Prólogo A Galácia é um lugar na Grécia; e nela Paulo havia permanecido durante algum tempo, pregando aos gálatas a palavra de Deus, e os fundara também na fé. Enquanto Paulo ficou entre eles, portaram-se bastante honestamente na fé; mas, tendo Paulo partido dali, introduziram-se entre eles falsos doutores, cujo trabalho era perseguir a Igreja de Cristo, destruindo impiamente o que Paulo havia religiosamente edificado, dizendo que não se devia crer em Paulo, nem manter a sua doutrina, porque nem convivera com Cristo na terra, nem fora por ele instruído ou eleito, nem sequer fora instruído por Pedro ou por aqueles que haviam convivido com Cristo. Estes falsos apóstolos derrogavam também muitíssimo à graça de Deus, dizendo que ela não bastava para a salvação, se não se observassem a circuncisão e as demais coisas da lei antiga; nisto arguíam que Paulo ensinara mal, pois destruía a lei que, como é notório a todos, Deus dera por Moisés e que o próprio Cristo observara enquanto convivia entre os homens; e, dizendo isto entre os que eram simples, pareciam trazer razões convenientes. Por estas falácias já tinham sido de tal modo seduzidos que, se a solicitude de Paulo não acorresse logo por esta Epístola, já se disporiam a circuncidar-se e às demais práticas legais. Nesta Epístola, porém, Paulo trata da recomendação de sua pessoa, que os falsos apóstolos deprimiam; trata também da destruição da lei antiga, não que a reprove por não dever ter sido observada; trata também da recomendação da graça de Cristo: estas três coisas são aqui a matéria. Recomenda-se a si deste modo: como aqueles lhe objetam que não viu a Cristo, nem foi por ele eleito ou instruído, prova que foi eleito por Cristo e instruído muito mais dignamente que os outros Apóstolos; a esses, com efeito, enquanto mortal convivia entre mortais, Cristo elegeu e ensinou segundo a fraqueza do entendimento carnal: eram ainda carnais e não podiam captar os mistérios da Divindade, porque, embora tivessem recebido o Espírito, ainda não fora dado senão para a remissão; o que o mesmo Jesus claramente insinua, quando diz: «Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora; quando, porém, vier o Espírito, etc.» (Jo 16,12-13). Esses, digo, enquanto mortal, ensinou como a carnais; mas Paulo já feito imortal, já sentado à direita do Pai, já dado o Espírito Santo, elegeu, chamou e ensinou; e assim aparece que, naquilo em que Paulo parecia inferior, é muito mais glorioso que os outros. A lei antiga reprova assim, mostrando que foi dada para ser por um tempo, e vinda a graça logo ter fim, como a sombra, vindo o corpo; lei que, enquanto durou, nada foi senão jugo pesado e fardo insuportável e inútil, porque a ninguém pôde justificar. Destruída a lei, recomenda a graça de Cristo, como a única que basta à salvação e sem a qual, nem antes de ser dada a graça nem depois, ninguém pôde salvar-se. De todas estas coisas trata com a intenção de retrair os gálatas que queriam judaizar, para que não o façam, e não ouçam mais os falsos mestres.