava.
Os Gnósticos já nos haviam explicado que os soldados romanos crucificaram um homem, chamado Jesus, mas que este não era Jesus Cristo, o filho de Deus. Sempre zombaram desses apóstolos visionários que acreditavam ter reencontrado o corpo de Cristo ressuscitado.
O corpo de Cristo foi de fato depositado no chão de um túmulo, e não enterrado sob a terra, mas ele ressuscitou e toda a Fé Católica repousa sobre essa ressurreição de um CORPO. E, portanto, o jogo de palavras: soma-sêma (corpo-sepulcro) é contrário à Verdade do Evangelho.
TEMA E VARIAÇÕES SOBRE UM "DE ANIMA"
Sabemos que os Gnósticos dividem o Mundo em três esferas sobrepostas: o Mundo Material, o dos corpos; o mundo astral ou sutil, cuja definição varia de um gnóstico para outro; e o Mundo espiritual, o dos Espíritos. Essa divisão é, aliás, a de todos os nossos ocultistas modernos. O Senhor Borella não deixa de retomá-la para si; ouçamo-lo:
"O Cosmos não se reduz ao mundo corpóreo ou material... A criação comporta, na verdade, dois outros Mundos ou graus de realidade que a filosofia perene designa sob os termos de mundo sutil ou psíquico ou anímico, ou vital, ou ainda intermédio para o primeiro, e de mundo inteligível ou espiritual ou angélico..." (p. 108) "O mundo corpóreo ou grosseiro é determinado (limitado) por condições como o espaço, a matéria quantificada, o tempo, o movimento, a forma. O mundo sutil não está submetido ao tempo ou antes à duração, ao movimento, isto é, à organização individual"
Toda a dificuldade de um texto como este reside no acúmulo de qualificativos utilizados pelo autor para tentar fazer entender em que pode consistir esse mundo intermédio, dito sutil. Como ele não existe, esforça-se por aplicar-lhe as características ora da matéria, ora da forma, que são a verdadeira e única composição metafísica dos seres.
Essa divisão ternária do Cosmos entre os Gnósticos destina-se a justificar a atribuição de uma dupla alma ao ser humano. De fato, sabemos que os Gnósticos dividem o homem em três partes: o corpo (soma), a alma intermédia (psique) e o espírito imaterial (pneuma). O senhor Borella diz equivalentemente em latim: o corpo (corpus), a alma (animus), o espírito (spiritus). (P. 117) Ele chama isso de "tripartição antropológica".
Mas sua linguagem torna-se singularmente hesitante e contraditória. Ele nos explica (p. 159 a 161 e seguintes) que "esse espírito (pneuma) que nos é dado na graça faz também parte de nossa natureza, mas de uma natureza de certo modo sobrenatural... O senhor Borella discorre longamente sobre essa ideia de que o Intelecto é 'naturalmente sobrenatural'."
Ele diz ainda: "Lembremo-nos de que este pneuma é o próprio sopro de Deus, que ele nos inspirou", e remete ao Gênesis. Num primeiro momento e antes de uma exposição mais sistemática sobre a alma, poder-se-ia lembrar que a expressão bíblica "insuflar uma alma num corpo" tem um sentido metafórico e não físico. O autor sagrado devia fazer entender que a alma é imaterial e buscou na natureza uma realidade tão tênue quanto possível, o movimento do ar, para sugerir essa ideia.
Não se deve, portanto, concretizá-la, como faz o senhor Borella, por exemplo, quando quer nos sugerir a mesma ideia através desse Deus-Luz que faz um buraco numa carapaça para introduzir nela seu raio cósmico...
Seria preciso ainda distinguir entre a ação de Deus que sopra e o resultado dessa ação, que é o sopro deste ou daquele corpo, não confundir a causa e o efeito. Em Deus, o sopro é divino; no homem, ele é o resultado natural, em nosso mundo criado, da ação divina. E, portanto, nosso Intelecto é de origem divina, mas é uma faculdade natural de nossa alma. Podemos certamente afirmar que toda a Criação é obra gratuita de Deus, já que essa obra não é resultado de nenhuma necessidade; mas devemos afirmar com veemência que nosso Intelecto também é criado e, portanto, natural.
