Capítulo 13

Eis que esta é a terceira vez que vou ter convosco: Pela boca de duas ou três testemunhas se confirmará toda palavra (Dt 19,15). Já disse e repito, como presente, e agora ausente, aos que antes pecaram e a todos os demais, que, se for de novo, não pouparei. Procurais, porventura, a prova de que Cristo fala em mim, o qual não é fraco para convosco, mas é poderoso em vós? Pois, ainda que tenha sido crucificado por fraqueza, vive pelo poder de Deus. Pois também nós somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus em vós. Examinai-vos a vós mesmos, se estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? A não ser que estejais reprovados. Espero, porém, que reconhecereis que nós não somos reprovados. Pedimos a Deus que não façais mal algum, não para parecermos nós aprovados, mas para que vós façais o que é bom; quanto a nós, sejamos como reprovados. Pois nada podemos contra a verdade, mas só pela verdade. Alegramo-nos, com efeito, quando nós somos fracos e vós sois fortes. E isto também pedimos: a vossa perfeição. Por isso escrevo estas coisas ausente, para que, estando presente, não proceda com mais rigor, segundo o poder que o Senhor me deu para edificação e não para destruição. Quanto ao mais, irmãos, alegrai-vos, sede perfeitos, exortai-vos, tende o mesmo sentir, vivei em paz, e o Deus da paz e do amor estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Saúdam-vos todos os santos. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, e a caridade de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós. Amém.

Comentário

Mostrou o que entendia, dizendo "como não quero"; agora mostra o que dizia: "eu seja encontrado por vós como não quereis". A letra liga-se ali, contudo: para que, quando eu for, etc. Dir-me-iam: então irás? Eis, diz Paulo, esta é a terceira vez, digo, não que irei com preparação, mas já vou a vós; e, quando for, não vos tolerarei, mas se confirmará, isto é, convirá que se confirme, toda palavra, quer dos que acusam quer dos que defendem (diz-se que a palavra se confirma quando se prova ser verdadeira); se confirmará, digo, pela boca de duas ou três testemunhas, e não de quaisquer pessoas, mas de testemunhas, isto é, daqueles que são idôneos para testemunhar.

Dir-me-iam: ameaças que irás, mas quando fores, que farás? Contra isto Paulo: irei certamente e não pouparei; porque já disse, quando estava presente, que não pouparia mais; e o mesmo agora, ausente, repito por Epístola como presente, isto é, com tanta virtude quanta presente convosco usava; repito, digo, aos que antes de enviada a primeira Epístola pecaram e ainda não se corrigiram, e a todos os demais que caem em pecado; isto certamente repito: que, se for de novo, como disponho, não pouparei de novo, como antes poupei, quando pecastes por ignorância.

Dir-me-iam de novo: por mais que agora ameace, contudo, quando vier, poderá facilmente ser aplacado. A isto Paulo: que eu não pouparei, não o credes bastante; mas procurais vós a prova, isto é, permaneceis incorrigidos para experimentar o poder de vingança de Cristo, que fala em mim? Não são, com efeito, minhas as coisas que falo, mas de Cristo: é mais salutar que vos corrijais do que, desdenhando corrigir-vos, experimentar a mão forte do Senhor: Cristo que não é fraco para convosco, isto é, não apareceu fraco a vós, não operando milagres, mas é poderoso em vós, isto é, o seu poder vos foi manifestado pelos milagres que Cristo operou por nós no meio de vós. Na verdade Cristo é poderoso; pois, ainda que me objeteis que ele, condenado na Cruz, apareceu impotente, confesso, sim, foi crucificado, mas por fraqueza, isto é, segundo a fraqueza da mortalidade e passibilidade, que assumiu em nossa carne; mas, embora assim tenha sido crucificado, contudo vive, isto é, age potencialmente pelo poder de Deus, isto é, segundo a Deidade, cujo poder dele não se afastou, e em quem habitou corporalmente toda a Divindade.

Na verdade Cristo vive pelo poder de Deus; pois nós, muito inferiores a ele, viveremos pelo poder de Deus; o que diz assim: nós, na verdade, somos fracos nele, isto é, na sua semelhança, para que, como ele por nós, assim nós por ele padeçamos: assim somos fracos; mas viveremos, isto é, agiremos potencialmente em vós pelo poder, isto é, pela virtude de Deus, que temos familiar nele, a saber, Cristo. Para que, porém, nós, vivendo pelo poder de Deus, não ajamos mais severamente em vós, examinai-vos a vós mesmos, isto é, com sutil consideração investigai-vos; examinai, digo, se ainda estais na fé que recebestes por mim — se, com efeito, confiam nos méritos dos que batizam, se reconduzem as coisas antigas, não estão na fé, porque derrogam à graça de Deus —: examinai se estais na fé; e, achados na fé, provai-vos a vós mesmos, isto é, feitos prováveis por boas obras, adornai a vossa fé. Se na fé não estais, só vós sois condenados; nada se me requer, porque não reconheceis a vós mesmos, que Jesus Cristo, isto é, a fé de Jesus Cristo, está em vós, posta por meu ministério, a não ser que (o que facilmente pode ser) estejais reprovados, isto é, reprovados por Deus, enquanto vos mostrastes indignos dos sacramentos da fé?

