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GNOSE E GNOSTICISMO NA FRANÇA DO SÉCULO XX

A corrente gnóstica, que viveu seus dias de glória entre os séculos I e VI depois de JESUS CRISTO, depois se ocultou, pelo menos no Ocidente, sem jamais cessar, contudo, de se manifestar aos solavancos até os dias de hoje.

Numerosos estudos sobre as doutrinas gnósticas já foram publicados neste Boletim (nota 1), e um futuro artigo será dedicado a esses ressurgimentos desde a Idade Média, mas precisamos hoje "colocar os pontos nos i" a respeito do despertar gnóstico contemporâneo, já que alguns fingem não compreender nossas primeiras explicações, a menos que realmente não tenham entendido nada! Aliás, podemos nos perguntar o que, de uma coisa ou de outra, seria mais inquietante...

Convém, portanto, recordar os fatos, ou seja, as diversas posições das pessoas envolvidas no que se tornou hoje um escândalo no meio católico.

O Pensamento Católico, nos últimos anos.

A Revista "La Pensée Catholique" do abade Luc Lefèvre abriga, há alguns anos, artigos do Sr. Jean Borella, e ela fez editar, pelas suas Edições du Cèdre, há quatro anos, o livro "A Caridade Profanada". Graças a esse patrocínio, o livro se difundiu nos meios católicos tradicionais, especialmente entre os padres (nota 2).

Uma tal enormidade nos levou a fazer um estudo aprofundado dessa obra e a buscar conhecer melhor o autor através de suas referências humanas e livrescas; finalmente, um artigo muito circunstanciado foi publicado no Boletim nº 9 sob o título "A Gnose Tradicionalista do Professor Borella", que só podemos encorajá-lo a reler como preliminar.

É certo que essa publicação constituiu uma pedra no lago e desagradou a muitas pessoas, em primeiro lugar o próprio autor, o que é normal, e também o abade Lefèvre, incomodado com esse holofote intempestivo, fonte de muitas interrogações por parte de seus amigos, agora inclinados a desconfiar, senão a se afastar prudentemente.

A melhor solução para o diretor da Pensée Catholique não teria sido reconhecer que foi enganado e dedicar pelo menos algumas páginas de sua revista para esclarecer aqueles que ele contribuiu para levar ao erro? Manifestamente, não foi essa a sua solução: o abade Lefèvre preferiu fazer-se de inocente, e eis que, para sustentar uma posição tão frágil, ele coloca em ação, no nº 203 de sua publicação (Março-Abril de 1983), a guarda de seus teólogos; o espetáculo vale a pena ser visto e julgamos útil e instrutivo reproduzir alguns extratos para nossos leitores.

Alguns pareceres teológicos... em favor da gnose borelliana

O primeiro parecer é do RP Philibert de St Didier, OFM cap., sob o título "A propósito de uma controvérsia".

"As controvérsias podem ser úteis, mesmo entre pessoas que, compartilhando a mesma Fé, se querem unidas na mesma divina caridade. Elas podem fazer aparecer aspectos da verdade aos quais não se havia pensado inicialmente. Mas que se guardem de ferir a estima e a confiança mútuas que devemos em nossa fraternidade em Jesus. É isso que me leva a entrar na controvérsia que verdadeiros amigos fazem a um amigo não menos querido, Jean Borella."

É uma grande pena que a questão seja assim resolvida de ofício e que sejam colocados sob a mesma bandeira os católicos que somos e o gnóstico que é o Sr. Borella (como mostraram as vinte páginas do artigo publicado no nº 9 do nosso Boletim). Não é cedo demais para notar que em todos esses textos da Pensée Catholique, nem uma única linha responde ao próprio artigo: essa bizarrice, ou essa prudência, vale por si só mais do que uma longa resposta.

"Por quê? Porque ele coloca novamente em circulação uma palavra odiada pelo fato de ter outrora veiculado a heresia, a palavra 'gnose'. Eu mesmo, ao apresentar no nº 180 da Pensée Catholique a notável obra de nosso sábio amigo 'A Caridade Profanada', não havia escondido o movimento de desconfiança que essa palavra me causava, mas o eminente professor se explicou de forma tão delicada e pertinente que pensei este ponto definitivamente esclarecido. Ocorreu de outra forma. O 'Combate da Fé' julgou dever reavivar a desconfiança e um dos redatores da Sociedade Augustin Barruel foi até mesmo pronunciar uma condenação em regra. A resposta que lhe deu Jean Borella, digna e pertinente, empregou-se em restabelecer nobremente a verdade."

