CRISTIANISMO E REVOLUÇÃO PRIMEIRAS ABORDAGENS
SEGUNDA EDIÇÃO
O artigo abaixo foi publicado originalmente no Boletim nº 3, que a maioria de nossos atuais assinantes não teve a oportunidade de adquirir. Contudo, os temas ali tratados tornam sua leitura muito útil no ponto em que chegamos em nosso trabalho: ao mesmo tempo envolvidos em uma série sobre a "Revolução Espiritualista" e iniciando um novo ciclo sobre a outra face da Revolução na Igreja com o estudo do Ralliement, é importante manter presente o vínculo entre essas diversas manifestações.
Esta segunda publicação destina-se a auxiliá-lo nesse esforço de síntese.
CRISTIANISMO E REVOLUÇÃO PRIMEIRAS ABORDAGENS
Essas duas palavraspalavras, que resumem a razão de ser de nossa SociedadeSociedade, podem parecer precisas à primeira vista, mas, se recuarmostomarmos um pouco,pouco de distância, elas aparecemse mostram, na verdade comorealidade, bastante vagas.
Convém, portanto, antes de examinar suas relações, precisar em que sentido as empregaremos ao longo deste texto e, de modo geral, no conjunto dos estudos publicados por este Boletim.
O Cristianismo será não apenas a religião cristã com seus dogmas, suas instituições, seus membros, todos os batizados, mas também a sociedade civil oriundasurgida dessa religião, tal como se formou nos primeiros tempos, a Cristandade, e tal como se tornou ao longo dos séculos à medida que foiera poluídacontaminada por numerosas correntes estrangeiras.
Da mesma forma, a Revolução não deve ser entendida no sentido restrito que assumiuadquiriu desde 17891789, comode uma revolução política circunscrita no espaço e no tempo. A própria palavra não tem esse sentido restrito, mas o uso tendeu a impor essa restrição; de modo que surgiunasceu o hábito de uma segunda expressão, a Subversão, que, embora possuindo etimologicamente o mesmo sentido, designa melhor a Revolução em sua essência profunda; fomos tentados a utilizarusar maispreferencialmente essaesta segunda fórmula, jápois que estetal é de fato o nosso objetivo, masmas, devido ao seu usoemprego frequente nas últimas décadas, a palavra subversão adquiriu, também assumiuela, uma coloraçconotação particular, a do comunismo e do filocomunismo, ee, portanto nãoportanto, designa mais queapenas uma parte da questão, e certamente não a mais importante.importante, certamente.
Portanto,Conservamos, conservamosassim, a palavra Revolução, dando-lhe um sentido um pouco mais amplo,ampliado, embora totalmente conforme à etimologia; consequentemente,por conseguinte, a Revolução será também tudo o que é capazfor de natureza a alterar o Cristianismo e, por via de consequência, fazera perderdesestabilizar seu fundamento àa sociedade civil que dele deriva,oriunda, e isso independentementeseja daqual for a época considerada; o que é muito lógico se lembrarmos que a Revolução é, desde a origemorigem, filha de Satanás, a filha de um pai que excelentemente se utilizadestaca em tirar proveito de todostodas osas meios,oportunidades e não apenas das revoluções políticas.
Certamente, veremos que há grandes diferenças entre umdeterminado elemento revolucionário do século II, a Gnóstica,Gnose, e determinado outro elemento do século XIV, o neoplatonismo medieval, ou entre as heresias dos séculos XII e XIII e o modernismo dos séculos XIX e XX, ou ainda entre os círculos hermétistashermetistas dos séculos XIV e XV e a Franco-Maçonaria do século XVIII; mas constataremos também constataremos que profunda unidade de doutrina e de frutos reúne essas diversas manifestações para fazertransformá-las delasem fases, etapas,em estágios, da Revolução tomada em seu sentido mais amplo, ao mesmo tempo que o mais exato, de derrubada do Cristianismo: derrubada que atinge o espiritual e o temporal ao mesmo tempo, pois a Revolução não separa os dois domínios, sabendo bem que, tendocontrolando um, temela controla o outro e, arruinando um, ela arruína o outro.
O estudo da Revolução em ação no seio do Cristianismo não tem, portanto, poucos limites quanto ao seu domínio, tanto o temporal quantocomo o espiritual, nem quanto à sua extensãoabrangência cronológica, poisjá que começa com ono "Non serviam"serviam": issoisto significa queé, não esgotaremos a matéria nesta breve exposição,o que gostariapretende apenas de colocarapresentar o problema em seus diversos aspectos, medir o seu quadro,escopo, deixando apara numerosos trabalhos posteriores de diversos autores oa cuidadotarefa de pintar a própria tela.
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Bispos maçMaçons, quarenta na França talvez, uma nuvemmultidão em Roma, até nosnas degrausescadarias do trono pontifício..., eis o que deixaé estupefatacapaz de estarrecer a multidãomassa dosde fiéis. E, no entanto, para quem acompanhou o fiocurso da evolução ao longo dosnos últimos séculos, para quem conhece um pouco a Revolução em sua essência, não há nissoaí senãonada mais que o fruto de uma lógica impiedosa, um fruto queque, aliás, começou a amadurecer há bastante tempo, poisjá que os primeiros prelados iniciados conhecidos datam de cerca deaproximadamente dois séculos, e,e que, mais pertopróximos de nós, um relatório episcopal redigido em 1938 já fixava seuo número em uma boa vintena apenassó para a França...
Evidentemente, se considerarmos a Revolução apenas sob o ângulo dasdos convulsõessobressaltos políticas,ticos, da violência material, compreende-se mal esse fenômeno diabólico; mas essa não é essa, de modoforma algumalguma, a característica intrínseca da Revolução, mesmo que a violência lhe seja frequentemente muito útil.
A Revolução é fundamentalmente a recusa de Deus, do verdadeiro Deus, mais precisamente a recusa do plano de Deus sobrepara o mundo, da ordem que Ele colocouestabeleceu em sua criação e do destino que Ele lhe atribuiu.
IssoFoi é oisso que Satanás recusou primeiro, e é para arrastar o homem em sua recusa que ele não teme colocar o mundo a ferro e fogo quando isso lhe é necessário; mas ele dispõe de muitos outros métodostodos, mais pacíficos e mais sutis, e a ação revolucionária, ação satânica, é um tecido complexo feito de um entrelaçamentoemaranhado de táticas diversas, Gog e Magog, diz a Bíblia, sedução e violência, traduziremos livremente.
Este é o primeiro ponto a distinguir.ser distinguido. Certamente, isso não é uma descoberta, mas, embora conhecida, essa noção é frequentementemuitas vezes negligenciada na prática; sabe-se disso em teoria, e quando se buscatenta compreender, não se leva mais em conta:conta de forma alguma; é-se então tentado a ver na Revolução apenas uma força negativa, destrutiva, o que é falso no plano dos meios: é um erro grave, cheio de consequências para o equilíbrio do julgamento, pois impede aquele quequem é vítima dele de enxergarver claramente na multidão dosde avatares revolucionários.
