CAPÍTULO 15 - 446a 20 – 447a 11
446a 20 Mas alguém levantará uma objeção: os objetos sensíveis, ou os movimentos causados pelos objetos sensíveis, de qualquer modo que a sensação ocorra, chegam primeiro a um ponto intermediário quando agem? O odor e o som parecem fazê-lo: pois quem está mais perto sente o odor mais cedo, e o som chega depois da pancada. Dá-se, então, o mesmo no caso do objeto visível e da luz?
446a 26 Empédocles diz que a luz do sol chega, desse modo, a um ponto intermediário antes de chegar ao sentido da vista ou à terra.
446a 28 Poderia pensar-se razoável que é isso o que acontece. Pois o que se move move-se de algo a algo, e por isso há necessariamente um tempo em que se move de um ao outro. Mas todo intervalo de tempo é divisível. Assim, houve um tempo em que o raio não era visto, mas ainda estava sendo conduzido no meio.
446b 2 Tudo simultaneamente ouve e já ouviu e, em geral, sente e já sentiu. Não há geração das sensações; elas não têm vir-a-ser. Contudo, o som não está já no sentido da audição quando se dá a pancada. A reconfiguração das letras, quando são levadas através de um meio, o torna claro: as pessoas aparentemente não ouviram o que foi dito, porque o ar levado se reconfigura ao ser levado. Assim é no caso da cor e da luz: pois não é o caso de que este veja e aquele seja visto se estão relacionados de um modo qualquer. Assim é com as coisas iguais: nenhuma precisa estar em lugar determinado, pois, quando as coisas são feitas iguais, não faz diferença se estão perto ou longe uma da outra.
446b 13 Por outro lado, é razoável que isso aconteça no caso do som e do odor. Pois o ar e a água são, de certo modo, contínuos, mas os movimentos de ambos são divisíveis. Por isso também é a mesma coisa que o primeiro e o último ouvem e cheiram, mas de certo modo não é. Mas a alguns parece haver uma objeção também quanto a isso. Pois alguns dizem que é impossível que cada um, por meio do que é diferente, ouça, veja e cheire a mesma coisa. Pois não é possível que muitos, afastados uns dos outros, ouçam e cheirem a mesma coisa, isto é, que ela seja cortada de si mesma. Por outro lado, todos sentem o motor original, por exemplo o marmelo, o incenso ou o fogo, que é numericamente um e o mesmo. O que é individual é numericamente diferente, mas especificamente o mesmo. Portanto, muitos simultaneamente veem, cheiram e ouvem.
446b 25 Mas essas coisas não são corpos, e sim uma afecção e um movimento. Pois, de outro modo, isso não aconteceria. Tampouco são independentes de corpo.
446b 27 Mas a explicação da luz é diferente, pois há luz por meio de um único ser, mas não há um movimento.
446b 28 Em geral, alteração e translação não são semelhantes. Pois é razoável que as translações cheguem primeiro a um ponto intermediário; e o som parece ser um movimento de translação. Mas o que é alterado não é assim.
447a 1 Pois pode acontecer que um todo seja alterado de uma só vez, não primeiro a metade dele, por exemplo quando todo um corpo de água se solidifica de uma só vez.
447a 3 Contudo, se o que é aquecido ou solidificado é grande, o contíguo é afetado pelo contíguo. Mas o primeiro é necessariamente alterado, de uma só vez e instantaneamente, pelo próprio agente. E o gosto seria como o odor se existíssemos na umidade e o sentíssemos de longe antes de tocá-lo.
447a 8 Mas é razoável, onde a parte sensitiva tem um meio, que nem tudo seja afetado de uma só vez, exceto no caso da luz, pelo que se disse acima, e, pela mesma razão, no caso do ver: pois a luz causa o ver.
Comentário
446a 20 Depois de seguir a primeira questão, que diz respeito às próprias coisas sensíveis, o Filósofo passa aqui à segunda questão, que diz respeito à alteração da potência sensitiva pelos objetos sensíveis.
Sobre este ponto, faz três coisas. Primeiro, levanta a questão. Segundo, argumenta-a, onde diz Empédocles diz (446a 26). Terceiro, resolve-a, onde diz Por outro lado (446b 13).