Novo escamoteamento à base de epítetos e advérbios pomposos que não explicam nada, à imagem da famosa resposta do Sr. Borella que publicamos no Boletim nº 10 e que, rodeando o assunto, evitava cuidadosamente abordar, nem que fosse com a ponta da caneta, as verdadeiras questões longamente expostas no artigo questionado. Estranho, não é?

"Mas eis que, por último, o crítico que assina no "Le Courrier de Rome et d'ailleurs" como Michel Martin, renunciando a atacar a coisa, ainda assim processa a palavra". "É uma dessas palavras que matam", declara ele. Pois existem palavras que matam. E ele dá como prova a palavra "democracia".

Segue-se todo um desenvolvimento sobre o uso da palavra democracia desde Leão XIII, o que é um recurso fácil para cativar a audiência de católicos antirrevolucionários e falar sem tocar no assunto. Talvez se pudesse recordar a frase de um prelado romano da época da "Aliança" (Ralliement) que, falando da República e do Papa, dizia: "fizeram-no engolir a palavra, farão com que engula a coisa também".

"Michel Martin afirma que 'gnose' só pode fazer o mesmo trabalho ruim. Acredito que aqui o raciocínio análogo não se justifica. Em 'democracia', de fato, o contrassenso está na própria palavra: 'governo dos governados'. Engolir isso é envenenar-se. Não é o mesmo com 'gnose', que etimologicamente diz apenas 'ciência' e pode, portanto, ser empregada de forma sadia para designar toda ciência verdadeira".....

Mas que briga bem menor essa, se "renunciando a atacar a coisa, simplesmente se processa a palavra"... e como tal atitude alegraria o Sr. Borella, especialista em logomaquia!

Infelizmente para ele, não é disso que se trata, mas sim dos problemas de fundo, não obstante o teólogo seguinte, um dominicano, o Padre René Spitz, OP, cuja opinião é precisamente intitulada "Uma briga de palavras".

"Briga de palavras mal iniciada pelo Sr. Martin: os dois termos 'gnose' e 'democracia' pertencem a ordens totalmente diferentes. A 'democracia', como governo do povo, nos leva às ciências humanas das quais atualmente se gosta tanto de se vangloriar. A 'gnose' designa o saber em geral. Sem dúvida, o gnosticismo evoca as heresias contra as quais se ergueu Santo Irineu, no final do século II da nossa era. Mas confundir gnose e gnosticismo equivale a confundir ciência e cientificismo, isto é, se pensarmos no século XIX, tomar Claude Bernard e Louis Pasteur por discípulos atrasados de Auguste Comte!"

O terceiro teólogo, um dominicano anônimo, recusa, por sua vez, "toda polêmica com autores que manejam tão mal o raciocínio teológico". Considerando em que vespeiro gnóstico foram se meter aqueles que pretendem manejá-lo tão bem, e constatando que cegueira incoercível essas más companhias causaram neles, não há motivo para se orgulhar, não, realmente não!

O quarto teólogo boreliano é ainda um dominicano, o Padre Jean Tonneau, OP, que nos diz, entre outras coisas:

"Sempre leio com interesse e proveito, em 'La Pensée Catholique', os artigos ou recensões assinados pelo Sr. Jean Borella, especialmente o artigo publicado no Nº 193 sob o título 'Gnose cristã e gnoses anticristãs'. Que a palavra 'gnose' tenha 'má reputação no cristianismo', o próprio autor nos adverte e ele toma o cuidado de reencontrar seu sentido exato e legítimo. Santo Irineu não refutou a gnose, mas 'a pretensa gnose' ou gnose mentirosa, o que leva a crer que existe uma gnose verdadeira".

Vê-se que esses quatro religiosos, todos teólogos eminentes, retomam para si, sem discussão e sem argumento, a velha afirmação cara ao professor Borella, justamente cara, pois constitui o essencial de sua manobra: fazer crer que, ao lado de um mau gnosticismo, existiria uma boa gnose à qual os cristãos deveriam finalmente se converter!

Essa tese constitui uma enorme mentira, ou, mais exatamente, baseia-se em várias mentiras cuidadosamente entrelaçadas que, no entanto, só podem enganar aqueles que querem ser enganados. Que teólogos tenham tido sua perspicácia surpreendida nesse ponto já seria surpreendente, mas que, uma vez avisados e informados, persistam em uma aparente ignorância, pode-se chamar isso de outra coisa senão cumplicidade?

Verdadeira Gnose... e Verdadeiro Gnosticismo

A primeira mentira da tese boreliana consiste em fazer crer que o desacordo se baseia em um simples jogo de palavras, uma briga de palavras como às vezes parecem ser as disputas teológicas.