Sim, a Revolução é negativa em seusua fundamento,essência, poispor se opõeopor ao verdadeiro Deus, mas não o é, ou peloao menos o é de uma maneira extremamente sutil, em seus meios, e seu ateísmo é frequentemente muito bem camuflado: comoa título de exemplo, lembremos apenas que as "Constituições de Anderson", carta da Maçonaria Modernamoderna formuladaformalizada por dois pastores protestantes, especificam bem que o Irmãoo... não deve ser um ateuateu... estúpido!
Mesmo que, aqui e ali, ela utilize transitoriamente o ateísmo transitoriamente para limpardesobstruir o terreno religioso, o pensamento revolucionário, em seusua fundamento,essência, não tende a suprimir Deus pura e simplesmente; ele sabe muito bem que só se suprime bemalgo aquilode queforma seeficaz substitui,substituindo-o, e sua vontade é a de substituir o verdadeiro Deus por um substitutoarremedo de Deus: para que Deus não esteja mais em lugar nenhum,algum, que melhor truqueartifício do que colocá-lo em toda parte, que melhor solução do que o panteísmo?
Esse erro frequente sobre a natureza da Revolução encontra algumas explicações, ee, portantoportanto, algumas desculpas, em certos movimentos surgidos há cerca de um século; o caso do Grande Oriente e da política maçônica da IIITerceira República, o caso também do Comunismo, enfatizaram demais um aspecto particular e de modoforma algumalguma essencial,essencial: o do materialismo vulgar.
A evolução recente, sobretudo nosnas últimosltimas trintatrês anos,décadas, mostra o retorno em força da verdadeira tendência revolucionária, aquela que se exerce há milênios,nios: a tendência religiosa, ou pseudo-religiosa,pseudorreligiosa, se preferirmos.preferir.
Essa pseudorreligião, esse panteísmo, não é, aliás, novo na terra: é, ao contrário, a situação naem qualque caíram todos os homens após a Queda e a regressão que a seguiu, e é ainda a posição de toda a parteparcela da humanidade que não é cristã, mesmo que àspor vezes certas aparências sejam diferentes.
É inevitavelmente a posição em que recai aquele que, por alguma razão, deixa de ser cristão semsem, contudo, se tornar estupidamente ateu. É, portanto, logicamente, a posição de líderes religiosos que efetivamente deixaram de ser cristãos, de bispos ou de outros dos quaisque o cristianismo se desprendeuabandonou como o casulo cai da crisálida transformadaque emvirou borboleta.
O escândalo, pois ele subsiste, é claro, e não diminuído, mas tantoainda mais imenso, reside no processo que conduziu esses bispos, esses teólogos, esses intelectuais, esses pastorespastores, a tal transformação, a tal mutação insidiosa: estefoi foiesse o trabalho dos séculos, e a nós mesmos precisaremos delevará muito tempo para compreendêpercorrê-lo empor sua totalidade.completo.
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Desde os primeiros séculos, a pessoa de Cristo e o plano da Redenção causaramgeraram problemas e se revelaram tão estranhos ao modo geral de pensamento que toda uma corrente se desenvolveu para deformar o Cristianismo nascente e reduzi-lo aos esquemas anteriores.
Essa éÉ a origem da profusãproliferação das correntes gnósticas (1) que colocarampuseram a Igreja em perigo pordurante vários séculos; a vinda de Santo Irineu a Lugdunum,Lugdunum (Lyon) junto a São Potino,Potino teve provavelmente teve como causa a intrusão dos Gnósticos no vale do Ródano, em meados do século II e, aliás, sua obra mais conhecida não é o "Contra Haereses"Haereses"?
Por sua vez, Santo Agostinho, antes de sua conversão, nos mostra qual poderia ser o atrativo dessas doutrinas sobre um intelectual romano de valor.
O Arianismo e as invasões bárbaras que o veicularamlevaram noao Ocidente desviaram a atenção por alguns séculos, mas as correntes gnósticas continuaram seu caminhopercurso de forma subterrânea, especialmentenotadamente na Europa Central, para ressurgir com mais força total nos séculos XII e XIII na Itália e na França: eles chegaram então a contaminar regiões inteiras,inteiras como o Languedoc,Languedoc e deladeixaram só restarammuito poucas ilhas.incólumes.
Outra corrente de influências, diferente mas convergente, é a da contribuição árabe e da contribuição judaica, que foram determinantes. A contribuição árabe exerceu-se exerceu em duas séries;etapas: as Cruzadas primeiro, o primeiro contato importante dos cristãos com uma sociedade pagã elaborada, o Islã: o caso dos Templários é um bom exemplo dos riscos incorridoscorridos e testemunha uma situação infinitamente mais ampla; os Árabes da Espanha depois,em especialmenteseguida, notadamente com Averróis, no século XII, que difundiram no Ocidente um panteísmo materialista. A contribuição judaica, vinda também da Espanha e dos diversos guetos da Europa (Provença, Praga, Renânia, etc.), foi a de um panteísmo mais místico (o que não significa de modo algum melhor) oriundo da Cabala.
O conjunto dessas contribuições, por vezes contraditórias naem aparência, mas cumulativas na realidade, constituiu a primeira fonte de um ocultismo que não cessoupararia de se desenvolver durante a Idade Média, o Renascimento e a EraIdade Clássica, sob nomes diversos,diversos: Alquimia, Teosofia, Iluminismo, etc.
Na época medieval, esse panteísmo latente encontrou também umuma novonova rosto,face, mais nobre, mais religioso,religiosa, com o neoplatonismo,neoplatonismo cujo abraçoaperto não deveria mais se afrouxar,afrouxaria, culminando finalmente na Reforma e no idealismo cartesiano.
Trata-se aí de todo um corpo de doutrinas que, sob aparências refinadas, ares de religião, àspor vezes até de piedade mística, tende a arruinar o equilíbrio cristão; elas deixarão,deixaram, em todo caso, os espíritos bemmuito desarmados e muito permeáveis quando a onda neopagã do Renascimento desabou sobreavassalou a Europa no século XV.
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Por outro lado, a crise do Sacerdócio e do Império e o Grande Cisma que dela foi a consequência contribuíram fortemente para o abalo da Fé. Certamente, à primeira vista, nãovemos seaí veem ali senãoapenas questões de estruturas e de organização, mas, de fato, foi todo o Cristianismo que viu-se viu posto em causaquestão nessa ocasião, até em seus fundamentos doutrinários.
