# Prólogo[1]

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Paulo ainda não tinha chegado a Roma, mas, por meio de alguns discípulos que ali pregavam, haviam abraçado a fé alguns romanos, em parte gentios, em parte judeus; entre eles havia uma altercação inconveniente. Com efeito, os judeus pretendiam dever ser preferidos aos gentios, e os gentios, ao contrário, afirmavam que eles é que deviam ser tidos por mais dignos que os judeus. A razão dos judeus era esta: a promessa dessa salvação fora feita a seus pais, como Abraão, Davi e os demais; Deus lhes dera também a Lei e os Profetas, que tudo prefiguravam a salvação futura por meio de Cristo, ao passo que em nada disso fizera menção dos gentios; por isso, diziam, mereciam ser preferidos aos gentios nessa salvação. Os gentios, ao contrário, objetavam que os judeus deviam ser julgados mais indignos, porque, se Deus tivera por eles tamanha solicitude a ponto de lhes conceder as coisas acima mencionadas, eles haviam abusado de todos os bens de Deus: prevaricando contra a Lei que Ele dera, desprezando os Profetas que enviara e, por fim, condenando ao patíbulo da cruz o Salvador que lhes fora enviado; por isso deviam antes ser humilhados do que exaltados por esses motivos. Os próprios gentios, ao contrário, é que mereciam ser preferidos, pois, assim que ouviram a palavra de Deus, acolheram a fé; e, se antes não haviam acreditado, era porque não tinham tido nem a Lei nem os Profetas, de modo que se declaravam escusáveis. Como os discípulos, por cuja pregação se tinham convertido, não conseguiam apaziguar essa discórdia, enviaram a Paulo, para que o mestre obtivesse o que a autoridade deles não bastava para alcançar.

Paulo, aproveitando então essa ocasião, escreve-lhes esta Epístola, na qual tens por matéria os romanos, isto é, os gentios convertidos à fé. Trata deles da seguinte maneira: primeiro repreende os gentios, para que, ensoberbecendo-se seja de sua sabedoria, seja de seu livre-arbítrio, e assim diminuindo a graça de Cristo, não se julguem mais dignos na fé do que quaisquer outros que a tenham abraçado, uma vez que a fé e a salvação são concedidas unicamente pela graça de Deus. Se se envaidecem do livre-arbítrio, nisso mesmo são sumamente culpados, pois tiveram o conhecimento natural, pelo qual poderiam conhecer o seu Criador sem mestre algum. Negligenciando o Criador, adoraram as criaturas; e acrescenta muitas outras coisas para abater a soberba dos gentios. Quanto ao abatimento dos judeus, porque os percebeu mais obstinados, como quem alegava mais razões, demora-se mais tempo, provando que não devem ensoberbecer-se por terem tido a Lei e os Profetas, uma vez que, justamente naquilo em que deveriam ter aplacado o Senhor, sempre ofenderam a Deus prevaricando. Estas e muitas outras coisas aduz para reprimir os judeus. E tem por fim proceder assim a fim de submeter uns e outros, judeus e gentios, à graça de Deus, levando-os a crer que nada advém aos judeus da linhagem, da Lei ou dos Profetas, nem aos gentios da ignorância que alegam, nem do livre-arbítrio.

## Notas

1. O texto das Epístolas do bem-aventurado Paulo que se encontra nas edições mais antigas da presente obra não concorda inteiramente nem com os códices que São Bruno tinha em mãos, nem com a edição Vulgata da Sagrada Bíblia; por isso, suprimimo-lo como supérfluo e julgamos útil inserir as Epístolas do bem-aventurado Paulo nos comentários de São Bruno segundo a referida edição Vulgata, pois assim cada um poderá comparar comodamente as variantes de leitura com essa versão aprovadíssima.

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