Mas vê-se bem por que o senhor Borella, como todos os gnósticos consequentes, quer manter para nossa alma espiritual ou "pneuma" uma natureza divina: "É no centro do coração, diz ele, que se encontra o olho de Deus 'que vê no segredo'. Esse olho do coração é tanto o olho de Deus quanto o olho do Homem deificado, sua verdadeira pessoa transcendente, seu eu imortal, a fonte de seu ser mais íntimo, sua verdadeira identidade..." (p. 235) Entendemos bem: a identidade do Homem pneumatizado é Deus. Não se pode confundir melhor o Criador e sua Criação.
Aliás, o senhor Borella deixa escapar a ponta da orelha, bem incidentalmente, quando fala de Platão: "Ao dar à alma uma origem divina, Platão, estima-se, funda sua imortalidade, mas arruína a unidade do ser humano, fazendo descer essa alma num corpo que lhe é por natureza estranho. Por isso, aliás, ele precisa supor uma outra alma intermédia entre a alma imortal e o corpo." (p. 167)
Com efeito: a "Psique" dos Gnósticos é uma invenção necessitada por seu sistema cosmológico. Ela não resolve o problema; se o "pneuma" é divino e o "soma" material, como esse intermédio poderia uni-los? Seria preciso que ele fosse ao mesmo tempo material e divino, isto é, unir em si caracteres contraditórios. A solução do problema continua a mesma de antes, e um encaixe infinito de almas intermédias não mudaria a questão... "Tudo isso", diz Santo Tomás de Aquino, "é imaginário e ridículo."
A este ponto de nossa crítica da Gnose moderna, parece-nos indispensável reafirmar o que é a alma humana. Tomaremos emprestada a exposição de Santo Tomás de Aquino; então poderemos, finalmente, resolver as últimas dificuldades levantadas pelo senhor Borella.
O QUE É A ALMA HUMANA?
Costuma-se definir o Homem assim: uma substância composta de um corpo e uma alma. Essa fórmula, se pode apresentar um sentido aceitável, pode também tornar-se uma fonte de confusões e erros múltiplos. Cada ser (árvore, pedra, cão, homem, etc.) é composto de matéria e forma. O homem é um corpo composto de elementos materiais, mas organizados, construídos e unificados por um princípio formal, a alma.
Essa alma não é um segundo ser acrescentado ao corpo, é o próprio corpo, enquanto "animado". A alma é o princípio de organização dos materiais que tomaram a forma de "corporalidade" do corpo humano. É uma ideia diretriz desse corpo. Não se deveria "reificá-la" e torná-la uma substância.
A alma, diz Santo Tomás, é o ato (digamos, a realização de uma ideia) de um corpo natural possuindo a vida em potência. Não apenas é princípio de organização do corpo, mas princípio de um movimento interno que se pode chamar de "imanente". É, portanto, a ordenação dos materiais que o compõem e o movimento vital que dela provém que chamamos de alma.
Os materiais do nosso corpo que constituem seus órgãos são exatamente os mesmos que constituem todos os outros seres, mesmo os não vivos, mas ordenados segundo um princípio que lhes confere a capacidade do movimento vital. É preciso, portanto, deixar bem claro que a alma é um princípio único que ordena todos e cada um desses elementos de modo a permitir-lhes exercer as faculdades próprias desse corpo.
Não se deveria dividir o ser humano em partes justapostas, encarregadas cada uma separada ou sucessivamente de tal ou qual função, capazes, portanto, de uma atividade que não fosse a do homem todo. E isso é muito importante, porque é em nome dessa divisão artificial que nossos modernos psicanalistas se esforçam para negar a responsabilidade do homem em seus atos (cf. "Não fui eu que matei, foi minha mão"). Aliás, essa é a intenção fundamental dos Gnósticos: tornar o "pneuma" impassível, estranho a todos os movimentos da "psique".