Para espíritos habituados, como convém, a não dissociar o corpo da cabeça, a Igreja dedo Cristo, a perda do respeito pelo Episcopado e pelopela Papado deveriadevia inevitavelmente levar a mais longe do que uma simples crise jurídica;dica: é a Igreja enquanto mediadora entre o Céu e a Terra que se encontrava atingida, e asos repercussõesdesdobramentos de uma catástrofe semelhante são muito difíceis de medir exatamente.com exatidão.
Para aqueles que eramforam atingidos por taltamanha perda de confiança, duas atitudes se ofereciam à escolha: ou,ou bem, não acreditandomais maiscrendo no poder das mediações humanas, eles se agarravamligavam diretamente a Deus, e essa é a porta aberta para o individualismo com todas as suas armadilhas que se revelarão pouco a pouco – é também, notemos de passagem, um certo desprezo pela piedade litúrgica e seu caráter objetivo e comunitário – ou,ou bem, de forma ainda mais radicalmente ainda,radical, desviando-se da instituição “rachada”"abalada", eles cessavam ao mesmo tempo de aderir à Tradição transmitida e de crer em seu divino fundador.
AíAli também, que rasgõesfendas pelosprofundas pelas quais se precipitará o neopaganismo doda Renascimento!Renascença irromperá!
A partir do século XV, conjugaram-se múltiplas influências;ncias se conjugaram; às causas anteriormentepreviamente evocadas, e os escândalos da Roma renascentista provam suficientemente que eles não desapareceram, somam-se agora dois outros elementos importantes: o retorno do paganismo antigo e o desenvolvimento das ciências modernas, a astronomia em particular.
Para os espíritos cultos da época, a economiaorganização do pensamento cristão encontrava-se encontrava posta em causa,questão, primeiro em sua periferia, nasem suas relações com o mundo material, depois em seu próprio centro, naem sua noção de Deus.
O fato foi especialmente sensível na Itália, nestanessa Itália do Quattrocento onde pululampululavam as Academias neopagãs na corte dos príncipes, focos anticristãos de intelectualismo e mundanidade.
Passaremos aqui sobre os estragos causados ao corpo cristão, às suas instituições e à sua doutrina, pela Reforma; a questão é bastantesuficientemente conhecida para que todos a pensem nela espontaneamente e para que possamos prescindirnão delaabordá-la no âmbito deste breve artigo.
Mais negligenciado é habitualmente o papel desempenhado pela exploração do mundo, a conquista das Índias, como se dizia então.na época. À imagemsemelhança do que havia acontecido durantenas as cruzadas,Cruzadas, mas numaem escala mais vasta, a intrusão de civilizações estrangeiras, pagãs, panteístas, frequentementemuitas vezes transmitidas à Europa com um aparato de luxo, contribuiu para deslocardesintegrar o espírito dos cristãos, já muito abalados por tudo o que vimos anteriormente.
EstaEssa influência perniciosa exerceu-se tanto mais facilmente quanto uma multidão de autores de talento se fizeramtornaram os incansáveis difusores infatigáveis de relatos mais picantesintrigantes uns que os outros e cuja conclusão idêntica é a superioridade de nações pagãs refinadas sobre Estados europeus dilacerados pelas guerras de religiões.religião.
No limiar do século XVIII, o mal está feito em profundidade: uma grande parte da elite francesa e europeia, elite social e intelectual, já não é cristã, mesmo que ainda conserve alguma aparência. IstoIsso se tornará evidente em círculos cada vez mais amplos, a partir da Regência e durante todo o século XVIII.
É então que ése posta em péestabelece a Franco-Maçonaria moderna, não mais destinada apenas a redes de doutrináriosdoutrinadores e sábios, mas à massa das elites sociais. Generaliza-se também a propaganda abertamente anticristã: os livros pululam,proliferam, impulsionados por centenas de sociedades de leitura, difundidos também por miríades de vendedores ambulantesmascates através das províncias e até nosnas campos:zonas rurais: o povo começa a ser atingido, não mais apenas em suas práticas, mas também em sua inteligência.
O mal é agora suficientementeprofundo profundoo suficiente para que a Revolução possa envisajarconsiderar passar ao estágio político: a Franco-Maçonaria encarrega-se de derrubar o Trono e o Altar, pois ambosos dois são solidários, aopelo menos por natureza; a revoluçRevolução osabe sabe, ela,disso, enquanto muitas monarquias europeias o esqueceram e passaram este último meio século a quebrarminar osa rins da Igreja.Igreja (5)2).
NessaNesta virada dosdo séculosculo XVIII para o XIX, a máscara cai;é levantada; a Revolução que, durantepor vários séculos, avançavase arrastava contra o Cristianismo rastejando,Cristianismo, agora se ergue proclamandoclamando sua revolta: os jogos são jogo está claro,claros, ninguém mais pode ser enganado, a não ser voluntariamente.
Antes de prosseguirmosir mais longe e, tendo sobrevoado a Revolução rastejante, nos determosdeter um pouco na Revolução erguida, precisamos aludir a uma dificuldade bastantemuito geral. Acabamos de dizer algumas linhas acima: "O povo começa a ser atingido". Ora, essa expressão colocalevanta um problema bastante delicado.
De fato, quando ideias novas, comportamentos novos surgem em uma população, é evidente que nem todos os membros são tocadosatingidos ao mesmo tempo.
Isso era particularmente verdadeiro nos séculos passados, ondequando não atuava, ou pouco, ao contráriodiferentemente da época moderna, a rapidez de difusão proporcionadadevido pelosaos meios de comunicação deem massa. Nesses tempos em que não existiam jornais (ou quase), nem rádio, nem televisão, e onde a maioria dos homens permanecia ligada à terra, as próprias condições de vida os protegiam melhor contra a subversão das ideias e dos costumes.
É por isso que as transformações concerniamdiziam principalmenterespeito assobretudo partesàs camadas mais cultas da população cultas e dotadascom detempo lazereslivre importantes:significativo: o clero primeiro,em primeiro lugar, depois a aristocracia e, em seguida, a burguesiaburguesia, em sua forma mercantil ou judiciária.judicial. É logicamente nessas categorias que foramse recrutados,recrutaram, pouco a pouco, os partidários das novasideias ideias,novas, que se fundaramestabeleceram novos consensos sociais e morais, que se tomaramdistanciaram novas distâncias em relação àda Igreja, tanto àde sua doutrina quanto àsde suas práticas.
EsseEssa descompassodefasagem acarreta uma grande diversidade entre as diferentes camadas da população e, por isso, os comportamentos oficiais, exteriores, podem revelar-se revelar muito diferentes das motivações profundas;profundas: é preciso, de fato, àspor vezes séculos para que as convicções de uma pequeníssima minoria (a vanguarda, como geralmente seé designa)designada) se estendam à maioria e, subindo então à superfície, consigam fazer explodir as normas antigas; o observador superficial fica então todo surpreso com uma situação que só lhe parece imprevisível apenas porque levou vários séculos para amadurecer.
