# Comentário a Todas as Epístolas do Bem-aventurado Apóstolo Paulo

# Epístola aos Romanos



# Prólogo[1]

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Paulo ainda não tinha chegado a Roma, mas, por meio de alguns discípulos que ali pregavam, haviam abraçado a fé alguns romanos, em parte gentios, em parte judeus; entre eles havia uma altercação inconveniente. Com efeito, os judeus pretendiam dever ser preferidos aos gentios, e os gentios, ao contrário, afirmavam que eles é que deviam ser tidos por mais dignos que os judeus. A razão dos judeus era esta: a promessa dessa salvação fora feita a seus pais, como Abraão, Davi e os demais; Deus lhes dera também a Lei e os Profetas, que tudo prefiguravam a salvação futura por meio de Cristo, ao passo que em nada disso fizera menção dos gentios; por isso, diziam, mereciam ser preferidos aos gentios nessa salvação. Os gentios, ao contrário, objetavam que os judeus deviam ser julgados mais indignos, porque, se Deus tivera por eles tamanha solicitude a ponto de lhes conceder as coisas acima mencionadas, eles haviam abusado de todos os bens de Deus: prevaricando contra a Lei que Ele dera, desprezando os Profetas que enviara e, por fim, condenando ao patíbulo da cruz o Salvador que lhes fora enviado; por isso deviam antes ser humilhados do que exaltados por esses motivos. Os próprios gentios, ao contrário, é que mereciam ser preferidos, pois, assim que ouviram a palavra de Deus, acolheram a fé; e, se antes não haviam acreditado, era porque não tinham tido nem a Lei nem os Profetas, de modo que se declaravam escusáveis. Como os discípulos, por cuja pregação se tinham convertido, não conseguiam apaziguar essa discórdia, enviaram a Paulo, para que o mestre obtivesse o que a autoridade deles não bastava para alcançar.

Paulo, aproveitando então essa ocasião, escreve-lhes esta Epístola, na qual tens por matéria os romanos, isto é, os gentios convertidos à fé. Trata deles da seguinte maneira: primeiro repreende os gentios, para que, ensoberbecendo-se seja de sua sabedoria, seja de seu livre-arbítrio, e assim diminuindo a graça de Cristo, não se julguem mais dignos na fé do que quaisquer outros que a tenham abraçado, uma vez que a fé e a salvação são concedidas unicamente pela graça de Deus. Se se envaidecem do livre-arbítrio, nisso mesmo são sumamente culpados, pois tiveram o conhecimento natural, pelo qual poderiam conhecer o seu Criador sem mestre algum. Negligenciando o Criador, adoraram as criaturas; e acrescenta muitas outras coisas para abater a soberba dos gentios. Quanto ao abatimento dos judeus, porque os percebeu mais obstinados, como quem alegava mais razões, demora-se mais tempo, provando que não devem ensoberbecer-se por terem tido a Lei e os Profetas, uma vez que, justamente naquilo em que deveriam ter aplacado o Senhor, sempre ofenderam a Deus prevaricando. Estas e muitas outras coisas aduz para reprimir os judeus. E tem por fim proceder assim a fim de submeter uns e outros, judeus e gentios, à graça de Deus, levando-os a crer que nada advém aos judeus da linhagem, da Lei ou dos Profetas, nem aos gentios da ignorância que alegam, nem do livre-arbítrio.

## Notas

1. O texto das Epístolas do bem-aventurado Paulo que se encontra nas edições mais antigas da presente obra não concorda inteiramente nem com os códices que São Bruno tinha em mãos, nem com a edição Vulgata da Sagrada Bíblia; por isso, suprimimo-lo como supérfluo e julgamos útil inserir as Epístolas do bem-aventurado Paulo nos comentários de São Bruno segundo a referida edição Vulgata, pois assim cada um poderá comparar comodamente as variantes de leitura com essa versão aprovadíssima.

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# Capítulo 1

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> Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado a ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus, que ele antes havia prometido por meio de seus Profetas nas Santas Escrituras, acerca de seu Filho, que lhe nasceu da descendência de Davi segundo a carne, que foi predestinado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor; por quem recebemos a graça e o apostolado, para obedecer à fé em todas as nações, por amor de seu nome; entre as quais estais também vós, chamados de Jesus Cristo: a todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados santos. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, por todos vós, porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo. Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito no Evangelho de seu Filho, é-me testemunha de que sem cessar faço memória de vós, sempre pedindo em minhas orações que, de algum modo, finalmente, por vontade de Deus, eu tenha uma feliz viagem para ir ter convosco; pois desejo ver-vos, a fim de comunicar-vos alguma graça espiritual para vos confirmar, isto é, para nos consolarmos juntos em vós, pela fé que nos é comum, a vossa e a minha. Não quero, porém, que ignoreis, irmãos, que muitas vezes me propus ir ter convosco (e fui impedido até agora), para colher algum fruto também entre vós, como entre as demais nações. Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a ignorantes; assim, quanto está em mim, estou pronto a evangelizar também a vós que estais em Roma. Pois não me envergonho do Evangelho; porque é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu primeiro e também do grego. Pois nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: O justo, porém, vive da fé (Hab 2,4). Revela-se, com efeito, a ira de Deus, do céu, sobre toda impiedade e injustiça dos homens que retêm a verdade de Deus na injustiça; porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho manifestou. Com efeito, as perfeições invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são vistas e compreendidas por meio das coisas que foram feitas, bem como o seu eterno poder e a sua divindade, de modo que são inescusáveis. Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas se desvaneceram em seus pensamentos, e o seu coração insensato se obscureceu; dizendo-se sábios, tornaram-se estultos. E trocaram a glória do Deus incorruptível por uma semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes. Por isso Deus os entregou aos desejos de seus corações, à impureza, de modo que desonraram entre si os seus próprios corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém. Por isso Deus os entregou a paixões ignominiosas. Pois suas mulheres mudaram o uso natural em outro, que é contra a natureza. Semelhantemente também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em seus desejos uns pelos outros: homens com homens cometendo torpeza, e recebendo em si mesmos o pagamento que convinha ao seu erro. E, como não julgaram conveniente ter a Deus em seu conhecimento, Deus os entregou a um sentimento depravado, para fazerem o que não convém, cheios de toda iniquidade, malícia, fornicação, avareza, maldade, cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade, murmuradores, detratores, odiosos a Deus, insolentes, soberbos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, desordenados, sem afeição, sem aliança, sem misericórdia. Estes, embora tenham conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que praticam tais coisas são dignos de morte; e não só os que as praticam, mas também os que consentem com os que as praticam.

## Comentário

Como é costume nas epístolas, antepõe a saudação, dizendo: *Paulo*, que antes se chamava Saulo, e de Saul tirou a linhagem, o nome e o ímpeto. Este nome, Paulo, em língua hebraica soa "tranquilo"; por isso, assim como lhe vale para a autoridade, por ser um nome conhecido e honrado por todos, assim também lhe vale para o propósito pela sua humildade; pois aqui Paulo se empenha em tornar os romanos tranquilos e pacíficos entre si. Ou, se "Paulo" for tomado em latim como "pequeno", ainda assim convém bem ao assunto, pois ele se esforça para submeter à graça de Deus, por meio da Epístola, os romanos, tornados pequenos e humildes. *Paulo*, digo, *servo de Cristo Jesus*. Porque aqui visa por todos os meios persuadir à humildade, antepôs ao nome de dignidade o nome de humildade, dizendo: *Paulo, servo de Cristo Jesus*, Rei e Sacerdote, que só pode reger e salvar pelo seu sacrifício vespertino; servo também de *Jesus*, isto é, do Salvador, fora do qual ninguém basta para salvar: assim também vós, à minha imitação, nada presumais de vós mesmos, mas submetei-vos inteiramente à servidão de Jesus Cristo. *Paulo*, digo, servo de Cristo Jesus, *chamado* pela graça de Deus, não por mérito da Lei ou da linhagem, mas somente pela graça, *para ser apóstolo*, a cuja autoridade vos convém obedecer; ou então: Paulo, apóstolo, não em segredo, mas *chamado* por todos, porque já todos reconheceram que fui consagrado apóstolo por Deus; por isso mais ainda se me deve obediência. Ambas as interpretações servem para reprimir os dois povos, o judeu e o gentio. De diversos modos se fazem as vocações de Deus; Paulo, porém, foi chamado tanto pela aflição exterior do corpo, como pela voz de Cristo, que dizia: «Saulo, por que me persegues?» (At 9,4), como também por inspiração interior.

*Escolhido*: aqui Paulo não determina de quem, mas para quê, a saber, *para o Evangelho*. Foi escolhido, pois, ou dos demais apóstolos, porque estes foram constituídos pregadores dos judeus, e eu, dos gentios. Com efeito, depois de convertido à fé, Paulo foi instruído durante alguns dias pelos discípulos que estavam em Damasco (At 9,19), e logo começou a ensinar sobre Cristo na sinagoga; por isso o governador de Damasco quis prendê-lo, mas foi descido pelos irmãos num cesto, por cima do muro, e assim escapou-lhe das mãos; dali partiu para a Arábia, pregando ali aos gentios durante três anos, após os quais voltou a Jerusalém e ali encontrou Pedro e Tiago, que antes se haviam admirado muito ao ouvir Paulo pregar aos gentios, a quem nunca tinham visto; e deram a Paulo e a Barnabé a mão direita em sinal de comunhão (Gl 2,9), aprovando a doutrina deles e declarando que pregavam o mesmo: não que consagrassem apóstolo a quem o próprio Deus havia consagrado, mas concordando com a sua doutrina, para que os que por eles se convertessem se reconhecessem de uma só e mesma fé. Ou então, *escolhido* separado da Lei; porque, sendo eu fariseu, isto é, "observante", e dos principais na Lei, tanto pela linhagem como pela ciência, vendo que ela não bastava para a salvação, separei-me dela. Ora, se eu, que era tão grande na Lei, abandonei a Lei, quanto mais deveis vós afastar-vos dela, que sois muito inferiores a mim. Esta última interpretação diz respeito somente aos judeus; a primeira, a ambos.

Até aqui recomendou a sua própria pessoa, tanto pela humildade quanto pela autoridade; agora começa a recomendar a sua pregação, dizendo: *escolhido*, digo, ou da Lei, ou dos demais apóstolos, vindo *para o Evangelho* a pregar (Evangelho significa "boa nova"), *o Evangelho*, digo, *de Deus*. A nova Lei diz-se de modo especial de Deus, porque Ele a ensinou não por meio de um ministro, mas por sua própria pessoa; a antiga Lei, porém, foi dada a Moisés por meio de um anjo, e por Moisés foi dada aos judeus, razão pela qual não se diz tão propriamente de Deus. *Que ele antes havia prometido*: antes de ser dado, o Evangelho foi prometido por Deus, como convém a quem iria dá-lo, pois prometer cabe a quem há de dar a coisa prometida; Deus, portanto, prometeu, ao passo que os Profetas, como ministros e sem poder de dar, apenas o predisseram. Ao dizer que Deus o prometeu desde a eternidade, assinala o grande cuidado de Deus com este Evangelho, *que antes havia prometido por meio de seus Profetas*, isto é, daqueles que previram o futuro. E porque houve alguns que predisseram o futuro por espírito pitônico, e outros que profetizaram por inspiração divina, como Balaão, sem terem, porém, de Deus esse ofício, precisa *os seus Profetas*, os quais receberam de Deus tanto a ciência das coisas futuras quanto o ministério de profetizar. E para que esta profecia permanecesse perpetuamente, foi prometida *nas Santas Escrituras*, isto é, ou compostas pelo Espírito Santo, ou que santificam aqueles que obram conforme o que as Escrituras ensinam.

Aqui passa a recomendar a Cristo, de quem diz ter recebido o apostolado, depois de feita a sua recomendação: nas Escrituras, digo, tidas *acerca de seu Filho*; pois toda a Escritura, mesmo quando trata do Pai ou do Espírito Santo, parece tratar principalmente do Filho, porque tudo o que nas Escrituras foi predito foi consumado pelo Filho: *acerca do Filho*, digo, não adotivo, mas seu próprio, isto é, consubstancial e coeterno a Ele. *Que lhe nasceu*, isto é, recebeu uma certa criação. Poderia alguém dizer: que milagre é este, que o Filho, sempiterno com o Pai, tenha sido feito no tempo? Contra isso diz: *foi feito*, digo, não segundo a Divindade, mas segundo a carne, que uniu a si pessoalmente, no tempo, à Divindade: carne, digo, assumida *da descendência*, isto é, da carne *de Davi*, segundo a linhagem da Mãe de Cristo, na qual recebeu a formação da carne; *para ele*, isto é, para Deus, ou seja, para a manifestação de Deus; pois, se Cristo não tivesse assumido a carne, os homens teriam pouco ou nenhum conhecimento de Deus. De Cristo poderia dizer-se igualmente que nasceu de Salomão ou de Roboão; mas, porque as promessas acerca de Cristo foram feitas a Abraão e a Davi, por isso se diz em toda parte que nasceu de um deles ou de ambos. Aqui, porém, a razão pela qual se cala Abraão e se antepõe Davi é esta: por Abraão entendem-se os justos, porque foi justo; por Davi, na maioria das vezes, os pecadores, porque pecou gravemente; ora, aqui o discurso se dirigia a pecadores, e Paulo pretendia que se confessassem pecadores; e por isso mencionou Davi, em memória dos pecados.

Este Cristo, no tempo foi feito, mas desde a eternidade *predestinado*, isto é, preordenado e disposto, para ser Filho de Deus assumindo a carne; Cristo, digo, enquanto Filho de Deus, está *em poder*, isto é, permanece sempre com o Pai na mesma potência da Divindade, e não foi predestinado segundo a Divindade, mas somente segundo a humanidade: pois predestinar diz-se do que não existe, ao passo que o Filho de Deus sempre existiu desde o princípio. Mas, porque em Cristo se consideram duas naturezas, uma divina e outra humana, em razão da união indivisa de ambas as substâncias diz-se muitas vezes da divina o que é próprio da humana, como aqui, onde se diz predestinado o Filho, o que não pode ocorrer na natureza da Divindade; à semelhança do que sucede quando, considerando no homem o corpo e a alma, se diz muitas vezes da alma, por afinidade, o que é próprio do corpo, e vice-versa. Este modo de falar convém mais expressamente a Cristo, em quem se diz que o Homem é Deus e que Deus é Homem, ao passo que, no homem, não é lícito dizer que o corpo é a alma, nem que a alma é o corpo. Quando, porém, referimos assim, *que Cristo*, não excluímos nenhuma das naturezas; mas, quando as examinamos por partes, atribuímos à divina o que convém à divina e à humana o que convém à humana.

Cristo, digo, foi predestinado a fazer-se homem não pela concupiscência da carne, mas *segundo o Espírito*, isto é, foi concebido do Espírito Santo; do Espírito, digo, *de santificação*, que o santificou no seio da Mãe, tornando-o imune de pecados. Que Cristo é Filho de Deus *em poder* evidencia-se pela *ressurreição dos mortos*, pelo fato de que, ressurgindo dos mortos, fez ressurgir mortos com Ele, coisa inaudita que de modo algum poderia fazer se não fosse Deus; dos mortos, digo, não de todos, mas somente dos que foram de nosso Senhor Jesus Cristo, pois não fez ressurgir com Ele os infiéis; por isso dizem que ressuscitaram com Cristo sobretudo os que foram sepultados com Abraão em Hebron. *Por quem*, Jesus Cristo, *recebemos a graça*, isto é, a remissão (Paulo, para melhor persuadir à humildade, antepõe o nome da humildade ao nome da dignidade), recebemos também o apostolado em todas as nações; pois o Espírito Santo me constituiu Apóstolo dos gentios, quando diz: «Separai-me Barnabé e Paulo para a obra a que os chamei» (At 13,2); recebemos, digo, o apostolado entre as nações *para obedecer à fé*, isto é, para pregarmos a fé e, depois de recebida a fé, obedecermos ao que a fé ordena, sem derrogar da graça de Deus por soberba; e isto deve ser feito *por amor de seu nome*, isto é, para a glória do nome de Deus; *entre as quais*, isto é, entre as quais nações *estais também vós*, romanos, gentios e judeus, *chamados*, isto é, pela vocação da graça de Deus, e não por vosso mérito; para a fé fostes eleitos, digo, *de Jesus Cristo*, isto é, para pertencerdes a Jesus Cristo.

Se agora os judeus quisessem objetar que não devem submeter-se a Paulo, por ser ele apóstolo apenas dos gentios, estariam enganados; pois, uma vez que habitam entre os gentios, pertencem ao apostolado do mesmo a quem pertencem os gentios; assim como, se estrangeiros quaisquer vêm morar numa diocese, ainda que sejam de outra nação, pela residência serão contados como da própria diocese; assim também aqueles judeus, por se terem encaminhado para os gentios, eram contados entre os gentios. Paulo, digo, tal e tal, apóstolo de Deus, escreve *a todos os que estão em Roma*; e, para excluir os infiéis, acrescenta: a todos, digo, *amados de Deus*, isto é, que Deus ama e predestinou para serem seus; a esses, digo, *chamados santos* pelo amor e pela graça de Deus, isto é, chamados para serem santos: *graça a vós*, isto é, remissão de vossos pecados, *e paz*, isto é, tranquilidade de ânimo e perseverança no bem, *da parte de Deus*, que pode, *nosso Pai*, e por isso tem a vontade, *e do Senhor Jesus Cristo*, que igualmente quer e pode.

Paulo, que vai corrigir os romanos com repreensão múltipla e áspera, para que suportem com benignidade as asperezas que lhes vai dizer e para que lhe sejam benévolos, declara de antemão que dá graças a Deus pelos bens que já receberam e que, com toda solicitude, ora a Deus pelo que ainda lhes é necessário; como se dissesse: tenho muito a dizer-vos para vossa instrução, mas antes de tudo direi o que me é mais agradável e com que estou mais solícito, a saber: *dou graças a Deus*. Dar graças a Deus é atribuir tudo a Deus e nada ao homem; por isso diz: dou graças a Deus, isto é, os bens que já vejo em vós atribuo à graça de Deus, e não a vós; *a meu Deus*, que de certo modo especial é meu, *por Jesus Cristo*, a quem tenho como único mediador entre mim e Deus; vós, porém, passais por mim a Cristo, e por Cristo a Deus; e por isso dou graças por Cristo; vós, porém, deveis dar graças a Cristo por mim, e assim a Deus. Talvez pensassem uns, os judeus ou os gentios, que ele dava graças só pelos outros, isto é, que só aos outros atribuía os bens à graça de Deus; para que, por isso, um não se ensoberbecesse contra o outro, diz: *por todos vós*, romanos, sejais judeus ou gentios, dou graças, e os bens de vossa fé atribuo só a Ele. Determina por que dá graças, dizendo: dou graças a Deus *porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo*: a vossa fé não aproveita só a vós, mas é anunciada em todo o mundo; pois, ouvindo que em Roma, que é a cabeça do orbe, foi recebida a fé de Cristo, os demais a recebem, imitando a sua cabeça. Na verdade, o bem já alcançado de vossa fé atribuo à graça do bom Deus, *porque em minhas orações faço memória de vós*, isto é, rogando a Deus pelos bens que haveis de ter, a Ele tudo atribuo; pois, se os bens que vêm depois da fé se atribuem à graça de Deus, muito mais se devem dar graças a Deus pela fé, que arranca o homem somente dos pecados e o conduz à justiça. E que eu faça memória de vós, *Deus me é testemunha*; e se o chamasse a testemunhar o que é falso, julgar-me-ia réu de falsidade.

Talvez alguém dissesse: como não te importas com Deus, por isso levianamente o convocas por testemunha de coisa falsa. Contra isso diz: *a quem eu sirvo*; ora, um servo não invocaria seu senhor como testemunha de falsidade. Sirvo a Deus *em meu espírito*, isto é, por vontade, e não por coação; ou então, em espírito, isto é, sirvo a Deus não em coisas carnais, mas espirituais. Determina em que coisa serve, a saber, *no Evangelho*, isto é, no anúncio *de seu Filho*; e esse serviço era então mais grato a Deus: pregar a glória de Cristo, Filho de Deus. Por isso Deus me é testemunha de que em minhas orações faço memória de vós, isto é, faço Deus lembrar-se de vós, *sem cessar*, porque nunca, ao orar, vos omito. Poderia orar uma vez por mês, e então seria pouco não os ter omitido; por isso diz: *sempre em minhas orações*, isto é, todos os dias continuamente, tenho memória de vós, não só orando, mas também suplicando, em certos sacramentos e conjurações, instando a Deus com insistência, *se de algum modo* eu tiver, ouvido, o caminho para ir ter convosco. Tenha-o, digo, *de algum modo*, isto é, com qualquer dificuldade que isso se desse; não me importaria com ladrão nem tempestade. *Finalmente*: com isto mostra que há muito o desejava e não pudera realizá-lo. Tenha *algum dia* a viagem, isto é, em qualquer tempo, quer no inverno, quer no verão, que isso acontecesse, não me importaria. Digo ainda, em favor do espírito, que seja para realizar o que quero. E, porque muitas coisas se realizam que desagradam a Deus, acrescenta: *por vontade de Deus*; pois, se Deus não quisesse isso, antes eu rejeitaria do que desejaria o êxito dessa coisa.

Quis ir ter convosco porque *desejo ver-vos*, *a fim de comunicar-vos alguma graça*. Vós já tendes a graça da fé; mas, como para guardá-la seriam oportunas outras graças, como a graça da unidade, não determina, contudo, qual graça, porque lhes ministraria toda aquela que visse necessária. Comunicar-vos, digo, alguma graça, não secular, como seria se os conciliasse com quaisquer príncipes deste mundo, mas *graça espiritual*, isto é, graça que nutra o espírito para a vida eterna. Para que não julgassem inútil a graça da fé que haviam recebido dos discípulos de Paulo, por ele ter dito que lhes daria uma graça, diz: não digo que vos comunique a graça para vos iniciar na fé (pois recebestes uma fé sã), mas *para vos confirmar*, isto é, para confirmar a vossa fé nas coisas que devem acompanhar a fé, a saber, que tenhais unidade e que nenhum julgue o outro mais digno ou menos digno da graça de Deus.

Isto que digo: desejo confirmar-vos, isto é, desejo *consolar-me juntamente em vós*. Ao dizer consolar-se juntamente, mostra que sofreu com o erro deles; ao dizer *juntamente*, insinua que devem ser consolados pela sua doutrina e que, por ambas as razões, devem suportar com ânimo sereno qualquer repreensão áspera de Paulo, já que por ela serão consolados e Paulo sofreu pelo erro deles e está solícito em afastá-lo. Desejo, digo, consolar-me em vós *pela fé, a vossa e a minha*,

*comum*, isto é, tal que seja recíproca, isto é, que tenha a mesma reciprocidade, de modo que, assim como a minha fé tudo atribui à graça de Deus, assim também a vossa o faça. Ou então: desejo consolar-me pela minha fé, feita vossa, para que creiais que todo bem vem da graça de Deus; vossa fé, digo, feita *comum*, isto é, tal que seja recíproca, isto é, subserviente a seu modo, para que, assim como eu, o que é próprio do mestre, ensino mandando, assim vós, o que é próprio dos discípulos, aprendais obedecendo.

Eu certamente desejei ir ter convosco, mas não pude, porque fui impedido. Esses impedimentos davam-se a Paulo ora pelo Espírito Santo, ora, na maioria das vezes, pelos perigos de ladrões ou das tempestades no mar. Por que fui impedido de ir, *não quero que ignoreis, irmãos* meus na fé; pois, se examinardes com diligência a causa deste impedimento, ser-vos-á útil para a correção, quando entenderdes que fui impedido pelo pecado de vossa contenda. Isto, digo, não quero que ignoreis, porque *muitas vezes me propus ir ter convosco*, e fui impedido de ir *até agora*. Ao dizer *até agora*, mostra que foi impedido muitas vezes; como se dissesse: assim como muitas vezes me propus, assim muitas vezes fui impedido. Propus-me ir ter convosco para *colher algum fruto* em vós (como também colho nos demais), isto é, ou para que, corrigidos pelo meu ensino, frutifiqueis para melhor, ou para que eu receba o fruto da recompensa, porque trabalhei entre vós. Colha, digo, em vós, *como entre as demais nações*, isto é, para que, assim como ensinei as outras nações a atribuir tudo à graça de Deus, assim também vós, instruídos por mim, façais o mesmo.

Nem posso cessar de vos ensinar e de ensinar às outras nações, pois *sou devedor*, isto é, prego por dever, porque assim me foi imposto pelo Espírito Santo, *a gregos e a bárbaros*. Exceto os gregos, chama bárbaras todas as nações; mas os gregos sempre procuraram a sabedoria acima dos demais, e foi também na Grécia que Paulo primeiro constituiu Igrejas de gentios. E a esses, gregos ou bárbaros, sou devedor, *a sábios e a ignorantes*; porque entre os gregos há sábios e ignorantes, e assim também entre os bárbaros. E assim como devo às demais nações, assim sou devedor de evangelizar também a vós, judeus e gentios convertidos, *que estais em Roma*; isto é, evangelizar *estou pronto*, isto é, preparado, *quanto está em mim*, isto é, no que depende de mim. Vede que não me encontreis ouvintes despreparados.

Realmente estou pronto, porque *não me envergonho do Evangelho*. De três modos alguém se envergonha do Evangelho: ou quando se envergonha tolamente de pregar as misérias de Cristo, a cruz, a morte, etc.; ou quando, vivendo corruptamente, teme pregar a justiça, para não ser repreendido por ensinar de um modo e viver de outro; ou quando falta o poder dos milagres para confirmar a pregação. Mas Paulo não se envergonhava de nenhum desses modos. Portanto, não me envergonho do Evangelho: pois no Evangelho tenho à mão *o poder de Deus*, com o qual perdoo os pecados e opero milagres; Evangelho que digo valer *para a salvação de todo aquele que crê*, isto é, para se ter a salvação pela fé com que se creu: de todo aquele que crê, digo, a saber, *do judeu primeiro*, que primeiro creu no tempo (pois foi na Judeia que começou a Igreja de Cristo); crê também *do grego*, isto é, dos gentios: porque os gregos, pela ciência, eram a cabeça das nações, por isso por qualquer grego entende quaisquer gentios. Ou então: o Evangelho é salvação para o judeu e o grego que creem, *primeiro*, isto é, sobretudo, porque dará salvação suficiente a ambos.

Verdadeiramente pelo Evangelho se obtém a fé, e pela fé a salvação eterna; pois nesse Evangelho se revela, tanto no conhecimento quanto no hábito, *pela fé*, isto é, pela fé recebida também através do Evangelho, *a justiça*, isto é, a prática das boas obras, pela qual justiça se obtém a salvação eterna. Porque, se pelo Evangelho a fé, pela fé a justiça e pela justiça a salvação eterna, então pelo Evangelho a salvação; acrescenta algo mais, que vale para o caso, assim: *revela-se de fé em fé*. Não diz isso para entender fés diversas, mas para ensinar que há muitos graus na fé. Os romanos tinham fé sã acerca de Cristo, mas erravam nisto: que não atribuíam tudo à graça de Deus; e Paulo pretende colocá-los neste grau da fé. Da fé se tem a justiça, e daí a salvação, *como está escrito* no profeta Habacuc: *O justo, porém, vive da fé* (cap. 2,4). Confirma o Evangelho pelo Profeta; pois diz o Profeta: Da fé, que se obtém pelo Evangelho, torna-se o homem justo ao operar o bem, e pela justiça vive na salvação eterna.

Até aqui lisonjeou os romanos, dizendo-se solícito com a sua salvação, para que recebam com ânimo sereno as correções do Apóstolo; aqui, porém, ataca primeiro os gentios, que entende poderem ser mais facilmente corrigidos, para depois se demorar mais na refutação dos judeus. Contudo, começa assim: verdadeiramente da fé a justiça, e da justiça a salvação; pois, ao contrário, da impiedade, isto é, da não fé ou da idolatria, segue-se a injustiça, isto é, as obras más; e da injustiça segue-se *a ira de Deus*, isto é, a condenação eterna, contrária à salvação. Diz equivalentemente: verdadeiramente da fé se revela a justiça, e assim a salvação; pois *sobre toda impiedade*: diz *sobre*, em oposição à impiedade; e, quando diz impiedade, é mais do que se dissesse todos os ímpios; pois, se dissesse ímpios, indicaria certamente todos os ímpios, mas não que deveriam ser punidos por cada impiedade; ao dizer, porém, *toda impiedade*, insinua que todos os ímpios devem ser punidos por cada impiedade; *sobre toda impiedade*, pois, da infidelidade procede a *injustiça*, isto é, o pensamento ou a obra perversos, e *sobre toda injustiça se revela*, isto é, se reconhece, *a ira de Deus*, que virá *do céu* no dia do juízo; então, com efeito, será revelada àqueles que até aquele dia não tiverem crido que Cristo é o juiz de todos. Ou então: a ira de Deus se revela do céu, porque o próprio elemento, em seu ornato e feitura, mostra que se deve temer a ira daquele que formou semelhante criatura. Revela-se, digo, a ira *sobre a injustiça dos homens*; dos homens, digo, *que retêm a verdade* de Deus, isto é, o verdadeiro conhecimento de Deus, que por natureza têm ou podem ter, e o retêm, isto é, retraem, a fim de que não ascenda, como a natureza exigiria, a conhecer algo mais de Deus; *retêm-na* certamente *na injustiça*, isto é, pelos males que praticam.

Verdadeiramente os ímpios retêm assim a verdade de Deus; porque *o que se pode conhecer de Deus*, isto é, o que de Deus pode ser conhecido, isto é *manifesto*, se não em ato, ao menos *entre eles*, isto é, em suas razões e na potência de seu intelecto. Realmente o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre todos eles em potência; pois *Deus lho manifestou* em ato, isto é, a alguns deles, o que se pode conhecer de Deus; e, se a alguns foi revelado em ato, é certo que a todos é manifesto em potência; com efeito, Platão e alguns filósofos conheceram naturalmente que há um só Criador de todas as coisas, não, porém, sem o auxílio da graça de Deus. Prova que Deus revelou isto em ato a alguns, e acrescenta o modo da revelação, dizendo: verdadeiramente Deus o revelou a alguns; pois *as perfeições invisíveis* de sua essência divina são vistas *desde a criação do mundo*, não obscuramente, mas com clareza, *compreendidas por meio das coisas que foram feitas*. Pelas perfeições invisíveis significa o Pai, porque não tem princípio de ninguém, ao passo que o Filho e o Espírito Santo o têm do Pai; pôs porém o número plural porque a fraqueza do intelecto humano não consegue considerar em Deus senão por intervalos de tempo, que nele são naturais e simultâneos, devendo ser considerados num só instante (se isso é possível). *Bem como o seu eterno poder*, isto é, de sua essência divina, isto é, o Filho, que se diz virtude e sabedoria do Pai, sempre eterno com o Pai; *e a sua divindade*, isto é, a bondade; por isso também chamamos divinos os homens bons; bondade, isto é, o amor de sua essência divina, a saber, o Espírito Santo, que não é outra coisa senão a bondade e o amor do Pai e do Filho: esta, digo, virtude e divindade *são vistas*, compreendidas *por meio das coisas que foram feitas*; pois o homem não pode compreender as coisas invisíveis senão por meio do que vê; mas, quando olha algum rei de grande império, entende por ele, de certo modo, que é muito maior o Rei que o criou; e, quando vê a virtude ou a sabedoria em alguém, pensa que muito mais está a virtude e a sabedoria naquele que a deu a ele; assim também, pela bondade da criatura, pode conhecer-se a bondade ou o amor de Deus. Ora, ponderar naturalmente em Deus essa virtude e divindade teria bastado, ainda que ignorassem aqueles nomes, isto é, Filho e Espírito Santo; pois a virtude e a divindade, ou amor de Deus, são o mesmo que o Filho e o Espírito Santo. A virtude e a divindade de Deus são compreendidas pelas coisas que foram feitas, *de modo que os homens são inescusáveis* por isto: porque, tendo conhecido a Deus, se não em ato, ao menos pela potência de seu intelecto natural, *não o glorificaram como Deus*, cultuando-o e honrando-o como Deus, *nem lhe renderam graças*, isto é, não atribuíram à graça de Deus, mas a si mesmos, os bens de seu pensamento. Não renderam graças a Deus, mas, ensoberbecendo-se em seus pensamentos, *desvaneceram-se*, à semelhança da fumaça, que quanto mais sobe, tanto mais se reduz a nada. E, porque ao se ensoberbecerem se desvaneceram, por isso o *coração*, isto é, a inteligência deles, antes sutil, *obscureceu-se* por causa da soberba, a ponto de tornar-se *insensato*. Desvaneceram-se, com efeito; pois *dizendo-se sábios*, isto é, que a sabedoria era deles mesmos, sem dom de Deus; e na verdade o seu coração se obscureceu; pois, dizendo isto e crendo que assim era, *tornaram-se estultos*; e assim da soberba caíram na ignorância, da ignorância na estultícia, de modo que *trocaram a glória do Deus incorruptível*, isto é, imutável, fora do qual toda criatura é mutável e por isso corruptível; trocaram, pois, a glória desse Deus, não por um homem verdadeiro, mas por *uma semelhança da imagem do homem corruptível*. E, para fabricarem para si um simulacro expresso, trocaram-na *por uma semelhança de imagem*, isto é, por uma imagem semelhante, cultuando a criatura em lugar do Criador. Primeiro *por uma semelhança de homem*, depois *por uma semelhança de aves*, em seguida *por uma semelhança de quadrúpedes*, e depois *por uma semelhança de serpentes*, trocaram os gentios o culto e a religião do Criador, como foi dito.

Porque se ensoberbeceram no intelecto, foram privados do intelecto; porque rejeitaram o Criador, foram punidos no culto da criatura; e porque, como a natureza ensinava, não quiseram glorificar a Deus, mas, contra o que a natureza repugnava, cultuaram criaturas, por isso foram precipitados em pecados que são contra a natureza, como segue: *por isso*, isto é, porque, contra a natureza, cultuaram criaturas, por isso, retirando a graça, *Deus os entregou aos desejos de seus corações*, de modo que os cobiçassem no ânimo; em seguida, *à impureza*, isto é, à prática da impureza desejada; a isto, digo, assim os entregou, *de modo que desonraram*, isto é, contaminaram, *com insultos*, isto é, com aquelas poluções que, se lhes fossem infligidas à força, teriam por grande insulto, *os seus próprios corpos*; desonraram, digo, *entre si*, isto é, ou um ao outro, ou em si mesmos. Entenderam que se devia fazer isto não por Deus, eles que antes se ensoberbeciam do intelecto.

O que disse acima, *trocaram a glória*, repete-o para enumerar os modos da troca, dizendo: os gentios *trocaram a verdade* de Deus, isto é, o culto que a verdade natural afirmava dever ser prestado a Deus, *pela mentira*, isto é, pelas criaturas que mentirosamente imaginavam serem deuses; e, depois de as imaginarem, *adoraram-nas*, isto é, veneraram-nas; depois ainda *serviram-nas*, oferecendo e imolando à criatura. Por estes três modos trocaram a glória de Deus: primeiro, mentirosamente julgaram que o ídolo era deus; depois, adorando-o; em terceiro lugar, imolando-lhe vítimas. Serviram certamente à criatura, julgando que isso era preferível a servir ao Criador; o qual Criador nada perde com o afastamento deles; pois *é bendito pelos séculos*, quem quer que adorem. *Amém*, isto é, assim é, sem dúvida.

O que disse acima de novo, *Deus os entregou aos desejos*, repete aqui o mesmo, para comparar a pena do pecado com o próprio pecado; porque, assim como, negando ao Criador o culto que a natureza exigia, se voltaram para um culto não natural das criaturas, assim também eles foram precipitados em pecados não naturais. Enumera também o próprio pecado, como se difundiu em ambos os sexos, dizendo: *por isso*, porque serviram à criatura e não ao Criador, *Deus os entregou*, privados de sua graça, *a paixões ignominiosas*, isto é, a pecados ignominiosos, que, embora a carne os desejasse mal, a própria natureza sofria violência, ao agir nela não naturalmente. Enumera as paixões ignominiosas, dizendo: foram entregues certamente a ignomínias; *pois as mulheres* desses gentios *mudaram o uso natural* do homem *em outro, que é contra a natureza*, para que uma abusasse da outra; porque haviam negado ao Criador o culto natural. *Semelhantemente também os homens*, como as mulheres, *deixando o uso natural da mulher, inflamaram-se em seus desejos uns pelos outros*, de modo que, abrasados pelo fogo da libido, desejaram-se mutuamente; e, como o ânimo deles havia desejado, cumprindo-o em obra, *homens com homens cometendo torpeza*; e assim *recebendo o pagamento de seu erro*, isto é, a pena daquele pecado; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus: recebendo-o, não em perda de bens ou de filhos, mas *em si mesmos*, porque os próprios foram punidos com essa pena. Esse pagamento *convinha*, isto é, era conveniente que o recebessem: já que, desprezando o que a natureza os advertia a não fazer, desprezaram o Criador e adoraram a criatura, foi justo que, por esse pecado não natural, fossem precipitados em pecado não natural e em pena do pecado. E, assim como, por terem pecado no culto não natural da criatura, foram punidos por pecados não naturais, assim também, *como não julgaram conveniente ter a Deus em seu conhecimento*, isto é, porque não tiveram a Deus em seu conhecimento, a quem a própria natureza provava que se devia justamente conhecer, isto é, porque pecaram, por soberba, abusando do conhecimento de Deus que lhes fora naturalmente concedido; por isso, perdido oportunamente o conhecimento anterior, *Deus os entregou a um sentimento depravado*, porque não quiseram usar do sentimento reto; entregou-os, digo, *para fazerem o que não convém*, isto é, o que a própria natureza compreenderia com bastante clareza não convir; primeiro, porque abusaram do conhecimento concedido, julgando que esse bem do intelecto natural vinha deles e não de Deus, foram privados do intelecto concedido e, abandonando o Criador, cultuaram, contra a natureza, as criaturas; razão pela qual foram novamente punidos por pecados não naturais.

Mas, como ainda assim, depois dos pecados não naturais, não se arrependeram, foram precipitados em outros males, como segue: o Senhor os entregou a um sentimento depravado; a esses, digo, *cheios de toda iniquidade*, porque tiveram todas as iniquidades, e cada uma delas em plenitude. Quando disse *toda iniquidade*, compreendeu tudo o que segue; mas, para os atemorizar mais, enumera cada gênero de iniquidade, dizendo: realmente toda iniquidade; porque *cheios de malícia*; agiam, com efeito, maliciosamente contra o próximo, tirando-lhe os bens ou afligindo-o com açoites; *cheios também de fornicação* (chama fornicação tudo o que se faz fora da legítima esposa, a qual, como se diz, é dada tanto para gerar prole quanto para evitar a fornicação); *cheios também de avareza*, retendo ilicitamente o que é seu ou cobiçando o alheio; e *cheios de maldade*: a maldade (*nequitia*) se diz ou de *nequeo, nequis* ("não posso"), ou do nome *nequam* ("mau"), porque não podem conter-se do ilícito; e quem não pode conter-se não deve ser considerado homem; *cheios também de inveja*, porque, embora não cobicem para si os bens alheios, gostariam, no entanto, que os outros não os tivessem; *cheios também de homicídios*, que se cometem não só pelas mãos, mas por deliberação e consentimento; *cheios de contenda*, porque entre si litigam com gritos e opróbrios; *cheios de dolo*, porque fazem uma coisa e pensam outra; *cheios de malignidade*, porque, contrários à benignidade, estão sempre na amargura do ânimo. Os quais são também *murmuradores*, que transferem ocultamente os males de um próximo a outro; também *detratores*, tirando os bens que existem e imputando os males que não existem. Para que estas duas coisas não parecessem fáceis, porque não julgariam ser condenados só por palavras, agrava essas duas, dizendo: murmuradores e detratores, *odiosos a Deus*. Também os chamo *insolentes*, isto é, que infligem uns aos outros insultos torpes; *soberbos*, isto é, que se põem acima dos outros ou desejam pôr-se; *arrogantes*, que não suportam nem iguais nem superiores, como César, que não quis suportar Pompeu como maior, nem Pompeu a César como igual; *inventores de males*, seja de costumes maus, seja de tormentos; *desobedientes aos pais* carnais, o que a natureza ensina até nos filhotes das aves; *insensatos*, isto é, sem discernimento para o bem e para o mal; *desordenados*, tanto nas vestes quanto pela imodéstia dos membros; pois por estas coisas que vemos por fora julgamos as interiores; *sem afeição*, isto é, sem aplicação do ânimo a algo digno; *sem aliança*, isto é, sem vínculo de ânimo; pois, porque as alianças valem para alimentar a fé, a fim de que sempre se multiplicassem, foram proibidos os matrimônios dentro da mesma parentela, que já está bastante aliada pelo vínculo da consanguinidade. Os quais são também *sem misericórdia*, porque, se virem alguns miseráveis, não têm para com eles entranhas de misericórdia.

Em todas estas coisas os gentios foram punidos pelos pecados acima mencionados; mas, como ainda assim não se arrependeram, foram precipitados em outro mal: cegos, prometeram-se a impunidade dos pecados; por isso diz: os gentios, cegos, *não compreenderam que os que praticam tais coisas*, como foi dito, *são dignos de morte* eterna. Dessa maneira não compreenderam, tendo antes conhecido naturalmente a justiça de Deus; por cujo conhecimento se diz que foram privados, porque dele se ensoberbeceram. Dignos de morte são certamente *não só os que praticam* as coisas ditas, *mas também os que consentem com os que as praticam*. Consentir, segundo Ambrósio, é, se alguém pode repreender e se cala, ou se, ouvindo, adula; se, portanto, os que fazem os males ditos e os que consentem com eles são dignos de condenação, nenhum dos gentios escapará desta morte.

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# Capítulo 2

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> Por isso és inescusável, ó homem, quem quer que sejas que julgas; pois, naquilo em que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; com efeito, praticas as mesmas coisas que julgas. Sabemos, porém, que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas. E tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, e as fazes, pensas que escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas as riquezas de sua bondade, de sua paciência e de sua longanimidade? Ignoras que a benignidade de Deus te conduz à penitência? Mas, segundo a tua dureza e o teu coração impenitente, entesouras para ti a ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: aos que, pela perseverança no bem operar, buscam a glória, a honra e a incorrupção, a vida eterna; mas aos que são contenciosos e não se submetem à verdade, mas obedecem à iniquidade, ira e indignação. Tribulação e angústia sobre toda alma de homem que pratica o mal, do judeu primeiro e também do grego; glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego; pois em Deus não há acepção de pessoas. Com efeito, todos os que pecaram sem lei, sem lei perecerão; e todos os que pecaram na lei, pela lei serão julgados; pois não são justos diante de Deus os que ouvem a lei, mas os que praticam a lei serão justificados. Quando, pois, os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas da lei, esses, não tendo lei, são lei para si mesmos; eles mostram a obra da lei escrita em seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência, e os pensamentos que entre si ora os acusam, ora também os defendem, no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, segundo o meu Evangelho, por Jesus Cristo. Mas tu, que te chamas judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus, e conheces a sua vontade, e, instruído pela lei, discernes o que é mais útil; confias que és guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas, educador dos insensatos, mestre dos pequeninos, tendo na lei a forma da ciência e da verdade. Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo; tu, que pregas que não se deve furtar, furtas; tu, que dizes que não se deve cometer adultério, cometes adultério; tu, que abominas os ídolos, praticas sacrilégio; tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei; pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado por vossa causa entre os gentios. A circuncisão, de fato, é útil, se observas a lei; mas, se és transgressor da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão. Se, pois, o incircunciso guarda as justiças da lei, não será a sua incircuncisão reputada como circuncisão? E aquele que é por natureza incircunciso, cumprindo a lei, não te julgará a ti, que, pela letra e pela circuncisão, és transgressor da lei? Pois não é judeu quem o é exteriormente, nem é circuncisão a que é exterior, na carne; mas é judeu quem o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus.

## Comentário

Até aqui desonrou bastante os gentios segundo o seu estado anterior, mostrando que não podem escusar-se pela ignorância, uma vez que tiveram naturalmente o conhecimento de Deus, do qual foram privados por causa do pecado; o que, porém, foi dito somente dos gentios, ele estende aqui a ambos, isto é, aos judeus e aos gentios, declarando inescusáveis os dois povos. Pois, se o judeu disser que foi povo peculiar de Deus, nascido da linhagem de Abraão, que teve a Lei e os Profetas, e que, sendo assim tão amado por Deus, não se deve crer que Deus permita perecer quem lhe é tão caro, ainda que tenha errado, e censurar o gentio como indigno da salvação, de quem Deus nunca se lembrou; se, ao contrário, o gentio disser que o judeu é indigno da salvação, porque, tendo conhecido a Deus pela Lei, não quis glorificá-lo como Deus, e por isso julgar que ele próprio deve ser preferido ao judeu, porque, logo que ouviu falar de Deus, imediatamente creu, e que não é culpado do que pecou por ignorância: contra ambos age o Apóstolo, dizendo que o gentio é inescusável pela ignorância, porque teve conhecimento natural; e que o judeu se gloria em vão da Lei ou da linhagem, uma vez que sempre foi pior justamente onde deveria ter melhorado, prevaricando contra a Lei, degenerando na fé de Abraão, e coisas semelhantes. Como se dissesse: *por isso*, isto é, porque os que fazem e os que consentem são dignos de morte, por isso tu, *ó homem*, que vives e entendes de comum acordo, todo judeu e gentio, *és inescusável*; tu, digo, *que julgas*, isto é, que condenas a outro; pois, se tu, judeu, dizes que deves ser preferido ao gentio porque foste amado de Deus, o qual dizes nunca se ter lembrado do gentio; ou se tu, gentio, te preferes ao judeu, escusado pela ignorância, porque o judeu desonrou a Deus que lhe era conhecido pela Lei, ambos sois inescusáveis: tanto o gentio, porque teve conhecimento natural, quanto o judeu, a quem a Lei e o intelecto natural ensinaram acerca de Deus. Na verdade ambos sois inescusáveis, porque *naquilo em que julgas a outro*, seja o judeu ao gentio, seja o gentio ao judeu, *a ti mesmo te condenas*; pois, se a lei dada condena o judeu porque não a guardou, a lei natural não guardada condena igualmente o gentio. Verdadeiramente te condenas a ti mesmo; *pois praticas as mesmas coisas que julgas*, isto é, que condenas no outro: se tu, judeu, julgas que o gentio deve ser condenado pelas coisas ditas, e julgas que a ti, que praticas os mesmos crimes, se deve poupar por causa da Lei e da linhagem, em vão o pensas; ao contrário, se tu, gentio, condenas o judeu porque teve a Lei e não a guardou, nisso condenas a ti mesmo, transgressor da lei natural.

Na verdade, naquilo em que julgas a outro, condenas a ti mesmo; pois *nós*, que somos de grande autoridade, *sabemos* que *o juízo de Deus contra os que praticam tais coisas*, como as acima ditas, não é segundo a ignorância que tu, gentio, em vão alegas, nem segundo a linhagem de Abraão, de que tu, judeu, te glorias, mas *segundo a verdade*, isto é, conforme os atos de cada um, do judeu e do gentio; *tu, porém, pensas*, isto é, falsamente julgas isto, *ó homem*, seja judeu, seja gentio, *que julgas os que praticam tais coisas* como as ditas, e tu mesmo as fazes; isto, digo, pensas: *que escaparás ao juízo de Deus*, isto é, por aquilo mesmo por que julgas que o outro deve ser condenado, crês que escaparás impune. Primeiro, porque julgam que o juízo de Deus se faz segundo a dignidade ou indignidade das pessoas, e não segundo as obras, caem neste mal, de prometerem a si mesmos a impunidade; e, de novo, pelo mal da impunidade que se prometem, precipitam-se em outro, a saber, abusam da bondade e da paciência de Deus. O que diz aqui, que escaparás ao juízo de Deus, já o havia significado acima, onde diz: «Não compreenderam que os que praticam tais coisas são dignos de morte» (cap. 1,32), em ambos os lugares tratando da impunidade que se prometem; mas ali apenas dos gentios, aqui, porém, entende-se de ambos.

*Ou desprezas as riquezas de sua bondade*, julgando escapar ao juízo de Deus? Diz-se isto por semelhança com um poderoso que, ao oferecer comida a alguém, se esse a quem é oferecida, indignado por servir-se dela, a lançasse fora, pareceria desprezar não a comida, mas quem a dá; assim também aquele que abusa da bondade de Deus, não a usando para a correção, para a qual Deus a dá, é réu não só dos pecados passados, mas também do desprezo da majestade. Fala de *riquezas da bondade* porque Deus dá abundantemente até bens temporais aos maus, dos quais nem seriam dignos, para que, considerando a benignidade de Deus, voltem para Ele; dá também mestres que os ensinem e a inteligência pela qual saibam ser bom voltar a Deus, e muitas outras coisas. Ou desprezas as riquezas de sua bondade, *e de sua paciência*, porque te suporta não em um, mas em mil pecados, *e de sua longanimidade*, porque durante muitos tempos espera a tua correção? Desprezas, digo, ignorando que a *benignidade de Deus*, pela bondade, paciência e longanimidade, quanto está em si, *te conduz à penitência*? A benignidade de Deus, quanto está em si, chama-te à penitência, mas *segundo a tua dureza*, isto é, segundo os teus atos obstinados no mal, *e o teu coração impenitente*, porque nem te afastas da obra má nem entendes que obras mal (há, com efeito, alguns obstinados nas obras más que, no entanto, creem agir mal); tu, digo, segundo o coração impenitente, *entesouras para ti a ira*, isto é, acumulas para ti a própria condenação futura *para o dia da ira*, isto é, da condenação comum dos ímpios; *dia*, digo, *da revelação do justo juízo de Deus*, porque naquele dia os ímpios, que sempre o negaram, crerão que Cristo é o juiz de todos: então, com efeito, o verá toda carne; esse Deus *retribuirá* então *a cada um*, ao judeu e ao gentio, *segundo as suas obras*, não poupando o gentio pela ignorância, nem salvando o judeu pela Lei ou pela linhagem de Abraão.

O que disse em geral, expõe-no por partes, dizendo: *retribuirá a cada um segundo as suas obras*: *aos que* são de boa obra, isto é, que obraram bem *pela perseverança*, isto é, não abusando da paciência de Deus, mas corrigindo-se enquanto eram suportados por Deus; ou então, pela perseverança, porque suportaram com ânimo sereno quaisquer adversidades por Deus: a estes, certamente, dará *a glória*, isto é, a claridade do corpo e a iluminação da alma; e dará a *honra*, porque na presença de Cristo estarão entre os honrados, porque com os Anjos de Deus; dará também a *incorrupção*, isto é, o estado permanente na glória e na honra, que poderiam possuir por uma hora e perder. A estes, digo, com esta determinação: *que buscam a vida eterna*, isto é, se obram bem por amor da vida eterna, não buscando daí lucros temporais nem a glória do mundo. Aos que são de boa obra retribuirá assim; *mas aos que são contenciosos*, isto é, que contenciosamente se preferem uns aos outros (este vício ele reprova sobretudo, porque nisto se afadigavam, e deste procura afastá-los); a estes, digo, que contendem e *não se submetem à verdade*, quando o bem lhes é aconselhado, como os romanos que não queriam submeter-se aos discípulos de Paulo, mas *obedecem à iniquidade*, preferindo-se uns aos outros; a estes certamente haverá *ira*, isto é, condenação eterna, e *indignação*, tal ira que seja indignação: os ímpios, com efeito, postos no fogo, indignar-se-ão gravemente contra si mesmos por terem obrado mal.

E enquanto esse juízo tarda, *sobre toda alma de homem que pratica o mal*, digo, *do judeu primeiro*, isto é, sobretudo, que pratica o mal, porque é réu tanto da lei natural quanto da lei dada, *e do grego*, isto é, do gentio, que só é arguido pela lei natural; sobre a alma de quem pratica o mal, indistintamente judeu e grego, haverá *tribulação*, isto é, condenação, *e angústia*; é isto o que disse, indignação, porque trata do mal que ocorreria tanto depois do juízo quanto antes. Do bem, porém, não diz o que lhe sucederá antes, mas depois do juízo, enquanto não se chega ao juízo: ao que pratica o mal haverá tribulação; *a todo aquele que pratica o bem*, ao judeu *primeiro*, segundo o tempo, que obra bem (pois na Judeia teve princípio a Igreja de Cristo), *e ao grego*, isto é, ao gentio, que obra o bem posteriormente no tempo, haverá *glória*, isto é, aquela claridade, *e honra*, porque estará entre os honrados, *e paz*, isto é, na glória e na honra, tranquilidade duradoura. Na verdade, ao judeu e ao gentio indistintamente se dará a glória, contanto que tenham obrado bem; pois *em Deus não há acepção de pessoas*, de modo a salvar o judeu que obra mal porque teve a Lei, ou a reprovar o gentio de bom mérito porque não foi da carne de Abraão, cuja fé é melhor imitar do que dele tirar a linha da linhagem, pois muitos da carne de Abraão passaram para os gentios, e muitos dos gentios, imitando a fé de Abraão, se fizeram dignos das promessas de Abraão e foram reputados entre os judeus, como os prosélitos.

Prova que Deus não faz acepção da pessoa do judeu ou do gentio, porque julgará ambos; e expõe o modo do juízo futuro para ambos, dizendo: na verdade em Deus não há acepção de pessoas, porque julgará a todos, tanto os que estão sem lei quanto os que estão na lei: *todos os que pecaram sem lei*, isto é, sem terem lei escrita, *sem lei perecerão*, isto é, serão condenados, não por prevaricação da lei escrita, mas somente da natural: isto foi dito dos gentios. *E todos os que pecaram na lei*, isto é, tendo lei escrita, como os judeus, *pela lei serão julgados*, isto é, serão condenados pela prevaricação da lei dada, acrescida aos seus pecados.

Objetaria o judeu que, embora tenha transgredido a lei, não é condenado, mas Deus o poupará. Contra isso Paulo: na verdade os que têm a lei serão julgados pelo pecado, porque *não são justos diante de Deus*, ainda que sejam reverenciados entre os homens, *os que ouvem a lei*, isto é, os que apenas ouviram a lei e não a praticaram, como os judeus; *mas os que praticam a lei*, quer a tenham ouvido, quer apenas a tenham praticado, *serão justificados*, sejam gentios, sejam judeus; apenas cumpriram a obra da lei.

O versículo que se segue trata somente dos gentios, provando que se salvam pela lei natural, fazendo as mesmas coisas que são da lei escrita, e que se condenam se não as fizerem. Este versículo trata de ambas as coisas: da salvação dos gentios pela obra da lei e da condenação dos mesmos se não tiverem cumprido a lei; como se objetasse a Paulo: dizes que quaisquer que forem praticantes da lei serão salvos; mas os gentios não devem salvar-se, porque, ainda que façam a obra da lei, fazem-na indistintamente, não conduzidos pela razão, mas por acaso, como os que não foram instruídos por Escritura alguma. Contra isto Paulo: na verdade os gentios, se forem praticantes da lei, serão justificados e, ao contrário, se obrarem o mal, serão condenados com ira e indignação; e com razão devem salvar-se pelo bem e ser punidos pelo mal, porque *eles são lei para si mesmos*, isto é, têm em si mesmos a lei natural; eles, digo, *não tendo lei* dessa espécie, isto é, escrita, como os judeus. E na verdade eles são lei para si mesmos, pois acontece que *os gentios, que não têm lei escrita*, isto é, os gentios, *fazem naturalmente as coisas da lei*, isto é, o que a lei escrita prescreve, seguindo a lei natural. E não fazem indistintamente as coisas da lei; porque *mostram*, por meio da operação, que *a obra da lei está escrita em seus corações*, deixando os males, aderindo aos bens; pois esta é a obra da lei: apartar-se do mal e fazer o bem.

E se não credes que os gentios se salvam pela lei natural, isso em nada impede a salvação deles; porque *no dia em que Deus julgar*, aparecerá que a obra da lei estava escrita nos seus corações: então, naquele dia, *a consciência deles*, que então se tornará patente a todos (ali, com efeito, as obras de cada um serão manifestas a todos), *dar-lhes-á testemunho* dos bens ou dos males que fizeram. Terão então muitas testemunhas, pois a sua consciência não será ocultada a ninguém. E, como acerca das obras, assim a consciência deles *lhes dará testemunho* dos pensamentos, porque, como as obras, assim também os pensamentos serão justificados; dos pensamentos, digo, *que os acusam* se forem maus, *ou também os defendem* se forem bons; e isto *entre si*, porque os pensamentos que forem maus acusarão os bons, e *reciprocamente*, porque, ao contrário, os bons impugnarão os maus. Esta luta se dará naqueles cujos bens ou males são incertos; mas naqueles em que os bens são certos, sem mistura de males, como nos santos, e naqueles em que os males são certos, sem alívio de bens, como nos muito maus, neles não haverá esta luta de acusação ou defesa, mas salvação certa aos muito bons e condenação indubitável aos muito maus. Este testemunho das obras e dos pensamentos dará a eles a sua consciência naquele dia em que Deus julgar *os segredos dos homens*, isto é, as coisas incertas deles, boas ou más; julgará certamente *por Jesus Cristo*, que foi constituído juiz de todos, *segundo o meu Evangelho*, isto é, segundo o que eu anuncio, porque Deus julgará todas as coisas por meio de Cristo.

Provou que o gentio pode salvar-se naturalmente praticando a obra da lei escrita; agora começa a provar que nada aproveita ao judeu ser chamado judeu, ele que teve a Lei e a circuncisão, se não cumprir a obra da Lei e da circuncisão, dizendo: o gentio teve a lei natural, tu, porém, judeu, tiveste a lei natural e a escrita (deve-se considerar que o Apóstolo trata do judeu e dos gentios segundo o estado anterior); tu, digo, *te chamas judeu*, isto é, tens este cognome de dignidade, que és chamado judeu (antes de Judas Macabeu, só os da tribo de Judá eram chamados judeus, mas todos eram chamados Israel; a partir de Judas Macabeu, por causa de sua probidade, todos passaram a ser chamados judeus); concedo, diz Paulo, que te chamas judeu, porque *repousas na lei*; as outras nações, com efeito, estão no erro, sem documentos de vida, mas tu tens repouso na ciência da lei; *e te glorias em Deus*, porque só em Israel se diz que Deus é conhecido (Sl 75,2), as outras nações estão como sem Deus; por isso, jactando-te, te glorias. *Conheces a sua vontade*, isto é, de Deus, o que quer que se faça, o que quer que não se faça; e tu, *instruído pela lei, discernes o que é mais útil*, isto é, sabes discernir, entre as coisas úteis da lei, as mais úteis. *Confias também que és guia dos cegos* gentios; pois, se alguns dos gentios quiserem passar ao judaísmo, ensinas-lhes a observar o sábado e as demais coisas da lei, sendo eles ainda cegos, por não saberem o que isso significa. *Confias também que és luz dos que estão nas trevas*; pois, quando eles observam o sábado, ainda ignorando o mistério do sábado, tu os iluminas ensinando-lhes o que isso significa e para que serve, e assim os tiras das trevas da ignorância. *Confias também que és educador dos insensatos* judeus; pois, se alguns são insensatos na lei, ensinas-lhes a ser sábios. Confias também que és *mestre dos pequeninos*; pois, se alguns são simples e não sabem falar da lei, ensinas-lhes a discorrer sobre a lei; e que tens *a forma da ciência*, porque, se alguém quiser considerar quão grande é a lei, saiba que é tão grande quanto a tua ciência nela; tendo também *a forma da verdade na lei*, porque conheces a ciência da lei e que são verdadeiras todas as coisas que ela ensina: podemos, com efeito, ter a ciência de Ovídio sem, contudo, saber que são verdadeiras as coisas que ali entendemos narradas.

Portanto, já que és guia dos cegos e os iluminas com a doutrina da lei, *tu que ensinas a outro, por que não te ensinas a ti mesmo?* Assim, quando deverias progredir pela lei, rejeitando a obra da lei, tornas-te convicto de ser ainda mais réu. *Tu também que pregas que não se deve furtar, por que furtas?* Furtavam os judeus, com frequência, as coisas uns dos outros; e, o que é pior, furtavam o sentido são da lei. *Tu também que dizes que não se deve cometer adultério, por que cometes adultério?* Cometiam adultério literalmente; cometiam também adultério interpretando adulterinamente a lei, depois de lhe terem furtado o sentido são. *Tu que abominas os ídolos*, isto é, que julgas que os gentios que cultuam ídolos nem devem ser chamados homens, *por que praticas sacrilégio?*, isto é, tu mesmo por que cultuas ídolos? Muitas vezes, com efeito, os judeus caíram no culto dos ídolos; praticavam sacrilégio negando a Cristo o seu culto: sacrilégio é, com efeito, negar à criatura o que naturalmente deve ao Criador, a saber, o culto a Deus. *Tu que te glorias na lei*, isto é, que te jactas de ser o único que teve a lei, *por que desonras a Deus pela transgressão da lei?* Prevaricar na lei é não fazer o que ela manda fazer e fazer o que ela proíbe; os judeus, abandonando a lei e fazendo o contrário da lei, desonravam a Deus, quanto à opinião dos homens, sem nada tirar, contudo, de sua glória.

Na verdade desonrais a Deus, quanto está em vós, porque *o nome de Deus é blasfemado por vossa causa entre os gentios*; pois, vendo os gentios que fazeis o contrário da lei, profanais a justiça de Deus, participais dos alimentos dos gentios, e coisas semelhantes, dizem e pensam que Deus assim vos instituiu e que não escolheu com muita providência tais homens para o seu culto. Isto disse Ezequiel, ainda que com outras palavras, dos judeus dispersos entre os gentios, que passavam à idolatria; por isso Paulo diz: isto que digo, que Deus é blasfemado por vossa causa entre os gentios, digo-o *como está escrito*; a Escritura, com efeito, dá testemunho nesta matéria. E porque prevaricaste na lei, por isso *a tua circuncisão tornou-se incircuncisão*, isto é, não vale mais teres sido circuncidado do que um gentio incircunciso: assim como acima afirmou que nada aproveitava ser chamado judeu e ter a lei, assim prova aqui que a circuncisão de nada vale a quem não tiver cumprido o mistério da circuncisão; aquele corte da carne significa, com efeito, que a geração carnal, que está nos pecados, deve ser cortada, e a geração espiritual deve ser daí em diante mantida.

Diria o judeu: se a circuncisão se torna incircuncisão, foi dada em vão, já que não aproveita. Contra isso Paulo: *a circuncisão, de fato, é útil, se observas a lei* da circuncisão, isto é, se, conforme a circuncisão significa, cortas de ti todos os vícios; é útil, certamente, observada a lei; mas, se és transgressor da lei da circuncisão, não cortando os vícios do coração, *a tua circuncisão tornou-se incircuncisão*, isto é, não te é mais útil do que a incircuncisão ao gentio. Chama-se circuncisão a própria limpeza da carne; incircuncisão (*præputium*), isto é, a carne que era cortada, chama-se a própria imundície, porque essa carne é como o leito da libido.

E porque a circuncisão, não observada a lei da circuncisão, se torna incircuncisão, portanto a incircuncisão, se guardar as justiças da lei da circuncisão, tornar-se-á circuncisão. Mas, para que ninguém ouse contradizer, põe sob forma de pergunta, dizendo: *se o incircunciso*, isto é, o gentio, a quem tu julgas a própria imundície, e a ti a circuncisão, isto é, a própria limpeza; se, digo, o incircunciso *guarda as justiças da lei* da circuncisão, cortando os vícios do coração, mesmo sem ter a carne cortada, *não será a sua incircuncisão reputada como circuncisão*?, isto é, não lhe aproveitará, como aproveita ao circunciso a lei da circuncisão guardada? *E aquele que é por natureza incircunciso* e *cumpre* a lei, isto é, a realiza, e isto *por natureza*, isto é, pela lei natural, *não te julgará*, isto é, não te condenará por comparação consigo? A ti, digo, que és *transgressor da lei*, observada *pela letra*, porque escolhes a observância literal e rejeitas a espiritual; és também transgressor *pela circuncisão* tida na carne e não observada no coração.

Na verdade a circuncisão torna-se incircuncisão; pois *não é judeu quem o é exteriormente*, isto é, somente de nome, nem se deve crer que esse seja judeu; *nem é circuncisão a que é exterior, na carne*, e assim somente na carne e não no coração, essa não se deve chamar circuncisão. Prova de novo que a incircuncisão (como foi dito) se tornará circuncisão, dizendo: o judeu exterior não é judeu, mas *quem o é interiormente*, isto é, na manifestação das obras, é judeu, ainda que não seja chamado por este nome; e a *circuncisão do coração*, feita *no espírito*, isto é, cumprida espiritualmente, *não na letra*, isto é, não literalmente como a carnal, esta é a circuncisão espiritual e verdadeira; *cujo louvor*, isto é, o louvor dessa circuncisão, *não vem dos homens, mas de Deus*; pois só Deus pode dar a justiça do coração; os homens, porém, podem cortar a carne e nada mais.

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# Capítulo 3

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> Que vantagem, pois, tem o judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em todos os aspectos: primeiramente, porque lhes foram confiados os oráculos de Deus. E que importa que alguns deles não tenham crido? Porventura a incredulidade deles anulará a fidelidade de Deus? De modo algum. Deus é veraz, e todo homem é mentiroso, como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e vençam quando fores julgado (Sl 50,6). Mas, se a nossa iniquidade põe em relevo a justiça de Deus, que diremos? Será Deus injusto ao infligir a ira? (Falo à maneira humana.) De modo algum. Do contrário, como Deus julgará este mundo? Pois, se a verdade de Deus abundou para a sua glória na minha mentira, por que ainda sou eu julgado como pecador? E por que não (como somos caluniados e como alguns afirmam que dizemos) faremos o mal para que venham os bens? A condenação desses é justa. Que então? Somos superiores a eles? De modo algum. Pois já acusamos que judeus e gregos estão todos debaixo do pecado, como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se desviaram, juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um só. Sepulcro aberto é a sua garganta, com suas línguas urdiam enganos, veneno de víboras está sob seus lábios; a sua boca está cheia de maldição e de amargura; seus pés são velozes para derramar sangue; ruína e infelicidade há em seus caminhos, e não conheceram o caminho da paz; não há temor de Deus diante de seus olhos (Sl 13). Sabemos, porém, que tudo o que a lei diz, o diz aos que estão sob a lei, para que toda boca seja fechada e todo o mundo se torne sujeito a Deus; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele. Pois pela lei vem o conhecimento do pecado. Mas agora, sem a lei, manifestou-se a justiça de Deus, testemunhada pela lei e pelos Profetas. A justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem nele; pois não há distinção. Todos, com efeito, pecaram e estão privados da glória de Deus. Justificados gratuitamente por sua graça, pela redenção que está em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, mediante a fé, em seu sangue, para manifestação de sua justiça, pela remissão dos pecados anteriores, na paciência de Deus, para manifestação de sua justiça no tempo presente, a fim de que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus Cristo. Onde está, pois, a tua glória? Foi excluída. Por que lei? A das obras? Não, mas pela lei da fé; porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. Porventura Deus é só dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios; porque há um só Deus, que justifica a circuncisão pela fé e a incircuncisão por meio da fé. Destruímos, pois, a lei pela fé? De modo algum; antes, confirmamos a lei.

## Comentário

Como provou acima que a incircuncisão se torna circuncisão e, ao contrário, a circuncisão se torna incircuncisão, o judeu objetaria por isso que, sob o estado do Antigo Testamento, nada mais lhe foi conferido do que ao gentio. Para refutar isto, diz Paulo, inserindo a objeção do judeu: porque eu disse que a incircuncisão é reputada como circuncisão, e vice-versa, dir-me-á, por isso: *que vantagem tem o judeu* no estado antigo, mais que o gentio? *Ou qual a utilidade da circuncisão* ao judeu, se ao gentio valia o mesmo a incircuncisão? A circuncisão pareceria feita em vão, a lei dada supérfluamente, se sem essas coisas se pôde ter o bem da lei e da circuncisão, como se mostra no gentio. Teve certamente o judeu no estado antigo muito mais conferido do que o gentio (ainda que não tenha observado); pois ser circuncidado e instruído nas demais coisas da lei foram boas preparações e certas instruções para entender a fé de Cristo; o gentio, porém, não teve instrução alguma além do intelecto natural. Não digo, contudo, que o judeu deva ser tido por mais digno que o gentio na fé de Cristo, mas certamente estava mais preparado para a fé; por isso, se não consentiu na fé, é mais condenado que o gentio; se consentiu, não superou por isso o gentio na dignidade da fé.

Perguntas o que mais foi conferido ao judeu; *muito*, certamente, *e em todos os aspectos*, tanto segundo a alma quanto segundo o corpo, e em cada coisa, no corpo e na alma, muitos bens foram feitos ao judeu, dos quais o gentio nada teve: no corpo, porque os livrou dos inimigos e lhes deu a terra da promessa, etc.; na alma, porque os instruiu pela lei e tiveram conhecimento de Deus, etc. E muitas coisas semelhantes lhes conferiu, no corpo e na alma; das quais diz Paulo: muitas coisas poderia aduzir para comprovar que mais foi conferido ao judeu do que ao gentio; mas *primeiramente*, isto é, porque isto é o principal para provar o que pretendo, porei isto: que mais foi conferido ao judeu porque lhes *foram confiados*, isto é, propostos para sua instrução, *os oráculos de Deus*, os preceitos que Deus deu na lei e nos Profetas.

Contra isto o judeu novamente: pelos oráculos dados não houve mais para o judeu que para o gentio, porque não creu nos oráculos de Deus. Na verdade, diz Paulo, houve mais pelos oráculos confiados ao judeu; *pois que importa se alguns deles*, dos judeus, *não creram* nos oráculos de Deus e por isso foram reprovados? Que impede que não tenha sido conferido mais ao judeu do que ao gentio? Nada o impede; pois, quanto dependeu de Deus, preparou-os para a fé, embora tenham permanecido incrédulos. Realmente, se alguns deles não creram, nada impede; porque Deus não deixou de cumprir o que prometera por causa da incredulidade deles: *porventura a incredulidade deles anulará a fidelidade*, isto é, o cumprimento das promessas de Deus? Nada do que Deus prometeu deixou por cumprir, e por isso nada impede que o judeu tenha tido mais, embora alguns tenham sido condenados na incredulidade. Pergunto se por causa dos incrédulos foi anulada a fidelidade de Deus; *de modo algum*; que a fidelidade de Deus possa ou se creia poder ser anulada de algum modo; porque, embora alguns deles não tenham crido, *Deus, contudo, é veraz*, isto é, cumpridor de tudo o que prometeu. Deus é certamente veraz, mas *todo homem*, quem quer que seja, judeu ou gentio, *é mentiroso*, isto é, pecador; pois Deus, ao vir para salvar, encontrou todo homem sob o pecado e, segundo os méritos, indigno da salvação; donde é manifesto que a fé e a salvação de Deus provêm igualmente da graça para judeus e gentios. Chama-se mentira todo pecado, porque toda criatura, que naturalmente deve obedecer ao seu Criador, ao transgredir o mandamento de Deus torna mentirosa a sua própria natureza, abandonando a pureza em que foi criada.

Que Deus seja veraz, afirmo-o também pelo testemunho da Escritura: digo isto *como está escrito*, acerca da veracidade de Deus, num salmo; Deus é sem dúvida veraz, pois diz Davi: *Para que sejas justificado em tuas palavras* (Sl 50,6), isto é, justificando-me, apareças verdadeiro em tuas promessas. Aquele "para que" lê-se na sequência do salmo, no qual Davi, réu de muitos crimes, como a traição ao soldado, a morte do próximo, a concupiscência ilícita e o adultério, tratava de obter o perdão de tudo isso, do qual estava certo pela promessa que lhe fora feita acerca de Cristo, feita somente àqueles que haviam de ser salvos por Cristo; por isso confia que será limpo deste crime, pois do contrário seria indigno da salvação futura. Além disso, deve-se notar que, como Davi, sem alegar mérito algum, confia ser salvo somente pela graça e se confessa pecador, ele que ninguém mais santo viveu sob a lei, ninguém pode salvar-se por mérito, mas só pela graça. *Sejas justificado* certamente *em tuas palavras*, *e vençam* os ímpios, quando fores julgado por eles como não sendo o Filho de Deus, e os venças nisto, justificando os homens como prometeste; ou então, *vençam quando fores julgado*, isto é, quando te associas a alguém como a mim; dizem, com efeito, que não devo ser salvo por causa do pecado, embora me tenhas sido prometido.

Aqui Paulo entra em algo que parece alheio ao começado; imputava-se, com efeito, a ele e aos demais Apóstolos que ensinavam ser bom pecar, porque, quanto mais numerosos fossem os pecados dos homens, tanto mais glorioso apareceria Deus perdoando todos quantos fossem; tomando daí ocasião: porque «onde abundou o delito, superabundou a graça», e semelhantes. Isto Paulo começa aqui a destruir, e com muita pertinência; pois aqui provará que toda salvação é da graça de Deus e nada do mérito do homem, dizendo que todo homem mentiroso foi achado réu; Deus, porém, justificando todo réu por graça, é veraz nas promessas; por isso aparece que *a nossa iniquidade põe em relevo a justiça de Deus*, isto é, torna Deus digno de louvor, justificando os homens dos pecados somente pela graça; e isto é verdade, porque quanto mais copiosa é a sua graça na remissão dos pecados, tanto mais, sem dúvida, é digno de louvor Deus. Mas, embora perdoe quaisquer pecados, não dá com isso motivo de pecar. A nossa iniquidade põe Deus em relevo, mas, se é assim, que Deus seja mais digno de louvor por causa da nossa iniquidade, *que diremos* a isso? Parece seguir-se daí algo estranho; por isso, que diremos? *Será Deus injusto* por *infligir a ira*, isto é, a vingança, por causa do pecado que o torna mais digno de louvor? Isto parece contrário à equidade. Isto que digo, que não é bastante justo, porque pune o pecado que o louva, digo-o *à maneira humana*, isto é, segundo o que entende carnalmente; mas de mim digo isto: *de modo algum* seja Deus injusto, por punir o pecado.

E prova-o pelo impossível, dizendo: na verdade Deus não é injusto ao infligir a ira; *do contrário*, isto é, se Deus fosse injusto, *como julgará este mundo?* Não se deve crer que aquele que foi constituído juiz de todo o mundo seja injusto: e isto é impossível. Realmente, se Deus é injusto, não julgará o mundo, porque nem a mim só; a mim, porém, não julgará pelo pecado, porque assim aumento a sua glória; *pois, se a verdade de Deus abundou na minha mentira*, isto é, por causa do meu pecado, isto é, mais abundantemente se mostra Deus, pela verdade da promessa, como quem perdoou os pecados; *abundou, para a sua glória*, isto é, de Deus, porque quanto mais perdoou, tanto mais glorioso é conhecido por sua misericórdia; se certamente o meu pecado é causa de sua glória, *por que ainda*, isto é, por que também neste mundo eu (para omitir outros) *sou julgado*, isto é, desprezado, *como pecador?* Deveria ser arguido por este pecado em que aumento a glória de Deus? *E por que não faremos o mal, para que os bens da misericórdia de Deus venham por isso em aumento, como somos caluniados por alguns que creem?* Como também afirmam de nós alguns que nós não só cremos, mas também dizemos e pregamos aos outros: *façamos o mal*, isto é, pequemos à porfia, *para que venham os bens*, isto é, para que Deus tenha o que perdoar abundantemente. *A condenação desses* que assim nos caluniam *é justa*, isto é, devem ser justamente condenados por esta blasfêmia. Se julgo que estes devem ser condenados pelo pecado de blasfêmia, é claro que não prego que seja bom pecar. Os que assim pensavam, porém, pregavam que a glória de Deus está em sua misericórdia.

Como acima se provou que todo homem, judeu e gentio, é mentiroso, portanto, ó judeu, diz-me: *que então?*, isto é, qual é a causa pela qual devamos *ser superiores a eles*, isto é, aos gentios, na salvação? *De modo algum* somos superiores a eles. Na verdade não somos superiores; *pois já acusamos*, isto é, comprovamos com causas e razões convenientes, *que judeus e gregos*, todos (não excetuo ninguém), *estão debaixo do pecado*, não só no pecado, mas tão deprimidos sob o pecado que ninguém poderia por si ressurgir, sem a graça auxiliadora.

Prova dos judeus que todos estão debaixo do pecado, dizendo: quanto ao que digo, que todos os judeus estão sob o pecado, a Escritura me dá testemunho; afirmo-o *como está escrito* num salmo: *não há justo, nem um sequer* (aquele "que" lê-se na ordem do salmo); não há, com efeito, nenhum justo, isto é, que deixe o mal e faça o bem; e isto porque *não há quem entenda*. Não entendem, porém, porque *não há quem busque a Deus*; pois, se buscassem a Deus, certamente entenderiam e, entendendo, procurariam a justiça. Ninguém entre os judeus é justo, mas *todos se desviaram*, obrando mal em si mesmos; o que não lhes bastou, mas também *se tornaram inúteis*, isto é, empenhados na depravação dos outros; os quais se desviaram a tal ponto que não há entre eles quem faça o bem. Nem digo que, excluídos muitos do bem, alguns permaneçam no bem; mas *não há entre eles quem faça o bem, nem um só*; porque nem um só que faça o bem fica entre eles. Ou então, *não há quem faça o bem* até que se venha a *um só*, isto é, a Cristo pela fé; quem, com efeito, vier a Cristo pela fé, esse certamente faz o bem. Não há neles quem faça o bem, mas *a sua garganta é um sepulcro aberto*, que, recebidos os cadáveres, exala mau cheiro e ainda está aberto para receber cadáveres: assim eles fedem dos pecados anteriores e ainda anseiam por perpetrar crimes. E o que não podem fazer abertamente, *urdiam enganos com suas línguas*, pensando uma coisa e simulando outra. E *sob os seus lábios*, isto é, no coração, que está sob os lábios, está *veneno de víboras*, incurável; porque ninguém, enquanto consentir com eles, poderá ser curado. *A boca* desses judeus *está cheia de maldição*; maldiziam, com efeito, a Cristo, dizendo que era filho de um carpinteiro, e coisas semelhantes. Também *a boca deles está cheia de amargura*; diziam palavras amargas, clamando: «Crucifica-o, crucifica-o» (Lc 23,21). E *os pés*, isto é, as afeições desses judeus, *são velozes para derramar sangue*; antes de fato derramaram, com a vontade, o sangue de Cristo. E porque são tão iníquos, por isso *em seus caminhos*, isto é, em suas obras, *há ruína*, isto é, a miserável dispersão deles pelo orbe, feita pelos romanos. Há também em suas obras *infelicidade*, isto é, a condenação das almas, que é a única que se deve chamar infelicidade. E tudo isto lhes sucedeu porque *não conheceram o caminho da paz*, isto é, a Cristo, por quem se vai à verdadeira paz; e, assim como não o conheceram pelo amor, assim também nem pelo temor: *não há temor de Deus diante de seus olhos*; porque, mesmo que tivessem por natureza o temor de Deus e se lembrassem bem de que Deus deve ser temido, não tiveram então o temor de Deus diante, mas atrás dos olhos, porque o desprezaram.

Talvez dissesse o judeu que isto foi dito do gentio. Contra isto Paulo: tu, judeu, talvez julgues que isto não foi dito de ti; mas eu e todos os santos sabemos, e à autoridade deles não se deve resistir, *sabemos* certamente *que tudo o que a lei diz*, isto é, este salmo, sem dúvida *o diz aos que estão sob a lei*, isto é, aos judeus. Dizemos que o sabemos *para que por esta palavra toda boca seja fechada*; convencido o judeu, não há quem resista, pois ninguém duvida de que o gentio está sob o pecado; e assim, convencidos todos, *todo o mundo se torne sujeito a Deus*, tanto judeus quanto gentios, isto é, confessem todos que se salvam somente pela graça de Deus. E é justo que todo o mundo esteja sujeito a Deus e ninguém à lei; *porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele*, ainda que aos olhos dos homens pareça justa; mas todo aquele que está na lei permanece ali *carne*, isto é, carnal. Na verdade ninguém será justificado pelas obras da lei; pois *pela lei vem o conhecimento do pecado*, e não a justificação dos pecados. Se alguns, como Moisés e Davi, foram justificados sob a lei, não o tiveram da lei, mas pela fé de Cristo, a quem criam e esperavam como Redentor. Assim todos os justos sob a antiga lei foram justificados não pela lei, mas por Cristo, que, crendo, esperavam que viria<sup>[1]</sup>. E porque pela lei só se tem o conhecimento do pecado, *agora*, portanto, mostrado isto, *manifestou-se, sem a lei, a justiça de Deus*, isto é, tornou-se patente que Deus justifica os que creem somente pela graça, sem lei alguma; essa partícula é ilativa; justiça de Deus *testemunhada pela lei de Moisés e pelos demais Profetas* como devendo realizar-se pela graça.

Provado que a justiça de Deus se faz sem a lei, acrescenta por que meios se faz: pela fé e pela efusão do sangue de Cristo, dizendo: a justiça de Deus não se faz pela lei, mas se faz *mediante a fé em Jesus Cristo, para todos* os que creem; todo aquele, com efeito, que crer em Cristo será justificado dos pecados: *e também sobre todos*; porque o justificado nunca pode merecer tanto que a graça de Deus, retribuindo o seu mérito, não o supere. Na verdade todos são justificados pela fé; pois *não há distinção*, de modo que este seja justificado por mérito e aquele por graça. Não há distinção porque *todos*, tanto judeus quanto gentios, *pecaram*, como foi mostrado acima; e por isso *estão privados da glória de Deus*, isto é, de serem justificados por Deus, coisa em que Deus aparece glorioso. Estavam certamente privados da glória de Deus, porque *foram justificados gratuitamente*, sem mérito deles, *por sua graça*, isto é, pela efusão do Espírito Santo, cuja graça foi dada *pela redenção* precedente, *que está em Cristo Jesus*, isto é, pelo preço dado do sangue de Cristo: *a quem* Jesus Deus Pai *propôs*, isto é, expôs publicamente ao mundo, feito homem, *como propiciação*; em Cristo, com efeito, Deus se tornou propício ao mundo *mediante a fé*, isto é, aos que têm uma fé sã acerca de Cristo: propiciação *em seu sangue*, o do próprio Cristo; porque nem a fé sem a efusão do sangue, nem o sangue sem a fé aproveitaria para a salvação. Deus certamente propôs assim Cristo *para manifestação de sua justiça*, isto é, para mostrar-se justo e veraz, *pela remissão dos pecados anteriores*, isto é, para perdoar os pecados anteriores de Abraão e dos justos, *na paciência de Deus*; pois Deus suportou pacientemente os pecados deles, quando se cometiam, até purificá-los deles no tempo da graça. Deus propôs também Cristo como propiciação *para manifestação de sua justiça*, isto é, de sua justificação, *no tempo presente*, a saber, para que neste tempo da graça ficasse bem demonstrado a todos que, não libertando do vínculo do pecado nem o intelecto natural nem a lei dada, somente Deus podia justificar. Isto, digo, seria demonstrado *a fim de que ele seja justo*, isto é, veraz no cumprimento das promessas, *e justificador* de todo aquele que *tem fé em Jesus Cristo*, dos pecados.

Já que (como se provou acima) toda justiça é pela fé e é para todos; pois o judeu não se distingue do gentio, uma vez que todos igualmente pecaram; portanto, ó judeu, *onde está a tua glória?* Não te resta mais de que te glories na lei, pois pela lei não há justificação alguma, mas toda é pela fé: por isso *foi excluída*, isto é, foi tirada, a tua glória, com que te preferias pela lei ao gentio. *Mas por que lei foi excluída* a glória da tua lei? Foi tirada por uma lei semelhante *das obras*? A lei antiga era lei das obras, porque nela era igualmente necessário operar, imolando e observando os demais ritos carnais, como em campo ou vinha. Se Deus sobrepusesse a esta lei das obras outra lei semelhante, pareceria incongruente e indiferente que, por obras, repelisse obras; por isso diz: não foi excluída a tua glória pela lei das obras, mas *pela lei da fé*, isto é, pela fé que justifica, cuja lei é o Evangelho. Na verdade a tua glória é excluída pela fé; pois só a fé justifica, sem obra alguma da lei. E a este passo acrescenta uma autoridade, dizendo: eu e os justos comigo *julgamos que o homem é justificado pela fé*, só, *sem as obras da lei*, isto é, ainda que nenhuma obra da lei tenha precedido, a fé só basta, contudo, para a justificação do homem.

Diria o judeu: concedo que se justifica pela fé, mas só os judeus. Contra isso Paulo: não se deve crer que Deus justifique pela fé só os judeus; *porventura Deus é Criador só dos judeus? Não o é também dos gentios?* Assim como é dos judeus, assim também é Criador dos gentios. *Sim, também dos gentios.* Se criou igualmente os gentios e os judeus, é certo que Deus quer salvar igualmente a ambos. Na verdade, o Deus dos judeus é o Deus dos gentios, *porque há um só Deus* de todos. Se há um só Deus, é certo que é o mesmo o Deus dos gentios e o dos judeus. Visto que é um só o Criador dos gentios e dos judeus, é certo que este mesmo é quem justificou *a circuncisão*, isto é, os judeus, *pela fé*, e não pela lei, e quem justificou *a incircuncisão*, isto é, os gentios, igualmente *por meio da fé*. Os que espreitam a letra dizem que algo mais expressivo é notado pelo que diz "pela fé" (*ex fide*) do que quando diz "por meio da fé" (*per fidem*); querem, com efeito, designar ao dizer *ex fide* que os judeus não tiveram nenhum início de justificação senão pela fé; dos gentios, porém, porque não havia dúvida alguma, não se exprimiu assim. Mas Agostinho diz que *ex fide* e *per fidem* são equivalentes, já que em outro lugar o Apóstolo diz que os judeus são justificados *per fidem* e os gentios *ex fide*.

E porque dizemos que se é justificado somente pela fé, sem as obras da lei, *destruímos, pois*, isto é, por isso, *a lei pela fé* introduzida? *De modo algum*, que a fé destrua a lei; nós certamente não a destruímos, mas antes *confirmamos*, isto é, comprovamos que a lei foi estável e válida; se, com efeito, não se seguisse a fé que justifica, a lei antiga seria certamente vã, porque não se daria nem a realidade nem a figura; mas prova-se agora que foi válida porque figurou a graça, que assim justificaria pela fé. Quer ainda comprovar, pelo exemplo de Abraão, que a lei não pode justificar e que a fé só basta para isso, pois ele, antes de ter a lei da circuncisão, foi justificado somente pela fé, dizendo:

## Notas

1. Na primeira condição do homem, o homem caiu por soberba; Deus esperou-o por muito tempo, para que, se pudesse, ressurgisse pelo intelecto natural. Depois que o homem se achou incapaz disso, disse que, se tivesse uma lei pela qual discernisse os males dos bens e, inversamente, os bens dos males, poderia assim finalmente ressurgir. Deus, porém, para mostrar o homem impotente em tudo por si mesmo, deu a lei pela qual pudesse discernir os bens dos males; e nem assim pôde libertar-se. Deus certamente já sabia bem que assim seria com o homem, mas, conforme o desejo do homem, deixou-lhe o intelecto natural e depois concedeu-lhe a lei, para que, não libertado por estas coisas concedidas, cresse que por si nada é e assim recorresse à graça de Deus, que Deus, depois do intelecto natural e da lei, que não bastavam para a justificação, convenientemente concedeu, quando já nem se podia pensar em outro gênero de salvação. (Nota do próprio Autor.)

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# Capítulo 4

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> Que diremos, pois, que alcançou Abraão, nosso pai segundo a carne? Se Abraão foi justificado pelas obras da lei, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15,6). Ora, ao que trabalha não se imputa o salário como graça, mas como dívida; ao que, porém, não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça, segundo o desígnio da graça de Deus; como também Davi proclama a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputou o pecado (Sl 31,1-2). Esta bem-aventurança, pois, permanece só na circuncisão? Ou também na incircuncisão? Pois dizemos que a fé foi imputada a Abraão como justiça; como, então, lhe foi imputada? Na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve na incircuncisão, para ser pai de todos os que creem na incircuncisão, para que também a eles seja imputada a justiça; e para ser pai da circuncisão, não só dos que são da circuncisão, mas também dos que seguem as pegadas da fé que nosso pai Abraão teve na incircuncisão. Pois não foi pela lei que se fez a promessa a Abraão ou à sua descendência, de que seria herdeiro do mundo, mas pela justiça da fé; porque, se são herdeiros os que são da lei, a fé torna-se vã, a promessa é abolida. A lei, com efeito, produz a ira. Pois onde não há lei, não há tampouco transgressão. Por isso é pela fé, para que, segundo a graça, a promessa seja firme para toda a descendência, não só para a que é da lei, mas também para a que é da fé de Abraão, que é pai de todos nós (como está escrito: Eu te constituí pai de muitas nações) (Gn 17,5), diante de Deus, em quem creu, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se fossem. Ele, contra a esperança, creu na esperança, para vir a ser pai de muitas nações, conforme lhe foi dito: Assim será a tua descendência (Gn 15,5). E não fraquejou na fé, nem considerou o seu corpo já morto, tendo quase cem anos, nem o seio morto de Sara; nem duvidou, por desconfiança, da promessa de Deus, mas fortalecido pela fé, deu glória a Deus, plenissimamente certo de que Deus é poderoso para cumprir tudo o que prometeu; por isso também lhe foi imputado como justiça. Ora, não foi escrito só por causa dele que lhe foi imputado como justiça, mas também por causa de nós, a quem será imputado, a nós que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus Cristo, nosso Senhor, que foi entregue por causa de nossos delitos e ressuscitou por causa da nossa justificação.

## Comentário

Visto que das obras da lei não há justificação alguma, mas só pela fé, *que diremos, pois, que alcançou Abraão, nosso pai*, tanto dos gentios como dos judeus, segundo a fé, *segundo a carne*, isto é, segundo a observância da lei carnal? Ou assim: que diremos que alcançou, pela circuncisão da carne, Abraão, nosso pai, isto é, dos judeus *segundo a carne*, isto é, segundo a descendência da carne, ele que é pai de todos os que creem segundo a instituição da fé? Nenhuma justificação, certamente, alcançou Abraão pelas obras da lei. O que prova por certo absurdo: na verdade Abraão não foi justificado pela lei; pois, se se cresse que foi justificado pelas obras da lei, teria glória entre os homens, mas não é glorioso diante de Deus, porque nem em sua presença foi justificado: e é impossível que alguém justificado diante de Deus seja sem glória. Ou assim: se Abraão foi justificado pela lei, tem daí glória a referir aos seus méritos, mas *não diante de Deus*, isto é, isso não deveria ser atribuído à graça de Deus; ora, derrogar a graça de Deus e, derrogando-a, ser justificado, quem é injusto, não podem coexistir.

Provou, pelo absurdo acima, que não se pode ser justificado pela lei; prova que se é justificado pela fé, pela autoridade que segue, dizendo: é impossível ser justificado pelas obras da lei, mas a fé justifica, como testemunha a Escritura; *pois que diz a Escritura?* Isto, a saber: *Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça*, isto é, pela fé com que creu em Deus, mereceu ser justificado. Diz *foi imputado* porque Deus lhe prometeu isto muitas vezes e em diversos tempos, e nenhuma vez Abraão vacilou, mas sempre creu.

O que disse de Abraão, a saber, que foi justificado pela fé e não pelas obras da lei, adapta a todos, dizendo: não só a Abraão isto sucede, isto é, não achar nenhuma justificação nas obras da lei, mas também *ao que trabalha*, isto é, que segue a lei das obras, isto é, a antiga, e não a graça, *não se imputa o salário como graça*, isto é, este procura ser remunerado não pela graça de Deus, mas *como dívida*, isto é, conforme é devido aos méritos de suas obras; *ao que, porém, não trabalha*, isto é, que não segue a lei das obras, *mas crê naquele que justifica o ímpio*, isto é, que do ímpio, se creu, faz justo, *a sua fé*, digo, a do que crê, *lhe é imputada como justiça*; porque é justificado sem mérito algum, somente pela fé, como foi mostrado acima em Abraão. Ou de outro modo: embora eu tenha dito que se é justificado somente pela fé, sem a lei, contudo *ao que trabalha*, isto é, que tem tempo de operar, não convém entregar-se ao ócio, mas, obrando bem, deve crer na graça que vem; aos que têm idade de operar não se imputa o salário, mas faz-se a retribuição, não só como graça, mas *como dívida*, isto é, devem merecer de tal modo que pelo mérito ajudem a graça; *ao que, porém, não trabalha*, isto é, que não tem tempo de operar, como as crianças que morrem logo, *mas crê naquele que* pela fé *justifica o ímpio*, *a sua fé lhe é imputada como justiça*, isto é, somente a fé basta para a sua justificação, ele a quem a tenra idade negou obras. Assim como acima provou, pelo exemplo de Abraão, que todo crente é justificado pela fé, assim aqui começa a provar, pela autoridade de Davi, que toda justificação é pela graça; pois assim como a fé é pela graça, assim a justiça se tem somente pela graça de Deus; por isso diz: a fé é imputada a todo crente como justiça; a qual justiça é *segundo o desígnio da graça de Deus*, isto é, toda justificação se faz pela graça de Deus; graça que está proposta e preparada para todo crente. A justiça se faz certamente pela graça de Deus, como diz não só eu, mas também *Davi*, que é esta a bem-aventurança *do homem*, isto é, a pureza desta vida e, no futuro, a vida eterna; *a quem Deus atribui*, isto é, aceitável a Deus; ou então, a quem Deus *atribui* gratuitamente, sem mérito, *a justiça*, isto é, a quem Deus justifica por graça, sem obras que mereçam a justificação. Isto diz Davi, dizendo assim: *Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades foram perdoadas* (Sl 31,1) (não determina por quem, mas o versículo seguinte insinua que são perdoadas pelo Senhor). Bem-aventurados são aqueles cujas iniquidades, isto é, nos quais o fomes natural do pecado foi remitido e debilitado, de modo que já não pode passar ao ato, se quiserem usar o livre-arbítrio fortalecido. Mas, porque não bastaria à salvação ser remitido o fomes do pecado se os pecados passados não fossem perdoados, acrescenta: *e cujos pecados foram cobertos*, bem-aventurados são aqueles cujos pecados atuais foram cobertos no batismo; *cobertos*, porque Deus já não os vê para punir. Bem-aventurado também *o homem a quem o Senhor não imputou o pecado* original. Aqui não parece tratar muito da graça; deve-se saber, contudo, que todo o salmo gira em torno da recomendação da graça de Deus e prova que ninguém pode ser justificado senão pela graça.

Visto que assim se lê em Davi, por esta autoridade é certo que a bem-aventurança, isto é, a justificação (como foi dito), se faz pela graça; mas, sendo assim, vejamos se *esta bem-aventurança permanece só na circuncisão*, isto é, somente nos judeus, *ou também na incircuncisão*, isto é, nos gentios, como nos judeus. Quer provar de novo, por Abraão, que foi justificado pela fé antes de ser circuncidado, que os gentios se justificam pela graça como os judeus, dizendo: por isso pergunto se esta justificação permanece só na circuncisão ou na incircuncisão, porque *dizemos que a fé foi imputada a Abraão como justiça*, isto é, que Abraão foi justificado pela fé; e, tendo sido justificado pela fé, resta dizer *como*, isto é, em que estado *lhe foi imputada a fé como justiça*: na circuncisão, ou antes de ser circuncidado, quando ainda estava na incircuncisão, isto é, na gentilidade? Pergunto em que estado, mas é claro que *não* foi justificado pela fé no tempo da circuncisão, mas *na incircuncisão*, enquanto ainda permanecia nela. Se Abraão, ainda incircunciso, foi justificado pela fé, por que os gentios incircuncisos não seriam igualmente justificados, se tiverem fé?

Objetaria de novo o judeu: se a circuncisão em nada aproveitou à justificação de Abraão, por que, depois de justificado, se circuncidou? Oportunamente, digo, para figurar na carne a verdade que tinha oculta na alma, pretendendo ensinar mais a circuncisão do coração do que a da carne; o que diz equivalentemente: *e recebeu o sinal da circuncisão*, embora Abraão tenha sido justificado na incircuncisão, depois recebeu na carne o sinal da circuncisão e da justificação já obtida, não para ser justificado pela circuncisão, mas para assim ser mostrado justo; *sinal*, digo, não aberto a todos, mas *selo*, que continha algo oculto: à semelhança da cera em que se imprime o sinete, que contém em si o que não aparece por fora. Assim a circuncisão da carne era sinal da justiça interior, o que poucos judeus consideravam com acerto. *Selo*, digo, *da justiça da fé*, isto é, da justificação obtida pela fé, fé e justiça que *está na incircuncisão*, isto é, é considerada em Abraão no tempo da incircuncisão, e convenientemente Abraão foi justificado neste estado, *para ser pai*, isto é, instituidor segundo a forma da fé, não só dos judeus, mas de *todos os que creem*; seja, digo, pai da fé de todos *na incircuncisão*, isto é, pela fé tida no tempo da incircuncisão; *para que também a eles seja imputada*, a todos os que creem, a sua fé como justiça, assim como a ele. E como Abraão é pai da fé, assim *seja pai da circuncisão*, isto é, instituidor da circuncisão, isto é, da justificação que se segue da fé; seja pai, digo, não só dos que são da circuncisão da carne, isto é, dos judeus, mas também *dos que seguem as pegadas da fé de Abraão*, obrando bem pelo seu exemplo mediante a fé, fé que foi tida *no tempo da incircuncisão de nosso pai Abraão*.

Na verdade Abraão será pai de todos os que creem, não pela lei, mas pela fé; pois a promessa desta coisa, a saber, de que seria *herdeiro do mundo*, o que é o mesmo que ser pai de todas as nações, esta promessa, digo, não foi feita *pela lei*, isto é, pelo mérito da lei, mas pelo mérito da fé. Se não foi prometida pela lei, também não deve cumprir-se pela lei; o que diz assim: Deus prometeu a Abraão ou à sua descendência, isto é, a Cristo, que seria herdeiro do mundo, quando se disse: «Dar-te-ei as nações por herança, etc.» (Sl 2,8). Isto, digo, não prometeu pela lei, mas *pela justiça da fé*, isto é, a justiça que se segue da fé; fé e justiça da fé que devem ter todos os que querem ser contados na herança de Cristo: Abraão teve em si a fé e a justiça, que seus filhos devem imitar.

Na verdade a promessa não se faz pela lei; porque, *se são herdeiros* só os que são da lei, isto é, os judeus, da promessa de Abraão, então a fé de Cristo *se torna vã*, isto é, é vazia, e em vão a recebestes, ó judeus, se a lei vos bastava para serdes herdeiros: o que vós mesmos julgais o maior absurdo, que a fé de Cristo seja em vão. E não é só isso, mas também, se somente os judeus são herdeiros, assim *é abolida*, isto é, anulada, *a promessa*, e é falso o que foi dito: «Em tua descendência serão abençoadas todas as nações» (Gn 22,18), se esta bênção se faz somente nos judeus. Na verdade os que são só da lei não merecem a herança, pois *a lei produz a ira* e merece apenas a ira; porque, se alguns sob a lei obraram bem, foi pela fé, e não pela lei. Na verdade a lei produz a ira; pois produz a transgressão, e verdadeiramente a transgressão; pois *onde não há lei, não há transgressão*, e onde quer que haja transgressão, aí há lei.

Pelas razões ditas, os que são da lei não serão herdeiros; mas os que são da fé serão herdeiros, *para que*, segundo a graça, *a promessa* feita e que se há de cumprir *seja firme para toda a descendência*, isto é, para todo aquele que imita Abraão pela fé, *não só para a que é da lei*, isto é, o judeu, *mas também para toda a que é da fé de Abraão*, isto é, que segue Abraão pela fé; *que é pai de todos nós*, tanto gentios quanto judeus, segundo a forma da fé e da justiça. É certamente pai de todos, *como está escrito* no Gênesis: *Eu te constituí pai de muitas nações* (cap. 17,5). Aquele "porque" refere-se à ordem do texto de que foi tomado. Isto, digo, está escrito: eu te destinei, Abraão, a ser, segundo a instituição da fé, pai de muitas nações; a ti, digo, feito justo pela justiça *diante de Deus*, isto é, no beneplácito de Deus, em quem creste. Daí seguem as palavras de Paulo: Deus, que faz viver os mortos para o pecado, justificados pela fé; e não só vivifica, mas também, pela graça, *chama as coisas que não são*, isto é, os gentios, que por não terem tido a lei parecem não ser nada, *como se fossem*, isto é, como chama os judeus, que se gloriam de ser eles somente por causa da lei.

Provou acima, por Abraão, que toda justificação é pela fé; mas, para que na plenitude da fé imitemos perfeitamente Abraão, determina a qualidade da fé de Abraão, a fim de que, assim como ele creu que se cumpririam por Deus todas as coisas impossíveis segundo a visão dos homens, assim também nós não duvidemos do poder de Deus, opondo-lhe a lei da natureza; por isso diz: foi dito a Abraão: Constituí-te pai de muitas nações; Abraão, *contra a esperança, creu na esperança*; poderia dizer-se contra a opinião. Esperança diz-se a expectativa certa de coisa futura; mas disse oportunamente *contra a esperança*, porque, segundo a lei da natureza, vista a sua velhice e a esterilidade da esposa, certissimamente já não esperava ter descendência; mas contra a esperança que lhe oferecia a lei da natureza, creu na esperança que, rompido o direito da natureza, a onipotência de Deus sugeria. Creu certamente isto: *para vir a ser pai de muitas nações*; do que, segundo o homem, poderia duvidar bastante, vendo-se genitor de um só filho. Creu, digo, tudo o que lhe foi dito, isto é, creu que seria pai de muitos, não só segundo a descendência da carne, mas segundo a forma da fé imitada. Isto, digo, lhe foi dito: *assim será a tua descendência*, Abraão, como as estrelas do céu e como a areia do mar (Gn 15,5; 22,17). Pelas estrelas do céu significa os filhos espirituais de Abraão, conspícuos pela luz das virtudes; pela areia do mar, os filhos carnais infrutíferos.

Assim foi prometido a Abraão e, recebida esta promessa, por mais que fosse protelada, *não fraquejou na fé*, de modo a crer menos na firme promessa que lhe fora feita; e, para perseverar firme na fé da coisa prometida, *não considerou o seu corpo já morto*, isto é, não ponderou que a deficiência natural de gerar pudesse mudar a vontade de Deus, *tendo quase cem anos*, e o tempo de gerar já tendo passado nele; e não considerou *o seio morto de Sara*, isto é, que os órgãos genitais da esposa tinham falhado, tanto pelo vício da esterilidade quanto pela antiguidade dos anos. Não fraquejou na fé da primeira promessa; *nem duvidou, por desconfiança, da promessa de Deus*, porque Deus muitas vezes lhe repetiu a mesma, certamente na promessa em que Deus lhe prometia que, antes de findar o ano, daria um filho: nesta certamente não vacilou por desconfiança. Vacilou, sim, admirando-se e revolvendo consigo o mistério da coisa, mas não vacilou por desconfiança, a ponto de desconfiar de que não se cumpriria tudo o que Deus prometera, mas *foi fortalecido pela fé*; pois, podendo objetar, ao esperar longamente a coisa tantas vezes prometida: a demora me faz duvidar; ergueu-se mais forte na crença da coisa prometida, *dando glória a Deus*, nada atribuindo aos seus méritos do bem desta promessa, mas glorificando a Deus em tudo, *plenissimamente certo*, sem vacilação alguma, *de que Deus é poderoso para cumprir tudo o que prometeu*, segundo todo o modo que prometeu. E por isso, porque, sabendo-o, deu plenissimamente fé às promessas de Deus, não só se lhe cumpriu a promessa, por ter assim crido, mas também *lhe foi imputado como justiça*, isto é, pelo mérito de tão grande fé mereceu ser justificado.

Visto que agora expressou bastante o modo da fé de Abraão, adapta ao seu propósito o que dele disse, dizendo: porque Abraão creu assim, por isso foi justificado; isto, porém, de Abraão *não foi escrito* apenas *por causa dele*, para ser louvado por tão grande fé, a saber, que *lhe foi imputado como justiça*; mas foi escrito *também por causa de nós*, para sermos conformados à fé de Abraão, a quem *será imputado*, crendo, o nosso crer (como vemos nele) *como justiça*; a nós, digo, que cremos *naquele que ressuscitou dos mortos Jesus Cristo, nosso Senhor*, isto é, assim como Abraão creu que receberia de Deus o que era contra a natureza, assim também nós não duvidemos de crer e confessar, embora seja contra o direito da natureza, que Cristo ressuscitou dos mortos: aquele que é autor da natureza, como lhe aprouve pôde invertê-la.

Estas duas coisas que seguem: *foi entregue* à morte, e *ressuscitou para a justificação*, não eram necessárias para a prova do que foi dito, mas ao Apóstolo pareceram oportunas para a instrução dos romanos, e por isso acrescentou: *que foi entregue*; não determina para quê, mas é bastante claro que para a morte; e isto *por causa de nossos delitos*, isto é, para nos purificar de nossos delitos; que também *ressuscitou por causa da nossa justificação*, isto é, para que, purificados de nossos delitos, nos tornasse justos pela posse das virtudes. Não diz que morreu por causa de nossos delitos e ressuscitou por causa da justificação como se a sua morte não fosse causa da nossa justiça e a Ressurreição, causa da remissão dos pecados; mas diz *ressuscitou por causa da justificação* para mostrar que a sua Ressurreição é causa de nossa justificação de modo tal que seja sinal de coisa futura em nós, a saber, de uma dupla ressurreição. A primeira é aquela em que, no batismo, ressurgimos da morte do pecado para viver na justiça. Esta é a ressurreição da alma, que antes estava morta nos pecados e agora, fortalecido o livre-arbítrio, pode resistir a toda sugestão má e conhece a Deus. A segunda ressurreição é a futura, segundo o corpo, quando, retomadas a impassibilidade e a imortalidade, reinaremos com Cristo, se a primeira ressurreição tiver sido guardada íntegra. A Ressurreição de Cristo e Pentecostes, que dela depende, celebram-se por isso em tempos variáveis, porque prefiguram coisas ainda por vir e não tratam só das passadas, como a festa da Natividade.

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo; por quem também temos acesso, pela fé, a esta graça em que estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus. E não só isso, mas gloriamo-nos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência, a paciência a prova, e a prova a esperança; e a esperança não engana, porque a caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Para que, com efeito, Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios? Pois dificilmente alguém morre por um justo; por um bom, talvez alguém ouse morrer. Mas Deus demonstra a sua caridade para conosco, porque, quando ainda éramos pecadores, a seu tempo, Cristo morreu por nós. Muito mais, pois, agora justificados em seu sangue, seremos salvos da ira por meio dele. Porque, se, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não só isso, mas gloriamo-nos também em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora recebemos a reconciliação. Por isso, assim como por um só homem o pecado entrou neste mundo, e pelo pecado a morte, e assim a morte passou a todos os homens, naquele em quem todos pecaram; porque até a lei o pecado estava no mundo; mas o pecado não era imputado, não havendo lei; contudo, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre os que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é figura do que havia de vir. Mas o dom não é como o delito. Pois, se pelo delito de um só morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom, pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundaram sobre muitos. E o dom não é como o que veio por um só que pecou. Pois o julgamento, a partir de um só, levou à condenação; a graça, porém, a partir de muitos delitos, leva à justificação. Pois, se pelo delito de um só a morte reinou por meio de um só, muito mais os que recebem a abundância da graça, do dom e da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Portanto, assim como pelo delito de um só veio a condenação sobre todos os homens, assim também pela justiça de um só vem sobre todos os homens a justificação que dá a vida. Pois, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão constituídos justos. A lei, porém, interveio para que abundasse o delito; mas onde abundou o delito, superabundou a graça, para que, assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça reine pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor.

## Comentário

Visto que, pelo que precede, se provou suficientemente que toda justificação é pela fé, *justificados, pois, pela fé*, *tenhamos paz*, isto é, concórdia entre nós, para que nem o judeu se anteponha ao gentio, nem o gentio ao judeu, nesta nova graça. Para mais os deter da discórdia e os induzir à concórdia, diz: *tenhamos paz com Deus*; se, com efeito, formos discordes entre nós, certamente não temos paz com Deus: tenhamos, digo, paz *por nosso Senhor Jesus Cristo*, a quem devemos obedecer em tudo, que quis ser entregue à morte por causa de nossos delitos, etc.; por esse Cristo, não só os delitos foram perdoados e nos foram dadas a vida e a justiça, mas também *temos esta graça*, isto é, tão excelente que podemos afastar doenças e fazer milagres. Mas, para que os judeus não julgassem ter, por mérito da lei, algum degrau para esta graça, diz Paulo: por esse Cristo temos também *acesso*, isto é, o primeiro degrau para chegar a esta graça; graça que alcançamos *pela fé*, como a justificação, porque a fé justifica e a fé dá esta graça, *na qual estamos firmes*, isto é, perseveramos (a Adão foi conferida muita graça, mas nela não se firmou); e, firmes nesta graça, *gloriamo-nos na esperança da glória dos filhos de Deus*, isto é, porque esperamos com toda certeza ter a glória que têm os filhos de Deus: *e não só* na esperança desta glória, *mas gloriamo-nos também nas tribulações*. Esta é a máxima virtude: alegrar-se naquilo que naturalmente se teme. Gloriamo-nos nas tribulações porque *sabemos que a tribulação produz a paciência*, isto é, porque o uso e o costume das tribulações nutrem a paciência; *a paciência produz a prova*, isto é, a purificação, porque, como o ouro é purificado pelo fogo, assim o que há de ser purgado nestas coisas é consumido pelo fogo da tribulação: por isso, os que terminam a vida na tribulação, temo-los sem hesitação alguma por santos, porque tudo o que antes pecaram o fogo da tribulação consumiu inteiramente; os que, porém, terminam a vida em paz, por mais louvavelmente que tenham vivido (ninguém, com efeito, está sem mancha), sem uma demonstração certa de milagres, não os contamos no catálogo dos santos. *A prova produz a esperança*; com toda certeza, com efeito, pode esperar quem foi suficientemente purificado; *a esperança*, assim tida depois da purificação, *não engana*, isto é, não faz envergonhar os que esperam, os quais tornaria confusos se fosse frustrada.

Na verdade a esperança não engana, mas se cumprirá, o que temos por certo *pelo Espírito Santo que nos foi dado*; o Espírito Santo, com efeito, já em parte nos deificando, dá a certeza de que seremos plenamente deificados no futuro, iluminados segundo a alma com maior conhecimento de Deus e, segundo o corpo, incorruptíveis. Que o Espírito Santo nos foi dado evidencia-se por isto: *a caridade de Deus foi derramada em nossos corações*, isto é, o amor de Deus foi ampliado em nossos corações, porque estamos prontos a sofrer e a morrer por Ele. Ou de outro modo: na verdade não engana, mas se cumprirá; o que se evidencia porque *a caridade de Deus foi derramada*, isto é, porque Deus nos ama abundantemente e porque a caridade de Deus arde tanto para conosco. Sentimos isto em nossos corações iluminados *pelo Espírito Santo que nos foi dado*.

Prova que a esperança (como foi dito) se cumprirá, por diversas causas: seja porque, se não se cumprisse, em vão Deus se teria feito homem e teria gostado a morte, se não levasse a perfeito termo, consumando a esperança, o que começara com piedade; seja também porque, se, quando éramos ímpios e havia em nós mérito de condenação, quis fazer tanto que, por nós ímpios, enfrentou a dificuldade da morte, não se deve duvidar de que nos salvará, já justificados e já alegando o mérito da salvação; o que lhe é fácil, porque não precisa mais morrer; por isso diz: na verdade a esperança não engana, mas se cumprirá; porque, se não se consumasse como esperamos, *para que Cristo morreu*, justo pelos ímpios, ou em lugar dos ímpios, porque os ímpios deveriam morrer por seu pecado, ou em vista da redenção dos ímpios? Dir-se-ia: porque morreu, por isso não pode. Morreu, digo, *a seu tempo*; ao terceiro dia, com efeito, ressuscitou. De novo o adversário: ímpios, sim, éreis, mas já justificados ao tempo de sua morte. Ímpios, digo, quando *ainda éramos fracos*, isto é, perseverávamos na impiedade. Em vão o justo morreu pelos ímpios, se deixa de salvar os justificados; não se deve crer que deixe incompleto aquilo por que enfrentou tamanha dificuldade.

Dir-se-ia: foi tão grande assim morrer pelos ímpios? Sim, digo; *dificilmente*, com efeito, alguém, isto é, algum digno de morte ou que logo vai morrer, *morre por um justo*, isto é, em lugar ou em favor de um justo; donde é claro que foi algo grande Cristo, que, quanto à sua justiça, não haveria de morrer, morrer pelos ímpios. Por isso digo que dificilmente alguém morre por um justo; *pois por um bom talvez alguém ouse morrer*. Se há dúvida sobre se alguém morre por um bom, grande foi Cristo, o piedoso, morrer pelo ímpio. Dificilmente alguém ousaria morrer por um justo; mas Cristo morreu por nós, e com isto Deus *demonstra a sua caridade para conosco*; pois, se *quando ainda éramos pecadores* Cristo morreu, o que foi tão difícil e indevido, o justo por nós pecadores, *muito mais, pois* (isto é, por isso), deve-se crer que agora, *justificados em seu sangue*, isto é, pela efusão de seu sangue, nós que antes éramos pecadores, *seremos salvos da ira por meio dele*, que não precisa mais ser mudado do seu estado, como quando sofreu a morte pelos pecadores.

E porque poderíamos ser justificados e, no entanto, não recuperar a paz perdida com Deus, diz: na verdade, justificados, seremos salvos, uma vez que já alegamos o mérito da justificação, porque, *quando éramos inimigos* e tínhamos o mérito da condenação, *fomos reconciliados com Deus* por coisa tão grave como a morte de seu Filho; e, se antes inimigos, agora pela morte de seu Filho fomos reconciliados, muito mais se deve crer que nós, reconciliados e já de algum modo merecedores da salvação, seremos salvos. E nos salvará com muita facilidade, porque *pela sua vida*; já não é, com efeito, necessário que morra, como antes.

Deve-se considerar como opõe cada coisa a cada coisa: pecadores justificados, inimigos reconciliados, pela morte na vida; não esperamos somente a salvação futura, mas também *gloriamo-nos em Deus* pela esperança e pelo gozo dela, ainda enquanto aqui estamos; gloriamo-nos, diz, *por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora*, pouco antes, *recebemos*, inimigos, *a reconciliação* com Deus.

Alguém objetaria: Cristo foi, sim, bastante justo, mas não parece que sua justiça seja suficiente para a salvação de todos. O que o Apóstolo prova, dizendo: como pela desobediência de um só todo homem caiu, parece digno e conveniente que pela obediência de um só se repare a queda do gênero humano, por Jesus apenas; por isso pudemos ser reconciliados para a salvação, *assim como por um só homem o pecado entrou neste mundo*, não enviado por Deus, mas por certa violência, isto é, tornado tão miserável pelo pecado, e consequentemente pelo pecado de um só homem entrou a morte, tanto corporal quanto espiritual, no mesmo homem; *e assim a morte passou* dele *a todos os homens*; e com razão dele a todos, porque este foi aquele *em quem todos pecaram*; nos rins de Adão, com efeito, toda aquela massa do gênero humano foi corrompida pelo pecado da prevaricação. Alguns estendem este versículo até aquele muito mais abaixo: *portanto, assim como pelo de um só*, etc.; mas, como expusemos, pode ser bastante abreviado.

Na verdade todos pecaram em Adão, embora antes da lei isto fosse ignorado por quase todos; *pois o pecado estava no mundo desde Adão até a lei*; mas, embora fosse assim, *este pecado não era imputado*, isto é, ninguém era julgado réu pelo pecado original antes de Moisés, *não havendo lei*, a qual, depois que veio, tornou manifesto esse pecado; ou digamos por inteiro: este pecado estava no mundo antes da lei, mas era ignorado, porque nenhum pecado era imputado, não havendo lei. E, embora o pecado original não fosse imputado antes da lei, pode-se bastante reconhecê-lo pelo fato de que reinou a morte corporal, que foi a pena do original, enviando antes de si todas as suas misérias, a sede, a fome, as febres e o mais; *reinou*, digo, *desde Adão até Moisés*, não só sobre os que ao pecado original acrescentaram os seus pecados, mas também *sobre os que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão*, isto é, os que, da sua parte, não prevaricaram como Adão: estes são as crianças, que não tiveram tempo de pecar, mas foram punidas somente pelo original. *O qual Adão é figura do que havia de vir*, isto é, do futuro Adão, que é Cristo. Adão foi figura de Cristo porque, assim como aquele é pai de todos segundo a carne, assim Cristo é pai dos fiéis segundo a fé; e, assim como do lado de Adão adormecido foi formada Eva, assim do lado de Cristo adormecido no sono da morte na Cruz foi fabricada a Igreja. E Adão é figura de Cristo porque Deus decretou emendar por um só Cristo o que por um só Adão foi pecado.

Ou leiamos assim, segundo Ambrósio: na verdade todos pecaram em Adão; pois o pecado original estava no mundo até a lei; mas, embora estivesse no mundo, esse pecado não era imputado, porque não havia lei que o desse a conhecer. Mas, embora esse pecado fosse ignorado, em pena desse pecado reinou a morte desde Adão até Moisés, não só sobre os que pecaram por obras atuais, mas também sobre os que pecaram à semelhança da transgressão de Adão, isto é, que por mera semelhança, por serem filhos de Adão, o prevaricador, foram condenados.

Mostrou acima que um só Cristo é suficiente para a salvação de todos, porque um só Adão foi suficiente para a perdição de todos; e, assim como comparou a pessoa de Cristo à pessoa de Adão, assim opõe a causa de Cristo, isto é, a obediência, à causa de Adão, que é a desobediência; e opõe o efeito da causa de Cristo, isto é, a justificação no presente e a vida eterna no futuro, ao efeito daquela, isto é, à morte temporal e à condenação eterna. Prova também que a graça de Cristo abunda muito mais do que o pecado de Adão; pois, de Adão contraímos apenas o original, ao passo que a graça de Cristo, no batismo, perdoou não só o original, mas com ele todos os atuais. O texto liga-se assim: Adão foi figura antiga do futuro Adão; mas, embora uma pessoa fosse oposta a uma pessoa, as causas são dessemelhantes; *não é, com efeito, o dom como o delito*: não é, com efeito, o dom de Deus, que é a graça, como o delito de Adão. Na verdade o dom de Cristo não foi como o delito de Adão; pois o dom de Cristo abundou muito mais do que o delito de Adão, porque o delito foi um só, que chamamos original; Cristo, porém, perdoou o original e todos os atuais. E prova: realmente só Cristo foi suficiente para a justificação de todos; *pois, se pelo delito*, isto é, por meio do delito de um só Adão, e por um só (o que determinará mais plenamente a seguir), isto é, pela desobediência; se por este delito, diz, que chamamos original, *muitos morreram*, contraindo esse original do primeiro pai (diz *muitos* não porque nem todos tenham sido atingidos por este pecado, mas porque nem todos foram retidos nele perseverando, depondo esse original pela fé recebida em Cristo); se, diz, pelo delito de um só muitos morreram, *muito mais*, segundo a dignidade da pessoa e da causa de Cristo, *abundou a graça de Deus*, isto é, a remissão dos pecados. Abundou também *o dom*, isto é, o fortalecimento pelo Espírito Santo; depois de remitidos os pecados, são com efeito necessárias as armas do Espírito Santo, com as quais resistamos ao diabo que mal aconselha. *A graça*, diz, *e o dom abundaram na graça*, isto é, *pela graça de um só homem*. Diz com acerto *pela graça*, porque, assim como a contração do original foi por necessidade, assim a salvação foi feita pela graça, isto é, pela vontade; ninguém, com efeito, se salva senão por vontade. Assim como, diz, o delito de um só se difundiu em muitos, assim igualmente a graça de um só homem abundou em muitos. Não diz que a graça abundou em mais do que o delito, mas *sobre muitos*, isto é, em muitos; nem todos, com efeito, foram salvos, porque não quiseram. De um só homem, digo, que não pôde menos do que quis; pois de *Jesus Cristo*, isto é, do Salvador e Rei.

Como diversificou as causas de Cristo e de Adão, assim distingue os efeitos das causas ao opô-los, dizendo: assim como o dom de Cristo não foi como o delito de Adão, assim também *não é como o que veio por um só que pecou o dom*, isto é, os efeitos do pecado de Adão e da graça de Cristo são diversos, porque o pecado é simples, o dom, porém, é múltiplo. E prova-o dizendo: na verdade o efeito do pecado de Adão e o efeito da graça de Deus não são semelhantes; *pois o julgamento*, isto é, a justa sentença de Deus, *leva à condenação*, isto é, condena os filhos de Adão *a partir de um só delito*, isto é, somente por causa do original; *mas a graça* de Cristo *leva à justificação*, isto é, justifica seus filhos *a partir de muitos delitos*, isto é, tanto dos atuais quanto do original. Deve-se notar que aquele primeiro pecado debilitou, sim, a nossa natureza e a tornou mais propensa à queda, mas não foi causa dos pecados atuais, aos quais poderíamos resistir pela razão natural (embora em grande parte debilitada). Deve-se ver também que, embora no pecado de Adão se considerem muitas coisas, como a soberba e a gula, diz-se apenas um, porque a desobediência.

Prova que a graça justificou a partir de muitos delitos, dizendo: realmente pela graça de Cristo os homens são justificados a partir de muitos delitos; pois, recebida a justiça (o que é maior), *reinarão* com Cristo na vida eterna; o que diz equivalentemente: os homens que *recebem a abundância da graça*, isto é, a remissão abundante, porque não só do original, mas de todos os atuais; e que recebem *a abundância do dom*, isto é, os dons do Espírito Santo, abundantes para o fortalecimento no bem; e que recebem *a abundância da justiça*, isto é, da operação justa, porque, depois de remitidos os pecados e fortalecidos pelo Espírito Santo, só então é lícito obrar bem; estes, digo, que recebem estas coisas, reinarão com Deus postos na vida eterna: todas as quais coisas, a graça, o dom e o reino, receberão *por meio de um só, Jesus Cristo*. E realmente por este só; porque, se no delito de um só Adão, que foi causa da perdição, *a morte reinou*, tanto temporal quanto eterna, *por meio de um só*, por um só delito, isto é, pela desobediência, *muito mais*, segundo a dignidade da pessoa, da causa e do efeito, os que são *recebedores da abundância da graça, do dom e da justiça reinarão na vida por meio de um só Jesus Cristo*. Já que ali há também semelhança, pois Adão é um e Cristo é um, e há a maioridade segundo a dignidade, que foi dita: portanto, do semelhante e do maior posso inferir que, assim como pelo delito de um só Adão, delito, digo, que passa a todos os homens, se chegou à condenação, *assim também pela justiça de um só Cristo*, que passa a todos os homens segundo a potência (Cristo, com efeito, deu o preço suficiente por todos), *por meio da justiça de um só*, diz, chegou-se à *justificação que dá a vida*.

Mostrou suficientemente acima que Cristo era poderoso e bastava para restaurar tudo o que caíra por Adão, mas não determinara o que fazia nesta reparação, se por potência ou por mérito; o que aqui determina, dizendo que, assim como Adão, merecendo mal pela desobediência, precipitou a todos, assim Cristo, merecendo bem pela obediência, redimiu a todos. O texto liga-se assim: na verdade pelo delito de um só todos são condenados, pois pela desobediência; e *assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores*, porque nem todos permaneceram no pecado, *assim também pela obediência de um só* Cristo, que isto mereceu, *muitos serão constituídos justos*: muitos, porque nem todos quiseram ser justificados.

Como agora diz que Cristo justifica os homens dos pecados, diz que também os transgressores da lei justifica da prevaricação da lei recebida; e aduz isto para comprovar que os judeus são mais obnóxios à graça de Deus do que os próprios gentios, aos quais se preferiam nesta nova graça; porque os gentios eram réus somente da lei natural, os judeus, porém, eram réus da prevaricação tanto da lei natural quanto da escrita. O texto liga-se assim: a obediência de Cristo justificou muitos; *a lei, porém, interveio para que abundasse o delito* — *interveio*, diz, porque o pecado já antes entrara — a lei entrou para que o delito abundasse, não porque a lei fosse má, mas porque sob ela estavam aqueles que tornaria réus, mandando, e não ajudando. A lei era tida de três modos em seu tempo: para alguns era apenas sinal, como para Abraão, que foi circuncidado não para ser por isso justificado, mas como sinal da justificação já recebida pela fé; para outros a lei era pedagogo, de modo que, assim como a guarda dos pedagogos refreia o menino para que não se desmande vagando, assim a lei, ameaçando com a pena, refreava alguns do ato do pecado; para outros, porém, a lei era causa de prevaricação. Nestes dois primeiros, para os quais a lei era sinal da justiça ou pedagogo, nada operava; porque os que eram justos, como Abraão, o eram pela fé, não pela lei; os que se refreavam do mal pelo temor, não o faziam pela lei, mas pelo dom do Espírito Santo, isto é, pelo espírito de temor. Para outros, porém, a lei era causa de delito, porque de prevaricação. Pela lei o delito abundou, mas pela graça foi esvaziado; onde quer que o delito tenha abundado, sob a lei ou fora da lei, aí a graça *superabundou* sobre o delito; porque não só perdoou os pecados, mas também concedeu operar com justiça.

Como alguns ainda erravam por causa do que foi dito, que a graça superabundou onde houve delito, dizendo que podiam pecar impunemente, até oportunamente, porque a graça de Deus tudo perdoaria e, quanto mais, tanto mais gloriosa seria, Paulo determina que a graça de Deus, quantos sejam os pecados, no batismo os perdoa todos, mas, depois de justificados, se pecam de novo, os pecados não serão perdoados como antes por graça, mas pelo mérito da penitência; por isso diz: a graça de Deus abundou certamente com esta condição: *para que, assim como o pecado reinava* antes da justificação *levando à morte, assim também a graça reine*, depois de perdoar os pecados, *pela justiça* recebida e bem conservada, indo *para a vida eterna*, não olhando mais para a iniquidade: reine, digo, *por nosso Senhor Jesus Cristo*, que, depois de justificar pela graça, dá a vida eterna.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo algum. Nós, que morremos para o pecado, como viveremos ainda nele? Ou ignorais, irmãos, que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados em sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida. Porque, se fomos enxertados nele pela semelhança de sua morte, também o seremos pela de sua ressurreição. Sabendo isto: que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com ele, para que seja destruído o corpo do pecado, e não sirvamos mais ao pecado. Pois quem morreu, está justificado do pecado. Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Cristo; sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido para o pecado, morreu uma vez por todas; quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós, considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, para que obedeçais às suas concupiscências. Nem ofereçais os vossos membros ao pecado como armas de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como vivos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como armas de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Que então? Pecaremos, porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo algum. Não sabeis que, àquele a quem vos ofereceis como servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, seja do pecado para a morte, seja da obediência para a justiça? Mas graças a Deus, porque fostes servos do pecado, mas obedecestes de coração àquela forma de doutrina a que fostes entregues; libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça. Falo à maneira humana, por causa da fraqueza de vossa carne; assim como oferecestes os vossos membros para servir à imundície e à iniquidade, para a iniquidade, assim agora oferecei os vossos membros para servir à justiça, para a santificação. Pois, quando éreis servos do pecado, éreis livres em relação à justiça. Que fruto tivestes então nas coisas de que agora vos envergonhais? Pois o fim delas é a morte. Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte; mas a graça de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, nosso Senhor.

## Comentário

Visto que a graça deve reinar pela justiça sempre conservada, até chegar à vida eterna, *que diremos, pois?* Permaneceremos de novo no pecado, já justificados pela graça, *para que a graça abunde*, perdoando de novo gratuitamente o que de novo delinquimos? *De modo algum*, que voltemos ao pecado com tão perversa intenção. Aqui começa a falar da dupla ressurreição: a primeira, pela qual somos justificados segundo a alma no batismo, batismo que Cristo consagrou para nós em sua morte, derramando de seu lado a água da remissão; insinuando que devemos morrer com Ele no batismo, para que, assim como Ele, tendo morrido uma vez, não voltou aos atos do homem velho, assim também nós, uma vez justificados no batismo, matando ali toda a velhice do pecado, guardemos a ressurreição da alma (ali, com efeito, a alma justificada ressurge), andando em novidade de vida; porque, se tivermos conservado na justiça a ressurreição da alma, teremos certamente a futura ressurreição dos corpos com Cristo, na incorrupção.

Voltemos à letra, onde prova que não se deve voltar ao pecado, dizendo: na verdade, aos que foram uma vez justificados, não se deve permanecer mais no pecado; pois nós, que no batismo *morremos para o pecado*, isto é, para que não pratiquemos mais o pecado, mortos, digo, segundo a velhice do pecado deposta, *como*, isto é, por que razão nós, que assim morremos com Cristo, *viveremos ainda*, isto é, perseveraremos

*nele*, no pecado? E na verdade não deveis mais viver nesse pecado; porque *ou ignorais* que *todos os que fomos batizados em Cristo Jesus*, isto é, por instituição de Cristo, ou por Cristo, que nos consagrou o batismo, nós fomos certamente batizados, isto é, lavados dos pecados, *em sua morte*, isto é, na semelhança de sua morte, para que, assim como Ele morreu uma vez e vive para sempre, assim também nós morramos uma vez, no batismo, para os pecados, e vivamos sempre na justificação?

Assim como provou que, uma vez justificados, não devemos pecar de novo, assim prova também que podemos conter-nos bem do pecado, dizendo: na verdade, os justificados temos o poder, se queremos, de não pecar; pois *fomos sepultados com Ele*, não só mortos, *na morte pelo batismo*; assim como Cristo, posto no sepulcro, não teve poder, segundo a carne, de estender mão ou pé para os atos do homem velho, assim também a nós, se queremos, deu no batismo poder de não voltar mais à velhice do pecado. Para isto fomos sepultados, *para que, como Cristo ressuscitou dos mortos*, para não retomar mais ato de mortalidade (ressuscitou, digo, *pela glória do Pai*, isto é, pelo Verbo a Ele unido, ou para engrandecer a glória do Pai), *assim também nós andemos*, postos *em novidade de vida*, isto é, na ressurreição da alma justificada pelo batismo, progredindo na novidade recebida. Na verdade podemos andar em novidade de vida; pois somos semelhantes à sua Ressurreição, porque, assim como Cristo ao ressurgir foi homem novo, assim também nós, deposta pelo batismo a velhice do pecado, sejamos homens novos na novidade das boas obras. E na verdade seremos semelhantes à sua Ressurreição *se fomos enxertados*; e isto não se pode fazer por nós, mas pela graça de Deus, *feitos enxertados na semelhança de sua morte*, isto é, se tivermos morrido com Cristo, com esta semelhança: que, assim como Ele, uma vez deposta a miséria do homem velho, não voltou mais a ela, assim também nós, uma vez deposta no batismo a velhice do pecado, não voltemos mais a ela; *se, pois, fomos assim enxertados na semelhança de sua morte, também o seremos*, simultaneamente, por mérito da unidade da morte, *na semelhança de sua Ressurreição*, progredindo na novidade das obras. *Enxertados* diz-se a partir da semelhança com o ramo de uma boa árvore que é inserido no tronco de uma árvore má e ali produz frutos novos; assim também a novidade da justificação, inserida no tronco de nossa velhice, extinto o sabor antigo, produza frutos da novidade inserida.

Devemos, sem dúvida, fazer-nos semelhantes à morte de Cristo; *sabendo isto: que o nosso homem velho foi crucificado juntamente* com Cristo na Cruz, *para que seja destruído em nós o corpo do pecado*; seja de tal modo destruído o nosso corpo naquilo em que pecava que *não sirvamos mais ao pecado*, mas tenhamos império sobre o pecado. O Senhor Jesus poderia, se quisesse, escolher outro gênero de morte, mas não sem mistério quis antes ser pregado à cruz, significando-nos que, assim como teve afixados as mãos e os pés, isto é, os sentidos humanos, assim também nós tenhamos afixados não só as obras, mas também os sentidos, para que não pensemos nem pratiquemos o mal. E devemos e podemos bem não servir ao pecado; pois *aquele que morreu* no batismo *está libertado do pecado*; e não só isso, mas também *justificado do pecado*.

Depois de ter ensinado suficientemente sobre a primeira ressurreição, que é a da alma, como deve ser observada, acrescenta sobre a segunda, dizendo que a teremos por mérito da primeira bem guardada; e, para sermos mais cativados pelo amor dela, faz a sua recomendação, mostrando quão digna e quão útil é, dizendo: não só justificamos mortos ao pecado, justificação que é a primeira ressurreição, mas também, *se morremos com Cristo* para o pecado, isto é, de modo que, assim como Cristo, tendo morrido uma vez, nunca voltou à velhice deposta, assim também nós, mortos uma vez para o pecado pelo batismo, não voltemos ao pecado; *cremos* certamente *que também viveremos* na segunda ressurreição *juntamente*, isto é, tornados impassíveis e imortais; e isto não em outro lugar senão *com Cristo*, isto é, viveremos postos em sua presença, incorruptíveis. Se morremos com Cristo, cremos certamente que viveremos com Cristo, *sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre*, isto é, já não provará mais a morte; porque, tendo morrido uma vez, foi suficiente para a justificação de todos. E não só não morre, mas também *a morte já não tem domínio sobre Ele*. Os domínios da morte são a fome, a penúria, as febres e todas as misérias; a cabeça e a consumação de todas as misérias é a morte: mas nem a morte nem as misérias, que são arautos da morte, dominarão mais a Cristo, que uma vez morreu.

Na verdade Cristo já não morre; pois *quanto a ter morrido para o pecado*, isto é, para a destruição do pecado, *morreu uma vez por todas*, isto é, bastou-lhe morrer uma vez. E por isso basta-nos morrer uma vez com Ele no batismo, perseverando na justificação recebida. Prova também que a morte não dominará mais a Cristo; pois *quanto a viver, vive para Deus*, isto é, com a vida de Deus; porque, se vive como Deus vive, eternamente e sem corrupção, certamente não haverá nele domínio algum da morte.

O que disse em geral, que devemos morrer com Cristo para viver com Ele, adapta agora aos romanos, para cuja instrução aqui visava, dizendo: visto que é necessário morrer com Cristo se queremos viver com Ele, *assim*, isto é, instruídos por esta razão, vós, romanos, *considerai-vos mortos para o pecado*, isto é, crede que morrestes no batismo, para que não estendais mais a mão ao ato do pecado; e, se assim estais mortos, *considerai-vos também vivos para Deus*, isto é, vivendo na justificação da alma recebida e, por este mérito, destinados a viver na incorrupção dos corpos; e tudo isto *em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo Jesus, que no presente justifica e prepara a vida eterna aos que permanecem na justificação.

O que havia dito acima, que morremos para o pecado e devemos viver para Deus, vendo que o homem de modo algum pode nesta vida abster-se dos veniais, determina em quais pecados devemos e podemos morrer, sabendo que o fomes do pecado está naturalmente em cada um, mas, já fortalecido o livre-arbítrio, podemos coibir o fomes do pecado para que não irrompa em ato; e, determinando isto, diz: visto que viveis para Deus, *não reine, pois, o pecado*, isto é, o fomes natural do pecado, *em vós*: reinar do pecado é consentir, agir e acostumar-se à obra do pecado. Não reine certamente o pecado *em vosso corpo*, isto é, que já é vosso e, pelo fortalecimento do livre-arbítrio, sujeito ao domínio da razão; corpo, digo, embora justificado, ainda *mortal* e, se não é regido pela razão, propenso à obra do pecado: por isso é preciso ver que, consentindo em vossa mortalidade, não deixeis de viver para Deus. Não reine, portanto, o pecado *para que obedeçais às suas concupiscências*, isto é, do pecado, isto é, para que não realizeis em obra o que a fraqueza de vossa carne mal aconselha.

E não só não obedeçais por obra, mas *nem ofereçais*, de modo a torná-los prontos e disponíveis pelo consentimento, *os vossos membros ao pecado*; porque, assim como não deveis operar, assim também não deveis consentir no mal: os vossos membros, digo, tornam-se então *armas de iniquidade*, se forem oferecidos ao pecado; se consentirdes, com efeito, ao pecado, então a iniquidade se arma com os vossos membros, para realizar por essas armas o que perversamente deseja. Não vos ofereçais ao delito, mas *oferecei-vos a Deus*, isto é, preparai-vos, obrando bem, idôneos para Deus, e é justo; vós, digo, tornados *vivos* na justiça *dentre os mortos*; mortos, com efeito, éreis no pecado. E não só em ato oferecei-vos a Deus, mas também *os vossos membros*, no consentimento e na exortação dos bens, preparai para Deus; os vossos membros, digo, tornados então *armas de justiça*: com estas armas, com efeito, a justiça realizará o que bem aconselha e deseja. Devéis, certamente, e podeis oferecer-vos a Deus; pois o pecado, embora esteja naturalmente em vós, *não terá domínio sobre vós*, se quiserdes usar do livre-arbítrio fortalecido; antes, vós dominareis o próprio pecado, para que não tenha ato. Na verdade o pecado não terá domínio sobre vós; *pois já não estais debaixo da lei*, que tornava réus mandando e não ajudando, *mas debaixo da graça*, que perdoa os pecados e ajuda a operar o bem.

Porque sente que alguns de novo erravam pelo que dissera, que tudo é perdoado pela graça, e que por essa confiança pecavam, porque a graça estava pronta e suficiente para relaxar tudo, diz, contra os que assim obram mal, que por esta intenção não se deve pecar, porque a graça, sim, tudo perdoa; mas, se alguém, pecando, se subtrair à graça, feito servo do pecado, como sabe se poderá voltar à graça, estando já atado ao jugo do pecado? Visto que estamos sob a graça, que suficientemente purifica

tudo, *que diremos, pois?* Pecaremos licitamente *porque não estamos debaixo da lei*, que, mandando, pesa e não ajuda, *mas debaixo da graça*, que tanto remite os pecados quanto ajuda a obrar o bem? *De modo algum*. Isto, diz, deve estar longe: que pequemos por confiança na graça; porque *não sabeis que, àquele a quem vos ofereceis como servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis?* Feitos servos, digo, daquele a quem obedecestes, isto é, na hora em que depressa obedecestes; servos, digo, *ou do pecado*, a quem obedecestes, que conduz à morte, isto é, à condenação, *ou servos da obediência*, isto é, da justiça, que vos conduz a maior justiça; porque, obedecendo ao pecado, tornar-vos-eis servos do pecado e não podereis romper os grilhões desta servidão, perdida a liberdade. Por isso é bom que, feitos servos da justiça, não vos afasteis da graça; porque, feitos servos do pecado, não podeis por vosso direito voltar à graça.

Perseverai, pois, na justiça; e não só por isso, mas também porque, tendo outrora deposto o jugo do pecado e sido feitos servos da justiça, se de novo recairdes no vômito da antiga servidão, sois réus de instabilidade e de justa perdição; o que diz assim: não só pelo que foi dito deveis perseverar na justiça, mas também pelo que segue: *graças, porém, a Deus*, meu Deus, que vos libertou gratuitamente, sem mérito vosso, do jugo do pecado; por isso dou graças, *porque fostes servos do pecado*, mas *já obedecestes*, e não coagidos, mas *de coração*, isto é, por própria vontade, indo à *forma de doutrina*, isto é, à doutrina que vos fez conformes a Deus (a imagem de Deus, com efeito, estava deformada e cegada em vós; mas pela minha instrução reformei em vós a imagem de Deus); *forma*, digo, aquela, isto é, tão excelente como a reforma da imagem de Deus; *a que fostes entregues* pela misericórdia de Deus e pela nossa doutrina; por vós mesmos, com efeito, éreis insuficientes para ser reformados. Outrora fostes servos do pecado, mas agora, *libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça*; e por isso não queirais ser reduzidos de novo à servidão do pecado.

E a vós, já feitos servos da justiça, *falo à maneira humana*, isto é, ordeno-vos algo bastante leve, ao qual a vossa humanidade pode bastar; e, porque não vos ordeno o espiritual e o árduo, faço-o *por causa da fraqueza de vossa carne*, isto é, porque sei que ainda sois oprimidos pela carnalidade e não bastante firmes nas coisas espirituais. Falo certamente à maneira humana, pois isto é humano: assim como oferecestes os vossos membros para servir à imundície, isto é, à luxúria, à gula, à libido, servir também *à iniquidade*, isto é, a tudo o que é contrário à equidade, *para a iniquidade*, para consumar a iniquidade, ao menos assim, agora feitos fiéis, *oferecei os vossos membros para servir à justiça, para a santificação*, isto é, para a plenitude da justiça. Isto é certamente bastante humano: que tanto sirvais a Deus quanto servistes ao diabo, a quem sois muito mais obrigados.

Na verdade, porque fostes feitos servos de Deus, deveis servir à justiça; pois *quando éreis servos do pecado, éreis livres em relação à justiça*, isto é, isentos de toda justiça, servindo fielmente ao pecado; mas agora, feitos servos da justiça, devéis servir a Deus muito mais fielmente. Visto que por amor do pecado vos fizestes isentos de toda justiça; *que fruto*, pois, isto é, que utilidade, *tivestes então*, antes da conversão, *nas coisas de que agora vos envergonhais*, depois da conversão? Por isso, perguntando assim, investe contra eles, para mais os afastar da servidão do pecado. Do fruto temporal do pecado pergunto só isto; pois quanto ao fim delas é bastante claro: *o fim delas é a morte*, isto é, no fim da vida a condenação eterna os absorve. Feitos servos do pecado, nenhum fruto tivestes, mas agora, *libertados* pela graça *do pecado, feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto*, isto é, digno da fé recebida; fruto, digo, que tende *para a santificação*, isto é, para a plenitude da justiça; os ímpios têm a morte, mas vós tendes por fim *a vida eterna*. Na verdade a morte é o fim deles; pois *o salário do pecado é a morte*, isto é, o pecado ministra esta paga, isto é, a morte: salário diz-se aquilo que o tribuno ou o pretor, pesada a recompensa do soldado, lhe ministra no exército. A morte vem do pecado, mas *a vida eterna vem da graça de Deus*; embora haja ali algum mérito, a primeira justificação foi, contudo, somente da graça; e a direção da vida que se segue é, pela mesma graça, remunerada muito mais do que mereceu. A graça dá a vida eterna; e isto *em Cristo Jesus, nosso Senhor*, isto é, por Jesus Cristo, nosso Senhor.

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# Capítulo 7

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Ou ignorais, irmãos (pois falo a quem conhece a lei), que a lei tem domínio sobre o homem enquanto ele vive? Pois a mulher casada está ligada pela lei ao marido enquanto ele vive; se, porém, o marido morrer, fica livre da lei do marido. Portanto, vivendo o marido, será chamada adúltera se estiver com outro homem; se, porém, o marido morrer, fica livre da lei do marido, de modo que não é adúltera se estiver com outro homem. Assim também vós, meus irmãos, fostes mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dos mortos, a fim de frutificarmos para Deus. Pois, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que se manifestavam pela lei, operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. Mas agora fomos libertados da lei da morte, na qual estávamos presos, de modo que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra. Que diremos, então? A lei é pecado? De modo algum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; pois não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás (Ex 20,17; Dt 5,21). Mas o pecado, tomando ocasião do mandamento, produziu em mim toda concupiscência. Pois sem a lei o pecado estava morto. Eu outrora vivia sem a lei. Mas, vindo o mandamento, o pecado reviveu; e eu morri; e o mandamento, que era para a vida, achei que era para a morte. Pois o pecado, tomando ocasião do mandamento, seduziu-me e por ele me matou. Assim, a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. O que é bom tornou-se, pois, morte para mim? De modo algum. Mas o pecado, para que se manifeste como pecado, por meio do que é bom produziu em mim a morte; a fim de que o pecado, pelo mandamento, se torne excessivamente pecaminoso. Sabemos, com efeito, que a lei é espiritual; eu, porém, sou carnal, vendido ao pecado. Pois o que faço, não o entendo. Pois não faço o bem que quero; mas o mal que odeio, esse faço. Se, porém, faço o que não quero, concordo com a lei, reconhecendo que é boa. Mas agora já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim. Pois sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem. Porque o querer está ao meu alcance, mas o realizar o bem, não o encontro. Pois não faço o bem que quero; mas o mal que não quero, esse pratico. Se, porém, faço o que não quero, já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim. Encontro, pois, esta lei: quando quero fazer o bem, o mal está ao meu lado; pois me deleito na lei de Deus segundo o homem interior; mas vejo nos meus membros outra lei, que luta contra a lei da minha mente e me torna cativo da lei do pecado que está nos meus membros. Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim, pois, eu mesmo sirvo com a mente à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.

## Comentário

Porque acima havia provado suficientemente que deviam sujeitar-se à graça e que se devia servir a Deus, para que agora não julgassem dever servir a Deus nas coisas legais (julgavam ser pecado, com efeito, se mesmo no tempo da graça omitissem as coisas legais), prova Paulo que já não se deve servir nas coisas legais, as quais, se as abandonam, não há pecado; se as praticam, são réus: não se deve, com efeito, reter a sombra depois que veio a verdade, e, expulsando a lei carnal, liga-os à lei espiritual. O texto liga-se assim: só por Cristo Jesus há a vida eterna; pois pela lei não; porque *ou ignorais, irmãos* — (para mais excitar ao entendimento desta coisa, chama-os irmãos e pergunta); nem devéis ignorar, pois *falo a quem conhece a lei*, porque, se bem consultardes, achareis o mesmo — *ou ignorais*, digo, que qualquer lei que seja posta *tem domínio sobre o homem*, não sempre, mas *enquanto vive* a lei nesse homem, ou o homem sob essa lei? Como se em alguma cidade se pusesse algum preceito até determinados anos: quem, dentro desses anos, não atendesse ao preceito posto seria réu de transgressão da lei posta; quem, porém, findos os anos determinados, agisse contra a lei posta, não seria réu por isso, porque o tempo da mesma lei já teria passado: assim também a respeito da lei dos judeus, quem não a observasse desde o tempo de Moisés até o tempo de Cristo seria réu; mas, depois que veio a graça, já passou o tempo dessa lei e assim não é réu quem a abandona.

Na verdade a lei posta domina enquanto o homem vive sob a lei, ou a lei nele; pois esta é a lei conjugal: *a mulher que está sob o marido*, unida em modo marital, *está ligada à lei do marido* enquanto ele vive; mas, *se o marido morrer, a mulher fica livre da lei do marido*. Visto que a mulher, vivendo o marido, está ligada a ele: portanto, se, vivo seu marido, tiver relação com outro homem, será chamada adúltera; mas, se seu marido morrer, *fica livre da lei do marido, de modo que*, se estiver unida a outro homem, já não seja julgada adúltera. E assim, isto é, por razão semelhante, *meus irmãos, vós fostes mortos* para a lei antiga, que foi dada apenas até a vinda de Cristo: mortos, digo, *pelo corpo de Cristo*, isto é, por Cristo que veio, que foi o corpo, isto é, a verdade da própria lei, da qual corpo a lei foi sombra; e não mortos para ficardes viúvos, mas para que doravante *sejais de outro*, a saber, *daquele que ressuscitou dos mortos*, o que o torna bastante recomendável a vós. Ressuscitou para que por Ele *frutifiquemos para Deus*, isto é, pela graça, para a honra de Deus. E agora, finalmente, é lícito dar fruto sob a graça, porque, *quando estávamos na carne*, isto é, detidos na carnalidade, então *as paixões dos pecados*, isto é, os maus desejos, que embora o homem sensual os desejasse, o racional julgava, contudo, serem paixões; as quais paixões eram conhecidas *pela lei* e aumentadas pelo delito da prevaricação, *operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte*, isto é, para produzirem o fruto da condenação; mas agora, depois que veio a graça, *fomos libertados da lei* antiga, que era para nós *lei da morte*, na qual morte do pecado éramos retidos e não podíamos levantar-nos com o auxílio da lei. Fomos libertados, diz, da lei carnal, *de modo que* (isto é, por isso) doravante *sirvamos em novidade de espírito*, isto é, renovando-nos espiritualmente cada dia ao obrar bem, conforme aquilo: «Renovai-vos no espírito de vossa mente» (Ef 4,23); *e não mais sirvamos na velhice da letra*, aderindo ao entendimento literal, como costuma a velhice.

Porque dissera acima que os judeus estavam mortos para a lei antiga e que não se devia voltar a ela, porque as paixões dos pecados eram *pela lei* e por ela frutificavam para a morte, chamara-a também lei da morte; para que os judeus não julgassem mal que Paulo entendesse isto como se a lei fosse causa eficiente do pecado e compelisse a pecar, prova que a lei, quanto está nela, é boa; que os judeus pecassem mais sob a lei, isto fazia a natureza corrompida, e não a lei. O texto liga-se assim: visto que pela lei frutificávamos para a morte,

*que diremos, pois?* Diremos que a lei é pecado, isto é, causa eficiente do pecado e compelindo a pecar? *De modo algum* que digamos que a lei é pecado; porque, se o disséssemos, provaríamos que a lei é injusta e arguiríamos de injustiça a Deus, doador da lei, que teria dado uma lei que compele ao pecado. Pela lei não há pecado, mas o bem, pois é o conhecimento do pecado; *não conheci o pecado senão pela lei*. Antes da lei houve certamente conhecimento do pecado, quando o copeiro e o padeiro do Faraó foram postos no cárcere por causa de pecado; mas diz que pela lei foi conhecido o pecado, porque o original era ignorado por quase todos antes da lei, e muitos atuais não se sabiam ser pecado, como a concupiscência, de que acrescenta; também a pena infernal, que se segue aos pecados, não era assim conhecida, nem o prêmio futuro dos que não pecam; julgavam, com efeito, que todos permaneceriam no inferno, embora com dessemelhança de penas: mas pela lei foi conhecido o original, foram conhecidos também muitos atuais antes desconhecidos; e mesmo os que eram conhecidos não se criam tão graves: foi conhecida também a condenação futura pelos pecados. E por isso diz: pela lei conheci o pecado, tanto o original quanto os atuais, quão graves eram, e a pena futura por eles.

Na verdade pela lei conheci o pecado; *pois não conheceria a concupiscência*, que não sabia ser pecado, *se a lei não dissesse: Não cobiçarás*. A lei é certamente boa, porque dá o conhecimento do pecado; mas, contudo, pela lei nada de bom, mas todo mal tive, embora não por culpa da lei; o que diz equivalentemente: embora a lei seja boa, *o pecado*, isto é, a natureza corrompida, ou o diabo que instiga, *produziu em mim toda concupiscência*, isto é, na vontade, no ato, no costume de pecar; isto, diz, produziu o pecado, *tomando ocasião do mandamento*, isto é, da lei mandada aos homens; tomando, diz, ocasião, isto é, oportunidade da lei, seja porque a fragilidade humana mais tendia ao proibido, seja porque o diabo, recebida a lei, mais fervorosamente insultava o homem, vendo que a lei dada seria certo degrau para o homem voltar à salvação, o qual antes, possuindo em pacífico direito, negligenciava inquietar.

Deve-se notar também que chama pecado à natureza corrompida; há, com efeito, em cada um o homem sensual e o espiritual: sensual chama-se aquela parte da alma, com o corpo, que dá sensibilidade ao corpo e que é de tal modo oprimida pelo peso da carne que, por cada sentido, se congratula com o prazer, amando o suave ao paladar, o canoro à audição, o deleitável à vista, o agradável ao tato, o bem cheiroso ao olfato. A outra parte da alma, que não é assim oprimida pela carne e aqui se chama racionalidade, contradiz a sensualidade e naturalmente deseja o que é bom. Na verdade o pecado produziu em mim o mal pelo mandamento; *pois sem a lei o pecado estava morto*, isto é, a natureza corrompida, enquanto menos era combatida pelo diabo, menos desejava o pecado, porque não era proibido. O pecado estava então morto, *eu, porém, vivia*, isto é, parecia-me viver, *outrora sem a lei*; porque também conhecia menos, nem desejava tanto o pecado, nem o diabo ardia tanto. Antes da lei o pecado estava morto; *mas, vindo o mandamento, o pecado reviveu*, o que estava morto, isto é, a natureza corrompida retomou as forças, incitando mais o diabo e, como é vício da fragilidade humana, desejando mais o proibido. Reviveu, diz, porque no princípio havia vivido, e o original fora conhecido quando ainda era recente.

Vindo o mandamento, reviveu o pecado; *eu, porém, morri*, feito réu não só dos anteriores, mas também da prevaricação da lei dada; e visto que pela lei reviveu o pecado e eu morri, portanto *o mandamento que me fora dado para a vida*, segundo a intenção do doador, esse mandamento já não para a vida, mas, invertido, *achei que era para a morte*; não porque me compelisse ao pecado, mas porque foi causa sem a qual nem seria réu de prevaricação, e causa por que o diabo mais insurgia, contra o que a lei não ajudava, mas, preceituando, impedia. Diz com acerto: *achei*; não fora posto, com efeito, o mandamento para a morte.

Prova que o mandamento lhe foi para a morte, não, porém, por culpa da lei, mas por vício da natureza corrompida que compele, dizendo: na verdade o mandamento foi achado para a morte; *pois o pecado*, isto é, a sensualidade corrompida ou o diabo, *tomando ocasião*, seja porque a sugestão do prazer ao pecado é mais veemente quando há proibição, seja porque o diabo mais ardentemente insistia; assim, *tomada a oportunidade pelo mandamento, seduziu-me*, para que consentisse ao pecado, *e por ele me matou*, precipitando-me no ato do pecado; e visto que o mandamento era para a vida, por culpa do pecado foi invertido para a morte. Portanto *a lei é santa*, isto é, os preceitos da lei são santos, *e o mandamento*, isto é, a obra dos preceitos, como jejuar, dar esmola, *este mandamento*, diz, *santo*, isto é, sancionado e firmado no bem; é também *justo*, guardando a equidade para com o próximo; é também *bom*, isto é, útil a quem o cumpre.

Agora provou suficientemente que a lei é boa em si; mas dir-se-ia o judeu: não me importa se a lei é boa, já que me é causa de condenação. Contra isso Paulo prova que pela lei ninguém é condenado, mas antes nutrido no bem; a natureza corrompida, porém, é que é a causa que compele ao pecado; por isso diz: visto que o mandamento é santo, *o que é bom* em si deve-se crer *que se me tornou morte*, isto é, causa que me compele à morte? *De modo algum* que o que é bom seja causa que produz o mal: o mandamento, que é bom, não se me tornou morte, mas *o pecado*, isto é, a natureza corrompida, ou o diabo que instiga ao pecado; *para que se manifeste*, digo, isto é, para que seja conhecido como pecado, *por meio do que é bom produziu em mim a morte*, isto é, tomada a ocasião da lei que é boa, forçou-me a pecar mais, e mesmo a prevaricar, o que antes não existia; produziu, diz, por meio do bem, *a fim de que o pecado se torne excessivamente pecaminoso* agora na lei, acima do modo anterior, isto é, antes que a lei fosse dada, *pelo mandamento*, isto é, pecando mais pela prevaricação do mandamento.

Na verdade a lei não produziu a morte, mas o pecado; pois nós *sabemos*, por autoridade que tem força, *sabemos* certamente *que a lei é espiritual*, isto é, ou dada pelo Espírito Santo ou nutrindo o espírito do homem; se algum dos dois for verdade, é claro que não é causa de morte. A lei é espiritual, *eu, porém, sou carnal*, isto é, aderente à carnalidade, *vendido*, a quem o primeiro pai vendeu pelo gosto do fruto; e não de modo a estar apenas no pecado, mas também *sob o pecado*; porque, embora queira e trabalhe longamente, por mim, contudo, não posso levantar-me. Aqui começa a mostrar que a lei e o homem racional concordam na vontade do bem, mas são, contudo, superados por aquele terceiro, isto é, pela natureza corrompida.

E isto da racionalidade, que seja boa e queira o bem, prova convenientemente; pois, assim como, se a lei fosse má, o doador da lei seria por isso vituperado, assim também, se a razão natural fosse adversa ao bem, com justiça quem deu a razão seria caluniado pelo mal da razão: na verdade estou sob o pecado; pois *o que eu opero*, seja deixando o bem, o que é certamente obrar o mal, seja fazendo o mal; o que, digo, opero eu sensual, *não o entendo*, eu racional, que se deva operar. Na verdade opero, deixando o bem, que entendo que se deve operar; *não faço, com efeito, o bem que quero* eu racional: e realmente opero fazendo o mal, que entendo que não se deve operar; pois eu carnal faço *o que odeio* eu racional. E agora, porque a lei é espiritual e boa, e a minha racionalidade quer o bem com a lei, daí aparece que a lei e a razão sentem juntas, embora a carnalidade prevaleça. Faço, diz, o que odeio, isto é, o que não quero; *se, porém, faço o que não quero*, eu racional, o que faço carnal, *eis que já concordo com a lei*, isto é, querendo o mesmo, sou testemunha em favor da lei de que é boa. Visto que eu racional não quero o que faço carnal; portanto *agora* (esse "agora" é ilativo) eu racional *já não sou eu que o faço*, o que opera a carne contra a minha vontade, *mas o pecado*, isto é, o fomes do pecado, *que habita em mim*, isto é, permanece assiduamente em mim carnal.