Sobre o primeiro ponto, deve-se considerar que, como se estabeleceu acima, alguns sustentaram que a potência sensitiva é mudada pelas coisas sensíveis por via de emanação, de modo que são as próprias coisas sensíveis, isto é, as emanações delas, que chegam à potência sensitiva. Mas o próprio Aristóteles sustentou que as coisas sensíveis mudam o meio por via de certa alteração, de modo que são mudanças desse tipo que chegam à potência sensitiva.
Há, pois, uma questão, de qualquer modo que a sensação ocorra: se os próprios objetos sensíveis (segundo a opinião dos outros) ou as alterações causadas pelos objetos sensíveis (segundo a opinião do próprio Aristóteles) chegam primeiro a um ponto intermediário antes de chegar à potência sensitiva. Não há dificuldade quanto a isso no caso da audição e do olfato, pois é claro que se sente o odor mais cedo de perto e, de modo semelhante, que o som chega à audição depois de ocorrer a pancada que causa o som, como pode perceber claramente quem vê a pancada de longe. E é claro que esta questão não tem lugar no caso do paladar e do tato, porque não percebem por um meio externo. Por isso a dificuldade parece ser só quanto à vista, isto é, se um objeto visível e a luz que causa o ver chegam primeiro a um ponto intermediário antes de chegar à potência sensitiva ou a algum termo.
446a 26 Então, quando diz Empédocles diz, levanta uma objeção acerca da questão formulada.
Primeiro, argumenta pelo lado falso da questão. Segundo, elimina uma solução falsa, onde diz Tudo simultaneamente ouve (446b 2).
Argumenta, em resposta à questão, primeiro pela autoridade de Empédocles, que dizia que a luz que procede do sol chega primeiro a um ponto intermediário antes de chegar ao sentido da vista que vê a luz, ou à terra que é vista por meio da luz e além da qual o raio do sol não prossegue.
Tocou nesta questão em Sobre a Alma II, mas refutou a opinião assim: numa distância tão grande como a que há do sol nascente até nós, é impossível que uma sucessão temporal escape à nossa percepção. [Nota]
446a 28 Segundo, onde diz Poderia pensar-se razoável, argumenta o mesmo ponto por razão.
Diz que parece razoável que isso aconteça, isto é, que o objeto visível ou a luz chegue primeiro a um ponto intermediário antes de chegar ao sentido da vista. Pois parece haver algum movimento do próprio objeto visível, ou da luz, ao chegar ao sentido da vista. Mas tudo o que é movido é movido de algo a algo, de modo que antes está no termo de que é movido e depois no termo para o qual é movido: de outro modo, se estivesse simultaneamente em ambos os termos, não se moveria de um ao outro. Mas o antes e o depois no movimento são contados pelo tempo. Há, portanto, necessariamente algum tempo em que o objeto visível, ou a luz, é movido do corpo visível ou iluminante ao sentido da vista. Mas todo intervalo de tempo é divisível, como se provou na Física VI. [Nota] Portanto, se tomarmos o ponto médio do tempo em questão, nesse ponto o raio de luz, ou o próprio objeto visível, ainda não chegou ao sentido da vista, mas ainda está sendo movido através do meio, porque a grandeza através da qual algo é movido deve ser dividida segundo a divisão do tempo, como se provou na Física VI. [Nota]
446b 2 Então, quando diz Tudo simultaneamente ouve, elimina uma resposta inadequada.
Alguém poderia pensar que os objetos sensíveis não chegam primeiro a um ponto intermediário antes de chegar à potência sensitiva porque o sentido percebe o objeto sensível de uma só vez, sem sucessividade. Assim, no ouvir, o ouvir não precede o ter ouvido do modo como, no que é sucessivo, o ser movido precede o ter sido movido: antes, quando alguém está ouvindo, simultaneamente já ouviu, porque todo o ato de ouvir se completa num instante. E isso é universalmente verdadeiro de todo sentido, isto é, que simultaneamente sente e já sentiu algo. Isso é assim porque não há geração das sensações; elas não têm vir-a-ser.
