Capítulo XXIV — Romualdo aconselha o futuro São Venério

O venerável homem produziu ainda em Tívoli outro fruto de suas boas obras que, a meu ver, não deve ser passado em silêncio.

Certo bem-aventurado homem chamado Venério começara a viver num mosteiro. Era tão grande sua humildade e simplicidade que todos os irmãos o desprezavam e zombavam dele, julgando-o perturbado e até insano.

Uns o espancavam; outros o encharcavam com a água suja usada para lavar as bacias; outros ainda o dilaceravam com insultos em diversas altercações.

Considerando impossível conservar a mente em tranquilidade no meio de tantas adversidades, Venério abandonou a comunidade e refugiou-se na solidão. Ali perseverou durante seis anos, sem vinho nem alimento cozido, numa austeridade extremamente severa.

Perguntaram-lhe certa vez sob o governo de quem vivia, ou ao juízo de quem submetia sua vida religiosa. Respondeu que, livre do comando de qualquer outro, seguia aquilo que lhe parecia mais conveniente.

Romualdo lhe disse:

“Se carregas a cruz de Cristo, acima de tudo não deves abandonar a obediência de Cristo. Vai, portanto; recebe o consentimento de teu próprio abade, depois volta e vive humildemente sob sua jurisdição. Pois o edifício da obra santa, que a boa vontade constrói, a humildade eleva e a virtude da obediência conduz às alturas.”

Com estas e muitas outras admoestações edificantes, ensinou-lhe como resistir aos pensamentos e como repelir os assaltos dos espíritos malignos. Depois o deixou, fortalecido e instruído, cheio de grande alegria.

Venério acolheu agradecido as instruções do santo homem, dirigiu-se imediatamente ao abade, recebeu sua autorização e retornou sem demora à solidão que amava.

Desejando viver numa propriedade pertencente ao mosteiro, subiu a certa rocha inacessível por qualquer caminho humano e inteiramente afastada da convivência dos homens.

Ali viveu sozinho durante quatro anos, privado de todo auxílio humano. À exceção de três pequenos pães que levara do mosteiro, não comeu pão, não bebeu vinho e não provou alimento cozido; vivia apenas dos frutos das árvores e das raízes das plantas.

Naquela mesma rocha havia uma cavidade em que se acumulava água durante o inverno; dessa água o santo homem se servia ao longo de todo o verão.

Com o tempo, tornou-se conhecido que um servo de Deus vivia ali. Muitos começaram a procurá-lo, levando alimentos e tudo aquilo que julgavam necessário. Ele, porém, nada necessitava e distribuía tudo aos pastores de gado e aos demais necessitados.

Por sua insistência, o bispo do lugar permitiu que se construísse e consagrasse ali uma pequena Igreja.

Nessa Igreja, algum tempo depois, Venério morreu. Alguns homens que o procuravam encontraram-no inclinado diante do altar como se estivesse em oração, apoiado sobre os cotovelos e os joelhos.

Muitos foram os sinais e milagres que o Senhor se dignou realizar ali por seu intermédio.

Assim, em suma, a boa terra devolveu fruto abundante depois de ter recebido da boca de Romualdo a semente da palavra.


Revision #1
Created 21 September 2026 00:30:08 by Admin
Updated 21 September 2026 00:30:18 by Admin