E na verdade o pecado habita em mim, porque o bem não habita em mim; o que diz assim: *sei, com efeito, que em mim não habita o bem*, isto é, *em minha carne*, isto é, em mim carnal. E prova-o: realmente o bem não habita em minha carne, nem pela vontade nem pelo ato: pela vontade, não habita; pois *o querer está ao meu alcance*, a mim carnal, isto é, de certo modo se aproxima da carne (ninguém, com efeito, é tão ímpio que alguma vez, ao menos, não queira o bem); se está ao alcance, então não habita em mim. O querer o bem está ao alcance; mas *realizar* esse bem de modo algum o encontro em minha carne. Na verdade realizar o bem não está em mim carnal; pois *eu carnal não faço o bem que quero* racional. *Mas pratico*, carnal, *o mal que não quero*, racional. Ou de outro modo: na verdade não encontro em mim o realizar o bem por inteiro; pois nem mesmo faço o bem que reconheço ser bom e por isso quero fazer; mas nem todos os bens me são conhecidos.

Do que disse acima para provar outra coisa, *não faço o bem que quero*, provado isto de novo por outro modo, infere dizendo: visto que eu racional não quero o mal que faço carnal, portanto eu racional *já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim*, isto é, a corrupção da natureza, que pecado habita em mim carnal, opera esse mal. Repete o ponto de onde infere: *se faço o que não quero*. Visto que eu racional não quero o mal, e a lei (como foi provado) igualmente não quer o mal, portanto eu racional *encontro esta lei*, que ela é boa, isto é, útil a mim racional *que quero fazer o bem*. A lei que ensina o bem e a razão que quer o bem encontram-se mutuamente, consentindo no bem. A mim que quero fazer o bem, e não o faço, digo bem, *porque o mal da carnalidade está ao meu lado*, racional; e por isso não consigo realizar o bem que quero. Nota que Paulo figuradamente fala de todos sob a sua pessoa, assumindo a pessoa ora anterior à lei, ora na lei. Na verdade encontro o bem em mim; *pois me deleito na lei de Deus*, porque ela quer o bem e eu com ela; deleito-me, digo, *segundo o homem interior*, porque o homem interior racional quer, sim, o bem, embora não possa operá-lo.

Como agora disse que a lei e a racionalidade querem o bem, mostra que ambas são superadas por um terceiro, isto é, pela carnalidade, e que esse terceiro deve ser superado pela graça; e isto faz com muita pertinência: pois, ao mostrar que a lei é deprimida pela carnalidade e que os que estiveram sob a lei nada fizeram de bom senão pela graça, insinua claramente por isso que os judeus devem sujeitar-se inteiramente à graça de Deus, e não mais à lei; e, por outro lado, ao dizer que a racionalidade, embora quisesse o bem, sucumbiu, contudo, à carnalidade, deprime os gentios, para que não se ensoberbeçam do livre-arbítrio, e assim sujeita todos à graça de Deus: embora segundo o interior me deleite na lei de Deus, *vejo, contudo, outra lei em meus membros*, isto é, em minha carnalidade (chama lei porque, assim como a razão dita fazer o que é bom, assim a sensualidade, o que é mau); lei dos membros, digo, *que luta contra a lei de minha mente*, isto é, contra os bens que a razão aconselha; e não só luta, mas também *me torna cativo da lei do pecado*, para que opere o que a sensualidade corrompida dita; *lei do pecado que está em meus membros*, isto é, difundida em cada sentido. E visto que a lei dos membros me conduz cativo ao pecado, portanto eu racional *sou infeliz*, porque sou *homem*, isto é, porque sou deprimido pela carnalidade; e a mim infeliz, *quem me libertará deste corpo de morte*, isto é, da morte dos pecados, que estão em meu corpo? Ou então, *deste corpo de morte*, isto é, de toda esta massa de pecados que conduzem à morte. A lei não pode libertar a mim judeu, nem a razão natural a mim gentio; como estas faltam em ambos, sei a minha libertação: *a graça de Deus*, dada *por Jesus Cristo, nosso Senhor*. Esta certamente me libertará, e por isso vós, judeus, sujeitai-vos à graça eficaz, e não à lei impotente; vós, por outro lado, gentios, à graça de Deus, e não à razão debilitada.

Deve-se considerar que o querer o bem é duplo no homem: um, segundo a razão natural, que, deprimida pela corrupção do pecado, não basta para operar o bem que quer; outro querer, segundo a inspiração do Espírito Santo, pelo qual o fomes do pecado é deprimido, para que possamos operar o bem. O querer da razão natural era aquele de que dizia acima: *não faço o bem que quero*.

Dissera acima que o homem interior e a lei se deleitam no bem somente pela vontade, não pelo ato, porque contra esses dois se robustecia o fomes do pecado, combatendo a lei e a razão; mas, depois que Deus mostrou que ambos os bens, o da lei e o da razão, faltam ao homem, deu por fim a sua graça, que fortaleceu o livre-arbítrio, de modo que agora, se quiser, o homem possa operar o bem e coibir bem o fomes do pecado. Que Deus, pela graça, não tenha separado inteiramente do fomes do pecado o homem redimido teve esta causa: porque deixou ao homem o mérito; se, com efeito, o homem não pecasse somente por necessidade, porque não poderia, não haveria mérito pelo qual devesse ser salvo; mas, para que houvesse lugar de merecer, deixou o fomes do pecado resistente, porém debilitado e, se o homem quiser, sujeito à razão. Que, por outro lado, o homem redimido do pecado não tenha sido restituído em tanta dignidade quanta tinha Adão quando caiu, foi feito para que o homem, ensoberbecendo-se de tão súbita e tamanha felicidade, não caísse de novo irreparavelmente;

por isso, para memória do pecado e guarda da humildade, foi oportunamente deixada a pena do pecado, a fim de que também por isso se mostre a força do Espírito Santo, com cujo auxílio o homem racional submete a si o carnal, a quem esteve sujeito enquanto esteve sem a graça. O texto liga-se assim: visto que a graça de Deus, dada por Jesus Cristo, me libertou, portanto *eu mesmo*, que antes da graça estava sujeito à carnalidade, agora, podendo operar o que de bom queria, não só quero, mas também *sirvo com a mente*, isto é, tenho o poder, conforme a razão aconselha, de servir à lei de Deus obrando bem; e não de modo tal que o fomes do pecado esteja inteiramente destruído em mim, mas tenho o poder de *servir com a carne*, isto é, segundo a carnalidade, *à lei do pecado*. Nisto também assinala o maior milagre: que o fomes do pecado, contra o qual antes nada podia a razão, agora esteja sujeito à razão, se o homem quiser.

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# Capítulo 8

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Portanto, nenhuma condenação há agora para os que estão em Cristo Jesus, os que não andam segundo a carne. Pois a lei do espírito de vida, em Cristo Jesus, libertou-me da lei do pecado e da morte. Com efeito, o que era impossível à lei, enquanto enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu Filho em semelhança de carne de pecado, e por causa do pecado condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça da lei fosse cumprida em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito. Pois os que vivem segundo a carne cuidam das coisas da carne; os que vivem segundo o espírito, das coisas do espírito. Porque a prudência da carne é morte; a prudência do espírito, porém, é vida e paz. Pois a sabedoria da carne é inimiga de Deus; não se submete à lei de Deus, nem o pode. Os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele. Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justificação. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por causa de seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis; se, porém, pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Com efeito, não recebestes o espírito de servidão, para estardes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: Abba (Pai). O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Se filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se é que sofremos com ele para sermos também com ele glorificados. Julgo, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não são dignos de comparação com a glória futura que se há de revelar em nós. Pois a ansiosa expectativa da criatura aguarda a revelação dos filhos de Deus. A criatura, com efeito, foi sujeita à vaidade, não de bom grado, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança; porque também a própria criatura será libertada da servidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Sabemos, com efeito, que toda a criatura geme e sofre dores de parto até agora. E não só ela, mas também nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção de nosso corpo. Pois fomos salvos em esperança. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o esperaria? Se, porém, esperamos o que não vemos, aguardamo-lo com perseverança. Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza; pois não sabemos o que devemos pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que perscruta os corações sabe qual é o desejo do Espírito; porque ele intercede pelos santos segundo Deus. Sabemos, porém, que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, dos que, segundo o seu desígnio, são chamados santos. Pois os que ele previu, também os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, a esses também chamou; e os que chamou, a esses também justificou; e os que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, a respeito disto? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria também com ele todas as coisas? Quem acusará os eleitos de Deus? Deus é quem os justifica; quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, que está à direita de Deus, e que também intercede por nós. Quem, pois, nos separará da caridade de Cristo? A tribulação? A angústia? A fome? A nudez? O perigo? A perseguição? A espada? (Como está escrito: Por tua causa somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro) (Sl 43,23). Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores por aquele que nos amou. Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem as Virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a fortaleza, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura alguma poderá separar-nos da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

## Comentário

Visto que posso servir à lei de Deus com a mente, portanto, agora, no tempo da graça, *nenhuma condenação resta* àqueles que *estão em Cristo Jesus*, isto é, que renasceram na fé de Cristo; não porque às vezes sejam bons e às vezes deixem de agir mal, mas porque estão de tal modo *em Cristo Jesus* que *não andam segundo a carne*, isto é, não se comprazem nos males, seguindo a carnalidade. Diz oportunamente *andar*, afastando outra coisa: é impossível, com efeito, não fazer às vezes as coisas da carne; por isso não disse "os que estão segundo a carne", mas *os que andam*, isto é, os que não se arrependem do mal, mas, acostumando-se, se deleitam nele.

Na verdade nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus; pois *a lei do espírito*, isto é, ou a que o Espírito Santo dita, ou a própria racionalidade; do espírito, digo, do doador da vida, isto é, que dá viver aqui nas virtudes, de onde provém também a vida eterna; da vida, digo, tida *em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo Jesus, *libertou-me da lei do pecado*, isto é, do fomes do pecado, *e da morte*, isto é, do ato do fomes do pecado, para que não praticasse o que o fomes mal aconselha. Na verdade fui libertado da lei do pecado; pois pelo Filho de Deus: Deus, com efeito, enviou seu Filho; não que o Filho estivesse ausente de algum lugar, mas porque Ele, invisível por natureza, tornou-se visível pela carne unida a si, diz-se enviado segundo o nosso conhecimento. Enviou certamente Deus seu Filho, não em carne de pecado, mas *em semelhança de carne de pecado*, isto é, em carne semelhante à carne pecadora: Cristo, com efeito, suportou toda a matéria da carne, exceto o pecado. E pelo Filho enviado *condenou o pecado*, isto é, o fomes do pecado, que estava em nossa carne, *por causa do pecado*, isto é, pelo Filho, que foi vítima oferecida pelos pecados de todos; por isso Cristo também foi chamado pecado: a vítima oferecida pelo pecado, com efeito, chamava-se pecado, ou *pelo pecado*. Ou assim: condenou o pecado, isto é, Satanás, *por causa do pecado* que o diabo cometeu na carne de Cristo; o diabo, com efeito, tinha direito sobre todo homem por causa do pecado original; do qual, porque Cristo não era réu (não nasceu, com efeito, na concupiscência da carne), usurpou contra Ele um direito indevido; por isso perdeu o direito que lhe fora concedido sobre todos, e assim, porque se apossou do que não lhe fora concedido, perdeu justamente o que lhe fora concedido.

Condenou certamente o pecado *a fim de que a justiça da lei fosse cumprida em nós*, isto é, a que a lei prefigurava e não podia cumprir em nós definitivamente; *nós que não andamos segundo a carne*, isto é, seguindo os desejos da carne, *mas segundo o espírito*, isto é, segundo o que o Espírito Santo ou a razão dita. Condenou, digo, o pecado; o que, a saber, condenar o pecado, era *impossível à lei*: a lei, com efeito, era impotente para libertar do original, *enquanto* nisto, isto é, em cumprir a justificação, *a lei se enfraquecia pela carne*, isto é, porque seguia a carnalidade. Na verdade a justificação não se cumpre naqueles que andam segundo a carne; pois os que seguem a carnalidade *cuidam*, isto é, tomam bom sabor nas coisas que são da carne. Daqui em diante, nas passagens seguintes, recomendará longamente a lei espiritual por oposição, deprimindo a carnal. Que diria alguém a respeito, se cuidam das coisas da carne? É certamente grande mal isto; pois *a prudência da carne é morte*, isto é, ocupar-se das coisas que a carne persuade é morte da alma. Naqueles que seguem o espírito cumprir-se-á a justificação da lei; pois os que são *segundo o espírito* cuidam, isto é, saboreiam e seguem *as coisas que são do espírito*. E que diria alguém a respeito? Muito, na verdade; pois *a prudência do espírito é vida*, isto é, viver aqui nas virtudes, *e paz*, isto é, tranquilidade do ânimo e sossego das tentações; nem todos, com efeito, os que vivem nas virtudes têm esta paz, mas bem poucos.

Por isso a prudência da carne é morte, porque *a sabedoria da carne é inimiga de Deus*; enquanto é inimiga de Deus, não pode viver, mas quem antepõe a Deus o bem de sua carnalidade diminui, quanto está em si, o reino de Deus, submetendo-se ao reino da carne. Na verdade a sabedoria da carne é inimiga de Deus; pois *não se submete à lei de Deus*, mas ao império da carne: *não se submete, nem o pode*, enquanto aderir à carnalidade. Por que procuro, com efeito, enumerar cada coisa, dizendo: a prudência da carne é morte e inimiga de Deus? Para compreender em poucas palavras: *os que estão na carne*, isto é, na carnalidade, enquanto aí são retidos, *não podem agradar a Deus*.

Porque acabava de dizer que os que estão na carne não podem agradar a Deus, para que por isso não atemorizasse os romanos, que, tendo recebido antes a justificação, haviam recaído em alguns pecados, acalma-os lisonjeando-os, insinuando, contudo, claramente o que devem fazer: os que estão na carne não podem agradar a Deus; *vós, porém, ó romanos, não estais na carne*, nem entendo que estejais na carne, *mas no espírito*. Declaro-vos, no entanto, no espírito com esta condição: *se o Espírito de Deus*, que recebestes no batismo, *habita*, isto é, persevera, *em vós*; *se alguém*, não digo de vós, mas quem quer que seja, *não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele*, isto é, de Deus, isto é, não tem parte com Deus. Aqui o Apóstolo mostra claramente que o Espírito procede do Filho como do Pai, quando diz Espírito de Deus e Espírito de Cristo, e que o Espírito de Deus e o Espírito de Cristo são o mesmo. *Se, porém, Cristo*, isto é, o Espírito de Cristo, *está em vós, o corpo*, vosso, *está morto*, isto é, ainda sujeito à mortalidade *por causa do pecado*, isto é, ou por causa da pena do pecado, ou para guarda, a fim de que não caiais de novo por elação: o corpo ainda está morto, *mas o espírito* vosso *vive* já *por causa da justificação*, isto é, pelas obras da justiça que exerce o justificado dos pecados. Ao dizer: se Cristo está em vós, insinua que Cristo e o Espírito Santo são o mesmo na substância da Deidade. E não só pelo Espírito que habita em vós tereis a vida do espírito, mas também *se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos*, por esta causa, porque o Espírito Santo nele habitou; se, diz, o mesmo Espírito habita em vós, *vivificará também os vossos corpos mortais*, tornados imortais pela mesma causa, a saber, *por causa de seu Espírito que habita em vós*, e que pode e vai fazer assim convosco prefigurou-o em ter já ressuscitado Jesus Cristo dentre os mortos. E se se pergunta por que Cristo foi ressuscitado incorruptível antes de todos, responde-se: porque foi concebido do Espírito Santo, porque não cometeu pecado, e porque por Ele todos hão de ter a incorrupção, era digno que antecedesse a todos no tempo e recebesse mais que todos.

Visto que Deus já vivificou a alma e vivificará o corpo, *portanto, irmãos, não somos devedores à carne*, isto é, nada devemos já à carnalidade, mas ao espírito; porque pelo espírito vivemos e ainda seremos vivificados. Devemos, sim, à carne o que lhe é necessário, como sustento e cobertura, mas não de modo a vivermos seguindo a carnalidade; *se, pois, viverdes segundo a carne*, não sereis vivificados, mas *morrereis*; *se, porém, pelo espírito fizerdes mortas as obras da carne, vivereis*, tanto aqui segundo a alma quanto no futuro segundo a incorrupção do corpo. E deveis mortificar, pois *sois conduzidos pelo Espírito de Deus*; e realmente vivereis, porque sereis filhos de Deus; o que diz assim: na verdade, se mortificardes a carne pelo espírito, vivereis; pois *todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus* (o que é mortificar as obras da carne), *esses são filhos de Deus*, e esta é a vida eterna.

Depois de ter recomendado bastante a lei do espírito, mostra quanta utilidade nos vem pelo Espírito Santo, o que já em parte mostrou acima; o que diz assim: na verdade sois filhos; *não recebestes*, com efeito, *o espírito de servidão*, de modo que sejais mais servos e sirvais *de novo no temor*; enquanto estáveis sob a lei, servíeis pelo temor das penas que a lei ameaçava; quem serve, porém, por temor da pena, evita a pena, mas não merece a glória: não recebestes certamente o espírito de servidão, *mas recebestes o Espírito de adoção de filhos*, isto é, pelo qual somos adotados como filhos de Deus; *no qual*, Espírito que nos ensina, *clamamos: Abba (Pai)*. *Abba* é hebraico e significa o mesmo que pai, ou o grego *pater*. Por isso pôs a voz hebraica e a voz dos gentios, seja grega, seja latina, para mostrar que ambos os povos, o judeu e o gentio, devem servir a Deus em novidade de espírito, e não mais na velhice da letra. Na verdade clamamos no Espírito: Abba (Pai); pois *o próprio Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito*, isto é, ensina à nossa razão *que somos filhos de Deus*; se o Espírito não o insinuasse, com efeito, não saberíamos que somos filhos de Deus. *Se, porém, somos filhos, seremos também herdeiros.*

Eis quantas utilidades nos vêm pelo Espírito: primeiro somos adotados como filhos; depois clamamos; somos também constituídos herdeiros, e não de herança vil, mas *herdeiros de Deus*, porque Deus nos distribuirá a sua herança, isto é, a suficiência de todo bem. Se perguntamos como somos herdeiros de Deus, já que é costume que o herdeiro o seja pela morte do predecessor, responde-se

que Deus de certo modo morrerá para nós na beatitude futura, segundo o que agora o vemos por espelho e em enigma, mas então o veremos face a face. *Herdeiros* seremos *de Deus, co-herdeiros de Cristo*, porque a mesma herança que Cristo, isto é, a incorrupção segundo a carne, receberemos ao nosso modo. Herdeiros, diz, de Deus, como daquele de quem é a herança e que a distribui; co-herdeiros de Cristo, como daquele que conosco tomará parte na herança.

Co-herdeiros de Cristo seremos, digo, com esta condição: *se sofremos com Cristo*, não com a intenção de louvor ou lucro temporal, mas *para sermos glorificados*, só com o desejo da glória eterna. Devemos certamente sofrer com Ele para sermos glorificados; pois *julgo* (e é verdade) *que os sofrimentos do tempo presente*, isto é, que são temporais, e *deste* tempo, isto é, tão breve, *não são dignos* de comparação para merecer *a glória futura que se há de revelar em nós*; porque nem nós mesmos, que a teremos, entendemos quão digna e grande ela é. Na verdade esta glória se revelará em nós; pois *a ansiosa expectativa da criatura*, isto é, de toda a Igreja, *aguarda a revelação dos filhos de Deus*, para que também ela seja revelada entre os filhos de Deus. Se toda a Igreja o aguarda, deve-se crer que será o que aguarda. "A expectativa aguarda" assinala frequência. Chama criatura à Igreja, pois esta é especialmente criatura de Deus, que, ao justificá-la, fez nova criatura. E porque por causa dela todos os bens foram criados, por isso a criatura, isto é, a Igreja, aguarda esta revelação, *pois foi sujeita à vaidade*, isto é, às misérias da carne, que são vãs; se agora come, daqui a pouco terá fome de novo; se bebe, terá sede de novo, e assim nas demais. E porque vê vãs todas estas coisas, por isso aguarda aquilo em que não haja variedade alguma. Foi sujeita à vaidade, *não de bom grado*, porque não quereria sofrer estas vaidades; e, embora não de bom grado, suporta, contudo, *por causa daquele que a sujeitou* a estas misérias, para que não perecesse de novo por soberba. Sujeitou-a, digo, *na esperança*, posta em esperança, para que tivesse a esperança de escapar desta vaidade; *na esperança*, digo, porque (isto é, pois) *também a própria criatura*, como Cristo, *será libertada da servidão da corrupção*, isto é, da variabilidade, transferida da servidão para *a liberdade*, da corrupção *para a glória dos filhos de Deus*.

Digo bem: não é sujeita de bom grado; pois *sabemos que toda a criatura*, isto é, a Igreja, *geme* no ânimo *e sofre dores de parto*, isto é, trabalha com o máximo esforço, operando, como a parturiente que espera o fruto do trabalho; sofre dores de parto, digo, *até agora*, porque desde o primeiro justo a Igreja esteve sempre em trabalho, até este tempo. A criatura geme certamente, *e não só ela, mas também nós mesmos*, que somos de tão grande dignidade que somos reputados até deuses; nós, digo, *que temos as primícias do Espírito*, porque na Igreja primitiva recebemos o Espírito Santo antes de todos e mais abundantemente, mais abundantemente também que os Profetas que nos precederam; não falavam, com efeito, sempre pelo Espírito Santo, porque às vezes o Espírito Santo se retirava deles, e predisseram coisas falsas, como Natã em certa ocasião e alguns outros; mas os Apóstolos nunca foram privados do Espírito Santo, uma vez recebido. Nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, que somos tão dignos, também nós mesmos somos tão frágeis que gememos como a criatura: e, para que não se julgasse que gemiam por compaixão dos súditos, e não por si, determina: *gememos*, digo, *em nosso íntimo*, isto é, oprimidos pelas tentações que nos conturbam interiormente. Primeiro nota a dignidade, depois a fragilidade. Com isso o Apóstolo muito consola a Igreja e convida à paciência, ao dizer que os Apóstolos são oprimidos pela mesma fragilidade que oprime os súditos.

Acrescenta ainda a grande consolação que têm, dizendo: gememos, digo, *aguardando a adoção de filhos de Deus*, isto é, para sermos adotados como filhos de Deus. A adoção é dupla: a primeira, pela qual Deus perdoa os pecados e justifica; a segunda, pela qual, na beatitude eterna, fazendo os santos co-herdeiros de Cristo, os remunera: desta segunda insinua Paulo que fala quando diz: adoção, digo, *a redenção de nosso corpo*, isto é, adoção na qual o nosso corpo, agora frágil, não será corrompido por mutabilidade alguma. Ao dizer *aguardando*, insinua que fala da adoção futura, não da já tida, pois a coisa já tida não a aguardamos. Deve-se crer também que Cristo assumiu corpo com alma para libertar ambos da corrupção.

Na verdade aguardamos, porque temos esperança; essa esperança tem grande mérito, pois nos faz salvos; o que diz assim: *pela esperança*, isto é, pelo mérito da esperança, porque esperamos constantemente coisa invisível e até impensável, por este mérito somos salvos e *fomos feitos salvos nesta esperança*, por outro, não por nós; nossa fragilidade, com efeito, não esperaria se não fosse fortalecida pelo Espírito Santo, porque não saberia, e assim não teria o mérito da salvação. Pela esperança fomos feitos salvos: tamanho mérito tem a verdadeira esperança; mas *aquela esperança*, isto é, a coisa esperada que se vê, já não é esperança, nem tem mérito de esperança; a esperança, com efeito, é de coisa que não se vê, como se esperamos que alguém nos dê dinheiro: o que esperamos, a saber, termos o dinheiro, ainda não o vemos, embora vejamos o próprio dinheiro; da coisa que já se tem, porém, não há esperança, mas já se tem o uso. Na verdade da coisa que se vê não há esperança; *pois o que alguém vê, como ou por que o espera?* Não se deve mais esperá-lo, mas usá-lo. Da coisa que se vê não se deve falar de esperança, mas *se esperamos o que não vemos*, temos o mérito dessa esperança; pois *aguardamo-lo com perseverança*, isto é, na espera toleramos pacientemente tudo, pelo desejo da coisa que esperamos. E esta esperança, que é de tanto mérito, se tem pelo Espírito Santo.

E não só isto nos dá o Espírito Santo, mas *também do mesmo modo*, isto é, como a esperança e, pela esperança, a paciência, assim o mesmo Espírito *vem em auxílio da nossa fraqueza*; assim como sem o Espírito Santo seríamos fracos na esperança, assim também seríamos fracos na oração, se o Espírito não nos ensinasse. Na verdade o Espírito socorre os fracos; pois *não sabemos o que devemos pedir*, como convém saber e orar, sabemos, sim, como não convém. Nós certamente não sabemos, *mas o próprio Espírito intercede*, isto é, nos faz pedir e o insinua; intercede, digo, *por nós*, isto é, ou em nosso lugar, ou por causa de nossa utilidade, *com gemidos inexprimíveis*. Diz inexprimíveis os gemidos porque os próprios contemplativos não saberiam, nem poderiam, explicar com quantos e quão grandes desejos ardem. Do que foi dito: "o Espírito intercede", alguns caíram em erros, dizendo o Espírito menor que o Pai e o Filho, porque quem pede é entendido menor que aquele a quem pede; convertendo em heresia a cortesia de Paulo; como alguém que ensinasse a outro com que modo de falar e com que palavras falar ao príncipe, e se dissesse que o instruído fala ao príncipe por aquele: assim o Espírito Santo nos instrui sobre o que e como pedir, e por nós instruídos se diz que pede, não de outro modo.

O que disse acima: não sabemos orar como convém, isto é manifesto no próprio Paulo, que orou contra a salvação para que o espírito de Satanás fosse afastado dele, dado a ele em guarda da humildade; para que, por ter sido arrebatado ao terceiro céu e ouvido o que não é lícito ao homem falar, não se ensoberbecesse; mas, pela fragilidade que o impelia, se lembrasse da pusilanimidade da carne.

O Espírito Santo nos faz esperar, nos ensina a orar e nos faz ser ouvidos; o que diz assim: o Espírito intercede; *aquele, porém, que perscruta os corações*, isto é, Deus, *sabe*, isto é, cumpre e aprova *o que o Espírito deseja*, isto é, o que o Espírito Santo nos faz desejar; sabe, portanto, porque *o Espírito intercede segundo Deus*, isto é, ensina-nos a pedir o que é bom para Deus conceder. Intercede, digo, *pelos santos*, isto é, ou em lugar ou por causa dos santos. *Perscruta* diz-se por semelhança: porque, como quem investiga com muito escrutínio conhece melhor a coisa, assim Deus, não que se afadigue em escrutar, mas como escrutador conhece, e muito melhor, os segredos dos corações.

O Espírito não só dá a esperança, insinua a oração, faz ser ouvidos, mas também tudo o que, próspero ou adverso, acontece aos santos, Ele faz com que seja para o bem. O texto liga-se assim: por nós mesmos não sabemos orar como convém, mas o sabemos pelo Espírito Santo, *porque* o mesmo Espírito *coopera em todas as coisas*, prósperas ou adversas, *para o bem*, isto é, para a utilidade dos santos; ou então: todas as coisas cooperam pelo Espírito Santo para o bem, para dizê-lo passivamente; ou em sentido ativo: todas as coisas cooperam para o bem, e de novo pelo Espírito Santo (o sentido não muda); cooperam, digo, *para os que amam a*

*Deus*, e não os que ora amam, ora pecando odeiam, mas *para estes*, isto é, para tais que amam e que foram *chamados* por Deus *segundo o seu desígnio para serem santos*. E porque nem todos os chamados são eleitos, acrescenta: chamados, digo, segundo o desígnio da presciência de Deus, que de modo algum pode ser mudado.

Na verdade foram chamados segundo o desígnio e todas as coisas cooperam para o bem deles; pois *Deus os previu* desde a eternidade como idôneos para si e dignos de eleição; e porque os previu desde a eternidade, *também os predestinou*, isto é, preparou-os no tempo oportuno. Esta preparação foi a oferta da graça e a inspiração interna. Previu, diz, e predestinou *a serem conformes*, isto é, imitadores *da imagem*, isto é, da pureza *de seu Filho*; porque neste mundo é lícito imitar o Filho de Deus apenas pela pureza, a quem no futuro os santos imitarão por maior pureza e imutabilidade. Isto dizemos da essência divina do Filho. Se por isso parecemos diversificar o Filho do Pai, porque dizemos imagem do Filho, respondemos que na substância são o mesmo em tudo, mas nas pessoas há variedade, e no fato de que o Pai é sem princípio, não de outro, ao passo que o Filho tem princípio do Pai (embora tenha estado sempre com o Pai), e assim de outro. Se, porém, aqui tratamos de Cristo segundo a humanidade, concordam com acerto as passagens seguintes, que tratam de Cristo somente segundo a carne, e diremos: sejamos conformes à imagem de seu Filho, para que, assim como Ele andou em novidade de espírito, assim também nós andemos. Conformes, porém, segundo ambos os sentidos, de modo que o próprio Filho seja *o primogênito entre muitos irmãos*, para que, assim como o filho primogênito é senhor da herança paterna e o que os outros filhos têm dela o têm por ele, assim também Cristo é Senhor nesta herança, e todos os que dela têm algo, têm tudo dele e por ele. Chama-se também primogênito dos mortos, porque foi o primeiro a ressuscitar dos mortos, mesmo assim de modo que alguns santos são cridos ter ressuscitado incorruptíveis com Ele. Os que, porém, foram ressuscitados por Cristo não ressurgiram dos mortos, porque haviam de morrer de novo.

E não só previu, mas *os que predestinou, a esses também chamou*; porque, depois de os

ter inspirado, aplicou chamadores interiormente aos preparados, cuja chamada seria em vão se o espírito não operasse interiormente. *E os que chamou, a esses também justificou*, remitindo os pecados, infundindo a graça; *e os que justificou, a esses também glorificou* no futuro, quando reinarão com Ele; ou então, "glorificou" diz-se segundo a certeza da coisa futura, e segundo alguns que já reinam com Deus, quanto às almas.

Visto que Deus previu, preparou, justificou e por fim glorificará os seus eleitos, *que diremos, pois, a respeito disto?* Há alguma coisa que possa contrariar esta disposição divina? Contra isto nada pode ser dito, porque *Deus é por nós*, e *se Deus é por nós, quem será contra nós?* Quem pode perverter, para que não se cumpra o que Deus preordenou a nosso respeito? Na verdade Deus é por nós; pois é *ele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou*, isto é, dispôs que fosse entregue à morte por todos os seus eleitos. E, tendo feito coisa tão difícil como entregar à morte por nós o Filho caro mais que todos os filhos, *como*, isto é, por que razão *não nos daria também com ele todas as coisas* que restam, juntamente com aquele Filho, a quem teve por muito mais caro que toda coisa, que nos deu no momento da morte? Não se deve crer que quem deu o Filho vá negar-nos o que é menor que o Filho.

E visto que Deus nos amou tanto a ponto de entregar o Filho por nós, *quem acusará* agora *os eleitos de Deus?* Acusar é contra o eleito dispor como seja subvertido, como Satanás, vendo Jó abundar em bens terrenos, porque julgou que Jó estava retido a eles em sua mente, tramava como, demolindo-lhe os bens, destruísse a justiça dele pela impaciência nascida da perda dos bens; mas, porque Jó era eleito, Satanás não pôde. Desde o princípio, com efeito, desde que disse: «Porei o meu trono ao Aquilão» (Is 14,13), sempre trabalhou por destruir o reino de Cristo, no qual ainda perversamente persevera. O diabo quer acusar, mas não pode; Deus pode, mas não quer; *Deus é quem os justifica*. *Quem os condenará?* Satanás quer condenar, mas não pode; Cristo poderia, mas não quer; o que é manifesto por isto: *Cristo Jesus é quem morreu* por nós; e não só isso, *mais ainda, ressuscitou*, para nos fazer ressurgir também a nós; *que está à direita de Deus*, onde também nos colocará consigo; *que também intercede por nós*, estando à direita do Pai: quem fez e faz tudo isso por nós, deve-se crer que nos condene? Diz-se que Cristo intercede não porque clame com voz, mas a humanidade assumida, que está aos olhos de Deus, sempre bate a Deus e o faz lembrar-se de cumprir aquilo por que quis que o Filho assumisse a carne; como um legado, só pela representação da pessoa de sua legação, faria lembrar-se aquele a quem fora enviado, por se lhe representar.

Visto que Deus previu, justificou, etc., *quem, pois, nos separará da caridade de Cristo*, de modo a perverter assim o desígnio de Deus? Separar-nos-á *a tribulação*, isto é, qualquer aflição da carne? *Ou a angústia*, isto é, a ansiedade do ânimo? *Ou a perseguição* de lugar em lugar? *Ou a fome?* porque muitas vezes teve fome, a ponto de lhe causar tédio viver; *ou a nudez? ou o perigo*, isto é, a ameaça de morte? *Ou a espada?* ou a própria morte? Nenhuma destas coisas nos separará, *como está escrito* no livro dos Salmos: *porque* (esse "porque" liga-se ao que segue) *por tua causa somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro* (Sl 43,22); não as que se reservam para a procriação, mas as destinadas ao matadouro, isto é, que são estéreis e são mortas. E se somos mortos por causa de ti, é certo que de ti não seremos separados; mas que importa se somos mortos? *Em todas estas coisas*, a tribulação, a angústia e as demais, *somos mais que vencedores*, por aquele, ardendo de amor por Ele, *que nos amou*. Na verdade venceremos; porque *nem a morte*, isto é, a ameaça de morte, *nem a vida*, isto é, a promessa de vida ou de glória do mundo, *nem os Anjos*, que exercem a legação de Deus, *nem os Principados*, isto é, nem aquela ordem que tem principado mesmo sobre os Anjos, *nem as Virtudes*, isto é, nem aquela ordem cujo ofício é operar milagres; ou estas coisas, se quisermos, entendemo-las dos anjos maus (entre os quais também há distinções de ofícios, pois de cada ordem alguns caíram), de modo que digamos: nem os anjos maus, cujo ofício é cumprir legações, nem os principados, que no gênero dos maus presidem aos anjos súditos; nem as virtudes, pois os espíritos maus fazem milagres; *nem as coisas presentes*, isto é, atuais, sejam prósperas ou adversas, *nem as futuras*, bens ou males deste mundo, *nem a fortaleza*, isto é, a violência de qualquer fortíssimo, *nem a altura*, isto é, a promessa de honra, ou "altura" como aquela em que o diabo se mostrou purpurado e resplandecente de diadema; *nem a profundidade*, isto é, ainda que, aberto o inferno, me ameaçasse com o precipício dele, *nem outra criatura alguma*, isto é, se fizessem uma criatura nova e nunca vista: nenhuma de todas estas coisas poderá separar-nos da *caridade de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor*.

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# Capítulo 9

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Digo a verdade em Cristo, não minto, dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo, de que tenho grande tristeza e contínua dor em meu coração; pois eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne, que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e o testamento, e a legislação, e o culto, e as promessas; dos quais são os patriarcas, e dos quais descende Cristo segundo a carne, o qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém. Não é, porém, que a palavra de Deus tenha falhado. Pois nem todos os que são de Israel são israelitas; nem todos os que são descendência de Abraão são filhos de Abraão: Mas em Isaac será chamada a tua descendência (Gn 21,12); isto é, não os filhos da carne são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Pois esta é a palavra da promessa: Por este tempo virei, e Sara terá um filho (Gn 18,10). E não só ela, mas também Rebeca, que concebeu de um só, de Isaac, nosso pai. Pois, antes que os gêmeos nascessem, ou tivessem feito algum bem ou mal (para que permanecesse o propósito de Deus segundo a eleição), não pelas obras, mas por aquele que chama, lhe foi dito: O maior servirá ao menor (Gn 25,23), como está escrito: «Amei Jacó, mas odiei Esaú» (Ml 1,2-3). Que diremos, então? Há injustiça em Deus? De modo algum. Pois diz a Moisés: Terei misericórdia de quem tiver misericórdia, e usarei de compaixão para com quem me compadecer (Ex 33,19). Portanto, isso não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que tem misericórdia. Com efeito, diz a Escritura ao Faraó: Para isto mesmo te suscitei, para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra (Ex 9,16). Logo, tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer. Dir-me-ás, então: Por que ainda se queixa? Pois quem resiste à sua vontade? Ó homem, quem és tu para replicares a Deus? Porventura a obra moldada dirá ao que a moldou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para desonra? E que, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição, para dar a conhecer as riquezas de sua glória nos vasos de misericórdia, que preparou para a glória? A nós, que também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios, como diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada; e que alcançou misericórdia à que não havia alcançado misericórdia (Os 2,23-24). E acontecerá que, no lugar onde lhes foi dito: Vós não sois meu povo, ali serão chamados filhos do Deus vivo. Isaías, porém, clama a respeito de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o resto será salvo (Is 10,22). Porque o Senhor executará a sua palavra, consumando-a e abreviando-a em justiça; porque o Senhor fará uma palavra abreviada sobre a terra. E como predisse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, teríamos sido como Sodoma, e semelhantes a Gomorra (Is 1,9). Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, a justiça que vem da fé; Israel, porém, buscando a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como se fosse pelas obras; tropeçaram, com efeito, na pedra de tropeço, como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo; e todo aquele que nele crer não será confundido (Is 8,14).

## Comentário

Já não serei mais separado da caridade de Cristo; mas outrora fui separado, e por isso muito me doo; e quanto a isto de que me doo, *digo a verdade* posto em Cristo, em cujo corpo não é lícito mentir. Nem sou veraz em uma coisa para mentir em outra, mas em nenhuma parte minto; e não só Cristo, mas também *a minha consciência* me dá *testemunho* de que não minto; consciência, digo, fundada *no Espírito Santo*, com o qual não daria testemunho falso. Quanto a isto, diz, digo a verdade: *porque tenho grande tristeza*, segundo a aflição do corpo, *e contínua dor em meu coração*, interiormente. Tenho dor, diz; e com razão; pois *eu mesmo*, que agora não posso ser separado, *desejava ser anátema*, isto é, separação de outros, *separado de Cristo, por amor de meus irmãos*; porque queria separar de Deus aqueles que agora são irmãos em Cristo; *que são meus parentes segundo a carne*; porque, embora a todos devamos a caridade, aos de nossa própria linhagem a devemos com mais empenho; *que são israelitas*, verdadeiros, que veem a Deus; *dos quais é a adoção de filhos*, isto é, que foram adotados como filhos de Deus; *dos quais é também a glória* dos milagres; *dos quais é também o testamento*, o Evangelho prometido; *dos quais é a legislação*, isto é, a inteligência espiritual que traz a lei; *dos quais é o culto*, isto é, o serviço de Deus; *as promessas* de salvação lhes foram feitas; *dos quais são os patriarcas*, aqueles de quem Cristo nasceu segundo a carne, o qual segundo a Deidade é Deus desde o princípio, *sobre todas as coisas*, permanecendo; Deus, digo, *bendito eternamente pelos séculos. Amém.* Por isso Paulo sofreu mais e maiores perseguições do que os outros Apóstolos, porque havia perseguido a Igreja de Cristo; o que ele mesmo afirma, dizendo: «Trabalhei mais do que todos» (1Cor 15,10); aumento de perseguição que lhe foi, contudo, para guarda da justiça e incremento da glória.

Provou suficientemente acima que nenhuma coisa poderia separar de Deus os eleitos; nas passagens seguintes, porém, quer provar que esta eleição dos filhos não se faz segundo a descendência da carne, mas pela vocação de Deus. O texto liga-se assim: eu outrora desejava ser separação dos filhos de Deus em relação a Cristo; mas, *contudo, a palavra de Deus não falhou*, isto é, embora eu enfurecesse muito contra os servos de Deus e alguns fossem subvertidos, nem por isso a palavra, isto é, a promessa de Deus, pereceu sem cumprimento, aquela pela qual prometera redimir Israel; porque, embora muitos de Israel segundo a carne tenham sido alienados da salvação, todos os verdadeiros israelitas foram eleitos, e assim se cumpriu a promessa. Na verdade, embora alguns tenham sido separados de Deus, nem por isso a palavra de Deus falhou: *pois nem todos os que são de Israel* segundo a carne devem ser chamados israelitas; no tempo de Jeroboão, com efeito, muitos judeus passaram ao culto dos ídolos e foram reputados entre os gentios, e muitas vezes o fizeram: muitos também dentre os gentios passaram aos ritos dos judeus e foram reputados entre os judeus. Nem todos os que são de Israel segundo a carne devem ser chamados israelitas; *nem todos devem ser chamados filhos*, isto é, herdeiros *de Abraão*, só porque segundo a carne são descendência de Abraão; Ismael, com efeito, foi da descendência carnal de Abraão, e contudo não foi herdeiro; por isso está escrito: «Expulsa a escrava e seu filho, pois não será herdeiro, etc.» (Gn 21,10). Assim também não chamamos filhos de Abraão os que degeneram de sua fé: é costume, com efeito, dos pais chamar filho seu àquele que imita o pai; àquele, porém, que é contrário aos feitos do pai, o pai diz que não é filho seu, embora saiba que verdadeiramente nasceu de sua carne. Nem todos os que são segundo a carne da descendência de Abraão o são; mas os que nasceram, à semelhança de Isaac, pela promessa de Deus, esses são chamados filhos de Abraão; assim o atesta a Escritura, dizendo: *em Isaac*, isto é, à semelhança de Isaac, *será chamada a tua descendência*; e isto não segundo a carne, mas *será chamada*, isto é, por vocação e promessa de Deus terás filhos, não tanto segundo a linha da carne quanto pela imitação da fé (Isaac, com efeito, nasceu não pela lei da carne, porque de pai velho e mãe estéril, cujos órgãos genitais já estavam murchos pela velhice, significou que não se devem chamar filhos de Abraão pela linha da carne), mas segundo o exemplo de Isaac, segundo a promessa de Deus.

O Apóstolo expõe o que significa isto: *em Isaac será chamada a tua descendência*, dizendo: isto que digo, que a descendência será chamada em Isaac, deve ser entendido assim: *não os filhos da carne* de Abraão *são por isso filhos de Deus*, mas *os filhos da promessa*, isto é, eleitos pela promessa, *esses são contados como descendência* de Abraão, imitadores de sua fé, assim como Isaac nasceu pela promessa: e realmente pela promessa; pois *esta é a palavra da promessa* feita acerca de Isaac, palavra que o Anjo disse a Abraão, determinando a concepção do filho prometido muito antes, dizendo: *Por este tempo virei*, isto é, depois de passado um ano, neste mesmo dia, e depois que eu tiver vindo, *Sara terá um filho* (Gn 18,10).

Segundo Ambrósio<sup>[1]</sup>, a letra acima mencionada liga-se de outro modo, muito acima, assim: eu desejava ser separação dos bons em relação a Cristo, o que fazia *por amor de meus irmãos*, isto é, por amor de meus irmãos judeus e por zelo da lei, a qual me doía julgar que os cristãos subvertiam; e não admira que fosse por meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne, e que deveriam ser verdadeiros israelitas, e dos quais é a adoção de filhos de Deus, isto é, que deveriam ser adotados como filhos de Deus, se a malícia deles não o desviasse; e a quem pertencia a glória dos oráculos de Deus confiados, e a quem era devido o testamento, isto é, o Evangelho, e dos quais era a legislação e o culto, isto é, o serviço de Deus. E as promessas lhes eram devidas, deles eram os patriarcas de quem nasceu, segundo a carne, Cristo; mas, embora estas promessas, por sua iniquidade que as impediu, não as tenham alcançado, não digo por isso que a palavra, isto é, o cumprimento da promessa de Deus, tenha falhado; porque, se nem todos os judeus segundo a carne, todos os que foram verdadeiros israelitas receberam, contudo, a promessa de Deus. A letra seguinte não muda.

Não só Sara teve esta promessa, mas também Rebeca. Oportunamente traz Rebeca, em cujos filhos é manifesto que alguém se torna bom somente pela eleição de Deus; pois, se não há, pela linhagem, causa por que Jacó seja eleito mais que Esaú, na eleição ou reprovação dos quais nenhum mérito de pais nem de filhos precedeu: e por isso, por Rebeca prova mais claramente que se tornam filhos de Abraão segundo a promessa do que por Sara, que só teve um eleito. Rebeca recebeu, certamente, a promessa, *tendo concebido de um só e mesmo concúbito, de Isaac, nosso pai*. Para que se saiba que os méritos dos pais não aproveitaram a Jacó nem prejudicaram a Esaú, determina que foram gerados do mesmo concúbito, para que, se (como querem alguns naturalistas) tivessem sido gerados em tempos diversos, não se julgasse que os pais eram gratos a Deus quando geraram Jacó e ingratos quando geraram Esaú.

Como dos pais, assim também exclui os méritos dos filhos, dizendo: Rebeca teve certamente a promessa; pois lhe foi dito: *O maior servirá ao menor*; mas, antes de dizer a promessa, exclui oportunamente os méritos dos filhos com os méritos dos pais, para que conste que toda eleição é primeira e principalmente da graça de Deus, dizendo: Rebeca teve filhos que *ainda não haviam nascido*; com isto exclui os méritos dos filhos; mas, porque se diz que lutavam no ventre da mãe, para que não se julgasse que ali podiam ter merecido, determinando isto diz: *ou tivessem feito algum bem ou mal*, pelo qual este devesse ser eleito, este reprovado: por isso, antes que praticassem bem ou mal, foi dito, *para que permanecesse o propósito*, isto é, a predestinação de Deus, pela qual elegia a um e reprovava a outro, isto é, para que se comprovasse que permanecia, *segundo a eleição* de Deus; eleição que não foi feita *pelas obras*, isto é, porque Jacó houvesse obrado bem, mas somente *por aquele que chama*, isto é, pela graça e beneplácito de Deus que chama. Isto, certamente, foi dito: *porque*, isto é, que *o maior servirá ao menor*. Não se diz servirá porque Esaú tenha alguma vez servido a Jacó, mas na maioria das vezes dominou-o, como quem era mais forte na terra; e por isso se deve entender assim: *o maior servirá*, isto é, será útil ao menor; quanto mais, com efeito, Esaú perseguia Jacó, tanto mais crescia o mérito da paciência no paciente; e assim foi dito no Gênesis: «O maior servirá ao menor» (Gn 25,23). Isto foi dito a Rebeca antes que os meninos nascessem; o que foi dito, *como está escrito*, por Malaquias dos mesmos, muito depois de sua morte; isto foi escrito: *Amei Jacó* (Ml 1,2), e por isto principalmente o elegi; *Esaú, porém, odiei*, reprovei; o ódio de Deus, com efeito, não é senão retirar por equidade a graça. Oportunamente, como pôs o testemunho do que precede para excluir que os méritos deles tivessem precedido, assim pôs também o testemunho do que se segue, para mostrar que o mérito posterior de Jacó teria sido insuficiente e que ele teria sido por si inteiramente indigno da graça de Deus; e por isso consta que foi eleito por misericórdia, para mostrar também que a graça foi justamente negada a Esaú, porque não iria cooperar com a graça.

Pergunta-se por que Jacó foi eleito e Esaú reprovado, sem que em nenhum dos dois tenha precedido mérito de bem ou de mal; qual foi a causa da eleição de um e da reprovação do outro? A isto responde-se que Jacó foi eleito por misericórdia, Esaú reprovado segundo a justiça; Deus, com efeito, quando criou o homem pela primeira vez, assinalou-o com múltipla graça, a qual, porque ele a repeliu de si pecando, tornou-se indigno da graça de Deus; e desde então Deus nada deve ao homem, e assim não resta ao homem do que possa justamente queixar-se, se é destituído da graça de Deus.

E se de novo se pergunta: como ambos poderiam ser reprovados por justiça por causa do original, e nenhum mérito foi achado em ambos pelo qual a este assim fosse dada a graça e a aquele negada, por que Jacó foi eleito mais que Esaú? A isto responde-se: porque Deus previu que Jacó seria idôneo e cooperaria com a graça, e Esaú não idôneo, porque não cooperaria; por isso a um concedeu misericordiosamente o que do outro alienou justamente por causa do original: o que se considera com bastante clareza em Judas, que, embora Deus soubesse com certeza que pereceria, permitiu-lhe, contudo, a graça dos milagres como aos outros Apóstolos, quando já era ladrão e tinha a bolsa; não porém sem saber que ele era irrevogável do mal, mas para nos comprovar por este que justamente nega a alguns toda graça, como às crianças que morrem logo sem batismo, às quais nega toda graça porque, se tivessem tempo de operar e lhes fosse concedida a graça, abusariam dela e assim seriam punidas muito mais gravemente por causa da graça, ao passo que, se cooperassem com ela, seriam salvas. Para que Deus tornasse isto notório, deu graça a alguns, dos quais não duvidava de que abusariam dela, mas para que tivéssemos também diante dos olhos

que Ele nega justamente a alguns toda a graça. Ainda outra coisa: quando Deus criou todas as coisas, algumas constituiu necessárias, como o nascer do sol e semelhantes, outras voluntárias, como o homem e o Anjo; Deus, porém, elege um por misericórdia como reprova outro por justiça, de modo, contudo, a não destruir neles a faculdade voluntária; porque, embora tenha munido muitos santos neste século de múltipla graça, não os coagiu, contudo, a que obrassem o bem por necessidade, nem a que não pudessem declinar para o mal se quisessem, mas ajudou-os pela graça, porque viu que cooperariam com a graça. Ao contrário, não retirou de Judas a graça de modo que, retirada a graça, o impelisse, quisesse ou não, a operar a iniquidade, mas para que aparecesse o que a iniquidade pode por si; se, com efeito, a graça dada ou negada fosse compelente e necessária, não restaria mais ao homem o mérito da salvação ou da condenação.

Visto que Jacó é eleito sem mérito precedente e Esaú igualmente é reprovado sem mérito, *que diremos, então? Há injustiça em Deus*, que elege Jacó sem mérito e reprova Esaú igualmente sem mérito? *De modo algum* que por isso se diga que Deus é injusto! Na verdade, na eleição de Jacó e na reprovação de Esaú Deus não é injusto; porque, elegendo este, é misericordioso, reprovando aquele, é justo.

Da justiça trata mais adiante, onde acrescenta sobre o Faraó; prova da misericórdia, dizendo: na verdade, porque elegeu Jacó, não é injusto, é misericordioso; *pois diz a Moisés*: de quem me compadeço na presciência, *terei misericórdia* na justificação; e de quem tiver misericórdia na justificação, a esse *usarei de compaixão* na salvação (Ex 33,19). Aqui mostra suficientemente que tudo vem da misericórdia, porque a presciência, a justificação, a salvação, tudo flui da fonte da misericórdia. Visto que tudo (como foi mostrado) se faz pela misericórdia de Deus, *portanto*, querer o bem *não depende de quem quer*, para que lhe seja atribuído, *nem* correr *de quem corre*, isto é, operar não é de quem opera, *mas de Deus que tem misericórdia*; o homem não pode nem querer nem fazer o bem, se a misericórdia de Deus não operar nele pelo Espírito Santo.

Na verdade é de Deus que tem misericórdia o querer e o realizar, porque não é de quem não tem misericórdia nem querer nem realizar (isto é, reprovar), o que se mostra claramente no Faraó; pois a Escritura diz ao Faraó no Êxodo. — Oportunamente traz o Faraó, a quem Deus propôs esta graça: que, se quisesse, pudesse obrar bem pela doutrina de Moisés; tinha Deus por certo que o Faraó nunca se arrependeria; mas para nos mostrar claramente, naquele a quem concedeu a graça da doutrina e dela abusou, que a graça foi justamente negada a Esaú antes que merecesse, e a todos aos quais assim é negada; porque, se Deus desse a graça, abusariam dela e daí seriam punidos mais gravemente: por isso Deus aplicou também ao Faraó mestres, para que os males que antes nele estavam ocultos agora se tornassem manifestos, ao resistir a Deus em tantas e tamanhas coisas e não acolher os Profetas e os milagres. — Isto, digo, a Escritura diz ao Faraó: *para isto mesmo*, que se continua no Êxodo: para isto mesmo em que estavas, isto é, estavas no mal, mas oculto, e neste mal *te suscitei*, retirando a graça, para que aparecesses mau como eras; para isto, certamente, *para mostrar em ti o meu poder*, isto é, os sinais dos milagres, que não mostraria se tu acolhesses. Mostrarei também, *para que o meu nome seja anunciado em toda a terra* (Ex 9,16), por causa dos milagres feitos no Egito; onde quer que se ouvissem os sinais do Egito, dizia-se: grande é o Deus dos hebreus. Visto que Deus por vontade elegeu Jacó e por vontade reprova Esaú, é manifesto, portanto, que *Deus tem misericórdia de quem quer*, porque vê que cooperará com a graça, *e endurece a quem quer*, porque vê que não é idôneo para a graça: endurecer, em Deus, é não aplicar a graça.

Porque disse que Deus tem misericórdia deste e endurece aquele por vontade, dizes e objetas a mim: *por que ainda se queixa* de nós para que obremos bem, nós que, reprovados, não podemos obrar bem? Ou assim: por que ainda se queixa, isto é, queixa-se Deus de nós, se ofendemos, quando, endurecidos, não podemos não ofender? Não há de que se queixe; ou então, o que exige de nós? *Pois quem resiste à sua vontade?* Quando nos endurece, parece não querer que obremos

bem, ele cuja vontade é impossível mudar. Paulo diz tudo isto porque via que os romanos se gloriavam demais da sabedoria do mundo e insistiam além da medida em questões desta espécie; por isso, para mais os reprimir, atribui assim tudo à graça de Deus, a ponto de parecer nada deixar à liberdade do arbítrio: o que, contudo, se entende com bastante conveniência, porque nem o próprio início do querer bom pode ser só de nós, se a graça de Deus não inspira; por isso diz: tu me dizes: por que ainda se queixa de nós; mas, *ó homem*, aderente à humanidade, *quem és tu para replicares a Deus*, isto é, tu que, se Deus te narrasse o mistério desta coisa, o entenderias? Ou então: quem és tu para replicares, isto é, para litigar e disputar com Deus sobre o mistério desta coisa? Não tens que replicar a Deus a este respeito, como a obra do oleiro não tem que contradizer ao oleiro; e a semelhança é apta; porque, assim como o oleiro encontra o barro, assim Deus encontrou o homem barro e infectado de toda poluição. Não tens, pois, o que replicar a Deus; *porventura a obra moldada dirá ao que a moldou: por que me fizeste assim*, breve ou longa, informe ou formada? *Ou não tem o oleiro poder sobre o barro*, de quem é a matéria de barro? Assim Deus vos encontrou a todos sujos de barro pelo original. *Não pode ele*, certamente, *da mesma massa*, que toda em si é imunda, *fazer um vaso para honra*, no qual se beba, *e outro para desonra*, no qual se depositem as imundícies da casa? E como o oleiro tem poder de fazer deste barro um vaso honroso, como lhe apraz, e destinar outro à imundície, conforme a matéria do vaso era imunda: assim Deus, achando toda a massa do homem corrompida por causa do original, se destina uma parte desta massa à limpeza, é por misericórdia; que deixe, porém, outra parte sujar-se na imundície, é por equidade; e reclamar contra a equidade é injusto, como foi mostrado. Se Deus, seguindo a justiça, deixar na imundície o que se sujou por seu pecado, o homem não tem o que contradizer a Deus.

E que se dirá também disto: se Deus dá por misericórdia a graça a quem não deve, e estes abusam da graça recebida, não são tais

merecidamente reprovados? O que diz equivalentemente: *e que, se Deus*, digo, *querendo mostrar a sua ira*, isto é, tornar manifesta aos homens a condenação dos ímpios (era-lhe, sem dúvida, notório que nunca cooperariam com a graça dada), *e querendo dar a conhecer o seu poder*, isto é, quão grande poder de paciência daria aos seus para tolerar as perseguições dos ímpios, razão pela qual nem nos ímpios reprovados Deus opera sem misericórdia, já que o mérito da paciência cresce nos seus pelo endurecimento dos maus: querendo, pois, Deus mostrar a ira nos ímpios e o poder nos eleitos, *suportou com muita paciência*, tanto segundo o tempo quanto segundo o número das impiedades; suportou, digo, *os vasos de ira*, isto é, aqueles em quem deve justamente ser infundida a ira, isto é, a condenação, vasos, digo, *preparados para a perdição*, isto é, para a ruína, por causa só do original, se nunca fosse dada a graça de que abusassem; suportou-os para *dar a conhecer as riquezas de sua glória*, isto é, a sua rica glória, *nos vasos de misericórdia*, isto é, naqueles em quem devia ser infundida a misericórdia; vasos que *preparou*, isto é, predestinou Deus *para a glória* futura. E não só predestinou; mas *os que* (isto é, os vasos de misericórdia) também chamou, enviando pregadores (esse "os que" refere-se ao sentido, não à letra); chamou, digo, *a nós*, e *a nós*, isto é, *não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios*; porque, como chamou os judeus, assim também as nações.

Prova que a vocação dos gentios vem de Deus, dizendo: na verdade Deus chamou os gentios, *como diz*, não Oseias, mas o Senhor em Oseias; isto, certamente, diz: *Chamarei meu povo* ao que não era meu povo, isto é, a gentilidade, que agora se diz não ser meu povo, chamarei pela graça e farei meu povo (Os 2,24); *e amada à que não era amada*, a gentilidade chamarei pela graça e a farei amada, justificando-a dos pecados; e a mesma gentilidade, *que não havia alcançado misericórdia*, farei que *alcance misericórdia* na salvação. Em sinal da gentilidade que seria salva, este Oseias, que havia de pregar a salvação dos gentios, foi mandado por Deus tomar uma esposa de fornicação, etc. Chamarei certamente a gentilidade; *e isto será no lugar onde lhes foi dito: Vós não sois meu povo*, isto é, no mundo inteiro onde só os judeus eram chamados povo de Deus; os gentios, porém, não serão aí chamados doravante nações, mas *serão chamados filhos do Deus vivo*, o qual dará a vida eterna que possui àqueles que chamou por eleição. Ou então: *no lugar*, isto é, na Judeia, onde foi dito: Vós não sois meu povo, *ali serão chamados filhos de Deus*; porque também dentre os judeus foram eleitos os Apóstolos por quem as nações se converteram, e na Judeia a Igreja teve sua primeira origem.

Depois de ter confirmado a vocação dos gentios pela autoridade de Oseias, prova por Isaías a salvação dos judeus: e prova-o convenientemente; os gentios, com efeito, censuravam os judeus de que, uma vez repelidos e reprovados por sua culpa, seriam daí em diante indignos da salvação de Deus; Oseias diz isto dos gentios: *Isaías, porém, clama* e afirma isto *a respeito de Israel* (Is 10,22), isto é, para honrar o povo judaico, a quem muitas vezes censurou os seus males; isto certamente clama: *ainda que* (isto é, embora) *o número dos filhos de Israel seja* inumerável *como a areia do mar*, contudo *o resto de Israel*, isto é, os vis e abjetos, que nada confiam na carnalidade da lei, tal resto *será salvo*; ou então, resto, isto é, aqueles que Deus deixou para si e reservou idôneos para a salvação, esses serão salvos.

Determina o modo da salvação, para que não julgassem que se salvavam pela lei: na verdade o resto será salvo; pois *pela palavra*, isto é, pela doutrina da fé, palavra que era *consumante*, isto é, perfeitamente justificante, o que a lei não pôde fazer. Será também *abreviante*, tanto os preceitos da lei, que reduzirá todos ao amor de Deus e do próximo, como os sacrifícios, que reduzirá todos a um só sacrifício, o Corpo de Cristo. E, para que não se julgasse injusta esta palavra por abreviar a lei, acrescenta: *em justiça*; porque, embora abrevie a lei, será, contudo, equitativo e justo; o que é manifesto por isto: que o *Senhor fará esta palavra abreviada*, como se disse quanto aos sacrifícios e preceitos; *e não só sobre os judeus, mas também sobre a terra*, isto é, sobre as nações. Ou então: o resto será salvo; pois pelo Verbo de que se disse: «No princípio era o Verbo, etc.» (Jo 1,1), Verbo, isto é, Cristo, que será consumante e abreviante da lei em justiça, como foi dito: *porque o Senhor fará*

*esta palavra abreviada*, isto é, segundo a carne assumida, de mortalidade e passibilidade, diminuído abaixo dos Anjos, conforme aquilo: «Fizeste-o um pouco menor que os Anjos» (Sl 8,6). E fará esta palavra *sobre a terra*, isto é, o que na natureza da Deidade era invisível, exibi-lo-á visível aos homens na terra pela carne assumida.

Na verdade, pelo Verbo abreviado o resto será salvo; pois, se o Senhor não nos tivesse deixado esta semente, pereceríamos; e digo isto não só de mim, mas também *como predisse Isaías* vaticinando acerca do mesmo: *Se o Senhor dos Exércitos*, isto é, tanto celestes quanto terrenos, *não nos tivesse deixado descendência*, isto é, Cristo, que antes dos tempos assim constituiu e no tempo deu; ou então, descendência, isto é, a palavra da pregação pela qual frutificam os que creem; ou então, se o Senhor, ao subir, não nos tivesse deixado a semente, isto é, os Apóstolos, que semeassem em nós a palavra da fé, *teríamos sido* certamente *como Sodoma e semelhantes a Gomorra*, isto é, estaríamos totalmente em perigo: e com razão; porque teríamos sido semelhantes, desprezando os preceitos de Deus (Is 1,9).

O que disse acima sobre a vocação dos gentios por Oseias (cap. 2,23), para que os judeus não negassem que isso foi dito dos gentios, mas deles, que, afastando-se muitas vezes de Deus, tinham deixado de ser povo de Deus, expõe Paulo como estas palavras tratam só dos gentios: visto que acima se disse: *chamarei meu povo ao que não era meu povo*, *que diremos, então?* e como receberemos esta autoridade? Exporemos, certamente, nas palavras de Oseias, que os gentios, *que não buscavam a justiça*, isto é, que

nem tinham lei, nem usavam o bem de sua razão, *alcançaram*, não por mérito, mas pela graça que lhes infundia, *a justiça*; e não a justificação carnal, mas *a justiça que vem da fé*.

Retoma ainda parte da autoridade que Isaías proferiu a respeito de Israel, a saber, que não a multidão dos filhos de Israel se salvaria, o Apóstolo prossegue, pondo a causa por que é reprovado, dizendo: os gentios alcançaram a justiça, mas *Israel*, isto é, o povo judaico, *buscando a lei da justiça* carnal, *não chegou à lei da justiça* espiritual. Mas *por quê?* Porque não creu justificar-se pela fé, mas presumiu que poderia justificar-se *como que pelas obras*. E porque não creram que podiam justificar-se pela fé, por isso *tropeçaram*, isto é, fizeram para si ofensa *na pedra*, isto é, em Cristo, que foi a pedra que tanto esmagaria os inimigos quanto sobre a qual se firmariam os alicerces dos justos; *pedra de tropeço*, digo, isto é, pedra que, pela humildade que teve, foi apta para que nela tropeçassem os soberbos, *como está escrito* em Isaías: *Eis que ponho em Sião*, isto é, no povo judaico, *uma pedra de tropeço*, isto é, Cristo, *e uma rocha de escândalo* (Is 8,14). Entre pedra e rocha nenhuma distância há, mas chama tropeço aos pecados cometidos contra Cristo, escândalo à condenação que provém da culpa dos pecados. Embora eu diga que Cristo foi pedra de tropeço para os judeus, nem todos, contudo, tropeçaram nele, mas *todo* de Sião *que crê nele*, Pedra, *não será confundido*, isto é, não se envergonhará de ter crido.

## Notas

1. Os comentários a todas as Epístolas de São Paulo, aqui citados por São Bruno e, com frequência, também em outros lugares, sob o nome de Santo Ambrósio, não foram na verdade escritos por ele.

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# Capítulo 10

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus são, na verdade, em favor deles, para a salvação. Pois lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não segundo a ciência. Com efeito, ignorando a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus. Pois o fim da lei é Cristo, para a justiça de todo aquele que crê. Moisés, com efeito, escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei viverá por ela (Lv 18,5). Mas a justiça que vem da fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (Dt 30,12), isto é, para fazer Cristo descer; ou: Quem descerá ao abismo? isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos. Mas que diz a Escritura? Perto de ti está a palavra, em tua boca e em teu coração (Dt 30,14); esta é a palavra da fé que pregamos. Porque, se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz a confissão para a salvação. Diz, com efeito, a Escritura: Todo aquele que nele crê não será confundido (Sl 118,16). Pois não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam; porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 2,32). Como, então, invocarão aquele em quem não creram? Ou como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam o bem! (Is 52,7). Mas nem todos obedecem ao Evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? (Is 53,1). Logo, a fé vem do que se ouve; e o que se ouve, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura não ouviram? Pelo contrário: Por toda a terra se espalhou o seu som, e até os confins do mundo as suas palavras (Sl 18,5). Mas pergunto: Porventura Israel não o conheceu? Primeiro Moisés diz: Eu vos provocarei a ciúme com um povo que não é povo; com uma nação insensata vos irritarei (Dt 32,21). E Isaías ousa dizer: Fui achado pelos que não me procuravam, manifestei-me aos que não perguntavam por mim (Is 65,1). Mas a respeito de Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo incrédulo e rebelde (Is 65,2).

## Comentário

Para que, por ter acabado de dizer: *Israel não chegou à lei da justiça, mas tropeçaram em Cristo*, não se julgasse que o Apóstolo dizia que os judeus estão por isso reprovados e que não podem mais salvar-se, diz que ora por eles, por quem certamente não oraria se os soubesse reprovados diante de Deus; por isso diz: embora os judeus tenham tropeçado em Cristo, contudo, *irmãos, o desejo do meu coração* é *por eles*, isto é, tenho boa vontade para com eles, que, se se arrependerem, confio que serão salvos; e não só o desejo, mas também *a oração a Deus* é por eles, *para a salvação*, para que a tenham. Por isso certamente rogo a Deus por eles, porque lhes dou testemunho de que têm com certeza *zelo de Deus*, isto é, amor de Deus; ou então, zelo, isto é, indignação contra os santos, por zelo de Deus e de sua lei; julgando, com efeito, que assim se deve defender a sua lei, perseguem os santos: têm certamente zelo de Deus, *mas não segundo a ciência*; não amam, com efeito, a lei com ciência, nem assim se indignam em favor da lei; por isso diz o bem-aventurado Pedro: «Sei, irmãos, que o fizestes por ignorância, etc.» (At 3,17). Na verdade não segundo a ciência; pois eles, *ignorando a justiça de Deus*, isto é, que toda justificação vem somente de Deus, e *procurando estabelecer*, isto é, confirmar *a sua própria*, de modo a serem justificados pelas obras carnais da lei; justiça que seria, certamente, não de Deus, mas deles; procurando isto, *não se sujeitaram à justiça de Deus*, isto é, a Deus que justifica; antes, derrogando a Deus, atribuíam a si a justiça que é de Deus. Na verdade não se sujeitaram à justiça de Deus; pois não quiseram sujeitar-se a Cristo, que é *para a justiça de todo aquele que crê*, isto é, que justifica todo crente; Cristo, digo, que é *o fim da lei*, tanto segundo o seu cumprimento quanto porque, vindo Cristo, aquela lei findou e agora, por Cristo, tem lugar a graça.

Na verdade Cristo é para a justiça, pois a lei não é para a justiça; *Moisés, com efeito, escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei*, isto é, as observâncias carnais que a lei prescreve, *viverá por ela* (Lv 18,5), pela lei, isto é, só terá do cumprimento da lei carnal que não morrerá pelo julgamento da lei; quem cumpre a lei, com efeito, apenas evita a pena, mas não é por ela justificado. Da justiça da lei assim diz; *mas a justiça que vem da fé*, o mesmo Moisés assim diz: *Não digas em teu coração*, isto é, nem creias com o coração nem digas com a boca isto: *Quem subirá ao céu?* (Dt 30,12), isto é, não duvides de que alguns subiram ao céu e de que ainda subirão quaisquer justos; dizer isso (quem subirá ao céu) é *fazer Cristo descer* do céu, isto é, negar que Cristo tenha subido ao céu. *Ou não digas em teu coração: Quem descerá ao abismo*, isto é, ao inferno? porque dizer isto é *fazer Cristo subir dentre os mortos*, isto é, dizer que nem Cristo morto desceu ao inferno, nem dali tirou Abraão e seus santos: duas coisas contrárias à fé. Isto não creias, mas crê o que segue; que diz, com efeito, a Escritura pelo mesmo Moisés? *Perto de ti está a palavra, em tua boca*, isto é, está preparada a palavra da doutrina; ou então, a Palavra de Deus, Cristo, em tua boca, para que o confesses e racionalmente o defendas. E esta mesma palavra está perto também *em teu coração* (Dt 30,14), para que creias nela; e esta palavra que digo estar perto é *a palavra da fé*, isto é, a doutrina apta a ser crida, ou Cristo, em quem convém crer; *palavra que pregamos*. Pregamos isto, a saber: *se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos*, e quaisquer coisas impossíveis creias a seu respeito, e que nem a lei da natureza pôde obstar-lhe; se isto, diz, confessares e creres, não só viverás a vida presente, como pela lei, mas também *serás salvo* eternamente.

Na verdade, se creres com o coração, serás salvo; pois *com o coração se crê para a justiça*, isto é, para a justificação dos pecados; quem foi justificado está seguro da salvação. E na verdade, se confessares com a boca, serás salvo; pois *com a boca se faz a confissão para a salvação*. Pôs salvação porque parece maior, para a confissão da boca; confessar isto, a saber, a Deus, era coisa grande e principal no tempo do Apóstolo, com a perseguição furiosa; tempo em que muitos que criam sinceramente não ousavam falar abertamente nem confessar.

Prova que a crença do coração justifica pela autoridade da Escritura, sem determinar, contudo, de que escritura se trata; mas nos salmos encontra-se muitas vezes coisa equivalente: na verdade com o coração se crê para a justiça; pois *a Escritura diz: Todo aquele*, quer judeu, quer gentio, *que nele crê*, naquele que Deus ressuscitou dentre os mortos, *não será confundido*, isto é, não se envergonhará como se tivesse crido mal. Digo bem *todo*; pois *não há distinção* diante de Deus *entre judeu e grego*, isto é, Deus na sua salvação acolhe indistintamente o judeu como o gentio, e o gentio como o judeu. Na verdade diante de Deus não há distinção alguma entre judeu e gentio; porque *o mesmo é o Senhor de todos*; quem criou um criou também o outro: donde aparece que tem igual vontade para ambos. E como a vontade, assim também tem o poder; pois Ele é *rico* e retribui abundantemente *para com todos os que o invocam*. Prova que a confissão é para a salvação; a letra responde, porém, ao imediato: na verdade Deus é rico para com todos os que o invocam; *pois todo aquele*, quem quer que seja, judeu ou gentio, *que invocar o nome do Senhor será salvo* (Jl 2,32).

Visto que é preciso que invoquem para serem salvos, portanto é preciso que primeiro creiam, para depois invocarem; *como invocarão, com efeito, aquele em quem não creram?* como se dissesse: porque crerão, invocarão. *Ou como crerão naquele de quem não ouviram falar?*, isto é, porque ouvirão, crerão. *E como ouvirão, se não há quem pregue?*, isto é, porque lhes será pregado, ouvirão. *E como pregarão, se não forem enviados?*, isto é, porque Deus os enviará, pregarão. Com todas estas interrogações pretende que tudo venha da graça de Deus, desde o princípio da vocação até a salvação deles; quando diz, com efeito, que os pregadores foram enviados por Deus, que foram ouvidos, e depois de ouvidos creem, e em seguida invocam, e assim por fim são salvos, insinua que tudo deve ser referido à graça de Deus. Na verdade os pregadores são enviados por Deus, *como está escrito* em Isaías: *Quão formosos são os pés*, isto é, a chegada, *dos que anunciam*, isto é, dos que bem anunciam *a paz* entre Deus e o homem, *dos que anunciam o bem* (Is 52,7), isto é, a humildade, a castidade e coisas semelhantes.

Porque havia dito acima que, por terem ouvido, creram, para que não pensássemos que só ouvir bastava para ter a fé, sem operar interiormente o Espírito Santo, diz: embora eu tenha dito que, ouvindo, crerão, contudo *nem todos os que ouvem obedecem ao Evangelho*; e não digo isto só eu; mas Isaías, sentindo comigo, diz: *Senhor, quem creu em nossa pregação?* (Is 53,1), isto é, ou nas coisas que ouviram de nós, ou nas que nós ouvimos de ti e lhes anunciamos? Ao dizer *quem creu*, insinua que muitos ouviram e que, se não todos, alguns, contudo, creram; e visto que alguns creram, *logo a fé vem do que se ouve*, isto é, alguns creem porque ouvem. Nem de todo ouvir, porém, se obtém a fé sã, mas do ouvir que se faz *pela palavra de Cristo*, isto é, segundo a doutrina de Cristo, a fé é salutar.

Embora poucos tenham crido em nossa pregação, digo, contudo: *Porventura não ouviram?* como se dissesse: do fato de não terem crido são inescusáveis, porque ouviram a palavra da fé; *pelo contrário*, *por toda a terra se espalhou o som*, isto é, a fama daqueles pregadores; e não só a fama, mas também *as suas palavras*, isto é, as mesmas que eles pregavam, foram ouvidas *até os confins do mundo*: e digo da terra, que é o orbe, isto é, a terra redonda; em toda parte da terra, com efeito, foram ouvidas as palavras dos Apóstolos. Ouviram certamente, como se provou; e não digo só que ouviram, mas digo que também conheceram; o que põe em forma de pergunta, para mais os excitar, dizendo: *Porventura Israel*, isto é, o povo judaico, *não o conheceu?* Há dois gêneros de conhecimento: um, pelo qual, conhecendo uma coisa como boa, amamos e aprovamos o bem dessa coisa; e este é o bom conhecimento: outro, pelo qual vemos que a coisa é como se diz, sem poder contradizê-la, e contudo não amamos aquela coisa, mas (o que só podemos) temos para com ela uma vontade iníqua: este é o mau conhecimento que os judeus tiveram a respeito de Cristo.

Prova pela autoridade de Moisés que os judeus conheceram a Cristo, dizendo: na verdade Israel conheceu; pois *primeiro Moisés*, primeiro no tempo segundo os escritos, ninguém, com efeito, escreveu profecia antes dele (ao dizer primeiro, insinua que há muitas testemunhas da mesma coisa, embora não as aduza); ou então, primeiro, isto é, principal em dignidade; Moisés, diz, primeiro diz isto: *Eu vos provocarei*, ó judeus, *a ciúme*, isto é, à inveja e indignação do ânimo, *com um povo que não é povo*, isto é, contra a gentilidade, que antes não se dizia meu povo, a quem vós mesmos chamáveis cães; ou então, *com um povo que não é povo*, isto é, contra a gentilidade a quem farei não-povo, isto é, não a deixarei como foi gerada, mas a farei nova criatura, regenerada pela água e pelo Espírito Santo. E não só vos conduzirei para que vejais, mas também *vos irritarei*, para que os persigais; irritarei, digo, *com uma nação*, isto é, contra a gentilidade, *insensata*, isto é, que antes era insensata; porque, embora muitos filósofos dos gentios tivessem ciência das coisas mundanas, eram, contudo, insensatos, porque ignoravam a verdade do culto divino. Pelo fato de os judeus verem cumprida a profecia de Moisés, ao invejarem os gentios feitos cristãos, que abandonam a idolatria e seguem a nova lei, reconhecem que chegou aquele tempo de que Moisés predizia isto, mas a amargura deles não quer aquiescer ao verdadeiro conhecimento.

Moisés diz isto dos judeus; *Isaías, porém, ousa e diz* isto sobre a salvação dos gentios e a reprovação dos judeus: ousa certamente; este Isaías, com efeito, porque mais manifestamente que os demais profetizou a salvação dos gentios, muito sofreu dos judeus e por fim foi morto por eles; por isso diz: *ousa*, isto é, sem temor, mas com audácia diz: *Fui achado pelos que não me procuravam* (Is 65,1). Ao dizer-se achado e não procurado, que parecem repugnar, mostra que os gentios encontraram a salvação somente pela misericórdia de Deus. Fui achado, digo, pelos gentios que não me procuravam pela razão natural, que lhes dera para me entenderem; e *manifestei-me* a estes *abertamente*, isto é, posto à vista de todos; a estes, digo, *que não perguntavam por mim*, isto é, pelo conhecimento de mim a algum que entendesse; se, com efeito, me procurassem por sua razão e não bastassem para conhecer, seria oportuno que perguntassem a quem entende o que eles entendiam menos. Assim diz Isaías dos gentios; *a respeito de Israel*, porém, isto é, do

povo judaico, diz isto: *Todo o dia*, isto é, durante todo o tempo, por meio dos pregadores; ou então, todo aquele dia em que pendi na Cruz, *estendi as minhas mãos*, isto é, as minhas afeições e obras, *a um povo* judaico *incrédulo*; e não só incrédulo, mas também *rebelde* contra mim. A extensão das mãos de Cristo na cruz significou o amor, com o qual sempre quis abraçar os judeus, e com o qual, mesmo na Cruz, se se arrependessem, estava pronto a perdoar tudo. Eis que de novo em Isaías mostra que os judeus conheceram, uma vez que veem cumprido o que ele disse; mostra também a salvação dos gentios e a reprovação dos judeus.

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# Capítulo 11

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Pergunto, pois: Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo algum. Pois também eu sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o seu povo, que de antemão conheceu. Ou não sabeis o que diz a Escritura em Elias, como ele intercede a Deus contra Israel? Senhor, mataram os teus Profetas, derrubaram os teus altares; fiquei só eu, e procuram tirar-me a vida (1Rs 19,10). Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal (1Rs 19,18). Assim, pois, também no tempo presente ficou um resto, segundo a eleição da graça. Mas, se é pela graça, já não é pelas obras; caso contrário, a graça já não é graça. Que então? O que Israel buscava, não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram; os demais foram cegados, como está escrito: Deus lhes deu um espírito de torpor, olhos para não verem e ouvidos para não ouvirem, até o dia de hoje (Is 6,9). E Davi diz: Torne-se a sua mesa um laço, uma armadilha, um tropeço e uma retribuição para eles; escureçam-se os seus olhos para que não vejam, e faze curvar para sempre as suas costas (Sl 68,23-24). Pergunto, pois: Porventura tropeçaram para cair? De modo algum. Mas pela queda deles veio a salvação aos gentios, para os provocar a ciúme. Se a queda deles é riqueza do mundo, e a sua diminuição riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude? Digo-vos, pois, a vós, gentios: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, honrarei o meu ministério, para ver se de algum modo provoco à emulação a minha carne e salvo alguns deles. Pois, se a sua rejeição é reconciliação do mundo, que será a sua admissão, senão vida dentre os mortos? Se as primícias são santas, também a massa; e, se a raiz é santa, também os ramos. Se alguns dos ramos foram cortados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado entre eles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos. Se te glorias, não sustentas tu a raiz, mas a raiz te sustenta a ti. Dirás, então: Foram cortados os ramos para que eu fosse enxertado. Bem; foram cortados por causa da incredulidade. Tu, porém, estás firme pela fé; não te enalteças, mas teme. Pois, se Deus não poupou os ramos naturais, talvez não te poupe a ti. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: severidade para com os que caíram, mas bondade de Deus para contigo, se permaneceres na bondade; caso contrário, também tu serás cortado. Mas também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para enxertá-los de novo. Porque, se tu foste cortado da oliveira brava, que é a tua natural, e foste enxertado, contra a natureza, em oliveira boa, quanto mais estes, que são naturais, serão enxertados em sua própria oliveira! Pois não quero que ignoreis, irmãos, este mistério (para que não presumais de vós mesmos): que a cegueira veio em parte sobre Israel, até que entre a plenitude dos gentios, e assim todo Israel seja salvo, como está escrito: Virá de Sião o libertador, que afastará de Jacó a impiedade (Is 59,20). E esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados. Segundo o Evangelho, são inimigos por causa de vós; segundo a eleição, porém, são amadíssimos por causa dos pais. Pois os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. Assim como vós outrora não crestes em Deus, mas agora alcançastes misericórdia por causa da incredulidade deles, assim também eles agora não creram para que, pela misericórdia que vos foi feita, também eles alcancem misericórdia. Pois Deus encerrou a todos na incredulidade, para usar de misericórdia com todos. Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! Pois quem conheceu o pensamento do Senhor, ou quem foi seu conselheiro? (Sb 9,13; Is 40,13). Ou quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; a ele a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

## Comentário

Porque digo que o povo dos judeus é incrédulo e rebelde, *pergunto, pois*, isto é, porventura julgam por isso que eu digo que Deus rejeitou o seu povo judaico, que antes elegera? *De modo algum* que Deus alguma vez rejeite o seu povo. Na verdade não o rejeitou; pois *eu sou israelita*, e muitos outros, que não fomos rejeitados; e não israelita de tal modo que, nascido de outra parte, tenha passado ao judaísmo, mas *sou da descendência de Abraão*; nem ainda de Ismael ou dos filhos de Cetura, mas *da tribo de Benjamim*. Esta tribo foi preferida às outras, porque os que foram desta tribo não caíram tantas vezes quanto os outros na idolatria. E porque eu, da descendência de Abraão, não fui rejeitado, aparece por isso que Deus não rejeitou o seu povo. Chamo povo de Deus, certamente, aquele que *de antemão conheceu*, isto é, predestinou para a salvação.

Não o rejeitou agora, certamente: como outrora, julgando Elias que todos, exceto ele, se haviam afastado do culto de Deus, muitos, contudo, que ele ignorava, foram reservados por Deus, assim agora Deus tem muitos eleitos que ignoramos. É certo que Deus não rejeitou o seu povo; porque *ou não sabeis o que diz a Escritura em Elias*, isto é, onde fala de Elias, *como ele intercede a Deus contra Israel*, isto é, para a condenação dos judeus, dizendo isto no terceiro livro dos Reis: *Senhor, mataram os teus Profetas* Acab e Jezabel; *derrubaram também os teus altares* (1Rs 19,14). Os fiéis de Israel, com efeito, porque não ousavam reunir-se para adorar em Jerusalém, tinham por isso erguido ocultamente altares nas cavernas e nas florestas, e ali imolavam; altares que os israelitas idólatras também destruíram desde os alicerces, e matavam os que encontravam imolando. Mataram, diz, os outros Profetas; *e fiquei só eu* no culto de Deus, e ainda procuram tirar-me a vida, para me matarem com os outros. Assim diz Elias; *mas que lhe diz a resposta divina?* Isto certamente: eu *reservei*, isto é, guardei *para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal*, isto é, que não adoraram os ídolos (1Rs 19,18). Não diz sete mil como se este número fosse determinado neles, de modo que nem mais nem menos houvesse, mas porque por sete se designa a universalidade; por isso também se põe um número certo em coisa incerta, para mostrar que esse número de eleitos é conhecido por Deus, embora ignorado pelos homens.

O que antecipou sobre Elias, adapta agora ao que disse, assim: visto que no tempo de Elias muitos fiéis tinham sido reservados, que, contudo, ele mesmo ignorava, portanto (isto é, por isso) por semelhança deve-se crer que *assim*, isto é, pela misericórdia de Deus, como então; ou assim: porque, como então se ignorava, assim também agora não conseguimos discernir os eleitos de Deus: *assim*, diz, agora como outrora, *também no tempo presente da graça*, por cuja razão mais se deve crer que Deus misericordiosamente reservou para si os eleitos do que outrora, quando não era tempo de graça. Isto, digo, no tempo da graça: *ficou um resto*, isto é, aqueles que Deus deixou para si e previu idôneos para a salvação. O resto foi salvo, e isto *segundo a eleição* de Deus prevista desde a eternidade; eleição que não foi por mérito, mas *da graça*; porque tanto elegeu por graça quanto salvou por graça. *Se é pela graça*, já consta que não é *pelas obras* que a mereçam; do contrário, se fossem eleitos por causa das obras, aquilo que se chama graça já não seria pura graça, mas mérito. Introduz isto convenientemente sobre a graça, para que nem aqueles que Deus deixou para si julguem que foram eleitos por mérito, como os maus foram reprovados porque mal mereceram; e, dizendo isso, serve bem ao propósito.

Reúne aqui brevemente a soma das autoridades acima postas, para abrir o que por elas pretendia, dizendo: porque acima disse, segundo Isaías, que os judeus são incrédulos e rebeldes; disse de novo, segundo o mesmo, que o resto dos judeus foi salvo: *que então* colheremos destas coisas ditas que parecem opor-se? Isto certamente diremos: que *o que Israel buscava*, isto é, o povo judaico, a saber, estabelecer a sua própria justiça e nela ser salvo, *não alcançou*. Israel no todo não alcançou, *mas a eleição alcançou*, isto é, aqueles que Deus elegeu dentre Israel alcançaram a salvação; *os demais*, que não foram eleitos, não só não alcançaram, mas *foram cegados*. E digo isto *como está escrito* em Isaías, embora com outras palavras, no mesmo sentido: *Deus lhes deu* a esses judeus *um espírito de torpor*, a saber, um espírito maligno que os picasse e os forçasse a obrar o mal; ou então, espírito, isto é, vontade de compunção, pela qual fossem picados invejando e irando-se contra os fiéis: deu-lhes também *olhos*, isto é, a razão natural, mas de modo *que não vejam*, isto é, que sejam privados do bem da razão; deu-lhes também *ouvidos*, isto é, a mesma razão, com que, se não podiam entender por si algo, deviam ouvir e aprender, mas de modo que *não ouçam*; não ouçam, digo, *até o dia de hoje*. Este dia de hoje foi o do Profeta; é também de hoje até o fim do mundo; como aquilo nos banhos: «Hoje com preço, amanhã sem preço».

Diz também Davi, da cegueira dos judeus, isto: *Torne-se a sua mesa*, isto é, a Escritura, pela qual deviam perceber o bem, *um laço* para eles, isto é, enlacem-se nela, entendendo de dia em dia pior; torne-se-lhes também *uma armadilha*, porque foram capturados pelos romanos; e *um tropeço* (chama tropeço a miséria deles dispersos pelo mundo); torne-se-lhes também *uma retribuição*. Embora pudesse chamar retribuição à captura e ao tropeço, entende, contudo, por retribuição a ruína eterna, porque será permanente. Ou assim: a mesa deles, isto é, o fato de terem oferecido a Deus fel e vinagre, a Deus que queria ser refeito pela conversão deles, torne-se-lhes laço, isto é, sejam enlaçados por isso no cerco dos romanos: o resto não muda. E *os olhos*, isto é, a razão deles, *escureçam-se para que não vejam* nem entendam o bem; e *as suas costas*, isto é, a mesma razão com que deviam elevar-se ao conhecimento de Deus, *faze curvar* nas coisas terrenas, precipitando-os sempre mais e mais nas penas (Sl 68,23-24).

Porque disse que os judeus foram cegados, *pergunto, pois*, porventura digo por isso que *tropeçaram para cair*, inutilmente e de modo irrecuperável, de modo que neles só haja queda? Aqui pretende reprimir os gentios, para que não se prefiram aos judeus, embora os tenha dito cegados, porque a queda deles é recuperável e muito útil à salvação dos gentios, dizendo: *de modo algum* que, embora tenham tropeçado, caiam por isso irrecuperável e inutilmente. Na verdade não inutilmente, mas *pela queda deles*, isto é, pelo delito dos judeus, *veio a salvação aos gentios*; se os judeus não rejeitassem a palavra de Deus, os Apóstolos, com efeito, não passariam aos gentios. A salvação veio certamente aos gentios *para os provocar a ciúme*, isto é, para que os gentios imitem aqueles judeus que foram fiéis e cuja lei é o fundamento do Novo Testamento. Ou assim: pelo delito dos judeus veio a salvação aos gentios, de modo que os judeus os emulem, isto é, imitem os gentios na fé de Cristo; e segundo isto se prova que a queda dos judeus é recuperável. *Se a queda deles*, pela qual os judeus foram repelidos, *é riqueza do mundo*, isto é, foi causa de a gentilidade ser enriquecida da graça de Deus, *quanto mais a sua plenitude*, isto é, os judeus plenamente salvos, será riqueza dos gentios? Por isto se prova que a queda dos judeus é recuperável; se Deus, com efeito, tornou útil aos gentios o mal dos judeus, muito mais se deve crer que o bem deles o tornará muito mais útil aos gentios. A queda deles é riqueza do mundo; *e a sua diminuição*, isto é, os Apóstolos, que, eleitos dentre os judeus, diminuíram em si uma parte dos judeus; esta, digo, diminuição é *riqueza dos gentios*: os Apóstolos, com efeito, enriqueceram os gentios com a palavra de Deus. Não diz plenitude como se todos devessem ser salvos, assim como nem toda a gentilidade foi eleita, mas porque muitos serão salvos.

Na verdade a plenitude dos judeus será salva; pois mesmo no tempo da cegueira deles alguns serão salvos; *e digo isto a vós, gentios*: que sempre, *enquanto eu for Apóstolo dos gentios*, a quem somente fui enviado, *honrarei, contudo, o meu ministério*; porque, embora o meu ofício exija somente isto, pregar aos gentios, torná-lo-ei honroso acima do que devo, trabalhando entre os judeus. Honrarei, digo, *para ver se de algum modo* (qualquer coisa que padecesse, não me importaria) *provoco à emulação a minha carne*, isto é, os judeus segundo a carne, meus parentes, *à emulação*, isto é, a imitar-me na fé, *e salvo alguns*, isto é, para que, assim provocando, Deus por mim salve alguns deles.

Dá a razão por que deve trabalhar entre eles; e parece ter posto acima o mesmo, mas ali com determinação de tempo, onde diz plenitude, que consta ser no fim do mundo; aqui, porém, põe para outro fim e sem determinação de tempo, dizendo: por isso trabalharei por salvar alguns deles; *pois, se a sua rejeição é reconciliação do mundo*, isto é, se a cegueira deles foi causa de que a gentilidade fosse reconciliada com Deus, *que* (isto é, qual deve dizer-se) *será a sua admissão*, dos judeus, em qualquer tempo, *senão vida dentre os mortos?* Porque, se Deus pelo mal deles reconciliou consigo o mundo, muito mais se deve crer que, pela admissão deles, Deus fará viver muitos mortos no pecado; os quais, provocados pelo exemplo deles, viverão na fé de Cristo.

Prova que a sua linhagem não impede a admissão deles, mas só a incredulidade, dizendo: digo bem admissão, pois bem podem merecer a admissão; *se as primícias são santas*, isto é, se os Apóstolos e outros que foram eleitos dentre a sua linhagem são santos, consta que *também a massa*, isto é, aquela plenitude dos judeus, pode ser salva; se, com efeito, a linhagem em nada obstou aos Apóstolos, também não deve obstar aos outros. Diz primícias (*delibatio*) por semelhança: assim como se prova um pouco do alimento para se saber se a massa toda está bem ou mal temperada, assim os Apóstolos foram chamados primícias de toda a massa dos judeus, nos quais ficou claro que a linhagem em nada prejudica os judeus. Prova de novo o mesmo por outro modo: por isso consta também que podem ser bem admitidos; pois *a raiz deles*, isto é, Abraão, Isaac e Jacó, é santa; se a raiz deles é santa, também os ramos podem ser santos.

Dir-me-ás de novo que aqueles ramos foram cortados: *se alguns dos ramos* foram cortados da raiz pela incredulidade, *tu, porém, foste enxertado entre eles*, isto é, em lugar deles; *sendo oliveira brava*, isto é, estéril e alheia à santa raiz, *tornaste-te também participante da raiz*, isto é, dos Profetas, nos quais a fé está enraizada; e *te tornaste participante da seiva*, isto é, dos Apóstolos, que tiveram a seiva da fé e a abundância do Espírito Santo: da raiz e da seiva, digo, *da oliveira*, isto é, do povo judaico, porque os Profetas e os Apóstolos nasceram dos judeus. E se tu, alheio à raiz, foste enxertado, *não te glories contra os ramos* que ficam, nem te prefiras a eles, como se tu devesses ser eleito por mérito e eles rejeitados por linhagem. Se te glorias importunamente, ser-te-á dito: Irmão, *não sustentas tu a raiz, mas a raiz te sustenta a ti*; porque em ti não há exemplo algum de bem, ao passo que na raiz (como em Abraão) há exemplo de toda a fé.

Porque acabo de tirar-te o gloriar-te contra os ramos que ficam, portanto (isto é, por isso) *dirás* para me contraditar que te gloriarás contra os cortados: os ramos naturais foram cortados pela incredulidade *para que eu fosse enxertado* em seu lugar. *Bem*, e assim concedo, diz Paulo; mas eles foram cortados não por causa da linhagem, mas *por causa da incredulidade*; *tu, porém, estás firme* em lugar deles *pela fé* somente; e por isso *não te enalteças*, isto é, não te ensoberbeças contra os cortados, *mas teme*, para que não sejas igualmente cortado. É certamente de temer; porque, *se Deus não poupou os ramos naturais*, isto é, os judeus, *talvez não te poupe a ti*, a quem parece dever menos, por não ser natural.

Porque tu, não natural, foste enxertado pela graça, e aquele, natural, foi repelido por culpa, *considera, pois, a bondade e a severidade de Deus*: *severidade para com os que caíram*, isto é, para com os judeus, vê a severidade; *mas para contigo*, que foste enxertado por misericórdia, vê a *bondade de Deus*; bondade, digo, com esta lei: *se permaneceres na bondade*, cooperando com a graça recebida; do contrário, se não permaneceres, como o judeu foi cortado, assim também *tu serás cortado*. E aqueles judeus, *se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados* de novo; e digo bem: serão enxertados; pois *Deus é poderoso para enxertá-los de novo*, como outrora os enxertou. E na verdade Deus é poderoso; pois o ato deste poder, enxertando alguns, embora poucos, vai exercendo-o pouco a pouco neste tempo; o que diz equivalentemente: Deus certamente pode enxertá-los; *pois, se tu*, gentio, *foste cortado da oliveira brava*, isto é, da raiz infrutífera, oliveira brava, digo, natural a ti por longo costume; *e foste enxertado em oliveira boa*, pela graça, *contra a natureza*, isto é, contra o costume que, pela longa duração do tempo, passara à natureza; *quanto mais estes judeus serão enxertados em sua própria oliveira*, que lhes é segundo a natureza? Se tu, não natural, foste enxertado por causa da fé, não há razão por que os ramos naturais não devam ser enxertados pela mesma causa.

Provou acima que Deus teria poder de os enxertar pelo ato de seu poder, porque na verdade serão enxertados, dizendo: na verdade os judeus serão de novo enxertados; pois já agora, no tempo da cegueira deles, em parte são enxertados e por fim todo Israel será salvo. Que agora alguns são enxertados, concebemo-lo quando diz: *a cegueira veio em parte sobre Israel*; se foi em parte, e não no todo, por que não dizemos que agora também uma parte deles é de novo enxertada? E, *ó irmãos*, não quero que ignoreis que isto aconteceu, a saber, a cegueira em Israel, para que entrassem os gentios; o que certamente é mistério, porque, embora se considere a ordem da coisa, não se entende, contudo, a causa da cegueira dos judeus e da iluminação dos gentios: esta cegueira e iluminação, por isso, não quero que ignoreis que são mistério, *para que não presumais de vós mesmos*, isto é, para que não possais imputar isto à vossa sabedoria, que não basta para entender o sacramento desta coisa; se, com efeito, esta causa não estivesse oculta sob mistério, mas vos fosse aberta, presumindo imputaríeis isto à vossa sabedoria, a qual, por falhar no conhecimento deste mistério, reconhece a sua fraqueza e admira a altura do desígnio divino. Isto, digo, não quero que ignoreis, *que a cegueira veio sobre Israel*, e isto *em parte*; nem todos, com efeito, foram cegados. Diz *veio* quanto à ignorância dos homens, que desconhece as causas deste mistério; ao passo que na providência de Deus nada há de contingente, nada de fortuito, pois Ele, assim como todas as coisas, conhece também as causas de todas. A cegueira veio certamente sobre Israel *até que entre a plenitude dos gentios* (esse "até que" é temporal e causal); como se dissesse: os judeus foram cegados para que entrasse, e enquanto não entrasse a plenitude dos gentios. Nem plenitude de modo que cada um dos gentios se salvasse, mas, naquele respeito em que antes dificilmente alguns dos gentios se salvavam, diz-se que no tempo da graça houve plena salvação dos gentios. *E assim*, depois que tivesse entrado a plenitude dos gentios, *todo Israel seria salvo*; não todos os hebreus, contudo, mas quantos fossem Israel, que veem a Deus. É, porém, sentença de alguns que todos os judeus serão salvos no fim do mundo.

Prova que os judeus agora se salvam em parte e no fim plenamente, pela autoridade de Isaías, dizendo: quanto ao que digo, que Israel será salvo, isto não afirmo de mim, mas *como está escrito*; isto certamente está escrito: *Virá de Sião*, isto é, do povo judaico, *o libertador* que arranque por certa violência e com muito trabalho, como agora se faz no tempo da cegueira, o qual também com certa facilidade *afastará*, o que será no fim do mundo, quando os judeus correrão espontaneamente à salvação: arrancará, digo, e *afastará de Jacó*, isto é, do povo judaico, *a impiedade* (Is 59,20). Não chama impiedade aqui à idolatria habitual, mas ao negar o culto ao Filho de Deus, o que os judeus faziam; seu rito, com efeito, depois que veio o tempo da graça, foi verdadeiramente idolatria.

Determinou por quem se faria a salvação dos judeus; determina também o tempo em que isto será, dizendo: *e esta será a minha aliança com eles*, isto é, esta promessa testada será cumprida *por mim* para eles, então, *quando eu tirar os seus pecados* e os justificar; o que agora se faz pouco a pouco, e nos últimos dias plenamente: agora alguns são arrancados da impiedade e tornam-se amados; outros, porém, que não querem ser arrancados, são inimigos, e isto *segundo o Evangelho*, isto é, porque invejam e detraem o Evangelho, pelo qual os gentios se convertem. São certamente inimigos; e isto *por causa de vós*, isto é, para vossa utilidade; se os judeus não rejeitassem a palavra de Deus, os Apóstolos, com efeito, não passariam aos gentios. Uns são inimigos; *outros*, porém, isto é, os predestinados, *são amadíssimos segundo a eleição*, isto é, não por mérito, mas porque Deus os elegeu pela graça; amadíssimos também *por causa dos pais*, não, contudo, por mérito dos pais, mas para que se cumpram as promessas feitas a seus pais. Na verdade segundo a eleição e por causa dos pais; pois *os dons e a vocação de Deus*, isto é, a eleição deles, e os dons, isto é, o cumprimento das promessas, *são irrevogáveis*, isto é, sem mudança; porque, como prometeu e elegeu, assim cumprirá. Ou assim: na verdade amadíssimos segundo a eleição; pois os dons de Deus, isto é, a remissão dos pecados, e a vocação de Deus, isto é, a instrução dos fiéis, que, depois de justificar no batismo, instrui por meio de doutores: estes dons e esta vocação de Deus são certamente sem mérito algum; pois *sem penitência* de aflição corporal, que excederia diante de Deus o mérito da penitência, se os dons e a sua vocação fossem segundo o mérito.

Os judeus são certamente eleitos; pois, *assim como vós*, gentios, e alguns judeus antes da lei, *vós outrora não crestes em Deus, mas agora*, no tempo da graça, *alcançastes misericórdia*, isto é, por misericórdia a salvação, e isto *por causa da incredulidade deles*; porque, como não receberam a palavra de Deus, o Apóstolo a transmitiu aos gentios. Assim como, diz, vós, outrora incrédulos, agora alcançastes misericórdia, *assim também eles*, os judeus, *agora não creram*, indo à vossa misericórdia, isto é, não querendo ser salvos como vós pela misericórdia de Deus; por isso não creram, *para que, como vós, também eles alcancem misericórdia*. Deus teve misericórdia de vós incrédulos, para que isto fosse imputado somente à sua graça, assim também dispôs ter misericórdia dos judeus mergulhados na incredulidade, para que ambos, judeu e gentio, igualmente atribuíssem tudo à graça de Deus e, conhecendo a sua fraqueza, não se ensoberbecessem; Deus, com efeito, vendo que o diabo e o homem caíram ambos por soberba, muito se empenhou depois em precaver o homem da soberba; por isso permitiu que ambos, judeu e gentio, fossem abalados na incredulidade, para que, quanto mais conhecessem a sua fraqueza, tanto mais se sujeitassem à misericórdia de Deus.

Na verdade a incredulidade dos judeus é causa para que alcancem misericórdia; *pois Deus encerrou a todos*, ora gentios, ora judeus, *na incredulidade*, para que, feitos todos incrédulos, *use oportunamente de misericórdia com todos*: se, com efeito, uns ou ambos tivessem perseverado na fé, certamente atribuiriam ao mérito de sua fé o que era de misericórdia de Deus. E as causas destas coisas, por que agora estes são encerrados, agora aqueles, não procures investigar, mas admira comigo o desígnio de Deus, dizendo: *Ó profundidade dos juízos de Deus*, pelos quais agora os judeus são repelidos, agora os gentios enxertados. Estes juízos são tão altos quanto a sabedoria e a ciência de Deus; o que diz assim: *Ó profundidade*, isto é, abismo, *das riquezas da sabedoria*, isto é, da rica sabedoria *e da ciência de Deus!* A sabedoria e a ciência de Deus dizem-se ricas segundo a grande abundância; diz-se alta segundo a profundidade insondável. Chama-se sabedoria de Deus aquela pela qual se conhece quão grande é; ciência aquela pela qual conhece tudo o que há das criaturas. *Ó profundidade da sabedoria e da ciência de Deus, quão insondáveis são os seus juízos!*, isto é, ninguém é capaz de compreender a profundidade dos juízos que Ele pondera consigo. Dir-se-ia: enquanto os juízos são ponderados em Deus, é verdade que não são entendidos; mas, levados à execução, são bastante compreendidos. Contra isto Paulo: os juízos de Deus, enquanto ponderados em Deus, como não podem ser compreendidos, assim também *os seus caminhos*, isto é, as operações desses mesmos juízos, *são inescrutáveis*.

Prova por Isaías o que antecipou, dizendo: na verdade a sabedoria e a ciência de Deus são inescrutáveis; pois *quem conheceu o pensamento do Senhor?* Ninguém, certamente, pôde conhecer o que Deus pensou. E na verdade os juízos e as obras dos juízos são inescrutáveis; pois *quem foi seu conselheiro* (Is 40,13), por cujo conselho ordenasse as suas coisas, ou a quem admitisse ao conselho de sua disposição? Ninguém, certamente. E assim como a ninguém abriu o seu pensamento, assim também concede por misericórdia quaisquer bens; *quem, com efeito, lhe deu?* Alguém, depois de recebida a graça, pôde em algo merecer; mas quem lhe deu primeiro, antes que Deus desse a graça; e *a quem, assim dando, não será dado gratuitamente por Deus, mas lhe será retribuído*, porque o mereceu?

Estas são palavras de Isaías; as que seguem, porém, são palavras de Paulo: na verdade ninguém deu primeiro a Ele; *porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas*. Pelas diversas preposições, *dele, por ele, para ele*, nota a distinção das pessoas da Trindade; pelo mesmo pronome repetido três vezes, nota a identidade da substância, dizendo: *dele*, isto é, do Pai, que como princípio não é de outro; e *por ele*, isto é, pelo Filho, que tem princípio do Pai e por quem o Pai fez todas as coisas; e *para ele*, isto é, no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, que se diz bondade de Deus, pela qual bondade subsistem as coisas criadas. Dele, digo, e por ele, e para ele são todas as coisas: a ele, portanto, é devida *a glória* e a ação de graças por tudo, por todos os bens que dá misericordiosamente; e esta glória seja *pelos séculos*, isto é, eternamente. *Amém*, isto é, vede que assim seja. Podia aqui terminar a Epístola; havia reprimido suficientemente ambos os povos, para que não se ensoberbecessem reciprocamente entre si, e muitas razões antecipara a respeito; mas, porque, já não se ensoberbecendo contenciosamente entre si, era necessária a caridade alternada, admoesta-os por isso, já apaziguados da contenda, a servirem-se mutuamente e a suportarem-se um ao outro, para que, por tal serviço, se una e se fortaleça neles o vínculo do amor.

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# Capítulo 12

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus: este é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que discirnais qual é a vontade de Deus, a boa, a agradável e a perfeita. Digo, com efeito, pela graça que me foi dada, a todos os que estão entre vós: não saibais mais do que convém saber, mas saibais com sobriedade, e cada um conforme a medida da fé que Deus lhe repartiu. Pois, assim como num só corpo temos muitos membros, e todos os membros não têm a mesma função, assim também nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um membro uns dos outros. Tendo, porém, dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada: seja a profecia, conforme a medida da fé; seja o ministério, no servir; seja quem ensina, no ensino; quem exorta, na exortação; quem dá, com simplicidade; quem preside, com solicitude; quem pratica a misericórdia, com alegria. O amor seja sem fingimento. Aborrecei o mal, aderi ao bem; amai-vos uns aos outros com caridade fraterna; antecipai-vos em honrar-vos mutuamente; na solicitude não sejais preguiçosos; sede fervorosos de espírito; servi ao Senhor; alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverantes na oração; socorrei as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade. Abençoai os que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram; tende os mesmos sentimentos uns para com os outros; não aspireis a coisas elevadas, mas acomodai-vos às humildes. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos; a ninguém pagueis o mal com o mal; procurai o bem não só diante de Deus, mas também diante de todos os homens. Se for possível, no que depende de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, caríssimos, mas dai lugar à ira; pois está escrito: A mim a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor (Dt 32,35). Mas, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; pois, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.

## Comentário

O texto liga-se assim: visto que dele, por ele e nele são todas as coisas, *portanto, irmãos, rogo-vos*, isto é, exorto-vos por todas as coisas sagradas; rogo-vos *pela misericórdia de Deus*, isto é, pelo apostolado que me foi dado, não porque o tenha merecido, mas por misericórdia; ou então, rogo-vos pela misericórdia de Deus, da qual provei acima que procedem todos os bens, *que ofereçais*, isto é, que preparais, não só as vossas almas, mas também os *vossos corpos*. Ofereçais, digo, *como hóstia*, isto é, mortificada segundo a deposição das imundícies, *viva* segundo a posse das virtudes; e não viva por um tempo, mas *santa*, isto é, santa e perseverante na vida das virtudes; e nesta vida e santidade não buscando lucro ou louvor do mundo, mas *agradável a Deus* em tudo. E, para que, por ter acabado de dizer: oferecei os vossos corpos como hóstia, alguém não julgasse que se devia afligir o corpo sem temperança alguma, acrescenta o Apóstolo: hóstia, digo, de modo que *o vosso culto seja racional*, isto é, que jejueis, vigieis etc. com discrição.

Agora alguém diria: estou pronto a oferecer-me a Deus, enquanto o mundo não me perturba, mas é duro resistir ao mundo que me constrange. Contra isto Paulo: oferecei-vos tais; *e não vos conformeis*, isto é, não vos torneis conformes *a este século*, de modo a obedecer em algo ao mundo que lisonjeia ou atemoriza. Não vos conformeis ao século, mas *transformai-vos* pelo batismo, vós que antes fostes deformados pela culpa de Adão; ou então, transformai-vos, isto é, renovai-vos cada dia, vós que justificados recebestes uma forma nova: transformai-vos, digo, progredindo assiduamente *na renovação do vosso espírito*, isto é, renovai-vos cada vez mais obrando bem, *para que discirnais*, isto é, conheçais provadamente, *qual é a vontade de Deus*, vontade, digo, *boa*, isto é, útil aos que a cumprem, *e agradável* aos que a experimentam em ato, e não de modo a agradar em um e desagradar em outro, mas *perfeita* em todos.

Que ofereçais os vossos corpos como hóstia a Deus, isto admoesto sem constrição alguma de obediência; o que segue, porém, digo *pela graça*, isto é, ordeno com a autoridade de nosso apostolado. Deve-se considerar por que apenas admoesta as coisas ditas, mas as que seguem proíbe com toda autoridade: as coisas que geram ofensa, com efeito, é lícito ao prelado proibir aos súditos por força da obediência, mas, desde que não violem a lei, não devem ser constrangidos a coisas melhores, e sim, para que façam o bem, ser exortados por amor; se, com efeito, fossem constrangidos a coisas mais perfeitas pela constrição da obediência, o prelado mais os condenaria do que os ajudaria, pois, se não cumprissem o preceito, seriam condenados por desobediência; e por isso devem ser levados às coisas melhores antes por admoestação do que por coação; por isso diz: *pela graça do apostolado que me foi dada*, digo e ordeno *a todos os que estão entre vós*, e assim a todos como a cada um, isto a saber: *não saibais mais do que convém saber*, isto é, do que exige a fé sã. Não vos proíbo inteiramente saber, mas quero que saibais *com sobriedade*. E também não quero que todos vos esforceis até o mesmo termo de sabedoria, de modo que não vos baste a menos que todos igualmente saibais; e por isso baste a cada um saber *conforme a medida da fé que Deus repartiu* separadamente a cada um, isto é, os seus dons medidos, segundo o modo e a oportunidade da vossa fé. Reprime os romanos do excesso de sabedoria porque eles investigavam além da medida as causas dos mistérios de Deus.

O fato de Deus não ter dado a ninguém saber tudo, mas ter repartido por partes a cada um, vale muito para que se sirvam mutuamente e se acomodem uns aos outros; quando, com efeito, um ignora o que o outro sabe, e vice-versa, na diversidade das graças recebidas um serve ao outro; para o que pôs uma semelhança apropriada: *pois, assim como num só corpo temos muitos membros*, os diversos membros, tendo diversas funções, o pé serve à mão, quando leva a mão a tocar o que deseja, a mão ao pé, quando o veste; assim também nós somos diversos membros, formando o único corpo da Igreja; assim como pela mesma alma os diversos membros no mesmo corpo são sensibilizados, assim nós no corpo da Igreja somos todos vivificados pelo mesmo Espírito. O texto liga-se assim: Deus deu certamente os seus dons divididamente; pois, assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, *sendo muitos, somos um só corpo* na Cabeça, Cristo; mas somos individualmente *membros uns dos outros*, isto é, de modo que este olho sirva àquele pé, e assim nos demais; essa acomodação de serviço é grandemente idônea para a guarda da humildade e da união.

Somos individualmente membros uns dos outros; portanto, isto é, porque Deus quis que assim nos servíssemos mutuamente, *temos dons diferentes*, como este a profecia, este a doutrina, etc.; se, com efeito, cada um tivesse todos os dons, não haveria por que um servisse ao outro ou lhe fosse necessário, e assim um se ensoberbeceria contra o outro, não restando em que um se acomodasse ao outro. Tendo, digo, dons diferentes, e isto *segundo a graça*, isto é, pelo Espírito Santo, graça que nos foi dada pela graça, não recompensada pelo mérito: dons, digo, para que tenhamos *a profecia*, isto é, o conhecimento certo das coisas futuras ou a revelação de quaisquer segredos; tendo, digo, a profecia, e isto *conforme a medida da fé* — não determina de que fé, se da nossa ou da dos ouvintes, e pode referir-se a ambas assim: segundo a medida da nossa fé, porque Deus, conforme vê ser conveniente e segundo o modo de nossa fé, ou revela segredos ou anuncia coisas futuras; ou segundo a medida da fé dos ouvintes, porque, conforme Deus vê a fé e a capacidade dos ouvintes, tanto dá aos pregadores para que lhes revelem ou anunciem — nós, tendo certamente a profecia segundo a medida da fé, nossa ou dos ouvintes, sejamos membros uns dos outros. Ou, se temos *o ministério* de administrar aos irmãos os bens temporais, devemos ser membros uns dos outros *no servir*, conforme nos foi confiado. *Seja quem ensina*: diz ensinar quem tem a ciência de ensinar e a graça da palavra; quem, digo, ensina, seja membro do outro *no ensino*. Quem, porém, exorta, seja membro do outro *na exortação*. Ensinar é de quem é sábio; quem sabe menos, contudo, pode exortar e animar ao bem alguém muito mais prudente que ele, como qualquer rústico poderia exortar à guerra um forte soldado, cuja perícia na guerra o rústico, contudo, ignoraria. *Quem dá, dê com simplicidade*, isto é, não na esperança de receber, não por amor de louvor terreno, mas só por amor do próximo. *Quem preside*, presida *com solicitude*, isto é, tenha o cuidado dos súditos com toda vigilância. Quem tem o que dar, dê com simplicidade; quem não tem o que dar, tenha, porém, misericórdia no ânimo; e *quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria*, isto é, não coagido pelo preceito da lei, mas fervoroso pelo espírito de amor.

E porque viu que, para que assim, servindo-se mutuamente, se acomodassem uns aos outros, era necessário o amor, acrescenta acerca dele, dizendo: para que por esses modos um se faça membro do outro, *haja em vós o amor, e sem fingimento*, para que se mostre por fora e arda por dentro. Não ameis de modo a aderir ao mal do próximo, mas *aborrecei o mal* dele, *aderi ao bem* do próximo, isto é, cooperando. Nem baste ter o amor em vós mesmos; mas também *amando-vos com a caridade de fraternidade*, isto é, que haja de bom amor nos vossos irmãos; caridade, digo, tida mutuamente, de modo que um opere caridade para com o outro; ou assim: assim como quero que ameis os próximos, assim quero que sejais amantes da caridade fraterna, retribuída mutuamente; e se os próximos retribuírem a vós algumas obras de caridade, recebei-as de bom grado. Havia, com efeito, alguns que faziam o bem aos próximos, mas, para não perderem a recompensa deste mérito, não queriam receber nada em troca dos próximos. E para que o vosso amor tenha sempre crescimento, *antecipai-vos em honrar-vos mutuamente*, isto é, um ao outro, de modo que quem pode mais depressa se levante diante do outro. Abrace o próximo com todo gênero de amor; e para que o bem da fraternidade cresça em vós, *na solicitude não sejais preguiçosos*, de modo que, com toda vigilância, um se preocupe em aliviar a necessidade do outro. Esta solicitude ordenou acima aos prelados; aqui a recomenda aos irmãos por certa paridade. Se não têm o que dar solicitamente, sejam, contudo, *fervorosos de espírito*, isto é, arda a caridade em seu ânimo, ainda que não tenham a possibilidade de operar. E, para que os contemplativos não julgassem mal descer do cume da contemplação às necessidades do próximo, diz Paulo: em tudo isto sabei que nós estamos *servindo ao Senhor*; Deus, com efeito, muito ama este gênero de serviço: e, quando assim amantes vos tiverdes empenhado no cuidado do próximo, não espereis a recompensa presente, mas *alegrai-vos na esperança* da remuneração futura.

Mostrado como devem comportar-se com os bons, determina como se hajam contra os maus, dizendo: para que não sejais frustrados na esperança futura, *sede pacientes na tribulação*, isto é, suportai pacientemente tudo o que for preciso sofrer por Cristo. Para que perseverreis na paciência, *sede perseverantes na oração*; porque, se em tudo a oração é proveitosa, muito mais é necessária para suportar as paixões, que tanto repugnam à carne. Se, porém, não vos sobrevierem tribulações tão grandes, sede ao menos *socorrendo as necessidades dos santos*, de modo que torneis comuns convosco e com os vossos bens as carências dos que padecem; e não só socorrendo, mas *praticando a hospitalidade*, de modo que, recebendo com hospedagem, sem temor, os santos que os ímpios perseguem, tenhais cuidado deles.

Padecei, sim, de quem vos tribula, e não só isso, mas *abençoai os que vos perseguem*; e não uma vez, mas abençoai assiduamente; nem abençoeis em atenção à vossa paciência e amaldiçoeis considerando a crueldade deles, mas nunca queirais amaldiçoar. Para que o amor seja íntegro, deveis *alegrar-vos com os que se alegram*; e isto quanto aos bens espirituais não há dúvida, e quanto aos temporais na medida em que a razão admite. Deveis também *chorar com os que choram*, se alguém é aflito movido pela penitência, ou se também é angustiado por dor de carne demasiado veemente; dor na qual, contudo, deve haver medida. Para que verdadeiramente choreis com os que choram, *tende os mesmos sentimentos*, de modo que não só no rosto, mas no coração interiormente vos aflijais, e isto mutuamente, este por aquele, aquele por este. Para que tenhais os mesmos sentimentos, *não aspireis a coisas elevadas*, isto é, não vos ensoberbeçais, *mas acomodai-vos às humildes*, isto é, sentis o mesmo com os abjetos. E, para que saibais acomodar-vos aos humildes, *não sejais sábios aos vossos próprios olhos*, isto é, provedores somente de vós mesmos das coisas que convêm, mas provede também aos outros; vós, digo, não retribuindo a ninguém *o mal com o mal*. Sede prudentes, diz, não só *procurando o que é bom diante de Deus, mas também diante de todos os homens*, tanto fiéis quanto infiéis; não basta, com efeito, só o testemunho de nossa consciência, se não concordam também os testemunhos dos estranhos: por isso as coisas que são de louvor tanto diante de Deus quanto diante dos homens, essas devem ser praticadas.

Para que os vossos bens agradem a todos, *tende paz com todos os homens*, se for possível que eles também queiram ter paz convosco; se não querem, faça-se aquela paz *no que depende de vós*. Ou então: tende assim paz com todos, se for possível, que a vossa carne ame os que a afligem, o que, contudo, depende de vós, porque, se quereis, podeis, pela razão, amar a todos. Para que conserveis íntegra esta paz, *não vos vingueis a vós mesmos*, se vos infligem males; vós, digo, se fizerdes isto, então sois *caríssimos*. Não vos defendais, digo, mas, suportando com ânimo sereno, *dai lugar à ira* dos perseguidores, para que lhes seja lícito enfurecer-se como querem; ou assim: suportando os maus, dai lugar à ira de Deus; Deus, com efeito, propôs vingar-se dos ímpios de tal modo que a seu bel-prazer exerçam a sua iniquidade, para que nenhuma miséria falte à condenação deles. Deveis dar lugar à ira de um ou de outro modo; *pois está escrito* em Salomão (dizendo o Senhor): *A mim reservai a vingança, eu retribuirei* aos ímpios (Dt 32,35); assim se deve fazer, porque isto diz o Senhor: e não só não vos defendais dos ímpios, mas ainda amai-os e fazei-lhes bem; o que diz assim: *Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber*; pois, fazendo isto, *amontoarás sobre a sua cabeça*, isto é, sobre a sua mente, *brasas de fogo* (Pr 25,21-22), isto é, o fervor do amor, porque, admirando a tua paciência, ame e imite o teu bem; ou então, brasas de fogo, isto é, penitência ardente, porque, vendo a tua constância, arrepender-se-á ardentemente, para merecer assemelhar-se a ti: e, para que amontoes tais brasas sobre a mente do inimigo, *não te deixes vencer* pela tua impaciência *pelo mal* dele, mas *vence o mal* do inimigo, superando-o *com o bem* de uma paciência indefectível.

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# Capítulo 13

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; pois não há potestade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Portanto, quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus. E os que resistem, atraem sobre si a condenação; pois os príncipes não são motivo de temor para a boa obra, mas para a má. Queres não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela; pois ela é ministra de Deus para o teu bem. Se, porém, fizeres o mal, teme; pois não é em vão que traz a espada. Ela é ministra de Deus, vingadora para castigo daquele que pratica o mal. Por isso, é necessário submeter-vos, não só por causa da ira, mas também por causa da consciência. Por isso também pagais tributos; pois são ministros de Deus, ocupados nisso mesmo. Pagai, pois, a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.
>
> A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor mútuo; pois quem ama o próximo cumpriu a lei. Com efeito: Não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás; e qualquer outro mandamento, se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo. A plenitude da lei, pois, é o amor. E isto, sabendo o tempo; pois já é hora de despertar do sono. Agora, com efeito, a nossa salvação está mais próxima do que quando abraçamos a fé. A noite avançou, o dia se aproximou; deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como em pleno dia: não em orgias e bebedeiras, não em desonestidades e dissoluções, não em rixas e invejas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não procureis satisfazer a carne em seus desejos.

## Comentário

Depois de ter ensinado como os súditos devem proceder mutuamente entre si, ensina que devem aos prelados algo maior, mesmo infiéis, salva, porém, a integridade da fé; havia, com efeito, quem cresse que nada devia já aos senhores fiéis, porque eram irmãos deles na fé; aos senhores infiéis, porém, negavam toda servidão, julgando absurdo que quem era fiel se sujeitasse a um infiel. O texto liga-se assim: estas coisas ditas, os súditos devem-nas mutuamente; mas algo maior, a saber, a sujeição, devem aos príncipes; e por isso *toda alma esteja sujeita às potestades superiores*, isto é, sublimadas segundo a vontade de Deus. Por *alma*, que é parte do homem, designou o homem todo, para mostrar que não só com o corpo, mas também com a vontade se deve servir aos príncipes. Na verdade todo homem deve sujeitar-se às potestades; *pois não há potestade*, boa ou má, *que não venha de Deus*; e não de Deus de modo que Ele, não querendo, a permita: porque *as que existem foram ordenadas por Deus*, isto é, dispostas ordenadamente, e não precipitando-se por acaso fortuito.

Visto que tanto a potestade quanto todas as coisas foram ordenadas por Deus, *portanto quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus*, isto é, a Deus que ordena esta potestade. Não julgueis leve resistir assim, porque os que assim resistem, por tal resistência *atraem sobre si a condenação*, isto é, só esta causa basta para a condenação deles. Não se deve, pois, resistir ao príncipe; *pois os príncipes não são motivo de temor para a boa obra*, isto é, quem obra bem não tem por que temer o príncipe; porque, mesmo que lhe seja hostil por causa da boa obra e o persiga, aumenta-lhe a virtude e o mérito: por isso não é motivo de temor para quem obra bem. *Mas para a má*, isto é, quem obra mal, esse certamente pode temer o príncipe.

Agora, colhendo das premissas o conselho, diz: o príncipe não se deve temer pelos bons; se tu igualmente queres não temer a potestade, *faze o bem*; e, fazendo o bem, *terás louvor dela*, qualquer que seja, boa ou má; porque, se é boa, louvar-te-á pelo bem; se é má, perseguir-te-á enquanto obras o bem, e serás louvado pela virtude da paciência. Na verdade terás louvor dela; *pois este mesmo príncipe é ministro de Deus para o teu bem*, isto é, para a tua utilidade, se fizeres o bem. *Se, porém, fizeres o mal, teme-o*. Deve ser certamente temido por quem faz o mal; *pois este juiz não traz em vão a espada*: na verdade não em vão; *pois ele é ministro de Deus, vingador* para o dano daquele que pratica o mal: vingador, digo, *para castigo*, isto é, para fazer a vingança de Deus; ou então, vingador para castigo, isto é, em sinal da vingança futura, que percebem pela vingança temporal que veem.

Visto que este príncipe é ministro de Deus, *por isso sede submissos* de ânimo a esta *necessidade*, isto é, ao príncipe, a quem, queirais ou não, estareis sujeitos, de modo que desejeis o que é necessário; submissos, digo, não só para evitar a ira do príncipe, mas também *por causa da consciência*, para conservá-la pura, porque, se não vos submetêsseis de ânimo ao príncipe, a vossa consciência estaria manchada, opondo-se à ordenação divina. Deveis certamente ser submissos ao príncipe; *pois por isso*, isto é, em sinal desta sujeição, *pagais tributos* e as demais dívidas. Vós, digo, nisto mesmo que pagais tributos às potestades, servis a Deus; *pois os próprios príncipes são ministros de Deus*, isto é, servem a Deus pelos tributos recebidos, que lhes dão forças e poder de operar o que Deus dispõe. Ou assim: vós pagais tributos e fazeis bem; pois estes príncipes são ministros de Deus, *ocupados*, isto é, os que Deus constituiu para servi-lo *nisso mesmo*, nos tributos que de vós recebem; quando, com efeito, Deus constituiu o primeiro rei, Saul, disse que ele não viveria mais do seu trabalho, mas dos trabalhos dos súditos.

E porque ou vós, ao pagardes tributos, servis a Deus, ou os príncipes nisso mesmo servem a Deus, *portanto pagai a todos os príncipes o que lhes é devido*: a quem deveis tributo, pagai tributo; a quem deveis imposto, pagai imposto (tributo diz-se, por exemplo, os mantimentos que se pagavam em casa; imposto, o que era sempre levado às casas dos senhores, como hoje o censo); a quem deveis só honra, dispensai honra; a quem temor, exibi temor e toda reverência. Para reunir tudo brevemente, ordeno universalmente: *a ninguém devais coisa alguma*, nem tributo, nem imposto, nem outra coisa, *a não ser o amor mútuo*; porque quero que sejais sempre devedores do amor, de modo que nunca cesseis de amar. Por isso quero que sempre vos ameis mutuamente; porque *quem ama o próximo cumpriu a lei*. E na verdade cumpriu a lei; pois *não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás*; e se há outro mandamento na lei, *se resume*, isto é, cumpre-se, *nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo*.

Na verdade, no amor do próximo cumpre-se todo mandamento da lei; pois *o amor do próximo não pratica o mal*; quem ama o próximo, com efeito, não cometerá adultério com a sua mulher, não o matará, não furtará os seus bens, etc. E visto que o amor do próximo não pratica o mal, *portanto o amor é a plenitude da lei*; quem não pratica o mal, com efeito, cumpriu a lei.

Sabemos certamente que o amor não pratica o mal; e não só isso sabemos dele, mas também, sabendo isto do amor, que nos faz despertar do sono e obrar o bem. A força da continuação e a soma da sentença dependem, porém, do que segue: *deixemos, pois, as obras das trevas*; mas antecipa algumas razões, de onde infira mais oportunamente, dizendo: sabemos que o amor não pratica o mal; sabendo também isto do amor, *o tempo*, que *já é hora*; como se dissesse: é tempo; mas significou por "hora" aquele tempo para mostrar que é breve e rapidamente passa, e que, se nele não nos arrependermos, é irrecuperável; sabemos certamente que *já é hora*, isto é, de agora em diante, desde que fomos justificados pela fé, *de despertar do sono*, isto é, da moleza do corpo, que nos torna preguiçosos para obrar bem. Diz despertar como velar com todo empenho sobre as boas obras; há, com efeito, alguns que, depois de justificados, quando deveriam fervilhar no trabalho da boa operação, tornam-se tíbios e negligentes, como se estivessem seguros pela justificação e porque se abstêm dos crimes.

Na verdade devemos despertar do sono; *pois a nossa salvação está mais próxima do que quando abraçamos a fé*, isto é, quando recebemos a fé, fé que nos tornou próximos da salvação; mas agora, pelo mérito das coisas que operamos depois de recebida a fé, a nossa salvação está mais próxima do que então, quando só abraçamos a fé, isto é, quando só havia em nós a graça e ainda nenhum mérito. Ou assim: agora está mais próxima, segundo o tempo, a nossa salvação, isto é, o dia da nossa salvação, do que estava outrora quando primeiro abraçamos a fé; cada dia, com efeito, nos aproximamos mais e mais do juízo futuro, em que seremos remunerados. Na verdade agora está próxima a nossa salvação; pois *a noite*, isto é, a ignorância tida na infidelidade, *avançou*, e por isso devemos acautelar-nos para não recair nesta noite. A noite, diz, avançou, mas o dia da nossa salvação *se aproximou* pelos raios enviados, como a fé, a esperança, o amor e o mais, isto é, entende-se estar próximo: as virtudes que se têm no presente, com efeito, são raios da alegria futura. E visto que a noite deixou de existir e o dia se aproximou, *deixemos, pois, as obras das trevas*, isto é, as que operamos enquanto estávamos na ignorância; ou então, obras das trevas, isto é, dignas das trevas, dignas de não serem vistas, mas sempre ocultadas: deixemos, diz, estas obras e *revistamo-nos das obras da luz*, isto é, do verdadeiro conhecimento, ou obras dignas da luz e da manifestação, que são as armas com que defendemos a nossa fé e vencemos os vícios que se levantam, para que, revestidos das armas da luz, *andemos honestamente*, isto é, progridamos do bem para o melhor, *como em pleno dia*, isto é, como postos no conhecimento da verdade; convém, com efeito, a quem está no dia deixar as obras da noite e assumir as armas da luz. Nós, digo, andemos assim no dia: *não em orgias*, isto é, não permanecendo em reuniões de banquetes públicos; *e bebedeiras*, de modo que nos entreguemos a excesso de bebida; *nem em desonestidades*, isto é, nos leitos, aos quais se vai pelo excesso de fartura e bebida, e ali se tem repouso supérfluo; *nem dissoluções*, isto é, no deleite da libido: quem desce ébrio ao leito, com efeito, é por consequência impelido pelas tochas da libido; *nem em rixas*: a intemperança da bebida e da libido, com efeito, frequentemente suscita altercações; *e não estejais em invejas*, isto é, na inveja: há quem, não ousando contender como pode, inveja o próximo; nestas coisas, portanto, não permaneçais; *mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo*, isto é, vesti a vossa nudez com a fé de Cristo e as virtudes que se edificam sobre esta fé: o homem, com efeito, por causa do pecado foi expulso nu do paraíso; mas essa nudez deve ser coberta pelo ornamento da fé e das demais virtudes. E vós, *revestidos do Senhor Jesus Cristo*, *não procureis*, isto é, não procurareis satisfazer a carne; não proíbo o cuidado que a necessidade exige, mas *não procureis satisfazer a carne em seus desejos*, de modo que sigais os desejos da carne.

</div>

# Capítulo 14

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Acolhei o que é fraco na fé, sem discutir opiniões. Um crê que pode comer de tudo; o que é fraco, porém, coma legumes. Quem come não despreze o que não come; e quem não come não julgue o que come, pois Deus o acolheu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor ele está de pé ou cai; mas ficará de pé, pois Deus é poderoso para o sustentar. Um distingue um dia de outro dia; outro considera iguais todos os dias; cada um tenha plena convicção em seu próprio modo de pensar. Quem observa o dia, observa-o para o Senhor; e quem come, come para o Senhor, pois dá graças a Deus; e quem não come, não come para o Senhor, e dá graças a Deus. Pois nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si; porque, se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, somos do Senhor. Para isto Cristo morreu e ressuscitou: para ser Senhor tanto dos vivos como dos mortos. Mas tu, por que julgas o teu irmão? Ou tu, por que desprezas o teu irmão? Pois todos compareceremos ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: Eu vivo, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará glória a Deus (Is 45,24). Assim, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. Não nos julguemos, portanto, mais uns aos outros; antes, julgai isto: não ponhais tropeço ou escândalo ao irmão. Sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nada é impuro por si mesmo, a não ser para aquele que julga que algo é impuro; para esse é impuro. Pois, se por causa de um alimento o teu irmão se entristece, já não andas segundo a caridade. Não faças perecer, com o teu alimento, aquele por quem Cristo morreu. Não seja, pois, blasfemado o nosso bem. Pois o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo; quem nisto serve a Cristo agrada a Deus e é aprovado pelos homens. Procuremos, pois, o que serve à paz e à edificação mútua. Não destruas, por causa de um alimento, a obra de Deus. Todas as coisas são puras, mas é mau para o homem comer causando tropeço. É bom não comer carne nem beber vinho, nem fazer coisa alguma em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Tens fé? Guarda-a para ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas quem tem dúvidas, se comer, está condenado, porque não age por fé. Tudo o que não procede da fé é pecado.

## Comentário

Como os romanos discutiam entre si com grave discórdia, dizendo os convertidos do judaísmo que certos alimentos eram impuros e que não se devia usá-los; os judeus caluniavam também os gentios por comerem as carnes sacrificadas aos ídolos, dizendo que ainda aderiam aos ritos da gentilidade; ao contrário, os gentios, sabendo que todos os alimentos são puros, usavam-nos, acusando os judeus de não terem fé íntegra; como brigavam deste modo, o Apóstolo, querendo reconduzi-los à paz, instrui-os a não darem escândalo aos irmãos entre si, nem a julgarem um ao outro quanto às consciências. Dava escândalo aquele que, para incitar a ira do próximo, comia o que ofendia o próximo; ou fazia que o outro comesse, em incredulidade, o que julgava impuro. Julgar das consciências era quando o judeu, julgando impuras certas coisas, condenava o gentio, dizendo que usava as carnes sacrificadas aos ídolos porque ainda aderia aos ídolos. O texto liga-se assim: não procureis satisfazer a carne, mas fazei isto: *acolhei o que é fraco na fé*, isto é, quem não tem fé firme, julgando impuras certas criaturas de Deus (e este era o judeu), a esse não escandalizeis vós que sois firmes na fé, mas acolhei-o. Acolher é condescender com a sua fraqueza, abster-se do que ele se abstém, e assim, atraindo-o pouco a pouco, ensinar-lhe a integridade da fé, até que chegue à perfeição. Aqui removeu o escândalo. Acolhei o fraco, *sem discutir opiniões*, isto é, sem vos demorar nas opiniões dele, o fraco, isto é, não discutais, julgando alguém quanto à consciência do coração, que só Deus conhece e não vós.

Na verdade o fraco deve ser acolhido; pois um é perfeito, que pode acolher e ensinar; outro é fraco, que precisa de acolhimento; o que diz assim: *um crê que pode comer de tudo*, sabendo que todas as coisas são puras, e este é firme na fé; outro, porém, é fraco, julgando que não pode comer tudo; *este que é fraco*, não querendo usar das carnes dos gentios, *coma legumes*, isto é, permita-se-lhe comer legumes, isto é, se quiser abster-se, é certamente bom, e não seja inquietado.

Aqui começa a reprimir os romanos, para que não julguem das consciências: quem não quer comer, seja-lhe permitido abster-se; *quem come*, porém, sabendo que todos os alimentos são puros, *não despreze o que não come*, isto é, o gentio que come não despreze o judeu que se abstém, arguindo-o de imperfeição da fé; *e quem não come*, isto é, o judeu, *não julgue*, isto é, não condene *o que come*, o gentio: um não deve desprezar ou julgar o outro; *pois Deus o acolheu*, isto é, a ambos, o que come e o que não come. Acolheu-os, digo, pela fé que já têm, como servos; e visto que foram acolhidos por Deus, feitos servos dele, *quem és tu, que julgas o servo alheio?* Nem as leis do mundo toleram que um servo seja julgado por outro que não seu senhor. Não deves, pois, julgar o servo alheio; porque aquele servo *está de pé* obrando bem, reservado ao senhor, isto é, ao julgamento de seu senhor, *ou cai* pecando, a ser julgado por seu senhor. Mesmo que saibas claramente que caiu, não o julgues, contudo; porque amanhã pode ser melhor que tu, arrependendo-se; e de todos se deve sempre manter boa suspeita. E se também caiu, *ficará de pé* talvez amanhã, isto é, aparecerá forte no bem. Na verdade deve-se suspeitar dele que *ficará de pé*; pois Deus, de quem é servo, *é poderoso para o sustentar* de novo.

Porque só ao Senhor cabe julgar o servo, tu não deves julgá-lo; além disso, para que não o condenes; pois o que faz, faz por juízo e sã intenção do ânimo; o que diz assim: *um*, judeu ou gentio, *distingue um dia de outro dia*, isto é, que num dia se deve abster e noutro não; *outro considera iguais todos os dias*, que em todos se deve observar a abstinência; e quem quer que julgue que se deve abster, sente com acerto, e por isso é de louvar, não de condenar. Quem julga que se deve abster, seja este ou aquele, sente com acerto; e quero que *cada um tenha plena convicção em seu próprio modo de pensar*, isto é, naquilo que sábia e proveitosamente sente e opera, para que, se agora se abstém bem, depois se abstenha melhor e siga as demais coisas boas. Deve-se notar que, se abster-se fosse mal, o Apóstolo não quereria que eles tivessem plena convicção neste sentimento. Por isso desejo que tenham plena convicção neste sentimento, porque *quem observa o dia*, isto é, quem na abstinência observa o dia, *observa-o para o Senhor*, isto é, para a honra do Senhor. E *quem come, come igualmente para o Senhor*; pois ao comer dá graças a Deus, tanto pelo são entendimento que tem das criaturas de Deus quanto porque é sustentado por esses benefícios. E *quem não come, não come para o Senhor*, isto é, jejua para a honra de Deus, e de novo *dá graças ao Senhor* pela abstinência que lhe foi concedida. E por isso se mostra suficientemente que ambos entendem com acerto e que nenhum deve ser condenado por isso.

Ou aquilo acima lê-se de outro modo: não julgues o servo alheio; pois *um*, isto é, o homem, *distingue um dia de outro*, isto é, julga só do presente; *outro*, isto é, Deus, *julga todos os dias*, tanto o futuro como o presente. E, como o homem julga com acerto do presente, quero que cada um dos homens tenha plena convicção em seu bom modo de pensar: o resto não muda.

Ambos, o que come e o que se abstém, dão graças a Deus: e com justiça; pois *nenhum de nós vive para si*, isto é, ninguém deve buscar a sua glória enquanto vive; *e nenhum* dos justos *morre* igualmente *para si*. Na verdade nem vivemos nem morremos para nós, mas para o Senhor; *se vivemos, vivemos para o Senhor*, isto é, vivemos para a honra do Senhor; *se morremos, morremos para o Senhor*: e porque vivemos e morremos para o Senhor, *portanto somos do Senhor*, quer vivamos, quer morramos; por isso tu, quem quer que sejas, não julgues o servo alheio. Na verdade somos do Senhor; pois *para isto Cristo morreu e ressuscitou*, para, pelo mérito da morte e pelo poder da Ressurreição, *ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos*. E como Deus é Senhor de todos, *tu, porém*, que te absténs, *por que*, isto é, por que julgas o teu irmão que come; ou tu, que comes, por que desprezas o teu irmão que jejua?

Não vos julgueis mutuamente; pois *todos compareceremos ante o tribunal de Deus*, para sermos julgados por Deus. Diz *compareceremos* (de pé) por semelhança com os que esperam a sentença do juízo; diz *tribunal* como se Deus fosse sentar-se, à maneira de qualquer poderoso, diante do tribunal. Na verdade todos compareceremos; pois assim está escrito: isto diz o Senhor por Isaías (cap. 45,24): *Eu vivo*; eis o juramento, para que o que se segue seja crido com toda certeza. Quando Isaías dizia: vivo, entendia de Cristo, que haveria de provar alguma vez a morte, a quem ressuscitando o Pai constituiria juiz de todos (o que os infiéis julgaram falso, ao vê-lo morto); e na voz de Cristo assim diz: eu verdadeiramente vivo; o que será manifesto por isto: que *diante de mim se dobrará todo joelho*, isto é, toda criatura se me sujeitará no juízo; e então *toda língua*, isto é, toda consciência, *dará glória ao Senhor*. E visto que assim diz a Escritura, que todos devem ser julgados por Deus, consta, portanto, que *cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus*, e não do próximo. E visto que daremos contas por nós, *não nos julguemos, portanto, mais uns aos outros*, isto é, o súdito ao súdito. Com esse *uns aos outros* insinua que não proíbe o julgamento dos prelados sobre os súditos, a respeito dos quais devem julgar, mas reprime somente os súditos, para que não presumam julgar-se mutuamente.

Depois de mostrar suficientemente que não devem julgar-se mutuamente quanto às consciências, proíbe-os de escandalizar os irmãos, dizendo: não vos julgueis mutuamente; *antes, julgai isto: não ponhais tropeço ou escândalo ao irmão*. Chama tropeço, por exemplo, se fizesse o irmão pecar comendo em incredulidade, ou se comesse com ânimo tal que o irmão, abominando isso, brigasse e desprezasse o que come; chama escândalo a tristeza do irmão por ver comer o que julga impuro. Objetaria a Paulo aquele que entende que se deve usar de tudo: talvez tu estejas enfermo com o judeu, tu que dizes que eu ofendo quando uso das criaturas de Deus. Longe de mim, diz Paulo, que eu te acuse de que não creias com acerto; *sei, com efeito, e estou persuadido no Senhor Jesus*, isto é, por Jesus te testifico, *que nada é impuro por si mesmo*, isto é, comum; e isto por Ele, isto é, por Cristo, que nos libertou da lei, sob a qual muitas coisas eram julgadas impuras; mas, porque, abolida essa lei, foi devolvida a liberdade, nada já se deve dizer comum. Sei certamente que nada é comum, *a não ser para aquele que julga que algo é comum*; para esse é certamente comum, não por causa da criatura, mas por causa da fraqueza de sua fé.

Não ponhas escândalo ao irmão; *pois, se por causa do alimento que comes o teu irmão se entristece, já não andas segundo a caridade*, porque não tens cuidado do próximo. Para que te guardes do tropeço do irmão, *não faças perecer com o teu alimento* (que é coisa vil) *aquele*, de modo que o faças comer contigo em infidelidade, ou que briguem: não negligencies, digo, por coisa tão vil, *aquele por quem Cristo morreu*, isto é, a quem Cristo amou tanto que quis morrer por ele. Visto que o alimento é coisa vil, e perder o próximo é grave, portanto, para que o próximo não pereça por nosso alimento, *não seja blasfemado o nosso bem*, isto é, o são entendimento que temos das criaturas; esse bem, certamente, não seja blasfemado, isto é, não se torne blasfemável, de modo que por este bem ofendamos o irmão simples.

Determina em que coisas não se deve ofender o próximo, a saber, nas que impedem a salvação; e em que coisas não se deve segui-lo, a saber, nas que tiram a salvação da alma, dizendo: não deves perder o próximo por causa de um alimento; *pois o reino de Deus não é comida nem bebida*, isto é, usar desta comida e desta bebida não dá o reino de Deus, nem o tira, se te abstiveres dessas coisas: estas coisas não dão o reino de Deus; mas *justiça*, isto é, a equidade guardada para com o próximo, para que em nada o ofendamos; *e paz*, isto é, a concórdia que vem da equidade guardada; *e alegria*, com que um se congratula com o outro no amor; alegria que, nutrida na paz, é *no Espírito Santo*, isto é, segundo o que dita o Espírito Santo: estas coisas, digo, são o reino de Deus; *pois quem nelas*, isto é, na paz, na justiça e na alegria, *serve a Cristo, agrada a Deus e é aprovado pelos homens*, isto é, este serviço é julgado digno de aprovação por todos; e não é como o teu comer, no qual o próximo se ofende. Por isso disse primeiro: serve a Cristo; depois: agrada a Deus; porque Cristo deu aos homens a lei da paz e da justiça, e eles, sem Cristo, não podem agradar a Deus.

Visto que o serviço da paz agrada a Deus e é aprovado pelos homens, *procuremos, pois, o que serve à paz*; não litiguemos com o próximo; mas procuremos também o que serve à edificação, e isto *mútua*, para que tu o edifiques no teu bem, e ele a ti no seu. O que aqui diz *edificação* é o mesmo que disse acima: acolhei o fraco. Procuremos o que serve à edificação, não o que serve à destruição; o que diz assim: *não destruas, por causa do teu alimento*, com o qual o próximo se ofende, *a obra de Deus* nele, isto é, a fé que Deus já operou nele; se, com efeito, o constranges com excessiva rigidez, deixará esse pouquinho de bem que tem; por isso a sua fraqueza deve ser antes alimentada do que constrangida com excessiva aspereza: o que Pedro observava com muito acerto, quando permitia que os judeus que convertera à fé de Cristo ainda se circuncidassem e conservassem algumas coisas legais, às quais, se os constrangesse de modo intemperante, mais depressa abandonariam o que dele haviam recebido do que subiriam assim repentinamente à perfeição; sabia, com efeito, que podiam e deviam ser conduzidos pouco a pouco à perfeição, como aconteceu.

Não destruas, por causa de um alimento, a fé do próximo, não porque o alimento seja impuro, *todas as coisas são puras*; *mas é mau para o homem comer causando tropeço*, com a intenção de ofender o próximo. E, para te guardares da ofensa ao próximo, deves abster-te não só destas coisas, mas também de toda carne e de toda bebida em que o irmão se ofende; o que diz assim: *é bom não comer carne nem beber vinho, nem coisa alguma em que teu irmão tropece*, ofendendo-se, pecando, *ou se escandalize*, entristecendo-se contigo, *ou se enfraqueça* na fé, hesitando um pouco. Para não ofenderes o próximo, deves abster-te destas coisas. *Tens fé?* sã; *guarda-a para ti mesmo diante de Deus*, isto é, basta-te que Deus entenda a tua fé; não convém que, diante de quem se abstém e se ofende, faças a obra da tua fé; guarda, pois, essa fé para ti mesmo, não diante do que se abstém. Pois *bem-aventurado é aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova*, isto é, no que aprova como verdadeiro; mas se tu usas dos alimentos, de que é lícito usar, para ofensa do próximo, naquilo que aprovas julgas-te réu da ofensa feita ao irmão. Aquele que naquilo que aprova não se condena é bem-aventurado; mas *aquele que tem dúvidas* e discerne alimentos de alimentos, dizendo estes puros, aqueles impuros, este, se comer nessa dúvida, *está condenado*; não porque o alimento seja impuro, mas porque não come *por fé*, para crer que são puros. Na verdade, porque não por fé, está condenado; pois *tudo o que não procede da fé é pecado*.

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# Capítulo 15

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Nós, os fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não procurar o nosso próprio agrado. Cada um de nós procure agradar ao próximo, no que é bom, para a edificação. Pois também Cristo não buscou o seu próprio agrado, mas, como está escrito: Os insultos dos que te insultavam caíram sobre mim (Sl 68,10). Porque tudo o que foi escrito foi escrito para nosso ensinamento, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. O Deus da paciência e da consolação vos conceda ter o mesmo sentir uns para com os outros, segundo Jesus Cristo; para que unânimes, a uma só voz, glorifiqueis a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus. Digo, com efeito, que Cristo Jesus foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais; e que os gentios glorificam a Deus por sua misericórdia, como está escrito: Por isso te louvarei entre os gentios, Senhor, e cantarei ao teu nome (Sl 17,50). E diz também: Alegrai-vos, gentios, com o seu povo. E ainda: Louvai o Senhor, todos os gentios; exaltai-o, todos os povos (Sl 116,1). E de novo diz Isaías: Haverá a raiz de Jessé, e aquele que se levantará para reger os gentios; nele os gentios esperarão (Is 11,10). O Deus da esperança vos encha de toda a alegria e paz na fé, para que abundeis em esperança, pela virtude do Espírito Santo. Estou persuadido, meus irmãos, também eu mesmo, a respeito de vós, de que estais cheios de amor, repletos de todo conhecimento, a ponto de poderdes admoestar-vos uns aos outros. Escrevi-vos, porém, com certa ousadia, irmãos, em parte, como para vos trazer de novo à memória, pela graça que me foi dada por Deus, de ser ministro de Cristo Jesus entre os gentios, consagrando o Evangelho de Deus, para que a oferta dos gentios seja aceita e santificada no Espírito Santo. Tenho, pois, glória em Cristo Jesus nas coisas que dizem respeito a Deus. Pois não ouso falar de coisa alguma que Cristo não tenha realizado por meu intermédio, para a obediência dos gentios, por palavra e por obras, com a virtude de sinais e prodígios, com a virtude do Espírito Santo; de modo que, de Jerusalém e arredores até a Ilíria, tenho levado a plenitude do Evangelho de Cristo. Assim, porém, preguei este Evangelho, não onde Cristo já fora nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio; mas, como está escrito: Aqueles a quem não foi anunciado verão; e os que não ouviram entenderão (Is 52,15). Por isso fui muitas vezes impedido de ir ter convosco, e fui impedido até agora. Agora, porém, não tendo mais campo nestas regiões, e tendo desde muitos anos o desejo de ir ter convosco, quando me dirigir à Espanha, espero que, de passagem, vos veja e seja por vós encaminhado para lá, depois de ter gozado um pouco da vossa companhia. Agora, pois, vou a Jerusalém, a serviço dos santos. A Macedônia e a Acaia houveram por bem fazer uma coleta em favor dos pobres dentre os santos que estão em Jerusalém. Houveram por bem, e são devedores deles; pois, se os gentios participaram dos seus bens espirituais, devem também servi-los nos bens materiais. Concluído isto, e entregue a eles este fruto, partirei por vós para a Espanha. Sei que, ao ir ter convosco, irei na plenitude da bênção do Evangelho de Cristo. Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pela caridade do Espírito Santo, que me ajudeis com as vossas orações a Deus por mim, para que eu seja livrado dos infiéis que estão na Judeia, e a oferta do meu serviço seja bem aceita pelos santos em Jerusalém, para que eu vá ter convosco com alegria, pela vontade de Deus, e repouse convosco. O Deus da paz seja com todos vós. Amém.

## Comentário

A isto diria aquele que fosse de fé sã: se eu, como tu mesmo confessas, sou de fé sã, crendo puras todas as coisas, e este, porém, é fraco na fé, parece causa mais justa que o fraco siga o forte do que eu, forte, siga a fraqueza dele. Não é assim, diz Paulo, mas, embora tu sejas de fé sã e este de fé fraca, *nós, os fortes, devemos, contudo, suportar as fraquezas dos fracos* e, por certa participação, nutri-las para o melhor, *e não devemos procurar o nosso próprio agrado* em tudo. Não procuremos agradar a nós mesmos, mas *cada um procure agradar ao próximo*, e isto *no que é bom*, porque *para a edificação* do próximo, que deve ser edificado segundo a caridade. Não procuremos agradar a nós mesmos; *pois também Cristo* (a quem devemos seguir em tudo) *não buscou o seu próprio agrado*, isto é, não consentiu à carne fraca, mas, *como está escrito* no salmo (68,10), diz Cristo ao Pai: *Os insultos dos que te insultavam* caíram sobre mim como um peso, e na morte me oprimiram; como se dissesse: porque expulsei do templo os que vendiam e compravam, no qual te insultavam, por isso me adjudicaram à morte. Que se segue daí, diria alguém, se assim está escrito? Muito, certamente, porque *tudo o que foi escrito* de Cristo *foi escrito para nosso ensinamento*, a fim de que, pelo ensinamento, tenhamos paciência, e na paciência tenhamos a consolação das Escrituras, que é muitíssimo útil aos que padecem; e para que, pela paciência e por esta consolação, *tenhamos esperança* da retribuição futura. E porque vejo que os vossos méritos e a minha doutrina são insuficientes para obter estas coisas, desejo que *o Deus da paciência e da consolação*, doador da paciência e do consolo, *vos conceda ter o mesmo sentir*, de modo que todos tenhais um pensamento verdadeiro, e isto *uns para com os outros*, de modo que o que este sente com acerto o sinta também aquele, e vice-versa; sentir, digo, *segundo*, isto é, por *Jesus Cristo*; *para que unânimes, a uma só voz*, com uma só vontade e a mesma confissão, *glorifiqueis a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo*: não que Deus e Pai signifiquem pessoas diversas, mas no mesmo atribui causas diversas, dizendo que deve ser glorificado ora porque é Deus, ora porque é Pai do Senhor Jesus Cristo, por quem nos vem todo bem.

*Por isso*, isto é, para que tenhais o mesmo sentir e glorifiqueis a Deus com o mesmo ânimo e uma só confissão, *acolhei-vos uns aos outros*, de modo que um acolha o outro com toda benignidade para o instruir, suportando-vos mutuamente; acolhei, digo, *como também Cristo vos acolheu*, com grande altura; acolheu-vos certamente *para a glória* — a maior honra foi perdoar os pecados, honra que aumentará ao dar a incorrupção — para a honra, digo, *de Deus*, isto é, dada só por Deus; Deus, com efeito, dá e dará por graça esta honra, para a qual honrar faltam os nossos méritos.

Prova o que disse: acolheu a vós, romanos; pois acolheu judeus e gentios. E primeiro diz dos judeus: na verdade Cristo vos acolheu, ó judeus; pois eu digo (em quem se deve crer) que *Cristo Jesus foi ministro da circuncisão*, isto é, dos judeus. Cristo, com efeito, foi ministro e como Apóstolo dos judeus, a quem pregou em pessoa; isto, porém, não foi por mérito dos judeus, mas *por causa da verdade de Deus*, isto é, por causa das promessas de Deus: por isso, por causa das promessas, *para confirmar*, isto é, para que pelo próprio ato fossem confirmadas *as promessas feitas aos pais*, isto é, feitas a seus pais. Ou assim: Cristo foi ministro por causa da verdade de Deus, isto é, por causa do cumprimento das promessas de Deus; e para confirmar pela verdade do fato as promessas dos pais, isto é, as que fizeram os pais, isto é, os Profetas, pais dos judeus; Deus, com efeito, havia prometido também por si mesmo, como a Abraão, e mais frequentemente pelos Profetas.

Provou que Deus acolheu os judeus; para o provar não aduziu autoridade alguma, porque era como que patente a todos; prova o mesmo dos gentios por autoridades, porque alguns tinham dúvida a respeito, dizendo: isto digo dos judeus; digo também que *os gentios glorificam a Deus por sua misericórdia* (isto é, pela misericórdia que lhes foi feita). E digo isto *como está escrito* no salmo (17,50): *por isso*; esse "por isso" tem força na ordem do salmo; voz do Filho ao Pai: ó Senhor Pai, *te louvarei entre os gentios*, isto é, farei que os gentios louvem o teu nome; e não só louvarei, mas também *cantarei e exultarei ao teu nome*. E diz de novo a Escritura por Isaías<sup>[1]</sup>: *Alegrai-vos, ó gentios, com o seu povo* (Dt 32,43, segundo os Setenta), isto é, com os judeus, que se diziam povo peculiar de Deus, gentios que Isaías<sup>[2]</sup> convidaria em vão à alegria, se não considerasse o acolhimento deles. E de novo Davi sobre os gentios: *Louvai o Senhor, todos os gentios*, isto é, cada um dos gentios; e não só louvai, mas ainda *exaltai-o*, mostrando-o grande por boas obras, *todos os povos* que estais em cada uma das nações (Sl 116,1). E de novo diz Isaías sobre o mesmo: Jessé, pai de Davi, será *a raiz* dessa origem, da qual nascerá Cristo, *que se levantará para reger os gentios; e naquele Rei os gentios esperarão* (Is 11,10). Cristo levantou-se, porque só ele, entre todos, foi imune de pecado; levantou-se mais alto ao terceiro dia, retomada a incorrupção, quando Deus Pai deu todo o julgamento a este Filho Rei.

Exorto-vos a acolher-vos mutuamente, mas, porque nem por vossas forças nem por minha doutrina podeis realizar isto, peço que *o Deus da esperança*, em quem espero e em quem deveis esperar, *vos encha de toda a alegria*, isto é, da perfeição do amor; alegria que, para que sejais dignos de ter, vos *encha de paz*, isto é, de toda concórdia; paz, digo, reformada *na fé*, isto é, em uma só e a mesma integridade da fé, para que a mesma fé faça a paz em vós; a paz, por sua vez, nutra a alegria: encha-vos, digo, de fé, paz e alegria, *para que abundeis em esperança*, isto é, para que, quanto melhor obrardes, tanto mais firme e abundantemente espereis; e, para que a vossa esperança não seja perturbada, *abundeis pela virtude do Espírito Santo*, isto é, o Espírito Santo vos ministre copiosas forças para perseverar no bem.

Paulo começa aqui a acalmar alguns dos romanos, louvando-os pela integridade da fé, pela plenitude do amor e de todo conhecimento. Contudo, toca-os um pouco, porque não haviam corrigido a imperfeição dos irmãos que erravam, quando bem o podiam, porque eram sábios; quando deviam, porque os amavam; quando era também necessário, porque Paulo, ocupado com outros, não podia vagar suficientemente para a correção dos romanos; como se dissesse: a vossa consciência está certa da integridade da fé deles; igualmente também eu mesmo estou persuadido, *meus irmãos*, a respeito de vós, *de que também vós estais cheios de fé e de amor*, e não litigais com vossos irmãos; *repletos de todo conhecimento*, a ponto de poderdes admoestar-vos uns aos outros, isto é, instruir a fé fraca dos outros. E, embora estejais cheios de amor e de conhecimento, escrevi-vos, porém, *com mais ousadia*, isto é, com um pouco de audácia, *irmãos, em parte*, isto é, segundo a parte em que, agindo um pouco imperfeitamente, não reprimistes as contendas dos irmãos; escrevi-vos, sim, não vos ensinando, que sei serdes sábios, mas *como para vos trazer de novo à memória* as coisas que creio que sabeis, mas de que não vos lembrais bastante.

