Capítulo 1

Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado a ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus, que ele antes havia prometido por meio de seus Profetas nas Santas Escrituras, acerca de seu Filho, que lhe nasceu da descendência de Davi segundo a carne, que foi predestinado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor; por quem recebemos a graça e o apostolado, para obedecer à fé em todas as nações, por amor de seu nome; entre as quais estais também vós, chamados de Jesus Cristo: a todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados santos. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, por todos vós, porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo. Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito no Evangelho de seu Filho, é-me testemunha de que sem cessar faço memória de vós, sempre pedindo em minhas orações que, de algum modo, finalmente, por vontade de Deus, eu tenha uma feliz viagem para ir ter convosco; pois desejo ver-vos, a fim de comunicar-vos alguma graça espiritual para vos confirmar, isto é, para nos consolarmos juntos em vós, pela fé que nos é comum, a vossa e a minha. Não quero, porém, que ignoreis, irmãos, que muitas vezes me propus ir ter convosco (e fui impedido até agora), para colher algum fruto também entre vós, como entre as demais nações. Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a ignorantes; assim, quanto está em mim, estou pronto a evangelizar também a vós que estais em Roma. Pois não me envergonho do Evangelho; porque é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu primeiro e também do grego. Pois nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: O justo, porém, vive da fé (Hab 2,4). Revela-se, com efeito, a ira de Deus, do céu, sobre toda impiedade e injustiça dos homens que retêm a verdade de Deus na injustiça; porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho manifestou. Com efeito, as perfeições invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são vistas e compreendidas por meio das coisas que foram feitas, bem como o seu eterno poder e a sua divindade, de modo que são inescusáveis. Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas se desvaneceram em seus pensamentos, e o seu coração insensato se obscureceu; dizendo-se sábios, tornaram-se estultos. E trocaram a glória do Deus incorruptível por uma semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes. Por isso Deus os entregou aos desejos de seus corações, à impureza, de modo que desonraram entre si os seus próprios corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém. Por isso Deus os entregou a paixões ignominiosas. Pois suas mulheres mudaram o uso natural em outro, que é contra a natureza. Semelhantemente também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em seus desejos uns pelos outros: homens com homens cometendo torpeza, e recebendo em si mesmos o pagamento que convinha ao seu erro. E, como não julgaram conveniente ter a Deus em seu conhecimento, Deus os entregou a um sentimento depravado, para fazerem o que não convém, cheios de toda iniquidade, malícia, fornicação, avareza, maldade, cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade, murmuradores, detratores, odiosos a Deus, insolentes, soberbos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, desordenados, sem afeição, sem aliança, sem misericórdia. Estes, embora tenham conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que praticam tais coisas são dignos de morte; e não só os que as praticam, mas também os que consentem com os que as praticam.

Comentário

Como é costume nas epístolas, antepõe a saudação, dizendo: Paulo, que antes se chamava Saulo, e de Saul tirou a linhagem, o nome e o ímpeto. Este nome, Paulo, em língua hebraica soa "tranquilo"; por isso, assim como lhe vale para a autoridade, por ser um nome conhecido e honrado por todos, assim também lhe vale para o propósito pela sua humildade; pois aqui Paulo se empenha em tornar os romanos tranquilos e pacíficos entre si. Ou, se "Paulo" for tomado em latim como "pequeno", ainda assim convém bem ao assunto, pois ele se esforça para submeter à graça de Deus, por meio da Epístola, os romanos, tornados pequenos e humildes. Paulo, digo, servo de Cristo Jesus. Porque aqui visa por todos os meios persuadir à humildade, antepôs ao nome de dignidade o nome de humildade, dizendo: Paulo, servo de Cristo Jesus, Rei e Sacerdote, que só pode reger e salvar pelo seu sacrifício vespertino; servo também de Jesus, isto é, do Salvador, fora do qual ninguém basta para salvar: assim também vós, à minha imitação, nada presumais de vós mesmos, mas submetei-vos inteiramente à servidão de Jesus Cristo. Paulo, digo, servo de Cristo Jesus, chamado pela graça de Deus, não por mérito da Lei ou da linhagem, mas somente pela graça, para ser apóstolo, a cuja autoridade vos convém obedecer; ou então: Paulo, apóstolo, não em segredo, mas chamado por todos, porque já todos reconheceram que fui consagrado apóstolo por Deus; por isso mais ainda se me deve obediência. Ambas as interpretações servem para reprimir os dois povos, o judeu e o gentio. De diversos modos se fazem as vocações de Deus; Paulo, porém, foi chamado tanto pela aflição exterior do corpo, como pela voz de Cristo, que dizia: «Saulo, por que me persegues?» (At 9,4), como também por inspiração interior.

