Capítulo 18 Termo 1 Vida Que muitos escolhem a vida voluptuosa, porque creem que o prazer é o sumo bem. Que há três vidas em máximo grau excelentes: a voluptuosa, a civil e a contemplativa. Que os que escolhem a vida voluptuosa, isto é, o prazer, parecem ser bestiais. Que a vida dos felizes é deleitável por si mesma. Que na vida ocorrem muitas mudanças e fortunas de todo tipo, e que acontece sobretudo que aquele que agora abunda venha a cair em máximas calamidades na velhice, como se narra de Príamo. Que a vida do virtuoso não seria deleitável, mas mísera, se as suas operações não fossem deleitáveis. Que a vida do feliz é deleitável por si, não necessitando de um deleite exterior sobreacrescentado. Que a vida do solitário é difícil. Que a vida do justo e do bem-aventurado é beatíssima, e para estes a vida é mais preferível. Que a vida segundo a natureza é um bem deleitável e preferível, e sobretudo a vida dos bons, que se deleitam nisto: em perceber ao mesmo tempo, enquanto operam aquilo que é bom por si. Que a vida é uma certa operação. Que a vida que é segundo a felicidade contemplativa é melhor do que a vida que é segundo o homem, na medida em que o homem (homo) recebe seu nome do solo (humus). Que a vida bem-aventurada está nos homens tanto quanto eles têm de semelhança com a operação intelectual. Termo 2 Viver Que o viver e o sentir se determinam nos animais pela potência do sentido, nos homens pelo sentido e pelo intelecto; ora, a potência se reduz à operação. Que o viver, por ser como que algo determinado, segundo a posição de Pitágoras, é naturalmente bom. Que todos apetecem o viver. Que cada um deve escolher o seu próprio viver mais do que o de outro; ora, o viver próprio do homem mesmo é segundo o que nele há de ótimo, isto é, o intelecto, pois isto é sobretudo o homem. Termo 3 Virtude Que a virtude é melhor do que a honra, e é mais racional estimar que ela seja o sumo bem. Que a virtude está no homem quando ele dorme e nada opera, e quando suporta muitos males e infortúnios. Que escolhemos a virtude por si mesma e as demais coisas por causa da virtude. Que cada coisa se aperfeiçoa segundo a sua própria virtude. Que dizemos que umas dentre as virtudes são intelectuais e outras, morais. Que aquilo que é segundo a virtude é deleitável e não triste, ou minimamente triste. Que é virtude entristecer-se e deleitar-se com aquilo que é preciso e como é preciso. Que a virtude moral se gera a partir do costume, do qual também recebe o nome, e pouco se afasta dele. Que as virtudes morais não estão em nós por natureza nem para além da natureza, mas é inato em nós recebê-las, e sermos aperfeiçoados pela habituação. Que toda virtude se produz e se corrompe a partir das mesmas coisas. Que as virtudes se corrompem pelas operações que são segundo o excesso e o defeito e se preservam pelo meio-termo; e apresenta um exemplo sobre a fortaleza e a saúde. Que a virtude moral versa sobre os prazeres e as tristezas. Que as virtudes são certas impassibilidades e quietudes, segundo Plotino. Que a virtude é operativa do que há de melhor a respeito dos prazeres e das tristezas. Que, para a virtude, escolher e agir firmemente não pode pouco, mas tudo, pois é por praticar muitas vezes atos justos e temperados que se chega a ela. Que alguns, filosofando pela razão acerca da virtude, querem tornar-se virtuosos, e tais assemelham-se aos doentes que ouvem o conselho do médico e nada fazem daquilo que ele prescreve. Pergunta-se o que é a virtude. Que somos louvados segundo as virtudes e censurados segundo os vícios. Que segundo as virtudes não somos movidos, mas dispostos com a devida perfeição. Que as virtudes não são potências; pois nem somos ditos bons por causa da capacidade de padecer, nem somos louvados nem censurados por isso. Que as virtudes segundo