Dir-me-iam: já que nos confessas perfeitos, por que nos repreendes? Diz Paulo ousadamente: *pela graça*, isto é, pela dignidade do apostolado, *que me foi dada por Deus*; e este meu magistério me obriga a admoestar-vos assim. Foi-me dada a graça *de ser ministro de Cristo Jesus entre os gentios*, isto é, por meu ministério sujeito os gentios a Cristo, *consagrando o Evangelho de Deus*; que consagro ao fazer o mesmo que prego: consagrando-o *para que a oferta dos gentios seja aceita* por Deus, isto é, eu, oferecendo os gentios, seja aceito por Deus; ou então, para que os gentios oferecidos sejam aceitos por Deus: oferta, digo, aceita e *santificada no Espírito Santo*, porque pela imposição das mãos dou o Espírito Santo, o que os falsos doutores não podem fazer. E porque consagro o Evangelho, *tenho, pois, glória*, isto é, glorio-me muito em meu apostolado; glória, digo, a referir não a mim, mas a Deus, e isto *em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo, que me consagrou Apóstolo. Por isso tenho glória, porque *não ouso falar de coisa alguma que Cristo não tenha realizado por meu intermédio*, ministro, como fazem os falsos apóstolos, que dizem ter feito o que nunca fizeram; não falo das coisas que Deus não realiza por mim, mas falo das que Cristo realiza por mim, *para a obediência dos gentios*, isto é, para que ou eu lhe obedeça nos gentios, ou os gentios por mim lhe obedeçam. Realiza, digo, por mim *por palavra*, pois Cristo fala em mim; realiza também *por obras*, isto é, em minhas obras, porque opero o que falo bem; realiza, digo, *com a virtude de sinais e prodígios*, para os quais fazer me dá virtude (chama sinais, por exemplo, a cura de doenças; prodígios, o ressuscitar mortos); de prodígios, digo, feitos *com a virtude do Espírito Santo*. Ou então, Cristo realiza por mim na virtude do Espírito Santo, que distribui por minhas mãos. Realiza, digo, de modo que *eu tenha levado a plenitude*, isto é, pregado plenamente *o Evangelho de Cristo*, começando *de Jerusalém* e *arredores* *até a Ilíria*, o mar; e não por caminho reto, mas *em volta*, isto é, percorrendo cada lugar.

*Assim, porém, preguei este Evangelho, não onde Cristo já fora nomeado*, na Judeia, *para não edificar sobre fundamento alheio*, isto é, sobre a fé que os outros Apóstolos pregaram. Nem foi, contudo, esta a causa por que não pregou ali, mas porque Deus o dirigiu aos gentios. Para não edificar, digo, assim; mas, *como está escrito* em Isaías: *Aqueles a quem não foi anunciado* os gentios, *verão* a Deus, *e os que nem ouviram, entenderão* (Is 52,15). *Por isso*, porque pregava a rudes e como que pétreos, *fui muitas vezes impedido de ir ter convosco*, ó romanos, porque era necessário que vós, que éreis sãos, edificásseis os fracos. Outrora era impedido; *agora, porém, não tendo mais campo nestas regiões*, porque todos se converteram, *e tendo desde muitos anos o desejo de ir ter convosco*, no que podeis notar quanto zelo tenho por vós; *quando me dirigir à Espanha, espero que vos veja, de passagem* por vós; não há, com efeito, razão para me demorar convosco, que sois fiéis; *vos veja*, digo, *e seja por vós encaminhado para lá*, se, contudo, tiver antes gozado de vós *em parte*, isto é, demorando-me algum tempo convosco.

Porque aqui não tenho mais campo e desejo passar a vós, *portanto*, farei o que primeiro se deve fazer, a saber, *irei a Jerusalém, a serviço dos santos*. Quando Pedro e os que estavam com ele deram a Paulo e a Barnabé a mão direita em sinal de comunhão (Gl 2,9), impuseram-lhes que nas Igrejas dos gentios fizessem coletas, de que ministrassem aos santos em Jerusalém, a quem os infiéis haviam tirado tudo. Irei servir aos santos, porque *a Macedônia e a Acaia*, isto é, as suas Igrejas, *houveram por bem*, isto é, julgaram digno *fazer uma coleta* a ser levada *em favor dos pobres dentre os santos*, isto é, os pobres santos *que estão em Jerusalém*. Houveram por bem fazê-lo não coagidos por nós, mas *porque lhes agradou*; e, se não lhes agradasse, são, contudo, *devedores deles* e deveriam fazê-lo por dever: na verdade são devedores deles; *pois, se os gentios participaram dos seus bens espirituais*, porque aqueles santos ministraram bens espirituais aos gentios, *devem também os gentios servi-los* nos bens materiais.

Visto que me resta fazer isto primeiro, *portanto, concluído isto e entregue a eles* (isto é, tendo-lhes devolvido sob selo) *este fruto, partirei por vós para a Espanha*, passando por vós. *Sei*, porém, que, indo ter convosco movido por longo desejo, *irei na plenitude da bênção de Cristo*, isto é, farei abundar em vós a bênção de Cristo, comunicando o que falta da graça de Deus. E porque agora vou a Jerusalém, *rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo, que me ajudeis com as orações* derramadas a Deus por mim, para que por este auxílio eu seja *livrado dos infiéis que estão na Judeia*, e para que assim *a oferta do meu serviço*, isto é, aquilo em que obsequio, *seja bem aceita pelos santos em Jerusalém*, apresentada a eles sem diminuição; para que, completado isto prosperamente, *vá ter convosco com alegria, pela vontade de Deus*, isto é, como Deus tiver disposto; *e repouse convosco*, aperfeiçoando em vós o que encontrar imperfeito. Mas, porque para isto não bastais nem por vós nem por mim: *o Deus da paz seja com todos vós*, fazendo paz com todos vós. Amém.

## Notas

1. Leia-se: Moisés.
2. Leia-se: Moisés.

</div>

# Capítulo 16

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Recomendo-vos Febe, nossa irmã, que está a serviço da Igreja de Cencreia, para que a recebais no Senhor, de modo digno dos santos, e a assistais em qualquer coisa de que precise de vós; pois ela também socorreu a muitos, e a mim mesmo. Saudai Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus (que expuseram o pescoço por minha vida; a quem não só eu agradeço, mas também todas as Igrejas dos gentios), e a Igreja que se reúne em sua casa. Saudai Epêneto, meu amado, que é as primícias da Ásia para Cristo. Saudai Maria, que muito trabalhou por vós. Saudai Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, ilustres entre os Apóstolos, que estiveram em Cristo antes de mim. Saudai Ampliato, meu diletíssimo no Senhor. Saudai Urbano, nosso colaborador em Cristo Jesus, e Estáquis, meu amado. Saudai Apeles, aprovado em Cristo. Saudai os da casa de Aristóbulo. Saudai Herodião, meu parente. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor. Saudai Trifena e Trifosa, que trabalham no Senhor. Saudai a querida Pérside, que muito trabalhou no Senhor. Saudai Rufo, eleito no Senhor, e sua mãe, que é também minha. Saudai Asíncrito, Flegonte, Hermes, Patrobas, Hermas e os irmãos que estão com eles. Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, e Olimpas, e todos os santos que estão com eles. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todas as Igrejas de Cristo vos saúdam. Rogo-vos, irmãos, que observeis os que causam dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes, e afastai-vos deles. Tais pessoas não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao seu próprio ventre; e com palavras doces e bênçãos seduzem os corações dos inocentes. Pois a vossa obediência é conhecida em todo lugar. Alegro-me, portanto, por vós. Mas quero que sejais sábios para o bem e simples para o mal. O Deus da paz esmague depressa Satanás debaixo dos vossos pés. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Saúda-vos Timóteo, meu colaborador, e Lúcio, Jasão e Sosípatro, meus parentes. Eu, Tércio, que escrevi esta Epístola, vos saúdo no Senhor. Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro, e toda a Igreja. Saúda-vos Erasto, tesoureiro da cidade, e o irmão Quarto. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. Àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério, mantido em silêncio durante tempos eternos (mas que agora foi manifestado pelas Escrituras dos Profetas, segundo o mandato do Deus eterno, para a obediência da fé), conhecido de todas as nações, ao único sábio Deus, por Jesus Cristo, a quem seja a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

## Comentário

Terminada a Epístola, insere as suas saudações, dizendo: com as coisas que acima recomendei, *recomendo-vos também Febe, nossa irmã, que está a serviço da Igreja*, isto é, que ministra o necessário a uma Igreja, que ele constituiu em *Cencreia*; isto, digo, dela recomendo: *que a recebais no Senhor, de modo digno dos santos*, isto é, ou como convém a vós, santos, recebê-la, ou como ela, santa, deve ser recebida. E, recebida, *a assistais em qualquer coisa de que precise de vós*. Diz-se que o Apóstolo enviou sua Epístola a Roma por esta Febe, a quem por isso recomenda, para que os romanos, ouvida a autoridade dela, aquiesçam em tudo o que ela bem persuadir. Deve-se assisti-la: *pois ela também socorreu a muitos santos e a mim mesmo*, servindo-os.

Saudai também *Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus*; ou então: saudai em Cristo: os quais ambos *expuseram o pescoço por minha vida*. Eles socorreram Paulo em muitos perigos e prisões. *A quem não só eu agradeço, mas também todas as Igrejas dos gentios*, que agora não teriam o seu Apóstolo, senão pelo auxílio destes. *Saudai também a Igreja que se reúne em sua casa*, isto é, a sua família. *Saudai Epêneto, meu amado, que é as primícias da Ásia para Cristo.* Este foi o primeiro da Ásia a receber a fé de Paulo. *Saudai também Maria, que muito trabalhou por vós*, chamando-vos de volta ao erro. Diz-se que esta Maria anunciou ao Apóstolo a dissensão dos romanos; por esta ocasião lhes escreveu esta Epístola. E esta voltara a Roma, e por isso diz que trabalhou.

*Saudai Andrônico e Júnia, meus parentes* na linhagem dos judeus, *e companheiros de prisão*, que muitas vezes foram presos comigo; *ilustres entre os Apóstolos* (creem-se ter sido dos setenta e dois), *que estiveram em Cristo antes de mim*, que se converteram à fé antes de Paulo. *Saudai Apeles, aprovado em Cristo. Saudai os da casa de Aristóbulo*, isto é, a família, porque é fiel, o senhor de modo algum, porque é réu de infidelidade. *Saudai os da casa de Narciso*; não todos, mas *os que estão* na fé *no Senhor*: alguns da sua família, com efeito, aderem a seu senhor na infidelidade. *Saudai Rufo, eleito no Senhor, e sua mãe, que é também minha*: dele segundo a carne, minha pelo benefício. E, para concluir, *saudai-vos uns aos outros em meu nome com o ósculo santo*, isto é, um diga ao outro; ou da parte de Paulo, beijando-se com o ósculo da paz no lugar dele. Como eu, assim todas as Igrejas de Cristo vos saúdam. Por isso Paulo saudou pessoas aprovadas nominalmente, para que, quando agora persuade os romanos a se afastarem dos falsos apóstolos, não pudessem talvez duvidar de algum daqueles a quem saudou.

A vós, irmãos, saudados, *rogo que observeis*, isto é, que vos guardeis sagazmente dos que causam dissensões e também escândalos, precipitando no pecado, ensinando o que é contra a doutrina que de mim aprendestes. E, para observá-los, *afastai-vos* deles totalmente, separando-vos; porque os que são tais *não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao seu próprio ventre*; buscam, com efeito, as suas coisas, não as de Jesus Cristo. E tais *seduzem os corações dos inocentes*, isto é, dos simples, *com palavras doces*, isto é, sedutoras, *e com bênçãos* simuladas. Deveis afastar-vos deles; pois *a vossa obediência*, e o bem dela, *é conhecida em todo lugar*: e por isso me alegro por vós. Mas quero que sejais sábios e astutos para o bem, e para o mal simples, de modo que sejais crianças na malícia. Embora eu tenha dito que sois sábios, porque a vossa sabedoria pouco pode por si só, peço que *o Deus da paz esmague Satanás*, e seus membros, prostrados *debaixo dos vossos pés*, e isto depressa.

Ditas estas coisas, Paulo os saúda, dizendo: *a graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Saúda-vos Timóteo, meu colaborador, e Lúcio, Jasão e Sosípatro*, ou pai de Sósio, *que são meus parentes. Eu, Tércio, que escrevi esta Epístola, vos saúdo no Senhor.* Este Tércio era o notário do Apóstolo, que inseriu a sua saudação entre as saudações dos outros. Paulo volta às suas saudações e diz: *Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro, e toda a Igreja*, isto é, a sua família. *Saúda-vos Erasto, tesoureiro da cidade, e o irmão Quarto.* Todos estes assim dizendo: *A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós.* Por todos os vossos bens, seja a Deus a honra e a glória; àquele, digo, *que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho*, isto é, como eu vos prego, *e a pregação de Jesus Cristo*, cuja pregação é a mesma que o meu Evangelho: Evangelho, digo, e pregação tida *segundo a revelação do mistério* (chama mistério a salvação dos homens, que sempre esteve oculta antes da vinda de Cristo, mas foi revelada por Ele); do mistério, digo, *mantido em silêncio durante tempos eternos* antes de Cristo; mistério que agora, no tempo da graça, *foi manifestado pelas Escrituras dos Profetas*, agora finalmente compreendidas por Cristo; manifestado, digo, *segundo o mandato do Deus eterno*, para quem desde a eternidade isto estava patente; manifestado *para a obediência da fé em todas as nações*, isto é, para que todas as nações obedeçam à fé. Se quiseres perguntar por que antes foi silenciado e agora revelado, em vão o procuras; porque o mistério, digo, é *conhecido do único sábio Deus*, que sozinho sempre conheceu a causa dele. Manifestado, digo, *por Jesus Cristo*; a quem, Cristo, que é poderoso, *seja a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.*

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# Primeira Epístola aos Coríntios



# Prólogo

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Paulo havia pregado aos coríntios e os convertera à fé; permaneceu entre eles, como cremos, por um ano e meio, vendo que por muito tempo e em muitas coisas se devia aconselhar os coríntios, porque aderiam demasiadamente à carnalidade. Enquanto Paulo esteve presente, aderiram com simplicidade aos preceitos dele, a quem ele pregara simplesmente, como a gente simples, sabendo que os mistérios da fé, se lhes fossem revelados, antes prejudicariam do que aproveitariam à carnalidade deles; e por isso julgou melhor que a simplicidade deles fosse cultivada em coisas simples do que corrompida na altura dos mistérios de Deus, dos quais antes hesitariam do que creriam. Mas, tendo Paulo partido de Corinto, introduziram-se entre eles falsos doutores, que inverteram a boa simplicidade da doutrina anterior; doutrina que, por versar sobre razões mundanas, que contradiziam inteiramente a doutrina espiritual, começou a atrair mais e a levar os coríntios a darem-lhe crédito, porque aderiam mais ao mundo do que a Deus, e a destruir neles, pela astúcia da razão humana, o que Paulo edificara seguindo a simplicidade da fé. Os coríntios, porém, desviando-se da instrução de Paulo, precipitaram-se em muitos erros: julgaram que os méritos dos que batizam aproveitam aos batizados tanto mais quanto maiores forem, e prejudicam se forem menores; e deste modo atribuíam ao homem o que era só de Deus, a saber, perdoar os pecados. Daí acontecia que quem fora batizado por um mais digno julgava menos digno quem fora batizado por um menos digno: nisto, certamente, derrogando a Deus. Erravam também porque distinguiam pouco o Corpo do Senhor dos outros alimentos. De novo, porque os homens oravam com a cabeça coberta, e as mulheres com a cabeça descoberta. Havia ainda outro erro: não criam, como Paulo pregara, na ressurreição futura. Eram acusados também porque se ouvia entre eles falar de fornicação, que nem os gentios toleravam; um deles, com efeito, tomara por esposa a sua madrasta; a quem nem corrigindo haviam emendado, nem interditado a participação na Igreja a tão criminoso; mas por uma paciência ilícita pareciam consentir neste incesto. Conhecidos estes erros, Paulo, por meio de Sóstenes, que lhe fora enviado com uma carta pelos irmãos de Cloé, lugar que se contava na arquidiocese dos coríntios, escreveu-lhes esta Epístola, na qual trata dos coríntios que erravam: enumerando os erros deles e reprovando-os com razões adequadas, com a intenção de os afastar desses vícios.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, chamado a ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, em todo lugar deles e nosso. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças sempre ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus, porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado em vós; de modo que nenhuma graça vos falta, enquanto aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, irrepreensíveis, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais a mesma coisa e que não haja entre vós divisões, mas que sejais perfeitos no mesmo pensar e no mesmo parecer. Foi-me comunicado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Digo isto porque cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus porque a ninguém de vós batizei, exceto Crispo e Gaio, para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; quanto ao mais, não sei se batizei algum outro de vós. Pois Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; não com sabedoria de palavra, para que não se esvazie a Cruz de Cristo. Pois a palavra da Cruz é loucura para os que perecem; para os que se salvam, isto é, para nós, é poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e rejeitarei a prudência dos prudentes (Is 29,14). Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século? Não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Pois, como o mundo, na sabedoria de Deus, não conheceu a Deus pela sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado: escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os mesmos chamados, judeus e gregos, Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus; porque o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Considerai, irmãos, a vossa vocação: não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas Deus escolheu o que é loucura no mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir os fortes; e Deus escolheu o que é vil e desprezível no mundo, e o que não é, para destruir o que é; para que nenhuma carne se glorie diante dele. Dele é que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Quem se gloria, glorie-se no Senhor (Jr 9,23-24).

## Comentário

*Paulo, etc.* Porque era preciso autoridade para reprimir a soberba dos coríntios, põe o nome da autoridade, dizendo: *Paulo*, nome que é certamente conhecido em toda parte; Paulo, digo, *chamado* por Deus, isto é, constituído Apóstolo por vocação divina; ou então, chamado por todos, porque já todos sabem que é Apóstolo; Apóstolo, digo, isto é, enviado *de Jesus Cristo*, isto é, não se intrometendo presunçosamente como os falsos apóstolos, mas enviado de Cristo Jesus; e não enviado por Cristo por oportunidade de exercer a ira, como Saul, mas *pela vontade*, isto é, pelo beneplácito de Deus: Paulo certamente, e com ele *o irmão Sóstenes* — não porque Sóstenes tenha escrito algo nesta Epístola, mas para que Paulo mostre por isso que conhece todos os erros, porque quem era deles e convivia entre eles lhos havia anunciado; também para mostrar que Sóstenes lhe anunciou os erros deles, não com ânimo mau contra eles, mas por desejo da correção deles — Paulo, digo, e o irmão Sóstenes escrevem *à Igreja de Deus que está em Corinto*; à Igreja, digo, *aos santificados*, isto é, justificados dos pecados no batismo, e tudo isto *em Cristo Jesus*, não pelo mérito dos que batizam. Como "Igreja" é nome coletivo, junta-se com bastante conveniência ao plural, de modo que digamos: à Igreja, aos santificados; e não só santificados por Cristo, mas pela graça do mesmo, *chamados santos*, isto é, para serem santificados, de modo que o lavacro e a santificação se atribuam à vocação, e a própria santificação se reconheça como vinda de Deus, e se exclua todo mérito do batizado e do batizante. Paulo escreve à Igreja dos coríntios *com todos*, isto é, e a todas as Igrejas retidas nos mesmos erros; a todos, digo, *os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo*, o qual, naquele que invocam, confessam ser o único que justifica. Não a todas as Igrejas, digo, do mundo, mas às que estão *em todo lugar deles*, dos próprios coríntios, isto é, a toda Igreja sujeita à metrópole dos coríntios e caída no mesmo erro; Igrejas que, embora sejam lugar dos próprios coríntios, porque lhes são antepostas, são também *nosso* lugar, porque as sujeito aos coríntios de modo, contudo, a exercer sempre sobre elas a minha providência, como sobre os coríntios. Paulo diz isto para que os coríntios não dissessem: de nós apenas tens de julgar, e não dos súditos. Costume cuja regra ainda hoje se mantém, porque o Sumo Pontífice, embora tenha sujeitado Igrejas a Igrejas, examina, contudo, o erro de todas, mas por direito mediante os metropolitas.

Paulo e Sóstenes escrevem isto aos coríntios: *Graça e paz a vós*. Como entre os coríntios havia alguns que haviam guardado íntegra a graça que lhes fora dada no batismo, obrando bem, para os quais não se devia desejar o perdão, que já haviam recebido e firmemente conservado; e outros entre eles que, errando, haviam aniquilado a graça recebida, e para estes era necessário repetir o perdão; por esta diversidade de perfeitos e imperfeitos, deve-se desejar esta graça de modo diverso, de maneira que se diga: a vós, que pecastes de novo, seja dada segunda graça, isto é, sejam perdoados de novo os pecados; a vós, porém, que não tornastes vã, pecando, a justificação recebida, seja graça, isto é, a guarda perseverante da justificação recebida. Assim da paz: aos pecadores seja restituída a paz do ânimo; aos que não pecam persevere a tranquilidade do ânimo. Graça, digo, e paz *a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo*, de quem só crede que vem toda justificação, excluído todo mérito do que batiza.

Porque entre os coríntios havia alguns que perseveravam na doutrina de Paulo, não comungando no erro dos outros, fala primeiro separadamente a estes, para que, ouvindo que o seu bem é de tanta autoridade para o Apóstolo, se animem mais ao bem; e também para que por isso se empenhem mais na correção dos irmãos que erram, e para que os que erram obedeçam a estes sem reclamação, quando ouvirem que a perfeição deles é de tanto peso para o Apóstolo. Por isso diz: *Dou graças ao meu Deus*, isto é, a quem faço meu, não detraindo dele como os falsos apóstolos, que dizem que os méritos do que batiza prejudicam ou aproveitam aos batizados; dou graças ao meu Deus *por vós sempre*, isto é, em toda a minha oração; dou, digo, graças *pela graça*, isto é, na consideração da graça de Deus que persevera em vós; graça que *vos foi dada em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo Jesus, que ministra esta graça ao homem reconciliado com Deus. Disto, certamente, dou graças; *porque* (isto é, que) *fostes enriquecidos em tudo*, porque tendes copiosamente tanto cada graça como todas; *fostes enriquecidos*, digo, *nele*, isto é, por Cristo, cuja misericórdia sozinha dá a graça; *em tudo*, digo, a saber, *em toda palavra*, isto é, em toda doutrina dos espirituais, dos medianos e dos simples; enriquecidos também *em todo conhecimento* literal, moral e alegórico: assim enriquecidos em tudo, *assim como o testemunho de Cristo*, isto é, a doutrina sobre Cristo atestada a vós pelas Escrituras; assim como, digo, este testemunho *foi confirmado*, isto é, persevera firmemente em vós. Pois na medida em que mantivestes firme a fé de Cristo, nessa medida Deus vos enriqueceu com as suas graças; confirmação cuja causa e semelhança foi a vossa.

Assim, pois, o testemunho de Cristo foi confirmado em vós, *de modo que nenhuma graça vos falta*, isto é, que mantendes toda graça com tanta firmeza quanta vos foi transmitida; a vós, digo, que *aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo*, isto é, em razão da segurança que tendes pela justificação conservada, aguardais seguros o dia da vossa dissolução, em que ele se revelará a vós. Enquanto vivemos, com efeito, a nossa alma, cercada de carne, não pode contemplar a essência divina, que contemplará mais plenamente quando for libertada do peso da carne. Esta revelação, quem obra bem aguarda-a seguro; quem, porém, obra mal, antes parece fugir dela do que aguardá-la. Vós aguardais certamente a Cristo, que, assim como vos confirmou no passado, assim também *vos confirmará* continuamente *até o fim*, isto é, até o dia da vossa dissolução; e não digo que vos confirmará de modo que possais abster-vos dos veniais, mas vos confirmará *irrepreensíveis*, isto é, feitos imunes dos capitais; *até o fim*, digo, a saber, *no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo*, que vem a cada justo na dissolução, recebendo a sua alma para a levar. Por isso determinou assim "irrepreensíveis", para que, se por acaso os vissem cair nos veniais, não insultassem e dissessem: eis que agora aparece a justiça daqueles a quem Paulo estimava tanto: na verdade confirmará daqui em diante; pois prometeu, dizendo: «Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos» (Mt 28,20). *Deus*, que prometeu, *é fiel*, e não pode mentir; por isso confio que vos confirmará; confio também porque *por ele fostes chamados*; se, estando vós no pecado, vos chamou por misericórdia, deve-se crer que, já justificados e já merecendo, vos confirmará daqui em diante: por Deus, certamente, fostes chamados *à comunhão de seu Filho*, isto é, para que, segundo o vosso modo, permaneçais na justiça com seu Filho; e não digo Filho adotivo, mas *Jesus Cristo, nosso Senhor*, próprio e consubstancial.

Depois de ter corroborado os perfeitos no seu bem, volta o discurso aos que pecaram nas coisas ditas, dizendo: a vós perfeitos louvo pela confirmação, mas a vós que errais *rogo*, isto é, conjuro com toda constrição, *pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo*; a quem, contudo, chamo *irmãos*, embora tenhais errado (chama-os irmãos para que, se não os chamasse irmãos, não desesperassem pelo excesso do pecado); rogo-vos, digo, *que todos digais a mesma coisa*, isto é, que todos confesseis que só Deus pode perdoar os pecados; e, dizendo isto, *não haja entre vós divisões*, isto é, algum cisma de infidelidade. Não haja divisões, mas *sejais perfeitos no mesmo pensar*, isto é, na mesma vontade, *e no mesmo parecer*, isto é, no mesmo saber, de modo que queirais e saibais o mesmo: há, com efeito, os que querem o mesmo e, contudo, não sabem o mesmo; há outros cuja vontade é diversa e, no entanto, é o mesmo o saber. Por isso assim vos rogo, porque *foi-me comunicado a vosso respeito*, por cartas, *meus irmãos* (o que repete pela causa dita), *pelos da casa de Cloé*, certamente, *que há contendas entre vós*, isto é, que um contende contra o outro. Cloé é nome de um lugar na arquidiocese dos coríntios, de onde esta contenda lhe havia sido comunicada por Sóstenes; nome que aqui põe para que os coríntios não queiram dissimular o seu erro, sabendo que Paulo o soube pelos mesmos que convivem entre eles.

Não só sei que contendeis, mas também as palavras da própria contenda; *digo isto porque cada um de vós diz*, preferindo-se por seu batizador, um contra o outro; isto certamente diz: eu, na verdade, fui distinguido por justiça muito maior que aquele, que teve um batizador inferior; *eu sou de Paulo; eu, de Apolo* (que era arcebispo dos coríntios); *eu, de Cefas*, isto é, de Pedro. Não põe estes nomes porque se gloriassem deles, já que nem tinham visto Pedro, mas porque, se repusesse os nomes daqueles falsos apóstolos de quem se gloriavam, diriam: Paulo, porque tem inveja destes, não quer que nos gloriemos nos nomes deles, mas julgaria bom que nos gloriássemos no seu nome e no dos seus companheiros. Para remover isto, Paulo pôs o seu nome e o de Pedro, mostrando que não queria que se gloriassem em seu nome; e, se não no nome de Paulo, muito menos devem gloriar-se nos falsos doutores. Os infiéis dizem isto: eu sou de Paulo, eu de Cefas; o fiel, porém, diz: *eu sou de Cristo*, cuja graça sozinha justifica. E porque este diz ser de Paulo, aquele de outro, *está Cristo dividido?*, e já não é um só, mas muitos são os Cristos; cada um, com efeito, faz de seu batizador um Cristo, ao atribuir-lhe o perdão dos pecados, que é só de Cristo. Ou então: Cristo está dividido, porque dá divisamente os dons de sua graça, justificando menos por este, mais por aquele. Ou então: porque errais dizendo assim, por isso Cristo está dividido, isto é, separado de vós. Vós dividis Cristo, fazendo cada um o seu Cristo, ou crendo que Cristo dá a graça divisamente; mas *porventura Paulo* — a quem alguns de vós fazem seu Cristo, ou por cujo mérito credes que Cristo dá melhor a um do que a outro — *porventura Paulo foi crucificado por vós?* Isto certamente não podeis negar, porque fostes redimidos por Cristo, a quem Paulo não tocou. *Ou fostes batizados em nome de Paulo?* Se atendêsseis diligentemente às palavras do batismo, nas quais confessais só a Deus, entenderíeis que toda justificação vem de Deus.

E visto que este bem do batismo se faz mal para vós que errais, porque eu não fiz este bem, *dou graças a Deus* meu *porque a ninguém de vós batizei, exceto Crispo e Gaio*. Por isso não quero ter batizado alguns, *para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome*. Com Crispo e Gaio, *batizei também a casa*, isto é, a família *de Estéfanas*. Destes me lembro; *mas não sei se batizei algum outro*. Por isso batizei tão poucos, porque *Cristo não me enviou para batizar*. Nisto muito humilha o ministério de batizar, quando diz que não foi enviado para isso, que também podem fazer quaisquer infiéis, se a necessidade o exigir; ministério em que, contudo, os coríntios se preferiam reciprocamente uns aos outros. Diz aqui que o sacramento da Igreja foi concedido, em tempo de necessidade, até ao infiel, porque é aquele sem o qual ninguém pode ser salvo; mas os outros sacramentos foram confiados só aos ministros, porque, embora aproveitem à salvação, não são, contudo, aqueles sem os quais o homem não possa salvar-se; porque só a fé do batismo, se conservada íntegra, basta para a salvação.

Aqui termina a questão do batismo e começa o discurso sobre a sua pregação, dizendo: Cristo não me enviou para batizar, *mas para evangelizar*; enviou-me, sim, para pregar, *não com sabedoria de palavra*, isto é, não com a verbosa sabedoria do mundo; e isto *para que não se esvazie a Cruz de Cristo*. Se eu seguisse as razões da sabedoria humana, que destroem inteiramente que o imortal possa morrer e que o morto possa viver de novo, comprovar-se-ia plenamente que Cristo não provou a morte da Cruz, e assim se destruiria o preço de toda a salvação: por isso não fui enviado com a verbosa sabedoria do mundo, segundo cujas razões a Cruz de Cristo pode facilmente ser esvaziada.

Na verdade, se eu seguisse a sabedoria do mundo, esvaziar-se-ia a Cruz de Cristo; pois *a palavra*, isto é, a pregação *da Cruz*, *para os que perecem*, isto é, os sábios do mundo, que se dizem perecentes porque a sabedoria deles logo perecerá e será destruída, ou porque por causa dessa sabedoria perecerão e serão condenados; a palavra da Cruz é certamente *loucura* para os sábios deste mundo, porque a razão humana não obriga ninguém a crer que Cristo, que era imortal por natureza, pôde morrer e, morto, viver de novo. Para os que perecem é loucura; *mas para os que se salvam*, isto é, para nós, que nos afastamos da verbosa sabedoria, para nós, certamente, a palavra da Cruz *é poder de Deus*; considerando, com efeito, que por tão grande fraqueza (como pela morte) foi vencido o antigo inimigo, cuja força prevalecera sobre todo o gênero humano, admiramos mais nisto o poder de Deus, em que destruiu a fortaleza pela fraqueza, do que se extinguisse um poder menor por uma fortaleza manifesta.

Na verdade Deus não me teria enviado com sabedoria de palavra; *assim está escrito* em Abdias: *Destruirei* (diz o Senhor) *a sabedoria dos sábios* (cf. Ab 8), seja porque a destruirei, seja porque os condenarei, porque aderiram à sabedoria humana. E não só a sabedoria destruirei, mas também *rejeitarei a prudência dos prudentes*, isto é, a previdência com que astutamente sabem premunir as suas sentenças, para que não sejam quebradas por alguma impugnação; alguns, com efeito, têm a sabedoria da arte, que, contudo, não sabem premunir-se bastante contra as capciosidades de quem objeta; essa prudência certamente rejeitarei, porque a nenhum dos prudentes deste mundo assumirei no ministério da minha pregação.

Ou liga-se onde diz *para os que perecem*: na verdade perecem; pois está escrito: *Destruirei a sabedoria dos sábios*. E na verdade tais prudentes foram reprovados (estas são palavras do Apóstolo); pois *onde está o sábio?*, isto é, o lógico que confia em sua argumentação? *E onde o escriba?*, isto é, o ético que trata dos costumes? *E onde o inquiridor deste século?*, isto é, o físico que investiga a natureza de todas as coisas? Se o lógico disser: se pariu, coabitou com homem, mente; porque Maria concebeu sem coito viril do Espírito Santo. Se o ético ensinar sobre os costumes e o culto dos ídolos, é repelido; porque novos costumes, novo culto foi introduzido. Se de novo o físico disser que repugna à natureza que uma virgem dê à luz e que um morto viva, é réu de mentira.

Visto que o sábio, o escriba e o físico são repelidos, *não é por isso manifesto que Deus tornou louca*, isto é, comprovou ser louca, *a sabedoria deste mundo?* Deus repele a sabedoria deste mundo; pois assim lhe aprouve. E, quando ouvires que isto agrada a Deus, não perguntes a causa disto. Aprouve certamente a Deus *salvar pela loucura da pregação*, isto é, tanto pela coisa louca pregada quanto pelos loucos pregadores, *os que creem* nele. Por isso lhe aprouve salvar os que creem pela loucura, *porque o mundo*, isto é, os homens do mundo, *não conheceu a Deus pela sabedoria carnal*.

Se alguns filósofos entenderam que há um só Deus, que criou todas as coisas, não o conheceram, contudo, *na sabedoria de Deus*, isto é, a ponto de entender o desígnio de Deus, com que ordem dispunha salvar o homem perdido pela Encarnação do Verbo, e o mais. Ou assim: o fato de o mundo não ter conhecido a Deus pela sua sabedoria isto foi *na sabedoria de Deus*, isto é, assim aprouve à sabedoria de Deus, de não misturar a sua com a mundana.

Na verdade salvou pela loucura os que creem; pois tanto a coisa pregada foi louca quanto os pregadores foram loucos: na verdade pela coisa louca pregada; pois *os judeus*, que já tinham conhecido a Deus por sinais, como no Egito, *pedem* ainda *sinais* para comprovar ser verdadeiro o que se prega de Cristo; *e os gregos*, isto é, os gentios, que ignoram a Deus, *buscam sabedoria*, isto é, querem que se lhes aprove por razões mundanas o que se diz de Cristo; *nós, porém*, para satisfazer aos judeus, pregamos Cristo, poder de Deus, porque os judeus exigem o poder dos milagres; aos gregos, que buscam sabedoria, pregamos que Cristo é sabedoria de Deus, o que, para uns e outros, judeus e gregos eleitos, é poder e sabedoria, mas para os reprovados é escândalo e loucura; e por isso dissemos que os que creem se salvam por uma coisa louca. Exponhamos agora a letra: na verdade Deus salva pela loucura os que creem; porque os judeus pedem sinais, eles que costumavam conhecer a Deus por milagres; e os gregos buscam a sabedoria mundana, porque não entendem outra; *nós, porém*, loucos, pregamos coisa louca, a saber, *Cristo crucificado*: *escândalo para os judeus*, porque se lhes censura que crucificaram o seu rei; *loucura para os gentios*, porque não sabem entender por que razão dizemos Deus aquele mesmo que dizemos ter morrido. Para os judeus e gregos reprovados é escândalo e loucura; mas *para os mesmos chamados*, isto é, eleitos por Deus, *judeus e gregos*, pregamos Cristo, poder de Deus; pois Deus não pôde operar milagre maior do que destruir a morte pela morte. Pregamos também Cristo *sabedoria de Deus*; porque não se pode achar maior sabedoria do que destruir a soberba pela humildade e a fortaleza pela fraqueza. Na verdade Cristo é a sabedoria de Deus; pois *o que é loucura de Deus*, segundo a estima dos homens, *é mais sábio que os homens*, ou porque os homens não podem alcançar tamanha sabedoria nem operar tão sabiamente. E na verdade Cristo é o poder de Deus; pois *o que é fraqueza de Deus*, segundo os carnais, *é mais forte que os homens*, ou porque não sabem entender este poder, ou porque nada podem fazer com tamanha fortaleza.

Ou de outro modo liga-se a letra acima assim: por isso o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria; porque os judeus pedem sinais e os gregos sabedoria; *nós, porém, pregamos Cristo crucificado*: aos judeus não sinal, mas escândalo; aos gregos ou gentios não sabedoria, mas loucura. E porque na Cruz de Cristo o mundo não entende nem poder nem sabedoria, por isso não conheceu a Deus. E aí termina a sentença. Mas, embora a Cruz de Cristo seja escândalo e loucura para os judeus e gregos reprovados, para os mesmos judeus e gregos chamados, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. A letra seguinte não muda.

Provou em parte que pela loucura, pois pela coisa louca pregada, se salvam os que creem; prova agora a outra parte, a saber, que Deus salvou os que creem por meio de pregadores loucos, dizendo: na verdade Deus salvou pela loucura os que creem; *considerai, com efeito, a vossa vocação*, isto é, os vossos chamadores, por quem fostes chamados à fé; isto, digo, considerai deles: que *não há muitos sábios*, etc.; mas Deus escolheu o que é louco no ministério da vossa vocação. Ou liga-se assim ao imediato: na verdade o que é loucura e fraqueza de Deus é mais sábio e mais forte que os homens; pois considerai agora os vossos chamadores; achá-los-eis loucos e fracos. E segundo esta continuação, aquilo que precede, isto é, que o que é louco e fraco de Deus é mais sábio e mais forte que os homens, olha a comprovar que os pregadores foram loucos, como no precedente quis mostrar que a coisa pregada foi louca. No que segue nota-se também o efeito desta loucura e insensatez: considerai, digo, a vossa vocação, isto é, aqueles por quem fostes chamados, *irmãos*; porque entre eles não há muitos sábios *segundo a carne*, isto é, a sabedoria carnal; não há muitos poderosos segundo a carne; *nem muitos nobres* segundo a nobreza da carne. Dizem os santos que Paulo disse "não muitos" porque ele mesmo foi perfeito nas letras seculares, rico de bens terrenos, ilustre pela parentela romana.

Os vossos chamadores não foram nem sábios nem nobres, mas *Deus escolheu o que é loucura no mundo*, isto é, o que o mundo julga loucura, *para confundir os sábios*, isto é, para que Deus, por meio dessas coisas, envergonhe os sábios do mundo, vendo que não podem resistir com seus argumentos aos loucos pregadores de Deus. Escolheu também Deus *o que é fraco no mundo*, isto é, os que no mundo eram de nenhum poder, *para confundir os fortes*, isto é, para que por esses fracos envergonhe os poderosos do mundo. *E o que é vil no mundo*, isto é, os que de sua linhagem não podiam gloriar-se, *e desprezível*, isto é, aqueles em quem não havia reverência alguma pelas pessoas, estes escolheu Deus. E, para enumerar uma a uma, *e o que não é*, isto é, o que ao mundo parecia nada ser, isto escolheu Deus, *para destruir o que é* pelo que não é, isto é, o que parece ser bens do mundo. E tudo isso fez Deus assim *para que nenhuma carne se glorie*, isto é, para que convenha a toda carne não gloriar-se *diante dele*, a saber, porque, se os pregadores considerassem a sua abjeção, ou os gentios por eles convertidos, entenderiam que nada se deve a si mesmos, mas tudo à graça de Deus. Ou assim, para que não se torça: que nenhuma carne se glorie diante de Deus, isto é, considerando o poder de Deus e a sua fraqueza, nem o pregador nem os súditos atribuam algo aos mestres, mas tudo à graça de Deus.

Mas, embora os pregadores fossem loucos e fracos, vós, contudo, nada tivestes de menos por isso; sois, com efeito, feitos fiéis *em Cristo Jesus*. E, como aparece tanta fraqueza dos pregadores, vós, contudo, nada tendes de menos: consta por isso que tudo vem do próprio Deus e nada do mérito dos doutores. Aqui se considera otimamente o efeito da loucura e da fraqueza. Vós, digo, *estais em Cristo Jesus*, Cristo que *se tornou para nós sabedoria da parte de Deus*, porque Deus, instruindo-nos por Cristo, fez-nos sábios nos ministérios de Deus; e, para nos fazer sábios, *tornou-se para nós justiça*, fazendo-nos viver na justiça das virtudes; para que vivêssemos na justiça, *tornou-se para nós santificação*, pois nos santificou perdoando os pecados; e, para santificar, *tornou-se redenção*, isto é, deu o preço de seu sangue, com que nos redimisse, para que, redimidos, nos santificasse, santificados nos confirmasse na justiça das virtudes e aos que permanecem na justiça desse a sabedoria. Tudo isto se tornou para nós, *para que todo aquele que se gloria se glorie* não em si mesmo ou nos doutores, mas em Deus; segundo o que está escrito em Jeremias: «Nisto se glorie o que se gloria: em saber e conhecer-me, porque eu sou o Senhor» (Jr 9,24).

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Também eu, irmãos, quando fui ter convosco, não fui com sublimidade de palavra ou de sabedoria, anunciando-vos o testemunho de Cristo. Pois não julguei saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. E estive entre vós em fraqueza, temor e muito tremor; e a minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas na demonstração do espírito e do poder; para que a vossa fé não se apoie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Falamos, porém, uma sabedoria entre os perfeitos; sabedoria que não é deste século, nem dos príncipes deste século, que estão sendo destruídos; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, a que estava escondida, a que Deus predestinou antes dos séculos para a nossa glória, a que nenhum dos príncipes deste século conheceu; pois, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito: O que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem, o que Deus preparou para os que o amam (Is 64,4). A nós, porém, Deus o revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito perscruta tudo, até as profundezas de Deus. Pois, quem dos homens sabe o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está? Assim também ninguém conheceu o que é de Deus, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecermos as coisas que nos foram dadas por Deus; as quais também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas na doutrina do Espírito, comparando coisas espirituais com espirituais. O homem animal, porém, não percebe as coisas que são do Espírito de Deus; pois são loucura para ele, e não pode entendê-las, porque se examinam espiritualmente. O espiritual, porém, julga tudo, e ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois, quem conheceu o pensamento do Senhor, para o instruir? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo.

## Comentário

Disse que os vossos chamadores foram loucos e desprezíveis; e, como eles, assim também eu mesmo, quando fui ter convosco, ó irmãos, *não fui com sublimidade de palavra*, isto é, esforçando-me por falar artificiosamente e por usar palavras gloriosas, o que, por insensatez, não deixei de fazer; *nem com sublimidade de sabedoria*, a ponto de vos pregar pela sabedoria mundana. Há, com efeito, alguns que têm sermões sublimes, mas não tanta sabedoria da arte; e há também alguns que sabem os preceitos da arte, mas não têm bastante artifício de linguagem. Eu, digo, *não fui com sublimidade de palavra ou de sabedoria, anunciando-vos Cristo*; e isto *pelo testemunho*, porque o que dizia de Cristo, mostrava assim testemunhado nos Profetas. Na verdade não preguei com sublimidade de palavra ou de sabedoria; *pois não julguei saber coisa alguma entre vós*, embora soubesse muitas, *a não ser Jesus Cristo, e este crucificado*, segundo a loucura dos gentios e a fraqueza dos judeus. Não me antepus, com efeito, aos outros pregadores pela sabedoria do mundo que tinha, mas preguei a mesma loucura, isto é, a Cruz de Cristo, como eles.

Não fui com sublimidade de palavra e de sabedoria, nem tampouco com reverência da pessoa, mas *estive entre vós em fraqueza*, isto é, em muita tribulação; e por esta fraqueza estive *em temor* de Deus *e em tremor* do corpo. E, embora padecesse tudo isso, *a minha palavra*, que tinha em particular, *e a minha pregação*, feita em público, *não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana*, isto é, não me esforcei tanto por falar apropriadamente para persuadir; mas a minha pregação foi *na demonstração do espírito*, isto é, de modo que se comprovasse que o Espírito Santo falava por mim, *e do poder*, isto é, dos milagres de Deus; e por isso somente no espírito e no poder de Deus, *para que a vossa fé*, que vos ministrei, *não se apoie na sabedoria dos homens, mas se firme no poder de Deus*. E, embora eu julgasse nada saber entre vós, contudo *falamos sabedoria*, mas *entre os perfeitos*; a vós, porém, porque éreis imperfeitos, não pude falar.

Mas, embora não a falássemos a vós, temos, contudo, uma sabedoria, não carnal, mas espiritual, que é muito mais digna que a carnal a que aderis; o que diz assim: temos, sim, sabedoria, mas *não a deste século*, isto é, dos carnais; *nem a dos príncipes deste século*, isto é, ou dos filósofos, ou dos espíritos malignos que principam sobre os homens do mundo; *os quais príncipes são destruídos*, tanto segundo a doutrina quanto porque por causa da falsa doutrina são condenados. A sabedoria deste século não falamos, mas *falamos a sabedoria de Deus, existente em mistério*. Chama aqui sabedoria de Deus aquele desígnio com que Deus dispôs salvar o gênero humano pela Encarnação do Filho. Falamos esta sabedoria latente em mistério; e não de modo que quaisquer possam percebê-la, como o mistério do batismo e algumas outras coisas, mas *a que estava escondida*, e revelada a ninguém senão a poucos pelo Espírito Santo. Sabedoria que *Deus predestinou antes dos séculos*, isto é, Deus desde a eternidade preordenou que assim seria, *para a nossa glória*, isto é, de todos os fiéis, para que todos por ela tenhamos a glória eterna; ou então: para a nossa glória, isto é, dos pregadores que ministramos esta sabedoria. Era certamente conveniente que nós, que ministramos aos outros, entendêssemos mais copiosamente que os outros esta sabedoria; sabedoria que *nenhum dos príncipes deste século*, isto é, dos filósofos ou demônios, *conheceu*. Na verdade os príncipes não a conheceram; *pois, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado* — os diabos, que puseram no coração de Judas que o entregasse, ou nos corações dos judeus que crucificassem Jesus — nunca teriam crucificado certamente aquele que por esta crucificação soubessem ser *o Senhor da glória*. Se a tivessem conhecido, não o teriam crucificado; mas não conheceram, *como está escrito* em Isaías. Isto, digo, está escrito: *O que o olho não viu* (Is 64,4). O que é da letra de Paulo, e não de Isaías, que diz assim: o olho, isto é, o homem sensual, não viu por si, e o ouvido, isto é, o mesmo sensual, o que por si não pôde entender, não ouviu de outro que ensinasse; nem *subiu ao coração*, isto é, à própria razão do homem, isto é, que sabe humanamente; porque, se o homem entendesse, então certamente o que, não entendendo, crê vil, subiria nele e creria ser grande. Estas coisas, digo, nem viu nem ouviu, *que*, isto é, quão grandes e dignas *Deus preparou para os que o amam*. Ou então, aquele "que" lê-se como nome assim: está escrito aqui que aquilo que o olho não viu, etc., é o que Deus preparou para os que o amam. E é uma relação bastante boa.

Dir-se-ia: se isto não subiu ao coração do homem, como então tu o sabes? A isto Paulo: ninguém deste século o conheceu; *mas a nós*, que já nos despojamos do mundo, *Deus o revelou pelo seu Espírito*; o Espírito de Deus, com efeito, ensinou aquilo em que a sabedoria humana inteiramente falha. Deve-se crer certamente que Deus nos revelou pelo seu Espírito; *pois o Espírito perscruta tudo*, não que Ele tenha algo ignorado que lhe seja necessário perscrutar, mas porque nos abre tudo o que deve ser investigado com máximo escrutínio. Abre-nos também *as profundezas de Deus*, isto é, o mais alto e o mais oculto da essência de Deus, como aquilo de como a Trindade permanece na unidade, e a unidade na Trindade.

Prova o que disse pelo menor e pelo semelhante, assim: na verdade o Espírito de Deus só pode perscrutar o que é de Deus; *pois o espírito do homem* só conhece o que está no próprio homem; e se só o espírito do homem conhece o que é desse homem, pelo semelhante e pelo maior consta que só o Espírito de Deus perscruta o que é de Deus. O que diz assim: o Espírito, digo, perscruta as profundezas de Deus; *pois quem dos homens sabe o que é do homem*, de outro, *senão o espírito do mesmo homem, que nele está?* Ninguém, certamente. E visto que ninguém conhece o que é do homem senão o espírito do mesmo, assim por razão semelhante *ninguém conheceu o que é de Deus, senão o Espírito de Deus*, que nos revelou a sabedoria de Deus.

Dissera que Deus lhe revelou pelo Espírito, mas ainda não dissera que eles receberam aquele Espírito; sobre o que acrescenta: não só Deus nos revelou pelo seu Espírito, mas também *nós recebemos não o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus*, para que por esse Espírito conheçamos os mistérios de Deus, *as coisas que nos foram dadas por Deus* pela graça; coisas que também falamos e manifestamos, *não em palavras ensinadas pela sabedoria humana*, apegando-nos a ela, mas as falamos *na doutrina do Espírito*, isto é, segundo o que dita e nos ensina o Espírito Santo. Nem a quaisquer falamos estes mistérios, mas só *aos espirituais*, nós, digo, *comparando*, isto é, pesando em justo exame *coisas espirituais com espirituais*; porque, se temos ouvinte espiritual, damos-lhe coisas espirituais; se carnal, calamos. O espiritual percebe as coisas espirituais; *mas o homem animal*, que só tem vigor de sensualidade como os demais animais, não de razão, este, digo, *não percebe as coisas que são do Espírito de Deus*. Por isso não percebe, *porque são loucura para ele*, isto é, porque o que o Espírito ensina, ele reputa loucura, aderindo à carnalidade; e porque lhe são loucura, por isso *não pode entender* as coisas do Espírito de Deus. O animal certamente não pode entender, *porque se examinam*, isto é, comprova-se a sua animalidade, e é convencido de sua impiedade *espiritualmente*, isto é, pelas coisas espirituais que lhe são concedidas; Deus, com efeito, dá a alguns certas graças, sabendo com certeza que não cooperarão com a graça; mas faz isto para que seja manifesta a justa condenação dos ímpios. Ou então, para que "examina-se" seja impessoal: o homem animal não percebe as coisas do Espírito, porque se examina, isto é, faz-se o exame e o conhecimento aprovado delas vivendo espiritualmente; os que vivem carnalmente, porém, não podem entender.

O animal não percebe; *mas o espiritual julga tudo*, isto é, discerne, escolhendo os bens, reprovando os males. *E ele mesmo*, o espiritual, *não é julgado por ninguém* animal; o carnal, com efeito, não consegue perceber a causa por que o espiritual escolhe isto e rejeita aquilo. Na verdade o espiritual não é julgado pelo carnal; pois o espiritual tem o pensamento de Cristo, que o carnal não pode conhecer; o que diz assim: *quem*, animal, *conheceu o pensamento*, isto é, a sabedoria *do Senhor*, a ponto de conhecer as suas disposições? *Ou quem o instruirá* sobre o que ele deve fazer, o que não deve fazer? O animal certamente não conheceu o pensamento do Senhor, *mas nós*, pelo Espírito que recebemos, *temos o pensamento de Cristo*, e por isso não podemos ser julgados por nenhum carnal.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Eu também, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais. Como a pequeninos em Cristo, dei-vos leite como bebida, não alimento sólido; pois ainda não o podíeis suportar; mas nem agora o podeis, porque ainda sois carnais. Pois, havendo entre vós inveja e contenda, não sois carnais e não andais segundo o homem? Quando alguém diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; não sois homens? Que é, pois, Apolo? E que é Paulo? Ministros daquele em quem crestes, e cada um conforme o Senhor lhe concedeu. Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega; mas Deus, que dá o crescimento. O que planta e o que rega são um. Cada um, porém, receberá o seu próprio salário, conforme o seu trabalho. Pois somos colaboradores de Deus; vós sois lavoura de Deus, edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, como sábio arquiteto lancei o fundamento; outro edifica por cima. Mas veja cada um como edifica sobre ele. Pois ninguém pode lançar outro fundamento além do que já foi posto, que é Jesus Cristo. Se alguém edifica sobre este fundamento ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se tornará manifesta; pois o dia do Senhor a declarará, porque será revelada pelo fogo; e o fogo provará qual é a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou permanecer, receberá recompensa; se a obra de alguém for queimada, sofrerá prejuízo; ele mesmo, porém, será salvo, mas como através do fogo. Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; pois santo é o templo de Deus, que sois vós. Ninguém se engane a si mesmo; se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, torne-se louco para vir a ser sábio. Pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porque está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia (Jó 5,13). E ainda: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos (Sl 93,11). Portanto, ninguém se glorie nos homens. Pois tudo é vosso, seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro: tudo é vosso; vós, porém, sois de Cristo; e Cristo, de Deus.

## Comentário

Embora, irmãos, sejamos espirituais, como se mostrou, e ensinemos coisas espirituais, contudo eu, irmãos, *não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais* falei. E porque éreis carnais, *dei-vos, como a pequeninos em Cristo*, isto é, tenros na fé de Cristo, *leite como bebida*. Por leite significa a doçura da doutrina; por bebida, a facilidade. *Dei-vos leite, não alimento sólido*, isto é, aquela doutrina para ruminar na vossa simplicidade, que devia antes ser nutrida com facilidade do que oprimida com dificuldade. Por isso não vos dei coisas espirituais, porque *ainda não podíeis* suportá-las; mas nem agora o podeis, embora vos gloriais de novos doutores. Na verdade ainda não podeis; *pois ainda sois carnais*: e na verdade carnais; *pois, havendo entre vós inveja*, isto é, zelo do ânimo, *e contenda* nas palavras, *não sois carnais?* e *não andais segundo o homem*, isto é, segundo a doutrina carnal dos homens que seguis? Na verdade sois carnais e andais segundo o homem; porque, *quando alguém de vós diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo; não sois homens?*, isto é, não sentis segundo o homem?

Porque dizeis: eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, dizei-me, pois, *que é Apolo? E que é Paulo?* E o que credes que nos confere a vós? Isto podeis na verdade sentir deles: *que são ministros daquele em quem crestes*; e nada mais são senão aquilo que por mandato de Deus ministram a vós as coisas de Deus, embora de modo diverso; porque, *conforme o Senhor concedeu a cada um de nós*, nessa medida *eu plantei*, isto é, evangelizei e vos atraí à fé; *Apolo regou*, isto é, batizou-vos já crentes por mim; *mas Deus deu o crescimento* dos bens, só ele, pelo seu Espírito. Segue a metáfora da árvore plantada, que um rega, outro planta, e a que só Deus dá o crescimento. E porque só a Deus pertence dar o crescimento, *portanto, nem o que planta é alguma coisa* quanto ao dom da fé, *nem o que rega* é alguma coisa na remissão dos pecados, mas Deus é tudo, ele que só *dá o crescimento* da fé e da justiça subsequente.

Dir-se-ia o adversário: embora sejam ministros de Deus, são, contudo, diversos nos méritos, e creio que os méritos algo me conferem. Contra isto Paulo: embora um seja mais digno e outro menos, *o que planta e o que rega são um* e indiferentes ao administrar, apenas dispensam o dom de Deus, que nem pode ser aumentado nem diminuído pelos bons ou maus méritos deles. Embora o que planta e o que rega sejam indiferentes no fato de serem ministros de Cristo, diferem, contudo, em que *cada um receberá o seu próprio salário*, medido segundo o seu trabalho, isto é, conforme o modo como trabalhou na obra de Deus; mais se deve, com efeito, a quem mais merece. E isto serve bem ao propósito; pois, ao mostrar que ele merece mais que os outros na fé dos coríntios, e que não se deve gloriar de si, diz aos súditos: muito menos se deve gloriar naqueles que menos merecem, e mostra que nada são inteiramente.

Voltemos à letra. Na verdade receberá o salário conforme o seu próprio trabalho; nós, com efeito, ajudamos a Deus em vós mais que os outros, e por isso seremos remunerados mais que os outros; o que diz assim: *somos colaboradores de Deus*, isto é, operários; e, como servos, ministrando aos preceitos do Senhor, ajudamos a Deus em vós, ministrando a sua fé como ele mesmo nos dispôs. Na verdade ajudamos a Deus em vós; pois *vós sois lavoura de Deus*, isto é, cultivo de campo, do qual já foram erradicados os espinhos dos pecados. Sois, digo, lavoura pela remoção dos males; e sois *edifício de Deus* pela posição das virtudes, porque sobre a vossa fé Deus já edificou outras virtudes. E que sois lavoura e edifício de Deus, isto é por mim; eu, com efeito, *lancei o fundamento*, isto é, a fé sobre a qual se fundam as demais virtudes; lancei-o certamente *como arquiteto*, isto é, chefe da obra, porque, embora tenha tido outros coadjutores em vós, eu fui ali o chefe; arquiteto, digo, *sábio*, isto é, repartindo com discrição a cada um o que podia bastar à sua capacidade. Isto, porém, fiz *segundo a graça de Deus*; não poderia, com efeito, fundar-vos na fé, se a graça de Deus não operasse comigo, graça para ter a qual não precedeu mérito, mas que *me foi dada* por misericórdia.

Eu, no que me toca, lancei o fundamento são; mas *outro* a quem cabe edificar sobre este fundamento, *veja como edifica por cima*; outro é, com efeito, o que edifica sobre este fundamento; como se dissesse: o que era meu, lancei o fundamento; o que é vosso, vede que edifiqueis bem por cima. Diz-se edificar por cima aquele que ou edifica virtudes ou, se peca, não o faz de modo a destruir o fundamento; fundamento que é destruído pelos pecados capitais, a menos que sejam apagados por apta penitência. É destruído também pelos veniais, que não só temos por necessidade, já que até o justo cai sete vezes ao dia (Pr 24,16), mas pelos veniais que admitimos por vontade e consentindo neles sem penitência. Eu, na verdade, lancei com previdência o fundamento; *veja, porém, cada um de vós como edifica sobre este fundamento*; deixa-se, com efeito, esta obra ao vosso arbítrio, já fortalecido pela graça recebida. Deve-se notar que se dizem edificar por cima apenas aqueles cujas culpas não destroem o fundamento; quem destrói, com efeito, deve-se antes dizer ruína do pecado do que edificação por cima.

Deveis certamente cuidar da edificação por cima, para que não varie; pois quanto ao fundamento, torno-vos seguros, porque é um só; *ninguém pode lançar outro fundamento além do que foi posto* por mim, fundamento que, isto é, a fé, *é Jesus Cristo*: a tua fé em Cristo, segundo Agostinho, é Cristo em teu coração. Se algo outro além da fé é posto, é ruína do fundamento, não fundamento. O fundamento é um só, e não pode haver outro; mas as edificações por cima são diversas, porque um edifica por cima ouro ou prata, outro feno ou palha; o que diz assim: *se alguém edifica sobre este fundamento*, isto é, a fé, *ouro, prata, pedras preciosas*; por esses três entendem-se as virtudes, mas distintas: *ou madeira, feno, palha*; por esses três entendem-se males distintos, que, contudo, não destroem o fundamento. Todas estas coisas, porém, serão provadas pelo fogo (como logo acrescentará).

Por ouro [designam-se] os perfeitos em justiça, de modo que neles nada absolutamente há que purgar, os quais certamente passarão pelo fogo, não para ali serem detidos por alguma aspereza, mas como o ouro puríssimo aplicado ao fogo, que não só não sofre dano algum, mas por isso se torna mais esplêndido em brilho, assim os perfeitos não sentem lesão do fogo, mas, mais provados pela agilidade das virtudes, emergem facilmente deste fogo. Por prata significam-se os justos em quem, contudo, há algumas coisas leves a purgar; porque, como a prata posta no fogo perde a cor (cor que é restituída pela arte do artífice depois do fogo), assim eles sofrerão o fogo, mas levemente, porque cometeram coisas leves. Por pedras preciosas designam-se os justos que, embora oprimidos por alguns veniais, aderiram mais à justiça, e por isso sofrerão no fogo mais que os ditos; como as pedras preciosas sentem mais dano pelo fogo que a prata. Disse "pedras" no plural porque neste grau serão diversos e sentirão segundo a diversidade dos méritos.

Por estes três, o gênero dos perfeitos; pelos três que seguem, designam-se os imperfeitos. Por madeira entendem-se aqueles que permanecem no mundo, têm esposas, filhos e posses; os quais convém que cuidem do que é da esposa e dos filhos, e por isso trabalhem muito, e por isso não podem participar das orações da Igreja como deveriam. Estes, porém, porque não amam o mundo a ponto de antepô-lo a Deus, serão salvos, mas serão punidos longamente pelo fogo; como a madeira é matéria longa para o fogo e queima por muito espaço. Por feno designam-se aqueles que por algum tempo são afligidos pelo fogo, mas, como o feno que no fogo logo se consome, logo escaparão. Por palha, porém, que por ser seca se queima mais depressa que o feno, designam-se aqueles cuja pena será abreviada na passagem do fogo.

*Se alguém, pois, edifica isto ou aquilo, a obra de cada um, seja ouro, seja madeira, ou qualquer outra coisa, tornar-se-á manifesta.* E o prova: *pois o dia do Senhor a declarará.* Chama dia do Senhor desde a hora da dissolução de cada um até o juízo; desde que a alma se separa do corpo, com efeito, é dia do Senhor para ela, porque já nada pode operar além da vontade de Deus; mas enquanto o homem vive, é dia do homem e não de Deus, porque o homem opera o que lhe agrada, bem ou mal, por liberdade de arbítrio. Na verdade o dia do Senhor a declarará; *pois será revelada pelo fogo*, isto é, tornar-se-á manifesta a sua obra. Este fogo diz contínuo, como o dia; na morte do homem, com efeito, está pronto o diabo com fogo e seus algozes, e, se há algo a purgar, purga-o pelo fogo aplicado; se nada há de purgação, como em São Martinho, a própria saída do fogo revela a bondade de sua obra e que naquele a quem atormenta não houve mancha alguma. Mas porque ainda não se pode isto ver claramente, no fogo purgatório as obras de cada um serão reveladas a cada um.

Na verdade a obra de cada um será revelada no fogo; *pois o fogo provará qual é a obra de cada um*, seja ouro, seja madeira, ou o que quer que seja. Na verdade o fogo provará a obra de cada um; pois há obra boa e obra má: boa certamente; *se a obra que alguém edificou sobre o fundamento permanecer* ilesa, este certamente *receberá a recompensa* do bem edificado por cima. A obra má o fogo provará; *pois se a obra de alguém for queimada*, isto é, se se achar que pode ser queimada, como a madeira, o feno, a palha, este certamente *sofrerá prejuízo* e será afligido pela violência do fogo; mas, embora sofra prejuízo, *ele mesmo será salvo*; digo salvo, porém, *como através do fogo*; o que antes foi doce cometer, convém que seja punido pela amargura do fogo.

Determinou agora as distinções das obras que não destroem o fundamento, dizendo que serão salvos todos os que não o destroem; agora acrescenta sobre as obras que destroem o fundamento e entesouram a ruína eterna, dizendo: se alguém não destrói o fundamento, será salvo; *se alguém, porém, destruir o templo de Deus, será destruído.* Mas, para os compungir, antepõe esta interrogação, dizendo: *não sabeis que sois templo de Deus?* Deus, com efeito, vos santifica para que sejais templo para ele; e assim, digo, templo, *e que o Espírito de Deus habita* com toda assiduidade *em vós?* *Se alguém destruir o templo de Deus*, destruindo o fundamento da fé, ou em si pelos pecados capitais, ou nos ouvintes ensinando falsidades, a este certamente *Deus destruirá* na ruína eterna. E com razão quem o profana será destruído; *pois santo é o templo de Deus*, e não deve ser violado, *templo que sois vós*. E porque sois templo de Deus, por isso vede que nenhum dos falsos doutores vos seduza por falsa doutrina; ou então: ninguém de nós engane a si mesmo, destruindo o fundamento da fé: *ninguém*, digo, *se engane a si mesmo*; mas *se alguém dentre vós se tem por sábio neste século*, isto é, na ciência secular, *torne-se louco*, isto é, creia e confesse que é louco, *para vir a ser sábio* de verdade. Na verdade é necessário que se torne louco para vir a ser sábio; *pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus.* E na verdade é loucura diante de Deus; *pois está escrito* em Jó, falando Deus da sabedoria mundana: Os sábios do mundo eu apanharei, isto é, encerrá-los-ei *na sua própria astúcia* (Jó 5,13), isto é, naquilo em que se julgam mais astutos, e não poderão resistir. *E ainda* se escreve da sabedoria do mundo num salmo: *O Senhor conhece os pensamentos dos sábios* (a nossa tradução traz "dos homens", isto é, dos que são sábios humanamente), isto conhece deles: *que são vãos* (Sl 93,11).

Visto que a sabedoria do homem é provada ser loucura, *portanto*, ninguém de vós *se glorie* mais *nos homens*, isto é, nos doutores de quem vos gloriais por causa da sabedoria humana. Prova que não se deve gloriar neles, seja porque são servos daqueles a quem pregam, também ele mesmo; e não é lícito gloriar-se de coisa inferior ou igual, mas só de maior que si: seja também porque, se não se deve gloriar de Paulo e de Cefas, muito menos dos carnais, que consta serem inferiores a estes. Por isso diz: não vos deveis gloriar nos homens; *pois tudo é vosso*, isto é, destinado ao vosso serviço, *seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas<sup>[1]</sup>*, isto é, Pedro, o seu chefe; *seja o mundo*, é vosso, serve-vos, mesmo se ministra o necessário e mesmo se inflige quaisquer asperezas para o mérito de vossa justiça; *seja a vida*, é vossa, pois para vos arrependerdes do mal praticado e depois merecerdes obrando bem, é-vos concedida a vida presente; *seja a morte*, é vossa, pois é útil abraçar a morte por Cristo, se se apresentar; *seja o presente, seja o futuro*, bens ou males: vossas são na verdade as coisas ditas; *pois tudo é vosso; vós, porém, sois somente de Cristo*, em quem só deveis gloriar-vos; *e Cristo é de Deus*, não que Cristo difira dele em substância, mas porque, por meio do mediador Cristo, somos reconduzidos a Deus.

## Notas

1. Cefas significa cabeça; Simão, obediente; Barjonas, filho da pomba; mas, como Deus lhe mudou o nome de Cefas e o chamou Pedro, daí veio o costume de mudar os nomes dos apostólicos. (Nota do próprio Autor.)

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Assim, pois, considere-nos o homem como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus. Ora, o que se requer dos dispensadores é que cada um seja achado fiel. A mim, porém, pouco me importa ser julgado por vós ou por tribunal humano. Mas nem eu me julgo a mim mesmo. Pois de nada me sinto culpado; mas nem por isso estou justificado; quem me julga é o Senhor. Portanto, não julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual trará à luz o que está escondido nas trevas e manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor. Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim e a Apolo, por vossa causa; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, e ninguém se ensoberbeça a favor de um contra outro. Pois quem te distingue? Que tens que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias como se não o tivesses recebido? Já estais saciados, já vos tornastes ricos; sem nós reinais, e oxalá reineis, para que também nós reinemos convosco. Pois penso que Deus nos expôs, a nós Apóstolos, em último lugar, como condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os Anjos e para os homens. Nós, loucos por causa de Cristo; vós, prudentes em Cristo; nós, fracos; vós, fortes; vós, nobres; nós, desprezíveis. Até a hora presente passamos fome e sede, estamos nus, somos esbofeteados, não temos morada fixa e nos afadigamos trabalhando com as nossas mãos; somos amaldiçoados, e abençoamos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e exortamos; tornamo-nos como o lixo do mundo, a escória de todos, até agora. Não escrevo isto para vos envergonhar, mas para vos admoestar como a meus filhos caríssimos. Pois, ainda que tenhais dez mil pedagogos em Cristo, não tendes muitos pais; pois fui eu quem vos gerou em Cristo Jesus, pelo Evangelho. Rogo-vos, pois, sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo. Por isso vos enviei Timóteo, meu filho caríssimo e fiel no Senhor, que vos recordará os meus caminhos em Cristo Jesus, como ensino por toda parte, em todas as Igrejas. Como se eu não fosse ter convosco, alguns se ensoberbeceram. Mas irei logo ter convosco, se o Senhor quiser; e conhecerei não a palavra dos que se ensoberbeceram, mas o seu poder. Pois o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder. Que preferis? Que vá a vós com vara, ou com caridade e espírito de mansidão?

## Comentário

Porque se havia humilhado tanto, dizendo Paulo e Apolo vossos, para que por isso os coríntios não se ensoberbecessem, diz que é de grande dignidade, porque ministros de Cristo, etc. O texto liga-se assim: embora eu tenha dito antes: eu, Paulo, e Apolo somos vossos, *assim, contudo, considere-nos o homem*, qualquer que seja entre os coríntios, *como ministros de Cristo*, isto é, como dignos de ministrar Cristo e a sua fé aos súditos; considere-nos também *dispensadores dos mistérios de Deus*; dispensamos, com efeito, os ofícios eclesiásticos, consagrando este presbítero, aquele diácono; ou então, dispensadores dos mistérios, isto é, dos segredos de Deus; sabemos, com efeito, e falamos aos fiéis os desígnios de Deus. Por isso digo: assim nos considere o homem, porque *aqui*, isto é, nesta Igreja dos coríntios, *já*, isto é, antes do tempo oportuno do juízo (neste mundo, com efeito, porque as obras são ocultas, não é lícito julgar); ou então, aqui, isto é, por esta ocasião em que eu disse que devíamos ser considerados ministros e dispensadores: por isso já se busca entre os dispensadores qual deles se achará *fiel*, isto é, perfeito, e cuja justiça confira algo distinto aos seus batizados. "Fiel" foi dito como ali: «achado em figura como homem» (Fl 2,7).

Mas, quaisquer que sejam os sentimentos de outros dispensadores, eu respondo isto: *a mim pouco me importa*, e tenho em pouco, *ser julgado por vós*, isto é, que vós me condeneis, *ou por tribunal humano*, isto é, por homem, que pela sutileza do engenho também se chame dia. Vós não sabeis julgar-me, mas *nem eu me julgo*, isto é, não me censuro em nada, porque *de nada me sinto culpado*; e, assim como a minha ciência não acha o que julgar, muito menos vós, que não podeis perscrutar os segredos da consciência. Mas, embora a minha consciência de nada me acuse, *nem por isso estou justificado*, porque talvez estime boas algumas coisas que brotam mal da raiz.

Nem o homem nem a minha própria consciência me podem julgar; mas *quem me julga*, isto é, quem tem o poder de me julgar, *é o Senhor*, e fora dele ninguém pode. E visto que só Deus pode julgar, e o homem não, porque nem a si mesmo se entende bastante, *portanto, não julgueis* nem a mim nem a outro *antes do tempo*, isto é, agora, quando ainda estão ocultas as coisas escondidas, *até que venha o Senhor* ao juízo; o qual certamente virá e *trará à luz*, isto é, tornará manifesto *o que está escondido nas trevas*, isto é, dos pecados, porque entre os pecados alguns estão ocultos; o qual *manifestará também os desígnios dos corações*, isto é, as obras boas, que foram feitas por conselho e deliberação do coração reto; e então, naquela vinda, *a cada um* que obrou retamente por conselho do coração *haverá louvor da parte do Senhor*.

O que disse acima que os coríntios diziam: eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, expõe aqui como o disse figuradamente, significando aqueles de quem se gloriavam pelo seu nome, e por Apolo, o que fez em exemplo de humildade; por isso diz: o que acima pus, que vós dizeis: eu sou de Apolo, eu de Paulo, não o fiz para que vos gloriásseis de nós; mas, ó irmãos, *eu apliquei figuradamente*, isto é, transferi estas coisas a mim, falando figuradamente, enquanto atribuía os nossos nomes àqueles falsos apóstolos. Estas coisas, certamente, apliquei a mim e a Apolo, e isto para vos insinuar, *para que em nós aprendais* a não *ir além do que está escrito*, e *ninguém se ensoberbeça a favor de um contra outro*, feito outro, isto é, mais digno que o outro pelo mérito de seu batizador; ou então, a favor de outro, isto é, de um doutor mais justo que teve. Não vos ensoberbeçais, digo, fazendo o que acima; está escrito acima que quem se gloria não se glorie no mérito do homem, mas no Senhor.

Não deves ensoberbecer-te contra outro; *pois quem te distingue* de outro, sabendo os méritos de cada um? É certamente insensato quem presume distinguir-te. De novo não deves ensoberbecer-te; porque *que tens* daquele doutor de quem te glorias *que não tenhas recebido* de mim? Mais certamente de mim recebeste, porque a fé, do que daquele. De novo não deves ensoberbecer-te; porque *se recebeste* de mim, *por que te glorias* de outro *como se não o tivesses recebido* de mim o que daquele? Mais certamente de mim. Ou de outro modo: não te ensoberbeças, porque quem te distingue da massa dos perdidos em Adão, para te fazer vaso para honra, senão só Deus? Ninguém, certamente. De novo não te ensoberbeças; porque que bem tens de alguém que não tenhas recebido de Deus? Deus é o doador de todo bem. De novo não deves ensoberbecer-te; porque, *se recebeste* algo de Deus, por que te glorias disso, atribuindo-o ao mérito do homem, *como se não o tivesses recebido* de Deus? Digo que não vos glorieis, mas digo mal; porque com razão deveis gloriar-vos: *já estais saciados*, isto é, tendes em vós bens bastantes; *já vos tornastes ricos*, tendo o que repartir a cada um; *reinais*, isto é, regeis bem a vós mesmos *sem nós*. Tudo isto ironicamente, mas doravante a sério. Reinais, digo, *e oxalá reineis* de verdade; isto desejaria, com efeito, que não precisásseis do nosso governo; reineis de modo *que também nós reinemos convosco*, isto é, que vós, naquele reino, nos precedêsseis em dignidade de vida: preferiria certamente que vós fôsseis na frente e eu seguisse, do que o contrário, porque estou mais certo de mim do que de vós.

De novo ironicamente: vós reinais, nós de modo nenhum; porque *penso* que vós pensais isto: a saber, *que Deus nos expôs em último lugar*, isto é, como piores e sem dignidade alguma, a nós Apóstolos; nós, digo, *como condenados à morte*, isto é, porque somos afligidos por Cristo a ponto de parecermos nascidos só para a morte; por isso somos desprezíveis para vós que florescem no mundo; também porque *nos tornamos espetáculo para este mundo*; todos se reúnem, com efeito, para nos oprimir, e os nossos males são jogo para eles; para este mundo, digo; *e para os anjos* maus, que se alegram da nossa aflição, *e para os homens*. E por isso somos reputados loucos; mas seria bom imitar esta loucura, porque *nós, loucos por causa de Cristo; vós, prudentes em Cristo*; o que nem sois nem deveis ser: *nós, fracos* e débeis para o mundo; *vós, fortes*, e vos gloriando do poder do mundo; *vós, nobres; nós, desprezíveis*.

Ou de outro modo, para que se leia sem ironia: quisera reinar convosco, pois estou certo de que na verdade reinaremos; *penso*, com efeito, e nisto confio, *que Deus nos expôs em último lugar*, a nós Apóstolos, isto é, semelhantes aos últimos, isto é, a Henoc e Elias; porque tanto padecemos agora no princípio da Igreja quanto eles padecerão do Anticristo no fim. Por isso o mesmo Paulo diz: «Nós somos aqueles sobre quem chegou o fim dos séculos» (1Cor 10,11). Por isso também Nero foi chamado Anticristo, porque, assim como este matará Henoc e Elias, aquele matou Pedro e Paulo. Na verdade somos os últimos; *como condenados à morte; espetáculo para o mundo*, e o resto exponha-se igualmente, mas com ironia. *Nós loucos, vós prudentes; vós fortes, nós fracos*: aqui a mesma ironia.

E não só padecemos os males ditos, mas desde o princípio da nossa pregação *até a hora presente passamos fome e sede, estamos nus, somos esbofeteados, não temos morada fixa*, fugidos de lugar em lugar; *e nos afadigamos trabalhando com as nossas mãos*, para termos o sustento. *Somos amaldiçoados* pelos ímpios, *e abençoamos* a eles; *somos perseguidos, e suportamos* alegremente; *somos caluniados, e exortamos* os ímpios a não blasfemarem, ou a Deus que perdoe os blasfemadores. E enfurecem-se tanto contra nós que nos tornamos *como o lixo deste mundo*; parece-lhes, com efeito, que o mundo se polui por nós e se purga pela nossa ruína. Tornamo-nos certamente *a escória*, isto é, a purgação *de todos*; porque todos já estariam purificados se não existíssemos, mas por nós são poluídos. *Escória* (*peripsema*) diz-se a purgação da maçã ou a espuma do ferro, segundo Ambrósio: tais nos tornamos desde o princípio do mundo até agora.

Porque falara asperamente aos coríntios, começa de novo a lisonjeá-los, dizendo: embora eu tenha dito ironicamente que sois prudentes, fortes e nobres, *não escrevo isto para vos envergonhar* e fazer corar; mas admoesto-vos, ora com brandura, ora asperamente, *como a meus filhos caríssimos*. Na verdade filhos; *pois, ainda que tenhais dez mil pedagogos*, isto é, mestres (mesmo fiéis) *em Cristo, não tendes muitos pais*, segundo a fé. Na verdade não muitos, pois só a mim; *fui eu, com efeito, quem vos gerou em Cristo Jesus, pelo Evangelho*. E visto que eu sou pai e vós filhos, *portanto vos rogo, irmãos, sede meus imitadores*, como filhos do pai. Por isso, porque sois filhos e para que sejais imitadores, *enviei-vos Timóteo, meu filho caríssimo e fiel no Senhor*; e a este aquiescei. Enviei-o para que haja quem vos recorde os meus caminhos, para que, como eu, assim também vós andeis em toda justiça; caminhos que devem ser seguidos, porque são *em Cristo Jesus*, e toda a Igreja os segue; o que diz assim: *como ensino por toda parte*, e não esparsamente pelos campos, mas *em todas as Igrejas*. Diz-se que o Apóstolo enviou por este Timóteo esta Epístola aos coríntios.

Falou acima daqueles batizadores e provou bastante que um não deve ser anteposto ao outro; acusou-os também por causa da sabedoria mundana, que era de louvor excessivo entre eles, e do desprezo por ele: agora passa àquilo de certo fornicador, que tomara por esposa a sua madrasta; a quem eles nem separaram da comunhão da Igreja, nem se condoeram do pecado do irmão, mas antes se ensoberbeciam por isso, dizendo: se tivesse sido batizado por um bom, nunca teria caído em tão grande fosso do pecado, como se via naqueles em quem, para que não pecassem semelhantemente, operava a justiça do batizador. O texto liga-se assim: eu, solícito de vós como pai de filhos, envio-vos Timóteo; mas alguns de vós *estão ensoberbecidos* e talvez, por sua soberba, não o ouçam. Por isso toca-os aqui da soberba, para que em toda humildade os ache obedecendo a Timóteo. Estais certamente ensoberbecidos *como se eu não fosse ter convosco*, e não reverenciais a minha vinda, que certamente devéis reverenciar, a menos que vos corrijais. Talvez creiais que eu não virei, porque agora envio Timóteo; mas sabei que *irei logo ter convosco*; o que, contudo, não é de direito, e por isso determino: *se o Senhor quiser*, a cuja vontade não é lícito contrariar. Irei certamente, e então *conhecerei*, isto é, aprovarei, segundo aquilo: «O Senhor conhece os que são seus» (2Tm 2,19); conhecerei certamente *não a palavra* deles, isto é, não a cortesia e o artifício da palavra, a que aderem os que por tal palavra se ensoberbeceram; mas conhecerei e louvarei em vós *o poder*, isto é, a humildade, a paciência, etc.; estas coisas, com efeito, devem ser louvadas, não a sublimidade da palavra. Por isso conhecerei o poder e não a palavra, *pois o reino de Deus não consiste em palavra* deste mundo, isto é, não se adquire por ela, *mas em poder* da fé íntegra e da boa obra.

E, quanto às duas coisas que vos propus: a palavra que reprovo, o poder que aprovo, *que preferis*, isto é, qual destas escolheis? *Que vá a vós com vara*, isto é, com a aspereza da correção, ou *vá a vós com caridade*, isto é, com mansidão, e de tal modo *com espírito de mansidão*, isto é, como acostumado à mão e gozando em servir-vos? Se achar em palavra, irei com vara; se em poder, irei no espírito de caridade. Parece, quando diz "com vara ou com caridade", insinuar como se a correção não fosse por caridade, se é áspera, o que é certamente falso; mas diz isto segundo a fraqueza daqueles que julgavam que tudo o que contrariava a vontade da carne era por ira.

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Ouve-se em absoluto que há entre vós fornicação, e fornicação tal que nem entre os gentios, a ponto de alguém ter a mulher de seu pai. E vós estais ensoberbecidos! E não antes vos entristecestes, para que fosse tirado do meio de vós aquele que cometeu tal ação? Eu, na verdade, ausente de corpo, mas presente em espírito, já julguei, como presente, aquele que assim agiu, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, congregados vós e o meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus, entregar tal homem a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor nosso Jesus Cristo. Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento corrompe toda a massa? Expurgai o fermento velho, para serdes nova massa, como sois ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da maldade, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. Escrevi-vos na carta que não vos associásseis aos fornicadores; não, evidentemente, aos fornicadores deste mundo, ou aos avarentos, ou aos ladrões, ou aos idólatras; do contrário, teríeis de sair deste mundo. Agora, porém, escrevi-vos que não vos associeis a quem, chamando-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou ladrão; com tal pessoa nem sequer comais. Pois que tenho eu que julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora Deus os julgará. Tirai o mau do meio de vós.

## Comentário

Certamente deve-se ir a vós com vara, *porque se ouve* que há entre vós fornicação; *em absoluto* se ouve, isto é, segundo a infâmia de todos: sobre o que, porque todos vos infamam (a fama também me trouxe isto), não é preciso esperar acusador. E não uma fornicação que se deva tolerar, mas *fornicação tal que nem entre os gentios* se ouve, isto é, entre os gentios ainda aderentes à primeira geração. Ouve-se de tal modo que *alguém de vós tenha a mulher de seu pai*, isto é, tomou por esposa a sua madrasta.

Dir-me-iam: que nos importa? Muito, diz Paulo; porque, tendo o irmão pecado, *vós estais ensoberbecidos* com isso, vos ensoberbecendo como se fôsseis melhor justificados que ele pelo batismo, porque não caístes igualmente; e não só ensoberbecidos, mas *nem vos entristecestes*, condoendo-vos antes pela queda do irmão, o que devíeis escolher em vez de ensoberbecer-vos; nem tivestes o cuidado de que fosse tirado *do meio de vós*, isto é, de que separásseis da comunhão da Igreja *aquele que cometeu tal ação*, isto é, que ilicitamente usurpou a mulher do pai. Vós, presentes, não o tirastes do meio; mas *eu, na verdade, ausente de corpo, mas presente em espírito*, isto é, com autoridade apostólica — dizem também os santos que o Espírito Santo lhe tornara conhecidos os fatos até dos ausentes —, *presente em espírito já julguei*, isto é, condenei-o como se estivesse presente de corpo; a *aquele*, digo, *que assim agiu* com a mulher do pai. Julguei certamente; e saibais que o fiz *em nome de nosso Senhor Jesus Cristo*, para que não digais que a expulsão dele seja detrimento da Igreja de Cristo, que antes é honrada nisto do que diminuída, e que certamente seria infectada pelo veneno deste mal se este não fosse repelido. Julguei, certamente, *congregados vós*, entregar este a Satanás. Ou então aquele "em nome do Senhor" refere-se à letra seguinte, assim: isto, digo, julguei dele, para que, congregados vós em nome do Senhor Jesus Cristo, *e o meu espírito*, presente, isto é, com a minha autoridade cooperando convosco. Que importa isso, diria o ímpio, se o teu espírito está conosco? Muito, certamente, diz Paulo; pois, estando o meu espírito, digo, *com o poder de nosso Senhor Jesus*; porque o poder de Deus cooperará comigo e, por mim, convosco. Julguei, digo, que convinha *entregar tal homem a Satanás*. Diz entregar a Satanás por excomungar; assim como o diabo tem todo o direito sobre o homem antes que se justifique pela fé, assim, depois que por culpa é separado dos sacramentos da Igreja, com os quais, como armas, somos munidos contra Satanás, fica daí atado ao jugo de Satanás, porque nem por si pode resistir, nem talvez quer, e é inteiramente destituído do auxílio de Deus. Entregar a Satanás, digo, *para a destruição da carne*, isto é, para que a sua carne, que se deleitou no pecado, pereça pouco a pouco pela aflição das doenças; o diabo, com efeito, depois que vê o homem enfraquecido sem Deus, ataca-o livremente e vexa a sua carne com várias doenças; o que Deus permite para que o homem, vendo-se angustiado por tantas doenças depois que se afastou de Deus, confesse o pecado e, arrependendo-se, volte a Deus, *a fim de que o seu espírito seja salvo*. Ou assim: entregar a Satanás para a destruição; porque, depois que não é protegido pelos sacramentos da Igreja, cai de dia em dia do mal para pior; o que é ruína da alma: *da carne*, isto é, por meio da carne, à qual consente quando mal o persuade. Nem entrega para perecer perpetuamente, mas para que, oprimido pelo peso dos pecados, condoendo-se dos pecados se arrependa, e assim o seu espírito seja salvo *no dia*, isto é, na iluminação *do Senhor nosso Jesus Cristo*; então, com efeito, Cristo o ilumina, quando ferve de desejo de penitência. Isto deve ser visto pelos prelados da Igreja, para que excomunguem os réus com a intenção com que Paulo o fez, a saber, para que os seus espíritos sejam salvos.

Visto que não tivestes luto, nem o tirastes do meio de vós, daí aparece que *a vossa jactância não é boa*; é mau, com efeito, gloriar-se de justiça quem negligencia a salvação do próximo e se infecta com o mal dele. Na verdade não vos gloriais bem, porque *não sabeis que um pouco de fermento*, se for azedo, *corrompe toda a massa* da farinha tornada azeda? Assim também este, pouca coisa segundo o número da Igreja, corrompe toda a Igreja, tornada ré pela coabitação com este de quem participou. Visto que este fermento corrompe a massa da Igreja, *portanto*, tirando este e todo mal do meio de vós, *expurgai o fermento*, isto é, a vossa soberba e, se há outro, a saber, pecado a expulsar: fermento, digo, *velho*; se não vos purgardes, com efeito, sois membros do homem velho. Expurgai, pois, *para serdes massa*. Chama-se massa (*conspersio*) a farinha ligada por água sem fermento. A nossa humanidade, que por si é estéril e árida, é entendida pela farinha seca, que pelo orvalho do Espírito Santo no batismo é ligada, para que, afastada a aridez, dê fruto; assim como a farinha se une pela água, para ser útil. Sejais, digo, *nova massa*, isto é, feitos membros do novo Adão, a saber, Cristo, que vos renovou pelo Espírito Santo. Agora sede nova massa, *como sois ázimos*, como fostes antes no batismo sem fermento de todo pecado; é bom, com efeito, que assim agora sejais purgados pela penitência, que é outro batismo, como antes fostes purgados pelo batismo. *Ázimo* em grego, "sem fermento" em latim. *Zymus* é fermento, a *sine*, "sem", como ali *acéfalos*, isto é, sem cabeça.

Deveis certamente expurgar-vos; *pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado* no altar da Cruz; Cristo que é a nossa Páscoa, isto é, a nossa passagem da morte para a vida, da corrupção para a incorrupção; por quem agora finalmente podemos purificar-nos, nós que antes, atados ao jugo do diabo, não podíamos. Aqui remete-nos à história em que os filhos de Israel, para serem libertados do flagelo do Egito, são mandados untar os umbrais com o sangue do cordeiro imolado (Ex 12,7); depois da imolação desse cordeiro, libertados da servidão egípcia, passam à terra da promessa. Esta festa da imolação do cordeiro chama-se *Fase* entre eles, Páscoa entre os gregos, Passagem entre nós. Aquele cordeiro significou certamente o verdadeiro Cordeiro, em quem não houve mancha, Cristo, por cujo sangue derramado são untadas as nossas mentes, e assim somos libertados do flagelo do Anjo exterminador. Para comer esse Cordeiro, a Igreja se reúne cada dia, para por isso passar à verdade da coisa, de que agora se serve sob a espécie de pão e vinho, cujas espécies, embora permaneçam, cremos que passam na verdade à verdadeira substância do Corpo e do Sangue de Cristo. Por estas coisas, para passar à eternidade, *celebremos a festa*, digo, *não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia* tida em nós mesmos, *nem com o fermento da maldade*, de modo que nada façamos contra o próximo; mas *com os ázimos*, isto é, com a humildade *da sinceridade*, isto é, da pureza conservada em nós, *e da verdade*, para que não defraudemos o próximo.

Paulo já antes escrevera aos coríntios sobre evitar a fornicação; mas eles, interpretando mal as suas palavras, julgavam que ordenava evitar os gentios quando fornicavam: agora, porém, por já lhes ter escrito sobre este crime, repreende-os e insinua como deviam entender a escritura que enviara, dizendo: com justiça os arguo de que não tirastes aquele fornicador do meio de vós; *escrevi-vos, com efeito, na carta* já enviada *que não vos associásseis aos fornicadores*; não, certamente, ordenando isto quanto aos fornicadores *deste mundo*, isto é, os gentios, que não seguem a Deus mas o mundo. Escrevi-vos também: *ou aos avarentos, ou aos ladrões, ou aos idólatras*, isto é, os que voltam ao culto do ídolo, ou comem sob veneração do ídolo o que foi imolado aos ídolos. Na verdade não proibi isto quanto aos fornicadores dos gentios; *do contrário*, isto é, se, agindo de outro modo, eu desse este preceito sobre os gentios a evitar, *teríeis de sair deste mundo*, se quisésseis obedecer, isto é, melhor vos seria morrer, abandonando tudo o que o mundo tem, do que, agindo de outro modo por temor, comungar com os fornicadores. Outrora escrevi, entendestes mal, mas agora determino-vos o que escrevi: que não deveis associar-vos com tais; o que se deve entender assim: *se aquele que é irmão na fé, chamando-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra* no culto ou comendo o que foi imolado sob veneração, *ou maldizente, ou beberrão*, isto é, habituado à detração e à embriaguez, *ou ladrão*: *com tal pessoa*, para excluir toda comunhão, proíbo o que parece mais leve, a saber, *nem sequer comais*. Observa o bem-aventurado Agostinho, onde diz "chamando-se" e não disse "se é", que o Apóstolo entendeu isto: porque, se o irmão é réu de crime e sua culpa está oculta, não deve ser excomungado; de coisas incertas, com efeito, não se deve ter julgamento, mas do crime manifestado e comprovado; e por isso disse "chamando-se": deste certamente o réu deve ser julgado.

Na verdade devemos julgar dos irmãos; *pois que tenho eu*, isto é, que cabe a mim e à Igreja, *que julgar os de fora*, isto é, os gentios? Nada, certamente. E, como não é lícito julgar dos que estão fora da Igreja, *não julgais vós os de dentro*, isto é, não deveis julgar os que estão dentro, isto é, na Igreja?

Na verdade só julgais os de dentro; *pois os de fora*, isto é, os gentios, *Deus os julgará*, e nada vos diz respeito quanto a eles. Visto que é a vós que cabe julgar dos fiéis, *portanto tirai o mau do meio de vós*, o do irmão fornicador; se o não tirardes, já vos contaminais com a culpa do mesmo crime.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Ousa algum de vós, tendo uma questão contra outro, ser julgado perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? E, se o mundo será julgado por vós, sois indignos de julgar as menores coisas? Não sabeis que julgaremos os Anjos? Quanto mais as coisas seculares! Se, pois, tiverdes juízos seculares, constituí para julgá-los os que são desprezíveis na Igreja. Digo-o para vossa vergonha. Assim, não há entre vós nenhum sábio que possa julgar entre os seus irmãos? Mas irmão contra irmão litiga em juízo, e isto perante infiéis! Já é, de fato, um delito entre vós o terdes litígios uns com os outros. Por que não antes sofreis a injustiça? Por que não antes suportais o prejuízo? Mas vós mesmos cometeis a injustiça e defraudais; e isto aos irmãos! Não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem beberrões, nem maldizentes, nem rapaces possuirão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus. Tudo me é lícito, mas nem tudo convém; tudo me é lícito, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma. Os alimentos são para o ventre e o ventre para os alimentos; mas Deus destruirá tanto um como os outros; o corpo, porém, não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará pelo seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, então, os membros de Cristo para fazê-los membros de uma meretriz? De modo algum. Não sabeis que quem se une à meretriz se faz um só corpo com ela? Serão, diz, dois numa só carne (Gn 2,24). Mas quem se une ao Senhor é um só espírito. Fugi da fornicação. Todo pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós, que recebestes de Deus, e que não sois de vós mesmos? Pois fostes comprados por grande preço. Glorificai, pois, e trazei Deus em vosso corpo.

## Comentário

Por esta ocasião, porque começou a falar de juízos, passa a corrigir nos coríntios os males provenientes dos juízos. Se alguém deles, com efeito, tirasse algo a outro, aquele não o tolerava pacientemente, mas, impaciente, levava o irmão a juízo, e não perante juízes eclesiásticos, mas, desprezando-os, perante seculares; fazia também fraude ao irmão, dando presente ao juiz para oprimir o irmão. O texto liga-se assim: é lícito a vós julgar dos irmãos, mas não do modo como ousais intemperantemente perante injustos; ou assim: tirar o mal do meio de vós é bom; mas *como ousa alguém de vós* — onde diz "ousa", nota ser pecado tal atrevimento — como ousa, digo, alguém de vós, *tendo uma questão*, isto é, queixa sobre coisas seculares *contra outro* irmão, *ser julgado*, isto é, entrar em juízo com o irmão *perante os injustos*, isto é, juízes seculares, *e não perante os santos*, isto é, juízes fiéis da Igreja?

Dir-me-iam: tememos inquietar os santos em suas orações. De modo algum, diz Paulo, *pois não sabeis que os santos hão de julgar o mundo* no juízo futuro? *E, se o mundo será julgado por vós*, isto é, em comparação convosco, no último juízo, *sois indignos de julgar as menores coisas* aqui, em comparação com as futuras, a saber, os bens temporais da Igreja? E, como os homens, assim também os demônios serão julgados à nossa semelhança; porque *não sabeis que julgaremos os Anjos* apóstatas em comparação convosco? Se os anjos, *quanto mais as coisas seculares* é lícito julgar? Os homens maus serão julgados em comparação com os bons, porque, sendo da mesma condição e não tendo obrado o mesmo que os bons, esta só comparação é a sentença da condenação deles. Os demônios serão condenados de modo duplo, à semelhança dos justos, seja porque foram criados de natureza mais firme que o homem e não perseveraram no bem; seja porque sempre invejam os justos e não os podem vencer; pela vitória desta luta os justos condenarão os anjos maus.

Agora, de novo ironicamente, repreende-os por constituírem juízes insensatos, do que resultava que as causas das Igrejas eram transferidas aos seculares: visto que, como se provou, a Igreja deve julgar entre os irmãos, *portanto, se tiverdes juízos seculares*, isto é, litígios entre vós por coisas temporais — com isso nota que seria melhor se não tivessem tais juízos —, se, digo, tiverdes estes juízos, *constituí para julgá-los*, isto é, colocai como juízes sobre vós *os que são desprezíveis*, isto é, os mais insensatos *na Igreja*. E diz isto ironicamente, porque sabia que assim faziam. E o que digo, constituí os desprezíveis para julgar, *digo-o para vossa vergonha*, não mandando que o façais, mas recordando o que fazeis, para que tenhais vergonha; pois, quando assim fazeis, *então*, isto é, tornastes-vos tão insensatos que não há entre vós nenhum sábio que possa julgar entre o irmão e o irmão? Mas porque todos assim enlouquecestes, por isso *irmão contra irmão litiga em juízo*, isto é, por causa. E não basta o mal da contenda, mas isto se faz também perante juízes infiéis, por falta de juízes eclesiásticos.

Deste juízo certamente resulta este mal: que contendeis reciprocamente e levais os direitos da Igreja aos infiéis. *Já é, certamente, por isso, de fato*, isto é, como a todos é patente, *um delito entre vós o terdes litígios uns com os outros*; melhor seria, com efeito, não reclamar o que é vosso do que de tal reclamação resultarem tantos males à Igreja. E porque é delito haver juízos entre vós, *por que não antes sofreis*, isto é, toleráveis sem reclamação, *a injustiça* de quem abertamente vos tira o que é vosso? E *por que não antes suportais o prejuízo*, isto é, o dano oculto feito ao irmão por engano, a fim de que a Igreja não se aviltasse pela vossa reclamação? Seria bom que sofrêsseis a injustiça infligida pelo irmão; mas não só não a sofreis, como *vós mesmos cometeis a injustiça* contra ele, tirando-lhe o que é seu; *e defraudais*, isto é, ocultamente antecipais ao juiz com o vosso presente para oprimir o irmão: e tudo isto fazeis não a estranhos, mas *aos irmãos*, a quem deveríeis suportar.

E, fazendo isto aos irmãos, obrais injustamente; mas *não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus?* Por isso, para que não sejais alheios ao reino de Deus, *não vos enganeis*, defraudando e injuriando os irmãos. Na verdade os injustos não possuirão; *pois nem fornicadores, nem os que servem a ídolos, nem adúlteros, nem efeminados*, que padecem, *nem sodomitas*, que agem, *nem ladrões, nem avarentos, nem beberrões, nem maldizentes, nem rapaces possuirão o reino de Deus*.

Para que os coríntios não se atemorizassem com estas coisas e desesperassem, porque talvez tivessem voltado a elas depois do batismo, consola-os Paulo, lisonjeando-os; por isso diz: não vos atemorizeis com o que foi dito; *e tais fostes alguns de vós* e fizestes isto que antepus; *mas fostes lavados* destas coisas no batismo, *mas fostes santificados*, isto é, confirmados pelos dons do Espírito Santo, *mas fostes justificados* pela posse das virtudes *em nome de nosso Senhor*, isto é, do Pai, *e* em nome *de Jesus Cristo, e no Espírito de nosso Deus*, que procede de ambos, coisas que nos foram recordadas no batismo.

Porque havia dito acima: por que não antes sofreis a injustiça?, dir-me-iam: não nos é lícito reaver o que é nosso? Determina Paulo que há coisas que são de tal modo lícitas que aproveitam mais se deixadas, e estas são as coisas temporais; há outras que são de tal modo lícitas que o julgamento delas não deve ser deixado, e estas são os crimes que matam a alma. O texto liga-se assim: embora eu tenha dito: sofrei a injustiça antes que reclameis, sei, contudo, que *a mim e a cada um de vós tudo isto é lícito*, isto é, reaver o que é vosso, entrar em litígio com o irmão, etc., mas, embora sejam lícitas, *nem tudo convém*, isto é, não nos tornam desembaraçados para o bem, antes impedidos. O mesmo agora acrescenta outra causa: *tudo me é lícito, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma*, isto é, não serei reduzido ao poder de nenhum juiz ou de coisa alguma, a ponto de ter mais caro isso do que a paz do irmão. Ou assim: não serei reduzido ao poder de nenhum juiz, a ponto de, por presente ou algum obséquio, antecipá-lo para oprimir o irmão. E não só estas coisas lícitas devem ser deixadas, mas também as necessárias aos corpos, pelas quais igualmente o irmão não deve ser inquietado, como a comida, que certamente se prepara para o ventre, e o ventre se sustenta com os alimentos; mas, embora seja tão necessária, não se deve litigar por ela; porque *Deus destruirá tanto o ventre como os alimentos*. Por estas coisas temporais, porque logo passam e não condenam a alma se não reclamadas, não vos preocupeis em ter litígio, mas não tolereis impune aquela fornicação; o que assim se liga: o alimento é devido ao ventre; mas *o corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor*, a quem deve servir em tudo; *e o Senhor para o corpo* que o serve; porque, sendo por si nu, Deus o veste com o ornamento das virtudes se servir ao Senhor. Na verdade o Senhor fará bem ao corpo; pois o Senhor nos ressuscitará na incorrupção. Mas antepõe a prova disto, dizendo: na verdade Deus nos ressuscitará; *pois ele já ressuscitou o Senhor Jesus*, em quem ressuscitou a nossa carne; e isto cumprirá em nós. E se perguntas como ressuscita, sabe que *pelo seu poder*. Diz isto para reprimir os coríntios, que duvidavam da ressurreição: o que se declarará nas passagens seguintes.

Disse a causa por que o corpo é devido a Deus; acrescenta a causa por que não é devido à fornicação, dizendo: o corpo não deve ser sujeito à fornicação; porque *não sabeis que não só as almas, mas também os vossos corpos são membros de Cristo?* A alma é membro de Cristo, porque pela razão fixa os olhos interiores na admiração de Deus; o corpo é membro de Cristo, quando pela mão ministra ao pobre, pelos pés visita o enfermo, etc. E visto que somos membros de Cristo, *tomarei, então, os membros de Cristo para fazê-los membros de uma meretriz? De modo algum.* Podem certamente tornar-se membros da meretriz; porque *não sabeis que quem se une à meretriz se faz um só corpo com ela?* De dois modos o corpo de quem se une à meretriz se faz um só: um, por aquela mistura da carne, pela qual se estreitam numa certa unidade; outro, pela participação no pecado. Prova que pela união da carne se fazem um só corpo, porque disto mais se duvidava: na verdade se fazem um só corpo; *pois Moisés diz no Gênesis: Serão dois numa só carne* (Gn 2,24). Isto, contudo, disse do matrimônio legítimo; mas a mesma conjunção e identidade da carne se dá na cópula do adultério, como no matrimônio. Quem se une à meretriz faz-se um só corpo com ela, mas *quem se une ao Senhor é um só espírito*, isto é, une-se ao Senhor na identidade do espírito. E porque tão grande é o mal da fornicação, por isso *fugi da fornicação*. Deve-se notar que diz "fugi da fornicação"; este pecado, com efeito, não deve ser esperado, mas antes que venha deve-se fugir dele com os auxílios que podemos; é difícil, com efeito, escapar-lhe depois que a fornicação lançou as suas setas ardentes. E por isso disse "fugi", e não "esperai", porque, onde tem alguma entrada, não é do homem expulsá-la dali.

Acrescenta a causa por que se deve fugir da fornicação, dizendo: por isso certamente deveis fugir da fornicação; *pois todo outro pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo*. Há, com efeito, alguns pecados que não trazem à carne deleite algum, como o homicídio; a mão, com efeito, se mata, não sente nisso deleite: há outros, porém, em que a carne se deleita, como quando o alimento agrada bem ao paladar, ou quando se vê o que alimenta os olhos, se ouve o que é agradável aos ouvidos, e semelhantes: mas todos estes se dizem estar fora do corpo, em comparação com a fornicação; porque quem fornica peca contra o seu próprio corpo, porque a própria alma passa por esse ato à própria carnalidade; nisto, com efeito, toda a sensualidade consente e coopera, e passa à própria carne.

Ou de outro modo, segundo Ambrósio, para que entendamos aqui a fornicação só do adultério: fugi da fornicação, isto é, do adultério; porque todo outro pecado é fora do corpo, isto é, fora da esposa; mas quem fornica peca contra o seu corpo, isto é, contra a sua esposa; porque pelo pecado de fornicação a esposa pode separar-se dele, e não por outro. O corpo do marido chama-se a esposa, porque, tornando-se marido e esposa um só corpo, o marido é a cabeça, e a mulher parte do marido no mesmo corpo.

Ou de outro modo, segundo a novidade de alguns; e esta sentença parecerá continuar-se ao que antes dissera, que aquele fornicador devia ser expulso da Igreja: todo pecado que alguém cometa, isto é, usando a razão, é fora do corpo, isto é, fora da Igreja, que é o corpo da Cabeça Cristo; porque as coisas que faz usando a razão são veniais, e por elas não é separado da Igreja; mas o que fornica peca contra o seu corpo, isto é, contra a Igreja, de cujo corpo é membro; pelo pecado de fornicação, com efeito, é separado da Igreja.

De novo a causa por que fujam da fornicação: por isso se deve fugir da fornicação, porque *não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo*, isto é, o Espírito Santo se serve dos vossos membros quando pela vossa mão dá esmola ao pobre, pelos pés se vai visitar o enfermo? E porque assim se serve o Espírito dos vossos membros na sua administração, não o expulseis de vós fornicando. De novo, porque o Espírito está em vós com assídua morada, não o repilais, porque o Espírito que *tendes de Deus*, o próprio doador, com efeito, torna bastante recomendável a vós o seu dom. E por tantas causas não sujeiteis os vossos membros à fornicação. *E também ignorais que não sois vossos*, mas de Deus? Quem é de outro, com efeito, deve entregar-se ao império dele. Na verdade não sois vossos; *pois fostes comprados*, e sois servos daquele que vos comprou; e comprados não por preço leve, mas *grande*, porque pelo sangue de Cristo. E por isso não fornique, mas *glorificai a Deus*. Glorificar a Deus é anunciar a glória de Deus pela pureza da vida; quem vê, com efeito, a justiça do justo glorifica a Deus, por cuja causa e auxílio vive assim. Glorificai, digo, *e trazei Deus*. Trazer Deus é suportar pacientemente o peso de toda adversidade que é infligida por causa de Deus; e, pelo exemplo de paciência, levar Deus aos outros, que, vista a paciência deste, se alegrem de sofrer afrontas pelo nome de Cristo. Trazei, digo, Deus não só na alma, mas também *em vosso corpo*, para que a pureza do vosso corpo seja digna de trazer o jugo de Cristo.

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# Capítulo 7

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> Quanto ao que me escrevestes: É bom ao homem não tocar mulher; mas, por causa da fornicação, cada um tenha a sua própria esposa, e cada mulher tenha o seu próprio marido. O marido pague à mulher o que lhe é devido; e do mesmo modo a mulher ao marido. A mulher não tem poder sobre o próprio corpo, mas o marido; e do mesmo modo o marido não tem poder sobre o próprio corpo, mas a mulher. Não vos defraudeis um ao outro, a não ser de comum acordo, por algum tempo, para vos dedicardes à oração; e depois voltai a estar juntos, para que Satanás não vos tente por causa da vossa incontinência. Isto, porém, digo por indulgência, e não por mandamento. Quereria que todos fôsseis como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom: um de um modo, outro de outro. Digo aos solteiros e às viúvas: é bom para eles se permanecerem assim, como eu. Mas, se não se contêm, casem-se. Pois é melhor casar-se do que abrasar-se. Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido; e, se se separar, permaneça sem casar-se ou reconcilie-se com o marido. E o marido não repudie a mulher. Quanto aos outros, digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher infiel, e esta consente em habitar com ele, não a repudie; e se alguma mulher fiel tem marido infiel, e este consente em habitar com ela, não repudie o marido; pois o marido infiel é santificado pela mulher fiel, e a mulher infiel é santificada pelo marido fiel; de outro modo, os vossos filhos seriam impuros; agora, porém, são santos. Se o infiel se separa, separe-se; pois o irmão ou a irmã não está sujeito à servidão em tais casos; mas Deus nos chamou à paz. Pois, como sabes, mulher, se salvarás o marido? Ou como sabes, marido, se salvarás a mulher? Mas cada um ande conforme o Senhor lhe repartiu, cada um como Deus o chamou; e assim ensino em todas as Igrejas. Foi alguém chamado sendo circunciso? Não dissimule a circuncisão. Foi alguém chamado sendo incircunciso? Não se circuncide. A circuncisão não é nada, e a incircuncisão não é nada; mas sim a observância dos mandamentos de Deus. Cada um permaneça na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes; mas, se podes tornar-te livre, aproveita antes a ocasião. Pois o que foi chamado no Senhor sendo escravo é liberto do Senhor; do mesmo modo, o que foi chamado sendo livre é escravo de Cristo. Fostes comprados por preço; não vos torneis escravos dos homens. Cada um, irmãos, permaneça diante de Deus naquilo em que foi chamado. Quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou um conselho, como quem alcançou misericórdia do Senhor para ser fiel. Julgo, pois, que isto é bom por causa da necessidade presente: que é bom ao homem ficar assim. Estás ligado a uma mulher? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures mulher. Mas, se te casares, não pecaste. E, se a virgem se casar, não pecou; terão, porém, tais pessoas tribulações na carne. Eu, contudo, vos poupo. Digo, pois, isto, irmãos: o tempo é breve; o que resta é que os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se não usassem; pois passa a figura deste mundo. Quero que estejais sem preocupação. Quem não tem mulher cuida das coisas do Senhor, de como agradar a Deus; quem tem mulher cuida das coisas do mundo, de como agradar à mulher, e está dividido. E a mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor, para serem santas de corpo e de espírito; a casada cuida das coisas do mundo, de como agradar ao marido. Digo isto para o vosso proveito; não para vos lançar um laço, mas para o que é honesto e vos dá a possibilidade de suplicar ao Senhor sem impedimento. Se alguém julga que se porta indecorosamente com sua virgem, por ser ela já de idade avançada, e que assim deve ser, faça o que quiser; não peca se ela se casar. Mas quem está firme em seu coração, não sob necessidade, mas tendo poder sobre a sua vontade, e decidiu em seu coração guardar a sua virgem, faz bem. Assim, quem dá a sua virgem em casamento faz bem; e quem não a dá faz melhor. A mulher está ligada pela lei enquanto vive o marido; se o marido morrer, fica livre; case-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor. Será, porém, mais feliz se permanecer assim, segundo o meu conselho; e creio que também eu tenho o Espírito de Deus.

## Comentário

Aqui se acaba a questão daquele fornicador; mas, por esta ocasião, porque começara a falar de fornicação, responde convenientemente aos coríntios, que por cartas o haviam interrogado se é lícito também celebrar matrimônios ou se a necessidade da religião cristã os obrigaria a perseverar na continência. Havia, com efeito, entre eles alguns religiosos além da medida, que diziam que ninguém que permanecesse na obra do matrimônio poderia salvar-se; mas o Apóstolo, sabendo a fraqueza da fé deles, tolerava isso neles, não porque cresse que devessem ser salvos, mas para assim nutrir a Igreja, conduzindo-a pouco a pouco à perfeição. O texto liga-se assim: deve-se fugir da fornicação; mas não de modo a destruir o matrimônio, e sim para que, a fim de evitar a fornicação, *cada um tenha a sua própria* esposa. E isto digo respondendo às coisas *que me escrevestes*, interrogando se era lícito casar-se ou se era necessário conter-se. E sobre isto respondo-vos que *é bom ao homem não tocar mulher* naquele modo de coabitar; *mas, contudo, para evitar a fornicação, cada um tenha a sua própria esposa, e cada mulher tenha o seu próprio marido*; isto concedo. Quando diz "a sua própria esposa", exclui aqueles a quem não é lícito tomar esposa legitimamente, como os que servem ao altar. Quando diz "cada mulher tenha o seu marido", exclui as que não estão legitimamente unidas e não têm maridos, segundo aquilo no Evangelho: «Este que agora tens não é teu marido» (Jo 4,18). Embora aqui ponha apenas um bem do matrimônio, a saber, evitar a fornicação, são, contudo, estes: a intenção da prole, a fidelidade do leito, isto é, que não fornique, e a figura do verdadeiro matrimônio de Cristo e da Igreja: quando Deus uniu a primeira mulher ao homem, formada da costela do homem, figurou a Igreja a ser unida a Cristo, formada do seu lado na Cruz.

Nem marido e esposa convivam sem comércio (como pregam alguns falsos apóstolos), como irmão e irmã que coabitam; mas *o marido pague à mulher o que lhe é devido; e do mesmo modo a mulher ao marido*, sabendo isto: que *a mulher não tem poder sobre o próprio corpo*, de modo a conter-se se quiser, *mas o marido*. Do mesmo modo *o marido não tem poder sobre o próprio corpo, mas a mulher*, isto é, nenhum dos dois tem poder de conter-se sem o consentimento do outro. E por isso *não vos defraudeis um ao outro*, isto é, nenhum se subtraia ao outro na obra do matrimônio, *a não ser que isso se faça de comum acordo* de ambos; e isto não continuamente, mas *por algum tempo*, e por esta causa: *para vos dedicardes à oração* mais puramente. Se é preciso que os casados legitimamente se contenham para merecer orar dignamente, muito mais os que fornicam, e os que não só oram, mas cujas mãos também tratam os Sagrados mistérios do Senhor e os dispensam ao povo. E, *passado o tempo da oração, voltai a estar juntos* na própria obra do matrimônio, *para que Satanás não vos tente*, cessando do lícito, estimulando-vos ao ilícito. E isto digo *por causa da vossa incontinência*; sei, com efeito, a vossa fragilidade, que deve ser antes nutrida por indulgência do que aterrorizada por aspereza.

Embora eu vos tenha concedido tomar esposa para evitar a fornicação, digo isto *por indulgência*, para não parecer constranger-vos intemperantemente; *não o digo por mandamento*, para fazer disso um preceito; se isto fosse preceito, com efeito, todos tomariam esposas por necessidade. E, embora assim vos conceda, *quereria*, contudo, *que todos fôsseis como eu mesmo*, isto é, que todos se contivessem como eu. Desta palavra entende-se que Paulo (e o atesta Ambrósio) foi virgem; mas alguns atestam que antes tivera esposa. Aqui também objetam, porque diz querer que todos se contenham, que quereria destruir o matrimônio; mas nada é: porque, se todos, pelo exemplo de Paulo, se contivessem, os mesmos obrigariam alguns de si a contrair matrimônio, para que não perecesse a boa instituição de Deus. Diz também bem Agostinho que, se todos fossem como Paulo, logo se completaria a cidade de Deus e o número dos irmãos.

Para que, por ter dito: quero que sejais como eu, não julgassem que não se salvariam a não ser que se assemelhassem a ele pela continência, contra isto diz Paulo: embora eu diga que quereria que me imitásseis pela continência, *cada um de vós tem o seu próprio dom*, suficiente para a salvação, que eu talvez não tenha; e este dom o tem de Deus: *um de um modo*, por ser pródigo na esmola; *outro de outro*, como forte na paciência, grande na oração. Assim digo dos casados; *digo*, porém, *aos solteiros*, isto é, às virgens de ambos os sexos, *e às viúvas*, de ambos os sexos, *que é bom para eles se permanecerem assim* contendo-se, como muitos e eu me contemos. *Mas, se não se contêm*, isto é, não querem ou não podem conter-se, digo por indulgência: *casem-se*. Por isso concedo casar-se a tais, *porque é melhor casar-se*, não digo que fornicar, mas (o que é menos) *do que abrasar-se*, isto é, ser agitado e vencido pelos desejos da libido. Aos solteiros e às viúvas digo uma coisa por indulgência, outra por conselho; *aos casados*, porém, não só digo, mas *ordeno, não eu, mas o Senhor*, isto é, não por minha autoridade, mas pela do Senhor, que ordena no Evangelho, *que a mulher não se separe do marido*. Este preceito, porque era bastante conhecido, pô-lo imperfeito, omitindo isto: salvo por causa de fornicação. *Se se separar* a esposa do marido por causa de fornicação ou por consentimento de continência, ordeno que *permaneça sem casar-se ou se reconcilie com o seu marido*. *E o marido* igualmente *não repudie a mulher*, a não ser pela causa mencionada, a fornicação. Aqui de novo pôs o preceito imperfeito, porque o havia antecipado; e assim se deve entender: o marido não repudie a mulher a não ser por fornicação; e se por isso a repudiar, permaneça sem casar-se ou se reconcilie com a esposa.

A estes não ordeno eu; pois *aos outros digo só eu, não o Senhor*, isto é, por minha autoridade; não que o Senhor não consinta, mas porque não encontro a autoridade dele sobre este assunto na Escritura. Aos outros digo, isto é, aos unidos pela lei do matrimônio, fiel e infiel, e vice-versa; isto certamente digo: *se algum irmão fiel tem mulher infiel, e esta consente em habitar com o fiel, não a repudie*, nem a despreze por ser infiel, por ser ele fiel. E, ao contrário, *se alguma mulher fiel tem marido infiel, e este consente em habitar com ela, não repudie o marido*. Na verdade a mulher fiel não deve repudiar o marido infiel; *pois* muitas vezes *o marido infiel é santificado*, isto é, tornado fiel, *pela mulher fiel* que coabita com ele e muitas vezes o exorta à fé. Ou de outro modo: a mulher fiel não repudie o marido infiel; pois o marido infiel é santificado, isto é, puro, na própria obra do matrimônio, e isto pela mulher fiel, isto é, pela virtude da fé que a mulher tem. E de novo: o marido fiel não repudie a mulher infiel; pois muitas vezes a mulher infiel é santificada, recebida a fé, pelo marido fiel que a instrui. Ou de outro modo: a mulher infiel é santificada e pura no próprio coito, prevalecendo a fé do seu marido.

Não devem, portanto, repudiar-se mutuamente pelas razões ditas, mas permanecer juntos; porque *de outro modo*, isto é, se um repudiar o outro, *os vossos filhos seriam impuros*, isto é, não legítimos mas espúrios; se o conúbio se dissolve, com efeito, não se crê ter sido legítimo, e por isso os filhos não são legítimos. Se se repudiam, os filhos são impuros; mas *agora*, isto é, se coabitam, *são santos*, isto é, julgam-se legítimos. Ou de outro modo: por isso não vos separeis; *de outro modo*, isto é, se agirdes de outro modo, *os vossos filhos seriam impuros*, isto é, permaneceriam na infidelidade; se um dos pais, sendo infiel, passasse à fé, os filhos aderiram certamente àquele dos pais que permanecesse na seita anterior, na qual os filhos nasceram e na qual se acostumaram; e por isso é bom, por amor dos filhos, que os pais permaneçam juntos. Os vossos filhos seriam impuros pela infidelidade; mas agora, se os pais permanecerem juntos, *são santos*, isto é, purificados pela fé.

Ordeno que o fiel, marido ou mulher, não se separe do infiel; *mas se o infiel*, marido ou esposa, *se separa* e não consente em habitar com o fiel, *separe-se*; não siga aquele que é fiel. Por isso digo: permita-se ao infiel separar-se, ficando o fiel; *pois o irmão ou a irmã fiel não está sujeito à servidão* em tais coisas, que destruiriam a fé. Devem certamente servir-se mutuamente pela lei do matrimônio, mas não contra a fé. Digo: se se separa, separe-se; mas preferiria, contudo, que coabitásseis em paz; pois *Deus nos chamou à paz* na fé, isto é, para que não rompêssemos o laço do matrimônio; se não quisesse que permanecêssemos no matrimônio, com efeito, teríamos antes de ser afastados do matrimônio e depois chamados à fé.

Deve-se notar que há coisas em que Deus chama o homem, nas quais a obra não contradiz à fé, como Pedro na pesca, a quem, depois da vocação, foi lícito voltar a pescar; há outras de que chama, às quais, depois da fé, não é lícito voltar, como Mateus, chamado da coletoria, que depois não voltou à obra da coletoria. Daí aparece que a fé de Cristo a ninguém tira o estado anterior, contanto que não destrua a fé.

Por isso deveis coabitar em paz, porque *como sabes, mulher fiel, se salvarás o marido infiel? Ou como sabes tu, marido fiel, se salvarás a mulher infiel?* a não ser que cada um de vós ande como Deus repartiu a cada um de vós, ao marido, a saber, para reger a esposa, à esposa, para servir ao marido. E como sabeis ainda isto, a não ser que cada um de vós ande assim como Deus chamou cada um, de modo que, se foi chamado no matrimônio, permaneça no matrimônio? Se coabitardes, então poderá saber-se se o fiel lucrará o infiel; mas, se vos separardes, como se saberá? E isto vos digo, permanecer juntos no matrimônio, *como ensino em todas as Igrejas*. Diz isto porque alguns lhe imputavam que concedia aos coríntios (por serem demasiado carnais) matrimônios que interditava inteiramente às outras Igrejas.

Assim como acabou de dizer que não se deve mudar o estado do matrimônio por causa da fé, assim por semelhança concede outros estados em que foram chamados, salva, porém, a integridade da fé; e aquilo "como ensino em todas as Igrejas" liga à letra seguinte assim: quem foi chamado no matrimônio, permaneça nele; e como ensino em todas as Igrejas, *se alguém foi chamado sendo circunciso*, isto é, nos ritos dos judeus que não violam a fé, *não dissimule a circuncisão*, isto é, o costume da gentilidade, para que não seja forçado a usar os alimentos de que não costumava usar, que nem prejudicam nem ajudam se comidos ou não. De novo, *se alguém foi chamado sendo incircunciso*, isto é, na gentilidade, *não se circuncide*, isto é, não seja forçado a seguir os ritos judaicos. Nenhum dos dois deve ser forçado, porque *a circuncisão não é nada, e a incircuncisão não é nada*, isto é, nem abster-se nem comer estes alimentos aproveita ou prejudica para a bem-aventurança, mas *a observância dos mandamentos de Deus* basta para a alcançar.

E como do circunciso e do incircunciso, digo isto universalmente: que cada um que vem à fé *permaneça naquele estado em que foi chamado*. E saiba que esse estado é vocação de Deus; porque, como acima disse, se Deus negligenciasse este estado, nunca o teria chamado à fé enquanto estivesse nele. E por isso, *se foste chamado sendo escravo, não te preocupes* em permanecer na servidão; *mas, se podes de algum modo tornar-te livre, aproveita antes a própria servidão*, porque, quanto mais fores agora deprimido, tanto mais serás exaltado no futuro. Por isso digo: aproveita antes a servidão, porque *o que foi chamado no Senhor sendo escravo*, permanecendo no Senhor, *é liberto do Senhor*, isto é, servo do Senhor; e igualmente é *escravo de Cristo* aquele que foi chamado sendo livre. Escravo e liberto significam aqui o mesmo, mas deu ao escravo o vocábulo mais honroso, para atraí-lo mais a si. Porque ambos sois servos de Cristo, *por isso não vos torneis escravos dos homens*, de modo que se perca em vós a servidão de Cristo. E a causa antecipada é: *fostes comprados por preço* do sangue de Cristo. E, embora eu diga: não vos torneis escravos dos homens, *cada um, irmãos*, isto é, fiéis, *permaneça naquilo em que foi chamado*, na servidão ou na liberdade, *diante de Deus*.

Para evitar a fornicação, concedeu acima que cada um que quisesse tivesse a sua; deu também o preceito do Senhor sobre os casados, que não se separassem; deu o seu preceito sobre aqueles dos quais um fosse fiel, que não se separasse do infiel: mas, porque não dera preceito de permanecer em virgindade, os coríntios podiam perguntar por que o omitira. A isto responde Paulo. O texto liga-se assim: sobre os casados dei o preceito do Senhor, sobre aqueles dos quais um é fiel dei o meu preceito; *quanto às virgens*, porém, não determino preceito, porque *não tenho mandamento do Senhor* a respeito; não encontro, com efeito, nas Escrituras que o Senhor tenha ordenado que todos perseverem na virgindade. E porque não tenho preceito do Senhor sobre isto, *dou o conselho* acima dito: é bom às virgens se permanecerem assim como eu, etc. Agora aprova este conselho, dizendo: este meu conselho deve ser mantido; digo-o *como quem alcançou misericórdia do Senhor*. Chama aqui misericórdia tanto a remissão dos pecados como sobretudo o seu apostolado, ambos os quais recebeu do Senhor por graça. Alcancei assim misericórdia *para ser fiel* no apostolado confiado; dispenso, com efeito, fielmente os mistérios da fé a mim confiados por Deus; como nisto sou fiel, não se deve duvidar de que o meu conselho seja útil. E porque sou fiel, *julgo, portanto*, segundo a fé, que este conselho dito é bom, a saber, permanecer em virgindade, se podem, como eu; é certamente bom *por causa da necessidade presente*, isto é, que cada dia pesa sobre os casados, em nutrir os filhos e em sustentar-se mutuamente, etc. Maior bem é a bem-aventurança permanente da virgindade, que se adquire pelo mérito da virgindade, do que evitar as penúrias do mundo; mas aos ouvintes fracos apresenta o bem temporal da virgindade, porque, sendo carnais, sabia que podiam ser induzidos ao bem mais pela utilidade da carne do que pela do espírito, porque não eram espirituais. Isto julgo bom porque assim é na verdade da coisa; o que diz assim: *é bom ao homem*, de ambos os sexos, *ficar assim*, isto é, permanecer na virgindade ou continência.

Porque preferira tanto o bem da continência, para que por isso os casados não julgassem que devem desfazer os matrimônios e conter-se, opondo-se a isto diz Paulo: embora eu tenha dito que é bom seguir a castidade, contudo, *estás ligado a uma mulher? Não procures separar-te*; boa é, com efeito, a castidade conjugal. Sentença oposta: mas porque é melhor a continência vidual, *estás livre de mulher? Não procures mulher*, mas contém-te. De novo, para que os solteiros não dissessem: é verdade que os casados não devem separar-se, mas nós, que não estamos presos na lei do matrimônio, pecamos se nos casarmos. Contra isto Paulo: embora seja bom ao homem estar em castidade, *se te casares, contudo, não pecaste*, tu, homem; *e se a virgem se casar, não pecou.* Mas, embora às virgens seja lícito casar-se sem pecado, contudo, se se casarem, *terão tais pessoas tribulações na carne*, isto é, as que seguem o modo do matrimônio, a saber, os gemidos do ventre, o sustento dos filhos, e semelhantes. As casadas terão, sim, tribulação na carne, mas *eu vos poupo* a vós que quereis guardar a virgindade, enquanto vos provoco àquelas coisas que excluem as tribulações da carne e as solicitudes mencionadas.

Depois de conceder que as que não querem conter-se se casem, determina como devem comportar-se no matrimônio segundo a salvação da alma, dizendo: porque concedi tomar esposa sem pecado, *portanto*, isto é, para que permaneçais sem pecado no matrimônio, determino-vos que os que têm esposas *sejam como se não as tivessem*, isto é, não servindo mais à volúpia do que a Deus. E *os que choram* por danos seculares, assim chorem por fora que por dentro se alegrem pela esperança; *e os que se alegram* pela prosperidade temporal, que por dentro temam espiritualmente, nem se deixem corromper pela felicidade, nem quebrar pela adversidade. Que devam assim comportar-se, digo-o, irmãos, porque *o tempo é breve* e o fim está próximo; por isso, porque o tempo é breve, *o que resta é isto*, isto é, só isto se deixa à salvação: *que os que têm esposas sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem*; de modo que tudo o que há neste mundo, pela brevidade do tempo, pareça antes não ser do que ser. *E os que compram, como se não possuíssem*, isto é, usem como de coisas sem as quais não podem, mas não se deleitem; *e os que usam deste mundo, como se não usassem*, isto é, usem por necessidade, nada por deleite. Por isso se deve assim rejeitar o mundo, porque *passa a figura deste mundo*. O mundo, na verdade, não passará, mas as formas de suas substâncias serão destruídas, de modo que o ouro, perdida a cor, voltará à terra, e as demais coisas igualmente. Condenados, com efeito, os ímpios, a figura deste mundo perecerá pela conflagração dos fogos mundanos, como aconteceu pela inundação das águas mundanas no dilúvio.

E porque a figura do mundo passa, por isso *quero que estejais sem preocupação*, para que, sobrecarregados de coisas terrenas, não incorrais em dano das celestes. Diz "sem preocupação" para que os casados se desonerem quanto podem das coisas mundanas; os continentes sejam isentos de toda preocupação mundana. E assim prossegue, dizendo: quero que todos estejam sem preocupação, mas, contudo, um está mais desembaraçado para isso, outro mais impedido; *quem não tem mulher*, virgem ou continente, *cuida*, isto é, pode cuidar, *das coisas do Senhor*, isto é, das que pertencem a Deus; é-lhe lícito também estar solícito *de como agradar a Deus*. Quando diz "cuida das coisas do Senhor", entende as que bastam à salvação e sem as quais ninguém se salva; quando diz "como agradar a Deus", entende aquela suma perfeição, a que não basta só o que é necessário à salvação, se não tiver distribuído os seus bens aos pobres, abandonado o mundo, seguido nu a Cruz nua. Quem não tem esposa, assim lhe é lícito; *quem, porém, tem mulher*, por necessidade, *cuida das coisas do mundo*, para ministrar à esposa e aos filhos, sem as quais não podem subsistir; cuida também *de como agradar à mulher*, dando joias, preparando adornos: *e assim está dividido*, porque em grande parte se distrai no cuidado da esposa e do cultivo da família, e bem pequena parte lhe é deixada para o serviço de Deus. Assim como o homem continente cuida das coisas do Senhor, assim também *a mulher não casada*, isto é, a virgem e a viúva, *cuida das coisas do Senhor, para ser santa de corpo e de espírito*, isto é, por ambas as integridades, do corpo e do espírito; *a casada*, porém, *cuida das coisas do mundo*, isto é, das necessárias à casa, *e de como agradar ao marido* nas coisas supérfluas.

E, comendando-vos assim, a vós continentes, o bem da continência, *digo isto*, não de outro modo senão *para o vosso proveito*, a saber, *não para vos lançar um laço*, forçando-vos a fazer voto de virgindade, voto que depois quebrásseis; mas digo-o exortando-vos *ao que é honesto*, isto é, alheio ao contágio, *e que vos dá a possibilidade de suplicar ao Senhor sem impedimento* da tribulação da carne; por isto, com efeito, podeis observar a vossa pureza, pois a tal não vos impede a tribulação da carne, que pesa sobre as casadas.

Talvez os pais dissessem: às virgens é lícito casar-se, mas é culpa nossa não obrigarmos as nossas filhas a permanecer em virgindade. Contra isto diz Paulo: embora eu tenha dito que os continentes têm a possibilidade de servir ao Senhor sem impedimento, que não têm as casadas, *se alguém julga que se porta indecorosamente com sua virgem*, isto é, teme ser infamado por causa de sua virgem que quer casar-se, *por ser ela já de idade avançada*, não só adulta, mas passada da idade; *e se assim deve ser*, porque, se não se casar, a infâmia é próxima, *faça o pai o que quer a filha*; nisto, com efeito, o pai *não peca se ela se casar*, ela que prefere o matrimônio à castidade. De novo, porque alguns pais forçam violentamente a casar-se filhas que querem permanecer no propósito de virgindade, por cobiça do dote e para terem acréscimo de linhagem, e por semelhantes razões, proíbe Paulo que isto se faça. O texto liga-se assim: do pai que permite à filha que quer casar-se, digo que não peca; quanto àquele que concede à filha que quer permanecer em virgindade, que outra coisa direi senão que faz bem? *Aquele que está firme em seu coração*, isto é, que dispõe com racional conselho; aquele, digo, firme e perseverante, nisto certamente *não sob necessidade* dita, porque da filha não teme infâmia, *mas tendo poder sobre a sua vontade*, que se realize, porque a filha consente; e *que decidiu* isto, não só estabeleceu, mas deliberou em seu coração, considerando o peso do matrimônio, admirando o decoro da virgindade: este, se decidiu *guardar a sua virgem, faz bem*, enquanto a guarda na virgindade querendo ela. Visto que quem permite à que quer casar-se não peca, e quem guarda na virgindade a que não quer casar-se faz bem; *assim, quem dá a sua virgem em casamento*, querendo ela, *faz bem; e quem não a dá*, não querendo ela ser dada, *faz bem e melhor*.

Como disse das virgens, que a que se casa não peca, e a que não se casa faz melhor; assim das mulheres, que a que está unida ao marido não peca, mas a que permanecer em castidade será mais feliz; o que diz assim: *a mulher está ligada enquanto vive o seu marido; se o marido morrer, fica livre da lei do marido*, e é-lhe lícito *casar-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor*, isto é, segundo o costume legal do matrimônio. Mas, embora lhe seja lícito casar-se, será, contudo, mais perfeita *se permanecer assim*, isto é, sem casar-se, *segundo o meu conselho*. Que importa isso, dir-me-iam, se tu aconselhas assim? A isto Paulo: o meu conselho não deve ser desprezado; porque *creio que, como os outros Apóstolos, também eu tenho o Espírito de Deus*, e pelo Espírito a graça do conselho.

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# Capítulo 8

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto às carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento ensoberbece, mas a caridade edifica. Se alguém julga saber alguma coisa, ainda não conheceu como convém conhecer. Mas se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele. Quanto, pois, ao comer das carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus senão um só. Pois, embora haja os chamados deuses, quer no céu, quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas e para quem nós existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem existem todas as coisas e por quem nós existimos. Mas nem em todos há este conhecimento. Alguns, com a consciência ainda do ídolo até agora, comem como coisa sacrificada ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, é contaminada. Ora, o alimento não nos recomenda a Deus. Pois, se comermos, nada ganhamos; se não comermos, nada perdemos. Vede, porém, que esta vossa liberdade não se torne tropeço para os fracos. Pois, se alguém te vir, a ti que tens conhecimento, sentado à mesa num templo de ídolos, não será a sua consciência, que é fraca, levada a comer das carnes sacrificadas aos ídolos? E perecerá, por causa do teu conhecimento, o irmão fraco, por quem Cristo morreu? Pecando assim contra os irmãos e ferindo a sua consciência fraca, pecais contra Cristo. Por isso, se um alimento escandaliza o meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar o meu irmão.

## Comentário

Havia um erro entre os coríntios acerca do uso dos alimentos; alguns, com efeito, sabendo que todas as coisas são puras, comiam tudo com fé sã; os que eram fracos na fé, porém, vendo que os mais prudentes comiam as carnes sacrificadas aos ídolos, criam que o faziam sob veneração do ídolo, e diziam: é bom que voltemos às carnes sacrificadas aos ídolos; se não entendessem, com efeito, que o ídolo é algo, não comeriam as carnes sacrificadas a eles os que entre nós são mais prudentes. Como alguns deles assim erravam, os mais prudentes não queriam, contudo, abster-se daqueles alimentos, e assim feriam as consciências dos fracos. E sobre tais começa aqui Paulo, dizendo: sobre os matrimônios me interrogastes por carta; mas sobre as coisas sacrificadas aos ídolos nada me perguntastes; e não era preciso, *porque sabemos*, isto é, vós o sabeis e eu o sei; e como igualmente sabemos, não era preciso que me perguntásseis. E diz isto ironicamente. Sabemos certamente sobre estas coisas, *porque todos* temos, não só este, mas qualquer *conhecimento*. Agora reprova este conhecimento pelo mal que dele se segue, dizendo: nós sabemos, sim; mas este conhecimento não é muito louvável, porque *ensoberbece*, isto é, vos faz ensoberbecer contra os irmãos fracos, em quem não agis por caridade, mas mal; porque *a caridade edifica*, nutrindo as virtudes até a consumação da perfeição; e por isso o vosso conhecimento ensoberbece, porque não é temperado pela caridade.

Reprovou o conhecimento deles pelo mal da soberba que o segue; agora o próprio conhecimento, mostrando que ignoram aquilo em que se julgam sábios: embora eu tenha dito que sabeis, contudo, *se alguém julga saber alguma coisa*, como vós, sem caridade, certamente este *ainda não conheceu como convém conhecer*: o modo, com efeito, é que o conhecimento seja temperado pela caridade. Sentença oposta: quem se ensoberbece não conheceu o modo do conhecimento; *mas se alguém ama a Deus*, porque tem caridade para com o próximo, *esse é conhecido por ele*, isto é, reconhecido e aprovado por Deus.

Agora determina o conhecimento deles, em que é louvável e em que reprovável, dizendo: sabemos que quem ama a Deus é conhecido por Deus; *quanto às carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos*, isto é, vós, firmes na fé, sabeis comigo, *que o ídolo nada é no mundo*, isto é, na criação do mundo. Deus criou, sim, a pedra ou a madeira de que se forma o ídolo, mas não fez a obra do ídolo; não provém a essa criatura de Deus que se chame ídolo, mas do artífice. E sabeis também que *não há outro Deus senão um só*, donde consta que o ídolo não é Deus. Na verdade há um só Deus; *pois, embora haja os chamados deuses, quer no céu*, como os Anjos, *quer na terra*, como os Apóstolos, segundo aquilo: «Eu disse: Sois deuses» (Sl 81,6) — digo bem, os chamados deuses, *como há muitos deuses* em verdade e *muitos senhores* entre os deuses, como no céu os Arcanjos dominam os Anjos, na terra os Apóstolos os mártires — embora haja muitos deuses, *para nós, porém, há um só Deus, o Pai*, de quem no princípio foram criadas todas as coisas, e *nós* criados subsistimos *nele* pelo seu governo; *e um só Senhor Jesus Cristo* (e bem acrescentou sobre a unidade de Cristo com o Pai; disto, com efeito, hesitavam os coríntios), por quem Jesus Cristo foram feitas todas as coisas; o Pai, com efeito, criou tudo no Filho: *e nós por ele*, Cristo mediador, estamos em Deus.

Mas, embora tenhamos nestas coisas conhecimento sadio, nosso conhecimento não é, contudo, igualmente perfeito em todos: na verdade não em todos; *alguns*, com efeito, de fé não íntegra, *com a consciência do ídolo ainda até agora*, pela qual creem que o ídolo deve ser venerado, *comem como coisa sacrificada ao ídolo*, isto é, o que foi imolado ao ídolo sob veneração do ídolo; e, fazendo isto, *a sua consciência é contaminada*, sendo fraca pela imperfeição da fé. Contamina-os, sim, o alimento de que se servem porque nos veem servir; mas esse alimento não nos recomenda a Deus; nunca, com efeito, seremos mais caros a Deus por esse alimento; por isso não deveríamos ofender nisso. Na verdade esse alimento não nos recomenda a Deus: pois *se não comermos* esse alimento, nem por isso *perderemos* diante de Deus; *nem se comermos*, nem por isso *ganharemos* em bem.

E visto que nada impede abster-se, nada ajuda comer, *vede, pois, que esta vossa liberdade* não prejudique: é lícito, sim, segundo a vossa fé sadia, mas não de modo lícito que por isso se torne *tropeço para os fracos*, isto é, que pelo nosso exemplo, comendo carnes sacrificadas aos ídolos, pequem, porque sob veneração do ídolo. Digo, por isso, que não se faça tropeço, porque *se alguém* de fé não sadia *te vir*, a ti que *tens conhecimento* de que toda criatura de Deus é pura e não se contamina por causa do ídolo, se a fé for sadia, *sentado à mesa num templo de ídolos*, isto é, no lugar em que se imola ao ídolo, vendo isto o fraco, *não será a sua consciência, sendo fraca, animada* pelo teu exemplo *a comer carnes sacrificadas aos ídolos* sob veneração do ídolo? E assim, por consciência fraca, *perecerá, por causa do teu conhecimento, o irmão fraco*, por cujo exemplo comeu? Não julgues isto leve, porque este é o irmão *por quem Cristo morreu*, e por quem não queres deixar um pouco de comida que nada te confere. E porque por causa do teu conhecimento perecerá o irmão, *pecas contra o irmão*; *pecando assim contra os irmãos e ferindo com o vosso alimento a sua consciência fraca, pecais contra Cristo*, que morreu por causa do fraco. Por isso, isto é, porque pecar contra o irmão é pecar contra Cristo, *se um alimento escandaliza o meu irmão, nunca mais comerei carne*. É verdade que na eternidade ninguém usará de alimento de carne; mas diz assim para mais atemorizar do escândalo do irmão. Como se dissesse que, se se comesse alimento de carne na eternidade, rejeitá-lo-ia para não pôr tropeço ao irmão. Por isso não quereria comer carne eternamente; não só para não fazer pecar o meu irmão, mas *para não o escandalizar*, isto é, para não o contristar ao menos no ânimo.

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# Capítulo 9

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus Cristo, nosso Senhor? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se para outros não sou apóstolo, ao menos o sou para vós; pois sois vós o selo do meu apostolado no Senhor. A minha defesa perante os que me interrogam é esta. Porventura não temos direito de comer e beber? Porventura não temos direito de levar conosco uma mulher irmã, como os demais Apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? Ou só eu e Barnabé não temos direito de não trabalhar? Quem jamais serve como soldado à sua própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Porventura digo isto à maneira humana? Não o diz também a lei? Pois está escrito na lei de Moisés: Não porás mordaça ao boi que debulha (Dt 25,4). Porventura Deus se preocupa com os bois? Ou não o diz certamente por nossa causa? Sim, por nossa causa foi escrito, porque o que lavra deve lavrar com esperança, e o que debulha, na esperança de participar do fruto. Se nós semeamos entre vós os bens espirituais, é demais que colhamos os vossos bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, por que não antes nós? Mas não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pôr obstáculo ao Evangelho de Cristo. Não sabeis que os que trabalham no santuário comem do que vem do santuário, e os que servem ao altar participam do altar? Assim também o Senhor ordenou aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho. Eu, porém, de nada disto me servi. E não escrevi isto para que assim se faça comigo; pois seria melhor para mim morrer do que alguém esvaziar a minha glória. Pois, se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar; porque é uma necessidade que me incumbe; e ai de mim se não anunciar o Evangelho! Se o faço de boa vontade, tenho recompensa; se contra a vontade, é uma dispensação que me foi confiada. Qual é, então, a minha recompensa? Que, ao pregar o Evangelho, o apresente gratuitamente, sem usar do meu direito no Evangelho. Pois, sendo livre de todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus; para os que estão sob a lei, como se estivesse sob a lei (embora eu mesmo não estivesse sob a lei), a fim de ganhar os que estavam sob a lei; para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (embora não estivesse sem a lei de Deus, mas na lei de Cristo), a fim de ganhar os que estavam sem lei. Fiz-me fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar a todos. Faço tudo por causa do Evangelho, para dele me tornar participante. Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm, mas só um recebe o prêmio? Correi de modo a alcançá-lo. Todo aquele que luta no certame abstém-se de tudo; e aqueles, para receberem uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível. Eu, portanto, corro assim, não como à toa; assim luto, não como quem açoita o ar; mas castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser reprovado.

## Comentário

Dissuade de novo do tropeço do irmão, dizendo: embora a vossa fé seja sadia, deveis, contudo, abster-vos de alimentos pelos quais se ofende a fraqueza do irmão, como vedes em mim, que, tendo poder de receber bens temporais dos coríntios a quem prego, não quero, contudo, dar tropeço à fraqueza deles. E o que poderia receber deles por direito de pregação, antepõe, dizendo: posso receber de vós bens carnais, se quiser; porque *não sou livre?* não tenho a liberdade que têm os outros Apóstolos, que recebem sustento da pregação? Assim diz porque aqueles falsos apóstolos haviam voltado em mal o seu bem, dizendo: por isso não recebe de vós o necessário, porque sabe que não é Apóstolo, já que só são Apóstolos os que conviveram com Cristo na terra, e este não o viu. Na verdade sou livre como os outros: *não sou apóstolo?* Não, diriam, porque não viste a Cristo. Contra isto Paulo: sou certamente Apóstolo; *não vi Cristo, nosso Senhor?* Viu-o na hora da vocação, quando lhe foi dito: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» (At 9,4). Viu-o de novo, quando a ele orando no templo foi dito: «Eu te enviarei para longe, às nações» (At 22,21). Sou Apóstolo porque vi a Cristo; sou-o também porque *não sois vós a minha obra*, isto é, do meu apostolado, *no Senhor*, cuja graça opera em mim e em vós sem mérito algum? Vós sois certamente a minha obra no Senhor, porque *ainda que*, isto é, embora *para outros não seja apóstolo* (o que certamente sou), *ao menos o sou para vós*. Na verdade para vós sobretudo; *pois sois vós o selo do meu apostolado*, isto é, porque em vós foram seladas e expressas as graças de Deus pelo ministério do meu apostolado, por isso vós sois a aprovação do meu apostolado; e tudo isto *no Senhor*, porque tanto o meu apostolado como as graças a vós dadas vêm da misericórdia de Deus. Dizia isto porque os coríntios haviam recebido diversas graças, como curas e gêneros de línguas; graça que preferiam às outras, sendo a mínima, como ele mesmo dirá. E que pelas graças recebidas sois o selo do meu apostolado, *esta é a minha defesa*, isto é, por isso sou defendido e comprovado Apóstolo *perante os que me interrogam*, isto é, os que duvidam de mim, porque não convivi corporalmente com Cristo, se sou Apóstolo ou não.

Depois de provar que é Apóstolo, prova que por direito do apostolado pode receber bens temporais daqueles a quem ministra os espirituais, dizendo: visto que, como se provou, sou Apóstolo, *porventura não temos direito de comer e beber* junto daqueles a quem pregamos? E *porventura não temos direito de levar conosco uma mulher*, isto é, de levar conosco por toda parte mulheres que nos ministrem dos seus bens temporais; mulher, digo, não na obra da carne, mas irmã na fé e na piedosa conversação. Esta forma de ter mulheres fiéis em seu séquito tiraram-na os Apóstolos do Senhor Jesus, que quis que mulheres coabitassem com ele para mostrar que, como o homem, assim também redime a mulher, do que alguns duvidavam porque a mulher foi causa de toda a perdição. Porventura *não podemos* fazer isto como os demais Apóstolos podem, *e os irmãos do Senhor*, a saber, Tiago de Jerusalém e Judas Zelotes, que se diz irmão de Tiago, *e Cefas*, isto é, Pedro, que certamente teve mulheres em seu séquito?

E, tendo-o todos, *ou só eu e Barnabé*, que trabalha comigo no Evangelho, *não temos direito de não trabalhar*, isto é, de receber dos súditos como os outros? Que lhe seja lícito receber, prova-o por razões humanas, pela lei antiga e pelo Evangelho, dizendo: na verdade devemos operar isto como lícito; *quem jamais serve como soldado à sua própria custa?* a lei da milícia não o tolera. *E quem planta uma vinha e não come do seu fruto? E quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho?* *Porventura digo isto à maneira humana*, isto é, segundo razões humanas, e aprovo que eu deva receber bens carnais dos súditos? Digo-o também pela lei; porque *não o diz também a lei?* Certamente, pois assim está escrito na lei de Moisés: *Não porás mordaça ao boi que debulha* na eira, mas comerá do que debulha (Dt 25,4). Dir-me-ia o carnal: que tens tu com isso? Este preceito é sobre o boi, não sobre o homem. Contra isto Paulo: *porventura Deus se preocupa com os bois* na lei, a ponto de pôr ali preceito a respeito deles? Deus certamente não se preocupa com os bois; mas *não o diz certamente por nossa causa?* Na verdade por nossa causa; *pois* também estas outras coisas *foram escritas por nossa causa*, a saber, que *o que lavra deve lavrar com esperança* de receber frutos temporais, e o que debulha debulha na esperança de receber frutos. Lavrar diz erradicar os espinhos da infidelidade do bem da fé, cultivar o que é infiel; debulhar diz quando, depois de já estarem na Igreja, recebida a fé, o pregador os debulha, separando os grãos das palhas, os bons dos maus: e tanto o que lavra como o que debulha merece receber bens temporais.

Prova de novo o mesmo por outras razões, dizendo: *e se nós, pregadores, semeamos entre vós os bens espirituais, é demais*, isto é, deve reputar-se de nenhum valor, *que colhamos os vossos bens materiais?* *E se outros*, isto é, os falsos doutores, *participam desse direito sobre vós*, de modo que fazem do que é vosso o que lhes apraz, *por que não antes nós*, que ministramos a doutrina sadia?

Provado que é Apóstolo e que, pela lei do ministério, tem poder de receber deles, vem por fim àquilo por que começou, dizendo: embora fôssemos Apóstolos e tivéssemos o poder do apostolado, *não usamos, contudo, deste direito*, de modo a receber algo de vós. Dir-me-iam: talvez não tivésseis necessidade. Temos necessidade certamente, *mas suportamos tudo*, fome, sede, nudez, *para não pôr obstáculo ao Evangelho de Cristo*, isto é, para não parecermos impedir em algo o bem de nossa pregação. Temia Paulo nesta matéria muitos tropeços: porque, se recebesse dos que eram demasiado avarentos, preferiam não ouvir a pregação do que dar bens temporais; além disso, porque, se Paulo recebesse, receberiam igualmente os falsos apóstolos, que, embora adversários de Paulo, o seguiam, contudo, nisto e em algumas coisas, não ousando fazer o que Paulo não fazia; os quais, se tivessem pelo exemplo de Paulo ocasião de receber, por poucos alimentos (porque eram glutões) absolveriam de grandes pecados, e por esta ocasião os próprios coríntios pecariam mais seguros.

Não usamos do direito para não fazer tropeço; por isso não deixamos, contudo, de ter lícito; *não sabeis, com efeito, que os que trabalham no santuário*, isto é, na obra do templo, como nas cortinas ou em alguma reparação, *comem do que vem do santuário?* Santuário (*sacrarium*) diz-se como "secretário" (*secretarium*), atrás do altar. *E não sabeis que os sacerdotes que servem ao altar participam do altar?* A parte, com efeito, era queimada sobre o altar, e a parte reservava-se aos sacerdotes como alimento. Ou de outro modo, para que aquilo antes dito digamos dos gentios: não sabeis que os que trabalham no santuário dos gentios comem do que vem do santuário, e os que servem ao altar dos judeus participam do altar? *Assim*, isto é, na mesma ordem de viver, a saber, da pregação, *o Senhor ordenou aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho*, quando diz no Evangelho: «Comendo e bebendo do que eles têm, etc.» (Lc 10,7). E, embora o Senhor tenha assim ordenado, *eu de nada disto me servi*, nem de comida, nem de bebida, nem de vestuário.

Dir-me-iam: Paulo age astutamente, falando assim, para receber depois em dobro o que antes não recebeu. Contra isto Paulo: embora assim escreva, *não escrevi isto*, a saber, que não me servi de nenhuma destas coisas, *para que assim se faça comigo daqui em diante*, isto é, para que receba multiplicado o que antes não recebi. Por isso não o fiz, nem quero daqui em diante que se faça comigo, porque *é melhor para mim morrer*, quanto mais padecer penúria, *do que alguém esvaziar a minha glória*, isto é, a recompensa que espero do Evangelho; se, com efeito, evangelizasse com tropeço do irmão, esvaziaria certamente a glória do meu mérito. Ou assim: é-me melhor morrer mais do que morrerei agora; agora, com efeito, morro com muitas tribulações, mas preferiria morrer ainda de maior penúria do que alguém esvaziar a minha glória. Na verdade devo temer que a minha glória seja esvaziada; *pois se anuncio o Evangelho* assim, isto é, com tropeço do irmão, por cobiça de receber sustento de vós, *já não tenho de que me gloriar*, mas perece a minha recompensa. Na verdade não me é devida glória; *porque é uma necessidade que me incumbe*, isto é, a penúria me incumbe, a qual me obriga a evangelizar para assim ter sustento. Na verdade a necessidade incumbe; *pois ai de mim se não anunciar o Evangelho!*, isto é, a dor da penúria, a saber, da fome e da nudez. Se por necessidade evangelizo, não tenho glória; *se, porém, o faço de boa vontade*, isto é, só por vontade, não por cobiça de sustento, *então tenho recompensa* do meu Evangelho.

Ou de outro modo: a isto que disse acima, prefiro morrer a que a minha glória seja esvaziada, diria alguém: se o teu Evangelho fosse coisa tal que, se não se fizesse, nada nos faltaria, ou que, se se faz, não abundássemos em bem, como seria comer carnes sacrificadas aos ídolos com fé sadia, poder-se-ia crer que a tua glória pereceria se evangelizasses com tropeço do irmão; mas porque o teu Evangelho é coisa de tanta dignidade, pela qual os homens se salvam, não é de crer que por ofensa do irmão fraco pereça a tua glória do Evangelho. Perecerá certamente, diz Paulo; pois se somente evangelizar, e não me afastar do tropeço do irmão, não terei glória só por evangelizar; de nenhum mérito é, com efeito, evangelizar de modo a não evitar a ofensa do irmão. Na verdade não é muito apenas evangelizar; pois a necessidade de evangelizar me incumbe por ofício imposto: e na verdade a necessidade do meu ofício me obriga a evangelizar; pois *ai*, isto é, condenação para mim *se não evangelizar*: e daí é manifesto que não é de tanto valor evangelizar cuja glória não pereça por tropeço do irmão. Se por necessidade do meu ministério só evangelizo, não tenho glória; mas se o faço de boa vontade, não para por cobiça de sustento ofender o irmão, então tenho do meu Evangelho recompensa. Mas se o faço *contra a vontade*, isto é, coagido pela necessidade, pouco me importando ofender o irmão, é verdade, sim, que *a dispensação dos dons de Deus me foi confiada*, isto é, que Deus não dispensa menos suas graças por causa do meu pecado, mas sem recompensa para mim. Nesta palavra, a mim contra a vontade e pecando por tropeço do irmão, *foi confiada a dispensação* das graças de Deus, os santos recebem autoridade de que, embora o ministro seja mau, os dons de Deus por ele dispensados não diminuem por causa do pecado dele, como nem aumentam por causa da justiça dele.

E porque disse: se o faço de boa vontade, então por vontade tenho recompensa, *qual é, então, a minha recompensa?* isto é, qual deve ser a vontade pela qual me venha a recompensa: tal deve ser a vontade que eu, *pregando o Evangelho, o apresente*, isto é, coloque o Evangelho e constitua o seu fundamento, *gratuitamente*, sem sustento recebido dos coríntios, pelo qual se ofenderiam; sem sustento, *para não usar mal do meu direito concedido no Evangelho*; posso, com efeito, receber sustento do Evangelho, mas, se nisto ofendo o irmão, uso mal este poder. Deve crer-se que apresentarei o Evangelho sem sustento, para que a fraqueza dos ouvintes não se ofenda; *pois* (o que é mais que o sustento) *sendo livre de todos*, e a nenhum deles devendo coisa alguma, *fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número*. E, tendo eu, pela utilidade deles, o jugo da servidão sob todos, deve crer-se que me abstenho do sustento, temendo a ofensa do irmão, por cujo lucro me mostrei servo.

Na verdade fiz-me servo de todos, dos judeus, samaritanos, gentios e irmãos fracos; o que assim prossegue: *fiz-me judeu para os judeus*, condescendendo com seus ritos, abstendo-me de carnes de que se abstinham, para assim ganhar os judeus, que mais de boa vontade aquiescem a mim porque não desprezo seus ritos. *Para os que estão sob a lei*, isto é, os samaritanos, que têm os cinco livros de Moisés, mas não têm os Profetas, *fiz-me como se estivesse sob a lei*; embora eu mesmo não estivesse sob a lei; mas fi-lo para por este modo ganhar os que estavam sob a lei, isto é, os samaritanos. Samaritanos são aqueles que o rei dos assírios, cativos os filhos de Israel, pôs a habitar os lugares da Samaria, e são de origem persa (2Rs 17,24); os quais receberam os cinco livros de Moisés, quando Deus os vexava com muitas tribulações, porque haviam usurpado ilicitamente a terra de seu povo Israel. *Para os que estavam sem lei*, isto é, os gentios, *fiz-me como se estivesse sem lei*, contentando-me com seus alimentos e afirmando que Deus os elegeu; embora não estivesse sem a lei de Deus, mas *na lei de Cristo*; assim me fiz para ganhar os gentios que estavam sem lei. *Fiz-me também fraco para os irmãos fracos*, abstendo-me de alimentos lícitos, para não gerar tropeço à sua fraqueza, para assim ganhar os fracos. E para que enumerar uma por uma? *Fiz-me tudo para todos*, perfeito para os perfeitos, e assim em cada um, *para salvar a todos*. Tudo isto faço *por causa do Evangelho*, para colocar o Evangelho, que, se não o fizesse, seria esvaziado por causa dos tropeços dos irmãos; por causa do Evangelho, *para dele me tornar participante*, isto é, para ter parte na recompensa que o Evangelho atesta e promete aos fiéis.

Aqui adaptou tudo o que de si trouxe; como se dissesse: assim como me fiz tudo para todos por causa do Evangelho, assim também compadecei-vos da fraqueza dos irmãos, para serdes participantes da bem-aventurança prometida. Disse que deveis abster-vos de coisas lícitas, por causa dos irmãos fracos, como eu, vosso Apóstolo, me abstenho de coisas lícitas para não dar tropeço ao Evangelho de Cristo; o que faço totalmente para merecer receber o que espero, induzido pelo exemplo daqueles que, para receberem coroa temporal, se abstêm de tudo o que os impeça de recebê-la: porque *não sabeis que os que correm no estádio, todos correm, mas só um recebe o prêmio*, isto é, a coroa ou o prêmio da corrida? Estádio diz-se o espaço de duzentos e vinte e cinco passos, quanto Hércules correu num só fôlego, sem respirar; e diz-se estádio de *stare* ("estar"), porque no fim da corrida se pára. Visto que os que correm no estádio se empenham solicitamente em receber o prêmio, *correi, pois, assim*, abstendo-vos de tudo o que vos possa impedir, *de modo a alcançá-lo* todos, o prêmio da felicidade eterna; se todos aqui correm onde só um recebe o prêmio, muito mais solicitamente deveis correr onde todos recebereis o prêmio eterno. Assim certamente deveis correr, abstendo-vos de tudo o que vos possa impedir; *pois todo aquele que luta no certame*, isto é, na competição de corrida, *abstém-se de tudo* o que impede a corrida. *E aqueles*, correndo no estádio, abstêm-se assim para receberem uma coroa corruptível; nós, que vamos receber uma incorruptível, muito mais devemos abster-nos, quanto mais digna é a coroa com que seremos remunerados.

E porque espero a coroa incorruptível, *eu, portanto, corro assim, não como à toa*. Corre à toa quem ora obra mal, ora bem; quando obra bem, com efeito, espera receber; quando mal, desconfia. Diz correr obrar bem, sem o impedimento da tribulação infligida; diz lutar quando se inflige a tribulação e resiste-se fortemente. *Assim também luto, não como quem açoita o ar*, de modo a não cumprir em mim, com a obra, o que digo bem: quem diz palavras em vão, com efeito, diz-se que só açoita o ar; ou assim: não como quem açoita o ar, isto é, não lançando em vão os meus golpes, como quem luta com o inimigo, quando, lançado o golpe, não toca o inimigo, diz-se açoitar o ar; eu, porém, esmagando o inimigo, não açoito o ar, mas *castigo o meu corpo*, isto é, reprimo as concupiscências da carne; e assim *o reduzo à servidão*, isto é, para que a carne não só não repugne, mas até sirva ao espírito. Por isso assim castigo e reduzo, *para que* talvez não aconteça (o que poderia acontecer) que, *tendo pregado a outros, eu mesmo venha a ser reprovado* e condenável. Quando diz "talvez", mostra bem que Deus assim elege os seus sem os coagir, para não destruir neles a liberdade do arbítrio, de modo que, se quiserem, possam cair de novo.