A alma, princípio único de ser, é igualmente fonte única de atividades múltiplas. Assim como nosso espírito, embora permaneça UM, é capaz de pensar uma multidão de objetos variados, também nossa alma animante é capaz de produzir uma multidão de atividades muito variadas. Costuma-se distinguir três delas, porque correspondem a três graus de atividades imanentes nos seres animados: a vida vegetativa, a vida sensitiva e a vida intelectual. Mas esses três graus de atividade imanente não são compartimentados no ser humano. Eles se interpenetram. Cada um é suporte do outro.
A alma preside a construção do homem de modo a permitir-lhe assimilar um alimento (vida vegetativa) para desenvolver nele um sistema nervoso capaz de receber sensações e responder a elas com uma atividade reflexa, depois instintiva e espontânea (vida sensitiva) e, finalmente, desenvolve nele um cérebro, suporte necessário de uma atividade nova, o Intelecto, capaz de apreender o Universal nos objetos que os sentidos lhe dão a observar.
Esta é, portanto, uma faculdade imaterial, que supera infinitamente o papel de simples animação do corpo. "A potência vegetativa", diz São Tomás, "prepara o corpo para que as faculdades sensíveis possam agir. A mesma relação existe entre as faculdades sensíveis e as faculdades intelectuais". Chama-se a esta última faculdade de Espírito; pode-se dizer até "a alma espiritual", mas não se deveria "coisificar" essa faculdade e fazer dela uma segunda alma, o "pneuma" dos Gnósticos; caso contrário, chegar-se-ia à negação da Unidade substancial do homem e a absurdos deste tipo: "Não sou eu que penso e age, é em mim uma força que me é estranha e que me impele... etc." A desculpa habitual de todos os culpados...
São Tomás repete com calma obstinação que nossa atividade espiritual não é nossa substância, que nossas faculdades são acidentais, ou seja, que se acrescentam à substância para aperfeiçoar o ser. Ele precisa até que as faculdades aparecem ao longo do crescimento numa ordem cronológica inversa à sua finalidade. É uma única e mesma alma que ordena, desde a concepção, os diferentes materiais assimilados pelo ser vivo na construção de um homem completo, capaz de uma atividade espiritual; e, portanto, essa alma é espiritual na medida em que é um princípio dinâmico que faz surgir os órgãos e as funções segundo um desenrolar no tempo já todo programado na primeira célula, conforme o esquema do DNA.
Como já sabemos que a causa final é a causa das causas, aquela que move a causa eficiente, é bastante evidente que nossa alma é espiritual desde a concepção, pois todos os nossos órgãos e todas as nossas faculdades são ordenados para a vida espiritual em seu pleno acabamento. São Tomás acrescenta que nossa atividade espiritual é subsistente, isto é, pode subsistir por si mesma, sem o necessário apoio de um órgão corporal, o cérebro, porque, por si, ela é imaterial. Mas veremos que esse estado de um espírito humano separado do corpo é contrário à natureza. Ele não faz do homem um anjo, ou seja, uma forma pura sem matéria...
Isso posto e bem compreendido, podemos examinar alguns textos de "A Caridade Profanada" que, de outro modo, pareceriam bastante obscuros.
"A afetividade", diz Monsieur Borella, "não é apenas sentida, ela é também conhecida e pensada; sem isso, aliás, nem poderíamos falar dela. Uma afetividade puramente sentida seria um simples fato, incapaz de gerar a convicção do eu, e que pareceria tão objetivo e natural quanto um processo químico no interior de uma célula... e mais adiante, p. 119: "As funções afetivas, sentimentos, paixões, emoções pertencem à alma sensitiva (ou animal) e estão ligadas ao corpo. Elas constituem o que há de mais propriamente psíquico no homem."
Em seguida, o autor toma o exemplo de três sentimentos: medo, ira, coragem, como se houvesse três princípios de ser afetados por esses movimentos, quando todos eles são movimentos do ser humano total, ao mesmo tempo sensível e inteligente.
Dissemos que as faculdades da alma se interpenetram e agem juntas, mas é preciso precisar que é a faculdade mais perfeita, aquela que intervém por último, que comanda progressivamente as outras: chamamos a isso o "domínio" da razão sobre os movimentos dos quais nosso ser todo é afetado pelo mundo exterior.