Se quiser ser perspicaz, o observador deve, ao contrário, voltarconcentrar sua atenção em duas direções: por um lado, o estudo das minorias de ponta que podem indicar a situação futura com vários séculos adiantede a situação futura;antecedência; por outro lado, um exame minucioso da prática da grande maioria para distinguir o que se baseia em uma convicção profunda, e queque, portantoportanto, durará, daquilodo que, aoem contrário,oposição, resulta apenasmais de um simples hábito, ee, portantoportanto, não poderá durar e desmoronará um dia, quando o trabalho de minar das minorias ativas der seus frutos.
Esse trabalho em vários níveis, em vários registros, não é dos mais cômodos: cada pesquisa é forçosamente parcial e corre o risco de parecer parcial, as diversas direções tomadas podem até parecer contraditórias. É bem aqui o momento de lembrar que o princípio de não contradição implica que se fale da mesma coisa tomadaconsiderada nas mesmas condições, o que raramente é o caso em matéria histórica.
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Após esseeste parêntese, voltemos à Revolução que se ergue a céu aberto e cuja ação vai, por isso, acarretar novos efeitos em váriosrias domínios.áreas.
A característica própria da tormenta revolucionária foi, primeiro,em primeiro lugar, acelerar consideravelmente os processos em curso e coagular em uma massa homogênea (ao menos grosseiramente) todo um povo cujos membros se situavam, na realidade, em níveis muito diferentes quanto ao espírito revolucionário. ComPor isso, a revolução interior foi projetada adiantepara a frente em um grande número de espíritos pouco atingidos até então: o abalo social, ao vacânciavazio religiosa,religioso, provocaram assim,assim em poucasalguns décadas,lustros uma evolução que normalmente teria exigido aopelo menos mais um século.
Mas o problema mais importante reside emno fato de que as relações doentre Temporalo temporal e doo Espiritualespiritual não se apresentarão mais da mesma forma. E as crises do século XIX decorremderivam em grande parte dessa nova situação nova,o, de modo que, além dos elementos propriamente religiosos e doutrinários, é preciso estudar as questões temporais, e isso de uma tríplice maneira: elasem si mesmas, é claro, depois nas relações entre o Espiritualespiritual e o Temporal, etemporal, finalmente nas consequências, os desdobramentos dessas relações sobreno o Espiritualespiritual em si.
No final do século XVIII, a Revolução triunfa e impõe um novo estado do Temporal;temporal: ela se opõe à Igreja, impõe-se a ela; pouco a pouco, ao longo do século XIX, ela a subjugará no plano social, depois político, e mesmo no plano doutrinário.
IssoEssa é uma grande novidade em relação aos séculos anteriores,precedentes, onde o Temporaltemporal e o Espiritualespiritual estavam em acordo, ao menos teórico e global.
( Doravante, diante da Igreja, senhora do Espiritualespiritual e guia ( do Temporal,temporal, ergue-se uma Contrarrevolução triunfante que possui ( o poder temporal e o utiliza para orientar o Espiritualespiritual para ( pensamentos e práticas diretamente contrárias ao catolicismo.
EstaTal é a realidade profunda, ora confessada, ora celebrada, mas muitas vezes mal compreendidaincompreendida por muitos cristãos. E, de fato, a questão não é simples: pois entre essas duas forças que se enfrentam, quase não há soluçãopraticamente de continuidade;descontinuidade, elas estão misturadas em um corpo a corpo, com tudo o que isso implica de dificuldades tanto no plano da ação quantocomo no plano da lucidez; e aí, sem dúvida, reside a principal vantagem da Revolução e a fonte de muitos dosde seus progressos.
Mal a Igreja havia curado o pior de suas maiores feridas, com a Revolução preparavapreparando a segunda onda de seus assaltos,ataques, a de meados do século, e o problema da conciliação entre elas foi colocadolevantado e resolvido por católicos emno sentido favorável à Revolução: esta foi a tarefa do catolicismo liberal, que estudaremos mais adiantetarde em seus textos, mas que podemos recordarrelembrar brevemente aqui.
Neste primeiro terço do século XIX, a Revolução se acalmou; jáabrandou, não cortamais cabeças.guilhotinando. Ela transformouTransformou o estado social e econômico no sentido prefigurado pelos últimos anos pré-revolucionários, e ao maioriaconjunto dos católicos, embora não todos, acomodou-se acomoda muito bem ao liberalismo econômico.
Paralelamente, a Igreja reconstruiu parcialmenteem parte suas estruturas, mas concluir esse trabalho no que diz respeitoconcerne às congregações religiosas e, sobretudo, ao ensino,ensino exige umexigia acordo com o novo poder temporal, a paz e até umamesmo certa cooperação.
O que fazer? As soluções possíveis sãoeram múltiplas, o que não quersignifica dizerque fossem boas, e, de fato, o conjunto dos católicos vai se manifestar emadotou uma infinidadegama de posições graduadas, cada um trazendoacrescentando a nuance que lhe convémconvinha e que lhe permitepermitia acreditarcrer que permanecepermanecia livre em relação à manobra em curso.
A posição católica, oficial, romana, aexpressa dos Papas em suasnas diversas Encíclicas,clicas dos Papas, é bem conhecida: a Revolução é satânica, estáé condenada, não se deve colaborar com ela. Mas Roma abstém-se guarda cuidadosamente da política e quasemal não dáoferece conselhos práticos, nem para se livrar da Revolução, nem para coabitar com ela.
NoEm extremooposição, oposto, oferecem-sesurgem as opiniões daqueles que sãose confrontadosconfrontam com os problemas da coabitação. A maioria tendeinclina-se para uma não hostilidade de fato e, como, pelo menos no início, não éera possível ir além, os espíritos e os escritos habituam-se habituam a distinguir sutilmente entre a tese e a hipótese, entre a condenação teórica da Revolução e a colaboração prática com ela.
É preciso prestar atençAtenção. Estamos aqui nano dobradiçaponto crucial do drama que motiva nossonossa propósito,abordagem, ou seja, no momento em que a luta secular da Contra-Igreja contra o catolicismo poderá se efetuarocorrer não mais apenas dedo fora,exterior, mas também dedo dentrointerior da Igreja. O Temporaltemporal não mais defendendo mais o espiritual, mas, ao contrário, tendo caído nas mãos de seus inimigos, estes puderam contornar as muralhas e,e a partir de então,agora estão infiltrados no lugarinterior, e poderãopodendo manobrar à vontade.
É com toda aCom razão que se pôde dizer que o catolicismo liberal erafoi o pior inimigo que a Igreja jamaisjá encontrou em seu caminho.
