Capítulo 4
Rogo-vos, pois, eu, prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação com que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros na caridade, solícitos em guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Um só corpo e um só espírito, como fostes chamados numa só esperança da vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, age por todos e está em todos nós. A cada um de nós, porém, foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo. Por isso diz: Subindo às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens (Sl 67,19). Ora, que significa "subiu", senão que também desceu primeiro às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, para plenificar todas as coisas. E ele mesmo deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e doutores, para a consumação dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo; para que já não sejamos crianças, levados ao sabor das ondas e arrastados por todo vento de doutrina, pela maldade dos homens, pela astúcia que arma ao erro. Mas, praticando a verdade na caridade, cresçamos em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e unido por todas as juntas de que se serve, segundo a operação proporcionada a cada membro, produz o seu crescimento para a edificação de si mesmo na caridade. Isto, pois, digo e testifico no Senhor: que já não andeis como andam os gentios, na vaidade do seu sentir, tendo o entendimento obscurecido pelas trevas, alheios à vida de Deus pela ignorância que há neles por causa da cegueira do seu coração; os quais, desesperados, se entregaram à dissolução, para praticarem com avidez toda impureza. Vós, porém, não foi assim que aprendestes a Cristo; se é que o ouvistes e fostes nele ensinados, conforme é a verdade em Jesus, a despojar-vos, quanto à conduta anterior, do homem velho, que se corrompe segundo os desejos do erro. Renovai-vos no espírito da vossa mente, e revesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade. Por isso, deixando a mentira, falai a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, mas não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo. Quem furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para ter com que socorrer o que está em necessidade. Nenhuma palavra má saia da vossa boca; mas só a que for boa, para edificação da fé, a fim de dar graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e blasfêmia sejam removidas de vós, com toda malícia. Sede benignos uns para com os outros, misericordiosos, perdoando-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo.
Comentário
Depois de ter admoestado de diversos modos que não se enchessem de soberba pelos bens da graça de Deus, nem se entorpecessem, mas sempre vigiassem para progredir ao melhor — admoestações que parecem versar sobre os mais perfeitos —, passa à instrução moral, que parece pertencer mais aos menos perfeitos, instruindo primeiro todos em comum, depois separadamente as condições, os sexos e as idades. A letra liga-se assim: porque Deus é poderoso para fazer por vós mais do que pedimos ou entendemos, portanto rogo-vos, isto é, conjuro-vos por todas as coisas sagradas, eu, prisioneiro no Senhor, isto é, por causa do Senhor, a quem ofender em cadeias não é a menor culpa; rogo, digo, que andeis pelos degraus das virtudes de modo digno da vocação com que fostes chamados; não fostes, com efeito, chamados para cumprir os desejos da carne, mas para mortificar a carne segundo o espírito; a saber, que andeis com toda humildade, tanto no ânimo tida quanto por fora mostrada; é culpa, com efeito, ser humilde por dentro e simular soberba por fora, pois assim dá de si ocasião de maledicência e se oculta a virtude, cuja imitação podia instruir o próximo; humilde por fora, porém, e soberbo por dentro, a ninguém é dúvida que seja culpável; e com toda mansidão, para que seja tratável e afável a todos; e com paciência, guardada em quaisquer adversidades, suportando-vos uns aos outros, se um lhe infligiu molestia; ou então, suportando, isto é, compadecendo-se do próximo, se por acaso tiver caído, e ajudando-o com oração e jejum; suportando, digo, na caridade, não na expectativa de vingança; vós, digo, solícitos em guardar a unidade em vós, de modo que haja entre vós o mesmo querer, o mesmo não querer; unidade, digo, do Espírito, isto é, a que o Espírito Santo dita, guardá-la no vínculo da paz; paz que, guardada por fora, é vínculo e alimento da unidade espiritual.
E para guardardes esta unidade, sede um só corpo, isto é, um só na operação, e um só espírito, isto é, um só na vontade; sede um só em corpo e espírito, assim como é uma só a coisa a que fostes chamados; o que diz assim: fostes chamados numa só esperança, isto é, para uma só coisa esperada; esperança, digo, da vossa vocação, isto é, de que é digna a vossa vocação. De novo, deveis ser um só corpo e um só espírito, porque um só Senhor vos domina, e a vossa fé é uma só e indiferente, e um só é o vosso batismo, que justifica igualmente a todos, não segundo o que alguns dizem, segundo os méritos de diversos que batizam, mais ou menos dignamente; e há um só Deus, isto é, Criador de todos, e Pai de todos, que vos governa segundo o amor de filhos; Senhor, Deus e Pai que, dominando, criando, amando, está acima de todos pelo poder; está também por todos os lugares, nem é lícito de modo algum fugir dele; o qual, embora assim comumente esteja acima de todos e por todos, está, contudo, em todos os eleitos mais familiarmente, dando as suas graças. Aqui se pode entender a Trindade: acima de todos, o Pai; por todos, o Filho; em nós, o amor do Pai e do Filho, isto é, o Espírito Santo.
