Capítulo X — A queda de um conde ganancioso e cruel Certa vez, quando Romualdo ainda permanecia nas regiões da Gália, tinha a seu serviço um camponês que às vezes fabricava para ele os utensílios de que necessitava em sua cela. Mais rico em caridade do que em bens, esse homem também o servia alegremente, com os escassos recursos de sua pobreza, em tudo aquilo que podia. O camponês possuía uma vaca. Certo conde soberbo e inchado de orgulho enviou seus criados para tomá-la violentamente e ordenou que a carne do animal fosse preparada, com voracíssima gula, para seu jantar. O camponês correu então à cela de Romualdo, clamando em altos brados a causa de sua desgraça e lamentando apaixonadamente que lhe tivessem tirado a esperança de sua própria subsistência e a de sua casa. São Romualdo enviou imediatamente um mensageiro ao conde e pediu-lhe, com a mais humilde súplica, que devolvesse ao pobre o animal. O conde, porém, respondeu insolentemente às súplicas, dizendo que poderiam ficar apenas com o cheiro do gordo lombo da vaca, pois ele próprio o comeria naquele mesmo dia. Chegada a hora do jantar, a carne da vaca roubada foi colocada sobre a mesa. A sentença da vingança divina já pairava sobre o conde. Ele cortou para si um pedaço do rim do animal, colocou-o na boca e começou a comer. Subitamente, o pedaço ficou preso em sua garganta com tamanha firmeza que não podia nem descer para o interior nem ser expelido por esforço algum. A passagem de sua respiração ficou obstruída, e ele morreu de modo terrível entre as próprias mãos. Assim, aquele que quisera, contra o servo de Deus, saciar a concupiscência da carne, pelo justo juízo de Deus perdeu a própria vida carnal antes de poder satisfazer sua gula. O título inglês de Phipps emprega  rapacious para o latim rapax , termo que pode indicar alguém voraz, ganancioso, predatório ou espoliador. Aqui se optou por “ganancioso e cruel” no título, preservando no corpo do episódio o sentido concreto de apropriação violenta.