Lição 24 - Conclusões Gerais sobre a Sensação TEXTO 424a16–424b20 - LIVRO II, CAPÍTULO XII CONCLUSÕES GERAIS SOBRE A SENSAÇÃO Deve-se tomar como regra geral que toda sensação é a recepção de formas sem matéria, assim como a cera recebe um selo sem o ferro ou o ouro do anel de sinete. Ela recebe uma marca do ouro ou do bronze, mas não como ouro ou bronze. Da mesma forma, o sentido de qualquer objeto sensível é afetado por algo que tem cor, sabor ou som; não, porém, com respeito ao que cada um é chamado como coisa particular, mas na medida em que cada um possui uma certa qualidade e de acordo com seu princípio informante. §§ 551-4 A parte sensitiva primária é aquela na qual reside uma potência desse tipo. Elas [parte e potência] são de fato a mesma coisa, mas diferem no modo de ser. O que recebe a sensação será uma magnitude extensa, mas nem o ser sensitivo nem a sensação são uma magnitude. Cada um é, antes, uma certa razão e potência de uma magnitude. § 555 Fica claro a partir desses fatos por que o excesso das qualidades sensíveis destrói os órgãos dos sentidos. Pois se a mudança é violenta demais para o órgão do sentido, a razão [deste último] é perdida — a qual [razão] é o sentido. É como ocorre com o tom e a harmonia quando as cordas são violentamente tocadas. Também é evidente por que as plantas não têm sensação, embora tenham alguma participação na alma e sejam afetadas por objetos tangíveis ao se tornarem quentes ou frias. A razão é que lhes falta um meio ou princípio desse tipo, capaz de receber as formas dos objetos sensíveis; elas são afetadas materialmente. §§ 556-7 Poder-se-ia perguntar: algo é afetado por odor se não pode ter o sentido do olfato — ou por cor, se é incapaz de ver? E assim nos outros casos. § 558 Mas se o que pode ser cheirado é o odor, tudo o que causa cheiro é odor. Logo, coisas incapazes de cheirar não podem ser afetadas pelo odor. O mesmo argumento vale para os outros sentidos. E, dos sujeitos que podem perceber, a capacidade pertence a eles apenas em virtude de cada um ser sensitivo. § 559 O mesmo é evidente assim: nem a luz, nem a escuridão, nem o som, nem o odor afetam os corpos; mas apenas aquilo em que eles ocorrem o faz; por exemplo, é o ar que acompanha o trovão que despedaça as árvores. § 560 Mas as coisas tangíveis e os sabores afetam tais coisas. Se não, o que é que as coisas inanimadas são afetadas e alteradas? § 561 Portanto, os outros objetos sensíveis não teriam um efeito semelhante? Mas nem todo corpo é afetado por odor ou som, sendo tais receptores apenas coisas indefinidas e instáveis como o ar: o qual pode cheirar como se fosse afetado de alguma forma. § 562 O que é então cheirar, senão ser 'afetado de alguma forma'? Mas cheirar é sentir. O ar, no entanto, sendo assim afetado, torna-se rapidamente sensível. § 563 COMENTÁRIO DE SÃO TOMÁS VIGÉSIMA QUARTA LIÇÃO § 551. Após examinar cada um dos sentidos separadamente, o Filósofo passa agora a conclusões sobre a sensibilidade em geral; e isso em três etapas: primeiro, explica a natureza do sentido; em seguida, em ‘É claro’, resolve certos problemas ligados a essa explicação; e, em terceiro lugar, em ‘Poderia perguntar-se’, levanta algumas questões relativas ao modo como um sentido é afetado por seu objeto. Quanto ao primeiro ponto, ele explica (a) a natureza do sentido e (b) a natureza dos órgãos dos sentidos, em ‘A parte sensitiva primária’. Primeiro, então, ele diz que se deve sustentar em geral, como verdadeiro para todos os sentidos sem exceção, que os sentidos recebem formas sem matéria, assim como a cera recebe a marca de um anel sem o ferro ou o ouro. Isso, contudo, pareceria ser comum a todos os casos de recepção passiva; toda coisa passiva recebe de um agente na medida em que o agente é ativo; e, como o agente age por sua forma, não por sua matéria, todo recipiente enquanto tal recebe forma sem matéria. O que, de fato, é sensivelmente aparente; por exemplo, o ar não recebe matéria do fogo que age sobre ele, mas uma forma. Assim, não pareceria ser peculiar à sensação receber forma sem matéria. § 552. Respondo que, embora seja verdade que todo recipiente recebe uma forma de um agente, há diferentes maneiras de receber a forma. A forma recebida em um paciente a partir de um agente às vezes tem o mesmo modo de existência no recipiente que no agente; o que ocorre quando o paciente está