Porque dissera "somos um só corpo, um só espírito, um só é o nosso Senhor, uma só a fé", para que por isso não julgassem que todos são igualmente nesta nova graça, de modo que ninguém seja prelado, ninguém súdito, ninguém servo, ninguém senhor, determina isto dizendo: embora sejamos um só e tenhamos um só Deus e uma só fé, a cada um de nós foi dada a graça de Deus, não a mesma a todos, mas segundo a medida do dom, isto é, do doador Cristo; a este aquela graça, a este esta, e muitas vezes na mesma graça há diversidade, porque este tem menos, este mais da mesma graça. Por isso, para comprovar isto (a saber, que é doador de graças), diz o Espírito Santo no Salmo (Sl 67,19): o homem Cristo, subindo às alturas, isto é, acima da altura dos céus, levou cativo o cativeiro, isto é, a natureza humana, antes expulsa do paraíso e do céu, reconduziu em si, homem, cativa, porque, tirada do lugar que lhe era natural pelo pecado, levou-a de volta aos céus, a saber, à pátria antes destinada a ela, se não pecasse. O homem, com efeito, criado em pureza, teve o paraíso para habitar, de modo que ali, cumprida a obediência, dali fosse transferido aos céus; mas, porque pecou, perdeu o céu prometido e, do lugar da habitação, isto é, do paraíso, expulso, foi cativado nesta terra; terra que o pecado fez natural ao homem, como a justiça, enquanto nela esteve, fez natural o paraíso. De novo Cristo, destruído o pecado do homem, a natureza humana, cativa desta miséria (lugar que já lhe era natural pelo pecado), porque tirada do lugar natural, reconduziu à pátria anterior, a saber, aos céus: mas, quanto mais miserável o primeiro cativeiro, tanto mais glorioso o segundo. Cristo, subindo certamente às alturas, deu dons aos homens, porque enviou o Espírito Santo aos corações dos discípulos; e porque deu dons, provou-se que Cristo é doador de graças.
Que entendimento se deva colher do que diz "subindo às alturas", quer explicar, não, contudo, afastando-se do propósito: digo "subindo"; mas que significa, isto é, que se deve entender pelo fato de o Senhor subir ("subindo" e "subiu" tem por o mesmo), senão que, se subiu, segue-se que antes de subir desceu, isto é, esteve em lugar humilde? Se, com efeito, subiu, segue-se que do inferior ao superior subiu. Desceu, digo, às regiões inferiores da terra, isto é, ao inferno, que certamente se crê estar na terra, mas na parte inferior. Por isso provou que aquele que sobe antes habitou em lugar humilde como verdadeiro homem, para que, sabendo que Cristo, doador de graças, como nós, assim é homem, lhe peçamos com mais confiança as suas graças; que, se não tivesse participado da nossa humanidade, seria muito mais inexorável a nós. E porque ele desceu primeiro, portanto, aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, um só e mesmo Cristo indiviso, homem Deus. Ou de outro modo: que significa que a humanidade de Cristo subiu, senão que primeiro a Divindade desceu às regiões inferiores da terra, isto é, para unir a si a humanidade entre os homens? Se, com efeito, descesse até o globo do sol e da lua, estaria abaixo, mas descer às terras foi mais inferior. E, embora pareça outro o que sobe, isto é, o homem, outro o que desce, isto é, Deus, aquele, contudo, que desceu e que subiu acima de todos os céus é o mesmo e um só, pessoa indivisa. Assim, de novo, bem ao propósito; porque, vendo tão grande poder dele, que, homem Deus, subiu acima dos céus, podemos pedir com confiança àquele que tudo pode. Subiu para plenificar todas as coisas com os seus dons, segundo o que ele mesmo diz: «Se eu não for, o Paráclito não virá a vós» (Jo 16,7).