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# Capítulo 10

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> Não quero, pois, que ignoreis, irmãos, que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos atravessaram o mar; e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; e todos comeram o mesmo alimento espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual (bebiam, com efeito, de uma rocha espiritual que os acompanhava; e a rocha era Cristo). Mas na maioria deles Deus não se comprouve; pois foram prostrados no deserto. Estas coisas aconteceram como figura para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles cobiçaram. Nem vos torneis idólatras, como alguns deles; conforme está escrito: O povo sentou-se para comer e beber, e levantou-se para se divertir (Ex 32,6). Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram, e caíram em um só dia vinte e três mil. Nem tentemos a Cristo, como alguns deles o tentaram, e pereceram pelas serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo exterminador. Todas estas coisas lhes aconteciam como figura; e foram escritas para nossa advertência, a nós, para quem chegou o fim dos séculos. Portanto, quem julga estar de pé, veja que não caia. Não vos sobreveio tentação que não seja humana; fiel, porém, é Deus, que não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dará também o êxito, para que possais suportá-la. Por isso, meus caríssimos, fugi do culto dos ídolos. Falo como a pessoas prudentes; julgai vós mesmos o que digo. O cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do Sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a participação do Corpo do Senhor? Porque nós, que somos muitos, somos um só pão, um só corpo, todos os que participamos de um só pão e de um só cálice. Vede Israel segundo a carne: os que comem as vítimas não participam do altar? Que digo, então? Que o sacrificado aos ídolos é alguma coisa, ou que o ídolo é alguma coisa? Mas o que as nações sacrificam, sacrificam-no aos demônios, e não a Deus. Ora, não quero que sejais comparsas dos demônios; não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar o ciúme do Senhor? Somos porventura mais fortes do que ele? Tudo me é lícito, mas nem tudo convém. Tudo me é lícito, mas nem tudo edifica. Ninguém procure o seu próprio interesse, mas o do outro. Tudo o que se vende no mercado, comei-o sem perguntar nada por motivo de consciência: Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém (Sl 23,1). Se algum dos infiéis vos convida e quereis ir, comei tudo o que vos puserem, sem perguntar nada por motivo de consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência; consciência, digo, não a tua, mas a do outro. Por que, com efeito, a minha liberdade seria julgada pela consciência alheia? Se eu participo com ação de graças, por que sou censurado pelo que dou graças? Quer, pois, comais, quer bebais, quer façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não sejais motivo de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a Igreja de Deus; como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o que me é útil, mas o que é útil a muitos, para que se salvem.

## Comentário

Porque Paulo dissera: castigo o meu corpo, etc., para não ser eu mesmo reprovado; a isto alguém diria: por que te afadigas tanto para não seres reprovado? Não se deve crer, com efeito, que Deus nos reprove levianamente, a nós a quem conferiu o batismo, a fé e os demais sacramentos da Igreja, ainda que alguma vez tenhamos obrado injustamente. Contra isto prova Paulo que os sacramentos nada valem para a salvação, se faltam as boas obras; os pais do Antigo Testamento, com efeito, tiveram em figura as mesmas coisas que nós temos em verdade; mas porque obraram mal, os sacramentos não lhes aproveitaram; assim também não nos aproveitarão, se forem más as nossas obras. O texto liga-se assim: por isso me afadigo tanto para não ser reprovado; vejo, com efeito, que me não bastam os sacramentos recebidos, se faltarem as obras, como não bastaram aos nossos pais sob a antiga lei, porque obraram mal: para o que vejais, *não quero que ignoreis, irmãos, que nossos pais*, isto é, os judeus, que nos precederam e ensinaram no culto de Deus, e cujas figuras geraram a nossa verdade; esses, digo, pais, *todos*, sem exceção, *estiveram debaixo da nuvem*: aquela nuvem que foi posta entre os egípcios e os judeus até o mar Vermelho significou a misericórdia divina, que protege os catecúmenos até chegarem ao batismo. *E todos* os nossos pais *atravessaram o mar* Vermelho: assim também nós todos atravessamos pelo batismo. *E todos* os nossos pais *foram batizados em Moisés*, isto é, no governo de Moisés, isto é, avançaram na nuvem que os separava dos egípcios e na passagem do mar. Diz "batizados", embora nem esta palavra tenha sido então dita deles, nem aquele mar tenha sido a verdade do batismo, porque só figura; mas põe o nome da coisa significada pelo próprio significante; porque, assim como eles foram protegidos sob a chefia de Moisés, assim muito melhor nós, tendo Cristo por chefe, somos protegidos no batismo, no qual nos perdoa os pecados e fortalece o nosso livre-arbítrio, para que possa resistir ao diabo que mal persuade. Por isso diz também "batizados", porque, quão eficaz nos é o batismo para a salvação, tal lhes seria a passagem do mar, se, crendo nos mandamentos de Deus, obedecessem.

*E todos os nossos pais comeram o mesmo alimento*, isto é, o maná; alimento, digo, *espiritual*, isto é, significativo do alimento espiritual do Corpo e do Sangue de Cristo: espiritual também porque o que o alimento do Corpo e do Sangue de Cristo faz em nós, o mesmo aproveitaria àquele maná para a salvação deles, se perseverassem no bem: não que fosse outra coisa que maná. *E todos beberam a mesma bebida*, isto é, a água que fluía da rocha; bebida, digo, *espiritual*, porque figurava a bebida do Sangue de Cristo e valia o mesmo na fé para eles, se fossem bons. E não beberam dela uma só vez, mas *bebiam* assiduamente *da rocha*, isto é, da água que manava da rocha, *que os acompanhava*, porque aonde quer que fossem no deserto, aquela água os seguia; rocha, digo, *espiritual*, isto é, que significava a rocha espiritual Cristo. Por isso não bebiam uma vez só, mas continuamente, porque não nos basta, a nós que cada dia caímos em pecado, tomar uma só vez o Sangue de Cristo; porque, assim como cada dia caímos, assim precisamos de contínuo remédio. *E a rocha* de que manava a água *era Cristo*, de cujo lado fluiu a água da nossa regeneração. E, embora nossos pais tivessem tantos sacramentos, *na maioria deles Deus não se comprouve*; porque, pecando, tornaram-se indignos dos sacramentos recebidos; na verdade a maior parte deles não agradou a Deus, *pois foram prostrados no deserto*, provocando sobre si a ira de Deus obrando mal.

E estas coisas ditas não foram feitas apenas por causa deles, mas também *como figura para nós*; em todas as coisas ditas, com efeito, foi figurada a verdade dos sacramentos que nos foi dada por Cristo; por isso foram feitas como figura para nós, *para que não cobicemos coisas más, como eles muitas vezes cobiçaram o mal*; aqui Paulo se insere entre eles, para melhor os desviar, tomando como seus, por compaixão, os pecados deles. Agora repõe alguns pecados dos judeus, que viu estarem nos coríntios, dizendo: não cobicemos coisas más, a saber, *nem vos torneis idólatras*: aqui já se separa daqueles, a cuja idolatria não consentiu. Não sejais, digo, idólatras, *como alguns deles*. Os coríntios eram idólatras, porque ou comiam sob veneração do ídolo as carnes sacrificadas aos ídolos, ou, não se importando em ofender o irmão ao comê-las, eram causa de o irmão fraco ser idólatra, e assim acusáveis de idolatria. Foram idólatras alguns dos judeus, *conforme deles está escrito* no Êxodo: *O povo dos judeus sentou-se para comer e beber* o que imolaram ao bezerro de fundição, *e depois levantou-se para se divertir* (Ex 32,6), isto é, para dançar e o mais diante do ídolo; ou então, levantou-se para se divertir, isto é, para adorar o ídolo; o que parecia jogo e zombaria da parte dos que haviam sido instruídos por tantos milagres. *Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram* com as madianitas, *e por isso caíram vinte e três mil*. Havia fornicação entre os coríntios, como naquele que tomara a mulher do pai, cujo consentimento tornava réus os outros. *Nem tentemos a Cristo, como alguns deles o tentaram*, dizendo: «Poderá Deus preparar mesa no deserto?» (Sl 77,19); *e pereceram pelas serpentes* que os envenenavam, até que Moisés ergueu a serpente de bronze no madeiro, a qual, quem dos judeus a via, naquele dia ficava seguro da lesão das serpentes; serpente que significou Cristo segundo a humanidade, como ele mesmo diz no Evangelho: «Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim convém que seja levantado o Filho do homem» (Jo 3,14). Tentavam os coríntios a Deus, enquanto duvidavam da ressurreição, como se Deus não pudesse tudo o que por bondade quisesse. *Nem murmureis* (o que certamente faziam os coríntios, dos quais alguns diziam que Paulo não era Apóstolo, e coisas semelhantes), *como alguns dos judeus murmuraram*, como os filhos de Core, Datã e Abiram, dizendo que Moisés não consagrava Aarão sacerdote por mandato de Deus, mas pela exaltação de sua família; *e por isso pereceram pelo exterminador*, isto é, pelo Anjo que os feria.

Deve-se notar que, porque os judeus eram rudes e não podiam captar as coisas espirituais, por isso lhes foi proposto servir a Deus em coisas carnais; e assim como, ofendendo na servidão carnal, eram punidos segundo a carne, assim também nós, a quem foram dadas as coisas espirituais, se nelas ofendemos, seremos punidos segundo a alma. Não só os sacramentos ditos precederam como figura de nós, mas *todas estas coisas*, e os pecados e as penas dos pecados, *lhes aconteciam como figura para nós*; porque, se eles, permanecendo na sombra, foram condenados pela transgressão da sombra, quanto mais nós, se pecamos na própria verdade? Não só estas coisas lhes aconteceram em figura de nós, mas *foram escritas para nossa advertência*, para sermos advertidos pelos exemplos deles; nossa, digo, *a nós, para quem chegou o fim dos séculos*; porque, por mais que estes séculos hajam de durar, nós temos os fins, porque estes ritos, que foram dados pelo Evangelho, são os últimos ritos, e eles, enquanto o mundo existir, não terminarão. Ou assim: chegou a nós o fim dos séculos, porque acabou toda a secularidade, a saber, a carnalidade dos ritos antigos, e nos foi entregue a própria verdade.

Visto que os sacramentos anteriores em nada aproveitaram a nossos pais por causa do pecado, e estas coisas foram escritas para nossa doutrina, *portanto*, isto é, por isso aquele de vós *que julga estar de pé*, a saber, que entende sadiamente sobre as criaturas de Deus e que tudo lhe é lícito, *veja que não caia* por tropeço do irmão. E, para que os coríntios não se perturbassem com esta palavra, "veja que não caia", sabendo que até o justo cai sete vezes ao dia, determina Paulo de que queda entende, dizendo: veja cada um que não caia, de modo que *não vos sobrevenha tentação* — isto é, deleite do pecado — *que não seja humana*, isto é, vinda da necessidade da carne, a saber, venial. O que vos toca, vede que o façais; porque *Deus é fiel* e veraz nas promessas, que em nada abandona os seus fiéis; Deus *não permitirá que sejais tentados além das vossas forças*; conforme vê a fortaleza ou a fraqueza de cada um, dispõe as tribulações. E não só não permitirá que sejais tentados além da medida, mas *com a tentação dará também o êxito*, isto é, tanto o aumento da virtude pela qual persevereis, como o aumento da tribulação; dará, digo, de modo que *possais suportá-la*, para que não fraquejeis na tribulação.

*Por isso*, isto é, porque quem está de pé deve ver que não caia e Deus está à mão para estender a mão, *fugi do culto dos ídolos*; se o fizerdes, então sereis para mim caríssimos. Diz fugir do culto dos ídolos tanto aos fracos que comiam sob veneração do ídolo, como aos que, embora de fé sadia, eram causa de se corromper a fraqueza dos irmãos. E para que fujais do culto dos ídolos, vou dizer coisa sutil, em que falo a vós *não como a simples, mas como a prudentes*; e por isso *julgai vós mesmos*, isto é, quanto mais sutilmente podeis, discuti entre vós o que vos digo. Reunamos brevemente a soma da sentença: por isso deveis fugir do culto dos ídolos, porque, assim como aquele que comunga no Corpo e no Sangue de Cristo se faz de certo modo um com Cristo, assim aquele que comunga no ídolo, comendo as carnas sacrificadas aos ídolos, incorpora-se ao diabo.

Agora exponhamos a letra: deveis fugir do culto dos ídolos; porque *o cálice*, isto é, o Sangue de Cristo; cálice, digo, *de bênção*, pelo qual recebemos as bênçãos das graças; porque pelo Sangue de Cristo, se o tomamos dignamente, somos libertados dos pecados anteriores e fortalecidos contra os que vêm; *cálice que abençoamos*, louvando-o, porque nunca houve tal cálice que libertasse dos pecados e fortalecesse para que não pequemos mais; ou então, cálice de bênção, isto é, que o próprio Deus abençoa e consagra, e que nós abençoamos por nosso ofício; Deus, com efeito, o realiza pelo sacerdote ministro: este cálice, pois, *não é a comunhão do Sangue de Cristo?*, isto é, não nos unimos a Cristo e nos conformamos a ele pelo Sangue assumido? *E o pão*, isto é, o verdadeiro Corpo de Cristo, que se recebe sob a só espécie de pão; pão, digo, *que partimos* no altar, para que, o que é um em verdade, embora assim pareça, mas não se pode dividir, dividindo-o signifiquemos que nós, que somos pessoas diversas, nos tornamos um em Cristo; este pão, digo, que partimos, *não é a participação do Corpo do Senhor?*, isto é, não recebemos por este Corpo a Deus em nós e o incorporamos a nós? Por isso Deus instituiu este sacrifício em duas substâncias, a saber, do Corpo e do Sangue, para, pela carne entregue no altar, mostrar que redime a nossa carne, a ser algum dia transferida pelos sacramentos à incorrupção; e, pelo Sangue que entrega, insinuar que igualmente redimiu a nossa alma; para insinuar o que respeita à alma, porque não pôde usar de coisa incorpórea, figurou dignamente a alma pelo sangue, que se diz sede da alma. Nem distribuiu em duas substâncias para entender partes diversas dele; quem recebe apenas o Sangue, ou apenas o Corpo, recebe-o todo; quem recebe ambos, não recebe mais por ambos do que por um. Corpo que, assim como é a verdadeira Carne de Cristo sob a espécie de pão, assim pela só espécie é triturado, diminuído, dividido em partes, ao passo que em verdade permanece incorruptível, indivisível, incapaz de diminuição.

Na verdade pela recepção do Sangue e do Corpo de Cristo nos unimos a Cristo; *porque nós, que somos muitos, somos um só pão*, isto é, assim como no pão os diversos grãos passam à unidade do pão, assim também nós nos unimos pela fé, pela esperança e pela caridade; somos também muitos *um só corpo* segundo a diversidade dos membros que mutuamente se servem na unidade do amor: nós todos somos um só pão e um só corpo, *todos os que participamos de um só pão e de um só cálice*, isto é, do Corpo e do Sangue de Cristo, por quem somos unidos a Cristo, incorporando-o a nós.

Agora, segundo Ambrósio, digamos o que segue: *ó Israel*, isto é, ó alma fiel que contemplas a Deus, o que agora vos mostrei nas coisas espirituais, *vede*, o mesmo acontece *segundo a carne*, isto é, pela participação carnal das carnes sacrificadas aos ídolos comunica-se com o diabo; *os que comem as vítimas* imoladas ao diabo *não participam do altar* do diabo?, isto é, não comungam com o próprio diabo por participarem do que se imola sobre o altar do ídolo? Como nas coisas espirituais, assim nas carnais não se pode negar que isto se dê. Porque digo que os que comem o sacrificado ao ídolo participam do diabo, *que digo, então?*, isto é, julga-se que digo que o sacrificado aos ídolos seja algo diverso do que era antes de ser sacrificado? Longe de mim parecer dizer que o ídolo seja algo diverso de pedra ou madeira ou aquilo de que foi fabricado, porque pelo sacrificado a ele digo que o homem se une ao diabo. Não digo, certamente, que o sacrificado aos ídolos, ou o ídolo, seja algo que antes não era; mas digo isto: que as nações que sacrificam essas coisas, *sacrificam-nas aos demônios* e por isso a eles se unem, não pela carne sacrificada, que seja outra coisa que carne, nem pelo ídolo, que seja outra coisa do que era antes; sacrificam aos demônios, *e não a Deus*; por isso se incorporam ao diabo.

Ou de outro modo, para que tomemos fora do livro a adaptação da semelhança assim: porque os que comungam no Corpo e no Sangue de Cristo se unem a Cristo, assim, por semelhança, os que participam do sacrificado ao ídolo se unem ao diabo; e isto tomemos fora da letra. Para que vejais nas coisas carnais o que mostrei pelas espirituais, vede agora *Israel*, isto é, o povo judaico, *segundo a carne*, isto é, agindo segundo os ritos carnais; *os que entre os judeus comem as vítimas* imoladas a Deus, *não participam do altar*, isto é, participam de Deus a quem imolam no altar? Do mesmo modo os que comem as carnes sacrificadas aos ídolos são participantes do diabo; e isto fora do livro. A letra seguinte liga-se assim: visto que digo que quem come das carnes sacrificadas aos ídolos participa do diabo, *que, então, pareço dizer?* A letra seguinte não muda.

Por isso quero que fujais do culto dos ídolos, *porque não quero que sejais comparsas dos demônios*, como se provou serem os que comem carnes sacrificadas aos ídolos. Seríeis comparsas dos demônios, se não fugíssemos dos ídolos, porque *não podeis beber o cálice dos demônios e o cálice do Senhor*, e *não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios*. Devemos fugir do culto dos ídolos, para não nos associarmos aos demônios; devemos também porque, participando da mesa dos demônios, *provocamos o ciúme*, isto é, invejamos ao Senhor, cujo reino diminuímos em nós mesmos e nos nossos imitadores. *Mas provocamos o ciúme do Senhor?* Invejamos-lhe certamente com o nosso mal, *porque somos porventura mais fortes do que ele?* quem inveja a quem é mais forte age mal, porque é oprimido por ele.

Dir-me-iam, os que com fé sadia creem que o ídolo e as coisas a ele imoladas nada são: parece, Paulo, que entendes que o sacrificado ao ídolo é algo, já que dizes que por isso nos tornamos comparsas dos demônios. Longe de mim, diz Paulo; confesso claramente que todas estas coisas me são lícitas, e a qualquer que tenha fé sadia, comer por fé; mas, contudo, não é lícito, porque *nem tudo convém*, antes impede a bem-aventurança por tropeço do irmão. De novo o mesmo: tudo me é lícito segundo a fé sadia, *mas nem tudo edifica* o próximo, e no que o destrói não é lícito. E porque tudo se deve fazer para a edificação do próximo, por isso *ninguém procure o seu próprio interesse*, e não o do próximo, mas procure *o do outro*, isto é, o que serve à edificação do próximo.

Porque acabou de dizer que segundo a fé é lícito, por tropeço do irmão não é lícito, determina o modo quando é lícito usar destes alimentos e quando não, dizendo: para que não ofendais nas coisas ditas, assim discerni: *tudo o que se vende no mercado*, isto é, se vende, *comei*, *sem perguntar nada por motivo de consciência* (que determinará nas passagens seguintes); comei tudo, porque *do Senhor é a terra e tudo o que ela contém* (Sl 23,1). *Se algum dos infiéis vos convida ao banquete e quereis ir*, o que é bem lícito, porque dos infiéis não temos de julgar, *comei tudo o que vos puserem, sem perguntar nada por motivo de consciência*, que de novo determinará. Vós nada pergunteis, mas *se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência*; que agora determina: *consciência, digo, não a tua*, que és são na fé, *mas a do outro*, isto é, do irmão fraco, para que não se ofenda em ti. Disse consciência, notando primeiro a consciência do judeu, que, se vir um cristão comer das carnes sacrificadas aos ídolos, dirá que não se deve aderir à fé cristã, porque voltam ao culto do ídolo; segundo, a consciência do gentio, que, vendo o mesmo, dirá: por que deixaria eu os meus ídolos, se os cristãos voltam a eles?; terceiro, a consciência do irmão fraco, pela causa tantas vezes dita.

Por causa da consciência do outro deves abster-te, porque *por que a minha liberdade*, isto é, o que me é lícito pela fé sadia, *é julgada*, isto é, torna-se julgável e condenável, *pela consciência alheia*, isto é, por causa da consciência fraca do irmão? *E se eu participo das carnes sacrificadas aos ídolos com ação de graças*, isto é, comendo em nome do Senhor, *por que sou censurado*, isto é, por que me mostro censurável *pelo que dou graças?* O fraco ou o infiel julga, com efeito, que eu venero os ídolos, quando dou graças a Deus. Visto que a consciência de ninguém deve ser lesada, *quer, pois, comais, quer bebais, quer façais outra coisa*, fazei estas e todas as coisas *para a glória de Deus*, não em licença da vossa fé, para que ninguém possa, justa ou injustamente, caluniar a fé de Cristo. E para que tudo façais para a glória de Deus, *não sejais motivo de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a Igreja de Deus*, isto é, os irmãos fracos, como acima foi determinado. Sede-o, digo, *como também eu em tudo procuro agradar a todos*, isto é, esforço-me por agradar a todos em tudo, *não buscando o que me é útil* só, *mas o que é útil a muitos, para que* assim *se salvem* muitos por mim: e para que sejais úteis a muitos, sede nesta matéria imitadores meus; porque, se meus, sereis também de Cristo, como também eu sou imitador de Cristo.

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# Capítulo 11

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo. Louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as minhas instruções, como vo-las transmiti. Quero, porém, que saibais que a cabeça de todo homem é Cristo; a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus. Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é exatamente como se fosse rapada. Se, pois, a mulher não se cobre, seja tosquiada. Mas, se é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada, cubra a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus; a mulher, porém, é glória do homem. Pois o homem não procede da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por isso a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade, por causa dos Anjos. Todavia, nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Pois, assim como a mulher procede do homem, assim também o homem nasce pela mulher; e tudo vem de Deus. Julgai vós mesmos: convém que a mulher ore a Deus descoberta? Não vos ensina a própria natureza que ao homem, se deixa crescer a cabeleira, é desonra; mas à mulher, se a deixa crescer, é glória? Pois a cabeleira lhe foi dada como véu. Se, porém, alguém parece ser contencioso, nós não temos tal costume, nem a Igreja de Deus. Mas, ao dar-vos esta instrução, não vos louvo, porque vos reunis não para melhor, mas para pior. Primeiramente, ouço dizer que, quando vos reunis em assembleia, há divisões entre vós, e em parte o creio. Pois é preciso que haja também heresias, para que se manifestem entre vós os que são aprovados. Quando, pois, vos reunis em comum, não é mais para comer a ceia do Senhor. Pois cada um toma antecipadamente a sua própria ceia para comer. E um tem fome, e outro está embriagado. Porventura não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Pois eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu Corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de cear, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu Sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Pois todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha. Portanto, quem comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor. Por isso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos dormem. Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Quando somos julgados, somos corrigidos pelo Senhor, para não sermos condenados com este mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, para que não vos reunais para condenação. As demais coisas disporei quando eu for.

## Comentário

Depois de ter repreendido neles o que se refere às carnes sacrificadas aos ídolos, para que não participassem delas nem sob tropeço do irmão nem sob veneração do ídolo<sup>[1]</sup>, passa a outra coisa, que haviam costumado fazer com demasiada impudência, a saber, orarem os homens na Igreja com a cabeça coberta e as mulheres descoberta; o que proíbe que se faça daqui em diante entre eles, tanto pela lei da condição deles, como pela autoridade dos santos, como porque a natureza repugna. O texto liga-se assim: por comerdes as carnes sacrificadas aos ídolos, ou sob veneração do ídolo ou sob tropeço do irmão, eu vos repreendo; *quanto a isto, porém, louvo-vos, ó irmãos, porque vos lembrais de mim em tudo* o que vos mandei; lembrais-vos porque, *como vos transmiti as minhas instruções, assim as guardais*, sem omitir nada incompleto. E tudo isto ironicamente; porque dificilmente em alguma coisa haviam guardado o seu mandamento. Mas, embora assim vos louve, vitupero-vos naquilo em que o homem com a cabeça coberta e a mulher com a cabeça descoberta se desonram. Antepõe, porém, as razões com que aprova que assim não deve ser, dizendo: para que não desonreis tão perversamente as vossas cabeças, *quero que saibais que a cabeça de todo homem*, rico ou pobre, *é Cristo*; tem ele, com efeito, princípio de Deus, não de outro; e assim como na cabeça temos todos os sentidos, e nenhum no corpo exceto o tato, que de novo temos na cabeça, assim todos os nossos sentidos devem consentir e cooperar com a sua cabeça Cristo. Cristo é a cabeça do homem; *o homem, porém, é a cabeça da mulher*, isto é, o princípio; da costela do homem, com efeito, foi fabricada a mulher, e assim tirou do homem a matéria do seu princípio; homem que só de Deus teve princípio. Cristo é a cabeça do homem; *e a cabeça de Cristo é Deus*, isto é, o princípio de Cristo: segundo o homem, especialmente cabeça, porque Deus constituiu Cristo imune de pecado pela Divindade que lhe foi unida; segundo a Deidade, Deus é cabeça de Cristo, porque o Filho tem princípio do Pai, o Pai não de outro. E porque o homem tem só Cristo por cabeça, por isso *todo homem que ora* na Igreja a oração do Senhor, ou quaisquer orações, *ou profetiza* — diz profetizar ou ensinar o símbolo, em que se prega a ressurreição da carne e a vida eterna, que são futuras; ou então, profetizando, isto é, lendo na Igreja e revelando as coisas passadas ou futuras só acerca de Cristo — *com a cabeça coberta*, o homem que assim faz, *desonra a sua cabeça*. Poderíamos dizer aqui que a cabeça do homem é Cristo, que, enquanto age desonestamente, parece, quanto a si, desonrar, cujas ordens despreza; mas, porque a letra seguinte não o permite, dizemos: o homem que ora com a cabeça coberta desonra a sua própria cabeça, enquanto cobre com véu a liberdade que tem, porque está sob ninguém exceto Cristo, véu que é sinal de sujeição vergonhosa.

O homem que ora com a cabeça coberta desonra a sua própria cabeça; mas *toda mulher que ora ou profetiza* (como acima se expôs) *com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça*, que deveria sempre cobrir, em sinal do seu pudor, porque a mulher é causa de toda perdição, e sobretudo quando na Igreja se apresenta ao seu juiz, a quem tornou hostil todo o gênero humano, ao consentir com o diabo e impelir o homem a consentir com ele. Na verdade, a mulher não cobrir a cabeça é desonrar a cabeça; *pois é exatamente como se fosse rapada*, isto é, repartisse os cabelos na fronte, embora seja certo que não queira ser tosquiada. Pôs só "rapada", o que certamente tem por inconveniente, porque sabia que elas de modo algum queriam ser tosquiadas. Na verdade não cobrir a cabeça é ser rapada; *pois, se a mulher não se cobre, seja tosquiada*; como de modo algum o fará, segue-se que, com a cabeça descoberta, será rapada. Da cabeça descoberta segue-se necessariamente ou ser rapada ou tosquiada; mas *se é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada*, o que certamente a desonraria, *cubra a cabeça*, o que lhe convém.

A mulher cubra a cabeça, mas *o homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem de Deus*, de quem tem forma e princípio; e *o homem é glória de Deus*, pois, se tiver obrado bem, Deus se gloria nele. O homem é imagem e glória de Deus, mas *a mulher é glória do homem*, porque deve ser governada pelo homem; e, se for bem governada, tem glória pelo que a mulher bem fez. Na verdade o homem é glória só de Deus, e a mulher glória do homem; *pois o homem não procede da mulher*, isto é, na primeira criação o homem não teve origem da mulher, que ainda não existia; *mas a mulher* teve princípio do homem, porque da costela de Adão foi edificada Eva. De novo, na verdade o homem é glória só de Deus, e a mulher do homem; *pois o homem não foi criado por causa da mulher*, para servi-la, porque só a Deus; *mas a mulher por causa do homem*, para permanecer, com toda servidão, em auxílio do homem. E porque a mulher foi feita para a glória do homem e para estar sempre sujeita ao homem, por isso *a mulher deve ter sempre poder*, isto é, sinal de que está sob poder alheio, *sobre a cabeça*, que deve cobrir em sinal de sujeição; *e por causa dos Anjos*, isto é, por causa dos doutores da Igreja, que se dizem Anjos porque são núncios de Deus, para que, vista a lascívia das mulheres impudicas, não sejam ilicitamente movidos a elas; ou por causa dos Anjos de Deus, que estão presentes em todos os sacramentos da Igreja, para que não se ofendam com a intemperança de tão grande libido; ou por causa dos Anjos, isto é, dos Patriarcas e dos santos anteriores, que proibiram que isso se fizesse.

Porque acabara de deprimir tanto o sexo feminino, feito em tudo indigno em relação ao homem, agora o levanta e consola, dizendo: embora na primeira criação o homem tenha precedido a mulher, na sucessão posterior da geração, contudo, homem e mulher são iguais; porque *nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem* podem gerar, mas por participação do outro ambos geram igualmente; e não, contudo, que possam procriar por si, mas tudo *no Senhor*; o Senhor, com efeito, cria o homem pela conjunção do macho e da fêmea. Na verdade nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem; *pois, assim como a mulher procede do homem, assim também o homem nasce pela mulher*<sup>[2]</sup>. Embora eu diga que a mulher é gerada do homem, e vice-versa, *tudo isto e todas as coisas vêm de Deus*; porque nem o homem nem a mulher podem algo por si sem Deus.

Estas coisas antecipadas leem-se em alegoria, assim: o homem, que na primeira criação foi feito por Deus com grande fortaleza de racionalidade, significa a razão, que deve sempre reger a sensualidade; a mulher, porém, que não foi tão forte quanto o homem, significa a sensualidade, que, bem governada, deve obedecer à razão: o que o diabo, vendo sutilmente que não podia perverter o homem, que mais vigorava pela razão do que amolecia pela sensualidade, atacou a mulher, a quem sentiu mais oprimida pela sensualidade do que erguida pela razão. E segundo isto dizemos assim: o homem não deve cobrir a cabeça, porque o homem é imagem de Deus, isto é, pela força da razão imagina a Deus; e, agindo pela razão, é glória de Deus; Deus, com efeito, é glorificado nos servos que obram bem. A mulher, porém, isto é, a própria sensualidade, é glória do homem, que pela razão imagina a Deus; a sensualidade, com efeito, obrando bem e consentindo na razão, é glória dela. E embora por homem tomemos a razão, por mulher a sensualidade, não negamos, contudo, que ambos estejam em ambos: e a razão na mulher se diz homem, e a sensualidade no homem se chama mulher; nem aqui tratamos da razão e da sensualidade de modo a não olhar sempre às próprias pessoas. O homem deve ser glória de Deus, e a mulher do homem; *pois o homem não procede da mulher*, isto é, a racionalidade não deve depender da sensualidade, mas a mulher do homem, isto é, a sensualidade da razão. O homem certamente não procede da mulher; *e o homem não foi criado*, isto é, a razão não foi dada ao homem *por causa da mulher*, isto é, para que siga a sensualidade; mas *a mulher por causa do homem*, isto é, a sensualidade foi criada para obedecer à razão. E porque a mulher foi criada por causa do homem, por isso deve ter sinal de poder sobre a cabeça, *e por causa dos Anjos*, como se disse. Mas, embora eu tenha anteposto o homem à mulher em tamanha dignidade, contudo, *nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem*, isto é, um não precederá o outro *no Senhor*, isto é, na bem-aventurança, contanto que obrem bem: embora na primeira criação o homem tenha precedido a mulher, na verdade um não precederá o outro na salvação; pois o que acima foi dito, a mulher do homem, o homem não da mulher, em nada prejudicará, uma vez que na sucessão da geração o homem procede da mulher como a mulher do homem, embora na primeira criação a mulher tenha sido gerada só do homem: *e tudo vem de Deus*, como foi dito.

Provou, segundo a ordem da criação, segundo as instituições dos Pais, que o homem não deve ser velado, nem a mulher descobrir a cabeça; prova o mesmo pela natureza de ambos, que deu ao homem cabelos mais curtos em sinal de liberdade, à mulher prolixos em sinal de pudor a velar: embora alguns homens os tenham mais longos, isto se dá pela arte, não pela natureza; se as mulheres os têm mais curtos, isto é por algum vício, não pela natureza. O texto liga-se assim: provei acima pela ordem da criação que se deve velar a cabeça da mulher; agora *julgai vós mesmos*, coríntios, o que provarei não dever fazer-se pela natureza; julgai, digo, *convém que a mulher ore a Deus descoberta?* Certamente não; porque *a própria natureza não vos ensina* a agir assim, antes o proíbe; e como a natureza o proíbe, *se o homem deixa crescer a cabeleira, é-lhe desonra*, porque age contra a natureza; *se, porém, a mulher a deixa crescer, é-lhe glória; pois a cabeleira* longa *lhe foi dada* pela natureza *como véu*, isto é, em sinal de véu, que deve estar sempre sobre a cabeça. Provei pela ordem da criação e pela lei da natureza que o homem não deve cobrir a cabeça nem a mulher descobri-la; mas *se alguém entre vós parece ser contencioso* e não consente em nossas razões, só isto lhe diremos: irmão, *nós não temos tal costume*, nem o tivemos na sinagoga dos judeus, *nem a Igreja de Deus* ainda o tem na nova Igreja, de que o homem ore com a cabeça coberta e a mulher descoberta. E porque o costume não o teve, nem ainda o tem, *por isso*, porque abusas da nossa admoestação, já não só aconselho, mas ordeno com a nossa autoridade que não se faça daqui em diante este inusitado.

Depois de ter coibido os coríntios deste mal, passa a outros em que ofendiam muito pior: seduzidos, com efeito, por falsos mestres, tinham abandonado a instituição de Paulo, que lhes transmitira, sobre a recepção do Corpo e do Sangue de Cristo; os falsos apóstolos lhes haviam persuadido que deviam comungar depois da ceia, porque a essa hora Cristo transmitira estes sacramentos aos seus discípulos para serem participados. Daí tinham caído em muitos males; porque, havendo entre eles cismas, presumiam aproximar-se da unidade do Corpo de Cristo; e outro mal, porque antes ceavam e se embriagavam, e isto na Igreja; e nestas ceias envergonhavam os que não tinham tantos preparativos, e não ministravam aos necessitados; e depois destes males, ingeriam-se à mesa do Senhor. O texto liga-se assim: o que acima foi dito ordeno que não se faça; *quanto a isto outro, não louvando, mas antes reprovando*, a saber, que vos reunis para a ceia do Senhor, na qual deveríeis fazer-vos um, digo-vos que *não é para melhor*, como deveríeis, que vos reunis, *mas para pior*.

E, como são muitos os vossos males, *primeiramente* antepo isto de todos: que, *quando vos reunis em assembleia*, ouço que há entre vós *divisões* e discórdias, exigindo a Igreja a unidade; e, como ouço, *em parte o creio*, isto é, por causa de uma parte de vós, de quem sei que se gloria nos cismas: creio-o certamente, porque é preciso crer, porque pessoas religiosas mo comunicaram. Ou assim: há divisões entre vós; *pois é preciso que haja* divisões, isto é, quaisquer discórdias e (o que é maior) *heresias*; é necessário, com efeito, que venham escândalos, para que *os que são aprovados* e eleitos por Deus *se manifestem entre vós*, perseverando nas tentações, e para que igualmente se manifestem os reprovados.

Visto que há divisões entre vós, *portanto, quando vos reunis em comum*, vós que contradizeis à unidade, *já não é*, isto é, só pela causa da discórdia não é lícito, *comer a ceia do Senhor*, isto é, o Corpo e o Sangue de Cristo, que o Senhor transmitiu aos discípulos na ceia; ou então, já, isto é, neste mundo, a ceia do Senhor vos é interditada por causa da discórdia, mas no futuro sereis totalmente condenados. Por causa das divisões não é lícito receber o Corpo de Cristo; também por isso não vos é lícito, porque *cada um de vós toma antecipadamente*, isto é, presumindo antecipa *a sua própria ceia*, não só para preparar, mas também para comer. E ainda outro mal: *porque um*, que não tem de que se prepare, *tem fome*. De novo outro mal: *e outro está embriagado*. Mas, comendo assim na Igreja, *porventura não tendes casas particulares para comer e beber?* as quais, se não tivésseis, seria mais tolerável comer na praça; *ou desprezais a Igreja de Deus*, na qual vos embriagais, *e envergonhais*, isto é, infligis vergonha aos pobres que *nada têm* de que se preparem? E porque agis assim impudentemente, *que vos direi?* certamente estais sem caridade, desprezadores de Deus, seguidores da gula, etc. *Louvar-vos-ei nisto?* certamente não louvo, antes vitupero; ou então: louvo-vos em algumas outras coisas, mas nisto de modo algum louvo.

Depois de ter vituperado neles a ordem em que mal haviam costumado, determina-lhes como devem receber os sacramentos de Cristo, a saber, na abstinência; não na embriaguez, mas na dor e na tribulação. O texto liga-se assim: não vos louvo porque recebeis embriagados o Corpo do Senhor; assim, com efeito, não se deveria receber, mas em comemoração da tribulação e morte de Cristo. Mas antes que a isto chegue, recomenda o que vai dizer pela autoridade do Senhor, dizendo: *eu recebi do próprio Senhor o que também vos transmiti*, e agora de novo transmitirei, a saber, que *nosso Senhor Jesus Cristo, naquela noite* — a noite é sinal de adversidade e tristeza —, noite em que não banqueteava, não se embriagava, mas era *entregue* à morte por nossos pecados, *tomou o pão*, isto é, a verdadeira substância do pão, *e dando graças* a Deus Pai por isto: porque, como por ele dispusera, redimia o gênero humano e perseverava na obediência ao Pai — nestas palavras com que Cristo deu graças ao Pai diz-se que a substância do pão e do vinho posta no altar passa à verdadeira Carne e ao verdadeiro Sangue de Cristo —, dando graças, digo, *partiu* aquilo que, uno e inseparável, dura eternamente; mas partiu quando deu o todo a cada um, para insinuar com isso que nós, que somos pessoas diversas, devemos tornar-nos um no amor de Deus. Partiu, digo, *e disse: Tomai*, isto é, tende isto por aceitável e discuti sutilmente o mistério deste sacramento, para que, como eu por vós, assim também vos alegreis de padecer pelo meu nome e pelos próximos; tomai, digo, *e comei*: em que Cristo quis insinuar que não nos basta crer, se não vemos gostando quão suave é o Senhor; como comer de nada aproveitaria se não crêssemos. E isto que pouco antes era pão, agora é verdadeiramente *o meu Corpo*; Corpo *que será entregue por vós* à morte, embora agora vo-lo apresente imortal e impassível. Deve-se notar que estas coisas são também de tal modo sinais da substância que nelas não se nota qualidade alguma, nem mortalidade nem imortalidade; nem é de admirar, como diz Agostinho, que se levasse imortal em mãos mortais, quando na Transfiguração, quem então e depois foi mortal, mostrou-se na glória da imortalidade e impassibilidade a Pedro, Tiago e João. Comei, diz, o meu Corpo; *e fazei isto*, isto é, tomai continuamente, não em alegria e embriaguez, mas *em memória de mim*, para que vós, sempre lembrados da minha Paixão e morte, queirais padecer e morrer por mim.

*Do mesmo modo*, como o Corpo, *tomou também o cálice, depois de cear* — aqui insinua que depois da ceia deu o Corpo igualmente —, tomou, digo, o cálice, *dizendo: Este cálice*, que pouco antes era verdadeira substância de vinho; este cálice é o meu Sangue; *e neste meu Sangue está a nova aliança*, isto é, a nova promessa; a lei antiga, com efeito, prometia coisas carnais, mas este sacramento do meu Corpo e Sangue promete coisa nova, porque a bem-aventurança espiritual; aliança também nova porque nunca será mudada, de modo que se introduzam outros ritos. E *fazei isto*, a saber, o meu Sangue, isto é, tomai *em memória de mim*, isto é, de coração contrito e humilhado, não uma vez, mas *todas as vezes que beberdes*. E é justo que tomeis isto em memória de mim; porque *todas as vezes que comerdes este pão*, isto é, o meu verdadeiro Corpo, que retém a espécie e o sabor de pão, para que os que o tomam não o aborreçam; e todas as vezes *que beberdes este cálice*, isto é, o meu Sangue, que retém por isso o sabor e a espécie do vinho: todas as vezes, digo, que tomardes isto, *anunciareis*, isto é, representareis *a morte do Senhor*, com quem sempre deveis compadecer e morrer juntos, fazendo isto *até que o Senhor venha* ao juízo, e se entregue a vós face a face.

Deve-se notar por que o Senhor Jesus, depois da ceia, celebrada a antiga Páscoa, transmitiu aos discípulos o seu Corpo e Sangue, isto é, a nova Páscoa: o que foi feito em ordem bastante conveniente; se, com efeito, celebrasse primeiro a nova Páscoa, depois a antiga, não pareceria por isso destruir o novo sacramento as coisas antigas, nem que seria o fim das antigas; pareceria insinuar que depois destas novas reconduziria ainda aquelas antigas: para mostrar, porém, que todas as antigas têm fim neste novo sacrifício e que jamais se hão de reconduzir, convenientemente antepôs a antiga Páscoa para destruição e sobrepôs a nova Páscoa, que haveria de permanecer, na qual foi o fim de todas as antigas.

Visto que estes sacramentos devem ser tomados em comemoração e conformidade com Cristo, *portanto, quem comer o pão*, isto é, o Corpo do Senhor, *ou beber o cálice*, isto é, o Sangue do Senhor, *indignamente*, isto é, em cisma, em embriaguez ou em males semelhantes, *esse será réu do Corpo e do Sangue do Senhor*, isto é, condenável por causa do Corpo e do Sangue de Cristo indignamente recebidos. Para que o homem não se torne réu, *examine-se a si mesmo*, isto é, examine e julgue-se, sem se comparar com quem obra mal, como se por isso preferisse a sua justiça, mas julgue-se a si mesmo à vista da sua fraqueza: *e assim, aprovado, coma daquele pão e beba do cálice.* É preciso que o homem assim se examine; *pois quem come e bebe indignamente come e bebe* não a indulgência, mas *a sua própria condenação*, isto é, o julgamento para si: e com razão, *não discernindo o Corpo do Senhor*, isto é, distinguindo pouco do outro alimento o Corpo do Senhor, como não distinguiam os coríntios.

Porque o que antecipara em geral entendera sobretudo dos coríntios, infere das premissas contra eles: porque tomais indignamente o Corpo do Senhor e não o discernis dos outros alimentos, *por isso entre vós*, ó coríntios, *há muitos fracos* de febres e paixões semelhantes, *e doentes*, que são privados da virtude dos membros; *e muitos dormem* o sono da morte. Porque não nos examinamos, por isso somos assim afligidos; *se, porém, nos julgássemos a nós mesmos*, isto é, julgássemos os nossos maus feitos, isto é, os condenássemos com o flagelo da penitência, *não seríamos julgados*, isto é, condenados por eles pelo Senhor; de onde o homem se julga, daí escapa livre ao julgamento de Deus. E embora pela fraqueza e doença sejamos assim afligidos pelo Senhor, contudo, *quando somos julgados* e, segundo alguns, os de nós que obram mal são condenados, nós, outros, para não pecarmos igualmente, *somos corrigidos pelo Senhor*; no mesmo juízo em que Deus age contra os ímpios, castiga misericordiosamente os seus: somos corrigidos, digo, *para não sermos condenados com este mundo*. Por isso não diz "com os coríntios", mas "com o mundo"; entende, com efeito, que aos que pecam os sacramentos recebidos não aproveitam mais do que aos que permanecem no mundo, isto é, ainda na gentilidade.

Visto que os que tomam indignamente são condenados, e porque pela condenação dos ímpios somos corrigidos, *portanto, meus irmãos*, para que dignamente e bem corrigidos recebais, *quando vos reunis para comer a ceia do Senhor, esperai uns pelos outros*, isto é, um ao outro, não antecipando a hora fixada para receber a ceia do Senhor; segundo a tradição do Senhor, com efeito, a Igreja costumou comungar no dia da ceia à tarde. Digo que espereis; *se alguém tem fome*, e negligencia esperar a hora legítima, prefiro que *coma em casa* a que antecipe a ceia de Cristo antes da hora; não, contudo, que, depois de ter comido, participe da mesa de Cristo. Assim quero que vos espereis mutuamente, *para que não vos reunais para condenação*, isto é, para que a vossa reunião não vos seja causa de condenação. Estas coisas supradictas agora vos propus, porque sei que sem elas não podeis salvar-vos; *as demais coisas*, porém, sem as quais, contudo, podeis salvar-vos, mas proveitosas ao incremento da glória, *disporei quando eu for*.

## Notas

1. O primeiro versículo deste capítulo já foi exposto acima; pois, segundo São Bruno, parece pertencer ao capítulo precedente.
2. Aqui alguns espreitam as palavras de Paulo, perguntando por que disse "a mulher do homem; o homem não da mulher, mas pela mulher", dizendo que o menino é concebido só do sêmen do homem, sem sêmen da mãe, e que somente pela mulher é acolhido o menino no útero da mãe, e que a mãe não tem ali sêmen, mas só a nutrição do útero; expondo mal as palavras de Paulo, [...] (o texto deste final da nota está corrompido no OCR). (Nota do próprio Autor.)

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# Capítulo 12

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto aos dons espirituais, não quero, irmãos, que ignoreis. Sabeis que, quando éreis gentios, éreis levados, conforme éreis conduzidos, aos ídolos mudos. Por isso vos faço saber que ninguém, falando no Espírito de Deus, diz: Anátema seja Jesus. E ninguém pode dizer: Senhor Jesus, a não ser no Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; e há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; e há diversidade de operações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para a utilidade comum. A um, com efeito, pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no mesmo Espírito; a outro, a operação de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, os diversos gêneros de línguas; a outro, a interpretação das palavras. Mas todas estas coisas as realiza um só e o mesmo Espírito, repartindo a cada um como quer. Pois, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, são um só corpo, assim também Cristo. Pois num só Espírito todos nós fomos batizados para formar um só corpo, quer judeus, quer gentios, quer escravos, quer livres; e todos fomos dessedentados num só Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; deixa por isso de ser do corpo? E se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; deixa por isso de ser do corpo? Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus dispôs os membros, cada um deles no corpo, como quis. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Mas agora há muitos membros, porém um só corpo. O olho não pode dizer à mão: Não preciso de ti; nem a cabeça aos pés: Não preciso de vós. Antes, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; e os que julgamos menos honrosos no corpo, a esses cercamos de maior honra; e as nossas partes indecorosas são tratadas com maior decoro. As decorosas não precisam disso; mas Deus compôs o corpo dando maior honra àquele a quem faltava, para que não haja divisão no corpo, mas os membros tenham o mesmo cuidado uns pelos outros. E, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo, e membros uns dos outros. E Deus estabeleceu na Igreja, primeiro, apóstolos; segundo, profetas; terceiro, doutores; depois, milagres; em seguida, dons de curas, ajudas, governos, diversidade de línguas, interpretação das palavras. Porventura todos são apóstolos? Porventura todos são profetas? Porventura todos são doutores? Porventura todos fazem milagres? Porventura todos têm o dom das curas? Porventura todos falam línguas? Porventura todos interpretam? Aspirai, porém, aos dons melhores. E ainda vos mostro um caminho mais excelente.

## Comentário

Aqui termina o que se refere aos sacramentos do altar; agora passa a ensiná-los acerca dos dons do Espírito Santo, nos quais erravam gravemente: os que haviam recebido dons maiores, com efeito, gloriavam-se contra aqueles a quem foram concedidas graças menores; os que, porém, haviam recebido menos desesperavam, porque eram inferiores nos dons do Espírito Santo; e os que abundavam em graças maiores atribuíam-no aos seus méritos e censuravam isso nos méritos dos inferiores: deste modo derrogando ao Espírito. Erravam também nisto: que preferiam às demais as graças que eram inferiores, como os gêneros de línguas, e as desejavam mais. Para afastar este erro, instrui-os assim, dizendo: as demais coisas que disporei quando for, deixo de lado, mas de instruir-vos sobre os dons espirituais de modo algum adio. *Não quero, irmãos, que ignoreis* os dons espirituais, isto é, o que deveis sentir dos dons do Espírito Santo; digo isto do Espírito, que faz cessar do mal e operar o bem.

Mas, para o introduzir, antepõe uma semelhança, dizendo: sabei, por isso, que o Espírito Santo faz que não nos separemos de Cristo, *porque sabeis que, quando éreis ainda gentios*, isto é, gentios ou vivendo gentilicamente, *éreis levados aos ídolos mudos conforme éreis conduzidos* pelo espírito maligno; porque um era levado a imolar, outro a incensar, outro a adorar. Quando diz "ídolos mudos", mostra que não eram conduzidos pela razão, que poderia discernir bastante que o ídolo não é Deus, mas pelo espírito maligno. E por isso, porque pelo espírito maligno éreis conduzidos ao mal, por semelhança vos faço saber que pelo Espírito Santo desistis do mal anterior; o que diz equivalentemente: *faço-vos saber que ninguém, falando no Espírito de Deus*, falando em ato, pensamento e palavra — o espírito, com efeito, que é coisa invisível, não se conhece estar no homem senão por aquilo que exteriormente se vê ou ouve —; ninguém, digo, falando no Espírito de Deus, *diz* igualmente em ato, palavra, pensamento, *anátema*, isto é, separação *de Jesus*; ninguém, com efeito, que tenha o dom do Espírito Santo poderá operar, pensar ou falar algo pelo qual se separe de Jesus, enquanto o Espírito permanecer nele. Nisto muito alivia o desespero dos que haviam recebido graças menores, quando diz que não pode separar-se de Jesus aquele em quem o Espírito de Deus permanece por algum dom. E não só faz o Espírito que não nos separemos de Jesus, mas *ninguém pode dizer*, em palavra, obra, pensamento, *Senhor Jesus* é meu Senhor, porque eu sou seu servo, isto é, ninguém pode obrar bem *a não ser no Espírito Santo*, que por ele opera. Jesus é meu Senhor; isto não pode dizer quem não é servo seu, porque, se não é servo, mente antes do que diz a verdade. Aqui muito deprime os que se preferiam aos outros pelos dons maiores, ao dizer que nada vem do mérito do homem, mas tudo no Espírito Santo.

Embora o Espírito dê indiferentemente isto, apartar-se do mal e fazer o bem, as graças do mesmo Espírito são, contudo, distribuídas diversamente a diversos. Mas, embora haja divisões de graças, o Espírito que dá as graças divididas é, contudo, *o mesmo* e indiviso; e assim como há divisões de graças, assim há *divisões de ministérios*, que são efeitos delas: este, com efeito, ministra no episcopado, aquele no sacerdócio, e assim nos demais graus da Igreja. Dizemos também ministérios em tudo em que servimos idoneamente ao próximo. E, embora haja divisões de ministérios, *o Senhor é o mesmo* que dá a graça em que ministramos. Há também *divisões de operações*, que obramos bem em nós mesmos, orando, vigiando, jejuando; e estas operações são efeitos das graças; e embora as operações sejam divididas, *o mesmo Deus é quem opera tudo em todos*, tudo o que vê oportuno à salvação: o que diz assim, o mesmo Espírito, o mesmo Senhor, o mesmo Deus, não que entenda substâncias diversas, mas para designar a Trindade nas pessoas, a unidade na substância. E, embora haja divisões de graças, *a cada um é dada a manifestação do Espírito*, isto é, algum bem pelo qual se manifeste o Espírito a operar nele, *para a utilidade* comum; assim, com efeito, é útil o dom menor àquele a quem é dado, como o dom maior a outro; Deus, com efeito, não distribui as suas graças segundo os méritos dos homens, pois muitas vezes dá-se dom maior ao menos digno, e menor ao mais digno, conforme Deus vê este mais oportuno para exercer aquilo, aquele para outra coisa.

Enumera as graças, dizendo: há certamente divisões de graças; *a um*, isto é, distintamente, *é dada pelo Espírito a palavra de sabedoria*, isto é, o conhecimento das coisas divinas, e a palavra de sabedoria, para poder exprimir graciosamente o que sabe bem; *a outro*, porém, *é dada a ciência* das coisas humanas e a palavra de ciência, para falar com desembaraço o que sabe; e isto *segundo o mesmo Espírito*, excluído o mérito do homem; *a outro é dada a fé*, isto é, ou a constância da fé, para não duvidar de morrer por defender a fé, ou a fé, porque conhece os sacramentos da fé; e isto *no mesmo Espírito*. A outro é dado o *dom das curas*, para poder, pela virtude do Espírito, afastar doenças; e isto num só e mesmo Espírito. Porque lhe pesava acrescentar o Espírito a cada dom, compreende as demais graças e por fim acrescenta que todas são dadas pelo Espírito: a outro é dada a *operação de milagres*, isto é, de prodígios que se fazem contra a lei da natureza, como iluminar cego, ressuscitar morto; a outro é dada a *profecia*, isto é, a revelação de coisas futuras ou o entendimento das Escrituras; a outro é dado o *discernimento dos espíritos*, porque sabe discernir por que espírito cada um opera ou fala algo; a outro são dados os *gêneros de línguas*, porque sabe falar diversas línguas; a outro é dada a *interpretação das palavras*, porque sabe interpretar o grego pelo latim, ou vice-versa; ou então, interpretação das palavras, isto é, exposição das alegorias: e, embora estas diversas coisas sejam dadas a diversos, *todas estas coisas as realiza um só e o mesmo Espírito*, que acima chamei Deus e Senhor; Espírito, digo, *repartindo a cada um como quer*, isto é, por graça, não por mérito.

Aqui começa a mostrar a diversidade dos membros na mesma Cabeça, que é Cristo; e como aquelas coisas diversas se tornam um na Cabeça Cristo. O texto liga-se assim: digo bem, o Espírito *repartindo a cada um*, isto é, conferindo aos diversos membros diversas graças; pois Cristo é um só corpo que tem diversos membros: *como vês que o corpo do homem é um só e, contudo, tem muitos membros*, isto é, que têm funções diversas; e, contudo, todos os membros do corpo, embora muitos, isto é, diversos, são um só corpo; assim também Cristo tem diversos membros na Igreja e, contudo, naquela Cabeça são um só: e não é de admirar; porque, assim como pela mesma alma vivem os diversos membros, assim pelo mesmo Espírito são regidos todos os seus membros. Na verdade Cristo é um só corpo; *pois num só Espírito todos nós fomos batizados* e vivificados, passando a um só corpo de Cristo; todos, digo, indistintamente, *quer judeus, quer gentios, quer escravos, quer livres*. E como batizados, assim também todos depois do batismo *fomos dessedentados num só e mesmo Espírito* na confirmação e nas demais ordens da Igreja. Na verdade todos nós fomos batizados, isto é, somos na verdade membros diversos; *pois, como o corpo do homem não é um só membro, mas muitos*, por semelhança Cristo não é um só membro, mas muitos. Isto resume também toda a sentença.

Agora infere do que precede que nós todos, batizados e dessedentados num só Espírito, somos um só corpo de Cristo: porque um, portanto *se o pé disser*, isto é, o membro inferior na Igreja: *porque não sou mão*, isto é, operador tal como aquele, *por isso não sou do corpo* de Cristo; não se segue por isso que não seja do corpo de Cristo; o que é dizer: aquele que é inferior não pode romper-se da unidade de Cristo, porque tem outro superior a si no mesmo corpo de Cristo. E, como o pé não se rompe porque não é mão, assim *se o ouvido disser*, isto é, aquele que convém entender por outro que ensina: *porque não sou olho*, isto é, porque não entendo tudo por mim, *por isso não sou do corpo*; não se segue que não seja do corpo.

Dissera acima que o corpo não é um só membro, mas não dera a razão; por isso agora acrescenta, dizendo: na verdade o ouvido, embora não seja olho, é, contudo, do corpo; porque, se por isso não fosse, seguir-se-ia que o olho seria todo o corpo; mas *se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido?* Eis a penúria no corpo. E *se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato?* De novo penúria (por olfato entendemos o discernimento do bem e do mal). Para que não houvesse esta penúria no corpo, *Deus dispôs agora os membros diversos, cada um deles em um só corpo, como quis*, distribuindo-lhes as graças. Não só para remover a penúria um membro não é todo o corpo, mas também porque não pode sê-lo, pois *se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?* Pereceria certamente o corpo, porque, se todos os membros fossem mão, nem assim haveria corpo de homem: de novo, se todos na Igreja fossem Apóstolos, ou uma só coisa, nem os próprios seriam Apóstolos, por não haver a quem pregar.

Visto que, se um membro fosse todo o corpo, seguir-se-ia penúria no corpo e também defeito do corpo, por isso *agora há muitos membros* distintos, *mas um só corpo* desses membros; e porque por necessidade os inferiores, como os superiores, assim estão no corpo, *portanto o olho não pode dizer à mão*, isto é, o superior ao inferior: *não preciso de ti*; já que um membro retirado faz penúria ao corpo. Por isso aparece bastante que quem recebeu dom maior não tem de que se prefira ao que recebeu menos; pois o inferior faz penúria ao corpo como o superior, se for removido. *Nem a cabeça aos pés*, o superior igualmente ao inferior, pode dizer: *não preciso de vós*; já que o olho precisa de purgação pela mão, a cabeça de ser levada pelos pés para aquilo que deseja saborear, ouvir ou ver.

Os inferiores não são apenas necessários, mas também, *muito mais*, são às vezes necessários *os membros do corpo que parecem mais fracos*; muitas vezes, também, quaisquer ignorantes são mais necessários na administração dos bens eclesiásticos do que os mais sábios, segundo a oportunidade do tempo; e *os membros da Igreja que julgamos menos honrosos*, porque caem, *a esses cercamos de maior honra*, isto é, devemos tais pessoas tratar com mais solícito cuidado e reconduzi-los ao melhor. *E as nossas partes indecorosas*, como as pudendas no corpo; e aquele fornicador que tomara a mulher do pai na Igreja dos coríntios, como Davi quando pecou contra a mulher de Urias; estas *indecorosas têm maior decoro*, isto é, deve-se exibir-lhes diligente e honesto cuidado, para que, se forem desprezadas, não desesperem; porque talvez amanhã sejam perfeitas, como se viu em Davi. As indecorosas precisam de decoro; mas *as decorosas não precisam* de honra alguma dispensada a elas por outro; os que são perfeitos, com efeito, não precisam de outro. *As decorosas*, sim, *não precisam de nada; mas Deus compôs*, isto é, modificou *o corpo*, para que as decorosas ornassem as indecorosas; compôs, digo, *dando maior honra àquele a quem faltava*, para que o membro doente cercássemos de maior amor do que o são. Por isso assim compôs, *para que não haja divisão*, isto é, discórdia no corpo de Cristo; *mas os membros tenham o mesmo cuidado uns pelos outros*, isto é, um pelo outro, sentindo o mesmo, isto é, julgando própria a angústia do próximo. E *se um membro sofre* alguma moléstia, *sofram com ele todos os membros*; *se um membro é honrado, alegrem-se com ele todos os membros*. E tudo o que disse sobre a unidade do corpo de Cristo, tudo diz respeito a vós, ó coríntios; porque *vós sois o corpo de Cristo*, e diversos membros pendentes do membro de Cristo, que vos ensinou a fé; ou então, membros pendentes do membro, isto é, da Cabeça Cristo, que é o membro supremo da Igreja.

Falou acima da diversidade dos membros de Cristo, como são um só em sua Cabeça Cristo; fala ainda dos mesmos membros segundo as diversidades dos dons que têm do Espírito Santo, querendo comparar entre si aqueles dons, quais são mais úteis, quais menos, como a caridade e a profecia, que são as maiores; falar diversas línguas, muito inferior a estas: e compara-os por isso, porque os coríntios preferiam a todas as graças os gêneros de línguas, que era a última. O texto liga-se assim: vós sois membros pendentes do membro, isto é, da Cabeça Cristo, em quem sois um só corpo; e nesta unidade há distinção, porque *a alguns*, isto é, distintamente, *Deus estabeleceu na Igreja*: *primeiro*, isto é, no primeiro e excelentíssimo grau, pondo *apóstolos*; *segundo*, depois dos Apóstolos, estabeleceu *profetas*, isto é, homens de sentido iluminado, que abrissem as Escrituras; no *terceiro* grau, abaixo dos Profetas, estabeleceu *doutores*, que instruíssem sobre os costumes. Nestes três guardou a ordem; as demais misturou sem ordem: *depois*, após os Doutores, estabeleceu *milagres*, aqueles, a saber, que na virtude de Deus iluminassem cegos, ressuscitassem mortos; *em seguida*, estabeleceu *dons de curas*, aqueles, a saber, que por dom de Deus afastassem as doenças; depois *ajudas*, isto é, auxiliares da pregação, como Barnabé e Timóteo (ofício que ainda exercem os legados da Sé Romana); depois destas estabeleceu *governos*, isto é, bispos, presbíteros, que governassem as Igrejas dos fiéis; por fim estabeleceu *diversidade de línguas*, isto é, a última graça, que vós, ó coríntios, mais desejais. E convenientemente Deus ordenou as diversidades de graças na Igreja; *porventura todos foram Apóstolos?* Se todos, certamente nem um; pois assim, sendo todos Apóstolos, não haveria a quem pregar a palavra de Deus, porque todos perfeitos. De novo, *porventura todos seriam Profetas?* Assim já nada poderia ser revelado a alguém, porque cada um seria Profeta. *Porventura, de novo, todos serão doutores?* Não haveria quem instruir sobre os costumes, porque todos doutos. *Porventura todos fazem milagres?* Assim nem haveria a quem se fizessem milagres. *Porventura todos têm o dom das curas?* Não; porque não haveria a quem curar. *Porventura todos falam diversas línguas?* Assim o dom de Deus se tornaria vil e comum. *Porventura todos interpretam*, isto é, sabem transferir de língua a língua? Se todos fossem intérpretes, a interpretação seria reduzida a nada. Visto que são tantos os dons do Espírito Santo, *aspirai*, isto é, desejai *aos dons melhores*, isto é, os carismas, os dons gratuitos do Espírito, que entre os ditos são melhores: carisma diz-se dom gratuito. E além destas coisas que acima mostrei, *mostro-vos ainda um caminho mais excelente*, isto é, a caridade, que é caminho e mais excelente que todo dom, porque todas as demais coisas não bastam à bem-aventurança sem a caridade.

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# Capítulo 13

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Se eu falar as línguas dos homens e dos Anjos, mas não tiver caridade, tornei-me como bronze que soa ou címbalo que retine. E se tiver o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios e toda a ciência; e se tiver toda a fé, a ponto de transportar montes, mas não tiver caridade, nada sou. E se distribuir todos os meus bens para alimento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, mas não tiver caridade, nada me aproveita. A caridade é paciente, é benigna; a caridade não tem inveja, não age com leviandade, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não procura o que é seu, não se irrita, não pensa mal, não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade jamais acabará; quanto às profecias, serão abolidas; quanto às línguas, cessarão; quanto à ciência, será destruída. Pois em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, será abolido o que é em parte. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Vemos agora por espelho, em enigma; então, porém, face a face. Agora conheço em parte; então, porém, conhecerei como também sou conhecido. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; a maior delas, porém, é a caridade.

## Comentário

Porque quer que os coríntios desejem mais a caridade do que as línguas, prova que a caridade é mais excelente do que falar em línguas, dizendo: a caridade é certamente mais excelente que as línguas; *pois se eu falar as línguas de todos os homens, falar também as línguas dos Anjos* — não que os Anjos falem por línguas, mas que significam um ao outro a sua vontade por certos sinais —, e se eu fosse de tanta perfeição que conhecesse as admoestações dos Anjos; ou então, falaria as línguas dos Anjos, pois, quando os Anjos, assumida alguma forma, falam aos homens, é necessário que profiram palavras humanas; se, porém, eu falar essas mesmas palavras; ou então assim: se eu falar as línguas dos homens, isto é, dos que vivem humanamente, e as línguas dos Anjos, isto é, dos que neste mundo vivem contemplativamente, *mas não tiver caridade, tornei-me inútil como bronze que soa*, que infrutuosamente, quanto a si, é percutido, *ou como címbalo que retine*, que deleita os ouvidos dos homens e se percute e diminui a si mesmo. *E se tiver o dom de profecia*, para predizer o futuro com sentido iluminado, *e conhecer todos os mistérios*, isto é, as figuras das obras de Deus, como o dilúvio foi figura do batismo, e semelhantes; *e toda a ciência*, isto é, a significação dos próprios mistérios; *e se tiver toda a fé, a ponto de transportar montes* à letra (era este, com efeito, o mérito da fé, que, se o fiel dissesse ao monte: sai daqui e lança-te ao mar (Mt 21,21), assim certamente se faria); ou de outro modo: se tiver fé tão perfeita que transporte montes, isto é, os diabos dos corpos possessos para porcos ou semelhantes, *mas não tiver caridade, nada sou*, isto é, sou julgado de nenhum mérito por causa da fé sem caridade. *E se distribuir*, isto é, repartir por diversos, não só o meu supérfluo, mas também *todos os meus bens*, isto é, a faculdade e possibilidade que eu teria de reter; distribuir, digo, não em coisas supérfluas, mas em *alimento*, e não dos ricos, mas *dos pobres*; e todas as posses quantas sejam; *e se entregar o meu corpo para ser queimado*, como o bem-aventurado Lourenço, *mas não tiver caridade, nada me aproveita*.

As demais coisas sem a caridade não aproveitam; mas a caridade, mesmo que possa ser considerada por si, *é paciente*, isto é, tem a virtude da paciência, ainda que alguma vez nada sofra; *é benigna*, isto é, larga e abundante no amor do próximo, ainda que não tenha o que dar. Depois de pôr os bens na caridade, remove os males dela, dizendo: *a caridade não tem inveja*, isto é, não inveja a ninguém; *não age com leviandade*, isto é, nada perversamente; *não se ensoberbece*, isto é, não se orgulha de bem temporal ou espiritual; *não é ambiciosa*, a ponto de cobiçar as dignidades do mundo; *não procura o que é seu* apenas, mas atende igualmente à utilidade do próximo como à sua; ou então, não procura, isto é, não reclama o que é seu, se alguém lho tirou; *não se irrita*, isto é, não é provocada à ira; *não pensa mal*, para o dizer ou infligir a alguém; *não se alegra com a injustiça*; se vê que se age injustamente contra o próximo, antes se compadece; *mas se alegra com a verdade*, isto é, com quem fala ou age segundo a verdade; *tudo suporta*, mesmo as adversidades que lhe são infligidas, tolera pacientemente; *tudo crê*, tudo o que convém crer sadiamente de Deus; *tudo espera*, tanto no presente as virtudes como no futuro a glória; *tudo sofre*, isto é, se a retribuição é adiada, é longânime no sofrer.

Outra excelência da caridade: a saber, que *a caridade jamais acabará*, isto é, é permanente eternamente e nunca passou. Na verdade só a caridade não acaba; *pois as profecias e a ciência*, que entre as demais parecem mais permanecer, essas são destruídas: *quanto às profecias*, serão abolidas no futuro; quando tudo for aberto a todos, que profetizariam? *Quanto às línguas*, cessarão, pois no futuro haverá identidade de linguagem para todos; *quanto à ciência* que agora se tem, será destruída. Porque a alguns parecia que a ciência era permanente, prova que a ciência presente de fato será destruída; porque agora conhecemos, isto é, sabemos, *em parte*, isto é, imperfeitamente. E na verdade a profecia será abolida; pois agora *profetizamos em parte*, isto é, imperfeitamente. Mas no futuro, *quando vier o que é perfeito, será abolido tudo o que é em parte*, isto é, imperfeito.

Alguém objetaria: é verdade que a ciência agora é imperfeita, mas será perfeita no futuro; mas aquela parte da ciência que agora existe não será destruída, será encerrada naquela totalidade da ciência. E Paulo destrói isto pela semelhança trazida, de que nem a ciência que agora existe permanecerá; porque, assim como o menino nada entende pela razão, mas pelos sentidos e por certas imagens, da pedra que é dura e sólida, e das outras coisas igualmente; quando o mesmo menino se torna homem, deixadas as imagens, já não procurando discernir pelo sentido corporal, só pela força da razão conhece muito melhor as mesmas coisas, de tal modo que o conhecimento sensual e imaginário que teve de menino já não lhe parece ter razão nenhuma, a ele que usa da razão: assim a ciência deste mundo imagina a Deus por certas semelhanças, de modo que, porque vê alguém poderoso, pensa que Deus, que o criou, é muito mais poderoso, e das demais igualmente; mas no futuro conheceremos a Deus como ele é, a quem agora não conhecemos como é, mas apenas imaginamos por certas semelhanças. E porque então perfeita, agora imperfeita, então segundo a verdade da coisa, agora só segundo imagens, por isso disse que a ciência é destruída. O amor, porém, não será destruído, porque então amaremos o mesmo que agora amamos, embora então mais perfeitamente.

Na verdade o que é imperfeito será abolido quando vier o que é perfeito, como vedes que *quando eu era criança*, ignorando a força da razão, *falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança*, tudo imperfeitamente; mas *quando me tornei homem*, e exerci a força da razão, *deixei o que era próprio de criança*; porque já pela razão entendi muito melhor as coisas que, enquanto era criança, mal conheci um pouco por imagens e sentidos. Igualmente, como crianças, *vemos agora*, isto é, no presente, a Deus *por espelho*, isto é, não pela verdade da coisa como é, mas por certa semelhança com que imaginamos a Deus; nem por espelho que seja um pouco lúcido, mas posto *em enigma*, isto é, em tanta obscuridade que a verdade da coisa, como é, de modo algum se conhece; *mas então*, no futuro, *face a face*, isto é, veremos a Deus como ele é: e porque assim será, aparece que a ciência presente será inteiramente destruída. Mas a caridade permanecerá, pois o mesmo que agora amamos, amaremos no futuro.

De vós, certamente, assim será, que agora conhecereis imperfeitamente, então perfeitamente; porque eu mesmo *agora conheço* a Deus *em parte*, isto é, imperfeitamente; *então*, porém, no futuro, conhecê-lo-ei tão perfeitamente *como também sou conhecido* por Deus, a quem nada se oculta em mim. Por isso a caridade é mais excelente, porque, quando as outras forem destruídas, só ela permanecerá. E também agora, enquanto no presente permanece com as outras virtudes, é mais excelente que todas. Mas a letra liga-se assim: no futuro serão destruídas, mas *agora permanecem a fé, a esperança e a caridade* — por estas entende todas as virtudes —, *estas três*; que podeis ter bastante facilmente a fé, a esperança e a caridade, porque não são senão estas três, e sendo tão poucas, preparam toda a glória: e embora permaneçam juntas, *a maior delas, porém, é a caridade*, isto é, entre estas; ou então, maior que estas, a saber, que a fé e a esperança: e porque permanecerá eternamente, e agora é maior, por isso *procurai* sobretudo a caridade, não os gêneros de línguas.

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# Capítulo 14

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Procurai a caridade; aspirai aos dons espirituais, mas sobretudo a profetizar. Pois quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus; ninguém o entende. Em espírito, porém, fala mistérios. Mas quem profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação. Quem fala em língua edifica-se a si mesmo; quem profetiza edifica a Igreja de Deus. Quero que todos faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis. Pois maior é quem profetiza do que quem fala em línguas, a não ser que interprete, para que a Igreja receba edificação. Agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, que vos aproveitarei, se não vos falar ou em revelação, ou em ciência, ou em profecia, ou em doutrina? Também as coisas inanimadas que produzem som, seja flauta, seja cítara, se não derem distinção aos sons, como se saberá o que se toca na flauta ou na cítara? E se a trombeta der um som incerto, quem se preparará para a guerra? Assim também vós, se por meio da língua não derdes uma palavra inteligível, como se saberá o que dizeis? Estareis falando ao ar. Há tantos gêneros de línguas neste mundo, e nenhum sem significado. Se, pois, eu não souber o sentido da voz, serei bárbaro para aquele que fala, e o que fala será bárbaro para mim. Assim também vós, já que aspirais aos dons espirituais, procurai abundar para a edificação da Igreja. Por isso, quem fala em língua peça a graça de interpretar. Pois, se oro em língua, o meu espírito ora, mas a minha mente fica sem fruto. Que fazer, então? Orarei com o espírito, orarei também com a mente; cantarei com o espírito, cantarei também com a mente. Do contrário, se bendisseres com o espírito, o que ocupa o lugar do simples, como dirá Amém à tua bênção? Pois não sabe o que dizes. Tu, na verdade, dás bem graças; mas o outro não é edificado. Dou graças a Deus porque falo em línguas mais do que todos vós. Mas na Igreja prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também os outros, a dez mil palavras em língua. Irmãos, não sejais crianças no juízo; sede crianças na malícia, mas no juízo sede adultos. Na lei está escrito: Falarei a este povo em outras línguas e por lábios de estrangeiros; e nem assim me ouvirão, diz o Senhor (Is 28,11). Assim, as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; a profecia, porém, não para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a Igreja se reunir num só lugar e todos falarem em línguas, e entrarem simples ou infiéis, não dirão que estais loucos? Mas se todos profetizarem, e entrar algum infiel ou simples, é convencido por todos, é julgado por todos; os segredos do seu coração se tornam manifestos, e assim, caindo com o rosto em terra, adorará a Deus, declarando que Deus está verdadeiramente entre vós. Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, cada um de vós tem um salmo, tem uma doutrina, tem uma revelação, tem uma língua, tem uma interpretação: faça-se tudo para edificação. Se alguém fala em língua, sejam dois, ou no máximo três, e cada um por sua vez, e um interprete. Se não houver intérprete, cale-se na Igreja, e fale consigo mesmo e com Deus. Os profetas falem dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, a outro que está sentado for feita uma revelação, cale-se o primeiro. Pois todos podeis profetizar, um por um, para que todos aprendam e todos sejam exortados; e os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Pois Deus não é de desordem, mas de paz; como ensino em todas as Igrejas dos santos. As mulheres calem-se nas Igrejas; pois não lhes é permitido falar, mas devem ser submissas, como também a lei diz. Se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa aos seus maridos. Pois é vergonhoso para a mulher falar na Igreja. Porventura a palavra de Deus partiu de vós? Ou chegou só a vós? Se alguém se julga profeta ou espiritual, reconheça que o que vos escrevo são mandamentos do Senhor. Se alguém, porém, o ignora, será ignorado. Portanto, irmãos, aspirai a profetizar, e não proibais falar em línguas. Mas faça-se tudo com decoro e ordem.

## Comentário

Depois de provar que a caridade é mais excelente, não só do que as línguas, mas do que toda virtude, prova que profetizar é mais digno e mais útil na Igreja do que falar em línguas; e prova-o de muitos modos, dizendo: embora eu diga: *procurai* acima de tudo *a caridade*, quero, contudo, que *aspireis aos dons espirituais*, isto é, desejeis as graças espirituais. E, como todas são úteis, desejai, contudo, *sobretudo profetizar* antes que falar em línguas: e isso é mais para desejar; porque *quem fala em língua* desconhecida *não fala aos homens*, isto é, não para edificação dos homens, *mas a Deus*, isto é, só para honra de Deus, que deu a língua: na verdade não aos homens, *pois ninguém o entende*, isto é, nenhum dos homens ouve o que ele diz; mas, embora ninguém ouça, *em espírito*, contudo, *fala mistérios* o Espírito Santo, por aquele que fala em língua desconhecida. Na verdade é mais útil profetizar do que falar em línguas; porque *quem profetiza fala aos homens para edificação*. Ou liguemos ao imediato, para que a sentença seja, contudo, a mesma: por isso que, porque devem responder aos próximos, quem fala em línguas não fala aos homens; *pois só quem profetiza*, isto é, quem abre as obscuridades das Escrituras, esse fala aos homens para edificação, isto é, para instruir a rudeza deles; e, depois de instruídos, *para exortação*, a fim de se erguerem ao melhor, *e consolação*, a fim de aparecerem fortes nas tribulações. Quem, porém, fala em língua desconhecida *edifica-se a si mesmo* mais; às vezes nem a si, porque não entende. Sentença oposta: mas quem profetiza, enquanto abre as Escrituras, *edifica a Igreja inteira*. E porque é tanta a utilidade de profetizar, *quero que todos faleis em línguas*, mas *muito mais* quero que profetizeis; porque quem profetiza é maior em dignidade, mérito e utilidade do que quem fala em línguas, *a não ser que interprete* (o que dificilmente acontece), isto é, exponha em língua conhecida o que diz em desconhecida, *para que a Igreja receba edificação* por sua interpretação; interpretação que vale o mesmo que a profecia.

Prova por semelhança consigo mesmo que não devem insistir nas variedades de línguas, dizendo: porque pela língua desconhecida a Igreja não é edificada, as línguas não devem por isso ser muito desejadas; nem também por isto: *se eu agora*, mesmo já convertidos e tendo vós as línguas, *for ter convosco, irmãos, falando em línguas* inauditas, *que vos aproveitarei, se não vos falar ou em revelação, ou em ciência, ou em profecia, ou em doutrina*, isto é, se nada vos falar em algum gênero de instrução? Por revelação e profecia entende dons de Deus, por ciência e doutrina os adquiridos por indústria, que se têm, com efeito, pela diligência do homem. E chama doutrina o que se aprende de outro; ciência, porém, o que se entende das Escrituras por estudo e exercício próprio; ou então doutrina dos costumes, em que convém operar; ciência das naturezas das coisas, em que basta a só especulação. Chama profecia ao conhecimento contínuo das coisas futuras, não por algumas figuras, mas pela só insinuação do Espírito Santo; revelação, porém, ao conhecimento súbito das coisas futuras, como se alguém, arrebatado pelo Espírito, predisse subitamente o futuro, e logo o Espírito se retirou dele; ou então, revelação, isto é, conhecimento das coisas futuras por sonhos, como em Daniel e José, ou por fatos, como Noé pela arca.

Prova o mesmo pela semelhança dos seres inanimados, dizendo: embora eu vos tenha trazido exemplo de mim mesmo, não era preciso; porque nas coisas *que são sem alma*, que produzem *voz*, isto é, som, seja *flauta, seja cítara*, *se não derem distinção aos sons, como se saberá o que se toca na flauta ou o que se toca na cítara?* assim também vós, porque confundis sons indistintos, não se entende o que dizeis. De novo por outra coisa provo que não se deve desejar a confusão de línguas: *pois se a trombeta der um som incerto*, sendo distinta a voz da trombeta que convida à guerra, *quem se preparará para a guerra* por um som incerto? Ninguém, certamente. Ou aquele "pois" liga-se ao imediato. A cítara ou a flauta soando confusamente não é entendida; e a trombeta, por semelhança, dando som incerto, não é entendida; e assim como a trombeta que dá som incerto não é entendida, assim também vós, *se por meio da língua não derdes uma palavra inteligível, como se saberá, pelos ouvintes, o que por vós for dito?* Não se saberá certamente; *pois estareis falando ao ar*, isto é, açoitando em vão o ar; falando, digo, *tantos gêneros*, isto é, como os gêneros de línguas são infinitos neste mundo, e em cada língua nada é sem significado; cada coisa tem seu vocábulo próprio e distinto dos outros. Portanto, porque as línguas são diversas e as vozes distintas, *se eu não souber o sentido*, isto é, a significação *da voz* que profiro, *serei bárbaro para aquele a quem falo*, e *quem me fala será igualmente bárbaro para mim*; assim sois também vós uns para os outros bárbaros. Ou então, para que aqui comece o versículo: assim, isto é, por esta razão, porque quem fala desconhecidamente é julgado bárbaro, *vós também, já que aspirais aos dons espirituais*, isto é, sois desejosos de bens espirituais, *procurai abundar* nestes dons que valem para a edificação da Igreja, como a profecia, e não vos apliqueis às variedades de línguas.

Porque deveis desejar aqueles dons que valham para a edificação da Igreja, *por isso quem fala em língua desconhecida peça* a Deus *a graça de interpretar*, isto é, de saber interpretar aos ouvintes o que fala em língua alheia; ou então: quem fala em língua, ore, isto é, fale, de modo que o que profere seja interpretado. Assim se deve falar, de modo que a interpretação seja companheira; *pois se eu mesmo orar*, isto é, falar, ou orar a Deus em língua desconhecida, *o meu espírito ora*, isto é, o Espírito Santo que me foi dado, ou então, o meu espírito, isto é, a minha razão, que, embora não entenda, sabe, contudo, que é bom o que diz, porque vem de dom de Deus; a razão, digo, ou o meu espírito em mim ora a Deus, ou ora, isto é, fala, *mas a minha mente*, isto é, o meu intelecto, *fica sem fruto*, isto é, sem utilidade de compunção, porque, por não entender, não posso compungir-me.

Visto que, se falo em língua desconhecida, estou sem fruto porque não interpreto, *que fazer, então?*, isto é, como se deve orar? Assim, certamente: *orarei com o espírito*, ou falarei, isto é, com a voz desconhecida que o Espírito dá, ou é a razão, e assim orarei *também com a mente*, isto é, com a inteligência, de modo que só profira o que entendo. Na verdade orarei com o espírito e com a mente; *pois cantarei com o espírito, cantarei também com a mente*: diz cantar salmos orar a Deus com modulação consoante da voz, consonância de diversas vozes na Igreja que insinua que todos devem louvar em consonância de fé e de vida. É bom orar ao mesmo tempo com o espírito e com a mente; *do contrário* (isto é, mas) *se bendisseres com o espírito*, isto é, só com a voz desconhecida, *quem na tua oração ocupa o lugar*, isto é, a voz *do simples?* Era costume na Igreja que os simples, isto é, rudes na fé, mesmo iletrados, quando o sacerdote orava, respondessem Amém, e com o teu espírito; mas agora, orando alguém em língua desconhecida, até os mais prudentes não sabiam onde estava o fim, onde o meio da oração, porque não entendiam; e assim não podiam fazer nem aquilo que os simples costumavam responder. Idioma diz-se o próprio, daí se dizem idiotas os que ainda estão na propriedade da natureza, nada sabendo senão o que os meninos aprenderam das mães. Ou aquele "do contrário" seja nome, assim: por isto que se disse, não deveis orar só em língua; do contrário, isto é, outra razão pela qual não façais o mesmo, porque se bendisseres com o espírito, etc. Na verdade ninguém ocupa o lugar do simples, quando oras com voz desconhecida; *como dirá Amém à tua bênção* até o sábio, *porque não sabe o que dizes*; não entende, com efeito, quando tu, falando em língua desconhecida, deves terminar ou prosseguir? Repreendo-te por isto: que o próximo não te entende; pois quanto à tua pessoa não te repreendo; *pois tu dás bem graças*, quanto está em ti, mas mal porque *o outro*, isto é, o próximo, *não é edificado*, porque nem entende. Ou liga-se ali acima: disse justamente "bendisseres"; pois tu dás bem graças, quanto está em ti; mas o irmão não é instruído.

Prova de novo pelo exemplo e autoridade sua que não devem seguir tanto as línguas, dizendo: não faleis em língua de modo a não haver instrução do próximo; *pois eu*, a quem deveis imitar, *quero dizer na Igreja cinco*, isto é, poucas *palavras com a minha inteligência*, isto é, com o intelecto, para entender o que digo (com isso nota que alguns falavam às vezes de modo que nem eles se entendiam); quero, digo, falar com a minha inteligência, *para instruir também os outros*, *a* (preferência) *dez mil palavras* em língua desconhecida, isto é, infinidade de palavras, o que de modo algum quero; o que certamente poderia se quisesse. *Dou graças a Deus*, porque, se quiser, *falo em línguas mais do que todos vós*; mas, isto é, contudo, *na Igreja prefiro*, etc. Por isso Paulo disse ter os gêneros de línguas, para que os coríntios não dissessem: porque não tem línguas, por isso nos censura quanto às línguas.

De novo outra razão por que não devem desejar as línguas, porque assim se tornam crianças; mas a letra liga-se assim ao imediato: como em mim vedes, falai com a vossa inteligência; e igualmente, *irmãos*, seguindo línguas cujo sentido não tendes, *não sejais crianças no juízo*, os que dizem o que não entendem; *mas sede crianças na malícia*: e diz isto porque eram muito maliciosos em sentidos, ou seja, em pensamento, palavra e ato. *Crianças na malícia, mas no juízo sede adultos*, isto é, desejando perfeita inteligência, para poderdes profetizar.

De novo, as línguas não devem ser desejadas por vós, porque sois fiéis, e as línguas não aproveitam aos fiéis, mas aos infiéis. E que assim seja, antepõe a autoridade de Isaías; que, contudo, diz estar na lei, designando pelo nome de lei a profecia: na verdade não aos fiéis, mas aos infiéis; *pois na lei está escrito:* [*que*] — aquele "que" ou ali se continua ou aqui se põe por "que" — isto, digo, está escrito: *em outras línguas*, isto é, na variedade de línguas, *e por lábios de estrangeiros*, isto é, em outros discursos, porque antes falei de coisas carnais, agora falarei de espirituais, *falarei a este povo* judaico infiel, para que, admirando a novidade das línguas, me ouçam; *e nem assim*, isto é, nem por tão evidente milagre, *me ouvirão*: e crede que assim é, porque isto *diz o Senhor* (Is 28,11). O que diz "por lábios de estrangeiros" nada serve para a prova, mas é costume pôr as autoridades completas. Agora da lei antecipada infere Paulo: porque ao povo incrédulo foram propostas diversas línguas, *assim*, por isso aparece que *as línguas são um sinal*, isto é, causa de milagre, *não para os fiéis*, cuja fé não precisa de milagres, *mas para os infiéis*, que pela novidade dos milagres devem ser atraídos à fé. Sentença oposta: as línguas não aos fiéis, mas aos infiéis; *a profecia, porém, não aos infiéis*, seria insensato revelar aos incrédulos os mistérios da fé, *mas aos fiéis*; e porque sois fiéis, procurai a profecia, que convém aos fiéis.

De novo outra razão por que não devem desejar as línguas: porque, falando eles na Igreja em várias línguas, se acaso entrarem infiéis, julgarão que estão loucos. A letra liga-se assim: porque as línguas não são sinal para os fiéis, *vós*, pois, que sois a Igreja, por que por causa das línguas sois reputados loucos? *Se, pois, toda a Igreja se reunir num só lugar e todos falarem em línguas* desconhecidas, e, clamando eles na variedade de línguas, *entrarem simples ou infiéis*, *não dirão que estais loucos*, porque vos tumultuais como frenéticos? Clamando na variedade de línguas, dirão que estais loucos; *mas se todos na Igreja profetizarem*, abrindo as Escrituras, *e entrar* durante a profecia deles *algum infiel ou simples, é logo convencido por todos* os que ali profetizam; ouvindo, com efeito, os preceitos de Deus, os mistérios da fé, a sua consciência o convence e argui, *e assim é julgado*, isto é, reconhece-se julgável e condenável, instruído *por todos* os que ali profetizam: e então *os segredos do seu coração se tornam manifestos* a si mesmo; porque naquilo em que não julgava ter pecado, pela doutrina que ouve reconhece-se gravemente réu: e assim convencido, *caindo com o rosto em terra, adorará a Deus*, para receber a remissão dos pecados, *declarando*, também abertamente a todos, *que Deus está verdadeiramente entre vós* que profetizais, a quem, tumultuando em línguas, pouco antes dizia estar loucos.

Porque nem quer que falem indiscretamente em línguas, para não serem julgados loucos, nem de novo quer que rejeitem inteiramente o dom de Deus, a saber, falar em línguas, determina como usem sobretudo deste e dos outros dons; fazendo tudo para a utilidade do próximo. A letra liga-se assim: visto que, tumultuando em línguas, somos ditos loucos, profetizando, porém, ditos ter Deus em nós; *que fazer, pois, irmãos?* profetizareis sempre, desprezadas inteiramente as línguas? De modo algum; mas *quando vos reunis, cada um tem o seu dom*: um *tem um salmo*, para cantar ou interpretar os salmos na Igreja; outro *tem uma doutrina*, para saber instruir sobre os costumes; outro *tem uma revelação*, isto é, a revelação das coisas ocultas. Estas três pôs só por semelhança; as duas que seguem, ao propósito: outro *tem uma língua* desconhecida; outro *tem uma interpretação* das Escrituras, isto é, a profecia. E, tendo vós todas estas coisas, *faça-se tudo em vós para edificação da Igreja*, quer façais isto, quer aquilo. *Se alguém fala em língua desconhecida, faça-se isso por dois*, isto é, permito que só dois falem assim, *ou por três*, para dizer o máximo; não concedo, com efeito, que seja lícito a mais de três: nem aqui dois ou três clamem na mesma parte do templo; mas *por partes*, como se este no começo, aquele no fim da Igreja; ou por partes do dia, como este à hora terça, aquele à sexta. E estes não falem sem profeta, mas haja sempre um à mão, para que o que se diz de modo inusitado seja interpretado em língua popular. Se objetardes que às vezes não estará à mão intérprete, prefiro que *quem fala em língua se cale na Igreja* do que rosne bárbaro sem intérprete; *fale consigo mesmo e com Deus*, isto é, para instrução de si e louvor divino.

Como os que falam em línguas, assim também *os profetas falem dois ou três* na Igreja, e por partes igualmente. Dir-me-iam outros: nós, que sabemos tanto, não profetizaremos? De modo algum; mas *os outros profetas julguem* o que é ensinado por aqueles irmãos, para que, se ensinarem algo mal, os outros os corrijam. De novo outra coisa sobre os profetas: *se, porém, de repente for revelado algo pelo Espírito a outro que está sentado*, levante-se e fale aquele, e *cale-se o primeiro* que falava antes: acontecia, com efeito, muitas vezes que o Espírito arrebatasse alguém subitamente; e sobre isto ordena o Apóstolo que, quando isto acontecer, se permita falar a este. Fale quem antes estava sentado, e o outro cale-se; e digo isto porque *todos podeis profetizar*, *um por um*, passando por cada um; veja-se apenas *que todos aprendam*, isto é, sejam instruídos pelo que profetiza — muitas vezes, com efeito, acontece que quem se julgava sábio aprendesse o que ignorava daquele subitamente inspirado —; aprendam, digo, e assim *todos sejam exortados* ao melhor. Por isso ordeno que o primeiro se cale, porque *os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas*, isto é, o Espírito Santo não os compele a falar, queiram ou não, porque, sendo o Espírito Deus, *Deus não é de desordem*; desordem que certamente haveria se litigassem clamando: *mas de paz* e concórdia; paz que se conserva se se suportarem alternadamente. Isto, porém, sobre as línguas, a profecia, a caridade e todas as coisas ditas, vo-lo digo, *como ensino em todas as Igrejas*, doutrina que imitais, porque é *das Igrejas dos santos*.

Ou aquele mesmo liga-se à letra seguinte: todos os homens podem profetizar, mas as mulheres nunca; e digo isto como ensino em todas as Igrejas; antes, *as mulheres calem-se nas Igrejas*; *pois não lhes é permitido* por mim ou por outro doutor *falar* na Igreja; mas ordeno que em toda parte *sejam submissas* aos maridos, aos quais se equiparariam se presumissem falar na Igreja. E isto digo das mulheres, que sejam submissas, *como também a lei diz* no Gênesis: «Estarás sob o poder do marido, e ele te dominará» (Gn 3,16). Dir-me-iam elas: não queremos falar, mas só perguntar. Não é assim; *mas se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa aos seus maridos*, não na Igreja, mas em casa; na Igreja nunca; *pois é vergonhoso para a mulher falar na Igreja*, isto é, prova ser mulher vergonhosa e impudente.

Estas coisas sobre os profetas e mulheres, e quanto acima ensinei, não as rejeiteis ensoberbecendo-vos para introduzirdes as vossas novidades; porque *a palavra de Deus partiu de vós* para as outras Igrejas, para agora introduzirdes novas doutrinas? *Ou chegou só a vós*, e vos gloriais como se só a vós tivesse chegado a palavra de Deus, e só vós crêsseis em Deus? Nenhum de vós, presumindo ser sábio, negligencie os meus preceitos; mas *se alguém se julga profeta*, isto é, entendendo as Escrituras, *ou também espiritual*, isto é, levando vida espiritual, quem quer que seja, *reconheça que o que vos escrevo*: e convém; porque estes mandamentos não são meus, mas *do Senhor*. *Se alguém, porém,* com soberba contumeliosa, *ignora*, desdenhando atender a estes mandamentos, digo-vos dele que *será* com certeza *ignorado* por Deus. Visto que quem ignora estes mandamentos será ignorado por Deus; *portanto, irmãos meus, aspirai a profetizar*, isto é, desejai profetizar, como ordeno; e, contudo, *não proibais falar em línguas*, como acima determinei: não proibais, mas *faça-se tudo em vós com decoro*, isto é, para edificação da Igreja; *e ordem*, que acima dispus, de modo que poucos falem ou profetizem, e por partes.

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# Capítulo 15

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Faço-vos saber, irmãos, o Evangelho que vos preguei, que também recebestes, no qual também estais firmes, pelo qual também sois salvos, se o guardais tal como vo-lo preguei; a não ser que tenhais crido em vão. Pois transmiti-vos, antes de tudo, o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas, depois aos Onze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais muitos ainda vivem, mas alguns já adormeceram; depois apareceu a Tiago, depois a todos os Apóstolos; e por último de todos, como a um aborto, apareceu também a mim. Pois eu sou o menor dos Apóstolos, que não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça não foi vã em mim, mas trabalhei mais do que todos eles; não eu, contudo, mas a graça de Deus comigo. Quer eu, quer eles, assim pregamos, e assim crestes. Se, pois, se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é também a vossa fé; e somos até achados falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra Deus que ressuscitou a Cristo, a quem não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, pois ainda estais nos vossos pecados. Logo, também os que adormeceram em Cristo pereceram. Se só nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram, pois, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Cada um, porém, em sua ordem: as primícias, Cristo; depois os que são de Cristo, os que creram na sua vinda. Depois o fim, quando entregar o reino a Deus e Pai, quando tiver destruído todo principado, toda potestade e toda virtude. Pois convém que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte; pois tudo sujeitou debaixo de seus pés. Quando, porém, diz: Tudo lhe está sujeito, é evidente que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. Quando todas as coisas lhe forem sujeitas, então o próprio Filho se sujeitará àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos. De outro modo, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles? Por que também nós estamos em perigo a toda hora? Morro cada dia, pela glória que tenho em vós, irmãos, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Se (humanamente falando) combati com feras em Éfeso, que me aproveita, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. Não vos deixeis seduzir: as más companhias corrompem os bons costumes. Despertai, justos, e não pequeis; pois alguns têm ignorância de Deus: digo-o para vossa vergonha. Mas dirá alguém: Como ressuscitam os mortos? Com que corpo virão? Insensato, o que semeias não revive, se antes não morrer. E o que semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão, por exemplo de trigo ou de qualquer outra semente. Deus, porém, lhe dá um corpo como quer, e a cada uma das sementes o seu próprio corpo. Nem toda carne é a mesma carne; mas uma é a dos homens, outra a dos animais, outra a das aves, outra a dos peixes. Há também corpos celestes e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestes, outra a dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas. Pois uma estrela difere de outra estrela em claridade; assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se na corrupção, ressuscitará na incorrupção; semeia-se na ignomínia, ressuscitará na glória; semeia-se na fraqueza, ressuscitará no poder; semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também espiritual, como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7); o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo homem, vindo do céu, é celeste. Qual o terreno, tais também os terrenos; e qual o celeste, tais também os celestes. Portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem do celeste. Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus; nem a corrupção possuirá a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: todos, na verdade, ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Pois é necessário que este corpo corruptível se revista da incorrupção, e que este corpo mortal se revista da imortalidade. Quando este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi absorvida pela vitória (Os 13,14). Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças, porém, a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, abundando sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.

## Comentário

Depois de os ter instruído sobre o batismo, sobre o Corpo e Sangue do Senhor e sobre os dons do Espírito Santo, por fim instrui-os sobre a ressurreição dos mortos, que em parte criam, em parte negavam. Criam, com efeito, que Cristo ressuscitara verdadeiramente dos mortos; criam também que ressuscitariam os que morressem na última trombeta, e logo reviveriam com a carne íntegra; mas diziam que aqueles cujos corpos se dissolvessem em cinzas não poderiam ressuscitar por razão alguma, aderindo além da medida a argumentos naturais. A letra liga-se assim: das línguas e da profecia vos instruo assim; *da ressurreição dos mortos, porém, faço-vos saber, irmãos*: faço saber, digo, *o Evangelho*, isto é, a ressurreição dos mortos, que é a maior parte da minha pregação; *Evangelho que vos preguei*, acerca da ressurreição, para que não aleguem pecar ignorantemente; *que também recebestes*, e deve ser vergonhoso negar de novo o que uma vez crestes bem; *no qual também estais firmes*; se não crêsseis a ressurreição, com efeito, em vão estaríeis firmes na fé; *pelo qual Evangelho também sois salvos*; a ressurreição da carne, com efeito, dizemos ser parte da fé, sem a qual ninguém pode salvar-se; salvos, digo, *se o guardais* tal como vo-lo preguei; *a não ser que tenhais crido em vão*, isto é, a não ser que digais inútil a vossa fé, o que os coríntios de modo algum confessariam, isto é, que em vão tivessem crido.

Transmito-vos o Evangelho; pois *o que vos transmiti antes de tudo*, isto é, entre os pontos principais da fé, o que também não tenho de mim, mas *recebi* de Deus, isto é, este Evangelho: *que Cristo morreu pelos nossos pecados* para os apagar; e, se os nossos pecados, cuja pena é a morte, foram apagados, por que somos retidos na morte? Cristo morreu; e isto digo *segundo as Escrituras* dos Profetas que atestam o mesmo. Como agora deve provar a ressurreição, antepõe que Cristo foi verdadeiramente morto, para que à verdadeira morte corresponda verdadeira Ressurreição. Também transmiti isto de Cristo: *que foi sepultado*, para que, ressuscitando logo depois da morte, não se dissesse: não morreu de verdade. Também transmiti isto dele: *que ressuscitou ao terceiro dia*; e isto digo *segundo as Escrituras*, que o atestam.

Provou pelos testemunhos das Escrituras; prova também que Cristo ressuscitou pelos testemunhos daqueles a quem foi visto depois da Ressurreição: e isto vos transmiti, *que apareceu a Cefas*, isto é, a Pedro (onde e como se deu esta aparição não lemos, mas está só escrito: O Senhor ressuscitou e apareceu a Pedro), *e depois aos Onze* Apóstolos, quando Tomé estava com eles. *Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais muitos ainda vivem* até este tempo; e, se quiserdes, perguntai a eles; *alguns, porém, já adormeceram* (diz que Cristo morreu, que estes dormiram); *depois apareceu a Tiago*, bispo de Jerusalém, que, vendo Cristo na Cruz, fez voto de não comer pão até ver que Cristo ressuscitara: destas duas aparições nada se encontra nos Evangelhos. *Depois a todos os Apóstolos*, no dia da Ascensão. *E por último de todos* apareceu *a mim*, primeiro no caminho, depois no templo, orando; a mim, digo, *como a um aborto*, isto é, nascido para o apostolado por certa violência e compulsão: diz-se aborto porque, nascido fora do tempo em Cristo, recebeu o apostolado, estando o Senhor já recebido no céu com a carne. Digo bem aborto; *pois eu sou o menor dos Apóstolos, que nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus*. E, embora não tenha sido digno, *sou o que sou*, isto é, Apóstolo, o que certamente sou *pela graça de Deus*; e, embora tenha sido antes perseguidor, desde que recebi a sua graça, a própria graça *não foi vã*, isto é, ociosa, *em mim*, mas trabalhei com todo gênero de paixão *mais do que todos os outros Apóstolos*; e, embora diga que trabalhei, contudo *não eu* o pude por mim, *mas a graça de Deus operou comigo*. Ao dizer que sofreu tantas e tão grandes coisas, aprova por isso bastante a ressurreição, na esperança da qual tudo padece.

Volta ao que acima: na verdade Cristo ressuscitou; *pois assim pregamos*, quer eu, quer aqueles outros Apóstolos (lugar da autoridade); *e assim crestes* também vós; que Cristo ressuscitou verdadeiramente, não o negueis. *Se, pois, se prega*, e não se pode negar, *que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos?* Se Cristo ressuscitou, o que certamente é verdade, segue-se por necessidade a ressurreição dos mortos. Provou acima, por autoridades das Escrituras e por testemunhos dos santos que viram a Cristo, que de fato ressuscitou dos mortos; e daí inferiu que, se Cristo ressuscitou, haverá também ressurreição dos mortos; esta consequência assim prova: na verdade, se Cristo ressuscitou, há também ressurreição dos mortos; *pois se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou.* Este lugar é de semelhança e, entre causa e efeito, sob diversos respeitos: a semelhança está em que, se Cristo não pôde ser retido na morte, porque nele não houve o pecado, que é a causa da morte, nem nós, justificados dos pecados segundo o nosso modo, seremos retidos na morte. Se escapamos à morte, então ressuscitaremos, por esta semelhança, a saber, que, justificados dos pecados, ressuscitaremos com Cristo; mas porque Cristo é muito maior que nós em justiça, será também maior na glória da ressurreição. De novo, a Ressurreição de Cristo e tudo o que operou na terra olhavam a que o homem fosse restituído à bem-aventurança perdida: se este efeito, a saber, a ressurreição dos mortos, não se segue, em vão aquelas causas precederam; mas Cristo ressuscitou. E isto prova por muitos inconvenientes que provêm de ele não ter ressuscitado: digo que Cristo ressuscitou; *pois se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação*, isto é, sem realidade; porque a coisa que prega não é assim. E do mesmo, outro inconveniente: *vã é também a vossa fé*, isto é, infrutuosa, *se Cristo não ressuscitou*: o que os coríntios, a saber, que a sua fé fosse vã, de modo algum confessariam. De novo outro inconveniente, se Cristo não ressuscitou, porque então *somos achados falsas testemunhas de Deus Pai*, porque *testemunhamos contra Deus*; — não agrada a Deus, com efeito, que alguém lhe atribua o que Deus não fez —; este testemunho, a saber, de que *ressuscitou a Cristo, a quem*, certamente, *não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam*. É verdade que os mortos ressuscitam como dizeis; *pois se os mortos não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou.* O mesmo havia posto acima, mas para outro fim; ali, com efeito, para provar que é verdadeira esta, se Cristo ressuscitou, os mortos ressuscitarão; aqui, porém, para inferir verdadeira aquela que diz que Cristo não foi ressuscitado, a não ser que os mortos ressuscitem.

Diria o coríntio: preferiria negar a Ressurreição de Cristo a conceder que os mortos ressuscitam. Prova de novo pelo inconveniente que Cristo ressuscitou: na verdade Cristo ressuscitou; *pois se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé* em Cristo; nula foi aquela fé que recebestes: na verdade, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé; *pois ainda estais nos vossos pecados.* Lê-se que ressuscitou para a nossa justificação: se não ressuscitou, nem nos justificou, e assim vã é a vossa fé; e porque os homens ainda estão nos pecados, *logo, também os que adormeceram em Cristo*, isto é, os mortos na fé de Cristo, *pereceram*, isto é, estão condenados. De novo outro inconveniente: *se só nesta vida esperamos em Cristo*, e não vamos ressuscitar, como dizeis, sem haver de ter a futura, então *somos os mais miseráveis de todos os homens*, porque nem desta nem de outra vida gozaremos, estando cada dia envolvidos em angústias.

Visto que tantos inconvenientes se apresentam da negada ressurreição, *agora*, portanto, isto é, das razões antecipadas colhe-se que *Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos*; Cristo, digo, *primícias*, tanto segundo o tempo como segundo a dignidade: [no tempo], porque, embora alguns tenham sido ressuscitados antes dele, não dos mortos, recaíram no número dos que morrem; na dignidade, porque terá glória maior que todos, e tudo o que os outros tiverem, terão dele e por ele: Cristo, digo, *primícias dos que adormeceram*. Com isto, ao dizer Cristo primícias, insinua que os outros que dormem o seguirão na ressurreição. Dir-se-ia: não parece que, pelo mérito de um só homem, Cristo, possam ressuscitar todos os homens. Contra isto Paulo: na verdade os demais que dormem ressuscitarão por suas primícias, isto é, Cristo; *pois assim como por um homem veio a morte de todos, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos.* Donde isto por semelhança: *e assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados*; se a culpa só de Adão bastou à condenação de todos, para que, omitida a maioridade, falemos só da semelhança, por que de modo semelhante a justiça só de Cristo não bastaria à justificação de todos?

Depois de provar que a ressurreição de todos será verdadeira, acrescenta convenientemente sobre a ordem desta ressurreição, para por isso os certificar mais e convidar à mesma ressurreição, dizendo: embora todos ressuscitem igualmente, *cada um, contudo, em sua ordem*; quem mais mereceu, com efeito, receberá mais glória; e de tal modo que Cristo será *as primícias* no tempo e na dignidade, como acima; *depois*, após Cristo, estarão na glória *os que são de Cristo*. Digo que são de Cristo naquilo: *os que creram na sua vinda*, isto é, na ressurreição; e assim creram, na integridade da fé e das boas obras, indo ao encontro, na vinda de Cristo. Poderia dizer: os que creram na Natividade de Cristo ou na Paixão; mas por isso disse "na vinda", porque pretendia recomendar-lhes a ressurreição.

E depois que os que são de Cristo ressuscitarem, *depois o fim*, isto é, o cumprimento da bem-aventurança prometida, *quando entregar o reino*, isto é, a sua Igreja, que rege com poder; entregar, digo, *a Deus e Pai*: dirá então Cristo entregar o reino ao Pai, quando colocar a sua Igreja diante dos olhos de Deus, para que o que aqui viu por espelho e em enigma, ali o veja face a face. Diz *a Deus e Pai* para mostrar aquele que não teve princípio de outro; para notar também que é tanto Criador como que exerce paterno amor para com as criaturas. Quando entregar, digo, o reino; e *quando tiver destruído todo Principado, toda Potestade e toda Virtude.*

Deve-se notar que Deus pôs nos Anjos diversidades de ofícios, e isto totalmente por causa dos homens, para que os Anjos ministrassem à salvação deles; mas, depois que os homens já estiverem na perfeição e de nenhuma administração necessitarem, esses nomes serão destruídos nos Anjos, com os quais se chamavam pela diversidade da administração humana: há, com efeito, alguns entre os Anjos que têm principado sobre todos os outros; há também outros que cumprem por poder o que lhes é imposto pelo principado; há outros que se dizem Virtudes, porque são operadores de milagres. Igualmente nos anjos maus, alguns são príncipes sobre todos os outros; outros têm poder de executar o que os príncipes ordenaram; outros, virtudes, que induzem alguns como que milagres novos: e estas coisas serão de novo abolidas no fim; porque, assim como os Anjos bons já não terão em que guardar os homens, assim os maus já não terão em que lhes fazer mal. Assim também entre os homens será destruída toda diferença de prelatura ou sujeição; entre eles não haverá desigualdade alguma de governo.

No fim Cristo entregará o seu reino ao Pai; mas por ora, enquanto não é o fim, *convém que reine*, isto é, que Cristo reja com poder a sua Igreja; — diz "convém" porque assim foi profetizado nas Escrituras, que por necessidade convém que se cumpram —; reinar, digo, *até que Deus ponha todos os inimigos de Cristo debaixo de seus pés*, isto é, em tão plena sujeição como alguns estão prostrados aos pés de outros; ou então, debaixo de seus pés, isto é, sujeitos à humanidade de Cristo, que por isso se significa pelos pés, porque pela humanidade assumida a Divindade veio aos homens. E depois que todas estas coisas forem abolidas, então será destruída também *a morte, o último inimigo*; porque, depois que não houver pecado, nem a pena do pecado, a saber, a morte, permanecerá; a morte, digo, inimiga, a quem os homens são inimigos, e que é inimiga dos homens. Na verdade os inimigos serão postos debaixo dos pés de Cristo; *pois está escrito no salmo: Tudo sujeitou Deus debaixo de seus pés* (Sl 8,8), isto é, de Cristo, como foi exposto no salmo: tem-se, contudo, "sujeitaste". *Quando, porém, a Escritura diz "tudo", é evidente que tudo está sujeito a Cristo, exceto aquele que lhe sujeitou todas as coisas*, a saber, exceto a Divindade. Deus, que sujeitou tudo a Cristo, não está sujeito a Cristo; *mas o próprio Cristo estará sujeito àquele*, isto é, à Deidade, *que lhe sujeitou todas as coisas*, isto é, a Cristo. Dir-se-ia: por ora Cristo estará sujeito a Deus, até que Deus lhe sujeite todas as coisas; mas depois não. Estará certamente, diz Paulo; porque, *quando todas as coisas lhe forem sujeitas, então o próprio Cristo estará sujeito a Deus, que lhe sujeitou todas as coisas*; sujeito, contudo, de modo a ser igual, a saber, *para que Deus seja tudo em todos*, isto é, em cada uma das criaturas; e assim em todos que tudo a cada um, isto é, perfeita bem-aventurança, perfeita glória e paz que supera também todo desejo do homem.

Volta a provar a ressurreição dos mortos, dizendo: a morte será destruída por Cristo, e os homens então ressuscitarão; *de outro modo*, isto é, se disseres que não há ressurreição dos mortos, *que farão os que se batizam pelos mortos?* Toca aqui o costume reprovável de alguns que, ouvindo que haveria ressurreição dos que se batizassem, depois de batizados batizavam-se de novo no lugar do pai infiel já morto, para assim o pai ou a mãe se salvarem na ressurreição. E isto aduz à vergonha dos coríntios; porque, se aqueles perversos tinham tanta fé na ressurreição, quanto mais os coríntios deveriam crer na ressurreição? A letra é esta: *que farão os que se batizam pelos mortos*, na esperança de ressurgir, *se absolutamente os mortos não ressuscitam?* *Por que também se batizam por eles*, para serem justificados, se nem eles são justificados? Se fossem justificados dos pecados, com efeito, também ressuscitariam. Ou de outro modo assim: *de outro modo*, isto é, se não há ressurreição, que farão os que se batizam pelos mortos *nas obras*, isto é, pelos pecados, que operam a morte? Batizam-se, digo, na esperança da ressurreição; e que farão, se absolutamente os mortos não ressuscitam? *Por que também se batizam por eles*, isto é, para serem justificados dos pecados? Ou de outro modo: de outro modo, se os mortos não ressuscitam, que farão os que se batizam por si mortos, isto é, a serem mortificados pelo pecado; ou, por si mortificados a Deus pelo pecado: o resto como foi dito.

De novo, se não há ressurreição dos mortos, *por que também nós, Apóstolos, estamos em perigo a toda hora?* As nossas tribulações, com efeito, não têm fim, as quais nos alegramos de padecer na esperança da futura ressurreição. Na verdade estamos em perigo; *pois morro cada dia*, isto é, padeço perigos de morte, *irmãos, pela glória* que tenho *em vós*, para que sejais dignos da glória da ressurreição. Ou, segundo Agostinho: morro, e juro isto pela vossa glória, irmãos; glória que já tenho em esperança *em Cristo Jesus, nosso Senhor*, que já ressuscitou em glória com a minha carne, que também mereceu que eu ressuscitasse com ele. *Se*, de novo, os mortos não ressuscitam, *que me aproveita se, humanamente falando*, isto é, segundo o poder da razão humana; ou então, segundo o homem, porque eu, homem, contra feras; humanamente certamente combati com feras em Éfeso, isto é, contra os efésios bestiais; porque, negando a ressurreição, dizem que o homem só vive neste mundo, o que também as feras fazem. Que me aproveita aquela luta, digo, se depois da morte não vou ter glória? Os efésios negavam a ressurreição; contra eles Paulo disputou com muito trabalho, aprovando que haveria ressurreição.

E visto que, segundo vós, não resta vida depois desta, nada mais já se deve fazer senão que, desesperados, *comamos e bebamos*; *porque amanhã morreremos* para não mais viver. Esta palavra disseram os judeus quando eram afligidos no cativeiro da Babilônia e desesperavam do auxílio de Deus; igualmente os que negam a ressurreição desesperam do auxílio e poder de Deus. E porque, irmãos, não se deve assim desesperar, mas confiar na ressurreição, *por isso não vos deixeis seduzir* pelos falsos apóstolos que não têm a fé da ressurreição. Ao dizer "seduzir", nota que há seduzidores entre eles. Não creiais nos seduzidores; *pois as más companhias*, isto é, os colóquios deles, não só violam a fé, mas *corrompem os bons costumes*; quem não crê na vida futura, com efeito, não sei por que se esforçaria em aderir aos bons costumes. E, para que não sejais corrompidos pelos seduzidores, *despertai* a fim de serdes *justos*; e, para conservardes a justiça, *não pequeis* mais. É necessário que desperteis; *alguns*, com efeito, entre vós *têm ignorância de Deus*, isto é, ignoram a equidade e a fidelidade de Deus; *e digo-o para vossa vergonha*, isto é, para a vossa confusão, para que tenhais vergonha dos vossos pecados.

Depois que Paulo, por razões necessárias, pelos inconvenientes que daí provêm e, de novo, pelo poder de Cristo, aprovou a ressurreição futura, quer aprová-la pela lei da natureza, porque a sabedoria humana argumenta mais segundo a passibilidade da natureza; como se dissesse: embora acima eu tenha aprovado suficientemente a ressurreição, contudo, objetando segundo a lei da natureza, *dirá alguém: Como ressuscitam os mortos* já dissolvidos em pó? A natureza não parece suportar isto. De novo, se de algum modo aquele pó se conglutina, *com que corpo virão* os homens que ressuscitarem? Pode-se porventura crer que tanta glória possa vir ao pó dissolvido, como pregas? Responde à primeira questão: a natureza suporta bem que os mortos ressuscitem; *aquilo que tu, insensato*, que duvidas da ressurreição; a semente, digo, que tu semeias *não revive*, isto é, de modo algum pode viver, *se antes não morrer* e apodrecer: como vês que convém que a semente apodreça, para depois viver, não duvides que o homem possa viver de novo depois da morte, já que por meio da morte convém viver. Prova a outra questão, a saber, a futura glória dos corpos, pela semelhança da mesma semente, dizendo: na verdade virão em maior glória dos corpos; *pois o que semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão*; o corpo, porém, que há de nascer do simples grão terá muitos grãos, palhas e colmos: igualmente não te seja absurdo se dissermos que os nossos corpos ressuscitarão em maior glória do que são aqui semeados. Tu semeias *um simples grão, por exemplo*, isto é, como o grão de trigo ou o grão de qualquer das outras searas; tu semeias o simples grão, mas *Deus dá àquele grão um corpo como quer*, glorioso pela fertilidade dos grãos, das espigas e dos colmos; e, contudo, *a cada uma das sementes dá o seu próprio corpo*; porque, se foi semeado trigo, brota trigo; e assim, na identidade das sementes, cada grão ressuscita, e isto em exemplo de ressurreição melhorada, não de substância perdida.

E, como todos convêm em que terão a glória da ressurreição, diferem, contudo, em que alguns terão glória mais gloriosa, outros não tanto, segundo a diferença dos méritos, diria alguém: como toda a matéria dos homens consta dos mesmos elementos, parece que tudo o que se conferir a um, a matéria semelhante o possuiria totalmente em outro. O que Paulo, para sempre provocá-los ao melhor, refuta pela semelhança de outras criaturas: porque, assim como todos os animais foram feitos dos mesmos elementos, a mesma matéria não impede, contudo, que sejam uns e outros diversos entre si; nas criaturas celestes também, constituídas das mesmas matérias, há diferença de claridade entre si; assim, nos homens, a natureza da carne, a mesma em todos, não impede que possam diversificar-se na glória da ressurreição. A letra liga-se assim: embora todos ressuscitem em maior glória da carne, contudo, diferentemente; nem isto impede a mesma matéria da condição em todos; como vês que *nem toda carne é a mesma carne*, embora toda da mesma matéria, mas *uma é a carne dos homens, outra a dos animais, outra a carne das aves, outra a carne dos peixes.* E assim como os corpos terrestres diferem entre si, assim os celestes dos terrestres; *há, com efeito, corpos celestes e corpos terrestres*; e, convindo em serem corpos, diferem, contudo, em que *uma é a glória dos corpos celestes, outra a dos terrestres.* E assim como os celestes diferem dos terrestres, assim os próprios celestes entre si; *pois uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas*; nas próprias estrelas também há diferença; *pois uma estrela difere de outra em claridade*: e assim como estas criaturas diferem entre si em claridade, assim também a ressurreição dos mortos será diferente para os justos na claridade da glória.

E, embora difiram na glória da ressurreição, têm, contudo, indiferentemente isto: que aqui *se semeia o corpo do homem na corrupção*, isto é, para que fique sujeito à corrupção — diz semear desde o dia em que o homem é concebido até o dia da ressurreição de todos —; *semeia-se*, sim, *na corrupção*, mas *ressuscitará na incorrupção*, isto é, para que seja alheio a toda corrupção, e este ressurgir será no dia do juízo. Semeia-se não só na corrupção, mas também *na ignomínia*; o homem, com efeito, é gerado em muita vileza da carne; mas então *ressuscitará na glória* perpétua a ter. *Semeia-se aqui na fraqueza*; está, com efeito, aqui sujeito a todas as doenças e diversas misérias; mas então *ressuscitará no poder* da impassibilidade e da imortalidade. *Semeia-se aqui corpo animal*, que convém sustentar com os cuidados cotidianos dos alimentos, como qualquer animal; mas então *ressuscitará corpo espiritual*, que é regido só pelo espírito, sem uso de alimento corporal. Na verdade semeia-se corpo animal, se este vosso corpo é animal; ressuscitará o mesmo corpo espiritual, se então será espiritual. Ou de outro modo: na verdade ressuscitará corpo espiritual; *pois, se o corpo agora se diz animal*, deve chamar-se também o mesmo corpo espiritual; animal, com efeito, não se diria senão em relação ao espiritual, de modo que animal e espiritual tenham quase força de relativos. Na verdade este corpo é animal, *como está escrito* no Gênesis (cap. 2,7): *O primeiro homem*, aqui chamado Adão, *foi feito alma vivente*, não que vivificasse o corpo, porque logo foi dissolvido pela morte, mas *alma vivente*, isto é, que ali viveria na carne; se o corpo não fosse alimentado por alimentos, com efeito, a alma não viveria ali, e por isso se diz vivente, como por forças alheias, e não vivificante: e na verdade ressuscitará corpo espiritual; pois o *último Adão*, isto é, Cristo — diz-se Adão porque dele nasceu segundo a linha da carne; e por isso último, porque depois dele não haverá outro Adão que introduza nova geração; todo homem, com efeito, é ou filho carnal de Adão ou espiritual —; este último Adão, digo, *foi feito espírito*, não vivente, mas *vivificante*; naquela ressurreição, com efeito, a alma vivificará o corpo de tal modo que viva perpetuamente sem necessidade de alimento algum.

Diria aquele: embora Cristo, que foi Deus, tenha podido ser assim vivificado, eu não poderei assim, que sou só homem. Nada impede, diz Paulo, porque, embora Cristo seja Deus, não foi primeiro aquele corpo que é espiritual, mas foi primeiro aquele corpo que é animal; e depois foi aquele corpo que é espiritual. Na verdade *o primeiro homem foi feito alma vivente*; pois o primeiro homem foi feito *da terra, terreno*; e o segundo Adão foi feito espírito vivificante; pois o *segundo homem foi feito celeste, vindo do céu*. E *qual foi aquele primeiro terreno, tais são também os terrenos*, que aderem à terrenidade dele; e qual foi aquele segundo celeste, tais serão também os imitadores dele, *celestes*. E, visto que quem seguir o terreno será terreno e quem o celeste será celeste, *portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno* Adão, pelo pecado, *tragamos* daqui em diante *também a imagem do celeste* Adão, pela justiça de vida, para que, deposto o peso da terrenidade, nos alegremos na leveza da glória celeste.

Porque acabara de dizer: qual foi o celeste, tais serão os que a ele aderem, dissera também: tragamos a imagem do celeste; para que, por ocasião destas palavras, não julgássemos que nos basta para a salvação depor o homem velho no batismo e assumir ali o homem novo, determina Paulo que não basta trazer assim a imagem do celeste, se não a trazemos por contínua imitação das obras. A letra liga-se assim: embora eu tenha dito: tragamos a imagem do celeste, e seremos celestes, *digo-vos, contudo, isto*, isto é, determino-vos, *irmãos: que a carne e o sangue*, isto é, os que aquiescem à carne e ao sangue — alguns pecados, com efeito, são da carnalidade, como a mole luxúria, outros do vício do sangue, como a ira pela melancolia — e quantos seguem a carne e o sangue do pecado, *não podem possuir o reino de Deus*, isto é, a si mesmos na glória futura; o reino de Deus, com efeito, nada outro é que os próprios homens. Nesta vida ninguém possui a si mesmo, porque não há dia em que alguém não seja possuído pelo pecado; mas na bem-aventurança futura cada um dos justos possuirá a si mesmo, onde ninguém será inquietado por tentação da carne. Na verdade a carne e o sangue não possuirão o reino de Deus; *pois a carne e o sangue são corrupção*, ao passo que o reino de Deus é incorrupção; *a corrupção*, porém, *não possuirá a incorrupção*; portanto a carne e o sangue não possuirão o reino de Deus.

Porque acima dissera: quem trouxer a imagem do celeste ressuscitará em glória, e dissera de novo que a carne e o sangue de modo algum possuirão o reino de Deus; para que ninguém entenda estas palavras como contrárias, resolve-o absolvendo toda contrariedade, dizendo: para que não interpreteis mal as minhas palavras ditas, *eis que vos digo um mistério*, isto é, abro-vos coisa oculta, para que por sua abertura tire de vós a dúvida desta coisa: é verdade, como já disse, que *todos ressuscitaremos*, isto é, todos retomaremos os corpos, *mas nem todos seremos transformados* ao receber a glória; porque alguns ressuscitarão para aumentar a sua pena, outros para a glória. Ressuscitaremos, sim, *num momento*; e, para abrir maior facilidade da ressurreição, corrige o que dissera "num momento", dizendo: ressuscitaremos *num abrir e fechar de olhos*, isto é, tão depressa quanto o olho passa a ver algo, ou tão depressa quanto uma pálpebra se junta à outra. Isto, porém, se fará *ao som da última trombeta*; não que ali se ouça voz de trombeta, mas, assim como a voz da trombeta convida os vencedores à palma, e aos vencidos se faz de terror; assim aquela voz será sinal para os justos para que recebam o mérito do triunfo, e aos ímpios incutirá o terror da pena: última, porque, havendo Cristo dado muitas vozes no mundo, com as quais atemorizasse os ímpios e alegrasse os justos, aquela voz do juízo será a última, consumando aos justos a glória, aos ímpios a ira indefectível.

E porque nada mais dissera desta trombeta, acrescenta: digo bem trombeta; *pois a trombeta soará*; não determina se Cristo ou um Anjo deverá soar aquela trombeta; ou então, para que seja nominativo, aquela trombeta soará, e *na voz da trombeta os mortos ressuscitarão incorruptíveis*, isto é, restaurados na integridade dos membros; alguns, porém, a serem corrompidos pela dor das penas; *mas nós*, eleitos de Deus, *seremos transformados*, recebendo a glória da ressurreição. Na verdade seremos transformados; *pois é necessário*, isto é (para que as Escrituras sejam verdadeiras), inevitável; é necessário, digo, *que este corpo corruptível*, isto é, desgastado por tantas misérias, *se revista da incorrupção*. E porque poderia ser incorrupto por algum tempo, mas sem escapar, acrescenta: *e é necessário que este corpo mortal se revista da imortalidade.*

Na verdade este mortal se tornará imortal; *pois a morte foi absorvida*, isto é, destruída e engolida *na vitória de Cristo*, quando por sua morte superou a morte; ou então, na vitória sua, isto é, da morte; pelo fato de a morte ter presumido invadir Cristo, em quem não havia o pecado que é a causa da morte, sucumbiu na própria presunção. Esta autoridade encontra-se assim em Oseias: «Ó morte, eu serei a tua morte» (Os 13,14); e porque alguns interpretavam mal esta escritura, dizendo que isto estava escrito da morte da alma, não do corpo, Paulo antecipa a exposição desta autoridade, dizendo: *quando, porém, este corpo mortal se revestir da imortalidade* (não escapará à morte, com efeito, como alguns erradamente suspeitam, só a alma, mas com a alma também o corpo), *então se cumprirá*, isto é, realizar-se-á, *a palavra que está escrita* em Oseias: *A morte foi absorvida pela vitória*, como foi dito.

As palavras que seguem dizem-se do mesmo Profeta, que insulta a própria morte, porque foi destruída, e diz: visto que foi absorvida, *onde está, ó morte, agora a tua vitória*, com que sujeitavas tudo ao teu direito? E, *ó morte, onde está agora o teu aguilhão*, isto é, o pecado, que no aguilhão de sua cauda levava a morte em lugar de veneno? Diz Paulo: digo bem aguilhão; *pois o aguilhão da morte é o pecado*, isto é, picando com o seu aguilhão a morte nos homens. Por Paulo expor o que seja aguilhão, julga-se que as palavras precedentes não são dele. Ou, se são de Paulo, a sentença, contudo, não muda; insultando, com efeito, diz à morte: porque agora foste absorvida, onde está, ó morte, a tua vitória? O resto não muda.

Para que de novo não dissessem: já que, destruído o pecado, se destrói a morte, bem nos é agora, porque pela lei destruiremos o pecado. Contra isto Paulo: o pecado é o aguilhão da morte; *a lei*, porém, de modo algum enfraquece o pecado; antes é *a força* e o aumento *do pecado.* E isto removeu com acerto, para que, como pelo Cristo provara que se faz a ressurreição, assim por ele mostre ser toda a remissão do pecado. E porque a lei aumenta o pecado, por isso nenhuma graça à lei, mas *graças a Deus*, que nos deu a vitória sobre o pecado e a morte, e isto *por nosso Senhor Jesus Cristo.* E porque de Deus e por Cristo vem toda a vitória, *portanto, irmãos meus amados*, para serdes caros a Deus, *sede firmes* no bem, enquanto estais na quietude da paz; sede também *inabaláveis* na fé, se irromperem adversidades; vós, digo, *abundando sempre na obra do Senhor*, para obrardes cada vez melhor; vós, digo, sempre *sabendo que o vosso trabalho não é vão*, isto é, sem fruto, mas ressuscitareis em grande glória, e isto *no Senhor*, isto é, por meio do Senhor que misericordiosamente age em vós.

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# Capítulo 16

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto às coletas que se fazem para os santos, como ordenei às Igrejas da Galácia, assim fazei também vós. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte em sua casa o que lhe parecer bem, guardando-o, para que não se façam as coletas quando eu chegar. Quando eu estiver presente, enviarei com cartas os que tiverdes aprovado, para levarem a vossa oferta a Jerusalém. E, se for conveniente que eu também vá, irão comigo. Irei ter convosco depois de ter atravessado a Macedônia; pois atravessarei a Macedônia. Talvez permaneça convosco, ou mesmo passe o inverno, para que me encaminheis aonde quer que eu for. Pois não quero ver-vos agora de passagem, mas espero demorar-me algum tempo convosco, se o Senhor o permitir. Permanecerei, porém, em Éfeso até Pentecostes. Pois está-me aberta uma porta grande e eficaz, e os adversários são muitos. Se Timóteo chegar, vede que esteja sem temor entre vós; pois faz a obra do Senhor, como eu. Ninguém, portanto, o despreze; encaminhai-o em paz, para que venha a mim; pois o espero com os irmãos. Quanto ao irmão Apolo, faço-vos saber que muito lhe roguei que fosse ter convosco com os irmãos; mas não foi vontade dele ir agora; irá, porém, quando tiver oportunidade. Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos como homens, fortalecei-vos. Que tudo o que fazeis seja feito na caridade. Rogo-vos, irmãos: conheceis a casa de Estéfanas, de Fortunato e de Acaico, que são as primícias da Acaia e se dedicaram ao serviço dos santos; sede também vós submissos a tais pessoas e a todo aquele que coopera e trabalha. Alegro-me com a presença de Estéfanas, Fortunato e Acaico, porque eles supriram o que vos faltava. Pois reconfortaram o meu espírito e o vosso. Reconhecei, pois, os que são tais. Saúdam-vos as Igrejas da Ásia. Saúdam-vos muito no Senhor Áquila e Priscila, com a Igreja que se reúne em sua casa, em cuja casa me hospedo. Saúdam-vos todos os irmãos. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. A saudação é de minha própria mão, de Paulo. Se alguém não ama o nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema, Maran Atá. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. O meu amor esteja com todos vós em Cristo Jesus. Amém.

## Comentário

Depois de ter disposto uma por uma as coisas que deviam ser ordenadas segundo a ordem da fé reta, no fim da Epístola admoesta-os sobre algumas coisas particulares, a saber, que socorressem os santos que estavam em Jerusalém, a quem tanto a rapina dos infiéis como a fome pública haviam oprimido, ministrando algo de suas abundâncias. A letra liga-se assim: sobre a ressurreição dos mortos crede assim; *quanto às coletas que se fazem* para serem levadas *para os santos* que estão em Jerusalém, *assim fazei também vós*, *no primeiro dia da semana*, isto é, do sábado, *como ordenei* que se fizesse *nas Igrejas da Galácia*. E, para que não julgueis que quero destinar estas coletas ao meu uso, ordeno que *cada um de vós ponha de parte em sua casa*, não, contudo, de modo a julgá-lo seu, mas *guardando-o* e conservando-o íntegro como alheio, *o que lhe parecer bem* distribuir aos santos pobres. Por isso, digo, fazei-o *no primeiro dia da semana*, para que não comecem as coletas a ser feitas só *quando eu chegar*. Para que, porém, afaste de vós toda suspeita, a vós mal suspeitosos, *quando eu estiver presente*, enviarei, não legados meus, mas *os que tiverdes aprovado*, isto é, os que dentre vós mesmos tiverdes escolhido, *para levarem a vossa oferta*, isto é, o vosso dom gratuito, *a Jerusalém*; enviarei, digo, *com cartas*, isto é, com minhas cartas entregues a eles em sinal.

Diriam os coríntios: levas os donativos dos outros, e por que desdenhas levar os nossos? A isto Paulo: *se for conveniente* o vosso donativo, *que eu também vá, irão comigo* os vossos legados, para que eu, indo junto, recomende a vossa oferta. Assim farei com a vossa oferta; *irei também ter convosco depois de ter atravessado a Macedônia*; primeiro, com efeito, devo ir aos macedônios. Digo bem "atravessado"; *pois na verdade atravessarei a Macedônia*; mas depois *talvez permaneça convosco*, isto é, se Deus o conceder; *ou mesmo*, para dizer mais, *passe o inverno* em vossa casa, *para que me encaminheis aonde quer que eu for*, partindo de vós. Por isso passarei o inverno, *porque não quero ver-vos agora de passagem*; por isso não vos verei de passagem, *porque espero demorar-me algum tempo convosco, se o Senhor o permitir.* E, embora diga que irei a vós, antes, contudo, *permanecerei em Éfeso até Pentecostes*; e é-me necessário permanecer ali; *porque me está aberta uma porta grande*, isto é, porque muitos dos efésios se preparam para a fé, *e eficaz*, porque já vejo neles alguns sinais de fé; e convém que eu insista, *porque os adversários são muitos*, que querem subtraí-los a Cristo. Eu agora permanecerei em Éfeso; *se Timóteo*, levando esta Epístola, *chegar a vós, vede que esteja sem temor entre vós*; tudo o que me anunciou de vós, com efeito, fê-lo para a vossa correção; e por isso vede que não o inquieteis. Deve certamente estar sem temor entre vós; *porque faz a obra do Senhor* em vós, *como eu* e os demais discípulos; e porque faz a obra do Senhor, *portanto, vede que ninguém o despreze*, mas obedecei às suas admoestações; e não só não o desprezeis, mas também *encaminhai-o* em paz, *quando voltar a mim, para que venha ileso a mim*; eu, com efeito, *o espero com os outros irmãos.*

Apolo, bispo dos coríntios, fugindo da dissensão deles, voltara a Paulo, e os coríntios haviam escrito a Paulo que lhes devolvesse o seu bispo. Responde-lhes Paulo que Apolo não quer voltar antes que estejam bem corrigidos, dizendo: de Timóteo agi assim; *quanto, porém, ao irmão Apolo*, nosso e vosso bispo, significo-vos *que muito lhe roguei* que fosse ter convosco; *e não foi vontade dele* ir agora a vós, *mas irá quando tiver oportunidade* e entender que estais bem corrigidos. Para merecerdes a vinda deste vosso pai, *vigiai*, isto é, acautelai-vos com empenho para não errardes, *e permanecei firmes na fé*, para não vos desviardes da fé sadia, e, firmes na fé, *portai-vos como homens*, isto é, obrai bem; não por uma hora, mas perseverando nos bons atos, *fortalecei-vos*, esforçando-vos por que *tudo o que fazeis seja feito na caridade*, isto é, no amor de Deus e do próximo, em que até agora fostes demasiadamente mornos.

*Rogo-vos, irmãos*, que sejais submissos a Estéfanas e Fortunato: e deveis; *conheceis*, com efeito, *a casa de Estéfanas, de Fortunato e de Acaico*; isto, digo, sabeis: que estes *são as primícias da Acaia*; foram, com efeito, os primeiros da Acaia a crer (Corinto está na Acaia); sabeis também isto: que *se dedicaram ao serviço dos santos*, a quem ministraram com suas próprias mãos e de seus bens; isto, digo, vos rogo: que *sejais submissos a tais pessoas*, as que entre vós são tais, *e a todo aquele que coopera* com eles no bem, *e trabalha* igualmente no serviço dos santos. Para que sejais submissos a eles, sabei que *eu me alegro com a presença de Estéfanas, Fortunato e Acaico*; assim me é com eles como se os tivesse presentes; alegro-me, digo, e com razão, *porque eles supriram* em mim e nos santos *o que vos faltava*; ministraram-nos, com efeito, nos bens temporais, o que vós, devendo-o, negligenciastes. Na verdade eles supriram; *pois reconfortaram o meu espírito* ministrando o necessário, *e por isso o vosso*; se não nos tivessem amparado com seus bens, com efeito, não poderíamos demorar-nos tanto na vossa instrução. E porque reconfortaram o meu espírito e o vosso, *reconhecei, portanto*, isto é, obedecei por amor a eles e a todos os que são tais. *Saúdam-vos*, ó coríntios, *todas as Igrejas* da Ásia. *Saúdam-vos muito no Senhor Áquila e Priscila, com a Igreja que se reúne em sua casa*, isto é, também a família deles vos saúda. *Saúdam-vos todos os irmãos. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo*, isto é, beijai-vos mutuamente, afastando de vós os cismas.

A saudação que segue foi feita de próprio punho, *minha*, digo, a saber, de Paulo, esta a saber: *a graça de nosso Senhor*, etc.

Era costume de Paulo que ele mesmo fechasse a Epístola de próprio punho, para que não se duvidasse de que a Epístola fosse enviada por ele; e isto por causa dos falsos apóstolos, que sob o nome de Paulo enviavam cartas furtivas. Desta sua saudação, porém, exclui os infiéis, dizendo: *se alguém não ama o nosso Senhor Jesus Cristo*, a este não saúdo, mas *seja anátema*, isto é, separado de Deus, anátema, digo, *Maran Atá* — esta palavra é composta de siríaco e hebraico, e significa: o Senhor vem —; como se dissesse: quem não ama a Cristo seja separado dele, quando o próprio Senhor vem para julgar. Ou então: seja anátema, e para seu mal; porque o Senhor vem talvez hoje ou amanhã, para dele se vingar. Esta é, porém, a minha saudação, da qual separo os ímpios: *a graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco; e o meu amor esteja com todos vós*, isto é, que todos me ameis, embora eu vos tenha corrigido um pouco mais asperamente; e isto *em Cristo Jesus*, isto é, por amor de Cristo Jesus. *Amém*, isto é, assim seja.

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# Segunda Epístola aos Coríntios



# Prólogo

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

Paulo escreve de novo esta Epístola aos coríntios, dos quais havia corrigido suficientemente alguns pela primeira Epístola; mas alguns deles ainda estavam oprimidos por este erro: preferiam os falsos doutores a Paulo, acusando Paulo da simplicidade de sua linguagem, exaltando os falsos apóstolos na sabedoria carnal. Por isso nesta Epístola também se demora bastante em deprimir os falsos doutores e em recomendar o seu apostolado; antes de tudo, aconselhando no bem os que eram justos entre os coríntios, quer os que agora haviam sido bem corrigidos pela Epístola de Paulo, quer os que perseveraram desde o princípio da fé recebida; estes, com efeito, sofriam muito de irmãos perversos, que aqueles falsos apóstolos incitavam contra os santos. E, consolando indistintamente todos os bons, a respeito daquele que nominalmente repreendera, por ter presumido tomar a mulher do pai, porque soube que foi bem corrigido, dá preceito singular, para que fosse restituído à Igreja, da qual suportou humildemente ter-se alienado por causa do pecado. Quanto às coletas também, de que lhes havia escrito na primeira Epístola, trata nesta mais amplamente, para que, os que haviam abusado da breve admoestação, com a admoestação repetida e mais prolongada sobre o mesmo não ousem desprezar. Nesta Epístola, a matéria são os próprios coríntios, corrigidos ou não corrigidos: trata deles consolando os bons, para que não desfaleçam nas adversidades, mas, pela paciência das tribulações, progridam à porfia no aumento das virtudes; aos não corrigidos, porém, censura o erro e o pecado, com a intenção, tida em ambos, de reduzir a diversidade deles a certa unidade, a saber, para que tanto os bons progridam para o melhor, quanto os maus, afastando-se do seu erro, sigam os bons por salutar imitação.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à Igreja de Deus que está em Corinto, com todos os santos que estão em toda a Acaia. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que possamos nós também consolar os que estão em qualquer aflição, pela exortação com que nós mesmos somos exortados por Deus. Porque, assim como abundam em nós os sofrimentos de Cristo, assim também, por Cristo, abunda a nossa consolação. Se somos atribulados, é para a vossa exortação e salvação; se somos consolados, é para a vossa consolação; se somos exortados, é para a vossa exortação e salvação, que opera a tolerância dos mesmos sofrimentos que nós também padecemos; de modo que a nossa esperança a vosso respeito é firme, sabendo que, assim como sois companheiros nos sofrimentos, assim o sereis também na consolação. Pois não queremos que ignoreis, irmãos, a tribulação que nos sobreveio na Ásia, porque fomos sobrecarregados além da medida, acima das nossas forças, a ponto de nos causar tédio até o viver. Mas em nós mesmos tivemos a resposta da morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos; ele nos livrou de tão grandes perigos e nos livra; nele esperamos que ainda nos livrará, ajudando-nos também vós com a oração por nós; para que, da parte de muitas pessoas, pelo dom que nos foi concedido, sejam dadas por muitos graças por nós. Pois a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que na simplicidade do coração e na sinceridade de Deus, e não na sabedoria carnal, mas na graça de Deus, nos temos comportado neste mundo, e mais abundantemente para convosco. Pois não vos escrevemos outras coisas além das que lestes e conheceis. Espero que até o fim conhecereis, como já em parte nos conhecestes, que somos a vossa glória, assim como vós sois a nossa, no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. E com esta confiança quis primeiro ir ter convosco, para que tivésseis uma segunda graça; e passar por vós à Macedônia, e da Macedônia vir de novo a vós, e por vós ser encaminhado para a Judeia. Tendo, pois, querido isto, porventura usei de leviandade? Ou o que projeto, projeto-o segundo a carne, de modo que em mim haja o Sim e o Não? Deus é fiel, e a nossa palavra que vos foi dirigida não é Sim e Não. Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo, que entre vós foi pregado por nós, por mim, Silvano e Timóteo, não foi Sim e Não, mas nele houve Sim. Pois todas as promessas de Deus nele são Sim; por isso, por ele também dizemos Amém a Deus, para nossa glória. Aquele que nos confirma convosco em Cristo e que nos ungiu é Deus; ele também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações. Eu, porém, invoco a Deus por testemunha sobre a minha alma, de que, para vos poupar, não fui mais a Corinto; não que dominemos a vossa fé, mas somos colaboradores da vossa alegria; pois estais firmes na fé.

## Comentário

Segundo o seu costume antepõe a saudação, dizendo: *Paulo* (nome que é tanto de humildade quanto de autoridade), Paulo, digo, *apóstolo*, isto é, enviado *de Cristo Jesus*, anuncia, com efeito, a glória de Cristo; apóstolo, digo, não por temerária presunção como os falsos apóstolos, mas *pela vontade*, isto é, pelo beneplácito de Deus; e com ele *o irmão Timóteo*, isto é, cooperador na obra de Cristo — põe por isso Timóteo, por quem enviara a primeira Epístola, para que saibam que lhe são conhecidas todas as coisas que entre eles se fazem —; Paulo, digo, e Timóteo escrevem *à Igreja*, isto é, à convocação dos fiéis; à Igreja, digo, *de Deus*, isto é, na qual a graça de Deus opera, e não os méritos dos doutores, como os falsos apóstolos se gloriam; à Igreja, digo, *que está em Corinto* (aos coríntios, com efeito, escreve à Igreja) *com todos*, isto é, e a todos *os santos*, isto é, santificados no batismo por Cristo; com todos, digo, *que estão em toda a Acaia*; como se dissesse: à Igreja de Corinto e a todas as Igrejas a ela sujeitas; Acaia, com efeito, diz-se a província em que estava situada a metrópole Corinto. *A vós*, coríntios, *seja graça*: aos que pecaram, segunda remissão; aos que foram bem corrigidos, ou que depois da fé recebida não pecaram, perseverança da graça bem guardada; *e* (isto é, a saber) *paz*, isto é, boa tranquilidade de ânimo, *da parte de Deus*, que pode, *nosso Pai*, que tem para conosco afeto piedoso, *e do Senhor Jesus Cristo*, que igualmente pode e quer, porque salvar-nos é o seu ofício.

Agora, antes de tudo, dá graças a Deus pela perseverança dos que não haviam caído e pela correção dos que, desprezado o erro, se haviam bem emendado; e consola-os com o seu exemplo, para que sejam fortes nas adversidades, quaisquer que lhes convenha padecer, dizendo: porque vos vejo trabalhar na fé de Cristo, daí dando graças, digo: *Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo*: é seu Deus, enquanto Cristo foi homem; é Pai de Cristo, segundo a Deidade em que o Filho é igual ao Pai: ele mesmo, contudo, tem princípio do Pai, não o Pai dele. Se ele é Pai de Jesus Cristo, como nós somos filhos de Cristo, assim temos por Cristo a Deus por Pai. Os dois ditos, Deus e Pai, dizem respeito a Cristo; os dois mesmos que seguem dizem respeito aos homens: bendito seja também aquele que é Deus e Pai de Cristo, é também *Pai das misericórdias* — podendo dizer "doador das misericórdias", disse "Pai", para mostrar que é doador e que, por afeto paterno, nos dá os bens —; Pai, digo, das misericórdias, *e Deus de toda consolação*. Misericórdias dizem-se todos os dons de Deus, quer dados nas adversidades, quer nas prosperidades; consolação, porém, diz-se somente onde houve desolação. Poderia também dizer, se quisesse, Pai da consolação e Deus das misericórdias, e seria o mesmo. Deus, digo, de consolação não imperfeita, mas *de toda*, isto é, perfeita: em tudo o que somos desolados, Deus tem poder e está à mão para nos consolar.

Porque a consolação lhes era agora mais oportuna, por isso se demora mais nos bens da consolação, dizendo: *Deus nos consola*, a mim e aos meus condiscípulos, *em toda a nossa tribulação*, que padecemos, e não numa só, mas em toda — onde quer que sejamos atribulados, com efeito, fácil ou difícil segundo o modo da tribulação, está à mão o remédio do consolador —; consola, digo, não só para nos libertar, mas também *para que possamos nós também*, os que somos atribulados, *consolar os que* agora parecíamos desolados, tanto pelo exemplo da nossa paciência quanto pela exortação da palavra; consolar, digo, *os que estão em qualquer aflição*, de tribulações; e não em uma só, mas em toda aflição interior ou exterior, podemos consolá-los *pela exortação*. Poderia dizer "pela consolação", mas, para mostrar que não somos simplesmente consolados, mas também feitos mais fortes, diz "pela exortação com que os outros santos e nós mesmos somos exortados por Deus", para que, vendo Deus presente a nós na tribulação, em nada duvidemos de irromper em quaisquer tormentos, e convidemos os outros ao exemplo e virtude da paciência, por palavra e exemplo.

E na verdade somos exortados por Deus; *porque, assim como abundam em nós os sofrimentos de Cristo*, isto é, os que suportamos, ou pelo nome de Cristo, ou por exemplo de Cristo, padecidos por nós; assim como, com efeito, os sofrimentos abundam em nós, assim copiosamente abunda também a nossa consolação, por Cristo que nos consola; ou então, por Cristo, porque somos consolados pelo exemplo de sua paciência. E tudo o que padecemos, e quando somos consolados, isto não é só por nós, mas também para a vossa instrução; *se somos atribulados*, isto se faz para a *vossa exortação*, para que sejais fortes em padecer as tribulações, e assim *para a salvação* eterna a ter; *se somos consolados*, isto se faz para a vossa consolação, para que saibais que sereis igualmente consolados por Deus na tribulação, e assim para a futura salvação a ter; *se somos exortados*: tudo isto se faz para a vossa exortação, para que, pelo nosso exemplo e doutrina, sejais exortados ao melhor, e assim para a salvação a vós. Deve-se ver que estas palavras, "somos atribulados, somos consolados, somos exortados", leem-se aqui em sentido passivo.

Na verdade tudo por vós, porque *a tribulação, a consolação e a exortação operam em vós, pela nossa palavra e exemplo, a tolerância dos mesmos sofrimentos que nós também padecemos*, nós que somos de tanta autoridade junto a Deus: não vos admireis, portanto, se Deus permite que vós, inferiores, sejais vexados. Opera em vós a tolerância, *de modo que a nossa esperança*, tida *a vosso respeito*, com que esperamos que perseverareis no bem e alcançareis a salvação eterna, *seja firme*, isto é, permanente e robustecida pela verdade da virtude. Não diz "de vós", mas "a vosso respeito", para mostrar que a sua caridade está afetuosamente solícita pelo bem deles. Padecemos, digo, *sabendo que, assim como sois companheiros* — não digo participantes — *nos sofrimentos, assim o sereis também na consolação*, que esperamos futura para nós e para vós na glória: e por chamá-los companheiros, anima muito à paciência.

Por esta ocasião, porque começou a falar dos sofrimentos, passa a enumerar as dificuldades que padeceu na Ásia; faz isto para que os coríntios não pudessem objetar: com o teu exemplo, Paulo, nos provocas a suportar tribulações, tu que talvez nunca tenhas sido atribulado tão gravemente como nós. A letra liga-se assim: digo bem "padecemos"; *pois fomos sobrecarregados além da medida na Ásia.* Mas antes de o dizer, antepõe por que querem que tudo o que vai dizer diga respeito a eles: fomos sobrecarregados, sim; e *não queremos que ignoreis, irmãos, a tribulação que nos sobreveio na Ásia* — ali, com efeito, em Éfeso, porque libertou uma jovem que tinha espírito pitônico e assim tirou aos senhores dela o lucro que tinham da adivinhação da jovem, por instigação deles toda a cidade se precipitou sobre ele; e, querendo ele dar razão, clamavam para que não fosse ouvido: Grande é a Diana dos efésios; e ali o afligiram com tantos açoites que na praça foi deixado como morto —; isto, digo, não quero que ignoreis, *porque ali em Éfeso fomos sobrecarregados além da medida* das tribulações anteriores, *acima das nossas forças humanas*; a virtude do homem, com efeito, não poderia padecer tanto. Assim fomos sobrecarregados *a ponto de nos causar tédio*, não digo o sofrer, mas *até o viver*: e não só nos causou tédio viver, mas *também nós mesmos tivemos em nós*, isto é, em nossa alma, *a resposta da morte*; porque, consultando a nossa alma sobre se por acaso escaparíamos vivos, respondia-nos a morte.

Para que, por dizer "causava-nos tédio viver nos tormentos", não se julgasse que contradiz o que diz: "Deus nos consola em toda a nossa tribulação", contra isto diz: fomos sobrecarregados até o tédio da vida e a resposta da morte *para que não confiássemos em nós*, isto é, para que nada atribuíssemos às nossas forças, *mas só em Deus*, que *ressuscita os mortos*; livrou-me, com efeito, da morte, isto é, daquilo por que outro homem morreria; *ele que também frequentemente nos livrou de tão grandes perigos* que padecemos: *nele*, obrando bem, *esperamos que, como outrora, assim também no futuro ainda nos livrará*, ajudando-nos nesta libertação os outros fiéis e vós *com a oração*, isto é, pela oração feita por nós; ajudando-nos, digo, de modo que por muitos ajudantes sejam dadas a Deus graças por nós; graças, digo, *pelo dom* que nos foi concedido, isto é, pela paciência, pela esperança e por todo bom dom que há em nós; sejam dadas, digo, *da parte de muitas pessoas*, isto é, *de pessoas de muitas faces*, isto é, de pessoas variadas na multiforme face das virtudes. Assim como o homem se distingue de outro pela face, assim na Igreja este se distingue de outro como pela face na humildade, e outro por aquele na paciência, e assim os membros da Igreja têm faces distintas, diversas virtudes. De pessoas de muitas faces, isto é, distintas pela variedade das virtudes, sejam dadas graças a Deus por nós. Ou assim: de pessoas de muitas faces, isto é, da diversidade de idades e sexo: chamando pessoas de muitas faces os meninos, jovens e demais idades de ambos os sexos. Ou assim: sejam dadas por nós graças do dom que está em nós; sejam dadas, digo, por muitos; e o que digo "por muitos" é "de pessoas de muitas faces". Pelo que diz, "ajudando-nos vós por nós", bastante os recomenda e atrai a si, a quem estima tanto que são dignos de interceder pelo Apóstolo; nestas palavras, com efeito, os iguala a si.

Até aqui consolou os perfeitos dentre os coríntios; aqui parece passar àqueles que, ainda não bastante corrigidos, aderiam aos falsos mestres, lembrando aqui quão dignamente se portou entre eles e como em nada lhes foi pesado, de quem nem sequer recebeu os víveres, dizendo: é digno que deis graças por nós; *pois nós nos comportamos entre vós na simplicidade e na sinceridade.* Mas antes de o dizer, antepõe o testemunho desta coisa, dizendo: embora vós negueis que nos comportamos bem entre vós, não me importo; *pois a nossa glória é esta*, isto é, nisto muito me glorio da pureza da minha conduta, tendo *o testemunho da nossa consciência*; a consciência, com efeito, me é testemunha de que *na simplicidade*, não para vos defraudar de vossos bens, como os falsos apóstolos, mas na simplicidade, nada recebendo de vós, *e na sinceridade de Deus*, isto é, na pureza da fé, não misturando, como eles, o falso com o verdadeiro, *e não na sabedoria carnal*; não aderi, com efeito, às doutrinas carnais, como eles; mas *na graça de Deus*, isto é, engrandecendo a graça de Deus, da qual vem todo o bem, e nada da sabedoria carnal; na graça, digo, de Deus, *nos temos comportado neste mundo*; *mais abundantemente, porém, nos comportamos para convosco*, entre quem suportei coisas maiores, nada recebendo de vós, para não perder a autoridade de vos arguir.

Diriam os coríntios: Paulo faz aqui memória de sua conduta para receber multiplicado o que outrora não recebeu. Contra isto Paulo: não julgueis que eu recordo a minha conduta entre vós com a intenção de receber de vós; *pois não vos escrevemos outras coisas nesta Epístola além das que lestes* na primeira Epístola, na qual escrevi que nada receberia de vós; nem escrevemos agora outras coisas além das que *conhecestes* de nós, enquanto estivemos convosco, nada recebendo de vós, mas vivendo do trabalho das mãos. E, como então conhecestes, assim espero que *até o fim conhecereis* que nada recebo de vós, como já conhecestes também a nós permanecendo entre vós; conhecestes, digo, *em parte*, isto é, segundo a obra que víeis por fora, mas a outra parte, isto é, a vontade, ignoráveis. Por isso quis ser conhecido por vós tal, a saber, nada recebendo de vós, *porque somos a vossa glória, assim como vós sois a nossa*, isto é, porque quis gloriar-me na vossa obediência e que vós vos gloriásseis na nossa doutrina: glória que certamente não seria, se vos pesasse, recebendo de vós bens temporais; preferiríeis, com efeito, repelir o Doutor a sustentá-lo: glória que me aparecerá de vós e a vós de mim *no dia de nosso Senhor Jesus Cristo*, quando vós, pela obediência exibida, eu, pela doutrina, seremos remunerados.

Passa de novo a outro assunto; aqueles, com efeito, o acusavam de leviandade, porque na primeira Epístola dissera que iria a eles e não fora; de mentira, porém, não podiam arguí-lo, pois dissera: irei, se o Senhor permitir. A letra liga-se assim: *e com esta confiança*, ou porque me comportei simples e sinceramente entre vós, ou porque vós sois a minha glória, eu a vossa; com esta, digo, confiança *quis ir ter convosco*; antes queria, mas agora não quero: queria certamente então, *para que, pela minha vinda, tivésseis uma segunda graça*, isto é, porque pecastes depois do batismo, para segunda remissão; *e* queria *passar por vós à Macedônia, e da Macedônia*, voltando, *de novo queria vir a vós, e por vós queria ser encaminhado para a Judeia*: e porque assim antes quis, *tendo, pois, querido isto*, isto é, ir a vós, *porventura usei de leviandade*, porque não fui como antes quis? *Ou, por não ter ido, o que projeto, projeto-o segundo a carne*, isto é, projeto proveito carnal, a ponto de ter deixado de ir porque nada esperasse receber de vós? *Projeto*, digo, *segundo a carne, de modo que em mim haja Sim e Não*, isto é, afirmação e negação do mesmo? Que em mim não haja Sim e Não aparece naquele discurso que foi o nosso discurso entre vós quando estive presente entre vós; porque naquele discurso então proferido não houve Sim e Não, isto é, afirmação e negação do mesmo: e que assim seja, sabe-o *Deus*, que é fiel e veraz. Ou de outro modo: na verdade em mim não houve Sim e Não; porque Deus é fiel, isto é, veraz; como Deus prometeu dar doutores da verdade, se me instituiu doutor da falsidade, certamente é réu de mentira. E que Deus seja fiel prometendo doutores da verdade aparece nisto: porque o nosso discurso que foi entre vós, naquele discurso não houve Sim e Não. Na verdade Deus é fiel; *pois o Filho de Deus, Jesus Cristo*, que Cristo foi pregado entre vós por nós, a saber, *por mim, Silvano e Timóteo*; naquele Cristo não houve Sim e Não, isto é, afirmação e negação do mesmo, *mas nele houve sempre Sim*, isto é, verdade, quer negando, quer afirmando. Na verdade nele não houve Sim e Não; *pois todas as promessas de Deus Pai*, quantas sejam, *nele são Sim*, isto é, verdadeiras e cumpridas. Ou ainda igualmente: e porque pelo Cristo foram cumpridas as promessas de Deus Pai, nele são Sim, isto é, verdadeiras e cumpridas as promessas de Deus; *por isso, por ele* mesmo, Cristo, *dizemos também Amém*, isto é, assim cumprido como prometido; e tudo isto *a Deus*, isto é, para a glória de Deus, *e para nossa glória*, porque pela verdade de Deus se comprova a nossa verdade. Embora eu diga "para nossa glória", a glória, contudo, não é devida a nós, mas a Deus; *Deus que nos confirma convosco*, para que a verdade esteja em vós, e isto *em Cristo*; Deus que *nos ungiu* com o óleo da santificação no batismo; que *também nos selou*, isto é, deu sinal de distinção dos outros, a saber, deu-nos virtudes; que *também deu o penhor do Espírito*, isto é, o Espírito Santo, para ser para nós arras da glória futura; Espírito que deu *em nossos corações* como habitante contínuo: e, estando o Espírito Santo em nós, não se deve crer que tenha havido em nós leviandade ou mentira.

Depois de se escusar de que nem por leviandade nem pensando segundo a carne deixou de ir a eles, acrescenta a causa por que não foi, dizendo: não deixei de ir por leviandade ou por pensar carnalmente, mas *para vos poupar não fui*; e para que acrediteis que para vos poupar não fui, *invoco a Deus por testemunha* disto — os maus, negligentes em ofender a Deus, não se importariam muito de invocar a Deus como testemunha de falsidade; mas Paulo, que se pusera todo em Deus, não presumiria fazer Deus testemunha de coisa que não julgasse verdadeira; agindo de outro modo, com efeito, arguiria Deus de mentira —; invoco certamente a Deus por testemunha, não só *contra o corpo*, de modo que, se eu mentir, me puna só no corpo, mas também *sobre*, isto é, contra *a minha alma*, para que a perca com o corpo, se faço Deus testemunha de mentira. Por isso invoco a Deus por testemunha, *de que, para vos poupar*, isto é, para mais comodamente vos poupar, *não fui mais a Corinto*, isto é, além da primeira vez.

