Capítulo 9 Também a primeira aliança tinha regulamentos de culto e um santuário terrestre. Com efeito, foi armado um primeiro tabernáculo, no qual havia o candelabro, a mesa e a exposição dos pães, que se chama o Santo. Depois do véu, porém, o segundo tabernáculo, que se chama Santo dos Santos, tendo o turíbulo de ouro e a arca da aliança, toda revestida de ouro por todos os lados, na qual havia uma urna de ouro contendo o maná, e a vara de Aarão que florescera, e as tábuas da aliança; e sobre ela os Querubins da glória, que cobriam com a sua sombra o propiciatório; das quais coisas não é agora o momento de falar por miúdo. Assim dispostas estas coisas, no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes, cumprindo os ofícios dos sacrifícios; no segundo, porém, uma vez por ano, só o pontífice, e não sem sangue, que oferecia por si mesmo e pelas ignorâncias do povo; significando com isto o Espírito Santo que ainda não estava aberto o caminho do santuário, enquanto o primeiro tabernáculo estava de pé. O que é figura para o tempo presente, segundo a qual se oferecem dons e sacrifícios que não podem tornar perfeito, quanto à consciência, aquele que presta culto, consistindo apenas em alimentos e bebidas, e em várias abluções e regulamentos da carne, impostos até o tempo da reforma. Cristo, porém, tendo vindo como Pontífice dos bens futuros, por um tabernáculo maior e mais perfeito, não feito por mão, isto é, não desta criação, nem pelo sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue entrou uma vez no Santuário, tendo obtido eterna redenção. Pois, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha aspergida santificam os impuros, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! E por isso é mediador de um novo Testamento, para que, intervindo a morte para redenção das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento, os que foram chamados recebam a promessa da herança eterna. Pois onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. O testamento, com efeito, é confirmado pelos mortos; de outro modo ainda não vale, enquanto vive o testador. Por isso nem o primeiro foi inaugurado sem sangue. Pois, tendo Moisés lido a todo o povo todo o mandamento da lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã escarlate e hissopo, e aspergiu o próprio livro e todo o povo, dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus mandou para vós. Também o tabernáculo e todos os vasos do ministério aspergiu igualmente com sangue; e quase tudo, segundo a lei, se purifica com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. É necessário, pois, que as figuras das coisas celestes sejam purificadas por estes meios; as próprias coisas celestes, porém, por sacrifícios melhores que estes. Pois Jesus não entrou num santuário feito por mão, figura dos verdadeiros, mas no próprio céu, para comparecer agora diante da face de Deus por nós. Nem para se oferecer muitas vezes, como o pontífice entra no Santuário cada ano com sangue alheio; de outro modo, deveria ele ter padecido muitas vezes desde a origem do mundo; mas agora, uma vez, na consumação dos séculos, apareceu para destruir o pecado pelo seu sacrifício. E, assim como está estabelecido que os homens morram uma vez, e depois disso o juízo, assim também Cristo foi oferecido uma vez para tirar os pecados de muitos; aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam, para a salvação. Comentário Mas, embora o primeiro testamento esteja perto de desaparecer, contudo também o primeiro testamento tinha regulamentos , não verdadeiros, mas segundo o modo do seu culto, isto é, carnais, porque carnal era o culto; e um santuário , não espiritual mas terrestre , porque pelos homens se julgava haver ali santidade, que contudo não havia. E isto prova: verdadeiramente o primeiro testamento tinha santuário, pois teve tabernáculo primeiro e segundo ; o que assim diz: foi armado o primeiro tabernáculo , no qual primeiro havia o candelabro. Embora diga "candelabro" e no plural, era contudo um só candelabro, tendo uma haste no meio, na qual se apoiavam seis braços, três à direita, três à esquerda (Ex 25,32). E havia naquele tabernáculo a mesa logo depois da entrada, e sobre esta mesa estava a exposição dos pães , isto é, doze pães propostos a Deus pela santificação; dos