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Dizemos que há "geração" das coisas que têm um ser (esse) alcançado por movimento sucessivo ou gradual: seja que o termo do movimento sucessivo é a própria forma das coisas, como quando se diz que uma coisa branca é gerada porque uma coisa chega à brancura por alteração sucessiva; seja que o termo do movimento sucessivo é uma disposição à sua forma, como se diz que o fogo e a água são gerados porque disposições às suas formas, isto é, qualidades elementares, são adquiridas por alteração sucessiva.
Mas começam a ser sem serem geradas nem virem a ser aquelas coisas que não são causadas, nem por si mesmas nem com respeito a quaisquer disposições precedentes nelas, por movimento sucessivo. Por exemplo, o "à direita" é causado numa coisa não por algum movimento sucessivo preexistente nela, mas por ter sido feita outra coisa "à esquerda" dela. Do mesmo modo, o ar começa a ser iluminado não por algum movimento preexistente nele, mas pela presença de um corpo iluminante. E do mesmo modo uma potência sensitiva começa a sentir não por algum movimento preexistente nela, mas pela devida colocação de um objeto sensível diante dela.
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Assim, simultaneamente se sente e já se sentiu. Contudo, não é por isso necessário que os objetos sensíveis, ou os movimentos dos objetos sensíveis, cheguem a uma potência sensitiva sem sucessão. Pois é claro que simultaneamente se está ouvindo e já se ouviu, e, no entanto, o som não chega imediatamente à audição quando se dá a pancada que causa o som.
Isso é esclarecido pela reconfiguração das letras que ocorre quando a fala de alguém é ouvida de longe, indicando que o som da voz formado em letras é levado sucessivamente através do meio. É por isso que os que ouvem o som aparentemente não distinguiram pelo ouvir as letras pronunciadas: porque o ar movido no meio se reconfigura, como se perdesse a impressão feita por quem primeiro causou o som. Isso acontece às vezes por alguma outra alteração no ar, por exemplo quando, por falarem muitos, é impossível distinguir o que um deles diz, pois os movimentos se impedem uns aos outros. Mas às vezes acontece por causa da distância: pois, como a ação de aquecer se enfraquece no que está mais longe, assim também a alteração do ar por quem primeiro produz o som, e por isso o som da fala pode chegar perfeitamente aos que estão perto do falante, com a requerida articulação das letras, mas chegar com alguma confusão aos que estão mais longe.
446b 9 O caso da cor e da luz, então, parece ser semelhante, pois também a cor e a luz não podem ser vistas por estarem postas de um modo qualquer: antes, requer-se uma distância determinada. Pois, assim como as falas são ouvidas pelos que estão a distância sem distinção das letras, assim também os corpos o são pelos que estão a distância sem distinção da disposição das partes singulares. A relação entre o sentido da vista e o objeto visível não é como a relação de igualdade: pois nenhuma localização determinada é requerida para que as coisas sejam iguais; antes, por mais que varie sua localização, permanecem sempre iguais do mesmo modo, e não faz diferença se estão perto ou longe. Portanto, parece que, assim como a configuração das letras torna claro que o som chega ao sentido da audição por sucessão, embora, uma vez chegado à audição, seja ouvido de uma vez, assim também a visão incompleta dos objetos visíveis remotos parece indicar que a cor e a luz chegam ao sentido da vista por sucessão, embora sejam vistas de uma só vez.
446b 13 Então, quando diz Por outro lado, apresenta a solução verdadeira, mostrando a diferença entre a vista e os outros dois sentidos que percebem por meios externos, a saber, a audição e o olfato.
Isto se divide em duas partes. Primeiro, dá a diferença da vista em relação à audição e ao olfato. Segundo, conclui sua proposta, onde diz Mas é razoável (447a 8).
A primeira parte se divide em duas segundo as duas diferenças que dá. A segunda começa onde diz Em geral, alteração e translação (446b 28).