Escolhido: aqui Paulo não determina de quem, mas para quê, a saber, para o Evangelho. Foi escolhido, pois, ou dos demais apóstolos, porque estes foram constituídos pregadores dos judeus, e eu, dos gentios. Com efeito, depois de convertido à fé, Paulo foi instruído durante alguns dias pelos discípulos que estavam em Damasco (At 9,19), e logo começou a ensinar sobre Cristo na sinagoga; por isso o governador de Damasco quis prendê-lo, mas foi descido pelos irmãos num cesto, por cima do muro, e assim escapou-lhe das mãos; dali partiu para a Arábia, pregando ali aos gentios durante três anos, após os quais voltou a Jerusalém e ali encontrou Pedro e Tiago, que antes se haviam admirado muito ao ouvir Paulo pregar aos gentios, a quem nunca tinham visto; e deram a Paulo e a Barnabé a mão direita em sinal de comunhão (Gl 2,9), aprovando a doutrina deles e declarando que pregavam o mesmo: não que consagrassem apóstolo a quem o próprio Deus havia consagrado, mas concordando com a sua doutrina, para que os que por eles se convertessem se reconhecessem de uma só e mesma fé. Ou então, escolhido separado da Lei; porque, sendo eu fariseu, isto é, "observante", e dos principais na Lei, tanto pela linhagem como pela ciência, vendo que ela não bastava para a salvação, separei-me dela. Ora, se eu, que era tão grande na Lei, abandonei a Lei, quanto mais deveis vós afastar-vos dela, que sois muito inferiores a mim. Esta última interpretação diz respeito somente aos judeus; a primeira, a ambos.

Até aqui recomendou a sua própria pessoa, tanto pela humildade quanto pela autoridade; agora começa a recomendar a sua pregação, dizendo: escolhido, digo, ou da Lei, ou dos demais apóstolos, vindo para o Evangelho a pregar (Evangelho significa "boa nova"), o Evangelho, digo, de Deus. A nova Lei diz-se de modo especial de Deus, porque Ele a ensinou não por meio de um ministro, mas por sua própria pessoa; a antiga Lei, porém, foi dada a Moisés por meio de um anjo, e por Moisés foi dada aos judeus, razão pela qual não se diz tão propriamente de Deus. Que ele antes havia prometido: antes de ser dado, o Evangelho foi prometido por Deus, como convém a quem iria dá-lo, pois prometer cabe a quem há de dar a coisa prometida; Deus, portanto, prometeu, ao passo que os Profetas, como ministros e sem poder de dar, apenas o predisseram. Ao dizer que Deus o prometeu desde a eternidade, assinala o grande cuidado de Deus com este Evangelho, que antes havia prometido por meio de seus Profetas, isto é, daqueles que previram o futuro. E porque houve alguns que predisseram o futuro por espírito pitônico, e outros que profetizaram por inspiração divina, como Balaão, sem terem, porém, de Deus esse ofício, precisa os seus Profetas, os quais receberam de Deus tanto a ciência das coisas futuras quanto o ministério de profetizar. E para que esta profecia permanecesse perpetuamente, foi prometida nas Santas Escrituras, isto é, ou compostas pelo Espírito Santo, ou que santificam aqueles que obram conforme o que as Escrituras ensinam.

Aqui passa a recomendar a Cristo, de quem diz ter recebido o apostolado, depois de feita a sua recomendação: nas Escrituras, digo, tidas acerca de seu Filho; pois toda a Escritura, mesmo quando trata do Pai ou do Espírito Santo, parece tratar principalmente do Filho, porque tudo o que nas Escrituras foi predito foi consumado pelo Filho: acerca do Filho, digo, não adotivo, mas seu próprio, isto é, consubstancial e coeterno a Ele. Que lhe nasceu, isto é, recebeu uma certa criação. Poderia alguém dizer: que milagre é este, que o Filho, sempiterno com o Pai, tenha sido feito no tempo? Contra isso diz: foi feito, digo, não segundo a Divindade, mas segundo a carne, que uniu a si pessoalmente, no tempo, à Divindade: carne, digo, assumida da descendência, isto é, da carne de Davi, segundo a linhagem da Mãe de Cristo, na qual recebeu a formação da carne; para ele, isto é, para Deus, ou seja, para a manifestação de Deus; pois, se Cristo não tivesse assumido a carne, os homens teriam pouco ou nenhum conhecimento de Deus. De Cristo poderia dizer-se igualmente que nasceu de Salomão ou de Roboão; mas, porque as promessas acerca de Cristo foram feitas a Abraão e a Davi, por isso se diz em toda parte que nasceu de um deles ou de ambos. Aqui, porém, a razão pela qual se cala Abraão e se antepõe Davi é esta: por Abraão entendem-se os justos, porque foi justo; por Davi, na maioria das vezes, os pecadores, porque pecou gravemente; ora, aqui o discurso se dirigia a pecadores, e Paulo pretendia que se confessassem pecadores; e por isso mencionou Davi, em memória dos pecados.