quais se por acaso alguém fosse consumido por necessidade (este pão santificado era, com efeito, necessário aos sacrifícios), estava preparado igualmente um pão de flor de farinha, que logo era substituído no lugar do tomado: estes doze pães eram postos no sábado; retirados no sábado seguinte, eram repostos outros doze. Este tabernáculo, contendo estas coisas, chama-se o Santo. Havia, porém, fora deste tabernáculo, o altar a céu aberto, sobre o qual se imolavam os animais. Depois do véu, porém, havia o segundo tabernáculo ; um véu, com efeito, fora interposto, que separava o primeiro tabernáculo do segundo; este segundo tabernáculo chama-se Santo dos Santos : o segundo tabernáculo, digo, tendo o turíbulo de ouro , e tendo a arca da aliança , isto é, que continha o testamento, revestida em redor de ouro ; e porque por fora poderia estar revestida de ouro e não por dentro, por isso acrescenta toda revestida de ouro por todos os lados , tanto dentro como fora. Na qual arca havia uma urna de ouro , isto é, um gomor feito de ouro, contendo o maná , para que tivessem de memória com que pão Deus os alimentara no deserto; e havia na mesma arca a vara de Aarão que florescera , isto é, pela qual foi eleito sacerdote; e havia ali as tábuas da aliança , em que estava escrita a lei. E sobre a arca estavam os Querubins , isto é, dois Anjos; Querubins, digo, da glória , isto é, gloriosamente decorados; e aqueles Querubins cobriam com a sua sombra o propiciatório. Havia sobre a arca uma tábua que se chamava propiciatório, porque entre os dois Querubins, sobre a mesma tábua fixada, costumava aparecer o Anjo que dava os oráculos divinos. E neste segundo tabernáculo estava o altar do incenso. No templo, porém, havia dois tabernáculos, que um véu interposto dividia. Havia no primeiro tabernáculo, junto da entrada, a mesa, e sobre ela doze pães, e sobre cada um deles incenso; havia também o candelabro de cada parte com três braços coerentes ao tronco do meio, nos quais braços havia pequenas esferas; depois das esferas, lírios; depois deles, taças. O primeiro tabernáculo, pois, significa a Igreja dos fiéis que está no mundo, na qual os ministros da Igreja oferecem cada dia orações e sacrifícios. A mesa no templo, junto à porta, entende-se a Escritura divina, que se ministra aos que entram na Igreja pela fé, segundo a sua capacidade. Os doze pães são os doze Apóstolos, de cuja doutrina os fiéis se reconfortam na Igreja: o que, porém, sobrevindo alguma necessidade, alguém tomava dos pães e outro era substituído no lugar daquele, significa que, tirado do mundo algum dos Apóstolos ou dos seus sucessores, outro que faça as suas vezes deve ser substituído no lugar dele: pães que todos se consomem no sábado; porque, depois que se chegar ao repouso da verdadeira glória no dia do juízo, já nenhum ofício de bispo ou cuidado eclesiástico será exercido. Estes pães dizem-se de flor de farinha, porque nos Apóstolos nada houve senão pureza de inocência e perfeição das virtudes, nem nos seus sucessores deve haver; o incenso, porém, posto por cima, cujo odor é jucundo, são as orações deles, que são aceitáveis a Deus e jucundas e úteis aos seus súditos. A haste do candelabro, à qual aderiam três braços à direita e outros tantos à esquerda, é Cristo, a quem, como a firme tronco, aderem tanto os fiéis da Igreja antiga como da nova, e tudo o que são ou foram o têm dele; os três ramos, com efeito, que estão à direita, mostram as três ordens dos fiéis desta Igreja, que é mais digna que a antiga; tens estes no Evangelho, onde se diz: Dois estarão no leito; um será tomado, o outro deixado: dois no campo; um será tomado, o outro deixado; dois no moinho; um será tomado, e o outro deixado (Lc 17,34-35). Dois no leito, os continentes; destes serão deixados os que, abstendo-se ou por favor do mundo, ou por Deus, contudo desfalecem; os que, porém, o fazem por Cristo e perseveram, serão tomados à glória: dois no campo, são os que trabalham na Igreja, que é o campo de Deus; dos quais (como se disse dos outros) alguns serão tomados à glória, alguns deixados à pena: dois no moinho demonstram os possuidores deste século, permanecendo na volubilidade das coisas mundanas, que trabalham para que o marido agrade à mulher e a mulher ao marido; destes serão deixados aqueles que a