Antes de dizer em que lhes poupou, não indo, determina aqui o que diz "poupando"; os coríntios, com efeito, espreitando suas palavras, diriam: dizes que nos poupaste, como se tivesses poder régio de nos coagir por tua vontade. Não digo "poupando" porque *dominemos a vossa fé*; a fé, com efeito, é coisa voluntária, que não se coage por necessidade de domínio. Diz-se dominar naqueles poderes em que o filho sucede ao pai por uso necessário; mas nos prelados da Igreja (mesmo nos seculares que presidem não por lei de sucessão, mas por eleição) deve dizer-se antes servidão do que domínio; por isso diz: *não dominamos a vossa fé*, mas *somos colaboradores*, não cessando de orar a Deus pela vossa correção; colaboradores, digo, *da vossa alegria*; naquilo, com efeito, vos ajudamos de que haveis de ter alegria permanente; por isso nos deveis obedecer. Na verdade não vos dominamos; *pois estais firmes na fé*, que é coisa de vontade, não de necessidade, se estais firmes.

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Resolvi, pois, comigo mesmo não ir de novo a vós em tristeza. Porque, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que é entristecido por mim? E isto mesmo vos escrevi, para que, quando eu for, não tenha tristeza sobre tristeza da parte daqueles de quem eu devia receber alegria; confiando em todos vós que a minha alegria é a de todos vós. Pois vos escrevi com muita tribulação e angústia de coração, por entre muitas lágrimas, não para vos entristecer, mas para que saibais quão abundante é a caridade que tenho por vós. Se alguém, porém, causou tristeza, não a causou a mim, mas, em parte, a todos vós, para não vos sobrecarregar a todos. Basta a tal pessoa esta repreensão feita por muitos; de modo que, ao contrário, mais lhe perdoeis e o consoleis, para que não suceda que tal pessoa seja absorvida por tristeza ainda maior. Por isso vos rogo que confirmeis para com ele a caridade. Pois também por isto vos escrevi, para conhecer a vossa prova, se sois obedientes em tudo. A quem perdoais alguma coisa, também eu perdoo; pois o que eu perdoei, se algo perdoei, foi por vossa causa, na pessoa de Cristo, para não sermos enganados por Satanás; pois não ignoramos os seus desígnios. Quando cheguei a Trôade para pregar o Evangelho de Cristo, e me foi aberta uma porta no Senhor, não tive repouso para o meu espírito, por não ter encontrado Tito, meu irmão; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia. Graças, porém, a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo Jesus, e por nós manifesta em todo lugar o odor do seu conhecimento; pois somos para Deus o bom odor de Cristo, entre os que se salvam e entre os que perecem: para uns, odor de morte para a morte; para outros, odor de vida para a vida. E para estas coisas, quem é idôneo? Pois não somos como muitos, que adulteram a palavra de Deus, mas falamos com sinceridade, como da parte de Deus, diante de Deus, em Cristo.

## Comentário

Depois de ter determinado o que quis dizer com "poupando", determina em que poupou, dizendo: eu não fui a Corinto, mas *resolvi comigo mesmo isto mesmo* que na primeira Epístola decidira; resolvi, digo, comigo mesmo, não por precipitação de sentença inconsiderada, mas ponderando diligentemente em mim, resolvi por conselho *não ir de novo a vós em tristeza*, isto é, para vos entristecer. Diz "de novo" porque na primeira Epístola viera entristecê-los, pois haviam caído em pecado, se não presencialmente, ao menos por Epístola. Ou assim: eu já viera uma vez, mas por isso não quis vir de novo, para que a minha vinda não vos fosse em tristeza. Por isso Paulo não quis vir, porque, se estivesse presente, convinha que afastasse da Igreja os impenitentes pela severidade do juízo; porque, presente, não poderia usar de tanta lenidade, vendo os males deles, quanta temperança usa para com eles por Epístola; e assim aconteceria este mal: que, quando devia chamá-los à unidade da Igreja, antes, pelo rigor da justiça, separaria uns dos outros aqueles que, ausente, pela lenidade da misericórdia poderia chamar à unidade; o que certamente fez. Por isso não quis vir de novo, *porque, se eu vos entristeço* de qualquer modo, *quem me alegrará* entre vós, *senão aquele que é entristecido por mim*, isto é, segundo a minha vontade, para que, entristecido do pecado, se arrependa? Se eu viesse, não aconteceria que alguém me alegrasse deste modo; estando eu presente, com efeito, o rigor da justiça mais vos atemorizaria do que persuadiria à penitência. Insinua também isto, como se dissesse: por Deus certamente deveríeis arrepender-vos e, omitindo isto, por esta só causa: alegrardes a mim, vosso doutor.

*E isto mesmo*, a saber, para que, indo em tristeza, não achasse ninguém que me alegrasse, *vos escrevi*, para que, quando eu for presencialmente, *não tenha tristeza sobre tristeza.* Terei certamente esta espécie de tristeza, ouvindo que pecastes, em segundo lugar, se, indo, vos achar incorrigidos; e para vos achar corrigidos, escrevo agora que só me alegro naquele que se entristece para a penitência. Tristeza, digo, *terei* de vós incorrigidos, *de quem devia* agora em primeiro lugar *receber alegria*, bem corrigidos. E na verdade me alegrarei como convinha; *pois estou confiante em todos vós* de que me alegrarei com a vossa correção, porque, enquanto estava convosco, *a minha alegria era a de todos vós*; porque, assim que me víeis alegre, mesmo sem entender a coisa de que me alegrava, com piedoso afeto vos alegráveis comigo; e por isso confio que na verdade me alegrarei por vós corrigidos. Ou assim: estou confiante em vós, porque a minha alegria é a de todos vós, isto é, que a alegria futura que espero, para que sejais dignos de ter, peço a Deus, e confio que a tereis. Por isso diz "confiando em todos", para que os que pecam não julguem que Paulo desconfia de sua salvação.

Porque disse: "terei tristeza sobre tristeza", dir-me-iam: tiveste tristeza? Certamente tive; *pois vos escrevi com muita tribulação* do corpo, jejuando, vigiando, para que Deus vos poupasse; e *com muita angústia de coração*, solícito da vossa salvação, vos escrevi, afligindo-me *por entre muitas lágrimas.* Nem por isso lembro ter sido atribulado e angustiado para que vos entristeçais comigo; *mas para que saibais quão grande caridade tenho para com todos*; caridade, digo, *mais abundantemente* mostrada *em vós*, entre os quais permaneci por mais tempo e, nada recebendo de vós, vivi do trabalho das mãos. Mostrada a causa por que não foi a eles, causa idônea à persuasão da correção, acrescenta sobre aquele que mandara separar da Igreja em outra Epístola, porque tomara a mulher do pai; cuja penitência, porque ouviu ser digna de indulgência, escreve à Igreja dos coríntios que o recebam, sabendo que Paulo lhe perdoou. A letra liga-se assim: não quero que vos entristeçais; *mas se alguém me entristeceu*, como aquele que tomou a mulher do pai, *não me entristeceu só a mim, mas a vós*; e isto *em parte*, não todos, com efeito, vos entristecestes, mas só os bons se condoeram do irmão que pecava; *em parte* digo por isso, *para não vos sobrecarregar a todos*, isto é, indigno é impor este fardo a todos vós, de que não vos compadecêsseis do irmão: diz isto, porém, ironicamente, por causa daqueles que se ensoberbeceram da queda do irmão, de quem deviam condoer-se. Ou assim: não me entristeceu só a mim, mas a vós em parte, isto é, segundo a parte dos bons; e excetuo esta parte, para não sobrecarregar a todos vós quanto ao desprezo do irmão que pecava; alguns de vós, com efeito, como era justo, condoeram-se.

Daquele, porém, que me entristeceu e a vós, sabei que *basta a tal pessoa*, isto é, de tão grande fragilidade que, se for vexado por demasiada constrição, desesperará; a tal pessoa, digo, *basta esta repreensão*, com que o repreendestes expulsando-o da Igreja por causa do pecado; repreensão, digo, que lhe foi feita *por muitos* que justamente se condoíam do irmão que pecava, basta; *de modo que*, vós agindo ao contrário, assim como antes o separastes da Igreja, agora ao contrário o restitua à Igreja; ao contrário, digo, assim como mais o repreendestes, e ele o suportou pacientemente, *assim mais lhe perdoeis*, isto é, remitais o seu pecado; e para que ele não julgue que fazeis isto como não vos importando com ele, *consoleis-o* frequentemente pelas consolações das Escrituras: por isso, digo, *perdoeis e consoleis, para que não suceda* (o que logo poderia acontecer) *que tal pessoa*, isto é, de muita fragilidade, *seja absorvida*, isto é, desesperando seja devorada *por tristeza ainda maior*; se o coagirdes além da medida, com efeito, desesperará da salvação e logo se envolverá em pecado ainda pior: melhor é, com efeito, a misericórdia para a salvação do que a severidade da justiça que gera desespero. *Por isso*, para que ele não seja absorvido, quando eu poderia mandar, antes por caridade *vos rogo que confirmeis para com ele a caridade* bem começada — foi caridade, com efeito, ter-no expulsado da Igreja, por meu preceito, para que se corrigisse —, rogo, digo, que *confirmeis* esta caridade, isto é, mostreis firme e perfeita para com ele, perdoando e recebendo-o na Igreja, caridade que começastes rejeitando-o. Deveis perdoar-lhe; *pois também por isso vos escrevi*, para que consumeis a caridade começada, *e para conhecer a vossa prova*, isto é, a vós provados, quando por obediência o separastes da Igreja; conhecerei, digo, *se sois obedientes em tudo*, para que, como antes obedecestes afastando-o, assim agora obedeçais perdoando-lhe. E, como advirto, deveis perdoar; *porque, se vós perdoais algo a alguém, também eu perdoo com vós.*

Dir-me-iam: perdoaste talvez, mas não por nossa causa. Assim é, digo; *pois o que eu perdoei, se alguma vez perdoei algo, foi por vossa causa que perdoei.* Reprimindo assim a sua palavra, "se algo perdoei", mostra que raramente perdoou por outro, para nos advertir de que os pecados não se devem perdoar por afeição carnal, mas antes pelo fruto da penitência. De novo aqueles: que importa se tu perdoaste? Muito, certamente, porque *perdoei na pessoa de Cristo*; valeu o mesmo àquele a quem perdoei como se Cristo lhe perdoasse em própria pessoa. Convém, certamente, que vós também lhe perdoeis, por mim, *para não sermos enganados*, isto é, para que não sejamos iludidos *por Satanás*; assim como, com efeito, na demasiada brandura engana, assim na severidade excessiva o diabo cerca. Por isso advirto que não sejais enganados por Satanás, porque *não ignoramos os seus desígnios*, de Satanás, quão astutos são, [de modo que] mesmo onde reconhecemos a virtude, como em disciplinar o pecador, ele insinue a sua falácia.

Mostra de novo Paulo que a culpa foi deles, ao mudar o propósito de ir a eles, porque os ouviu incorrigidos: não fui mais a Corinto, mas fui até Trôade; *quando cheguei a Trôade para pregar o Evangelho de Cristo* (por toda parte, com efeito, pregava), *e* quando ali, em Trôade, *me foi aberta uma porta*, isto é, as mentes deles estavam preparadas para receber a palavra de Cristo, *e isto no Senhor*, pois o Senhor lhes abria os corações; *chegando assim, não tive repouso para o meu espírito* — diz não ter tido repouso porque então não pôde trabalhar na pregação —; repouso não tive, *por não ter encontrado em Trôade Tito, meu irmão.* Por Timóteo e Tito enviara a primeira Epístola aos coríntios; Timóteo, porém, voltara a Paulo; mas Tito ainda era retido em Corinto, trabalhando na correção deles: o fato de, por causa da ausência de Tito, não ter podido pregar aos de Trôade foi culpa dos coríntios, cuja incorrigibilidade retinha Tito. Por causa de Tito, Paulo não quis pregar em Trôade, ou porque Tito antes lhes pregara, para que Paulo, pregando na ausência dele, não parecesse diminuir o poder de Tito; ou porque Tito era intérprete de Paulo e podia falar a língua deles mais expressivamente. Certamente não tive repouso, mas, *despedindo-me* dos de Trôade, *parti para a Macedônia.* Estes macedônios receberam o Apóstolo com grande honra, a ponto de poder dispor também de seus bens o que quisesse.

Aqui Paulo começa a engrandecer-se a si e ao seu ministério, e a deprimir de muitos modos os falsos apóstolos, porque alguns dos coríntios os preferiam a Paulo. *Parti para a Macedônia*; ali, porém, fui constituído triunfador em Cristo, e daí *dou graças a Deus, que sempre nos faz triunfar*, isto é, faz-nos triunfar *em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo Jesus, em quem não triunfam os falsos apóstolos; e *que Deus manifesta o odor do seu conhecimento*, isto é, Cristo: por cuja humanidade cheiramos a essência divina e indivisível; ou então, manifesta por nós o odor do seu conhecimento, isto é, a nossa pregação, pela qual a virtude de Deus se manifesta *em todo lugar* onde pregamos. Manifesta certamente por nós; *porque somos o bom odor de Cristo*, isto é, se alguém considera a pureza dos nossos atos, pode cheirar a bondade de Cristo, de quem somos ministros; bom, digo, odor somos, e, se não para alguns incrédulos, ao menos *para Deus*, que vê o interior do nosso coração; bom odor somos, digo, quanto a Deus, *tanto entre os que se salvam* pelo nosso Evangelho *como entre os que perecem*, pelo desprezo do mesmo Evangelho. Quanto a Deus, somos bom odor tanto nos que hão de ser salvos como nos que hão de perecer; quanto aos homens, porém, *para uns*, certamente, *somos odor de morte*; os incrédulos, com efeito, ouvindo de nós a fé de Cristo, dizem que cheiram coisa mortífera; odor de morte, digo, que vale *para a morte*, isto é, para a condenação deles; *para outros*, porém, isto é, os fiéis, *somos odor de vida*; pela nossa doutrina, com efeito, cheiram a vida da justiça, indo assim *para a vida* eterna. Deus por nós manifesta o odor da sua justiça; e *para manifestar estas coisas, quem é idôneo* entre os falsos apóstolos tanto como eu e os meus co-apóstolos? Ninguém certamente é tão idôneo; *pois não somos como muitos*, a saber, os falsos apóstolos, *que adulteram a palavra de Deus* — assim como o adúltero usurpa ilicitamente a coisa alheia, assim os falsos apóstolos usurpam o ministério da pregação que ninguém lhes impôs: assim como o adúltero não procura fruto de prole na obra de sua torpeza, mas somente satisfazer a libido, assim aqueles falsos apóstolos só para poderem lucrar bens temporais; não se importam com aqueles a quem ensinam, quer pereçam, quer não pereçam —; não adulteramos, digo, a palavra de Deus, *mas falamos com sinceridade*, isto é, segundo a pura verdade da fé: não adulteramos, de novo, mas *falamos em Cristo*, isto é, segundo a fé e a instituição de Cristo; *falamos como da parte de Deus*, isto é, segundo o que Deus insinua que se fale; *e diante de Deus*, isto é, no beneplácito de Deus.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Começamos de novo a recomendar-nos a nós mesmos? Ou será que precisamos, como alguns, de cartas de recomendação para vós, ou de vós? Nossa carta sois vós, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens: manifestando que sois carta de Cristo, entregue ao nosso ministério e escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, as do coração. Tal confiança temos, por Cristo, diante de Deus; não que sejamos capazes por nós mesmos de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, que também nos fez ministros idôneos do novo Testamento, não da letra, mas do espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica. Se o ministério da morte, gravado em letras sobre pedras, foi glorioso, a ponto de os filhos de Israel não poderem fixar o rosto de Moisés por causa da glória do seu semblante, que era passageira, como não será mais glorioso o ministério do Espírito? Pois, se o ministério da condenação é glória, muito mais abunda em glória o ministério da justiça. Pois nem foi glorificado, nesta parte, o que resplandeceu, em comparação com a glória excelente. Se, com efeito, o que é passageiro vem com glória, muito mais o que permanece está em glória. Tendo, pois, tal esperança, usamos de muita confiança; e não como Moisés, que punha um véu sobre o rosto (Ex 34,33), para que os filhos de Israel não fixassem o olhar no fim do que era passageiro; mas os seus sentidos ficaram embotados. Pois até o dia de hoje permanece o mesmo véu na leitura do Antigo Testamento, sem ser removido (porque em Cristo é abolido); e até o dia de hoje, quando se lê Moisés, um véu está posto sobre o coração deles. Quando, porém, se converterem ao Senhor, será tirado o véu. Ora, o Senhor é espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade. Nós todos, porém, com o rosto descoberto, contemplando como em espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de claridade em claridade, como pelo Espírito do Senhor.

## Comentário

E porque digo: ninguém é tão idôneo para estas coisas, dizeis por isso que *começamos de novo*, como na outra Epístola onde dizia: «tornei-me tudo para todos, etc.» (1Cor 9,22), *a recomendar-nos*, isto é, a engrandecer-nos a nós mesmos: certamente não a nós, mas o ministério de Deus em nós. *Ou será que precisamos, como alguns*, a saber, os falsos apóstolos, *de cartas de recomendação* enviadas por outros *para vós, ou de vós*, enviadas a outros? Estes falsos apóstolos, com efeito, para poderem lucrar mais, quando passavam de lugar em lugar, rogavam que aqueles de quem partiam os recomendassem por cartas àqueles a quem passavam. Eu certamente não preciso de cartas de recomendação; *pois vós sois a nossa carta*, porque selo do meu apostolado, eu que vos fundei na fé de Cristo; carta, digo, *escrita em nossos corações*, a vossa fé, com efeito, nunca esquecemos, mas pela vossa salvação rogamos solícitos a Deus: carta que *é conhecida por todos*; todos, com efeito, sabem que por mim fostes convertidos à fé: e carta que *é lida por todos*; se alguém quer saber quem sou, em vós me lê e me conhece. Vós, digo, *manifestando que sois carta de Cristo*, porque a vossa fé e boa vida mostram a virtude de Cristo; carta de Cristo, digo, *entregue ao nosso ministério*, pelo fato de serdes a minha carta, que vos instruí, e eu carta de Cristo, assim, por meu intermédio, sois carta de Cristo, que vos dispensei; carta, digo, *escrita não com tinta*, isto é, não delebilmente, ou então, com tinta, isto é, com algum contágio, como os falsos apóstolos poluem os seus seguidores, *mas com o Espírito*, isto é, indelebilmente; *do Deus vivo*, digo, que também vos fará viver perpetuamente: *não em tábuas de pedra*, de novo, isto é, endurecidas e que não sentem a palavra de Deus, mas *em tábuas de carne*, isto é, sensíveis, e que recebem a palavra de Deus para dar fruto; tábuas, digo, *do coração*, isto é, do entendimento interior. Quando diz "em tábuas de pedra", reporta-nos à memória da lei antiga, que foi dada em tábuas de pedra, significando os corações de pedra dos judeus; porque, assim como a pedra recebe escultura mas nada sente, assim os corações dos judeus receberam a casca da lei, isto é, o entendimento carnal, mas não sentiram a medula espiritual da lei, isto é, o entendimento. Disse acima: ninguém é tão idôneo como eu; de novo, vós sois a minha carta e por mim sois carta de Cristo; e a isto acrescenta: *tal confiança*, a saber, a que tive de dizer que sou mais idôneo, etc., esta tal confiança não presumimos que se refira a nós, mas *temos esta confiança* a referir *diante de Deus*; que eu seja idôneo, que vós sejais a minha carta, tudo isto Deus o opera: temos, digo, diante de Deus, *por Cristo* mediador; Cristo, com efeito, segundo o mandato de Deus, consagrou-me Apóstolo idôneo. Esta confiança certamente a temos diante de Deus; *não que sejamos capazes por nós mesmos de pensar* (quanto mais de operar) *alguma coisa*, isto é, para o nosso proveito, *como de nós mesmos*, isto é, como se isso pudesse vir das nossas forças sem a graça cooperante de Deus: e embora nada bastemos por nós, bastamos, contudo, mas aquela nossa suficiência, não só de pensar, mas, como foi dito, de operar idoneamente, toda esta suficiência, qualquer que seja, *vem de Deus*.

Recomendou bastante a sua pessoa; agora recomenda o seu ministério, que de novo reverterá em recomendação de si, dizendo: *Deus nos fez ministros idôneos.* Como idôneos mostrou acima bastante, mas de que coisa sejam ministros, acrescenta: ministros, digo, *do novo Testamento* — o Antigo Testamento foi anterior, que devia ser destruído pelo novo e instruía os carnais segundo a carnalidade; mas o Evangelho é Testamento novo, que ensina e renova o espírito do homem, e não deve ser mudado por outro testamento —; ministros, digo, do novo Testamento, *não da letra, mas do espírito*, existente não só na letra, como o antigo, mas no espírito e na letra; a lei antiga, com efeito, dava preceitos literais, mas porque não tinha a graça do Espírito, por isso prejudicava mais do que ajudava. Por isso digo que o novo Testamento está no espírito, porque, se estivesse só na letra, mataria; *pois a letra mata, mas o Espírito vivifica.* A lei antiga, que existia só na letra, diz-se matar, não porque Deus, doador da lei, ou Moisés, ministro da lei, o fizessem, mas a ímpia carnalidade dos homens, que não mereceu ter a graça auxiliadora com a letra; letra que por isso mata, porque aumenta a concupiscência do pecado, enquanto proíbe; é natureza, com efeito, de nossa fragilidade, que se precipite mais avidamente no proibido; acumula também o pecado de prevaricação, que não havia antes da lei dada. A letra, sim, assim mata; mas o Espírito, isto é, o Evangelho dado com o Espírito auxiliador, faz viver na justiça.

Recomendado o seu Evangelho, devolve a mesma recomendação a si, dizendo: e porque sou ministro do Testamento existente no espírito, por mérito da administração espiritual terei glória. Na verdade o ministério do Espírito me será glorioso, porque o ministério da morte foi glorioso para Moisés; o que diz assim: *se o ministério da morte*, isto é, da lei antiga, que, por maior concupiscência e nova prevaricação, infligia a morte; se, digo, este ministério da morte *gravado em letras*, formado só em letras, não com o auxílio do Espírito, tornado proveitoso; gravado, digo, *sobre pedras*: em tábuas de pedra, com efeito, foi dada a lei de Moisés, para significar os corações de pedra dos judeus: se, digo, este ministério de Moisés foi valioso para ter glória; *a ponto de os filhos de Israel não poderem fixar o rosto de Moisés por causa da glória do seu semblante*; *glória que é passageira*, sabemos, com efeito, que esta glória do rosto logo passou de Moisés; se, digo, o ministério da morte foi para Moisés em tanta glória, *como não será mais glorioso o ministério do Espírito*, isto é, do Evangelho com o qual por minhas mãos se administra o Espírito Santo, como isto não me será mais valioso para ter glória do que a Moisés? Não diz isto para se antepor a Moisés por mérito, mas só pela dignidade do ministério; por mãos de Moisés, com efeito, só se davam preceitos, nenhuma graça; mas por Paulo, tanto os preceitos como, pela imposição de suas mãos, a graça do Espírito Santo, que ajuda a que o homem possa operar o que se lhe ordenava. O que diz que os judeus não podiam fixar o rosto de Moisés era sinal de que não podiam captar o entendimento espiritual da lei, que o rosto, isto é, o intelecto de Moisés, conhecia lucidamente. De novo, que a glória do seu rosto fosse passageira significou que as coisas que ministrava eram temporais, não permanentes, pelas quais tinha glória temporal.

Na verdade o ministério do Espírito me será glorioso; pois administrar o Espírito é administrar a justiça; o ministério da justiça, porém, é valioso para ter glória; *pois se o ministério da condenação*, isto é, da lei antiga, que faz o pecado e a prevaricação do pecado, *é glória*; se, digo, este ministério de Moisés está em glória, *muito mais abunda em glória o ministério da justiça*, isto é, a administração da justiça me abunda em glória: abunda por isso, porque a minha glória é permanente, aquela transitória. Onde acima diz "ministério da morte", por morte entende o pecado; aqui, porém, por condenação toma a pena do pecado. Na verdade o meu ministério abunda em glória muito mais; *pois nem foi glorificado*, isto é, não deve dizer-se glorificado, *o que resplandeceu nesta parte*, isto é, no rosto de Moisés, *em comparação com a glória excelente*, isto é, em comparação com a minha glória mais excelente. Ou assim: não deve dizer-se glorificado o que resplandeceu em Moisés nesta parte, isto é, em respeito a esta minha parte, por causa da glória excelente, que é da minha parte, e não da parte de Moisés. Na verdade a minha glória é sobre-excelente; *pois a minha permanece, aquela passa*: e na verdade aquilo que permanece é para mim em glória; *se, com efeito, o que é passageiro* — o antigo Testamento, que é abolido — *vem com glória* (vale o mesmo que em glória) para Moisés, *muito mais o Evangelho meu, que permanece, está em glória*, suficiente para mim para ter glória. Deve-se notar que primeiro diz que administra o Espírito, pelo Espírito, porém, a justiça, depois o que permanece; Moisés, porém, administrou a letra contra o Espírito, a condenação contra a justiça, o que é passageiro contra o que permanece; e assim como a condenação é efeito do pecado, assim a justiça efeito do Espírito.

Até aqui antepôs o seu ministério ao ministério da lei antiga, por toda parte deprimindo os falsos apóstolos, que reconduziam a lei antiga; se Moisés, com efeito, é ministro da morte e da condenação, quanto mais os que são tão indignamente inferiores a Moisés? Porque esperamos a glória excelente, *portanto, tendo nós tal esperança*, a saber, de glória permanente, *usamos de muita confiança*, não reprimindo a palavra de Deus por temor de qualquer dificuldade; usamos, sim, de confiança, *e não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o rosto*, para que os filhos de Israel não fixassem o rosto dele; véu que agora é abolido pelo nosso Evangelho; no Evangelho, com efeito, abre-se tudo o que nas figuras da lei antiga era encerrado.

Dir-me-iam: por que dizes abolido o véu da lei, que, como antes, assim também agora é obscurecido? Contra isto Paulo: o véu da lei foi, sim, abolido, mas *os sentidos* dos ímpios *ficaram embotados* pelo pecado da infidelidade: e na verdade embotados; *pois desde o tempo da lei dada até o dia de hoje*, meu, *permanece o mesmo véu* tal como era antes *na leitura do Antigo Testamento, sem ser removido*: quando, com efeito, as figuras da lei antiga são expostas aos infiéis, a infidelidade fecha-lhes os corações, e assim o véu da lei não lhes é removido, não porque o nosso Evangelho não tire este véu, mas porque não se aproximam de Cristo, *em quem*, isto é, na fé de quem *é abolido este véu.* Há, sim, um véu no Antigo Testamento, não porque o Antigo Testamento não esteja aberto pelo Evangelho, mas porque *até o dia de hoje, quando se lê e se lhes expõe Moisés, um véu* de infidelidade *está posto sobre o seu coração* impenitente; véu que foi abolido em Cristo, a quem não querem converter-se; e que assim se deve dizer, a letra seguinte o insinua: o véu sobre o coração deles, porque não se aproximam de Cristo; mas *quando se converterem ao Senhor*, removido primeiro o véu do coração, de que tiveram ânimo de penitência, será depois removido o véu da inteligência, e conhecerão abertamente os mistérios da lei. Na verdade, porque se converterão ao Senhor, será tirado o véu; *pois o Senhor é espírito*; *e onde está o Espírito do Senhor*, isto é, o Espírito Senhor, dito intransitivamente, ou o Espírito do Senhor, transitivamente; Deus, com efeito, dá-se a si mesmo; onde está o Espírito do Senhor, *aí*, removido o véu, *está a liberdade* da inteligência. Se o Senhor é espírito, e o Espírito tira o véu, porque é liberdade, *portanto, aos convertidos ao Senhor será tirado o véu.*

Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade: *nós, porém,* temos o Espírito do Senhor? Temos certamente; *pois nós*, discípulos de Cristo, *com o rosto descoberto*, isto é, a mente iluminada, *contemplando*, da altura das virtudes em que estamos postos, ou então, contemplando, isto é, ainda não vendo perfeitamente por espelho; contemplando, ou de um ou de outro modo, *a glória do Senhor*, isto é, a essência da Deidade, *somos transformados na mesma imagem*; porque quão sutilmente Cristo entende as Escrituras, o mesmo nos ensinou pelo Espírito. Seremos transformados mais plenamente, retomando a mesma impassibilidade e imortalidade; somos transformados, digo, *de claridade em claridade*, isto é, da claridade da virtude, indo para maior claridade; ou então, da claridade da fé e da esperança, que agora existe, transferidos para a claridade da realidade, para ver a Deus como ele é; somos transformados, digo, de claridade em claridade *como pelo Espírito do Senhor*, isto é, quanto mais dignamente e mais excelentemente o Espírito do Senhor pode realizar isto.

</div>

# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, tendo este ministério, conforme a misericórdia que alcançamos, não desfalecemos, mas renunciamos às coisas ocultas e vergonhosas, não andando com astúcia nem adulterando a palavra de Deus, mas, pela manifestação da verdade, recomendando-nos a nós mesmos à consciência de todo homem diante de Deus. Se, porém, o nosso Evangelho está encoberto, está encoberto para os que perecem: nos quais o deus deste século cegou as mentes dos infiéis, para que não resplandeça para eles a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Pois não nos pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, Senhor nosso; e a nós, como vossos servos por Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, foi quem brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da claridade de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a sublimidade do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo sofremos tribulação, mas não somos angustiados; ficamos perplexos, mas não desamparados; sofremos perseguição, mas não somos abandonados; somos abatidos, mas não perecemos; trazendo sempre em nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos. Pois nós, que vivemos, somos continuamente entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. Assim, a morte opera em nós, mas a vida em vós. Tendo, porém, o mesmo espírito de fé, conforme está escrito: Acreditei, por isso falei (Sl 115,1), também nós cremos e por isso falamos; sabendo que aquele que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará convosco. Pois tudo é por vossa causa, para que a graça, abundando por meio de muitos, faça redundar em glória de Deus a ação de graças. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior renova-se de dia em dia. Pois a nossa tribulação momentânea e leve produz em nós, de modo sobremaneira excelente, um eterno peso de glória, não olhando nós para as coisas que se veem, mas para as que não se veem. Pois as que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas.

## Comentário

E por isso, porque contemplamos a glória do Senhor, indo de claridade em claridade, nós, por isso, *tendo este ministério* do Evangelho, não entregue a nós por nosso mérito, mas *conforme a misericórdia que alcançamos* de Deus, *não desfalecemos* neste ministério, quaisquer adversidades que se nos apresentem; mas *renunciamos às coisas ocultas e vergonhosas*, não só às abertas, mas também às ocultas, isto é, ao pecado que desonra o homem; nós, digo, *não andando com astúcia* para extorquir dinheiro dos súditos, como os falsos apóstolos; *nem adulterando a palavra de Deus*, como os falsos apóstolos; mas pregando *pela manifestação* da pura *verdade*; não nos preocupamos, com efeito, como eles, de falar apropriadamente para persuadir, mas *recomendando-nos a nós mesmos* pela pureza da palavra e da vida, não à vista, como eles, mas *à consciência de todo homem*; embora, com efeito, nos persigam com palavras, louvam, contudo, em si a nossa pureza; recomendando, digo, *diante de Deus*, isto é, no beneplácito de Deus, a quem agradar os falsos apóstolos pouco ou nada se importam; ou assim: que isto seja assim de nós, digo-o diante de Deus, para que ele mesmo nos seja testemunha, ele que só conhece os nossos segredos.

Porque disse ali "pela manifestação da verdade", objetariam que o Evangelho foi ocultado a alguns. Contra o que diz: certamente nós evangelizamos na manifestação; *se o nosso Evangelho está encoberto*, sabei que *está encoberto para os que perecem*, isto é, no pecado dos que perecem por infidelidade; *nos quais perecentes cegou as mentes* deles, ainda *dos infiéis*, *o deus deste século*, isto é, o diabo, que domina os que são do mundo, segundo aquilo: «O príncipe deste mundo será expulso» (Jo 12,31). Ou digamos: Deus deste século, isto é, que governa não só as coisas celestes, mas também as terrenas; houve, com efeito, o erro de alguns, de que Deus governa apenas as coisas celestes, e as terrenas rolam só por acaso da fortuna. Ou assim: deus deste século; os homens, com efeito, fazem para si diversos deuses do mundo, este cultua a avareza, aquele a volúpia, e por tal deus são cegados. Cegou de modo que a *luz do Evangelho*, isto é, o Evangelho iluminado, *não resplandeça*, mas esteja encoberto para eles; Evangelho, digo, *da glória de Cristo*, isto é, no qual Cristo é aprovado glorioso; *Cristo que é a imagem de Deus*, isto é, que nos representa Deus. Não imagem de modo que o Filho seja outro que o Pai na substância, mas imagem porque quem vê o Filho vê também o Pai; imagem do Deus invisível; e porque Deus na natureza da Deidade é invisível, por isso convinha que por Cristo se tornasse visível o que em sua natureza é invisível.

Na verdade evangelizamos a glória de Cristo; *pois não nos pregamos a nós mesmos.* Ou liga-se ali acima: na verdade não andamos com astúcia, como os falsos apóstolos; *pois não pregamos*, isto é, pregando não nos recomendamos a nós mesmos, isto é, o que vem de nós mesmos; *mas pregamos a Jesus Cristo, Senhor nosso. E a nós, como vossos servos*, não só de Jesus, mas também vossos, *por Jesus*, isto é, para edificarmos em vós a caridade de Jesus: e com razão por Jesus; *porque Deus brilhou em nossos corações*, abrindo-nos os seus mistérios, para que, doutos, saibamos evangelizar-vos: brilhou *Deus, que disse*, isto é, que só com o dito fez resplandecer a luz *das trevas*; quando, com efeito, no princípio a massa de toda a criatura era tenebrosa, indistinta por nenhuma variedade de formas, disse: «Faça-se a luz», e neste dito expulsou as trevas e fez resplandecer aquela massa, que estava confusa em um, discernindo-a por várias formas: este Deus, digo, *brilhou em nossos corações para iluminação do conhecimento*, isto é, para nos iluminar *do conhecimento da claridade de Deus*, isto é, da essência divina, da qual não nos pôde iluminar senão *na face*, isto é, no conhecimento e fé *de Jesus Cristo*; se Cristo, com efeito, não se mostrasse visível a nós, nele toda a Deidade, de modo algum bastaríamos para entender o conhecimento da claridade de Deus.

Recomendou-se bastante segundo o espírito, agora muito se avilta segundo o corpo, e por este aviltamento recomenda o Evangelho que lhe foi entregue; se não entendesse, com efeito, a glória admirável do seu Evangelho, de modo algum quereria padecer tantas e tão grandes coisas por ele: Deus nos iluminou com o conhecimento da claridade divina, que, embora tão digna, *temos este tesouro* da claridade de Deus *em vasos de barro*, isto é, em nossos corpos. Chama bem tesouro; tesouro, com efeito, é o que se ama e se reparte. Chama vasos do espírito os corpos, porque o espírito nada operaria senão pela administração dos membros; com a mão, com efeito, damos ao pobre, e assim nos demais. Dizem-se de barro por causa da fragilidade, porque os nossos corpos estão sujeitos a toda corrupção. Por isso temos este tesouro em vasos de barro, *para que a sublimidade do poder seja de Deus*, isto é, para que em todos os que obram bem só o poder de Deus seja sublimado e exaltado, e apareça que nada vem de nós, vasos de barro: por isso foi conveniente que o tesouro de Deus fosse guardado em vaso frágil, para que, se houvesse algum poder do homem, não usurpasse incautamente para si o que é próprio de Deus.

Na verdade nós somos de barro, e o poder de Deus está em nós, frágeis; *pois em tudo*, em todos os lugares e coisas, sofremos tribulação do corpo, mas, contudo, *não somos angustiados* no espírito, antes dilatados; *ficamos perplexos*, isto é, empobrecemos exteriormente, mas *não desamparados* por Deus interiormente (*aporós* em grego, pobre em latim); *sofremos perseguição* de lugar em lugar, mas *não somos abandonados* por Deus; *somos abatidos*, isto é, prostrados por açoites, ou precipitados de lugar alto, e, contudo, *não perecemos*: para concluir, *sempre* andamos *trazendo* de lá para cá *em nosso corpo a morte*, isto é, as coisas que causam a morte, a saber, as tribulações, que são acessos de morte: e devemos de bom grado padecer, porque esta morte é *de Jesus*, que ele mesmo suportou por nós, e nós, a seu exemplo, a levamos, *para que a vida de Jesus Cristo se manifeste não só em nossas almas, mas também em nossos corpos*, devolvidas a nós a imortalidade e a impassibilidade.

Na depressão do seu corpo ainda se demora, mostrando que padece todas estas coisas para recomendação do seu Evangelho e da glória de Cristo, dizendo: digo bem, trazendo a morte; *nós, com efeito, somos sempre entregues* à morte — não diz sempre por poder morrer mais vezes que uma, mas porque cada dia padecia tantas coisas que a virtude do homem não escaparia senão morrendo; mas pelo poder do Espírito Paulo era restaurado para melhor. Chama morte às tribulações, pelas quais pouco a pouco se aproxima da ruína; morte, porém, diz o último golpe em que se dissolve —; nós, digo, somos entregues à morte; acima disse "a exemplo de Jesus", aqui diz *por causa de Jesus*, isto é, por amor de Jesus: nós, digo, *que vivemos*, embora assim morramos, isto é, poderíamos viver na glória do mundo muito melhor que os vossos falsos apóstolos, se calássemos o que Cristo impôs; ou assim: nós, segundo o corpo, somos entregues à morte; mas pela morte da carne vivemos melhor segundo a justificação da alma; ou assim: nós somos entregues à morte, segundo a injúria infligida ao corpo; mas vivemos, não desfalecendo, pela virtude de Deus. Morremos por causa de Jesus, *para que a vida de Jesus se manifeste*, como na alma, assim também *em nossa carne mortal.* O mesmo dissera no versículo precedente, mas repete para resolver o que aqui poderia ser objetado: a vida de Jesus estará em nossa carne; se objetas que a nossa carne mortal não pode tornar-se imortal, como é a carne de Jesus: certamente, digo, porque em nossa carne mortal se fará a vida de Jesus, e por Jesus a carne, que é mortal, certamente se tornará imortal.

Visto que somos entregues à morte, *assim, a morte opera em nós* o que lhe é próprio, mortificando os nossos corpos; mas *em vós*, que, desprezada a nossa imitação, aderis aos falsos apóstolos, *em vós está a vida*, isto é, nada padeceis, mas para vosso mal. Ou assim: porque a vida de Jesus se manifestará em vós mortificados, assim esta morte opera, isto é, faz obra útil em vós, a saber, a vida de Jesus; se a morte opera em vós a vida de Jesus, então a vida presente que amais opera em vós o contrário da vida de Jesus, a saber, a condenação. Ou assim: porque pela morte havemos de ter a vida de Jesus, assim a morte opera em nós o que é bom, e por nossa morte a vida opera em vós; porque pelo mérito de nossa morte viveis na fé e na justiça.

Dir-se-ia: não convinha que fosses tão mortificado, se calasses alguma coisa de tua justiça, e não afirmasses a fé de Cristo à vista dos homens. Contra isto Paulo diz que não pode calar a fé de Cristo, porque tem o Espírito, e pelo Espírito a fé; e porque tem a fé, por isso fala; e porque fala, é mortificado. E que assim lhe convenha fazer, prova pela autoridade de Davi, que fala na pessoa dos mártires, dizendo: por isso ficamos perplexos, somos abatidos, mortificados, porque *temos o mesmo espírito de fé*, doador da fé, que Davi e os outros santos tiveram; ou então, o mesmo que vós tendes, se por Cristo quiserdes padecer; a virtude do Espírito, com efeito, a ninguém falta, senão a quem primeiro faltou a si mesmo; nós, digo, temos este Espírito, e por isso *cremos*; *por isso*, isto é, porque cremos, *falamos* também à vista dos homens o que cremos — porque antepusera as tribulações, não acrescentou "porque falamos fomos humilhados com açoites", o que, contudo, daí se segue —; cremos, e por isso falamos, agindo *como está escrito* em Davi: *Acreditei, por isso*, isto é, porque acreditei, *falei.* E, crendo e falando, temos ótima confiança, *sabendo que aquele que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também com Jesus*, a serem postos em lugar e imortalidade com Jesus; e ali nos *colocará*, isto é, nos situará para permanecermos eternamente; colocará, digo, *convosco* os que está pronto, se quiserdes, a ressuscitar com Jesus. Por isso diz: "colocará convosco", para que eles não julgassem que por nenhuma justiça de vida podem igualar-se ao Apóstolo; por isso mostra que não segundo as dignidades das prelaturas, mas segundo os frutos das obras cada um será remunerado. Pelo que diz "nós convosco", muito os atrai ao apetite da justiça. Por isso digo: convosco nos colocará; *pois tudo padecemos e operamos por vós*, para vos instruir, *para que a graça, abundando* em mim, abunde em vós (como abundasse em Paulo é bastante notório); para que a graça, digo, abundando em mim, *abunde em ação de graças*, por vós muitas vezes feita *em glória de Deus*, que merece ser glorificado por nós, que nos deu abundante graça. Ele, na verdade, não disse: abunde a graça em vós; mas ao admoestar a dar graças em glória de Deus, bastante o insinua; em vão, com efeito, dariam graças a Deus, se não abundassem da graça de Deus.

Assim como disse que padece todas estas coisas para glória de Deus, assim agora tudo reverte à utilidade dos coríntios, dizendo: *por isso*, isto é, porque tudo padecemos por vós, para que agora me cale da glória de Deus, também pela só utilidade vossa *não desfalecemos*, quaisquer que sejam as tribulações infligidas. Diria alguém: é admirável que digas não desfalecer, a ti que vemos corromper-se com tribulações cotidianas. A isto diz: certamente não desfalecemos, mas nos renovamos; *embora o nosso homem exterior*, isto é, tão vil, isto é, a carne que é obrigada a obedecer sempre ao nosso império, isto é, ao espírito, homem que está fora, para suportar as chuvas, os calores, quaisquer adversidades; embora, digo, o nosso homem exterior *se corrompa*, contudo o homem louvável, *que está dentro*, onde convém ser munido pela vexação do homem exterior; este, digo, que está dentro, quanto mais se corrompe o que está fora, tanto mais se renova *de dia em dia*, isto é, continuamente; ou então, de dia em dia, isto é, indo de virtude em virtude.

Digo: não desfalecemos; e com razão; *pois a nossa tribulação*, qualquer que seja, grande ou pequena, aquela a saber que *no presente é momentânea*, isto é, passa muito depressa e não é intolerável, mas *leve*; esta tal tribulação, digo, *produz em nós um peso eterno de glória* [de modo sobremaneira excelente]: peso contra leve, de glória contra de tribulação, eterno contra momentâneo, e *em sublimidade*, isto é, no céu contra o que diz "no presente". Peso diz-se por semelhança, porque o que tem peso na balança é mais caro, o leve, porém, pior. Por isso julgamos leves e como nada estas coisas que padecemos, porque nós *não olhamos*, isto é, não afetamos *as coisas que se veem, mas as que não se veem.* Por isso desprezamos as que se veem, porque *são temporais* as que se veem; por isso desejamos as que não se veem, porque *são eternas* as que não se veem.

</div>

# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Sabemos, com efeito, que, se a nossa casa terrestre, esta habitação, for desfeita, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. Por isso também gememos neste estado, desejando sobrevestir-nos da nossa habitação que vem do céu: contanto que, vestidos, não sejamos achados nus. Pois nós, que estamos neste tabernáculo, gememos oprimidos, porque não queremos ser despojados, mas sobrevestidos, para que o que é mortal seja absorvido pela vida. Aquele que nos preparou para isto é Deus, que nos deu o penhor do Espírito. Portanto, sempre confiantes, sabendo que, enquanto estamos no corpo, peregrinamos longe do Senhor (pois andamos por fé, e não por visão); estamos confiantes e preferimos antes peregrinar longe do corpo e estar presentes junto do Senhor. E por isso nos esforçamos, quer ausentes, quer presentes, por lhe agradar. Pois todos nós devemos comparecer manifestos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que mereceu pelo que fez no corpo, seja bem, seja mal. Sabendo, pois, o temor do Senhor, persuadimos os homens, e a Deus estamos manifestos. Espero que também em vossas consciências estejamos manifestos. Não nos recomendamos de novo a vós, mas damo-vos ocasião de vos gloriardes por nós, para terdes o que responder aos que se gloriam na aparência e não no coração. Pois, se estamos fora de nós, é para Deus; se estamos sóbrios, é para vós. Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: que, se um morreu por todos, logo todos morreram; e Cristo morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim, de agora em diante, a ninguém conhecemos segundo a carne. E, se conhecemos a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas passaram; eis que todas as coisas se tornaram novas. Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Porque Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, não lhes imputando os seus delitos, e pôs em nós a palavra da reconciliação. Somos, pois, embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Rogamos por Cristo: reconciliai-vos com Deus. Àquele que não conhecera pecado, fê-lo pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus.

## Comentário

Dir-se-ia: da eternidade das coisas invisíveis, que se sabe, se não se mostram? Certamente, diz Paulo, enquanto somos retidos em habitação terrena, não podemos ver, mas, dissolvidos, logo receberemos. E põe a causa por que não podemos ver, isto é, porque ainda somos retidos na mortalidade, e assinala o tempo em que havemos de ter estas coisas, só depois da dissolução, dizendo: na verdade as coisas que não se veem são eternas; *pois nós*, em quem se deve crer, *sabemos que* (isto é, porque) *se a nossa casa terrestre*, isto é, o nosso corpo, terreno pela matéria e pelo lugar da habitação, porque é da terra e na terra habita; casa porque a alma nele habita como alguém numa casa; *se, digo, a nossa casa*, desta *habitação* tão breve e tão miserável, *for desfeita*, pelas tribulações ditas padecidas por Cristo; isto, digo, sabemos, que assim será desfeita; e, quando for desfeita, *temos de Deus um edifício preparado*, isto é, um corpo imortal edificado para nós por Deus; não que Deus não tenha feito o corpo mortal, mas porque aquele mandou que crescesse pelo ministério do macho e da fêmea, ao passo que o corpo imortal, sem ministro, ele mesmo fará nele a imortalidade; temos certamente um edifício, a saber, *uma casa não feita por mãos*, isto é, não feita pelo ministério de outro, *eterna nos céus* e permanente. Por casa e por edifício significa o corpo imortal.

Na verdade teremos casa eterna nos céus; *pois por isso gememos*, não por causa do que padecemos, não que temamos a imortalidade a ter, mas gemendo desejamos *neste estado*, isto é, vir a esta imortalidade; gememos, digo, *desejando sobrevestir-nos*: já estamos revestidos da justificação da alma e sobre isto queremos revestir *a nossa habitação*, isto é, a imortalidade do corpo, que é para nós habitação *que vem do céu*; a imortalidade, com efeito, nos é reservada nos céus. Com esta condição, digo, de nos sobrevestir: *contanto que* sejamos achados naquele dia *vestidos* da justificação da alma, que no batismo nos foi dada como primeira veste, *e não nus.* Dir-me-ia aquele: como vestidos, assim também nus serão sobrevestidos todos indistintamente. Isto remove: os vestidos serão revestidos, mas os nus da justiça da alma não serão vestidos da imortalidade do corpo. Nota aqui dois gêneros de bons: os contemplativos, de quem acabou de falar; e os que, permanecendo na vida ativa, guardam, contudo, a justiça de Deus; dos quais acrescenta, dizendo: na verdade os perfeitos gemem, desejando sobrevestir-se da imortalidade; *pois também nós*, menos perfeitos, *que estamos neste tabernáculo*, a quem é bom estar na carne e nutri-la; carne que se diz tabernáculo porque nela a alma deve militar para Deus; nós, tais, *gememos* também, desejando igualmente sobrevestir-nos, embora *oprimidos* por esse corpo, que, contudo, acalentando, *não queremos ser despojados*, isto é, separados da alma, mas (se fosse possível) queremos, sem morte infligida, *ser sobrevestidos* da imortalidade, de modo que o corpo, que agora é mortal, sem provar a morte, seja de repente *absorvido pela vida* que sobrevém, e assim se torne imortal. E, embora eu diga que gememos e desejamos sobrevestir-nos, isto, contudo, não é de nós, mas *aquele que nos prepara para isto*, e de tal modo para *isto mesmo* que permaneça em nós este desejo: aquele, digo, que nos faz desejar isto *é Deus.*

Ou de outro modo o versículo precedente lê-se assim: devemos gemer pelo desejo daquela habitação que vem do céu; *pois também pelo desejo das coisas terrenas gememos*; o que diz assim: nós, *que estamos neste tabernáculo*, isto é, nesta carne que alimentamos, embora *oprimidos* pelo peso desta carne, *gememos, contudo*, porque, isto é, por isso, não queremos ser despojados destas coisas carnais; mas quereríamos subitamente ser sobrevestidos de imortalidade, para que o que é mortal seja absorvido pela vida: isto não muda. E embora gemamos por amor das coisas terrenas, é, contudo, Deus quem nos prepara *para isto mesmo*, de desejarmos sobrevestir-nos da habitação que vem do céu, antepondo as coisas celestes às terrenas; Deus, digo, que na verdade nos tornará imortais, o que se pode crer disto: que já nos deu *o penhor do Espírito*, isto é, o Espírito Santo, que é arras e princípio da imortalidade que aperfeiçoará em nós.

E porque Deus nos prepara para isto mesmo, *portanto, sempre confiantes*, ousamos; "confiantes" assinala assiduidade, "estamos confiantes" significa estar ainda no mesmo ato; confiantes, digo, sempre e *sabendo bem*; alguns, com efeito, ousam o que não sabem, sabem o que às vezes não ousam; nós, sempre confiantes e sabendo que *enquanto estamos neste corpo mortal, peregrinamos*, isto é, estamos separados *do Senhor.* Peregrino diz-se quem tende para onde ainda não chegou; assim os santos neste mundo tendem a Deus, cuja face ainda não apreenderam. Na verdade, permanecendo no corpo, peregrinamos longe do Senhor; *pois aqui andamos por fé*; de coisa que não se vê, com efeito, diz-se fé; *e não andamos por visão*, isto é, pela verdadeira operação da coisa. Nós, digo, ousando ousamos; embora a carne repugne, contudo ousamos constantemente e com audácia temos boa vontade; alguns, com efeito, ousam sem boa vontade, outros querem bem e, contudo, não ousam; temos, digo, vontade *de antes peregrinar longe do corpo* (porque a natureza da carne é que nunca queira ser dissolvida, por isso diz "antes queremos separar-nos do corpo"), *e estar presentes junto de Deus*, antes do que permanecer com o corpo e não nos tornarmos presentes ao Senhor.

E por isso, para estarmos presentes junto do Senhor, *esforçamo-nos*, isto é, trabalhamos *por lhe agradar*, quer enquanto ainda nesta vida estamos ausentes de Deus, quer quando na glória estivermos presentes a Deus, trabalhamos por lhe agradar aqui e ali. E é-nos necessário que lhe agradamos; *pois é preciso*, isto é, necessário, *que todos nós sejamos manifestados diante do tribunal de Cristo*, isto é, perante Cristo (por tribunal, que é a sede do juiz, designa o julgamento), *para que cada um receba*, isto é, leve dali, *o que é próprio do corpo*; não que não haja de receber as coisas cometidas pela alma, mas o próprio do corpo, isto é, o que operou enquanto viveu no corpo; receba, digo, o próprio *conforme o que fez*, se, contudo, teve tempo de operar; as crianças, com efeito, assim como as batizadas se salvarão só pela graça, assim os meninos não batizados serão condenados só por causa do original: receberá o próprio conforme o que fez, *seja bem, seja mal* o que fez. Aqui surge a questão: porque diz "conforme o que fez", parecem vãos os benefícios que se fazem pelos mortos; mas contra isto se diz que, se o morto piedosamente ordenou que isso se fizesse por ele, ou se, agindo caritativamente contra o próximo, mereceu este benefício, diz-se que o morto fez o que dispôs fazer ou mereceu.

Porque todos seremos manifestados diante do tribunal de Cristo, *portanto, sabendo que se deve temer o Senhor*, persuadimos os homens ao temor do Senhor, para que levem do olhar do juiz o bem. Opor-lhe-ia alguém: persuades isto não tanto para a utilidade dos homens quanto para a tua recomendação. Contra isto diz: *persuadimos assim os homens; a Deus, porém, estamos manifestos*, com que intenção persuadimos, se para utilidade dos homens, se para nossa recomendação; e não só a Deus, mas *espero também que estejamos manifestos em vossas consciências*; porque, ainda que com a boca falais mal de nós, em vosso íntimo sentis bem de nós. E dizendo isto, que estamos manifestos a Deus e às vossas consciências, *não nos recomendamos de novo a vós* (como na outra epístola objetastes), *mas damo-vos ocasião*, isto é, oportunidade *de vos gloriardes por nós*, vossos mestres; na excelência do mestre, com efeito, superais os outros: por nós, digo, *para terdes o que responder aos que se gloriam na aparência*, isto é, aos olhos dos homens, *e não no coração*, mas se torturam mal na própria consciência: estes são os falsos apóstolos.

Na verdade tendes oportunidade de vos gloriardes por nós; pois tudo o que fazemos, fazemo-lo ou para a glória de Deus, ou para a vossa utilidade: o que diz assim: *se estamos fora de nós*, excedendo com a mente a natureza humana, para ouvir o que não é lícito ao homem falar; *se estamos sóbrios*, isto é, depondo a embriaguez dos segredos de Deus, sobriamente condescendendo com a vossa fraqueza, como quando ordenava sobre o matrimônio e semelhantes; se, digo, estamos sóbrios, esta sobriedade é-vos útil. E é bom que estejamos assim sóbrios; *pois a caridade de Cristo*, mesmo que não quiséssemos, *nos constrange*, a acomodarmo-nos a vós. Quer mostrar que só Cristo basta à justificação e salvação, e que a lei antiga, que os falsos apóstolos se esforçam por reconduzir, de nada aproveita, mas muito prejudica, dizendo: a caridade de Cristo nos constrange, *julgando nós isto: que, se um*, a saber, Cristo, *morreu* para redimir *todos, logo todos morreram* do pecado original, pela morte de um. Nem por isto só morreu, para que morrêssemos ao pecado, mas para que, por sua morte, vivêssemos para a justiça; o que diz assim: Cristo morreu por todos, *para que os que morreram* ao pecado, *e os que vivem* para a justiça, *já não vivam* atribuindo a si o que vivem (como se fazia sob a lei antiga), *mas vivam para aquele*, isto é, para a sua glória, *que por eles morreu* para mortificar o pecado, *e ressuscitou* por eles, para ressurgirem na justiça.

Visto que na morte de Cristo morremos ao pecado, e ele ressuscitando ressuscitamos para a justiça, isto é, porque Cristo basta a toda justificação, *assim, de agora em diante*, depois que Cristo padeceu e ressuscitou, *a ninguém conhecemos*, isto é, aprovamos, *andando segundo a carne*, isto é, segundo os ritos carnais da lei antiga. Objetaria aquele: por que reprovas assim a lei, que Cristo aprovou e observou? Contra isto Paulo: *e, se*, isto é, embora, *conhecemos* outrora, naquele tempo em que as figuras ainda eram de observar, *a Cristo andando segundo a carne*, isto é, operando os ritos da lei antiga; *mas* (isto é, contudo) *agora*, depois que foi dada a graça, já outrora conhecemos, mas *já não o conhecemos mais* segundo a carne. E porque já a ninguém conhecemos segundo a carne, *portanto as coisas antigas passaram.*

Antepõe o lugar de onde infere, dizendo: *se alguém está em Cristo*, isto é, se isto é o que o homem, segundo a recriação da alma, recebe em Cristo, *é nova criatura*, isto é, renovada, deposta a velhice do pecado, aparece que as coisas antigas passaram: *e eis que*, é evidente, *todas as coisas se tornaram novas* na criatura em Cristo.

Ainda objetaria aquele: embora Cristo opere isto, mas porque anula a lei dada por Deus, não deve ser seguido; porque não opera de Deus, mas contra Deus. E Paulo, naquilo em que o adversário queria infirmar as suas razões, a saber, que Cristo não faria isto segundo Deus, nisso mesmo aprova, dizendo que Deus opera por Cristo a anulação da lei antiga: em Cristo se tornaram novas todas as coisas; *tudo isto, porém, que Cristo opera, vem de Deus*, o qual Deus por Cristo opera isto; *reconciliou*, com efeito, *o gênero humano consigo por Cristo*, isto é, por aquele homem, que foi o meio em que se ligassem duas extremidades muito diferentes entre si, a saber, homem e Deus; e *Deus nos deu*, a mim e aos demais Apóstolos, *o ministério da reconciliação*, isto é, para ministrarmos aos homens como por Cristo foram reconciliados com Deus, se querem que, reconciliados com Cristo, sejam reconciliados com Deus.

Porque de novo Deus poderia operar isto pelo homem Cristo, de modo que não toda a Divindade habitasse naquele homem, determina Paulo como Deus o fez por Cristo, a saber, habitando nele corporalmente a plenitude da Divindade; determina também como ele mesmo se fez ministro da reconciliação, a saber, só pela palavra, para a pregar aos gentios; mas Cristo foi assim ministro da reconciliação, como aquele por quem e em quem a própria coisa foi operada: digo bem, Deus nos reconciliou consigo por Cristo, *porque Deus estava em Cristo*, isto é, toda a Divindade naquele homem; Deus, digo, *reconciliando o mundo consigo*, isto é, os homens do mundo por Cristo; reconciliando, digo, assim a saber: *não lhes imputando*, isto é, não exigindo, mas perdoando-lhes, isto é, ao mundo, *os seus delitos.* E o ministério desta coisa deu-o assim a nós, porque *pôs em nós a palavra da reconciliação*, isto é, para pregarmos a reconciliação feita por Cristo, para que os homens, reconciliando-se com Cristo, fossem reconciliados com Deus.

E porque Deus pôs em nós a palavra da reconciliação, *portanto exercemos a legação de Deus*; não desprezeis esta nossa legação, porque a exercemos *por Cristo*, isto é, pela autoridade de Cristo; sabendo que o desprezo de mim é desprezo de Cristo. E porque exercemos esta legação por Cristo, *rogamos-vos*, irmãos, *reconciliai-vos com Deus*, afastando-vos do mal, fazendo o bem; reconciliai-vos, digo, e isto *por Cristo*, isto é, por amor de Cristo, que tanto vos amou. E não desprezeis a nossa súplica, mas tende-a *como se Deus exortasse por nós*, isto é, saibais que a minha súplica é exortação de Deus. É bom e digno que vos reconcilieis com Deus, o qual Deus *àquele*, isto é, a Cristo, *que não conhecera pecado* (embora por ciência, não por experiência do fato), *fê-lo pecado* Deus *por nós*, para nos redimir. Cristo foi feito pecado segundo a pena do pecado que suportou; como diríamos ladrão um inocente suspenso, segundo a pena do furto que padeceria, embora nele não houvesse ato de furto. Ou então Cristo foi dito pecado; a hóstia, com efeito, que se oferecia pelo pecado chamava-se pecado; assim Cristo, porque foi oferecido pelo pecado de todos, diz-se pecado. Por nós, digo, Deus fez Cristo pecado, *para que nos tornássemos*, não só justos, mas a própria *justiça de Deus*; e não falsa, ou da lei, mas verdadeira justiça de Deus, e isto *nele*, isto é, por Cristo.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Como colaboradores, exortamo-vos também a que não recebais em vão a graça de Deus. Pois diz: No tempo favorável te ouvi, e no dia da salvação te socorri (Is 49,8). Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação. A ninguém damos motivo algum de escândalo, para que o nosso ministério não seja vituperado; mas em tudo nos recomendemos como ministros de Deus: com muita paciência, nas tribulações, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nas sedições, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na castidade, na ciência, na longanimidade, na suavidade, no Espírito Santo, na caridade sem fingimento, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda, na glória e na desonra, na infâmia e na boa fama; como sedutores, e sendo verazes; como desconhecidos, e sendo conhecidos; como moribundos, e eis que vivemos; como castigados, mas não mortos; como tristes, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo. A nossa boca está aberta para vós, ó coríntios; o nosso coração dilatou-se. Não estais apertados em nós, mas estais apertados em vossas entranhas; em retribuição, pois, igual (falo como a filhos): dilatai-vos também vós. Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis. Pois que participação há entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? Que consenso entre o templo de Deus e os ídolos? Porque vós sois templo do Deus vivo, como diz Deus: Habitarei neles e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Lv 26,12). Por isso, saí do meio deles e separai-vos, diz o Senhor (Is 52,11), e não toqueis no que é impuro; e eu vos receberei, e serei para vós um pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor onipotente (2Sm 7,14).

## Comentário

*Rogamos como colaboradores*; nós, porém, para que vos torneis justiça de Deus, colaborando pelo ministério da pregação do Senhor em vós, ou então, ajudando-vos pela instrução e pelas orações a Deus, *exortamo-vos a que não recebais em vão a graça de Deus*; como se dissesse: vós certamente recebestes a graça de Deus, mas vede que não a tenhais recebido em vão, isto é, inutilmente para vós. Digo bem graça, agora, com efeito, é tempo de graça; diz, com efeito, o Pai a Cristo íntegro com seus membros, que é a Igreja: *eu te ouvi*, isto é, cumpri o que pedias perdoando os pecados; ouvi-te, digo, *no tempo favorável*, e a Deus, a quem nele aprouve ter misericórdia do homem, favorável, e ao homem, favorável, porque nele se alegrou de se ver liberto da morte do pecado: ouvi-te, perdoando os pecados; *e te socorri*, também a ti fortalecido para as boas obras, igualmente no tempo favorável, *no dia*, isto é, na claridade da verdadeira inteligência posto; dia, digo, *da salvação*, porque pelo verdadeiro conhecimento há caminho para a salvação eterna. Isto lê-se em Isaías (cap. 49,8).

Agora Paulo expõe quando se deve entender este tempo favorável, assim: Deus diz "no tempo favorável"; *e eis, irmãos, agora*, isto é, desde a Paixão de Cristo em diante, é aquele tempo favorável; e eis agora é aquele dia da salvação, em que a Deus é aceitável ouvir e socorrer. E por isso assim vos exortamos, *nós a ninguém dando motivo algum de escândalo*, isto é, comportando-nos assim em costumes, palavra e hábito de modo a não gerar escândalo a ninguém em algum destes; por isso não dando escândalo, *para que o nosso ministério não seja vituperado*, isto é, para que o nosso apostolado não seja vituperável, o que certamente seria, se o que bem ensino, em mim mesmo não mostrasse: nenhum escândalo damos, mas *nos recomendamos como ministros de Deus*; e para que nisso permaneçamos Deus o conceda, que nos mostremos em tudo o que falamos e fazemos, como, isto é, verdadeiramente, ministros de Deus (como aqueles que acabam de nascer), a saber, *com muita paciência*, isto é, padecendo de muitos modos no corpo e na alma, nos mostremos ministros de Deus.

Acrescenta as partes da paciência: *com muita paciência*, digo, tida *nas tribulações*, para que, de qualquer modo que o nosso corpo seja atribulado, toleremos com ânimo sereno; paciência tida também *nas necessidades*, para que não desfaleçamos por alguma indigência; paciência tida de novo *nas angústias* do ânimo, e *nos açoites* do corpo, e *nas prisões*; pacientes também *nas sedições* que contra nós incitam os infiéis; paciência tida de novo *nos trabalhos*; com as nossas mãos, com efeito, trabalhamos para não onerar ninguém (1Ts 2,9); paciência tida também *nas vigílias*; muitas vezes, com efeito, convinha-lhe vigiar disputando sobre a fé; paciência tida também *nos jejuns*; porque muitas vezes lhe convinha jejuar, ora por coação, ora por indigência, ora por vontade.

Todas estas coisas antecipadas são partes da paciência, as demais são coordenadas a ela: *nos mostremos como ministros de Deus na castidade*, isto é, que sejamos castos de ânimo e de corpo; mostremo-nos também ministros de Deus *na ciência*, para que sejamos suficientemente doutos em todas as coisas; ou então, para dizermos castidade e ciência como um só membro: sejamos ministros de Deus na castidade e na ciência, isto é, na ciência casta, não seja astuciosa a nossa ciência, como a ciência dos falsos doutores. Sejamos também ministros de Deus *na longanimidade*, que, se se adia a coroa, suportemos pacientemente, contudo, os fardos; sejamos também ministros de Deus *na suavidade*, isto é, na branda mansidão tida *no Espírito Santo*, não em suavidade adulatória.

Mostremo-nos de novo ministros de Deus *na caridade sem fingimento*, para que verdadeiramente amemos a Deus e ao próximo; *e na palavra da verdade*, para que na pura verdade soem as palavras da nossa pregação, não como os falsos apóstolos, que pretendem enganar com palavras mentirosas. Sejamos também bons ministros *no poder de Deus*, para que pelos sinais dos milagres comprove que sou mestre idôneo. Mostremo-nos também ministros de Deus *pelas armas da justiça*, tendo a justiça em lugar de armas *à direita e à esquerda*, isto é, nas prosperidades e nas adversidades, para que nem nas prosperidades sejamos seduzidos nem pelas adversidades abatidos.

As coisas que a seguir vêm são partes da direita ou da esquerda: à direita, digo, *na glória*, de modo que, se alguns nos glorificam, como ali quando quiseram edificar-lhe altares, nesta glória nos mostremos como ministros de Deus; à esquerda, como *na desonra*, de modo que, quando nos difamam, dizendo que pregamos falsidades, nesta desonra nos mostremos como ministros de Deus. De novo, *na infâmia*, que é parte da esquerda, como quando lhe diziam: «Estás louco, Paulo» (At 26,24); e de novo *na boa fama*, como quando a sua pregação era exaltada por outros: por ambas nos mostremos como ministros de Deus. Nós, de novo, tidos *como sedutores*, e por outros tidos *como verazes*, mostremo-nos como ministros de Deus. Nós, de novo, tidos *como desconhecidos*, como se desconhecidos a Deus, e segundo outros tidos como conhecidos a Deus, em ambos nos mostremos como ministros de Deus. Nós, de novo, tidos *como moribundos*, isto é, caindo em crimes segundo alguns, *e eis que* segundo outros *vivemos* na justiça: em ambos nos mostremos como ministros de Deus. Nós, de novo, tidos *como castigados* segundo alguns, que, depois dos açoites infligidos a nós, diriam: eis que não ousarão mais falar; e segundo outros tidos *como não mortos*, que diriam: nunca por isso calarão a palavra de Deus; castigo que seria mortificação, e por isso diz "mortificados": em ambos nos mostremos como ministros de Deus. Nós, de novo, tidos *como tristes* segundo alguns, porque nos entristecemos com adversidades no corpo ou no espírito; tidos, porém, segundo outros *sempre alegres* no corpo e no espírito: em ambos nos mostremos como ministros de Deus. Nós também, segundo alguns tidos *como pobres*, de bem corporal ou espiritual; segundo outros, porém, tidos *como enriquecendo a muitos* em bens espirituais: em ambos nos mostremos como ministros de Deus. Nós, de novo, julgados *como nada tendo* de bem temporal ou espiritual segundo alguns; e segundo outros julgados *como possuindo tudo*, isto é, possuindo Deus: em ambos nos mostremos como ministros de Deus.

Para deprimir diante de vós os falsos doutores, ó coríntios, *a nossa boca está agora aberta para vós*, falando muito de nossa glória e bastante difusamente, nós que na primeira Epístola me propus servo de todos; e certamente a nossa boca pôde dignamente abrir-se, porque *o nosso coração se dilatou*; tudo, com efeito, o que digo da nossa glória, a minha consciência vê em mim. E porque a boca está aberta e o coração dilatado, *já não estais apertados em nós*; porque vos ensinei simplesmente, a vós que achei rudes, dizeis que é culpa minha estardes apertados na caridade; mas certamente no nosso exemplo bem aparece que não estais apertados em nós, mas *estais apertados em vossas entranhas*, isto é, o fomes desta tenacidade e estreiteza está nos vossos corações.

Ou de outro modo, mudando pouco acima: exortamo-vos a que não recebais em vão a graça de Deus; e para que isso não aconteça, *a ninguém deis motivo algum de escândalo* por mau obrar ou exemplo, *para que o nosso ministério* [não seja vituperado], isto é, para que o nosso magistério, por vós que escandalizais, não seja vituperável. Não deis escândalo, mas *nos mostremos em tudo* (para melhor os atrair ao bem, insere-se com eles dizendo "nós") *como ministros de Deus*; e, segundo isto, será como em significação própria. Todas as coisas que seguem não mudam, senão que, como de Paulo, assim expostas se diz que dizem respeito a eles. E porque, ó coríntios, agora vos dou muitos e amplos preceitos, *agora a nossa boca está aberta para vós*, mandando muitas coisas, a vós que antes me arguíeis de que fostes admoestados em poucas coisas; nem é de admirar que de boca aberta vos mande muitas coisas, *porque o nosso coração se dilatou*, isto é, acho em mim todas as coisas que vos entrego a fazer. E daí já aparece que não estais apertados em nós, se pouco operais, mas estais apertados em vossas entranhas.

Não vos apertai, porém, mas dilatai-vos na caridade; como as outras Igrejas, assim também vós; e isto vos digo como a filhos, *vós, digo, em esperança já tendo a mesma retribuição que nós temos*, a saber, a glória celeste. E para vos dilatardes nos mandamentos de Deus, *não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis* falsos apóstolos: por jugo significa a lei antiga, que oprimia gravemente os seus observadores. Não deveis levar jugo com os infiéis: *porque vós sois justos, eles iníquos; vós luz, eles trevas; em vós Cristo, neles Belial; vós fiéis, eles infiéis; vós templo de Deus, eles dos ídolos: e que participação há da justiça com a iniquidade? Ou que comunhão da luz com as trevas?* Nenhuma comunhão deve haver de membros onde há diferença de cabeças; mas Cristo é a nossa Cabeça, Belial a deles: *que acordo entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?* *Que consenso entre o templo de Deus e os ídolos*, isto é, com aqueles ímpios que, como ídolo, são sede do demônio? Assim, com efeito, como no ídolo, nesses dava o demônio respostas. Digo bem, templo de Deus; *pois vós*, fiéis, *sois templo do Deus vivo*, porque em vós mesmos vive, enquanto vos faz viver no bem. E isto digo, *como diz o Senhor Deus* por Ezequiel, embora com outras palavras; isto, digo, diz Deus: *habitarei neles*, fiéis, justificando-os pela fé, *e andarei entre eles*, promovendo-os de virtude em virtude; e assim aparecerá que *serei o seu Deus, e eles serão o meu povo* (Ez 37,27); quantos, com efeito, virem a justiça deles, dirão: estes são o povo de Deus, e Deus habita neles. Agora desta autoridade infere Paulo outra tomada do mesmo Ezequiel, onde no cativeiro de Babilônia persuadia os judeus a sair e separar-se das obras más dos gentios; o que, se fizessem, lhes prometia de Deus a libertação, dizendo: *por isso*, a saber, para serdes povo de Deus, *saí do meio dos ímpios*, não fazendo o que fazem; *separai-vos* deles também em vontade, não apenas em obra: assim, porém, é necessário que se faça, porque isto *diz o Senhor*: *e não toqueis no que é impuro*, isto é, nem tenhais deleite nas imundícies deles, de modo ao menos que vos agradem. E se o fizerdes, *eu vos receberei*; e, recebidos, *serei para vós um pai, e vós sereis para mim filhos* e também *filhas*, que com maior diligência são adornadas pelos pais: e tudo isto convém que creiais e façais, porque *isto diz o Senhor onipotente.*

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# Capítulo 7

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Tendo, pois, estas promessas, caríssimos, purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do espírito, completando a santificação no temor de Deus. Recebei-nos. A ninguém lesamos, a ninguém corrompemos, a ninguém enganamos. Não digo isto para vos condenar; pois já dissemos que estais em nossos corações para morrermos juntos e vivermos juntos.
>
> Tenho grande confiança em vós; tenho grande motivo de me gloriar por vós; estou cheio de consolação; transbordo de alegria em toda a nossa tribulação. Pois, quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum, mas sofremos toda tribulação: por fora, lutas; por dentro, temores. Mas Deus, que consola os humildes, consolou-nos com a vinda de Tito. E não só com a sua vinda, mas também com a consolação com que ele foi consolado em vós, referindo-nos o vosso desejo, o vosso pranto, o vosso zelo por mim, de modo que me alegrei ainda mais. Pois, embora vos tenha entristecido com a carta, não me arrependo; ainda que me arrependesse, vendo que aquela carta, embora por pouco tempo, vos entristeceu; agora me alegro, não porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para a penitência. Pois fostes entristecidos segundo Deus, de modo que em nada sofrêsseis dano da nossa parte. Porque a tristeza segundo Deus produz penitência para uma salvação estável; mas a tristeza do século produz a morte. Vede, pois, esta mesma tristeza segundo Deus, quanta solicitude produziu em vós; e até defesa, indignação, temor, desejo, zelo, vingança. Em tudo vos mostrastes limpos neste assunto. Portanto, embora vos tenha escrito, não foi por causa do que cometeu a injustiça, nem por causa do que a sofreu, mas para manifestar a nossa solicitude, que temos por vós diante de Deus: por isso fomos consolados. Em nossa consolação, alegramo-nos ainda mais com a alegria de Tito, porque o seu espírito foi reconfortado por todos vós. E, se de algum modo me gloriei de vós diante dele, não fiquei confundido; mas, assim como vos dissemos tudo em verdade, assim também a nossa glória diante de Tito se tornou verdade; e as suas entranhas estão mais abundantemente em vós, ao lembrar-se da obediência de todos vós, como o recebestes com temor e tremor. Alegro-me de poder confiar em vós em tudo.

## Comentário

Visto que, saindo vós do meio dos ímpios, diz o Senhor, sereis para mim filhos e filhas, etc., *portanto, caríssimos, tendo nós estas promessas*, isto é, as supraditas, para as alcançarmos, *purifiquemo-nos de toda mancha da carne e de toda mancha do espírito* — mancha da carne chama a libido, a embriaguez e semelhantes; mancha do espírito, como a ira, a inveja e semelhantes, que infectam a própria alma sem contágio da carne —; assim purifiquemo-nos de ambos os pecados: *completando daí a santificação*, isto é, para que, purificados dos males, sejamos perfeitos nas virtudes; completando isto *no temor de Deus*, isto é, não no temor dos homens, para procurarmos parecer justos à vista e não no coração como os falsos apóstolos, mas no temor, e não só das penas, para por isso apenas escaparmos às penas, mas no temor de Deus, para que temamos ofender a Deus, temor que se diz caridade. Ou de outro modo essa letra se divide: purifiquemo-nos da mancha da carne; seja ali o versículo; e nós, purificados, *completando a santificação do espírito*, isto é, segundo o que o Espírito ensina, ou aquela razão; ou então, completando a santificação do espírito, isto é, da razão, ou do Espírito Santo: a sentença é a mesma; *no temor de Deus* igualmente. E para que, purificados, completeis a santificação, *recebei-nos*, isto é, aceitai a nossa imitação; ou então, para que ali não seja versículo: vós, completando a santificação, recebei-nos, isto é, imitai-nos, como foi dito.

Deveis certamente receber-nos, *pois a ninguém de vós lesamos*, censurando-vos de serdes cães ou semelhante, e engrandecendo a mim pela linhagem de Abraão, como fazem os falsos apóstolos; *a ninguém de vós corrompemos*, ensinando perversamente ou depravando por mau exemplo, como de novo os falsos apóstolos, que, misturando falsidades à verdade, corrompem a vossa fé, e também com mau exemplo de vida; *a ninguém de vós enganamos*, como os falsos apóstolos, que, quando não podem extorquir abertamente de vós, por sedução fraudulenta arrancam mais do que alcançariam. O que, porém, significo, que fostes corrompidos e seduzidos por aqueles falsos apóstolos, *isto não digo para vossa condenação*, isto é, para por isso pretender condenar-vos como reprovados por Deus; e que não o digo para vossa condenação podeis saber disto: que antes disse nesta mesma Epístola que vós estais em nossos corações (onde diz: vós sois a nossa carta escrita em nossos corações); se pretendesse condenar-vos, de modo algum vos inseriria em nossos corações, mas *estais em nossos corações para morrermos juntos*, isto é, que quero que morrais comigo ao pecado, *e vivermos juntos*, isto é, que vivais comigo para a justiça. Ou assim, para que fale aos mais perfeitos: estais em nossos corações para morrermos juntos, para que eu queira que morrais comigo na presente tribulação, para que assim estejais comigo para vivermos juntos na eternidade.

Por isso digo "recebei-nos"; porque *tenho grande confiança em vós* quanto aos bens futuros, a que logo aquiesçais à persuasão que vou fazer; *tenho também grande motivo de me gloriar por vós*; muito, com efeito, me glorio perante outras Igrejas do bem da vossa correção, preferindo-vos a elas como exemplo: por isso tenho grande confiança em vós quanto ao futuro; *já estou cheio de consolação em toda a tribulação*, qualquer que seja, fácil ou difícil, interior ou exterior: e não me consolo de qualquer modo da vossa correção, mas a ponto de *transbordar de alegria*; mais, com efeito, me alegro da vossa correção do que me doo de toda a nossa tribulação.

Dir-me-iam: tens tribulação? Certamente, digo; *pois em outro lugar e também quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum, mas sofremos toda tribulação; por fora*, isto é, no corpo, havia lutas, enquanto me afligiam com açoites; *e por dentro*, isto é, no ânimo, havia temores, para que os fiéis não se escandalizassem das minhas paixões e julgassem que eu não devia ser seguido, por ser condenado; ou assim: por fora, isto é, dos que estavam fora da Igreja, vinham-me lutas, como foi dito; por dentro, porém, isto é, na Igreja, havia temores de que os simples fossem seduzidos pelos falsos irmãos. Por fora e por dentro padecia tanto; *mas Deus, que consola os humildes*, isto é, os aflitos, *consolou-nos com a vinda de Tito*; alegrei-me, com efeito, de receber o irmão que participasse das nossas tribulações: *e não só com a sua vinda* fui consolado, *mas também com a consolação com que o mesmo Tito foi consolado em vós.* Por este consolo dele entendi a vossa correção; e por isso, alegrando-me de sua volta, fui juntamente consolado, entendendo a vossa correção no consolo dele. Consolou-me, digo, Tito, *referindo-nos o vosso desejo*, com quanto voto desejáveis a nossa vinda; referindo também *o vosso pranto*, isto é, que com lágrimas lavastes os pecados; referindo também *o vosso zelo*, isto é, a indignação com que vos indignais contra os falsos apóstolos por mim, a quem desaprovam: referindo estas coisas *de modo que eu me alegrasse ainda mais* agora da vossa penitência do que antes me entristecera da impenitência; ou me alegrasse mais da vossa conversão do que me doesse da minha tribulação.

E isto devemos saber: que, tendo o Apóstolo enviado aos coríntios a primeira Epístola por Timóteo, eles foram movidos antes à indignação do que à penitência, julgando temerário que o Apóstolo ousasse arguí-los com tanta severidade; o que sabido por Timóteo, Paulo arrependeu-se de lhes ter escrito: mas, demorando-se Tito mais tempo entre os coríntios e relendo eles muitas vezes a Epístola de Paulo, sob a admoestação de Tito fizeram fruto digno de penitência; o que ouvido, o Apóstolo mais se alegrou da penitência do que antes se doera da impenitência deles. Que diz assim: na verdade, pela relação de Tito foi-me dado alegrar-me; *porque, embora vos tenha entristecido com a carta* antes enviada, *agora, contudo, não me arrependo*, ouvida a relação de Tito, embora antes me arrependesse, ouvida a relação de Timóteo: antes certamente arrependi-me, *vendo que aquela carta antes enviada vos entristeceu* para indignação, *embora por pouco tempo*, e por isso agora me arrependi mais levemente; *agora me alegro, não porque fostes entristecidos, mas porque agora fostes entristecidos para a penitência.* Com razão me alegro de vós entristecidos para a penitência; *pois fostes entristecidos segundo Deus*, deixando os males, aderindo aos bens; de tal modo segundo Deus que *em nada sofrêsseis dano da nossa parte*, porque a própria tristeza anterior, de que eu temia que vos redundasse em dano, foi corrigida segundo Deus. Na verdade em nada sofreis dano da nossa parte; *pois a vossa tristeza, que é segundo Deus, produz em vós penitência para uma salvação estável*, isto é, eterna. A tristeza segundo Deus produz salvação; *mas a tristeza do século*, que ainda está em alguns entre vós que não querem entristecer-se para a penitência, *produz a morte*, isto é, a perdição estável. Isto serve com acerto para atemorizar os que ainda não se arrependiam.

Na verdade a tristeza segundo Deus produz penitência para a salvação; *pois produz solicitude, defesa* e as demais partes da verdadeira penitência; o que diz assim: *vede, pois, esta mesma* tristeza, tão exígua em comparação com a salvação que produz; esta mesma, digo, a saber, que vos entristecestes segundo Deus; *vede quanta solicitude* de progredir sempre para melhor *produz em vós.* Estas coisas, mas as que seguem, são copulativas, valendo apenas para ornato da oração. Produz também em vós *defesa*, porque, tendo já zelo de Deus, defendeis-me contra os falsos apóstolos que me desaprovam; produz também *indignação*, indignais-vos, com efeito, gravemente contra os que vos seduziram; produz também *temor*, sois, com efeito, sempre temerosos de recair no laço; produz também *desejo*, desejais, com efeito, o apetite dos bens; e *zelo*, isto é, a imitação dos justos; produz também *vingança*; se alguém, com efeito, delinque em vossa Igreja, logo, pela penitência imposta, vingais a sua culpa: e, para resumir brevemente os vossos bens, *em tudo vos mostrastes limpos neste assunto*, isto é, para a religião eclesiástica; ou então, limpos de negócio secular, isto é, do pecado.

E porque em tudo vos mostrastes limpos, *portanto* agora aparece a minha intenção que tive na primeira Epístola, porque, *embora vos tenha escrito*, não foi, contudo, apenas *por causa do que cometeu a injustiça*, tomando a mulher do pai, *nem de novo por causa do que a sofreu*, levado a juízes seculares; mas escrevi *para manifestar a nossa solicitude*, a solicitude que temos *por vós*; e isto *diante de Deus*, isto é, no beneplácito de Deus; isto, com efeito, bem agrada a Deus: que eu seja solícito pela vossa salvação; ou então, digo isto diante de Deus, isto é, sendo Deus testemunha, que conhece a minha consciência. Quando, com efeito, Paulo tratava daquele fornicador, não dirigia o discurso a ele, mas a toda a Igreja, pretendendo que pela poluição de um não fossem infectados muitos. E porque a nossa solicitude tida por vós agora foi manifestada, porque completa, *por isso fomos consolados.*

*Em nossa consolação*, porém, *alegramo-nos* tanto da vossa correção como da alegria de Tito mais abundantemente do que me doera antes dos vossos pecados ou das minhas tribulações; e, consolando-nos abundantemente da vossa correção e da alegria de Tito, alegramo-nos, contudo, mais abundantemente *com a alegria de Tito* do que com a vossa correção. Posição semelhante: Virgílio é mais douto que Horácio e Lucano; mais, contudo, mais douto que Lucano do que que Horácio. O Apóstolo se alegrou mais da alegria de Tito do que da correção dos coríntios, porque, se não houvesse a alegria de Tito, nem creria que eles estavam corrigidos; também porque, se Tito não se alegrasse disto, exânime desfaleceria de todo, a ponto de nem na Igreja dos coríntios nem em outra parte querer trabalhar; por isso ele mesmo põe as causas: por isso me alegrei mais com a alegria de Tito, *porque o seu espírito foi reconfortado por todos vós*, até pelos incorrigidos, de quem tem boa esperança de corrigir por meio dos que já estão bem corrigidos; espírito que desfaleceria totalmente da instrução, se achasse incorrigíveis os coríntios: e por isso também mais com a alegria de Tito, porque *como me gloriei de vós diante daquele Tito, ó coríntios*; quando, com efeito, receava ir a vós, acusando a vossa inumanidade, eu dizia que éreis benignos e que o receberíeis honrosamente: *se de algum modo me gloriei de vós, não fiquei confundido nisso*; porque, como lhe predisse, assim vos achou tais, e por isso não me envergonhei de ter dito, *mas a nossa glória diante de Tito se tornou verdade*, assim como, enquanto estávamos convosco, vos dissemos tudo em verdade, isto é, assim como, permanecendo convosco, vos disse verdades sobre outros, assim agora disse verdades a Tito sobre vós: e por isso ainda mais com a alegria de Tito, *porque as suas entranhas estão mais abundantemente em vós* corrigidos agora do que antes incorrigidos; dele, Tito, digo, *lembrando-se da obediência de todos vós*, isto é, quão devotamente obedecestes a ele e a nós; lembrando-se também *como o recebestes com temor* do ânimo *e tremor* do corpo, isto é, com toda reverência. E, vendo como o recebestes dignamente, *alegro-me de poder confiar em vós*, não só neste assunto, mas também em tudo quanto eu mandar que se faça; neste um, com efeito, entendo como haveis de fazer no futuro.

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# Capítulo 8

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Damo-vos a conhecer, irmãos, a graça de Deus que foi dada às Igrejas da Macedônia; pois, em meio a muita prova de tribulação, a abundância da sua alegria e a sua profundíssima pobreza abundaram em riquezas de sua generosidade; porque, testemunho eu, segundo as suas possibilidades, e além das possibilidades, foram voluntários, pedindo-nos com muita insistência a graça e a participação no serviço feito aos santos. E não como esperávamos, mas deram-se primeiro a si mesmos ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus, de modo que rogamos a Tito que, assim como começou, assim também leve a termo entre vós esta graça. Mas, assim como abundais em tudo: na fé, na palavra, no conhecimento, em toda solicitude e, além disso, na caridade que tendes para conosco, abundai também nesta graça. Não digo isto como quem manda, mas pela solicitude de outros, pondo também à prova a sinceridade da vossa caridade. Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que por vós se fez pobre, sendo rico, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos. E dou nisto um conselho; pois isto vos convém, a vós que desde o ano passado começastes não só a fazer, mas a querer; agora, pois, levai a termo também o fazer, para que, como a prontidão da vontade, assim seja a conclusão, conforme o que tendes. Pois, se há boa vontade, é aceita conforme o que se tem, não conforme o que não se tem. Não para que aos outros haja alívio e a vós aperto, mas por igualdade. No presente, a vossa abundância supra a penúria deles, para que também a abundância deles supra a vossa penúria, e haja igualdade, como está escrito: Quem tinha muito não teve demais, e quem tinha pouco não teve de menos (Ex 16,18). Graças, porém, a Deus, que pôs no coração de Tito a mesma solicitude por vós; pois acolheu a exortação, mas, sendo mais solícito, partiu por sua própria vontade para ir ter convosco. Enviamos também com ele o irmão cujo louvor, no Evangelho, é em todas as Igrejas; e não só isso, mas foi também designado pelas Igrejas companheiro de nossa viagem, para esta obra de graça que administramos para a glória do Senhor e para vencer a nossa disposição; evitando que alguém nos censure acerca desta abundância que administramos. Pois procuramos o bem não só diante de Deus, mas também diante dos homens. Enviamos com eles também o nosso irmão, que muitas vezes provamos solícito em muitas coisas, agora muito mais solícito, com muita confiança em vós; quer a respeito de Tito, que é meu companheiro e colaborador convosco, quer dos nossos irmãos, apóstolos das Igrejas, glória de Cristo. Dai, pois, a eles, diante das Igrejas, a prova da vossa caridade e da nossa glória por vós.

## Comentário

Agora, sobre as coletas, de que na primeira Epístola falara resumidamente, admoesta-os mais amplamente, persuadindo-os tanto pelo exemplo de outras Igrejas quanto por muitas razões. A letra liga-se ao que precede: quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso; mas, embora a princípio não tivéssemos repouso, Deus nas Igrejas da Macedônia deu paz e graça; o que diz assim: *damo-vos a conhecer, irmãos, a graça de Deus que foi dada às Igrejas da Macedônia* — com nome digno chama graça de Deus as esmolas, entendendo que é maior graça de Deus o ministrar aos pobres do que os gêneros de línguas e algumas outras graças —; desta graça vos dou a conhecer que *em meio a muita prova de tribulação*; muitas e ásperas tribulações, com efeito, experimentaram as Igrejas dos macedônios; em muita, digo, prova de tribulação houve *a abundância da sua alegria*, isto é, alegraram-se abundantemente por terem sido julgados dignos de padecer injúria por Cristo; *e a sua pobreza*, os infiéis, com efeito, empobreciam os fiéis; a sua pobreza, digo, *profundíssima*, isto é, máxima; ou então, profundíssima, isto é, dignissima; a pobreza, digo, *abundou*, porque quanto mais deram, tanto mais pobres se tornaram; abundou, digo, *em riquezas deles*; porque, embora fossem pobres no ter, eram, contudo, ricos em administrar a esmola; em riquezas, digo, *de sua generosidade*; em simplicidade, com efeito, davam, não julgando por isso poder pecar mais livremente: abundou certamente em riquezas; *porque foram voluntários segundo as possibilidades e além das possibilidades* — dar segundo as possibilidades é reter primeiro o que lhes é necessário e depois repartir aos pobres o que sobra; dar além das possibilidades é nada reservar para si —; e porque foram voluntários segundo as possibilidades e além das possibilidades, daí lhes dou testemunho: nem coagidos por nós, mas *pedindo-nos*, isto é, conjurando por quaisquer coisas sagradas, *com muita insistência*, dizendo: não estejas solícito por nós, porque somos laboriosos, e do nosso trabalho, ainda que nada nos sobre, seremos bem sustentados; pedindo-nos, certamente, *a graça*, isto é, receber as esmolas deles, *e a participação*, isto é, os seus bens, que pretendiam compartilhar com todos: participação, digo, *do serviço*, isto é, da administração; serviço que deve ser levado *aos santos* que estavam em Jerusalém. Aqui se deve notar que, dos nossos bens, devem ser primeiro sustentados os santos; do que restar, quaisquer necessitados.

Pediram-nos certamente; *e não fizeram como esperávamos*, isto é, não com este ânimo de sofrermos os seus muitos vícios, mas *deram-se primeiro a si mesmos a Deus*, emendando os vícios, *depois a nós*, oferecendo sustento aos irmãos; e isto *pela vontade de Deus*; Deus, com efeito, quer isto: que primeiro se ofereça a si, depois os seus bens. Deram-se de tal modo que *rogamos a Tito que, assim como começou bem, assim também leve a termo entre vós* outras graças, e também esta graça, a exemplo das Igrejas da Macedônia. Não só rogamos a Tito que levasse a termo esta graça entre vós, mas também que por ele abundeis nesta graça: levar a termo cabe a Tito, abundar cabe aos coríntios. Ou assim: não só rogamos a Tito que levasse isto a termo entre vós; mas eu mesmo vos rogo que, *assim como abundais em tudo*, a saber, *na fé* (tendes, com efeito, uma fé sadia e abundante em boas obras), abundeis também *na palavra e no conhecimento*, porque tendes palavra desembaraçada para exortar e conhecimento para entender; abundais também *em toda solicitude*; com todo empenho, com efeito, estais solícitos de obrar cada vez melhor; abundais *na caridade*, isto é, no vosso amor estendido a nós: como nestas graças, assim rogo que abundeis também nesta graça das esmolas. E isto não o digo *como quem manda*, isto é, não constituo preceito sobre esta coisa; para que, se por acaso não obedecêsseis ao mandato, não fôsseis réus de desobediência. Não o digo, certamente, por mando; mas digo-o *pondo à prova a sinceridade*, isto é, a razão com a vontade; deveis, com efeito, ponderar racionalmente o que dais, a saber, bens temporais, e o que recebereis por eles, a saber, os eternos, e com a razão deve estar a vontade de dar com toda a alegria; pondo à prova, digo, a boa sinceridade da vossa caridade *pela solicitude de outros*, isto é, pelo fato de estardes solícitos em suprir a penúria dos irmãos necessitados; ou então, pondo à prova a vossa caridade pela solicitude de outros, isto é, pelo fato de que torno solícitos por vós Tito e os outros discípulos.

E certamente deveis abundar nesta graça, *pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo*, que, *sendo rico*, isto é, Deus nas riquezas de sua onipotência, que era eterno, *por nós, para nos salvar, se fez* no tempo; nem quis fazer-se rico, mas *se fez pobre*, isto é, vivendo em toda penúria da carne, exceto a penúria da justiça. Por isso se fez pobre, *para que, pela sua pobreza*, isto é, pelo mérito da sua pobreza, *vos tornásseis ricos* de justiça. E neste ponto em que recordo a benignidade do Senhor Jesus exibida a vós, *dou-vos nisto conselho* de salvação: e digo bem "conselho"; isto, com efeito, a saber, abundar na esmola, *vos convém, a vós que começastes não só a fazer, mas a querer desde o ano passado.* Nota que primeiro o fazer, depois aumentar o querer; o fazer, com efeito, não basta senão pela vontade, mas o querer basta ainda que não haja cópia de fazer. Começastes outrora a querer; *agora, porém, levai a termo também o fazer*, pela vontade e pelo ato, *para que, como a prontidão da vontade*, isto é, a discrição da vontade (o que acima chamou boa sinceridade), *assim seja* pronta a alma de levar a termo; e, embora assim aconselhe, *conforme o que tendes*, digo, isto é, segundo o que tendes e podeis levar para ministrar aos irmãos. Por isso digo "segundo o que tendes", porque, se a vossa vontade é pronta para dar, *é aceita conforme o que se tem*, nisto certamente é aceita a Deus, não só se tiver dado segundo o que não tem. O que diz "segundo o que tem, e o que não tem" é o mesmo que disse acima "segundo as possibilidades e além das possibilidades"; quem, com efeito, reserva o necessário para si e reparte o que sobra, este diz-se dar segundo o que tem; quem, porém, nada retém para si, mas, repartido tudo, nu segue a Cruz nua, este dá segundo o que não tem: mas porque não os viu capazes desta perfeição, exorta ao que é mais leve.

Objetaria alguém: obrigas-nos a dar, para que, enriquecendo outros dos nossos bens, depois passemos necessidade. De modo algum; mas segundo o que tendes, e não segundo o que não tendes; *não para que aos outros haja alívio* e, aliviados, entorpeçam no ócio, *e a vós aperto*, de onde a eles alívio; isto, sim, não o mando; mas peço isto: que a vossa abundância, que é em bens temporais, *supra a penúria deles no presente*; e que isso se faça *por igualdade*, não de modo que lhes deis tanto quanto reservardes para vós, mas tanto que igualmente fiqueis seguros da penúria. Por isso a vossa abundância supra a penúria deles, *para que também a abundância deles*, os perfeitos, que é nas virtudes, *seja suprimento da vossa penúria*, vós que, se sois ricos de bens terrenos, sois pobres dos celestes; supra, digo, de modo que, mutuamente supridos, *haja igualdade* para eles no bem eterno; para que, como os santos neste mundo participam dos frutos dos que trabalham, assim no futuro os que agora ministram aos santos participem da remuneração deles. Nem digo "haja igualdade" no sentido de que os imperfeitos recebam tanto quanto os mais perfeitos; mas a igualdade está em que cada um receberá o seu denário, isto é, perfeita e suficiente bem-aventurança: por isso, com efeito, foi estatuído que uns homens trabalhassem, outros se dedicassem à oração; para que os orantes fossem sustentados pelo trabalho dos outros, e os trabalhadores se salvassem pela oração deles. Haja, digo, igualdade, *como está escrito* figuradamente da futura igualdade: *quem teve muito não teve demais* sobre quem tem pouco, *e quem teve pouco não teve de menos*, isto é, não teve menos que quem muito colheu; quem, com efeito, tem muito da glória celeste, não abunda de modo a faltar ao que tem menos, mas a ambos, ao que tem muito e ao que tem pouco, é igual a abundância, porque a ambos o que basta, embora haja entre eles diferença na glória. Isto está escrito, à letra, do maná que os judeus recolhiam; porque quem colhera muito, ainda que mais que um gômor cheio, não teve mais que um gômor, e quem colhera menos que um gômor não teve menos que um gômor cheio (Ex 16,18).

Disse acima que roguei a Tito; *graças a Deus*, porém, *que pôs no coração de Tito a mesma solicitude por vós* que no meu coração; a mesma, digo bem, *pois ele acolheu a exortação* feita por vós; mas, embora a acolhesse benignamente, *partiu, contudo, para ir ter convosco*, sendo mais solícito por vós por sua vontade do que pela minha exortação. *Enviamos também com ele*, a saber, com Tito, *o irmão cujo louvor no Evangelho* — a este irmão uns dizem Lucas, outros Barnabé; se Lucas, dizemos: cujo louvor é por ter escrito o Evangelho; se Barnabé, assim: cujo louvor é por ter pregado o Evangelho — *é em todas as Igrejas*; toda Igreja, com efeito, o louva. *E não só é louvado no Evangelho, mas foi também designado pelas Igrejas companheiro da nossa viagem* — isto parece dizer mais de Barnabé; a quem, com Paulo, os irmãos que estavam em Jerusalém enviaram às nações para pregar, dizendo-lhes o Espírito Santo: «Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os chamei» (At 13,2); diz "viagem" porque, quando é enviado da Judeia às nações, sai da pátria e passa a lugares estrangeiros —; companheiro, digo, feito *para esta obra de graça* das esmolas, igualmente a pregar, graça *que administramos* nós, recebendo de vós, aos santos que estão em Jerusalém; do que deveis alegrar-vos, porque é administrada *para a glória do Senhor.* E na verdade Deus é glorificado nesta administração; e, para calar a glória do Senhor, se não houvesse outra coisa, deveríeis ministrar para cumprir *a nossa disposição*, doutrina de que sois filhos de Deus; disposição, digo, certamente a ser seguida, porque *destinada*, isto é, ordenada neste querer a Deus; Deus, com efeito, dispôs que eu assim quisesse.

*Enviamos Tito e com ele outro irmão, evitando que alguém nos censure acerca desta abundância de esmolas que administramos* aos santos em Jerusalém. Por isso Paulo enviava tantas testemunhas idôneas para receber as coletas, para que, se o fizesse por pessoa suspeitosa, o não censurassem, dizendo que da abundância das esmolas retinha para seus usos. Digo "para que alguém não nos censure", e bem; pois nós, assim fazendo, *procuramos o bem não só diante de Deus, mas também diante de todos os homens*; ninguém, com efeito, poderá suspeitar algo censurável onde vir tantas testemunhas idôneas. Nesta palavra de Paulo entende-se que quem se mostra tal que dele possa nascer suspeita sinistra, ainda que não seja réu disso, peca, contudo, enquanto, por sua negligência, agindo com menos previdência, suscita culpa no irmão.

*Com Tito, porém, e com aquele outro irmão enviamos também o nosso irmão, que muitas vezes provamos solícito em muitas coisas* por vós — a este irmão não nomeia, mas cremos que é Apolo, bispo deles, que na primeira Epístola, rogado por Paulo, não quis ir (1Cor 16,12), ouvindo que ainda eram incorrigidos; mas agora, ouvido por Tito que estavam corrigidos, volta a eles —: digo que foi solícito; mas sabei que agora está *muito mais solícito* pela vossa salvação, *com muita confiança em vós*, quer por Tito, que recomendou a vossa correção àquele, quer por estes que são nossos irmãos, isto é, e por Tito e por estes: por Tito, digo, que é meu *companheiro em tudo, e sobretudo colaborador convosco*, e por estes que são nossos irmãos, *apóstolos*, isto é, legados *das Igrejas, glória de Cristo*, isto é, para pregar a glória de Cristo.

E porque pessoas tão aprovadas vos enviamos, *dai, pois, a eles a prova da vossa caridade* e, para dizer mais, dai a eles a prova que é prova da vossa caridade; se, com efeito, vos mostrardes ingratos, será manifesto que por temor, porque estáveis nos pecados, e não por caridade ministrastes a Tito e aos outros; mas a vossa benignidade agora exibida a estes será prova da vossa caridade, porque comprovará que por caridade fizestes o que antes fizestes. Dai também *a prova da nossa glória* tida junto deles por vós; muito, com efeito, me gloriei e prometi que os acolhereis honrosamente; dai, digo, *diante das Igrejas*, para que sejais a face e a forma à semelhança de quem se imprimam as demais Igrejas.

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# Capítulo 9

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto ao serviço que se faz aos santos, é supérfluo que eu vos escreva. Pois conheço a vossa prontidão, pela qual me glorio de vós diante dos macedônios, dizendo que também a Acaia está preparada desde o ano passado; e o vosso zelo estimulou a muitíssimos. Enviei, porém, os irmãos, para que a nossa glória a vosso respeito não fique vã neste ponto (como disse), a fim de que estejais preparados; para que, se os macedônios vierem comigo e vos acharem despreparados, não nos envergonhemos nós (para não dizer vós) nesta confiança. Julguei, pois, necessário rogar aos irmãos que se antecipem a ir ter convosco e preparem a bênção que prometestes, para que esteja pronta, como bênção e não como avareza. Digo, porém, isto: Quem semeia pouco, pouco colherá; e quem semeia com bênçãos, com bênçãos também colherá. Cada um dê como decidiu em seu coração, não com tristeza nem por obrigação; pois Deus ama ao que dá com alegria (Eclo 35,11). Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, para que, tendo sempre em tudo toda a suficiência, abundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre (Sl 111,9). Aquele que fornece a semente ao que semeia, fornecerá também o pão para comer, multiplicará a vossa semente e aumentará o crescimento dos frutos da vossa justiça; para que, enriquecidos em tudo, abundeis em toda simplicidade, que produz por nós ação de graças a Deus. Pois o ministério deste serviço não só supre o que falta aos santos, mas abunda também em muitas ações de graças ao Senhor, pela prova deste ministério, glorificando eles a Deus pela obediência da vossa confissão ao Evangelho de Cristo, e pela simplicidade da vossa comunhão com eles e com todos, e pela oração deles por vós, que vos desejam por causa da eminente graça de Deus em vós. Graças a Deus por seu dom inefável.

## Comentário

Para que mostreis a vossa caridade para com eles, admoesto-vos; *pois escrever-vos sobre o serviço*, isto é, sobre aquelas coletas, serviço que deve ser levado aos santos, sobre isto, digo, escrever-vos *é supérfluo para mim*, isto é, julguei supérfluo. Por isso supérfluo, *porque conheço a vossa prontidão* para ministrar; *pela qual*, a saber, porque estais preparados, *me glorio de vós*, tão difusos na caridade, *diante dos macedônios*, dizendo que não só Corinto, mas toda a Acaia sob Corinto está preparada para ministrar aos santos *desde o ano passado*; e assim *o vosso zelo*, isto é, a imitação, *estimulou a muitíssimos* a fazerem o mesmo. Deve-se ver com quanta sutileza Paulo antes induz os coríntios pelo exemplo dos macedônios, agora, ao contrário, os macedônios pelo exemplo dos coríntios.

E, embora a vossa vontade seja pronta, *enviei, contudo,* a vós estes irmãos, *para que a nossa glória a vosso respeito não fique vã*, isto é, não seja destruída *neste ponto*, isto é, na administração despreparada; enviei, digo, para que, *como disse* em outra Epístola, *estejais preparados; para que, se os macedônios vierem comigo e vos acharem despreparados, não nos envergonhemos nós nesta confiança*, isto é, esmola não preparada; nós, digo, nos envergonharíamos, *para não dizer vós*, que, se estais despreparados, com razão vos envergonhareis: chama substância à esmola, porque por ela subsistimos no presente. E porque não quis que estivésseis despreparados, *julguei, pois, necessário rogar a estes irmãos que se antecipem a mim a ir ter convosco e preparem a bênção das esmolas*, não para se preparar quando eu for, mas para estar pronta; esta bênção, digo, *prometida* por vós, vede que não sejais infiéis na promessa. Preparem, digo, a bênção *como bênção*, isto é, doação larga, *e não como avareza*; se dão pouco, com efeito, será julgado mais avareza do que dom. Quero que eles preparem; eu também, com voz própria, o digo e admoesto que deis abundantemente; porque *quem semeia pouco*, isto é, quem dá esmola avaramente, *colherá pouco*, isto é, será remunerado, mas pouco. Diz semear dar esmola, porque, assim como quem semeia perde no presente o que no futuro receberá multiplicado, assim quem dá esmola perde no presente o que colherá centuplicado na glória. Quem semeia pouco colherá pouco; *e quem semeia com bênçãos*, isto é, em abundância de dar, este certamente *colherá com bênçãos*, isto é, de copiosas remunerações. E, embora eu persuada a dar tão abundantemente, *cada um dê como decidiu*, isto é, como pôs em seu coração, isto é, por arbítrio de sua própria vontade, *não com tristeza*, de modo que se doa de dar, *nem por obrigação*, dando por vontade coagida; poderia, com efeito, coagido querer, mas sem tristeza; não, digo, por obrigação, mas por alegria; *Deus, com efeito, ama o que dá com alegria.*

Porque o alegre dá alegremente o dom, acrescenta as causas por que se deve dar alegremente, porque abundará em bens temporais, além disso em virtudes no presente, no futuro em glória celeste, por mérito da esmola, dizendo: dai com alegria, *porque Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça*, isto é, tanto a cópia de bens temporais quanto as virtudes e a glória futura, *de modo que vós, tendo sempre toda a suficiência, e em tudo*, isto é, em cada uma dessas graças; tendo, digo, toda e em tudo, pelo desejo destas graças *abundeis em toda boa obra*, para que deis a esmola copiosa e alegremente, tanto em vestuário como em alimento, sem queixa alguma; abundeis, digo, nesta boa obra, *como está escrito* no salmo sobre o justo esmoler: *Distribuiu*, isto é, não a um só, mas a diversos repartiu os seus bens, nem com intenção de receber, *deu*, nem aos que não precisavam, mas *aos pobres*; e por isso *a sua justiça*, isto é, o mérito de sua justiça, *permanece para sempre* (Sl 111,9). Objetaria alguém: prefiro reservar-me para o futuro do que agora distribuir e no tempo de penúria passar necessidade. Contra isto Paulo, expondo também o que acima entendera ao dizer "toda a graça": deveis certamente abundar em toda boa obra; porque *aquele que fornece a semente ao que semeia*, isto é, as coisas temporais ao que dá esmola, esse também *fornecerá o pão* no ano seguinte, não para a superfluidade, mas *para comer*; *multiplicará também a vossa semente*, para que tenhais abundantemente para repetir as esmolas: eis a graça nos bens temporais. *Aumentará* também, por mérito das esmolas, *o crescimento dos frutos*, isto é, o mérito *da vossa justiça* tida em vós sem alguma distribuição de esmolas; aumentará, digo, o incremento dos frutos da vossa justiça, fazendo crescer o mérito da justiça privada pelo mérito da esmola: aumentará de tal modo que vós, *enriquecidos em tudo*, tanto na multiplicação da semente como no incremento da justiça, *abundeis* merecidamente *em toda simplicidade*, isto é, em perfeita e simples distribuição.

Agora acrescenta de novo muitos bens que provêm das esmolas, dizendo: simplicidade *que produz por nós ação de graças a Deus*, porque pela vossa administração damos graças a Deus: eis um bem. E com razão graças; *pois o ministério deste serviço*, isto é, a administração da vossa simplicidade, *não só supre o que falta aos santos, mas abunda também ao Senhor*, isto é, em glória do Senhor, *em muitas ações de graças* feitas por muitos; abunda também *pela prova deste ministério*, porque todos aprovam e magnificam tal administração; por muitos, digo, *glorificando a Deus pela obediência da vossa confissão*, isto é, no fato de que fizestes a confissão da fé *ao Evangelho de Cristo*, em quem credes, e na obediência, porque, tendo fé, confessais e logo obedeceis a Cristo; glorificando também a Deus *pela simplicidade da comunhão*, isto é, no fato de que simplesmente fazeis comuns as coisas próprias; comunhão, digo, feita *com eles*, os santos, *e com todos*; glorificando também *pela oração* daqueles a quem ministrais; oração, digo, feita por vós; deles, digo, *que vos desejam* ver, não por lhes darem bens temporais, mas *por causa da eminente graça de Deus* que sabem estar em vós. E porque de tal administração se seguem tantos bens, por isso *dou graças a Deus por* (isto é, de) *seu dom* que vos conferiu, a saber, a graça das esmolas; dom, digo, *inefável*, ou seja, para que seja narrado a todos como exemplo; ou então, dom inefável, não podem, com efeito, ser narrados quantos bens provêm deste dom.

</div>

# Capítulo 10

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Eu mesmo, Paulo, vos rogo pela mansidão e modéstia de Cristo, eu que, na aparência, sou humilde entre vós, mas ausente tenho confiança em vós. Rogo-vos que, quando estiver presente, não tenha de usar de ousadia com aquela confiança com que julgam que me atrevo contra alguns que pensam que andamos segundo a carne. Pois, ainda que andemos na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas, derrubando conselhos e toda altivez que se levanta contra a ciência de Deus, e reduzindo ao cativeiro todo entendimento em obséquio de Cristo, e prontos para castigar toda desobediência, quando a vossa obediência for completa. Vede as coisas segundo a aparência. Se alguém confia em si mesmo que é de Cristo, pense de novo consigo mesmo que, assim como ele é de Cristo, assim também nós. Pois, ainda que eu me glorie um pouco mais do nosso poder, que o Senhor nos deu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei. Para que, porém, não pareça que vos quero amedrontar por cartas — pois dizem que as cartas são graves e fortes, mas a presença do corpo é fraca, e a palavra desprezível —, pense tal pessoa que, quais somos em palavra por cartas, ausentes, tais seremos também presentes em obras. Pois não ousamos ingerir-nos nem comparar-nos a alguns que se recomendam a si mesmos; mas eles, medindo-se a si mesmos por si mesmos e comparando-se consigo mesmos, não entendem. Nós, porém, não nos gloriaremos desmedidamente, mas segundo a medida da regra que Deus nos mediu, a medida de chegar até vós. Pois não nos estendemos demais, como se não chegássemos até vós; pois chegamos até vós no Evangelho de Cristo. Não nos gloriando desmedidamente em trabalhos alheios, mas tendo esperança, crescendo a vossa fé, de sermos engrandecidos em vós, segundo a nossa regra, com maior abundância, para evangelizar também nas regiões além de vós, sem nos gloriarmos em regra alheia no que já está preparado. Quem se gloria, glorie-se no Senhor. Pois não é aprovado quem a si mesmo se recomenda, mas aquele a quem o Senhor recomenda.

## Comentário

Depois de ter admoestado suficientemente os corrigidos com múltipla recomendação da graça das esmolas, passa a repreender os incorrigidos, que ainda antepunham a si os falsos apóstolos; os quais falsos apóstolos aqui muito deprime, recomendando de muitos modos e idoneamente a sua autoridade, não para por isso buscar sua glória, mas só pretende que, aviltados os falsos apóstolos, os coríntios não mais lhes adiram, e dele, tão gloriosamente recomendado, daí se alegrem de aderir. A letra liga-se assim: a vós bem corrigidos exorto sobre a graça das esmolas; a vós incorrigidos, porém, não admoesto isto, que sei indignos da graça de Deus, mas *rogo-vos*, isto é, conjuro-vos por quaisquer coisas sagradas, *eu mesmo, Paulo.* Nota o que diz "eu mesmo"; diziam, com efeito, os coríntios que, enquanto Paulo esteve presente a eles, falou bastante humildemente e não para lesão de ninguém, talvez temendo; agora, porém, ausente, ameaçava-os imperiosamente como se tivesse poder imperial sobre eles. Por isso diz: eu mesmo, Paulo, agora agindo imperiosamente, que outrora humildemente, *rogo-vos pela mansidão e modéstia de Cristo.* Mansidão diz onde gratuitamente, sem juízo, tudo perdoou; modéstia diz porque, quando agia por juízo, julgava modestamente, temperando a equidade com a misericórdia. Pela mansidão certamente e modéstia de Cristo vos rogo eu, Paulo, *que, na aparência, sou humilde*, e paciente de tudo sou julgado ter sido entre vós; humildade que, segundo julgais, foi na aparência e não no coração; fingia, com efeito, por fora a humildade, acalentando por dentro a soberba: enquanto estive presente, segundo vós, era humilde, mas agora *ausente tenho confiança em vós*, isto é, ajo confiantemente e imperiosamente em vós, o que como que não ousaria nas outras Igrejas. Não só rogo como quem pede, mas peço como quem exige coisa devida *que, presente, não tenha de usar de ousadia*, isto é, esforceis-vos por assim vos corrigir, para que, *quando eu estiver presente, não ouse*, isto é, segundo vós, não presuma audaciosamente; ouse, digo, *contra* alguns ainda incorrigidos agir *com aquela confiança*, isto é, tão confiante e poderosamente, confiança com que sou julgado por alguns, ausente, por Epístola, ousar; contra alguns, digo, *que pensam que andamos segundo a carne.* Andaria Paulo segundo a carne se, ou por amor dos bens temporais que deles receberia, os poupasse, ou se, com má consciência, temesse padecer por Cristo.

Digo bem "como": *nós, na verdade, não militamos segundo a carne*; chama milícia à sua pregação. Dir-se-ia: tu certamente tens algum dom singular de Deus, com que podes superar a carne; dom que, porque não temos, é necessário seguir a carne. Contra isto diz: *não militamos segundo a carne*; nós andamos certamente na carne; igualmente, com efeito, como vós, padecemos o peso da carne e, contudo, a superamos. Na verdade não militamos segundo a carne; *pois as armas da nossa milícia*, isto é, da pregação e de toda a nossa vida, *não são carnais*: chama armas da milícia os milagres, pelos quais confirmava a sua pregação; chama armas também as virtudes e quaisquer boas obras. As armas da nossa milícia não são carnais; se seguíssemos a carne, com efeito, certamente aquelas armas logo nos abandonariam, mas as nossas armas são *poderosas em Deus*, isto é, por Deus, ou para a glória de Deus; poderosas *para destruir fortalezas*, de modo que facilmente por estas armas destruamos quaisquer heresias muito fortificadas ou razões filosóficas.

Na verdade as nossas armas são poderosas para destruir; *pois já estamos em ato destruindo*: onde há ato, a potência não pode faltar. A letra liga-se ali: não militamos segundo a carne; nós, digo, *derrubando conselhos*, isto é, razões rebuscadas; *derrubando também toda altivez* da ciência física *que se levanta contra a ciência de Deus*, como aqueles que pela lei da natureza objetam que não pôde uma virgem dar à luz, nem um morto ressurgir; e não só derrubando, mas também *reduzindo ao cativeiro todo entendimento* de qualquer infiel, porque, vencidas as infidelidades, depõem o jugo do diabo e se cativam sob o jugo de Cristo; reduzindo certamente à cativeiro, conduzindo-os *em obséquio de Cristo*, para que os que antes mal obsequiavam ao diabo doravante obsequiem a Cristo — o que diz "todo entendimento", "toda altivez", não que tenha convertido cada um dos infiéis, mas porque de todo gênero de infidelidade atraiu alguns à fé —; reduzindo, sim, em obséquio de Cristo: se alguns não querem ser reduzidos, *estamos prontos para castigar toda desobediência*, isto é, por autoridade apostólica condenar todo desobediente. Tem isto à mão, porque nem a má consciência o chama de volta, nem é seduzido por presente temporal. Dir-se-ia: visto que tens à mão o castigar, por que então não castigas? Castigarei certamente, mas não agora, e sim *quando a vossa obediência for completa*, isto é, quando eu tiver separado do meio dos maus, pela paciência da espera, aqueles de vós que hão de obedecer à fé de boa vontade.

Deve-se considerar diligentemente a sutil modéstia de Paulo, que adia a punição dos reprovados, vendo nesta sua espera a salvação dos eleitos; se, com efeito, tolerasse impunes os reprovados, seria réu por esta causa; a estes, contudo, tolera benignamente para não arrancar o trigo com o joio.

Que não militamos segundo a carne, provei por isto: que destruímos a altivez da ciência mundana e cativamos os rebeldes em obséquio de Cristo; razões que não parecem tanto a cada um; mas agora *vede e reconhecei* o mesmo, a saber, que não andamos segundo a carne; vede, digo, *as coisas segundo a aparência*, isto é, as que são segundo a visão corporal e podem ser vistas sem obstáculo algum; ou assim: aqueles que são segundo a aparência, isto é, que na aparência se fingem bons, mas por dentro são lobos, a estes agora vede. *Se alguém* falso apóstolo *confia em si mesmo*, não em Deus, é, com efeito, presunçoso, não eleito; se alguém, digo, confia em si mesmo *que é de Cristo*, isto é, que ele é Apóstolo de Cristo, não só isto, mas *pense isto de novo consigo*, e não vãmente, mas discutindo sutilmente consigo: *que, assim como ele é discípulo de Cristo, assim também nós.*

Na verdade, assim como ele é de Cristo, assim também nós; pois nós somos assim mais que ele; o que diz assim: *ainda que eu me glorie um pouco mais do nosso poder*, com que posso separar da Igreja os incorrigidos, e dos demais do poder apostólico, poder que me deu o Senhor, mas a vós falsos apóstolos não deu; certamente me deu *para edificação vossa*, isto é, para vos edificar na fé e nas virtudes, *e não para destruição vossa*, como erradamente julgam alguns, a saber, que eu sou destruidor da Igreja; se, digo, me gloriar mais, *não me envergonharei*, porque a minha glória é verdadeiramente maior.

Objetaria alguém: já que deves edificar e não destruir, não nos queiras impacientemente coagir, para que não destruas antes do que edifiques. Contra isto Paulo: embora me objeteis que, devendo edificar, destruo, sabei, contudo, que *quais somos por cartas, ausentes, tais seremos presentes em obras*; e isto *para que não pareça que vos quero amedrontar por cartas.* Diz bem "como que amedrontar"; porque, se ameaçasse ausente o que temeria cumprir presente, isto certamente não seria amedrontar, mas "como que amedrontar". Pareça, digo, *pois dizem*: *as cartas de Paulo são graves*, isto é, ponderosas e de muita severidade, *e fortes*, isto é, ameaçando fortaleza e certo império, *mas a presença do corpo é fraca*, contra o que diz "fortes"; *e a palavra* da sua presença *foi desprezível*, isto é, bastante humilde e rude, agora, porém, grave: para que, digo, não pareça que vos quero amedrontar; *pense isto tal pessoa*, isto é, quem me diz desprezível e fraco; pense, digo, que *quais somos, ausentes, em palavra por cartas enviadas, tais seremos também presentes*, não só em palavra, mas também em obra; porque o que ameaçamos por Epístola, o mesmo, presentes, exerceremos em palavra e obra.

Na verdade, quais somos ausentes em palavra, tais seremos presentes em obra; *pois não somos dos vossos falsos apóstolos*, que impudentemente se ingerem, isto é, se intrometem, não enviados por Deus; nem certamente ousamos *ingerir-nos*, para usurpar ilicitamente o que não nos foi confiado: *ou não ousamos*, ingeridos por Deus, *comparar-nos a alguns*, isto é, falsos apóstolos, *que* não recomendados por Deus *se recomendam a si mesmos*, levando de cá para lá cartas de recomendação: a estes não ousamos comparar-nos, de modo a negligenciar a medida incompleta do nosso ofício; alguns, com efeito, regularmente ingeridos por eleição, depois, obrando perversamente, comparam-se aos perversos. Não ousamos ingerir-nos; mas *nós mesmos* somos *medindo-nos a nós mesmos por nós*, para não excedermos a medida que nos foi dada por Deus, usurpando o alheio, como os que se ingerem; somos também *comparando-nos conosco*, sem deixar incompleto nada do ofício imposto, comparando-nos a nós, nós permanecendo dentro da meta proposta. E, embora meçamos e nos comparemos conosco, *nós, contudo, não nos gloriaremos desmedidamente.* Ou pode conduzir-se a construção até aqui, sem suprir "somos", assim: nós, medindo-nos e comparando-nos conosco, não nos gloriaremos.

*Nós, porém*, que poderíamos dignamente, *não nos gloriaremos desmedidamente, mas nos gloriaremos segundo a medida da regra* com que me regulei idoneamente, a mim e aos súditos. Então talvez dissesse alguém: esta medida usurpaste-a para ti. Contra o que Paulo: *a medida que Deus nos mediu.* De novo aquele: mas não até nós. A medida, digo, *de chegar até vós.* E na verdade chegamos até vós; *pois não nos estendemos demais, como se não chegássemos até vós*, segundo a medida que por Deus nos foi medida. Na verdade não nos estendemos demais; *pois chegamos até vós*, pela medida de Deus, *no Evangelho de Cristo*, pregando. Objetaria de novo: entraste em trabalho alheio. Contra isto diz: chegamos até vós, *não nos gloriando em trabalhos alheios*, isto é, não edifiquei sobre fundamento alheio; não nos gloriando, digo, e *não desmedidamente*: aquela negação deve duplicar-se.

Na verdade chegamos até vós; *pois também além de vós*; o que diz assim: não nos gloriando desmedidamente, *mas tendo esperança, crescendo a vossa fé*, isto é, pela fé crescente de vós, *de sermos engrandecidos em vós*; visto, com efeito, o fruto da vossa fé, dir-se-á: grande é o doutor e instituidor desta fé; engrandecidos, digo, em vós *segundo a nossa regra*, isto é, segundo o que com toda equidade regulamos a vossa vida, seremos engrandecidos em vós; tendo também esperança *de evangelizar nas regiões que estão além de vós*, e isto *com maior abundância*; em muitos lugares, com efeito, evangelizarei; ou então, evangelizar em abundância de sinais e palavra: *e sem esperança de nos gloriarmos em regra alheia*, isto é, em governo alheio, a saber, naqueles lugares que *já estão preparados*, isto é, evangelizados por outros Apóstolos.

Eu não quero gloriar-me em regra alheia; igualmente, porém, *quem se gloria*, veja que *se glorie no Senhor* que lhe mede; nem temerariamente usurpe para si o que Deus mediu a outro.

Todo o que se gloria convém que se glorie na medida do Senhor; *pois não é aprovado quem a si mesmo se recomenda*, isto é, quem sem Deus se ingere no governo de outro, como os falsos apóstolos, esse certamente não é aprovado por Deus, *mas aquele a quem o Senhor recomenda*, e a quem distribui a medida própria.

</div>

# Capítulo 11

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Oxalá suportásseis um pouco da minha insensatez; mas suportai-me. Pois tenho por vós um zelo de Deus; porque vos desposei com um só esposo, para vos apresentar a Cristo como virgem casta. Temo, porém, que, assim como a serpente seduziu Eva com a sua astúcia, assim também se corrompam os vossos pensamentos e decaiam da simplicidade que há em Cristo. Pois, se vem alguém que prega outro Cristo, que não pregamos, ou se recebeis outro Espírito, que não recebestes, ou outro Evangelho, que não acolhestes, de boa vontade o suportaríeis. Julgo, com efeito, em nada ter ficado atrás dos grandes Apóstolos. Pois, embora imperito na palavra, não o sou na ciência; antes, em tudo nos temos manifestado a vós. Ou cometi eu pecado, humilhando-me a mim mesmo para que vós fôsseis exaltados, por vos ter anunciado gratuitamente o Evangelho de Deus? Despojei outras Igrejas, recebendo delas sustento para vos servir; e, estando entre vós, e passando necessidade, a ninguém fui pesado; pois o que me faltava, supriram-no os irmãos que vieram da Macedônia; e em tudo me guardei de vos ser pesado, e me guardarei. A verdade de Cristo está em mim, de que esta glória não será impedida em mim nas regiões da Acaia. Por quê? Porque não vos amo? Deus o sabe. Mas o que faço e farei, é para cortar a ocasião aos que querem ocasião, para que naquilo em que se gloriam sejam achados como nós. Pois tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, que se transfiguram em apóstolos de Cristo. E não é de admirar; o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz: não é, pois, muito que os seus ministros se transfigurem em ministros de justiça; cujo fim será segundo as suas obras. De novo digo (ninguém me julgue insensato; do contrário, recebei-me como insensato, para que também eu me glorie um pouco): o que digo, não o digo segundo o Senhor, mas como na insensatez, neste fundamento de glória. Pois, já que muitos se gloriam segundo a carne, também eu me gloriarei. Pois de bom grado suportais os insensatos, sendo vós mesmos sábios. Suportais, com efeito, se alguém vos escraviza, se alguém vos devora, se alguém vos toma, se alguém se exalta, se alguém vos fere no rosto. Digo-o para vergonha, como se tivéssemos sido fracos nisto. Mas naquilo em que alguém ousa (digo-o na insensatez), ouso eu também. São hebreus? Eu também. São israelitas? Eu também. São descendência de Abraão? Eu também. São ministros de Cristo? (falo como menos sensato) eu mais: em trabalhos muito mais, em prisões mais abundantemente, em açoites sem medida, em perigos de morte muitas vezes. Dos judeus recebi cinco vezes quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei, passei uma noite e um dia no fundo do mar; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, perigos de ladrões, perigos da parte de meus compatriotas, perigos da parte dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos; em trabalho e fadiga, em muitas vigílias, em fome e sede, em muitos jejuns, em frio e nudez; além das coisas externas, o que me assedia cada dia, a solicitude por todas as Igrejas. Quem enfraquece, e eu não enfraqueço? Quem se escandaliza, e eu não me abraso? Se é preciso gloriar-se, gloriar-me-ei das coisas que são da minha fraqueza. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos, sabe que não minto. Em Damasco, o governador do rei Aretas guardava a cidade dos damascenos para me prender; e fui descido num cesto por uma janela, pela muralha, e assim escapei das suas mãos.

## Comentário

Digo: quem se gloria, glorie-se no Senhor; *e oxalá suportásseis um pouco da minha insensatez*, isto é, tolerásseis pacientemente um pouco da minha jactância, que segundo os reprovados se diz insensatez; o que certamente concederia ser verdade, se por isso buscasse a minha glória; mas pela minha recomendação só isto pretendo: retirar-vos do erro dos falsos doutores; por isso se diz, sim, insensato, mas não é insensatez. Digo como quem pede: oxalá suportásseis; não só assim, mas ordeno também: *suportai-me*, não contradizendo ao meu império, como filhos ao pai, discípulos ao doutor. Deveis certamente suportar-me, *pois tenho por vós um zelo*, isto é, amo-vos com ardente movimento de ânimo; e isto com zelo, isto é, amor, não de mim, para que queira atribuir-vos a mim, mas *zelo de Deus*; porque quero que sejais só de Deus. Está tomado da semelhança de quem ama a noiva de outro, não para si mesmo, mas para utilidade e honra do noivo; como João, quando se julgava que o Esposo da Igreja, isto é, Cristo, o era, amou a Igreja, isto é, a esposa, não para si, mas para o Esposo Cristo, dizendo: «Quem tem a esposa é o esposo; o amigo do esposo, porém, está de pé e o ouve» (Jo 3,29). Zelo diz-se o movimento do ânimo ou para a ira ou para o amor.

Na verdade tenho por vós zelo de Deus; *eu, com efeito, vos desposei* — esta desposação da Igreja, começando no batismo, dura até o dia da ressurreição de todos, no qual a Igreja será entregue em núpcias a seu Esposo Cristo, que a receberá então em seus abraços; ela que desde o princípio da fé foi arrhada com o anel do Espírito Santo —; desposei-vos certamente *com um só*, e se com um, logo não comigo; *com um só esposo*, isto é, que é marido legítimo, não como aquele de quem se disse: «Este que agora tens não é teu marido» (Jo 4,18). Desposei-vos com um só esposo *para vos apresentar*, isto é, para vos oferecer àquele só esposo, Cristo, *como virgem*, isto é, incorruptas de ato de pecado; virgem, digo, *casta*, isto é, carente de ardor, que nem pela vontade consinta na iniquidade.

Eu certamente quero apresentar-vos a Cristo; mas *temo que, assim como a serpente seduziu Eva com a sua astúcia, assim também os vossos pensamentos, seduzidos, se corrompam* por esses falsos apóstolos, e corrompidos *decaiam da simplicidade da fé*, simplicidade que *há em Cristo Jesus*; a fé de Cristo, com efeito, consiste na simplicidade, não na astuta duplicidade da infidelidade. Muito deprime os coríntios, enquanto os compara a Eva, e os doutores deles à serpente venenosa. Temo que se corrompam: para que, porém, não sejais corrompidos por eles, não deveis tolerá-los; *pois se aquele*, isto é, o falso apóstolo, *que vem* por si, não por Deus; ou então, que vem, isto é, que se vos vende (este, com efeito, vende otimamente a sua pregação); se este, digo, *prega outro Cristo, que não pregamos a vós; ou se recebeis dele outro Espírito, que não recebestes de nós; ou outro Evangelho, que não acolhestes de nós*: se, digo, estas coisas fossem, então com razão o suportaríeis; mas porque não pregam outro Cristo, não dão o Espírito Santo que de nós recebestes, e não pregam outro Evangelho, por isso não devem ser tolerados por vós.

Não deveis certamente tolerá-los, mas a mim; porque (para calar deles) *julgo em nada ter ficado atrás*, pelo que fosse menos separado *dos grandes Apóstolos*, isto é, de Pedro e daqueles que pareciam ser colunas; de cujo magistério estes falsos apóstolos se me antepõem, falsamente, porém, porque nem são discípulos deles. Aqui responde astutamente aos que lhe objetavam que, por não ser Apóstolo, não recebia sustento da pregação, como Pedro e os outros: em nada, certamente, fiquei atrás deles; *pois, embora* tenha parecido a vós *imperito na palavra*, porque vos falei simplesmente, sabei, contudo, que *não sou imperito na ciência.* Mas por que digo isto? *Em tudo*, tanto na ciência quanto na palavra, *me manifestei a vós* como em nada imperito. Na verdade em nada fiquei atrás dos grandes Apóstolos, porque até mais que eles; e isto diz latentemente, como que reduzindo-se sob certa menoridade de si, dizendo assim: *ou cometi eu pecado, humilhando-me a mim mesmo*, subtraindo-me o que o direito da pregação exige, *para que vós fôsseis exaltados* por minha humilhação? Se, com efeito, eu não me humilhasse assim, nada recebendo, preferiríeis rejeitar a palavra de Deus a ministrar-me; pequei eu, digo, por *vos ter anunciado gratuitamente*, isto é, nada recebendo de vós, *o Evangelho de Deus?*

Perguntariam aqueles: de que então viveste? Diz: eu certamente *despojei outras Igrejas, recebendo delas sustento para vos servir*, isto é, para vos administrar o Evangelho. De novo aqueles: talvez não precisasses de nada? E ele: *estando entre vós, e certamente passando necessidade de tudo, a ninguém de vós fui, contudo, pesado*: onde diz "pesado", muito os arguiu de avareza. De novo aqueles: de onde então suprias a penúria? Bem, diz Paulo; *pois o que me faltava, supriram-no os irmãos que vieram da Macedônia*, e assim *em tudo* tanto em vestuário como em alimento *me guardei de vos ser pesado*, e igualmente me guardarei daqui em diante. E neste ponto em que na verdade assim me guardarei, *a verdade de Cristo está em mim*; como se dissesse: pela verdade de Cristo asseguro que assim me guardarei; a verdade, digo, de Cristo está em mim sobre isto *que* (isto é, porque) *esta glória*, a saber, de que assim me guardarei, *esta glória não será impedida em mim*, não só em Corinto, mas nem *nas regiões da Acaia.* De novo: assim agis porque és nosso inimigo. Contra isto Paulo: não será certamente impedida; mas por quê? Direis que faço isto *porque não vos amo?* *Deus o sabe* que vos amo; mas o que faço e farei, a saber, nada recebendo, faço-o por isto: *para cortar a ocasião* daqueles falsos apóstolos que de mim querem ter ocasião de receber; porque, se eu recebesse, então também eles: corto, digo, *para que sejam achados como nós*, nada recebendo; *naquilo em que se gloriam* muito de fazer algo como nós, embora nos persigam; ou assim: para cortar a ocasião aos falsos apóstolos, que querem ocasião de receber naquilo em que se gloriam, isto é, em receber; não procuram, com efeito, outra glória senão que alguns os atraiam, nisso sejam achados como nós, nada recebendo. Deve-se considerar a sutileza de Paulo: se Paulo recebesse, com efeito, logo também eles; e depois que vivessem dos bens deles, pareceriam ter autoridade de pregar-lhes; e, se pregassem com autoridade, sem dúvida corromperiam a sua fé; e deste modo a semelhança com Paulo seria alimento de corrupção dos coríntios.

Dir-se-ia: tu dizes "para que sejam achados como nós"; podem os falsos apóstolos ser achados semelhantes a vós? Podem certamente, diz Paulo; *pois tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos*, naquilo em que *se transfiguram em apóstolos de Cristo*, recebendo se eles recebem, abstendo-se se eles se abstêm, e nas demais coisas. *E não é de admirar* que se transfigurem em Apóstolos de Cristo, *porque o próprio Satanás*, cabeça deles, muitas vezes *se transfigura em anjo de luz*; e porque Satanás passa a anjo de luz, *não é, pois, muito de admirar que os seus ministros*, isto é, os falsos apóstolos, *se transfigurem, feitos como ministros de justiça*; *cujo fim*, tanto de ministros de Satanás quanto de ministros de justiça, *será segundo as suas obras.*

Gloriou-se acima do seu apostolado, que Deus lhe entregou; gloriou-se também de ter trabalhado mais que todos, evangelizando gratuitamente o Evangelho de Deus, e das demais coisas em que certamente podia justamente gloriar-se: agora, porém, passa a referir algumas coisas segundo a carne, da glória da linhagem, que, contudo, como abertamente insinua, não entende ser glória alguma; mas era necessário, contudo, que se gloriasse da carnalidade da linhagem; quando, com efeito, os falsos apóstolos se exaltavam com tais coisas, se Paulo não tivesse o mesmo, gloriar-se-iam de ter um privilégio que faltaria a Paulo, e assim mais facilmente subverteriam a fé dos insensatos coríntios: glória que Paulo, enquanto mostra estar nele e nada lhe conferir, vitupera os que se gloriam desta coisa em que não há fruto. A letra liga-se assim: disse acima: oxalá suportásseis a minha insensatez; agora de novo digo sobre o mesmo, *para que ninguém me julgue insensato* pela jactância antecipada; *do contrário*, isto é, se por causa da glória antecipada me arguís de insensatez, agora *recebei-me como insensato*, enquanto me glorio da carnalidade, que é muito inferior à glória antecipada — diz "como insensato"; não se deve julgar verdadeiramente insensato, porque, gloriando-se da carnalidade, não busca nisso a sua glória, mas só a edificação dos coríntios, o que é manifesto no fato de reprovar a mesma glória da carne —: recebei-me como insensato, *para que, como os falsos apóstolos, também eu me glorie*, isto é, refira algo da glória da carne; o que, a saber, gloriar-se deste modo, é pouca coisa, nem se deve demorar na verdadeira glória. Digo bem "insensato"; porque o que digo da glória da carne, *não o digo segundo o Senhor*, junto de quem a humildade é recomendada, a glória da carne é deprimida, *mas como na insensatez o digo* — diz "como", porque não é verdadeiramente insensato, enquanto não crê ser verdadeira a glória da carne —; digo, sim, na insensatez, demorando-me *nesta*, isto é, glória carnal, *fundamento* de glória, isto é, em que devemos subsistir e firmar o pé. E isto ironicamente; porque entende que na glória da carne de modo algum se deve subsistir.

Dir-se-ia: como a glória da carne não é segundo o Senhor, por que nela te demoras? Por isso certamente: *já que muitos*, isto é, os falsos apóstolos, *se gloriam segundo a carne, também eu me gloriarei*, isto é, referirei poucas coisas da mesma glória. Gloriar-me-ei, seja porque muitos assim se gloriam, seja porque *suportais*, isto é, carregais o grave fardo deles; suportais, digo, *os insensatos*, isto é, aqueles falsos apóstolos que se gloriam na insensatez; suportais, digo, *de bom grado*, isto é, coagidos por ninguém, porque assim vos apraz, *sendo vós mesmos sábios*, ironicamente, isto é, quando vos arrogais sabedoria, mal combina isto, que suporteis a insensatez deles.

Prossegue em que coisas os suportam, dizendo: certamente suportais; *suportais, com efeito, se alguém daqueles falsos apóstolos vos escraviza*, isto é, vos constrange a servi-lo como servos; *se alguém* deles também *vos devora* os bens; aqueles falsos apóstolos, com efeito, consumiam vorazmente os bens deles: suportais também *se alguém* deles *vos toma*, isto é, vos atrai a si com dolo, isto é, se alguém vos engana; *se alguém* deles também *se exalta*, dizendo-se da linhagem de Abraão, e vós cães: estas duas coisas, enganar e exaltar-se, eram oportunas para devorar-lhes os bens e para reduzi-los à servidão. Suportais se alguém se exalta; *e se alguém, exaltando-se, vos fere no rosto*, isto é, vos censura de serdes incircuncisos e semelhante; fere, digo, não ocultamente, mas *no rosto*, isto é, presume censurar-vos aos vossos olhos; fere-vos, digo, *segundo a ignobilidade* da linhagem que vos censura: a esses certamente suportais, nós, porém, de modo algum, *como se tivéssemos sido fracos nesta parte*, isto é, impotentes de gloriar-nos segundo a carne.

*Mas nisto não somos fracos*: porque *naquilo em que alguém deles ousa gloriar-se, ouso eu também*: onde diz "ousa e ouso", nota que é antes presunção que verdadeira glória. E o que digo, "ouso eu", digo-o na insensatez; a sabedoria, com efeito, admoesta a nem se preferir nem deprimir a outro. Na verdade, naquilo em que alguém ousa, ouso eu também; *pois se aqueles são hebreus*, isto é, eloquentes na língua hebraica, *também eu*. Hebreus dizem-se de Héber, em cuja prudência esta língua foi reservada<sup>[1]</sup>. *Se aqueles de novo se gloriam de serem israelitas, também eu sou israelita.* Hebreus e israelitas poderiam ser, e não, contudo, de Abraão, como os prosélitos, que da gentilidade passavam à circuncisão; por isso acrescentou: *se aqueles são descendência de Abraão* segundo a carne, *também eu.*

Depois de se igualar a eles na glória da linhagem, passa à glória do ministério; não bastaria, com efeito, a estes falsos apóstolos gloriar-se nas coisas antigas, se não se gloriassem também do discipulado de Cristo; por isso diz: *se se gloriam de serem ministros de Cristo*, pregando Cristo, também eu igualmente administro Cristo; *eu mais*, digo, ainda mais que eles sou ministro de Cristo; e isto digo *como menos sensato*, enquanto me antepondo os humilho. O que diz, "eu mais", prossegue assim por partes: mostrei-me mais ministro de Cristo *em trabalhos muito mais*, que, tanto trabalhando com as mãos quanto suportando imensos perigos, suportei mais vezes que eles; *mais abundantemente* mostrado ministro de Cristo *em prisões* que eles, que, para parecerem Apóstolos de Cristo, às vezes se deixavam encarcerar; mostrado também ministro de Cristo *em açoites sem medida* da virtude humana tolerados; e frequentemente mostrado ministro de Cristo *em perigos de morte*, isto é, em penas que bastariam para infligir a morte a qualquer, também a mim, segundo o homem, se o Espírito Santo não me reservasse. Enumera os açoites, dizendo: *em açoites*, digo bem; *dos judeus*, com efeito, *recebi cinco vezes quarenta* açoites *menos um*, isto é, quarenta pancadas menos uma, e não uma só vez, mas cinco, isto é, em cinco ocasiões. A tradição dos judeus era que alguém que agisse contra a Sinagoga fosse punido com quarenta golpes, se agissem sem misericórdia contra ele; mas, se fossem misericordiosos, dos quarenta podiam remitir quantos quisessem. Agora, porque não podiam coibir Paulo da palavra da pregação, levavam-no, segundo o seu rito, à Sinagoga; e, para não serem arguidos de totalmente imisericordes, remitiam um golpe com astúcia cruel, ainda das pancadas.

*Três vezes fui açoitado com varas* também entre os gentios na Macedônia; *uma vez fui apedrejado* pelos efésios, quando livrei a jovem do espírito pitônico; *três vezes naufraguei*, isto é, três vezes naufraguei no mar; *passei também uma noite e um dia no fundo do mar*: disto não se lê se, como Jonas, foi submerso no mar e ali reservado por Deus, ou se no fundo, isto é, no meio do alto mar, sofreu contínuo naufrágio de dia e de noite. Estes naufrágios padecia quando passava de navio para pregar. Mostrado também mais ministro de Cristo *em viagens muitas vezes; em perigos*, isto é, por perigos *de rios*, cujo ímpeto sofri; e por perigos *de ladrões* que me açoitavam e despojavam; e por perigos *da parte de meus compatriotas*, isto é, os que padecia dos judeus; e por perigos *da parte dos gentios*, isto é, os que padecia dos gentios; e por perigos *na cidade* muitas vezes infligidos a mim; e por perigos de ladrões ou de feras tolerados *no deserto*, quando por causa da pregação atravessava bosques; por perigos também *no mar* muitas vezes tolerados, omitidos; por perigos também que muitas vezes suportei *entre falsos irmãos*: por todas estas coisas antecipadas mostrei-me mais ministro de Cristo que eles.

Mostrei-me também ministro de Cristo *em trabalho e fadiga*, isto é, em trabalho penoso, quando padecia febres ou algumas doenças e, contudo, convinha-me trabalhar; em trabalho, digo, tido também *em muitas vigílias*; porque, tendo pregado todo o dia, de noite trabalhava para ter de que viver, ou muitas vezes velava em oração. Mostrei-me também ministro de Cristo *em fome e sede, e em muitos jejuns*, ora espontaneamente, ora por penúria tolerados. Mostrei-me também ministro de Cristo *em frio e nudez*; porque, se o frio me constrangia, era a nudez que fomentava o frio. Estas coisas de que agora me gloriei, suportei-as no corpo; mas *além das coisas externas*, isto é, as que foram toleradas no corpo, há algo que me vexa interiormente, a saber, a *solicitude diária de todas as Igrejas*, isto é, que cada dia estou solícito pelo estado de toda a Igreja: esta solicitude é *o que me assedia*, isto é, assiduamente me assedia, e me pica e gravemente me estimula. Mais é "assédio" do que "solicitude"; assédio, com efeito, diz-se a vexação do corpo e do ânimo, solicitude só do ânimo. Na verdade estou solícito por todos, porque *quem dos irmãos enfraquece*, caindo em pecado ou também por doença do corpo, *e eu logo não enfraqueço*, isto é, não julgo minha a enfermidade dele, condoendo-me? E quem dos irmãos *se escandaliza*, seja por alimento seja por outra coisa, *e eu logo não me abraso*, isto é, por causa do irmão escandalizado não me abraso de ansiedade do ânimo?

Gloriei-me nas coisas antecipadas daquilo que é da minha fraqueza; e ainda delas me gloriarei, *se é preciso gloriar-me*, como realmente é necessário, para que sejam deprimidos os falsos apóstolos e seja edificada a Igreja. E nestas coisas de que me gloriei e me gloriarei, *Deus sabe que em nenhuma delas minto*, ele que *é Deus e Pai de meu Senhor Jesus Cristo*, e por Jesus Cristo familiar a mim; Deus que *é bendito pelos séculos* por Cristo Jesus e pela minha pregação. Disto, digo, não minto: que *em Damasco*, isto é, junto a Damasco, *o governador daquela gente*; governador, digo, *do rei Aretas*, isto é, sob o rei Aretas, que ali imperou; este governador, contratado por rogo e preço dos judeus, *guardava a cidade dos damascenos para me prender.* Paulo, com efeito, batizado por Ananias, demorando-se algum tempo em Damasco, afirmava ali na Sinagoga que este é o Cristo, etc. Movidos por este zelo, os judeus acordaram com o juiz da cidade que Paulo fosse preso, como réu. O governador queria prender-me, *e eu fui descido pelos irmãos num cesto, por uma janela, pela muralha* (a casa, com efeito, em que se hospedava era contígua à muralha), *e assim escapei das mãos* do governador (At 9,22-25). Não escapou para que receasse padecer pelo nome de Cristo, mas para que se cumprisse o que a voz divina dissera dele: «Este é para mim um vaso de eleição, para levar o meu nome diante dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei, com efeito, quantas coisas lhe convém padecer pelo meu nome» (At 9,15-16).

## Notas

1. Segundo a opinião que aqui segue São Bruno, a língua hebraica teria sido na realidade o idioma primitivo; e Héber, trisavô de Abraão, na confusão das línguas em Babel, teria sozinho conservado essa língua com os seus.

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# Capítulo 12

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> Se é preciso gloriar-se (não convém, na verdade), passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe), foi arrebatado até ao terceiro céu. E sei que esse homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras secretas que não é lícito ao homem pronunciar. Por tal homem me gloriarei; por mim mesmo, porém, de nada me gloriarei, a não ser das minhas fraquezas. Pois, ainda que eu queira gloriar-me, não serei insensato; porque direi a verdade; mas me abstenho, para que ninguém me julgue acima do que vê em mim ou ouve de mim. E, para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear. Por isso três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim; e ele me disse: Basta-te a minha graça; pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De bom grado, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por Cristo: pois, quando sou fraco, então sou forte. Tornei-me insensato; vós me obrigastes. Eu devia ter sido recomendado por vós; pois em nada fui inferior aos que são apóstolos em excesso, embora nada seja; contudo, os sinais do meu apostolado foram realizados entre vós, com toda a paciência, em sinais, prodígios e milagres. Em que, com efeito, fostes inferiores às demais Igrejas, senão em que eu mesmo não vos fui pesado? Perdoai-me esta injustiça. Eis que pela terceira vez estou pronto para ir ter convosco; e não vos serei pesado; pois não busco o que é vosso, mas a vós. Pois não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. Eu, porém, de muito bom grado gastarei e me gastarei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado. Mas seja assim: eu não vos fui pesado; mas, sendo astuto, apanhei-vos com dolo. Porventura vos enganei por algum dos que vos enviei? Roguei a Tito e enviei com ele o irmão. Porventura Tito vos enganou? Não andamos pelo mesmo Espírito? Não pelas mesmas pegadas? Há muito pensais que nos desculpamos diante de vós? Falamos diante de Deus, em Cristo; tudo, porém, caríssimos, para a vossa edificação. Pois temo que, quando eu for, não vos encontre como quero, e eu seja encontrado por vós como não quereis; que haja entre vós contendas, invejas, iras, dissensões, detrações, murmurações, soberbas, sedições; que, quando eu voltar, Deus me humilhe diante de vós, e eu chore muitos dos que antes pecaram e não fizeram penitência da impureza, fornicação e dissolução que praticaram.

## Comentário

Gloriei-me acima das minhas fraquezas: *se é preciso gloriar-se* de novo, como é certamente oportuno por causa dos falsos apóstolos (interposição), *se é preciso, não convém, na verdade*, isto é, esta glória em nada me torna desembaraçado; se, digo, é preciso, *passarei às visões*, etc.; ou liga-se ali: embora quanto a mim não convenha, passarei, contudo, às visões e revelações do Senhor, e nelas me gloriarei. Diz visões e revelações, porque o que viu foi revelado ao seu conhecimento; alguns, porém, tiveram visões, como o Faraó e Nabucodonosor, mas não as revelações das visões. Agora, falando de si na terceira pessoa, narra as visões, dizendo: *conheço um homem*, a saber, eu, posto *em Cristo*, arrebatado, etc.; e isto foi feito *há catorze anos*, agora passados — por ter calado tantos anos, ainda não o abriria, se o desprezo de seu ministério o não instasse veementemente —; arrebatado, digo, *se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe.* Se Paulo foi arrebatado no corpo a esta visão, o corpo, na verdade, não foi movido localmente, mas a alma, que na carne está encarcerada pelo peso da carne, de modo que nada sente senão excitada antes por algum sentido corpóreo; a alma, contudo, foi tão desembaraçada no tempo desta revelação que nada sentia do peso da carne; o próprio corpo, porém, crê-se tão temperado que por nenhum peso seu perturbasse a agilidade da alma. Se fora do corpo, a alma, certamente, livre do peso da carne, pôde ser conduzida aonde Deus quis; mas, quer tenha sido levada a outro lugar, quer tenha ficado ali mesmo, nada impede, porque, depois que não sentiu o peso da carne, pela vontade de Deus pôde ver aquele que no futuro verá como é. Conheço tal homem *arrebatado até ao terceiro céu*, isto é, até à visão da terceira ordem. Visão diz-se céu, porque é velada a muitos, aberta a poucos. Primeiro céu, isto é, primeira visão, diz-se aquela em que Deus corporalmente mostra alguns segredos, como a Gedeão no velo seco e na eira molhada (Jz 6,40), e aos Macabeus, que viram em arrebatamento fileiras inflamadas no ar, prefigurando a guerra (2Mc 5,2-3): segundo céu, isto é, segunda visão, é quando, não por coisa corpórea, mas por imagem, algo é mostrado, como ao bem-aventurado Pedro foram mostradas imagens de todos os répteis, quando lhe foi dito: «Mata e come» (At 10,11-16); cujas imagens as coisas ali não estavam: terceiro céu, isto é, terceira visão, diz-se aquela diferente das duas ditas, quando nem por coisa nem por imagem da coisa algo é mostrado, mas, como é a propriedade da coisa, é aberto em verdade simples; e deste terceiro modo foram manifestados a Paulo os segredos de Deus, não por coisa nem por imagem. Ou de outro modo: como Dionísio Areopagita reduz a três os nove coros dos Anjos, dizendo ser o primeiro coro os Anjos, Arcanjos, Virtudes; o segundo, Principados, Potestades, Dominações; terceira ordem, Tronos, Querubins e Serafins; e quão perfeitamente este terceiro coro contempla a Deus, tão perfeitamente Paulo viu e conheceu os segredos de Deus. Ou de outro modo: para que digamos primeiro céu as criaturas corpóreas do céu, sol, lua, etc.; segundo céu as incorpóreas, como os Anjos; terceiro céu a essência divina, ao conhecimento da qual Paulo foi arrebatado.

*E sei que tal homem*, se no corpo, se fora do corpo, não sei, Deus o sabe; isto sei: *que foi arrebatado ao Paraíso*, isto é, a tão deliciosa quietude da mente que nada sentia do peso da carne; Paraíso, com efeito, diz-se jardim de delícias: e este homem, assim arrebatado, *ouviu palavras secretas que não é lícito ao homem pronunciar*, isto é, que, enquanto é homem, ninguém basta para entender. Diz o bem-aventurado Agostinho que estes segredos são que viu como a Trindade está na Unidade e a Unidade na Trindade. E *por tal homem* que, assim arrebatado, mereceu ouvir, *me gloriarei, por mim mesmo*, porém, isto é, segundo as minhas forças, de nada jamais me gloriarei *a não ser das minhas fraquezas.* Por isso, digo, me gloriarei; *pois, ainda que eu queira gloriar-me*, quer nas revelações aquelas quer nas minhas fraquezas, *não serei insensato*, porque em tudo direi a verdade. Mas nem isto ainda basta; para que seja lícito gloriar-se de toda verdade, deve-se acrescentar que direi a verdade e por isso aproveitarei à edificação da Igreja; o que mesmo acrescenta nas passagens seguintes: e embora possa assim gloriar-me, *abstenho-me, contudo*, isto é, falo parcamente da glória, *para que ninguém me julgue acima do que vê em mim*; vê, com efeito, o homem oprimido de misérias; mas porque por outro lado vê que por mim se fazem milagres, julga de mim acima da humanidade que vê em mim; como aqueles que quiseram erigir-lhe altares (At 14,12): *ou ouve de mim*, a quem ouve ter sede, frio, sujeito às demais misérias.

Abstenho-me, certamente, de gloriar-me: e faço bem; porque, *para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça*, foi-me dado *um espinho na carne*, a saber, *um anjo*, isto é, legado *de Satanás*, príncipe dos demônios, que enviou *para me esbofetear*, isto é, de modo que, se pela grandeza das revelações quiser erguer a cerviz, a tentação me desfira o golpe; e assim o que Satanás entende para pena, Deus dispõe para mim para perfeição: alguns dizem que por espinho na carne se entendem quaisquer tentações, outros só a tentação da libido. *Por isso*, isto é, porque Satanás me esbofeteia, *roguei ao Senhor três vezes* (finito por infinito), isto é, de muitos modos, *que o anjo se afastasse de mim*; e o Senhor me disse, rogando: porque és assim tentado, Paulo, esta é a minha graça, e esta graça *te basta*, isto é, te é suficiente para a salvação; se esta graça, com efeito, a saber, a guarda da humildade, te faltasse, toda graça a ti conferida seria vã; esta, digo, graça basta; *pois todo poder se aperfeiçoa na fraqueza* bem tolerada; o poder, com efeito, que tem a fraqueza contrária, com a qual legitimamente combate para depois ser coroado, é perfeito.

Até aqui as palavras do Senhor, agora de Paulo: porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza, *portanto de bom grado doravante me gloriarei nas minhas fraquezas*, para que, por mérito da fraqueza bem tolerada, *habite em mim o poder de Cristo*, que convém aperfeiçoar-se na fraqueza. *Por isso*, porque por isso habitará em mim o poder de Cristo, doravante *me comprazo nas fraquezas*, a saber, *nas afrontas*, que me alegro de padecer por Cristo em palavra e obra, *e nas necessidades* de alimento e vestuário, *e nas perseguições*, fugido de lugar em lugar, *e nas angústias* do ânimo, todas estas toleradas *por Cristo.* Por isso me comprazo nas fraquezas, porque, *quando sou fraco* no corpo, então, por mérito, pela fraqueza da carne, *sou forte* no espírito.

Agora gloriei-me de muitos modos; e assim, recomendando-me, *tornei-me insensato*, como muitas vezes foi dito, exaltando a mim, deprimindo a outro; *mas vós me obrigastes* a esta insensatez. Vós certamente me obrigastes a recomendar-me; *pois eu devia ter sido recomendado por vós*, o que, porque não fizestes, convinha que eu fizesse. Devia certamente ser recomendado por vós, *porque em nada fui inferior*, pelo que fosse separado, *aos que segundo vós são apóstolos em excesso* sobre mim. Esses segundo vós estão acima de mim; mas, embora eu nada seja segundo a vossa reputação, *os sinais do meu apostolado foram realizados entre vós*, pelos quais na verdade me comprovo Apóstolo; realizados, digo, *com toda a paciência* tida entre vós, *e em sinais*, curando coxos, iluminando cegos, *e prodígios*, ressuscitando mortos, *e milagres*, como nas curas de febres e semelhantes; ou então, em milagres, humildade, sobriedade e as demais. Na verdade em nada fui inferior a eles, *porque em que é que tivestes de menos* que as demais Igrejas, pelo que aquelas estejam acima de vós, *senão em que eu mesmo*, que deveria, *não vos fui pesado*, recebendo algo de vós? Ironicamente: *perdoai-me esta injustiça*, porque fui injusto ao vos ser indulgente, no que nenhum outro foi indulgente com suas Igrejas.

E, assim como no passado não vos fui pesado, assim *daqui em diante não vos serei pesado*, eu que estou pronto a ir ter convosco, *eis que pela terceira vez* nesta preparação. Por isso não vos serei pesado, *porque não busco o que é vosso, mas a vós mesmos*: e com justiça não exijo o que é vosso; *porque os filhos carnais não devem entesourar para os pais carnais, mas os pais para os filhos*, embora os filhos espirituais devam isto aos pais espirituais; mas eu, não só o que o pai espiritual deve aos filhos, mas também toda doçura de pai carnal vos exibo. Não busco o que é vosso, mas *de muito bom grado gastarei* por vós tanto os bens espirituais como, se tiver, os carnais que quiserdes; e sobre isto, além do que gasto, *eu mesmo me gastarei pelas vossas almas*, isto é, estou pronto a morrer por vós para vos salvar, *ainda que, amando-vos mais*, por lei espiritual e carnal, *seja menos amado* por vós. Embora amando-vos mais, seja menos amado por vós, *seja assim*, isto é, concedo isso; não me importo, com efeito, por isso de perseguir-vos agora.

Objetar-me-eis de novo que astutamente me contive de nada receber de vós em pessoa própria, para por meus legados receber mais astuta e amplamente; o que diz assim: *eu, na verdade, não vos fui pesado* (como se provou), recebendo algo de vós em pessoa própria; mas direis isto: *que, sendo astuto*, e por astúcia eu mesmo não querendo receber, *vos apanhei com dolo*, isto é, dolosamente vos enganei, extorquindo de vós por outros o que por mim não quis. Ou de outro modo, para que toda a letra diga só isto, assim: eu, na verdade (como foi mostrado), não vos fui pesado; mas *seja assim*, isto é, concedereis isto que não podeis negar, a saber, que eu não vos fui pesado em pessoa própria; mas, contudo, objetareis isto: que, sendo astuto, vos apanhei com dolo, como foi dito.