Diz, pois, primeiro, que é razoável que isso aconteça no caso do som e do odor, a saber, que cheguem à potência sensitiva por sucessão. Dá como razão disso o fato de que o ar e a água, que são os meios pelos quais esses objetos são levados à potência sensitiva, são, de fato, em sua substância, contínuos, e no entanto movimentos distintos uns dos outros podem ocorrer neles.
Isso pode acontecer por causa da fácil divisibilidade do ar e da água, que, como o Filósofo mostra na Física VII, é evidente no movimento de arremessar algo, onde há muitos movimentos, muitos motores e muitas coisas movidas. [Nota] Pois uma parte do ar é movida por outra, e assim há diferentes movimentos que se sucedem, porque uma parte do ar que foi movida ainda permanece motora depois de cessar de ser movida. Assim os movimentos das partes do ar não são todos simultâneos; antes, sucedem-se uns aos outros, como se mostra na Física VIII. [Nota]
Isso é também evidente no caso do som, que é causado por uma pancada no ar, mas não de modo que todo o ar intermédio seja movido por quem golpeia em um só movimento. Antes, há muitos movimentos que se sucedem, pois uma parte, tendo sido movida primeiro, move então outra. Assim, de certo modo, é a mesma coisa que o primeiro ouve (o que está perto da pancada que causa o som) e que o último ouve (o que está a distância). Mas, de certo modo, não é a mesma coisa.
446b 17 Segundo alguns, parece haver uma dificuldade neste ponto: alguns dizem que, como pessoas diferentes sentem por meio de órgãos diferentes, é impossível que sintam a mesma coisa. Ora, isso é verdade se se refere ao que move proximamente a potência sensitiva, porque os sentidos de pessoas diferentes são imediatamente alterados pelas diferentes partes do meio que estão perto delas, e assim o que um sente é "cortado" e distinto do que outro sente. Mas, se se entende o que primeiro moveu o meio, então todos sentem uma só e mesma coisa. Por exemplo, todos, perto ou longe, ouvem o som de uma só pancada; igualmente, todos cheiram o único corpo odorífero, por exemplo o marmelo ou o incenso que queima no fogo. O que chega a cada um individualmente é numericamente diferente, mas especificamente o mesmo, porque todas essas alterações são causadas pela mesma forma, a forma do que primeiro as ativa. Daí que muitos simultaneamente vejam, cheirem e ouçam o mesmo objeto sensível pelas diferentes alterações que lhes chegam.
446b 25 Mas essas coisas que chegam aos sentidos de cada indivíduo não são corpos emanando de um corpo sensível, como alguns sustentaram: antes, cada uma delas é um movimento e uma afecção de um meio que foi alterado pela ação de um objeto sensível. Pois, se fossem corpos diferentes que chegassem a indivíduos diferentes por emanação, então isto, isto é, que todos sintam a mesma coisa, não aconteceria, mas cada um perceberia apenas o corpo que lhe chegou. E, embora não sejam corpos, não são, contudo, independentes de corpo, nem do meio que é como que afetado e movido, nem do objeto sensível que é como que o que primeiro move e age.
446b 27 É claro, pois, pelo que se disse, que o som chega ao sentido da audição por muitos movimentos sucessivos de partes. E é semelhante no caso do odor, exceto que a alteração pelo odor ocorre por alteração de um meio, mas a alteração pelo som por movimento local. Mas a explicação da luz é diferente. Pois a luz não chega ao sentido da vista por muitos movimentos que se sucedem em partes diferentes do meio, mas por um único ser (esse), isto é, por ser todo o meio movido, como uma só coisa móvel, num só movimento, por um corpo iluminante. Neste caso não há um movimento sucedendo a outro, como se disse haver no caso do odor e do som.
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A razão dessa diferença é que o que é recebido em algo como em seu sujeito próprio e natural pode permanecer nele e ser princípio de ação, mas o que é recebido em algo apenas como qualidade adventícia não pode nem permanecer nele nem ser princípio de ação.