disposto para a forma da mesma maneira que o agente. Pois tudo o que é recebido é recebido no ser do recipiente; de modo que, se o recipiente está disposto como o agente, a forma passa a existir no recipiente da maneira como existe no agente. E, nesse caso, a forma não é transmitida sem a matéria. Pois, embora a divisão numericamente una e mesma da matéria que está no agente não se torne a do recipiente, este se torna, de certa forma, o mesmo que o agente material, na medida em que adquire uma disposição material semelhante à que estava no agente. E é dessa maneira que o ar recebe a influência do fogo, e qualquer outra coisa passiva na Natureza, a ação que altera sua qualidade natural. § 553. Às vezes, porém, o recipiente recebe a forma em um modo de existência diferente daquele que a forma tem no agente; quando, isto é, a disposição material do recipiente para receber a forma não se assemelha à disposição material no agente. Nesses casos, a forma é recebida no recipiente ‘sem matéria’, sendo o recipiente assimilado ao agente quanto à forma e não quanto à matéria. E é assim que um sentido recebe forma sem matéria, tendo a forma, no sentido, um modo de ser diferente daquele que tem no objeto sentido. Neste último, ela tem um modo de ser material, mas no sentido, um modo cognitivo e espiritual. § 554. Aristóteles encontra um exemplo adequado disso na impressão de um selo na cera. A disposição da cera para a imagem não é a mesma que a do ferro ou ouro para a imagem; daí, diz ele, a cera recebe um sinal, i.e., uma forma ou imagem, do que é ouro ou bronze, mas não precisamente como ouro ou bronze. Pois a cera recebe uma semelhança do selo de ouro quanto à imagem, mas não quanto à disposição intrínseca do selo para ser um selo de ouro. Da mesma forma, o sentido é afetado pelo objeto sensível com uma cor ou gosto ou sabor ou som, ‘não quanto ao que cada um é chamado como coisa particular’, i.e., não é afetado por uma pedra colorida precisamente como pedra, ou mel doce precisamente como mel, porque no sentido não há tal disposição para a forma como há nessas substâncias; mas é afetado por eles precisamente como coloridos, ou saborosos, ou como tendo este ou aquele ‘princípio informante’ ou forma. Pois o sentido é assimilado ao objeto sensível quanto à forma, não quanto à disposição da matéria. § 555. Em seguida, em ‘A parte sensitiva primária’, ele conclui sobre o órgão do sentido. Visto que, a partir de seu ensinamento de que o sentido recebe formas na cognição imaterialmente, o que também é verdadeiro para o intelecto, alguém poderia ser levado a supor que o sentido era uma faculdade incorpórea como o intelecto; para evitar esse erro, Aristóteles atribui ao sentido um órgão, observando que a ‘parte sensitiva primária’, i.e., órgão do sentido, é aquela na qual reside uma potência desse tipo, ou seja, uma capacidade de receber formas sem matéria. Pois um órgão do sentido, e.g., o olho, compartilha o mesmo ser com a faculdade ou potência em si, embora difira em essência ou definição, sendo a faculdade como que a forma do órgão, como foi dito acima. Assim, ele prossegue dizendo ‘uma magnitude extensa’, i.e., um órgão corpóreo, é o que recebe a sensação’, i.e., é o sujeito da faculdade do sentido, como a matéria é sujeito da forma; e, no entanto, a magnitude e a sensibilidade ou sentido diferem por definição, sendo o sentido uma certa razão, i.e., proporção e forma e capacidade, da magnitude. § 556. Então, quando ele diz ‘É claro etc.’, infere dessas premissas uma resposta a duas questões que poderiam surgir. O que foi dito, observa ele, explica por que um excesso no objeto destrói o órgão do sentido; pois, para que a sensação ocorra, deve preexistir no órgão do sentido ‘uma certa razão’ ou, como a denominamos, proporção. Mas se o impacto do objeto sensível é mais forte do que o órgão é naturalmente capaz de suportar, a proporção é destruída e o próprio sentido, que consiste precisamente, como foi dito, na proporção formal do órgão, é neutralizado. É como se alguém dedilhasse cordas com demasiada violência, destruindo o tom e a harmonia do instrumento, que consiste em uma certa proporção. § 557. Sua análise também nos dá a resposta a outra questão, a saber, por que as plantas não sentem, embora tenham alguma participação na alma e sejam afetadas por certos objetos sensíveis, i.e., coisas