as quais somos bons não provêm da natureza. Que as virtudes são hábitos. Pergunta-se qual hábito é a virtude quanto à espécie. Que a virtude aperfeiçoa quem a possui e torna bom o seu ato; e exemplifica. Que a virtude do homem é o hábito pelo qual o homem se torna bom e pelo qual é bom o seu ato. Que a virtude é mais certa e melhor do que toda arte. Que a virtude é a que visa o meio-termo; e esta é a virtude moral. Que a virtude moral versa sobre as paixões e as operações nas quais o excesso é vicioso e o defeito é censurado, ao passo que o meio-termo é louvado. Que a virtude é uma certa mediania. Que a virtude é um hábito eletivo que consiste numa mediania relativa a nós, determinada pela razão e tal como certamente a determinará o sábio. Que a virtude consiste em encontrar o meio-termo. Que a virtude é a mediania entre dois vícios. Que a virtude moral versa sobre as paixões e as operações. Que a virtude não é mais voluntária do que o vício. Que as virtudes são medianias, o que pertence ao gênero próximo, e que são hábitos, o que pertence ao gênero remoto, e existem em nós voluntariamente e seguem o juízo da reta razão. Que é mais próprio da virtude fazer o bem do que receber o bem. Que não é a mesma a virtude da posse e a da operação. Que para a virtude perfeita não há honra digna como prêmio suficiente. Que sem virtude não é fácil suportar as boas fortunas, porque por causa das riquezas tais homens tornam-se viciosos, desprezando os outros. Que a virtude que versa sobre as honras parece ser indefinida e seus extremos, duvidosos. Que a virtude que se dá nas conversas e nos convívios não tem nome próprio; parece, porém, assemelhar-se à amizade. Que as virtudes da alma são morais e intelectuais. Que a virtude é o melhor hábito pelo qual algo se aperfeiçoa para a obra. Que a virtude moral é um hábito eletivo. Que as virtudes intelectuais são cinco: a arte, a ciência, a prudência, a sabedoria e o intelecto. Se as virtudes intelectuais são úteis ao homem. Que as virtudes morais fazem o homem bom. Que as virtudes intelectuais são desejáveis por si mesmas. Que a virtude moral torna reta a escolha. Que a operação da virtude e a felicidade não são qualidades. Que nas virtudes se dá o mais e o menos; pois há homens mais justos e mais fortes, e é possível agir de modo justo e temperado em maior e menor grau. Que a virtude e o virtuoso são a medida de todas as coisas humanas. Que a virtude moral necessita de bens exteriores para a sua operação, pois o liberal precisará de dinheiro para praticar atos liberais, e o justo, para pagar o que deve; pois a vontade não basta, uma vez que os injustos fingem querer agir com justiça. Que a virtude é duradoura. Que a virtude e o homem virtuoso parecem ser a medida para cada um. Que é o mais principal na virtude moral, se a escolha ou a ação exterior. Termo 4 O virtuoso Que no virtuoso tudo está em consonância com a razão. Que o virtuoso concorda consigo mesmo e deseja as mesmas coisas e quer para si mesmo os bens aparentes e os realiza, porque é próprio do bom empenhar-se pelo bem, e isso por causa de si mesmo. Que o virtuoso não se arrepende. Que o virtuoso se comporta em relação ao amigo como em relação a si mesmo. Que o virtuoso é o que mais é filauto, isto é, o que mais ama a si mesmo, porque atribui a si mesmo as coisas ótimas e concede o máximo àquilo que é mais principal, isto é, ao intelecto, ao qual as demais coisas obedecem, assim como a cidade parece ser sobretudo aquilo que nela é mais principal. Que o virtuoso dista daquele amante que é censurado tanto quanto dista o viver segundo a paixão do viver segundo a razão, e tanto quanto dista o apetecer o bem absolutamente do apetecer o que parece ser conveniente. Que o virtuoso é louvado e acolhido por todos; de suas obras provêm bens para