A palavra "Gnose" seria perfeitamente apta a designar o conhecimento de Deus, e seria necessário ser ignorante e sectário para recusar seu uso. Três observações se impõem aqui:

** É verdade que a palavra "Gnose", se tomada isoladamente, nua, significa "conhecimento", e até mesmo qualquer conhecimento, e não apenas o de Deus.

** É igualmente certo que essa palavra "Gnose" não foi retida pela teologia católica verdadeira; apenas tenderam para esse lado aqueles que precisamente queriam introduzir noções gnósticas no cristianismo, e que não poderiam fazer melhor do que usar a palavra para fazer passar o seu conteúdo subjacente.

** O caso dos Ortodoxos que empregam essa palavra decorre das duas observações anteriores: por um lado, "Gnosis" é a palavra grega que designa o conhecimento, e é compreensível, embora não sem perigo, que alguns gregos a usem; por outro lado, certos teólogos ortodoxos tiveram tendências para-gnósticas que encobriram sob um vocabulário pneumatológico e, longe de serem modelos a seguir, são em parte o tipo que se gostaria de introduzir entre nós e que devemos precisamente evitar.

Disso decorre que o uso da palavra "Gnose", aqui e agora, não poderia ser inocente e não pode ser aceito, tanto menos que a esta primeira mentira se acrescenta uma segunda, ainda mais estarrecedora, que nos leva ao cerne da questão.

A segunda mentira da tese boreliana reside em que essa Gnose tão gentil, e da qual não deveríamos ter medo, não é, na verdade, nada mais que o Gnosticismo, cuja nocividade, por outro lado, se pretende nos conceder.

Aí se esconde a sutileza que pode surpreender mais de um leitor, tentado a acreditar no que lhe dizem, ou melhor, no que fingem lhe dizer: já que o mau Gnosticismo é aparentemente oposto à boa Gnose, parece lógico deduzir que se trata efetivamente de duas realidades diferentes, até mesmo contrárias, e também, naturalmente, que a Gnose é uma coisa boa.

Ora, tudo isso não passa de falsa aparência, mentira descarada, e o que nos é proposto de fato sob o rótulo da "boa Gnose" não é nada mais que a velha mercadoria gnóstica, como é fácil, e até mesmo infantil, perceber pelas referências humanas e bibliográficas do próprio Senhor Borella.

Eis um truque de prestidigitação que não deixa de ter fôlego, reconheçamos, mas que só pode ter êxito se for dirigido a ignorantes, o que certamente não são os eminentes teólogos.

Prevenção nunca é demais, recordaremos brevemente a realidade histórica pura e simples, aquela que é escamoteada pelas habilidades do professor Borella, a cronologia das etapas da Gnose ao longo dos séculos.

As Etapas da Gnose até Nossos Dias

Cronologicamente, encontra-se primeiro a Gnose como um conjunto de doutrinas heterodoxas, e frequentemente heterogêneas, oriundas da Pérsia, da Grécia e do Egito, que se desenvolveram no seio da Igreja como o verme na fruta; seus partidários eram chamados de Gnósticos.

A Igreja teve grande dificuldade em conter essa massa de doutrinas estranhas a ela, mas que utilizavam em parte o vocabulário e as redes humanas cristãs, numa situação comparável à da crise modernista do último século. A luta durou vários séculos, grosso modo do I ao VI século, e o desaparecimento final da Gnose no Ocidente foi sobretudo o fruto imprevisto das invasões bárbaras.

O Senhor Borella, que sabe o quanto seria difícil fazer aprovar essa situação pelos católicos tradicionais, que constituem seu público, pretende condená-la sob o nome de Gnosticismo para manter livre a palavra "Gnose", quando se trata de uma única e mesma coisa, como ele sabe perfeitamente e melhor que ninguém.

Extinta no Ocidente, ou pelo menos posta de lado, a Gnose continuou a grassar no Oriente, parcialmente entre os Ortodoxos, e muito mais amplamente nos meios não cristãos, particularmente no Islã que, em sua forma esotérica, é puramente gnóstico (nota 3).

No próprio Ocidente, a Gnose reapareceu com força na Idade Média a partir do século XII, e as redes gnósticas, ou, se preferir, as ressurgências gnósticas, nunca cessaram desde então até os dias de hoje (nota 4).

Ora, se o Senhor Borella condena, ou melhor, finge condenar os gnósticos dos primeiros séculos, suas referências humanas e bibliográficas baseiam-se quase todas nos gnósticos de todos os tempos, do Oriente e do Ocidente, que têm os mesmos princípios fundamentais e as mesmas técnicas místicas. Isso não é difícil de saber, basta saber ler... mas ainda é preciso ter o desejo e a vontade.