tangíveis, bem como pelo calor e pelo frio. A razão pela qual não sentem é que lhes falta a proporção necessária para a sensação, em particular aquele equilíbrio entre os extremos das qualidades tangíveis que é um pré-requisito do órgão do tato, sem o qual não pode haver sensação. Portanto, não têm nenhum princípio intrínseco para receber formas ‘apartadas da matéria’, isto é, nenhum sentido. São afetadas e sofrem mudanças apenas materialmente. § 558. Em seguida, quando ele diz ‘Poderia perguntar-se’, levanta uma questão relativa à ação do objeto sensível sobre os sentidos. Tendo acabado de observar que as plantas são afetadas por certos objetos sensíveis, ele levanta a questão de saber se um sujeito pode alguma vez ser afetado por objetos diferentes daqueles de que possui o sentido; digamos, por odor se não tem olfato, ou por cor, se não tem visão, ou por som, se não tem audição. § 559. Então, em ‘Mas se o que pode ser cheirado é odor’, ele apresenta duas razões contra essa sugestão. Em primeiro lugar, é próprio do que pode ser cheirado causar cheiro; mas o odor é tal; portanto, se algo causa cheiro, causa-o pelo odor (ou, segundo outra leitura, o odor causa cheiro). A ação própria do odor como tal é causar um cheiro ou ocasionar uma olfação. Donde se segue que tudo o que recebe a atividade do odor como tal tem um sentido de olfato; e tudo o que carece de um sentido de olfato não pode ser afetado pelo odor. E o mesmo argumento vale para outros seres: é impossível que algo qualquer possa ser afetado por objetos sensíveis; isso só pode acontecer em coisas dotadas de sentido. § 560. Em ‘O mesmo é evidente assim’, ele apresenta a segunda razão, como se segue. O argumento acima é confirmado pela experiência. A luz e a escuridão, o cheiro e o som, não produzem efeito em corpos sensíveis, exceto acidentalmente, na medida em que os corpos com essas qualidades fazem algo, como o ar que racha a madeira quando troveja; pois não é este som que afeta a madeira, mas o ar em movimento. § 561. Em seguida, em ‘Mas coisas tangíveis e sabores’, ele mostra que é diferente com as qualidades tangíveis; coisas tangíveis e ‘sabores’, i.e., gostos, de fato produzem, diz ele, um efeito em objetos sensíveis. Mas isso deve ser entendido dos sabores, não precisamente como tais, i.e., como degustáveis, mas apenas na medida em que o degustável é algo tangível, e o gosto uma espécie de tato. Pois se os corpos (insensíveis) não fossem afetados por qualidades tangíveis, não haveria questão de corpos inanimados serem afetados e alterados de modo algum, sendo esses tangíveis as qualidades elementares ativas e passivas em virtude das quais todas as alterações corporais ocorrem. § 562. Em seguida, em ‘Portanto, também não’, ele mostra que outros objetos sensíveis agem sobre coisas inanimadas, embora não sobre todas. Pois ao perguntar: Portanto, outros objetos sensíveis não afetam coisas inanimadas como o odor faz?, ele implica que sim. No entanto, nem todo corpo é afetado pelo odor e pelo som, embora todos o sejam pelo calor e pelo frio. Por tais objetos sensíveis são afetados apenas corpos instáveis, impermanentes, como o ar e a água, que, sendo fluidos, não são muito autossuficientes; e que o ar pode ser afetado pelo odor é bastante óbvio quando cheira mal. Outra leitura diz ‘porta’, significando que o fenômeno é carregado ou levado ao sentido por objetos sensíveis diferentes de si mesmo. A razão para essa diferença é que, como as qualidades tangíveis são produtivas das outras qualidades sensíveis, elas têm mais poder ativo do que as outras, e podem operar sobre os corpos em geral, enquanto os outros objetos sensíveis, tendo menos poder ativo, só podem agir sobre coisas que são especialmente impressionáveis. O mesmo princípio se aplica à luz dos corpos celestes, com seu efeito sobre os terrestres. § 563. Por último, em ‘O que é então cheirar?’, ele resolve o problema levantado pelo argumento acima exposto. Se uma coisa, pergunta ele, pode ser afetada pelo odor e, no entanto, não cheirá-lo, o que há em cheirar o odor além de ser apenas afetado por ele? E ele responde que o cheirar acontece quando uma coisa é afetada pelo odor de tal modo que o percebe. Mas o ar não é afetado dessa maneira, pois não tem potência sensitiva; é afetado apenas de modo a tornar-se um objeto sensível, na medida em que oferece um meio para a sensação.