ComDe efeito,fato, muito rapidamente, a conciliação de fato tornou-se para alguns uma conciliação de direito, levada por vezes até o batismo da Revolução. LamennaisLamennais, e sua condenação por RomaRoma, encontram aqui seu lugar, mas é um lugar um tanto chamativo,visível demais, pois corre o risco de mascarar aos olhos do público um certo catolicismo liberal menos extremo, mais latente, ee, no entantoentanto, igualmentetão perigoso,perigoso porquanto, serpois infinitamente difundido, menos afirmado naem teoria, mas sustentando constantemente assubjacente às atitudes teóricas e práticas daqueles que exercem influência sobre os assuntos públicos. (6)3)
O fruto distantelongínquo desse liberalismo católico foi preparar o Ralliement e a Democracia Cristã, e o fruto imediato foi uma desmobilização diante da Revolução, o que contrariavafrustrava os esforços dos verdadeiros católicos contra ela.
Pois, além dos liberais e da massa amorfa, havia também católicos lúcidos e corajosos que, porna falta de um programa global de derrubada da Revolução, esforçavam-se esforçavam para lutar pontualmente,de forma pontual, denunciando o domínio das seitas ou estabelecendo osas primeirosprimeiras lineamentosbases de uma doutrina de reconstrução social.
Estudaremos também a obra dos contrarrevolucionários, mas é preciso estar conscienteciente de que, se essa ação não pôde assumirde, de fatofato, assumir um caráter global de contestação da Revolução, não apenas em tal ou qual de suas manifestações, mas antes de tudosobretudo em sua própria existência, foiisso se deveu essencialmente por causa daà influência deletéria do catolicismo liberal: este anestesiava literalmente todo um povo,povo cuja imensa maioria era, naquela época, ainda globalmente católica; éera tudo o que a Revolução lhe pedia então,naquele momento, e quem não vêpercebe que isso eraera, efetivamentede fato, o mais importante,importante [?], pois o resto, o tempo se encarregaria...
Enquanto isso, sob a tela protetoracoberto da tolerância liberal, a Revolução continuava metodicamente seu avanço em todos os domínios: revoluções políticas de meados do século XIX, que culminavamculminaram com a perda da cidade de Roma, radicalização da Maçonaria que, tornando-se abertamente ateia e anticristã, apoderava-apoderou-se do poder na França e realizavaimplementou as leis escolares de 1880, principal instrumentoferramenta da descristianização que constatamos há quarenta anos.
No plano intelectual, a minagem dos fundamentos históricos e doutrinários do cristianismo deveria conduzirlevar à crise modernista entre 1890 e 1910,1910. enquanto,Enquanto isso, a partir do final do século, a SeitaSeita, preparando o futuro, revigoravadava nova vida à sua tendência espiritualista.
Diante de progressos tão significativosimportantes ao longo de um século, a conclusão da maioria dos católicos foi que a Revolução não podia mais ser derrubada, portantoe, portanto, que não deveriadevia mais sê-lo, e que, para evitar o pior, convinha alinhar-seaderir às suas estruturas e métodos.
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Mas onde se situaencontra o pior? ÉOu oseja, que evitava-se evitavadetalhar definir com muita precisão,excessivamente, reservando-se assim o direito de mudar suaa definição a cada recuo sucessivo. De tal modo que, em poucos anos, assistia-se a um alinhamento dos católicos àscom as posições revolucionárias:
Primeiramente, naem questãomatéria social: a Escola Social Cristã foi integralmente contrarrevolucionária em sua origem; sua crítica aodo estado social liberal remontava dosdas contatosconstatações de fato às causas revolucionárias, e sua análise mostrava pertinentemente que só se poderia curar a sociedade tomando o caminho oposto ao da Revolução. Apesar de belasbelos dedicaçõesdevotamentos e grandes talentos, a acolhida dos católicos foi moderadabastante omoderada, suficientea paraponto quede se visse,ver, ao contrário, desenhar-sesurgir ao longo dosdo anostempo uma corrente dominante que esperava a salvação socialsocial, não mais da Contrarrevolução, mas de um recurso crescentecada vez maior às técnicas revolucionárias.
Visto sobre esseneste pano de fundo da questão social, o alinhamentoralliement político perde um pouco de seu caráter aberranteestarrecedor e torna-se quase compreensível;vel: ele aparecesurge como a consequência e a conclusão.
Muito se discorreuespeculou sobre o pensamento de Leão XIII; ele queria o alinhamentoralliement à Revolução, ou queria outra coisa? Suas grandes encíclicas, na medida em que sãoo, evidentemente, um reflexo fiel de seu pensamento, mostram de forma certainequívoca que ele era realmente oposto à Revolução,o e parece, portanto, asseguradocerto que ele desejava outra coisa.coisa (7)
A grande massa dos fiéis, embora minada, ainda não é diretamente tocada, mas a elite intelectual, clerical e leiga, é atingida em suas certezas: ela se esforça para salvar à sua maneira o que pode ser salvo, o que explica o grande número de gradações que se observa entre os modernistas, desde aqueles que praticamente varreram tudo até os que pensam poder salvar o essencial sacrificando as formas.
Nessas condições, compreende-se muito bem que a decisão pontifícia, se tranquilizou os fiéis, na verdade não mudou nada na situação real, cuja expressão apenas freou temporariamente.
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Após a guerra de 1914-18, e graças a ela, a Revolução deu um grande passo, especialmente na Europa, onde eliminou ou abalou as monarquias católicas. Politicamente, os católicos são finalmente integrados ao sistema revolucionário, que já não contestam e do qual constituem uma engrenagem.
Isso será bem mostrado aos infelizes que não aceitam a renúncia, e a condenação da Action Française em 1926 será mais um passo, que se pode qualificar de decisivo, senão derradeiro, no avanço revolucionário no seio da Igreja.
Um excelente sinal, e que não engana, dos progressos do mal, é que mesmo os sobressaltos de vitalidade que animam o corpo cristão não tardam a ser gangrenados e a servir finalmente ao inimigo: dois bons exemplos disso são a Ação Católica e o Renovação Litúrgica.
(É, portanto, muito compreensível que bispos, clérigos, intelectuais tenham continuado seu caminho ao encontro da Revolução, até mesmo em sua doutrina, sua "teologia", por assim dizer. Neste tempo em que o Ecumenismo começa energicamente, por volta de 1930, não é muito surpreendente que esses modernizantes tenham aderido a doutrinas e até mesmo a organizações que são consagradas por natureza ao ecumenismo e ao esoterismo.
Compreende-se muito bem, ao contrário, que esses "católicos", ao término de uma práxis revolucionária longa e generalizada, a deles e a de seu meio, tenham podido sentir-se aliviados por encontrar finalmente um quadro intelectual e humano onde seu pensamento e sua ação estavam, enfim, em harmonia.