Ora, porque as formas substanciais são os princípios das qualidades e dos acidentes, é recebida num sujeito segundo seu ser próprio e natural aquela qualidade que dispõe o sujeito à forma natural de que é receptivo. Por exemplo, a água, em razão de sua matéria, é receptiva da forma substancial do fogo, que é o princípio do calor; e assim o calor é recebido na água como dispondo-a à forma do fogo, e, removido o fogo, a água ainda permanece quente e capaz de aquecer. Do mesmo modo, o odor é recebido no ar e na água, e o som no ar, tanto segundo seu ser próprio e natural quanto na medida em que o ar e a água são alterados pela secura enquímica, ou o ar pela pancada de um corpo. Assim, quando cessa a pancada, o som permanece no ar; e, removido o corpo causador do odor, o odor ainda é percebido no ar. A razão é que a parte do ar que foi mudada de modo a assumir um som ou odor pode igualmente mudar outra parte, e assim se produzem diferentes movimentos que se sucedem.
Mas o transparente não é receptivo da forma substancial do corpo iluminante, por exemplo o sol, que é a primeira "raiz" da luz, nem é disposto, pela recepção da luz, a forma substancial alguma. Por isso a luz é recebida no transparente como uma qualidade adventícia que nem permanece quando o corpo iluminante está ausente nem pode ser princípio de ação sobre outra coisa. Daí que uma parte do ar não seja iluminada por outra, mas todo o ar seja iluminado por aquilo que primeiro o ilumina, até onde quer que o poder do corpo iluminante possa alcançar. Assim, há uma só coisa iluminada e uma só iluminação de todo o meio.
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446b 28 Então, quando diz Em geral, alteração e translação, mostra a segunda diferença.
Diz que, falando em geral da alteração e da "translação", isto é, da mudança de lugar, as duas não são semelhantes. É razoável que as mudanças de lugar cheguem primeiro ao ponto médio da grandeza sobre a qual se dá o movimento antes de chegar ao termo, pois na mudança de lugar há movimento de um extremo de uma grandeza ao outro extremo. Por isso o móvel deve chegar ao ponto médio da grandeza no ponto médio do tempo. Assim, o argumento introduzido acima tem lugar no caso da mudança de lugar. E o som é consequência do movimento local, enquanto o ar é perturbado pela pancada que causa o som até a potência da audição. É razoável, pois, que o som chegue a um ponto intermediário antes de chegar ao sentido da audição.
Mas, no caso do que é alterado, não é assim. Pois os termos da alteração não são extremos de uma grandeza, e por isso o tempo da alteração não é necessariamente, por si, commensurável com uma grandeza de tal modo que, no ponto médio do tempo, o movimento chegasse ao ponto médio da grandeza, seja o ponto médio da grandeza sobre a qual se dá o movimento (pois isso não se pode dar na alteração, que não é movimento numa quantidade ou num "onde", mas numa qualidade), seja o ponto médio de uma grandeza que é ela mesma movida.
447a 1 Pois pode às vezes acontecer que todo o corpo seja alterado de uma só vez, não primeiro a metade dele, como vemos que todo um corpo de água pode congelar-se de uma só vez.
No movimento local, o tempo é comensurável com a grandeza pela qual passa o movimento e se divide segundo a divisão da grandeza, como se prova na Física VI. [Nota] Do mesmo modo, na alteração, o tempo é comensurável com a distância entre os termos, e assim, em igualdade de condições, requer-se mais tempo para que algo frio do que algo morno se torne quente. Assim, se há extremos entre os quais não se pode tomar um ponto médio, a passagem de um extremo ao outro deve ocorrer sem intermediário. Ora, a contradição é uma oposição que por si não tem intermediário, como se diz nos Analíticos Posteriores I. [Nota] E, com a suposição da receptividade de um sujeito, a razão da privação é a mesma, pois a privação nada é senão negação num sujeito. Por isso todas as alterações cujos termos são ser e não ser, ou privação e forma, são instantâneas e não podem ser sucessivas, pois nas alterações sucessivas a sucessão é notada por meio de intermediários determinados com respeito à distância de um contrário a outro.
447a 3 Dentro desta distância, toda a grandeza do corpo a que se estende imediatamente o poder da primeira causa da alteração é considerada como um só sujeito que instantaneamente, de uma só vez, começa a ser movido. Mas, se há um corpo capaz de ser alterado, mas tão grande que o poder da primeira causa da alteração não pode alcançá-lo como um todo, mas só uma parte dele, seguir-se-á que, depois de alterada a primeira parte, esta alterará subsequentemente outra.