Este Cristo, no tempo foi feito, mas desde a eternidade predestinado, isto é, preordenado e disposto, para ser Filho de Deus assumindo a carne; Cristo, digo, enquanto Filho de Deus, está em poder, isto é, permanece sempre com o Pai na mesma potência da Divindade, e não foi predestinado segundo a Divindade, mas somente segundo a humanidade: pois predestinar diz-se do que não existe, ao passo que o Filho de Deus sempre existiu desde o princípio. Mas, porque em Cristo se consideram duas naturezas, uma divina e outra humana, em razão da união indivisa de ambas as substâncias diz-se muitas vezes da divina o que é próprio da humana, como aqui, onde se diz predestinado o Filho, o que não pode ocorrer na natureza da Divindade; à semelhança do que sucede quando, considerando no homem o corpo e a alma, se diz muitas vezes da alma, por afinidade, o que é próprio do corpo, e vice-versa. Este modo de falar convém mais expressamente a Cristo, em quem se diz que o Homem é Deus e que Deus é Homem, ao passo que, no homem, não é lícito dizer que o corpo é a alma, nem que a alma é o corpo. Quando, porém, referimos assim, que Cristo, não excluímos nenhuma das naturezas; mas, quando as examinamos por partes, atribuímos à divina o que convém à divina e à humana o que convém à humana.

Cristo, digo, foi predestinado a fazer-se homem não pela concupiscência da carne, mas segundo o Espírito, isto é, foi concebido do Espírito Santo; do Espírito, digo, de santificação, que o santificou no seio da Mãe, tornando-o imune de pecados. Que Cristo é Filho de Deus em poder evidencia-se pela ressurreição dos mortos, pelo fato de que, ressurgindo dos mortos, fez ressurgir mortos com Ele, coisa inaudita que de modo algum poderia fazer se não fosse Deus; dos mortos, digo, não de todos, mas somente dos que foram de nosso Senhor Jesus Cristo, pois não fez ressurgir com Ele os infiéis; por isso dizem que ressuscitaram com Cristo sobretudo os que foram sepultados com Abraão em Hebron. Por quem, Jesus Cristo, recebemos a graça, isto é, a remissão (Paulo, para melhor persuadir à humildade, antepõe o nome da humildade ao nome da dignidade), recebemos também o apostolado em todas as nações; pois o Espírito Santo me constituiu Apóstolo dos gentios, quando diz: «Separai-me Barnabé e Paulo para a obra a que os chamei» (At 13,2); recebemos, digo, o apostolado entre as nações para obedecer à fé, isto é, para pregarmos a fé e, depois de recebida a fé, obedecermos ao que a fé ordena, sem derrogar da graça de Deus por soberba; e isto deve ser feito por amor de seu nome, isto é, para a glória do nome de Deus; entre as quais, isto é, entre as quais nações estais também vós, romanos, gentios e judeus, chamados, isto é, pela vocação da graça de Deus, e não por vosso mérito; para a fé fostes eleitos, digo, de Jesus Cristo, isto é, para pertencerdes a Jesus Cristo.

Se agora os judeus quisessem objetar que não devem submeter-se a Paulo, por ser ele apóstolo apenas dos gentios, estariam enganados; pois, uma vez que habitam entre os gentios, pertencem ao apostolado do mesmo a quem pertencem os gentios; assim como, se estrangeiros quaisquer vêm morar numa diocese, ainda que sejam de outra nação, pela residência serão contados como da própria diocese; assim também aqueles judeus, por se terem encaminhado para os gentios, eram contados entre os gentios. Paulo, digo, tal e tal, apóstolo de Deus, escreve a todos os que estão em Roma; e, para excluir os infiéis, acrescenta: a todos, digo, amados de Deus, isto é, que Deus ama e predestinou para serem seus; a esses, digo, chamados santos pelo amor e pela graça de Deus, isto é, chamados para serem santos: graça a vós, isto é, remissão de vossos pecados, e paz, isto é, tranquilidade de ânimo e perseverança no bem, da parte de Deus, que pode, nosso Pai, e por isso tem a vontade, e do Senhor Jesus Cristo, que igualmente quer e pode.

