CAPÍTULO 12 - 443b 17 – 444b 7 443b 17 Há duas espécies de odorífero. Pois não é verdade, como dizem alguns, que o odorífero não tem espécies; tem. Mas devem-se determinar os modos em que as tem e em que não as tem. 443b 19 Uma espécie de odor se ordena segundo os sabores, como se disse. Estes contêm o agradável e o desagradável por acidente. Pois, porque o odor é uma afecção do alimento, esses odores são agradáveis aos que têm apetite. Mas aos que estão saciados e sem necessidade, nem os odores nem o alimento que tem esses odores é agradável. Portanto, como dissemos, estes contêm o agradável e o desagradável por acidente, e por isso são objetos comuns a todos os animais. 443b 26 Mas alguns odores, como os das flores, são agradáveis por si mesmos. 443b 28 Pois não decorrem do alimento segundo o mais e o menos. E nada contribuem para o desejo, mas antes o contrário. Pois é verdade o que Trácio disse, criticando Eurípides: "Quando cozinhas lentilhas, não derrames ungüento." 443b 31 E os que misturam tais virtudes às bebidas fazem violência ao prazer pelo costume, até que ele se torne agradável a dois sentidos, do modo como uma só coisa é agradável a um só. 444a 3 Esta espécie de odorífero, então, é própria do ser humano. Mas a espécie que se ordena segundo os sabores é também objeto para os outros animais, como se disse acima. E, porque esta contém o agradável por acidente, suas espécies se dividem segundo os sabores. Mas a primeira não, porque sua própria natureza é, por si, agradável ou desagradável. 444a 8 Ora, a causa de esta espécie de odor ser própria do ser humano é o frio em torno de seu cérebro. Pois o cérebro é frio por natureza. E o sangue em torno dele, em veias estreitas, é fino e puro, mas facilmente resfriado. Por isso os vapores do alimento, ao serem resfriados por causa do frio dessa região, causam doenças reumáticas nos seres humanos. Esta espécie de odor é produzida como auxílio à saúde, pois não tem outra função além desta, e esta ela claramente tem. 444a 16 O odor que é agradável por causa do alimento, seco ou úmido, é muitas vezes insalubre. Mas o que é agradável por causa de um odor que é por si odorífero, seja qual for, é sempre útil, por assim dizer. 444a 19 Por isso isso se faz pela respiração, não em todos os animais, mas nos seres humanos e nos que têm sangue, como os quadrúpedes e os que participam mais da natureza do ar. 444a 22 Quando os odores sobem ao cérebro por causa da leveza do calor que há neles, essa região fica mais sadia. Pois o odor tem por natureza o poder do calor. A natureza usa a respiração para duas coisas: ativamente, como auxílio ao peito, e adventiciamente, para o odor. Pois, ao respirar, produz-se movimento pelas narinas como por uma passagem. Este gênero de odor é próprio da natureza do ser humano porque ele tem um cérebro maior e mais úmido, em proporção ao seu tamanho, do que os outros animais. E por isso o ser humano, só ele entre os animais, por assim dizer, sente e frui os odores das flores e coisas semelhantes: pois seu calor e movimento são proporcionados ao excesso de frio e umidade nessa região. 444b 2 Aos outros animais que têm pulmões a natureza deu a sensação da outra espécie de odor por meio da respiração, para não fazer duas partes sensitivas. Pois isso basta. Assim como é pela respiração que os seres humanos têm sensação de ambas as espécies de odorífero, do mesmo modo esses animais têm sensação de apenas uma. Comentário 443b 17 Depois de determinar a geração e a natureza do odor, o Filósofo determina aqui as espécies de odores. Sobre este ponto, faz duas coisas. Primeiro, determina as várias espécies de odor. Segundo, determina os modos de cheirar, onde diz Por isso (444a 19). Sobre o primeiro ponto, faz três coisas. Primeiro, propõe que há espécies de odor. Segundo, determina as espécies de odor por correspondência com as espécies de sabor, onde diz Uma espécie de odor (443b 19). Terceiro, determina as espécies que pertencem ao odor por si, onde diz Mas alguns odores (443b 26). Diz, pois, primeiro, que há duas espécies de odorífero, uma por correspondência com os sabores, outra pertencente ao odor em si mesmo. Pois o que alguns dizem, que o odorífero não tem espécies, é falso, pois tem. Mas devemos determinar os modos em que as tem e em que não as tem. É possível determinar espécies de odores por concordância com as espécies de sabores, como se disse acima. Mas as espécies do odor em si são determinadas apenas por referência aos diferentes tipos de coisas odoríferas, como quando dizemos que os odores das rosas, das violetas e de outras coisas semelhantes são diferentes. É nesses odores que se discernem o agradável e o desagradável. 