É possível, então, pedir a teólogos eminentes, que dominam tão bem a linguagem teológica e filosófica, que leiam as obras daquele cuja causa tanto defendem, embora aparentemente ignorem seu pensamento real?

Mais uma vez, não é o Sr. Borella que nos interessa particularmente, e se estudamos seu caso, é sobretudo devido à sua especialização nos meios católicos tradicionais.

O despertar gnóstico contemporâneo, há cerca de sessenta anos, ultrapassa em muito o Sr. Borella, que é apenas um de seus elementos, e quem quiser compreender esse assunto deve, imperativamente, familiarizar-se com as grandes linhas do florescimento gnóstico no século XX.

Aliás, foi para facilitar esse estudo aos nossos leitores que desejassem empreendê-lo que dedicamos a ele os três dias de nosso colóquio de agosto de 1982 e começamos a publicar suas comunicações em forma de artigos (nota 5).

As facetas do renascimento gnóstico no século XX

Aquém das influências literárias que se encontram em abundância na obra da maioria dos escritores românticos, as primeiras afirmações neognósticas que aparecem no final do século XIX são obra de redes maçônicas, em ruptura com o "racionalismo" das lojas da época.

Não voltaremos aqui a esse aspecto já mencionado no capítulo sobre os primeiros passos de René Guénon (nº10), pois precisamente o devenir guénoniano e a própria ação do mestre franco-islâmico tornaram caducos os primeiros esforços paramaçônicos.

Ao final da guerra de 14-18, período de ruptura em muitos domínios, entre os anos 1920 e 1930, vemos assim constituírem-se várias redes gnósticas; de inspirações diversas, reunidas em torno de mestres diferentes, todas manifestam, no entanto, a firme intenção de propor aos ocidentais uma versão ocidentalizada do velho gnosticismo oriental: além de Guénon, basta citar a Antroposofia de Rudolf Steiner, cisão paracristã da Teosofia de Madame Blavatsky (sociedade fundada em 1875 nas Índias para difundir o orientalismo no Ocidente); e o grupo Atlantis de Paul le Cour, dedicado ao esoterismo cristão. Essas duas organizações ainda existem em 1983, e são muito ativas e influentes, mesmo que tenham sido copiadas atualmente por outras estruturas, como a Nova Acrópole.

Na mesma época, e sem dúvida sob a influência dos esforços lembrados anteriormente, começou a se constituir um gnosticismo universitário. As relações estabelecidas entre diversos especialistas, filósofos, psicólogos, historiadores das religiões, finalmente resultaram em 1933 na criação do Círculo de Eranos em Ascona, na Suíça, sob a influência do teólogo alemão Rudolf Otto (promotor da noção do "numinoso", isto é, o Sagrado sem Deus).

Em Ascona, reuniram-se anualmente durante cinquenta anos um grande número de universitários, dos quais um dos principais foi por muito tempo o psiquiatra suíço C. J. Jung, bem conhecido e de quem teremos oportunidade de falar novamente. Encontramos lá também o cabalista Gershom Scholem, o islamólogo gnóstico Henri Corbin e o historiador francês Denis de Rougemont, entre outros.

Nesse local, por onde passaram mais de 150 especialistas, foi lentamente elaborado um corpo de doutrinas gnósticas próprias para agradar aos meios intelectuais e aos ocidentais descristianizados, em busca de novas espiritualidades. Essas doutrinas foram depois difundidas por uma infinidade de obras, cujo número já não é possível contabilizar, e através de uma multidão de organizações das quais falaremos mais tarde.

O desenvolvimento dessas correntes levou, há quatro anos, em 1979, à organização de um encontro internacional em Córdoba, na Espanha, onde cerca de sessenta pesquisadores de nível mundial se reuniram em torno do tema "Ciência e Consciência ou as duas leituras do Universo". Essa reunião marcou, pela primeira vez a céu aberto, a convergência entre a tendência literária, filosófica, mística e a tendência científica, representada por uma trintena de físicos e neurofisiologistas, incluindo vários prêmios Nobel, abertamente gnósticos, daí sua extrema importância; é preciso notar que a organização ficou a cargo da rádio France-Culture, que depois, em 1980, garantiu a difusão das comunicações e dos debates em uma série de programas radiofônicos e sob a forma de um grande livro publicado pela editora Stock (6).