Certamente não vos enganei, porque, se o fizesse, por algum dos que vos enviei vos enganaria, mas por nenhum deles vos enganei; o que diz assim: *porventura vos enganei por algum dos que vos enviei?* De modo algum. Enganaria se ordenasse a seus discípulos que, recomendando-o, astutamente juntassem para ele o que pudessem. Na verdade por nenhum dos que enviei vos enganei; *pois nem por Tito, nem por outro*; o que diz assim: *eu, na verdade, roguei a Tito* que fosse ter convosco, *e enviei com ele o irmão* — crê-se que este irmão foi Barnabé, que era irmão e coadjutor da pregação; a Paulo e a Barnabé, com efeito, lê-se que os Apóstolos deram a mão direita em sinal de comunhão (Gl 2,9) —; enviei certamente Tito; mas *porventura Tito vos enganou?* De modo algum. *Não andamos eu e Tito na palavra do Senhor pelo mesmo espírito*, isto é, pela mesma vontade, ou cheios do mesmo Espírito Santo? *E não pelas mesmas pegadas*, isto é, pelas mesmas obras, de modo que Tito operou isso e não outra coisa senão eu? Assim como as pegadas são indícios do andar, assim as obras da vontade.

Quanto ao que digo que nada recebi de vós e as demais coisas antecipadas, *há muito*, isto é, desde que comecei a recomendar-me, *pensais que* por esta recomendação, como réus em algo, *nos desculpamos diante de vós*, isto é, que não falamos isto segundo a verdade ou para vossa instrução, mas para assim encobrir a nossa culpa: sabei, porém, que tudo o que falamos, *falamos diante de Deus*, isto é, como em presença de Deus; se o próprio Deus estivesse presente, com efeito, nada do que digo seria preciso mudar por temor de falsidade; *falamos em Cristo*, nós postos em Cristo. Falamos estas coisas, não só porque são verdadeiras, mas também *para a vossa edificação*; para que vós, por elas edificados, não sejais seduzidos pelos falsos apóstolos, *ó caríssimos*, por isso falamos tudo isto. Aqui supriu bem, dizendo "para a vossa edificação", o que acima faltava, onde diz: é lícito gloriar-se, pois direi a verdade.

Por isso, porém, me aplico tão diligentemente à vossa edificação, porque *temo que* (o que facilmente pode acontecer) *não vos encontre como quero*, isto é, incorrigidos, *quando eu for*; e então *eu seja encontrado por vós como não quereis*, isto é, punindo as vossas culpas com o rigor da justiça. Estas duas coisas, a saber, primeiro, que não vos encontre como quero; depois, que seja encontrado por vós como não quereis, prossegue dizendo: vede que não vos encontre como não quero, a saber, que *haja entre vós contendas*, às quais facilmente declinais; porque disputavam reciprocamente sobre a dignidade dos que batizam: que haja também *invejas*, isto é, ciúmes; porque um inveja o outro pelo mérito do batizador: nem haja entre vós *iras*; porque um obrigava o outro a litigar diante de juízes infiéis; nem haja por isso *dissensões*; por isso, com efeito, havia discórdia entre eles e ódio: nem haja *detrações*, de modo que detraiais os bens do próximo que existem, imponhais os males que não existem; nem haja *murmurações*, isto é, ocultas depravações dos próximos; nem haja *soberbas*, isto é, que este que é olho na Igreja não despreze aquele que é pé; que talvez por esta soberba haja entre vós *sedições*, de modo que um presuma afligir o outro com açoites. Acautelai-vos de que isto não haja entre vós, *para que, quando eu voltar, Deus de novo me humilhe*, isto é, me aflija diante de vós, se vos achar incorrigidos. Quando veio pela primeira vez e os achou todos infiéis, foi humilhado entre eles e afligido por diversas vexações; mas agora será mais humilhado se achar ainda apóstatas os que fez fiéis. *Deus me humilhe, e eu chore a muitos*; se são três, com efeito, parecem muitos; muitos, digo, *dos que antes pecaram*, antes de enviada a primeira Epístola, e, admoestados por Epístola, *não fizeram penitência* dos males ditos, mesmo *da impureza* — como todo pecado da carne pode dizer-se impureza, chama por antonomásia impureza aquele da libido que é contra a natureza —, *nem da fornicação, nem da dissolução que praticaram*, isto é, que tiveram no trato e uso assíduo, penitência fizeram: chama fornicação tocar mulher não pela lei conjugal; chama dissolução o hábito impudico; quem se porta intemperantemente com a esposa, com efeito, é impudico.

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# Capítulo 13

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Eis que esta é a terceira vez que vou ter convosco: Pela boca de duas ou três testemunhas se confirmará toda palavra (Dt 19,15). Já disse e repito, como presente, e agora ausente, aos que antes pecaram e a todos os demais, que, se for de novo, não pouparei. Procurais, porventura, a prova de que Cristo fala em mim, o qual não é fraco para convosco, mas é poderoso em vós? Pois, ainda que tenha sido crucificado por fraqueza, vive pelo poder de Deus. Pois também nós somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus em vós. Examinai-vos a vós mesmos, se estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? A não ser que estejais reprovados. Espero, porém, que reconhecereis que nós não somos reprovados. Pedimos a Deus que não façais mal algum, não para parecermos nós aprovados, mas para que vós façais o que é bom; quanto a nós, sejamos como reprovados. Pois nada podemos contra a verdade, mas só pela verdade. Alegramo-nos, com efeito, quando nós somos fracos e vós sois fortes. E isto também pedimos: a vossa perfeição. Por isso escrevo estas coisas ausente, para que, estando presente, não proceda com mais rigor, segundo o poder que o Senhor me deu para edificação e não para destruição. Quanto ao mais, irmãos, alegrai-vos, sede perfeitos, exortai-vos, tende o mesmo sentir, vivei em paz, e o Deus da paz e do amor estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Saúdam-vos todos os santos. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, e a caridade de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós. Amém.

## Comentário

Mostrou o que entendia, dizendo "como não quero"; agora mostra o que dizia: "eu seja encontrado por vós como não quereis". A letra liga-se ali, contudo: para que, quando eu for, etc. Dir-me-iam: então irás? *Eis*, diz Paulo, *esta é a terceira vez*, digo, não que irei com preparação, mas já vou a vós; e, quando for, não vos tolerarei, mas *se confirmará*, isto é, convirá que se confirme, *toda palavra*, quer dos que acusam quer dos que defendem (diz-se que a palavra se confirma quando se prova ser verdadeira); se confirmará, digo, *pela boca de duas ou três* testemunhas, e não de quaisquer pessoas, mas de testemunhas, isto é, daqueles que são idôneos para testemunhar.

Dir-me-iam: ameaças que irás, mas quando fores, que farás? Contra isto Paulo: irei certamente e *não pouparei*; porque *já disse*, quando estava presente, que não pouparia mais; e o mesmo agora, ausente, *repito por Epístola como presente*, isto é, com tanta virtude quanta presente convosco usava; repito, digo, *aos que antes* de enviada a primeira Epístola *pecaram* e ainda não se corrigiram, *e a todos os demais* que caem em pecado; isto certamente repito: *que, se for de novo*, como disponho, *não pouparei* de novo, como antes poupei, quando pecastes por ignorância.

Dir-me-iam de novo: por mais que agora ameace, contudo, quando vier, poderá facilmente ser aplacado. A isto Paulo: que eu não pouparei, não o credes bastante; mas *procurais* vós *a prova*, isto é, permaneceis incorrigidos para experimentar o poder de vingança *de Cristo*, que fala em mim? Não são, com efeito, minhas as coisas que falo, mas de Cristo: é mais salutar que vos corrijais do que, desdenhando corrigir-vos, experimentar a mão forte do Senhor: Cristo que *não é fraco para convosco*, isto é, não apareceu fraco a vós, não operando milagres, *mas é poderoso em vós*, isto é, o seu poder vos foi manifestado pelos milagres que Cristo operou por nós no meio de vós. Na verdade Cristo é poderoso; *pois, ainda que* me objeteis que ele, condenado na Cruz, apareceu impotente, confesso, sim, *foi crucificado, mas por fraqueza*, isto é, segundo a fraqueza da mortalidade e passibilidade, que assumiu em nossa carne; mas, embora assim tenha sido crucificado, *contudo vive*, isto é, age potencialmente *pelo poder de Deus*, isto é, segundo a Deidade, cujo poder dele não se afastou, e em quem habitou corporalmente toda a Divindade.

Na verdade Cristo vive pelo poder de Deus; pois nós, muito inferiores a ele, *viveremos pelo poder de Deus*; o que diz assim: *nós, na verdade, somos fracos nele*, isto é, na sua semelhança, para que, como ele por nós, assim nós por ele padeçamos: assim somos fracos; *mas viveremos*, isto é, agiremos potencialmente *em vós pelo poder*, isto é, pela virtude *de Deus*, que temos familiar nele, a saber, Cristo. Para que, porém, nós, vivendo pelo poder de Deus, não ajamos mais severamente em vós, *examinai-vos a vós mesmos*, isto é, com sutil consideração investigai-vos; examinai, digo, *se ainda estais na fé* que recebestes por mim — se, com efeito, confiam nos méritos dos que batizam, se reconduzem as coisas antigas, não estão na fé, porque derrogam à graça de Deus —: examinai se estais na fé; e, achados na fé, *provai-vos a vós mesmos*, isto é, feitos prováveis por boas obras, adornai a vossa fé. Se na fé não estais, só vós sois condenados; nada se me requer, porque *não reconheceis a vós mesmos, que Jesus Cristo*, isto é, a fé de Jesus Cristo, *está em vós*, posta por meu ministério, *a não ser que* (o que facilmente pode ser) *estejais reprovados*, isto é, reprovados por Deus, enquanto vos mostrastes indignos dos sacramentos da fé?

Dir-me-iam: não admira que sejamos reprovados, já que tu mesmo és reprovado. A isto Paulo: o que quer que objeteis; *espero, contudo, que reconheceis isto de nós: que nós em nada somos reprovados*; e embora em nada reprovados, mas em tudo achados aprovados, não queremos, contudo, que sejais maus, como alguns prelados que, para que se veja a sua probidade no exercício da prelatura, se alegram das culpas dos súditos: nós, porém, não assim, mas *pedimos a Deus que não façais mal algum*; e *não o pedimos para parecermos nós aprovados* (se por autoridade da prelatura vingasse a culpa do súdito, então pareceria aprovado); isto não pedimos, mas *para que vós façais o que é bom*; *nós, porém, nada digno de vingança achando em vós, sejamos*, isto é, pareçamos *como reprovados*: o prelado então não é, mas parece reprovado, quando não acha em que exercer o poder do julgamento a ele confiado. De novo, há alguns prelados que, embora os seus súditos sejam bons, vexam-nos, contudo, por império do poder recebido. Contra estes Paulo: por isso pedimos que sejamos reprovados, vós fazendo o que é bom, *porque nada podemos contra a verdade*, isto é, onde há verdadeira justiça não é lícito impugná-la; *mas só pela verdade*, isto é, podemos defender a verdade, se alguém a impugna mal, agindo ou dizendo.

Por isso pedimos que façais o que é bom, *porque nos alegramos quando nós somos fracos* e o nosso poder não tem lugar, perfeitos todos; *vós, porém, sois fortes*, tendo pura consciência, e por isso não temendo o nosso julgamento. Não só nos alegramos, mas também *pedimos isto*: que sejais fortes, a saber, *a vossa perfeição*, isto é, a perfeição da vossa justiça. E por isso, porque nos alegramos e pedimos isto, *escrevo estas coisas ausente*, para que, quando estiver presente, *não proceda com mais rigor, segundo o poder do meu apostolado*; nem certamente, se agisse por poder, deveria ser-vos pesado, porque este poder me deu o Senhor *para a vossa edificação e não para a vossa destruição.*

Depois de os ter corrigido bastante do que haviam feito, passa a corrigi-los no que restava do futuro, dizendo: nestas coisas antecipadas, comportai-vos assim como ensino; *e quanto ao mais*, isto é, no futuro, *irmãos, alegrai-vos*, isto é, agi de modo a esperardes sempre alegria da vossa obra; e para que verdadeiramente vos alegreis, *sede perfeitos*; e vós perfeitos *exortai* os imperfeitos à perfeição: vós, porém, imperfeitos, *tende o mesmo sentir* com os perfeitos que vos exortam, *e vivei em paz* com eles, isto é, não abuseis da correção deles, mas com toda modéstia abraçai-lhes as ordens; porque, se tendes o mesmo sentir e vivei em paz, assim estará convosco *o Deus da paz*, que rejeita os discordes, elege os concordes; e o mesmo Deus *do amor estará convosco*, porque não basta ter paz, se não se segue segundo Deus o amar. E para que a paz e o amor de Deus estejam convosco, *saudai-vos uns aos outros com o ósculo*, isto é, um beije o outro, mortificada toda contenda entre vós; com o ósculo, digo, não que se faça só com a boca e não com o coração, mas *santo*, de modo que nenhuma centelha de ira se oculte no recôndito do coração. E assim deveis saudar-vos mutuamente, porque *vos saúdam todos os santos*, recomendando-vos o amor pelo seu exemplo. Segue a saudação própria de Paulo: *a graça de nosso Senhor Jesus Cristo*, isto é, nosso Senhor Jesus Cristo dando a graça com que perdoa os pecados, *e a caridade de Deus*, isto é, Deus Pai, cuja caridade pela salvação dos homens quis que o Filho se encarnasse, *e a comunhão do Espírito Santo*, isto é, o Espírito que procede comumente do Pai e do Filho, ou então, a comunhão do Espírito Santo, isto é, o Espírito Santo comunicando-vos as suas graças, *estejam com todos vós. Amém*, e para que assim seja trabalhai vós, e Deus o conceda.

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# Epístola aos Gálatas



# Prólogo

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

A Galácia é um lugar na Grécia; e nela Paulo havia permanecido durante algum tempo, pregando aos gálatas a palavra de Deus, e os fundara também na fé. Enquanto Paulo ficou entre eles, portaram-se bastante honestamente na fé; mas, tendo Paulo partido dali, introduziram-se entre eles falsos doutores, cujo trabalho era perseguir a Igreja de Cristo, destruindo impiamente o que Paulo havia religiosamente edificado, dizendo que não se devia crer em Paulo, nem manter a sua doutrina, porque nem convivera com Cristo na terra, nem fora por ele instruído ou eleito, nem sequer fora instruído por Pedro ou por aqueles que haviam convivido com Cristo. Estes falsos apóstolos derrogavam também muitíssimo à graça de Deus, dizendo que ela não bastava para a salvação, se não se observassem a circuncisão e as demais coisas da lei antiga; nisto arguíam que Paulo ensinara mal, pois destruía a lei que, como é notório a todos, Deus dera por Moisés e que o próprio Cristo observara enquanto convivia entre os homens; e, dizendo isto entre os que eram simples, pareciam trazer razões convenientes. Por estas falácias já tinham sido de tal modo seduzidos que, se a solicitude de Paulo não acorresse logo por esta Epístola, já se disporiam a circuncidar-se e às demais práticas legais.

Nesta Epístola, porém, Paulo trata da recomendação de sua pessoa, que os falsos apóstolos deprimiam; trata também da destruição da lei antiga, não que a reprove por não dever ter sido observada; trata também da recomendação da graça de Cristo: estas três coisas são aqui a matéria. Recomenda-se a si deste modo: como aqueles lhe objetam que não viu a Cristo, nem foi por ele eleito ou instruído, prova que foi eleito por Cristo e instruído muito mais dignamente que os outros Apóstolos; a esses, com efeito, enquanto mortal convivia entre mortais, Cristo elegeu e ensinou segundo a fraqueza do entendimento carnal: eram ainda carnais e não podiam captar os mistérios da Divindade, porque, embora tivessem recebido o Espírito, ainda não fora dado senão para a remissão; o que o mesmo Jesus claramente insinua, quando diz: «Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora; quando, porém, vier o Espírito, etc.» (Jo 16,12-13). Esses, digo, enquanto mortal, ensinou como a carnais; mas Paulo já feito imortal, já sentado à direita do Pai, já dado o Espírito Santo, elegeu, chamou e ensinou; e assim aparece que, naquilo em que Paulo parecia inferior, é muito mais glorioso que os outros. A lei antiga reprova assim, mostrando que foi dada para ser por um tempo, e vinda a graça logo ter fim, como a sombra, vindo o corpo; lei que, enquanto durou, nada foi senão jugo pesado e fardo insuportável e inútil, porque a ninguém pôde justificar. Destruída a lei, recomenda a graça de Cristo, como a única que basta à salvação e sem a qual, nem antes de ser dada a graça nem depois, ninguém pôde salvar-se. De todas estas coisas trata com a intenção de retrair os gálatas que queriam judaizar, para que não o façam, e não ouçam mais os falsos mestres.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, apóstolo, não da parte dos homens nem por meio de um homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, e todos os irmãos que estão comigo, às Igrejas da Galácia: graça e paz a vós da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos arrancar do presente século mau, segundo a vontade de Deus e nosso Pai; a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Admiro-me de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro Evangelho; o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou um Anjo do céu vos anuncie um evangelho diferente do que vos anunciamos, seja anátema. Como já dissemos, agora de novo digo: Se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema. Pois, agora, persuado eu a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se ainda agradasse a homens, não seria servo de Cristo. Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; pois nem eu o recebi de homem, nem o aprendi, mas por revelação de Jesus Cristo. Ouvistes, com efeito, a minha conduta outrora no judaísmo: como perseguia além da medida a Igreja de Deus e a devastava, e progredia no judaísmo mais do que muitos coetâneos do meu povo, sendo muito mais zeloso das tradições de meus pais. Quando, porém, aprouve àquele que me separou desde o seio de minha mãe e me chamou por sua graça revelar em mim o seu Filho, para que eu o anunciasse entre os gentios, imediatamente não consultei a carne e o sangue, nem subi a Jerusalém para os que eram apóstolos antes de mim; mas parti para a Arábia; e voltei de novo a Damasco; depois, passados três anos, subi a Jerusalém para ver Pedro, e fiquei com ele quinze dias; e não vi nenhum outro dos Apóstolos, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. Quanto às coisas que vos escrevo, eis que diante de Deus não minto. Depois fui às regiões da Síria e da Cilícia. Era, porém, desconhecido de rosto das Igrejas da Judeia que estão em Cristo; tinham apenas ouvido dizer: Aquele que outrora nos perseguia agora anuncia a fé que outrora devastava. E glorificavam a Deus por causa de mim.

## Comentário

*Paulo, etc.* Neste princípio reúne brevemente estas três coisas em que principalmente versa, a saber, a recomendação de si, a reprovação da lei, a aprovação da graça, dizendo: *Paulo, apóstolo*: põe o seu nome, que era conhecido em toda Igreja, para autoridade; Paulo, digo, Apóstolo, *não da parte dos homens* que o elegessem, *nem por meio de um homem* que o consagrasse, como eles objetam, por Ananias. Por isso diz "nem da parte dos homens, nem por meio de um homem"; alguns, com efeito, não elegidos por homens mas por Deus, foram, contudo, consagrados por um homem, e vice-versa. Ou assim: Paulo, Apóstolo não por homens que o elegessem ou consagrassem, *nem por meio de um homem*, isto é, não por Cristo mortal e vivendo na humanidade, *mas por Jesus Cristo* ressuscitado: do que segue "ressuscitou" entendemos convenientemente "ressuscitado". Dir-se-ia: ainda que Cristo destrua a lei, não cremos, porque discorda de Deus, que deu a lei. Por isso acrescenta o Apóstolo: *por Cristo ressuscitado e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos*; quem em vão quereria que morresse, se de outro modo pela lei pudesse justificar o homem; mas, porque viu a lei vã, excluiu a lei, para pela graça de Cristo aperfeiçoar naquilo em que a lei falhava. Paulo, digo, *e todos os irmãos que estão comigo* escrevemos *às Igrejas da Galácia.* Por isso na saudação junta os irmãos a si, porque os falsos apóstolos objetavam que Paulo estava sozinho na destruição da lei, que Pedro e os outros toleravam em suas Igrejas. Ao dizer que foi feito Apóstolo não por homem, mas por Cristo ressuscitado e por Deus Pai, bastante se recomendou nisto.

*A vós, ó gálatas, seja graça*, isto é, aos que pecaram, seja segunda remissão; aos que permaneceram na justiça, seja perseverança da graça; *seja também a vós paz*, isto é, tranquilidade do ânimo, *da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo*, ambos os quais podem e querem. Agora recomendará a graça de Cristo, reprovando por oposição a lei, dizendo: *Cristo, que se entregou a si mesmo*, não outro sacrifício, porque nada além dele bastaria; a si mesmo, digo, porque era tão grande (*semet* para discrição, *ipsum* diz para grandeza); *entregou-se a si mesmo pelos nossos pecados* para apagá-los, que, se a lei os pudesse destruir, seria tido por monstruosidade, porque então o Pai entregaria supérfluamente o Filho à morte; nem quis morrer para tirar apenas os pecados precedentes, mas para que, destruídos os pecados, *nos arrancasse do presente século mau*, isto é, da conformidade com o presente mundo, que nos atrai e tanto mais prende quanto menos se veem as coisas eternas. Arrancasse do presente século, no qual viu que ninguém pode permanecer sem pecado: no que se nota a máxima virtude de Cristo, que na fornalha dos pecados nos livra do incêndio do pecado. Arrancasse, digo, como que por violência de boa conversação, do século, mas *mau*, isto é, segundo a maldade do pecado, Cristo arranca os seus do século. Que Cristo se tenha entregue à morte, isto se fez *segundo a vontade de Deus e Pai nosso*, o qual, porque viu a lei inútil, para nos salvar, por piedade entregou o Filho à morte; e que Cristo se tenha entregue pelos nossos pecados à morte pela vontade de Deus, sabei-o por isto: porque a este Cristo com Deus pertence *a glória* da remissão dos pecados, não à lei, *nos séculos presentes*; e permanecerá *nos séculos dos séculos* consecutivos destes. *Amém*, isto é, em verdade é assim que a Cristo a glória, não à lei: "amém" é ora afirmativo, ora optativo.

E porque Cristo se entregou pelos nossos pecados segundo a vontade de Deus, e anulou a lei, *admiro-me*, pois, de que *tão* vehementemente, abandonados todos os meus mandamentos, e *tão depressa*, porque pouco tempo faz desde que me afastei de vós; admiro-me, digo, disto: *que passeis* — para mais gravemente os deprimir, assim diz; passam-se, com efeito, as coisas insensíveis, como as pedras; conduzem-se as irracionais; os homens agem pela razão; mas a estes julga insensíveis; por isso na sequência os chama insensatos — admiro-me de que passeis *daquele*, a saber, Deus, *que vos chamou* não por mérito da lei, mas *pela graça*; chamou, digo, inspirando interiormente e aplicando pregadores, *à graça de Cristo*, isto é, para serdes participantes da graça de Cristo; passais, digo, *para outro Evangelho* (segundo aqueles, chama Evangelho a lei antiga); o qual Evangelho, contudo, *não é outro* que o nosso, *senão que há alguns que vos perturbam*, isto é, os falsos apóstolos, que, ensinando carnalmente a lei antiga, fazem discordar do Evangelho de Cristo, com o qual é o mesmo entendido espiritualmente: "perturbar" diz-se por semelhança com a água turva, na qual nada se discerne claramente; assim estes perturbaram o entendimento dos gálatas, a ponto de não discernirem já o mal do bem. *Perturbam-vos e querem perverter o Evangelho de Cristo*: "perverter" diz-se por semelhança com quem anda em viagem e se volta atrás diante do que o obstrui; assim também estes gálatas, recebida a fé de Cristo pelo Evangelho de Paulo, já tinham sido bem dirigidos na vereda da boa obra, da qual os queriam desviar aqueles falsos apóstolos. Onde diz "querem", insinua que os gálatas ainda não haviam consentido a eles com a obra, embora com o assentimento.

Eles querem perverter; mas *ainda que nós*, isto é, eu ou o próprio Pedro, *ou um Anjo* maligno *vindo do céu*, isto é, em figura esplêndida para mais facilmente persuadir; se, com efeito, emergindo das trevas do inferno se apresentasse torvo e informe, não seria tão idôneo para enganar; ou então, Anjo bom vindo do céu; *se anunciar um evangelho diferente*, isto é, diferente do que vos anunciamos, quer seja Apóstolo quer Anjo, não só ouso separá-lo do corpo de Cristo, mas *seja anátema*, para que ele mesmo seja separação deles. Aqui responde astutamente aos que lhe objetavam que não tolerava os ritos judaicos em suas Igrejas, não entendendo que Pedro os tolerava, não porque os aprovasse, mas para que não atemorizasse a rudeza da fé deles, que devia antes ser nutrida com estas concessões do que destruída com demasiada aspereza. Isto, porém, só tolerava aos judeus; mas Paulo, que pregava aos gentios, não tinha de ser indulgente com eles naquelas coisas em que nunca estiveram; o que também depois, para que a fé de Cristo fosse sólida, convinha destruir com mais difícil trabalho. E porque nem a um Anjo nem a um Apóstolo toleraríamos que vos pregasse outra coisa, *portanto, se alguém* falso apóstolo *vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes* de mim, *seja anátema.* E isto agora de novo digo dos falsos apóstolos, como acabo de dizer de nós e do Anjo. Ou assim: *como já dissemos* quando estava entre vós, que excomungaria todos os falsos apóstolos; assim também agora de novo digo: se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema.

Digo: seja anátema; e isto e as demais coisas antecipadas, tendo zelo de Cristo, digo, porque *agora*, porventura, *persuado a homens*, isto é, falo persuasivamente segundo a vontade dos homens, *ou a Deus*, isto é, para a glória de Deus? Como se dissesse: por isso digo "seja anátema", etc., porque outrora, antes da fé, persuadia a homens, pregando a lei, mas agora, na fé, persuado a glória de Deus. Por isso já não persuado a homens, porque não procuro agradar-lhes; *ou procuro ainda mais agradar aos homens?* Se pregasse a lei, que o homem podia operar por sua virtude, então agradaria aos homens; mas não quero agradar, porque, *se ainda agradasse aos homens*, pregando a lei, já *não seria servo de Cristo*, enquanto o que atribuísse à lei, derrogaria à graça de Cristo. Ou assim: porventura agora persuado a homens ou a Deus? Se pregasse a lei, persuadiria a homens; o que a lei preceitua, com efeito, o homem bastante pode operar, como cortar a pelezinha, imolar a rês e semelhantes. Se por estas coisas dissesse salvo o homem, derrogaria a Deus a salvação do homem e a atribuiria ao homem. O resto não muda.

Ao que acima disse "não da parte dos homens, nem por meio de um homem" aqui começa a responder; a letra liga-se, contudo, ao próximo: por isso não procuro agradar aos homens, mas a Cristo, porque o meu Evangelho não é segundo o homem, mas de Deus; e por isso *faço-vos saber, irmãos, o Evangelho*, não aquele antigo, mas *o que foi por mim anunciado*; isto dele vos faço saber: *que não me foi transmitido segundo o homem.* E isto prova: na verdade não segundo o homem, porque *nem o recebi de homem* que me consagrasse neste ministério, *nem o aprendi* de homem — poderia ser consagrado por Deus e, contudo, depois aprender aqueles preceitos de homem —; não o recebi de homem, nem aprendi, *mas por revelação de Jesus Cristo*, isto é, por Jesus Cristo que abertamente me revelou, não falando por parábolas, como ensinou aos outros Apóstolos, enquanto na carne era ainda mortal e eles mais fracos de entendimento.

Na verdade não o aprendi de homem, porque nem antes da conversão nem depois da conversão. Antes da conversão mostra primeiro, dizendo: *ouvistes a minha conduta outrora*, isto é, no tempo da infidelidade tida *no judaísmo*; isto ouvistes: *que perseguia a Igreja de Deus além da medida* dos perseguidores; ninguém, com efeito, era tão violento contra os servos de Deus; perseguia, digo, *e a devastava*, segundo alguns; muitos que queriam converter-se, com efeito, ainda respirando ameaças e morte, fiz recuar; a muitos já fiéis forcei a negar a fé: devastava, digo, e *progredia no judaísmo*; a minha lei, com efeito, mais e mais por mim crescia em incremento; progredia, digo, agindo *mais do que muitos coetâneos meus*, que eram jovens e laboriosos como eu; coetâneos, digo, não prosélitos, mas *do meu povo*, tão filhos de Abraão como eu e criados na lei; e *sendo muito mais zeloso*, isto é, imitador e amador, não só da lei, mas também *das tradições de meus pais* — os Profetas, com efeito, além da lei, deram algumas tradições, como Zacarias o jejum do primeiro e o jejum do quarto (Zc 8,19), etc. —; tradições, digo, *minhas*, porque tão bem as operava que quase pareciam minhas próprias: e, como eu perseguia assim a Igreja de Cristo, aparece que antes da conversão não aprendi o Evangelho.

Acrescenta que depois da conversão não aprendeu. Eu assim perseguia a Igreja de Cristo, *mas quando aprouve àquele*, por graça, não por mérito, àquele, digo, *que me separou do seio de minha mãe*, de que nunca sairia se a sua misericórdia não me extraísse, tão misericordiosamente *me chamou por sua graça* à fé; ou assim: que me separou da minha mãe, isto é, da Sinagoga, na qual criança fora nutrido e instruído, nem do regaço ou colo, mas do próprio ventre da Sinagoga; fariseu, com efeito, eu era entre os príncipes da lei: e a mim, assim separado, chamou à fé *por sua graça*, não porque eu tivesse tido zelo da lei; chamou, digo, *para revelar em mim o seu Filho*; quem considerar, com efeito, a minha vocação, entenderá que toda salvação vem de Cristo, nenhuma da lei, que não me aproveitou; nem chamou só para revelar a sua graça à minha semelhança, mas também *para que eu o anunciasse entre os gentios*, e tornasse notória a misericórdia de Deus. Quando assim aprouve a Deus a meu respeito, *imediatamente não consultei a carne e o sangue*, isto é, os judeus que mal me persuadiam, que nada são senão carne voluptuosa e sangue, isto é, alma não segundo a razão, mas que por movimento do sangue deseja coisas torpes; *nem imediatamente subi a Jerusalém para os Apóstolos meus antecessores*, porque me haviam precedido na fé, para ser ensinado por eles, mas imediatamente *parti para a Arábia* (esta Arábia é aquela em que está o monte Sinai, perto do Egito, no deserto); *e voltei de novo da Arábia a Damasco*; *depois, passados três anos, subi a Jerusalém*, não para interrogar como menos sábio, mas apenas *para ver Pedro*; e *fiquei com ele quinze dias*, e em tão breve espaço, se precisasse, não poderia ser bastante ensinado; vi ali Pedro, mas *nenhum outro dos Apóstolos* vi naquele tempo, *a não ser Tiago, o irmão do Senhor*, que era bispo em Jerusalém: e assim aparece que depois da conversão nada aprendi.

*Quanto às coisas que vos escrevo*, a saber, que nem antes nem depois aprendi, crede que nelas *não minto*; *eis que*, com efeito, falo estas coisas *diante de Deus*; se Deus estivesse presente, nada de falsidade arguiria no meu discurso. *Depois*, vistos Pedro e Tiago, *fui às regiões da Síria e da Cilícia.* *Eu era, porém, desconhecido de rosto das Igrejas da Judeia que estavam em Cristo*; se não me viram, aparece que nada aprendi delas. De rosto eu era desconhecido, mas *tinham apenas ouvido* de mim; isto, digo, tinham ouvido: *que Paulo*, que outrora nos perseguia, isto é, no tempo da infidelidade, *agora anuncia a fé de Cristo*, fé que outrora devastava: e, ouvindo isto, em mim convertido e assim pregando, *glorificavam a Deus* e magnificavam a misericórdia de Deus.

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Depois, passados catorze anos, subi de novo a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito. Subi, porém, em virtude de uma revelação, e expus-lhes o Evangelho que prego entre os gentios, mas em particular aos que eram tidos por algo; para não correr, ou ter corrido, em vão. Mas nem Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi obrigado a circuncidar-se; e isto por causa dos falsos irmãos intrusos, que se introduziram para espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, a fim de nos reduzirem à servidão; aos quais nem por uma hora cedemos em sujeição, para que a verdade do Evangelho permaneça convosco. Quanto aos que eram tidos por algo (quais foram outrora, nada me importa; Deus não faz acepção de pessoas), esses, que eram tidos por algo, nada me acrescentaram. Pelo contrário, quando viram que me fora confiado o Evangelho da incircuncisão, como a Pedro o da circuncisão (pois aquele que operou em Pedro para o apostolado da circuncisão operou também em mim para os gentios), e quando reconheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram tidos por colunas, deram-me a mão direita, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão, para que nós fôssemos aos gentios e eles à circuncisão; apenas que nos lembrássemos dos pobres; o que também tive o cuidado de fazer. Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque era repreensível. Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, retirava-se e separava-se, temendo os que eram da circuncisão. E os demais judeus consentiram na sua dissimulação, de modo que até Barnabé foi arrastado por eles à dissimulação. Mas, quando vi que não andavam retamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas diante de todos: Se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, como obrigas os gentios a judaizar? Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios, sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, também nós cremos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada. Se, procurando ser justificados em Cristo, fomos achados também nós pecadores, porventura Cristo é ministro do pecado? De modo algum. Pois, se torno a edificar o que destruí, constituo-me transgressor. Pois eu, pela lei, morri para a lei, para viver para Deus; estou crucificado com Cristo na Cruz. E vivo, mas já não eu: é Cristo que vive em mim. E o que agora vivo na carne, vivo-o na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim. Não rejeito a graça de Deus. Pois, se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu em vão.

## Comentário

*Depois, passados catorze anos* desde a primeira vinda, *subi de novo a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito.* Diz "subi" segundo a situação do lugar. Paulo veio por isso uma segunda vez a Jerusalém, trazendo consigo testemunhas idôneas, Barnabé dos judeus, Tito dos gentios, porque as Igrejas a que pregava lhe objetavam que discordava na pregação de Pedro e dos outros; querendo remover essa dúvida, subiu a Jerusalém com testemunhas, não que estivesse em dúvida em algo, mas para que se tornasse certo aos que duvidavam que não discordava de Pedro. Subi não só porque assim quis, mas também subi *em virtude de uma revelação*, isto é, porque Deus me revelou que assim convinha fazer. E então não aprendi deles, mas *expus-lhes o Evangelho*, dizendo: Assim e assim prego; não é assim também convosco?

Dir-se-ia: calaste algumas coisas que pregas aos gentios. Certamente não, diz Paulo, mas *o Evangelho que prego entre os gentios*, nem dele calei palavra, expus publicamente a toda a Igreja. *Em particular*, porém, isto é, separadamente, expus aos *que eram tidos por algo*, isto é, aos Apóstolos, não, contudo, em particular com eles para excluir os outros e tratar privadamente com eles; mas primeiro o meu discurso foi público a todos, agora a estes; ou assim: expus a eles, em particular, isto é, aos Apóstolos, para não parecer incapaz de defender o meu Evangelho sem o auxílio deles. Por isso assim expus, *para não correr*, isto é, para não ser tido por correr, *ou ter corrido em vão*, se por esta exposição não aprovasse o meu Evangelho. E não apenas expondo-o o comprovei, mas *nem Tito, que estava comigo, sendo gentio de nação, foi obrigado a circuncidar-se.* Pelo que diz "obrigado", insinua que aqueles falsos apóstolos muito trabalharam contra Paulo para que Tito fosse circuncidado.

Não só Tito não foi obrigado a isso; mas *nem por uma hora cedemos em sujeição*; o que diz assim: não foi obrigado a circuncidar-se; *e isto por causa dos falsos irmãos intrusos* — os judeus infiéis, com efeito, a quem Paulo, porque não respondia a infiéis, contratavam por prêmio falsos irmãos, por quem impugnassem Paulo —; por causa daqueles, digo, *que se introduziram dolosamente para espiar a nossa liberdade*, isto é, a fé que nos faz livres do jugo da lei, *liberdade que temos em Cristo Jesus*; espiar para, se pudessem, *nos reduzir à servidão*, isto é, à lei antiga, que é grave servidão: por isso muito recomenda a fé de Cristo, porque a chama liberdade; deprime a lei, que chama servidão. Por causa daqueles, digo, *nem por uma hora cedemos em sujeição*, isto é, à lei que, os que cedem a ela, sujeita à servidão. Por isso não cedemos, *para que a verdade do Evangelho permaneça convosco*, isto é, para que, como pregamos que a lei é inútil, a graça suficiente, assim sempre o crêsseis.

Paulo, vindo em outro tempo a Jerusalém, para tirar de si toda suspeita, fez circuncidar de novo Timóteo, já circuncidado, não que cresse que a circuncisão conferisse algo, mas porque alguns lhe haviam imputado que ele dissera que a lei fora inútil em todo tempo: para provar que isso era nada, apresentou Timóteo para ser circuncidado. Mas agora não quis de modo algum que Tito fosse circuncidado, porque, se agora, ao chegar a Jerusalém, para provar que a circuncisão é nada, o circuncidasse, diriam as Igrejas dos gentios: eis a falsidade de Paulo, a quem, queira ou não, convinha circuncidar Tito em Jerusalém.

Mostra, por aquela exposição do Evangelho, que depois da conversão não foi achado inferior a Pedro e aos outros; acrescenta também que antes da conversão era muito mais digno que eles sob a lei; astutamente, porém, como se fosse nada para si a dignidade que teve antes da fé. A letra liga-se assim: expus a eles, e apareci segundo, depois da fé recebida, irrepreensível, como eles; mas *quais foram outrora*, isto é, antes da fé, Pedro e os outros, que pareciam àqueles sábios segundo a carne *ser algo*, recordar isto, quais eles foram, qual eu sob a lei, *nada me importa*, isto é, nada confere ao meu caso; é verdade que eu era então mais digno que eles, mas não me importo com tal glória. "Eram tidos" diz-se quanto àqueles que julgavam tão grandes Pedro e os outros e Paulo nada. Por isso calo quais então foram; sei, com efeito, que *Deus não faz acepção de pessoas*, isto é, Deus não tem por aceito o homem por causa da pessoa da linhagem, das riquezas ou da ciência. Dizer quais antes foram, digo que nada importa ao meu caso, porque isto só me basta para recomendação: que Pedro e os outros, *que eram tidos por algo, nada me acrescentaram*, isto é, em nada me corrigiram; em nada me aproveitaram enquanto com eles expus o Evangelho. Ou por "mas" se copule: dizer quais foram antes da fé nada me confere; mas dizer que aqueles que eram tidos por algo nada me acrescentaram, é suficiente para recomendação.

Nada, de fato, me acrescentaram, mas até, desejando a nossa comunhão, *deram-me a mão direita em sinal de comunhão*, a mim e a Barnabé, meu discípulo; o que diz assim: nada acrescentaram, mas *pelo contrário*, quando aqueles viram que me foi confiado por Deus *o Evangelho da incircuncisão*, isto é, da gentilidade, com a mesma dignidade com que a Pedro foi confiado *o Evangelho da circuncisão*, isto é, entre os judeus: "pelo contrário" diz-se segundo a opinião dos que julgavam Paulo menos digno que Pedro. Digo bem "quando viram"; viram, com efeito, que o mesmo Deus que *operou em Pedro*, isto é, para a glória e recomendação de Pedro, milagres por ele, *no apostolado da circuncisão*, igualmente *operou também em mim*, isto é, para minha recomendação *entre os gentios*: Apóstolo dos gentios, com efeito, era. Quando viram que me foi confiado o Evangelho, e quando pelo efeito reconheceram o mesmo, vendo *a graça que me foi dada* (convertia, com efeito, mais que eles à fé); reconheceram, digo, *Tiago, Cefas e João, que eram tidos por colunas*, isto é, sustentadores da Igreja — estes, com efeito, eram mais honrados que os demais, porque Cristo sempre os admitia aos seus segredos, diante dos quais foi transfigurado no monte —; estes, digo, reconhecendo isto, *deram-me a mão direita, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão*, entendendo que não somos inferiores a eles mas iguais, não discípulos mas sócios: unir as mãos direitas era sinal de concórdia, com que se confederavam mutuamente os antigos. Fizeram pacto de comunhão conosco, *para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão*; impondo-nos só isto singular: *que nos lembrássemos dos pobres* que estavam em Jerusalém, o que eles não podiam senão por nós; o que, a saber, fazer bem aos pobres, não só quis, mas até tive o cuidado de o fazer, de modo que *isto mesmo*, isto é, não fiz menos do que eles rogaram.

Depois de mostrar que eles nada lhe acrescentaram, e que ele antes lhes era necessário quanto à memória dos pobres, acrescenta algo maior, a saber, que, sendo ele irrepreensível, mostrou repreensível também Pedro, dizendo: conferindo com Pedro e os outros, nada me acrescentou, mas eu acrescentei a Pedro; porque *quando Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe*: e não em oculto, mas *face a face*, isto é, à vista da Igreja. Resisti-lhe porque *era repreensível*, se não pelo entendimento, ao menos pelo exemplo. Por isso Paulo resistiu a Pedro face a face, porque Pedro não pecava em si, de que certamente devia ser corrigido em segredo, mas pecava em cautelosa dissimulação, corrompendo a Igreja; e quem pecava em público devia ser publicamente arguido; os que tinham visto a ofensa, com efeito, era necessário que vissem a emenda da ofensa.

Pedro era certamente repreensível, porque *antes de chegarem alguns* convertidos dos judeus *da parte de Tiago*, que tinha a cátedra em Jerusalém; antes de estes chegarem, Pedro *comia com os gentios*, sem discrição de alimentos: antes assim fazia; mas, *depois que chegaram, retirava-se* da mesa dos gentios; e não se retirava às ocultas, mas *se separava*, isto é, fazia à parte a mesa dos judeus longe do rebanho dos gentios, ou em outra casa ou em outra mesa, *temendo os que eram da circuncisão*, isto é, os judeus, ofendê-los se participasse com os gentios; e *na sua dissimulação* — não cria, com efeito, haver discrição alguma entre judeu e gentio, mas só por evitar o escândalo dissimulava —, *na dissimulação*, digo, dele *consentiram os demais judeus, de modo que até Barnabé*, meu discípulo, *foi arrastado por eles*, judeus, *à dissimulação*, e não quis comungar com os gentios. Pedro, simplesmente não considerando que por isto se corrompia a fé da Igreja, declinava por esta dissimulação do escândalo do irmão judeu. Mas eu, *quando vi que* Pedro e os que estavam com ele *não andavam retamente*, digo, para comprovar *a verdade do Evangelho*, eles que haviam pregado que os ritos judaicos já eram inúteis e não deviam ser mantidos; quando vi isto, *disse a Cefas diante de todos*; assim convinha, com efeito, enquanto a dissimulação dele era corrupção de toda a Igreja; isto, digo, disse: *se tu, Pedro, sendo judeu de nação, vives*, isto é, costumas viver, *como gentio*, nada julgando impuro, *e não como judeu*, de modo a condenar os alimentos por imundície segundo aqueles ritos; se, digo, tu, judeu natural, não judaízas, *como*, isto é, por que razão obrigas os gentios, que nunca judaizaram, *a judaizar* pelo teu exemplo, embora não o preguem assim? Se não fosse, com efeito, nisto publicamente corrigido por Paulo e, por isso, não confessasse ser repreensível, julgariam não só os judeus, mas também os gentios, inútil a fé sem a lei.

Até aqui provou bastante que não é inferior a Pedro e aos outros, antes necessário e corretor deles<sup>[1]</sup>; agora passa a reprovar a lei, que de modo algum deve ser mantida, dizendo: os gentios certamente não devem judaizar; porque nós, *judeus por natureza*, se doravante judaizamos, agimos inutilmente; o que diz assim: *nós, na verdade, somos judeus por natureza*, nascidos no judaísmo e sempre insistindo na obra da lei; *somos judeus, e não pecadores dentre os gentios*, isto é, não pecamos à semelhança dos gentios, adorando ídolos e semelhantes, o que os judeus não fizeram; e, sendo nós judeus por natureza, *não somos, contudo, justificados pelas obras da lei.* E nós, *sabendo* isto, *que nenhum homem é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo*, como os gentios, assim também nós, judeus, *cremos em Cristo Jesus, para sermos assim justificados só pela fé em Cristo e não pelas obras da lei*: *porque*, isto é, porque nós, judeus, somos justificados só pela fé, não pela lei, portanto *toda carne*, isto é, todo gentio obediente à carne, que ignora a Deus, *não será justificada pelas obras da lei*, se as fizer; se, com efeito, ao judeu não aproveitam as obras, muito menos ao gentio. Chama carne ao gentio, porque nunca esteve no culto da lei de Deus, mas sempre na obra da carne. Ou assim: porque, se o judeu não é justo pela lei, muito menos a carne, isto é, o pecador dentre os gentios.

Prova de novo o mesmo pelo impossível e pelo inconveniente. Digo que seremos justificados pela fé de Cristo; se não é assim, é isto que diz: *se nós, procurando ser justificados em Cristo*, isto é, pela fé de Cristo, não digo julgados, a estima dos insensatos não me importa, mas se, procurando a justificação pela fé de Cristo, *fomos achados também nós pecadores*, como os gentios, porque abandonamos a lei, passando à fé de Cristo; se isto, digo, é, então *Cristo é ministro do pecado*; ele mesmo, com efeito, ensinou que a lei não deve ser mantida, mas que toda justificação vem da fé. Mas porque lhe horrorizava dizer Cristo ministro do pecado, diz isto com admiração assim: porventura algum insensato ousa dizer que Cristo é ministro do pecado? *De modo algum* que Cristo seja ministro do pecado.

Na verdade Cristo não é ministro do pecado; *pois destruí a lei, que não reedifico*, para não me constituir transgressor; se, com efeito, reedificando a lei destruída, sou réu de prevaricação: então bem se segue que Cristo, porque excluiu a lei, não é ministro do pecado; o que diz assim: *se torno a edificar* as coisas legais *que destruí*, ensinando que devem ser mantidas, então certamente *me constituo transgressor* da lei que reconduzo; a própria lei, com efeito, manda que ela seja desprezada depois que vier a graça, como ali por Moisés: «O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um Profeta; a ele ouvireis como a mim» (Dt 18,15); como se dissesse: entretanto, até que venha, ouvi-me; quando vier, deixado eu, recorrei a ele. Diz "reedifico" porque alguns lhe imputavam que antes ensinara estultamente que a lei não devia ser mantida, mas agora, corrigido, reconduzia a lei.

Na verdade, se reedifico a lei, constituo-me transgressor da lei; *pois eu, pela lei, morri para a lei*, ela que assim mandava que não fosse mantida, vindo a graça. E não diz "abandonei", mas "morri para a lei", isto é, destruí a lei como quem nunca mais voltaria a ela, como da morte não se volta à vida. Morri para a lei *para viver para Deus*, isto é, pela graça de Deus. Na verdade, abandonando a lei, vive-se para Deus pela fé; pois cessa do mal e opera o bem; o que diz assim: *estou crucificado com Cristo na Cruz*, isto é, tenho cravados os meus sentidos pela virtude da Cruz de Cristo, de modo que, enquanto estou na fé de Cristo, não me seja lícito estender a mão ou o pé a obra má. Estou crucificado na Cruz de Cristo, isto é, para glória de Cristo, que assim me crucificou: e por estas coisas temos cessar do mal. Cristo, se tivesse querido, teria escolhido outro gênero de morte, mas quis que nem o próprio gênero de morte carecesse de mistério, prefigurando isto na fixação dos seus membros, que segundo o homem velho, passível e mortal, suportara até o dia da Cruz; para que, como os seus membros cravados não puderam, segundo a virtude do homem, estender-se a certos atos, assim naquela Cruz crucificava o homem da justiça de modo que, enquanto não violasse a fé de Cristo, não pudesse declinar para o ato de injustiça. Estou crucificado na Cruz, cessando do mal; *vivo, mas já não eu*, que era segundo a lei, *é Cristo que vive em mim*, isto é, vivo eu mesmo feito Cristo por conformidade: e por esta parte temos operar o bem.

Vivo certamente para Deus pela fé, pelo amor, pela entrega; isto diz assim: *eu vivo*; e *o que agora vivo*, posto na carne, porque, embora a carne impugne o espírito, o espírito, contudo, vive em mim e degola os desejos da carne, o que é milagre: viver assim na carne. *Vivo isto*, porém, *na fé*, isto é, vivo pela fé *do Filho de Deus*; e não pelas obras da lei, mas pelo amor de Cristo, *que me amou*, unindo a si pessoalmente o homem; vivo também pela entrega, porque Cristo *se entregou a si mesmo* à morte *por mim*, redimindo-me da morte; o que não podia efetuar-se pela lei. E porque vivo pela fé, e não pela lei, *portanto não reconduzo a lei*; o que, contudo, põe assim: *não rejeito a graça de Deus*, porque reconduzir a lei seria rejeitar a graça. Por isso não reconduzo a lei, *porque a justiça não vem pela lei*; se a justiça viesse pela lei, então Cristo *morreu em vão*, isto é, supérfluamente para justificar, já que pela lei se teria a justiça; mas que Cristo tenha morrido supérfluamente não quereríeis conceder.

## Notas

1. Estas palavras de São Bruno e as precedentes não devem ser entendidas de modo que ponham plena igualdade entre os santos Apóstolos Pedro e Paulo, e muito menos que insinuem a superioridade de Paulo. Paulo provou, sem dúvida, que não era inferior a Pedro quanto à ciência e à missão de pregar o Evangelho; nada impede, contudo, que Pedro fosse o príncipe e a cabeça de todos os Apóstolos, também de Paulo, e Apóstolo e Papa de todos os fiéis, convertidos tanto dentre os judeus como dentre os gentios.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou, para não obedecerdes à verdade, vós a cujos olhos Jesus Cristo foi exposto, crucificado entre vós? Só isto quero saber de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela audição da fé? Sois assim tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Tanto sofrestes em vão? Se é que foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito e opera milagres entre vós, fá-lo pelas obras da lei ou pela audição da fé? Como está escrito: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15,6). Sabei, pois, que os que são da fé, esses é que são filhos de Abraão. A Escritura, prevendo que Deus justifica os gentios pela fé, anunciou de antemão a Abraão: Em ti serão abençoadas todas as nações (Gn 12,3). Portanto, os que são da fé são abençoados com o fiel Abraão. Pois todos os que são das obras da lei estão debaixo de maldição. Pois está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para as cumprir (Dt 27,26). Que ninguém seja justificado pela lei diante de Deus é manifesto, porque o justo vive da fé. A lei, porém, não é da fé, mas: Quem as cumprir, viverá por elas. Cristo nos resgatou da maldição da lei, tornando-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que é pendurado no madeiro (Dt 21,23); para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus, e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito. Irmãos (falo à maneira humana), ninguém anula ou acrescenta algo a um testamento de homem, depois de confirmado. Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como se fossem muitas, mas como a uma só: E à tua descendência, que é Cristo. Digo, pois, isto: um testamento confirmado por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não o anula, de modo a abolir a promessa. Pois, se a herança vem da lei, já não vem da promessa. Mas Deus a concedeu a Abraão por promessa. Que é, então, a lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse a descendência a quem foi feita a promessa, ordenada por anjos, pela mão de um mediador. O mediador, porém, não é de um só; Deus, porém, é um só. Então a lei é contra as promessas de Deus? De modo algum. Pois, se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar, a justiça viria realmente da lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos que creem. Antes que viesse a fé, éramos guardados sob a lei, encerrados para a fé que havia de ser revelada. Assim, a lei foi nosso pedagogo em Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas, vinda a fé, já não estamos sob o pedagogo. Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Todos os que fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher: pois todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.

## Comentário

E visto que a justiça vem pela fé, e não pela lei, *ó gálatas insensatos, quem vos fascinou* para não crerdes na verdade? Tendes a verdade em vós, a saber, a fé de Cristo, que verdadeiramente justifica, e não credes nela. Diz fascinados, acusando-lhes a insensatez; não diferem, com efeito, das velhinhas que creem que certos fascinadores podem corromper só com o olhar a quem querem. Digo que vós fostes fascinados *a cujos olhos* — porque tendes a própria verdade e a conheceis — *Jesus Cristo foi exposto* — diz-se proscrito quem é expulso do seu reino e herança; estes, porém, expulsavam Cristo do seu reino e herança, enquanto se subtraíam a Cristo, eles em quem devia reinar e que eram a sua herança —: não só proscrito, mas também Cristo *foi crucificado entre vós*; Cristo, com efeito, não se tornou mais vil aos olhos dos judeus e de Pilatos do que em vós, que assim o desprezais. Ou assim: a cujos olhos Cristo foi proscrito nos outros, que depravastes com mau exemplo, e também em vós mesmos, que repelis Cristo de vós; e embora esteja assim proscrito, *foi crucificado por vós*: e assim não devia ser proscrito.

Isto inseriu com evidência; agora volta àquilo: ó insensatos, embora eu tenha provado bastante que a fé vale, a lei é vã, e embora sejais insensatos, farei, contudo, que vós mesmos confesseis e comprovais que a justiça vem da fé, e não da lei. O que diz assim: muitas outras coisas ocorrem pelas quais poderia provar isto, mas só isto basta, e isto quero aprender de vós: *recebestes o Espírito Santo pela lei ou pela fé?* Pela lei não, porque vós, gentios, não tivestes lei. E não o põe assim simplesmente, mas acrescenta: *pelas obras da lei, ou pela audição da fé*, deprimindo a lei, cujas obras eram insuportáveis; recomendando a fé, que facilíssimamente se tem pela só audição. E, tendo recebido o Espírito pela fé, *sois assim tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito*, a salvar-vos, *acabeis agora pela carne*, isto é, pela lei carnal, sejais consumados, isto é, aperfeiçoados. Muito desatinais ao dar ao Espírito o que é menos, a saber, começar, e ao atribuir à carne o que é mais, isto é, aperfeiçoar. E porque pela carne procurais a consumação, *tanto sofrestes em vão*; sofrestes muito dos infiéis, mas em vão. Sem causa, digo, sofrestes tanto; com esta condição, contudo, *se é que foi em vão*, isto é, se sois incorrigíveis; se vos arrependerdes, com efeito, a indulgência está à mão; e assim dizendo reanima a esperança deles.

Por aqueles que provou terem o Espírito só pela fé, porque nunca tiveram a lei, quer agora provar de si que, tendo tido ambas as coisas, a lei e a fé, recebeu, contudo, o Espírito pela fé, não pela lei; o que, se não provasse, deixaria dúvida: por isso diz: visto que vós recebestes o Espírito pela fé, e não pela lei, *aquele, pois, que vos dá o Espírito*, isto é, por cujas mãos recebestes o Espírito Santo, Paulo, *e opera milagres entre vós*, dizei agora: teve o Espírito *pelas obras da lei ou pela audição da fé?* Por vós, por semelhança, podeis julgar que pela fé, não pela lei, embora tenha tido ambas.

Pela fé se tem o Espírito, pela fé se tem a justiça, e pela fé a promessa. A letra liga-se assim: pela fé se tem o Espírito como pela mesma fé se tem a justiça. A justiça vem certamente da fé; *pois Abraão creu em Deus*, isto é, teve fé, e *isso lhe foi imputado* como suficiente para ter a justiça. E porque Abraão teve a justiça pela fé, *sabei, portanto,* que *os que são da fé* e não da lei (como Abraão então também não era), *esses são filhos de Abraão* pela fé, isto é, justos, porque imitadores da fé de Abraão. Não só pela fé se tem o Espírito e a justiça, mas também na fé se tem a bênção, como ali se lê: ó Abraão, *em ti*, isto é, à semelhança da tua fé, *serão abençoadas todas as nações*, não só os judeus, mas todas as nações. Mas antes de pôr esta autoridade, diz de antemão como se deve entender aquilo "em ti", dizendo: *a Escritura*, no Gênesis, *prevendo*, isto é, mostrando que Deus previu; assim, com efeito, desde a eternidade Deus deliberou; prevendo, digo, isto: *que Deus justifica* não só os filhos da carne de Abraão, mas também *os gentios*; justifica, digo, não pela lei, mas *pela fé.* Aquela Escritura muito antes do tempo da graça *anunciou de antemão*, isto é, mostra que Deus anunciou de antemão *a Abraão*: *em ti*, pela fé imitada, *serão abençoadas todas as nações* (Gn 12,3). Deve-se notar que, devendo provar a bênção, diz "justifica pela fé", entendendo que onde precede a justiça, aí por necessidade se segue a bênção. O que aqui chama bênção entende o mesmo que promessa, testamento, herança. Além disso, deve-se ver que não é em ordem incongruente que pela fé se tem primeiro o Espírito, depois a justiça, por fim a bênção; depois da fé, com efeito, logo é dado o Espírito, sem o qual ninguém pode obrar bem; depois, pelo Espírito que ajuda, seguem-se as obras da justiça; depois da justiça segue-se a bênção, isto é, a retribuição das obras justas.

E porque a Escritura diz que se alcança a bênção pela fé, mediante a justiça, *portanto os que são da fé*, isto é, que põem o seu ser na fé, o que certamente fizeram Davi e muitos outros, que, estando sob a lei, tinham de subsistir, contudo, pela fé; esses que são da fé *serão abençoados com o fiel Abraão*, não circuncidado mas fiel, isto é, não pela lei, mas pela fé: nem se deve omitir isto: que Abraão foi justificado pela fé antes de ser circuncidado. Na verdade só pela fé se tem a bênção; pois pela lei não se tem, antes a maldição, *todos os que são*, isto é, que creem subsistir, *das obras da lei, estão debaixo de maldição.* E o prova: na verdade estão debaixo de maldição; *pois está escrito* no Deuteronômio, isto é, no resumo da lei, quando Moisés recapitulou brevemente a lei dada, e, reunidos todos os preceitos, depois diz: *Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro desta lei*, não digo permanecer em vontade, mas de modo *a cumpri-las*. E Moisés, dizendo isto, era o mesmo que dissesse: esta lei não vo-la entrego para terdes nela justificação, mas para deprimir a vossa dureza; e sabei que deveis fugir para a graça, para que a graça de Cristo anule a maldição da lei. O próprio Pedro diz que é tanto o peso da lei que nem eles nem seus pais o puderam carregar (At 15,10).

Provou agora, por Abraão e Moisés, que a justiça e a bênção se têm pela fé; que ambas vêm da fé prova de novo por Habacuc: e deve-se considerar como sempre antepõe a fé à lei, e por Abraão, que foi antes da lei, e por Moisés, doador da mesma lei, e por Habacuc, que vivia sob a própria lei. Pela fé se tem a justificação: *que, porém, na lei ninguém é justificado*, não digo na estima dos homens, mas diante de Deus, *é manifesto* em Habacuc (cap. 2,4); porque diz que pela fé o homem se faz justo, e *o justo vive*, isto é, apreende a bênção prometida; e se só pela fé o justo vive, então não pela lei. Objetaria alguém: é verdade que pela fé o homem deve ser justificado, mas a lei ajuda a fé e de certo modo é necessária à fé. Ao que infere: *o justo vive da fé*, não da lei; *a lei, porém, não é da fé*, isto é, não depende da fé, nem é auxílio algum à fé. Mas quereis saber o que faz melhor? Isto: *quem as cumprir*, isto é, quem fizer o que a lei preceitua, *viverá por elas*, isto é, o que tem lhe será perdoado, mas nada lhe será aumentado pelo mérito da lei.

Porque dissera acima: maldito todo aquele que não cumprir os preceitos da lei, diria aquele: visto que Moisés assim diz, embora estejamos na fé, é necessário, contudo, que cumpramos a lei, para não incorrermos na maldição de Moisés. Contra isto Paulo: embora Moisés tenha maldito todo aquele que não cumpre a lei, não adirais, contudo, por isso à lei; *Cristo, com efeito, nos resgatou da maldição da lei*; o que também Moisés, quando maldizia, entendeu. Resgatou-nos Cristo, *tornando-se por nós*, para nos resgatar, não só maldito, mas maldição; se alguém dos crucificadores de Cristo quisesse maldizer a outro, maldizia dizendo: assim te aconteça como àquele crucificado. Na verdade por nós se fez maldição; *porque está escrito* no Deuteronômio: *Maldito todo aquele que é pendurado no madeiro* (Dt 21,23). Cristo, porém, pendurado no madeiro, não certamente por culpa de crime próprio, mas só foi maldito porque suportou a pena do maldito; Moisés, com efeito, mandara que, se algum réu fosse condenado, na própria condenação fosse maldito. Ou assim: maldito todo aquele que é pendurado no madeiro; Deus, com efeito, criado o primeiro homem, abençoou-o, se perseverasse na obediência, mas, porque pecou, maldisse-o; maldizer não foi senão despojá-lo da impassibilidade e imortalidade concedidas: Cristo, porém, assumindo a carne do velho Adão, foi maldito, porque passível e mortal; o que nele foi manifesto, quando pendeu no madeiro, não poderia, com efeito, padecer se fosse impassível.

Objetaria aquele gentio: embora Cristo tenha desfeito a maldição da lei, a nós, que não temos a lei, em nada aproveitou. Contra isto Paulo: Cristo nos resgatou *para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus*, como entre os judeus, isto é, a repromissão de Abraão, a ter em Cristo Jesus, não pela lei; viesse, digo, a promessa de modo que *recebêssemos a promessa*, isto é, a coisa frequentemente prometida; promessa, digo, *do Espírito*, isto é, feita a nós pelo Espírito, ou então, do Espírito, porque já recebemos o Espírito Santo, pelo qual já em parte somos deificados, arras da bem-aventurança a ter: recebêssemos, digo, não pela lei, mas *pela fé.*

O que agora provou pela autoridade da lei e do Profeta, a saber, que se recebe a bênção pela fé, prova o mesmo pela lei do costume humano, dizendo: assim como o testamento de qualquer homem, feito legalmente, não pode ser destruído, assim a lei não pode tornar vão o Testamento de Deus. Se objetarem que a lei é mais antiga que este Testamento e que o velho não deve ser destruído pelo novo, nada dizem, pois esta promessa foi feita a Abraão muito antes da lei. A letra liga-se assim: o que agora provei por autoridades, o mesmo, irmãos, agora digo *à maneira humana*, isto é, afirmo pelos costumes humanos assim: o testamento de homem, ainda que de qualquer homem vil, contudo este testamento *confirmado*, isto é, legalmente feito, com testemunhas, o testador a morrer, etc., este testamento *ninguém despreza*, de modo a deixá-lo sem cumprir, *ou ninguém sobre ele ordena* outro testado; e como o testamento de homem ninguém destrói, assim a lei não torna vão o Testamento de Deus. Antes de pôr isto, antecipa que na verdade o Testamento de Deus foi feito, e depois que o Testamento foi mais antigo que a lei: o testamento de homem ninguém despreza, o Testamento, porém, foi feito por Deus, porque *as promessas foram feitas a Abraão* — não diz que as promessas fossem de coisas diversas, mas o mesmo foi prometido em muitas repetições e em diversos tempos —; as promessas foram feitas a Abraão, e por Abraão foram ditas *à sua descendência*, isto é, a Cristo; como quando se promete ao pai a fecundidade dos filhos, o aumento da herança, embora o filho dele ainda não exista, na pessoa do pai se faz a promessa ao filho. A promessa foi feita à descendência, isto diz, *e não diz* "às descendências"; ou assim: diz "à descendência", não diz "nas descendências", como se em muitas devessem herdar os gentios, mas *como a uma só*: *e à tua descendência*, isto é, na tua descendência herdarão os gentios; *que é Cristo*: é boa a relação [por "que"], porque segue o próprio.

Aqui mostra que o Testamento de Deus foi feito a Abraão, agora mostra que o Testamento é mais antigo que a lei: *digo*, as promessas feitas a Abraão; do mesmo digo que este Testamento *foi confirmado por Deus*; jurou, com efeito, Deus que o cumpriria; este Testamento, digo, *a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não o anula*; se o testamento de qualquer homem não se torna vão, quanto mais o Testamento de Deus, que prometeu com juramento, e a Abraão, tão grande homem, e com tanta antiguidade de tempo, não será vão: a lei não o anula *de modo a abolir a promessa*, isto é, para que se aboli a promessa. O que diz "a lei não torna vão", assim devemos entender que torna vão que a própria lei justifique, dê a bênção, como foi prometido a Abraão que se faria pela fé.

Na verdade a promessa seria abolida, se o Testamento fosse tornado vão pela lei; *pois se a herança vem da lei*, o que, contudo, não pode ser, se da lei, *já não vem da promessa*; se não vem da promessa, falso é Deus que prometeu: se isto assim é, portanto nem de modo algum se tem. Mas Deus que prometeu é verdadeiro; portanto vem da sua promessa e não da lei. Se da lei, não da promessa; mas vem da promessa: na verdade da promessa, *porque Deus a concedeu a Abraão por promessa*, portanto não pela lei. E porque provo que pela lei nem se tem a justiça nem a bênção, *portanto* objetar-me-eis: *que é a lei?* Em vão parece ter sido dada, já que nem justifica nem salva. É verdade, diz Paulo, que nem justifica nem salva, e, contudo, não é por isso inútil, porque *foi acrescentada por causa das transgressões* a multiplicar; acrescentou, com efeito, o pecado de prevaricação, que não havia. E era necessário que abundassem as transgressões: «Onde abundou o delito, superabundou a graça» (Rm 5,20). Ou assim: a lei foi acrescentada para evitar as transgressões; a lei, com efeito, punindo o réu, faz temer o pecado.

De novo aquele: se por causa das transgressões, logo a lei útil deve ser mantida. De modo algum, diz Paulo, porque a lei foi posta para um tempo, *até que viesse a descendência*, isto é, Cristo, de que diz: «Na tua descendência, etc.»; *a quem foi feita a promessa*, isto é, a promessa foi feita: a lei, digo, *ordenada*, isto é, não permanente, mas disposta no tempo segundo a sua ordem; primeiro, com efeito, a lei natural, depois esta lei escrita, por fim a graça; ordenada, digo, *por anjos*, isto é, por Moisés e Aarão, que foram núncios de Deus ao povo, ou então, pelos Anjos celestes, por cujo ministério foi entregue a lei a Moisés.

De novo aquele: o que foi feito por Anjos, destruí-lo é mau. Contra isto Paulo: assim, digo, ordenada por anjos *pela mão de um mediador*, isto é, em poder do mediador Cristo; os Anjos, com efeito, quem quer que fossem, quiseram isto, que, vindo a fé, fosse abolida a lei. E porque acabara de dizer "mediador" (quem é meio, unindo duas extremidades, parece, com efeito, ser diverso daquelas que une), para que não se julgasse que Cristo, sendo mediador entre Deus e o homem, ou não era Deus, mas outro que Deus, a quem unia o homem; ou, se Deus fosse, se julgassem dois, um que unisse no meio as duas extremidades, outro Deus a quem se unisse o homem. E para remover isto acrescenta: digo mediador; *o mediador*, concedo que *não é de um só*, mas de duas extremidades, porque por um só não se diria meio; e embora não seja mediador de um só, mas de dois, nem por isso se segue que sejam dois Deuses, *Deus, porém, é um só.* Ou de outro modo: a lei foi posta na mão do mediador; este mediador, porém, não é de um só, isto é, apenas do povo judaico, mas é um só, isto é, igualmente do gentio como do judeu. Isto consta daí, porque Deus é tão bem do gentio como do judeu.

Infere do que precede: *porque o testamento de homem ninguém despreza ou acrescenta algo*; o Testamento, porém, foi feito antes da lei: logo a lei não destrói as promessas de Deus. Mas isto põe em interrogação assim: *então a lei é contra as promessas de Deus?* deve-se confessar que a lei é contra as promessas de Deus, de modo que pela lei se tenha o que pela fé se promete? *De modo algum* que a lei assim se oponha às promessas de Deus, a ponto de efetuar a bênção, que se promete pela fé. Na verdade a lei não é contra as promessas de Deus, de modo a poder dar a bênção; *pois se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar*, isto é, de dar a bênção prometida, então *realmente a justiça viria da lei*; se, com efeito, a justiça não precede, a bênção não pode ser apreendida: mas da lei não vem a justiça; *a Escritura, com efeito, encerrou*, isto é, mostrou encerrado; ou então, a Escritura, isto é, a mesma lei, e pelo pecado acrescentado, como que violentamente encerrou, e mostrou encerrados *tudo debaixo do pecado.* Por isso tudo foi encerrado debaixo do pecado, *para que*, assim encerrados, cressem, e a eles, por fim crentes, fosse dada *a promessa*, isto é, a bênção prometida, *não pela lei, mas pela fé em Jesus Cristo*; poderia, com efeito, julgar-se que, embora cressem, não receberiam, contudo, a bênção pelo mérito da fé. Por isso encerrou tudo debaixo do pecado, para que cressem; se os homens, com efeito, não fossem de tal modo atados sob o vínculo do pecado que nem com suas forças pudessem respirar, nunca recorreriam à misericórdia que consiste na fé.

Mas, embora a lei não possa vivificar, foi, contudo, oportuna; porque, *antes que viesse a fé*, nós, judeus postos sob a lei, *éramos guardados*, isto é, éramos nutridos sob a custódia da lei para a graça que viria: sob a lei, digo, *encerrados*, isto é, constritos no cárcere como servos; ameaçava, com efeito, pena, não prometia repouso: éramos guardados, digo, para passar desta custódia *à fé que havia de ser revelada*, então velada nas figuras da lei, por Cristo. E porque sob a lei éramos guardados para a fé, *assim a lei foi nosso pedagogo em Cristo*, nutrindo-nos para sermos postos em Cristo; por isso em Cristo, *para que nós, judeus, sejamos justificados pela fé de Cristo*, não pela lei. Pedagogo diz-se o nutridor do menino, que sempre segue os seus pés: igualmente a lei foi nosso pedagogo, nutrindo a nossa meninice e simplicidade, como costuma o menino ser nutrido com açoites e ameaças. Nós éramos meninos sob o pedagogo; *mas, vinda* (isto é, depois que veio) *a fé*, isto é, a maturidade dos costumes, e já somos adultos, nós, judeus, *já não estamos sob o pedagogo*, isto é, sob a lei. Por isso nós, judeus, não estamos mais sob a lei, porque *todos vós, gálatas gentios, sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus*, não menos que nós; e se nada menos tendes diante de Deus pela fé do que nós, em vão manteríamos a lei, que por nós se prova nada nos conferir. Se nós, judeus, a lei, por inútil, a deixamos, certamente vós que não a tivestes, seria insânia apreendê-la.

Digo bem que sois filhos de Deus em Cristo Jesus; *todos, com efeito, que fostes batizados em Cristo*, isto é, na instituição de Cristo Jesus, *de Cristo vos revestistes.* Diz revestir; o homem, com efeito, nu pelo pecado, sofre penúria e ignomínia; mas no batismo, vindo a Cristo, reveste-se dele tanto para cobrir a sua nudez quanto para glória. Digo bem "todos"; *não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher*, isto é, nem nação, nem condição, nem sexo diferente há na fé de Cristo; *todos vós, com efeito, sois um só corpo* pela fé em Cristo Jesus. *E se sois de Cristo*, sendo Cristo de Abraão (acima, com efeito, foi dito: e à tua descendência, que é Cristo), logo, por Cristo, vós, gentios, *sois descendência de Abraão*; e se descendência, *herdeiros* da sua bênção, não pela lei, mas *segundo a promessa.*

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# Capítulo 4

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> Digo, pois: Enquanto o herdeiro é menino, em nada difere do escravo, ainda que seja senhor de tudo; mas está sob tutores e administradores até o tempo marcado pelo pai: assim também nós, quando éramos meninos, estávamos servilmente sujeitos aos elementos do mundo. Mas, quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai. Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, és também herdeiro por Deus. Mas então, ignorando a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Agora, porém, que conhecestes a Deus, ou antes, fostes conhecidos por Deus, como voltais de novo aos elementos fracos e pobres, aos quais quereis servir de novo? Observais dias, meses, tempos e anos. Temo por vós, não tenha eu trabalhado em vão entre vós. Sede como eu, porque também eu sou como vós; irmãos, eu vos rogo: em nada me ofendestes. Sabeis que foi por uma enfermidade da carne que vos anunciei o Evangelho da primeira vez, e não desprezastes nem rejeitastes a prova que isso foi para vós na minha carne; antes me recebestes como um Anjo de Deus, como a Cristo Jesus. Onde está, pois, a vossa felicidade? Pois dou-vos testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os vossos olhos e mos teríeis dado. Tornei-me, então, vosso inimigo, por vos dizer a verdade? Eles têm zelo por vós, mas não de boa maneira; querem excluir-vos, para que vós tenhais zelo por eles. É bom, porém, ter zelo no bem, sempre, e não só quando estou presente convosco, meus filhinhos, por quem sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós. Quisera estar agora convosco e mudar de tom, porque estou perplexo a vosso respeito. Dizei-me, vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, pela promessa; o que foi dito por alegoria. Estas são, pois, as duas alianças. Uma, do monte Sinai, que gera para a escravidão: é Agar; pois Sinai é um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém de agora, a qual é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém de cima é livre, e é a nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não davas à luz; rompe em brados, tu que não sentias dores de parto, porque são mais numerosos os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido (Is 54,1). Nós, irmãos, somos, à maneira de Isaac, filhos da promessa. Mas, como então o que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o espírito, assim também agora. Mas que diz a Escritura? Expulsa a escrava e o seu filho; pois o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre (Gn 21,10). Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre, com a liberdade com que Cristo nos libertou.

## Comentário

No mesmo ponto que acima provou ainda se demora; assim como, com efeito, provou que não se devia voltar à lei, porque foi pedagogo, e para os perfeitos na fé não há necessidade de pedagogo; o mesmo prova ainda por outras razões, a saber, que os judeus não devem mais operar sob a lei, porque a lei esteve no lugar de tutor e administrador; de cujo tutor e administrador a maturidade da fé não precisa. E isto prova pela semelhança do pupilo, que o pai, ao morrer, dispõe que fique sob tutor e administrador, até que a maturidade da idade o faça digno da liberdade. Tutor do menino diz-se quem o defende contra o que o impugna, para que não possa ser deserdado; administrador do menino diz-se o mesmo ou outro, mas por causa diversa, a saber, porque trata e dispensa os bens do pupilo, paga os tributos, responde por ele nas causas. A lei igualmente se diz tutor e administrador; os homens, com efeito, tendo pouco conhecimento divino, e nele bastante miseráveis e pupilos, precisavam antes da lei que os constringisse como servos, para que, nutridos sob esta constrição, migrassem à perfeição da fé; e então a lei lhes era tutor pelos preceitos que dava, dizendo: não faças isto nem aquilo; se o fizeres, morrerás de morte. Assim, pelos preceitos dados, a lei os tutelava e defendia contra os vícios que irrompiam, dos quais cessavam por temor, ainda não por amor. A lei era também administrador do mesmo povo, pelos sacrifícios com que se tratava junto a Deus, para serem expiados dos pecados. A letra liga-se assim: não só por aquilo que foi antecipado, a saber, que a lei foi pedagogo, provo que não se deve permanecer mais sob a lei, mas também porque a lei esteve no lugar de tutor e administrador; de que, porque já não precisamos, é injusto manter a lei. Ou de outro modo liga-se, para que haja sentença adversativa, assim: porque somos um em Cristo e pela fé somos descendência de Abraão, é verdade que por isso não devemos já manter a lei; mas foi, contudo, necessária, enquanto de tutor e administrador ainda precisávamos como pupilos: e segundo esta continuação a causa que antes não fora dada agora será suprida.

Dissera, sim, que não era mais preciso o pedagogo, mas não pusera a causa; que aqui acrescenta, dizendo: embora vós agora, um em Cristo, não precisais de pedagogo, digo, contudo, que já precisastes, como vedes que, *por quanto tempo* segundo a disposição do pai, *o herdeiro é menino*, este que há de ser herdeiro; por quanto tempo, seja vinte anos, seja quinze, é menino, embora seja destinado a herdeiro, contudo *em nada difere do escravo*, porque muitas vezes é constrangido e açoitado pelo seu tutor: *ainda que*, isto é, embora haja de ser senhor de tudo, em nada difere, mas aquele pupilo *está sob tutores*, que defendem a sua herança para que não seja violentamente arrebatada, *e administradores*, que tratam as causas por ele e dispõem da sua herança. Está certamente sob eles *até o tempo marcado pelo pai*, isto é, enquanto o pai o constituiu estar sob direito alheio: era, com efeito, costume que até vinte e cinco anos o jovem estivesse sob patrono, para que não dissipasse ilicitamente a sua substância.

Porque Paulo não adapta toda a semelhança, é bom que adaptemos cada ponto: *por quanto tempo* (isto foi desde o primeiro homem até Cristo) *o herdeiro*, que há de ser herdeiro, a saber, o povo judaico, a quem foi prometida a salvação; enquanto este herdeiro é menino, em todo o tempo até Cristo, foi menino no conhecimento de Deus; e, sendo menino, em nada difere aquele povo do escravo: se fizesse os preceitos, com efeito, evitava a pena; se não, era atormentado asperrimamente como escravo; em nada difere entretanto do escravo, embora haja de ser senhor de todos os bens da herança: assim aquele povo, premido pela servidão da lei, se da lei passasse à fé, devia ser constituído senhor da herança celeste. O menino em nada difere do escravo, mas *está sob tutores e administradores*, isto é, sob a lei que o tutela pelos preceitos e age por ele pelos sacrifícios. Está certamente sob eles *até o tempo marcado pelo Pai*, em que tempo da servidão da lei seria transferido à liberdade da fé.

E assim como o menino herdeiro está sob tutores e administradores, *assim também nós, quando éramos meninos* no conhecimento de Deus, *estávamos* não livres mas *servilmente sujeitos aos elementos do mundo*, isto é, às coisas legais; porque, assim como o menino pelos elementos do alfabeto passa ao conhecimento das letras, assim pela lei se devia passar ao conhecimento de Deus, a ter na fé<sup>[1]</sup>; estávamos sob os elementos do mundo, isto é, que a lei prometia coisas mundanas e ensinava carnais. Antes assim éramos meninos; *mas quando* (isto é, depois que) *veio a plenitude do tempo*, ou o tempo da plenitude; plenitude porque quanto fora esperado nos séculos passados, então se completou; então, com efeito, a perfeita justificação, que antes não fora; então a presente e plena salvação, que antes daquele dia esperava Abraão com os demais santos; ou de outro modo: depois que veio a plenitude, isto é, o fim e a consumação do tempo, que Deus constituíra primeiro passar, então *Deus enviou o seu Filho*<sup>[2]</sup>; Filho, digo, a quem tanto humilhou que *nascido de mulher*, isto é, que aquele que era incriado e sempiterno quis receber nova criação de mulher; *nascido sob a lei*, porque viveu sob a lei e cumpriu a lei, quando por ele foi dada a hóstia: por isso sob a lei, *para resgatar*, dado o preço do sangue, *os que estavam sob a lei* — se não se fizesse sob a lei e a observasse, com efeito, não poderia libertar da lei e destruir a lei, como convinha que, provando a morte, destruísse a morte —; *a fim de* resgatar, *e para que, resgatados, recebêssemos a adoção de filhos*, isto é, fôssemos filhos recebendo a adoção, isto é, a herança eterna que a graça de Deus nos adotou.

Onde diz "nascido de mulher", pergunta-se, sendo Deus todo em toda parte, como teria estado mais no útero da Virgem. Para isso os santos põem semelhança tal: que, assim como a alma, enquanto está no corpo, sensibiliza o próprio corpo, o rege e faz viver; separada do corpo, em outro lugar está igualmente toda, e não faz ali, contudo, o ofício; assim a Divindade, embora esteja toda em outra parte como no útero da Virgem, não se segue, contudo, que opere em outro lugar o mesmo que no útero da Virgem. Acima devíamos ter notado que, assim como aquele menino, se morre antes de chegar aos anos maduros, perde a herança; assim quem da lei não quiser passar à maturidade da fé, fica privado da herança.

Dir-me-iam os gálatas: vós, judeus, certamente recebereis a adoção de filhos; mas que nos aproveitará a nós? A isto Paulo: não só nós somos filhos, mas que vós, gentios, igualmente sois filhos, prova-o isto: que *Deus enviou o Espírito de seu Filho*, isto é, o mesmo que o Filho teve, ou que o Filho deu; enviou, digo, *aos nossos corações*, isto é, ao meu e aos vossos; Espírito, digo, *que clama*, isto é, nos faz clamar: *Abba*, os judeus; *Pai*, os gentios. E visto que ambos somos filhos e clamamos; *assim, já não há alguém escravo, mas filho*: e *se filho, será também herdeiro* da herança bem-aventurada; e que assim será, tomo-vos por testemunha por Deus; ou assim: será herdeiro *por Deus*, isto é, pela misericórdia de Deus, não pela lei.

Agora reconduz-lhes à memória o estado anterior que tiveram no culto dos ídolos, provando que em vão deixaram os ídolos, se aceitam a lei; a lei, com efeito, é já idolatria desde que veio a graça, porque quem julga a lei necessária para justificar, derrogando a Deus, atribui à lei o que é de Deus, como os idólatras atribuíam ao ídolo o que era de Deus: agora, se aceitam a lei, será pior que antes; então, com efeito, por ignorância, agora, porém, sabendo e prudentes, meterão a mão no fogo. A letra liga-se assim: agora sois filhos, mas então, antes da conversão, [ignorando a Deus] servíeis aos que não eram deuses, e se por opinião, não por natureza. Então servíeis assim, mas agora, *que conhecestes a Deus* (contra o que diz "ignorando"); *ou antes, fostes conhecidos*, isto é, aprovados *por Deus*, *como*, isto é, por que razão, *voltais de novo*, porque outrora estáveis no mesmo, *aos elementos*, isto é, àquelas coisas legais *fracas*, isto é, impotentes mesmo no seu tempo para justificar quem quer que seja; e mesmo nesta fraqueza *pobres*, isto é, necessitadas de auxílio alheio? isto, com efeito, o pouco que se fazia, sem o auxílio da fé futura não podia: *aos quais quereis servir de novo*; a lei, com efeito, de agora em diante será para vós o mesmo que foi outrora o ídolo.

Na verdade voltais à lei; pois já *observais dias*, isto é, sábados; observais também *meses*, isto é, as novas luas, *e tempos*, isto é, os jejuns dos hebreus estabelecidos em tempos; observais também *anos*, isto é, o sétimo ano e o jubileu, ao modo dos hebreus. E porque assim agis, *temo por vós*, isto é, nada tanto temo em vós como por vós; temo, digo, *não tenha eu* talvez (o que logo pode acontecer) *trabalhado em vão entre vós*, isto é, sem fruto de utilidade. Mas, para que não aconteça que eu tenha trabalhado em vão, *sede como eu*, não vos importando com coisas legais, porque também eu fui outrora legal, como vós quereis ser, e abandonei: vede agora quão insensatamente o quereis. Ou assim: sede como eu, porque eu sou como vós, vivendo como gentio.

Imputava-se a Paulo por aqueles falsos apóstolos que odiava os gálatas e por isso não lhes abrira toda a verdade: do que agora se escusa e os louva pela conduta anterior, em que se mostraram muito benignos a Paulo; por isso também assim lisonjeia, porque depois de poucas palavras os vai atacar mais asperamente. A letra liga-se assim: sede como eu; e *rogo-vos, irmãos*, que sejais meus irmãos, tendo afeto piedoso para comigo; *em nada*, com efeito, *me ofendestes*, por isso eu, odiando-vos, devesse ter calado a verdade. Em nada me ofendestes; mas sei, e vós bem sabeis, que *foi por uma enfermidade da carne que vos anunciei o Evangelho da primeira vez*, não, contudo, do espírito; porque, se eu era fraco e desprezível segundo a carne, na virtude do Espírito pelos milagres aparecia forte. Preguei por enfermidade; e não por pouco tempo, mas *da primeira vez*, de modo que a minha enfermidade vos podia ser tédio. E, apesar de tamanha enfermidade me oprimir, *vós, contudo, não desprezastes nem rejeitastes, quando preguei, a prova que isso foi para vós na minha carne*, quando primeiro vim a pregar; na minha enfermidade, com efeito, Deus vos provava; como se dissesse: se desprezam a enfermidade de Paulo, são réus; se a recebem benignamente, são dignos. Rejeitar é mais que desprezar, como lançar fora totalmente é mais que desprezar padecendo. Não me desprezastes, *antes me recebestes como um Anjo de Deus, como a Cristo Jesus.* E, como por isso aparece que não há causa alguma de ódio, mas muita de amor, mal sente quem suspeita que me tornei inimigo vosso.

E porque na minha acolhida fostes tão benignos, *onde está, pois, a vossa felicidade*, de modo que antes assim obedecêsseis ao Evangelho? E na verdade felicidade, *porque dou-vos testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os vossos olhos e mos teríeis dado*: entende-se "ser possível" o que é oportuno fazer-se. E porque estáveis ligados a mim por tanta força de amor, portanto não se deve crer que *me tornei vosso inimigo*; o que julgais por isso: que *vos digo a verdade*: se calasse a verdade e vos acariciasse com lisonjas, assim me julgaríeis amigo. Eu não sou vosso inimigo; mas *eles têm zelo*, isto é, amam-vos não bem, mas porque querem *excluir-vos* da fé de Cristo, de modo que, depois que vos tiverem levado mais plenamente ao seu erro, *tenhais zelo por eles* e exijam de vós imperiosamente o que quiserem. Mas não tenhais zelo por eles, tende-o por mim e por qualquer bom, e nunca no mal, se por acaso eu persuadir, mas sempre *no bem*; e não só quando estou presente convosco tende zelo por mim, mas também quando estiver ausente.

O mesmo que acima provou, a saber, que a lei não deve ser mantida, ainda prova pelas palavras da própria lei; como depois mostra, vinda a liberdade da fé, deve repudiar-se a servidão da lei. A letra liga-se assim: tende zelo por mim e por qualquer bom; por eles, porém, não tenhais zelo; se quereis ter zelo por eles, ó meus filhinhos,... dizei-me; até aí pende a construção. Aos que antes eram filhos segundo a integridade da fé, chama por diminutivo filhinhos, porque, querendo aderir aos perversos, estavam muito diminuídos no bem da filiação. *Filhinhos meus, por quem sofro de novo as dores de parto*, isto é, por cuja instrução trabalho com máximo esforço — diz-se parturir aquele trabalho que a mãe padece na emissão do menino, antes que o menino seja dado à luz —; *por quem sofro de novo*; outrora, com efeito, quando éreis infiéis, tive muito trabalho em vós: sofro dores de parto e trabalho em vós *até que Cristo seja formado em vós*, em cuja fé estais deformados, porque àqueles falsos apóstolos ao menos consentistes; nem diz "até que sejais reformados", mas "até que Cristo seja formado em vós"; Cristo, com efeito, foi deformado e perdeu a sua forma em vós seduzidos; ou então, foi deformado em vós, isto é, à vossa semelhança; ouvindo, com efeito, outros como detraís da fé de Cristo, dizem pelo vosso exemplo que a fé de Cristo é insuficiente para a salvação. Para mais os atemorizar, agravou o dito ao dizer "até que Cristo seja formado", que, como se dissesse, deformastes. Chamo-vos filhinhos; mas, embora ausente vos chame filhinhos, quisera, contudo, agora estar presente convosco, e assim *mudar de tom*; porque, se agora vos chamo filhinhos, presente diria que sois estranhos, detratores de Deus, e muitos outros opróbrios; que Paulo, embora os dissesse se estivesse presente, não quis, contudo, escrever na Epístola, sabendo que a Epístola permaneceria e, confiando na correção deles, cujo vitupério não quis que durasse: e com razão, uma vez que haviam de ser corrigidos. Se estivesse convosco, mudaria o tom, por isso *porque estou perplexo*, isto é, envergonhado, *a vosso respeito*; louvara, com efeito, a vossa fé diante de outras Igrejas, que, ouvindo a corrupção da vossa fé, julgam-me réu de mentira, e disso me envergonho: vós, filhinhos meus, dizei-me. Ou, se agrada, não é preciso estender até lá, continuando assim: tende zelo por mim: o que certamente deveis, porque vós sois meus filhinhos por quem sofro de novo as dores de parto, etc.: a sentença das palavras não muda.

E porque estou perplexo a vosso respeito, seduzidos, *dizei-me agora* e respondei-me: *vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei?* Faz-lhes um dilema que fere de ambos os lados; porque, se não leram a lei, é insensato passar ao que não sabem; se, porém, leram, uma vez que a mesma lei, vinda a fé, proíbe que seja mantida, muito desatinam os que a querem manter. O outro membro do dilema prossegue, contudo, a saber, se leram a lei.

Dir-me-iam: que importa se lemos a lei? Por isso pergunto se lestes, porque a própria lei abertamente insinua que não deve ser mantida; *está escrito*, com efeito, *na lei que Abraão teve dois filhos.* Estas palavras, porém, não se encontram assim no Gênesis, mas de igual valor. Muitos filhos teve Abraão, mas destes dois foi conveniente figura para a fé e a lei; dos quais dois filhos Moisés descreveu tudo até o fim, o que não fez dos demais. Porque Paulo não segue a alegoria em cada ponto, é bom que a abramos com as mesmas palavras: Abraão, que se interpreta "pai de muitas nações", tendo dois filhos, isto é, dois povos, significa Deus tendo dois filhos, o gentio e o judeu; não, contudo, que cada um deles seja filho de Deus, a não ser os que em um e outro povo forem achados dignos. *Abraão teve dois filhos, um da escrava*, isto é, Ismael de Agar, *e um da livre*, isto é, Isaac de Sara. O filho da escrava significa o povo judaico, filho da escrava, isto é, da lei; os quais se dizem bem filhos da escrava, que como servos serviam por temor da pena e amor das coisas carnais em coisas carnais: o filho da livre, porém, significa o povo fiel, que na liberdade da fé serve a Deus por amor, não por temor, nem por causa dos temporais, mas dos eternos. E, embora ambos fossem filhos de Abraão, nasceram, contudo, de modo diverso; *o da escrava*, a saber, Ismael de Agar, *nasceu segundo a carne*, porque Agar era jovem e fecunda: igualmente o povo legal nasceu da escrava, isto é, da lei, segundo a carne, porque servia em coisas carnais e por amor das carnais; se pecasse, temia logo ser punido na carne. *O filho da livre*, porém, a saber, Isaac de Sara, nasceu não segundo a carne, Sara, com efeito, era velha e estéril, *mas pela promessa* de Deus; Deus, com efeito, como piedosamente prometera, faz nascer, por sua virtude, um filho de estéril e decrépita: igualmente o povo fiel, que foi da livre, isto é, nascido da fé que é livre, por amor, não como da escrava, por temor. Este povo nasceu pela promessa, porque Deus misericordiosamente prometera que faria a salvação pela fé: era por promessa, porque não serve a Deus por desejo das coisas carnais que vê, mas por amor das espirituais que ninguém viu, mas confia que terá só pela promessa de Deus.

Todas estas coisas, a saber, que Abraão teve dois filhos, este da escrava segundo a carne, este da livre pela promessa, *foram ditas por alegoria*, isto é, por outro entendimento que o literal deve aqui ter. Ele mesmo, contudo, não prossegue a alegoria de cada um, a não ser só da escrava e da livre. Na verdade foram ditas por alegoria; *estas*, com efeito, isto é, a escrava e a livre, *são*, isto é, significam *as duas alianças*, a antiga e a nova: *uma*, na verdade, aliança, isto é, a lei *que gera filhos para a escravidão*, porque serviam tanto por temor da pena quanto por coisas carnais; aquela uma, digo, *dada no monte Sinai*; ali, com efeito, a lei foi dada no deserto. Sinai interpreta-se "mandamento", e por monte tomamos a altura da soberba, para que digamos: gerando para a escravidão no monte Sinai, isto é, na soberba do mandamento; os judeus, com efeito, que sós tinham a lei, ensoberbeciam-se, dizendo-se povo de Deus, os outros não povo, mas cães. Uma aliança foi dada no monte Sinai, *que é Agar*, isto é, aquela aliança significa Agar (a relação é boa por "que", porque segue o próprio do gênero feminino): Agar interpreta-se "alienação", insinuando pelo próprio nome que a antiga aliança deve ser alienada e destruída. O mesmo significou o fato de que não na terra da promessa, mas no deserto foi dada, que nunca pelas obras desta lei viriam à verdadeira terra da promessa; pelo fato, com efeito, de, estando no cativeiro, receberem esta lei, significava-se que a lei dada no cativeiro os gerava para a servidão, nunca pelas obras da lei viriam à liberdade.

Na verdade para a servidão; *pois Sinai é um monte da Arábia.* O mesmo insinua o entendimento alegórico; Arábia, com efeito, interpreta-se "humildade" ou "aflição"; por isso dizemos assim: o monte Sinai está na Arábia, isto é, o mandamento e a soberba estão nos aflitos ou, o que é o mesmo, humilhados. Pelo fato de se ensoberbecerem do mandamento e de serem muitíssimas vezes afligidos pela lei como maus servos, aparece que aquela lei os gerava para a servidão. O monte Sinai está na Arábia; *monte que corresponde*, isto é, assemelhado, *à Jerusalém*, isto é, ao povo judaico que via a Deus; porque as outras nações naquele tempo ignoravam a Deus; Jerusalém, digo, *de agora*, isto é, que nas coisas presentes vê e cultua a Deus, não nas espirituais, e por isso não o verá no futuro — o monte corresponde, não que as suas raízes se estendam até Jerusalém, mas assemelhado aos judeus; porque pelo monte Sinai se significa a soberba deles, com que se ensoberbeceram do mandamento; pela Arábia se significa a aflição deles, com que, pecando pela lei, eram afligidos à maneira de servos —: *a Jerusalém de agora*, e que serve por temor da pena, não por amor; *serve, digo, com seus filhos*, isto é, com os prosélitos que da gentilidade passam à circuncisão; ou então, serve toda junta a Sinagoga com seus filhos próprios, este com um gênero de servidão, aquele com outro.

A Jerusalém de agora serve; mas *a Jerusalém de cima*, isto é, que não deseja as coisas carnais mas as espirituais, *esta é livre*, porque não serve por temor, mas por amor, nem procura temporais, mas eternas: esta é a Igreja da fé, que, Jerusalém superior, *é a nossa mãe*; a Igreja, com efeito, nos gerou para a liberdade da fé. Na verdade livre, porque se alegra, rompe em brados e clama; na verdade mãe, pois os seus filhos são muitos; o que diz assim: a nossa mãe é livre; *pois assim dela está escrito em Isaías* (cap. 54,1): *Alegra-te, tu, Sara estéril, que agora não dás à luz; rompe em brados e clama, tu que não sentes dores de parto*, isto é, que nem trabalhas em parir; por isso alegra-te, porque *mais numerosos são os filhos da abandonada Sara do que os de Agar, que agora tem marido.* Tinha Agar a Abraão pela coabitação, não, contudo, pelo amor; faltava a Sara a coabitação de Abraão, a quem, contudo, tinha pelo amor, porque a cultuava e amava como esposa legítima. Isaías, que veio longos séculos depois de Abraão, em vão falaria assim de Sara e Agar à letra; por isso assim se deve entender: na verdade é livre, pois assim diz Isaías: ó tu, Igreja estéril; porque algumas estéreis, que depois parem pela graça, como a mesma Sara e Isabel, por isso acrescenta: tu estéril, *que não dás à luz*, alegra-te no ânimo; *rompe* também em gozo exterior; *e clama*, isto é, convida os outros a alegrar-se contigo; tu, digo, que não só não pares, mas nem *sentes dores de parto*, isto é, carente de esperança no tempo da lei, não te esforças por parir. Provou que é livre; prova também que é mãe; a letra responde, contudo, ao próximo: por isso alegra-te, etc., porque os filhos da abandonada, isto é, da Igreja, que no tempo da lei foi abandonada por Deus quanto à coabitação, não quanto ao amor — no tempo da lei, também, Deus amou mais a liberdade da fé do que a servidão da lei —; os filhos, digo, da abandonada são mais numerosos que os filhos daquela lei *que agora tem marido*; então, com efeito, a lei gerava muitos; mas os que eram fiéis, como Moisés e os Profetas, vendo a dureza deles, nem sequer pensavam em instruí-los nas coisas espirituais, a quem viam cada dia transgredir nos mandamentos carnais: a lei tinha então marido, isto é, Deus pela coabitação, não, contudo, pelo amor. Há duas mães, uma livre, outra escrava; *mas nós, irmãos*, eu e quantos fiéis, *somos filhos, não da servidão, mas da promessa*, isto é, pela graça prometida de Deus, *à maneira*, isto é, à semelhança *de Isaac*, que nasceu não pela lei da carne, mas pela virtude da promessa divina. Mostra que nascemos à semelhança de Isaac, porque os mesmos sinais, cuja figura precedeu nele, veem-se hoje nos filhos da Igreja; e, contudo, a conjunção da letra se opõe deste modo: embora sejamos filhos da promessa, *como então*, no tempo de Abraão, *o que nasceu segundo a carne*, isto é, Ismael, *perseguia o que nasceu segundo o espírito*, a saber, Isaac — Ismael, com efeito, mais velho, batia em Isaac ainda tenro, a quem via que seria senhor e herdeiro seu —: *assim também agora* se faz, que os carnais perseguem e afligem os espirituais.

E porque, como Isaac era afligido por Ismael, assim nós, espirituais, somos afligidos pelos carnais, *portanto, irmãos*, por isso aparece que *não somos filhos da escrava*; fomos, sim, servos outrora sob a lei, mas já somos filhos da livre, isto é, da graça. Mas intercala algumas coisas dizendo: os que são segundo a carne nos perseguem, mas não se deve fazer caso; eles, com efeito, serão expulsos, e nós entraremos na herança; o que diz assim: *que diz a Escritura?* No mesmo Moisés se encontra que, tendo Sara visto Agar e seu filho se ensoberbecendo contra ela e Isaac, disse a Abraão: «Expulsa a escrava e o seu filho» (Gn 21,10); igualmente os filhos da graça dizem: Senhor, expulsa a escrava, isto é, a lei, e o seu filho, isto é, o povo judaico; *não será herdeiro o filho da escrava*, isto é, da lei, na prometida bem-aventurança *com o filho da livre*, isto é, da fé; assim como o filho de Agar, a escrava, não foi herdeiro com o filho de Sara, a livre. *Portanto, irmãos, já não somos filhos da escrava* (como foi exposto), *mas da livre; com a liberdade*, isto é, por esta liberdade que temos, Cristo, tendo a mesma, *nos libertou* por ela; embora, com efeito, Cristo tenha estado sob a lei, a lei, contudo, não dominou a quem não teve pecado, mas por só liberdade fez tudo o que fez.

## Notas

1. "Elemento" diz-se ou como "elevamento", porque por ele alguém se eleva à ciência; ou como "elimento", de *elimo, elimas* ("limar"); ou como *hylementum*, pois *hyle* é matéria.
2. Como o Filho de Deus estava em toda parte, todo e presente, enviar não foi outra coisa senão que aquele que era invisível, na forma de servo se mostrou visível.

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# Capítulo 5

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> Permanecei firmes e não torneis a submeter-vos ao jugo da servidão. Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos circuncidardes, Cristo de nada vos servirá. Testifico, de novo, a todo homem que se circuncida que ele é devedor de cumprir toda a lei. Estais separados de Cristo, vós que vos justificais pela lei; decaístes da graça. Pois nós, pelo Espírito, pela fé, aguardamos a esperança da justiça. Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a fé que opera pela caridade. Corríeis bem; quem vos impediu de obedecer à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chamou. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Eu confio em vós, no Senhor, de que não pensareis de outro modo; mas quem vos perturba, quem quer que seja, sofrerá o julgamento. Quanto a mim, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que ainda sofro perseguição? Então fica anulado o escândalo da Cruz. Oxalá se mutilem os que vos perturbam! Pois vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; apenas não deis a liberdade como pretexto à carne, mas pela caridade do Espírito servi-vos uns aos outros. Pois toda a lei se cumpre numa só palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais consumidos uns pelos outros. Digo, porém: Andai no Espírito, e não satisfareis os desejos da carne. Pois a carne deseja contra o espírito, e o espírito contra a carne; porque estes se opõem um ao outro, de modo que não façais tudo o que quereis. Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, dissolução, luxúria, idolatria, feitiçarias, inimizades, contendas, rivalidades, iras, rixas, dissensões, seitas, invejas, homicídios, embriaguezes, orgias e coisas semelhantes a estas; as quais vos previno, como já vos preveni, de que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus. O fruto do Espírito, porém, é caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência, castidade. Contra tais coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a sua carne com os vícios e as concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito. Não nos tornemos cobiçosos de vã glória, provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.

## Comentário

E porque somos filhos da livre e por Cristo apreendemos a liberdade, como se colige claramente da mesma lei, é insânia que quem é livre pela fé se faça servo pela lei. E por isso, porque sois livres, *permanecei firmes*, isto é, perseverai nesta liberdade da fé, *e não torneis a submeter-vos ao jugo da servidão*, isto é, a ser de novo triturados pelo fardo da lei: e digo bem "de novo"; porque, se vós, fiéis, vos circuncidais agora, é o mesmo que voltar aos ídolos a quem antes servíeis.

Dir-me-iam: não queremos aceitar toda a lei, senão apenas a circuncisão, que teve Abraão, que foi sem lei. Contra isto Paulo: *não vos submeteis ao jugo da lei, porque Cristo*, isto é, a fé de Cristo, *de nada vos servirá, se vos circuncidardes*; e *eis que eu, Paulo*, cuja autoridade é divulgada por toda parte, isto digo e vos afirmo: que, se vos circuncidardes, a fé de Cristo não vos aproveitará. Não só porque Cristo não vos aproveitará, mas também por causa do fardo insuportável da lei, não deveis circuncidar-vos; o que diz assim: *testifico, de novo*, isto é, ou como outrora, quando estava na lei, testificava, ou então, de novo, isto é, outra vez aduzo isto para o mesmo desaconselhar o que pelas premissas desaconselhava; testifico *a todo homem que se circuncida que ele é devedor de cumprir toda a lei*; a circuncisão, com efeito, exige que sigam as demais obras da lei, como a fé exige depois do batismo que sigam as obras da fé; e não julgueis que podeis circuncidar-vos sem carregar o fardo da lei por inteiro. Na verdade Cristo de nada vos servirá; *pois se vos circuncidardes, estais separados de Cristo*, isto é, tornou-se vã para vós a fé de Cristo. Dir-me-iam: preferimos separar-nos de Cristo a não nos circuncidarmos, como Deus mandou. A isto Paulo: não só de Cristo, mas *decaístes também da graça de Deus*, vós *que vos justificais pela lei*, isto é, buscais a justificação pela lei. Aqui determina bem como proíbe a circuncisão, a saber, para que por ela não busquem a justificação; embora tenha, contudo, deixado que Timóteo fosse circuncidado, para tirar de si a suspeita, ambos, contudo, Paulo e Timóteo, entendendo que a circuncisão nada confere à justiça. Na verdade ninguém é justificado na lei; *pois nós, só os que somos da fé, aguardamos a esperança da justiça*, isto é, a bem-aventurança que se espera da justiça; e que a nossa expectativa seja certa consta disto: que aguardamos *pelo Espírito*, que nos insinua assim esperar. Por isso só pela fé temos esperança; *pois em Cristo Jesus*, isto é, na fé de Cristo Jesus, *nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas só a fé*, que, contudo, não seja ociosa, mas *opere*, e não contumeliosamente, mas *pela caridade* de Deus e do próximo.

Só a fé vale em Cristo, e nesta fé *corríeis bem*, isto é, por amor, isto é, operáveis; mas *quem vos impediu*, persuadindo mal, *de obedecer à verdade* que de mim aprendestes? Para que obedeçais à verdade, não consintais a algum dos carnais; porque *esta persuasão* deles *não vem daquele*, isto é, segundo Deus, *que vos chamou* por sua graça ao reino. Por isso não consintais, porque *um pouco de fermento*, isto é, ou ao menos o consentimento, ou só a persuasão, ou aqueles poucos que mal persuadem; este pouco, digo, *leveda toda a massa* e a faz azeda, isto é, ou toda a Igreja ou todos os bens deles. Um pouco de fermento, na verdade, leveda toda a massa; mas vós não sereis corrompidos; *eu, com efeito, confio em vós*, e isto *no Senhor*, isto é, pela graça de Deus que coopera convosco, *de que não pensareis de outro modo* senão o que é são e eu vos ensinei. Vós não pensareis de outro modo; *mas aquele que vos perturba*, isto é, que torna turva a pureza da vossa fé com a mistura da infidelidade, *esse sofrerá o julgamento*, isto é, suportará a condenação, *quem quer que seja*, isto é, ainda que seja Pedro ou um Anjo do céu.

Agora responde ao que os falsos apóstolos imputavam, a saber, que antes destruía a circuncisão; mas agora, corrigido em Jerusalém por Pedro e pelos outros, pregava a circuncisão; o que comprova ser falso, dizendo: aqueles vos perturbam, mas eu não vos perturbo; *se, porém, irmãos, como aqueles imputam, ainda prego a circuncisão* — "ainda" porque, quando era judeu, a pregava —; se, digo, assim prego ainda, como desde o princípio da pregação, *por que ainda sofro perseguição* dos judeus? Pois, se (como imputam) prego a circuncisão, *então fica anulado o escândalo da Cruz*; os judeus, com efeito, escandalizavam-se de que eu pregasse que o homem se justifica pela só Cruz: se à Cruz misturasse a circuncisão e dissesse que de ambas se justifica, os judeus estariam aplacados comigo.

Eu não vos perturbo, mas aqueles vos perturbam; *e oxalá não só a pelezinha do prepúcio, mas se mutilem inteiramente os que vos perturbam.* Paulo não entende a amputação de membros, mas, como os testículos amputados não geram, assim sejam estes amputados, para que não possam gerar ninguém no seu erro. Perturbam-vos certamente, quando querem reduzir-vos à servidão da lei; *pois vós, irmãos, fostes chamados à liberdade* de Deus. *Apenas vede que não deis a vossa liberdade como pretexto à carne*, isto é, que não julgueis, por causa da liberdade, poder pecar mais licenciosamente. Não façais isto, mas *servi-vos uns aos outros pela caridade do espírito*, isto é, agindo por espiritual amor.

Tomada a ocasião, quer mostrar-lhes a facilidade da lei nova, que se cumpre numa só palavra, e por esta ocasião os repreende da detração, dizendo: servi-vos uns aos outros pela caridade; *pois toda a lei se cumpre numa só palavra*, nesta a saber: *Amarás o teu próximo como a ti mesmo*, como expusemos na Epístola aos Romanos (cap. 11). A lei preceitua o amor; *se, desprezando a lei, vos mordeis uns aos outros*, detraindo um do outro; e não só mordeis, mas *também devorais*, isto é, devorais inteiramente por inveja os bens do próximo; *vede que não sejais consumidos*, isto é, que não sejais devorados uns pelos outros, isto é, tu, porque detrais do próximo; aquele, porque detrai de ti.

Depois de provar bastante que a lei não deve ser mantida, começa agora a aprovar a fé e a graça. A letra liga-se assim: vede que não sejais consumidos segundo a persuasão da carne, mordendo-vos e devorando-vos mutuamente; mas *digo-vos: andai no Espírito*, isto é, completai obrando bem segundo o que vos exorta o espírito, isto é, a razão; andai, digo, no Espírito, e isto em Cristo, isto é, que só é lícito fazer por Cristo, e não outra coisa, para que se opere segundo a razão. Se estais em Cristo, andareis segundo o espírito: também daí provém outro bem, que *não satisfareis os desejos da carne*, ainda que sintais a impugnação, não os completareis em ato. Mas, embora não completeis, a carne deseja, contudo, contra o espírito; e assim sentis a impugnação. Ou digamos de novo: digo bem "os desejos da carne"; *pois a carne deseja contra o espírito, e o espírito*, isto é, a razão, *deseja* o que é contra a carne. Na verdade a carne e o espírito desejam um contra o outro; *estes*, com efeito, isto é, a carne e o espírito, *se opõem um ao outro*, não a carne à carne, nem o espírito ao espírito, mas mutuamente, isto é, a carne ao espírito, o espírito à carne; opõem-se de tal modo que *não façais tudo o que quereis*, quer carnais, quer espirituais: ninguém, com efeito, é tão justo que não caia por sua vez; ninguém tão mau que não se abstenha às vezes de algo que a carne persuade.

Disse que, se vivemos, podemos andar no Espírito; que, se seguimos o espírito, não satisfazemos os desejos da carne, porque a carne luta contra o espírito; dessa luta da carne e do espírito quer agora julgar, dizendo: a carne luta contra o espírito, o espírito luta contra a carne; *se, porém, sois conduzidos pelo Espírito*, isto é, pela razão, *já não estais sob a lei*; a lei, com efeito, foi posta para coibir os pecadores, mas, se agis segundo o espírito, já não pecais; e quem não peca, é livre da lei.

Quem é conduzido pelo espírito não está sob a lei, quem, porém, pela carne, este é cativo sob a lei; o que diz equivalentemente: as obras do espírito a ninguém reduzem sob a lei; mas as obras da carne são manifestas, não é preciso censurá-las; a torpeza delas, com efeito, a todos é conhecida e cativeiro — por isso não se preocupa em detestar as obras da carne, porque só os nomes delas bastante assinalam a fealdade —; obras da carne, digo, que são estas, a saber, *fornicação, impureza, dissolução, luxúria.* Chama fornicação ser poluído com meretrizes ou casadas; impureza, a torpeza que se faz contra a natureza, e também em beijos incestuosos e em manejo poluído; dissolução chama, ainda que não seja fornicador ou impuro, ser quem não se tempera pudicamente em palavras, hábito e movimento dos membros; luxúria chama o excesso da carne, seja na gula, seja no coito; luxúria que pode haver até na esposa, se dela se usa em excesso.

Obras da carne são também *idolatria, feitiçarias, inimizades*, isto é, ódios longos, *contendas* em palavras, *rivalidades*, porque quem inveja se esforça por usurpar para si o bem de outro; são também *iras*, isto é, comoções súbitas do ânimo; e da ira *rixas*, quando a coisa se faz a socos; são ainda *dissensões*, que muitas vezes se fazem na Igreja; são também *seitas*, pelo que no grego se tem *haireseis*; são também *invejas*, isto é, mau livor do ânimo, que, embora saiba que não conseguirá a coisa do próximo, inveja-o, contudo, e não quereria que a tivesse; de novo *homicídios, embriaguezes*, isto é, bebidas habituais além da medida, *orgias e coisas semelhantes a estas*, que agora vos previno, *como já preveni* quando primeiro vos preguei, para que vos guardeis delas: *porque os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus*, se neste ato forem apanhados.

Estas ditas são obras da carne; mas as obras do Espírito são estas; e não diz "obras", mas, para recomendação, diz *fruto do Espírito*; destas obras, com efeito, convém e aproveita fruir: fruto, digo, do Espírito é *caridade*, isto é, amor de Deus e do próximo; desta caridade segue *alegria e paz*: alegria chama a consciência serena, paz a concórdia com todos pelo amor. É também fruto do Espírito *a longanimidade*, isto é, a esperança; se tarda, com efeito, a retribuição, nem por isso espera menos ou aguarda impacientemente. E é obra do Espírito *a paciência*, com que toleramos quaisquer adversidades, *e a bondade*, isto é, o piedoso afeto do ânimo, ainda que não tenha o que dar, *a benignidade*, isto é, a largueza de comunicar o que tem, *a mansidão*, porque é tratável e afável a todos, *e a fé* que retamente crê em Deus; *a modéstia*, isto é, a temperança de palavras e atos, *a continência*, com que até das coisas lícitas alguém se contém, *a castidade*, porque casto usa das coisas lícitas, como o marido da esposa: estas são as obras do Espírito, e *contra tais coisas não há lei*; como acima dissemos, não estais sob a lei. Estas são as obras da carne; estas são as obras do Espírito; *os que são de Cristo*, porém, fazem as obras do Espírito; o que diz assim: *crucificaram a sua carne*, os que são de Cristo, porque nenhum sentido, enquanto em Cristo estão, pode inclinar-se aos vícios; aqueles, digo, combatendo *com os vícios e as concupiscências*: toma vícios no ato, concupiscências na vontade. Não só crucifiquemos a carne, para não operar o mal; mas *andemos também pelo Espírito*, isto é, progridamos obrando bem segundo o que a razão admoesta. É justo que andemos pelo espírito, *porque vivemos pelo Espírito*; e se, justificados, vivemos pelo Espírito, segue-se que andemos também pelo espírito. O homem vive pela justificação da fé, anda quando opera o que a fé exige; e se vivemos e andamos, nesta caminhada *não nos tornemos cobiçosos de vã*, isto é, mundana *glória*: não é pecado se, obrando bem, somos louvados, mas se cobiçamos ser louvados. Não sejamos cobiçosos de vã glória; nós, digo, que isto cobiçamos, *provocando-nos uns aos outros*, porque a soberba, que não tolera igual, se não for preferida a todos, indigna-se, provocando à lide; e se não ousamos provocar abertamente, ao menos no ânimo *invejando-nos uns aos outros*, isto é, um ao outro.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós que sois espirituais instruí tal pessoa com espírito de mansidão, considerando-te a ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. Pois, se alguém se julga ser alguma coisa, sendo nada, a si mesmo se engana. Cada um examine a sua própria obra, e então terá glória só em si mesmo, e não no outro. Porque cada um levará o seu próprio fardo. Aquele que é instruído na palavra faça participar de todos os seus bens o que o instrui. Não vos enganeis; de Deus não se zomba. Pois aquilo que o homem semear, isso também colherá. Porque quem semeia na sua carne, da carne colherá corrupção; quem semeia no espírito, do espírito colherá a vida eterna. Não nos cansemos de fazer o bem; pois a seu tempo colheremos, se não desfalecermos. Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas sobretudo aos domésticos da fé. Vede com que letras grandes vos escrevi de minha própria mão. Todos os que querem agradar na carne, esses vos constrangem a circuncidar-vos, apenas para não sofrerem a perseguição da Cruz de Cristo. Pois nem os que se circuncidam guardam a lei; mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne. Quanto a mim, longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo. Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a nova criatura. E a todos os que seguirem esta regra, paz e misericórdia sobre eles, e sobre o Israel de Deus. Quanto ao mais, ninguém me moleste; pois eu trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito, irmãos. Amém.

## Comentário

Depois de ter corrigido e instruído toda a Igreja em comum, agora admoesta separadamente os prelados a instruir com mansidão os súditos que pecam; e, ao contrário, admoesta os súditos a ouvir os prelados com ânimo sereno em toda obediência, dizendo: porque viveis pelo Espírito, andai pelo espírito; *vós*, porém, *que sois espirituais*, isto é, os prelados; todo perfeito, com efeito, ainda que careça de ofício, é, contudo, prelado do imperfeito; vós, digo, espirituais, *se alguém for surpreendido em alguma falta*; e não é de admirar se peca, porque homem — diz "surpreendido" não que tenha pecado de indústria, mas porque não soube providenciar para si —; vós, digo, prelados, *instruí tal pessoa com espírito*, não de furor, mas *de mansidão.* Agora do plural passa ao singular, falando igualmente a qualquer prelado: com mansidão corrige o que delinque, tu, quem quer que sejas, prelado, *considerando-te a ti mesmo, para que não sejas também tentado* igualmente; Deus, com efeito, muitas vezes dispõe piedosamente que quem, indignando-se, abomina a queda do próximo, seja precipitado no mesmo ou em pior. E não só instruí o que delinque, mas também *levai os fardos uns dos outros*, o prelado o fardo do súdito; levai, digo, compadecendo-se, orando e jejuando, para que lhe seja dada remissão; e assim, suportando-vos mutuamente, *cumprireis a lei de Cristo*; Cristo, com efeito, sem conhecer pecado, ao levar os nossos pecados na Cruz, trouxe em si esta lei, para que um assim levasse o pecado do próximo.

Considera-te a ti mesmo, para que não sejas tentado igualmente; *pois se alguém, agindo inconsideradamente, se julga ser alguma coisa, sendo por si nada*, ainda que a graça nele seja alguma coisa, ele mesmo, assim opinando, *a si mesmo se engana*, isto é, é sedutor de si mesmo. Não vos deixeis seduzir, mas *cada um examine*, isto é, veja se é provável a sua obra, e assim aprovado *terá glória só em si mesmo*, isto é, junto de si na consciência, *e não no outro*, isto é, não na consideração e desprezo do outro. Em si deve gloriar-se, não no outro; *pois cada um*, justo ou pecador, *levará* naquele dia *o seu próprio fardo*, isto é, o seu feixe, que as suas obras merecem colher, seja bom, seja mau. Ou assim, de modo que o discurso seja só do pecador: tu, para ser justo, não te glories no desprezo do pecador; pois cada pecador levará o seu fardo, isto é, o peso do seu pecado.

Admoestados os prelados sobre como devem mostrar-se aos súditos, admoesta os súditos a obedecer reverentemente aos prelados, dizendo: o prelado instrua com mansidão o súdito; *aquele, porém, que é instruído*, isto é, que é instruído, não por exemplo de boa obra, mas ao menos por palavra; este, digo, *faça participar e obedeça em todos os bens* que faz e exorta; ao que, digo, *o instrui*, isto é, ao que o ensina. Digo: participai com os que vos instruem; *e não vos enganeis*, isto é, não vos escuseis dizendo que não se deve obedecer aos que ensinam bem com a palavra e não agem assim; por isso não vos enganeis assim, *porque de Deus não se zomba*, isto é, não será enganado por ocasião velada; porque, se fosse enganado, seria irrisível. Na verdade não se zomba; *porque aquilo que o homem semear, isso certamente colherá.* E na verdade colherá o semeado; *porque quem semeia na sua carne*, isto é, quem opera os desejos corruptíveis da carne, este certamente *da carne colherá corrupção*, porque semeou corrupção: quem, porém, *semeia no espírito*, isto é, segundo a razão, este *do espírito colherá* as coisas espirituais, a saber, *a vida eterna.*

Depois de ter instruído separadamente os prelados, depois os súditos, de novo admoesta toda a Igreja em conjunto, dizendo: vós, prelados, instruí com mansidão os súditos; vós, súditos, em todo bem participai com os que vos instruem; todos, porém, tanto prelados quanto súditos, igualmente *fazendo o bem, não nos cansemos* de obrar bem. Nem devemos desfalecer no operar, porque *colheremos* a recompensa da obra *a seu tempo*, isto é, oportuno, *se não desfalecermos* no colher. E porque colheremos não desfalecendo, *portanto, enquanto temos tempo* de operar, isto é, neste mundo, *façamos o bem a todos, mas sobretudo aos domésticos da fé*; primeiro, com efeito, devemos ministrar o necessário aos fiéis, depois, se sobra, também aos infiéis.

A partir deste lugar o Apóstolo escreveu a Epístola de próprio punho, para que os gálatas não duvidassem de que esta Epístola é de Paulo, porque ela destruía aqui a circuncisão, do que aqueles falsos apóstolos haviam dito aos gálatas que Paulo agora ensinava a circuncisão; por isso diz: para que creiais que estes preceitos são meus, *vede com que letras grandes vos escrevi de minha própria mão* daqui em diante, para que pelo conhecimento da minha escritura estejais certos de que esta Epístola é minha. E aos que escrevi deveis obedecer, não àqueles; *todos os que querem agradar* àqueles judeus *na carne*, isto é, em persuasões carnais, esses *vos constrangem a circuncidar-vos*; constrangem certamente, porque com palavra importuna vos compelem ao que com razões não sabem comprovar; constrangem-vos a circuncidar-vos, pretendendo apenas *não sofrer dos judeus a perseguição da Cruz de Cristo* que pregam: os judeus, com efeito, bem concediam que a Cruz de Cristo fosse pregada com a circuncisão. Na verdade apenas para não sofrerem, porque por amor da lei nada fazem; o que diz assim: estes falsos apóstolos *que se circuncidam não guardam a lei*, mas por isto só querem que vos circuncideis: *para se gloriarem na vossa carne* circuncidada diante dos outros; dizem-lhes, com efeito: vede quanto incremento tem por nós a vossa lei.

Aqueles gloriam-se na carne; *quanto a mim, porém, longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo*; eu, com efeito, nem procuro nem prego glória senão da Cruz; *pela qual Cruz* — a cruz, segundo Prisciano, é de gênero duvidoso, e segundo Haimon, no grego é masculino, e por isso o tradutor não quis mudar a relação —; pela qual Cruz, ou pelo qual Cristo crucificado, o que vale o mesmo, *o mundo está crucificado para mim*, de modo que nada mais dos seus deleites o mundo me ofereça. *E eu para o mundo*; se o mundo me oferece algo, assim a Cruz de Cristo me firmou e me prendeu de modo que não possa declinar dela. Por isso só na Cruz me glorio, porque *em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas só a nova criatura*, isto é, a fé que renova a mente e também a carne, que faz livre dos pecados. Não acrescentou "incircuncisão" porque julgasse que ela vale algo para a fé, mas para mostrar que a circuncisão não confere mais em Cristo que a incircuncisão. Eu só me glorio na Cruz; e *todos os que seguirem esta regra* da Cruz, de se gloriarem só nela, *paz sobre eles*, gálatas que não pecaram, *e misericórdia*, isto é, segunda remissão aos que caíram; e não só sobre eles, mas também *sobre o Israel de Deus* todo, não o que for da carne, mas de Deus. Só em Cristo buscai a glória; *quanto ao mais*, isto é, da circuncisão, que excluo, *ninguém me moleste*; ou assim: no passado me molestastes, mas quanto ao mais, isto é, de agora em diante, vede que ninguém me moleste. Nem deveis molestar-me; *eu, com efeito, trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus Cristo.* Marca (*stigma*) diz-se o sinal que se faz com ferro quente: Paulo, aqui, suportando correntes e demais tormentos por Cristo, trazia no corpo as marcas, isto é, os sinais de que era soldado de Cristo. *A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito, irmãos. Amém.*

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# Epístola aos Efésios



# Prólogo

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

Éfeso é uma cidade da Ásia. Não esta Ásia que divide o orbe, mas uma província da Grécia, que tem sete cidades, das quais Éfeso é a metrópole, às quais João, relegado na ilha de Patmos, escreveu o Apocalipse. Estes efésios, ouvida a palavra da fé por Paulo, creram e operaram louvavelmente as obras da fé. A eles o Apóstolo, quando estava em Roma, no cárcere, escreveu esta Epístola, provendo solicitamente para que não se ensoberbecessem porque tinham perseverado bem na fé e atribuíssem isso à própria virtude, quando, como a misericórdia de Deus havia começado neles, assim piedosamente a consumava. Nesta Epístola, porém, tem por matéria os benefícios de Deus; dos quais trata deste modo: mostrando que eles não vêm do mérito do homem, mas do beneplácito de Deus, mostra também que os benefícios de Deus são tais que ninguém sobe neles a tanta perfeição que não lhe reste ainda onde possa subir; assim como o homem, com efeito, sempre tem onde recair, sempre tem também onde crescer. Trata aqui também de como os pais devem presidir aos filhos, os filhos sujeitar-se aos pais; igualmente dos senhores e servos, das esposas e maridos, com quanta aliança devem servir-se mutuamente segundo o modo da condição e do sexo. Dos benefícios de Deus trata assim para que os efésios não tenham ocasião de ensoberbecer-se do bem que fazem, ao ouvir que nada têm de si, mas tudo têm da misericórdia de Deus; de novo, para que não se entorpeçam em obrar bem, ao ouvir que podem achar onde crescer no obséquio de Deus. A estes efésios Paulo, ao despedir-se deles, convocou juntos, dizendo-lhes: Eis que vos transmiti a fé sã, vede que não a torneis vã; eu, doravante, sou livre, mas, se obrardes mal, Deus vo-lo exigirá (At 20,27). Por estas palavras e semelhantes foram mais solícitos em prover-se.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, a todos os santos que estão em Éfeso, e aos fiéis em Cristo Jesus. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda bênção espiritual nos céus, em Cristo, como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele na caridade. Ele nos predestinou para a adoção de filhos por Jesus Cristo, para si, segundo o beneplácito da sua vontade, para louvor da glória da sua graça, com a qual nos agraciou no seu amado Filho, no qual temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça, que superabundou em nós, em toda sabedoria e prudência; para nos dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que nele propôs, para a dispensação da plenitude dos tempos, de restaurar todas as coisas em Cristo, as que estão nos céus e as que estão na terra; nele em quem também fomos chamados à herança, predestinados segundo o propósito daquele que opera todas as coisas segundo o conselho da sua vontade; para que sejamos para louvor da sua glória, nós que antes esperamos em Cristo; no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade (o Evangelho da vossa salvação), e nele tendo crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, que é penhor da nossa herança, para a redenção do povo adquirido, para louvor da sua glória. Por isso também eu, ouvindo falar da vossa fé no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos, não cesso de dar graças por vós, fazendo memória de vós em minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento dele; iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, e qual a sobre-excelente grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que ele operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à sua direita nos céus, acima de todo Principado, Potestade, Virtude e Dominação, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no futuro.
>
> E tudo submeteu debaixo de seus pés; e deu-o por Cabeça sobre toda a Igreja, que é o seu corpo e a plenitude daquele que tudo em todos plenifica.

## Comentário

*Paulo, apóstolo de Cristo Jesus*, a quem Cristo Jesus consagrou Apóstolo dos gentios, donde aparece que é Apóstolo para vós; Paulo, digo, Apóstolo de Cristo, não por mérito seu, mas pela só vontade e beneplácito de Deus (assim também vós, que sois bons, não referis ao vosso mérito, mas à graça de Deus); Paulo, digo, Apóstolo pela vontade de Deus, escreve *a todos os santos*, isto é, aos mais perfeitos, que foram santificados nas virtudes; escreve também *aos fiéis*, isto é, aos menos perfeitos, que, contudo, conservaram bem a integridade da fé; aos fiéis, digo, *em Cristo Jesus*, isto é, que guardam a fé de Cristo Jesus; aos santos, digo, e fiéis *que estão em Éfeso*, deseja isto Paulo: *graça* perseverante *a vós* que não pecastes; aos que ao menos nos veniais caíram, seja a graça da segunda remissão; seja também a vós *paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo*, como muitas vezes foi exposto.

Para mostrar que todo benefício vem da misericórdia de Deus, nos primeiros benefícios dá graças a Deus, dizendo: *Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo*, o qual, se é Pai de Cristo, e nós, pela fé, filhos de Cristo, assim por Cristo o Pai é nosso. A nossa bênção em Deus nada outra é que louvar e magnificar a sua glória; a bênção de Deus em nós, porém, é a nossa exaltação e o progresso da nossa salvação. Aqui prossegue agora as duas eleições de Deus em nós: a primeira, pela qual desde a eternidade nos elegeu para sermos tais; a outra, no tempo, quando nos infundiu misericordiosamente o Espírito cooperando conosco: e acrescenta as consumações de uma e outra eleição; pondo primeiro a que no tempo se faz por último, na qual havemos de recuperar a imortalidade e a impassibilidade. Esta, porém, porque é mais digna, antepõe àquela que se completa quando a alma, pela misericórdia de Deus, é libertada do fardo dos pecados, dizendo: bendito seja Deus, *que nos abençoou*, isto é, exaltou. Por isso designou pelo pretérito o que é futuro, para mostrar-se tão certo desta bênção futura como alguém é certo do que vê ter passado; por isso também assim diz, porque entendeu que os santos já segundo as almas reinam com Cristo. Deus nos abençoou *com toda bênção*; toda, porque suficiente; bênção, digo, *espiritual* — embora, com efeito, esta bênção se faça segundo o corpo, é, contudo, espiritual, porque, assim como o espírito do homem será sustentado só pela contemplação da glória de Deus, assim o corpo será saciado com o pasto da visão de Deus —; bênção, digo, já tida por alguns segundo as almas e a ser plenamente tida por todos os santos, não nesta terra, mas *nos céus*, para que também pela dignidade do lugar esta bênção seja mais recomendável; abençoou, digo, assim *em Cristo Jesus*, isto é, na operação de Cristo Jesus, no qual o Pai tudo opera.

Mostrada a consumação da outra eleição, acrescenta a eleição que se cumpre segundo a justificação da alma neste tempo, determinando que a consumação dita é da misericórdia de Deus pela eleição, de que acrescenta, dizendo: assim Deus nos abençoou por graça, como só por graça *nos escolheu antes da fundação do mundo*, onde é claro que não precedeu mérito do homem; escolheu-nos, digo, *nele*, em Cristo, no qual tudo fez, ou então, nele para permanecermos: para isto escolheu, *para sermos santos e imaculados*, santos pela posse dos bens, imaculados pela purificação dos males; para sermos tais *diante dele*, isto é, para que contemplássemos só a ele e em nada atendêssemos ao mundo; ou então, diante dele, isto é, para que fôssemos contemplados por ele: escolheu-nos, digo, *na caridade*, isto é, no só amor.

Dita a eleição que aqui se completa segundo a justiça da alma, acrescenta aquela eleição de cuja consumação já falou, dizendo: escolheu-nos para sermos santos; *que nos predestinou*, isto é, preordenou desde a eternidade, ou então preparou no tempo, *para a adoção de filhos* a termos — não quis dizer imortalidade, mas, para tudo referir à graça de Deus, para a adoção, isto é, para a incorrupção dos filhos concedida a nós só pela adoção de Deus —; adoção, digo, a ter *por Jesus Cristo*; nós, digo, a virmos *para ele*, para que, como ele, assim também nós fôssemos imortais e impassíveis: predestinou, digo, *segundo o beneplácito da sua vontade*, isto é, segundo a sua vontade proposta; proposta, isto é, assim preordenada desde a eternidade, ou então proposta, isto é, oferecida a todos os que hão de ser salvos, se a culpa deles não o impedir; predestinou, digo, só por vontade *para louvor da glória da sua graça*, isto é, para que seja louvada a sua graça, na qual graça é múltipla a glória; há, com efeito, algumas graças de Deus, como estas temporais que piedosamente ministra, nas quais não se deve gloriar; mas na incorrupção é múltipla a glória. E isto devíamos ter dito: porque primeiro começa comumente pelas bênçãos que se fazem publicamente a todos os justos; depois desce àquelas que se fazem aos Apóstolos; em terceiro lugar acrescenta as que Deus deu aos efésios.

Posta a dupla eleição e antecipada a consumação da mais digna, acrescenta a consumação da outra, dizendo: *com a qual graça nos agraciou*, isto é, nos fez gratos, *no seu amado Filho*, isto é, na fé do seu amado Filho, que, porque ama, também nos ama a nós, filhos do seu Filho; no qual Filho *temos a redenção*, e não por vil preço, mas *pelo sangue* [dele] do Filho derramado; no qual também temos *a remissão dos pecados* — todos têm a redenção, porque o preço suficiente para a redenção de todos, se quisessem, foi dado; mas só estes têm a remissão, que se mostraram dignos da redenção de Cristo —; temos a remissão *segundo as riquezas da sua graça*, isto é, segundo a sua graça rica nisto, porque tanto os originais quanto os atuais, quer poucos, quer muitos, a todos sem diferença perdoou.

Enumerados os benefícios que se fazem aos santos em público, desta comunidade desce aos Apóstolos, dizendo: *graça que superabundou em nós* Apóstolos, sobre, isto é, mais que nos outros: e foi digno; porque dos Apóstolos haviam de receber os outros; superabundou, digo, *em toda sabedoria e prudência.* Sabedoria diz-se do conhecimento das coisas divinas, prudência, como providência, com que Paulo sabia bem prover às suas Igrejas; toda, não porque soubessem tudo, mas porque tudo o que lhes era necessário, tanto das coisas divinas quanto das humanas, tinham à mão. Superabundou de tal modo que *nos deu a conhecer*, a nós Apóstolos, *o mistério*, isto é, o segredo *da sua vontade*, isto é, a ordem da redenção humana: mistério (*sacramentum*) diz-se como segredo, porque não a todos mas a poucos é lícito contemplá-lo. Dará a conhecer este mistério, a saber, restaurar *segundo o seu beneplácito*, não segundo mérito do homem, porque nenhum havia; beneplácito que *nele*, em Cristo, *propôs*, isto é, preordenou desde a eternidade, ou então, propôs, isto é, expôs publicamente Deus o seu beneplácito, se quiser; propôs, digo, *para a dispensação da plenitude dos tempos*, isto é, na plenitude dos tempos; o tempo da graça, com efeito, diz-se plenitude dos tempos, ou porque todas as coisas antes preditas e esperadas nele foram cumpridas por Cristo, ou plenitude, isto é, fim e consumação dos tempos que Deus constituíra preceder o tempo da graça: plenitude, digo, convenientemente dispensada; primeiro, com efeito, quis Deus que os homens experimentassem que pela liberdade do arbítrio e pela lei natural nada podiam; depois entregou a lei escrita, pela qual de novo se mostraram impotentes para escapar ao pecado; e depois que o homem se reconheceu por todos os lados impotente, então finalmente aplicou Deus oportunamente a graça, com cujo auxílio o homem pudesse o que por si não podia. *De restaurar todas as coisas em Cristo*, digo, isto é, por Cristo, as que estão *nos céus*, imperfeitas, e as que estão *na terra*, corrompidas pelo pecado; para isto, com efeito, Deus fez o homem e o redimiu, para reintegrar a diminuição dos Anjos, salvo o homem; por isso também Cristo tomou a carne para restaurar na justiça o homem corrompido nos pecados. Mas este restaurar entende-se de diversos modos; Cristo, com efeito, foi causa da restauração dos Anjos, não quanto a eles necessidade, os Anjos eram, com efeito, puros, embora diminuídos de alguns companheiros: Cristo, porém, causa e necessidade da restauração dos homens; causa para que por ele fosse reintegrada a queda dos Anjos; necessidade porque, se não fosse restaurado por Cristo, estava perdido pelo pecado. Restaurar, digo, *as que estão na terra*, de modo que nele permaneçam; se não permanecerem, com efeito, na fé dele, a restauração deles será nula. Ou de outro modo: restaurar em Cristo as que estão nos céus, isto é, os santos cujas almas já nos céus reinam com Cristo, e as que estão na terra nele, isto é, os justos, que, se ainda são retidos pela conversação na terra, já estão, contudo, nele pela pureza de vida.

Dir-me-iam os efésios: vós, Apóstolos, certamente fostes chamados a tão grande altura, à qual julgar que possamos chegar é insensato ao menos opinar. A isto Paulo: *nele* Cristo *também nós*, Apóstolos, *fomos chamados à herança*, não por nosso mérito, nem por dignidade de linhagem, mas *por sorte*, isto é, por eleição divina: diz-se sorte a eleição divina, como quando o juízo humano falha, os homens recorrem à eleição de Deus. Não só fomos chamados por graça, mas também *predestinados*, isto é, preparados *segundo o propósito daquele*, isto é, segundo o que a sua piedade propôs a nosso respeito; daquele, digo, *que, como estas coisas em nós, assim opera todas as coisas em cada um segundo o conselho da sua vontade*, isto é, segundo a sua vontade agindo com conselho e discrição. Ou assim: não só nos chama por graça, mas também opera em nós tudo o que se segue à vocação segundo o conselho da sua vontade, como foi dito. Por isso chamados e predestinados, *para que sejamos para louvor da sua glória*, isto é, para que com digno louvor glorifiquemos a Deus, que quer ser louvado por nós, não que o nosso louvor lhe confira algo, mas para que tenha causa de nos fazer bem; sejamos, digo, nós *que antes que vós esperamos em Cristo.* Só no tempo vos precedemos, mas, se quiserdes, na glória não precedemos, antes talvez vós nos precedereis, uma vez que os dons de Deus consistem só na eleição, não na linhagem ou na prioridade de tempo.

Agora dos Apóstolos desce aos benefícios de Deus conferidos aos próprios efésios, dizendo: *em Cristo, no qual também vós* fostes chamados como nós, e predestinados, não por vosso mérito, mas *tendo ouvido a palavra da verdade*, porque por só graça enviou a vós pregadores e interiormente vos inspirou a ouvir. E não só chamados, mas *nele também, tendo crido, fostes selados* para que apareçais da milícia de Cristo, *com o Espírito Santo*, Espírito, digo, *da promessa*, isto é, ou que Deus nos prometeu, ou Espírito que, já segundo a alma nos deificando, nos promete a imortalidade do corpo no futuro; Espírito que é *penhor*, isto é, arras e princípio *da nossa herança* a ter, a nós prometida na glória futura. Fostes selados *para a redenção*, isto é, para que apareçais dos que Cristo redimiu; redenção, digo, *do povo adquirido*; por esta, com efeito, nós adquirimos a Deus, e Deus nos adquiriu. Chamados e selados, etc., *para louvor da sua glória*, isto é, para que por vós seja louvada a sua glória. Agora determina a sua intenção, dizendo: porque, chamados, crestes, e fostes selados com o Espírito Santo, *por isso também eu* (e os santos que estão comigo) *dou graças por vós*; e dando graças *não cesso* — aqui bem insinua que não se deve entorpecer na segurança da sua justiça, mas a toda hora trabalhar pelo incremento da perfeição —; eu, digo, não cesso, *ouvindo falar da vossa fé que está em Cristo Jesus*: isto diz respeito aos menos perfeitos, de que no princípio disse "aos fiéis em Cristo Jesus"; *ouvindo também do vosso amor* tido *para com todos os santos*: isto diz respeito aos mais perfeitos, de que ali mesmo disse "a todos os santos". Não cesso de dar graças por vós, *fazendo memória de vós em minhas orações* pelos bens a ter; como se dissesse: assim como entendo que os bens já recebidos vêm da graça de Deus, assim sinto de tudo o que haveis de ter. Faço memória de vós, *para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo*, de quem segundo a natureza humana Deus é, *o Pai da glória*, dele; Cristo, com efeito, segundo a Deidade, que nele é glória, é Filho de Deus; para que Deus e Pai *vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação*, para que, revelado, possais entender os mistérios de Deus; sabedoria, digo, e revelação tidas *no conhecimento dele*, para que conheçais a Deus e os seus mistérios. Dê-vos também *iluminados os olhos*, não digo do corpo, mas *do vosso coração.* Toca aqui o insensato erro de alguns, sobretudo gentios, que na fé primitiva, porque tinham costume de manejar com a mão os ídolos que possuíam, julgavam com mente cega que Deus era coisa tal que pudesse ser vista com os olhos da carne e apalpada com as mãos. Dê-vos iluminados os olhos, *para que saibais qual*, isto é, quão digna coisa e quão valiosa *é a esperança*; não só a coisa esperada, mas só o esperar é bem-aventurado; *qual é a esperança da sua vocação*, isto é, da coisa a que chamamos, ou então, dos chamados, isto é, eleitos dele; *e quais as riquezas da glória da sua herança*, isto é, quão digna é a sua herança, na qual há riquezas, isto é, nenhuma penúria, mas toda a cópia; na qual também há glória, isto é, gozo permanente sem mistura de dor; herança, digo, a distribuir *nos santos* quaisquer; *e para que saibais qual é a grandeza do poder*, isto é, o seu poder grande e incompreensível. E, sendo esta grandeza futura em todos os santos, será, contudo, *sobre-excelente para conosco* Apóstolos, que antes que os outros cremos; e que Deus opere em nós este poder, prova-o por isto: porque já o operou em Cristo; o que diz assim: afirmo este poder futuro para conosco *segundo a operação da força do seu poder*, isto é, segundo o seu poder operando potencialmente, poder que *operou em Cristo.*

E expõe este poder, aprovando por isso que igualmente pode e opera em nós: operou o poder em Cristo, *ressuscitando-o dentre os mortos*, pelo que também a nós ressuscitará, e aparece que pode; e *fazendo-o*, Cristo ressuscitado, *sentar à sua direita*, isto é, à sua igualdade, *nos céus*, e de modo que *acima de todo Principado, Potestade, Virtude e Dominação.* Aqui temos quatro ordens de Anjos; e pelo que segue, *e de todo nome*, entendemos as demais ordens; *que se nomeia*, isto é, é nomeável, *não só neste século, mas também* qualquer que se nomeará *no futuro.* Isto acrescentou, para que ninguém lhe objetasse: segundo o que pouco dos Anjos agora conheceis, concedo que Cristo seja posto acima deles, mas segundo o que deles no futuro mais plenamente conhecereis, a carne de Cristo não será posta acima deles. Contra isto diz: não só o que se nomeia neste século, mas também acima de tudo o que dos Anjos se conhecerá no futuro. Pô-lo acima de tudo e *tudo submeteu a ele*; alguns, com efeito, são postos acima de muitos que, embora inferiores, não lhes estão, contudo, sujeitos; por isso diz: *tudo submeteu debaixo de seus pés*, isto é, em tão plena sujeição como quem é calcado aos pés; ou então, debaixo de seus pés, isto é, sob a humanidade de Cristo tudo submeteu.

Dir-se-ia aquele: e que provas com isso, se pôs Cristo ressuscitado sobre tudo e lhe submeteu tudo? Bem provo por isso, diz Paulo, que Deus *deu o mesmo Cristo por Cabeça sobre toda a Igreja*, Igreja que *é o corpo* do próprio Cristo; e julgais que na Cabeça glorioso e no corpo permaneça ignominioso? A Igreja é o corpo e *a plenitude* de Cristo, o qual Cristo por ela é plenificado; se os justos, com efeito, não forem ressuscitados, indo até o último justo, o corpo de Cristo permanece imperfeito: Cristo que, embora seja plenificado pela plenitude da Igreja, ele mesmo é, contudo, *tudo*, isto é, toda perfeição, *em todos*, isto é, em cada um dos membros, porque nem os próprios membros podem plenificá-lo senão por ele.

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> E vós, que estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade deste ar, o espírito que agora opera nos filhos da desconfiança; entre os quais também todos nós vivemos outrora nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos, e éramos por natureza filhos da ira, como os demais: Deus, porém, que é rico em misericórdia, por causa do seu grande amor com que nos amou, mesmo quando estávamos mortos pelos pecados, nos vivificou juntamente com Cristo (por cuja graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente, e nos fez sentar juntamente nos céus em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça, na sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Pois somos obra sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, que Deus preparou para que andemos nelas. Por isso lembrai-vos de que outrora vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se chamam circuncisão feita na carne por mão de homem; que estáveis naquele tempo sem Cristo, alheios à comunidade de Israel, estrangeiros às alianças, sem esperança da promessa e sem Deus neste mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós que outrora estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Pois ele é a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, derrubando o muro de separação, a inimizade, na sua carne; abolindo a lei dos mandamentos expressos em preceitos, para criar em si mesmo, dos dois, um só homem novo, fazendo a paz, e reconciliar ambos com Deus em um só corpo, por meio da Cruz, nela matando a inimizade. E, vindo, anunciou a paz a vós que estáveis longe, e a paz aos que estavam perto. Porque por ele temos ambos acesso ao Pai num só Espírito. Portanto, já não sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus; edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, sendo a pedra angular o próprio Cristo Jesus; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor; no qual também vós sois edificados juntamente para morada de Deus no Espírito.

## Comentário

Disse acima que os efésios foram chamados por eleição de Deus, selados com o Espírito Santo, e que ele ora por eles para que o que Deus piedosamente começou neles aperfeiçoe com incremento cotidiano; e, depois de os ter dito tão dignos nesta novidade da graça, reconduz-lhes à memória o estado anterior que tiveram nos pecados, para que, lembrados da sua imundície, não ousem presumir, a não ser da graça de Deus, como se por seu mérito tivessem algo de novidade: de novo, por isso, recorda-lhes o estado de infidelidade, para que, vendo que a graça de Deus os atraiu da injustiça à justiça, tenham por certo que, se já justos trabalham, Deus, que a eles injustos conferiu, muito mais e mais de boa vontade conferirá aos já justificados, se quiserem merecer. A letra liga-se assim: nós, Apóstolos, cremos, e vós igualmente crestes; ou ali: Deus ressuscitou Cristo dos mortos, e igualmente ressuscitou a vós da morte do pecado; ou com o verbo que segue abaixo, assim podemos construir: deu Cristo por Cabeça sobre a Igreja, e *a vós vivificou com Cristo*; onde quer que se junte, contudo, a sentença pende ali, onde diz: deu Cristo por Cabeça sobre a Igreja, e deu a vós por membros dele; *e vós, que estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados* — mortos por isso, porque tão sepultados no pecado que por nenhuma força humana podiam escapar ao laço do pecado. Chama delitos quando, não fazendo o que Deus preceitua, o desertamos; pecados diz aqueles atos, fornicar, furtar e semelhantes —; pecados, digo, *vossos*, isto é, que, já acostumando-vos a eles, tínheis feito como vossos próprios.

Prossegue em que modo estiveram nos pecados, dizendo: *nos quais pecados vós outrora*, isto é, no tempo da infidelidade, *andastes*, isto é, precipitáveis-vos de mal em pior *segundo o curso deste mundo*, isto é, seguindo a secularidade, que nunca cuida de Deus, mas sempre das coisas mundanas. E para mais agravar o pecado, acrescenta que não só segundo o curso do mundo, mas também *segundo o príncipe do espírito*, isto é, segundo o diabo, que é príncipe, tendo império sobre os demais espíritos malignos: ou então, segundo o príncipe do espírito, para que tomemos coletivamente, como dos demônios; ou então, segundo o príncipe dos espíritos, isto é, dos outros demônios; assim como entre os Anjos bons alguns são prelados, outros súditos, assim entre os maus são as mesmas distinções, e, contudo, um só se crê prelado de todos; príncipe, digo, *da potestade deste ar*, isto é, que tem potestade neste ar; move, com efeito, muitas vezes ventos e turbilhões no ar, com que prejudique os homens e os frutos da terra, como aquele vento que, vindo da região do deserto, derrubou a casa e oprimiu os filhos de Jó, crê-se por ele enviado, com permissão de Deus, contudo. Esses espíritos malignos, Deus dispôs que convivam no ar, porque, se estivessem na terra com os homens, corromperiam os frutos da terra e afligiriam intoleravelmente os próprios homens. Por chamá-los espíritos, quer tornar curiosos os homens para que ajam previdentemente, porque o inimigo que ameaça é invisível: por dizer ainda que estão no ar, de novo nos admoesta, porque o insidiador está perto. Esse príncipe, o diabo, *agora*, quando a graça de Deus vos livrou dele, *opera nos filhos da desconfiança*, isto é, de cuja salvação nós desconfiamos; o Espírito, com efeito, significava a Paulo em quais devia trabalhar e em quais não, sabendo o coração deles impenitente: ou então, nos filhos da desconfiança, que desconfiam da salvação; ouvindo, com efeito, que hão de ressuscitar, subir ao céu, julgam isto estultícia, e por isso não querem converter-se. E, tendo a graça de Deus de tão grandes pecados vos atraído à justiça, vede que, jamais presumindo, não derrogueis à graça de Deus.

Que possam chegar ao aumento da perfeição, indica pelas passagens seguintes, como que respondendo aos efésios que lhe objetam: a nós, antes deprimidos por tão grande fardo de pecado, não é lícito esperar perfeição alguma, basta-nos que de algum modo possamos salvar-nos. Para remover isto, Paulo iguala-se a si e aos Apóstolos a eles, porque antes da fé igualmente estiveram nos pecados, de modo dessemelhante, contudo, como indicarão as passagens seguintes; por isso diz: *entre os quais também todos nós* Apóstolos, como vós, efésios, mesmo Pedro, *outrora*, isto é, antes da fé, *vivemos*: na verdade nos pecados; pois *nos desejos da nossa carne*, de modo que desejássemos o que a carne sugeria; e não só nos desejos, mas também *fazendo* em obra *a vontade da carne*, como comer até a superfluidade e luxuriar; fazendo também *a vontade dos pensamentos*, nos quais a carne não se deleita tanto, como trabalhar pela glória do mundo, ou, ditando a avareza, padecer muito por juntar muito. Nem apenas nestes atuais, mas também éramos, nós, judeus, *filhos da ira*, isto é, gerados para tolerar a vingança, *por natureza*, isto é, por causa do original; nós, judeus, *como os demais*, embora então falsamente opinássemos que pela circuncisão éramos purificados do pecado de Adão: ira de Deus nada outro é que vingança.

Se continuarmos, ou àquilo que diz: nós cremos, e vós crestes, ou àquilo: ressuscitando Cristo, também a vós ressuscitou, então aqui será bem versículo; se, porém, mais abaixo se estender a construção até "vivificou juntamente", ainda não termina o versículo, dizendo assim: estando vós mortos, vivificou-vos com Cristo; Deus, porém, foi quem vivificou. Ou, se ali é o fim, continuaremos o versículo assim: nós, na verdade, estávamos nos pecados, *mas Deus, que é rico e copioso em misericórdia*, sua misericórdia, com efeito, está acima de todas as suas obras; Deus certamente *por causa do seu grande amor*, isto é, incompreensível, *com que nos amou* — dir-se-ia: amou-nos justificados, mas não que ame alguns no pecado; a isto Paulo: amou, digo, *mesmo quando estávamos mortos pelos pecados*; para que não pareça absurdo que Deus se diga amar o homem nos pecados; a sua criatura, com efeito, sempre e em toda parte ama, mas o mal que nela está odeia —; Deus, digo, porque nos amou, *nos vivificou juntamente*, isto é, fez-nos viver pela justiça da alma, *com Cristo*, isto é, à semelhança de Cristo, que, como ele justo, assim nós justos; *por cuja graça*, isto é, de Deus, como nós, assim também vós *sois salvos*, isto é, vivificados pela justiça da alma: ou então, se pender abaixo a construção, de modo que digamos: vivificou-nos e a vós com Cristo; então diremos: por cuja graça sois salvos, da futura salvação.

Vivificou-nos pela primeira ressurreição da alma, *ressuscitou-nos juntamente* também pela segunda ressurreição dos corpos (pela certeza que daí tem, significa o futuro pelo pretérito), e a nós, ressuscitados com Cristo, *fez sentar juntamente*, como já reinando em quietude; sentar juntamente, digo, com Cristo *nos céus*, para que esta bem-aventurança seja mais recomendável também pelo lugar; sentar, digo, com Cristo *em Cristo Jesus*, e com ele e por ele. Por isso vivificou, e ressuscitados fez sentar, *para mostrar nos séculos vindouros*, isto é, futuros, *as abundantes riquezas da sua graça*, isto é, a sua graça rica e abundante em nós; graça, digo, feita *na bondade*, isto é, por só beneplácito seu, porque para merecer a graça nenhum mérito precedeu; bondade, digo, feita *para conosco*, isto é, que nos superou, porque é tanta que nem o nosso intelecto basta para a captar: e tudo isto, digo, *em Cristo Jesus*; nele, com efeito, e por ele Deus opera tudo isto em nós. Por isso quis Deus que isto se tornasse conhecido aos que haviam de vir, para que o homem entendesse quantas coisas, se quisesse, pudesse esperar da bondade de Deus.

Agora põe aquilo que parece mérito do homem, isto é, a fé, e mostra que não é mérito: na verdade na bondade; *pois pela graça sois salvos*, isto é, justificados. Concedo também que acrescentes, *mediante a fé*; *e isto* mesmo, isto é, a fé, *não vem de vós* que mereceis ter fé: na verdade a fé não vem de vós; *pois é dom de Deus*, e *não das vossas obras.* E por isso Deus quis que tudo fosse por graça e nada por obras, *para que ninguém se glorie*; vendo, com efeito, que a queda do Anjo e do homem fora por soberba, quis muito precaver o homem contra a soberba. E assim como a fé é de dom de Deus, assim as obras que seguem a fé são pela graça de Deus: digo bem, para que ninguém se glorie na fé; pois também nas obras que seguem a fé não deixou Deus ao homem de que pudesse gloriar-se; o que diz assim: *somos obra sua*, do próprio Deus, quando nada éramos em bem, *criados em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo Jesus, *para as boas obras*, obras que Deus *preparou* para nós, *para que andemos nelas*, isto é, por ele progridamos e cresçamos. Ou, se "obra" for ablativo, assim: obra, isto é, pela obra de Deus somos criados em Cristo: nada ali muda.

O que acima diz, "fomos nos pecados como vós", agora determina dizendo que os judeus não pecaram tão gravemente como os gentios, mas, embora antes da fé os vis judeus abominassem os gentios, Deus, contudo, sem discrição de pessoas os igualou, não àqueles que antes os censuravam, mas aos santos e perfeitos; e por isso prova que eles são muito obnóxios à graça de Deus, e que podem, se querem, trabalhar com segurança pelo incremento da justiça, dizendo: *por isso*, para que ninguém de vós se glorie, *lembrai-vos de que outrora*, no tempo da infidelidade, *vós, gentios*, isto é, tais quais éreis gerados no pecado, *na carne*, isto é, nas obras da carne; vós, digo, *que éreis chamados incircuncisão*, isto é, a própria imundície, *por aquela circuncisão*, isto é, os judeus, que se diz *circuncisão*, isto é, a própria limpeza, e nada é, porque esta circuncisão era na carne, não no coração, *feita por mão* de qualquer, não pelo Espírito Santo. Lembrai-vos também de que naquele tempo de infidelidade *estáveis sem Cristo*, porque Cristo não vos era prometido; estáveis também *alheios à comunidade de Israel*, isto é, do povo judaico; não convivíeis então, com efeito, com vós; ou então, se acaso convivíeis com eles como prosélitos, éreis *estrangeiros às alianças*, isto é, instáveis, isto é, ora indo, ora voltando, éreis levados à lei. Diz "alianças" no plural, porque Moisés tinha a sua, Isaías a sua, e qualquer Profeta a sua aliança. Estáveis também então *sem esperança da promessa* feita a Abraão; não era lícito, com efeito, então aos gentios esperar a salvação. E estáveis *sem Deus*, adorando ídolos; vós, digo, *neste mundo*, isto é, aderentes a estas coisas mundanas.

Outrora éreis assim; mas agora, vós *que outrora estáveis longe* de Deus e dos judeus, *fostes aproximados* de ambos *em Cristo Jesus*, isto é, por Cristo Jesus; e como por Cristo determina: *pelo sangue*, isto é, pela efusão do sangue de Cristo. Prova de ambos, mas primeiro dos judeus, dizendo: na verdade fostes aproximados dos judeus; *pois ele é a nossa paz*, isto é, pacificou-nos juntos, gentios e judeus, ele, Deus, *que de dois povos fez um só*, isto é, o judeu e o gentio, um só pela unidade da fé, dos costumes e do sacrifício; um só deste modo: *derrubando o muro de separação*, isto é, que, posto no meio, separava um do outro — este muro foi, da parte dos judeus, as observâncias deles; da parte dos gentios, o culto dos ídolos; e este muro deles derrubou, quando aboliu a idolatria e os ritos judaicos —; muro, digo, *de separação* (*maceriae*). *Maceria* diz-se, segundo alguns, o muro firmemente compacto e conexo: este muro era de *maceria*, isto é, forte e de difícil destruição, porque os judeus pela autoridade da lei e dos Profetas defendiam os seus ritos; as nações, porém, pela filosofia defendiam o seu (em que mal haviam acostumado). Ou diz-se *maceria* um amontoado de pedras reunido sem cimento: assim aquele muro era de *maceria*, isto é, débil e leve para Cristo derrubar, como um monte de pedras secas; e, derrubado o muro do meio, *derrubou na sua carne*, que assumiu, *as inimizades* de ambos os povos; destruídos, com efeito, os ritos do judeu e do gentio, já não havia de que se inimizassem entre si.

Como desfez as inimizades mostra da parte dos judeus, cuja razão mais combatia; mas porque aos gentios nenhuma razão havia, nada acrescentou deles: desfazendo as inimizades, *porque abolindo a lei dos mandamentos carnais expressos em preceitos*, isto é, em mandamentos dados, achados por discrição; por isso abolindo daqui a lei, dali o ídolo, *para criar em si mesmo*, dos dois, isto é, do judeu e do gentio, *um só homem novo.* E porque poderia criar em si os ainda divididos, acrescenta: *fazendo a paz*, isto é, pacificando-os mutuamente. E em que fez a paz acrescenta: fazendo a paz, digo, *em si mesmo*, um só homem novo; novo, porque homem da graça: por isso novo, porque, se fosse legal, seria oposto ao gentio, se de novo gentio, seria oposto ao judeu, e nenhum consentiria ao inimigo. Provou que o gentio está perto do judeu; prova que está perto de Deus, dizendo: e por isso desfazendo as inimizades, *para reconciliar com Deus ambos*, isto é, judeu e gentio, unidos *em um só corpo*, isto é, na Igreja. O modo da reconciliação acrescenta: reconciliar, digo, *matando* o mesmo Cristo *em si mesmo as inimizades* que havia entre Deus e o homem; de tal modo em si mesmo que *por meio da Cruz*, isto é, pela morte da Cruz.

Tudo isto, porém, pouco aproveitaria se não fosse pregado; por isso acrescenta: e o mesmo Cristo, *vindo* em carne, *anunciou* por meio dos Apóstolos *a paz* com Deus restituída *a vós*, gentios, *que estáveis longe* de Deus, porque estáveis sem Cristo e sem Deus neste mundo: anunciou também *a paz aos que estavam perto*, isto é, os judeus, porque cultuavam a Deus. Fez que isto se pregasse: *porque por ele, Cristo, temos ambos, judeu e gentio, acesso ao Pai*, Deus, nós ambos postos *num só Espírito* da fé, quando este antes estava no espírito da lei, este no espírito do ídolo.