Depois de provar que Cristo é doador de graças, mostra a diversidade dos dons: digo bem, "plenificar todas as coisas"; e ele mesmo, Cristo, deu uns, isto é, distintamente dos outros, como apóstolos; outros deu como profetas, que revelassem as Escrituras; outros como evangelistas, isto é, pregadores; outros como pastores e doutores, isto é, bispos, que apascentem os súditos da mesa do Corpo de Cristo, e ensinem do Novo e do Antigo Testamento. Por isso deu uns e outros para a obra do ministério, porque, se desse tudo a um, enquanto um não bastasse a tudo, os ministérios de Cristo permaneceriam imperfeitos; ministério, digo, valioso para a consumação dos santos, isto é, para que os que já são justos subam à perfeição; ministério valioso também para a edificação do corpo de Cristo, isto é, para que dos que ainda são incrédulos seja edificado o corpo de Cristo, isto é, a Igreja.
Dir-lhe-iam aqueles a quem admoestara, para que por causa da unidade da Igreja não julgassem dever ser iguais: pouco aproveita termos recebido a fé, se sempre nos convém permanecer na sujeição. Disto os consola dizendo: não vos seja pesado que uns sejam sujeitos, outros preferidos, logo, com efeito, será o fim desta diversidade; diversidade, digo, que não durará mais, até que todos cheguemos (diz "cheguemos" segundo o desejo dos santos), até que cheguemos todos existentes na unidade da fé, isto é, a quem há uma só fé de Cristo, e existentes na unidade do conhecimento do Filho de Deus, isto é, na unidade das boas obras que seguem a fé, pelas quais obras se conhece o Filho de Deus; ou então, na unidade do conhecimento de Deus, para que do conhecimento da Deidade não trabalhemos, até que cheguemos ao estado de homem perfeito, isto é, para sermos homem perfeito, recebida a impassibilidade e a imortalidade; ao homem perfeito, digo, a saber, à medida, isto é, à meta da idade de Cristo; idade, digo, da plenitude, isto é, na qual Cristo teve a plenitude, a saber, depois da Ressurreição, feito impassível e imortal. Ou de outro modo: cheguemos ao homem perfeito, como foi dito, e à meta da idade de Cristo de trinta e três anos e meio; idade que foi de plenitude; depois que se chega a ela, com efeito, não há para onde a carne cresça, nem em aumento de forças nem de estatura; todos, com efeito, quer mais jovens quer mais velhos, ressuscitaremos no mesmo ponto de idade em que Cristo saiu do mundo e ressuscitou.
Por isso deu uns profetas, outros doutores ou pastores, para que já — outrora, sim, assim fomos, mas daqui em diante — não sejamos crianças de entendimento, levados ao sabor das ondas, por nós mesmos, ora bem, ora mal agindo; e para que não sejamos arrastados por outros ora para cá, ora para lá, por todo vento de doutrina — alude à semelhança; o mar, com efeito, significa o mundo; o vento, os sedutores; a nau, a Igreja, que ora para baixo, ora para cima é impelida pela perseguição dos maus —; de doutrina, digo, feita pela maldade dos homens, nequíssimos são, com efeito, tais sedutores; doutrina também feita pela astúcia que sedu latentemente os simples; astúcia, digo, que arma ao erro, isto é, para nos enredarem no seu erro. Não sejamos levados ao sabor das ondas, mas cresçamos na caridade, isto é, no amor de Deus e do próximo, praticando a verdade, isto é, a doutrina pura da mentira, não só ouvindo, mas também fazendo em obra; cresçamos indo em tudo por boa cooperação e consentimento; cresçamos, digo, naquele que nos ajuda em que podemos bastante crescer, porque é a Cabeça, isto é, a altura em que se deve sempre subir, e que é Cristo, nosso Rei; de quem, Cabeça Cristo, todo o corpo da Igreja está bem ajustado pela fé. E porque ainda não basta, podem, com efeito, ajustar-se na mesma fé e não se seguirem mutuamente, como as madeiras só ajustadas, se se arrasta uma, não segue a outra; e este mal haveria se os membros não seguissem a Cabeça, por isso acrescenta: o corpo da Igreja ajustado pela fé, e unido pela caridade; o amor, com efeito, é o prego com que se ligam sem divisão; ajustado, digo, e unido por todas as juntas da fé, caridade e todas as virtudes; juntas, digo, de que se serve, isto é, para que um membro sirva ao outro; de que se serve, digo, segundo a operação proporcionada a cada membro da Igreja; um membro, com efeito, serve mais, outro menos, conforme a faculdade que tem: todo o corpo, digo, assim ajustado e unido produz o crescimento do corpo da Igreja; faz o incremento da justiça nos fiéis, e vale para a edificação de si mesmo, isto é, do seu corpo, a Igreja de que é membro — edificação, como acima, segundo os incrédulos que são edificados para a fé —; crescimento e edificação, digo, feitos na caridade, isto é, segundo o amor de Deus e do próximo. Ou assim construamos, sem mudar a sentença: de quem todo o corpo ajustado e unido por todas as juntas de que se serve produz o crescimento do corpo para edificação de si; produz, digo, segundo a operação distribuída em medida de cada membro, e tudo isso na caridade.