Portanto, a afetividade no homem também é penetrada de inteligência e, ao descrever fenômenos complexos como um movimento de medo, não se deve reduzi-los a uma função compartimentada, por exemplo, a da sensibilidade. É muito cômodo, mas é falso. Num movimento de medo, no cordeiro, por exemplo, diante do lobo — exemplo ao qual São Tomás se refere frequentemente — há um reflexo do instinto vital provocado por uma espécie de julgamento esboçado chamado "estimativa", que vai do singular ao singular (esse lobo ali diante desse cordeiro). Não há julgamento universal, portanto espiritual (lobo em relação a todo cordeiro).
No homem, a estimativa é sempre uma "cogitativa", isto é, o reflexo do instinto vital é produzido por um julgamento universal aplicado a esse caso singular que o afeta naquele momento; aliás, é um julgamento errôneo, porque muito apressado, que atribui a um perigo uma gravidade que ele não tem. A ira é um sentimento comandado pela inteligência, que consiste em julgar que um obstáculo que se encontra é insuperável: esse julgamento também é errôneo.
Quanto à coragem, é o exemplo mais perfeito de uma alma cuja faculdade espiritual dominou totalmente os movimentos da sensibilidade. Ora, esse domínio da sensibilidade pela razão adquire-se progressivamente ao longo da infância. Primeiro, a criança se deixa levar pelos movimentos sensíveis sem compreendê-los bem; depois, seu espírito começa a despertar e, porque conhece a causa desses movimentos, pode agir sobre ela e modificar seus efeitos: é a idade da razão...
Finalmente, o Sr. Borella não deve pedir aos textos de São Paulo que justifiquem sua tripartição antropológica. De fato, ele se deu ao trabalho de nos prevenir: "São Paulo certamente não se preocupa com ciências humanas e não busca de modo algum descrever o homem exteriormente" (p. 159). Ele lembra que São Paulo é "dependente de uma terminologia bíblica", segundo Dom J. Dupont, e, portanto, prejudicado por um vocabulário inadequado ao que deseja mostrar. Eu diria antes que ele é dependente de um vocabulário platônico que envenenou a linguagem religiosa por séculos.
Quando São Paulo nos diz, por exemplo: "Que o Deus da Paz vos santifique por inteiro, e que todo o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados imaculados para a Parusia", ele não pretende designar com isso uma composição metafísica tripartida do ser humano. Ele quer apenas, por uma redundância da linguagem, comum na época, expressar a totalidade do ser humano. Quando ele também diz: "Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no Céu, na Terra e nos Infernos", ele não pretende decompor o Cosmos em três esferas, mas apenas designar o que hoje chamamos de Igreja militante, sofredora e gloriosa...
DA LIBERDADE
Também se quis extrair a ideia de uma dupla alma no homem a partir da distinção clássica que se faz entre a Inteligência e a Vontade. Esse foi sobretudo o erro dos neoplatônicos. Se podemos definir a vontade como uma potência que se soma à inteligência, não devemos de modo algum substancializá-las; fazer delas duas almas, como toda uma tradição agostiniana, herdada de Platão, tende a fazer: opor o coração e a razão... Trata-se apenas das múltiplas aplicações de nossa atividade espiritual aos diversos objetos sobre os quais ela se exerce.
São Tomás nos diz que a vontade deriva toda da inteligência e que ela determina apenas alguns de nossos juízos. O Sr. Borella cita um texto de São Tomás, p. 199: "O amor é o ato da vontade designada aqui pelo coração. De fato, assim como o coração corporal é o princípio de todos os movimentos do corpo, assim também a vontade é o princípio de todos os movimentos espirituais, especialmente no que diz respeito ao fim último a que tende, que é o objeto da Caridade. Ora, há três princípios de ação (São Tomás não diz princípios de ser, portanto não são Almas) que são movidos pela vontade, a saber: o intelecto, designado pelo espírito; a potência apetitiva inferior, designada pela alma; e a potência executiva exterior, designada pela força".