E porque ambos, postos no mesmo Espírito, temos acesso a Deus, *portanto vós, efésios gentios, já não sois estrangeiros às alianças*, como aqueles vos censuravam; *e já não sois forasteiros*, isto é, não sois mais chamados prosélitos — porque, embora então estáveis na lei, eram sempre chamados adventícios —; não sois estrangeiros, mas sois concidadãos, e não dos que vos censuravam, mas *dos santos*, isto é, de quaisquer perfeitos: e não sois forasteiros, mas *familiares*, isto é, naturais da casa, e não deles, mas *familiares de Deus*; vós, digo, *edificados* — hoje a piedade, amanhã sobre ela se edificará a humildade —; e assim edificados *sobre o fundamento*, isto é, a doutrina *dos Apóstolos e dos Profetas*, em cuja doutrina foi fundada a Igreja; ou então, sobre o fundamento, isto é, Cristo, sobre quem os Apóstolos e Profetas estão fundados: edificados nele, digo, *o próprio Cristo Jesus sendo a pedra* por causa da firmeza, *angular*, isto é, o supremo, isto é, que consuma a vossa justiça, ligando em si ambos os povos, o judeu e o gentio. Esta pedra, onde esteve à letra, não temos certeza; cremos, contudo, que esteve, que, até a consumação de ambos os muros, não pôde ser idoneamente posta; mas no cimo, com admirável conveniência, uniu ambos os muros. Esta pedra significou Cristo, que une em perfeição da fé o judeu e o gentio; Cristo que, assim como é o supremo consumador da justiça, é também princípio da justiça; o que diz assim: *no qual*, pedra, *todo o edifício*, construído pela fé, *cresce* pela operação *para templo santo*, para que o homem seja templo em que Deus habite; *santo*, digo, *no Senhor*, isto é, pelo Senhor: *no qual*, pedra, Cristo, *também vós*, gentios, *sois edificados juntamente* com os judeus *para morada*, isto é, para que sejais morada de Deus; edificados, digo, juntamente *no Espírito*, isto é, pelo Espírito Santo que vos purifica para Deus.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, eu, Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus por vós, gentios, se é que ouvistes a dispensação da graça de Deus, que me foi dada em favor de vós; porque, segundo a revelação, me foi dado a conhecer o mistério, como acima escrevi em breves palavras; ao lerdes isso, podeis compreender a minha inteligência do mistério de Cristo; o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em outras gerações, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas, no Espírito: que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa dele em Cristo Jesus, pelo Evangelho, do qual me tornei ministro, segundo o dom da graça de Deus, que me foi dada segundo a operação do seu poder. A mim, o menor de todos os santos, foi dada esta graça: anunciar entre os gentios as insondáveis riquezas de Cristo, e iluminar todos sobre qual é a dispensação do mistério escondido desde os séculos em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela Igreja, seja dada a conhecer agora aos Principados e Potestades nos céus a multiforme sabedoria de Deus, segundo o desígnio eterno, que realizou em Cristo Jesus, nosso Senhor; no qual temos ousadia e acesso com confiança pela fé nele. Por isso peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, que são a vossa glória. Por esta razão dobro os meus joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, de quem toda paternidade nos céus e na terra toma o nome, para que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória, ser fortalecidos em poder, pelo seu Espírito, no homem interior; que Cristo habite, pela fé, em vossos corações; arraigados e fundados na caridade, para que possais compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer a caridade de Cristo, que excede todo conhecimento, para que sejais plenificados de toda a plenitude de Deus. Àquele, porém, que é poderoso para fazer, infinitamente mais do que pedimos ou entendemos, segundo o poder que opera em nós, a ele a glória na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações do século dos séculos. Amém.

## Comentário

Para os tornar mais obnóxios à graça de Deus, diz que Deus o fez Apóstolo por causa deles; está também preso por eles; revelou-lhe também Deus os seus mistérios para utilidade deles: vós sois edificados juntamente em Cristo; e *por esta razão*, para que vós também sejais edificados juntamente, *eu, Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo*, o qual, aflito, não convém entristecer; prisioneiro certamente *por vós, gentios*; se eu, com efeito, não pregasse para a vossa salvação, de modo algum estaria em cadeias; por vós, digo, *se é que ouvistes a dispensação da graça de Deus*, isto é, a graça, a saber, o apostolado a mim entregue pela graça de Deus; graça, digo, dispensada por Deus, porque Deus bem dispensou consigo por que me constituiu Apóstolo; ou então, graça que eu dispenso a vós e às demais Igrejas: se, digo, ouvistes a graça que *me foi dada em favor de vós*, isto é, assim como verdadeiramente crestes que sou Apóstolo para vós, assim crede verdadeiramente que estou preso por vós. Esta graça foi-me dada certamente, *porque o mistério*, isto é, o segredo de Deus, *me foi dado a conhecer segundo a revelação*, isto é, de modo que, revelado, saiba falar dele; foi dado a conhecer, digo, *como acima vos escrevi em breves palavras*; onde diz: ele é a nossa paz, e o mais até "portanto, já não sois estrangeiros". Assim escrevi, *de modo que podeis compreender*: podeis certamente ao ler, isto é, se o lerdes atentamente, compreender, digo, não só o mistério, mas também podeis compreender *a minha inteligência*, tida *no mistério* (é o mesmo que "no sacramento") *de Cristo*, porque conheço o mistério e sei abri-lo prudentemente: mistério que *não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em outras gerações*, isto é, em outras idades; ou, se a alguns, não tão conhecido como agora foi revelado aos santos Apóstolos dele; e nisto não pareça que me glorio, porque *foi revelado no Espírito Santo* também aos Profetas, isto é, a quaisquer iluminados no sentido, este mistério, a saber, que os gentios são *co-herdeiros* dos judeus na idade futura, e aqui são *membros do mesmo corpo*, isto é, no mesmo corpo de Cristo, isto é, na Igreja, são também *co-participantes da promessa* feita a Abraão; co-herdeiros, digo, membros do mesmo corpo, co-participantes *em Cristo Jesus*, que fez ambos um só assim em Cristo, e isto *pelo Evangelho*, cuja pregação os leva à fé.

Evangelho que não é meu, mas *do qual me tornei ministro*; e isto não por meu mérito, mas *segundo o dom da graça de Deus*; graça que de novo não mereci ter, mas que *me foi dada segundo a operação do seu poder*, porque o seu poder operou muitas coisas por minha fraqueza. Foi-me dada: e a quem a mim? *A mim, o menor de todos os santos*, foi dada esta graça, a saber, *anunciar entre os gentios as insondáveis riquezas de Cristo*, isto é, incompreensíveis; foi-me dado também *iluminar todos* sobre isto: *qual*, isto é, quão digna é *a dispensação*, isto é, o cumprimento *do mistério escondido desde os séculos* anteriores, *em Deus*, contudo, isto é, no conhecimento de Deus existente; Deus que não pôde ignorar, porque *criou todas as coisas*: por isso evangelizar, iluminar, *para que a sabedoria de Deus*, pela Igreja, que se constitui em nossa pregação, a sabedoria, digo, de Deus, *seja assim dada a conhecer aos Principados e Potestades*, isto é, às ordens dos Anjos, *existentes nos céus* — os Anjos, com efeito, ignorando a salvação dos homens, admiram e louvam a Deus, quando, vista a conversão pela pregação dos Apóstolos, entendem a salvação deles —; *a multiforme sabedoria de Deus*, porque converteu este pela suavidade da palavra, aquele pela aspereza da fraqueza, de diverso modo em diversos; multiforme, digo, mostrada *segundo o desígnio eterno*, isto é, nos séculos predefinidos por Deus que ordena; desígnio, isto é, o que nos séculos predefinira fazer, *realizou*, isto é, completou *em Cristo Jesus, nosso Senhor*; *no qual*, isto é, por quem Cristo, *temos ousadia* de aproximar-nos de Deus; e não só ousadia, mas *temos acesso* a Deus, não temendo repulsa, mas *com confiança*, isto é, confiantes de ser introduzidos; confiança, digo, tida *pela fé nele*, a saber, em Cristo, em quem cremos.

Recordou que, para utilidade deles, foi consagrado Apóstolo por Deus, que também está preso por eles, que lhe foram revelados os mistérios de Deus para os instruir: *por isso*, porque todas estas coisas foram feitas por vós, porque tendes também acesso a Deus pela fé de Cristo conosco, por isso agora não só rogo, mas como coisa devida peço, e de vós exijo, *que não desfaleçais nas minhas tribulações* — por esta exortação quer Paulo premuni-los, porque duvidava que talvez, pela tribulação e aflição do mestre, tivessem em desprezo o que haviam aprendido de quem era tratado com desprezo —; tribulações, digo, minhas, tidas por vós; por isso, com efeito, Deus me permite ser afligido, para fazer aparecer qual seja a vossa fé na minha tentação; Deus, com efeito, tentou Abraão e quaisquer outros não porque ignorasse o que seria, mas para indicar ao mundo a fé deles provada: *tribulação que é a vossa glória*; se da minha tribulação tomais forças para a boa obra, então sois dignos de glória; se, porém, por minha tribulação desfaleceis, sois dignos de ignomínia. *E por esta razão*, isto é, para que não desfaleçais, porque esta coisa me é grata, a saber, que vós não desfaleçais, por isso *dobro os joelhos* — assim como pelo joelho se ergue e se humilha o corpo, assim pelo joelho erguido e dobrado se entende a elevação da mente e a humilhação: Paulo certamente dobrava os joelhos da carne para insinuar a humildade do espírito —; dobro os joelhos *diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo*, que também é Pai para nós, uma vez que somos filhos de Cristo, de quem é Pai; *de quem*, Pai, isto é, da instituição e exemplo de quem *toda paternidade* é para nós, isto é, são-nos todos os pais, *nos céus*, os Anjos provedores para nós, ou os que temos *na terra*, como bispos e quaisquer pais da Igreja. A paternidade não é assim simplesmente, mas *toma o nome*, isto é, quaisquer nomináveis pela dignidade das virtudes são-nos pais. Ou assim: a paternidade toma o nome, isto é, aqueles provedores nossos se dizem pais só de nome, isto é, só nuncupativamente, não substancialmente, o que Deus só é. Dobro os joelhos diante de Deus, *para que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória*, isto é, abundante e gloriosamente, a saber, com poder; conceda, digo, *ser fortalecidos em poder*, isto é, para que sejais fortalecidos no bem; e esta virtude em vós não creiais vossa, mas *pelo seu Espírito*, para que atribuais tudo à graça de Deus; conceda, digo, a virtude não exteriormente, mas *no homem interior*. Por isso Deus ordenou a virtude da justiça na alma, porque, se estivesse no corpo, que está exposto a toda adversidade, tão logo falharia, como o corpo, a virtude, que muito melhor reside na alma, do que diz Cristo: Depois que mataram o corpo, as almas nada têm que fazer (Mt 10,28). Para que vos dê o Espírito, e para que vos dê *que Cristo habite em vossos corações*; não que ali corporalmente se sente, mas *pela fé*. Embora onde está o Espírito, ali esteja Cristo, nenhum dos dois é, contudo, supérfluo, porque o Espírito pelo amor, Cristo pela fé.

Dobro os joelhos para que vós *arraigados e fundados na caridade*; por semelhança com a árvore profundamente enraizada, e que pela abundância de umores de que as raízes abundam em profundidade frutifica copiosamente, diz arraigados, isto é, frutificando na caridade, e fundados, isto é, sobre o fundamento em que se firme e cresça o edifício da casa de Deus. Para que vós, digo, arraigados e fundados, *possais compreender* por intelecto e utilidade, *com todos os santos*, isto é, como compreendem todos os santos, *qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade.* A largura, da direita à esquerda da Cruz de Cristo, significou a amplitude do amor com que orou também pelos inimigos; o comprimento da Cruz, da cabeça aos pés, significou a perseverança do amor, porque, tendo amado os seus, amou-os até o fim; a altura da Cruz, isto é, aquela parte que sobressaía à cabeça, na qual Pilatos escreveu o título, significou o respeito divino, para insinuar que Cristo não padecia por amor do mundo, mas para fazer a vontade de seu Pai, que está nos céus; a profundidade diz-se aquela parte da Cruz que estava fixada na terra, profundidade que designa a graça oculta de Deus, pela qual sem mérito multiplica bens aos seus, eles ignorando por que assim faz. Estas coisas entendemo-las, contudo, nos próprios, expondo assim: possais compreender qual é a largura, isto é, quão largos convém que sejais na caridade, para que façais bem até aos que vos odeiam; e o comprimento, isto é, quão longos e perseverantes no amor convém que sejais, para que, se convém, não receeis morrer por Deus ou pelo próximo; e qual é a altura, [isto é] como com respeito superno, não com respeito do mundo, façais quaisquer bens; e qual é a profundidade, isto é, a graça oculta de Deus em vós, pela qual vos justificou sem mérito e vos faz progredir, para que possais também *conhecer a caridade de Cristo*, isto é, como Cristo vos amou; caridade, digo, que *excede todo conhecimento*; nenhuma ciência, com efeito, basta para compreender quão grande é a caridade de Cristo. Ou assim: possais conhecer a caridade da ciência de Cristo, segundo a ciência; ignorando, com efeito, amamos muitas vezes, mas, se temos o conhecimento da coisa que amamos, muito mais nos inflamamos a amar a bondade da coisa conhecida: por isso diz "a caridade da ciência de Cristo", isto é, segundo a ciência tida de Cristo; caridade da ciência, digo, que excede a caridade da ignorância: o bem que se ignora é menos amado. Possais compreender e conhecer, *para que sejais plenificados*, indo para toda, isto é, para a plenitude de todos os bens *de Deus*, isto é, tida de Deus.

Eu dobro os joelhos para que possais compreender e conhecer; o próprio Deus, porém, *é poderoso para fazer* tudo o que for oportuno: fazer, digo, abundantemente *mais do que pedimos ou entendemos*; ninguém dos homens ousaria, com efeito, pedir a Deus que fizesse seu Filho Deus, homem: o que, contudo, fez; ninguém também poderia entender por que ordem de piedade restaurou o homem perdido, e os inumeráveis bens que faz; e por isso diz bem "mais do que pedimos ou entendemos". E que seja poderoso para fazer coisas tão grandes, podemos prová-lo indo *segundo o poder que opera em nós*, porque, se se consideram as coisas que nos conferiu, o poder dos milagres e muitas outras, por estas colhemos claramente que por vontade é poderoso, quanto ao mais, para consumar tudo em nós. *A ele*, pois, que é tão poderoso para fazer, só a ele, não à virtude humana, *seja a glória na Igreja*, isto é, na consideração dos bens que confere à Igreja, *e também em Cristo Jesus*; porque nem ao próprio Cristo segundo o homem se deve glória dos bens que fez, mas a Deus; glória, digo, permanente *por todas as gerações*; desde Abel, o primeiro justo, com efeito, nenhuma geração passou que não tivesse alguns em quem Deus se gloriasse: gerações, digo, *do século*, do princípio ao fim: *do século dos séculos*, digo, em que se contêm muitos séculos; *a ele a glória. Amém*, certamente é assim.

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# Capítulo 4

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> Rogo-vos, pois, eu, prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação com que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros na caridade, solícitos em guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Um só corpo e um só espírito, como fostes chamados numa só esperança da vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, age por todos e está em todos nós. A cada um de nós, porém, foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo. Por isso diz: Subindo às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens (Sl 67,19). Ora, que significa "subiu", senão que também desceu primeiro às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, para plenificar todas as coisas. E ele mesmo deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e doutores, para a consumação dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo; para que já não sejamos crianças, levados ao sabor das ondas e arrastados por todo vento de doutrina, pela maldade dos homens, pela astúcia que arma ao erro. Mas, praticando a verdade na caridade, cresçamos em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e unido por todas as juntas de que se serve, segundo a operação proporcionada a cada membro, produz o seu crescimento para a edificação de si mesmo na caridade. Isto, pois, digo e testifico no Senhor: que já não andeis como andam os gentios, na vaidade do seu sentir, tendo o entendimento obscurecido pelas trevas, alheios à vida de Deus pela ignorância que há neles por causa da cegueira do seu coração; os quais, desesperados, se entregaram à dissolução, para praticarem com avidez toda impureza. Vós, porém, não foi assim que aprendestes a Cristo; se é que o ouvistes e fostes nele ensinados, conforme é a verdade em Jesus, a despojar-vos, quanto à conduta anterior, do homem velho, que se corrompe segundo os desejos do erro. Renovai-vos no espírito da vossa mente, e revesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade. Por isso, deixando a mentira, falai a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, mas não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo. Quem furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para ter com que socorrer o que está em necessidade. Nenhuma palavra má saia da vossa boca; mas só a que for boa, para edificação da fé, a fim de dar graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e blasfêmia sejam removidas de vós, com toda malícia. Sede benignos uns para com os outros, misericordiosos, perdoando-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo.

## Comentário

Depois de ter admoestado de diversos modos que não se enchessem de soberba pelos bens da graça de Deus, nem se entorpecessem, mas sempre vigiassem para progredir ao melhor — admoestações que parecem versar sobre os mais perfeitos —, passa à instrução moral, que parece pertencer mais aos menos perfeitos, instruindo primeiro todos em comum, depois separadamente as condições, os sexos e as idades. A letra liga-se assim: porque Deus é poderoso para fazer por vós mais do que pedimos ou entendemos, *portanto rogo-vos*, isto é, conjuro-vos por todas as coisas sagradas, eu, *prisioneiro no Senhor*, isto é, por causa do Senhor, a quem ofender em cadeias não é a menor culpa; rogo, digo, que *andeis* pelos degraus das virtudes *de modo digno da vocação com que fostes chamados*; não fostes, com efeito, chamados para cumprir os desejos da carne, mas para mortificar a carne segundo o espírito; a saber, que andeis *com toda humildade*, tanto no ânimo tida quanto por fora mostrada; é culpa, com efeito, ser humilde por dentro e simular soberba por fora, pois assim dá de si ocasião de maledicência e se oculta a virtude, cuja imitação podia instruir o próximo; humilde por fora, porém, e soberbo por dentro, a ninguém é dúvida que seja culpável; *e com toda mansidão*, para que seja tratável e afável a todos; *e com paciência*, guardada em quaisquer adversidades, *suportando-vos uns aos outros*, se um lhe infligiu molestia; ou então, suportando, isto é, compadecendo-se do próximo, se por acaso tiver caído, e ajudando-o com oração e jejum; suportando, digo, *na caridade*, não na expectativa de vingança; vós, digo, *solícitos em guardar a unidade* em vós, de modo que haja entre vós o mesmo querer, o mesmo não querer; unidade, digo, *do Espírito*, isto é, a que o Espírito Santo dita, guardá-la *no vínculo da paz*; paz que, guardada por fora, é vínculo e alimento da unidade espiritual.

E para guardardes esta unidade, *sede um só corpo*, isto é, um só na operação, e *um só espírito*, isto é, um só na vontade; sede um só em corpo e espírito, assim como é uma só a coisa a que fostes chamados; o que diz assim: *fostes chamados numa só esperança*, isto é, para uma só coisa esperada; esperança, digo, *da vossa vocação*, isto é, de que é digna a vossa vocação. De novo, deveis ser um só corpo e um só espírito, porque *um só Senhor* vos domina, e a vossa *fé é uma só* e indiferente, e *um só é o vosso batismo*, que justifica igualmente a todos, não segundo o que alguns dizem, segundo os méritos de diversos que batizam, mais ou menos dignamente; e há *um só Deus*, isto é, Criador de todos, *e Pai de todos*, que vos governa segundo o amor de filhos; Senhor, Deus e Pai que, dominando, criando, amando, *está acima de todos* pelo poder; está também *por todos* os lugares, nem é lícito de modo algum fugir dele; o qual, embora assim comumente esteja acima de todos e por todos, está, contudo, *em todos os eleitos* mais familiarmente, dando as suas graças. Aqui se pode entender a Trindade: acima de todos, o Pai; por todos, o Filho; em nós, o amor do Pai e do Filho, isto é, o Espírito Santo.

Porque dissera "somos um só corpo, um só espírito, um só é o nosso Senhor, uma só a fé", para que por isso não julgassem que todos são igualmente nesta nova graça, de modo que ninguém seja prelado, ninguém súdito, ninguém servo, ninguém senhor, determina isto dizendo: embora sejamos um só e tenhamos um só Deus e uma só fé, *a cada um de nós foi dada a graça* de Deus, não a mesma a todos, mas *segundo a medida do dom*, isto é, do doador *Cristo*; a este aquela graça, a este esta, e muitas vezes na mesma graça há diversidade, porque este tem menos, este mais da mesma graça. *Por isso*, para comprovar isto (a saber, que é doador de graças), diz o Espírito Santo no Salmo (Sl 67,19): o homem Cristo, *subindo às alturas*, isto é, acima da altura dos céus, *levou cativo o cativeiro*, isto é, a natureza humana, antes expulsa do paraíso e do céu, reconduziu em si, homem, cativa, porque, tirada do lugar que lhe era natural pelo pecado, levou-a de volta aos céus, a saber, à pátria antes destinada a ela, se não pecasse. O homem, com efeito, criado em pureza, teve o paraíso para habitar, de modo que ali, cumprida a obediência, dali fosse transferido aos céus; mas, porque pecou, perdeu o céu prometido e, do lugar da habitação, isto é, do paraíso, expulso, foi cativado nesta terra; terra que o pecado fez natural ao homem, como a justiça, enquanto nela esteve, fez natural o paraíso. De novo Cristo, destruído o pecado do homem, a natureza humana, cativa desta miséria (lugar que já lhe era natural pelo pecado), porque tirada do lugar natural, reconduziu à pátria anterior, a saber, aos céus: mas, quanto mais miserável o primeiro cativeiro, tanto mais glorioso o segundo. Cristo, subindo certamente às alturas, *deu dons aos homens*, porque enviou o Espírito Santo aos corações dos discípulos; e porque deu dons, provou-se que Cristo é doador de graças.

Que entendimento se deva colher do que diz "subindo às alturas", quer explicar, não, contudo, afastando-se do propósito: digo "subindo"; *mas que significa*, isto é, que se deve entender pelo fato de o Senhor subir ("subindo" e "subiu" tem por o mesmo), *senão que, se subiu, segue-se que antes de subir desceu*, isto é, esteve em lugar humilde? Se, com efeito, subiu, segue-se que do inferior ao superior subiu. *Desceu*, digo, *às regiões inferiores da terra*, isto é, ao inferno, que certamente se crê estar na terra, mas na parte inferior. Por isso provou que aquele que sobe antes habitou em lugar humilde como verdadeiro homem, para que, sabendo que Cristo, doador de graças, como nós, assim é homem, lhe peçamos com mais confiança as suas graças; que, se não tivesse participado da nossa humanidade, seria muito mais inexorável a nós. E porque ele desceu primeiro, *portanto, aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus*, um só e mesmo Cristo indiviso, homem Deus. Ou de outro modo: que significa que a humanidade de Cristo subiu, senão que primeiro a Divindade desceu às regiões inferiores da terra, isto é, para unir a si a humanidade entre os homens? Se, com efeito, descesse até o globo do sol e da lua, estaria abaixo, mas descer às terras foi mais inferior. E, embora pareça outro o que sobe, isto é, o homem, outro o que desce, isto é, Deus, aquele, contudo, que desceu e que subiu acima de todos os céus é o mesmo e um só, pessoa indivisa. Assim, de novo, bem ao propósito; porque, vendo tão grande poder dele, que, homem Deus, subiu acima dos céus, podemos pedir com confiança àquele que tudo pode. Subiu *para plenificar todas as coisas* com os seus dons, segundo o que ele mesmo diz: «Se eu não for, o Paráclito não virá a vós» (Jo 16,7).

Depois de provar que Cristo é doador de graças, mostra a diversidade dos dons: digo bem, "plenificar todas as coisas"; e *ele mesmo*, Cristo, *deu uns*, isto é, distintamente dos outros, *como apóstolos*; *outros deu como profetas*, que revelassem as Escrituras; *outros como evangelistas*, isto é, pregadores; *outros como pastores e doutores*, isto é, bispos, que apascentem os súditos da mesa do Corpo de Cristo, e ensinem do Novo e do Antigo Testamento. Por isso deu uns e outros *para a obra do ministério*, porque, se desse tudo a um, enquanto um não bastasse a tudo, os ministérios de Cristo permaneceriam imperfeitos; ministério, digo, valioso *para a consumação dos santos*, isto é, para que os que já são justos subam à perfeição; ministério valioso também *para a edificação do corpo de Cristo*, isto é, para que dos que ainda são incrédulos seja edificado o corpo de Cristo, isto é, a Igreja.

Dir-lhe-iam aqueles a quem admoestara, para que por causa da unidade da Igreja não julgassem dever ser iguais: pouco aproveita termos recebido a fé, se sempre nos convém permanecer na sujeição. Disto os consola dizendo: não vos seja pesado que uns sejam sujeitos, outros preferidos, logo, com efeito, será o fim desta diversidade; diversidade, digo, que não durará mais, *até que todos cheguemos* (diz "cheguemos" segundo o desejo dos santos), *até que cheguemos todos existentes na unidade da fé*, isto é, a quem há uma só fé de Cristo, *e existentes na unidade do conhecimento do Filho de Deus*, isto é, na unidade das boas obras que seguem a fé, pelas quais obras se conhece o Filho de Deus; ou então, na unidade do conhecimento de Deus, para que do conhecimento da Deidade não trabalhemos, até que cheguemos *ao estado de homem perfeito*, isto é, para sermos homem perfeito, recebida a impassibilidade e a imortalidade; ao homem perfeito, digo, a saber, *à medida*, isto é, à meta *da idade de Cristo*; idade, digo, *da plenitude*, isto é, na qual Cristo teve a plenitude, a saber, depois da Ressurreição, feito impassível e imortal. Ou de outro modo: cheguemos ao homem perfeito, como foi dito, e à meta da idade de Cristo de trinta e três anos e meio; idade que foi de plenitude; depois que se chega a ela, com efeito, não há para onde a carne cresça, nem em aumento de forças nem de estatura; todos, com efeito, quer mais jovens quer mais velhos, ressuscitaremos no mesmo ponto de idade em que Cristo saiu do mundo e ressuscitou.

Por isso deu uns profetas, outros doutores ou pastores, *para que já* — outrora, sim, assim fomos, mas daqui em diante — *não sejamos crianças* de entendimento, *levados ao sabor das ondas*, por nós mesmos, ora bem, ora mal agindo; e para que não sejamos arrastados por outros ora para cá, ora para lá, *por todo vento de doutrina* — alude à semelhança; o mar, com efeito, significa o mundo; o vento, os sedutores; a nau, a Igreja, que ora para baixo, ora para cima é impelida pela perseguição dos maus —; de doutrina, digo, feita *pela maldade dos homens*, nequíssimos são, com efeito, tais sedutores; doutrina também feita *pela astúcia* que sedu latentemente os simples; astúcia, digo, *que arma ao erro*, isto é, para nos enredarem no seu erro. Não sejamos levados ao sabor das ondas, mas *cresçamos na caridade*, isto é, no amor de Deus e do próximo, *praticando a verdade*, isto é, a doutrina pura da mentira, não só ouvindo, mas também fazendo em obra; cresçamos indo *em tudo* por boa cooperação e consentimento; cresçamos, digo, *naquele* que nos ajuda em que podemos bastante crescer, porque *é a Cabeça*, isto é, a altura em que se deve sempre subir, e que é *Cristo*, nosso Rei; *de quem*, Cabeça Cristo, *todo o corpo* da Igreja *está bem ajustado* pela fé. E porque ainda não basta, podem, com efeito, ajustar-se na mesma fé e não se seguirem mutuamente, como as madeiras só ajustadas, se se arrasta uma, não segue a outra; e este mal haveria se os membros não seguissem a Cabeça, por isso acrescenta: o corpo da Igreja ajustado pela fé, *e unido* pela caridade; o amor, com efeito, é o prego com que se ligam sem divisão; ajustado, digo, e unido *por todas as juntas* da fé, caridade e todas as virtudes; juntas, digo, *de que se serve*, isto é, para que um membro sirva ao outro; de que se serve, digo, *segundo a operação proporcionada a cada membro* da Igreja; um membro, com efeito, serve mais, outro menos, conforme a faculdade que tem: todo o corpo, digo, assim ajustado e unido *produz o crescimento do corpo* da Igreja; faz o incremento da justiça nos fiéis, e vale *para a edificação de si mesmo*, isto é, do seu corpo, a Igreja de que é membro — edificação, como acima, segundo os incrédulos que são edificados para a fé —; crescimento e edificação, digo, feitos *na caridade*, isto é, segundo o amor de Deus e do próximo. Ou assim construamos, sem mudar a sentença: de quem todo o corpo ajustado e unido por todas as juntas de que se serve produz o crescimento do corpo para edificação de si; produz, digo, segundo a operação distribuída em medida de cada membro, e tudo isso na caridade.

Porque Deus deu uns como Apóstolos, outros como evangelistas, outros como doutores, e isto para a vossa consumação, de novo porque ajustou e uniu todo o corpo da Igreja pela junta da fé e da caridade, *portanto, isto digo e vos ordeno*, nem simplesmente digo, mas *também testifico no Senhor*, isto é, nesta admoestação de vós aduzo Deus por testemunha, para que nada mais de vós seja de mim, mas, se pecais, de vossas mãos exija — estas palavras teve Paulo para eles, quando, convocada a Igreja dos efésios, disse: Não vereis mais o meu rosto. Permanecei no que vos ensinei; eu, com efeito, estou daqui em diante limpo do vosso sangue (At 20,26), vede o que fizerdes, porque será exigido de vossas mãos —: testifico, digo, no Senhor, *que já não andeis como outrora andastes, e como os gentios ainda andam* (onde diz "já", significa que antes andaram); *não andeis como os gentios andam na vaidade do seu sentir*, isto é, na secularidade do seu sentido, o sentido do mundo, com efeito, é vaidade; gentios, digo, *tendo o entendimento*, isto é, a razão natural, *obscurecido pelas trevas*, isto é, a ponto de por inteiro serem trevas e nada de luz; gentios, digo, *alheios à vida de Deus*, isto é, à eternidade em que Deus vive; alheios pelo conhecimento e participação, como ele mesmo diz: *alheios pela ignorância*, porque ignoram a vida de Deus; ignorância *que há neles por causa da cegueira do seu coração*, isto é, por causa do coração deles cego: quando, com efeito, lhes foi pregada a palavra de Deus, tiveram a faculdade de entender e de não entender; mas porque escolheram ignorar, por isso foram cegados a ponto de já serem impotentes para perceber o que é bom. Não diz isto por terem os efésios errado mal em algo, mas porque receava que fossem fáceis de ser retraídos aos ritos dos gentios, em que antes da fé haviam vivido. Que não tenham errado colhe-se do fato de que um pouco abaixo os chamará santos. *Os quais, desesperados*; quando, com efeito, ouvem: o homem ressuscitará em glória, reinará com Cristo, etc., julgando isto frívolo, desesperam, e por isso *se entregaram à dissolução*, e não só em consentimento e vontade, *para praticarem toda impureza*, porque o que mal quiseram, pior operaram; para a prática da impureza, digo, *com avidez*; quanto mais imundamente operavam, com efeito, tanto mais ávidos se tornaram das imundícies. Ou de outro modo: entregaram-se à impureza e à avareza. Os gentios assim andam impudica e imundamente; *vós, porém, não foi assim que aprendestes* que Cristo andou, a quem deveis seguir; com esta condição, contudo, digo, *se o ouvistes*, isto é, entendestes aquele Cristo, *e fostes nele ensinados*, isto é, na informação dele. O que é verdade, que o ouvistes e fostes nele ensinados, não de falsidade, mas *conforme é a verdade em Jesus*; ao que vos ensinei de Cristo, com efeito, nada de falsidade misturei, como os nicolaítas, que pregam que Cristo não reprovou o uso comum das mulheres, e com as demais falsidades confundem a verdade de Cristo.

E porque fostes ensinados segundo a verdade em Cristo, *portanto despojai-vos do homem velho*; ou assim: fostes certamente ensinados em Jesus *a despojar-vos do homem velho*, não que deponhais a carne dele derivada, que se depõe uma vez pela morte, mas despojai-vos dele *quanto à conduta anterior*, isto é, segundo a velhice da operação do pecado: despojai-vos também dele *segundo os desejos do erro*, isto é, vindos do erro ou precipitando no erro; homem velho *que se corrompe* na sua própria obra; quanto mais frequentemente peca, com efeito, tanto mais a própria carne se debilita e deforma. Ou na mesma sentença sigamos retamente a letra: despojai-vos do homem velho que se corrompe, não só segundo a obra, mas despojai-vos também segundo os desejos do erro. Despojai-vos do velho, *revesti-vos* porém *do homem novo*; e por isso *renovai-vos*, já pelo batismo uma vez foram feitos novos. Diz de novo, renovai-vos no Espírito Santo, iluminador da vossa mente; ou intransitivamente, renovai-vos *no espírito da vossa mente*, isto é, seguindo a vossa mente espiritual; e assim renovados *revesti-vos do homem novo*, novo porque faz novas todas as coisas; homem novo *que foi criado, não segundo a lei da carne, mas segundo Deus*, concebido e nascido do Espírito Santo; revesti-vos, digo, de Cristo *na justiça* guardada para com o próximo, *e na santidade*, isto é, possuindo-vos a vós mesmos para a santificação de Deus; santidade e justiça, digo, *da verdade*, não de simulação, para que não simulemos ser justos, sendo maus.

*Por isso*, isto é, porque o homem velho deve ser deposto, o novo revestido, assumamos os membros do novo, depondo os membros do velho, a saber, *deixando a mentira*, que é membro do velho, *falai a verdade cada um com o seu próximo*; a verdade, com efeito, é membro de Cristo. Devemos falar a verdade com o próximo, *porque somos membros uns dos outros*, isto é, um do outro; assim quem defrauda o próximo faz fraude em seu próprio corpo. De novo, revestindo o novo, *irai-vos* contra o pecado dos irmãos, e ao irar-vos *não pequeis* assim, de modo a, pelo desprezo do pecado, cair imprevidentemente no desprezo do próximo; assim se deve, com efeito, odiar o pecado de modo que nem por isso se ame menos a criatura de Deus. Ao irar-vos, porém, não pecareis *se o sol*, isto é, a Divindade que vos ilumina, ou então, o sol, isto é, a vossa razão iluminada, *não se puser*, isto é, não for destruída, *sobre*, isto é, por causa da *vossa ira*; para que a ira não vença em vós a razão. "Ponha-se o sol sobre a ira" foi dito por semelhança com aqueles aos quais, postos num vale, um grande monte sobrepusesse, sobre o qual lhes se pusesse o sol, enquanto a altura do monte desviava do vale o sol. Ou de outro modo, como se dissesse: vejo que não podeis ser totalmente contidos da ira; suporto-vos; irai-vos, e de modo que *não pequeis*, isto é, não consumeis a ira em ato; e para guardar-vos disto será útil que o sol não se ponha sobre a vossa ira, isto é, que antes que venha a tarde se deponha a ira.

Dir-me-iam: ordenas "não pequeis", mas como pode isto fazer-se, para não pecarmos? A isto diz: para poderdes evitar o pecado, *não deis lugar*, isto é, oportunidade de pecar, *ao diabo* em vós, mas fugi dele; não deis lugar ao diabo, mas aquele que antes *furtava, não furte mais*, daqui em diante (à letra); *antes trabalhe*, isto é, escolha trabalhar, *fazendo com as próprias mãos* não homicídios ou semelhantes, mas *o que é bom* e útil; e trabalhe tanto que tenha para si, *e com que socorrer o próximo que está em necessidade.* De novo outra coisa: *nenhuma palavra má saia*, isto é, nenhum discurso mau proceda *da vossa boca*; mas, se alguma palavra é boa e útil *para edificação da fé*, isto é, para edificar o próximo na fé, essa proceda; de modo, contudo, que *dê graça aos que ouvem* [isto é] que seja grata aos que ouvem em lugar e tempo.

Vós, prelados, ensinai como foi dito, e vós, ouvintes, *não entristeçais*, não digo só os que vos instruem, mas aquele que neles fala, *o Espírito Santo*, Espírito, digo, *de Deus*. Vede quão grave culpa, porque, se ofendeis o pregador, ofendeis também o Espírito que nele fala, e, se o Espírito, ofendeis também a Deus; assim quem ofende o pregador, ofende a Deus. Não entristeçais o Espírito, *no qual Espírito fostes selados*; vós, com efeito, sois a cera, o Espírito o selo impresso em vós; selados, digo, *para o dia da redenção*, isto é, do batismo, em que fostes remidos de todo pecado. Não entristeçais o Espírito, mas *seja removida de vós toda amargura* do ânimo, *e ira*, isto é, comoção súbita do ânimo, *e indignação*; se um ignóbil, com efeito, abunda sobre vós, nobres, não vos indigneis; *e gritaria*, para que não clameis desordenadamente litigando, *e blasfêmia* feita contra Deus ou o próximo; quem diz, com efeito: por que Deus fez isto?, parece ter dito que Deus não fez bem. Para remover brevemente tudo, estas coisas *com toda malícia*, isto é, toda malícia seja removida de vós. Não sejais amargos ou blasfemos, mas *sede benignos*, isto é, largos, dando uns aos outros; e se não tendes o que dar, sede ao menos *misericordiosos* de ânimo, *perdoando-vos mutuamente*, isto é, sendo indulgentes uns com os outros, *como também Deus vos perdoou* os pecados *em Cristo*, isto é, por Cristo.

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos; e andai no amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós como oferta e sacrifício a Deus em odor suave. A fornicação e toda impureza, ou a avareza, nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem a torpeza, nem a conversa tola, nem a graçola, coisas que não convêm; mas antes ações de graças. Pois sabei bem isto: que nenhum fornicador, ou impuro, ou avarento, o que é idolatria, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos seduza com palavras vãs; pois por causa destas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desconfiança. Não vos torneis, portanto, participantes deles. Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz: pois o fruto da luz está em toda bondade, justiça e verdade; provando o que é agradável a Deus. E não tenhais comunhão com as obras infrutuosas das trevas; antes, repreendei-as. Pois o que eles fazem em oculto, é vergonhoso até dizê-lo. Mas tudo o que é repreendido é manifestado pela luz; pois tudo o que é manifestado é luz. Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Vede, pois, irmãos, como andais com cautela; não como insensatos, mas como sábios; remindo o tempo, porque os dias são maus. Por isso não sejais imprudentes, mas entendei qual é a vontade de Deus. E não vos embriagueis com vinho, no qual há luxúria; mas enchei-vos do Espírito Santo, falando entre vós em salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando em vossos corações ao Senhor, dando graças sempre por tudo, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a Deus e Pai; sujeitos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres sejam sujeitas a seus maridos como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a Cabeça da Igreja; ele, o Salvador do seu corpo. Mas, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres a seus maridos em tudo. Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a no lavacro da água, pela palavra de vida, para apresentar a si mesmo a Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga nem coisa semelhante, mas santa e imaculada. Assim também os maridos devem amar suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Pois ninguém jamais odiou a sua própria carne; antes a nutre e a cuida, como também Cristo à Igreja; porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher; e serão dois numa só carne. Este mistério é grande; eu digo isto com referência a Cristo e à Igreja. Contudo, também vós, cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo; e a mulher respeite o seu marido.

## Comentário

E porque Deus perdoou os pecados, *sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos*, perdoando uns aos outros. Nem apenas perdoando imitai, mas também *andai no amor*, de modo que um ame o outro, *como também Cristo nos amou*; amou-nos certamente; com efeito, *entregou-se a si mesmo por nós como oferta e sacrifício a Deus em odor suave.* Na lei antiga diziam-se ofertas os pães da proposição, as luminárias e semelhantes; sacrifício (hóstia), porém, o que se imolava no altar: em Cristo, porém, oferta foram todos aqueles bens que operou até o dia da morte; hóstia foi dito quando se ofereceu a si mesmo no altar da Cruz; e aquela antiga hóstia dizia-se ser suavíssimo odor a Deus segundo o sacrifício de Cristo que prefigurava, em si, com efeito, era fétido.

Sede imitadores de Deus, não porém fornicadores; o que diz assim: *a fornicação e toda impureza* (como muitas vezes expusemos) *ou a avareza*, não digo só que não haja, mas *nem sequer se nomeiem entre vós*, isto é, não vos mostreis imprevidentemente tais que daí alguém possa ao menos mal opinar; digo: não se nomeiem entre vós, *como convém a santos*, que vós sois, a prover o bem não só diante de Deus, mas também diante dos homens. Chamando-os santos, insinua que não escreve estas coisas porque tenham pecado, mas só para que daqui em diante se provejam. A fornicação não se nomeie entre vós, *nem a torpeza, nem a conversa tola, nem a graçola* — chama torpeza os manejos e aqueles beijos com mulheres; conversa tola, nos que se esforçam por falar apropriadamente às mulheres para persuadir; graçola é pentear-se e adornar-se para agradar aos que julgam a cortesia —: graçola que *não convém*, isto é, não olha a utilidade alguma, e por isso não se nomeie entre vós; *mas antes ações de graças*, isto é, portai-vos tão honestamente que em vós deem graças a Deus os que virem os vossos bens.

Por isso estas coisas não se nomeiem entre vós, porque quem é tal não tem herança no reino de Deus; ou assim: não só por isso não se nomeiem entre vós, porque não convêm, mas também porque tiram o reino de Deus; o que diz assim: *sabei bem isto*, entendendo, isto é, discutindo com sutil inteligência, *que nenhum fornicador, ou impuro, ou avarento*, o que, a saber, ser avarento, *é idolatria*; enquanto o avarento, com efeito, ama mais o dinheiro que a Deus, faz dele para si deus; o fornicador, digo, com eles *não tem herança no reino de Cristo e de Deus.* E para que não sejais alheios à herança do reino, vede, *ninguém vos seduza com palavras vãs*, isto é, falsas e mentirosas: diz isto por causa daqueles nicolaítas, que persuadiam que a Deus não desagradam quaisquer coisas carnais. Vede que ninguém vos seduza; *pois por causa destas coisas* acima proibidas *vem a ira*, isto é, a vingança de Deus, *sobre os filhos da desconfiança*, isto é, de cuja salvação desconfiamos, ou que desconfiam da salvação de Deus; e porque por estas coisas vem a ira de Deus, *portanto não vos torneis participantes deles*, isto é, da fornicação, impureza ou avareza.

Por isso não deveis participar destas coisas, porque agora seria mais difícil pecardes do que outrora; então, com efeito, por ignorância, mas agora, prudentes, meteríeis a mão no fogo; o que diz assim: *éreis outrora*, isto é, antes da fé, *trevas*, isto é, ignorantes, *agora, porém, sois luz no Senhor*, isto é, iluminados pelo Senhor; e por isso *andai como devem andar os filhos da luz*; andai, digo, em toda *bondade* tida em vós, *e justiça* guardada para com o próximo, *e verdade*, para que digais palavras verdadeiras; por isso nestas, porque assim andar não é simples obra, mas *fruto da luz*, isto é, obra frutuosa dos iluminados. Andai como filhos da luz, *provando*, isto é, considerando provadamente *o que é agradável a Deus*; e para que façais o que lhe é agradável, *não tenhais comunhão com as obras das trevas*, isto é, dos tenebrosos; com as obras, digo, infrutuosas e inúteis não tenhais comunhão, *antes repreendei* as obras das trevas. Não deveis ter comunhão, porque *é vergonhoso até dizer*, quanto mais fazer, *o que eles fazem em oculto*: «Quem, com efeito, obra mal, odeia a luz» (Jo 3,20).

Repreendei as obras das trevas, agora assume: *tudo o que é repreendido pela luz*, isto é, é reprovado pelos iluminados, *é manifestado* pela confissão, e, ao ser repreendido, arrepende-se de ter obrado mal. E é útil se é manifestado; *tudo o que assim é manifestado pela confissão é luz*, isto é, já começa a estar na luz da justiça, quando se arrepende de ter obrado mal. Ou de outro modo: tudo o que é repreendido pela luz, como foi dito, é manifestado aos próprios que são repreendidos; antes, com efeito, ignoravam o peso do seu pecado, que pela repreensão reconhecem; *tudo o que assim é manifestado é luz*, porque no fato de já conhecer o seu pecado, de certo modo é iluminado e se aproxima da justiça. *Por isso*, para comprovar isto, a saber, que as trevas se fazem luz pela manifestação, *diz* o Espírito Santo em mim; esta autoridade, com efeito, não se encontra em outro lugar nas Escrituras; diz, digo, assim: *Desperta, tu que dormes* por ignorância no pecado, desperta pelo conhecimento do pecado ou pela confissão, e, conhecido o pecado, *levanta-te dentre os mortos*, isto é, dos pecados que geram a morte; ou então, dentre os mortos, isto é, do número dos mortos, isto é, dos pecadores, fazendo frutos dignos de penitência; *e assim, a ti que te levantas, Cristo iluminará*, infundindo a graça.

Disse acima: repreendei as obras das trevas, as quais, repreendidas, pela manifestação se fazem luz; e porque da repreensão se segue tão grande utilidade que o tenebroso se faz luz, *portanto, irmãos, repreendei as obras das trevas*; e para que repreendais livremente, *vede como andais com cautela*, isto é, que talvez não se ache em vós o que nos outros repreendeis; andai com cautela, *não como insensatos*; quem, com efeito, repreende no outro o que está em si, age insensatamente, enquanto o que lhe desagrada no outro agrada-lhe em si; não como insensatos, *mas como sábios*, isto é, purgando primeiro a consciência, e então repreendendo livremente os males do próximo; andai, digo, com cautela; vós, digo, *remindo o tempo.* Segundo o bem-aventurado Gregório, remir o tempo é lavar com lágrimas os males passados; quando obramos mal, com efeito, perdemos o tempo; quando, porém, os males que fizemos emendamos pela penitência e daí em diante obramos bem, remimos o tempo perdido. Ou então, remindo, isto é, preparando para vós o tempo; remimos, com efeito, o tempo quando nos preparamos idôneos para fazer o que é bom; assim como quem obra mal perde o tempo, assim quem obra bem tem o tempo, mas não o remi; mas, preparando-se para ser idôneo para obrar bem, por estas preparações diz-se remir o tempo.

Vede como andais com cautela, e remi o tempo, *porque os dias são maus*, isto é, os homens nestes dias são maus: e por isso, porque os dias são maus, *não sejais imprudentes*, isto é, repreendendo imprevidentemente, *mas entendei*, isto é, corrigindo os males do próximo por inteligência e astúcia; entendendo, digo, *qual é a vontade de Deus*; a vontade de Deus, com efeito, é condescender humildemente com o próximo antes que o atemorizar com excessiva aspereza. Não sejais imprudentes; *e não vos embriagueis com vinho, no qual vinho há, com a embriaguez, luxúria*; mas embriagai-vos do Espírito Santo; o que diz assim: *enchei-vos do Espírito Santo, falando entre vós*, isto é, com inteligência do que proferis: falando, digo, *em salmos.* Salmo diz-se aquele canto que se faz com movimento de mãos naquele instrumento que se chama saltério; por isso diz: falando em salmos, isto é, nas coisas que pertencem à instrução da mortalidade; *falando em hinos.* Hino diz-se louvor de Deus com canto; hinos chama aqui ou louvores de Deus ou feitos dos santos igualmente para glória de Deus. *Falando também em cânticos espirituais.* Cântico diz-se exultação pelo bem celeste, e por isso diz espirituais; cânticos de que sobretudo usam os monges, agindo ali no desejo da bem-aventurança futura. Não só falando com inteligência os salmos, hinos, cânticos, mas também operando o que falam, o que diz assim: *cantando em hinos e cânticos, e salmodiando*, isto é, obrando bem em salmos — cantar em hinos e cânticos é operar segundo o seu modo —; cantando, digo, e salmodiando *ao Senhor em vossos corações*, isto é, por amor, não como coagidos; *dando graças sempre* a Deus e Pai, que [vos] criou e ama; graças, digo, *por tudo*, adversidades ou prosperidades; dando, digo, *em nome*, isto é, para glorificar o nome *de nosso Senhor Jesus Cristo*; vós, digo, *sujeitos uns aos outros no temor*, isto é, no amor *de Cristo.*

Depois de dar estes preceitos em público, admoesta separadamente os sexos e condições, como devem coabitar uns com os outros. A letra liga-se assim: digo, sede sujeitos uns aos outros; mas as mulheres, de outro gênero de sujeição, *sejam sujeitas a seus maridos*: sujeitas *como ao Senhor.* Sejam sujeitas aos maridos como ao Senhor, *porque o marido é a cabeça*, isto é, o regente e o princípio *da mulher*, *como Cristo é a Cabeça da Igreja*, governando a que formou do seu lado: assim como, com efeito, da costela do varão a mulher, assim do lado de Cristo a Igreja. O próprio Cristo também é *o Salvador do seu corpo*, isto é, da Igreja; ele a salva; o marido, porém, pode reger a mulher, mas não pode salvá-la; e embora nisto difiram, que Cristo salva a Igreja, o marido não salva a mulher, nem por isso seja menor a sujeição, *mas, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres a seus maridos em tudo* o que convém.

Sejam as mulheres sujeitas aos maridos; vós, porém, *maridos*, não digo, sede sujeitos às mulheres, mas *amai vossas mulheres*; e não pouco, mas *como Cristo amou a Igreja*: amou certamente; *com efeito, entregou-se a si mesmo* à morte *por ela, para a santificar* dos pecados, *purificando-a no lavacro da água*; aqui mostra a água necessária à ablução; purificando, digo, *pela palavra*; palavra diz a proferição da Trindade; palavra, digo, *de vida*, isto é, na qual palavra se recebe a vida da justiça; ou então, pela Palavra de vida, isto é, Cristo, que no batismo nos restitui a vida da justiça. Santificou-a *para apresentar a si mesmo*, no dia das núpcias, *a Igreja gloriosa* pelo decoro das virtudes, *sem mancha*, isto é, algo criminoso, *nem ruga*, isto é, dolosidade, *nem coisa semelhante*, que ou pareça mancha ou dolo, *mas santa* pela posição das virtudes e *imaculada* pela remoção dos vícios.

Como Cristo à Igreja, assim amem os maridos as mulheres; assim devem também amar *como a seus próprios corpos*: na verdade como os corpos; *quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo*; a mulher, com efeito, é carne do marido, e por isso deve amá-la: *ninguém, com efeito, jamais odiou a sua própria carne; antes a nutre* com alimentos e *a cuida* com vestes: os mártires também, que entregaram suas carnes ao fogo, dizem-se ter amado a carne, enquanto quiseram fazê-la sofrer por uma hora, para que assim repousasse eternamente; como o enfermo que entrega sua carne ao médico para queimar e cortar, a fim de que pela aspereza de um dia tenha por longo tempo a sã quietude do corpo —; nutre, digo, e cuida, *como Cristo à Igreja*, a saber, a nós que somos a sua Igreja. Por isso nos nutre, sua Igreja, *porque somos membros do seu corpo* de Cristo, isto é, da Igreja: nós, digo, existentes alguns *da sua carne*, estes são os fracos, menos fortes na Igreja; outros, porém, existentes *dos seus ossos*, isto é, dos mais robustos na Igreja. Cristo teve carne, segundo cuja fraqueza se entediava e temia; teve ossos, isto é, razão, segundo a qual dizia: «O espírito está pronto» (Mt 26,41); assim hoje na Igreja alguns se dizem carne, alguns ossos. Nesta palavra também nos remete à primeira criação, quando Adão, vendo Eva criada, disse: «Este agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Gn 2,23).

*Por isso*, porque a esposa é carne do marido, *o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher; e serão dois*, marido e esposa, *numa só carne.* Embora o homem seja carne do pai e da mãe, em cuja carne teve origem, mais se diz a mulher carne do marido, tanto segundo a natureza da criação, em que a mulher foi formada do varão, quanto segundo a força daquela conjunção em que admiravelmente passam à unidade da carne, a ponto de dizerem os físicos que, se o sangue do marido e da mulher, que carnalmente se misturaram, for posto no mesmo vaso, mistura-se indivisivelmente; se, porém, o sangue dos que não tiveram relação for igualmente posto, não se mistura assim, mas o sangue do marido por si e o da mulher permanecem como antes ou depois foram postos. Porque são uma só carne, o marido deve amar a esposa; além disso, porque *este mistério* (isto é, "deixará o homem pai", etc.) *é grande*, isto é, sacramento de grande coisa: o que diz "deixará o homem o pai" significa o Filho de Deus ter deixado o Pai, enquanto ele, pela natureza da Deidade invisível como o Pai, se mostrou visível sob a forma de servo. Deixou ainda a mãe, isto é, a Sinagoga, em que fora nutrido, *e se uniu à sua mulher*, isto é, à Igreja, que desposou para si com o anel da fé. Este, digo, é o sacramento; *eu, porém, digo* que a realidade deste sacramento existe *em Cristo e na Igreja*, como foi dito. Se toda outra causa no matrimônio cessasse, deveria, contudo, celebrar-se só pela dignidade da coisa de que é figura. Mas, embora a realidade deste sacramento esteja só em Cristo e na Igreja, não no homem e na mulher, *contudo, também vós, cada um*, não aquele a mulher do próximo, mas cada um *ame a sua como a si mesmo*; *e a mulher* não só ame, mas também *respeite o seu marido.* Assim se hajam os maridos para com as esposas, e as esposas para com os maridos.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor; pois isto é justo. Honra teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa: para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a terra (Ex 20,12; Dt 5,16). E vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos; mas educai-os na disciplina e correção do Senhor. Servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na simplicidade do vosso coração, como a Cristo; não servindo só à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo com boa vontade, como ao Senhor e não aos homens; sabendo que cada um, seja servo ou livre, receberá do Senhor o bem que tiver feito. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças; sabendo que o Senhor deles e vosso está nos céus, e que para ele não há acepção de pessoas. Quanto ao mais, irmãos, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às ciladas do diabo. Pois a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos da maldade nas regiões celestes. Por isso tomai a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e, vencido tudo, permanecer firmes. Ficai, pois, firmes, cingidos os vossos lombos com a verdade, revestidos da couraça da justiça, calçados os pés na preparação do Evangelho da paz; em tudo tomando o escudo da fé, com o qual possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; e tomai o capacete da salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus); orando em todo tempo, com toda oração e súplica, no espírito; e velando nisto com toda a instância e súplica por todos os santos; e por mim, para que me seja dada a palavra ao abrir a minha boca, com confiança, para fazer conhecer o mistério do Evangelho, pelo qual desempenho uma embaixada em cadeias, de modo que nele ouse falar como convém. Para que também vós saibais o que se passa comigo e o que faço, tudo vos fará saber Tíquico, irmão caríssimo e fiel ministro no Senhor; o qual enviei a vós para isto mesmo, para que saibais o que se passa conosco e para que consolem os vossos corações. Paz aos irmãos, e caridade com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em incorrupção. Amém.

## Comentário

Segue: *também vós, filhos, obedecei a vossos pais*, de modo, contudo, *no Senhor*; nas coisas que são contra a fé, com efeito, não se devem ouvir os pais; obedecei, digo, *pois isto é justo*, isto a saber: *honra teu pai e tua mãe*; mandamento que é o primeiro na segunda tábua. Duas tábuas foram dadas a Moisés. Na primeira foram postos três mandamentos pertencentes a Deus, a saber, amarás o teu Deus, e adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás; e não tomarás em vão o nome do teu Deus, etc. Na segunda tábua foram postos sete mandamentos, pertencentes aos homens; este, porém, "honra teu pai", etc., foi anteposto aos outros seis. Este mandamento foi também dado *com promessa*, porque logo depois do mandamento se acrescentou a promessa do mandamento, esta a saber, *para que te vá bem* a ti que honras o pai, *e vivas muito tempo sobre esta terra*, e na verdadeira terra da promessa vivas muito, porque permanente.

Os filhos obedeçam aos pais; e vós, *pais, não provoqueis à ira os vossos filhos*; mas *educai-os na disciplina*, ensinando-lhes o que devem aprender, *e correção*, para que, se pecarem, os corrijais como convém; disciplina e correção, digo, *do Senhor*, isto é, feitas segundo o Senhor.

Filhos, obedecei aos pais; também vós, *servos, obedecei a vossos senhores*, mesmo carnais; obedecei, digo, *com temor* do ânimo *e tremor* do corpo; *e na simplicidade do vosso coração*, isto é, sem toda dolosidade obedecei a eles, *como a Cristo obedeceríeis*; vós, digo, *não servindo só à vista*, isto é, de modo a serdes devotos diante do rosto do senhor e atrás soberbos; digo, não servindo à vista, *como para agradar aos homens*, mas *como servos de Cristo*, *de coração*, não coagidos, *fazendo a vontade de Deus*, isto é, como seria bom para vós fazer a vontade de Deus, assim sejais servindo-os *com boa vontade, como ao Senhor e não aos homens.* Por isso diz "como ao Senhor", pois, tendo sido feitos servos por pecado seu ou dos pais, se tolerarem pacientemente esta pena do pecado, parecem obedecer mais a Deus que ao homem, que os reduziu a esta condição por causa do pecado. Servi-os como ao Senhor, *sabendo que cada um, seja servo ou livre, receberá do Senhor* que remunera *o bem que tiver feito.*

Servos, obedecei aos senhores; e vós, *senhores, fazei o mesmo para com eles*, não que os sirvais, mas que piedosamente remuneréis os trabalhos deles; fazei o mesmo para com eles, *deixando as ameaças*, isto é, não os vexeis com ameaças, *sabendo que o Senhor deles e vosso é o mesmo, nos céus*, e sabendo que *para Deus não há acepção de pessoas*; não ama menos o servo que o livre, contanto que seja bom.

Depois de ter feito admoestações singulares aos sexos e condições, volta à admoestação comum da Igreja, temendo a falta deles e sabendo que não veriam mais o seu rosto: assim se hajam os filhos para com os pais, os servos para com os senhores, e vice-versa; *vós*, porém, *irmãos*, em comum, *quanto ao mais*, isto é, no futuro, *fortalecei-vos*, isto é, sede fortes *no Senhor*; e para vos fortalecerdes, estai *na força do seu poder*, isto é, sede poderosos pela virtude dele. Virtude chama aqui as armas que seguem, com que são poderosos contra os inimigos: e para serdes fortes e poderosos, *revesti-vos da armadura de Deus*, para que, revestidos das armas de Deus, possais à maneira dos que pelejam *resistir às ciladas do diabo*, isto é, ao diabo que vos arma ciladas; e para que nesta luta não sejais negligentes, *porque a nossa luta não é contra a carne e o sangue*, isto é, contra um inimigo visível: onde diz luta, insinua que a peleja é de perto; *mas é contra os principados*, isto é, os espíritos malignos que presidem também a outros espíritos, *e contra as potestades*, isto é, os espíritos que têm poder sobre os príncipes, *e contra os dominadores deste mundo*, não que regem este século, mas *dominadores deste mundo de trevas*, isto é, destes tenebrosos nos pecados; a estes, com efeito, só, não a outros, regem. E a nossa peleja é *contra os espíritos*, isto é, contra inimigos invisíveis; espíritos, digo, *da maldade*, nequíssimos, com efeito, são estes espíritos. Esta peleja é *nas regiões celestes*, isto é, não por coisas terrenas, mas para tirar-vos as alegrias celestes; ou então, segundo Agostinho, contra os espíritos que habitam nas regiões celestes, isto é, no ar. E por isso, porque a peleja é contra príncipes e espíritos, *tomai por isso a armadura espiritual de Deus*, isto é, as virtudes, para que por estas armas possais *resistir no dia mau*, isto é, neste tempo, que se diz dia mau porque nele os santos são afligidos por tentações; e não só resistir, mas também possais *permanecer firmes*, consumada a justiça; permanecer, digo, *em tudo*, tanto nas adversidades quanto nas prosperidades.

E porque nesta peleja a armadura de Deus é necessária, *portanto tomai o cinto, a couraça, o escudo*, etc.; o que diz assim: ficai na peleja, *cingidos os vossos lombos*, isto é, tendo cinto nos lombos, com que se reprima a luxúria; cingidos, digo, *com a verdade*, para que talvez não simuleis por fora a castidade e tenhais por dentro a lascívia; ou então, cingidos os lombos na caridade, porque o amor de Deus seja cinto dos lombos, mortificando em nós a luxúria. Ficai também *revestidos da couraça da justiça*, isto é, seja-vos a justiça couraça, recebendo sem lesão quaisquer golpes. Não diz que a verdade é cinto dos lombos e a justiça couraça porque não fosse bom dizer o inverso. Ficai também *calçados os pés*, isto é, tendo bem munidas as vossas afeições, não digo só no Evangelho, mas também *na preparação do Evangelho*, para que primeiro mostreis em vós o que a outros evangelizareis; esta preparação, com efeito, é boa: *do Evangelho da paz*, digo, isto é, pelo qual se reforma a paz entre Deus e o homem. Calçados os pés, digo, vós, *tomando em todas as impugnações o escudo da fé*, isto é, a fé, escudo e proteção para vós; *com o qual escudo da fé possais apagar todos os dardos inflamados daquele nequíssimo adversário.* Tomai também *o capacete da salvação*, isto é, seja-vos a esperança e o desejo da salvação eterna capacete, com que envolvais a cabeça; assim como a cabeça é o membro mais digno, assim a salvação futura é respeito mais digno. Tomai também *a espada do Espírito Santo*, que é, isto é, esta espada é a palavra de Deus; e com esta espada, a saber, a palavra de Deus, são feridos os inimigos, e caem. Vós, digo, *orando com toda*, isto é, por toda sorte de oração *e toda súplica* — oração diz-se, como simplesmente, Deus, ajuda-me; súplica, quando com adjuração, como: pela tua Paixão, livra-nos, Senhor —; orando, digo, *em todo tempo*, não só com a língua, mas *no espírito*, isto é, de coração. *E nisto*, isto é, no orar, *sede vigilantes com toda a instância e toda súplica feita por todos os santos*; feita também *por mim*, para que *me seja dada a palavra ao abrir a minha boca*, isto é, para que à boca aberta se acomode a graça da palavra; e para que me seja dada *com confiança* a fazer conhecer *o mistério*, isto é, o segredo *do Evangelho*, para revelar o qual mistério *desempenho uma embaixada posto em cadeias*: de modo que me seja dada com confiança, para que ouse falar no próprio Evangelho *como convém.*

Como não irei mais a vós, sobre o que vos convém fazer assim vos ensinei; *para que, porém, também vós saibais* as tribulações que se passam comigo, e o que faço nelas, *Tíquico, irmão caríssimo e fiel ministro no Senhor, tudo vos fará saber*; esse Tíquico *enviei a vós para isto mesmo*, para que saibais por ele o que se passa conosco e *para que consolem os vossos corações* ao ouvirdes que padeço pelo nome de Cristo, por quem todo fardo é leve, todo jugo suave de levar. Este Tíquico foi aquele por quem enviou esta Epístola, pretendendo por ambos consolá-los.

*Aos irmãos seja paz e caridade com fé*, isto é, e a fé, *da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo*; amam, digo, *em incorrupção*, isto é, na integridade do amor. Dito por semelhança com a esposa que prova amar o marido enquanto lhe reserva a sua integridade. Ou assim: a graça seja com eles na incorrupção, isto é, na esperança da incorrupção, isto é, da vida eterna. *Amém.*

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# Epístola aos Filipenses



# Prólogo

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

Filipos é uma cidade da Macedônia; daí os filipenses. Estes eram do número daqueles que Paulo, na segunda Epístola aos Coríntios, tanto engrandeceu, dizendo: «Primeiro se entregaram a si mesmos; depois, o que era seu» (2Cor 8,5). Paulo havia permanecido algum tempo entre estes filipenses, pregando-lhes a palavra de Deus, e por meio dele receberam a fé de Cristo; confirmados eles nos mandamentos de Deus, partiu de junto deles. Mas, estando ele em Roma em cadeias, por causa da ausência e da tribulação do pastor, os perseguidores da justiça e os falsos apóstolos, corruptores da verdade, julgaram ter-se-lhes dado a oportunidade de assaltar os filipenses que Paulo instruíra: para que, de um lado, cedessem mais facilmente à perseguição por causa da aflição e do desprezo do mestre, e para que, de outro, os falsos apóstolos pervertessem mais oportunamente a fé deles, ausente Paulo que os confirmasse. Percebendo Paulo ambas as lutas, a dos perseguidores e a dos falsos doutores, escreveu-lhes esta Epístola, na qual trata daquela dupla luta dos perseguidores e dos falsos doutores, de modo a provar que devem sofrer de bom grado a perseguição pela fé de Cristo, quando ouvem que o seu Apóstolo se alegra nas cadeias, ele que foi tido por digno de sofrer afronta pelo nome de Jesus; quando sabem, ainda, que Jesus padeceu pela salvação deles. Por estas e outras causas recomenda-lhes a paciência com a humildade. De novo, a doutrina desses falsos apóstolos rebaixa-a a tal ponto que a chama esterco; e dá muitas razões pelas quais não devem ser escutados. E, tratando desse modo de ambas as lutas, pretende armá-los por esta Epístola neste combate, para que nem cedam à perseguição nem consintam no erro.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos. Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças ao meu Deus em toda a lembrança de vós, sempre, em todas as minhas orações por todos vós, fazendo com alegria a súplica, pela vossa comunhão no Evangelho de Cristo, desde o primeiro dia até agora; confiando nisto mesmo: que aquele que começou em vós a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus; como é justo que eu sinta isto a respeito de todos vós, porque vos tenho no coração, e que, tanto nas minhas cadeias como na defesa e confirmação do Evangelho, todos vós sois companheiros da minha alegria. Pois Deus me é testemunha de como vos desejo a todos nas entranhas de Jesus Cristo. E isto peço: que a vossa caridade abunde mais e mais em ciência e em todo discernimento, para que aproveis o melhor, para que sejais sinceros e sem ofensa para o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. Quero, porém, que saibais, irmãos, que as coisas que me sucederam redundaram antes em proveito do Evangelho, de modo que as minhas cadeias se tornaram manifestas em Cristo em todo o pretório e em todos os demais lugares; e que a maior parte dos irmãos no Senhor, confiando nas minhas cadeias, com mais ousadia, sem temor, falam a palavra de Deus. Alguns, na verdade, pregam a Cristo por inveja e contenda; outros, porém, por boa vontade; uns por caridade, sabendo que fui posto para a defesa do Evangelho; outros anunciam a Cristo por contenda, não sinceramente, julgando suscitar aflição às minhas cadeias. Que importa? Contanto que de toda maneira, por pretexto ou por verdade, Cristo seja anunciado, nisto me alegro, e me alegrarei também. Pois sei que isto me resultará em salvação, pela vossa oração e pela assistência do Espírito de Jesus Cristo, segundo a minha expectativa e esperança, de que em nada serei confundido, mas com toda a confiança, como sempre, também agora Cristo será engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Pois para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Mas se o viver na carne é para mim fruto de trabalho, não sei o que escolher. Estou, porém, em aperto entre as duas coisas: tenho o desejo de ser desatado e estar com Cristo, o que é muito melhor; mas permanecer na carne é necessário por causa de vós. E, confiando nisto, sei que ficarei e permanecerei com todos vós, para vosso proveito e gáudio da fé, a fim de que seja abundante em Cristo Jesus a vossa exultação por mim, pela minha nova vinda a vós. Somente vivei de modo digno do Evangelho de Cristo, para que, quer eu vá e vos veja, quer ausente ouça falar de vós, saiba que permaneceis firmes em um só espírito, unânimes, combatendo juntos pela fé do Evangelho; e em nada sejais atemorizados pelos adversários; o que para eles é causa de perdição, para vós, porém, de salvação, e isto da parte de Deus; porque vos foi concedido por Cristo, não somente crer nele, mas também padecer por ele; tendo o mesmo combate que vistes em mim e agora ouvis de mim.

## Comentário

*Paulo*, etc. Não pôs aqui os títulos de dignidade, sabendo que os filipenses não duvidavam do apostolado de Paulo, a quem confessavam como mestre e Apóstolo seu, enquanto, conforme Paulo lhes transmitira, obravam na fé; mas, pretendendo recomendar-lhes a humildade com a paciência, inseriu o nome de humildade, dizendo-se *servo*; por isso diz: *Paulo e Timóteo.* Não acrescentou Timóteo por ter escrito a Epístola com Paulo, mas porque consentiu com Paulo na mesma vontade; também porque, como indica nas passagens seguintes, estava para lhes enviar em breve Timóteo; a quem, para que lhe obedecessem em tudo, convinha prefixar a recomendação de Paulo. *Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo*: assim também vós guardai a servidão de Cristo, sofrendo com toda humildade; Paulo, digo, e Timóteo escrevem *a todos os santos que estão em Filipos*; santos, digo, *em Cristo Jesus*, isto é, na fé de Cristo Jesus santificados e confirmados. Onde diz "a todos os santos", entende a comunidade da Igreja, isto é, os súditos; a quem na mesma saudação junta os prelados, dizendo: escrevem a todos os santos, isto é, aos súditos, *com os bispos*, isto é, e com os bispos e diáconos da mesma Igreja. Aqui por bispos entendemos os presbíteros, pois na mesma cidade não se deve pensar que houvesse vários bispos; ou, se Filipos fosse uma região com diversas cidades, seria absurdo passar dos bispos aos diáconos, omitidos os presbíteros; nem é absurdo que os sacerdotes se digam bispos, pois, segundo Agostinho, qualquer pai de família, porque superintende a casa, pode dizer-se bispo. Paulo, digo, e Timóteo escrevem assim: *Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo*, como muitas vezes foi exposto.

Aqui, de início, trata misturadamente de ambas as lutas, recomendando-lhes a humildade com a paciência, até o ponto mais abaixo em que diz "quero que saibais", etc.; como se dissesse: ouvindo a vossa fé e paciência, *dou graças ao meu Deus*, isto é, ao que me favorece bem em vós — dizemos nosso o Deus quando piedosamente concede o que pedimos —; *dou graças*, digo, *em toda a lembrança de vós*, porque, quantas vezes ouço algo de vós (porque são dignos da fé de Cristo), dou graças a Deus, não em alguma, mas em toda lembrança de vós, ouvindo bem em tudo a vosso respeito; graças, digo, dou a Deus em toda a lembrança de vós, *fazendo a súplica por todos vós*, porque ninguém se faz indigno da minha intercessão; e isto *com alegria*: se pecassem, rogaria por eles, sim, mas em tristeza; porque, porém, são perfeitos, resta que ore por eles com alegria. *Fazendo*, diz, *a súplica em todas as minhas orações*; nunca, com efeito, oro que vos omita: orações, digo, não raras, mas *sempre*, isto é, continuamente celebradas. Dou, digo, graças *pela* (isto é, por causa da) *vossa comunhão* mostrada *no Evangelho de Cristo*; comungastes, com efeito, no Evangelho de Cristo, crendo tão logo ouvistes, fazendo também as obras da fé, e pregando a outros comigo a fé de Cristo. Ou assim: dou graças pela vossa comunhão, isto é, por terdes exibido os vossos bens comuns a todos os santos; comunhão, digo, feita *no Evangelho*, isto é, segundo o Evangelho de Cristo; porque vós primeiro vos entregastes a Deus, depois o que era vosso aos santos, e no Evangelho por estas e todas as coisas cumprindo os preceitos: comunhão, digo, começada *desde o primeiro dia* da vossa conversão *até agora*, isto é, até o dia presente.

Dou graças, fazendo por vós a súplica; e *isto mesmo*, isto é, como peço, confiando que obterei por inteiro; não, porém, por vossa virtude, mas confiando porque Deus, *que começou em vós a boa obra, a aperfeiçoará* ele mesmo — por isso diz "começou" e "aperfeiçoará", e, como acima, "dou graças", para mostrar que o princípio e o fim da sua justiça são inteiramente da graça de Deus; por isso diz também "confiando", porque, se a piedade de Deus começou o bem nos que eram maus, muito mais se deve crer que, nos que já são justos, levará a termo a consumação —: aperfeiçoará, digo, *até o dia de Cristo Jesus.* Na morte de cada um, quanto a quem morre, começa o dia de Cristo; daí por diante, com efeito, nada faz além da vontade de Cristo, ele que, enquanto vivia, teve o seu dia, fazendo o bem ou o mal que quis. Ou, se por dia de Cristo entendemos o dia do juízo, então será para a prova, assim: aperfeiçoará em vós a boa obra *até*, isto é, fazendo-o assiduamente nos justos até o dia de Cristo Jesus, isto é, enquanto o mundo durar.

Confiando e fazendo tão grande súplica *como é justo*, isto é, não peço menos por vós do que exige a vossa justiça e a benignidade com que me recebestes honrosamente; é justo, digo, para mim, que a ninguém sou ingrato de benefício, mas benignamente retribuo; assim como, digo, é justo que eu não só suplique, mas *sinta isto a respeito de* vós; sinto, com efeito, a vossa tribulação por força de compaixão, como se a sofresse na minha carne; *a respeito de todos vós*, digo, porque todos sois perfeitos. Digo e sinto isto *porque vos tenho* não só nos lábios, mas no próprio *coração*; atribulo-me, com efeito, interiormente pelas vossas tribulações. Tenho-vos no coração, quer esteja *nas cadeias*, quer *na defesa*, quer posto *na confirmação do Evangelho*: nas minhas cadeias tenho-vos no coração, lembrando que sofreis perseguição como eu. E na defesa do Evangelho, isto é, em que defendo a fé contra os falsos apóstolos que procuram pervertê-la, tenho-vos no coração, lembrando que vós pelejais com os falsos apóstolos para defender a vossa fé. Por cadeias e defesa, fazendo menção de ambas as suas lutas, conforta-os em ambas. Tenho-vos também no coração na confirmação do Evangelho, isto é, quando aos simples cristãos confirmo a sua fé pelas Escrituras e o mais, lembro-me de que vós igualmente confirmais a fé dos simples. E, assim como me lembro das vossas tribulações, sede também vós participantes da minha humildade; inútil é, com efeito, a paciência que a humildade não acompanha. Tais como vos tenho no coração, espero que todos sejais *companheiros da minha alegria*, da minha remuneração no gáudio eterno; assim como da minha tribulação, com efeito, assim sereis participantes do gáudio.

Verdadeiramente vos tenho no coração; *Deus*, com efeito, *me é testemunha de como*, isto é, com quão infinito desejo eu desejo que todos vós estejais, não nos pés de Cristo, mas *nas entranhas de Jesus Cristo*, isto é, não nos inferiores, mas entre os mais amados de Deus, que se dizem as suas entranhas. E porque assim desejo por vós, por isso *peço isto*, que a vossa caridade, progredindo mais, *abunde*, temperada *em toda a ciência*, isto é, em toda sorte de discrição. A ciência é necessária à caridade porque, se esta for sem discrição, muitas vezes abominará de tal modo algo venial no próximo que, repreendendo intemperadamente, suscitará litígio ou algum crime maior, quando, se agisse discretamente, melhor corrigiria o próximo pela brandura; por isso diz: a caridade abunde em toda a ciência. E porque alguns que têm ciência muitas vezes se esquecem dela no ato, acrescenta: *e em todo discernimento*, isto é, em toda atenção, para que sempre atentemos de memória e tenhamos a ciência à mão. Abunde de modo que não só *aproveis*, os bens dos males, mas também escolhais probamente *o melhor*, isto é, dos bens os melhores; aproveis de modo que *sejais sinceros*, isto é, puros em vós, *e sem ofensa* para o próximo, indo assim *para o dia de Cristo*, de modo que nada se ache em vós por purificar no dia do juízo: vós, digo, *cheios* então, no dia de Cristo, *do fruto*, isto é, da remuneração *da justiça* que aqui tivestes; cheios, digo, *por Jesus Cristo*, distribuidor daquele fruto: da justiça, digo, tida *para glória e louvor de Deus*, isto é, de modo que se diga em vós: glorioso e louvável o Senhor em seus santos. Ou assim: sejais tais para o dia de Cristo; vós, digo, entretanto, enquanto viveis, cheios não da justiça, que não tenha faculdade de operar, mas *do fruto*, isto é, das obras da justiça, para que tanto a justiça quanto as obras da justiça vos sejam em uso: cheios, digo, *por Jesus Cristo*, de quem vem toda justiça; e isto *para glória e louvor de Deus*, isto é, para que a Deus atribuais tudo e a vós nada. Glória de Deus diz-se a claridade da Deidade; louvor de Deus entendemos nas coisas que vemos com os olhos corporais. *Sinceros*, se compomos de *sin* e *cera*, alonga-se a sílaba do meio, o nominativo singular *sincerus* tem dois plurais, *sinceri* e *sinceres*, como *diaconus*, *diaconi* e *diacones*: se, segundo Isidoro, compomos de *sine* e *carie*, abrevia-se a sílaba do meio, e no singular carece.

Até aqui tratou misturadamente de ambas as lutas; aqui separadamente começa a luta dos perseguidores, dizendo: ouvindo bens de vós, dou graças; suplico com alegria, confiando de vós: eu assim ajo; *quero, porém, que saibais, irmãos*, as coisas que me sucederam — notifica-lhes isto para que pelo seu exemplo os induza à paciência e à humildade —; *quero*, digo, *que saibais* que *as coisas que me sucederam* (*circa*, porque de todos os lados me cercam os males; ou *circa*, porque por fora, no corpo, sou afligido, mas por dentro, na alma, congrego forças): as coisas, digo, que me sucederam *redundaram antes em proveito do Evangelho* do que em detrimento; como eles mesmos pensavam que, atado Paulo, estaria atada a palavra de Deus; redundaram em proveito, *de modo que as minhas cadeias*, isto é, a utilidade das minhas cadeias, *se tornaram manifestas em Cristo*, isto é, na magnificação do nome de Cristo; manifestas, digo, *em todo o pretório e em todos os demais lugares*, isto é, entre os príncipes e entre os inferiores: ainda que, com efeito, nem por toda parte se saiba que Paulo está em cadeias, a utilidade das suas cadeias, contudo, difunde-se por toda parte, enquanto a fé de Cristo, por ele dilatada, é pregada por toda parte. Ou assim: redundaram em proveito, de modo que as mesmas cadeias se tornassem manifestas em Cristo, isto é, as que eu padecia por Cristo; manifestas, digo, em todo o pretório e em todos os demais lugares; por toda parte, com efeito, diziam: Vede a constância de Paulo, que mesmo em cadeias não cessa de pregar a fé de Cristo. Tornaram-se manifestas de modo que *a maior parte dos irmãos, confiando no Senhor nas minhas cadeias*, isto é, por causa das minhas cadeias, em que, posto, pregava audazmente, confiados no meu exemplo, ousassem *mais abundantemente falar sem temor a palavra de Deus* aos gentios, eles que antes, por temor, não ousavam.

Estes são os bons irmãos; mas *alguns, na verdade*, isto é, distintos dos bons, porque [perversos], pregam perversamente a Cristo, *por inveja*, porque querem diminuir o nome de Paulo, em quem a palavra de Deus não está atada. E, se não julgam poder usurpar para si o louvor de Paulo, pregam também *por contenda*, esforçando-se por se igualar a Paulo no louvor da pregação. *Outros*, porém, que são bons, *pregam a Cristo* ainda que não sofram tribulação, *por boa vontade* tida para com todos, que quereriam que todos os homens viessem ao conhecimento da verdade. *Alguns* também, igualmente bons, *por caridade*, isto é, por privada afeição que têm para comigo, pregam a Cristo, *sabendo que fui posto para a defesa*, isto é, por causa da defesa do Evangelho; ou assim: sabendo que fui posto, isto é, ordenado por Deus para a defesa, isto é, para defender o Evangelho. Esses pregavam por privada caridade, dizendo: o nosso amado Paulo, porque está atado, não pode agora instruir as suas Igrejas, suplamos a sua vez, para que talvez os falsos apóstolos não destruam o que ele edificou; e assim a dileção carnal era para proveito do Evangelho. *Alguns*, porém, perversos, como aqueles por privada caridade, assim estes *por contenda*, isto é, por privado ódio, *anunciam a Cristo não sinceramente*, isto é, não em pureza, *julgando suscitar* deste modo *aflição às minhas cadeias*, isto é, a mim posto em cadeias: esses perversos, com efeito, haviam disputado com Paulo, e Paulo os vencera; agora, porém, pregavam o que dele tinham ouvido, para que, quando lhes dissessem: por que pregais as palavras dele, a saber, do condenado Paulo?, dissessem: isto não é de nós, mas assim o recebemos dele, ele leve a pena disso; e com estas palavras os infiéis, concitados, mais veementemente se enfureciam contra Paulo.

Objetaria alguém ao que acima disse, "as minhas cadeias redundaram em proveito do Evangelho": nos bons, que animados pelo teu exemplo pregaram, aproveitaram, sim; mas nos que por inveja e contenda pregavam, as tuas cadeias nada aproveitaram. A isto Paulo: aproveitaram também nesses; *que importa*, com efeito, *contanto* (isto é, somente) *que Cristo seja anunciado de toda maneira*, a saber, *seja por pretexto* de me suscitar aflição, como fazem os falsos apóstolos, *seja por verdade*, como anunciam os bons? Eu não me importo quem seja o que anuncia, somente que os ouvintes progridam na fé; alegro-me de que Cristo seja anunciado por pretexto, e nisto me alegro de que me suscitem aflição, *e me alegrarei* não só agora, mas sempre, no mesmo. Em Deus me alegro e me alegrarei; *sei*, com efeito, *que isto*, isto é, que a aflição me é suscitada, *me resultará em salvação, pela vossa oração* que intercede por mim, *e pela assistência*, isto é, pelo amparo e sustentáculo *do Espírito*; assim como a coluna posta no meio sustenta a casa para que não caia, assim o Espírito me ampara; Espírito, digo, *de Jesus Cristo*, isto é, que Cristo dá, por quem padeço; resultará, digo, em salvação *segundo a minha expectativa e esperança*, isto é, conferindo não menos salvação do que espero e aguardo — expectativa diz-se longanimidade em sustentar, sem certeza, porém; esperança, porém, é aguardo certo —; por isso segundo a esperança, *porque em nada serei confundido*, isto é, não me envergonharei em coisa alguma, de modo que eu desfaleça no Evangelho de Cristo por causa da tribulação iminente. Não serei confundido, mas, *como sempre*, isto é, no passado foi engrandecido, assim também agora, isto é, no futuro será engrandecido Cristo, não só na alma, mas também na parte mais frágil, *no meu corpo.* Será engrandecido certamente, *seja pela vida, seja pela morte*, isto é, na vida do corpo e na morte. Devo engrandecer a Cristo pela vida, *pois para mim o viver é Cristo*, isto é, eu não vivo para outra coisa senão para engrandecer a Cristo. Devo engrandecê-lo pela morte; *pois o morrer é para mim lucro*, isto é, para morrer, tomando o próprio Cristo, lucro, se por Cristo morro. Ou assim: pela morte devo engrandecer a Cristo; pois morrer é para mim lucro, isto é, na morte lucro eu, recebendo nos céus a retribuição dos meus trabalhos: e, sendo o morrer lucro para mim, resta que eu escolha a morte.

Sentença adversa: mas, ainda que morrer seja lucro, *viver na carne é para mim fruto de trabalho*, isto é, que pela vida Cristo será engrandecido; e porque morrer é para mim lucro de tão grande bem-aventurança, e viver na carne é para mim fruto de engrandecer a Cristo, *eis* (isto é, vede) *não sei o que escolher* destas duas coisas, a vida ou a morte. Por isso não sei, porque *estou em aperto*; ou então, não só não sei, mas estou também em aperto, *tendo o desejo* entre as duas coisas, isto é, de *ser desatado* e de permanecer na carne; mas ser desatado e estar com Cristo é muito melhor, quanto a mim; *permanecer, porém, na carne é necessário por causa de vós*, para que Cristo seja engrandecido por mim em vós. E *confiando nisto*, isto é, que serei necessário e útil, *sei que ficarei*, e também permanecerei longamente *com todos vós, para vosso proveito e gáudio da fé*, isto é, para que vos alegreis do mérito da fé; então tem o justo gáudio da fé, quando já não teme as adversidades e está seguro do prêmio. Permanecerei para vosso proveito, de modo que *a vossa exultação*, isto é, a vossa exultação ou ação de graças — ambas as coisas, com efeito, significa *gratulor*: alegrar-se e dar graças —, a vossa exultação, digo, *abunde em Cristo*, isto é, em louvor de Cristo Jesus, *em mim*, isto é, na consideração de mim; abunde, digo, *pela minha nova vinda a vós.*

Abundará certamente, contanto que vejais que *vivais de modo digno do Evangelho de Cristo*, isto é, como convém e ensina o Evangelho que recebestes; de modo tão digno que, *quer eu vá e vos veja, quer ausente*, de qualquer modo que eu estiver, ausente ou presente, *ouça isto de vós, que permaneceis firmes em um só* Espírito Santo que vos justifica. E porque poderiam estar no mesmo Espírito, este em humildade, este em castidade, mas não tendo entre si dileção, por isso acrescenta *unânimes* na dileção, *e combatendo juntos*, pela paciência nas tribulações, *pela fé do Evangelho*, isto é, a fé que aprendestes no Evangelho. Ouvirei também que *em nada sois atemorizados pelos adversários*; causa que, a saber, querem atemorizar-vos, *para eles é causa de perdição*; *para vós*, porém, que permaneceis sem temor, *de salvação.* E isto vos vem *da parte de Deus*, que não sejais atemorizados, porque *vos foi concedido por Cristo*, isto é, pelo mérito de Cristo, *não somente crer nele, mas também padecer por ele*; vós, digo, *tendo o mesmo combate que vistes em mim*, quando estava convosco, *e agora ouvis de mim*, que padeço em Roma. Imitai, pois, o que me vedes sofrer em humildade, seguindo a paciência e a humildade.

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Se, portanto, há alguma consolação em Cristo, se algum alívio da caridade, se alguma comunhão do Espírito, se algumas entranhas de misericórdia, completai a minha alegria, para que sintais o mesmo, tendo a mesma caridade, unânimes, sentindo uma só coisa. Nada façais por contenda, nem por vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si, não considerando cada um o que é seu, mas o que é dos outros. Pois tende em vós o mesmo sentir que houve em Cristo Jesus; o qual, sendo na forma de Deus, não julgou rapina o ser igual a Deus; mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens, e reconhecido por figura como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus também o exaltou, e lhe deu um nome que está acima de todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e nos infernos; e toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai. Portanto, meus caríssimos (como sempre obedecestes), não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, operai a vossa salvação com temor e tremor. Pois é Deus quem opera em vós o querer e o realizar, segundo a sua boa vontade. Fazei tudo sem murmurações e hesitações, para que sejais irrepreensíveis e simples filhos de Deus, sem mácula no meio de uma nação depravada e perversa; entre os quais brilhais como luzeiros no mundo, mantendo a palavra de vida para a minha glória no dia de Cristo, porque não corri em vão, nem trabalhei em vão. Mas, ainda que eu seja imolado sobre o sacrifício e a oblação da vossa fé, alegro-me e congratulo-me com todos vós. E vós também alegrai-vos do mesmo modo e congratulai-vos comigo. Espero, porém, no Senhor Jesus, enviar-vos em breve Timóteo, para que também eu fique de bom ânimo, conhecendo as coisas que vos dizem respeito. Pois não tenho ninguém tão unânime que com sincera afeição se preocupe por vós. Todos buscam o que é seu, não o que é de Jesus Cristo. Conhecei, porém, a prova dele, porque, como filho a pai, serviu comigo no Evangelho. A este, pois, espero enviar-vos, logo que eu tiver visto o que se passa comigo. Confio, porém, no Senhor, que também eu mesmo irei em breve a vós. Julguei necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão, cooperador e companheiro de armas, vosso apóstolo e ministro da minha necessidade; porque ele desejava a todos vós e estava aflito por terdes ouvido que adoecera. Com efeito, adoeceu até à morte; mas Deus teve misericórdia dele; e não só dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Enviei-o, portanto, com mais presteza, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu fique sem tristeza. Recebei-o, pois, com toda a alegria no Senhor, e tende em honra os que são como ele; porque pela obra de Cristo chegou até às portas da morte, entregando a sua vida, para suprir o que faltava da vossa parte no serviço que me prestais.

## Comentário

Disse acima: as cadeias que me sucederam redundaram em proveito do Evangelho; o que também vós padeceis, é-vos causa de salvação, e assim vos foi concedido padecer pelo mérito de Cristo. Disto agora infere, dizendo: porque o meu padecer é proveito do Evangelho, e porque igualmente padeceis por Cristo, é-vos causa de salvação, *portanto, irmãos, completai a minha alegria*, alegria que já começastes, desde que sofrestes afronta por Cristo. Entende por completar a alegria que padeçam por Cristo de tal modo que tenham sempre associada a humildade da paciência; aqui, com efeito, mais abertamente os exortará a que tenham, com a paciência, a humildade, para que, se padecem por Cristo, não se anteponham por isso, como mais dignos, aos demais; a paciência, com efeito, sem a humildade é inútil. Completai a minha alegria *se há alguma consolação em Cristo*, isto é, se de Cristo buscais consolação em alguma coisa; ou então (para calar de Cristo), *se algum alívio da caridade*, isto é, da dileção fraterna, quereis ter, completai então a minha alegria. Ou assim: se alguma consolação me é dada junto de vós em Cristo, isto é, por amor de Cristo, e se algum alívio da caridade, isto é, da dileção fraterna, tenho junto de vós, de querer consolar-me por fraterna caridade, completai então a minha alegria. E *se há em vós alguma* (isto é, qualquer) *comunhão do Espírito*, isto é, se no Espírito Santo tendes comunhão com as outras Igrejas; e se há em vós *algumas entranhas*, isto é, alguns afetos piedosos *de misericórdia*, isto é, de exibição de misericórdia, completai a minha alegria. As entranhas põem-se aqui como misericórdia; o afeto piedoso (ainda que nada opere) diz-se misericórdia; o efeito da misericórdia chama-se comiseração. Por isso tão instantemente os conjura, porque quer que mantenham a humildade, sem a qual entende ser vã a paciência deles. Completai, digo, a alegria, de modo que *sintais o mesmo*, isto é, de modo que as prosperidades do próximo tenham tão bom sabor em vós como se fossem vossas; sintais, digo, *tendo a mesma caridade*, isto é, igual dileção para com todo próximo: ainda que, com efeito, por vezes convenha ter maior familiaridade com alguns, como Cristo a teve com João, isto não se deve contudo dizer caridade, mas maior familiaridade, que se tem conforme alguns são mais oportunos para certas coisas, outros menos.

Sejais também *sentindo uma só coisa* nas adversidades do próximo, de modo que a angústia dele não só a sintais no ânimo, mas vos pique como própria; vós, digo, *unânimes*, isto é, tendo igual ânimo de compaixão para com todo próximo; vós, de novo, *nada fazendo por contenda*, de modo que um que mais padece conteste antepor-se a outro que menos padece; ou então, nada dispondo das coisas eclesiásticas por contenda; *nem fazendo coisa alguma por vanglória*, isto é, por glória mundana: mas sede *julgando cada um os outros superiores a si*, que um repute o outro superior a si; e isto não com fingida soberba, mas *com humildade*, de modo que, assim como um antepõe a si o outro, assim tenha no coração a mesma humildade, julgando superior a si aquele a quem antepõe. E de que modo um julgue o outro superior a si, põe o conselho, dizendo: para que julgueis uns aos outros superiores a vós, *não considereis cada um os bens que são seus*; mas considerai apenas os bens *que são dos outros*; se, com efeito, postos de lado os vossos, atendeis às virtudes dos outros, assim os julgareis superiores a vós.

Para lhes recomendar ambas as coisas, humildade e paciência, expõe quão grande foi a humildade e a paciência de Cristo, dizendo: digo bem "com humildade"; *pois tende em vós o mesmo sentir* que vedes sobretudo não só em mim, mas em Cristo Jesus. E não só tende isto, mas também *senti-lo*, isto é, prová-lo pela experiência da coisa. Por isso diz "sentir"; muitos há, com efeito, que julgam poder sofrer tudo por Cristo e que, se acaso chegassem à prova, desfaleceriam. Senti, digo, em vós a humildade e a paciência que vedes sobretudo em mim e em Cristo Jesus; *o qual Cristo Jesus, sendo na forma*, isto é, na igualdade de Deus Pai, invisível como ele, coeterno e consubstancial a ele, soube ser igual a Deus; e nisto que soube, maior humildade; se, com efeito, ignorada a sua altura, assim se humilhasse, a sua humildade, por causa da ignorância, não seria tão recomendável: sabendo certamente ser igual a Deus, *não julgou rapina*, para usurpar coisa alheia; ou assim, na mesma sentença: julgando ser igual a Deus, não fez rapina, como o anjo maligno, que dizia: «Porei a minha sede ao Aquilão, e serei semelhante ao Altíssimo» (Is 14,13-14); e o homem, a quem a serpente disse: «Sereis como deuses» (Gn 3,5): ambos fizeram rapina, ao quererem usurpar mal para si o que era próprio de Deus; Cristo, porém, não fez rapina, porque julgou coisa própria.

E, embora Cristo estivesse na forma de Deus, *contudo esvaziou-se*, isto é, esvaziou a claridade da Deidade, ao pô-la sob a forma de servo; esvaziou-se, digo, *a si mesmo*, isto é, a própria Deidade, permanecendo, porém, ele mesmo no mesmo com o Pai; assim, com efeito, assumiu o que não era, de modo a permanecer o que era: e nisto muita humildade; se, com efeito, qualquer rei, perdido o direito do reino, é humilde, não é muito; mas se, tendo o direito do reino, dele se aliena permanecendo em humildade, é recomendável a sua humildade; esvaziou-se, digo, *tomando a forma de servo*: incomparável é a humildade, onde o Senhor escolheu ser servo. De novo, poderia tomar a forma de servo sem corrupção, de modo a não sentir as misérias da carne; por isso acrescenta: *feito*, isto é, recebendo nova feitura, *à semelhança dos homens*; assim, com efeito, foi passível e mortal como os outros homens. De novo, poderia estar à semelhança dos homens, tendo mãos e pés, e não se haver como homem; por isso acrescenta: *e reconhecido por figura*, isto é, no haver-se, foi achado como homem pelo tentador, o diabo; o diabo, com efeito, investigava se era Deus ou homem; mas, quando o achou faminto, julgou-o somente homem.

Nem só foi feito à semelhança dos homens, mas também *humilhou-se a si mesmo*, ele que era tão grande, ele mesmo, a saber, perdurando, porém, na glória da Deidade; humilhou-se, digo, *feito obediente* ao Pai em tudo, *até a morte*, e não morte de pessoa que fosse digna, mas *morte de cruz*, gênero de morte que era mais ignominioso que todo outro. Onde diz "morte", recomenda nele a paciência; onde diz "cruz", a humildade. *Por isso*, isto é, porque em tão grande humildade e paciência obedeceu a Deus, *Deus também o exaltou*, ele mesmo por seu mérito e Deus com ele o exaltou, isto é, pô-lo em grande altura, a saber, à sua direita; e a ele exaltado *deu um nome*, isto é, uma honorificência, nome *que está acima de todo nome*, isto é, superior a tudo o que se pode nomear, e tão acima que *ao nome*, isto é, para honra *de Jesus se dobre todo joelho*, isto é, todas as coisas lhe sejam plenamente sujeitas, como é sujeito quem dobra o joelho: todo joelho, digo, porque *dos que estão nos céus*, isto é, dos Anjos, *na terra*, isto é, dos homens, *e nos infernos*, isto é, dos demônios e das almas que ali estão, se dobre o joelho. *E toda língua confesse* — isto será no dia do juízo, quando, queiram ou não, os ímpios confessarão a Cristo —; confesse, digo, que o Senhor Jesus Cristo *está na glória*, isto é, na igualdade de Deus Pai segundo a Deidade, e depois do Pai primeiro quanto à humanidade, sobre toda criatura.

Porque Cristo foi tão paciente e humilde, e por ambas as coisas assim exaltado, *portanto, meus caríssimos, operai a vossa salvação*, isto é, a vossa exaltação, juntando em vós a humildade à paciência; vós, digo, *como sempre me obedecestes* enquanto estava convosco, assim agora, *com temor* do ânimo *e tremor* do corpo (deve-se, com efeito, sempre temer, ao que está de pé, que caia), operai a vossa salvação, de modo que não só na minha presença se diga que obedecestes, mas muito mais agora na minha ausência se prove a vossa obediência. E por isso nunca seguros, mas sempre com temor e tremor, *porque é Deus quem opera em vós* (para nada vos deixar) *também o querer*; e depois que pela graça tiver dado o querer, igualmente opera em vós o realizar; e isto não pelo vosso mérito precedente, mas somente *segundo a sua boa vontade.*

Deus tudo opera em vós; vós, porém, cooperando com Deus, *fazei tudo sem murmurações*, para que, se for necessário sofrerdes por muito tempo, não murmureis impacientemente contra Deus, como se injustamente permitisse que fôsseis afligidos. Fazei também tudo *sem hesitações*, isto é, que não digais: amanhã vigiarei, jejuarei, amanhã começarei a padecer por Cristo. Fazei assim, pois, para que sejais *irrepreensíveis*, isto é, para que não haja em vós de que um homem possa justamente queixar-se de vós; e para que sejais *simples filhos de Deus*, isto é, para que haja em vós, pela inocência, simples filiação de Deus; para que sejais também *sem mácula*, de modo que nem ocasião alguma apareça em vós por que pareçais repreensíveis, ainda que não haja culpa em vós.

Dir-me-iam: é pesado viver sem repreensão entre tantos que invejam a justiça. A isto ele: é verdade, porque habitais *no meio de uma nação depravada e perversa* em si, isto é, que perverte os outros, *entre os quais*, contudo, pela fé e pelas boas obras *brilhais como luzeiros no mundo*; assim como, com efeito, o sol e a lua iluminam o mundo, assim a vossa justiça ilumina as trevas deles: vós, digo, *mantendo a palavra de vida*, isto é, o Evangelho de Cristo, na fé do qual se tem a vida eterna; mantendo, digo, à maneira do vaso que bem contém o líquido nele infundido e o oferece a outros; assim também vós guardais em vós a palavra de Deus e a ministrais a outros; mantendo, digo, *para a minha glória*: pois, se eu hei de ter glória por vós manterdes a palavra de vida, muito mais vós que a mereceis; glória, digo, que me caberá *no dia de Cristo*, quando Cristo remunerará os seus. Terei certamente a minha glória, *porque não corri em vão, nem trabalhei em vão.* Correu quanto àqueles que facilmente converteu; trabalhou quanto aos mais difíceis no acesso à fé.

Corri, sim, e trabalhei em vós; nem me arrependo, mas, *ainda que seja preciso que eu seja imolado* por vós, nisto *me congratulo convosco*; o que diz assim: ainda que eu seja imolado *sobre o sacrifício da vossa fé*, e *sobre a oblação da vossa fé*, isto é, eu ofereci a vossa fé a Deus como sacrifício em odor de suavidade, e obséquio, isto é, as vossas boas obras em que depois da fé obsequiastes a Deus; mas se ainda depois destes trabalhos for preciso que eu seja imolado por vós, disso me alegro e *congratulo-me*, isto é, rendo graças, ou então, alegro-me junto *com todos vós*, que deveis alegrar-vos, se for vontade de Deus que eu seja imolado por vós. *Vós, porém, o mesmo*, retribuindo-me, para que igualmente sejais imolados por mim, *alegrai-vos e congratulai-vos comigo*, que vos armei para coisa tão digna, como é ser imolado por Cristo.

De novo: assim vos edifico pela Epístola para a paciência e humildade; *espero, porém, no Senhor Jesus, enviar-vos em breve Timóteo*, para que eu, conhecendo o que vos diz respeito, esteja de bom ânimo e seguro de vós, que receio vejais perturbados por causa da peleja iminente de ambos os lados. Por isso enviar-vos-ei antes Timóteo, *pois não tenho ninguém tão unânime* convosco, e *que com tão sincera afeição se preocupe por vós.* Verdadeiramente ninguém; *todos*, com efeito, que agora estão comigo, *buscam o que é seu, não o que é de Jesus Cristo.*

Envio-vo-lo, preocupado por vós; vós, porém, recebendo-o honrosamente, *conhecei a prova dele*; não o diz simplesmente, mas a *prova* dele, isto é, ele bem provado por mim; em muitas coisas, com efeito, tive prova: prova digo bem, *porque, como filho a pai, serviu comigo no Evangelho*, como filho obediente ao pai. E porque com sincera afeição vos ama, e como a pai me serviu, *portanto espero enviar-vo-lo logo que eu tiver visto* o fim *do que se passa comigo.* Por isso assim diz; Nero, com efeito, havia disposto dar em breve sentença sobre ele, se o mataria ou o reservaria. Esperava, porém, escapar, porque instruíra na fé muitos da casa de César, que trabalhavam pela sua libertação. Por isso acrescentou: *confio, porém, no Senhor, que também eu mesmo irei em breve a vós.* E, embora diga que hei de ir, e que hei de enviar Timóteo, entretanto *julguei necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão* e *cooperador* na pregação *e companheiro de armas* na tribulação, *vosso apóstolo*, isto é, ou legado, porque o haviam enviado a Paulo, ou apóstolo, isto é, pregador deles, ou bispo deles, *e ministro da minha necessidade*, isto é, que o que me enviastes me ministrou no tempo da necessidade; por isso julguei que devia ser enviado a vós, embora me fosse necessário, *porque desejava a todos vós, e estava aflito*, não por si açoitado, mas *por terdes ouvido que adoecera*, e não queria que vos entristecêsseis por ele. Este Epafrodito, enquanto ministrava a Paulo, interceptado pelos guardas, foi afligido veementemente com açoites. Adoecido, digo, por isso, *pois adoeceu até à morte; mas Deus teve misericórdia dele*, e *não só dele, mas também de mim* teve misericórdia nele, [*para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.*] E porque vos doíeis por ele, *enviei-o*, portanto, *com mais presteza* do que faria (era-me, com efeito, necessário), *para que, vendo-o, vos alegreis novamente*; outrora, com efeito, quando estava convosco, vos alegráveis. E enviei-o *para que eu fique sem tristeza*, porque de vós, entristecidos por ele, tenho tristeza. E porque vos ama tanto, e vós a ele, enviamo-lo a vós; *recebei-o, pois, com toda a alegria*, não em cítaras e flautas, mas com alegria tida *no Senhor*; e *aos que são como ele*, que tanto sofreu por vós e tanto vos ama, *tende em toda honra*: e é justo; *porque ele chegou até à morte pela obra de Cristo*, que operava em mim, *entregando a sua vida, e para suprir* quanto ao meu obséquio *o que faltava da vossa parte*; vós enviáveis dinheiro, mas, além dele, não havia quem ousasse ministrar-me. Por este Epafrodito Paulo lhes enviou esta Epístola.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto ao mais, irmãos meus, alegrai-vos no Senhor. Escrever-vos as mesmas coisas, a mim não me é penoso, e para vós é necessário. Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus operários, guardai-vos da mutilação. Pois nós é que somos a circuncisão, nós que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não pomos a confiança na carne, embora eu também tenha motivo de confiança na carne. Se algum outro parece confiar na carne, eu mais: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, quanto à lei fariseu, quanto ao zelo perseguidor da Igreja de Deus, quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas as coisas que para mim eram lucros, julguei-as perdas por causa de Cristo. Mais ainda: considero tudo como perda, por causa da eminente ciência de Jesus Cristo, meu Senhor, por quem tudo perdi, e tudo tenho por esterco, para ganhar a Cristo, e ser achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas aquela que vem da fé de Cristo Jesus, a justiça que vem de Deus, na fé, para o conhecer, e o poder da sua Ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformado à sua morte; para ver se de algum modo chego à ressurreição que é dentre os mortos; não que eu já a tenha alcançado, ou já seja perfeito; mas prossigo, para ver se de algum modo a alcanço, pois também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não julgo que já a tenha alcançado. Uma só coisa, porém: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e lançando-me às que estão diante, persigo o alvo, o prêmio da vocação celeste de Deus em Cristo Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentir; e se em algo pensais diversamente, Deus também isto vos revelará. Contudo, naquilo a que chegamos, sintamos o mesmo e permaneçamos na mesma regra. Sede meus imitadores, irmãos, e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós. Pois muitos andam, dos quais muitas vezes vos dizia, e agora também o digo chorando, que são inimigos da Cruz de Cristo; o fim deles é a perdição; o seu deus é o ventre, e a sua glória está na sua confusão, eles que pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos o Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humildade, conformando-o ao corpo da sua glória, segundo a operação pela qual também pode sujeitar a si todas as coisas.

## Comentário

Depois de os ter suficientemente instruído na luta dos perseguidores, recomendando sempre a humildade com a paciência, instrui-os na outra luta, que lhes moviam os falsos doutores, rebaixando-lhes a lei e exaltando a fé; como se dissesse: assim como vos ensinei, sede pacientes e humildes para com os perseguidores; *quanto ao mais*, isto é, quanto à outra luta que os falsos apóstolos vos movem, assim vos instruo: *irmãos meus, alegrai-vos no Senhor*, isto é, não busqueis a alegria em outro lugar, como eles mal ensinam nas coisas carnais, mas pondei toda a vossa alegria no Senhor; só ele, com efeito, justifica, e nada do que pregam os falsos apóstolos aproveita para isto: portanto, não nas coisas carnais, mas *alegrai-vos no Senhor.* E para que saibais alegrar-vos no Senhor, *a mim*, que sou pronto e diligente na instrução dos filhos, *não me é penoso* o que talvez fosse penoso repetir a outros, não falar, porque as palavras depressa escapariam da memória, mas *escrever-vos*, para que, permanecendo o escrito, perdure em vós a memória das minhas tradições: *a mim não é penoso, e para vós era necessário* que eu não me pesasse de escrever.

Para que vos alegreis no Senhor, *guardai-vos dos cães*, isto é, acautelai-vos daqueles falsos apóstolos, que com razão se dizem cães; porque, assim como o cão faz festa àquele que costuma ver, ainda que venha para a destruição da casa ou para o matar; aos que, porém, não costuma, ladra, ainda que venham para o alimentar ou para utilidade da casa; assim estes falsos apóstolos fazem festa aos carnais a quem se acostumaram, ainda que nisto esteja a morte deles e a destruição da casa, isto é, da Igreja; aos pregadores da verdade, porém, ladram, somente porque não se acostumaram a eles, que contudo vêm para os vivificar e para a edificação da casa de Deus. E de tais falsos apóstolos diz: guardai-vos dos cães, que fazem festa ao costume carnal e ladram contra a espiritualidade insólita; aos quais não basta contradizer a verdade, mas são também *maus operários*, sobressemeando o joio; e guardai-vos destes maus operários, para que com falsa doutrina não vos seduzam. Guardai-vos também *da mutilação*, eles que, assim como têm cortada a pelezinha, assim têm todo o entendimento cortado e separado do bem; eles que não só são mutilados, mas são também mutilação dos outros que seduzem.

Com razão aqueles carnais são mutilação, pois *nós*, espirituais, somos os únicos que somos *a circuncisão*, isto é, a purificação, isto é, não só purificados, mas somos, por doutrina e exemplo, a purificação dos outros; a abscisão, com efeito, daquela pelezinha supérflua era sinal de que todas as coisas supérfluas deviam ser circuncidadas do coração: aqueles, porém, cortada a pelezinha, têm o coração incircunciso; nós, porém, tendo a realidade, isto é, a circuncisão do coração, desprezamos a sombra deles. Nós, digo, somos a circuncisão, *nós que servimos a Deus* não na carne, que é coisa vil, mas na parte mais digna, a saber, *em espírito*; quanto, com efeito, a espiritualidade excede a carnalidade, tanto a nossa servidão a deles. Servimos a Deus em espírito, *e nos gloriamos em Cristo Jesus*, isto é, Cristo Jesus é a nossa glória e a nossa alegria, e nenhuma glória temos em outro. Assim nos gloriamos em Cristo Jesus, não digo de modo que não nos gloriemos na carne, mas *nem pondo a mínima confiança na carne*, isto é, nas coisas carnais que eles persuadem.

Dir-me-iam: talvez nem tu terias de que confiar na carne; pois [texto corrompido no OCR]. A isto ele: não me envergonho nem confio na carne, *embora eu tenha*, isto é, pudesse ter *motivo de confiança*, se algum houvesse, *na carne.* Eu certamente teria confiança, se alguma houvesse na carne; pois *se algum outro parece confiar na carne* (digo aqui "outro", isto é, muito diverso de mim, que só em Cristo confio), eu certamente mais do que ele poderia confiar na carne; mais, porque *eu fui circuncidado ao oitavo dia* segundo a lei; aquele, talvez já adulto, passando ao judaísmo, foi circuncidado. A circuncisão, que se fazia ao oitavo dia, significava que, pela justiça cuja forma era a circuncisão, havíamos de voltar àquela oitava que perdemos pela culpa de Adão; em sinal de cuja oitava celebramos o dia do Senhor; este mundo, com efeito, gira por sete dias; acabado, porém, o mundo, começará esta oitava, que não terá fim por toda a eternidade.

Porque também os que não eram de Israel eram circuncidados ao oitavo dia, como os filhos dos prosélitos, por isso acrescenta: *eu sou também da raça de Israel.* Porque, de novo, alguns eram de Israel por um dos pais e dos gentios por outro, como Davi, que por uma das partes era da raça de Rute, a gentia, por isso acrescenta: nascido *da tribo de Benjamim.* Porque, de novo, alguns de Benjamim caíram em idolatria, acrescentou: *hebreu, nasci de hebreus.* Fui também *fariseu* quanto à lei, isto é, egrégio, tanto pelo entendimento quanto pelo cumprimento da lei: *phares* significa divisão, donde fariseu, dividido, porque eram separados do povo, egrégios na lei, no entendimento e na contemplação. Fui também *perseguidor da Igreja de Deus* quanto ao zelo, isto é, por zelo e dileção de defender a lei. Para que me pareça preferido a todos aqueles na lei, *vivi na lei irrepreensível*; assim, com efeito, me guardei, que ninguém pôde queixar-se de mim; irrepreensível, digo, *quanto à justiça* que há na lei, não a que é verdadeira, mas a que há na lei, que o homem pode bastante operar por si; cortar, com efeito, aquela pelezinha, imolar o bode e semelhantes, qualquer um facilmente pode operar. E porque fui tão grande na lei, se houvesse na carne alguma glória, a ninguém maior que a mim. Tão proeminente fui na lei; mas, contudo, *as coisas que antes da graça eram para mim lucros* — era lucro, com efeito, operar as figuras, enquanto ainda se esperava a verdade —, estas, antes lucros, agora *julguei perdas*, isto é, destruidoras do verdadeiro bem, *por causa de Cristo* a abraçar; enquanto, com efeito, estivesse na sombra, não compreenderia o corpo, isto é, Cristo.

Mas, embora diga que por Cristo deixei estas coisas velhas, *mais ainda* (para calar esta causa, isto é, Cristo) *considero tudo como perda*, o verdadeiro bem somente *por causa da eminente ciência* que agora nas Escrituras alcancei; antes, com efeito, enquanto estava na lei, parecia ter a ciência da lei, que em verdade não tinha, mas, vindo a Cristo, então pela primeira vez tive a verdadeira ciência das Escrituras, muito eminente em relação àquela que antes julgava ter; ciência, digo, *de Jesus Cristo, meu Senhor*, isto é, a que Jesus Cristo distribui aos que vêm a ele; segundo Ambrósio, movido pelo amor, disse "seu Senhor". *Por quem*, Cristo, a compreender, *tudo perdi*, não só julguei, mas fiz parecer aos outros todas estas coisas carnais perda; nem só as julgo perda, mas também *esterco*, porque contaminam tudo o que lhes adere. Julgo-as por isso esterco, *para ganhar a Cristo*, para assim fazer de Cristo o meu lucro; porque, deixando aquelas, ganho para mim Cristo, a ter mais plenamente no futuro. Por isso também assim julgo, para que, entretanto, enquanto ainda não recebo plenamente a Cristo, *seja achado nele*, membro nele, isto é, no seu corpo; eu, digo, *não tendo a minha justiça* (minha, certamente, porque a que é da lei, as obras da lei qualquer um pode operar), *mas tendo aquela justiça que vem da fé de Cristo Jesus*, isto é, que temos pelo fato de crermos em Cristo Jesus.

Dir-me-iam: dizes que a justiça da lei é tua; aquela, porém, que vem da fé de Cristo opões como se não fosse tua. Assim, diz Paulo, não é minha, mas *a justiça que vem de Deus*; justiça, digo, assim como se tem pela fé, assim perdurando *na fé.* Porque alguém pensaria: é verdade que a fé vem de Deus, e que sem a fé não se pode ter a justiça, mas, tida já a justiça, a fé não é mais necessária; por isso diz que, assim como a justiça nasce pela fé, assim há de perdurar na fé, e não sem ela.

Disse acima que por Cristo se tinha eminente ciência, mesmo neste mundo; agora acrescenta que por ele se tem conhecimento muito maior, mas isto no futuro, quando veremos o Senhor como é: justiça que está na fé; justiça, digo, *para conhecer* aquele na glória, como é, não como agora por espelho, *e o poder da sua Ressurreição*, isto é, para ressurgir na imortalidade; a nossa ressurreição, que é poder da sua Ressurreição; a sua Ressurreição, com efeito, faz isto, que nós igualmente ressurjamos. Justiça, de novo, que vale *para ter a comunhão dos seus sofrimentos*, de modo que, assim como ele por nós, assim nós padeçamos por ele — chama paixões de Cristo as que sofreu antes da cruz durante todo o tempo —; valendo também para ter *a conformação à sua morte*, para que nos conformemos de todos os modos à sua morte; de modo que, assim como ele só por dileção morreu por nós, assim também nós nos alegremos de morrer na sua dileção. O que dissemos, significam as suas palavras, que contudo se constroem assim: seja achado nele; eu, digo, conformado à sua morte.

Alguém diria: por que queres assim conformar-te à sua morte, quando a tua justiça sem a morte basta para ter a glória? A isto Paulo: por isso quero conformar-me à sua morte, *para ver se de algum modo*; eu não me importaria de que gênero de paixão ou de morte tivesse estas coisas; *para ver se de algum modo*, digo, *chego* — servo e senhor chegam-se um ao outro; este bem servindo, aquele bem remunerando: assim Paulo chega a Cristo, enquanto morre por ele, como Cristo morreu por Paulo —; *chego*, digo, tendendo *à ressurreição*. Ou assim: se de algum modo chego à ressurreição, de modo que no "chegar" notemos o desejo dos santos; ressurreição que é *dentre os mortos*; nós, com efeito, ressurgiremos fora da sociedade dos mortos, mas os ímpios não ressurgirão dentre os mortos, porque de dia em dia morrerão. Digo, pois, "se de algum modo", porque não entendo que já tenha recebido algo daquela glória a que tendo; *ou já seja perfeito* no conhecimento de Cristo, para cujo conhecimento usamos agora a fé, como alguém usa o espelho para conhecer qualquer coisa. Ainda não recebi, mas *prossigo*, como coisa não tida e que desejo; prossigo, digo, para ver se de algum modo (como se disse acima) *o alcanço* — por abundância de afeição diz "alcançar"; como se dissesse: se pudesse alcançá-lo, encerrá-lo-ia nos meus abraços —; alcançar, digo, no modo em que *fui alcançado por Cristo Jesus*, quando, assim como Cristo me conhece perfeitamente como sou, assim eu o conheça como ele é. Ou assim: alcance Cristo no modo de claridade em que fui alcançado por Cristo Jesus, quando me chamou no caminho, para que, na quanta claridade então estava, pudesse abraçá-lo.

Por isso digo "alcançar", porque eu, *irmãos*, ainda que tenha sido arrebatado ao terceiro céu, *contudo não julgo que tenha alcançado* a Cristo, a não ser pelo espelho da fé. Não julgo ter alcançado, mas *persigo uma só coisa*, isto é, uma só realidade, da qual um só clamava: «Uma só coisa pedi ao Senhor, esta buscarei» (Sl 26,4). Segue uma só coisa quem está sempre na mesma operação do bem; segue duas quem ora o bem, ora o mal opera. *Persigo uma só coisa*; eu, na verdade, *esquecendo-me das coisas que ficam para trás*, isto é, as temporais e quaisquer carnais; ou assim: esquecendo o que fica para trás, isto é, os méritos passados; *e lançando-me às que estão diante*, isto é, às melhores, porque eternas, ou àqueles méritos que são anteriores em utilidade, embora posteriores no tempo aos precedentes — por isso os últimos são anteriores, porque os precedentes seriam vãos se não seguissem estes que lhes dão valor —; lançando-me a essas que são anteriores com todo o desejo, *estendendo-me* com a carne e o espírito, indo assim *ao alvo*, isto é, à coisa que me está destinada, a saber, *ao prêmio*, isto é, ao prêmio do trabalho; prêmio, digo, *da vocação de Deus*, para cuja recepção Deus me chama; vocação, digo, *celeste*, isto é, a ter nas alturas dos céus, *em Cristo Jesus*, distribuidor deste prêmio aos seus combatentes. Nestas palavras insere tanto a certeza quanto a recomendação da coisa que espera: por "destinado" e "vocação" significa a certeza; por "celeste", "de Deus" e "em Cristo Jesus", a dignidade desta coisa.

Porque eu, Paulo, ainda não recebi coisa alguma, nem sou ainda perfeito, mas prossigo para alcançar, estendendo-me ao prêmio destinado da vocação celeste, *portanto, todos que somos perfeitos, tenhamos este mesmo sentir*, a saber, que ainda não recebestes Cristo desse modo, ou que ainda sois imperfeitos no conhecimento dele. Nem isto o diz em segunda pessoa, mas, a seu modo, para melhor os induzir, inseriu-se a si mesmo, dizendo: *todos que somos perfeitos, tenhamos este sentir.* O que diz acima, "não que eu já seja perfeito", parece oposto ao que aqui diz, "somos perfeitos"; mas não impede: ali fala, com efeito, da perfeição do conhecimento de Deus, na qual ninguém neste mundo é perfeito; aqui fala da perfeição das virtudes, que podemos ter neste mundo; nesta perfeição há muitos graus, Paulo, com efeito, é mais perfeito que outro, e qualquer um que leve a vida sem [mancha] criminosa diz-se perfeito.

E porque disse, sintamo-nos assim imperfeitos, para que por isso não desanimeis, *se em algo pensais diversamente*, isto é, menos perfeitamente, *Deus*, que o que já sabeis vos revelou, *também isto* que resta saber vos revelará. Ou assim: se em algo pensais diversamente, isto é, que já atingis algum grau de conhecimento, Deus vo-lo revelará, e assim fará o que resta. Ou assim: sintamo-nos imperfeitos; e se vós pensais algo diversamente do que se deve pensar, enganados pelos carnais, Deus vos revelará como devais sentir, ele que já fez algo em vós.

Dir-me-iam: e porque, como dizes, somos imperfeitos, por isso não podemos estar de pé, nem é de admirar que caiamos. A isto Paulo: embora ainda não sejamos perfeitos, *contudo, convém que sintamos*, isto é, entendamos todos *o mesmo*; e não o mesmo nas coisas carnais, mas aquilo mesmo a cujo entendimento chegamos pela fé; *e convém que permaneçamos na mesma regra*, isto é, na mesma retidão de viver. Para que permaneçais no mesmo, ó irmãos, *sede meus imitadores.* Se objetais que eu, a quem não vedes, não posso ser imitado, respondo a isto: *observai*, isto é, considerai diligentemente *os que andam* assim segundo a fé, como ainda tendes, creio, na memória *o modelo que temos*, o modo como ensinávamos e vivíamos quando estávamos convosco; assim como, com efeito, alguém recolhe o rosto de um homem outrora visto, assim também vós o modelo da nossa doutrina e costumes. Por isso digo: os que andam assim segundo o nosso modelo, *muitos*, com efeito, *andam* no gênero do mal, os quais muitos, estando convosco, *muitas vezes* vos dizia serem *inimigos da Cruz de Cristo*; enquanto, com efeito, dizem que o homem se justifica por outro meio que não por Cristo crucificado, certamente são inimigos da Cruz de Cristo. Então eu vo-lo dizia; *agora*, porém, digo o mesmo *chorando*, tanto pela condenação deles quanto pela vossa sedução.

Para retrair os filipenses desse consentimento, reprova-lhes os falsos apóstolos; a sua parte, porém, aprova, dizendo: *o fim deles*, inimigos de Cristo, *é a perdição*, isto é, a condenação eterna, *e o seu deus é o ventre*, isto é, o que contém pelo que é contido, isto é, a comida; enquanto, com efeito, creem purificar-se pela comida, atribuem à comida o que é de Deus; ou assim: o seu deus é o ventre; não pregam, com efeito, por amor de Deus, mas para encher o ventre. *E a glória* deles, *que pensam nas coisas terrenas*, isto é, que seguem e ensinam as carnais, *está na sua confusão*; são chamados, com efeito, mutilados: podem também envergonhar-se, enquanto aqueles, racionais, creem justificar-se pela imolação de um bode irracional. O fim deles é a perdição, mas *a nossa pátria*, não só a vontade, mas também a conversação, nós que amamos a Cruz de Cristo, *está nos céus*; postas de lado as coisas terrenas, com efeito, anelamos às celestes; *donde*, isto é, porque a nossa conversação está nos céus, com esta confiança seguros *aguardamos*, para o juízo, *o Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo*, que *transformará o corpo da nossa humildade*, isto é, da nossa abjeção — nós, com efeito, pelo pecado nos abjetamos da glória em que fomos criados —; este corpo, digo, transformará: quando, com efeito, criou o primeiro homem, formou-o em muita claridade; na ressurreição, porém, com claridade ainda maior transformará o nosso corpo, *conformando-o ao corpo*, isto é, posto na mesma figura em que estará o seu corpo; não ao corpo de mortalidade, que antes teve, mas *ao corpo da sua glória*: claridade de imortalidade que recebeu na Ressurreição, e nesta mesma claridade de imortalidade transformará o nosso corpo. E deve-se notar que a humildade dele foi a nossa claridade. Que seja poderoso para transformar, acrescenta dizendo: transformará, agindo *segundo a operação* na qual operação pode não só isto fazer, mas também *sujeitar a si todas as coisas.*

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Portanto, meus irmãos caríssimos e desejadíssimos, minha alegria e minha coroa, assim permanecei firmes no Senhor, caríssimos. Rogo a Evódia e exorto a Síntique que sintam o mesmo no Senhor. Peço também a ti, fiel companheiro, que ajudes aquelas que comigo trabalharam no Evangelho, com Clemente e os demais meus cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida. Alegrai-vos sempre no Senhor; novamente o digo, alegrai-vos. A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens; o Senhor está perto. Não vos inquieteis por nada; mas em toda oração e súplica, com ação de graças, sejam os vossos pedidos manifestados a Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guarde os vossos corações e as vossas inteligências em Cristo Jesus. Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, se há algum louvor de disciplina, isso pensai. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz estará convosco. Alegrei-me muito no Senhor porque, finalmente, de novo floresceu o vosso sentir por mim, como também o tínheis; estáveis, porém, ocupados. Não o digo por causa de penúria; pois aprendi a bastar-me nas condições em que me acho. Sei viver humilhado, sei também viver na abundância (em toda parte e em tudo fui instruído): a estar saciado e a ter fome, a ter abundância e a padecer penúria. Tudo posso naquele que me conforta. Contudo, fizestes bem em tomar parte na minha tribulação. Sabeis também vós, filipenses, que no princípio do Evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma Igreja comunicou comigo em matéria de dar e receber, senão vós somente; pois também a Tessalônica enviastes, uma e duas vezes, o necessário para mim. Não que eu busque o dom, mas busco o fruto que abunde em vossa conta. Tenho tudo e abundo; estou cheio, tendo recebido de Epafrodito o que me enviastes, odor de suavidade, sacrifício aceito, agradável a Deus. O meu Deus, porém, preencherá toda a vossa necessidade, segundo as suas riquezas, na glória, em Cristo Jesus. A Deus e Pai nosso seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Saudai a todo santo em Cristo Jesus. Saúdam-vos os irmãos que estão comigo. Saúdam-vos todos os santos, principalmente os da casa de César. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito. Amém.

## Comentário

E porque transformará a nós que conversamos nos céus, *portanto, meus irmãos*, conversai assim conosco: irmãos, digo, *caríssimos*, pelo que já fizestes bem, *e desejadíssimos*, isto é, que me desejais muito, ou então, desejadíssimos, isto é, muitíssimo por mim desejados; vós, digo, *minha alegria* no presente, é-me, com efeito, bom alegrar-me da vossa perfeição; vós *e minha coroa* no futuro, por vós, com efeito, confio ser coroado: vós, irmãos, *permanecei assim firmes no Senhor*, isto é, ou como vos ensinei, ou como até agora permanecestes, como caríssimos pelo passado, assim caríssimos pelo bem futuro. A vós assim admoesto em comum; mas *Evódia*, como quem cedo consente, *rogo*, e *Síntique*, que parece menos suplicável, *exorto*, que ambas *sintam o mesmo*, isto é, a unidade da fé; o mesmo, digo, não na lei, mas *no Senhor.* Estas duas eram matronas que haviam ministrado ao Apóstolo e aos discípulos na pregação; mas, por leviandade feminina, o que haviam feito ao Apóstolo, o mesmo faziam àqueles falsos apóstolos, julgando agir bem: e por isto são repreendidas por Paulo. *Peço também a ti, ó Germano*, que me és *companheiro* na pregação do Evangelho, *ajuda aquelas* ensinando, para que assim não errem mais: e é digno, porque *trabalharam comigo no Evangelho*, ministrando-me de seus bens; que também trabalharam *com Clemente e os demais meus cooperadores*, ministrando igualmente; *nomes*, isto é, méritos, pelos quais são nomináveis diante de Deus; nomes, digo, *estão no livro da vida.* Livro da vida diz-se a mente divina, na qual os bons estão escritos de memória desde a eternidade. Este Germano era coadjutor de Paulo na pregação.

A essas pessoas admoesto assim, nominalmente; em comum, porém, isto ordeno: *alegrai-vos*, não na lei, não nas coisas carnais, mas *no Senhor*, como admoestei no princípio; nem por uma hora, mas *sempre* alegrai-vos no Senhor; *e novamente o digo, alegrai-vos* no Senhor. Se dissesse uma só vez "alegrai-vos", não pareceria querer isto mais que outra coisa, mas, porque pretende persuadir mais isto, nunca diz demais o que nunca se faz demais. Alegrai-vos assim no Senhor, de modo que *a vossa modéstia seja conhecida de todos os homens*, para exemplo do bem. Chama modéstia como que medida, para que estejam de tal modo medidos que não busquem a alegria além do Senhor, nem presumam alegrar-se aquém. Busca a alegria além do Senhor quem junta à fé as coisas carnais; detém-se aquém quem busca a alegria nas próprias forças. Dir-me-iam: seria bom, para o culto de Deus, juntar a lei à fé. A isto Paulo: sede assim modestos, *porque o Senhor está perto*, isto é, está sempre pronto a ajudar os modestos. De novo aqueles: se mantivéssemos a disciplina da lei, seria útil para corrigir os inquietos. A isto de novo Paulo: *não vos inquieteis por nada*, isto é, não duvideis do auxílio de Deus, que vos apressa a dispensa da lei.

Ou tomemos isto mais amplamente, de modo que estas palavras respondam a ambas as lutas; como se dissesse: sois impugnados de ambos os lados, mas *alegrai-vos sempre no Senhor*, porque sois dignos de padecer pelo nome dele dos perseguidores e dos falsos apóstolos; *novamente o digo, alegrai-vos.* Dupla é a luta, dupla a exortação. Alegrai-vos de modo que *a vossa modéstia*, isto é, a temperança da vossa paciência, seja conhecida de todos os homens. Para que sejais modestos, sabei que *o Senhor está perto*, que não abandona os que esperam nele; e porque está perto, *não vos inquieteis por nada*, isto é, não duvideis dos perseguidores. Não sejais duvidosos, mas pedi *em toda oração e súplica, e com ação de graças.* Oração diz-se quando se pede, deprecativamente, coisa obtenível; súplica diz-se quando por adjurações pedimos o que parece difícil de obter; render graças é também útil para obter o futuro, assim como ser ingrato é nocivo. Pedi assim, para que *os vossos pedidos sejam manifestados a Deus*, isto é, conhecidos e aprovados diante de Deus: então o pedido é manifestado a Deus, se quem pede é justo e se o que pede é idôneo. Dizem-se pedidos as coisas que ora são oportunas, ora passam, como a chuva na seca, o calor na messe.

O que podeis de vós, fazei, e naquilo em que desfaleceis Deus por piedade supra; o que diz assim: *e a paz de Deus*, isto é, o Deus da paz — e convenientemente, porque sofriam peleja, aqui chama Deus da paz —; *a paz*, digo, *de Deus, que excede todo entendimento*; o intelecto do homem, com efeito, não basta para a captar; esta paz, digo, *guarde os vossos corações*, isto é, as vossas vontades, *e as vossas inteligências em Cristo Jesus*, que é a guarda de todo bem. Alguns entendem o mesmo, mas não querem o mesmo; alguns querem o mesmo, que contudo não entendem o mesmo.

Do passado assim vos instruí; *quanto ao mais*, isto é, quanto ao futuro, *irmãos*, pensai *tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto*: estas duas coisas, verdadeiro e honesto, tomam-se em relação à fé, uma das quais, embora não possa estar sem a outra na fé (se há, com efeito, verdade na fé, há também pudor, porque, se a fé é falsa, é também adúltera), não são, contudo, supérfluas, porque verdadeiro e honesto significam louvores diversos na fé. Pensai também *tudo o que é justo* para com o próximo, *tudo o que é santo* em vós, *tudo o que é amável*, isto é, por que quer que seja amada a vossa religião, *e tudo o que é de boa fama*, isto é, de que quer que os homens falem bem; digo, porém, "de boa fama", *se há alguma virtude* neles, ou, se não há tanta virtude, haja ali ao menos algum *louvor de disciplina*; basta, com efeito, somente a disciplina cristã para que apareça louvável. Pensai, digo, todas estas coisas, *que também aprendestes* de mim e também *recebestes* de mim; e é torpe que abandoneis o que bem começastes; *que também ouvistes* haver em mim, e, estando convosco, *vistes em mim.* Estas coisas não só pensai, mas *praticai*; e então *o Deus da paz estará convosco*, cooperando.

Assim vos admoesto quanto ao futuro; quanto ao passado, porém, *alegrei-me muito no Senhor*, a saber, porque *finalmente*, passado muito tempo, e então *alguma vez*, isto é, uma só vez e não mais, *floresceu de novo*: quando, com efeito, estava convosco, então florescestes a meu respeito; agora, porém, florescestes de novo, não só ministrar, mas também *sentir por mim*; assim, com efeito, vos foi pesada a minha indigência, como se vós mesmos das mesmas coisas necessitásseis; sentir, digo, *como o tínheis*, outrora, quando estava convosco, por mim sentíeis. Diz convenientemente "floresceu de novo"; assim como, com efeito, da flor, assim se espera o fruto desta administração. Agora finalmente floresceu de novo, mas *estáveis ocupados* antes, e por isso sois escusáveis, se, impedidos por outra parte, não ministrastes. Alegrei-me certamente, e *não o digo por causa de penúria*, que me fosse pesada; *aprendi*, com efeito, *a bastar-me* nas condições em que me acho; *sei, com efeito, viver humilhado*, isto é, empobrecido, *sei também viver na abundância.* Sabe humilhar-se quem não se quebra na indigência; sabe abundar quem com autoridade sabe mandar aos súditos, não porém para sua glória, mas para utilidade da Igreja. Sei humilhar-me e abundar; *fui, com efeito, instruído*, isto é, acostumado, *em toda parte*, isto é, em todo lugar, quer haja ali poucos, quer mais, quer pobres, quer ricos. E em todas as coisas fui instruído *a estar saciado e a ter fome*; e (para dizer mais amplamente) *sei ter abundância e padecer penúria.* E, embora diga "sei padecer", etc., posso, contudo, tudo isto não em minhas forças, mas *naquele que me conforta* por sua graça, ajudando-me. E, embora tenha dito que não me alegrei por causa de penúria, não sou contudo ingrato aos benefícios, mas *fizestes bem em tomar parte na minha tribulação*, isto é, em mim tribulado.

Digo: sei ter abundância e padecer penúria; vós, porém, ó filipenses, sabeis estas coisas, porque, quando parti da Macedônia, no princípio do Evangelho, *nenhuma Igreja comunicou comigo em matéria*, isto é, na consideração *de dar e receber*, de considerar que eu lhe dava as coisas espirituais e eu devia receber delas as carnais; ou ao contrário, que recebia de mim as espirituais e devia dar as temporais; nenhuma, digo, comunicou, *senão vós somente*, que me enviastes à Tessalônica *uma e duas vezes*, não, contudo, para juntar tesouro, mas *para o uso*, isto é, o que bastasse ao meu uso.

Dir-me-iam: por isso nos louva, para assim nos induzir a dar. A isto Paulo: não vos louvo por isso, *porque busque o dom*, isto é, que me deis, *mas busco o fruto que abunde em vossa conta*, isto é, na vossa administração feita por razão; como se dissesse: não busco de vós por amor de receber, mas para me oferecer como matéria capaz da vossa benignidade, a fim de que assim possa frutificar. Por isso não busco o dom, porque *tenho tudo* o que convém, *e abundo* nisso; abundo certamente, porque *estou cheio, tendo recebido de Epafrodito o que me enviastes, odor de suavidade* a Deus. Pelo incenso, que se diz odor suave a Deus, significa-se a oração; esta esmola, porém, não foi menos grata a Deus que a oração devota. Enviastes também este mesmo *sacrifício aceito* a Deus; e não de qualquer modo aceito, mas *agradável a Deus.* Chamava-se hóstia o que se oferecia pelos inimigos vencidos ou por vencer; estes, porém, se se imolassem com açoites ou jejuns para superar as tentações do inimigo invisível, não agradariam mais a Deus que esta administração.

Fui cheio por vós, *o meu Deus, porém, preencherá toda a vossa necessidade* — ou desejo —, não segundo o que merecestes, mas *segundo as suas riquezas*; preencherá, digo, *na glória*, e isto *em Cristo Jesus*, distribuidor da glória. Porque me enchestes, assim oro por vós; *a Deus e Pai nosso*, por isto e por tudo o que bem fazemos, *seja a glória pelos séculos dos séculos*, consecutivos destes séculos. *Amém.* *Saudai a todo santo em Cristo Jesus*; diz isto dos seus discípulos, se por acaso, passando, os vissem. *Saúdam-vos os irmãos que estão comigo*; isto, de novo, diz dos seus discípulos que estavam com ele. *Saúdam-vos todos os santos*; isto diz dos convertidos; *principalmente* saúdam-vos *os da casa de César*: quis significar-lhes que alguns da família de Nero tinham sido por ele convertidos, por cujo auxílio julgava que escaparia para os visitar. Sinal da Epístola: *a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito*, para que nas coisas espirituais sirvais a Deus, no qual também sempre vos alegrais. *Amém.*

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# Epístola aos Colossenses



# Prólogo

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Estes colossenses eram da Ásia, vizinhos dos laodicenses, aos quais João escreve no Apocalipse, com as demais Igrejas, e aos quais igualmente Paulo escreveu uma Epístola, porque eram tentados de modo semelhante pelos falsos apóstolos; e ordenou que a Epístola dos colossenses fosse lida na Igreja dos laodicenses, e vice-versa. Paulo, porém, não pregara a estes colossenses, nem fora até eles; mas Arquipo, discípulo de Paulo, talvez filho de Filêmon, a quem Paulo escreve para reconciliar Onésimo, havia-lhes pregado e os convertera à fé. Estando eles já assim adiantados na fé, sobreveio um certo Epafras, nascido do mesmo povo e também instruído por Paulo na fé, afirmando o que Arquipo lhes pregara; a ele ouviram de bom grado os seus concidadãos, e por ele receberam incremento na fé. Enquanto, porém, floresciam na fé, andando segundo a doutrina de Arquipo e de Epafras, sobrevieram falsos apóstolos, pregando-lhes a lei; o povo, porém, ainda rude, julgando que não menos deviam ser ouvidos do que aqueles primeiros, quase começava a consentir com eles. Mas Epafras, ouvindo que o Apóstolo estava perto, em Éfeso, foi até ele, comunicando-lhe a ordem do caso e pedindo-lhe que confirmasse, por uma Epístola enviada a eles, a sua pregação e a de Arquipo, e reprovasse a parte dos que contradiziam. Por esta ocasião Paulo escreve-lhes esta Epístola, na qual tem por matéria Cristo e a lei; estes, com efeito, pregavam Cristo, aqueles a lei. Disto assim trata: aprovando a fé de Cristo por muitas e evidentes causas, e reprovando que a lei não deva mais ser mantida. Com esta intenção trata de ambos de tal modo que os confirme na pureza da fé, que é Cristo.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e Timóteo, irmão, aos santos e fiéis irmãos em Cristo Jesus que estão em Colossos. Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Damos graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós, ouvindo da vossa fé em Cristo Jesus e da caridade que tendes para com todos os santos, por causa da esperança que vos está reservada nos céus; da qual ouvistes na palavra da verdade do Evangelho, que chegou até vós, como está também em todo o mundo, e frutifica e cresce, como em vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus na verdade, conforme aprendestes de Epafras, nosso caríssimo companheiro de serviço, que é por vós fiel ministro de Cristo Jesus, o qual também nos manifestou a vossa caridade no Espírito. Por isso, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; para que andeis de modo digno de Deus, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda obra boa e crescendo na ciência de Deus, fortalecidos com todo poder segundo a potência da sua glória, em toda paciência e longanimidade, com alegria dando graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participar da sorte dos santos na luz; que nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados; o qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, quer os Tronos, quer as Dominações, quer os Principados, quer as Potestades; todas as coisas foram criadas por ele e nele; e ele é antes de tudo, e todas as coisas subsistem nele. E ele é a Cabeça do corpo da Igreja, ele que é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha o primado. Porque nele aprouve que habitasse toda a plenitude, e por ele reconciliar consigo todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua Cruz, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus. E a vós, que outrora éreis estranhos e inimigos pelo pensamento, nas obras más, agora, porém, reconciliou-vos no corpo da sua carne, pela morte, para vos apresentar santos, imaculados e irrepreensíveis diante dele; se, contudo, permanecerdes na fé, fundados, firmes e inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que está debaixo do céu, do qual eu, Paulo, me tornei ministro. Agora me alegro nos sofrimentos por vós, e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja, da qual me tornei ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi dada para convosco, a fim de cumprir a palavra de Deus: o mistério que esteve escondido desde os séculos e gerações, mas que agora foi manifestado aos seus santos, a quem Deus quis dar a conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo todo homem e ensinando todo homem em toda a sabedoria, para apresentarmos todo homem perfeito em Cristo Jesus. Para isso também eu me afadigo, combatendo segundo a sua operação, que opera em mim com poder.

## Comentário

*Paulo*, etc. Porque aqui era necessária a autoridade, não omitiu o título de dignidade, dizendo: *Paulo, Apóstolo*, não da lei, mas de *Jesus Cristo*; Apóstolo, digo, *pela vontade de Deus.* Sabei que quem me contradiz, contradiz também a vontade de Deus; quem, porém, contradiz Arquipo e Epafras, meus discípulos, contradiz igualmente a mim e a Deus. Paulo, digo, e *Timóteo, irmão*, escrevem *aos que estão em Colossos*; a estes, digo, *santos*, isto é, que foram santificados e confirmados na justiça da fé; santos, digo, *e fiéis irmãos*, isto é, menos perfeitos; santos e fiéis, digo, *em Cristo Jesus*: se Cristo Jesus vos basta para santificar, em vão quereis apegar-vos à lei. Põe consigo Timóteo na saudação porque lhes era conhecido e o tinham em grande autoridade. Aqui, porém, só da autoridade havia necessidade; não contradiziam, com efeito, Pedro ou Paulo ou qualquer um que pregasse Cristo, mas simplesmente opinavam que aqueles falsos apóstolos eram de Paulo, como os verdadeiros.

Paulo, digo, e Timóteo escrevem assim: *Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai*, como muitas vezes foi exposto. Agora, em primeiro lugar, recomenda a fé deles, que lhes haviam transmitido Arquipo e Epafras, dizendo: *ouvindo da vossa fé, damos graças a Deus*; por ela certamente não daria graças, se fosse imperfeita; mas *damos graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo*, cuja fé vos foi transmitida, com a qual, assim como eu consinto, assim Cristo e seu Pai, Deus. Vede que vós, discípulos negligentes, não desprezeis a mim, mestre, porque, se a mim, desprezais também Cristo e seu Pai, Deus. Damos graças nós, *orando por vós*, para que progridais na fé que recebestes, o que certamente não pediria se não aprovasse esta fé; orando, digo, não raramente, mas *sempre.* Vede que não torneis vão o trabalho da minha oração.

De que dá graças, acrescenta logo em seguida, recomendando a fé como lha haviam transmitido Arquipo e Epafras, dizendo: damos graças, *ouvindo que a vossa fé está em Cristo Jesus*, e ouvindo o bom efeito da vossa fé, a saber, *a caridade que tendes para com todos os santos*, aos quais por vossa caridade comunicais; caridade, digo, tida *por causa da esperança*, isto é, por causa da coisa esperada; esperança *que vos está reservada*, isto é, escondida e guardada em tão digno lugar, *nos céus.* Pelo que diz, coisa esperada, reservada e escondida, recomenda o mérito dos que esperam de Deus o que nem viram nem ouviram. Onde diz "nos céus", mostra a dignidade da coisa esperada pelo lugar em que será.

Dir-lhe-iam: esta esperança tem-se pela lei. A isto Paulo: coisa esperada que *ouvistes* e entendestes *na palavra da verdade*; e esta verdade não esteve na lei, mas *do Evangelho*; a lei, com efeito, é palavra de falsidade, mas o Evangelho é palavra de verdade. De novo aqueles: preferimos não te obedecer a receber coisa inaudita. A isto Paulo: este Evangelho (passando já por muitas Igrejas) *chegou até vós*; o que, porém, toda Igreja mantém, quereis vós repelir? De novo aqueles: chegou, sim, a nós, mas não tão íntegro como a outros. A isto diz: chegou certamente a vós, *como está também em todo o mundo*; nesta mesma fé que vos transmitiram, com efeito, todo o mundo, depois de Cristo, anda; chegou, digo, e está, isto é, assim permanece em todo o mundo, *e frutifica* operando bem, *e cresce* tanto em número quanto em conhecimento de Deus, não por outra coisa senão pelo que vos foi transmitido, mas como estes puseram em vós. Dir-lhe-iam: cresce, sim, em nós, desde que começamos a ouvir estes que há pouco entraram. De modo algum, diz Paulo, mas *cresce desde o dia em que ouvistes* a fé de Arquipo, *e conhecestes* a graça de Deus que está na fé, aprovada a vós por testemunhos das Escrituras; a graça da lei, com efeito, consiste na mão de quem corta a pelezinha de um velhinho; a graça de Deus, digo, *na verdade*; crede-me, esta é a verdadeira graça de Deus. A graça da lei era sombra. Ouvistes, digo, *conforme aprendestes*, e certamente é torpe ter aprendido o que abandonaríeis, e vice-versa; aprendestes, digo, *de Epafras, nosso caríssimo companheiro de serviço*, que serve a Cristo no Evangelho tanto como Pedro ou eu: não o ouçais, portanto, menos. Dir-lhe-iam: chamas-lhe companheiro de serviço; mas nos ministrou outras coisas, que de ti não aprendeu. De modo algum, diz Paulo, porque *é fiel ministro*, nada acrescentando, nada diminuindo; ministro, digo, *de Cristo Jesus*, isto é, ou porque ministra Cristo, ou porque Cristo o instituiu ministro, ou ministro para honra de Cristo; e que é ministro, é certamente *por vós*, que sois povo dele, porque, se não fosse por vossa dileção, creio, não ministraria; ele *também nos manifestou* não o vosso ódio, não a vossa dissensão, mas *a vossa caridade no Espírito*, isto é, desprezar o carnal, amar o espiritual.

Mostrado de que dá graças, com aprovação da fé recebida, acrescenta que ora por eles, inserindo a reprovação da lei, dizendo: e porque nos manifestou a vossa caridade no Espírito, *por isso também nós oramos por vós* e *não cessamos de orar, desde o dia em que ouvimos* a vossa fé e caridade; orando, digo, *e pedindo*, isto é, como coisa devida à vossa justiça, pedindo com confiança *que sejais cheios do conhecimento da sua vontade*, isto é, que conheçais plenamente a vontade de Deus; cheios, digo, *em toda a sabedoria* — põe aqui a sabedoria como ciência, e o que diz "em toda a sabedoria" vale o mesmo que "em todo conhecimento da vida ativa" —; sejais cheios também *em toda inteligência espiritual*, de modo que, como nas coisas corporais, assim entendais a vontade de Deus nas espirituais; para que, entendendo a sua vontade, *andeis* em tudo, isto é, obreis bem; andeis, digo, *de modo digno de Deus*, isto é, para serdes dignos de ter Deus; ou então, digno de Deus, para que Deus julgue digno habitar em vós. Vós, digo, assim andando *agradando-lhe*; ou então, andeis agradando em tudo; o que vale o mesmo; nem no andar queirais deter-vos, mas *frutificando em toda obra boa*, isto é, tendo incremento: vós, digo, assim frutificando, *crescendo na ciência de Deus*, isto é, no conhecimento da essência divina, que ninguém pode ter se antes não opera o que é de Deus; não se sobe, com efeito, pelo conhecimento às obras, mas pelas obras antecedentes ao conhecimento. Esta ciência de Deus e o conhecimento da sua vontade, que antes mencionou, diferem muito entre si: ali, com efeito, diz o que Deus quer, o que não quer, o que facilmente é patente a quaisquer; aqui, porém, do conhecimento da essência divina, que a pureza da vida abre. Convenientemente sobe; primeiro, com efeito, deve entender-se a vontade de Deus, entendida a qual deve andar-se nela, nem ali deter-se, mas frutificar para o melhor, e então por fim se abre a entrada ao conhecimento da essência divina, a qual, depois de alcançada, resta somente perseverar; donde diz: depois que tiverdes frutificado e crescido na ciência de Deus, sede *fortalecidos*, isto é, robustecidos e perseverantes *com todo poder*, isto é, humildade, temperança e todas as que há; fortalecidos, digo, *segundo a potência dele*, isto é, assim fortalecidos como ele é poderoso para vos fortalecer; potência, digo, *da sua glória*, isto é, que vos glorificou; quem, com efeito, quando estáveis nas trevas dos pecados, vos glorificou justificados, mais facilmente poderá e deverá consumar os já justos; em todo poder, digo, a saber, *em toda paciência e longanimidade*, fortalecidos *com alegria.* Porque viu estas duas virtudes como mais necessárias para perseverar, por isso acrescenta "em toda paciência", isto é, para que, assim como a acerbidade dos males, também soframos os opróbrios; quem não quer sofrer, com efeito, contende, revida; e assim perece a dileção. Acrescentou também "em longanimidade"; quem não é longânime em suportar, com efeito, se se adia a remuneração, lança fora o fardo de Deus; e assim perece nele toda virtude. De novo, ser paciente e longânime é um mal, se não é de vontade, e por isso acrescenta "com alegria", para que não se entristeçam, mas se alegrem de sofrer e esperar longamente.

Quer agora reprovar-lhes a lei, dizendo que ele e os outros Apóstolos, que nasceram na lei, porque estavam então nas trevas, deixaram a lei e dão graças a Deus pelo fato de os ter chamado à fé; e, se os naturais da lei, desprezada aquela, aderem à fé, é estulto que os que nunca estiveram na lei e receberam a fé confundam a pureza da fé com a mistura da lei; donde diz: *não cessamos de orar por vós, e de dar graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participar da sorte*, isto é, da participação da herança *dos santos*, isto é, a que os santos hão de ter; nós, digo, postos *na luz*, isto é, no verdadeiro conhecimento; ou então, na luz, isto é, em Cristo que nos ilumina. Diz "parte" segundo os diversos possuidores, não porque haja ali partes segregadas, pois para todos é uma só a bem-aventurança; a herança dos santos chama sorte, porque não é dada por mérito do homem, mas por sorte, isto é, por eleição divina.

Como nos fez dignos desta sorte, acrescenta, dizendo: pôs, digo, na luz aquele que primeiro *nos arrancou do poder das trevas*, isto é, ou dos demônios, ou dos pecados, ou da ignomínia. Diz "poder" porque a força humana por si não podia escapar. E a nós arrancados *transferiu*, isto é, transformou *para o reino do Filho*, isto é, para que o seu Filho reinasse em nós; Filho, digo, *do seu amor*; todos, com efeito, além deste, foram filhos da ira, todos, com efeito, nasceram em pecado; mas este é o único Filho do amor, porque imune de pecado; do qual o Pai diz: «Este é o meu Filho amado, etc.» (Mt 3,17).

O modo do arrancar acrescenta: *no qual* Filho *temos a redenção*, o preço do sangue, com efeito, foi dado na Cruz, suficiente para todos; *por quem* também *temos a remissão dos pecados* no batismo. Este Filho, segundo a natureza divina, *é a imagem do Deus invisível*, isto é, a plena representação do Pai; porque tudo o que há no Pai, tudo está no Filho; não, porém, imagem por ser outra coisa, a não ser quanto à distinção das pessoas, mas plena identidade na substância. Podemos construir "invisível imagem de Deus" ou "imagem do Deus invisível"; e destas palavras temos o Filho consubstancial ao Pai; porque, se tudo o que se diz da substância do Pai se diz da substância do Filho, é certamente consubstancial a ele. Filho, digo, *primogênito de toda criatura*, isto é, gerado do Pai antes de toda criatura; só ele gerado, as demais criadas, nem gerado dele, nem ele criado; e nestas palavras o temos coeterno ao Pai. Verdadeiramente gerado antes de toda criatura, *porque nele foram criadas todas as coisas*, isto é, por ele, segundo aquilo: «Fizeste todas as coisas na sabedoria» (Sl 103,24), isto é, no Filho; todas, digo, porque *visíveis e invisíveis nos céus*, como os Anjos, o sol e a lua, e *visíveis e invisíveis na terra*, como os espíritos dos animais e todos os corpos da terra. Digo bem "nos céus"; porque *quer os Tronos, quer as Dominações, quer os Principados, quer as Potestades*, todas foram criadas por ele, e de tal modo por ele que as criaturas estão contidas nele, isto é, dentro da sua amplitude; ele, com efeito, está em todas e ainda fora. *E ele é antes de tudo* em dignidade, segundo ambas as naturezas, *e todas as coisas criadas subsistem nele*, isto é, têm por ele o existir; assim como, com efeito, não podiam ser senão por ele, assim também as criadas não podem subsistir senão por ele.

*E ele* Cristo *é a Cabeça*, isto é, o princípio e o regime *da Igreja*; o que diz assim, "Cabeça do corpo da Igreja", porque, assim como o corpo do homem tem todos os sentidos na cabeça, assim a Igreja tem todas as suas forças em Cristo Cabeça, seu princípio e regente. Alguém objetaria: por que dizes Cristo Cabeça da Igreja, quando Abel e muitos justos existiram antes dele no tempo? Remove isto assim: verdadeiramente Cabeça da Igreja; porque *ele é o princípio* da Igreja: embora, com efeito, muitos santos tivessem precedido no tempo a carne de Cristo, nunca contudo seriam salvos se pela fé não fossem membros da Cabeça Cristo. Pôde, pois, ser Cabeça da Igreja, porque é *o primogênito dentre os mortos*; primeiro de todos, com efeito, ressurgiu dentre os mortos; e primogênito, porque ele tem toda a herança do Pai, e quem quer que dela tenha algo, convém que o tenha dele, assim como o filho primogênito tem toda a herança do pai, e ninguém coisa alguma senão dele. Nem primogênito a repudiar, como Esaú, mas primogênito de tal modo que ele *tenha em tudo o primado* entre as criaturas; príncipe, com efeito, foi constituído de todos: por isso tendo o primado, *porque aprouve* a Deus Pai *que nele habitasse* no Filho *toda a plenitude* de todos os bens, como João diz: «De sua plenitude todos nós recebemos» (Jo 1,16). E aprouve a Deus *por ele*, o Filho, *reconciliar consigo todas as coisas*, tanto gentios quanto judeus; todas, porém, digo, permanecendo nele; quem, com efeito, não permanecer nele, será privado da reconciliação. Aprouve reconciliar *pacificando* o mundo consigo, ou os judeus e gentios entre si, *pelo sangue* não derramado por algum gênero de morte honesta, mas *pelo sangue da sua Cruz*, gênero de morte que era o mais desprezível; pacificando, digo, com Deus, *tanto as que estão nos céus*, isto é, os santos, cujas almas já reinam nos céus, *quanto as que estão na terra*, isto é, os que ainda peregrinam na terra; ou assim: tanto as que estão nos céus, isto é, os Anjos, quanto as que estão na terra, isto é, os homens. Antes de Cristo havia dissídio entre Anjos e homens; mas o homem justificado logo teve paz com o Anjo.

Agora enfim desce àquilo que pretendia das premissas, dizendo: pacificou a nós, judeus, e a vós, gentios, igualmente reconciliou; vós, digo, *quando* (isto é, ainda que) *éreis outrora*, isto é, no tempo da infidelidade, *estranhos* a Deus pela ignorância, *e inimigos*, isto é, inimigos de Deus *pelo pensamento*, isto é, pela vontade; inimigos também *nas obras más*; ou então, ainda que fôsseis inimigos pelo pensamento, contudo *reconciliou-vos*; *agora, porém, reconciliou-vos no corpo* ainda não imortal, mas *no corpo da sua carne*, isto é, ainda mortal. E se em corpo mortal fez isto, que fará no imortal? Muito mais. Reconciliou-vos no corpo *pela morte*; para vos reconciliar, com efeito, quis padecer a morte, *para vos apresentar santos* pela posição das virtudes, *e imaculados* pela remoção dos males, *e irrepreensíveis diante dele*, Deus, de modo que nem a sutileza dele, a cujos olhos todas as coisas são nuas, ache neles algo a repreender. Assim, digo, vos apresente, *se, contudo, permanecerdes na fé, fundados e firmes*, e se permanecerdes *inabaláveis*, quanto de vós depende, e *inamovíveis*, se sobrevier perseguidor, *da esperança*, isto é, da coisa esperada; esperança, digo, *do Evangelho*, isto é, a bem-aventurança esperada que o Evangelho promete; Evangelho *que ouvistes* dos nossos discípulos. Nem deveis refutá-lo, porque assim o recebem todos os justos; e isto diz assim: Evangelho *que foi pregado a toda criatura*, e permanece assim em toda criatura. Chama criatura os justos por excelência; porque, embora todos sejam criaturas de Deus, os justos, contudo, por certo privilégio se dizem criaturas, neles a primeira geração, que foi no delito da carne, foi apagada pelo batismo, e a novidade da fé os gerou novos filhos em Cristo; donde diz: *em toda criatura*, isto é, em todos os justos feitos nova criatura na fé de Cristo; toda, digo, não de uma região, mas *a que está debaixo do céu*; ou assim: criatura que está debaixo do céu, isto é, que ainda peregrina no mundo, para ser depois de pouco, pelo mérito da fé, transferida acima dos céus. E nesta palavra bastante lhes recomenda a fé.

Agora põe a sua autoridade, que lhes era necessária para a confirmação, dizendo: *do qual Evangelho eu, Paulo* (cuja autoridade não é lícito contrariar), *me tornei* por Deus não certamente doador, mas *ministro*; eu que, para engrandecer o Evangelho, *agora* sofro, posto em cadeias, e nesses sofrimentos *me alegro por vós*, a instruir — se vissem Paulo fugindo de padecer pela fé, com efeito, vituperariam a fé a partir do próprio Paulo, que mostraria em si que não se deve padecer por ela —; alegro-me, digo, e alegrando-me *completo na minha carne o que ainda falta aos sofrimentos de Cristo*, e que me resta a cumprir. Diz serem de Cristo os seus sofrimentos, tanto porque Cristo assim o instituiu a padecer, quanto porque padece pelo nome de Cristo. Diz completar, porque vai para a morte, em que está a consumação dos sofrimentos. Ou assim: completo o que ainda falta dos sofrimentos de Cristo; Cristo teve muitos sofrimentos, padecendo opróbrios, vexações e açoites, por fim a morte: assim Paulo havia padecido opróbrios, açoites, muitas aflições, e apressava-se para a morte, para que, assim como Cristo por ele, assim ele morresse por Cristo. Completo os sofrimentos de Cristo, não em dano de coisa, não só em opróbrios, mas *na minha carne*; a própria carne, com efeito, exibo à pena, e isto *pelo seu corpo*, a saber, de Cristo multiplicando; não o corpo que foi recebido acima dos céus, mas *pelo corpo que é a Igreja.* Poderia ter dito simplesmente "pela Igreja"; mas onde diz "pelo seu corpo, que é a Igreja", recomendou muitíssimo a fé que faz o homem membro deste corpo, cuja Cabeça é Cristo.

