Capítulo 2
Peço, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que levemos uma vida quieta e tranquila, em toda piedade e castidade. Isto, com efeito, é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo em redenção por todos, testemunho nos seus tempos; para o qual fui posto eu pregador e Apóstolo (digo a verdade, não minto), doutor das nações na fé e na verdade. Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos puras, sem ira e sem contenda. Do mesmo modo, que as mulheres, em traje decoroso, se ornem com pudor e sobriedade, e não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou vestes preciosas; mas, como convém a mulheres que professam piedade, com boas obras. A mulher aprenda em silêncio, com toda sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que domine sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Pois Adão foi formado primeiro, depois Eva. E Adão não foi seduzido; a mulher, porém, seduzida, caiu em prevaricação. Será, contudo, salva pela geração de filhos, se permanecer na fé, na caridade e na santificação, com sobriedade.
Comentário
Depois de Paulo admoestar Timóteo a que militasse, insinua em seguida em que lhe ordena militar, dizendo: uma vez que Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, no ministério de cuja pregação me constituiu, a fim de que por ele sejais salvos e a minha pregação frutifique em vós, portanto, isto é, por causa destas premissas, peço que oreis; se Deus, com efeito, não operar pelo Espírito Santo nos vossos corações, a minha palavra será inútil: peço, pois, primeiramente antes de tudo, isto é, sobretudo antes de todas as coisas, que se façam súplicas, etc.
Porque o Apóstolo viu que em todo gênero de oração prevalece a celebração da Missa, na qual se faz memória da Paixão de Cristo, pela qual todo o gênero dos homens foi redimido, por isso, embora se deva orar também de outros modos, antepôs este gênero de oração, porque viu que prevalece, dizendo: primeiramente antes de tudo, isto é, antes de todas as coisas, peço que se façam súplicas. Aquelas orações que precedem, isto é, junto e antes de consagrado o Corpo do Senhor (como no princípio da Missa), chama súplicas, como que ditas junto da consagração. Orações, petições e ações de graças peço que se façam.
Chama orações às preces em que, quando são ditas, aquela substância de pão e de vinho posta no altar passa a Corpo e Sangue de Cristo. Chama petições às preces que se fazem depois da comunhão, como aquela: «Leva a termo em nós, Senhor, o que contêm os teus santos mistérios», isto é, depois de nos teres alimentado com este teu Corpo e Sangue, resta, como por dívida, que leves a termo o que piedosamente começaste, apascentando-nos com o alimento indefectível da tua glória nos céus, que aqui no altar antegozamos; petição, com efeito, diz-se como oração feita de coisa que já é devida por misericórdia ou mérito. Chama ações de graças ao que se diz no fim da Missa: Benedicamus Domino; Deo gratias; para que, dizendo isto, insinuemos que se deve referir tudo à graça de Deus, o que deu e o que há de dar eternamente. Peço, porém, que isto se faça por todos os homens, para que sejam salvos por vontade de Deus.
Se se pergunta por que o Apóstolo manda orar por todos, quando alguns foram reprovados por Deus, e quem reza por eles parece ofender a Deus, que os reprova; contra isto diz-se que Deus, por sua benignidade e clemência, quer que todo homem se salve, mas este, quanto está em si, não permanece em Deus, e a injustiça dos ímpios desvia a benignidade de Deus. Donde em Deus se considera dupla vontade: uma de benignidade e clemência, pela qual quer que todos se salvem; outra é a vontade de justiça de Deus, pela qual reprova os maus e elege os bons. Segundo a vontade de benignidade de Deus, manda o Apóstolo orar por todos, para que o que Deus piedosamente quer, também nós, seguindo a sua piedade, queiramos, e oremos para que se faça a vontade de Deus; o que, se não fizéssemos, pareceríamos dissentir da clemência de Deus.
Ou leiamos de outro modo o que precede, de modo que nestas palavras não haja menção da Missa: peço que se façam súplicas, isto é, aquelas adjurações, como na litania, onde se adjura pela Paixão, pela Ressurreição e semelhante, como se alguém adjurasse a Deus pela conversão de um celeradíssimo, o que mal parecesse poder obter-se de Deus; convertido, porém, aquele ímpio pelas preces do justo, o justo faria orações por ele, para que Deus, com a fé, lhe desse as virtudes que seguem; recebidas estas, restariam já as petições (como se disse) pela glória celeste, que é devida a quem já tem as virtudes: por todas estas coisas, isto é, a conversão, a posse das virtudes, a concessão da glória celeste, seguem as ações de graças; o que fez o presbítero Justino, que, recebido nos céus o espírito de Lourenço, em ação de graças ofereceu a Deus o Sacrifício de louvor. Peço, porém, que isto se faça por todos os homens, como se disse.