Deixemos de lado a comparação com o coração-órgão, que testemunha um conhecimento errôneo da fisiologia humana. Neste texto, São Tomás, ao distinguir potências, não tem absolutamente a intenção de decompor o ser humano. É preciso compreender este texto como uma forma de desenvolver as diferentes fases da atividade espiritual quando ela chega a um ato. É preciso recolocá-lo em todo o ensinamento do Doutor sobre a Liberdade e a Vontade.
Para agir, é preciso primeiro conhecer o ser ou o objeto que se deseja alcançar. É preciso também conhecer a si mesmo como um ser imperfeito que precisa do mundo exterior para se completar, se aumentar, crescer em perfeição. A essa atitude do nosso espírito, São Tomás chama de "apetite racional". Ele tem uma amplitude infinita, pois visa a Felicidade perfeita, o "fim último a que tende" (É este o sentido da palavra "apetite").
É preciso, em seguida, considerar o ser ou o objeto que se tem diante de si (definição da palavra "objeto") como um bem capaz de preencher nosso apetite de felicidade. É ainda um juízo, mas este é sempre negativo. Este ser, objeto de atração, é por natureza imperfeito, limitado, incapaz de responder totalmente ao nosso desejo. Daí uma certa indiferença em relação a ele. O juízo não é inteiramente determinado pelo objeto desejado, que não atrai necessariamente. Ele permanece, portanto, livre para se dirigir a outro objeto que lhe possa parecer mais desejável, ou ainda livre para permanecer imóvel e, portanto, não provocar movimento. O espírito permanece suspenso. Ao fazê-lo, ele permanece, aliás, privado do bem imperfeito e limitado que o objeto em questão poderia lhe proporcionar.
A Vontade não é outra coisa senão essa capacidade que nosso espírito tem de se dirigir por um movimento espontâneo em direção a um objeto que não nos move necessariamente. Mas este movimento é espiritual; ele é ainda um juízo comandado pelo apetite racional. É nossa inteligência que nos dita sua lei; tal objeto, embora limitado e imperfeito, pode satisfazer ao menos parcialmente meu desejo de felicidade perfeita.
Quanto à execução, é ainda nossa alma espiritual que comanda o movimento do corpo. Assim, quando, após hesitar um momento, dizemos a nós mesmos: "É preciso ir". O corpo executa, "potência executiva", diz São Tomás, "princípio de ação", se quisermos, mas subordinado ao juízo do espírito, que permanece senhor de dirigir o apetite de felicidade para tal ou tal objeto.
Assim vemos bem, mesmo respeitando o ensinamento do Doutor Comum, que essas três potências, distinguidas pelo texto citado, são subordinadas umas às outras e que, absolutamente falando, é a Inteligência que, em última análise, comanda a Vontade. A Unidade do ser humano é perfeita em sua natureza. Nunca será possível justificar a tese dos Gnósticos, que querem absolutamente subtrair nossas ações ao domínio da Inteligência e destruir assim a responsabilidade espiritual de nossos atos.
Não se pode, portanto, utilizar tal texto de São Paulo no sentido que acabamos de dizer. O Sr. Borella o cita na p. 164: "Não faço o que quero, mas faço o que faço. Ora, se faço o que não quero, reconheço, de acordo com a lei, que ela é boa; na realidade, não sou mais eu quem realiza a ação, mas o pecado que habita em mim. Pois sei que nenhum bem habita em mim, quero dizer, na minha carne."
Eis um texto interessante que os Maniqueus e os Gnósticos de todas as épocas comentaram apaixonadamente. São Tomás também o comentou. Ele mostrou bem que nosso apetite racional, se deve por natureza dominar nossos apetites sensíveis, que nos conduzem à satisfação dos instintos da carne, pode, no entanto, deixar-se dominar por eles. É bem a imperfeição de nossa natureza que faz com que, às vezes, a hierarquia das potências de nossa alma se inverta. Porque nossa alma espiritual não é totalmente senhora de nossos instintos, acontece que a razão normativa, embora reconhecendo a bondade da lei, como diz São Paulo, aceita, no entanto, dar livre curso às pulsões do instinto que pedem satisfação imediata e o prazer de um momento. Ao fazê-lo, nosso espírito provoca uma distorção entre a lei conhecida e aceita e o ato que a contradiz: é o pecado, portanto, uma responsabilidade e não uma fatalidade à qual não poderíamos escapar, como sustentam os Gnósticos e, na esteira deles, os Protestantes. E essa distorção da alma subsiste após a ação: é o remorso.