O crime, a ilogicidade, não reside tanto aqui, mas nos primeiros passos dados em direção à Revolução, um século ou mais antes; o resto não é senão uma consequência.)
Nesse entre-guerras, a guinada final foi dada, em nível de uma minoria, certamente, mas tratava-se de uma minoria consciente e ativa; o relatório episcopal supracitado estimava o número das Excelências iniciadas em cerca de vinte, quantos mais padres sem dúvida, e quantos leigos militantes!
Os germes potenciais nessa minoria, restava apenas fazê-los se desenvolver na massa do corpo cristão, onde encontrariam um terreno todo preparado e tantas cumplicidades inconscientes. Por outro lado, diversas circunstâncias deveriam favorecer a manobra: primeiro, a eliminação, graças à guerra de 39-45, dos quadros católicos tradicionais, seja liquidados fisicamente, seja aniquilados em sua influência social; depois, a utilização das estruturas eclesiais, Ação Católica, Escotismo, Missão de França, Centro de Pastoral Litúrgica, etc., como vetores dos novos modos de pensar, tudo desembocando na reciclagem permanente e generalizada da maior parte da elite cristã, clero e militantes.4).
Mas diante de uma massa católica já suficientemente "revolucionada" parapor ter perdido um verdadeiro ímpeto contrarrevolucionário, o Papa achoujulgou hábil lançar os fiéis na competição políticatica, no terreno próprio dos revolucionários, ciladaa entremaior todas,das armadilhas, se é que existiu,houve, tão frequentemente renovada desde então e até mesmo por católicos que se creem opostos à Revolução.
OA pouco depouca honestidade natural que restava aos liberais derreteuderreteu-se rapidamente noem contato com as combinaçõesmanobras politiqueiras, e, se necessário fosse, a história das diferentes alianças e partidos montadosformados no início deste século bastaria para abrir os olhos.
Pouco a pouco, ou melhor, muito rapidamente, a força da massa católica perdeu-se perdeu nas areias eleitorais, e a Revolução pôde congratular-se por seu adversário ter perdido, graças a isso, sua última chance de recuperação e vitória: do ponto de vitória; à vista divinahumano, evidentemente, pois do ponto de vista divino e acom meios divinos, é outra coisa, mas os prazos divinos são igualmentetambém outra coisa...
Não apenassó o pior não foi evitado, mas doravanteagora e dessa forma ele estava assegurado; os eventosacontecimentos da Separação deveriam rapidamente mostrá-lo.
+++++++++++++++++demonstrar.
Nem mesmo o bastião da própria fé deixou de sentir o ataque, e esses anos de 1890-1910 viram desenrolar-se desenrolar a crise modernista, experiência apaixonantefascinante entre todas.
Ela revelou o impacto dos ataques revolucionários contra a religião juntoentre aosos intelectuais católicoslicos, tanto no planoque dosdiz respeito aos temas escolhidos quanto no daà porcentagem dedas pessoas envolvidas,envolvidas – um terço do clero, diz-se, e notadamente o jovem clero. Ela mostrou também a resistência do corpo católico e, ao mesmo tempo em que uma certa hesitação de alguns bispos, a determinação de Roma.
Paradoxalmente, ela confirmou também que a cisãseparação entre o temporal e o espiritual era vividavivida, de fatofato, pela maioria dos católicos, uma vezvisto que estes aceitavam a revolução nonos planoplanos social e econômico, enquanto ainda eram chocadosatingidos por ela no plano religioso.
Para a Revolução, a conclusão era clara: a subversão religiosa ainda estavarestava por ser feita,fazer, e seriaela feitase faria pelo clero.
A crise neomodernista contemporânea levou os católicos lúcidos a se debruçararem sobre a crise do início do século e a reabrir um dossiê um pouco rápidocedo demais fechado: São Pio X havia falado, os modernistas haviam desaparecido, não falemosse fala mais nisso. Na realidade, não era nada disso: já o dissemos mais acima, a maioria dos modernistas não se moveu um centímilímetro, contentando-se em colocarabafar uma surdina em suasuas açãoões por alguns anos, sem esquecer de liquidar seus adversários logoassim apósque a morte doo Papa da Pascendi. morreu.
Mas nosso verdadeiro problema não estáse situa aqui. Muito mais importante do que as peripécias é o sentido da crise modernista em relação ao corpo católico; vista sob esse ângulo, não se trata certamente de um simples resfriado de feno,resfriado, mas sim do ponto de chegada de uma evolução de vários séculos, de uma incubação de vários séculos de idealismo e subjetivismosubjetivismo, e de dois séculos de ataques pesados contra os fundamentos da fé católica.
Nesse finalfim do século XIX, é o caráter objetivo da fé católica que é atacado,minado, ao mesmo tempo negado pelo materialismo e pelo cientificismo, relativizado pela história das religiões e pela intrusão das espiritualidades orientais, e enfraquecido na consciência dos fiéis por décadas de sentimentalismo e individualismo.
A grande massa dos fiéis, embora minada, ainda não é diretamente atingida, mas a elite intelectual, clerical e leiga, é atingida em suas certezas: ela se esforça para salvar à sua maneira o que pode ser salvo, o que explica o grande número de graus que se observa entre os modernistas, desde aqueles que praticamente varreram tudo até aqueles que pensam poder salvar o essencial sacrificando as formas.
Nessas condições, compreende-se muito bem que a decisão pontifícia, se bem que tenha tranquilizado os fiéis, na verdade não mudou nada na situação real, da qual apenas freou temporariamente a expressão.
Após a guerra de 1914-18, e graças a ela, a Revolução deu um grande passo, notadamente na Europa, onde eliminou ou abalou as monarquias católicas. Politicamente, os católicos estão finalmente integrados ao sistema revolucionário que não mais contestam e do qual constituem uma engrenagem.
Isso ficará bem claro para os infelizes que não aceitam a renegação, e a condenação da Action Française em 1926 será mais um passo, que se pode qualificar de decisivo à falta de ser o último, no avanço revolucionário dentro da Igreja.
Um excelente sinal, e que não engana, dos progressos do mal, é que mesmo os surtos de vitalidade que animam o corpo cristão não tardam a ser gangrenados e a servir, finalmente, o inimigo: dois bons exemplos disso são a Ação Católica e o Renascimento Litúrgico.
É, portanto, muito compreensível que bispos, clérigos, intelectuais tenham continuado seu caminho ao encontro da Revolução, até mesmo em sua doutrina, sua "teologia", por assim dizer. Nesse tempo em que o ecumenismo começa vigorosamente, por volta de 1930, não é muito de se estranhar que esses modernizantes tenham aderido a doutrinas e até mesmo a organizações que são, por natureza, consagradas ao ecumenismo e ao esoterismo.
