Lição 11 — A sensibilidade. Potência e ato (continuação)

TEXTO 417a 22–417b 17 - LIVRO II, CAPÍTULO V (continuação)
A SENSIBILIDADE
POTÊNCIA E ATO (continuação)

Cumpre, porém, fazer distinções acerca da potência e do ato; pois por ora estamos falando deles em um só sentido. § 358

Com efeito, há "um sabedor" num sentido, como quando dizemos que o homem é "sabedor", porque o homem pertence à classe dos seres capazes de ter ciência. Mas também quando dizemos que um homem "sabe" porque possui a ciência da gramática. Estes dois não são capazes do mesmo modo; mas a potência do primeiro é, por assim dizer, genérica e comparável à matéria; ao passo que o segundo tem o poder de considerar à vontade, contanto que nenhum obstáculo externo intervenha. Mais ainda, somente aquele que está atualmente atento (digamos) à letra A sabe no sentido mais estrito. §§ 359-61

Portanto, os dois primeiros sabem em potência. Mas um sofreu mudança por ter sido ensinado, e é muitas vezes alterado a partir do estado contrário, ao passo que o outro é movido ao ato pelo simples fato de ter o sentido ou a gramática sem agir [conforme a eles]; mas de modo diferente de quando ainda não havia adquirido nenhum hábito [de saber]. §§ 362-4

Tampouco "ser afetado" é um termo simples. Uma coisa é ser de algum modo destruído por um contrário; coisa bem diversa é quando o que está em potência é conservado pelo que está em ato, sendo de natureza semelhante e relacionando-se a este como a potência ao ato. §§ 365-6

Pois, quando um homem possuidor de ciência passa a pensar atualmente, certamente ou não há "alteração", havendo nele uma nova perfeição e um aumento de atualidade, ou é algum gênero novo de alteração. Por isso, é tão enganoso dizer que um homem é "alterado" quando pensa quanto dizê-lo do construtor quando constrói. O processo que vai de estar em potência para entender e pensar até fazê-lo atualmente não deveria chamar-se instrução, mas tem por direito algum outro nome. §§ 367-8

A mudança de estar em potência, naquele que aprende e recebe instrução de outro (que atualmente tem a ciência e ensina), ou não deve ser chamada um "ser afetado" (como dissemos), ou há dois modos de alteração: um, mudança para uma condição de privação; o outro, para a posse e a maturidade. §§ 369-72

COMENTÁRIO DE SANTO TOMÁS
LIÇÃO ONZE

§ 358. Tendo explicado como as faculdades sensitivas estão ao mesmo tempo em ato e em potência, o Filósofo passa agora a dizer como elas são levadas da potência ao ato. Faz isso em duas partes: primeiro, distinguindo entre ato e potência, e entre os diversos modos pelos quais uma coisa pode passar de um estado ao outro, tomando seu exemplo do intelecto; segundo, em "A primeira mudança no ser sensitivo", aplica tudo isso ao caso da sensação.

Quanto à primeira dessas partes, faz três coisas: (a) declara sua intenção; (b) distingue, em "Com efeito, há um sabedor", entre ato e potência no intelecto; e (c) explica, em "Portanto, os dois primeiros", como o que é potencial, em ambos os sentidos do termo que foram distinguidos, se torna atual.

Diz, pois, primeiramente, que vai tratar da potência e do ato, a fim de mostrar os diversos modos pelos quais se pode dizer que as coisas são atuais ou potenciais, porque até agora os dois termos foram usados "em um só sentido", isto é, sem distinções.

§ 359. Então, em "Com efeito, há um sabedor", distingue ato e potência no intelecto. Falamos, diz ele, de potência em um sentido quando dizemos que o homem é sabedor, referindo-nos à sua capacidade natural para a ciência. O homem, dizemos, é um daqueles seres que sabem ou têm ciência, querendo dizer que sua natureza pode conhecer e formar hábitos de conhecimento. Em outro sentido, porém, dizemos de alguém que sabe, querendo dizer que conhece certas coisas determinadas; assim, dizemos daquele que tem o hábito de alguma ciência, por exemplo a Gramática, que ele é agora um sabedor.

§ 360. Ora, é óbvio que, em ambos os casos, as capacidades do homem estão implicadas ao chamá-lo sabedor, mas não do mesmo modo nos dois casos. No primeiro caso, diz-se que o homem é "capaz" por pertencer a um certo gênero ou "matéria", isto é, sua natureza tem uma certa capacidade que o põe nesse gênero, e ele está em potência para a ciência como a matéria para sua forma. Mas o segundo homem, com seu hábito adquirido de saber, é chamado "capaz" porque, quando quer, pode refletir sobre o seu saber, a não ser, é claro, que seja acidentalmente impedido, por exemplo por preocupações exteriores ou por alguma indisposição corporal.