Paulo, que vai corrigir os romanos com repreensão múltipla e áspera, para que suportem com benignidade as asperezas que lhes vai dizer e para que lhe sejam benévolos, declara de antemão que dá graças a Deus pelos bens que já receberam e que, com toda solicitude, ora a Deus pelo que ainda lhes é necessário; como se dissesse: tenho muito a dizer-vos para vossa instrução, mas antes de tudo direi o que me é mais agradável e com que estou mais solícito, a saber: dou graças a Deus. Dar graças a Deus é atribuir tudo a Deus e nada ao homem; por isso diz: dou graças a Deus, isto é, os bens que já vejo em vós atribuo à graça de Deus, e não a vós; a meu Deus, que de certo modo especial é meu, por Jesus Cristo, a quem tenho como único mediador entre mim e Deus; vós, porém, passais por mim a Cristo, e por Cristo a Deus; e por isso dou graças por Cristo; vós, porém, deveis dar graças a Cristo por mim, e assim a Deus. Talvez pensassem uns, os judeus ou os gentios, que ele dava graças só pelos outros, isto é, que só aos outros atribuía os bens à graça de Deus; para que, por isso, um não se ensoberbecesse contra o outro, diz: por todos vós, romanos, sejais judeus ou gentios, dou graças, e os bens de vossa fé atribuo só a Ele. Determina por que dá graças, dizendo: dou graças a Deus porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo: a vossa fé não aproveita só a vós, mas é anunciada em todo o mundo; pois, ouvindo que em Roma, que é a cabeça do orbe, foi recebida a fé de Cristo, os demais a recebem, imitando a sua cabeça. Na verdade, o bem já alcançado de vossa fé atribuo à graça do bom Deus, porque em minhas orações faço memória de vós, isto é, rogando a Deus pelos bens que haveis de ter, a Ele tudo atribuo; pois, se os bens que vêm depois da fé se atribuem à graça de Deus, muito mais se devem dar graças a Deus pela fé, que arranca o homem somente dos pecados e o conduz à justiça. E que eu faça memória de vós, Deus me é testemunha; e se o chamasse a testemunhar o que é falso, julgar-me-ia réu de falsidade.

Talvez alguém dissesse: como não te importas com Deus, por isso levianamente o convocas por testemunha de coisa falsa. Contra isso diz: a quem eu sirvo; ora, um servo não invocaria seu senhor como testemunha de falsidade. Sirvo a Deus em meu espírito, isto é, por vontade, e não por coação; ou então, em espírito, isto é, sirvo a Deus não em coisas carnais, mas espirituais. Determina em que coisa serve, a saber, no Evangelho, isto é, no anúncio de seu Filho; e esse serviço era então mais grato a Deus: pregar a glória de Cristo, Filho de Deus. Por isso Deus me é testemunha de que em minhas orações faço memória de vós, isto é, faço Deus lembrar-se de vós, sem cessar, porque nunca, ao orar, vos omito. Poderia orar uma vez por mês, e então seria pouco não os ter omitido; por isso diz: sempre em minhas orações, isto é, todos os dias continuamente, tenho memória de vós, não só orando, mas também suplicando, em certos sacramentos e conjurações, instando a Deus com insistência, se de algum modo eu tiver, ouvido, o caminho para ir ter convosco. Tenha-o, digo, de algum modo, isto é, com qualquer dificuldade que isso se desse; não me importaria com ladrão nem tempestade. Finalmente: com isto mostra que há muito o desejava e não pudera realizá-lo. Tenha algum dia a viagem, isto é, em qualquer tempo, quer no inverno, quer no verão, que isso acontecesse, não me importaria. Digo ainda, em favor do espírito, que seja para realizar o que quero. E, porque muitas coisas se realizam que desagradam a Deus, acrescenta: por vontade de Deus; pois, se Deus não quisesse isso, antes eu rejeitaria do que desejaria o êxito dessa coisa.

Quis ir ter convosco porque desejo ver-vos, a fim de comunicar-vos alguma graça. Vós já tendes a graça da fé; mas, como para guardá-la seriam oportunas outras graças, como a graça da unidade, não determina, contudo, qual graça, porque lhes ministraria toda aquela que visse necessária. Comunicar-vos, digo, alguma graça, não secular, como seria se os conciliasse com quaisquer príncipes deste mundo, mas graça espiritual, isto é, graça que nutra o espírito para a vida eterna. Para que não julgassem inútil a graça da fé que haviam recebido dos discípulos de Paulo, por ele ter dito que lhes daria uma graça, diz: não digo que vos comunique a graça para vos iniciar na fé (pois recebestes uma fé sã), mas para vos confirmar, isto é, para confirmar a vossa fé nas coisas que devem acompanhar a fé, a saber, que tenhais unidade e que nenhum julgue o outro mais digno ou menos digno da graça de Deus.

Isto que digo: desejo confirmar-vos, isto é, desejo consolar-me juntamente em vós. Ao dizer consolar-se juntamente, mostra que sofreu com o erro deles; ao dizer juntamente, insinua que devem ser consolados pela sua doutrina e que, por ambas as razões, devem suportar com ânimo sereno qualquer repreensão áspera de Paulo, já que por ela serão consolados e Paulo sofreu pelo erro deles e está solícito em afastá-lo. Desejo, digo, consolar-me em vós pela fé, a vossa e a minha,

comum, isto é, tal que seja recíproca, isto é, que tenha a mesma reciprocidade, de modo que, assim como a minha fé tudo atribui à graça de Deus, assim também a vossa o faça. Ou então: desejo consolar-me pela minha fé, feita vossa, para que creiais que todo bem vem da graça de Deus; vossa fé, digo, feita comum, isto é, tal que seja recíproca, isto é, subserviente a seu modo, para que, assim como eu, o que é próprio do mestre, ensino mandando, assim vós, o que é próprio dos discípulos, aprendais obedecendo.