Porque talvez alguns julgassem que não se devia orar pelos príncipes e tiranos que oprimem a Igreja de Deus, acrescenta: assim digo que se deve orar por todos que nem os perseguidores da Igreja exclua, mas orai também pelos reis e por todos os que estão em eminência secular, sejam duques, sejam cônsules. E que vós oreis por eles não só aproveitará a eles, mas também a vós, para que, cessando eles da sua tirania, levemos uma vida quieta sem perseguição; nem numa só coisa, mas também tranquila, isto é, quieta em toda coisa. A tranquilidade da Igreja muitíssimo aproveita a alguns mais tenros, que na paz da Igreja conservam a sua justificação, os quais, se os tormentos os alcançassem, talvez recuassem da fé; e por isso diz que se deve orar pelos reis e príncipes. Levemos, digo, vida tranquila em toda piedade, isto é, religião, e castidade, isto é, integridade da fé, que, se sobreviesse a perseguição, não perduraria íntegra em todos.
Por isso admoesto a orar por todos, isto, com efeito, que se ore por todos, é bom, isto é, útil para o progresso da Igreja; e tal bem que seja agradável e grato a Deus; e não de modo que agrade no tempo e desagrade em outro tempo, mas agradável de modo que seja diante de Deus, isto é, que sempre permaneça nos olhos do seu beneplácito; Deus, digo, nosso Salvador, que, assim como nos salvou, quer que todos os homens se salvem, segundo a vontade da sua benignidade, como acima se disse; e, para que se salvem, quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade, isto é, da verdadeira fé, pela qual há caminho para a salvação.
Prova o que disse: verdadeiramente Deus quer que todos se salvem; o que é patente pelo fato de que há um só Deus, isto é, Criador de todos; e, sendo Deus Criador de todos, não há causa por que negue a sua benignidade a um e a conceda a outra criatura; a qual o ímpio certamente a si nega, porque age impiamente, perdurando salva e íntegra para todos a benignidade de Deus. Daí também é patente que Deus quer que todos se salvem, porque há um só Mediador entre Deus e os homens, e não vários mediadores; donde consta que, por querer aproveitar igualmente a todos, foi feito Mediador de todos. Cristo diz-se Mediador porque os dois extremos, e inteiramente divididos entre si, a saber, Deus, em quem há toda a justiça e nenhuma injustiça, e o homem, em quem há toda a injustiça e nenhuma justiça, fê-los concordes pela humanidade a si assumida, justificando o homem. Prova ainda que Deus quer que todos se salvem, dizendo: este Mediador, sendo glorioso na Deidade, fez-se homem, coisa tão vil e tão contumeliosa que nunca o faria se não quisesse salvar os homens; este Mediador é Cristo, imolando por nós a si mesmo como sacrifício a Deus, e Rei dirigindo-nos à salvação; este é Jesus, Salvador, a quem este nome designa Salvador de todos; Cristo Jesus deu-se em redenção, e não ouro ou prata, mas a si mesmo deu como preço por todos a redimir. Mas, embora aquele preço não tenha aproveitado a todos, porque perduraram na impiedade, Cristo deu contudo o preço que bastaria para a salvação de todos, se todos quisessem ser bons; e porque deu a redenção por todos, quis salvar a todos igualmente.
Testemunho disto, a saber, de que quer que todos se salvem, foi confirmado, porque o que os Profetas testemunharam antes de Cristo sobre este Salvador, Cristo o confirmou, cumprindo tudo o que os Profetas haviam predito dele; isto, porém, por cumprimento, foi confirmado nos seus tempos, isto é, nos congruentes, como a Natividade de Cristo em certo tempo, noutro a Paixão, e o mais de Cristo em diversos tempos; se os testemunhos dos Profetas, com efeito, não tivessem precedido Cristo, pouco ou nada se lhe creria; o que o mesmo insinua quando, aparecendo depois da Ressurreição a dois discípulos, diz: «Ó insensatos e tardos de coração para crer em tudo o que os Profetas falaram, etc.» (Lc 24,25); o que ele mesmo diz noutro lugar no Evangelho: Nisto é verdadeira a palavra: um é o que semeia e outro o que colhe (Jo 4,37): os Profetas, com efeito, semearam, Cristo, porém, com os seus Apóstolos colheu o fruto da semente.
Para provar o mesmo, que Deus quer que todos se salvem, aduz a sua autoridade, dizendo: para o qual, isto é, para a qual coisa a pregar, a saber, que Deus deu a si mesmo como preço pela salvação de todos, e o mais que foi premissado, fui posto eu por Deus pregador, para que isto pregue a todos; e pregador de grande dignidade, porque também Apóstolo constituído para pregar isto; e eu sem dúvida digo a verdade, não minto, não em qualquer parte, mas de modo a não mentir em lugar algum; e eu já fui constituído doutor das nações na fé e na verdade, isto é, já ensinei muitos discípulos, que são fiéis e pregam a verdade. Se meus discípulos são verdadeiros, consta que eu, seu doutor, não sou mentiroso. Que se nomeie pregador e Apóstolo não são palavras de soberba, mas para por esta autoridade corroborar a fé dos seus ditos.