deleitação do próprio mundo arrasta aos crimes e à perdição; serão, porém, tomados os que não caem em crimes e do dinheiro da iniquidade fazem para si amigos (Lc 16,9). Aqueles três ramos que aderem à parte esquerda mostram as três ordens dos fiéis sob a antiga; tens-as por Daniel, por Noé, por Jó: Daniel, com efeito, que viveu castamente, mostra os continentes sob a lei antiga; Noé, fabricador e artífice da arca do Senhor, pré-assinalou os doutores da lei; Jó, que esteve no matrimônio e na posse das coisas, demonstra os que no matrimônio e nas coisas mundanas agradaram a Deus. Em todos estes ramos havia esferas, porque em todos havia a redondeza da perfeição e a igualdade da justiça. A estas esferas seguiam-se lírios, porque depois que alguém é perfeito se torna odor grato a Deus e, na Igreja, olente pelo exemplo das boas obras. Depois dos lírios sucedem as taças, porque, quando alguém é provado perfeito e pelo exemplo da boa operação é reconhecido como lírio pelo seu odor, resta que se faça pregador e propinador da doutrina católica aos que dela carecem; o qual, feito tal pela operação e doutrina, tanto a si mesmo acende com o fogo da caridade como mostra aos outros a luz nas trevas. O segundo tabernáculo, porém, era dividido do primeiro pela interposição do véu, no qual só o pontífice e uma vez por ano entrava com sangue. Aquele tabernáculo é a Igreja celeste; ele, porém, é coberto por um véu; porque, enquanto estamos nesta carne ainda mortal ou Igreja, que e quão grandes coisas Deus prepara aos seus não podemos conhecer, pela cegueira da ignorância. O pontífice, que uma vez por ano e com sangue entrava, é Cristo, que, na perfeição dos tempos, oferecendo uma vez o seu sangue, iniciou para nós o caminho da pátria celeste. Que a própria hóstia fosse reiterada cada ano mostrava a imperfeição da própria hóstia, e da sua mesma iteração mandava esperar outra hóstia, que não conviesse iterar. O turíbulo de ouro é Cristo, que, por ter tido perfeita sabedoria das coisas mundanas e das celestes, com razão se diz ter sido de ouro; por ter estado cheio do fogo da caridade para com Deus e o próximo, e ter derramado a Deus pelo mundo o jucundo odor das orações, com razão se assemelha ao turíbulo que contém o fogo e emite para o alto o odor do incenso. O mesmo é também a arca da aliança, isto é, em que se reservava a aliança e se ocultava; porque na Sabedoria do Pai, com a qual ele mesmo era pessoalmente, os preceitos da lei antiga e da nova estavam ocultos e já dependiam da sua disposição; ele, que os fecha e ninguém abre, abre e ninguém fecha (Ap 3,7). Esta arca estava revestida de ouro por todos os lados, tanto por dentro como por fora, porque ele resplandeceu, na alma e no corpo, pela consumação de todas as virtudes, e nenhuma justiça lhe faltou. Nesta arca havia uma urna de ouro, porque no corpo de Cristo havia a verdadeira alma humana, e essa cheia de toda virtude e perfeita sabedoria: na urna estava o maná escondido, porque na alma de Cristo está a própria Divindade, que é pão e refeição dos Anjos. Havia também na arca a vara de Aarão e as tábuas da Aliança: a vara de Aarão significou o verdadeiro sacerdócio; as tábuas da Aliança são os corações daqueles em quem os preceitos da lei se assentam e repousam. Estão, pois, na arca a vara de Aarão e as tábuas da Aliança, porque em Cristo está o verdadeiro sacerdócio e cada fiel; donde diz no Evangelho: «Permanecei em mim, e eu em vós» (Jo 15,4). Sobre a arca estava a tábua que se chamava propiciatório, na qual Deus, aparecendo por um Anjo, se tornava propício aos pecados deles. Sobre o propiciatório, dois Querubins sempre com o rosto inclinado a olhá-lo, e com a conjunção das suas asas estendidas por cima o cobrindo com sombra. O mesmo Cristo é propiciatório, enquanto dele pedimos o que queremos, e com a sua misericórdia se torna propício aos nossos pecados. Sobre ele estão dois Querubins, porque também as virtudes mais altas dos céus se apoiam nele e têm nele o firmamento da sua estabilidade. Os mesmos Querubins olham sempre o propiciatório, mas por cima o cobrem com sombra, porque as virtudes celestes contemplam sempre a misericórdia de Deus, mas, quanto mais intensamente o olham, tanto mais obscuro e mais ignoto se torna, porque a misericórdia do Senhor é abismo profundo. Na