Lição 12: O sujeito do crescimento não é algo incorpóreo ou desprovido de grandeza 87. Depois de mostrar em que o crescimento se distingue da geração e da alteração, o Filósofo começa aqui a investigar o modo pelo qual o crescimento se dá: primeiro, quanto ao sujeito que cresce; segundo, quanto àquilo pelo qual algo cresce (L. 14). Sobre o primeiro ponto, ele faz duas coisas: primeiro, levanta uma questão; segundo, investiga a verdade da questão, em 88. Sobre o primeiro ponto, ele faz duas coisas: Primeiro [85], expõe o que é evidente acerca do crescimento e pergunta em torno de quê se dá a mudança de crescimento e de diminuição. E responde que o movimento de crescimento e de diminuição se mostra relativo à grandeza [tamanho]. Segundo [86], mostra o que ainda resta investigar e diz que devemos decidir ainda como se dão o crescimento e a diminuição. E, quanto ao sujeito do crescimento, levanta primeiro esta questão: Devemos supor que pelo crescimento se produz tanto a grandeza quanto o corpo a partir daquilo que está em potência à grandeza e à corporeidade, de tal modo, a saber, que esta [fonte] seja incorpórea em ato e sem grandeza? Em seguida, subdivide a primeira parte da questão. Pois há duas maneiras de se dizer que existe alguma matéria em ato sem corporeidade e sem grandeza. Por isso é razoável perguntar, se tal matéria é o sujeito do crescimento, como o crescimento se produz a partir dela. A matéria que existe sem corporeidade e sem grandeza tem existência separada, por si mesma, ou está em algum corpo, mas não como parte dele (pois, se fosse parte, estaria sujeita à corporeidade e à grandeza do corpo)? 88. Então [87] ele responde à questão levantada: primeiro, com um argumento baseado na matéria ou sujeito; segundo, com um argumento baseado no crescimento (L. 13). Sobre o primeiro ponto, ele faz duas coisas: primeiro, responde à referida questão com uma razão baseada na matéria, tal como ele a concebe; segundo, com uma baseada na matéria tal como a concebem os platônicos (L. 13). Sobre o primeiro, ele faz três coisas: primeiro, rejeita o primeiro membro da segunda divisão, a saber, que a matéria sem quantidade exista como entidade isolada; segundo, rejeita o segundo membro da segunda divisão, a saber, que a matéria existente sem grandeza esteja presente em algum corpo, em 89; terceiro, conclui o que se propunha, em 90. Diz, portanto, primeiro [87], que ambos os membros da segunda divisão são impossíveis. Primeiro mostra isso quanto à impossibilidade de a matéria, existindo sem grandeza, ter uma existência separada. Se fosse separada, seguir-se-ia uma de duas coisas. Uma é que não ocuparia lugar algum, como no caso do ponto, que não tem lugar, já que todo lugar tem alguma dimensão. Ou então, se a matéria existente sem quantidade ocupasse um lugar, este teria de ser um lugar vazio (pois chamamos "vazio" um lugar não preenchido por um corpo perceptível); ou teria de ser um certo corpo imperceptível (pois alguns sustentam que o vazio nada mais é que um corpo imperceptível). É necessário, com efeito, chamar o vazio de corpo por causa das dimensões do espaço, mas imperceptível, por causa da vacuidade. Dessas duas hipóteses, uma é impossível, a saber, que haja um vazio ou um corpo imperceptível. Do mesmo modo, é impossível que a matéria existente separadamente não possua lugar. Pois a matéria é aquilo a partir de que os corpos sensíveis são gerados. Mas aquilo a partir de que os corpos sensíveis são gerados deve existir em algum lugar. Pois sempre observamos que o que é gerado a partir dela está "em algum lugar", isto é, em algum lugar determinado: o que é gerado a partir de algo está no mesmo lugar em que estava aquilo de que é gerado. Logo, aquilo de que algo é gerado, a saber, a matéria, deve estar em algum lugar, seja per se, seja per accidens: per se, segundo a opinião dos primeiros filósofos, que puseram como matéria dos corpos naturais algum corpo em ato, como o fogo, o ar ou a água; per accidens, porém, segundo a opinião de Platão e dos seus, que supuseram a matéria como ser em potência. 89. Então [88] rejeita o segundo membro, mostrando que a matéria separada da grandeza não está presente em coisa alguma. Primeiro declara sua intenção e diz que, se a matéria existente sem grandeza estivesse num corpo, separada da substância do corpo de modo a não pertencer ao corpo nem per se nem per accidens, seguir-se-iam muitas impossibilidades. E dá um exemplo dessa maneira de supor: por exemplo, poderíamos pôr que, quando o ar é gerado a partir da água, isso não se dá por uma mudança da água, de modo que a matéria da água perca a forma de água e receba a forma de ar, mas como se a matéria do ar estivesse na água como num recipiente. Segundo [89], apresenta argumentos que levam à impossibilidade. O primeiro é que, se há na água não apenas a sua própria matéria, mas também a matéria do ar, então, pela mesma razão, poderia haver ali outra matéria, e assim ao infinito, sobretudo porque é possível gerar sucessivamente uma infinidade a partir de um só. Consequentemente, nada impediria que houvesse uma infinidade de matérias na água. Mas, dada qualquer matéria, algo pode ser gerado em ato. Portanto, seguir-se-ia que uma infinidade de coisas poderia ser gerada em ato a partir de uma só e mesma água, com base em que tudo o que pode ser gerado em potência pode ser gerado em ato, todo de uma vez. O segundo argumento está em [90]. E diz que não observamos algo ser gerado de outro (por exemplo, o ar a partir da água) como o que sai de algo permanente, do modo como, por exemplo, o vinho escorre de um tonel que permanece inalterado. Pois vemos as coisas serem geradas a partir do que foi corrompido, como se disse acima. Mas deve-se tomar o que é evidente ao sentido como princípio [ponto de partida] na ciência natural. 90. Então [91] conclui a verdade e diz que é melhor dizer que a matéria está presente em todas as coisas de tal modo que não esteja separada delas, como se não fosse parte delas, e que a matéria de todas as coisas é numericamente una e a mesma e difere apenas segundo a concepção, como se disse acima. Segundo isso, ela não estará separada da grandeza, mas estará sujeita à grandeza em ato em cada uma e em todas as coisas.