E assim diz que, se é um corpo grande que é aquecido ou congelado, o contíguo é necessariamente afetado pelo contíguo, isto é, uma parte subsequente é necessariamente alterada pela imediatamente precedente. Mas a primeira parte é alterada, de uma só vez e instantaneamente, pelo próprio que primeiro causa a alteração, porque aqui não há sucessão do ponto de vista da grandeza, mas só do ponto de vista das qualidades contrárias, como se disse. É por isso que o odor chega primeiro a um ponto intermediário antes de chegar à potência sensitiva, ainda que isso ocorra por alteração sem movimento local. Pois um corpo odorífero não pode alterar todo o meio de uma só vez; antes, altera uma parte, que altera outra, e assim a alteração chega ao sentido do olfato por sucessão, através de vários movimentos, como se disse acima. E seria o mesmo no caso do paladar como no caso do olfato se vivêssemos na umidade aquosa, que é a única receptiva de sabor, como agora vivemos no ar, que é receptivo de odor; e se, de novo, o sabor pudesse ser sentido por alteração do meio a distância antes de tocarmos um corpo saboroso, como é o caso do olfato.
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Ora, o que aqui se diz parece contrário ao argumento pelo qual o Filósofo prova na Física VI que tudo o que é movido é divisível, porque uma parte está no termo a quo e outra no termo ad quem. [Nota] Assim se pode ver que, enquanto algo está sendo mudado de branco para preto, quando uma parte dele é branca, outra é preta. Logo, não pode ser que o todo seja alterado de uma só vez, mas antes parte após parte.
Mas alguns dizem que a intenção do Filósofo ali é mostrar não que uma parte do móvel está no termo a quo e outra no termo ad quem, mas que o móvel está numa parte do termo a quo e noutra parte do termo ad quem. E assim, na alteração, é necessário não que uma parte do móvel seja alterada antes de outra, mas que todo o móvel que é alterado, por exemplo de branco para preto, tenha uma parte de brancura e uma parte de negrura.
Mas isso não concorda com a intenção de Aristóteles, porque isso não provaria diretamente que o móvel é divisível, mas antes que os termos do movimento são de algum modo divisíveis. Tampouco concorda com as palavras que Aristóteles usa, como é claro a quem examina atentamente seu texto, onde a passagem se refere claramente às partes do móvel.
Assim, deve-se dar outra explicação, a saber, que a demonstração se entende com referência ao movimento local, que é verdadeira e por si contínuo. Pois na Física VI Aristóteles trata do movimento sob o aspecto do contínuo. Mas os movimentos de crescimento e de alteração, como se disse na Física VIII, não são simplesmente contínuos. [Nota] Daí que a observação de Aristóteles não seja universalmente verdadeira de toda alteração, mas só da alteração enquanto recebe continuidade de um móvel em que uma parte altera outra. Mas um móvel que o poder da primeira causa da alteração alcança de uma só vez, como um todo, é algo indivisível enquanto é alterado de uma só vez.
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447a 8 Então, quando diz Mas é razoável, conclui do que precede a intenção principal.
Diz que é razoável, no caso dos sentidos para os quais há um meio entre o objeto sensível e o órgão de sentir, que todo o meio seja afetado e movido não de uma só vez, mas por sucessão, exceto no caso da luz, e isso pelo que foi dito: primeiro, porque a iluminação não ocorre, como sustentava Empédocles, por movimento local, como a propagação do som, mas por alteração; segundo, porque na iluminação não há vários movimentos, como se disse haver no caso do odor, mas só um. A estes pontos deve-se acrescentar um terceiro: que a luz não tem contrário, mas as trevas se lhe opõem antes como simples privação, e assim a iluminação ocorre de uma só vez.
E o mesmo deve-se dizer da visão, porque a luz causa o ver. E daí que o meio seja alterado pelos objetos visíveis de modo análogo ao modo como é alterado pela luz.