arca, porém, havia quatro anéis, nos quais se metiam varais, e assim a arca era levada aonde a coisa requeria. Os quatro anéis são os quatro Evangelhos; os varais, os santos pregadores, que, metidos na doutrina do Evangelho, levam Cristo e a sua fé aonde Deus quer e preordena. O fato de ter sido feita de madeira de setim, que é imputrescível, pré-assinalou que o corpo de Cristo, depois da Paixão, seria imortal e impassível. Estas coisas estão no primeiro e no segundo tabernáculo; das quais não é agora o momento de falar por miúdo , indo a interpretar cada uma delas. De cada uma, sim, não se deve falar, mas destas coisas assim dispostas deve dizer-se isto, a saber, que no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes, cumprindo os ofícios dos sacrifícios , isto é, aperfeiçoando os sacrifícios segundo o rito do seu ofício: no primeiro sempre, mas no segundo tabernáculo entrava uma vez por ano só o pontífice, e não sem sangue ; tomado o qual do animal imolado fora, tingia com ele os cornos do altar do incenso; sangue que o sacerdote oferece por si mesmo e pelas ignorâncias do povo a perdoar; significando com isto o Espírito Santo , pelo fato de no primeiro entrarem todos, no segundo ninguém além do só pontífice, que ainda não estava aberto o caminho do santuário , isto é, que os santos não podiam entrar nos céus, caminho que lhes havia de ser aberto em Cristo, com a sua ressurreição: e ainda quando não estava aberto o caminho dos santos, mas Abraão e todos os santos eram mantidos nas trevas, então, digo, estando o primeiro tabernáculo de pé ; até que, com efeito, foi aberto o caminho dos santos, celebrando Cristo a nova Páscoa, a lei antiga teve o seu estado por Deus. O que tudo é figura para o tempo presente de todo o primeiro e verdadeiro tabernáculo, isto é, figura pertencente a este tempo que agora está iminente, porque tudo o que ali foi figurado agora foi cumprido em Cristo — no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes consumando os sacrifícios, porque na Igreja presente entramos cada dia consumando o sacrifício espiritual de Cristo; no segundo tabernáculo o pontífice entrava uma vez por ano, porque Cristo, verdadeiro Pontífice, entrou na Igreja celeste uma vez, não voltando mais da glória; que o sacerdote reiterasse cada ano a entrada daquele segundo tabernáculo, esperava que o verdadeiro Pontífice Cristo ainda não entrara no seu tabernáculo nos céus, mas ainda havia de entrar: o pontífice legal não entrava sem sangue, porque Cristo não penetrou os céus senão derramando primeiro o seu sangue em redenção de todos; sangue que Cristo ofereceu, não por sua, mas pela ignorância de todo o povo a apagar —: segundo a qual figura se oferecem na lei antiga dons, isto é, as oblações menores; oferecem-se também sacrifícios de animais. Assim, nesta Igreja presente, os nossos dons são as orações em odor de suavidade a Deus, e os sacrifícios são os que são imolados por Cristo, como Lourenço, também os que se imolam a si mesmos com jejuns, vigílias e múltiplas aflições. Estes dons e sacrifícios, na lei antiga, não podem tornar perfeito aquele que presta culto nestas coisas; e, se é perfeito segundo a reputação dos homens, não é contudo perfeito quanto à sua consciência , porque a consciência lhe sussurra continuamente que se fez réu de crime e não foi purificado pelas coisas legais: nem é de admirar que não seja perfeito; porque presta culto , digo, apenas em alimentos e bebidas , porque come e bebe copiosamente; e em várias abluções , isto é, lavagens feitas segundo os ritos legais; prestando culto também em regulamentos , mas da carne , porque carnais são aqueles regulamentos, que livram o corpo da pena da lei, mas deixam a alma nos vínculos do pecado; regulamentos da carne, digo, impostos para durarem até o tempo da reforma , isto é, até Cristo, na perfeição do testamento por quem se corrigiria a imperfeição do antigo. Os dons e sacrifícios legais a ninguém podem tornar perfeito, mas Cristo obteve eterna redenção , o que é dizer: Cristo faz perfeito. Mas por que meio obteve a eterna redenção antepõe, dizendo: Cristo, tendo vindo ; não determina a quem vem; e podemos dizer: Cristo, vindo ao Pai, interpelando sempre por nós pela sua representação, ou então, Cristo, vindo por nós, erguendo a nossa fraqueza às coisas