Capítulo 3 Termo 1 O presunçoso Que o presunçoso se julga digno de grandes coisas, sendo indigno delas. Que o presunçoso é excessivo com respeito a si mesmo, mas não com respeito ao magnânimo. Que os presunçosos são insensatos e ignorantes de si mesmos, porque se julgam dignos de bens mais do que são dignos. Termo 2 Os cães Que os cães não se alegram com o odor das lebres, mas com o alimento que lhes é apresentado pelo odor. Termo 3 As carnes Que as carnes bem digeríveis e leves, como as das aves, são saudáveis. Termo 4 Calipso Que Calipso advertia isto: mantém a nau longe da fumaça e da onda. Termo 5 As causas Que as causas parecem ser quatro, a saber: a natureza, a necessidade, a fortuna e o intelecto. Termo 6 O citarista Que, assim como tocando cítara alguém se torna citarista, assim, praticando ações justas, torna-se justo, e assim das demais coisas. Termo 7 O cego Que ninguém censurará o cego por natureza, seja por enfermidade seja por golpe, mas antes terá compaixão dele; aquele, porém, que se tornou cego pela bebida do vinho ou por alguma outra incontinência, todos certamente o repreenderão. Termo 8 Os glutões Que se chamam glutões os que enchem o ventre além da necessidade e tomam para si acima da quantidade que lhes é devida; e tais homens são muito bestiais. Termo 9 A clavícula Que "clavícula" se diz de modo equívoco: a que está sob o pescoço do animal e aquela com que se fecham as portas. Termo 10 O deleite do alimento Que o deleite do alimento é comum e natural, proveniente da natureza comum, porque todo homem apetece o alimento quando tem fome, e o líquido quando tem sede, e às vezes ambos. Termo 11 A causa Que, se ninguém é causa para si daquilo que é fazer o mal, assim também não o é daquilo que é fazer o bem. Termo 12 A concausa Que somos concausas dos hábitos das virtudes. Termo 13 Sobre as circunstâncias Que não é mau tratar das circunstâncias. Termo 14 Da comparação Da comparação do meio com os extremos e dos extremos entre si. Termo 15 Da concupiscência Que a concupiscência e a ira não são causa do involuntário. Que a concupiscência é deleitável e triste, mas a escolha não. Que nas concupiscências naturais poucos erram. Que algumas concupiscências são comuns e outras próprias. Que não é louvável deixar de seguir as concupiscências fracas e não perversas. Que a concupiscência parece ter o caráter de pai e de amigos. Que as concupiscências das coisas boas são louváveis, mas as das coisas torpes são censuráveis. Que as concupiscências venéreas causam loucuras. Que a concupiscência, assim que algo deleitável lhe é anunciado pelo sentido ou pela razão, tende à fruição. Termo 16 Conselho Que ninguém toma conselho sobre as coisas eternas, por exemplo, se o mundo é eterno, e sobre o lado e a diagonal, nem sobre as coisas em movimento que se comportam sempre do mesmo modo. Que o conselho versa sobre as coisas realizáveis que estão em nosso poder. Que nenhum dos lacedemônios toma conselho sobre o modo como os citas melhor se conduziriam. Que o conselho não versa sobre certas disciplinas, por exemplo, de que modo se deve escrever com as letras. Que o conselho versa sobre aquilo que é feito por nós, mas não do mesmo modo, como na prática da medicina, do comércio e da navegação. Que o conselho versa mais sobre a navegação do que sobre a ginástica. Que o conselho versa mais sobre as artes mecânicas do que sobre as ciências, pois a respeito delas duvidamos mais. Que o conselho versa sobre aquilo que na maioria das vezes é incerto, e cujo desfecho se ignora; e quanto menos certo é algo, tanto mais há conselho a seu respeito. Que o conselho não versa sobre as coisas pequenas, mas sobre as grandes, nas quais desconfiamos de nós mesmos como não sendo suficientes para discernir. Que o conselho não versa sobre o fim, mas sobre aquilo que conduz ao fim; assim, o médico não toma conselho sobre a saúde, mas sobre como curar; e dá outros exemplos. Que o conselho versa sobre aquilo que conduz ao fim, de que maneira e de que modo, e se por muitos meios ou por um só, e por qual deles se chega ao fim mais facilmente e da melhor forma. Que aquele que toma conselho parece resolver o posterior no anterior, à maneira de um diagrama. Que todo conselho é uma investigação, mas não reciprocamente. Que, se o último