443b 19 Então, quando diz Uma espécie de odor , determina as espécies de odores que se seguem das espécies de sabores. Diz que, entre as coisas odoríferas, uma espécie se ordena segundo as espécies de sabor, como se disse acima, e assim o agradável e o desagradável estão nelas por acidente, isto é, não enquanto têm odor, mas enquanto seu odor indica alimento. Pois o odor é uma afecção do alimento, como o sabor também: com efeito, o animal discerne à distância o alimento apropriado por meio do odor, como discerne o alimento apropriado ingerido por meio do sabor. E assim esses odores não são agradáveis aos animais saciados e sem necessidade de alimento, assim como tampouco o é para eles o alimento que tem esses odores; mas são agradáveis aos animais que têm apetite de alimento, isto é, os que têm sede ou fome, assim como o alimento ou a bebida também lhes é desejável. Daí é claro que esta espécie de odorífero contém o agradável e o desagradável por acidente, isto é, por causa do alimento, como se disse. E, porque o alimento é comum a todos os animais, todos os animais percebem esses odores. Mas o "todos" deve ser entendido com referência aos animais que têm movimento progressivo e precisam buscar o alimento à distância por meio do odor; nos animais imóveis, o paladar e o tato bastam para discernir a adequação do alimento. 443b 26 Então, quando diz Mas alguns odores , determina as espécies per se de odor. Primeiro, apresenta essas espécies de odor. Segundo, mostra quais animais as percebem, onde diz Esta espécie de odorífero (444a 3). Sobre o primeiro ponto, faz três coisas. Primeiro, apresenta o que pretende. Segundo, prova a proposta, onde diz Pois não decorrem (443b 28). Terceiro, elimina uma objeção em contrário, onde diz E os que misturam (443b 31). Diz, pois, primeiro, que alguns odores são agradáveis por si mesmos, isto é, não em relação ao alimento, e diz-se que é o caso dos odores das flores. 443b 28 Então, quando diz Pois não decorrem , prova que tais odores são por si agradáveis. Isso porque não se relacionam com o alimento como consequência dele, isto é, de modo que os animais com apetite de alimento sintam mais prazer nesses odores e os saciados sintam menos. Além disso, tais odores nada contribuem para o desejo de alimento, como os odores acima discutidos provocam o apetite de alimento. Antes ocorre o contrário: o alimento se torna desagradável por ser misturado a coisas que têm esse tipo de odor, porque muitas vezes o que cheira bem enquanto tem esse tipo de odor tem, no entanto, mau sabor. Para confirmá-lo, introduz um dito de um certo poeta cômico chamado Trácio ou Estratides, que, criticando outro poeta, a saber Eurípides, que inventava pratos preparados com grande requinte, disse: "Quando cozinhas lentilhas, não derrames ungüento", isto é, perfume de bom cheiro; como se dissesse: "Não deves acrescentar nada de bom cheiro ao teu tempero." 443b 31 Então, quando diz E os que misturam , elimina uma objeção que se poderia fazer por causa do costume de alguns que misturam tais coisas ao alimento. Responde dizendo que os que misturam "virtudes", isto é, coisas odoríferas, desse tipo ao alimento e à bebida fazem violência ao prazer natural por seu costume, a fim de chegar a um ponto em que uma só e mesma coisa é agradável a dois sentidos, a saber, o paladar e o olfato, ao passo que por natureza uma coisa é agradável a um só sentido. 444a 3 Então, quando diz Esta espécie de odorífero , mostra por quais animais tais objetos do olfato são percebidos. Sobre este ponto, faz três coisas. Primeiro, apresenta o que pretende. Segundo, dá uma causa do que foi dito, onde diz Ora, a causa de esta espécie de odor (444a 8). Terceiro, exclui uma objeção, onde diz O odor que é agradável (444a 16). Diz, pois, primeiro, que esta espécie de odorífero que por si agrada ou desagrada é própria do ser humano, pois só o ser humano discerne tais objetos do olfato e se agrada ou desagrada deles; por isso, nesse ponto, o olfato é mais rico no ser humano do que nos outros animais. Mas o odor coordenado com o sabor é também objeto para os outros animais, que têm um sentido mais agudo do que o do ser humano para discernir tais odores; e, nesse ponto, como disse acima, temos um olfato pior do que o dos outros animais. E, porque os odores coordenados com os sabores contêm o agradável por acidente, isto é, em relação ao alimento, suas espécies se distinguem segundo as espécies de sabores, o que não é o caso desses odores que por sua própria natureza contêm o desagradável ou o agradável: antes, as espécies desse tipo de odor só podem ser distinguidas por referência às coisas odoríferas, como se disse. 