Na mesma época, em 1979, foi publicado pelas Edições du Cèdre o livro "A Caridade Profanada", que marcou o aparecimento a plena luz (embora de forma relativa!) do grupo do abade Stéphane, padre "esoterista católico".

Pouco tempo depois, o Sr. Borella começou sua colaboração com a Fraternidade São Pio X no âmbito do Instituto Universitário São Pio X em Paris. Participou de um colóquio sobre o tema "Visto de Cima", cujos anais foram publicados pelas Edições Fideliter e divulgados pela revista de mesmo nome, órgão da Fraternidade na França.

Em seguida, o Sr. Borella escreveu o prefácio de outra obra, também publicada pelas Edições Fideliter, intitulada "A Busca de Rafael"; nesse livro, que pretendia colocar a mística eucarística ao alcance das crianças através de uma fantasmagoria de conto de fadas, o Sr. Borella inseriu habilmente a noção do Graal, sem explicitá-la muito, como uma pedra de espera para desenvolvimentos futuros. Segundo sua própria expressão, foi preciso esperar o final do século XX e os excessos dos progressistas para que tal empreendimento fosse possível; ele não está errado, pois até então ninguém teria podido, nem ousado, reintroduzir um tema tão estragado como o do Graal entre católicos verdadeiros (nota 7), a náusea teria sido forte demais: mas, sob o pretexto de complacências eclesiásticas diversas e no estado de ignorância generalizada de nosso tempo, por que o Sr. Borella se importaria?

De fato, o senhor Borella e seus amigos não se importam muito, e não se pode negar que eles agem da forma mais arrogante em relação aos seus "amigos católicos". Vejam só.

Desde o final de 1982, uma das redes guenonianas francesas publica um pequeno folheto bastante revelador sob o título "Rumo à Tradição", que certamente instruiria os teólogos se eles soubessem ler.

Rumo à Tradição...?

Já na primeira edição, publicada em novembro de 1982, os textos não hesitam em ser dos mais explícitos; após destacar a citação de F. Schuon "Tudo que é tradicional é nosso", o artigo principal apresenta a orientação geral da equipe sob o título "Quem somos nós?", exibindo desde já o patrocínio de Guénon:

"... É à luz dos Princípios Tradicionais, tais como nos foram reapresentados por René Guénon, que nos esforçaremos, sempre que possível, para julgar o "Mundo Moderno" em todas as suas atividades..."

Em seguida, esclarece que a equipe presente é apenas uma entre muitas que também trabalham para difundir o gnosticismo guenoniano em diversos meios:

"... Nossa ação, apesar de todas as suas insuficiências pessoais das quais temos consciência, inscrever-se-á, portanto, modestamente na corrente, agora irreversível, de reflexões e energias que outros já realizaram e realizam atualmente numa perspectiva idêntica, segundo modalidades próprias, em níveis e posições diferentes, mas com uma esperança comum e dupla: contribuir para a resolução da ANOMALIA que constitui o mundo moderno e, correlativamente, promover tudo o que possa concorrer para o surgimento de uma Nova Cidade Tradicional..."

Abordando em seguida os diferentes planos dessa ação tradicional, o artigo chega à religião, domínio onde também é igualmente claro:

"A Tradição una em seu princípio é necessariamente diversa em suas manifestações: o cristianismo é uma delas. Consideramos, portanto, a religião cristã, em seus dois ramos católico e ortodoxo, mas também em sua dupla dimensão exotérica e esotérica, como a forma religiosa própria do Ocidente, que as disposições providenciais lhe deram como via de acesso à transcendência, sem que essa adesão fundamental possa nos proibir de fazer referência a outras formas tradicionais, religiosas ou metafísicas, sempre que a oportunidade o exigir..."

O ecumenismo é assim estendido não apenas aos cristãos cismáticos, mas também a todas as religiões, e sabe-se que o próprio Guénon foi ao mesmo tempo católico, hinduísta, taoísta e muçulmano: compreende-se que o esoterismo seja necessário para conciliar tamanha diversidade. Apenas um ramo é excluído dessa compreensão tão ampla, e ficamos felizes com isso:

"... Mais uma vez, devemos marcar distância em relação a uma corrente chamada catolicismo tradicionalista, justamente em virtude do exclusivismo em nome do qual, num constante apriorismo, ela nega a outras formas tradicionais a autenticidade espiritual. E o que pensar do "fechamento primário" que ela demonstra em relação à dimensão esotérica, na qual ela só quer ver, na melhor das hipóteses, elucubração fantasiosa, na pior, e é mais frequentemente o caso, heresia, obra do maligno, o que é no mínimo paradoxal..."