Compreende-se muito bem, ao contrário, que esses "católicos", ao fim de uma práxis revolucionária longa e generalizada – a deles e a de seu meio –, pudessem ter se sentido aliviados por encontrar, finalmente, um quadro intelectual e humano onde seu pensamento e sua ação se encontravam, finalmente, em harmonia.
O crime, o ilogismo, não se situa tanto aqui quanto nos primeiros passos dados rumo à Revolução, um século ou mais antes; o resto não passa de uma consequência.
Nesse entre-guerras, a guinada final foi, portanto, dada, ao nível de uma minoria, é certo, mas tratava-se de uma minoria consciente e ativa; o relatório episcopal supracitado estimava o número de Excelências iniciadas em cerca de vinte, quantos mais padres, sem dúvida, e quantos leigos militantes!
Quanto aos germes em potencial nessa minoria, só restava fazê-los desenvolver-se na massa do corpo cristão, onde encontrariam um terreno já preparado e tantas cumplicidades inconscientes. Além disso, diversas circunstâncias deveriam favorecer a manobra: primeiro, a eliminação, aproveitando a guerra de 39-45, dos quadros católicos tradicionais, fossem eles liquidados fisicamente ou aniquilados em sua influência social; em seguida, a utilização das estruturas eclesiais – Ação Católica, Escotismo, Missões de França, Centro de Pastoral Litúrgica, etc. – como vetores dos novos modos de pensamento, tudo isso resultando na reciclagem permanente e generalizada da maior parte da elite cristã, clero e militantes.
Aplicam-se novamente aqui novamente as observações feitas mais acima a respeito da sociedade em geral.
Em um corpo eclesial àem plena deriva, os níveis pessoais podem ser muito diversos,diversos; não obstante, os mais significativossignificativos, —e e, portanto,portanto os mais interessantes para o estudo —estudo, são aqueles que chegaram antes dos outros ao fim da evolução comum.
(Pois,Pois se a crise modernista foi um ponto de chegada, ela constituiu também) (constituium um ponto de partida para uma nova etapa, a da)da (extensão da subversão a todos os fiéis.)
No limiar do século XX, é certo que a Revolução se impôs, tanto mais facilmente porque a hierarquia católica aceitou aliar-a ela se a ela.ralimar. Não apenassó impôs a todos as suas formas e estruturas políticas, mas conseguiu relegar a fé católica aopara o domínio das opiniões privadas, seja em matéria de concepçãoo, ede explicação do mundo, sejaou em matéria de normas para a ação moral e social.
É nessea esse nível que se situa a verdadeira vitória da Revolução, e é bem evidente que essas transformações não esperaram o início do século XX para começar, nem mesmo para atingir um nível preocupante.inquietante. Surgida há cerca de três séculos entre alguns intelectuais e pessoas doda mundo,sociedade – os céticos e os libertinos,libertinos –, tornada oficial há dois séculos pela Revolução, a atitude revolucionária inicioucomeçou sua penetração na massa católica há um século, e a crise modernista é o sinal irrefutável disso.
Desde 1914-18, desenvolveu-ela se desenvolveu em grande velocidade entre os batizados, culminando na "guerraGuerra de mentira"Araque"... e no pós-guerra que conhecemos, e deixando o campo livre para a onda de materialismo desenfreado que "se abatealastra há cerca de trinta anos.
+++++++++++++++++anos".
Segundo uma regra quase sistemática, enquanto esse movimento se desenvolvia, outro se preparava, colocando suasseus primeirasprimeiros peçaspeões e entrelaçando suas realizações com as do anterior.precedente.
Enquanto sua fase materialista triunfava, e em seuno próprio triunfo encontrava as causas de sua ruína, a Revolução preparava e colocava em práticaimplementava sua fase espiritualista.
TambéAli também aí os germes são antigos, noao nível das minorias, masminorias; a extensão ao público começou há cerca de um século com um início de "exoterização" no entre entre-guerras. Esse movimento acelerou-se antes de 1939 com a propaganda pelo hinduísmo e as tentativas de aproximação da Maçonaria com a Igreja.
É sobretudo desde há unscerca de vinte anos que se iniciou a fase decisiva,decisiva se iniciou, com essa vasta propaganda pelo retorno à natureza e a formidável expansão das artes marciais e do yoga (4)5), do Zen hoje e seus numerosos mosteiros na Europa e na própria França, do pensamento e dos métodos orientais em geral, tanto hindus quanto chineses e japoneses.
A massas longa e sabiamentehabilmente descristianizadas em sua inteligência e em sua vida prática, e que a "civilização moderna", doutraou forma ditaseja, materialista e revolucionária, conduziu a um impasse,beco sem saída, a Revolução tem a habilidadeastúcia de propor uma solução alternativa espiritualista que já conquistou uma parte das elites.
(4) Alguns exemplos entre outros — A Federação Francesa de Judô é o organismo esportivo que compreende o maior número de filiados, e entre eles muitos jovens — Numa cidade como Lyon, há mais centros de Yoga do que locais de culto católico, e esses centros estão frequentemente instalados em estruturas oficiais, como Casas de Jovens, Centros Sociais, onde se encontram ao alcance do grande público — Enfim, não se contam mais o número de casas religiosas, geralmente de contemplativos, onde o Yoga e o Zen são praticados como ascese regular.
Essa manobra consegue tanto mais facilmente obtém sucesso quantoporque esse neo-espiritualismoneoespiritualismo se oferece sob diversos rostosaspectos capazes de satisfazer os diferentes gostos, desde o hippie barbudo e imundo,sujo, adepto da droga e do "flower power"power, até o jovem universitário de nuca raspada, fervoroso do "Grece" e dos rituais solsticiais, passando pelos moonistas e os guénonianosguenonianos de todatodos espécie.os tipos.
Evidentemente, para o sucesso de tal empreendimento, era indispensável que a verdadeira religião desaparecesse;desaparecesse; éfoi a isso que nossas hierarquias se dedicaram nossos hierarcas desde o Concílio Vaticano II:II: sob o pretexto de reformas, o Concílio teve porcomo missão legalizar a Revolução e preparar o desaparecimento de tudo o que "cheirasse"cheirava" demais aoa catolicismo,catolicismo para facilitar o ecumenismo com os "irmãos separados".
Atingido esse estágio, viu-se em seguida atacar os dogmas que ainda eram respeitados,mais aproximadamente,ou menos respeitados por heregesheréticos e cismáticos; é toda a doutrina cristã que se encontra minada por cima, é ela que deve desaparecer para dar lugar ao "ecumenismo planetário", à religião mundial ateia! Pois tal é o objetivo: a Revolução não tem nada contra a religião, ela tem tudo contra Deus;Deus, está, portanto, pronta apara aceitar uma religião sem Deus, eDeus; há séculos ela se esforça para promovê-la,la e está quase conseguiu.lá.
