Capítulo XV — A santificação de João Gradenigo O conde Oliba deixou seus bens ao filho, com grande abundância de riquezas — quinze animais de carga carregados de tesouros —, e tomou o caminho do mosteiro do bem-aventurado Bento, acompanhado por Guarino, João e também Marino. Despediu-se daqueles que o haviam acompanhado e que até então nada suspeitavam de sua decisão. Enquanto eles se prostravam entre muitos gemidos e lágrimas amargas, Oliba obrigou-os a regressar para casa. Pouco depois, Marino partiu para a Apúlia. Ali, vivendo em solidão, foi mais tarde morto por salteadores sarracenos. Não muito depois, Guarino, acostumado a percorrer diversos lugares por devoção à oração, e João, estimulado pelo exemplo daquele irmão a seguir a mesma prática religiosa, decidiram de comum acordo viajar a Jerusalém . Ao saber disso, Oliba, triste e chorando, suplicou-lhes com grande insistência que não quebrassem o juramento e não o abandonassem, mas o protegessem no serviço de Deus conforme o bem-aventurado Romualdo havia ordenado. Acrescentou: “Tu, ao menos, João, lembra-te de que teu mestre me confiou particularmente a ti mediante juramento e te ameaçou com a culpa da desobediência caso me abandonasses.” Eles, porém, persistiram obstinadamente em seu propósito. Por fim deixaram Oliba e partiram em peregrinação. Quando desceram da montanha e chegaram à planície, pararam por algum motivo para manejar entre si parte de sua bagagem. Enquanto faziam isso, o cavalo de Guarino virou-se de repente, contra a vontade do cavaleiro, com movimento impetuoso. A ferradura atingiu a perna de João e a quebrou. Prostrado imediatamente por causa da violência da dor, João recordou enfim as ordens do mestre e acusou-se publicamente, em palavras de confissão, de ter sido infiel e culpado de desobediência. Aprendeu, portanto, pela perna quebrada, que era pecado quebrar um juramento. E, porque ele, dotado de razão, não obedecera ao mestre, o animal irracional também não soubera obedecer ao cavaleiro para preservar-lhe a segurança. João voltou então ao lugar que havia pretendido abandonar e pediu que lhe construíssem uma cela junto ao mosteiro. Ali perseverou na santa vida religiosa enquanto viveu, durante cerca de trinta anos. Possuía grande caridade, admirável humildade e uma abstinência ao mesmo tempo severíssima e discreta, de tal modo que ninguém, nem mesmo dentro do claustro, sabia como jejuava. Entre os demais dons recebidos, tinha tão grande aversão ao vício da detração que, assim que alguém abria a boca para falar mal de outra pessoa, a flecha parecia ricochetear numa pedra dura e voltar imediatamente contra aquele que a disparara. Depois de sua morte, muitos milagres foram realizados por Deus por seu intermédio.