Capítulo 4
Digo, pois: Enquanto o herdeiro é menino, em nada difere do escravo, ainda que seja senhor de tudo; mas está sob tutores e administradores até o tempo marcado pelo pai: assim também nós, quando éramos meninos, estávamos servilmente sujeitos aos elementos do mundo. Mas, quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai. Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, és também herdeiro por Deus. Mas então, ignorando a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Agora, porém, que conhecestes a Deus, ou antes, fostes conhecidos por Deus, como voltais de novo aos elementos fracos e pobres, aos quais quereis servir de novo? Observais dias, meses, tempos e anos. Temo por vós, não tenha eu trabalhado em vão entre vós. Sede como eu, porque também eu sou como vós; irmãos, eu vos rogo: em nada me ofendestes. Sabeis que foi por uma enfermidade da carne que vos anunciei o Evangelho da primeira vez, e não desprezastes nem rejeitastes a prova que isso foi para vós na minha carne; antes me recebestes como um Anjo de Deus, como a Cristo Jesus. Onde está, pois, a vossa felicidade? Pois dou-vos testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os vossos olhos e mos teríeis dado. Tornei-me, então, vosso inimigo, por vos dizer a verdade? Eles têm zelo por vós, mas não de boa maneira; querem excluir-vos, para que vós tenhais zelo por eles. É bom, porém, ter zelo no bem, sempre, e não só quando estou presente convosco, meus filhinhos, por quem sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós. Quisera estar agora convosco e mudar de tom, porque estou perplexo a vosso respeito. Dizei-me, vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, pela promessa; o que foi dito por alegoria. Estas são, pois, as duas alianças. Uma, do monte Sinai, que gera para a escravidão: é Agar; pois Sinai é um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém de agora, a qual é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém de cima é livre, e é a nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não davas à luz; rompe em brados, tu que não sentias dores de parto, porque são mais numerosos os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido (Is 54,1). Nós, irmãos, somos, à maneira de Isaac, filhos da promessa. Mas, como então o que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o espírito, assim também agora. Mas que diz a Escritura? Expulsa a escrava e o seu filho; pois o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre (Gn 21,10). Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre, com a liberdade com que Cristo nos libertou.
Comentário
No mesmo ponto que acima provou ainda se demora; assim como, com efeito, provou que não se devia voltar à lei, porque foi pedagogo, e para os perfeitos na fé não há necessidade de pedagogo; o mesmo prova ainda por outras razões, a saber, que os judeus não devem mais operar sob a lei, porque a lei esteve no lugar de tutor e administrador; de cujo tutor e administrador a maturidade da fé não precisa. E isto prova pela semelhança do pupilo, que o pai, ao morrer, dispõe que fique sob tutor e administrador, até que a maturidade da idade o faça digno da liberdade. Tutor do menino diz-se quem o defende contra o que o impugna, para que não possa ser deserdado; administrador do menino diz-se o mesmo ou outro, mas por causa diversa, a saber, porque trata e dispensa os bens do pupilo, paga os tributos, responde por ele nas causas. A lei igualmente se diz tutor e administrador; os homens, com efeito, tendo pouco conhecimento divino, e nele bastante miseráveis e pupilos, precisavam antes da lei que os constringisse como servos, para que, nutridos sob esta constrição, migrassem à perfeição da fé; e então a lei lhes era tutor pelos preceitos que dava, dizendo: não faças isto nem aquilo; se o fizeres, morrerás de morte. Assim, pelos preceitos dados, a lei os tutelava e defendia contra os vícios que irrompiam, dos quais cessavam por temor, ainda não por amor. A lei era também administrador do mesmo povo, pelos sacrifícios com que se tratava junto a Deus, para serem expiados dos pecados. A letra liga-se assim: não só por aquilo que foi antecipado, a saber, que a lei foi pedagogo, provo que não se deve permanecer mais sob a lei, mas também porque a lei esteve no lugar de tutor e administrador; de que, porque já não precisamos, é injusto manter a lei. Ou de outro modo liga-se, para que haja sentença adversativa, assim: porque somos um em Cristo e pela fé somos descendência de Abraão, é verdade que por isso não devemos já manter a lei; mas foi, contudo, necessária, enquanto de tutor e administrador ainda precisávamos como pupilos: e segundo esta continuação a causa que antes não fora dada agora será suprida.