Cristianismo e Revolução... Ao finalfim dessas primeiras abordagens, quem não vêpercebe que é antes "Cristianismo OU Revolução" que se deve escrever.escrever? A oposição é total, não acidental, mas substancial e irreformável.
Os revolucionários, aliás, o sabem disso muito bem, enquanto muitos cristãos —– a grande maioria hoje, infelizmente! —– o ignoram e se veemencontram até mesmo destituídosdesprovidos dos meios de compreendê-lo quando lhes é explicado.
NoTal é, no entanto, esse é o deverdever, e,e portanto,portanto a primeira urgência: limpardepurar as inteligências para permitir que osaos contrarrevolucionários pensempensar realmente, e não estejamsendo submetidos a paixões, mesmo que qualificadas de nobres.
Compreender a Revolução exigerequer conhecimento, éconhecimentos, claro, mas sobretudo um espírito livre: capaz de descascarremover as aparências, de descolar os rótulos, de aprofundar o real apesar dos apegos sentimentais, capaz também de dominarcontrolar seussuas impulsospulsões ativistas, pois,pois no ponto em que chegamos,chegamos as ilusões já não têmcabem lugarmais e, na maioria das vezes, a ação não passa de uma armadilha a serviço do Adversário.
O sucesso ou a derrota da Revolução, o triunfo ou o fracasso do projeto satânico, tudo isso está nas mãos de Deus. Já, na luta entre os Anjos, Satanás perdeu uma primeira vez. Depois, entre a cruz do Gólgota e o túmulosepulcro da Ressurreição, ele perdeu uma segunda vez.
E agora, temos a promessa divina, várias vezes renovada, de que, quando ele se levantar novamente contra o Cristo, ele, o Anticristo, perderá pela terceira e última vez: será no instante derradeiro em que a Revolução, tendo coberto a Terra e esmagado a Igreja, acreditaracreditará ter conquistado sua vitória definitiva contra Deus.
Resta o mistério do triunfo provisório da Revolução, mistério do fracasso aparente fracasso da Igreja. Na noite que se estende, como na tardenoite dade Sexta-Feirafeira Santa, quando o Mestre está morto e os discípulos dispersos, o Mal é vencedor e se adorna com os despojos do Bem.
SomenteSó nos pertencem a lucidez e a Esperança.
P. R.
NOTAS DE ADMINISTRAÇÃO
CORRESPONDENTES E COLABORADORES
Alguns de nossos assinantes se colocaram a trabalhar e empreenderam uma colaboração interessante que assume formas diversas: envio de livros subversivos e gravações de palestras radiofônicas do mesmo espírito, redação de artigos como o publicado neste número 11 sobre o Sagrado Coração, estudos aprofundados sobre a revolução na arte, sobre a evolução das seitas, sobre o renascimento orientalista, que desembocarão um dia em artigos dos quais todos os nossos leitores poderão se beneficiar.
Nosso trabalho progrediria mais rápido se muitos assinantes quisessem se dedicar à obra em colaboração com a equipe inicial da Sociedade. Não hesitem em pedir conselho, sem complexos inúteis...
DOAÇÕES PARA O NOVO ESPAÇO
Cerca de quarenta de nossos amigos atenderam ao nosso apelo para a reforma do novo espaço, cuja inauguração já terá ocorrido quando este Boletim chegar até vocês. Que eles sejam novamente e muito sinceramente agradecidos. Se pelo menos um número igual de novos doadores puder se manifestar até o final do ano, ficaremos parcialmente aliviados do pesado fardo dessas obras.
FRANQUIAMENTO POSTAL
Como previsto, o preço do franquiamento acaba de ser aumentado, passando de 5,80 F para 6,30 F por boletim, pesando ainda mais sobre nosso custo unitário. Que aqueles que puderem não se esqueçam de reforçar o fundo de apoio indispensável para o equilíbrio financeiro!
(1) SemOutro queartigo sejadeste possívelmesmo nosBoletim alongarmos aqui sobre este ponto, mas voltaremos a ele mais tarde, é preciso destacar uma certa ambiguidade nesta teoriatrata do desenvolvimentofundo do dogma:pensamento apresentadagnóstico como– umaVer justificativapágina da Igreja Católica contra os Protestantes, ela também seria retomada pelos Modernistas alguns anos depois para fundamentar suas concepções evolucionistas em matéria teológica.23.
(2) A "Teoria dos Ramos" pretendia que as três confissões, romana, anglicana e ortodoxa, não passavam de três ramos separados da Única Igreja de Cristo, e que seria fácil fazer desaparecer os mal-entendidos separadores desde que fossem reconhecidos como tais.
(3) A extensão da influência inglesa sobre vários continentes durante os séculos XVIII e XIX levou a Igreja Anglicana a estender seus ramos pelo mundo inteiro, ou quase: Europa, América, Ásia, Austrália. O episcopado anglicano sentiu a necessidade de estreitar seus laços por meio de reuniões periódicas e, a partir de 1867, ocorreram a cada dez anos conferências reunindo todos os bispos anglicanos no Palácio de Lambeth, residência do Arcebispo da Cantuária.
(4) Sim, mas na Igreja Anglicana, busca-se em vão alguém que pudesse se apresentar honestamente como um papa rival do de Roma.
(5) Um autor muito bem informado definiu esteesse tempo como o da "Europa dos príncipes esclarecidos"iluminados", o que é lógico, já quepois é também o tempo dodas "Iluminismo"Luzes".
(6)3) Um fenômeno semelhante ocorreuse duranterepetiu ano momento da crise modernistamoderna no início do século XX. Alguns líderes foram condenados, mas milhares de clérigos modernizantes permaneceram tranquilamente em seusseu lugares,lugar aguardandona expectativa de dias melhores em que pudessem retomar sua ação: como não perceberver que estesesses constituíam o verdadeiro perigo, mais ainda mais do que publicistas demasiadomuito visíveischamativos como um Loisy?
(7)4) Para ser precisoexato sobre esteneste ponto, seria oportunoconviria examinar aqui o caso do Cardealcardeal Rampolla, Secretásecretário de Estado e Franco-Maçom. As dimensões deste estudo não o permitem, mas o fato de colocarlevantar o problema já basta para indicar quais influências múltiplas devem ter atuado.
(5) Alguns exemplos, entre outros – A Federação Francesa de Judô é a entidade esportiva que possui o maior número de licenciados e, entre eles, muitos jovens – Em uma cidade como Lyon, há mais centros de Yoga do que locais de culto católico, e esses centros são frequentemente instalados em estruturas oficiais, como Casas de Juventude, Centros Sociais, onde estão ao alcance do grande público – Finalmente, o número de casas religiosas, geralmente de contemplativos, onde o Yoga e o Zen são praticados como ascese regular, é incontável.