A RESSURREIÇÃO DOS CORPOS
Em uma página interessante, o Sr. Borella nos mostra os limites e a insuficiência do pensamento de Aristóteles. É verdade que um filósofo pagão cuja inteligência não foi aperfeiçoada pela Revelação pode, às vezes, encontrar dificuldades para as quais não encontra solução.
Tudo o que não é informe, nos diz Aristóteles em suma, pertence à alma: estrutura de nosso corpo, células, tecidos, funções, órgãos, atividades, metabolismo, movimentos; tudo isso é indissociável. Se a atividade cessa, a estrutura se desfaz: é a morte. Eis a doutrina da Unidade Substancial do Homem.
Ela acarreta duas dificuldades de peso:
I – Se a alma nada mais é do que o corpo vivo, não pode haver sobrevivência da alma após a morte do corpo: essa é uma primeira evidência.
II – A atividade espiritual não serve para nada no corpo, não corresponde a nenhuma função biológica. "É uma vez separado que o Intelecto não é mais do que aquilo que ele é essencialmente, e isso só é imortal e eterno".
Comecemos por responder à segunda dificuldade. Dizer que a atividade espiritual não corresponde a nenhuma função biológica é inverter as relações ontológicas da matéria e da forma. Trata-se de uma verdadeira ilusão de ótica. Porque os seres criados nos aparecem primeiramente sob uma forma sensível, somos atraídos por seus acidentes devidos à matéria: cores, movimentos, etc., e é por uma operação abstrativa que compreendemos depois sua verdadeira forma, a forma inteligível, aquela que define o ser por sua finalidade.
Mas, na operação criadora, ocorreu o inverso. O ser criado é primeiro um pensamento (não se trata de uma ordem cronológica, mas de uma ordem lógica) antes de ser uma matéria informada, e a forma dada a esses elementos materiais usados como suporte não é outra coisa senão o pensamento criador. Não sabemos qual é a finalidade última dessa profusão de seres que o Criador espalhou em sua criação, porque não estamos no segredo de Deus; mas o que sabemos com certeza é que as plantas e os animais que nos cercam não têm uma razão de ser suficiente no simples funcionamento de seus órgãos.
Para o corpo humano, não é diferente. Sabemos, porque somos dotados de Inteligência, que todas as nossas funções biológicas são ordenadas à nossa atividade espiritual. Portanto, é preciso inverter a questão. Não perguntar para que serve a atividade espiritual do homem, mas para que servem nossas funções biológicas; e então compreenderemos muito bem que elas estão a serviço de nossa alma espiritual.
Compreenderemos ainda melhor que essa alma, princípio de animação de um corpo, é espiritual em sua própria essência, já que é capaz de fazer aparecer sucessivamente todos os órgãos, suportes necessários do nosso "Espírito". O homem não é um anjo e jamais o será. Ele não é uma forma separada. Ele é de fato um ser cuja alma conseguiu colocar a matéria a serviço do espírito.
Resta a primeira dificuldade: "Se toda a função da alma é animar um corpo, é evidente que essa alma desaparece com a dissolução deste". Isso ainda é verdade para os animais. Mas é preciso esclarecer que, no homem, a função da alma é sempre animar um corpo, cuja finalidade última, no entanto, é sua atividade espiritual imaterial, a qual atividade imaterial é, também ela, efeito dessa mesma animação.
A uma tal dificuldade – dissolução dos elementos materiais que compõem o corpo e imaterialidade, portanto eternidade da atividade espiritual – os antigos pagãos não souberam encontrar uma resposta plenamente satisfatória.