Uma vez suficientemente provado que se deve orar por todos os homens, quero, pois, que todos, homens e mulheres, orem, para que segundo a vontade de Deus se salvem; quero certamente que os homens orem não só na igreja, mas em todo lugar, levantando mãos puras, etc. Aqui ensina quais se devem preparar para orar: chama mãos puras as afeições limpas, de modo que nada queiram que lhes seja dado por Deus que seja nefando Deus dar, mas sobretudo pedam a salvação; puras, digo, levantando por incrementos de boa obra e de oração piedosa, e isto sem ira, isto é, sem ódio do próximo; quem odeia o próximo, com efeito, rasga-se da unidade da Igreja; e sem contenda, isto é, orai sem desconfiança, feitos tais que por temor do pecado não convenha disputar se Deus vai ou não dar-vos o que pedis; como se dissesse: orai com dileção de Deus e do próximo. Do mesmo modo quero que as mulheres orem com os homens, igualmente sem ira e sem contenda, estando em traje não que as ornamente, mas decoroso, isto é, que seja ornado por elas, de modo que seja tanta a reverência das mulheres que até as suas vestes pareçam ornadas, porque mulheres santas as usam; permanecendo com pudor, para que tudo façam com vergonha, e sobriedade de comida, bebida e palavras — com as outras virtudes recomenda estas duas sobretudo às mulheres, porque viu que sobretudo sofrem da doença da impudicícia e da intemperança —; mulheres, digo, ornando-se, não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou veste preciosa, isto é, não aplicadas ao cuidado dos corpos, mas promovendo a piedade com boas obras, que por fora operam, isto é, pondo à vista a religião da mente por boa operação exibida por fora.
Ao orar, quero homens e mulheres semelhantes, mas ao ensinar ou interrogar quero-os dessemelhantes; a mulher aprenda, ouça o sermão na igreja, não interrogando nem respondendo, mas esteja em silêncio; e, se hesita em algo, quando vier a casa, interrogue o marido. Aprenda em silêncio com toda sujeição, estando atrás dos homens com a cabeça coberta, o olhar fixo no chão; quando nos reunimos na igreja, com efeito, ali nos representamos ao Juiz, a quem pela sedução da mulher provocamos à ira; lembrada disto, a mulher, que foi autora de toda perdição, deve na presença do Juiz muito envergonhar-se. Que aprenda, concedo à mulher; ensinar, porém, ao homem com doutrina espiritual, isso de modo algum o permito à mulher, nem que domine com algum domínio espiritual sobre o homem; mas que esteja sempre não só em silêncio de interrogar ou responder, mas também em silêncio de conversar com alguém na igreja.
Por isso a mulher não deve dominar sobre o homem, porque Adão foi formado primeiro, depois Eva; a ordem, porém, da criação deles significa que o homem deve dominar sobre a mulher, e não a mulher sobre o homem; pois, podendo Deus, se quisesse, criar a mulher antes do homem, ou no mesmo momento com o homem, não sem razão a fez posterior no tempo ao varão. Por isso ainda a mulher não deve dominar sobre o homem; e Adão não foi seduzido daquele modo que a mulher, de modo a crer que pelo gosto do pomo se faria Deus, mas nisto foi seduzido porque, persuadindo-o a mulher que Deus lhe dera como auxílio, julgou que ambas as coisas podiam fazer-se, e comprazer à esposa, e, praticado o crime, feita penitência, obter perdão de Deus; Adão não foi seduzido, a mulher, porém, seduzida, crendo que se faria deusa, como a serpente persuadira, caiu em prevaricação, isto é, em ato de pecado, a saber, na comida do pomo. E por tantas causas a mulher deve estar sempre sujeita ao homem, não preferida: com preferência espiritual, digo; se tem servos, com efeito, pode bem dominar sobre eles com domínio secular. Pode também a mulher presidir a mulheres de modo espiritual, mas ao homem nunca. Para que a alguém não parecesse que a mulher não pode salvar-se, porque foi causa de toda perdição, e porque o mesmo Paulo tanto detestou a mulher, acrescenta sobre a salvação dela, dizendo: embora a mulher tenha sido seduzida e o homem não, contudo a mulher será salva; não só a virgem ou continente, mas também a que vai pela geração de filhos, isto é, também a casada; com esta condição, digo, se permanecer na fé, de modo que tenha fé sã, e na caridade de Deus e do próximo, e na santificação que recebeu no batismo; permaneça, digo, nelas com sobriedade, que por isso repete, porque nesta costumam as mulheres pecar muitíssimo. Por isso disse que as casadas podem ser salvas, porque, se tivesse falado só das virgens ou viúvas, pensar-se-ia que entendera que as casadas não podem ser salvas, as quais, devendo ser salvas, consta por isso a salvação das virgens e viúvas. Ou continuemos de outro modo: embora não permita à mulher ensinar na igreja, contudo será salva, isto é, poderá merecer a salvação pela geração de filhos, isto é, instruindo espiritualmente em casa os seus filhos; será salva sob esta lei: se, quanto dela depender, os seus filhos permanecerem na fé, na dileção e na santificação, com sobriedade, como se disse.