todos; e por isso é sobretudo filauto. Que o virtuoso e o epieikes obedecem ao intelecto. Que o virtuoso se dirige acerca de todas as coisas elegíveis, que são três: o honesto, o útil e o deleitável; e o mau peca nisso. Que o virtuoso é a regra e a medida dos bens. Que o virtuoso faz muitas coisas por amor dos amigos e da pátria; pois desprezará as riquezas, as honras e, em suma, os bens disputados, procurando para si os bens, isto é, as obras das virtudes. Que o virtuoso prefere deleitar-se intensamente por pouco tempo nas obras virtuosas a deleitar-se por muito tempo em pequenas obras, ainda que das virtudes, e prefere também uma só ação boa, como quem morre, a muitas e pequenas, isto é, vivendo. Que o virtuoso concede ao amigo as ações das virtudes e o faz operar as obras das virtudes. Que o virtuoso, em todas as coisas máximas em bondade e louváveis, parece atribuir mais a si mesmo, e assim é preciso que ele seja filauto. Que o virtuoso ou estudioso é ao mesmo tempo deleitável e útil; mas tal homem não se torna amigo de quem é superexcelente em poder, a não ser que o superexcelente em poder seja por ele superado em virtude; mas tais coisas não costumam de todo acontecer. Que ser virtuoso é difícil. Termo 5 Marido Que o principado do marido em relação à esposa parece ser uma aristocracia; pois, segundo aquilo que convém ao marido, o marido governa e deixa à esposa o que a ela é conveniente. Que o marido que quer dominar em tudo e não deixar nenhum domínio à esposa transpõe o seu regime em oligarquia. Que as obras do marido e da esposa, postas em comum, bastam-lhes reciprocamente. Que o marido e a esposa se unem principalmente por causa dos filhos, e, quando são estéreis, mais rapidamente se separam. Que as esposas às vezes governam, sendo herdeiras, e tais principados não se dão segundo a virtude, mas por causa das riquezas e do poder, como nas oligarquias. Termo 6 Uso Que o uso torna forte, e de modo semelhante nas virtudes da alma. Termo 7 Vergonha Que a vergonha não convém a toda idade, mas à juvenil; pois estes precisam ser envergonhados, porque neles há muitos pecados por causa do ímpeto das paixões, mas são refreados pela vergonha; e louvamos os jovens envergonhados, ao passo que nenhum velho é louvável por ser envergonhável. Que a vergonha não pertence ao estudioso, visto que só existe acerca das coisas más, que o estudioso não pratica. Que a vergonha, por suposição, será do estudioso, porque, se ele praticasse coisas torpes, se envergonharia de modo estudioso e louvável; mas isso não ocorre nas virtudes, que sejam louvadas por alguma suposição, mas por si mesmas. Que o envergonhado é louvado como meio-termo, ao passo que o que excede é kataplex, e o deficiente é o sem-vergonha, que de modo algum se envergonha. Que a vergonha se assemelha mais a uma paixão do que a um hábito. Que a vergonha é um certo temor da desonra. Que a vergonha se realiza por certa alteração do corpo; pois os envergonhados enrubescem, ao passo que os que temem a morte empalidecem. Termo 8 Cada um Que se diz que cada um faz sobretudo aquilo que faz o intelecto, porque cada um é o intelecto ou é sobretudo o intelecto. Termo 9 Vontade Que a vontade do legislador é tornar bons os cidadãos pelo costume. Que a vontade é das coisas impossíveis, por exemplo, das imortais. Que a vontade se refere àquilo que de modo algum foi realizado por ela mesma, por exemplo, que algum hipócrita vença. Que a vontade é do fim, por exemplo, queremos a saúde. Que a vontade parece a alguns ser do bem por si, a outros, do bem aparente. Que, se a vontade é do bem por si, sucede que o mal seja bem; e, se for somente do bem aparente, os contrários serão objeto de uma só potência. Que a vontade é das coisas torpes e das boas. Termo 10 O querível Que o querível é o bem absolutamente, que