celestes, estendendo-nos a mão do auxílio; Cristo, digo, vindo como Pontífice não das coisas carnais, mas dos bens futuros , isto é, celestes, ou então, dos bens futuros, isto é, da justiça presente e da bem-aventurança eterna, que todos no tempo da lei eram futuros: Cristo, digo, tal Pontífice entrou no tabernáculo — pelo nome do significante designa o significado —, tabernáculo, digo, maior , porque, se aquele antigo comportava mil ou muitos milhares de homens, o tabernáculo celeste é ainda maior, comportando largamente a infinidade de todos os que nele entram; tabernáculo mais perfeito , porque naquele tabernáculo se recebe a perfeição de toda a bem-aventurança, no tabernáculo legal havia por toda parte imperfeição; tabernáculo, digo, não feito por mão ; e para que ninguém tomasse isto perversamente, julgando que não foi feito por mão, isto é, pela operação de Deus, determina, dizendo: o que digo, "não feito por mão", é dizer: aquele tabernáculo não é desta criação , isto é, humana, como o antigo, no qual as mulheres teciam cortinas, os ferreiros trabalhavam em seu gênero, e igualmente os demais artífices. Entrou, sim, neste tabernáculo, nem pelo sangue de bodes e de bezerros derramado, o que convinha fazer-se na entrada do segundo tabernáculo, mas entrou, pelo seu próprio sangue derramado, no tabernáculo celeste, a saber, no Santo dos Santos: entrou certamente uma vez , e por sangue derramado uma vez — pois dizer que entrou uma vez e derramou o sangue uma vez significa a perfeição daquele sacrifício, que não convinha iterar; que o sacrifício antigo tantas vezes o iterassem, significava que nele não estava, nem ainda tinha vindo, a perfeição —; entrou no Santuário, tendo obtido redenção ; não determina por quem obtida, se por si, se por outro, e ambas as coisas podemos dizer: redenção obtida por Cristo, porque este Pontífice, no seu sacrifício, obteve a redenção dos homens dos pecados, em cuja obtenção os pontífices legais sempre falharam; ou então, redenção obtida por nós; nós, com efeito, em Cristo obtivemos a nossa redenção; redenção, digo, eterna , porque aos que redime faz eternos. Prova-o a partir do menor, dizendo: verdadeiramente pelo sangue de Cristo se obteve a redenção; porque se o sangue de bodes e de touros, e a cinza de uma novilha queimada, aspergida sobre o povo, santifica os impuros , isto é, purifica as poluções dos pecados, santifica, digo, valendo para a purificação , certamente não da alma, mas só da carne , porque livra a carne da pena da lei, a alma permanece poluída; se, digo, o sangue daqueles animais de algum modo santifica, quanto mais o sangue de Cristo purificará a nós? Cristo, que ofereceu não um bode, não um touro, mas a si mesmo a Deus ; a si, digo, imaculado , o que nenhum sacrifício pôde ser na lei; imaculado, digo, pelo Espírito Santo a ele unido no útero da mãe, de quem foi concebido, feito por isto imune de pecado; ou então, ofereceu-se pelo Espírito Santo, que lhe ditava que obedecesse ao Pai em toda a paciência: quanto mais, digo, o sangue de Cristo purificará, não digo a carne, mas também a nossa consciência , de modo que nem sobrará de que a consciência tema; purificará certamente das obras mortas , isto é, dos pecados que operam a morte, para servirmos — estas duas coisas, com efeito, o sangue de Cristo efetua em nós: tanto purifica dos pecados como restitui a virtude do livre-arbítrio, para que possa servir a Deus —; ao Deus vivo (posto como causa), porque aos que o servem dará a vida eterna. Ofereceu-se a si mesmo : e é Mediador, isto é, doador do novo Testamento, médio entre Deus, de quem recebe, e o homem, a quem dá; por isso doador do Testamento novo, para que , intervindo a morte dele, isto é, vindo no meio entre a disposição e o cumprimento do Testamento, morte, digo, necessária para a redenção , não digo dos gentios, de quem consta, mas das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento ; aquela lei primeira, com efeito, mandando, acrescentava prevaricações, das quais de modo algum podia libertar: para que, digo, intervindo a morte, recebam a promessa da herança eterna , isto é, a herança eterna frequentemente a eles prometida; recebam, não todos, mas os que foram chamados por Deus, eleitos desde a eternidade. Depois que Cristo dispôs o novo Testamento, foi