Eu certamente desejei ir ter convosco, mas não pude, porque fui impedido. Esses impedimentos davam-se a Paulo ora pelo Espírito Santo, ora, na maioria das vezes, pelos perigos de ladrões ou das tempestades no mar. Por que fui impedido de ir, não quero que ignoreis, irmãos meus na fé; pois, se examinardes com diligência a causa deste impedimento, ser-vos-á útil para a correção, quando entenderdes que fui impedido pelo pecado de vossa contenda. Isto, digo, não quero que ignoreis, porque muitas vezes me propus ir ter convosco, e fui impedido de ir até agora. Ao dizer até agora, mostra que foi impedido muitas vezes; como se dissesse: assim como muitas vezes me propus, assim muitas vezes fui impedido. Propus-me ir ter convosco para colher algum fruto em vós (como também colho nos demais), isto é, ou para que, corrigidos pelo meu ensino, frutifiqueis para melhor, ou para que eu receba o fruto da recompensa, porque trabalhei entre vós. Colha, digo, em vós, como entre as demais nações, isto é, para que, assim como ensinei as outras nações a atribuir tudo à graça de Deus, assim também vós, instruídos por mim, façais o mesmo.

Nem posso cessar de vos ensinar e de ensinar às outras nações, pois sou devedor, isto é, prego por dever, porque assim me foi imposto pelo Espírito Santo, a gregos e a bárbaros. Exceto os gregos, chama bárbaras todas as nações; mas os gregos sempre procuraram a sabedoria acima dos demais, e foi também na Grécia que Paulo primeiro constituiu Igrejas de gentios. E a esses, gregos ou bárbaros, sou devedor, a sábios e a ignorantes; porque entre os gregos há sábios e ignorantes, e assim também entre os bárbaros. E assim como devo às demais nações, assim sou devedor de evangelizar também a vós, judeus e gentios convertidos, que estais em Roma; isto é, evangelizar estou pronto, isto é, preparado, quanto está em mim, isto é, no que depende de mim. Vede que não me encontreis ouvintes despreparados.

Realmente estou pronto, porque não me envergonho do Evangelho. De três modos alguém se envergonha do Evangelho: ou quando se envergonha tolamente de pregar as misérias de Cristo, a cruz, a morte, etc.; ou quando, vivendo corruptamente, teme pregar a justiça, para não ser repreendido por ensinar de um modo e viver de outro; ou quando falta o poder dos milagres para confirmar a pregação. Mas Paulo não se envergonhava de nenhum desses modos. Portanto, não me envergonho do Evangelho: pois no Evangelho tenho à mão o poder de Deus, com o qual perdoo os pecados e opero milagres; Evangelho que digo valer para a salvação de todo aquele que crê, isto é, para se ter a salvação pela fé com que se creu: de todo aquele que crê, digo, a saber, do judeu primeiro, que primeiro creu no tempo (pois foi na Judeia que começou a Igreja de Cristo); crê também do grego, isto é, dos gentios: porque os gregos, pela ciência, eram a cabeça das nações, por isso por qualquer grego entende quaisquer gentios. Ou então: o Evangelho é salvação para o judeu e o grego que creem, primeiro, isto é, sobretudo, porque dará salvação suficiente a ambos.

Verdadeiramente pelo Evangelho se obtém a fé, e pela fé a salvação eterna; pois nesse Evangelho se revela, tanto no conhecimento quanto no hábito, pela fé, isto é, pela fé recebida também através do Evangelho, a justiça, isto é, a prática das boas obras, pela qual justiça se obtém a salvação eterna. Porque, se pelo Evangelho a fé, pela fé a justiça e pela justiça a salvação eterna, então pelo Evangelho a salvação; acrescenta algo mais, que vale para o caso, assim: revela-se de fé em fé. Não diz isso para entender fés diversas, mas para ensinar que há muitos graus na fé. Os romanos tinham fé sã acerca de Cristo, mas erravam nisto: que não atribuíam tudo à graça de Deus; e Paulo pretende colocá-los neste grau da fé. Da fé se tem a justiça, e daí a salvação, como está escrito no profeta Habacuc: O justo, porém, vive da fé (cap. 2,4). Confirma o Evangelho pelo Profeta; pois diz o Profeta: Da fé, que se obtém pelo Evangelho, torna-se o homem justo ao operar o bem, e pela justiça vive na salvação eterna.

