Capítulo XXII — O imperador Otão III obriga Romualdo a aceitar a abadia de Santo Apolinário Naquele mesmo tempo, o jovem imperador Otão desejava prover a abadia de Classe. Deu aos irmãos liberdade de escolha, para que elegessem quem quisessem. Todos, imediatamente e por unanimidade, pediram Romualdo. O imperador, sem saber se seria possível chamar o bem-aventurado homem à corte por meio de um mensageiro, decidiu ir pessoalmente até ele. O sol já se punha quando chegou à cela. Romualdo, por ter recebido tão grande hóspede numa casa tão pequena, julgou conveniente oferecer-lhe o próprio leito para repousar. O rei, porém, recusou a cobertura, porque a considerou excessivamente áspera. Ao amanhecer, o rei levou Romualdo consigo ao palácio e, depois de algum tempo, começou a pressioná-lo com muitas súplicas para que aceitasse a abadia. Romualdo resistiu e recusou inteiramente dar assentimento ao pedido imperial. O rei, porém, ameaçou-o com excomunhão e anátema por parte de todos os bispos e arcebispos reunidos num concílio sinodal. Por fim, diante de tamanha coerção, Romualdo cedeu e aceitou o governo das almas. Costumava dizer, entretanto, que aquilo não lhe parecera novidade alguma, pois lhe havia sido revelado por Deus cinco anos antes. Passou então a governar os monges sob severa disciplina, segundo a Regra, e não permitia que ninguém se afastasse dela sem correção. Nem o nobre nem o homem instruído nas letras ousava desviar-se para a direita ou para a esquerda por atos ilícitos, nem afastar-se da retidão da vida religiosa. O santo homem mantinha os olhos do coração fixos no Céu e, como em todas as coisas se submetia a Deus, não temia desagradar aos homens. Os irmãos perceberam tarde demais quem haviam pedido para ser colocado à sua frente. Começaram a culpar a si mesmos por terem solicitado sua eleição; depois passaram a feri-lo com murmurações e detrações e a atormentá-lo com os duros espinhos das discórdias.