Porque Deus deu uns como Apóstolos, outros como evangelistas, outros como doutores, e isto para a vossa consumação, de novo porque ajustou e uniu todo o corpo da Igreja pela junta da fé e da caridade, portanto, isto digo e vos ordeno, nem simplesmente digo, mas também testifico no Senhor, isto é, nesta admoestação de vós aduzo Deus por testemunha, para que nada mais de vós seja de mim, mas, se pecais, de vossas mãos exija — estas palavras teve Paulo para eles, quando, convocada a Igreja dos efésios, disse: Não vereis mais o meu rosto. Permanecei no que vos ensinei; eu, com efeito, estou daqui em diante limpo do vosso sangue (At 20,26), vede o que fizerdes, porque será exigido de vossas mãos —: testifico, digo, no Senhor, que já não andeis como outrora andastes, e como os gentios ainda andam (onde diz "já", significa que antes andaram); não andeis como os gentios andam na vaidade do seu sentir, isto é, na secularidade do seu sentido, o sentido do mundo, com efeito, é vaidade; gentios, digo, tendo o entendimento, isto é, a razão natural, obscurecido pelas trevas, isto é, a ponto de por inteiro serem trevas e nada de luz; gentios, digo, alheios à vida de Deus, isto é, à eternidade em que Deus vive; alheios pelo conhecimento e participação, como ele mesmo diz: alheios pela ignorância, porque ignoram a vida de Deus; ignorância que há neles por causa da cegueira do seu coração, isto é, por causa do coração deles cego: quando, com efeito, lhes foi pregada a palavra de Deus, tiveram a faculdade de entender e de não entender; mas porque escolheram ignorar, por isso foram cegados a ponto de já serem impotentes para perceber o que é bom. Não diz isto por terem os efésios errado mal em algo, mas porque receava que fossem fáceis de ser retraídos aos ritos dos gentios, em que antes da fé haviam vivido. Que não tenham errado colhe-se do fato de que um pouco abaixo os chamará santos. Os quais, desesperados; quando, com efeito, ouvem: o homem ressuscitará em glória, reinará com Cristo, etc., julgando isto frívolo, desesperam, e por isso se entregaram à dissolução, e não só em consentimento e vontade, para praticarem toda impureza, porque o que mal quiseram, pior operaram; para a prática da impureza, digo, com avidez; quanto mais imundamente operavam, com efeito, tanto mais ávidos se tornaram das imundícies. Ou de outro modo: entregaram-se à impureza e à avareza. Os gentios assim andam impudica e imundamente; vós, porém, não foi assim que aprendestes que Cristo andou, a quem deveis seguir; com esta condição, contudo, digo, se o ouvistes, isto é, entendestes aquele Cristo, e fostes nele ensinados, isto é, na informação dele. O que é verdade, que o ouvistes e fostes nele ensinados, não de falsidade, mas conforme é a verdade em Jesus; ao que vos ensinei de Cristo, com efeito, nada de falsidade misturei, como os nicolaítas, que pregam que Cristo não reprovou o uso comum das mulheres, e com as demais falsidades confundem a verdade de Cristo.
E porque fostes ensinados segundo a verdade em Cristo, portanto despojai-vos do homem velho; ou assim: fostes certamente ensinados em Jesus a despojar-vos do homem velho, não que deponhais a carne dele derivada, que se depõe uma vez pela morte, mas despojai-vos dele quanto à conduta anterior, isto é, segundo a velhice da operação do pecado: despojai-vos também dele segundo os desejos do erro, isto é, vindos do erro ou precipitando no erro; homem velho que se corrompe na sua própria obra; quanto mais frequentemente peca, com efeito, tanto mais a própria carne se debilita e deforma. Ou na mesma sentença sigamos retamente a letra: despojai-vos do homem velho que se corrompe, não só segundo a obra, mas despojai-vos também segundo os desejos do erro. Despojai-vos do velho, revesti-vos porém do homem novo; e por isso renovai-vos, já pelo batismo uma vez foram feitos novos. Diz de novo, renovai-vos no Espírito Santo, iluminador da vossa mente; ou intransitivamente, renovai-vos no espírito da vossa mente, isto é, seguindo a vossa mente espiritual; e assim renovados revesti-vos do homem novo, novo porque faz novas todas as coisas; homem novo que foi criado, não segundo a lei da carne, mas segundo Deus, concebido e nascido do Espírito Santo; revesti-vos, digo, de Cristo na justiça guardada para com o próximo, e na santidade, isto é, possuindo-vos a vós mesmos para a santificação de Deus; santidade e justiça, digo, da verdade, não de simulação, para que não simulemos ser justos, sendo maus.