Infelizmente! A realidade não é tão definida quanto essa bela afirmação: alguns guenonianos, ao contrário, fizeram de tudo para não manter distância e para penetrar entre os católicos. O mesmo artigo não nos esconde isso de forma alguma, pois, após dedicar um parágrafo aos progressistas, continua nestes termos:

"... Deixando "tradicionalistas" e "progressistas" às suas mútuas invectivas e excomunhões, tomaremos cuidado para não esquecer que surgem e se expressam, finalmente, no seio do próprio catolicismo, personalidades como o abade Stéphane, Jean Borella, François Chénique e outros, que constituem um grupo não formal, mas influente, deliberadamente engajado por seus escritos numa perspectiva autenticamente tradicional. Eles serão, por esse motivo, preciosos companheiros de jornada..."

Quem ainda não entendeu? Se houvesse alguém, o segundo número de "Rumo à Tradição" tem a bondade de retomar o assunto, indo em socorro da "Caridade Profanada"; o senhor abade Coache, por ter assinado uma advertência contra o senhor Borella em seu boletim "O Combate da Fé" da primavera de 1982, recebe uma reprimenda severa, sendo chamado de "tradicionalista crispado" e depois de "grande Inquisidor"; em trinta linhas, tudo está lá: "contra-sensos e solicitações dos textos... o espírito de discernimento definitivamente não é seu forte..."; e o artigo conclui:

"... Só podemos aconselhar a nossos amigos a leitura de "A Caridade Profanada", verdadeira suma para um catolicismo autenticamente tradicional, heterogêneo ao dogmatismo esclerosado dos tradicionalistas..."

O julgamento dos melhores especialistas atuais, como não entender que o Sr. Borella e seus amigos são HETEROGÊNEOS ao verdadeiro catolicismo, e que dentro das revistas e organizações católicas são apenas lobos em pele de cordeiro? - Para uma vez que dizem a verdade, por que não acreditá-los?

O Ecumenismo segundo São Guénon...

Heterogêneo ao verdadeiro catolicismo, precioso companheiro de estrada dos guenonianos de "Vers la Tradition", o Sr. Borella assina em seguida, no n° 4/5 deste Boletim publicado durante o verão de 1983, um artigo sobre "As Ilusões do Ecumenismo". Nele, desenvolve uma concepção tipicamente guenoniana da unidade cristã, muito próxima da teoria dos Ramos cara aos ecumenistas ingleses do século XIX: o catolicismo, a ortodoxia, o protestantismo e o anglicanismo seriam "quatro estilos religiosos que, sem dúvida, o encontro de uma mesma revelação com temperamentos culturais diferentes não poderia deixar de suscitar".

Partindo do princípio de que a fé cristã repousa sobre um "triângulo dos fundamentos" — a Tradição Apostólica oral, a Tradição bíblica escrita e a Tradição Dogmática eclesial —, o Sr. Borella considera que os gregos permaneceram fiéis à primeira e os protestantes à segunda, cabendo aos católicos, é claro, guardar a letra do dogma! Nosso autor continua: "se essas rupturas são fracassos quanto à unidade, elas permitiram preservar, tanto quanto possível, o que cada forma julgava essencial, e, por meio disso, uma atmosfera espiritual legítima".

Logicamente, ele lamenta que o ecumenismo atual, o dos progressistas, queira fazer a unidade por redução ao menor denominador comum, enquanto, segundo ele e seus amigos guenonianos, um verdadeiro ecumenismo deveria realizar a reunião das riquezas de cada um; deixemo-lo concluir:

"Se resta uma possibilidade de praticar um ecumenismo verdadeiramente tradicional (isto é, conforme à ética guenoniana que constitui a espinha dorsal do pensamento borelliano), ela não pode residir no enfraquecimento ou na renúncia da especificidade do cristianismo latino — que está aqui diretamente em causa —, mas apenas no esforço para reencontrar, no seio da própria forma E DE DENTRO PARA DENTRO, as virtudes complementares do cristianismo integral que um melhor conhecimento das outras formas nos terá revelado. No dia em que os católicos tiverem reencontrado o sentido da transcendência soberana do Pai e da imanência desafiante do Espírito, a Igreja de Pedro se tornará novamente O ECUMENE, a morada universal para todos os irmãos em Jesus Cristo".

Uma felicidade nunca vindo sozinha, o diretor de "Vers la Tradition", Roland Goffin, cometeu outro artigo sobre o mesmo tema neste boletim n° 4/5; ele retoma os mesmos temas, complementando-os de forma bastante edificante, pois, livre dessas vãs pudicícias às quais o Sr. Borella às vezes se sente obrigado em razão de suas relações católicas, ele vai direto ao cerne de seu pensamento comum.