Dir-me-iam: não admira que sejamos reprovados, já que tu mesmo és reprovado. A isto Paulo: o que quer que objeteis; espero, contudo, que reconheceis isto de nós: que nós em nada somos reprovados; e embora em nada reprovados, mas em tudo achados aprovados, não queremos, contudo, que sejais maus, como alguns prelados que, para que se veja a sua probidade no exercício da prelatura, se alegram das culpas dos súditos: nós, porém, não assim, mas pedimos a Deus que não façais mal algum; e não o pedimos para parecermos nós aprovados (se por autoridade da prelatura vingasse a culpa do súdito, então pareceria aprovado); isto não pedimos, mas para que vós façais o que é bom; nós, porém, nada digno de vingança achando em vós, sejamos, isto é, pareçamos como reprovados: o prelado então não é, mas parece reprovado, quando não acha em que exercer o poder do julgamento a ele confiado. De novo, há alguns prelados que, embora os seus súditos sejam bons, vexam-nos, contudo, por império do poder recebido. Contra estes Paulo: por isso pedimos que sejamos reprovados, vós fazendo o que é bom, porque nada podemos contra a verdade, isto é, onde há verdadeira justiça não é lícito impugná-la; mas só pela verdade, isto é, podemos defender a verdade, se alguém a impugna mal, agindo ou dizendo.

Por isso pedimos que façais o que é bom, porque nos alegramos quando nós somos fracos e o nosso poder não tem lugar, perfeitos todos; vós, porém, sois fortes, tendo pura consciência, e por isso não temendo o nosso julgamento. Não só nos alegramos, mas também pedimos isto: que sejais fortes, a saber, a vossa perfeição, isto é, a perfeição da vossa justiça. E por isso, porque nos alegramos e pedimos isto, escrevo estas coisas ausente, para que, quando estiver presente, não proceda com mais rigor, segundo o poder do meu apostolado; nem certamente, se agisse por poder, deveria ser-vos pesado, porque este poder me deu o Senhor para a vossa edificação e não para a vossa destruição.

Depois de os ter corrigido bastante do que haviam feito, passa a corrigi-los no que restava do futuro, dizendo: nestas coisas antecipadas, comportai-vos assim como ensino; e quanto ao mais, isto é, no futuro, irmãos, alegrai-vos, isto é, agi de modo a esperardes sempre alegria da vossa obra; e para que verdadeiramente vos alegreis, sede perfeitos; e vós perfeitos exortai os imperfeitos à perfeição: vós, porém, imperfeitos, tende o mesmo sentir com os perfeitos que vos exortam, e vivei em paz com eles, isto é, não abuseis da correção deles, mas com toda modéstia abraçai-lhes as ordens; porque, se tendes o mesmo sentir e vivei em paz, assim estará convosco o Deus da paz, que rejeita os discordes, elege os concordes; e o mesmo Deus do amor estará convosco, porque não basta ter paz, se não se segue segundo Deus o amar. E para que a paz e o amor de Deus estejam convosco, saudai-vos uns aos outros com o ósculo, isto é, um beije o outro, mortificada toda contenda entre vós; com o ósculo, digo, não que se faça só com a boca e não com o coração, mas santo, de modo que nenhuma centelha de ira se oculte no recôndito do coração. E assim deveis saudar-vos mutuamente, porque vos saúdam todos os santos, recomendando-vos o amor pelo seu exemplo. Segue a saudação própria de Paulo: a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, nosso Senhor Jesus Cristo dando a graça com que perdoa os pecados, e a caridade de Deus, isto é, Deus Pai, cuja caridade pela salvação dos homens quis que o Filho se encarnasse, e a comunhão do Espírito Santo, isto é, o Espírito que procede comumente do Pai e do Filho, ou então, a comunhão do Espírito Santo, isto é, o Espírito Santo comunicando-vos as suas graças, estejam com todos vós. Amém, e para que assim seja trabalhai vós, e Deus o conceda.


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