Até aqui lisonjeou os romanos, dizendo-se solícito com a sua salvação, para que recebam com ânimo sereno as correções do Apóstolo; aqui, porém, ataca primeiro os gentios, que entende poderem ser mais facilmente corrigidos, para depois se demorar mais na refutação dos judeus. Contudo, começa assim: verdadeiramente da fé a justiça, e da justiça a salvação; pois, ao contrário, da impiedade, isto é, da não fé ou da idolatria, segue-se a injustiça, isto é, as obras más; e da injustiça segue-se a ira de Deus, isto é, a condenação eterna, contrária à salvação. Diz equivalentemente: verdadeiramente da fé se revela a justiça, e assim a salvação; pois sobre toda impiedade: diz sobre, em oposição à impiedade; e, quando diz impiedade, é mais do que se dissesse todos os ímpios; pois, se dissesse ímpios, indicaria certamente todos os ímpios, mas não que deveriam ser punidos por cada impiedade; ao dizer, porém, toda impiedade, insinua que todos os ímpios devem ser punidos por cada impiedade; sobre toda impiedade, pois, da infidelidade procede a injustiça, isto é, o pensamento ou a obra perversos, e sobre toda injustiça se revela, isto é, se reconhece, a ira de Deus, que virá do céu no dia do juízo; então, com efeito, será revelada àqueles que até aquele dia não tiverem crido que Cristo é o juiz de todos. Ou então: a ira de Deus se revela do céu, porque o próprio elemento, em seu ornato e feitura, mostra que se deve temer a ira daquele que formou semelhante criatura. Revela-se, digo, a ira sobre a injustiça dos homens; dos homens, digo, que retêm a verdade de Deus, isto é, o verdadeiro conhecimento de Deus, que por natureza têm ou podem ter, e o retêm, isto é, retraem, a fim de que não ascenda, como a natureza exigiria, a conhecer algo mais de Deus; retêm-na certamente na injustiça, isto é, pelos males que praticam.

Verdadeiramente os ímpios retêm assim a verdade de Deus; porque o que se pode conhecer de Deus, isto é, o que de Deus pode ser conhecido, isto é manifesto, se não em ato, ao menos entre eles, isto é, em suas razões e na potência de seu intelecto. Realmente o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre todos eles em potência; pois Deus lho manifestou em ato, isto é, a alguns deles, o que se pode conhecer de Deus; e, se a alguns foi revelado em ato, é certo que a todos é manifesto em potência; com efeito, Platão e alguns filósofos conheceram naturalmente que há um só Criador de todas as coisas, não, porém, sem o auxílio da graça de Deus. Prova que Deus revelou isto em ato a alguns, e acrescenta o modo da revelação, dizendo: verdadeiramente Deus o revelou a alguns; pois as perfeições invisíveis de sua essência divina são vistas desde a criação do mundo, não obscuramente, mas com clareza, compreendidas por meio das coisas que foram feitas. Pelas perfeições invisíveis significa o Pai, porque não tem princípio de ninguém, ao passo que o Filho e o Espírito Santo o têm do Pai; pôs porém o número plural porque a fraqueza do intelecto humano não consegue considerar em Deus senão por intervalos de tempo, que nele são naturais e simultâneos, devendo ser considerados num só instante (se isso é possível). Bem como o seu eterno poder, isto é, de sua essência divina, isto é, o Filho, que se diz virtude e sabedoria do Pai, sempre eterno com o Pai; e a sua divindade, isto é, a bondade; por isso também chamamos divinos os homens bons; bondade, isto é, o amor de sua essência divina, a saber, o Espírito Santo, que não é outra coisa senão a bondade e o amor do Pai e do Filho: esta, digo, virtude e divindade são vistas, compreendidas por meio das coisas que foram feitas; pois o homem não pode compreender as coisas invisíveis senão por meio do que vê; mas, quando olha algum rei de grande império, entende por ele, de certo modo, que é muito maior o Rei que o criou; e, quando vê a virtude ou a sabedoria em alguém, pensa que muito mais está a virtude e a sabedoria naquele que a deu a ele; assim também, pela bondade da criatura, pode conhecer-se a bondade ou o amor de Deus. Ora, ponderar naturalmente em Deus essa virtude e divindade teria bastado, ainda que ignorassem aqueles nomes, isto é, Filho e Espírito Santo; pois a virtude e a divindade, ou amor de Deus, são o mesmo que o Filho e o Espírito Santo. A virtude e a divindade de Deus são compreendidas pelas coisas que foram feitas, de modo que os homens são inescusáveis por isto: porque, tendo conhecido a Deus, se não em ato, ao menos pela potência de seu intelecto natural, não o glorificaram como Deus, cultuando-o e honrando-o como Deus, nem lhe renderam graças, isto é, não atribuíram à graça de Deus, mas a si mesmos, os bens de seu pensamento. Não renderam graças a Deus, mas, ensoberbecendo-se em seus pensamentos, desvaneceram-se, à semelhança da fumaça, que quanto mais sobe, tanto mais se reduz a nada. E, porque ao se ensoberbecerem se desvaneceram, por isso o coração, isto é, a inteligência deles, antes sutil, obscureceu-se por causa da soberba, a ponto de tornar-se insensato. Desvaneceram-se, com efeito; pois dizendo-se sábios, isto é, que a sabedoria era deles mesmos, sem dom de Deus; e na verdade o seu coração se obscureceu; pois, dizendo isto e crendo que assim era, tornaram-se estultos; e assim da soberba caíram na ignorância, da ignorância na estultícia, de modo que trocaram a glória do Deus incorruptível, isto é, imutável, fora do qual toda criatura é mutável e por isso corruptível; trocaram, pois, a glória desse Deus, não por um homem verdadeiro, mas por uma semelhança da imagem do homem corruptível. E, para fabricarem para si um simulacro expresso, trocaram-na por uma semelhança de imagem, isto é, por uma imagem semelhante, cultuando a criatura em lugar do Criador. Primeiro por uma semelhança de homem, depois por uma semelhança de aves, em seguida por uma semelhança de quadrúpedes, e depois por uma semelhança de serpentes, trocaram os gentios o culto e a religião do Criador, como foi dito.