ponto no conselho for impossível de realizar, desistimos dele; mas, se for possível, começamos a agir. Que, nos conselhos, às vezes se buscam os instrumentos, como quando alguém busca um navio, às vezes a necessidade deles; e assim também nos demais casos, às vezes por qual meio, de que modo e por que causa. Que o conselho versa sobre as coisas realizáveis pelo homem, pois o homem é o princípio de suas operações. Que o conselho não versa sobre os singulares que se manifestam ao sentido, por exemplo, se é este o pão de que necessitamos, pois, se houvesse conselho sobre tudo, ele prosseguiria quase ao infinito. Que o objeto do conselho e o objeto da escolha são o mesmo, quando o objeto do conselho está determinado. Que o conselho versa sobre o futuro e sobre as coisas contingentes. Que ninguém toma conselho sobre aquilo que não pode de outro modo ser. Que é preciso tomar conselho por muito tempo, mas executar rapidamente o que se decidiu em conselho. Termo 17 O conselheiro Que o bom conselheiro é aquele que, segundo o raciocínio, é capaz de conjecturar o melhor entre as coisas realizáveis pelo homem. Termo 18 Certeza Que não se deve buscar a mesma certeza em todos os modos das ciências. Termo 19 A ciência política Que compete à ciência política determinar quais disciplinas, dentre o seu número, cada um deve aprender. Que a ciência política tem sob si as mais preciosas dentre as artes, a saber, a militar, a econômica e a retórica. Que os cidadãos enfrentam perigos por causa das repreensões que provêm das leis. Que a ciência política se serve de todas as outras, impondo-lhes o que se deve fazer e do que se deve abster. Que a ciência política visa tornar os cidadãos bons e obedientes às leis. Que se diz que agem politicamente aqueles que operam acerca dos particulares. Termo 20 Convergência Sobre a convergência do intelecto especulativo e do prático, porque ambos versam sobre os extremos, e não sobre a razão. Termo 21 Contínuo Que em todo contínuo divisível é possível tomar isto como maior, aquilo como menor, e este outro como igual. Termo 22 O continente Que o continente, quando opera, permanece na razão, e o incontinente dela se afasta. Que o continente, sabendo que as concupiscências são más, não as segue por causa da razão, mas o incontinente é vencido pela paixão. Que o continente permanece na razão e o incontinente dela se afasta. Que se diz continente aquele que vence as paixões pelas quais muitos são vencidos. Que o continente é o meio-termo entre dois, dos quais uns se deleitam mais do que é preciso, e outros menos. Que o continente e o temperado são capazes, por hábito, de não abandonar a ordem da razão por causa das paixões corporais. Que o continente tem muitíssimas concupiscências, mas não é levado por elas; o temperado, porém, não as tem nem se deleita nelas. Termo 23 Continência Que a continência não é uma virtude, mas algo misturado. Que a continência e a perseverança parecem ser próprias dos virtuosos e louváveis. Que a continência e a incontinência, a temperança e a intemperança, ditas absolutamente, versam apenas sobre as paixões humanas. Que a continência é mais desejável do que a perseverança, assim como vencer é melhor do que apenas conter-se. Que a continência, sendo o meio-termo, está entre o número dos virtuosos. Que a continência e a incontinência versam sobre o que excede o hábito de muitos. Termo 24 O comer carvões Que o comer carvões e terra e o jazer com homens, tudo isso acontece por causa de uma natureza perniciosa e do costume, e a estes não pertence propriamente a continência, visto que não são por si deleitáveis à natureza humana. Termo 25 A cinta da cípria Que a cinta da cípria é variegada. Termo 26 Costume Que o costume é difícil, porquanto se assemelha à natureza. Donde: a meditação prolongada permanece e, quando chega ao perfeito, torna-se natureza nos homens. Termo 27 O concupiscível Que o concupiscível e o apetível participam de algum modo da razão. Termo 28 Contemplação Que a contemplação da sabedoria é amada unicamente por si mesma, porque dela nada resulta senão o contemplar; mas nas coisas operáveis buscamos algo diverso, que adquirimos pela obra. Que o contemplativo é o mais feliz. Que o contemplativo, operando segundo o intelecto, é o mais amado por Deus.