Ele distingue três ecumenismos: o primeiro, humanitário, que é aquele perseguido pelos promotores do movimento "Life and Work"; o segundo, religioso, do qual tratou o Sr. Borella e que pode ser encarado do ponto de vista progressista e do ponto de vista "tradicional"; um terceiro, enfim, o verdadeiro, evidentemente, para o qual não podemos fazer melhor do que reproduzir o texto do próprio Sr. Goffin:

"Quanto ao terceiro tipo de ecumenismo, que T. Schuon qualifica muito justamente de esotérico, ele se situa simetricamente no oposto do ecumenismo humanitário. Em ambos os casos, trata-se da busca de um denominador comum: por baixo para este, por cima para aquele. O Ecumenismo esotérico só pode ser realizado por via de síntese — passagem ao limite — que permite integrar as formas (as essências) sem destruí-las. É apenas no ecumenismo esotérico que se supera — por dentro — toda forma religiosa, reencontrando, pelo alto, a própria essência de toda forma, no Lugar dos possíveis, no Verbo, além e aquém de toda manifestação histórica, no Centro onde todas as Tradições têm origem principialmente."

Por definição, o ecumenismo esotérico só é possível, portanto, na GNOSE (1) e não na FÉ, na metafísica e não na dogmática.

Inspirando-nos em Máximo, o Confessor, podemos dizer, de fato, que pela GNOSE — assim compreendida — são superadas as formas natural, escriturária e sacramental, todas três regulando e reinando sobre os três mundos que constituem a manifestação, e se presta o culto total ao coração do real, ao Verbo em quem todas as oposições são resolvidas e em quem todas as formas são noeticamente transparentes umas às outras".

(1) Nota de R. Goffin — Jean Borella in "A Caridade Profanada" p. 387. "A palavra gnose, decalque do grego gnosis, significa conhecimento. Se é útil empregá-la, é porque não se trata de um conhecimento ordinário, mas de um conhecimento sagrado, e ele não é apenas sagrado em seu objeto, que é a essência divina, mas também o é em seu modo, que é uma participação no conhecimento que Deus tem de si mesmo".


Por um cúmulo de ironia, no meio deste artigo já tão explícito, são inseridos lado a lado dois grandes anúncios publicitários: um para o livro do Sr. Borella, A Caridade Profanada, com o subtítulo bem revelador para quem sabe ler "Subversão da alma cristã"... e outro para uma obra do Sr. Jean Tourniac, gnóstico bastante conhecido, cujo título não deixa de ter sal: "Simbolismo maçônico e tradição cristã, um itinerário de Israel a Cristo".

O Sr. Tourniac também é especializado, e há muito tempo, no "esoterismo cristão", mas sua produção, aliás interessante, se embaraça com poucas precauções para poder enganar um católico.

Será por causa dessa vizinhança incômoda que, de repente, no nº 6 de "Vers la Tradition" publicado no outono de 1983, o Sr. Borella tem um acesso de fúria e, numa carta datada de 13 de junho de 1983, expressa sua discordância?

Ele que, na seção de cartas dos leitores publicada no nº 4/5 (onde foi reproduzido seu artigo estudado acima), escreveu a essa equipe: "A orientação da revista que vocês pretendem lançar com muita coragem me parece excelente. René Guénon continua sendo a referência e o polo doutrinal do nosso tempo, mesmo que eu tenha algumas ressalvas sobre certos pontos e certos limites inevitáveis", de repente percebe uma grave divergência, a ponto de não poder mais colaborar no futuro. Do que se trata?

Seis meses antes, o editorial "Quem Somos" publicado no nº 2 de "Vers la Tradition" dizia: "... tomando a Idade Média como modelo, podemos nela buscar nossa inspiração para criar, inventar COM PEDRA SE POSSÍVEL E SEM ELA SE NECESSÁRIO, UMA FORMA NOVA, MAS NEM POR ISSO MENOS FIEL À TRADUÇÃO."

E eis que seis meses depois, de repente, o Sr. Borella, tomando como argumento essa "velha bobagem" que até então não o incomodara, se irrita contra amigos com os quais compartilha quase tudo e cujo pensamento e ações acabara de aprovar. Será que ele se tornou subitamente um papista ferrenho ou, mais simplesmente, prudente, um pouco tarde, não é verdade?

Acreditamos, ao final destas poucas páginas, que aqueles que querem ver e compreender poderão fazê-lo um pouco melhor; deliberadamente fomos muito sucintos, limitando-nos ao fio dos fatos sem nos alongarmos em longas considerações doutrinais.