Porque se ensoberbeceram no intelecto, foram privados do intelecto; porque rejeitaram o Criador, foram punidos no culto da criatura; e porque, como a natureza ensinava, não quiseram glorificar a Deus, mas, contra o que a natureza repugnava, cultuaram criaturas, por isso foram precipitados em pecados que são contra a natureza, como segue: por isso, isto é, porque, contra a natureza, cultuaram criaturas, por isso, retirando a graça, Deus os entregou aos desejos de seus corações, de modo que os cobiçassem no ânimo; em seguida, à impureza, isto é, à prática da impureza desejada; a isto, digo, assim os entregou, de modo que desonraram, isto é, contaminaram, com insultos, isto é, com aquelas poluções que, se lhes fossem infligidas à força, teriam por grande insulto, os seus próprios corpos; desonraram, digo, entre si, isto é, ou um ao outro, ou em si mesmos. Entenderam que se devia fazer isto não por Deus, eles que antes se ensoberbeciam do intelecto.

O que disse acima, trocaram a glória, repete-o para enumerar os modos da troca, dizendo: os gentios trocaram a verdade de Deus, isto é, o culto que a verdade natural afirmava dever ser prestado a Deus, pela mentira, isto é, pelas criaturas que mentirosamente imaginavam serem deuses; e, depois de as imaginarem, adoraram-nas, isto é, veneraram-nas; depois ainda serviram-nas, oferecendo e imolando à criatura. Por estes três modos trocaram a glória de Deus: primeiro, mentirosamente julgaram que o ídolo era deus; depois, adorando-o; em terceiro lugar, imolando-lhe vítimas. Serviram certamente à criatura, julgando que isso era preferível a servir ao Criador; o qual Criador nada perde com o afastamento deles; pois é bendito pelos séculos, quem quer que adorem. Amém, isto é, assim é, sem dúvida.

O que disse acima de novo, Deus os entregou aos desejos, repete aqui o mesmo, para comparar a pena do pecado com o próprio pecado; porque, assim como, negando ao Criador o culto que a natureza exigia, se voltaram para um culto não natural das criaturas, assim também eles foram precipitados em pecados não naturais. Enumera também o próprio pecado, como se difundiu em ambos os sexos, dizendo: por isso, porque serviram à criatura e não ao Criador, Deus os entregou, privados de sua graça, a paixões ignominiosas, isto é, a pecados ignominiosos, que, embora a carne os desejasse mal, a própria natureza sofria violência, ao agir nela não naturalmente. Enumera as paixões ignominiosas, dizendo: foram entregues certamente a ignomínias; pois as mulheres desses gentios mudaram o uso natural do homem em outro, que é contra a natureza, para que uma abusasse da outra; porque haviam negado ao Criador o culto natural. Semelhantemente também os homens, como as mulheres, deixando o uso natural da mulher, inflamaram-se em seus desejos uns pelos outros, de modo que, abrasados pelo fogo da libido, desejaram-se mutuamente; e, como o ânimo deles havia desejado, cumprindo-o em obra, homens com homens cometendo torpeza; e assim recebendo o pagamento de seu erro, isto é, a pena daquele pecado; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus: recebendo-o, não em perda de bens ou de filhos, mas em si mesmos, porque os próprios foram punidos com essa pena. Esse pagamento convinha, isto é, era conveniente que o recebessem: já que, desprezando o que a natureza os advertia a não fazer, desprezaram o Criador e adoraram a criatura, foi justo que, por esse pecado não natural, fossem precipitados em pecado não natural e em pena do pecado. E, assim como, por terem pecado no culto não natural da criatura, foram punidos por pecados não naturais, assim também, como não julgaram conveniente ter a Deus em seu conhecimento, isto é, porque não tiveram a Deus em seu conhecimento, a quem a própria natureza provava que se devia justamente conhecer, isto é, porque pecaram, por soberba, abusando do conhecimento de Deus que lhes fora naturalmente concedido; por isso, perdido oportunamente o conhecimento anterior, Deus os entregou a um sentimento depravado, porque não quiseram usar do sentimento reto; entregou-os, digo, para fazerem o que não convém, isto é, o que a própria natureza compreenderia com bastante clareza não convir; primeiro, porque abusaram do conhecimento concedido, julgando que esse bem do intelecto natural vinha deles e não de Deus, foram privados do intelecto concedido e, abandonando o Criador, cultuaram, contra a natureza, as criaturas; razão pela qual foram novamente punidos por pecados não naturais.