§ 361. Um terceiro caso seria o de um homem que estivesse atualmente pensando em algo aqui e agora. Este é quem mais propriamente e perfeitamente é sabedor em qualquer campo; por exemplo, conhecendo a letra A, que pertence à ciência da Gramática acima mencionada. Dos três, portanto, o terceiro está simplesmente em ato; o primeiro, simplesmente em potência; e o segundo está em ato em comparação com o primeiro e em potência em comparação com o terceiro. É claro, pois, que a potencialidade é tomada em dois sentidos (o primeiro e o segundo homem); e a atualidade também em dois sentidos (o segundo e o terceiro homem).

§ 362. Então, em "Portanto, os dois primeiros", explica (1) como ambos esses tipos de potência são atualizados, e (2), em "Tampouco ser afetado", discute se essa atualização é resultado de um ser afetado.

Primeiro, pois, observa que, embora nos dois primeiros casos haja conhecimento potencial, e embora a potência como tal possa ser atualizada, há uma diferença, quanto à atualização, entre uma potência primária e uma secundária. Aquele que está em potência primária para a ciência é levado ao ato por ser, por assim dizer, mudado ou alterado pelo ensino recebido de outro (o mestre) que já sabe em ato. E muitas vezes, diz ele, essa mudança se dá a partir de um hábito contrário, aludindo àqueles que chegam ao conhecimento atual a partir de um estado de ignorância.

§ 363. A ignorância tem dois sentidos. Pode ser puramente negativa: quando o ignorante nem conhece a verdade nem está envolvido no erro oposto; e nesse caso ele é simplesmente levado ao conhecimento atual, não mudado por ser libertado de um hábito contrário. Por outro lado, a ignorância pode implicar a má condição de estar envolvido num erro contrário à verdade; e, para adquirir ciência, é preciso então ser mudado, libertando-se desse hábito contrário.

§ 364. Mas aquele que está em potência no sentido secundário, isto é, como já possuindo o hábito, passa do estado de ter, de fato, sensações ou conhecimentos sem exercê-los ao estado de conhecer atualmente algo aqui e agora. E esse tipo de atualização difere do outro.

§ 365. Então, em "Tampouco ser afetado", discute a questão de se ambos os tipos de atualização podem ser chamados um ser afetado. Primeiro, explica os diferentes significados de "ser afetado". Depois, em "Pois, quando um homem possuidor etc.", aplica essas distinções ao presente problema. Primeiro, pois, observa que ser afetado tem vários significados, como a potência e o ato. Em um sentido, implica algum tipo de destruição causada por uma qualidade contrária. Com efeito, no sentido estrito, o estado de ser passivo à ação parece conotar, da parte do paciente, a perda de algo que lhe é próprio por ser vencido pelo agente; e essa perda é uma espécie de destruição, seja absoluta, como quando o paciente perde sua forma substancial, seja relativa, como na perda de uma forma acidental. E a perda implica uma contrariedade no agente, a imposição, à matéria ou ao ser do paciente, de uma forma contrária vinda de fora. No primeiro sentido, o estrito, "ser afetado" significa, portanto, uma destruição causada por um agente contrário.

§ 366. Em outro sentido, mais lato, o termo conota qualquer recepção de algo vindo de fora. E, como o receptor está para o que recebe como a potência para o seu ato, e como o ato é a perfeição do que é potencial, assim ser afetado neste sentido implica antes que uma certa conservação e perfeição da coisa em potência é recebida de uma coisa em ato. Pois somente o atual pode aperfeiçoar o potencial; e o ato não é, enquanto tal, contrário à potência; antes, os dois são realmente semelhantes, pois a potência nada é senão uma certa relação ao ato. E, sem essa semelhança, não haveria correspondência necessária entre este ato e esta potência. Por isso, a potência, neste sentido, não é atualizada de contrário a contrário, mas antes de semelhante a semelhante, no sentido de que a potência se assemelha ao seu ato.

§ 367. Em seguida, em "Quando um homem possuidor de", Aristóteles discute se a atualização de um conhecimento já adquirido envolve um ser afetado. E toma primeiro a passagem da potencialidade secundária à atualidade plena; depois, em "A mudança de estar em potência", a da potencialidade primária ao hábito adquirido de conhecimento. Quanto ao primeiro ponto, afirma que esse movimento para o pensar atual não é verdadeiramente um ser alterado passivo; pois, como vimos, nenhum movimento para o ato, enquanto movimento para o ato, o é. O termo aplica-se, em sentido estrito, apenas à alteração de um sujeito de uma a outra de duas qualidades mutuamente exclusivas. Mas não é isso o que acontece quando um homem começa a exercitar a mente sobre um conhecimento que já possui; antes, está desenvolvendo uma qualidade já possuída; como diz aqui Aristóteles, é "uma nova perfeição nele e um aumento de atualidade"; pois a perfeição aumenta com a atualidade. E, se alguém insistir em usar os termos "atualidade" e "ser afetado", devem ser tomados num sentido mais amplo e menos estrito. E, para ilustrar o ponto, acrescenta que é tão inadequado falar de um pensador "alterado" quando pensa atualmente quanto dizer de um construtor que é alterado por construir.

