Prólogo
Na Judeia havia Igrejas constituídas na fé de Cristo, às quais o próprio Cristo havia pregado, e que, pela doutrina dos Apóstolos, e daqueles a quem, ao subir, confiou o instituir as Igrejas, haviam recebido a fé, e acerca de Cristo criam bem na Encarnação, na morte, na Ressurreição e no mais; mas erravam muitíssimo em que observavam a circuncisão e certas práticas legais, crendo que sem elas ninguém podia salvar-se, e nisto detraíam da eminência e da fé de Cristo. E sobre isto aduziam muitas razões verossímeis, a saber, que Cristo, nascido sob a lei, observara a lei em tudo, e que, se alguma vez era acusado de dissolver a lei, dava razões de que em nada dissolvia a lei, como ali, quando lhe objetaram que, ao curar no sábado, não observava o sábado, deu a razão e disse: Se vós, no dia de sábado, desatando o boi ou o jumento, o levais a beber, sem transgressão da lei, como eu, libertando um homem do demônio, transgrido a lei? (Lc 13,15) — não se lembrando de que Cristo pôs fim àquela lei, quando celebrou a antiga Páscoa e logo consagrou àquela antiga a nova Páscoa, a saber, o novo sacrifício, entregando o seu Corpo e Sangue aos seus Apóstolos, mostrando que tudo o que precedera fora sombra, mas agora entregava pela primeira vez a verdade. Por isso, porque tinham visto Cristo observar a lei, porque, de novo, Pedro e os outros que pregaram aos judeus não os haviam obrigado a afastar-se da circuncisão e de semelhantes práticas legais, temendo a impaciência deles, pois preferiam abandonar toda a fé a renunciar àquelas coisas a que estavam acostumados; sabiam, com efeito, Pedro e os outros que, se não os nutrissem assim na meninice, não poderiam ser de outro modo conduzidos à virilidade da perfeição; por isso, digo, mantinham a circuncisão com a fé de Cristo: mas Paulo, vendo que Cristo lhes era inútil enquanto mantivessem a lei com a fé, segundo o que diz aos gálatas: «Se vos circuncidardes, Cristo de nada vos aproveitará» (Gl 5,2), escreveu-lhes por superabundância esta Epístola, embora fosse só Apóstolo dos gentios, agindo segundo o que diz aos romanos: «Honrarei o meu ministério, a ver se de algum modo provoco à emulação a minha carne, etc.» (Rm 11,14). Por isso, porque não era Apóstolo deles, não quis antepor nesta Epístola os nomes de dignidade, como costuma fazer em cada uma. Calou-os também porque lhes era odioso, porque perseguia a lei e por toda parte a destruía; donde com frequência o acusaram, imputando-lhe que dizia que a lei não fora dada por Deus e que em todo tempo fora inútil; por isso, para se purgar destas coisas, convinha-lhe em Jerusalém purificar-se segundo os ritos dos judeus e, purificado, subir ao templo (At 21,26; 24,18), e circuncidar o discípulo Timóteo (At 16,3): se, porém, sendo por eles odiado como perseguidor da sua lei, tivesse antecipado os nomes da sua dignidade, no princípio eles rumorejariam, dizendo que não se devia ouvir o seu inimigo, ainda que persuadisse segundo a razão. Para evitar isto, não fez menção da sua dignidade; como se dissesse: nenhuma autoridade minha vos compele, mas atendei às autoridades da vossa lei e dos Profetas, e pela própria lei e Profetas entendereis que em Cristo esteve o fim da lei.
E porque, como nas demais, não antepôs o seu nome, disseram alguns que esta não é de Paulo; outros diziam ser de Barnabé, outros de Lucas, outros de Clemente. Contra eles assim argumenta Jerônimo: se, porque não é intitulada com o nome de Paulo, não é de Paulo, então, porque não é intitulada com o nome de ninguém, seja de ninguém. Lucas certamente a traduziu do hebraico para o grego.
Nesta Epístola tem por matéria a eminência de Cristo e a inutilidade da lei, comprovando pela mesma lei e Profetas que estes tiveram fim em Cristo; as práticas legais que nem no tempo em que deviam existir aproveitavam a ninguém, senão pela fé de quem havia de vir, mas Cristo basta de tal modo para a justificação que não carece do auxílio da lei, e, se a lei se mistura, torna vã a fé. Com este fim assim fala de Cristo e da lei, para que os judeus abandonem as práticas legais e na eminência de Cristo busquem e recebam a justificação. Perto do fim da Epístola instrui-os também sobre a moralidade, porque, como vício natural, os judeus sempre foram demasiado luxuriosos em comidas e na libido.