Mas, como ainda assim, depois dos pecados não naturais, não se arrependeram, foram precipitados em outros males, como segue: o Senhor os entregou a um sentimento depravado; a esses, digo, cheios de toda iniquidade, porque tiveram todas as iniquidades, e cada uma delas em plenitude. Quando disse toda iniquidade, compreendeu tudo o que segue; mas, para os atemorizar mais, enumera cada gênero de iniquidade, dizendo: realmente toda iniquidade; porque cheios de malícia; agiam, com efeito, maliciosamente contra o próximo, tirando-lhe os bens ou afligindo-o com açoites; cheios também de fornicação (chama fornicação tudo o que se faz fora da legítima esposa, a qual, como se diz, é dada tanto para gerar prole quanto para evitar a fornicação); cheios também de avareza, retendo ilicitamente o que é seu ou cobiçando o alheio; e cheios de maldade: a maldade (nequitia) se diz ou de nequeo, nequis ("não posso"), ou do nome nequam ("mau"), porque não podem conter-se do ilícito; e quem não pode conter-se não deve ser considerado homem; cheios também de inveja, porque, embora não cobicem para si os bens alheios, gostariam, no entanto, que os outros não os tivessem; cheios também de homicídios, que se cometem não só pelas mãos, mas por deliberação e consentimento; cheios de contenda, porque entre si litigam com gritos e opróbrios; cheios de dolo, porque fazem uma coisa e pensam outra; cheios de malignidade, porque, contrários à benignidade, estão sempre na amargura do ânimo. Os quais são também murmuradores, que transferem ocultamente os males de um próximo a outro; também detratores, tirando os bens que existem e imputando os males que não existem. Para que estas duas coisas não parecessem fáceis, porque não julgariam ser condenados só por palavras, agrava essas duas, dizendo: murmuradores e detratores, odiosos a Deus. Também os chamo insolentes, isto é, que infligem uns aos outros insultos torpes; soberbos, isto é, que se põem acima dos outros ou desejam pôr-se; arrogantes, que não suportam nem iguais nem superiores, como César, que não quis suportar Pompeu como maior, nem Pompeu a César como igual; inventores de males, seja de costumes maus, seja de tormentos; desobedientes aos pais carnais, o que a natureza ensina até nos filhotes das aves; insensatos, isto é, sem discernimento para o bem e para o mal; desordenados, tanto nas vestes quanto pela imodéstia dos membros; pois por estas coisas que vemos por fora julgamos as interiores; sem afeição, isto é, sem aplicação do ânimo a algo digno; sem aliança, isto é, sem vínculo de ânimo; pois, porque as alianças valem para alimentar a fé, a fim de que sempre se multiplicassem, foram proibidos os matrimônios dentro da mesma parentela, que já está bastante aliada pelo vínculo da consanguinidade. Os quais são também sem misericórdia, porque, se virem alguns miseráveis, não têm para com eles entranhas de misericórdia.

Em todas estas coisas os gentios foram punidos pelos pecados acima mencionados; mas, como ainda assim não se arrependeram, foram precipitados em outro mal: cegos, prometeram-se a impunidade dos pecados; por isso diz: os gentios, cegos, não compreenderam que os que praticam tais coisas, como foi dito, são dignos de morte eterna. Dessa maneira não compreenderam, tendo antes conhecido naturalmente a justiça de Deus; por cujo conhecimento se diz que foram privados, porque dele se ensoberbeceram. Dignos de morte são certamente não só os que praticam as coisas ditas, mas também os que consentem com os que as praticam. Consentir, segundo Ambrósio, é, se alguém pode repreender e se cala, ou se, ouvindo, adula; se, portanto, os que fazem os males ditos e os que consentem com eles são dignos de condenação, nenhum dos gentios escapará desta morte.


Revision #1
Created 2 November 2026 23:30:20 by Admin
Updated 2 November 2026 23:30:20 by Admin