Dissera, sim, que não era mais preciso o pedagogo, mas não pusera a causa; que aqui acrescenta, dizendo: embora vós agora, um em Cristo, não precisais de pedagogo, digo, contudo, que já precisastes, como vedes que, por quanto tempo segundo a disposição do pai, o herdeiro é menino, este que há de ser herdeiro; por quanto tempo, seja vinte anos, seja quinze, é menino, embora seja destinado a herdeiro, contudo em nada difere do escravo, porque muitas vezes é constrangido e açoitado pelo seu tutor: ainda que, isto é, embora haja de ser senhor de tudo, em nada difere, mas aquele pupilo está sob tutores, que defendem a sua herança para que não seja violentamente arrebatada, e administradores, que tratam as causas por ele e dispõem da sua herança. Está certamente sob eles até o tempo marcado pelo pai, isto é, enquanto o pai o constituiu estar sob direito alheio: era, com efeito, costume que até vinte e cinco anos o jovem estivesse sob patrono, para que não dissipasse ilicitamente a sua substância.
Porque Paulo não adapta toda a semelhança, é bom que adaptemos cada ponto: por quanto tempo (isto foi desde o primeiro homem até Cristo) o herdeiro, que há de ser herdeiro, a saber, o povo judaico, a quem foi prometida a salvação; enquanto este herdeiro é menino, em todo o tempo até Cristo, foi menino no conhecimento de Deus; e, sendo menino, em nada difere aquele povo do escravo: se fizesse os preceitos, com efeito, evitava a pena; se não, era atormentado asperrimamente como escravo; em nada difere entretanto do escravo, embora haja de ser senhor de todos os bens da herança: assim aquele povo, premido pela servidão da lei, se da lei passasse à fé, devia ser constituído senhor da herança celeste. O menino em nada difere do escravo, mas está sob tutores e administradores, isto é, sob a lei que o tutela pelos preceitos e age por ele pelos sacrifícios. Está certamente sob eles até o tempo marcado pelo Pai, em que tempo da servidão da lei seria transferido à liberdade da fé.
E assim como o menino herdeiro está sob tutores e administradores, assim também nós, quando éramos meninos no conhecimento de Deus, estávamos não livres mas servilmente sujeitos aos elementos do mundo, isto é, às coisas legais; porque, assim como o menino pelos elementos do alfabeto passa ao conhecimento das letras, assim pela lei se devia passar ao conhecimento de Deus, a ter na fé[1]; estávamos sob os elementos do mundo, isto é, que a lei prometia coisas mundanas e ensinava carnais. Antes assim éramos meninos; mas quando (isto é, depois que) veio a plenitude do tempo, ou o tempo da plenitude; plenitude porque quanto fora esperado nos séculos passados, então se completou; então, com efeito, a perfeita justificação, que antes não fora; então a presente e plena salvação, que antes daquele dia esperava Abraão com os demais santos; ou de outro modo: depois que veio a plenitude, isto é, o fim e a consumação do tempo, que Deus constituíra primeiro passar, então Deus enviou o seu Filho[2]; Filho, digo, a quem tanto humilhou que nascido de mulher, isto é, que aquele que era incriado e sempiterno quis receber nova criação de mulher; nascido sob a lei, porque viveu sob a lei e cumpriu a lei, quando por ele foi dada a hóstia: por isso sob a lei, para resgatar, dado o preço do sangue, os que estavam sob a lei — se não se fizesse sob a lei e a observasse, com efeito, não poderia libertar da lei e destruir a lei, como convinha que, provando a morte, destruísse a morte —; a fim de resgatar, e para que, resgatados, recebêssemos a adoção de filhos, isto é, fôssemos filhos recebendo a adoção, isto é, a herança eterna que a graça de Deus nos adotou.