444a 8 Então, quando diz Ora, a causa de esta espécie de odor , dá a causa do que foi dito. Diz que o odor que é por si agradável é um objeto próprio do ser humano para moderar o frio de seu cérebro. Pois o ser humano tem um cérebro maior, em relação ao tamanho de seu corpo, do que os outros animais. Mas o cérebro é por natureza frio, e o sangue contido nas veias finas em torno do cérebro é facilmente resfriado. Por causa disso, os vapores dissolvidos do alimento, subindo e sendo resfriados pelo frio da região, tornam-se por vezes espessos, o que causa doenças reumáticas nos seres humanos. E assim esta espécie de odor foi dada aos seres humanos como auxílio à saúde, para contrabalançar o excessivo frio do cérebro. E, se tais odores às vezes causam dor de cabeça, é porque não são aplicados como deveriam, mas antes superaquecem o cérebro e causam evaporação excessiva. Mas, se são aplicados do modo certo, contribuem para a saúde. E isso aparece claramente por seu efeito, embora nenhuma outra utilidade de tal odor seja manifesta: pois a percepção de tais odores quase nada serve ao intelecto para investigar as naturezas das coisas, ao passo que a visão e a audição lhe servem muitíssimo, como se mostrou acima. 444a 16 Então, quando diz O odor que é agradável , elimina uma objeção. Pois alguém poderia dizer que a outra espécie de objeto do olfato, a coordenada com o sabor, bastaria para o remédio de saúde mencionado. Responde que a espécie de odor que é agradável por causa do alimento muitas vezes causa antes dor de cabeça, seja por umidade excessiva, seja por secura excessiva. Mas a espécie de odor que é em si agradável é sempre útil à saúde por sua própria natureza. Acrescenta "por assim dizer" por causa do uso impróprio. 444a 19 Então, quando diz Por isso , conclui do que foi dito acima os modos apropriados de cheirar. Primeiro, no ser humano e nos outros animais que respiram; segundo, nos animais que não respiram, onde diz É claro que os que não respiram (cap. 13, 444b 7). Sobre o primeiro ponto, faz três coisas. Primeiro, apresenta o que pretende. Segundo, dá a causa proposta com referência aos seres humanos, onde diz Quando os odores sobem ao cérebro (444a 22); e terceiro, com referência aos outros animais, onde diz Aos outros animais (444b 2). Diz, pois, primeiro, que, porque o odor é útil para moderar o frio do cérebro, o cheirar se faz pela respiração, não em todos os animais, mas nos seres humanos e nos que têm sangue, como os quadrúpedes e as aves, estas últimas participando também mais da natureza do ar, como mostra seu movimento. 444a 22 Então, quando diz Quando os odores sobem ao cérebro , mostra a causa pela qual o odor é percebido pela respiração, com referência aos seres humanos. Diz que os odores sobem ao cérebro porque o calor do fogo que libera os odores lhes dá uma leveza, de modo que se movem para as regiões mais altas, e disso se segue uma condição de saúde na região do cérebro. Pois o odor tem poder de aquecer por causa do calor do fogo pelo qual é causado e liberado. Por isso a natureza usa a respiração para duas coisas: ativamente, isto é, principalmente, como auxílio ao peito, isto é, ao tórax, em outras palavras, para refrescar o calor do coração, mas adventiciamente, isto é, secundariamente, para perceber o odor. Pois, quando o ser humano respira, move o ar pelas narinas ao aspirá-lo, e assim faz os odores irem ao órgão do olfato. A razão pela qual este gênero de objetos sensíveis é próprio da natureza humana é que o ser humano tem um cérebro maior, em proporção ao seu tamanho, e mais úmido do que os outros animais. E a razão pela qual só o ser humano entre os animais sente e se compraz nos odores das flores e outras coisas semelhantes é que o calor desses odores e seu movimento para o cérebro reduzem a "hipérbole", isto é, o excesso de frio e umidade do cérebro, à justa medida. Acrescentou "por assim dizer" porque os outros animais fogem dos maus odores enquanto são destrutivos. 444b 2 Então, quando diz Aos outros animais , dá a causa do cheirar por respiração com referência aos outros animais. Diz que a natureza deu aos animais com pulmões, que são os únicos que respiram, a sensação da outra espécie de odor, isto é, a relacionada ao alimento, por meio da respiração, para não fazer dois órgãos, um órgão de respirar e outro órgão de cheirar. Pois o órgão da respiração basta também para o cheirar: assim como no ser humano basta para as duas espécies de odorífero, assim nos outros animais basta para uma só.