# Prefácio > “É possível encontrar integridade sem a graça da ciência; mas é impossível possuir ciência espiritual sem a castidade da integridade.” — São João Cassiano, *Institutas*, VI, XVIII São João Cassiano é um dos grandes pilares da espiritualidade latina. Seus escritos constituem uma ponte providencial entre a tradição monástica e eremítica do Oriente cristão e o monasticismo beneditino do Ocidente. Após conviver com os monges e Padres do deserto, Cassiano passou por Constantinopla, onde foi ordenado diácono por São João Crisóstomo, de quem se tornou discípulo e defensor. Nas Institutas, apresenta de modo ordenado e sintético o aprendizado recebido nesse convívio com a tradição ascética oriental; nas Conferências, transmite os diálogos espirituais que ele e Germano tiveram com os grandes abades do orientais. Seus livros foram recomendados por santos, monges e doutores, e exerceram profunda influência sobre a espiritualidade da Igreja. São Bento, em sua Regra, não apenas recomenda Cassiano, mas propõe sua leitura aos monges como fonte segura de formação ascética e doutrinal. Por isso, voltar a Cassiano é retornar a uma das raízes vivas da tradição espiritual cristã. Nesta seleção de trechos, Cassiano analisa minuciosamente a rebelião dos instintos da carne contra a razão e apresenta um verdadeiro itinerário de purificação e santificação. Ele perscruta o modo como o Inimigo ataca a alma do cristão desde os primeiros movimentos da luxúria e conduz o leitor, passo a passo, até os altos cumes da castidade. A força de sua abordagem não está em revelar algum segredo desconhecido da luta contra a carne, mas em oferecer uma análise sistemática, realista e transformadora dos movimentos da alma e do corpo durante o combate espiritual. Não raro, tradutores e editores omitiram a *Instituta* VI e trechos das *Conferências* XII e XXII por causa da delicadeza do tema e da descrição direta de certos movimentos da carne e de seus fatores fisiológicos. Nesta edição, porém, decidimos apresentar esses textos de modo íntegro, pois não é possível tratar adequadamente o paciente sem antes reconhecer com precisão os sintomas da doença. Respeitando o pudor devido ao leitor, vertemos certos termos latinos da maneira mais discreta possível, sem comprometer a clareza necessária à compreensão do ensinamento. Cassiano não trata da castidade como um ideal abstrato, nem como simples repressão exterior. Para ele, a pureza do corpo depende da pureza do coração; a continência só se torna perfeita quando é transfigurada pela graça; e a castidade verdadeira não é apenas ausência de queda, mas paz interior, integridade da alma e liberdade diante dos movimentos desordenados. Por isso, estes textos devem ser lidos não como curiosidade sobre uma matéria delicada, mas como uma escola de humildade, vigilância, oração e confiança na misericórdia divina. Esperamos que estes ensinamentos convençam o leitor de que a pureza não apenas merece ser buscada, mas também pode ser alcançada pela graça de Deus. Que estas páginas movam à contrição e à conversão, reacendam o amor pela santidade e inflamem todos os que as lerem com a sabedoria espiritual de São João Cassiano. M.L.