# O Tratado da Reintegração O primeiro episódio típico que escolhemos é o aparecimento das teorias martinistas. Dois doutrinários contribuíram para dar nome ao martinismo: são **Martinez-Pasqualis** e **Louis-Claude de Saint Martin**. Façamos notar, para os puristas, que o nome "martinismo" deveria ser reservado mais especialmente à doutrina de L-C. de Saint Martin, enquanto a de Martinez-Pasqualis deveria ser chamada de "martinezismo". E é exatamente o que fazem os especialistas nessas questões. Mas as duas doutrinas são próximas e, vistas de longe, elas podem responder à mesma denominação de "**martinismo**". Martinez-Pasqualis (às vezes também escrito M. de Pasqually) é o fundador da *Ordem dos Eleitos Coens* e o autor de uma obra de grande influência intitulada "*O Tratado da Reintegração*" que contém tanto a doutrina religiosa quanto o regulamento da Ordem. A doutrina religiosa é baseada nesse mesmo emanatismo que mostramos nos antigos gnósticos. Todos os seres do Universo são emanados da Divindade, por um fluxo de sua própria substância. A alma humana, em particular, pertence aos espíritos emanados. Ela é, portanto, **divina** em sua natureza. Todas as almas foram formadas ao mesmo tempo e elas esperam, na morada celestial, serem, uma após a outra, unidas a um corpo, à medida das necessidades. Antes de ser aprisionada em um corpo material, a alma levou uma vida "supraceleste". Após a morte desse corpo, ela está normalmente destinada à **reintegração**, ou seja, à recuperação dessa vida supraceleste. Para poder desfrutar, no além, da reintegração, a alma deve já nesta terra passar pela **reconciliação**. E essa reconciliação é operada por "espíritos reconciliadores". É exatamente o trabalho dos Eleitos Coens proceder a essas reconciliações preparatórias à reintegração supraceleste e definitiva. Coen, em hebraico, significa **sacerdote**. A função dos Eleitos Coens é uma função **sacerdotal**. Ela consiste em "reconciliar" os adeptos da Ordem. No fim dos tempos, quando todas as reintegrações individuais tiverem sido realizadas, todo ser emanado, toda existência distinta, retornará a se perder na fonte primeira. Toda emanação será reabsorvida na Divindade que lhe deu origem. Há aí uma noção, aparentada ao **nirvana**, que deixa pressentir uma abertura da gnose moderna em direção às doutrinas orientais. *O Tratado da Reintegração* dedica amplos desenvolvimentos às disposições psicológicas nas quais o eleito-coen deve se colocar, tanto durante o período que precede a cerimônia da reconciliação quanto posteriormente, quando ele prepara sua reintegração supraceleste. A prática da **meditação intensa** lhe é recomendada. A mística de Martinez-Pasqualis decorre logicamente dos princípios da gnose. Sabe-se que a gnose não é uma doutrina de "comportamento", mas uma doutrina de "conhecimento". Que quer dizer isso? O mundo terrestre é devido à ignorância do demiurgo e da Sophia que são seus criadores, como vimos, e é por isso que ele é mau. Ele é mau porque é uma morada de ignorância. Não se liberta deste mundo mau por um "comportamento" qualquer que seja. Liberta-se dele fazendo **cessar a ignorância** que é a causa do mal. O que é necessário é compensar a ignorância original pelo **conhecimento**. E como se obtém o conhecimento? Pela intuição mística, ou seja, pelo contato direto da alma com o mundo transcendente. Tal é, com variantes, a posição de todos os gnósticos e tal é também a base da mística martinista. As posições relativas do homem, da alma e da divindade assim definidas por tudo o que acabamos de dizer, elas vão implicar nos gnósticos uma atitude contemplativa particular. A alma do gnóstico é considerada divina em sua natureza e ela busca reintegrar o estado "supraceleste" do qual ela desfrutava antes de sua descida à Terra. Dado este objetivo, a contemplação martinista pode ser considerada como pertencendo às "**místicas da essência**", já que ela dirige a alma humana para a recuperação de sua suposta essência original. Na doutrina da Igreja, não é assim de modo algum. A alma humana não é emanada de Deus, mas criada por Ele. De sua própria natureza, ela não tem nada de divino, pois, precisamente, Deus a criou do nada. Mas se a provação terrestre lhe for favorável, a alma está destinada a participar da vida divina. Trata-se de uma participação sem perda de identidade. Mesmo no auge da bem-aventurança, a alma nunca se confunde com a substância espiritual de Deus. Poderá haver uma infusão de Deus nela; nunca haverá confusão com Deus. *O Tratado da Reintegração* dedica longos trechos aos métodos contemplativos pelos quais a alma do eleito-coen pode recuperar o lugar arquetípico que ocupava na essência divina antes de se dela destacar por emanação. Ele fala da "Coisa" que deve ser evocada e invocada com perseverança, a "Coisa" que acaba por "passar" acima da assistência, provocando, no espírito dos candidatos à **reconciliação**, imagens, cores, sons e toda sorte de fenômenos psicológicos. O católico que toma conhecimento desses ritos martinistas de encantação tem o direito de se perguntar quais eram então os espíritos que podiam bem responder assim, nos ateliês dos Eleitos-Coens, a essas evocações. Certamente não eram anjos do céu. A síntese gnóstica contida no *Tratado da Reintegração* é extremamente **completa**. Martinez-Pasqualis retirou seus elementos tanto do pitagorismo quanto das doutrinas de Zoroastro, da cabala quanto dos rosacruzes do século XVII. Ela é o fruto de uma cultura muito vasta. Sua **influência** foi **profunda**. Haveria muito a colher nela, mas não podemos nos demorar nessa obra apesar de sua importância. Escolhemos reter apenas os trechos relativos à mística, pois ela está no coração de toda a gnose, tanto da moderna quanto da antiga. Ramificação do velho *micélio* gnóstico, o broto martinista não é o único que desabrochou nas férteis estufas das lojas do século XVIII. Houve muitos outros. Mas, obrigados a nos limitar a episódios marcantes, nós o escolhemos, talvez um pouco arbitrariamente, como um dos mais típicos. O que é certo é que *O Tratado da Reintegração* exerceu, por mais de um século, uma **influência** **considerável**.