necessário que, para a confirmação desse Testamento, morresse; tanto porque, se preso pelos judeus negasse o que antes dissera, e, por afirmação deles, recusasse padecer, pensariam os discípulos que Cristo não entendera serem verdadeiras as coisas que ensinara, ao negá-las por temor da morte; além disso, era preciso morrer para que, ressurgindo da morte, consumasse o que predisse que cumpriria, a saber, a redenção de Israel. A novilha de que falamos acima era ruiva, trazendo o tipo do sangue de Cristo, e toda era queimada reduzida a cinza, para ser holocausto ao Senhor; cuja cinza era aspergida com água: assim Cristo, triturado por muitas tribulações, e finalmente pela morte como que reduzido a cinza. A cinza da novilha, que era lançada sobre os homens, significa a memória da contrição de Cristo, que deve sempre ser inculcada aos homens. Assim, irmão, lembra-te de que Cristo padeceu e foi triturado por ti, e pecando não o provoques. Se a cinza da novilha purificava a carne, muito mais dignamente a cinza de Cristo purifica a alma. Disse acima que Cristo é doador do novo Testamento intervindo a morte; agora, que lhe convinha morrer para a confirmação do novo Testamento, aprova-o pelo costume da lei humana; como se alguém dissesse: que necessidade houve de que, para a confirmação do Testamento novo, interviesse a morte de Cristo? Convinha certamente, diz Paulo, que desse o Testamento intervindo a morte; porque, onde quer que se faça testamento nas leis humanas, é necessário que intervenha , isto é, venha no meio entre a disposição do testamento e o cumprimento, a morte do testador , isto é, de quem faz o testamento. Por isso é necessário que intervenha a morte do testador, porque todo testamento é confirmado pelos testadores mortos , isto é, pela morte dos que dispõem os testamentos; de outro modo , isto é, se for de outro modo, de modo que a morte do testador não intervenha, ainda não vale o testamento disposto, enquanto (isto é, durante o tempo em que) vive o testador ; se o testador, com efeito, escapa à morte, de novo, se lhe aprouver, mudará o testamento. Por isso , porque todo testamento é confirmado por sangue e morte, nem o primeiro testamento foi inaugurado , isto é, confirmado, sem sangue : certamente não foi inaugurado sem sangue; tendo sido lido, com efeito, todo o mandamento da lei — todo, porque, se omitisse alguns, pareceria reprovar os omitidos e confirmar apenas os lidos —; lido, digo, todo o mandamento por Moisés, o mesmo Moisés, com efeito, leu, a todo o povo que ouvia: então Moisés, depois que lera, tomando o sangue dos bezerros e dos bodes , misturado com água , tomada também lã escarlate e hissopo de que se faz o aspersório, aspergiu o próprio livro e todo o povo com sangue, dizendo assim: Este é o sangue com que vos asperjo do testamento , isto é, para confirmar o testamento que Deus mandou para vós. Como o livro, assim também o tabernáculo e todos os vasos do ministério aspergiu igualmente com o mesmo sangue: e quase tudo , diz Paulo, segundo a lei antiga se purifica com sangue ; e o que quer que seja dos demais, a remissão do pecado não se dá na lei antiga sem derramamento de sangue , isto é, nenhum pecado se remitia a não ser que se imolasse algum animal em sacrifício. Igualmente Cristo, que é significado por Moisés, lido todo o mandamento da sua lei nova na ceia, ouvindo todo o povo dos discípulos; depois que leu tudo, Jesus, tomando o sangue dos bezerros e dos bodes , isto é, o próprio sangue — Cristo diz-se bezerro por causa da virtude da Cruz, com cujos cornos desbaratou os ímpios; Cristo foi dito também bode por causa da semelhança da carne do pecado, e porque foi hóstia pelo pecado, enquanto levou os nossos pecados sobre o lenho —; tomando, digo, Cristo o seu sangue com água que saiu do seu lado na Cruz, pela água santificando o batismo, pelo preço do sangue remindo-nos dos pecados: tomando-o com lã escarlate , cor ígnea, e hissopo : a lã significa a caridade de Cristo, e que fosse escarlate semelhante ao fogo, o fervor da dileção de Cristo; o hissopo, que vale para expulsar o tumor do pulmão, a humildade de Cristo, que por fervor de dileção e humildade derramou o seu sangue pela nossa redenção. O próprio livro , isto é, o seu Evangelho, que confirmou intervindo a morte, e todo o povo dos fiéis