Eles imaginaram uma estada num mundo com formas tão desmaterializadas quanto possível. Os homens conservam seu corpo, é claro, mas são fantasmas, formas vazias, sombras de corpos. Sua vida não está mais submetida às necessidades biológicas, mas parece diminuída, sem interesse, monótona e triste. Apenas os culpados são condenados eternamente a seus castigos. Os justos arrastam-se, languidamente, em jardins vaporosos, frescos, sombreados. É tudo, é pouco, mas não é tão ruim. Os antigos pagãos não puderam conceber a existência de uma alma puramente espiritual privada de seu corpo. Isso lhes parecia contrário à natureza, como uma espécie de privação de ser e, no fundo, eles tinham razão.
Mas JESUS-CRISTO morreu e ressuscitou, e esse fato extraordinário renovou nossa concepção da morte. Os apóstolos viram um corpo ressuscitado; um deles até o tocou, e era um corpo verdadeiro. Eles ficaram deslumbrados, sua inteligência despertou. Eles ensinaram a ressurreição dos corpos. Se um corpo pôde ressuscitar e reaparecer, é que todos os corpos têm essa faculdade ou, pelo menos, que essa faculdade não lhes é radicalmente heterogênea: prodigiosa revelação. A Igreja cristã afirmou isso com força desde então, e é um dogma fundamental da Fé Católica.
A morte não é um movimento de retorno a uma divindade indiferenciada da qual teríamos estado separados por algumas décadas devido a alguma catastrófica "explosão". A morte também não é a despersonalização de um ser que voltou a ser pó ou vibração luminosa (imaginária e ridícula, disse São Tomás). A morte não é uma fusão num Grande Todo Cósmico, muito menos um aniquilamento.
Num primeiro momento, a morte é um sono. O falecido está deitado de costas, olhos fechados, voltado para o céu, o corpo virado para o sono nascente, num dormitório (dormitorium-cemitério), livre de todos os utensílios ou objetos que se tornaram inúteis, pronto para se levantar ao chamado do Julgamento. A Igreja canta esse repouso em sua missa de "réquiem". Sem gemidos, sem carpideiras contratadas, sem gritos lamurientos ou indignados contra a injustiça da morte; mas um canto calmo, pacífico, onde já vibra a espera da Ressurreição: "In paradisum deducant te angeli", termina por cantar a Igreja antes de deitar o morto. Mesmo nesse momento, os Anjos estão a serviço dos homens.
Num segundo momento, a Morte é uma Ressurreição. A Igreja mostra isso nos pórticos de suas catedrais: os corpos se levantam, nus, de seus túmulos. Um corpo "glorioso" é um corpo livre das imperfeições devidas à matéria: deformidades, mutilações, doenças, envelhecimento, mas que permanece nosso verdadeiro corpo, com suas características pessoais bem particulares. Não seremos confundidos com nossos vizinhos. Dissemos que nossa alma é a própria forma de nosso corpo. É preciso, portanto, que sua função permaneça a mesma, a de animar um corpo, já que essa é sua razão de ser. Pouco importam os materiais que nossa alma utiliza para construir seu corpo. Ao longo de sua vida terrestre, o homem renovou várias vezes toda a matéria de seu corpo, sem que a forma fosse afetada por isso.
A vida no Além não é uma vida diminuída, uma sombra de vida, muito menos um aniquilamento. Este corpo, que nos ajudou aqui embaixo, graças aos órgãos dos sentidos, a conhecer Deus pela contemplação da beleza do Mundo, este corpo, após completar sua espiritualização, nos permitirá ver a Deus.
É nesse momento preciso que os Gnósticos nos privam dessa "visão beatífica" ao nos despersonalizar, ao nos fundir, ao nos aniquilar. Para que, então, terão servido nossos esforços, tanto físicos quanto espirituais, para alcançar essa perfeição, se ela deve nos ser tirada no ponto de chegada? A Igreja, ao contrário, descreve no "Apocalipse" esse imenso Coro dos Justos cantando a Glória de Deus, e no seio do qual Cada um desempenhará sua parte.
E. C.
Nota 1: Não, Senhor Borella! Vá verificar no local. O corpo de Cristo não está mais no Santo Sepulcro...