O estudo doutrinal é indispensável, e é realizado abundantemente em outros artigos, mas quisemos aqui estabelecer um simples esboço que permita a qualquer um abordar uma questão que alguns gostariam de cobrir com uma névoa protetora (nota 8).

Pelo contrário, é necessário que tudo seja muito claro e, para isso, resumiremos a situação nestas últimas linhas.

Não, o Sr. Borella não é um pensador cristão a quem se poderiam reprovar algumas expressões errôneas, ou mesmo algumas ideias no limite da ortodoxia católica. Se assim fosse, nunca nos teríamos interessado por ele, muito ocupados em outro lugar, e, sem dúvida, no tumulto das polêmicas geradas pela crise na Igreja, nunca teríamos sequer notado sua existência.

Não, o Sr. Borella não é assim, ele é completamente diferente; ele é a ponta fina, a parte emersa de um iceberg cuja parte submersa é, infelizmente, uma terra incognita para a maioria dos católicos tradicionais: ele é gnóstico.

A corrente gnóstica, neognóstica se preferirem, que empreende uma ação poderosa e sistemática há cinquenta anos no Ocidente, e notadamente na França, sempre quis penetrar no meio católico. Ora, a crise na Igreja, que tomou um rumo acelerado desde a morte do Papa Pio XII em 1958, permitiu que as equipes gnósticas já bem treinadas se infiltrassem nas redes católicas tradicionais, em primeiro lugar a Pensée Catholique do abade Luc J. Lefèvre, que lhes forneceu uma cobertura incomparável.

Como é concebível que teólogos tradicionais (no sentido católico da palavra) tenham se deixado seduzir assim? Eis uma questão que o futuro não deixará de esclarecer, à medida que se fizer a partilha entre os simples enganados e os verdadeiros cúmplices: contentamo-nos em colocá-la, embora tenhamos algumas ideias a esse respeito.

A partir da Pensée Catholique, a manobra de penetração se estendeu a outras organizações católicas, sem que a maioria de seus membros sequer tivesse consciência disso. Mas hoje soa a hora do despertar e muitos começam a dizer: os gnósticos estão entre nós, primeiro num tom de espanto, depois de raiva...

Que essa constatação seja dolorosa por mais de um aspecto, que alguns precisem até de coragem para fazê-la em voz alta, correndo o risco de perder amigos ou apoios, isso é provável, mas não pode absolutamente ser colocado na balança contra o serviço da Verdade. Quanto mais ainda para os padres...

P. R.

Nota 1 Ver a respeito o relatório do Colóquio de agosto de 1982 da Sociedade Augustin Barruel sobre "O Espiritualismo Subversivo" publicado no Boletim nº 10, p. 56 a 59. A lista de artigos sobre a Gnose encontra-se na página 57. Nota 2 A difusão parece ter sido mais abundante em duas redes eclesiásticas: a Fraternidade São Pio X e o Opus Sacerdotale. Nota 3 Não faltam obras atuais sobre esta importante questão; algumas são até escritas e difundidas por amigos do Sr. Borella (como "A doutrina iniciática da Peregrinação à Casa de Alá", publicada em 1982 pelas edições de l'Oeuvre), de modo que, se os teólogos do abade Lefèvre ignoram este problema, podem documentar-se junto ao autor de A Caridade Profanada. Mas é sequer concebível que realmente o ignorem? Nota 4 Estudos posteriores serão dedicados a este assunto, mas este mesmo artigo contém alguns esclarecimentos sobre a situação contemporânea e suas raízes próximas. Nota 5 Um primeiro artigo saiu no Boletim nº 10 sob o título: "René Guénon, um muçulmano desconhecido". Era necessário começar por aquele que foi e continua sendo o mestre de toda uma parte do movimento gnóstico atual, especialmente do Sr. Borella e de seus amigos. Nota 6 Estas breves noções históricas, resumidas ao extremo, serão desenvolvidas em outros estudos posteriores. Nota 7 Não poderíamos, contudo, ser demasiado gratos ao Sr. Borella por sua iniciativa, que nos fornecerá a ocasião de um próximo artigo sobre o Graal, tema gnóstico tão rico e tão típico do "Esoterismo Cristão".

Nota 8 Este breve artigo tende a mostrar em que quadro se deve situar a ação borelliana, a que "micélio" ela se prende, mas um estudo mais amplo e mais aprofundado das redes gnósticas é indispensável, e tornou-se possível na fase atual de "desocultação", como mostram as citações de "Vers la Tradition".