abstrai de qualquer diferença do bem. Termo 11 O voluntário Que os louvores e os vitupérios são voluntários. Que talvez seja necessário determinar o que é voluntário e o involuntário para os que se dedicam ao estudo da virtude. Que é voluntário aquilo cujo princípio está no agente que move organicamente. Que é voluntário aquilo cujo princípio está naquele mesmo que conhece as circunstâncias singulares e aquelas em que se dá a ação. Que o voluntário se estende a mais do que a escolha, pois do voluntário participam as crianças e os demais animais, mas não da escolha. Que é voluntário aquilo que alguém realiza dentre as coisas que estão em seu poder, sabendo e não ignorando nem quem, nem por que meio, nem em vista de quê. Que não são voluntárias todas as coisas que fazemos sabendo, pois muitas das coisas existentes por natureza tanto fazemos quanto padecemos sabendo, e nenhuma delas é voluntária nem involuntária, como envelhecer ou morrer. Que, dentre as coisas voluntárias, umas realizamos por prévia escolha, outras sem prévia escolha. Que, para aquelas coisas que não são voluntárias nem estão em nosso poder, ninguém incita a agir, por exemplo, a não se aquecer, ou a sofrer dor, ou a ter fome, ou qualquer outra coisa semelhante. Termo 12 As coisas feitas sob violência Que tudo o que se faz sob violência se faz com tristeza. Que é violento aquilo cujo princípio é de tal modo que nada contribui para ele quem padece ou quem age. Termo 13 O homem veraz Que o homem veraz, mantendo-se no meio, dizendo a verdade e fugindo da mentira, é digno de louvor. Que é veraz aquele que, no discurso e na vida, diz a verdade, por ser tal segundo o hábito; e tal homem é temperante e moderado. Termo 14 O que diz a verdade Sobre os que dizem a verdade e os que dizem a falsidade, os quais se comportam de modo semelhante nos discursos e nas ações, e sobre a simulação. Termo 15 O de pouco valor Que a veste dos lacedemônios era de pouco valor, e por isso queriam mostrar sua abstinência, e tal atitude parece jactância. Termo 16 O vendedor Que o vendedor de cominho e todo aquele assim chamado recebe o nome do excesso daquilo que consiste em nada dar a ninguém. Termo 17 O perdão Que se concede o perdão àqueles que realizam algo torpe por causa de perigos que ultrapassam a vida humana. Termo 18 A verdade Que a verdade é uma mediania acerca do verdadeiro; aquele que excede é o jactancioso, e aquele que fica aquém é o dissimulado. Que a verdade é obra de ambas as partes intelectivas. Que dizer a verdade não basta, mas é preciso indicar a causa do falso; pois isto contribui para a convicção. Termo 19 O verdadeiro e o falso Que o verdadeiro e o falso são obra da mente especulativa. Termo 20 O universal Que o universal provém dos singulares, dos quais é preciso ter a percepção sensível. Termo 21 O censurável Que, nos prazeres por natureza dignos de escolha e nos intermediários, o censurável não é simplesmente desejar e ser afetado, mas amar de modo excessivo, como Níobe rebelde. Termo 22 Sobre a víbora Sobre a víbora pela qual foi picado Teodecto. Termo 23 O último Que o que é último na resolução é primeiro na geração. Termo 24 Os viris Que os viris se envergonham, isto é, evitam, que os amigos se entristeçam com eles, e, se a tristeza não for tão grande que ultrapasse suas forças, de modo algum suportam que se compadeçam deles, pois, como eles próprios não são dados ao pranto, não se comprazem em que alguém se lamente com eles; mas os homens efeminados alegram-se com que alguns sejam igualmente afligidos pela tristeza; tais homens, porém, não se devem imitar, mas sim o viril. Termo 25 Visão Que, segundo a visão, é sumamente deleitável a presença do amigo, assim como, entre os amantes, ver é o que há de mais deleitável, e os amantes preferem este sentido aos outros.