Onde diz "nascido de mulher", pergunta-se, sendo Deus todo em toda parte, como teria estado mais no útero da Virgem. Para isso os santos põem semelhança tal: que, assim como a alma, enquanto está no corpo, sensibiliza o próprio corpo, o rege e faz viver; separada do corpo, em outro lugar está igualmente toda, e não faz ali, contudo, o ofício; assim a Divindade, embora esteja toda em outra parte como no útero da Virgem, não se segue, contudo, que opere em outro lugar o mesmo que no útero da Virgem. Acima devíamos ter notado que, assim como aquele menino, se morre antes de chegar aos anos maduros, perde a herança; assim quem da lei não quiser passar à maturidade da fé, fica privado da herança.
Dir-me-iam os gálatas: vós, judeus, certamente recebereis a adoção de filhos; mas que nos aproveitará a nós? A isto Paulo: não só nós somos filhos, mas que vós, gentios, igualmente sois filhos, prova-o isto: que Deus enviou o Espírito de seu Filho, isto é, o mesmo que o Filho teve, ou que o Filho deu; enviou, digo, aos nossos corações, isto é, ao meu e aos vossos; Espírito, digo, que clama, isto é, nos faz clamar: Abba, os judeus; Pai, os gentios. E visto que ambos somos filhos e clamamos; assim, já não há alguém escravo, mas filho: e se filho, será também herdeiro da herança bem-aventurada; e que assim será, tomo-vos por testemunha por Deus; ou assim: será herdeiro por Deus, isto é, pela misericórdia de Deus, não pela lei.
Agora reconduz-lhes à memória o estado anterior que tiveram no culto dos ídolos, provando que em vão deixaram os ídolos, se aceitam a lei; a lei, com efeito, é já idolatria desde que veio a graça, porque quem julga a lei necessária para justificar, derrogando a Deus, atribui à lei o que é de Deus, como os idólatras atribuíam ao ídolo o que era de Deus: agora, se aceitam a lei, será pior que antes; então, com efeito, por ignorância, agora, porém, sabendo e prudentes, meterão a mão no fogo. A letra liga-se assim: agora sois filhos, mas então, antes da conversão, [ignorando a Deus] servíeis aos que não eram deuses, e se por opinião, não por natureza. Então servíeis assim, mas agora, que conhecestes a Deus (contra o que diz "ignorando"); ou antes, fostes conhecidos, isto é, aprovados por Deus, como, isto é, por que razão, voltais de novo, porque outrora estáveis no mesmo, aos elementos, isto é, àquelas coisas legais fracas, isto é, impotentes mesmo no seu tempo para justificar quem quer que seja; e mesmo nesta fraqueza pobres, isto é, necessitadas de auxílio alheio? isto, com efeito, o pouco que se fazia, sem o auxílio da fé futura não podia: aos quais quereis servir de novo; a lei, com efeito, de agora em diante será para vós o mesmo que foi outrora o ídolo.
Na verdade voltais à lei; pois já observais dias, isto é, sábados; observais também meses, isto é, as novas luas, e tempos, isto é, os jejuns dos hebreus estabelecidos em tempos; observais também anos, isto é, o sétimo ano e o jubileu, ao modo dos hebreus. E porque assim agis, temo por vós, isto é, nada tanto temo em vós como por vós; temo, digo, não tenha eu talvez (o que logo pode acontecer) trabalhado em vão entre vós, isto é, sem fruto de utilidade. Mas, para que não aconteça que eu tenha trabalhado em vão, sede como eu, não vos importando com coisas legais, porque também eu fui outrora legal, como vós quereis ser, e abandonei: vede agora quão insensatamente o quereis. Ou assim: sede como eu, porque eu sou como vós, vivendo como gentio.