§ 368. Uma conclusão ulterior: se se concede que passar do conhecer habitual ao atual não é receber um novo conhecimento, mas antes um extrair e aperfeiçoar o conhecimento já possuído, permanece verdadeiro que ser ensinado é adquirir novo conhecimento. Portanto, quando um homem é levado simplesmente ao ato de conhecer ou entender, isso não deveria, em sentido estrito, chamar-se "instrução"; poderia receber outro nome, embora talvez nenhum outro tenha de fato sido encontrado para isso.

§ 369. Então, em "A mudança de estar em potência", discute se a passagem da potência ao ato de quem adquire um conhecimento inteiramente novo é uma "alteração", no sentido de um "ser afetado". Diz que, quando um aprendiz, antes conhecedor apenas em potência, é instruído por um mestre que já conhece em ato, deve-se ou dizer simplesmente que isso não é caso de alteração e de ser afetado, ou então distinguir dois tipos de alteração. Um é "uma mudança para uma condição de privação", isto é, para qualidades opostas às que a coisa já tem, e incompatíveis com elas, e por isso até então por elas excluídas. O outro é "uma mudança para a posse e a maturidade", isto é, mediante a recepção de hábitos e formas que aperfeiçoam a natureza da coisa e não envolvem perda do que ela já tem. E o aprendiz é alterado neste segundo sentido, não no primeiro.

§ 370. Ora, isso parece contradizer o que foi dito acima, que os aprendizes muitas vezes mudam a partir de um hábito contrário e, assim, ao que parece, adquirem qualidades opostas às anteriores. Mas, na verdade, quando alguém é levado do erro ao conhecimento da verdade há, sim, uma certa semelhança com a mudança de uma qualidade para a sua oposta, mas é só uma semelhança. Pois, onde há verdadeira alteração, ambas as qualidades opostas, os termos do processo, estão necessária e essencialmente envolvidas; por exemplo, tornar-se branco envolve não só o branco, mas também o preto, ou alguma cor intermediária que, em relação ao branco, é uma espécie de negrume. Mas, onde se adquire conhecimento, é inteiramente acidental que o aprendiz estivesse antes em erro. Ele poderia aprender sem estar antes em erro. Logo, não é, em sentido verdadeiro, uma alteração.

§ 371. Outra dificuldade ocorre onde diz que o aprendiz, enquanto tal, é ensinado por um mestre que já sabe. Pois nem sempre é assim; um homem pode adquirir conhecimento descobrindo por si mesmo. A isso respondemos que, sempre que um conhecedor potencial se torna conhecedor atual, ele deve de fato ser atualizado por algo já em ato. Mas isso pode ser efetuado por uma causa puramente extrínseca, como quando o ar é iluminado por uma luz já atual, ou também por uma causa intrínseca, como quando um homem é curado ao mesmo tempo pela natureza e por um médico. Neste último caso, ambas as causas da cura são saúde em ato; pois é óbvio que a saúde existe tanto na mente do médico quanto em alguma parte sadia da natureza do homem (isto é, o coração), em virtude da qual o resto do homem recupera a saúde. Os médicos servem-se de tais meios naturais para a saúde como o calor, o frio ou outras disposições variáveis, de modo que se pode dizer que toda a sua arte consiste em ajudar a natureza a expulsar a doença. Se a natureza fosse forte o bastante, poderia fazê-lo por si mesma, sem o auxílio do médico.

§ 372. E o caso é o mesmo quando um homem adquire conhecimento. Pois aqui também há dois princípios envolvidos: um intrínseco, que o homem usa quando descobre as coisas por si mesmo; e um extrínseco, como quando aprende com outros. Mas, em ambos os casos, uma potência é atualizada por algo já em ato. A luz do intelecto agente dá ao homem conhecimento atual imediato dos primeiros princípios, que conhecemos por natureza, e, em virtude desse conhecer atual, ele é conduzido ao conhecimento atual das conclusões antes conhecidas por ele apenas em potência. Do mesmo modo, também um mestre pode ajudá-lo rumo ao conhecimento, conduzindo-o passo a passo dos princípios que já conhece a conclusões até então desconhecidas para ele. Nem seria necessária essa ajuda externa se a mente humana fosse sempre forte o bastante para deduzir conclusões dos princípios que possui por natureza; e, de fato, o poder de assim deduzir está presente nos homens, mas em graus variados.


Revision #1
Created 4 October 2026 19:40:04 by Admin
Updated 4 October 2026 19:44:58 by Admin