aspergiu , isto é, santificou com o seu sangue, dizendo: este é o sangue que afirma o novo Testamento, Testamento que Deus mandou para vós. Aqui Moisés muito fielmente provou, dizendo as mesmas palavras que Cristo, quando depois da ceia entregou o cálice do seu Sangue dizendo: Este cálice é o novo Testamento no meu sangue. Aspergiu o livro, aspergiu também o tabernáculo igualmente com sangue: pela mesma alegoria entende-se por tabernáculo a Igreja de Cristo remida pelo seu sangue, que acima se entendia por todo o povo. Aspergiu também todos os vasos do ministério , porque Cristo remiu com o seu sangue os doutores da Igreja, nos quais se contêm os seus ministérios, e aos remidos deu o Espírito de sabedoria e ciência. E tudo , segundo a lei de Cristo, se purifica no seu sangue ("quase" nada tem na alegoria); e sem derramamento do sangue de Cristo não se dá remissão de qualquer pecado. E porque tudo convém purificar-se no sangue, e sem derramamento de sangue nenhuma remissão se dá, portanto é necessário que as figuras das coisas celestes , isto é, as legais, que são figura das espirituais, sejam purificadas por estes meios acima ditos, a saber, de bezerros e bodes: as figuras das verdadeiras foi necessário purificá-las com estas hóstias; as próprias coisas celestes , porém, de que estas eram figura, foi necessário purificá-las com sacrifícios melhores que estes acima ditos, bode e bezerro. E verdadeiramente foi melhor o sacrifício com que foram purificadas as coisas celestes, pois Jesus ; e verdadeiramente estas são celestes, pois não feitas por mão , etc., o que assim diz: Jesus entrou não permanecendo nos santuários feitos por mão, que santuários feitos por mão foram, sim, figuras dos verdadeiros, mas entrou no próprio céu. Entrou para que agora , depois de mostrado serem inúteis os santuários feitos por mão, compareça diante da face , isto é, do beneplácito de Deus por nós , a introduzir conosco no céu. Entrou, sim, no céu, mas nem assim entrou que, muitas vezes de lá voltando, de novo se ofereça a si mesmo, como se o seu sacrifício, uma vez tirado, não bastasse a todos e em todo tempo; nem para se oferecer muitas vezes , como o pontífice legal cada ano , porque não basta, iterando o seu sacrifício, entra no Santo dos Santos ; não com o seu, como Cristo, mas com sangue alheio ; por isso, porque é sangue alheio, não pode justificar: nisto mostra tanto o seu sacrifício suficiente como o legal insuficiente. De outro modo , isto é, se de outro modo queres dizer, que Cristo deva oferecer-se muitas vezes, então sem dúvida (se assim é) deveria ter padecido muitas vezes, começando da origem do mundo ; se, com efeito, só aos que existiram em seu tempo aproveitou a sua Paixão, e a cada idade futura convenha que padeça iteradamente; então era necessário que, começando dos dias de Abel, em cada idade levasse uma cruz, ou Abraão e os demais santos não serão remidos. Assim certamente convinha; mas agora , depois de mostrado que daí se segue tão grande inconveniente, deve dizer-se que Cristo apareceu uma vez na consumação dos séculos — o tempo de Cristo diz-se consumação, porque Cristo consumou tudo o que dele fora predito; e, não havendo antes em nada consumação, isto é, verdadeira perfeição, ele trouxe a perfeição de tudo —; apareceu, digo, para a destruição do pecado pelo seu sacrifício , não alheio, mas seu. Porque destruiu plenamente o pecado, não convém que Cristo padeça de novo; por isso também não deve morrer outra vez, porque os demais homens morrem uma só vez; e, assim como está estabelecido que os homens morram uma vez, e depois disso o juízo , resta deles o juízo depois de mortos; assim também Cristo foi oferecido a Deus uma vez pela morte para tirar , isto é, esvaziar, os pecados de muitos. Neste fato de ter morrido uma só vez, é semelhante ao homem; mas neste fato de que o homem morre para ser julgado, Cristo é dessemelhante, pois julga; o que assim diz: na segunda vinda, vindo ao juízo, aparecerá Cristo sem pecado , isto é, não em semelhança da carne do pecado, mas glorificada pela claridade da imortalidade e impassibilidade; ou então, aparecerá sem pecado, isto é, não vindo para, como antes, de novo se fazer hóstia pelo pecado: aparecerá certamente para a salvação , não dos ímpios, mas dos que o esperam em justiça e temor.