Imputava-se a Paulo por aqueles falsos apóstolos que odiava os gálatas e por isso não lhes abrira toda a verdade: do que agora se escusa e os louva pela conduta anterior, em que se mostraram muito benignos a Paulo; por isso também assim lisonjeia, porque depois de poucas palavras os vai atacar mais asperamente. A letra liga-se assim: sede como eu; e rogo-vos, irmãos, que sejais meus irmãos, tendo afeto piedoso para comigo; em nada, com efeito, me ofendestes, por isso eu, odiando-vos, devesse ter calado a verdade. Em nada me ofendestes; mas sei, e vós bem sabeis, que foi por uma enfermidade da carne que vos anunciei o Evangelho da primeira vez, não, contudo, do espírito; porque, se eu era fraco e desprezível segundo a carne, na virtude do Espírito pelos milagres aparecia forte. Preguei por enfermidade; e não por pouco tempo, mas da primeira vez, de modo que a minha enfermidade vos podia ser tédio. E, apesar de tamanha enfermidade me oprimir, vós, contudo, não desprezastes nem rejeitastes, quando preguei, a prova que isso foi para vós na minha carne, quando primeiro vim a pregar; na minha enfermidade, com efeito, Deus vos provava; como se dissesse: se desprezam a enfermidade de Paulo, são réus; se a recebem benignamente, são dignos. Rejeitar é mais que desprezar, como lançar fora totalmente é mais que desprezar padecendo. Não me desprezastes, antes me recebestes como um Anjo de Deus, como a Cristo Jesus. E, como por isso aparece que não há causa alguma de ódio, mas muita de amor, mal sente quem suspeita que me tornei inimigo vosso.
E porque na minha acolhida fostes tão benignos, onde está, pois, a vossa felicidade, de modo que antes assim obedecêsseis ao Evangelho? E na verdade felicidade, porque dou-vos testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os vossos olhos e mos teríeis dado: entende-se "ser possível" o que é oportuno fazer-se. E porque estáveis ligados a mim por tanta força de amor, portanto não se deve crer que me tornei vosso inimigo; o que julgais por isso: que vos digo a verdade: se calasse a verdade e vos acariciasse com lisonjas, assim me julgaríeis amigo. Eu não sou vosso inimigo; mas eles têm zelo, isto é, amam-vos não bem, mas porque querem excluir-vos da fé de Cristo, de modo que, depois que vos tiverem levado mais plenamente ao seu erro, tenhais zelo por eles e exijam de vós imperiosamente o que quiserem. Mas não tenhais zelo por eles, tende-o por mim e por qualquer bom, e nunca no mal, se por acaso eu persuadir, mas sempre no bem; e não só quando estou presente convosco tende zelo por mim, mas também quando estiver ausente.
O mesmo que acima provou, a saber, que a lei não deve ser mantida, ainda prova pelas palavras da própria lei; como depois mostra, vinda a liberdade da fé, deve repudiar-se a servidão da lei. A letra liga-se assim: tende zelo por mim e por qualquer bom; por eles, porém, não tenhais zelo; se quereis ter zelo por eles, ó meus filhinhos,... dizei-me; até aí pende a construção. Aos que antes eram filhos segundo a integridade da fé, chama por diminutivo filhinhos, porque, querendo aderir aos perversos, estavam muito diminuídos no bem da filiação. Filhinhos meus, por quem sofro de novo as dores de parto, isto é, por cuja instrução trabalho com máximo esforço — diz-se parturir aquele trabalho que a mãe padece na emissão do menino, antes que o menino seja dado à luz —; por quem sofro de novo; outrora, com efeito, quando éreis infiéis, tive muito trabalho em vós: sofro dores de parto e trabalho em vós até que Cristo seja formado em vós, em cuja fé estais deformados, porque àqueles falsos apóstolos ao menos consentistes; nem diz "até que sejais reformados", mas "até que Cristo seja formado em vós"; Cristo, com efeito, foi deformado e perdeu a sua forma em vós seduzidos; ou então, foi deformado em vós, isto é, à vossa semelhança; ouvindo, com efeito, outros como detraís da fé de Cristo, dizem pelo vosso exemplo que a fé de Cristo é insuficiente para a salvação. Para mais os atemorizar, agravou o dito ao dizer "até que Cristo seja formado", que, como se dissesse, deformastes. Chamo-vos filhinhos; mas, embora ausente vos chame filhinhos, quisera, contudo, agora estar presente convosco, e assim mudar de tom; porque, se agora vos chamo filhinhos, presente diria que sois estranhos, detratores de Deus, e muitos outros opróbrios; que Paulo, embora os dissesse se estivesse presente, não quis, contudo, escrever na Epístola, sabendo que a Epístola permaneceria e, confiando na correção deles, cujo vitupério não quis que durasse: e com razão, uma vez que haviam de ser corrigidos. Se estivesse convosco, mudaria o tom, por isso porque estou perplexo, isto é, envergonhado, a vosso respeito; louvara, com efeito, a vossa fé diante de outras Igrejas, que, ouvindo a corrupção da vossa fé, julgam-me réu de mentira, e disso me envergonho: vós, filhinhos meus, dizei-me. Ou, se agrada, não é preciso estender até lá, continuando assim: tende zelo por mim: o que certamente deveis, porque vós sois meus filhinhos por quem sofro de novo as dores de parto, etc.: a sentença das palavras não muda.