Por isso, isto é, porque o homem velho deve ser deposto, o novo revestido, assumamos os membros do novo, depondo os membros do velho, a saber, deixando a mentira, que é membro do velho, falai a verdade cada um com o seu próximo; a verdade, com efeito, é membro de Cristo. Devemos falar a verdade com o próximo, porque somos membros uns dos outros, isto é, um do outro; assim quem defrauda o próximo faz fraude em seu próprio corpo. De novo, revestindo o novo, irai-vos contra o pecado dos irmãos, e ao irar-vos não pequeis assim, de modo a, pelo desprezo do pecado, cair imprevidentemente no desprezo do próximo; assim se deve, com efeito, odiar o pecado de modo que nem por isso se ame menos a criatura de Deus. Ao irar-vos, porém, não pecareis se o sol, isto é, a Divindade que vos ilumina, ou então, o sol, isto é, a vossa razão iluminada, não se puser, isto é, não for destruída, sobre, isto é, por causa da vossa ira; para que a ira não vença em vós a razão. "Ponha-se o sol sobre a ira" foi dito por semelhança com aqueles aos quais, postos num vale, um grande monte sobrepusesse, sobre o qual lhes se pusesse o sol, enquanto a altura do monte desviava do vale o sol. Ou de outro modo, como se dissesse: vejo que não podeis ser totalmente contidos da ira; suporto-vos; irai-vos, e de modo que não pequeis, isto é, não consumeis a ira em ato; e para guardar-vos disto será útil que o sol não se ponha sobre a vossa ira, isto é, que antes que venha a tarde se deponha a ira.
Dir-me-iam: ordenas "não pequeis", mas como pode isto fazer-se, para não pecarmos? A isto diz: para poderdes evitar o pecado, não deis lugar, isto é, oportunidade de pecar, ao diabo em vós, mas fugi dele; não deis lugar ao diabo, mas aquele que antes furtava, não furte mais, daqui em diante (à letra); antes trabalhe, isto é, escolha trabalhar, fazendo com as próprias mãos não homicídios ou semelhantes, mas o que é bom e útil; e trabalhe tanto que tenha para si, e com que socorrer o próximo que está em necessidade. De novo outra coisa: nenhuma palavra má saia, isto é, nenhum discurso mau proceda da vossa boca; mas, se alguma palavra é boa e útil para edificação da fé, isto é, para edificar o próximo na fé, essa proceda; de modo, contudo, que dê graça aos que ouvem [isto é] que seja grata aos que ouvem em lugar e tempo.
Vós, prelados, ensinai como foi dito, e vós, ouvintes, não entristeçais, não digo só os que vos instruem, mas aquele que neles fala, o Espírito Santo, Espírito, digo, de Deus. Vede quão grave culpa, porque, se ofendeis o pregador, ofendeis também o Espírito que nele fala, e, se o Espírito, ofendeis também a Deus; assim quem ofende o pregador, ofende a Deus. Não entristeçais o Espírito, no qual Espírito fostes selados; vós, com efeito, sois a cera, o Espírito o selo impresso em vós; selados, digo, para o dia da redenção, isto é, do batismo, em que fostes remidos de todo pecado. Não entristeçais o Espírito, mas seja removida de vós toda amargura do ânimo, e ira, isto é, comoção súbita do ânimo, e indignação; se um ignóbil, com efeito, abunda sobre vós, nobres, não vos indigneis; e gritaria, para que não clameis desordenadamente litigando, e blasfêmia feita contra Deus ou o próximo; quem diz, com efeito: por que Deus fez isto?, parece ter dito que Deus não fez bem. Para remover brevemente tudo, estas coisas com toda malícia, isto é, toda malícia seja removida de vós. Não sejais amargos ou blasfemos, mas sede benignos, isto é, largos, dando uns aos outros; e se não tendes o que dar, sede ao menos misericordiosos de ânimo, perdoando-vos mutuamente, isto é, sendo indulgentes uns com os outros, como também Deus vos perdoou os pecados em Cristo, isto é, por Cristo.