Capítulo I — A vocação religiosa de Romualdo Romualdo, natural da cidade de Ravena, descendia de uma ilustríssima linhagem de duques. Quando chegou à adolescência, começou a levar uma vida dissoluta no pecado da carne, vício pelo qual os homens costumam ser violentamente assaltados nessa idade, sobretudo os ricos. Contudo, sua mente permanecia voltada para Deus, e muitas vezes ele procurava despertar a si mesmo e incitar-se a realizar algo de grande. Mesmo quando se preparava para o passatempo da caça, assim que encontrava em algum lugar do bosque um recanto agradável, seu coração se inflamava de desejo pelo ermo e ele dizia consigo mesmo: “Como os eremitas podem viver bem nestes retiros da floresta! Como podem repousar aqui, tão convenientemente, de todo o tumulto e do ruído do mundo!” Assim, sua mente, inspirada pelo Céu, pressentia no amor aquilo que mais tarde haveria de realizar em obras. Seu pai, chamado Sérgio, entregava-se intensamente aos negócios do mundo e estava inteiramente envolvido nos assuntos seculares. Tendo surgido uma disputa com um de seus parentes pela posse de uma herança, começou a travar contra ele uma hostilidade aberta. Vendo que Romualdo hesitava em participar da contenda e que estremecia profundamente diante do crime de fratricídio, Sérgio começou a ameaçá-lo de deserdá-lo se continuasse com essa disposição. Que mais dizer? Por fim, as duas partes inimigas saíram da cidade até o lugar que era objeto da disputa, tomaram as armas e entraram em combate. Enquanto lutavam corpo a corpo, avançando e recuando, o adversário foi subitamente morto pela própria mão de Sérgio. Romualdo, embora não tivesse desferido golpe algum contra o homem abatido, assumiu penitência por tão grande pecado, porque estivera presente. Dirigiu-se imediatamente ao mosteiro do bem-aventurado Apolinário, em Classe, para ali permanecer quarenta dias em luto e penitência, segundo o costume imposto aos homicidas.