E porque estou perplexo a vosso respeito, seduzidos, dizei-me agora e respondei-me: vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei? Faz-lhes um dilema que fere de ambos os lados; porque, se não leram a lei, é insensato passar ao que não sabem; se, porém, leram, uma vez que a mesma lei, vinda a fé, proíbe que seja mantida, muito desatinam os que a querem manter. O outro membro do dilema prossegue, contudo, a saber, se leram a lei.
Dir-me-iam: que importa se lemos a lei? Por isso pergunto se lestes, porque a própria lei abertamente insinua que não deve ser mantida; está escrito, com efeito, na lei que Abraão teve dois filhos. Estas palavras, porém, não se encontram assim no Gênesis, mas de igual valor. Muitos filhos teve Abraão, mas destes dois foi conveniente figura para a fé e a lei; dos quais dois filhos Moisés descreveu tudo até o fim, o que não fez dos demais. Porque Paulo não segue a alegoria em cada ponto, é bom que a abramos com as mesmas palavras: Abraão, que se interpreta "pai de muitas nações", tendo dois filhos, isto é, dois povos, significa Deus tendo dois filhos, o gentio e o judeu; não, contudo, que cada um deles seja filho de Deus, a não ser os que em um e outro povo forem achados dignos. Abraão teve dois filhos, um da escrava, isto é, Ismael de Agar, e um da livre, isto é, Isaac de Sara. O filho da escrava significa o povo judaico, filho da escrava, isto é, da lei; os quais se dizem bem filhos da escrava, que como servos serviam por temor da pena e amor das coisas carnais em coisas carnais: o filho da livre, porém, significa o povo fiel, que na liberdade da fé serve a Deus por amor, não por temor, nem por causa dos temporais, mas dos eternos. E, embora ambos fossem filhos de Abraão, nasceram, contudo, de modo diverso; o da escrava, a saber, Ismael de Agar, nasceu segundo a carne, porque Agar era jovem e fecunda: igualmente o povo legal nasceu da escrava, isto é, da lei, segundo a carne, porque servia em coisas carnais e por amor das carnais; se pecasse, temia logo ser punido na carne. O filho da livre, porém, a saber, Isaac de Sara, nasceu não segundo a carne, Sara, com efeito, era velha e estéril, mas pela promessa de Deus; Deus, com efeito, como piedosamente prometera, faz nascer, por sua virtude, um filho de estéril e decrépita: igualmente o povo fiel, que foi da livre, isto é, nascido da fé que é livre, por amor, não como da escrava, por temor. Este povo nasceu pela promessa, porque Deus misericordiosamente prometera que faria a salvação pela fé: era por promessa, porque não serve a Deus por desejo das coisas carnais que vê, mas por amor das espirituais que ninguém viu, mas confia que terá só pela promessa de Deus.
Todas estas coisas, a saber, que Abraão teve dois filhos, este da escrava segundo a carne, este da livre pela promessa, foram ditas por alegoria, isto é, por outro entendimento que o literal deve aqui ter. Ele mesmo, contudo, não prossegue a alegoria de cada um, a não ser só da escrava e da livre. Na verdade foram ditas por alegoria; estas, com efeito, isto é, a escrava e a livre, são, isto é, significam as duas alianças, a antiga e a nova: uma, na verdade, aliança, isto é, a lei que gera filhos para a escravidão, porque serviam tanto por temor da pena quanto por coisas carnais; aquela uma, digo, dada no monte Sinai; ali, com efeito, a lei foi dada no deserto. Sinai interpreta-se "mandamento", e por monte tomamos a altura da soberba, para que digamos: gerando para a escravidão no monte Sinai, isto é, na soberba do mandamento; os judeus, com efeito, que sós tinham a lei, ensoberbeciam-se, dizendo-se povo de Deus, os outros não povo, mas cães. Uma aliança foi dada no monte Sinai, que é Agar, isto é, aquela aliança significa Agar (a relação é boa por "que", porque segue o próprio do gênero feminino): Agar interpreta-se "alienação", insinuando pelo próprio nome que a antiga aliança deve ser alienada e destruída. O mesmo significou o fato de que não na terra da promessa, mas no deserto foi dada, que nunca pelas obras desta lei viriam à verdadeira terra da promessa; pelo fato, com efeito, de, estando no cativeiro, receberem esta lei, significava-se que a lei dada no cativeiro os gerava para a servidão, nunca pelas obras da lei viriam à liberdade.
Na verdade para a servidão; pois Sinai é um monte da Arábia. O mesmo insinua o entendimento alegórico; Arábia, com efeito, interpreta-se "humildade" ou "aflição"; por isso dizemos assim: o monte Sinai está na Arábia, isto é, o mandamento e a soberba estão nos aflitos ou, o que é o mesmo, humilhados. Pelo fato de se ensoberbecerem do mandamento e de serem muitíssimas vezes afligidos pela lei como maus servos, aparece que aquela lei os gerava para a servidão. O monte Sinai está na Arábia; monte que corresponde, isto é, assemelhado, à Jerusalém, isto é, ao povo judaico que via a Deus; porque as outras nações naquele tempo ignoravam a Deus; Jerusalém, digo, de agora, isto é, que nas coisas presentes vê e cultua a Deus, não nas espirituais, e por isso não o verá no futuro — o monte corresponde, não que as suas raízes se estendam até Jerusalém, mas assemelhado aos judeus; porque pelo monte Sinai se significa a soberba deles, com que se ensoberbeceram do mandamento; pela Arábia se significa a aflição deles, com que, pecando pela lei, eram afligidos à maneira de servos —: a Jerusalém de agora, e que serve por temor da pena, não por amor; serve, digo, com seus filhos, isto é, com os prosélitos que da gentilidade passam à circuncisão; ou então, serve toda junta a Sinagoga com seus filhos próprios, este com um gênero de servidão, aquele com outro.
A Jerusalém de agora serve; mas a Jerusalém de cima, isto é, que não deseja as coisas carnais mas as espirituais, esta é livre, porque não serve por temor, mas por amor, nem procura temporais, mas eternas: esta é a Igreja da fé, que, Jerusalém superior, é a nossa mãe; a Igreja, com efeito, nos gerou para a liberdade da fé. Na verdade livre, porque se alegra, rompe em brados e clama; na verdade mãe, pois os seus filhos são muitos; o que diz assim: a nossa mãe é livre; pois assim dela está escrito em Isaías (cap. 54,1): Alegra-te, tu, Sara estéril, que agora não dás à luz; rompe em brados e clama, tu que não sentes dores de parto, isto é, que nem trabalhas em parir; por isso alegra-te, porque mais numerosos são os filhos da abandonada Sara do que os de Agar, que agora tem marido. Tinha Agar a Abraão pela coabitação, não, contudo, pelo amor; faltava a Sara a coabitação de Abraão, a quem, contudo, tinha pelo amor, porque a cultuava e amava como esposa legítima. Isaías, que veio longos séculos depois de Abraão, em vão falaria assim de Sara e Agar à letra; por isso assim se deve entender: na verdade é livre, pois assim diz Isaías: ó tu, Igreja estéril; porque algumas estéreis, que depois parem pela graça, como a mesma Sara e Isabel, por isso acrescenta: tu estéril, que não dás à luz, alegra-te no ânimo; rompe também em gozo exterior; e clama, isto é, convida os outros a alegrar-se contigo; tu, digo, que não só não pares, mas nem sentes dores de parto, isto é, carente de esperança no tempo da lei, não te esforças por parir. Provou que é livre; prova também que é mãe; a letra responde, contudo, ao próximo: por isso alegra-te, etc., porque os filhos da abandonada, isto é, da Igreja, que no tempo da lei foi abandonada por Deus quanto à coabitação, não quanto ao amor — no tempo da lei, também, Deus amou mais a liberdade da fé do que a servidão da lei —; os filhos, digo, da abandonada são mais numerosos que os filhos daquela lei que agora tem marido; então, com efeito, a lei gerava muitos; mas os que eram fiéis, como Moisés e os Profetas, vendo a dureza deles, nem sequer pensavam em instruí-los nas coisas espirituais, a quem viam cada dia transgredir nos mandamentos carnais: a lei tinha então marido, isto é, Deus pela coabitação, não, contudo, pelo amor. Há duas mães, uma livre, outra escrava; mas nós, irmãos, eu e quantos fiéis, somos filhos, não da servidão, mas da promessa, isto é, pela graça prometida de Deus, à maneira, isto é, à semelhança de Isaac, que nasceu não pela lei da carne, mas pela virtude da promessa divina. Mostra que nascemos à semelhança de Isaac, porque os mesmos sinais, cuja figura precedeu nele, veem-se hoje nos filhos da Igreja; e, contudo, a conjunção da letra se opõe deste modo: embora sejamos filhos da promessa, como então, no tempo de Abraão, o que nasceu segundo a carne, isto é, Ismael, perseguia o que nasceu segundo o espírito, a saber, Isaac — Ismael, com efeito, mais velho, batia em Isaac ainda tenro, a quem via que seria senhor e herdeiro seu —: assim também agora se faz, que os carnais perseguem e afligem os espirituais.
E porque, como Isaac era afligido por Ismael, assim nós, espirituais, somos afligidos pelos carnais, portanto, irmãos, por isso aparece que não somos filhos da escrava; fomos, sim, servos outrora sob a lei, mas já somos filhos da livre, isto é, da graça. Mas intercala algumas coisas dizendo: os que são segundo a carne nos perseguem, mas não se deve fazer caso; eles, com efeito, serão expulsos, e nós entraremos na herança; o que diz assim: que diz a Escritura? No mesmo Moisés se encontra que, tendo Sara visto Agar e seu filho se ensoberbecendo contra ela e Isaac, disse a Abraão: «Expulsa a escrava e o seu filho» (Gn 21,10); igualmente os filhos da graça dizem: Senhor, expulsa a escrava, isto é, a lei, e o seu filho, isto é, o povo judaico; não será herdeiro o filho da escrava, isto é, da lei, na prometida bem-aventurança com o filho da livre, isto é, da fé; assim como o filho de Agar, a escrava, não foi herdeiro com o filho de Sara, a livre. Portanto, irmãos, já não somos filhos da escrava (como foi exposto), mas da livre; com a liberdade, isto é, por esta liberdade que temos, Cristo, tendo a mesma, nos libertou por ela; embora, com efeito, Cristo tenha estado sob a lei, a lei, contudo, não dominou a quem não teve pecado, mas por só liberdade fez tudo o que fez.
Notas
- "Elemento" diz-se ou como "elevamento", porque por ele alguém se eleva à ciência; ou como "elimento", de elimo, elimas ("limar"); ou como hylementum, pois hyle é matéria.
- Como o Filho de Deus estava em toda parte, todo e presente, enviar não foi outra coisa senão que aquele que era invisível, na forma de servo se mostrou visível.