*Da qual* Igreja *eu me tornei ministro segundo a dispensação*, porque sei dispensar a cada um segundo o seu modo, a este maior, àquele menor graça; dispensação, digo, *de Deus*, isto é, ou porque dispenso o próprio Deus, ou porque Deus me instituiu dispensador, *segundo a dispensação que me foi dada para convosco.* Parece supérfluo isto, "que me foi dada para convosco", porque dissera "segundo a dispensação"; mas a alguns foi entregue a dispensação que, contudo, prevenidos pelo martírio, não tiveram tempo de dispensar, mas Paulo recebeu tanto o ofício da dispensação quanto lhe foi dada a faculdade de dispensar. Embora não tenha ido a eles, diz contudo ter-lhe sido dada a dispensação para com eles, porque são do seu apostolado e foram ensinados por seus discípulos. Foi-me dada, pois, *para cumprir a palavra de Deus*, que ele falou desde a eternidade e no tempo vaticinou por meio dos seus Profetas — grande autoridade junto a Deus afirma Paulo de si, ao dizer que por ele se cumpre o que tantos tempos antes foi predito, e que até ele ficou por cumprir, a saber, a salvação dos gentios —; palavra de Deus, digo, isto é, *o mistério que esteve escondido desde os séculos*, e de tal modo desde os séculos que também *desde as gerações*, isto é, que quem quer que estivesse na geração anterior ignorasse este segredo; embora poucos então o tivessem conhecido, e estes justificados pela fé do que havia de vir, como Abraão. Outrora esteve escondido, mas agora, nos dias da graça, *foi manifestado aos seus santos*, a saber, de Cristo, e não a todos, mas àqueles *a quem Deus quis*, como apareceu quando os discípulos repreenderam Pedro por ter recebido o gentio Cornélio, não conhecendo ainda plenamente o mistério de Deus sobre a salvação dos gentios, *a quem Deus quis dar a conhecer* as *riquezas da glória*: riquezas, porque infinitos são os dons de Deus; da glória, porque a glória está em todos eles: riquezas, digo, *deste mistério*, do qual me tornei ministro; mistério, digo, *entre os gentios*, a salvação dos gentios, com efeito, era quase a todos oculta; mas da salvação dos judeus não se diz mistério, porque a eles Cristo fora abertamente prometido na lei, quando entre os gentios não havia Deus. Este sacramento é *Cristo*, que na lei foi prometido sob mistério; Cristo, digo, *em vós, esperança da glória*, isto é, em quem vos é lícito esperar toda a glória, e a remissão dos pecados, e a justiça da vida, e a glória futura; *o qual*, tal esperança de toda a glória, *nós anunciamos*, com toda a confiança *advertindo todo homem e ensinando*: advertindo o que erra da verdade ou contradiz a fé; ensinando também o que nada sabe ou ainda sabe simplesmente; advertindo e ensinando *em toda a sabedoria*, isto é, tanto sobre as coisas corpóreas como sobre as espirituais; para *apresentarmos* não só o judeu, mas *todo homem*, nem o gentio menos, o judeu mais perfeito, mas todo homem igualmente *perfeito em Cristo Jesus*, que só basta para a perfeição.

*Para isso*, isto é, nesta coisa, para apresentar todo homem perfeito, não só advirto e ensino, mas também *me afadigo combatendo.* Afadiga-se jejuando, velando, e por tais meios combate contra os perseguidores sofrendo, contra os falsos apóstolos confirmando a fé. Afadigo-me e combato agindo *segundo a sua operação, que opera em mim com poder* de milagres, isto é, assim Deus coopera comigo no labor e no combate, como na operação dos milagres, em que também os infiéis confessam estar em mim a virtude de Deus.

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quero, com efeito, que saibais que solicitude tenho por vós e por aqueles que estão em Laodiceia, e por todos os que não viram o meu rosto na carne; para que sejam consolados os seus corações, instruídos na caridade, e em todas as riquezas da plenitude do entendimento, para o conhecimento do mistério de Deus Pai e de Cristo Jesus, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. Digo isto para que ninguém vos engane com a sublimidade das palavras. Pois, ainda que esteja ausente no corpo, estou convosco em espírito, alegrando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo. Assim como recebestes Jesus Cristo, o Senhor, andai nele, enraizados e edificados nele, e confirmados na fé, como aprendestes, abundando nele em ação de graças. Vede que ninguém vos engane por meio da filosofia e de vã falácia, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo: porque nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade; e vós estais nele plenificados, ele que é a Cabeça de todo Principado e Potestade; nele também fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão, no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, no qual também ressuscitastes pela fé na operação de Deus, que o ressuscitou dos mortos. E a vós, quando estáveis mortos nos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vivificou-vos juntamente com ele, perdoando-vos todos os delitos; anulando o documento escrito contra nós em forma de decreto, que nos era contrário, e removeu-o do meio, cravando-o na Cruz; e, despojando os Principados e as Potestades, levou-os com confiança em cortejo, triunfando deles publicamente em si mesmo. Ninguém, pois, vos julgue por comida ou por bebida, ou por causa de parte de dia de festa, de lua nova ou de sábados; que são sombra das coisas futuras; o corpo, porém, é de Cristo. Ninguém vos seduza, querendo-o em humildade e culto dos Anjos, andando em coisas que não viu, inutilmente inchado pelo sentido da sua carne, e não se apegando à Cabeça, da qual todo o corpo, nutrido e coeso por articulações e junturas, cresce com o crescimento de Deus. Se, pois, morrestes com Cristo para os elementos deste mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, ainda vos impondes decretos? Não toques, não proves, não manuseies; coisas que todas perecem pelo próprio uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, sim, uma aparência de sabedoria, em superstição e humildade, e em não poupar o corpo, mas sem honra alguma, para a saciedade da carne.

## Comentário

Por isso me afadigo e combato, porque tenho solicitude por vós; e quero que saibais *qual*, isto é, quão infinita solicitude tenho por vós, a confirmar, *e por aqueles que estão em Laodiceia*; a quem armou contra a mesma coisa por uma Epístola a eles enviada. Estou solícito também por estes vossos vizinhos, *e por todos os que não viram o meu rosto na carne*; pela fama, com efeito, me viram. Por isso tenho solicitude, *para que sejam consolados os seus corações*, isto é, os seus próprios; eles, digo, *instruídos* por mim *na caridade*, isto é, na dileção de Deus, para que, lembrados de que Cristo padeceu por eles só por dileção, inflamados da dileção dele, ao padecer se apressem a ir-lhe ao encontro; instruídos, digo, na caridade, e instruídos *para o conhecimento do mistério de Deus*, para que conheçam alguns mistérios de Deus; ou como a Trindade está na Unidade, e vice-versa, ou algo semelhante; se alguém, com efeito, conhecer qualquer mistério de Deus, por isso certamente crescerá na dileção dele. E porque o sentido humano não pode penetrar o invisível senão pelo visível, antepõe: instruídos na caridade e *em todas*, isto é, passando por todas *as riquezas da plenitude do entendimento* — todas as riquezas, para que de todas as coisas saibam algo, ainda que não perfeitamente; da plenitude, para que de cada uma tenham plenário conhecimento; ou então, da plenitude, para que de três ou quatro tenham pleno —; todas as riquezas, para que de todas lhes seja pleno o conhecimento; e instruídos por todas as riquezas da plenitude do entendimento *para o conhecimento do mistério de Deus Pai e de Cristo Jesus*; para chegarmos, com efeito, à altura do conhecimento divino, convém primeiro considerar as coisas corpóreas, que estão sob os olhos; depois as incorpóreas em nós, isto é, as almas; pelas almas, de novo as incorpóreas nos céus, como os Anjos; e dos Anjos subimos a Deus, entendendo-o, pela pureza das criaturas, mais puro, mais espiritual e incompreensível.

*No qual* Jesus Cristo *estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência*, isto é, no qual toda a sabedoria das coisas espirituais e a ciência das corpóreas estão guardadas como em tesouro; ele mesmo, com efeito, é o tesouro de cuja plenitude todos são enriquecidos sem diminuição; tesouros, digo, *escondidos*, isto é, revelados a poucos. Dir-lhe-iam: não vimos esses tesouros, para termos em ambos a sabedoria e a ciência. A isto Paulo: e se em Cristo achais o tesouro de todo o bem, em vão quereis juntar a lei à fé. Em Cristo estão os tesouros da sabedoria e da ciência; digo isto, a saber, que em Cristo estão todos os tesouros, *para que ninguém vos engane com a sublimidade*, porque aqueles falsos apóstolos muitíssimo se aplicam às palavras sublimes; sublimidade, digo, *das palavras*, porque esta sublimidade está só na palavra, não na sentença; os fiéis, porém, têm simplicidade nas palavras, sublimidade nas sentenças.

Digo "ninguém vos engane" quanto ao futuro; pois ainda não fostes enganados; *ainda que* (isto é, embora) *esteja ausente de vós no corpo, estou contudo convosco presente em espírito.* Esta graça muitos dos santos tiveram, como Martinho e Nicolau, e crê-se que sobretudo a teve Paulo: que, ausente, soubesse pelo espírito o que as suas Igrejas faziam ou a que se dispunham. *Em espírito estou convosco, alegrando-me*; nesta palavra insinua que ainda não caíram; alegrando-me, digo, da vossa perfeição, *e vendo a vossa ordem*, isto é, com que conveniente ordem vos temperais em cada coisa; pouco é, com efeito, fazer o bem se se faz sem ordem, como aquele que jejua com veste desalinhada ou palavra intemperada se julga no seu jejum. Vendo também *a firmeza da vossa fé*, isto é, a vossa fé confirmada, *que está em Cristo*, não na lei, e porque estais confirmados na fé, também eu me congratulo com a vossa ordem.

*Assim como, pois, recebestes* não a lei, mas *o Senhor Jesus Cristo*, assim andai não na lei, mas *nele*; poderiam, com efeito, ter recebido Cristo e andar na lei. Andai *enraizados* quanto ao fruto da operação piedosa, *e edificados*, para serdes casa para Deus habitar (isto vale bem para os prelados, nos quais Deus, sentado, distribuía as suas graças aos súditos pelas mãos dos prelados): edificados hoje, amanhã *sobreedificados*, e assim sempre em incremento da obra boa; enraizados, digo, e sobreedificados *nele*, e *confirmados na fé*, para que persevereis no bem; na fé, digo, não outra, mas *como aprendestes*; não transmito, com efeito, outra; e confirmados *em ação de graças*, que muitíssimo vale para obter o futuro. E é justo que confirmados deis graças, porque já estais *abundando* em muitos bens recebidos *nele*, Cristo.

Digo: andai; *para que, porém, andeis livremente, vede que ninguém vos engane* — dizendo isto, olha para o que acima disse, "ninguém vos engane" —; engane, digo, *por meio da filosofia*, como eles a reputam, *e de vã falácia*, que eu digo; falácia, porque nenhuma verdade há ali; vã, isto é, sem utilidade; há, com efeito, muitas mentiras, como as dos poetas, que são inúteis. Filosofia e vã falácia, digo, existente *segundo a tradição dos homens*, isto é, dos que sabem humanamente, a saber, segundo a lei; lei que antes de Cristo foi, sim, tradição de Deus, mas, quando veio a Verdade e Deus quis que cessasse, já não foi tradição de Deus, mas dos homens. Segundo a tradição dos homens e a falácia, digo, exercitada *segundo os elementos* — chama elementos à mesma lei, porque, assim como as crianças aprendem primeiro pelos elementos para assim passar à perfeição das letras, assim aqueles elementos legais foram assim chamados porque o povo carnal, incapaz de apreender as coisas espirituais, era instruído pelas carnais, para que, habituado por elas ao culto de Deus, passasse depois a servir nas espirituais —; elementos, digo, *do mundo*, porque tanto os preceitos eram carnais quanto carnais os que os recebiam: esta filosofia é segundo os elementos do mundo, *e não segundo Cristo*, que recebestes e aprendestes.

Verdadeiramente os que transmitem a lei não são segundo Cristo; *porque no próprio Cristo está toda a plenitude*; o que não creem aqueles que fora de Cristo, a saber, na lei, buscam alguma justiça: *nele habita toda a plenitude da Divindade.* Diz bem "habita"; porque a Divindade está em Cristo de tal modo que permanece nele para sempre a plenitude da Divindade, isto é, a Divindade plenária e perfeita, que de modo algum é imperfeita. Toda, em Cristo, porque todas as graças que quer que tenham existido em todos estão em Cristo; e a graça é ainda mais abundante, porque nele se diz humanada a Divindade, porque, assim como a alma se une ao corpo, assim a própria Divindade se uniu pessoalmente àquele homem. A Divindade está por toda parte de diversos modos: está, com efeito, em toda criatura, enquanto esta nem tem ser sem a Divindade, nem permanece; deste e de outro modo está nos santos, porque por graça; e de ambos os modos esteve em Cristo, e ainda mais abundantemente, porque, como foi dito, do modo como a alma se humaniza na carne do homem, assim a Divindade se humanizou em Cristo. A plenitude da Divindade habita em Cristo *corporalmente*, isto é, de modo pleno, não que a Divindade se tenha feito corpo, mas porque as sombras haviam precedido, e em Cristo esteve a verdade das sombras, porque ele é o cumprimento de tudo o que fora predito ou prefigurado.

Prova de novo o mesmo: verdadeiramente os que transmitem a lei não são segundo Cristo; pois *vós estais nele plenificados* de todos os bens, isto é, por Cristo, o que dizem não poder fazer-se sem a lei; Cristo *que é a Cabeça*, isto é, o princípio e o regime *de todo Principado e Potestade*: por estas duas ordens entendamos as restantes. Nestas palavras mostra que Cristo pode plenificar tudo, porque, se aos Anjos, não há dúvida acerca dos homens. Quer mostrar em Cristo a verdade de tudo o que a lei preceitua, dizendo: *no qual* Cristo não só estais plenificados, mas também *fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão*, como na lei, *no despojamento* da pele da carne; nada outro, com efeito, se faz ali senão que se corta a pelezinha da carne; mas *fostes circuncidados na circuncisão de Cristo*, pela qual Cristo vos purificou. Ou construamos assim: fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão; circuncisão, digo, feita *no despojamento do corpo*, corpo que era *da carne*, isto é, era superado pela sensualidade; despistes, com efeito, o corpo segundo a carnalidade, para que já obedeça ao espírito; circuncisão não feita por mão, mas *na circuncisão de Cristo*, pela qual Cristo amputou de vós todos os vícios supérfluos e pendentes; nesta fostes circuncidados e purificados. Somos despojados do corpo da carne no batismo, no qual os pecados são depostos, e o livre-arbítrio do homem, recebida a justiça, é fortalecido, para que já, se quiser, possa obrar bem.

Não somos só circuncidados pela deposição dos pecados, mas também *sepultados juntamente com Cristo no batismo*, onde o nosso arbítrio foi fortalecido; sepultados juntamente, pois, porque Cristo, sepultado, não voltou mais aos atos do homem velho, assim nós, se quisermos usar da razão, fortalecidos no batismo, não voltaremos mais ao ato da velhice do pecado. *No qual* Cristo também *ressuscitastes*, quanto à justificação da alma; ressuscitastes, digo, *pela fé na operação de Deus*, isto é, fé que Deus opera em vós. A Ressurreição de Cristo opera em nós dupla ressurreição: a primeira, que já alcançamos segundo a alma; a outra, que esperamos, na imortalidade do corpo reparado. E que haveremos de ter a futura ressurreição dos corpos, prova-o pela Ressurreição de Cristo, que é causa e figura da nossa ressurreição, dizendo: assim como ressuscitastes na primeira ressurreição da alma, assim também vos vivificará juntamente na imortalidade dos corpos. Mas antepõe a prova disto, dizendo: *Deus, que*, assim como ressuscitou Cristo dos mortos, assim também a vós, *quando* (isto é, ainda que) *estáveis mortos*, de modo que por vossas forças de modo algum pudésseis respirar para a justiça; mortos, digo, *nos delitos*, isto é, na prevaricação da lei natural — delito, com efeito, diz-se quando se negligencia o que é devido —; mortos também *na incircuncisão da vossa carne*, isto é, no pecado original, que convenientemente significa pela incircuncisão, em que está a sede da geração; este original contraímos porque fomos gerados na concupiscência dos pais. Embora estivésseis assim mortos, contudo *vivificou-vos juntamente* — o que é futuro diz pelo pretérito, mostrando-se tão certo deste futuro quanto do passado —; vivificou-vos para vos pôr com ele na mesma dignidade de lugar; poderia, com efeito, restituída a imortalidade, vivificar e pôr em outro lugar que não com Cristo; vivificou, digo, *perdoando-vos*, gentios, *todos os delitos*, tanto originais quanto atuais. E assim livrou-vos do original pela fé, como também a nós, judeus, que falsamente nos julgávamos dele livres pela circuncisão; o que diz assim: *anulando* igualmente *o documento escrito do decreto*, isto é, da lei, na qual Deus decretara o que queria que se fizesse; documento que era contra nós, judeus. Quirógrafo diz-se o escrito de mão, que se parte em dois para que de ambos os lados se guarde a memória da coisa feita: parte deste quirógrafo tinha o diabo, com a qual acusava os judeus diante de Deus pela transgressão da lei; a outra parte tinha o judeu, a quem igualmente a própria consciência acusava; donde diz: o quirógrafo, isto é, a memória do pecado, que vinha do decreto, isto é, da lei, e nos era adverso, *anulou-o*; e não só o quirógrafo, mas também o próprio decreto, isto é, a própria lei, *que nos era contrária*, porque tanto mais nos instigava o diabo e com maior ardor tendíamos ao proibido, e a lei acrescentava o pecado de prevaricação; o próprio decreto, digo, *removeu do meio*, isto é, da comunidade, para não o deixar a ser mantido nem pelo judeu nem pelo gentio; poderia, com efeito, tirar o pecado da lei e dispensar a lei; *removeu-o do meio, cravando-o na Cruz*, isto é, cravou a própria lei, para que não fosse mais mantida, quando, expirando, disse: «Tudo está consumado» (Jo 19,30), mostrando que era o fim e o cumprimento de tudo o que na lei precedera, e que, depois de nascida a verdade, não se devia mais manter a sombra; cravando-o, digo, na Cruz; na Cruz, com efeito, como dissemos, pôs fim à lei, consumadas todas as coisas, como haviam sido preditas.

Objetar-lhe-iam: como dizes que não podemos ser justificados senão por Cristo, quando Abraão e os demais santos que precederam foram justificados sem ele? Prova Paulo que esses foram igualmente libertados por Cristo, dizendo: assim como libertou da lei e do pecado da lei os seus contemporâneos, assim ele, *despojando os Principados e as Potestades* junto aos infernos — não diz de quem despojou, mas por "despojando" significa que Cristo trouxe dos infernos os seus despojos —; despojando, digo, *levou-os em cortejo* como vencedor leva a presa entre os próprios raptores; ele, digo, *triunfando* daqueles principados dos infernos *com confiança*, isto é, sem dúvida do triunfo; triunfando, digo, *em si mesmo*, não por um Anjo ou qualquer ministro, mas por si mesmo; o que, a saber, ter ele triunfado, *publicamente* é manifesto a Anjos e homens.

Porque Cristo perdoou todos os delitos, anulou o pecado da lei e removeu do meio a lei, vede, pois, que ninguém vos induza mais à lei. E para mais os atemorizar, diz: *ninguém vos julgue*, isto é, vos faça julgáveis, isto é, condenáveis; julgue, digo, se não reconduzidos em toda a lei, ao menos em algo, porque por mínima tradição seríeis condenados; o que diz assim: ninguém vos julgue *por comida*, ou evitada por causa da imundície ou tomada por causa da pureza, *ou por bebida*, tomada igualmente ou evitada, *ou por causa de parte de dia de festa* observada. O dia de festa era entre eles algo total, tendo partes: a lua nova, o sábado, a saída do Egito, a entrada na terra da promessa, etc.; donde acrescenta *ou de lua nova*, isto é, da renovação da lua, *ou de sábados*, que os judeus costumavam celebrar. Por isso separa cada parte com "ou", para mostrar que até a mínima parte basta para a condenação de quem observa; se tivesse ligado com "e", pareceria que seria julgado por todos juntos e não por um só quem observa. *Neomenia*, de [grafia grega corrompida no OCR]: lua nova; daí [termo grego corrompido no OCR], a renovação da lua, cuja celebração era sinal da renovação do nosso corpo, que esperamos para o futuro na incorrupção. Esta lua nova e o sábado já não devem ser celebrados, porque *são sombra das coisas futuras*, isto é, prefiguram a verdade futura, como a sombra vista perto indica estar perto o corpo. Diz "das coisas futuras" segundo o tempo da lei, quando a sombra era presente, a verdade futura. Estas coisas são sombra das futuras; *o corpo, porém, é de Cristo*, isto é, a verdade e o cumprimento de todas estas coisas; ou então, o corpo é Cristo, isto é, o cumprimento pertence a Cristo; dele, com efeito, é cumprir o que fora figurado.

Porque dissera "ninguém vos julgue", acrescenta os modos em que era de temer que os seduzidos fossem condenados, dizendo: para que não sejais julgados, vede que *ninguém vos seduza em humildade* de palavra, isto é, mostrada por fora a dos ocultos, *e culto*, simulado, do hábito, das barbas ou dos jejuns; humildade e culto, digo, *dos Anjos*; os Anjos de Deus, com efeito, aparecendo aos homens, não se mostrariam mais humildes ou religiosos do que estes falsos apóstolos à vista; ou então, dos anjos, isto é, dos verdadeiros pregadores, que são núncios de Deus ao povo, cuja autoridade estes falsos apóstolos simuladamente usurpam. Ninguém, digo, de um ou outro modo vos seduza, *querendo*, isto é, amando tanto fazer em si como persuadir a vós *as coisas que não viu*, isto é, que nunca entendeu, porque vê as figuras e ignora a verdade: ele, digo, *andando* também nos sacramentos da Igreja que recebeu, e isto *inutilmente*; nada, com efeito, lhe aproveitará o batismo, a ele que detrai da fé; que, embora mostre por fora humildade, está contudo *inchado* também por dentro *pelo sentido*, porque se gloria de sentir sutilmente o que a simplicidade dos outros não basta para apreender; e esta doença de soberba sobretudo reina nos hereges: *pelo sentido da sua carne*, digo; este, com efeito, julga cada coisa segundo os sentidos da carne, não entendendo senão como lhe subministram os olhos e ouvidos da carne; no que não diferem dos animais mudos, que também têm sentido das coisas segundo o que veem e ouvem. Inchado certamente, *e não se apegando à Cabeça*, isto é, não concordando com a sua Cabeça Cristo. Não se apega à Cabeça Cristo quem busca de outro lugar que não da Cabeça onde vigorar; e, assim como o membro não é da cabeça se de outro lugar toma o vigor, o que não pode acontecer, assim quem abandona a unidade da fé não pode unir-se a Cristo.

*Da qual Cabeça* todo o corpo da Igreja, *coeso* pelas junturas da fé como das demais virtudes, *e nutrido*, porque um é subministrado pelo outro *por articulações*, isto é, pela caridade, que é prego e nervo que une membro a membro; assim como, com efeito, no corpo humano os membros primeiro construídos, isto é, reunidos juntos, se não fossem unidos, isto é, cada um adaptado ao seu lugar, sem nervos ainda um membro não seguiria o outro, e por isso convém que os membros unidos sejam ligados por nervos, e então por fim um subministra ao outro; assim no corpo da Igreja nós, diversos membros, somos construídos em um; e, reunidos segundo a discrição das virtudes, unimo-nos pela fé, etc.; mas, porque ainda não está um ligado ao outro, é necessária a dileção, prego pelo qual a diversidade dos membros, conexa, sirva uns aos outros aderindo. O corpo, digo, assim construído e subministrado *cresce* tanto em número de membros como em incremento de virtudes, até que chegue *ao crescimento de Deus*, isto é, até que aumente à medida que Deus propôs, isto é, até que se complete o número dos irmãos, acrescentado o último justo.

Agora investe um pouco asperamente contra alguns deles que já começavam, se não a operar, ao menos a consentir no ânimo e a discernir, dizendo: por que melhor seguiríamos aqueles do que estes? e semelhantes. Donde diz: porque por Cristo toda a Igreja cresce para o crescimento de Deus, por que, pois, *discernis*, como duvidosos a quem deveis aderir, a Cristo ou à lei? Mas antepõe por que não devem discernir, dizendo: *se estais mortos com Cristo*, porque a morte de Cristo operou em vós a morte do pecado; mortos, digo, *para os elementos*, porque antes cultuáveis os elementos, o sol, a lua e outros, o que fazeis do mesmo modo se, recebida a graça, mantendes a lei; elementos, digo, *deste mundo*, porque tanto mundanos são os que cultuam como mundanas são as coisas cultuadas; se, digo, estais mortos para os elementos, de modo que nem deveis respirar para o culto deles, *por que* (isto é, por quê) *ainda como se vivêsseis no mundo*, isto é, carnalmente, como antes no culto do mundo, *vos impondes decretos*? dizendo: *não toques* cadáver ou semelhante, o que quer que a lei proíba tocar, *não proves* porco ou algo semelhante, *não manuseies* o que, a saber, não é lícito tocar, como manusear as partes pudendas; *coisas que todas perecem*, isto é, operam condenação; não, porém, feitas uma vez, mas *pelo próprio uso*, isto é, se alguém, negligenciando as tradições da lei, as tiver em uso. O que digo, que estas coisas são para a perdição, não o digo segundo mim, mas *segundo os preceitos e doutrinas dos homens*, isto é, dos que sabem humanamente: chama preceitos o que só pelo império da sua autoridade compeliam a fazer; doutrinas, quando pareciam aduzir algumas razões para provar o que persuadiam.

Estes são os preceitos dos homens, *os quais têm*, isto é, parecem ter *uma aparência de sabedoria*, da qual estão muito longe; aparência, digo, tendo-a *em superstição.* Superstição diz-se a falsa religião acrescentada à verdadeira; os que acrescentavam a lei à fé recebida merecem dizer-se supersticiosos. Em superstição, digo, e *humildade* simulada por fora, parecem ter aparência. *E em não poupar o corpo*, segundo as palavras deles; dizem, com efeito, que nós não mantemos a lei para mais livremente nos indulgenciarmos nas coisas que são agradáveis ao corpo, e que eles, ao modo da lei de Deus, não querem poupar o corpo. Coisas que também *não são para eles em honra alguma*; dizem, com efeito, que se humilham segundo a lei porque não buscam ser honrados pelo povo como nós. Coisas que também *não são para eles para a saciedade da carne*; dizem, com efeito, que, para observar a lei, querem macerar a carne e que nós destruímos a lei para ser lícito empanturrar o ventre de tudo. Ou de outro modo, se as palavras "não para poupar o corpo", etc., são ditas seriamente por Paulo, assim: o que dizem parece ter aparência, mas certamente não tem; coisas que também são para *não poupar o corpo*, e é estulto que, naquilo em que condenam a alma, ao menos não poupem o corpo; coisas que também *não são em honra alguma*; enquanto, com efeito, acrescentam à fé de Cristo a lei como necessária, nisso desonram a Deus. Desonram também Davi e outros santos que disseram não haver justiça alguma na lei, enquanto, acrescentando a lei à fé, contradizem os seus testemunhos. Coisas que também não são *para a saciedade da carne*; é, porém, extrema demência que condenemos a alma por afligir a carne.

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# Capítulo 3

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> Portanto, se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; pensai nas coisas do alto, não nas da terra. Pois estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória. Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a fornicação, a impureza, a libidinagem, a concupiscência má e a avareza, que é idolatria; por causa das quais vem a ira de Deus sobre os filhos da incredulidade; nas quais também vós andastes outrora, quando vivíeis nelas. Mas agora deponde também vós tudo isto: a ira, a indignação, a malícia, a blasfêmia, a palavra torpe da vossa boca. Não mintais uns aos outros, despojando-vos do homem velho com os seus atos, e revestindo-vos do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou. Onde não há gentio e judeu, circuncisão e incircuncisão, bárbaro e cita, servo e livre; mas Cristo é tudo e em todos. Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, de humildade, de modéstia, de paciência; suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tem queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim também vós. Acima de tudo isto, tende caridade, que é o vínculo da perfeição; e a paz de Cristo exulte nos vossos corações, para a qual também fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e advertindo-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando a Deus em graça nos vossos corações. Tudo o que fizerdes, em palavra ou em obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças a Deus Pai por ele. Mulheres, sede sujeitas aos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai vossas mulheres e não sejais amargos para com elas. Filhos, obedecei aos pais em tudo, pois isto é agradável no Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que não se tornem pusilânimes. Servos, obedecei em tudo aos senhores segundo a carne, não servindo só à vista, como para agradar aos homens, mas na simplicidade do coração, temendo ao Senhor. Tudo o que fizerdes, fazei-o de coração, como para o Senhor e não para os homens, sabendo que do Senhor recebereis a retribuição da herança. Servi ao Senhor Cristo. Pois quem faz injustiça receberá o que injustamente fez; e não há acepção de pessoas junto a Deus.

## Comentário

E porque, mortos com Cristo, já não viveis para o mundo, *portanto buscai as coisas do alto*, isto é, a jucundidade dos céus e toda justiça que conduz ao que está no alto; diz-se "do alto" tudo o que não é do mundo; buscai, digo, *se ressuscitastes com Cristo*, isto é, porque alcançastes por Cristo a ressurreição da alma, as coisas do alto, que podeis e deveis buscar; do alto, digo, a saber, *onde Cristo está sentado à direita de Deus*, isto é, repousando e julgando na igualdade do Pai: Cristo, porém, sentado à direita do Pai, é causa, sinal e certeza de que nós ressurgiremos com Cristo. Nem só buscai, mas *pensai*, isto é, saboreai a doçura das coisas do alto; pensai, digo, nas coisas do alto, *não nas da terra.* Não deveis pensar nas coisas que estão sobre a terra; *estais*, com efeito, *mortos* para as terrenas. Deveis pensar nas do alto; pois *a vossa vida está em Deus*, e em tão grande dignidade que *com Cristo*; vida, digo, *escondida*, isto é, não revelada a todos, mas a poucos. Nesta palavra muitos erraram, dizendo que é estulto o homem trabalhar por aquilo que ao homem não foi revelado. Agora essa vossa vida está escondida; *mas quando Cristo aparecer*, vindo para o juízo; Cristo, digo, *vossa vida*, em cuja eternidade vos está preparada a eternidade; então, aparecendo Cristo, *também vós aparecereis com ele*, para ser postos *na glória.*

Reprovada suficientemente a lei e recomendada a fé, como na Epístola aos efésios, acrescenta a instrução moral, ensinando primeiro a Igreja em público, depois os sexos, idades e condições, dizendo: porque a vossa vida está em Deus, haveis de aparecer com Cristo na glória; *mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra*, isto é, aderentes às coisas terrenas. Chama a estes membros os pecados, porque são membros do corpo do pecado, como insinua nas passagens seguintes. Mortificai os vossos membros, a saber, *a fornicação*, como é ter relação com a mulher do próximo; outro membro, *a impureza e a libidinagem*, isto é, a vontade libidinosa; *e a concupiscência*, e porque se diz também concupiscência dos bens, acrescentou "má", como é cobiçar a coisa alheia. Mortificai também em vós *a avareza*, que é juntar e reter o ilícito; *esta avareza é idolatria*; quem, com efeito, pospõe a Deus para poder aumentar o dinheiro, desprezado Deus, cultua o dinheiro. *Por causa das quais* coisas ditas *vem a ira*, isto é, a vingança de Deus, *sobre os filhos da incredulidade*: se estes, que não haviam recebido a fé, foram condenados por tais coisas, que pensais de vós, que, recebendo a fé, renunciastes a tudo isto? *Nos quais* membros do corpo do pecado *também vós*, como os outros incrédulos, *andastes outrora, quando vivíeis neles*, a saber, no tempo da infidelidade. Outrora andastes neles; mas *agora*, já feitos fiéis, *deponde também vós* estas coisas ditas e todas as que seguem, a saber, *a ira*, isto é, a comoção súbita do ânimo, *a indignação*, isto é, que não vos indigneis de alguma prosperidade dos inferiores a vós: deponde também *a malícia* tanto do ânimo como do corpo, *e a blasfêmia* contra Deus e o próximo; deponde também *toda palavra torpe da vossa boca*; *e não mintais uns aos outros*, de modo que um engane o outro. E para que brevemente interdite todas as coisas semelhantes, sede *despojando-vos do homem velho*, isto é, do hábito dos pecados, *com os seus atos* — alguns, com efeito, depõem o hábito do pecado, e, às vezes, por fragilidade coagente, caem no ato do pecado; não, porém, retomando o hábito do pecado, embora o ato, porque após a queda se apressam à penitência —; despojando-vos do homem velho *e revestindo-vos do novo*, isto é, do hábito das virtudes, *que se renova* quotidianamente, a saber, crescendo na novidade da justiça; renova-se, digo, *para o conhecimento*, tendendo ao conhecimento de Deus, porque sempre cresce no conhecimento da Deidade quanto sobe nas virtudes; renova-se, digo, *segundo a imagem*, isto é, a pureza *daquele que o criou*, conformando-se a ele a seu modo.

*Onde*, isto é, neste homem novo, *não há* varão e mulher, isto é, ninguém é recebido ou rejeitado por causa do sexo; onde também *não há gentio e judeu*, isto é, nada prejudica ser gentio, nada aproveita ter sido judeu; gentio e judeu, digo, por geração. E porque alguns dos judeus passaram à gentilidade, e alguns dos gentios à circuncisão, por isso acrescenta: onde não há *circuncisão e incircuncisão*, porque não aproveita mais ter sido circuncidado do que ser incircunciso. Onde também não há *bárbaro e cita*, que é mais bárbaro que os bárbaros; onde não há *servo e livre*; assim, com efeito, no corpo das virtudes o servo é acolhido como o senhor; as substâncias, com efeito, nem prejudicam nem aproveitam no homem novo, porque toda substância é criatura boa de Deus; mas as qualidades, como a justiça ou a injustiça, que são acrescentadas por nós, estas ou aproveitam ou impedem. Gentio e judeu ali não há, *mas Cristo*, isto é, a virtude que vem de Cristo, *é tudo*, isto é, toda perfeição; e de tal modo que *em todos*, isto é, em cada um, seja tudo.

E, uma vez que o homem novo deve ser revestido, *revesti-vos*, pois, dos membros do homem novo — diz "revesti-vos" tanto segundo o decoro, porque pela nudez do pecado estávamos deturpados, quanto segundo a repulsa do frio da iniquidade —; revesti-vos, digo, *como eleitos de Deus*, isto é, que Deus escolheu desde a eternidade e no tempo, chamando-os à fé por seus ministros; eleitos, digo, *e santos*, isto é, santificados no bem pela posição das virtudes. E em ambas as coisas, isto é, na eleição e na santificação, *amados*, revesti-vos *de misericórdia*; e para maior incitamento diz mais expressamente "entranhas de misericórdia", para que nas próprias entranhas redunde o afeto piedoso. Revesti-vos também, com a misericórdia do ânimo, deste membro do homem novo, a saber, *da benignidade* de dar, *da humildade* em palavra e andar, *da modéstia*, isto é, temperança em tudo, *e da paciência*, se as adversidades sobrevêm; *suportando-vos uns aos outros*, isto é, por alternadas orações e jejuns levando uns os fardos dos outros. E se alguém de vós tem *queixa*, isto é, justa repetição de qualquer coisa contra algum irmão, *perdoando-vos* mutuamente; nem que relaxeis como preço e ameis menos que de costume, mas *assim como o Senhor vos perdoou*, remitindo a dívida e acrescentando a dileção, *assim também vós* perdoai-vos uns aos outros.

Revesti-vos da paciência e do mais, *acima de tudo isto*, isto é, tende a caridade superior e mais digna que todas estas coisas; ou assim: acima destas, isto é, trabalhai mais para ter a caridade do que para as premissas; a qual, a saber, ter a caridade, *é o vínculo*, isto é, a ligadura *da perfeição*, isto é, das demais virtudes que tornam perfeito; todas as virtudes, com efeito, reunidas sem a caridade são como pó dissolvido, que facilmente, ao impulso do vento, porque estava sem cimento, se dispersa; assim as virtudes, reunidas sem o cimento da caridade, facilmente cedem a qualquer tentação. E para que sejais perfeitos na caridade, *a paz*, isto é, a concórdia exterior, paz, digo, *de Cristo*, isto é, a que Cristo teve no mundo e ensinou a ter, esteja em vós, de modo que *nos vossos corações*, não por coação, mas de vontade, tenhais paz para com todos; e esteja de tal modo nos corações que ali *exulte*, isto é, se alegre do incremento quotidiano; *para a qual*, isto é, para ter a qual paz *fostes chamados* por Deus *em um só corpo*, isto é, não só para que venhais à unidade do corpo, mas para que permaneçais naquela unidade. Esteja a paz nos vossos corações: e *sede agradecidos*, isto é, dando sempre graças a Deus pelos benefícios que vos foram conferidos; agradecidos, digo, *ensinando-vos e advertindo-vos* uns aos outros.

Mas em que devam ensinar-se e advertir-se, antepõe, dizendo: para poderdes ensinar-vos e advertir-vos, *a palavra*, isto é, a doutrina *de Cristo*, ou seja, ou sobre Cristo ou a que Cristo ensinou, *habite em vós* continuamente; e de tal modo *abundantemente*, isto é, que tenhais abundância *em toda a sabedoria*, isto é, em todo gênero de entendimento histórico, moral e alegórico, *ensinando-vos* a vós mesmos estudando nas Escrituras; e, bem ensinados, advertindo-vos uns aos outros; muitíssimo vale, com efeito, a exortação, mesmo nas coisas que bem sabemos; ensinando e advertindo, digo, *com salmos*, nos quais se contém a boa moralidade, *e hinos*, nos quais o louvor de Deus ou dos santos se refere à glória de Deus, *e cânticos espirituais*, isto é, que tratam do gozo dos bens espirituais: nem só ensinando e advertindo, mas também *cantando a Deus*, isto é, para glória de Deus, não só nos lábios, mas também *nos vossos corações*; cantando, digo, *em graça*, isto é, na consideração da graça de Deus, pela qual, perdoando os pecados, vos justificou.

Para concluir em poucas palavras o que vos cumpre fazer: *tudo o que fizerdes, em palavra ou em obra*, estas e todas as coisas, seja em hábito, seja em pensamento, *fazei-o em nome*, isto é, para honra *do Senhor Jesus Cristo*; ou de outro modo: tudo o que fizerdes em palavra ou em obra, de modo que seja tudo, isto é, perfeito, não feito por louvor dos homens, fazei em nome do Senhor nosso Jesus Cristo; vós, digo, *sempre dando graças a Deus Pai por ele*, o próprio Cristo, por quem todos os bens vos conferiu; a ação de graças, com efeito, muitíssimo vale para obter.

Depois de admoestar a Igreja em comum, instrui separadamente os sexos, idades e condições, dizendo: suportai-vos uns aos outros, mas vós, *mulheres, sede sujeitas aos vossos maridos*, mais que os demais, *como convém*; é conveniente, com efeito, que a mulher seja sujeita ao marido; sujeitas, porém, *no Senhor*, isto é, segundo o Senhor; se, com efeito, querem pôr-vos sob adúlteros, nisso não vos sujeiteis. *Vós, porém, maridos, amai vossas mulheres, e não sejais amargos para com elas*: a excessiva austeridade, com efeito, às vezes gera pecado. *E vós, filhos, obedecei aos pais em tudo*, de modo, contudo, que no Senhor, não em culto de ídolo ou homicídio; obedecei, digo, *porque isto*, a saber, obedecer ao pai, *é agradável* a Deus. *E vós, pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que não se tornem pusilânimes*, isto é, de ânimo pequeno em sofrer, e percutidos por vós, vos revidem. *E vós, servos, obedecei em tudo aos senhores*, mesmo carnais, *não servindo-os só à vista*, isto é, enquanto estais sob os olhos deles, como se por esta servidão agradásseis só aos homens, mas *na simplicidade do coração* servi-os, *temendo* nisto *ao Senhor* Deus, que por pecado vosso ou dos pais vos constituiu servos, como lemos dos filhos de Cam (Gn 9,25). Nem objeteis que os senhores vos retribuem mal, *sabendo que do Senhor Deus recebereis a retribuição da herança*, isto é, a herança retribuída a vós, porque suportastes pacientemente o jugo imposto a vós por Deus. E, ao dizer que as mulheres sejam sujeitas, os maridos amem, os filhos obedeçam, os servos sirvam, em todas estas coisas *servi ao Senhor Cristo*, para que, por obséquio ao homem, não desprezeis a Deus. Vós, servos, operai assim, *porque quem quer que faz injustiça*, seja servo, seja senhor, *receberá o que injustamente fez*, isto é, o salário da iniquidade no futuro. Por isso digo "quem quer que faz injustiça", *porque junto a Deus não há acepção de pessoas*, de modo que este seja aceito por ser livre, aquele rejeitado por ser servo.

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Senhores, dai aos servos o que é justo e equitativo, sabendo que vós também tendes um Senhor no céu. Perseverai na oração, vigiando nela com ação de graças; orando ao mesmo tempo também por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra para falar do mistério de Cristo (pelo qual também estou preso), para que o manifeste como devo falar. Andai com sabedoria para com os de fora, remindo o tempo. A vossa palavra seja sempre cheia de graça, temperada com sal, para que saibais como convém responder a cada um. Tudo o que se passa comigo vos dará a conhecer Tíquico, irmão caríssimo, fiel ministro e companheiro de serviço no Senhor; o qual enviei a vós para isto mesmo, para que conheça o que se passa convosco e console os vossos corações, juntamente com Onésimo, caríssimo e fiel irmão, que é dos vossos. Eles vos darão a conhecer tudo o que aqui se passa. Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé, sobre quem recebestes instruções; se for ter convosco, recebei-o; e Jesus, chamado Justo; os quais são da circuncisão; estes são os únicos cooperadores meus no reino de Deus, que foram para mim um consolo. Saúda-vos Epafras, que é dos vossos, servo de Cristo Jesus, sempre solícito por vós nas orações, para que permaneçais perfeitos e plenos em toda a vontade de Deus. Pois lhe dou testemunho de que tem grande trabalho por vós, e por aqueles que estão em Laodiceia e em Hierápolis. Saúda-vos Lucas, o médico caríssimo, e Demas. Saudai os irmãos que estão em Laodiceia, e Ninfa, e a Igreja que está em sua casa. E, quando esta Epístola tiver sido lida entre vós, fazei que seja lida também na Igreja dos laodicenses; e a dos laodicenses, lede-a vós. E dizei a Arquipo: Atende ao ministério que recebeste no Senhor, para que o cumpras. A saudação é de minha mão, de Paulo. Lembrai-vos das minhas cadeias. A graça esteja convosco. Amém.

## Comentário

*Servos, obedecei aos senhores*, e vós, *senhores, dai aos servos o que é justo*, isto é, segundo o que merecem, *e equitativo*, isto é, que pondereis que são tão homens quanto vós, *sabendo que* tanto os servos como vós, senhores, *tendes o mesmo Senhor no céu.*

Admoestadas estas pessoas, volta de novo à instrução pública da Igreja, dizendo: vós, servos e senhores, agi assim reciprocamente; toda a Igreja, porém, *perseverai na oração, vigiando nela*, ou em vigílias noturnas, ou aplicados nela, vigiando sempre *com ação de graças*; *orando ao mesmo tempo também por nós*, quando orais por vós, ou então, ao mesmo tempo, isto é, que toda a Igreja faça por mim a oração comum, *para que Deus nos abra a porta da palavra*, isto é, os lábios por onde sai a palavra; abra, digo, *para falar do mistério de Cristo*, isto é, da salvação dos gentios, que até Cristo ficou escondida sob mistério. Deus abriria a sua boca se a sua palavra fosse agradável aos ouvintes; porque, por composições de palavras, por sutilezas de sentenças, nunca a boca será aberta, a não ser que o Espírito opere nos corações dos ouvintes. *Pelo qual*, isto é, porque falo do mistério de Cristo, depois de muitas aflições, também agora *estou preso.* Para falar, de modo que eu manifeste aquele mistério, *como devo falar*, conforme o lugar, o tempo e a capacidade dos ouvintes.

E, assim como eu falo a palavra de Cristo, assim também vós pregai. *Andai para com os de fora*, isto é, para com os infiéis; andai, digo, *com sabedoria*, isto é, pregando com toda discrição; vós, digo, *remindo o tempo*, isto é, procurando para vós oportunidade de andar com sabedoria. Seria remir o tempo se os convidassem para a ceia e ali captassem benevolência, para assim mais facilmente os induzirem ao que quisessem. Para andardes com sabedoria, *a vossa palavra seja sempre cheia de graça*, isto é, agradável aos ouvintes, *e temperada com sal*, isto é, moderada com sábia discrição. Ou assim: a vossa palavra seja temperada com sal, de modo que seja sempre na graça, isto é, na recomendação da graça de Deus, e nunca na lei. Temperada com sal, *para que saibais como convém responder a cada um* que pergunta, conforme a sua simplicidade ou prudência.

Assim vos instruo sobre o que foi dito; *tudo o que se passa comigo*, as cadeias e o mais, *vos dará a conhecer Tíquico, irmão caríssimo e fiel ministro*; crede-lhe, porque nada ministrará fora da fé; *e companheiro de serviço no Senhor*, porque, como eu, serve ao Senhor no Evangelho e sofre por ele. Esse Tíquico *enviei a vós* para isto mesmo, para manifestar, *e para que conheça o que se passa convosco*, e eu por ele, *e console os vossos corações*, desolados por causa das minhas cadeias. Dará a conhecer Tíquico, *juntamente com Onésimo, caríssimo e fiel irmão*; ouvi-o, *porque é dos vossos*, nascido entre vós. Estes dois vos farão conhecer *tudo o que aqui se passa*: por isso os recomendou, para que lhes dessem crédito como a ele.

*Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão*, que, como eu, está cativo em cadeias pelo Evangelho; saúda-vos também *Marcos, primo de Barnabé*: sobre os quais dois, sobre não os receber, *recebestes instruções* de mim. Mas, se agora algum dos dois for ter convosco, *recebei-o*, a ambos reconciliados comigo. Este Marcos, não querendo obedecer a Paulo numa certa legação, separou-se dele; Barnabé, porém, levado demasiado por amor carnal, partiu com Marcos (At 15,39). Paulo, porém, para que, separados dele, não pregassem algo fora da fé, escreveu às Igrejas que não os ouvissem. Estes, agora corrigidos, estavam com Paulo; e por isso escreveu de novo sobre recebê-los. Saúda-vos também *Jesus, chamado Justo*, que tem de todos testemunho de justiça. Estes, Marcos, Barnabé, Jesus, *são da circuncisão; e estes são os únicos* da circuncisão *cooperadores meus* na pregação *do reino de Deus*; os quais também foram para mim *um consolo* nas cadeias.

*Saúda-vos Epafras, que é dos vossos*, nascido entre vós; aquele, digo, *servo de Cristo Jesus, e solícito por vós nas orações* sempre feitas; por vós, digo, *para que permaneçais perfeitos* naquilo que recebestes, não para receberdes outra coisa; *e plenos em toda a vontade de Deus*, isto é, conhecendo plenamente toda a vontade de Deus. Verdadeiramente solícito por vós; *pois eu lhe dou testemunho de que tem grande trabalho*, vigiando, orando por vós, *e por aqueles que estão em Laodiceia e em Hierápolis*: eram Igrejas vizinhas dos colossenses. *Saúda-vos Lucas, o médico caríssimo*: este foi o Evangelista. *E Demas vos saúda.*

*Saudai os irmãos que estão em Laodiceia.* Saudai também *Ninfa*, aquela matrona, *e a Igreja que está em sua casa.* Esta costumava ministrar aos pregadores, e Paulo temia que, seduzida, ministrasse a esses falsos apóstolos.

*E, quando esta Epístola tiver sido lida entre vós, fazei que seja lida também na Igreja dos laodicenses, e que vós leiais a dos laodicenses.* *E dizei a Arquipo*, vosso bispo, que, por ter sido desprezado por vós, cessou do ofício, dizei-lhe: *Atende*, isto é, providencia, *cumpre o ministério que recebeste no Senhor, para que o cumpras*, porque, agora corrigidos, estamos prontos a obedecer-te; é digno, com efeito, que aquele a quem o vosso desprezo depôs a vossa obediência restitua. Este Arquipo, irado porque haviam ouvido contra si aqueles falsos apóstolos, dissera que não seria mais bispo deles.

*A saudação escrita de minha mão*; minha, digo, não do notário, mas minha, de Paulo. Antepõe algo à saudação: *lembrai-vos das minhas cadeias*, para que ou me ministreis nas cadeias, ou para que, pelo meu exemplo, padeçais por Cristo. A saudação é esta: *a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco. Amém.*

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# Primeira Epístola aos Tessalonicenses



# Prólogo

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Os tessalonicenses estão na Macedônia. Estes, ouvida a palavra da fé por Paulo, creram, recebendo muita graça no próprio início da fé. Mas, tendo Paulo voltado de junto deles, alguns, conforme dele haviam recebido, perseveraram no bem como imitadores de Paulo; outros, porém, foram pouco a pouco corrompidos, caindo na fossa da fornicação; começaram também a ser ociosos, não querendo trabalhar, e curiosos, indagando com muito afã os rumores da cidade; errando também por duvidar da ressurreição dos mortos, razão pela qual se afligiam além da medida na morte dos amigos, julgando que não ressuscitariam mais. Sendo, pois, duas as partes deles, uma caminhando no itinerário direto de Paulo, a outra, como se disse, desviada do caminho da verdade, Paulo enviou-lhes Timóteo desde Atenas. Voltando este, e conhecendo Paulo com certeza, por Timóteo, a fé de uns e o erro de outros, escreve-lhes esta Epístola, na qual ambas as partes deles, os perfeitos, a saber, e os errantes, são matéria: louvando os bons pela perfeição da fé e exortando-os ao incremento dos bens que começaram; retraindo os errantes da curiosidade, do ócio, da fornicação e da dúvida tida sobre a futura ressurreição com razões congruentes; matéria em que a sua intenção é bastante clara: que os bons trabalhem pelo incremento; os outros, deixado o erro, se conformem à perfeição dos bons pela fé e pela obra.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos tessalonicenses, em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. Graça a vós e paz. Damos sempre graças a Deus por todos vós, fazendo memória de vós nas nossas orações sem cessar, lembrando-nos da obra da vossa fé, do trabalho, da caridade e da firmeza da esperança de nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus e Pai nosso; sabendo, irmãos amados por Deus, da vossa eleição; porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavra, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em grande plenitude, como sabeis que fomos entre vós, por vossa causa. E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a palavra em muita tribulação, com a alegria do Espírito Santo; de modo que vos tornastes modelo para todos os que creem na Macedônia e na Acaia. Porque de vós ressoou a palavra do Senhor, não só na Macedônia e na Acaia, mas em todo lugar a vossa fé em Deus se espalhou, de modo que não temos necessidade de dizer coisa alguma. Eles mesmos, com efeito, anunciam a nosso respeito que entrada tivemos entre vós, e como vos convertestes a Deus, deixando os ídolos, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus o seu Filho (a quem ressuscitou dentre os mortos), Jesus, que nos livra da ira vindoura.

## Comentário

*Paulo*, etc. Como é seu costume, antepõe a saudação, dizendo: *Paulo, Silvano e Timóteo.* Põe consigo na saudação Silvano porque colaborou com ele na conversão deles, tendo autoridade junto deles; Timóteo, porque por conselho de Timóteo, que de junto deles voltara, Paulo lhes escreve esta Epístola; põe também Timóteo para que saibam que nada do que se passa entre eles se esconde a Paulo. Paulo, Silvano e Timóteo escrevem *à Igreja dos tessalonicenses*; Igreja, digo, existente *em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo*, isto é, o que ela é como Igreja, tem-no de Deus Pai e de Jesus Cristo: persevere, pois, na fé daquele de quem já recebeu o nome de eleição. Isto, digo, escrevem: *graça a vós e paz.*

Em primeiro lugar dirige-se à parte deles que conservara a integridade da fé, engrandecendo-lhes a fé e as graças concedidas no princípio da fé, para que pelo louvor do Apóstolo se animem para o melhor, dizendo: ouvindo o fruto da vossa fé, *damos graças a Deus*, e não raramente, mas *sempre*, e *por todos vós*, que perseverais no que vos transmiti. Damos graças, *fazendo memória*, isto é, Deus memorioso de vós, *nas nossas orações*, tidas *sem cessar*, porque a oração é contínua e em nada vos omito. De que dá graças, acrescenta: damos graças, *lembrando-nos da obra da vossa fé*; embora muitas sejam as obras da fé, esta a fé tem de principal: confessar o que crê; estes, porém, na presença dos perseguidores não temiam confessar Cristo. Lembrando-nos também *do vosso trabalho*; estes, com efeito, empobrecidos pelos infiéis, trabalhavam para ter de que viver. Lembrando-nos também *da vossa caridade*; amavam, com efeito, a tal ponto os próximos que comunicavam aos ociosos o fruto dos seus trabalhos. Lembrando-nos também *da vossa firmeza*; muito, com efeito, padeciam dos infiéis: firmeza, digo, *da esperança*, isto é, da coisa esperada; a coisa que esperais, com efeito, opera em vós tão grande paciência: esperança, digo, *de nosso Senhor Jesus Cristo*; a Cristo, com efeito, pertence o cumprimento desta esperança, tida *diante de Deus e Pai nosso*; assim, com efeito, esperavam confiadamente, como se já tivessem Deus diante dos olhos.

Recomendadas a fé e a caridade deles, diz que Deus lhes conferiu, no início da fé, graças mais admiráveis do que às outras Igrejas; e diz isto para incitação deles: fazendo memória de vós nas nossas orações, *sabendo, irmãos amados por Deus, da vossa eleição*, isto é, de quem, porque amou, escolheu, e de novo, depois da eleição, amou mais — antepôs "amados" à eleição para mostrar que os bens deles vinham do amor de Deus —; sabendo, digo, da vossa eleição, esta, a saber, *porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavra*, isto é, de modo que só palavras houvesse na vossa conversão, mas foi *em poder* de milagres *e no Espírito Santo*; na própria recepção da fé, com efeito, tivestes muitas graças; e de tal modo no poder e no Espírito que *em grande plenitude* tanto de milagres como de graças espirituais. Que isto, a saber, tanto os poderes de milagres quanto as graças do Espírito Santo, estiveram em vós, sabemos, assim como vós sabeis isto visível de nós, *quais*, isto é, quão veementemente atribulados fomos *entre vós*; e isto *por vossa causa*, para vos ganhar, não por outra vantagem.

Assim foi a vós o nosso Evangelho; e *vós vos tornastes imitadores nossos*, e porque nossos, por isso *imitadores* de Deus, a quem é glorioso imitar: imitadores, digo, em muita tribulação tolerada, *acolhendo*, isto é, ao acolher a palavra; assim que, com efeito, recebestes a palavra da fé, logo com a fé começastes a padecer; tribulação, digo, aceita não contrariada, mas *com a alegria do Espírito Santo*, porque a afluência das graças, que havia em vós, vos fazia alegrar nas tribulações. Fostes imitadores nossos, *de modo que vos tornastes modelo* de paciência *para todos os que creem na Macedônia e na Acaia*, que antes de vós creram; vendo, com efeito, que vós os precedíeis à coroa, louvavam a velocidade da vossa fé, acusando a sua tardança. A eles certamente vos tornastes modelo, *porque de vós ressoou a palavra do Senhor*, isto é, foi notificada pelo vosso exemplo, *não só na Macedônia e na Acaia, mas também em todo lugar* adjacente a elas. Nem só a palavra do Senhor, mas também a vossa fé muitíssimo se espalhou; fé *em Deus*, isto é, desprezada a glória do mundo, deseja só Deus; espalhou-se de tal modo *que não temos necessidade de dizer coisa alguma* sobre a nossa entrada entre vós ou sobre a vossa conversão. Por isso não é necessário dizer coisa alguma, *porque eles mesmos anunciam* a vosso respeito, isto é, para glória da vossa fé, *que entrada*, isto é, quão difícil entrada *tivemos entre vós*; muito, com efeito, padecemos ao vir e junto de vós; apesar disso não desprezastes a palavra de mim. Anunciam também a vosso respeito [*como*], isto é, quão perfeitamente *vos convertestes a Deus, deixando os ídolos*, nos quais só há simulação, nenhuma verdade; convertidos, digo, não só para crer, mas também *para servir ao Deus vivo*, isto é, eterno, que há de vos dar a vida da eternidade; *vivo e verdadeiro*, isto é, em quem há verdade, como no ídolo simulação: e não de qualquer modo servir, mas *convertestes-vos também para esperar o seu Filho*, que há de vir *dos céus* para o juízo — a tal ponto, com efeito, estão seguros de bem agir que se alegram de ir ao encontro do juiz, não temendo a pena, mas seguros do prêmio —; Filho *a quem Deus ressuscitou dentre os mortos*, feito para nós *Jesus*, isto é, Salvador, cuja ressurreição opera a nossa ressurreição; Filho que *nos livra da ira*, isto é, da vingança vindoura sobre os ímpios; livrou-nos certamente no batismo, perdoando os pecados.

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Pois vós mesmos sabeis, irmãos, que a nossa entrada entre vós não foi vã; mas, tendo antes padecido e sido ultrajados (como sabeis) em Filipos, tivemos confiança em nosso Deus para vos falar o Evangelho de Deus em meio a muita solicitude. Porque a nossa exortação não procede de erro, nem de impureza, nem de dolo; mas, assim como fomos aprovados por Deus para que nos fosse confiado o Evangelho, assim falamos, não como quem agrada aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações. Pois nunca usamos de palavra de adulação, como sabeis, nem de pretexto de avareza; Deus é testemunha; nem buscando glória dos homens, nem de vós, nem de outros, podendo, como Apóstolos de Cristo, ser-vos pesados; mas fizemo-nos pequeninos no meio de vós, como a ama que acaricia os seus filhos. Assim, desejando-vos com afeto, queríamos dar-vos não só o Evangelho de Deus, mas também as nossas próprias almas; porque vos tornastes muito queridos para nós. Lembrai-vos, com efeito, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, pregamos entre vós o Evangelho de Deus. Vós sois testemunhas, e Deus também, de quão santa, justa e irrepreensivelmente nos portamos convosco, os que credes; como sabeis que a cada um de vós (como um pai a seus filhos) exortando-vos e consolando-vos, testemunhamos que andásseis de modo digno de Deus, que vos chamou ao seu reino e glória. Por isso também nós damos graças a Deus sem cessar, porque, ao receberdes de nós a palavra de Deus que ouvistes, a recebestes não como palavra de homens, mas, como é de fato, como palavra de Deus, que opera em vós, os que credes. Pois vós, irmãos, vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia em Cristo Jesus, porque as mesmas coisas padecestes também vós de vossos compatriotas, como eles também dos judeus; os quais mataram o Senhor Jesus e os Profetas, e a nós nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os homens, impedindo-nos de falar aos gentios para que se salvem, a fim de encherem sempre a medida dos seus pecados; pois a ira de Deus veio sobre eles até o fim. Nós, porém, irmãos, privados de vós por pouco tempo, de vista, não de coração, mais abundantemente nos esforçamos por ver o vosso rosto, com grande desejo; pois quisemos ir a vós; eu, Paulo, uma e outra vez, mas Satanás nos impediu. Qual é, com efeito, a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de glória? Não sois vós, diante de nosso Senhor Jesus Cristo, na sua vinda? Pois vós sois a nossa glória e alegria.

## Comentário

Dizendo acima "qual entrada" e "quais irmãos", já por duas vezes lhes tinha significado a dificuldade da sua entrada; como não a explicara, agora a insere com bastante astúcia, dizendo: não convém que eu diga que entrada tivemos entre vós; *pois vós mesmos, irmãos, sabeis bem a nossa entrada entre vós, que* (isto é, porque) *não foi vã*, isto é, inútil — seria vã se padecesse por coisas do mundo, ou se fugisse de padecer, ou se neles não fizesse fruto de fé —: não foi vã, *mas*, antes, isto é, ao vir, *padecemos em Filipos* a acerbidade da tribulação, e fomos também *ultrajados*, isto é, afligidos com palavras opróbrias; padecidos e ultrajados, digo, *como vós mesmos sabeis.* Nós, digo, assim padecemos e fomos ultrajados *em meio a muita solicitude* entre vós, isto é, cuidadosos das coisas domésticas; em grande penúria estávamos, com efeito, e cuidadosos para que vós, vendo o nosso desprezo, não desprezásseis em nós a palavra de Deus; e, embora estivéssemos em tão grande solicitude, *tivemos contudo confiança* de vos falar *o Evangelho de Deus*; tivemos, digo, *em nosso Deus*; por excessiva dificuldade, com efeito, a força humana, desfalecendo em nós, nos compelia a consultar Deus. Por isso tivemos confiança, *porque a nossa exortação* feita a vós *não procede de erro*, isto é, de persuasão de erro, como se vos ensinasse a errar na fé, *nem de impureza*, como aqueles nicolaítas que persuadem serem as mulheres comuns a todos. Nem a nossa exortação é *em dolo*, isto é, em engano; poderia, com efeito, não ser de erro nem de impureza e contudo em dolo, se pretendesse receber deles. Não foi em dolo, mas *como fomos aprovados*, isto é, provadamente examinados *por Deus*, para que por ele nos fosse confiado o Evangelho; *como fomos aprovados, assim falamos*, isto é, Deus não achou em nós menos do que previu que acharia; falamos, digo, não só sem agradar, mas nem sequer feitos como quem agrada *aos homens*, mas procurando agradar *a Deus, que prova os nossos corações*, isto é, a quem também está aberta a nossa vontade.

Verdadeiramente não como quem agrada aos homens, *pois nunca usamos de palavra de adulação, como vós sabeis*, e vos tomo por testemunhas; *nem fomos* em palavra de avareza, nem sequer *em pretexto*, de modo que ao menos pudesse haver suspeita de nós; e *Deus é testemunha* disso: e *não buscamos glória dos homens*, nem *de vós, nem de outros.* Não fomos em pretexto de avareza, *podendo* (isto é, ainda que pudéssemos) *ser-vos pesados*, recebendo de vós as coisas temporais *como Apóstolos de Cristo.* Não buscando glória, mas *fizemo-nos pequeninos no meio*, isto é, humildes na vossa comunidade; ninguém houve, com efeito, a quem eu não condescendesse: pequeninos, digo, *como a ama*, que condescende com o pequenino e muito sofre dele; não ama contratada por preço, mas que acaricia os próprios filhos, a quem por só dileção é pequenina, nada ali buscando além dos filhos. *Como a ama aos filhos, assim, desejando-vos*, não as vossas coisas, queríamos com afeto dar-vos não só o Evangelho de Deus, mas também, se fosse preciso, *as nossas próprias almas*; isso porque *vos tornastes muito queridos para nós.*

Fizemo-nos certamente pequeninos como a ama; *lembrai-vos, com efeito, irmãos, do nosso trabalho e fadiga*: podia, com efeito, trabalhar não até a fadiga, mas muitas vezes trabalhava por Deus a ponto de desistir mais cansado do que voluntário. Digo bem "trabalho e fadiga"; nós, com efeito, *pregamos entre vós o Evangelho de Deus, trabalhando noite e dia*, quanto do dia restava da pregação e da oração; assim trabalhando, *para não sermos pesados a nenhum de vós.* E que assim fiz, *vós sois testemunhas, e Deus também*, de quão santamente em mim, e quão justamente para com o próximo, *e irrepreensivelmente*, isto é, inocentemente, sem todo mal, *nos portamos convosco, os que credes.* Porque santa e justamente nos portamos convosco, tendes isto tão sabido *como sabeis*, de que modo *testemunhamos a cada um de vós, exortando-vos e consolando-vos* aos atribulados, *como um pai consolaria os seus filhos*; testemunhamos *que andásseis de modo digno de Deus*, isto é, para serdes dignos de ter Deus, ou para que seja digno Deus habitar em vós; *Deus que vos chamou ao seu reino*, isto é, para que agora reinasse em vós, que antes éreis reino do diabo, *e glória* a ter no futuro.

E porque fostes chamados ao reino de Deus, *por isso também nós damos graças a Deus sem cessar; porque, ao receberdes de nós a palavra que ouvistes*, isto é, ao acolherdes a palavra de Deus só pelo ouvir, *a recebestes não como palavra de homens, mas como palavra de Deus*, o que é verdade; *Deus que opera cada dia em vós, que credes.* E verdadeiramente opera em vós; *pois vós, irmãos, vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia*; que estão, digo, *em Cristo Jesus*: imitadores nisto, *porque as mesmas coisas padecestes também vós de vossos compatriotas, como eles também dos judeus*; não é de admirar que esses judeus os persigam, *porque mataram o Senhor Jesus e os Profetas; a nós também nos perseguiram*; no que certamente *não agradam a Deus*, embora perseguindo-nos julguem prestar obséquio a Deus; esses judeus *são também adversários de todos os homens*, isto é, da utilidade de todos os homens, *impedindo-nos de falar aos gentios para que se salvem*; impedindo para *encherem sempre a medida dos seus pecados*, até serem justa e suficientemente provados, e os ímpios chegarem ao cúmulo da condenação. Por isso assim impedem, porque *a ira*, isto é, a cegueira de Deus *veio sobre eles até o fim*, quando Deus tirar o véu dos seus corações, e então os restos serão salvos; ou então, até o fim, isto é, até a morte, quando serão entregues ao fogo perpétuo.

E porque vós padecestes as mesmas coisas, por isso, *irmãos, nós, privados de vós*; a causa, com efeito, da nossa desolação vinha de vós, não porque lamentássemos a queda, mas porque temíamos; privados, digo, *por pouco tempo*, isto é, desde que enviamos Timóteo a vós até que por ele ouvimos a vossa constância — onde diz "por pouco tempo", insinua que não pecaram —; privados, digo, removido o rosto, isto é, a nossa palavra de vós, *de vista*, removida a vista, mas *não de coração*, *mais abundantemente que antes nos esforçamos por ver o vosso rosto, com grande desejo.* Digo bem "com desejo"; *pois quisemos ir a vós*, e no próprio caminho já estávamos; *eu, Paulo*, o que quer que outros temessem, *quis ir uma e outra vez; mas Satanás nos impediu*: Satanás, para, removida a consolação do mestre, mais facilmente vos poder perverter; Deus consentiu nisto para vos ter mais gloriosos pela tentação superada. Satanás impediu, portanto, porque vós sois a nossa esperança, etc. Ou assim: por isso quisemos ir, porque *qual é a nossa esperança* a ter no futuro, *ou qual a alegria* então de novo preparada para mim, *ou coroa de glória*, isto é, aquela alegria não será medíocre, mas coroa de glória, isto é, coroa gloriosa; digo, qual é a minha alegria e coroa? Mas *não sois vós*, pela pureza da vida, postos agora *diante de nosso Senhor Jesus*? Sois, digo, coroa preparada para mim *na sua vinda.* Verdadeiramente então sereis para mim alegria e coroa, *porque já agora*, onde, oprimido pela carne, menos entendo, *sois vós a nossa glória e alegria.*

</div>

# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, não suportando mais, pareceu-nos bem ficar sós em Atenas; e enviamos Timóteo, nosso irmão e ministro de Deus no Evangelho de Cristo, para vos confirmar e exortar em favor da vossa fé; para que ninguém se abale nestas tribulações; vós mesmos sabeis, com efeito, que para isto fomos postos. Pois também, quando estávamos entre vós, vos predizíamos que haveríamos de padecer tribulações, como também aconteceu, e sabeis. Por isso também eu, não suportando mais, enviei para conhecer a vossa fé, para que porventura o tentador não vos tenha tentado e o nosso trabalho se torne vão. Agora, porém, tendo Timóteo chegado a nós, vindo de junto de vós, e anunciando-nos a vossa fé e caridade, e que tendes sempre boa lembrança de nós, desejando ver-nos, como nós também a vós; por isso fomos consolados, irmãos, a vosso respeito, em toda a nossa necessidade e tribulação, pela vossa fé; porque agora vivemos, se vós permaneceis firmes no Senhor. Que ação de graças, com efeito, podemos render a Deus por vós, em toda a alegria com que nos alegramos por vossa causa diante do nosso Deus, orando noite e dia, mais abundantemente, para que vejamos o vosso rosto e completemos o que falta à vossa fé? Que o próprio Deus e Pai nosso, e o Senhor Jesus Cristo, dirijam o nosso caminho até vós. A vós, porém, o Senhor multiplique e faça abundar a caridade de uns para com os outros e para com todos, como também nós para convosco; para confirmar os vossos corações, irrepreensíveis em santidade diante de Deus e Pai nosso, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus santos. Amém.

## Comentário

*Por isso*, porque padecestes as mesmas coisas, e porque nós estamos privados de vós, e porque vós sois a nossa alegria e coroa, por isso *não suportando mais* — diz "suportando" porque, até que o consolou por Timóteo e por ele soube de que modo permaneciam na fé, suportou, como grave peso, o temor da queda deles —; *não suportando mais, pareceu-nos bem*, a mim e a Silvano, *ficar sós em Atenas*, isto é, de modo a ficarmos sós, privados do auxílio de Timóteo, que nos era necessário. Aqui significa que dirigiu esta Epístola desde Atenas. Ficamos em Atenas, e *enviamos Timóteo, nosso irmão e ministro de Deus no Evangelho de Cristo*; recomendo-o a vós, ouvi-o; enviamos, digo, *para vos confirmar*, para que progredísseis para o melhor; confirmar e *exortar*, digo, *em favor da vossa fé*, a guardar, para que não erre nem desfaleça; confirmar, digo, *para que ninguém de vós se abale nestas tribulações*, que vós padeceis e nós padecemos. Onde diz "ninguém se abale", insinua que ainda não foram abalados, e que não quer que sequer um seja abalado da fé. Não deveis abalar-vos; *vós mesmos*, com efeito, *sabeis bem que para isto fomos postos*, nós e vós, para padecer as adversidades: sabeis certamente; *pois quando estávamos entre vós, vos predizíamos que haveríamos de padecer tribulações*, como certamente, segundo a minha palavra, *aconteceu, e vós bem sabeis que aconteceu.* *Por isso*, isto é, porque padeci tribulações, para que a tribulação do mestre não fosse causa do vosso desfalecimento, eu, *não suportando mais, enviei para conhecer a vossa fé*, para que por um legado conhecesse a vossa fé. Enviei, portanto, *para que porventura não vos tenha tentado aquele que tenta*, isto é, cujo ofício é tentar; e para que assim *o nosso trabalho não se torne vão*, sucumbindo vós à tentação.

Outrora enviei; *agora, porém, tendo Timóteo vindo de junto de vós a nós*, e anunciando-nos a fé que firmemente mantendes, *e a vossa caridade*, com que provais amar a todos nós; anunciando também *que tendes boa lembrança de nós*, como deveis, *desejando sempre ver-nos, como nós também desejamos ver-vos*: ele anunciando isto, *fomos consolados, irmãos, a vosso respeito*, por isso, isto é, pelo que assim anuncia de vós, e não por outra coisa; poderia, com efeito, anunciar-se isto a ele mesmo e ele consolar-se por outra coisa. Fomos consolados a vosso respeito *pela fé*, isto é, por causa da vossa fé firmemente estável, ou então, pela vossa fé juro ter-me consolado, que, amando-a, não perjuraria; consolados, digo, *em toda a nossa necessidade*, isto é, penúria, *e tribulação* que padeço dos perseguidores; porque nem a minha aflição pode perturbar a alegria que tenho da vossa firmeza. Digo por isso que fomos consolados, *porque agora vivemos*, ainda em tribulação e penúria, isto é, cremos viver em alegria, *se vós permaneceis firmes no Senhor*, o que certamente é verdade, porque permaneceis: o "se" é aprobativo.

Com razão, portanto, vivemos: *que ação de graças*, com efeito, *podemos render a Deus por vós*, que permaneceis na fé e na caridade; podemos, digo, nós, postos *em toda a alegria com que nos alegramos por vossa causa*, existentes *diante do nosso Deus*; ou então, alegramo-nos diante do nosso Deus por causa de vós; agrada, com efeito, à vista de Deus que, esquecido da minha tribulação, me congratule com os vossos bens. Diz "render" porque os bens que Deus concede às Igrejas de Paulo, Paulo os conta como conferidos a si. Alegramo-nos, não só dando graças, mas *orando noite e dia, mais abundantemente* do que antes, ainda não ouvida a vossa perfeição; orando isto, *para que vejamos o vosso rosto*; e, presentes, *completemos em vós o que ainda falta à vossa fé.* Paulo, quando lhes transmitiu primeiro a fé, porque ainda eram simples, não capazes de apreender os mistérios de Deus, iniciou-os conforme o que era necessário à fé; mas, porque agora são perfeitos, se agora estivesse entre eles, abriria as Escrituras e os mistérios de Deus; que, assim como antes seriam supérfluos à simplicidade deles, assim agora faltavam à sua perfeição. Oramos para ver o vosso rosto; *o próprio Deus e Pai nosso e o Senhor Cristo dirijam o nosso caminho até vós*, isto é, tornem direto o nosso itinerário até vós.

*Quer eu vá, quer não, o Senhor sempre vos multiplique* segundo o aumento dos membros, *e faça abundar a vossa caridade de uns para com os outros*, para que todos reciprocamente vos ameis na Igreja; *e para com todos*, isto é, passe também aos infiéis a vossa caridade; *faça abundar, como também nós abundamos em caridade para convosco*; abundar, digo, *para confirmar os vossos corações*, para que a vossa vontade seja confirmada em todo bem; confirmar, digo, *irrepreensíveis*, para que nenhuma injustiça haja ali, e confirmar *em santidade*, para que sejais santificados e confirmados nos bens; santidade, digo, tida *diante de Deus e Pai nosso*, isto é, no beneplácito de Deus Pai. Corações, digo, assim a confirmar *na vinda*, isto é, na consideração da vinda *de nosso Senhor Jesus Cristo*; quem, com efeito, sempre se lembrar bem da vinda de Cristo para o juízo, temerá provocá-lo pecando; ou assim: a confirmar na vinda, isto é, até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; Cristo, digo, que há de vir *com todos os seus santos*, que com ele hão de julgar o mundo; ou então, a confirmar com todos os seus santos, para que assim vos confirme como confirmou os seus santos. *Amém*, isto é, assim seja, para que assim sejais confirmados.

</div>

# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto ao mais, irmãos, rogamo-vos e exortamo-vos no Senhor Jesus que, assim como de nós recebestes o modo como convém andardes e agradardes a Deus, assim também andeis, para que abundeis ainda mais. Sabeis, com efeito, que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus. Esta é, com efeito, a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da fornicação; que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra, não na paixão do desejo, como também os gentios, que não conhecem a Deus; e que ninguém ultrapasse nem engane a seu irmão em negócio; porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como já vos dissemos e testificamos. Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santificação. Portanto, quem despreza isto não despreza um homem, mas a Deus, que também nos deu o seu Espírito Santo. Quanto à caridade fraterna, não temos necessidade de vos escrever; vós mesmos, com efeito, aprendestes de Deus a amar-vos uns aos outros. E isto de fato fazeis para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Rogamos-vos, porém, irmãos, que abundeis ainda mais, e procureis viver em sossego, tratar do que é vosso e trabalhar com as vossas mãos, como vos ordenamos; e que andeis honestamente para com os de fora, e de ninguém precisais. Não queremos, porém, irmãos, que ignoreis a respeito dos que dormem, para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus trará com ele, por Jesus, os que dormiram. Isto, com efeito, vos dizemos na palavra do Senhor: que nós, os que vivemos, os que ficamos até a vinda do Senhor, não precederemos os que dormiram. Porque o próprio Senhor, à voz de comando, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu; e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que vivemos, os que ficamos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens ao encontro de Cristo nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras.

## Comentário

Até aqui louvou a parte dos perfeitos e exortou-os ao incremento da perfeição; agora começa a instruir aquela parte que parecia corromper-se pela fornicação, curiosidade, ócio e dúvida sobre a ressurreição, dizendo: assim louvo a vós perfeitos e convido ao incremento; *quanto ao mais, irmãos*, isto é, dirigindo-me à outra parte, *rogamo-vos* como coisa devida, *e exortamo-vos*, agindo mais brandamente, ao pedir o que é lícito mandar; exortamo-vos, digo, *no Senhor Jesus*, se dele quereis alegrar-vos, que, *assim como de nós recebestes o modo como convém andardes e agradardes a Deus* — diz-se andar naquelas coisas sem as quais o homem não pode salvar-se; agradar, naquelas que por dileção o homem acrescenta, como guardar a virgindade, nada possuir no mundo; coisas que, se não fizesse, poderia todavia salvar-se —, *assim também andeis*, como creio que andais, embora assim vos admoeste: rogamos e exortamos que, admoestados por mim, abundeis ainda mais, andando e agradando, do que antes.

E deveis abundar; *sabeis*, com efeito, *que preceitos*, isto é, quão dignos preceitos *vos demos da parte do Senhor Jesus* que assim me instituía. Dignos preceitos certamente vos dei; *pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação*, isto é, que sejais santificados, removido de vós todo vício; esta é, digo, a vossa santificação: *que vos abstenhais da fornicação*, para não corromperdes a mulher do próximo, *e que cada um de vós saiba possuir o seu vaso*, isto é, o seu corpo — assim como o soldado na tenda, assim o espírito no corpo deve militar para Deus, ministrando com as mãos aos pobres, visitando com os pés os enfermos, e semelhantes nos demais membros; diz "possuir" porque o corpo deve ser domado pelo espírito de modo a ser possuído como servo da razão, levando qualquer fardo que lhe é imposto —; possuir, digo, *em santificação*, para que se faça santo na habitação das virtudes, e possuir *em honra*, para que não se incline ao ato de torpeza; *e não na paixão do desejo*, de modo que ao menos deseje o ato torpe, quanto mais o opere: desejo, digo, que é estar em paixão; grave paixão, com efeito, é do ânimo viver no desejo da carne: viver na paixão do desejo, *como fazem os falsos cristãos e os gentios, que não conhecem a Deus.* Abstende-vos da fornicação e do adultério; o que diz assim: *que ninguém ultrapasse* seu irmão em algum negócio privado tido com a mulher dele, *nem o engane* no mesmo. Ultrapassar seria se violentamente raptasse a mulher de outro; enganar, se por sedução de preço ou de rogo subvertesse a mulher do próximo a consentir consigo. Esta sentença não a insinuam bastante abertamente as palavras do livro, mas o que precede e segue parece querê-la.

Ou mudem-se aquelas primeiras: abstende-vos da fornicação com meretrizes, para que cada um de vós saiba possuir o seu vaso, isto é, a sua mulher, que é corpo do marido, *em santificação*, isto é, em limpeza, *e em honra*, não em torpeza, *e não na paixão do desejo*, isto é, para que não se afeiçoe demasiado carnalmente à mulher, como fazem os gentios, que ignoram a Deus: o que segue não se muda. Por isso ninguém engane o irmão, etc., *porque o Senhor é vingador de todas estas coisas*, tanto da fornicação como do adultério, *como já vos dissemos* quando estávamos entre vós, *e testificamos* com testemunhos das Escrituras.

Verdadeiramente o Senhor é vingador destas coisas; *pois Deus não nos chamou para a impureza* a operar, *mas para a santificação* a ter; e porque Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santificação, *portanto quem despreza* o precaver-se disto, a saber, da fornicação e do adultério, *não despreza um homem, mas a Deus*, que chama à santificação; despreza também o seu hóspede, o Espírito Santo; o que diz assim: *que também nos deu o seu Espírito Santo*, a quem, se desprezais como Deus, perdeis com Deus desprezado.

Da fornicação e do adultério assim vos instruímos; mas *quanto à caridade fraterna, não temos necessidade de vos escrever*, porque *vós mesmos aprendestes de Deus*, ou inspirando interiormente, ou ensinando isto no Evangelho, *a amar-vos uns aos outros*, onde diz: «Este é o meu preceito, etc.» (Jo 15,12). Por isso, de novo, não é necessário escrever-vos, *porque vós fazeis aquele preceito da dileção para com todos os irmãos* existentes *em toda a Macedônia.* Mas, embora não seja necessário por isso escrever-vos, contudo *rogamo-vos* a todos, *irmãos, que abundeis* na caridade mais do que de costume, *e procureis viver em sossego*, não tão curiosos pela cidade a indagar rumores; e, para viverdes em sossego, *tratai do que é vosso*, para que, desprezado o próprio, não cuideis dos negócios alheios: nestas palavras interdiz o vício da curiosidade. E para viverdes em sossego, *trabalhai com as vossas mãos*, para que tenhais de que viver, a fim de que, ociosos, não consumais ilicitamente os trabalhos alheios: aqui proibiu a ociosidade. Trabalhai, digo, *como vos ordenamos* estando presentes; trabalhai porque vo-lo ordenamos, *e andai honestamente para com os de fora*, isto é, à vista dos infiéis, para que não tenham em que vos detraiam. Trabalhai também *para que de ninguém precisais*, isto é, para que, tendo do próprio trabalho, não cobiceis a coisa alheia, o que a indigência vinda do ócio compele a desejar.

Agora resolve com razões congruentes a dúvida que tinham sobre a ressurreição, dizendo: da caridade não é necessário escrever-vos; mas *a respeito dos que dormem não queremos que ignoreis, irmãos* — chama dormentes os mortos, para mostrar que Deus ressuscita os mortos tão facilmente como é fácil o dormente ser despertado do sono —; por isso não queremos que ignoreis a respeito dos que dormem, *para que não vos entristeçais* imoderadamente pelas mortes dos próximos, *como os gentios* e também os falsos cristãos, *que não têm esperança* da ressurreição futura. E os que desesperam da ressurreição não deveis assim entristecer-vos, *pois, se cremos que Jesus* — e para provar a sua verdadeira Ressurreição, antepõe: Jesus verdadeiramente *morreu e ressuscitou*; se isto, digo, cremos, assim também devemos crer que *aqueles que*, vivendo por Jesus, *dormiram por Jesus*, isto é, cuja vida e morte foi em Jesus, *a estes, digo, Deus trará com ele*, isto é, com Jesus, impassíveis, imortais, na glória.

Destrói a falsa opinião de alguns que diziam que os corpos ainda íntegros naquele dia poderiam ressurgir, mas os que estivessem dissolvidos em cinzas nunca ressurgiriam, dizendo: verdadeiramente os que dormiram serão trazidos com Jesus; *pois isto vos dizemos na palavra do Senhor*; Deus, com efeito, no-lo revelou; *que nós, os que vivemos* na vinda do Senhor, *e que ficamos* tantos males — põe-se como futuro no último dia, porque a perseguição dos Apóstolos e dos fiéis sob o Anticristo vindouros será comparada com semelhante dificuldade; donde o mesmo diz noutro lugar: Nós somos «aqueles para quem chegaram os fins dos séculos» (1Cor 10,11) —; nós, digo, que ficamos até a vinda do Senhor, *não precederemos* na ressurreição *os que dormiram*, os que antes de nós dormiram, como Abraão e os demais. Neste versículo fez ambas as coisas: aprovou a verdade da ressurreição de todos, e mostrou que a ressurreição daqueles de quem duvidavam será antes. Aqui, contudo, deve-se notar que só aprova a ressurreição dos justos.

Verdadeiramente nós, os que ficamos, não precederemos os primeiros; *porque o próprio Senhor* Cristo *descerá do céu à voz de comando*, isto é, com império, ele que outrora desceu em obediência e humildade; descerá também *à voz do Arcanjo* — quer este Arcanjo signifique Cristo, que soará com a própria voz, quer outro Anjo determinado; não temos quem dará aquela voz à qual ressurgirão os mortos —; *à voz do Arcanjo e ao som da trombeta de Deus*; aquela voz, com efeito, será como trombeta, que excita os seus e aterra os adversários; assim aquela voz convidará os santos à palma, aterrará os ímpios para a pena. Assim, digo, Jesus descerá; e então *os mortos que estão em Cristo*, que já há muito estão em Cristo, como Abraão e os demais, *ressuscitarão primeiro*; e depois, depois deles, *nós, os que vivemos* naquele tempo, *e que ficamos* de tantas perseguições do Anticristo, *seremos arrebatados juntamente com eles* primeiros *nas nuvens*; as nuvens, com efeito, nos levarão *ao encontro do Senhor nos ares*, onde julgará a todos; e dali *estaremos sempre com o Senhor*, nós os eleitos; estaremos, digo, assim, isto é, com os corpos retomados na incorrupção. E porque por estas palavras vos foi aprovada a verdade da ressurreição, *consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras*, isto é, um ao outro, dizendo: verdadeiramente ressurgiremos impassíveis; estaremos com o Senhor, etc.

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto aos tempos e momentos, irmãos, não precisais que vos escrevamos. Vós mesmos, com efeito, sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como ladrão de noite. Quando disserem: Paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina ruína, como as dores à mulher grávida, e não escaparão. Vós, porém, irmãos, não estais nas trevas, para que aquele dia vos surpreenda como ladrão; pois todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas. Portanto, não durmamos como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios. Pois os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestidos da couraça da fé e da caridade, e tendo por capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele. Por isso, consolai-vos uns aos outros e edificai-vos mutuamente, como também fazeis. Rogamo-vos, porém, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e vos presidem no Senhor, e vos admoestam, e que tenhais por eles mais abundante caridade, por causa da sua obra; tende paz com eles. Rogamo-vos também, irmãos: repreendei os inquietos, consolai os pusilânimes, amparai os fracos, sede pacientes para com todos. Vede que ninguém pague a alguém mal por mal; mas procurai sempre o que é bom, uns para com os outros e para com todos. Alegrai-vos sempre; orai sem cessar; em tudo dai graças; pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus a respeito de todos vós. Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias; examinai tudo; retende o que é bom. Abstende-vos de toda espécie de mal. O próprio Deus da paz vos santifique em tudo, e seja conservado íntegro e irrepreensível o vosso espírito, a vossa alma e o vosso corpo, para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que vos chamou, o qual também o fará. Irmãos, orai por nós. Saudai a todos os irmãos com o ósculo santo. Conjuro-vos pelo Senhor que esta Epístola seja lida a todos os santos irmãos. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco. Amém.

## Comentário

Depois de ter provado bastante claramente a ressurreição dos corpos, acrescenta sobre aquele último dia, que será aos justos para a glória, aos ímpios para a pena, para que, pelo terror daquele dia, os que estavam no pecado de fornicação, curiosidade e ócio voltem a si; pelo desejo da glória futura se insiram na conformidade dos bons. A letra liga-se assim: sobre a ressurreição dos mortos, porque ignoráveis, escrevemos-vos; mas *sobre os tempos* futuros até o dia do juízo, isto é, quantos tempos, sejam cem ou mil anos, haverá até o dia do juízo, ou então, sobre os tempos, isto é, se no verão ou no inverno, se de dia ou de noite será o juízo; *e os momentos*, isto é, em que hora do dia ou da noite, do verão ou do inverno; sobre estas coisas, *irmãos, não precisais que vos escrevamos.* Por isso não precisais, *porque vós mesmos sabeis muito bem*, isto é, por diligente investigação das Escrituras, o que nós dali sabemos, isto é, *que o dia do Senhor virá assim como ladrão de noite.* Não diz "dia" por saber determinadamente que o juízo será de dia, mas porque então, naquele juízo, todas as coisas serão como no dia, isto é, em aberta manifestação, as que antes estavam ocultas. Diz que este dia é *do Senhor* porque então tudo começará a fazer-se por vontade e império do Senhor; agora, porém, no mundo muitas coisas se fazem não por vontade de Deus, mas por permissão. O dia, digo, do Senhor virá assim, como ladrão, para ser mais oculto, vindo de noite: o ladrão, se vier de dia, mais facilmente podemos precaver-nos dele, mas, se de noite, a própria noite, prestando oportunidade, ajuda a iniquidade do ladrão. Por isso se diz que aquele dia virá como ladrão de noite, porque, assim como qualquer rico, à tarde cercado de muita opulência, interceptado de noite por um ladrão, no dia seguinte se acha nu, assim aqueles que nos pecados negligenciam precaver-se daquele dia, ricos tarde nas coisas mundanas, no dia seguinte, tirados do mundo, serão achados nus, perdidas as temporais, e entregues aos incêndios eternos. Aqui se entende sobretudo o dia do Senhor como dia do juízo; este dia do Senhor, contudo, começa na morte de cada um. Deve-se notar também que aquele dia aos ímpios, que não querem precaver-se, virá como ladrão de noite; aos justos, porém, sempre vigilantes, a qualquer hora que venha, não vem como ladrão, porque antes então serão aumentados do que em algo diminuídos.

Verdadeiramente virá assim como ladrão, porque *quando aqueles amantes do mundo disserem: Paz* nos é nas coisas presentes *e segurança* quanto ao futuro, *então lhes sobrevirá repentina ruína*, isto é, imprevista condenação; repentina, digo, *como as dores à mulher grávida* sobrevêm repentinas. Não determina o que tem no ventre, mas se entende bastante que isto foi dito da mulher grávida; e comparou-a à dor da grávida por ambas as razões, e porque aquela dor é súbita, nem a grávida sabe determinar a si hora certa, mas onde quer que seja surpreendida, pare, e pela maior angústia dessa dor; assim naquele dia tanto virá imprevista a ruína, como plena de toda angústia. Para que esta ruína não parecesse transitória como a dor da grávida, acrescenta: sobrevirá, sim, a ruína, *e não escaparão* os ímpios àquela ruína, perdurando sempre nela.

Porque agora os atemorizou com tanta aspereza de palavras, nas passagens seguintes os afaga, dizendo que não são aqueles a quem esta ruína deva sobrevir: os ímpios, sim, não escaparão da repentina ruína; mas *vós, irmãos, não estais nas trevas*, isto é, na ignorância e obscuridade do pecado, *para que aquele dia vos surpreenda como ladrão*: surpreenderia se os achasse impenitentes nos pecados. Verdadeiramente não estais nas trevas; *pois todos vós sois filhos da luz*, isto é, gerados na luz da fé, *e sois filhos do dia*, isto é, gerados nas boas obras; porque, assim como a luz precede, o dia segue, assim a fé é primeira, as obras boas seguem. Sois filhos da luz, *e não filhos das trevas*, isto é, da ignorância, e *não filhos da noite*, isto é, da densidade dos pecados; assim como, com efeito, as trevas precedem a noite, assim primeiro a ignorância da verdade, e pela ignorância chega-se à densidade do pecado. E porque somos filhos da luz e do dia, não da noite e das trevas, *portanto não durmamos*, isto é, não sejamos torpes, *como os demais*, isto é, os infiéis e também os falsos fiéis, *mas vigiemos*, isto é, sejamos zelosos em operar o bem, *e sejamos sóbrios*, isto é, não embriagados do amor das coisas temporais.

Devemos vigiar e ser sóbrios, porque *os que dormem*, isto é, entorpecem, *dormem de noite*, isto é, por causa da noite, isto é, da densidade dos pecados em que estão; e os que se embriagam do amor das coisas temporais, esquecidos das celestes, estes *embriagam-se de noite*, isto é, por causa da noite, isto é (como se disse) da densidade dos pecados. Os que se embriagam, de noite se embriagam; mas *nós, que somos não da noite, mas do dia, sejamos sóbrios*, isto é, não cegados pelo amor das coisas temporais; sejamos, digo, sóbrios, *revestidos da couraça da fé* — e bem comparou a fé à couraça, porque, assim como na couraça muitos anéis estão encadeados em um, assim na fé muitas coisas são necessárias para crer, encadeadas, contudo, na mesma unidade —; revestidos também *da couraça da caridade*, com que amamos a Deus e o próximo, sejamos seguros e bem protegidos pela fé e pela caridade contra todo ímpeto dos inimigos; *e tendo por capacete*, isto é, a esperança da salvação futura, para que, assim como o capacete protege a cabeça, assim a nossa mente seja envolvida pela esperança da bem-aventurança futura; devemos esperar a salvação, *porque Deus não nos destinou para a ira*, isto é, para a perdição, mas nos destinou, nas coisas ditas, fé, caridade e esperança, *para a aquisição da salvação*, isto é, para que por isso adquiramos a salvação perpétua; salvação, digo, a ter *por nosso Senhor Jesus Cristo.* Põe o mérito de Cristo, com que nos mereceu esta salvação, dizendo: Cristo, *que morreu por nós, para que vivamos juntamente com ele* na glória eterna, *quer vigiemos*, isto é, quer vivos sejamos achados na vinda de Cristo, *quer durmamos*, isto é, quer mortos sejamos achados. *Por isso*, isto é, porque nos deu fé, caridade e esperança para a aquisição da salvação, *consolai-vos uns aos outros*, aos que sabem estas coisas, *e edificai-vos mutuamente*, aos que as ignoram, *como creio que também fazeis.*

Depois de ter bastante louvado a parte dos perfeitos pela fé e pelo bem da fé, e de ter admoestado a outra parte quanto à correção, edifica daqui em diante alternadamente súditos e prelados, como os súditos devam acomodar-se aos prelados, e vice-versa, dizendo: admoesto os bons a trabalhar pelo incremento, os errantes a desviar-se dos pecados; *vós, porém, irmãos*, que sois súditos, *rogamo-vos que reconheçais os que trabalham entre vós*, isto é, os prelados, que jejuando, orando e ensinando trabalham pela vossa salvação; diz "reconheçais" para que naquilo de que necessitam lhes ministreis; que trabalham, digo, *e vos presidem no Senhor*, que assim dispõe, *e vos admoestam* para o melhor; não só que os reconheçais, mas que *os tenhais com mais abundante caridade* do que costumais. *E tende paz*, isto é, concórdia, com eles, se vos repreendem mais acremente, *por causa da sua obra*, isto é, sabendo que assim exige a obra do seu ministério, que a vós, desviados, compelem ao caminho da justiça.

Aos súditos assim rogamos; *vós, porém, irmãos*, que sois prelados, rogamos isto: *repreendei* com correção mais áspera *os inquietos*, isto é, os curiosos que vagam pela cidade, *consolai os pusilânimes*, que têm pequeno ânimo na paixão das tribulações, ou então, pusilânimes, isto é, tendo pequena confiança na misericórdia de Deus, desesperados pela enormidade dos crimes; *amparai os fracos*, isto é, os que são de fraca fé, desesperados da ressurreição, amparai-os para sanar a enfermidade da fé, como o médico acolhe o doente; *e sede pacientes para com todos*, tanto para com os inquietos como para com os pusilânimes e os fracos, para que, se contradizem, não levantais por isso as mãos ao litígio. Dir-me-iam: toleramo-los, sim, mas não os ensinaremos mais. A isto Paulo: sede pacientes, e ao sofrer *vede que ninguém pague a alguém mal por mal*, calando a palavra de instrução, ainda que antes ouvida impacientemente, mas *procurai sempre o que é bom*, isto é, útil para a instrução da Igreja; procurai, digo, *uns para com os outros*, isto é, entre vós na Igreja, e também passando *para com todos*, ensinando também os infiéis. E *sempre*, quer seja preciso sofrer, quer não, *alegrai-vos*; *e orai sem cessar*, sem interrupção de horas determinadas, para que não negligencieis os tempos certos de oração; ou então, orai sem cessar, para que, quer durmais, quer vigieis, sempre oreis: e, segundo esta sentença, dizem os santos que está sempre em oração quem em nada ofende, mas, quer vigie, quer durma, sempre anseia por Cristo. *E em tudo*, quaisquer coisas que façais ou digais, *dai graças* a Deus, quer as adversidades incumbam, quer as prosperidades vos afaguem. Orai e dai graças, *porque esta é a vontade de Deus a respeito de todos vós*: que todos oreis e deis graças; é, digo, *em Cristo Jesus*, isto é, na instituição de Cristo Jesus; e, sendo instituição e vontade de Deus, convém orar, dar graças.

O que ali diz, "alegrai-vos sempre", etc., diz respeito aos prelados e aos súditos: alegrai-vos e orai todos; *vós, porém, prelados, não extingais o Espírito*, de modo a ocultar aos súditos o que o Espírito Santo tiver ministrado; *e vós, súditos, não desprezeis as profecias*, isto é, as revelações das Escrituras, feitas a vós pelos prelados. E, embora diga "não desprezeis", contudo *examinai tudo*, isto é, considerai primeiro provadamente, para que pela mistura de falsidade não sejais enganados; e, depois de provardes, *retende o que é bom*, isto é, útil; *e abstende-vos* não só do que é mau, mas também *de toda espécie de mal*, isto é, do que retém alguma imagem de mal, ainda que mal [não] seja. Por isso disse sobretudo "de espécie de mal", porque aqueles hereges tomavam emprestadas vozes da fé, para, por equivalências de palavras, levar os simples ao erro.

Vós, prelados e súditos, fazei o que podeis; *o próprio Deus da paz* leve a termo em vós aquilo em que desfaleceis, a saber, *vos santifique em tudo*; e na santificação por ele dada vos conserve perseverantemente; o que diz assim: santifique-vos, e seja conservado *íntegro*, isto é, não corrompido por alguma peste, *o vosso espírito*, isto é, a vossa razão, para que não queira consentir à sensualidade, *e a alma*, isto é, a sensualidade, para que não persuada mal à razão; *e o corpo seja conservado irrepreensível*, para que não se polua pela obra de qualquer torpeza; seja conservado, digo, *para* (isto é, até) *a vinda*, ou então, na vinda, isto é, na consideração da vinda *de nosso Senhor Jesus Cristo.* Orai, e fazei o mais que segue, *porque fiel é Deus*, que vos chamou por graça, *o qual também o fará*, isto é, consumará em vós aquilo para que fostes chamados. Nós assim trabalhamos por vós, e vós, *irmãos, orai por nós*; *e saudai a todos os irmãos* por nossa dileção *com o ósculo santo*, para que um beije o outro.

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# Segunda Epístola aos Tessalonicenses



# Prólogo

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Escreve de novo esta Epístola aos tessalonicenses porque, na precedente, das palavras de Paulo, onde dissera: «nós, os que vivemos, seremos arrebatados ao encontro do Senhor nos ares», etc., tinham tomado a suspeita de que, estando eles vivos, viria o Anticristo e o dia do juízo; por isso estavam muitíssimo aterrados. Mas, como era mau que fossem aterrados por uma falsidade, julgou Paulo escrever-lhes de novo, para que, não se determinando esta ambiguidade, não acontecesse que, passados os dias de Paulo, achassem que não ocorrera o que julgavam que Paulo assim predissera, e nisto e em tudo o que ensinara acusassem Paulo de mentira, e assim se afastassem do caminho da verdade que lhes transmitira. Além disso, outro mal podia advir desta dúvida: que Satanás, vendo-os crer em juízo futuro e próximo, se mostrasse no ar insignemente ornado de diadema e, afirmando-se Cristo que vem para o juízo, enganasse os tessalonicenses, para cuja perversão tanto mais trabalhava quanto sabia serem mais perfeitos; ou, aparecendo-lhes em sonhos, os iludisse no mesmo. Escreveu também de novo porque aqueles curiosos e ociosos não tinham sido corrigidos pela ordem de Paulo. Escreveu de novo porque as perseguições, para cuja paciência os armara na primeira, ainda não tinham cessado, mas talvez tivessem aumentado. Estas três coisas — as perseguições, o dia do juízo e aqueles incorrigidos — tiveram por matéria, armando-os para tudo padecer, mostrando aos justos que são atribulados a glória, e a seus atribuladores a futura condenação; determinando também por sinais certos e evidentes o futuro dia do juízo; e mandando que aqueles incorrigidos fossem separados da comunhão da Igreja, não escrevendo contudo a eles, mas à Igreja a respeito deles. Com esta intenção assim age: para que os que padecem por Cristo perseverem no sofrimento; para que os que estavam aterrados, julgando próximo o juízo, não sejam aterrados por uma falsidade; e para que os que ainda estavam incorrigidos, ao menos envergonhados de se verem lançados fora da comunhão dos outros, recobrem o juízo.

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# Capítulo 1

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> Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos tessalonicenses, em Deus nosso Pai e no Senhor Jesus Cristo. Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Devemos dar sempre graças a Deus por vós, irmãos, como é digno, porque a vossa fé cresce sobremaneira, e abunda a caridade de cada um de vós uns para com os outros; de modo que nós mesmos nos gloriamos de vós nas Igrejas de Deus, pela vossa paciência e fé, em todas as vossas perseguições e tribulações que suportais, em testemunho do justo juízo de Deus, para que sejais tidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis. Se é justo diante de Deus retribuir tribulação aos que vos atribulam, e a vós, que sois atribulados, repouso conosco, na revelação do Senhor Jesus, vindo do céu com os Anjos do seu poder, em chama de fogo, para fazer vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Estes sofrerão penas eternas de perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder; quando vier para ser glorificado nos seus santos e para se tornar admirável em todos os que creram; porque foi acreditado o nosso testemunho entre vós, naquele dia. Por isso também oramos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação e cumpra todo o desejo de bondade e a obra da fé com poder, para que seja glorificado o nome de nosso Senhor Jesus Cristo em vós, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.

## Comentário

Antepondo a saudação, diz: *Paulo, Silvano e Timóteo* escrevem à Igreja dos tessalonicenses, existente em Deus nosso Pai e no Senhor Jesus Cristo; como expusemos tudo na primeira Epístola. Em primeiro lugar louva-os por seus sofrimentos, pondo em contraste a glória dos que padecem e a pena dos que infligem os sofrimentos, assim armando-os para a paciência, dizendo: *devemos dar graças a Deus*, isto é, não só damos graças, mas sempre somos devedores de graças a Deus *por vós*, porque sois irmãos; dar, digo, *como é digno* (porque grandes e muitos são os dons de Deus, convém dar grandes e múltiplas graças), por isso *porque a vossa fé cresce sobremaneira*, ou sobre o que antes era aumentada, ou cresce sobre as tribulações, que todas supera: e por isso dar graças, porque *abunda a caridade*, isto é, a dileção *de cada um de vós uns para com os outros.* Isto deve entender-se que só diz respeito aos perfeitos. Cresce assim a fé, abunda a caridade, *de modo que nós mesmos*, que não nos gloriaríamos de coisa pequena, *nos gloriamos de vós nas Igrejas de Deus*, isto é, na mostra da vossa perfeição. Glorio-me junto das outras Igrejas *pela vossa paciência*, com que por Cristo padeceis tudo, *e fé* guardada na integridade; fé e paciência, digo, tidas *em todas as vossas perseguições*, quando sois forçados a fugir de lugar em lugar, *e tribulações*, quando sois atribulados com açoites e opróbrios; perseguições e tribulações que *suportais em testemunho do justo juízo de Deus*, isto é, por justo juízo de Deus; é justo, com efeito, que os santos sejam atribulados para serem purificados; que os ímpios tenham poder sobre os justos para que a sua impiedade se consume. E assim suportais por justo juízo, para que sejais testemunho do justo juízo; em vós, com efeito, podemos exemplificar a outros quão justo é o juízo de Deus. Suportais *para que sejais tidos por dignos do reino de Deus*, isto é, nos quais Deus reine no presente, ou então, para serdes dignos de ser recebidos no futuro reino de Deus. Vós, como entendo, suportais para serdes tidos por dignos *pelo qual também padeceis*, isto é, para serdes tidos por dignos por ele mesmo, também segundo o vosso entendimento e vontade padeceis.

Que seja justo o juízo de Deus, pelo qual os justos são afligidos para a purificação, os ímpios aqui prosperam até a consumação da iniquidade, prova-o pelos efeitos e pelo fim de ambos, justo e ímpio: pelo fim, porque pelas coisas que se veem não se poderia dar causas idôneas de por que o justo é afligido e o ímpio prospera; segundo o que diz Davi naquele salmo, *Quam bonus* (Sl 72,16): Pensei em conhecer por que aqui se dá pena ao justo e prosperidade ao ímpio; mas conhecer isto é trabalho, isto é, se atendo só ao que está diante de mim, isto é, ao presente. O juízo de Deus é justo, pelo qual os justos são afligidos no presente para a purificação, os ímpios prosperam para o aumento da impiedade; digo, porém, que é justo com esta condição: *se é justo diante de Deus*; diante dos homens, com efeito, que julgam segundo a vista, é injusto que os santos sejam afligidos e os maus prosperem; se, digo, é justo diante de Deus *retribuir* no futuro *tribulação aos que* agora *vos atribulam*, e *a vós, que* agora *sois atribulados*, retribuir no futuro *repouso*, então é justo que vós, justos, aqui sejais purificados pelas tribulações, e os ímpios, pela concessão de prosperidade, sejam preparados para a tribulação futura; retribuir certamente a vós repouso *conosco* a ter; na mesma glória, com efeito, estareis em que estamos nós, Apóstolos.

Agora determina o modo da glória dos justos e da condenação dos ímpios, para alegrar os justos e aterrar os ímpios, dizendo: retribuirá aos ímpios tribulação, a nós repouso, *na revelação do Senhor Jesus*, isto é, quando o Senhor Jesus, que agora está oculto aos infiéis, será revelado a todos no juízo; Jesus, digo, que há de vir ao juízo, *vindo do céu* — onde diz "do céu", indica a potência de quem vem —; vindo, digo, do céu *com os Anjos do seu poder.* Naquela vinda os Anjos dizem-se do poder, porque então tudo farão potencialmente, e aos bons estenderão ao repouso e aos maus ao fogo; mas no presente por vezes permitem que até aqueles a quem presidem sejam afligidos pelos ímpios, então, porém, não assim. Nestas palavras igualmente alegra os justos, a quem virá para a salvação, e aterra os maus, a quem virá para a pena.

Agora acrescenta o que é somente para aterrar os maus, dizendo: Jesus virá do céu *em chama de fogo*, isto é, em chama ignita — aquela chama diz-se principalmente de fogo porque a chama do fogo presente é temperada pela mistura da água e dos demais elementos, mas a futura chama será de tal modo aterradora e áspera que não parecerá temperada por mistura de nenhum elemento: diz-se que Cristo vem em chama de fogo, não porque a chama esteja ao redor dele, mas porque, vindo ele, aquela se levantará, como qualquer príncipe se diz vir em fogo e morticínio, porque, vindo ele, muitos são mortos e muitas coisas queimadas —; fogo, digo, *que faz vingança*, isto é, pena, *dos que não conhecem a Deus*, isto é, que não tiveram fé; não só, porém, mas também *dos que*, se tiveram fé, contudo *não obedecem ao Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo*; os quais ambos, os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao Evangelho, *sofrerão penas eternas de perdição*, isto é, no lugar das penas, *longe da face do Senhor*, para que não o vejam mais, e lançados longe *da glória do seu poder*, segundo aquilo: «Seja tirado o ímpio, para que não veja a glória de Deus.» Diz "sofrerão" por semelhança, porque não podem dar aos santos que afligiram dom de maior gozo do que as penas que sofrerão.

Nestas palavras aterrou os ímpios; nas seguintes alegra os justos, dizendo: os ímpios sofrerão penas *quando vier para ser glorificado*, isto é, para aparecer glorioso *nos seus santos* a remunerar, porque, embora neste mundo pareça glorioso nos santos por milagres e algumas outras coisas, então será muito mais glorificado neles, quando, arrancados de toda inquietude, os cercar de glória indefectível; e não só ser glorificado, mas também (o que é maior) *para se tornar admirável em todos os que creram*, isto é, que se salvarão só pela fé, se não tiveram idade de operar. Por isso retribuirá a vós repouso, *porque foi acreditado o nosso testemunho naquele dia*, isto é, o que vos testemunhamos sobre aquele dia, em que aos santos retribuirá repouso e aos ímpios tribulação; isto, digo, foi acreditado por vós, porque bem crestes neste nosso testemunho; testemunho que foi *entre vós*, porque bem pusestes o dorso ao fardo que quer que impuséssemos, crendo e operando o que ensinávamos. *Naquele dia*, para que o Senhor se digne, isto é, vos faça dignos da sua vocação; nós também sempre oramos por vós, para que no futuro se digne a vós e para que no presente *cumpra todo o desejo de bondade*, isto é, para que em tudo tenhais plenamente boa vontade, e para que cumpra em vós *a obra da fé* — confessar Cristo à vista dos perseguidores, esta é a obra que a fé exige —; obra da fé, digo, *com poder*; quando alguém, com efeito, confessa a fé diante do perseguidor, então é necessária a virtude da constância: oramos também *para que seja glorificado o nome de nosso Senhor Jesus Cristo* neste mundo *em vós*, que agis segundo a fé, *e vós nele* no futuro, sendo glorificados, remunerando-vos não segundo o vosso mérito, mas *segundo a abundante graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.*

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Rogamo-vos, porém, irmãos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele, que não vos deixeis abalar facilmente no vosso modo de pensar, nem vos aterreis, nem por espírito, nem por palavra, nem por epístola como se enviada por nós, como se o dia do Senhor estivesse iminente. Ninguém vos seduza de modo algum; porque se primeiro não vier a apostasia, e não for revelado o homem do pecado, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é adorado, de modo a sentar-se no templo de Deus, mostrando-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que, quando ainda estava convosco, vos dizia estas coisas? E agora sabeis o que o detém, para que seja revelado a seu tempo. Pois o mistério da iniquidade já opera; somente que aquele que agora o detém, o detenha até que seja tirado do meio. E então será revelado aquele iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro da sua boca, e destruirá com o resplendor da sua vinda aquele cuja vinda é segundo a operação de Satanás, com todo o poder, sinais e prodígios mentirosos, e com toda a sedução da iniquidade para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para serem salvos. Por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira, a fim de que sejam julgados todos os que não creram na verdade, mas consentiram na iniquidade. Nós, porém, devemos dar sempre graças a Deus por vós, irmãos amados por Deus, porque Deus vos escolheu como primícias para a salvação, na santificação do espírito e na fé da verdade; à qual também vos chamou pelo nosso Evangelho, para a aquisição da glória de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, irmãos, ficai firmes e retende as tradições que aprendestes, quer por palavra, quer por nossa Epístola. O próprio Senhor nosso Jesus Cristo, e Deus e Pai nosso, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança na graça, exorte os vossos corações e os confirme em toda obra e palavra boa.

## Comentário

Depois de os ter suficientemente armado para a paciência, determina, dando sinais certos e evidentes, o dia futuro, por causa do qual estavam aterrados, julgando que aquele dia estava iminente; como se dissesse: assim vos armamos para a paciência com a esperança da retribuição futura; *para que, porém, não vos abaleis facilmente, rogamo-vos* porque sois irmãos; rogamos, digo, *pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo*, isto é, se na própria vinda quereis ter Cristo salvador, *e pela nossa reunião com ele*, isto é, se quereis vir ao encontro de Cristo com a congregação dos fiéis, ou então, da congregação que há de vir para o mesmo que Cristo é, a saber, para a incorrupção; isto, digo, rogamos: *que não vos deixeis abalar facilmente*; seria facilmente se por todo o tempo da vida fossem abalados; abalar, digo, *do vosso modo de pensar*, isto é, do que sentistes e por mim, que ensinava, entendestes; *nem vos aterreis*, como se o dia do Senhor estivesse iminente, porque na realidade não está iminente; aterreis, digo, *nem por espírito* maligno, que de qualquer modo vos signifique estas coisas, *nem por palavra*, isto é, por doutrina daqueles falsos apóstolos, *nem por epístola* enviada por enganadores *como se por nós*: assinavam, com efeito, epístolas com o nome de Paulo, para, com este gênero de fraude, seduzir as Igrejas de Paulo.

Rogamos que não vos aterreis, e que ninguém jamais vos seduza pelos modos antes ditos, ou por qualquer outro modo, para que creiais estar iminente o dia do Senhor, *porque este dia não estará iminente se primeiro não vier a apostasia.* Chama Ambrósio *discessio* (apostasia, afastamento) porque o império Romano, isto é, o cristão, para onde quer que se mude, seja em Constantinopla, seja em outro lugar, nada impede, contanto que dure o império cristão. Porque, digo, este império cristão será dissolvido, de modo que nem haverá reis que punam os hereges e destruam os invasores das Igrejas, nem o mundo, na unidade da fé, estará sujeito ao Romano Pontífice, que tem o império espiritual, mas o mundo se afastará de ambos os impérios cristãos, do secular, como são os reis, e do espiritual, como o Papa; então, pela primeira vez, estará preparada a montaria que o Anticristo subirá, isto é, os infiéis; que, membros do Anticristo, cooperem à porfia na destruição da fé com tal cabeça; e feita esta apostasia, virá o Anticristo na sua oportunidade. Mas, se agora viesse ao mundo, obedecendo em maior parte ao Romano Pontífice na unidade da fé, e os reis cristãos ainda defendendo a fé, teria despreparada a montaria que subisse, e não poderia progredir a seu modo. Quando, porém, houver aquela apostasia, na sé do bem-aventurado Pedro, ainda que em poucos, a fé contudo perdurará; o que dizem os santos que obteve aquela oração de Cristo, de que diz a Pedro: «Eu rezei por ti, Pedro, para que não desfaleça a tua fé» (Lc 22,32). Outros chamam apostasia (para não falar do império secular) quando os homens se afastarão da unidade da fé e entrarão em diversas vias de erro; então virá o Anticristo cavaleiro, estendida a montaria que suba.

Se, digo, primeiro não vier a apostasia, e *feita a apostasia for revelado* o que agora está oculto, *o homem* — contra o que há de dizer que se faz Deus, chama-o homem, alheio a toda Deidade —; homem, digo, *do pecado*, porque, assim como Cristo é homem da justiça, assim este de todo pecado, *o filho da perdição*, isto é, gerado para a perdição dos seus, assim como Cristo para a salvação dos justos: *o adversário*, que também por nome e por obra se opõe a Cristo; donde será chamado Anticristo; *e que se levanta contra tudo o que se chama Deus*, isto é, o que nuncupativamente se diz Deus, e não é substancialmente, como são os santos, segundo aquilo: «Eu disse: sois deuses» (Sl 81,6); que também se levanta *sobre tudo o que é adorado* como Deus, e é verdadeiramente Deus; levanta-se de modo *a sentar-se no templo de Deus* (à letra em Jerusalém), no qual Cristo ensinou, afirmando ser ele o verdadeiro Deus, e Cristo ter sido enganador e mago; sentar-se, digo, no templo de Deus, *mostrando-se como se fosse Deus.* Se, digo, estes sinais não precederem, não estará iminente o dia do Senhor; e deveis também crer que o dia do Senhor não está iminente de outro modo, porque *não vos lembrais* de memória *de que, quando ainda estava convosco, vos dizia* que estas coisas precederiam o dia do Senhor. Ao dizer "quando ainda estava", significa que por volta da hora da sua partida lhes transmitiu isto; era costume de Paulo, com efeito, nutrir primeiro a simplicidade das Igrejas com ensinamentos simples; mas, já perfeitos eles e querendo ele partir, então pela primeira vez lhes revelava os mistérios ocultos de Deus.

Feita a apostasia, virá o Anticristo, e o que agora o detém para que não venha no presente *vós bem sabeis*; isto, a saber, o detém *para que seja revelado a seu tempo*, isto é, no tempo oportuno para ele; mas, se durante a unidade da fé e o império cristão viesse, não seria revelado no seu tempo. Verdadeiramente será revelado a seu tempo; *pois já agora*, fora do seu tempo, *opera o mistério da iniquidade*, isto é, a iniquidade mística e velada, por meio dos membros precedentes desta nefanda cabeça; *somente isto resta* para a sua revelação: *que aquele que agora o detém*, isto é, o império cristão e a unidade da fé, o detenha tanto tempo *até que seja tirado do meio*, isto é, tirada da comunidade a unidade da fé e o império cristão. Por semelhança se diz: este homem, morto, foi feito do meio, isto é, tirado da comunidade dos homens. Ou assim: só isto retarda o Anticristo: que aquele que agora mantém o império cristão e a unidade da fé o mantenha tanto até que a iniquidade, que agora está sob mistério, seja feita do meio, isto é, da comunidade, de modo que, assim como agora a fé está em comum, a iniquidade em oculto, assim no tempo do Anticristo a fé esteja em oculto, a iniquidade em comum; porque os seus membros não se envergonharão mais do ato de impiedade que de piedade, e os que tiverem fé serão pouquíssimos.

*E então*, depois que este que agora o detém for tirado do meio, ou depois que a iniquidade for feita do meio, então, digo, *será revelado aquele iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro da sua boca.* Diz o bem-aventurado Ambrósio que Jesus se mostrará ao Anticristo, e, clamando Jesus, este ímpio será morto; mas o que clamará não sabemos. Dizem outros que Miguel, só com o seu terror, matará este Anticristo. Jesus, sim, o matará, e depois *o destruirá*, condenado no corpo e na alma; destruirá, digo, *com o resplendor da sua vinda*, isto é, vindo ele ao juízo com grande resplendor de claridade; a ele, digo, *cuja vinda é segundo a operação de Satanás*; porque, assim como Cristo pela operação do Espírito Santo, assim este virá segundo a operação de Satanás; operação, digo, que fará *com todo o poder*, a saber, *em sinais e prodígios* — chama prodígios os maiores, sinais os menores, milagres —; sinais e prodígios, digo, *mentirosos*, ou porque não serão na verdade da coisa, mas assim se verão por magia, ou mentirosos porque, embora os milagres sejam verdadeiros, são todavia mentiras porque o que pretendem provar o desfecho da coisa provará falso, a saber, que o Anticristo não é Deus, para provar o que precederam os milagres. Será também a sua vinda *com toda a sedução da iniquidade*, porque seduzirá com todo gênero de impiedade; sedução, digo, feita *para os que perecem*; porque os justos não serão seduzidos. Perecem com mérito, *porque não receberam o amor da verdade*, isto é, Cristo, que é a pura verdade, e no qual há tanta caridade que se entregou à morte por nós; não receberam *para serem salvos* por ele, de quem vem toda salvação. E por isso, porque não quiseram salvar-se, *Deus lhes enviará a operação do erro*, isto é, o operador erróneo, o Anticristo, *para que creiam na mentira*, e *para que sejam julgados*, isto é, condenados, *todos os que não creram na verdade*, isto é, em Cristo, *mas consentiram na iniquidade*, isto é, no Anticristo.

Porque dissera acima que o Anticristo viria com todo o poder de sinais e prodígios e toda a sedução, para que sejam condenados todos os que não creem na verdade, mas consentem na iniquidade, para que com estas palavras não se aterrassem, temendo que ele viesse nos seus dias, Paulo os consola a este respeito, dizendo que não verão o dia do Anticristo. A letra liga-se assim: vindo o Anticristo, serão julgados os que consentem na iniquidade; *nós, porém, devemos dar sempre graças a Deus* (como acima expusemos) *por vós*, porque sois *irmãos amados por Deus*, isto é, que Deus amou. Por isso damos graças sobretudo porque *Deus*, por amor, *nos escolheu*, a mim e a vós, não como fim da Igreja, sobre quem venha o Anticristo, que há de vir nos últimos tempos, mas escolheu-nos *como primícias*, isto é, primitivos na fé; escolheu, digo, para termos a salvação eterna, pelo fato de nos ter posto *na santificação do espírito*; pelo Espírito Santo, com efeito, nos justificou no batismo, santificação que é via para aquela salvação: e para santificar, pôs-nos *na fé da verdade*, para que confessássemos Cristo, que é a pura verdade, como o Anticristo é erro e mentira. *À qual fé* a ter, assim como nos escolheu, assim também *vos chamou pelo nosso Evangelho*, para que tudo fosse a vós por graça; chamou, digo, não ao ócio, mas *para a aquisição da glória*, isto é, para que, operando como a fé exige, adquirais para vós glória com obras dignas; glória, digo, *de nosso Senhor Jesus Cristo*, isto é, a mesma que tem o Senhor Jesus Cristo, para a adquirir vos chamou. Deve-se considerar como pôs tudo em ordem invertida; primeiro, com efeito, são chamados; depois, na fé confessados; os que confessam a fé são santificados pelo batismo; aos santificados (se perseveram) reserva-se a salvação eterna.

Uma vez que, *irmãos*, fostes chamados à santificação do Espírito e à aquisição da glória; *portanto ficai firmes*, isto é, sede fortes na boa obra que começastes; *e retende* perseverantemente *as tradições* de vida, de fé e de hábito *que aprendestes* de mim, *quer por palavra*, quando vos preguei, *quer por nossa Epístola*, a vós dirigida. Admoesto: ficai firmes e retende; *para que, porém, possais reter, o próprio Senhor nosso Jesus Cristo, e Deus e Pai nosso* (junta sempre a vontade com a potência; Pai, nome de piedosa vontade; Deus, de potência), *que nos amou, e nos deu eterna consolação* — na presente tribulação, com efeito, começa a consolar-nos, continuando a consolação até o eterno repouso —; *que também nos deu esperança*, *boa*, dizendo-se no singular; a esperança, com efeito, da glória celeste deve dizer-se boa sobre todas as coisas que se esperam. Esta esperança no-la deu *na graça*, quando nos remitiu os pecados no batismo, a saber, nos desligou dos pecados. Deu-nos a esperança de ter glória; ele mesmo, digo, Deus, que por graça já concedeu tantos bens, *exorte os vossos corações*, isto é, as vossas vontades, a permanecer no que estais e a trabalhar pelo incremento, *e os confirme*, isto é, os faça fortes e perseverantes *em toda obra boa e em toda palavra boa*, para que nenhuma perfeição vos falte.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Quanto ao mais, irmãos, orai por nós, para que a palavra de Deus corra e seja glorificada, como também entre vós; e para que sejamos livres dos homens importunos e maus; pois a fé não é de todos. Fiel, porém, é Deus, que vos firmará e guardará do mal. Confiamos, porém, no Senhor, a respeito de vós, que o que vos mandamos, tanto fazeis como fareis. O Senhor dirija os vossos corações no amor de Deus e na paciência de Cristo. Ordenamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente e não segundo a tradição que de nós receberam. Pois vós mesmos sabeis como convém imitar-nos; porque não vivemos inquietos entre vós, nem comemos de graça o pão de ninguém, mas em trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não que não tivéssemos o direito, mas para vos darmos em nós mesmos um modelo a imitar. Pois também, quando estávamos entre vós, vos ordenávamos isto: que, se alguém não quer trabalhar, não coma. Ouvimos, com efeito, que há entre vós alguns que andam inquietos, nada trabalhando, mas curiosos. A estes, porém, que são tais, ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que, trabalhando em silêncio, comam o seu próprio pão. Vós, porém, irmãos, não vos canseis de fazer o bem. Se alguém não obedece à nossa palavra por esta Epístola, notai-o e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe; e não o considereis como inimigo, mas admoestai-o como irmão. O próprio Senhor da paz vos dê a paz sempiterna em todo lugar. O Senhor esteja com todos vós. A saudação é de minha mão, de Paulo, que é o sinal em toda Epístola. Assim escrevo: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós. Amém.

## Comentário

Sobre a conservação da paciência, sobre o conhecimento do último dia e a vinda do Anticristo vos instruí; agora, *irmãos, quanto ao mais*, isto é, sobre outra coisa vos exorto, a saber, esta: *orai por nós, para que a palavra do Senhor corra*, isto é, por nós abarque a muitos na fé, *e seja glorificada* em todos pela integridade da fé e pela execução da obra piedosa; em alguns, com efeito, a palavra do Senhor corre, os que bastante depressa creem, mas, porque permanecem nos vícios, não é glorificada neles; seja glorificada, digo, como nas outras Igrejas foi glorificada, *também entre vós*. Orai também *para que sejamos livres* eu e os que comigo pregam *dos homens importunos*, que a quem agarram afligem com muita importunidade, *e maus.* Nota duplo mal: a importunidade, a saber, ser importuno na persuasão do mal. Digo por isso: orai para que sejamos livres, *porque a fé não é de todos*, isto é, porque ainda nem todos são fiéis, mas muitos perseguem a fé. Ou assim: orai para que sejamos livres dos importunos e maus, porque a fé não é de todos aqueles, isto é, em todos aqueles não há quem tenha fé.

Para que, pelo que dissera, "orai para que sejamos livres", não dissessem: que se pode esperar de nós, quando o nosso mestre tanto teme por si? A isto diz: embora tenha dito "orai para que sejamos livres", confio contudo que *fiel é o Senhor*, que àqueles que por ele padecem diz: «Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos» (Mt 28,20); *Deus*, digo, *é fiel*, que (para calar de mim) *vos firmará* no bem em que estais, *e vos guardará do mal*, para que não caiais.

Querendo persuadir-lhes algo novo, a saber, que se apartem daqueles ociosos e curiosos, que pela primeira Epístola não quiseram ser corrigidos, ganha-os louvando-os pelo que antecede, dizendo: da observância da paciência, do dia do juízo, da oração a fazer por nós, nós vos exortamos, sim; mas *confiamos bem no Senhor a respeito de vós, que o que vos mandamos, tanto agora fazeis como no futuro fareis.* Para que façais bem, *o Senhor dirija os vossos corações*, isto é, faça retas as vossas vontades, *no amor de Deus*, para que, assim como Deus vos amou, também vós o ameis, *e na paciência de Cristo*; assim como Cristo padeceu por vós, assim também vós padeçais por Cristo. Nós, digo, sabendo que fareis tudo o que de Deus mandamos, *ordenamo-vos*: sabei que este preceito é de Deus, não nosso, a não ser tão só que vo-lo anunciamos, *irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo*, isto é, se cuidais do nome e honorificência do Senhor Cristo, isto, em nome dele, vos ordenamos: *que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente*, isto é, que abandona a ordem natural; também os gentios, com efeito, afirmam ser desordenado negligenciar o próprio, cuidar do alheio, como alguns curiosos fazem entre vós: irmão, digo, *que não anda segundo a tradição que de nós receberam*, isto é, como lhes transmitimos, e prometendo que assim guardariam como receberam.

Digo por isso simplesmente "como receberam de nós, que lhes transmitíamos", e não exponho esta tradição, *porque vós mesmos sabeis bem como convém imitar-nos.* Para que aqueles, errando, não dissessem: sabemos que em oração, jejum, vigílias te devemos imitar, determina o que pretende, dizendo: imitai-nos nisto, *que não vivemos inquietos entre vós*, isto é, correndo curiosamente pela cidade; *nem comemos entre vós pão ocioso* tomado de alguém; *nem o nosso pão de graça*, isto é, ociosos e sem trabalho; mas fomos *trabalhando noite e dia, em trabalho e fadiga*, isto é, trabalhando até à fadiga — antepõe a noite porque de noite sobretudo se ocupava nas obras, ocupando-se de dia principalmente na oração e pregação —; trabalhando *para não sermos pesados a nenhum de vós*, recebendo de vós o necessário. Paulo não quis receber destes, como nem dos coríntios, coisa alguma; com diversa intenção, contudo: dos coríntios, com efeito, não quis porque eram avarentos; destes não quis, mas antes trabalhar, para dar neles o exemplo de trabalhar, afastado o ócio.

Trabalhávamos para não sermos pesados a nenhum de vós; contudo, não porque *não tivéssemos o direito* de receber de vós, se quiséssemos, *mas para vos darmos em nós mesmos um modelo a imitar*, para que, deixando o ócio, pelo meu exemplo vivêsseis do trabalho. Pretendíamos certamente dar-vos o modelo de trabalhar; *pois também, quando estávamos presentes entre vós, vos ordenávamos isto*, que, *se alguém*, vagando no ócio, *não quer trabalhar, não coma* dos trabalhos alheios. Por isso mando que quem não quer trabalhar não coma, *porque ouvimos que há entre vós alguns que andam inquietos, nada trabalhando, mas curiosos*, indagando solicitamente os rumores da cidade. *A estes, porém, que são tais*, isto é, que nada trabalham e são curiosos, *ordenamos* por autoridade de Deus *e exortamos no Senhor Jesus Cristo*, isto é, mandamos e rogamos, se em Cristo querem salvar-se, que eles, *trabalhando* em silêncio, afastado o ócio, não curiosos de rumores, *comam o seu pão*, isto é, não alheio, mas ganho com o próprio trabalho.

Para que, por ter dito "cada um coma o seu pão", os que costumavam ministrar aos pobres não julgassem que já não se devia ministrar a eles, diz: embora tenha dito "comam o seu pão", *vós, porém, irmãos, não vos canseis de fazer o bem* aos irmãos que têm necessidade, porque a todos não pode bastar o seu trabalho.

Ordenamos a eles que trabalhem, etc.; *se alguém deles não obedece a esta nossa palavra mandada por esta Epístola, notai-o*, isto é, significai-me quem é, e entretanto *não vos mistureis com ele, para que*, não comunicando vós com ele, *se envergonhe*, isto é, se enrubesça de seu pecado. E embora não vos mistureis com ele, contudo *não o considereis como inimigo*, para o terdes em ódio, mas por dileção *admoestai-o como irmão*.

Para que em tudo o que vos ordenei sejais perfeitos, *o próprio Senhor da paz vos dê a paz sempiterna*, isto é, aqui e no futuro, *em todo lugar*, isto é, entre os domésticos e entre os estranhos. E para que tenhais a verdadeira paz, *o Senhor esteja com todos vós.* *A saudação é escrita de minha mão*; minha, digo, de Paulo, *sinal* que assim escrevo *em toda Epístola* que envio; por este sinal discerni, para que não vos introduzam fraudulentamente sob o meu nome a sua epístola aqueles falsos apóstolos que vos diziam que eu entendia estar próximo o dia do juízo; esta, digo, é a saudação: *A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós. Amém.*

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# Primeira Epístola a Timóteo



# Prólogo

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Era costume dos Apóstolos que, convertido à fé o povo de uma cidade por sua doutrina, não se detivessem ali, mas, consagrado ali um bispo para instruir os que se haviam tornado fiéis sobre o que se deve manter depois da fé, passassem a outros povos a congregar para a fé. Mantendo Paulo a forma deste costume, convertidos os efésios, consagrou-lhes por bispo Timóteo, colaborador do Evangelho, para que, passando Paulo aos macedônios a converter, os efésios tivessem Timóteo, que os instruísse em cada ponto, a fim de que, deixados sem doutor, não perecesse o trabalho de Paulo neles. Estes efésios Paulo foi o primeiro a converter à fé; a eles João evangelista depois presidiu como bispo, tendo Timóteo sido chamado por Paulo à obra do Evangelho. Esta Epístola, com as outras três que seguem, escreve-a a pessoas: duas a Timóteo; a terceira a Tito; a quarta a Filêmon; as demais escreve às Igrejas. Consagrado Timóteo, como se disse, bispo dos efésios, levantam-se contra ele falsos doutores, dizendo que, embora tivesse sido introduzida a lei nova, com ela se devia contudo manter a circuncisão e os ritos dos sacrifícios antigos. Entendido isto, Paulo dirige esta Epístola a Timóteo, não porque duvide de que ele consentirá em algo com os falsos doutores, mas para que a doutrina dele, robustecida pela autoridade de Paulo, que ensina o mesmo que Timóteo, seja de maior autoridade e reverência, ouvindo os efésios que Timóteo ensina o mesmo que Paulo, a quem esta doutrina foi transmitida por Cristo. Nesta Epístola Paulo trata da ordem eclesiástica, ensinando que os falsos doutores devem ser repelidos da Igreja, e que se lhes deve denunciar que não ensinem perversamente; se por isso não desistirem, deve denunciar-se aos povos que não os ouçam. Ensina aqui também Paulo a Timóteo sobre a ordem sacerdotal e levítica, como devem ser eleitos e provados. Ensina também sobre a ordem das viúvas, como convém que ministrem na Igreja; ensinar, porém, ainda que sejam sapientíssimas, nunca se deve permitir às mulheres. Assim ensinando sobre a ordem eclesiástica, pretende Paulo que, conforme a medida da sua doutrina, mantenham-se a Igreja de Éfeso e, com ela, toda a Igreja.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandato de Deus nosso Salvador e de Cristo Jesus, nossa esperança, a Timóteo, amado filho na fé. Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. Como te rogei que ficasses em Éfeso quando eu ia para a Macedônia, para ordenares a alguns que não ensinem doutrina diferente, nem se apliquem a fábulas e genealogias intermináveis, que suscitam questões mais do que a edificação de Deus, que é na fé. O fim do preceito, porém, é a caridade que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida. Dela se desviaram alguns e se perderam em vãs palavras, querendo ser doutores da lei, sem entender nem o que dizem, nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém usa dela legitimamente; sabendo isto: que a lei não foi posta para o justo, mas para os injustos e insubmissos, para os ímpios e pecadores, para os celerados e contaminados, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, fornicadores, sodomitas, plagiários, mentirosos e perjuros, e para o que quer que seja outra coisa contrária à sã doutrina, que é segundo o Evangelho da glória do Deus bem-aventurado, que me foi confiado. Dou graças àquele que me deu forças, a Cristo Jesus, nosso Senhor, porque me julgou fiel, pondo-me no ministério, a mim que antes fui blasfemo, perseguidor e injuriador; mas alcancei misericórdia de Deus, porque o fiz por ignorância, na incredulidade. Superabundou, porém, a graça de nosso Senhor, com a fé e a caridade que há em Cristo Jesus. Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim primeiro mostrasse Cristo Jesus toda a sua longanimidade, como exemplo dos que hão de crer nele para a vida eterna. Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Este preceito te confio, filho Timóteo, segundo as profecias que precederam sobre ti, para que militem nelas a boa milícia, tendo fé e boa consciência, que alguns, rejeitando, naufragaram na fé; dos quais são Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar.

## Comentário

*Paulo*, etc. Prestes a escrever ao discípulo, antepõe a saudação, dizendo: *Paulo*; nome que é de humildade, Paulo, com efeito, diz-se como "pequeno". Aqui, porém, onde há necessidade de autoridade, é nome de autoridade; Paulo, com efeito, era nome muito conhecido; donde, para mais refutar os falsos doutores, diz: *Paulo, Apóstolo*, isto é, legado ou enviado — embora todos os santos sejam legados de Deus, sobretudo os Apóstolos assim se chamam, sob os quais está todo o gênero de santos, acima dos quais só se acha Cristo —; Apóstolo, digo, *de Jesus Cristo*, porque só por Cristo foram enviados os Apóstolos, pelos Apóstolos, porém, os demais santos, como Timóteo por Paulo. Se Paulo é Apóstolo de Cristo, consta que quem contradiz a Paulo contradiz também a Cristo, que enviou Paulo; quem ofende Timóteo, enviado por Paulo, ofende tanto a Paulo como a Cristo. Paulo, digo, Apóstolo de Cristo Jesus *segundo o mandato.* Põe em outras Epístolas "segundo a vontade", mas, para assinalar maior rigor, pôs aqui "mandato"; queremos, com efeito, certas coisas que não mandamos; as que, porém, mandamos fazer, tanto queremos como parece que proibimos que não se façam; donde diz: *segundo o mandato de Deus Pai*; Deus Pai, com efeito, mandou que eu fosse Apóstolo: *de Deus*, digo, *nosso Salvador*, isto é, que salva os que obedecem ao seu mandato e aliena da salvação os que não obedecem; donde se deve temer pelos que não obedecem ao mandato de Timóteo, porque nem a mim, nem a Deus, que mandou que eu fosse Apóstolo, obedecem, e assim estão alheios à salvação de Deus: segundo o mandato de Deus Pai, digo, e segundo o mandato *de Cristo*, rei e sacerdote; segundo o homem, digo, que também se imolou a si mesmo no altar da Cruz para nos limpar dos delitos, e se deu a nós para ser imolado cada dia no altar; e rei, porque tanto dá os bens como rege nos bens; de Cristo, digo, *Jesus*, isto é, Salvador, que tanto no presente salva dos males como no futuro há de dar aos seus a salvação eterna; de Cristo Jesus, digo, autor *da nossa esperança*, isto é, de recuperar a impassibilidade e a imortalidade, que esperamos recuperar por ele, que elevou a nossa carne, unida em si ao Verbo de Deus, acima de toda criatura, nada deixando acima dela senão a Divindade que lhe adere: a esperança, com efeito, diz-se não das coisas que temos, como a justificação dos pecados no batismo, mas daquelas que cremos ter, como a imortalidade e a impassibilidade por Cristo; a esperança é, com efeito, a espera de um bem futuro, com desejo.

Paulo, digo, Apóstolo, assim e assim deseja, manda, ou algo semelhante, a *Timóteo*, filho que bem o imita, a quem gerou *na fé*, porque, sendo infiel, o fez fiel; *filho*, digo, *amado* de modo peculiar e especial, porque, embora todo fiel deva ser amado, há contudo alguns entre eles que se devem amar com privilégio de amor. Paulo, digo, manda a Timóteo isto a si, ou a ti, Timóteo: *graça, misericórdia e paz* — em outras costuma pôr apenas graça e paz, significando ali pela graça o que aqui pela misericórdia, a saber, a remissão dos pecados, que se diz graça porque são perdoados gratuitamente, sem preço nem mérito nosso; diz-se misericórdia a remissão porque pela misericórdia de Deus os pecados são perdoados —; misericórdia, pois, isto é, remissão dos pecados, *e paz*, isto é, tranquilidade de ânimo, que aqui têm os santos, antegozando por isso a doçura da paz eterna: esta misericórdia e paz, digo, sejam-te perseverantes; não deseja isto porque ignore ter sido feita a remissão dos pecados a Timóteo, e que ele faz parte dos santos, mas para que nisto permaneça.

Estas duas, misericórdia e paz, devem desejar-se a todo fiel e podem advir; esta terceira, porém, isto é, a graça, deve desejar-se só aos prelados e só a eles pode advir; recebe, com efeito, por graça a doação do Espírito Santo, que certamente é dado, não pelos prelados, mas por seu ministério, sem diferença de méritos, sejam justos ou injustos os prelados (contanto que seja pura a sua consagração), àqueles que santificam, se são idôneos para que nele deva habitar o Espírito; «não habitará, com efeito, em corpo sujeito aos pecados» (Sb 1,4). Se se pergunta por que os súditos, por causa dos pecados, não merecem receber o Espírito Santo, quando por ministério dos prelados que são pecadores (contanto que seja justa a sua consagração) é dado? A isto deve responder-se: porque é dado por Deus, e não pelo prelado, que o que não teve não pôde dar, mas por ministério do prelado; e não sem causa quis Deus dar isto por ministério, pois, se o Espírito Santo fosse dado sem ministros, cada um, presumindo ter o Espírito Santo, se jactaria; e assim os ministros da Igreja, mesmo que fossem justos, cairiam em desprezo: dessa coisa Cristo deixou a forma, ressuscitado Lázaro, dizendo aos discípulos: «Desatai-o e deixai-o ir» (Jo 11,44), mostrando que ninguém pode ser desatado senão por ministros a quem estes ministérios foram confiados.

Graça, misericórdia e paz te sejam certamente *da parte de Deus*, que, sendo Deus, pode isto e tudo; *Deus Pai*, digo, que, pelo fato de ser Pai, tem vontade e piedoso afeto por ti e por todo filho. Sejam-te também isto mesmo *de Cristo Jesus*, que, sendo Rei e tendo vindo salvar, tem igualmente a vontade; de Cristo, digo, *nosso Senhor*, o qual, porque é Senhor, aparece que pode isto e tudo.

Terminada a saudação, começa a Epístola, dizendo: ó Timóteo, faze assim, subentende-se, *como te rogei* — onde diz "como", nota a quantidade, como se dissesse: eu te adverti de muitos modos, com frequente repetição, que insistisses em ensinar, e como te adverti, faze-o de todos os modos, com toda assiduidade; onde diz "rogei", podendo dizer "como discípulo te mandei", sendo ele o prelado, recomenda bastante Timóteo, insinuando que era tal que não devia ser coagido por império, mas exortado por certa dignidade de paridade —; *como, digo, te rogei que ficasses em Éfeso* para ordenar ali a ordem eclesiástica, *quando eu ia para a Macedônia*, convertidos os efésios, para converter os macedônios pela palavra da pregação; no que também tu me serias necessário, e te ofereceste por vontade a ir comigo; vendo contudo que incumbia maior necessidade, deixei-te para instruir os efésios.

Aqui começa primeiro sobre os falsos doutores a repelir, dizendo: ficasses, digo, *para ordenares* — dizemos "anunciar" entre iguais, "ordenar" porém, de prelado a súditos —; ordenasses certamente *a alguns*, isto é, àqueles doutores que introduzem doutrina singular, desviando-se da comunhão da Igreja: isto, digo, ordenasses: *que não ensinem doutrina diferente*, isto é, algo alheio à minha doutrina, com que ensinei os efésios e tu ainda ensinas. Se os doutores, ordenando-lho tu, não quisessem desistir, ordenasses aos súditos que não dessem atenção às doutrinas deles, ou os ouvissem. A forma desta coisa conserva-se ainda na Igreja; primeiro, com efeito, o prelado perverso é proibido pela Igreja. Se o desobediente não cessa, então se interdiz aos súditos obedecer-lhe. *Nem se apliquem*, digo, *a fábulas* dos falsos pregadores, que dizem dever manter-se na lei nova a circuncisão e os antigos sacrifícios. Diz-se fábula aquilo em que só há palavras e não coisa; assim na doutrina deles havia, sim, palavras nuas da verdade da coisa, porque a circuncisão e aquelas coisas que ensinavam não podiam salvar. Não se apliquem, digo, *a fábulas e genealogias*, isto é, a discursos sobre a sua geração; dizem, com efeito, que a salvação foi prometida somente a eles, nascidos da carne de Abraão e de Davi, e não a outros; *genealogias intermináveis*, isto é, proibidas, para que ninguém confie nelas, ou então, intermináveis, isto é, que não têm termo nem fim onde subsistam provadas como dizem; se alguém considera, com efeito, verá muitos filhos de Abraão segundo a carne reprovados, como Esaú; achará também muitos não gerados da carne de Abraão que contudo Deus escolheu, como Jó. *Estas genealogias suscitam questões*, isto é, litígios, e nenhuma solução; isto, digo, suscitam *mais do que a edificação*, que de modo algum prestam — aqui "mais" é eletivo, tratando de coisas que não participam —; edificação certamente [de Deus, isto é] das virtudes, não a prestam; edificação que não é pela circuncisão, mas *que é na fé*, isto é, pela fé: toda justificação, com efeito, é da fé, que se lança como fundamento; e sobre esta, como sobre fundamento, as demais virtudes são edificadas.

Prova que na fé está a edificação de Deus, dizendo: se da fé procede a boa consciência, isto é, a esperança, da esperança, porém, o coração puro, e do coração puro a caridade; sendo a caridade o fim, isto é, o cumprimento de todo o preceito, da lei nova ou da antiga: se desse modo da fé se segue o cumprimento de todo preceito, então na fé está toda a edificação de Deus, e não em outro lugar; mas na fé está o cumprimento de todo o mandamento, logo também a edificação de Deus. O que em ordem transversa põe assim: verdadeiramente na fé está a edificação de Deus; *o fim*, com efeito, isto é, porque o cumprimento de todo o preceito da lei velha ou nova *é a caridade*, isto é, o amor de Deus e do próximo, mandamento do qual dependem toda a lei e os Profetas; quem, com efeito, cumprir este mandamento, isto é, a caridade, sem dúvida cumpriu a lei nova e a velha.

Ou leia-se ali continuadamente: onde diz acima "que não ensinem" e "que não se apliquem", insinua que alguns perversamente ensinavam e se aplicavam; donde diz: embora aqueles falsos apóstolos ensinem diferentemente de mim, o fim do preceito, isto é, todo cumprimento da lei, é a caridade, como eu ensino; donde o que eles ensinam, as coisas velhas, não deve ser reconduzido. A caridade procede *de um coração puro*, isto é, de inteligência limpa; que alguém tenha puro o entendimento, conservando-se na pureza em que Deus o purificou no batismo, entendendo que deve amar o seu Criador e em nada o ofender. A caridade procede também *de uma boa consciência*, isto é, da esperança, não porque a consciência seja o mesmo que a esperança, mas por aquela afinidade com que àquele a quem falta escrúpulo de má consciência, e em toda parte, olhando-se no ânimo e nada achando que o morda, assim enfim é lícito esperar; quem se vê pecador, com efeito, deve temer pelo pecado, não esperar. A caridade procede também *de uma fé não fingida*; nós, com efeito, cremos Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não fingindo ou homem sem Deus, ou Deus sem homem, e, como alguns falsos apóstolos dizem, que Cristo teve não corpo verdadeiro, mas aéreo; ou então: fé nossa, digo, robusta e inviolável, não fingida, isto é, não frágil ao modo de vaso de barro, como é a doutrina dos falsos doutores.

Recomendada a sua parte, reprova a dos adversários, dizendo: *dela*, a saber, da caridade, da boa consciência e da fé, *alguns se desviaram*, isto é, aqueles que introduzem doutrina singular, separados e por isso errantes; a separação, com efeito, da verdade é erro; desviando-se certamente, *perderam-se*, não na fé, mas *em vãs palavras*, falando coisas vãs e inúteis, dizendo, a saber, que a circuncisão deve ser mantida. A estes não basta falar estas vaniloquências consigo, mas, o que é pior, *querendo ser doutores da lei*, isto é, ensinando que se devem manter as observâncias carnais da lei; e isto bastante impudentemente, *sem entender nem o que dizem*, isto é, a circuncisão, que ensinam, que sob a lei antiga se manteve na carne para figurar que se devia manter a circuncisão do coração no tempo da graça, e não da carne; *nem o que afirmam*, não entendendo também as Escrituras dos Profetas, das quais, isto é, pelas quais afirmam que a circuncisão e os antigos sacrifícios, que dizem, se devem manter no tempo da graça; ou, ao contrário: não entendendo o que dizem dos Profetas para provar que se devem manter as coisas que ensinam; nem entendendo a circuncisão e os sacrifícios, de que coisa eram mistérios quando se faziam, dos quais eles afirmam que ainda se devem manter.

Que tenha reprovado a parte dos adversários, dizendo "sem entender", etc., isto certamente não bastaria se não recomendasse também a sua parte e inserisse a causa da recomendação; poderia, com efeito, objetar-se-lhe assim: se a doutrina dos falsos doutores é perversa, a tua não é melhor de aprovar; donde julgas que se deve aderir antes a ti do que a eles? Para refutar isto, reprovada a parte dos adversários, acrescenta e aprova a sua, dizendo: os falsos doutores certamente não entendem a lei, *nós, porém, sabemos*, isto é, entendemos a lei. E acrescenta algo mais que vale para a causa, dizendo: sabemos certamente, não só a lei, mas também isto da lei sabemos: *que a lei é boa*, isto é, útil e justificante, entendida espiritualmente, segundo como nós a entendemos; segundo o entendimento carnal deles, porém, antes não boa, porque a ninguém justifica, e é cruel; donde o que eles entendem da lei não deve ser reconduzido. A lei certamente é boa, *se alguém usa dela*, isto é, da inteligência dela, *legitimamente*, isto é, segundo o que a própria lei ensina e preceitua, a saber, que seja entendida espiritualmente. Sabemos certamente da lei que é boa, *sabendo isto* também da mesma lei: *que a lei antiga não foi posta para o justo*, isto é, justificado sob a lei nova, nem mesmo sob a própria lei antiga foi posta para algum justo; a lei, com efeito, foi dada para punir o réu ou coagir o que quer pecar a não delinquir: mas quem é justo não deve ser coagido; não tem, com efeito, vontade de pecar, nem deve ser punido pela lei; mancha, com efeito, não há naquele que foi justificado. Donde aos justos que estiveram sob a lei antiga, quanto a si, não seria necessário manter a lei, a qual contudo congruentemente usaram, para que, rejeitando eles a lei, não viesse ela a desprezo, e para que, pela autoridade deles, mais devotamente a mantivessem aqueles a quem por causa dos pecados era necessária. Por isso também os justos mantiveram a lei antiga, para que o que ela prefigurava de Cristo e do tempo da graça eles o atestassem cumprindo a lei.

Para o justo certamente não foi posta a lei, *mas para os injustos*, isto é, os judeus, aos quais, antes de dada a lei, Moisés deu preceitos morais, que, não os observando, se tornaram injustos: *para os injustos* certamente *e insubmissos*, isto é, os judeus, que não quiseram submeter-se a Deus, que dava a lei por Moisés, para se afastarem das injustiças. Quem chame injustos e insubmissos expõe, dizendo: a lei foi certamente posta *para os ímpios*, isto é, irreligiosos de ânimo contra Deus, *e pecadores*, isto é, os que irreligiosamente pensam, irreligiosamente operam, *celerados*, isto é, os que, vendo sacrificar aos ídolos ou semelhante, lhes aprouve prevaricar igualmente. A lei foi posta também para *os contaminados*, isto é, os que foram compelidos pela violência dos tormentos a sacrificar aos ídolos. Estas quatro [seis?] coisas fazem-se principalmente contra Deus; as demais que seguem fazem-se contra si e contra o próximo, não que todos os pecados não sejam contra Deus, mas porque as quatro ditas parecem ofender a Deus especialmente, sem algum meio. Foi posta também a lei para *os parricidas*, isto é, os matadores de pais, a quem, devendo-se muito pelo fato de serem homens, muito mais [porque] eram pais; *e matricidas* igualmente, *e homicidas*, *e fornicadores*, isto é, os que se mancham com adultério ou com qualquer gênero de fornicação, *e sodomitas*, o que é pior, a quem não basta mancharem-se se não corrompem também a outros; *e plagiários*, isto é, os que infligem golpes ao próximo; ou então, plagiários como "plagiosipis", isto é, os que infligem golpe com coisa viva, como se alguém furtasse ao pai o seu filho, ou semelhante; *mentirosos* também, que se aplicam a fraudes, *e perjuros*, que é um pouco pior que a mentira: para estes e semelhantes foi posta a lei. Além disso foi imposta a lei *para o que quer que seja outra coisa* das ditas *contrária à sã doutrina*, isto é, à lei natural e moral; os preceitos morais, com efeito, assim como na lei antiga, também na nova perduram; donde diz: *sã doutrina, que é segundo o Evangelho*, isto é, segue a lei nova; Evangelho, digo, *da glória*, isto é, que prega o Deus glorioso; ou então, Evangelho da glória, isto é, que dá aos que o seguem a glória eterna; glória, digo, *do Deus bem-aventurado*, pois a bem-aventurança que Deus tem, tal hão de ter dele os santos: bem-aventurado diz-se, com efeito, aquele a quem nada falta; aos santos com Cristo nada faltará. Este nome Deus não carece de adjetivo algum para que se diga bem-aventurado, ou algo destes, mas, para insinuar de que gênero de glória Deus há de ter e dar aos seus, acrescentou "bem-aventurado", como se dissesse: a glória que Deus tem e dá basta a ele e a quantos a dá. E porque a sã doutrina e o Evangelho se seguem mutuamente, por isso só estas coisas se devem manter, e não reconduzir a circuncisão e as velhas.

Aqui entra a mostrar que, por ter-se afastado da lei antiga, todos os bens lhe foram conferidos; à qual lei enquanto aderiu, sempre se precipitou em despenhadeiro de males; donde diz: *Evangelho que me foi confiado*, isto é, previu a misericórdia de Deus que eu era idôneo a quem confiar (Evangelho, porém, diz-se boa nova; *eu*, com efeito, é bom; *angelia*, núncio [grafia grega corrompida no OCR]; donde Anjo se diz núncio); e por isso, porque Deus me confiou o Evangelho, *dou graças* a ele, e não à lei, por este benefício e pelos que seguem, a Deus que *me julgou fiel.* Aqui dizem alguns que as palavras de Paulo são insidiosas, como se dissesse: por isso dou graças a Deus porque, sendo infiel, me fez fiel; e julgou que eu era digno de me tornar fiel, isto é, a providência de Deus, que não sabe enganar-se, preordenou desde o princípio, *e me deu forças* feito fiel, isto é, me fez forte, de modo que nem a morte nem a espada poderão separar-me da sua caridade; e depois de me confiar o Evangelho da paz, *pondo-me no ministério*, isto é, na própria obra de pregar: a muitos prelados, com efeito, é confiado o Evangelho que, entorpecidos, não ministram aos súditos o que lhes foi confiado. Fui posto no ministério *de Cristo Jesus*, isto é, para honra e glória de Cristo Jesus, nosso Senhor; ou então, deu-me forças em Cristo Jesus, nosso Senhor, que me apareceu a mim, respirando mortes, no caminho.

Eu certamente fui feito fiel, etc., depois que, deixando a lei, me submeti à graça de Deus, *a mim que antes*, quando estava sob a lei, me precipitava em todos os males, fui então *blasfemo*, blasfemando Cristo, dizendo-o homem sem Deus, filho de carpinteiro e semelhantes; fui também *perseguidor* de quaisquer justos; fui também *injuriador*, porque, se podia prender alguns, afligia-os com injúrias e açoites: mas eu, que sob a lei era tão perverso, logo que a deixei, *alcancei misericórdia*, isto é, remissão dos pecados. Disto, porém, alcancei misericórdia *porque o fiz por ignorância*, isto é, pequei ignorantemente; e porque ignorava Cristo, por isso permanecia *na incredulidade.* Assim "porque" por "o que" lemos; não bastaria, com efeito, para a causa que, por ter pecado ignorantemente, tenha por isso alcançado misericórdia. De outro modo, contudo, lê-se "porque" para a causa; como se alguém dissesse: tu outrora, sob a lei, pregavas que se devia manter a lei; tu, porém, deixada a mesma lei, pregas que se deve deixar a lei; a quem, pois, se deva crer, ou a ti sob a lei, ou a ti não sob a lei, duvidamos. Contra isto diz: a mim sob a lei não se devia crer, porque o fiz por ignorância; e porque ignorei, por isso permaneci na incredulidade.

Nem só alcancei misericórdia, isto é, remissão dos pecados, mas também a graça de nosso Senhor *superabundou* em mim acima da misericórdia; porque tanto remitiu os pecados como deu muitas outras graças, como o conhecimento da essência divina e o mais. Ou de outro modo: enquanto era perseguidor da Igreja de Cristo, tive muito zelo da lei, mas contudo agora superabundou a graça de Deus em mim, porque, se me tivesse convindo padecer tanto pela lei antiga quanto padeço por Cristo, certamente teria desfalecido: o mais como foi dito. Superabundou, digo, a graça *com a fé e a caridade*; porque a fé e o amor de Deus sempre cresceram em mim; fé e caridade que *há em Cristo Jesus*, isto é, tem-se por Cristo Jesus, e não pela lei.

Esta misericórdia que eu alcancei, é fácil também vós a alcançardes; *para que os pecadores fossem salvos*, com efeito, *Cristo Jesus veio a este mundo.* Mas, antes de o dizer, antepõe a recomendação da coisa que vai dizer, assim: *fiel é esta palavra* que vos manifesto, isto é, tal que se lhe deve dar fé e que é bem digna de crédito; nem só é fiel, mas também *digna de toda aceitação*, isto é, que deve ser aceitável: há, com efeito, muitos discursos dignos de crédito, não porém dignos de aceitação, porque inúteis; este discurso, porém, é digno de crédito e aceito, porque útil: digno certamente de aceitação, não numa só vez ou num só tempo como a lei antiga, mas *de toda*, isto é, no presente e no futuro, e segundo o corpo e segundo a alma, porque em todo tempo e segundo ambos salva: este, digo, é aquele discurso: *que Cristo Jesus veio a este mundo*, isto é, tão desprezível e em que lhe convinha padecer tantas misérias; veio, digo, *para salvar os pecadores*; se estes pudessem ser salvos pela lei, em vão Deus deporia o seu Cristo nas misérias deste mundo. *Dos quais pecadores eu*, e qualquer legalista, *sou o primeiro*, isto é, principal e péssimo; piores, com efeito, achou Deus os judeus aderentes à lei do que quaisquer sem lei.

O que acima pôs absolutamente, aqui põe com a causa, dizendo: embora eu fosse o pior entre os pecadores, contudo *alcancei misericórdia, para que Cristo Jesus em mim primeiro*, isto é, maior pecador, ou então, primeiro, isto é, sobretudo, *mostrasse toda a sua longanimidade*, não em qualquer coisa una, mas total; suportou-me, com efeito, blasfemando, perseguindo e infligindo injúrias aos santos: toda a longanimidade certamente mostrou em mim, *como exemplo dos que hão de crer nele*, isto é, para que por mim ensinasse que ninguém deve desesperar, pela enormidade dos crimes, de crer nele; hão de crer, com efeito, nele *para a vida eterna*, isto é, para que pela fé tenham a vida eterna.

E, uma vez que Cristo veio salvar os pecadores, o que a lei foi insuficiente para fazer, *portanto ao Rei dos séculos*, Cristo, *seja* por isso *honra e glória*; porque nem à lei nem a outro além de Cristo é devida por isso a graça. Ou continue-se assim: Cristo mostrou em mim toda a longanimidade; *àquele, porém, Cristo, Rei dos séculos, imortal*, isto é, imutável, que está sempre no mesmo, *e invisível*, isto é, cuja Deidade nenhuma criatura basta para entender; a este *único Deus* Criador (só ele, com efeito, pode salvar), a este tão grande e tal *seja honra e glória* — honra diz-se, como das virtudes, humildade, prudência e semelhantes, que o homem pode ter; glória diz-se das coisas que são só de Deus e não do homem, como ressurgir ao terceiro dia e semelhantes —; honra, digo, e glória lhe seja *pelos séculos dos séculos*, consecutivos dos séculos presentes; *e isto que peço, amém*, isto é, certamente assim será.

Uma vez que de Cristo Jesus vem toda a salvação, e da lei nenhuma, *por isso, ó Timóteo, filho, confio-te este preceito*, para que em tudo seja manifesto que não podes poupar nem tolerar ninguém neste assunto; este é, com efeito, o preceito que não é lícito transgredir, e a ti recomendado com suma obediência, *para que milites* excluindo da Igreja os falsos doutores; milites também dispondo outra ordem eclesiástica; *milites a boa milícia* — se militasse uma vez ou em uma coisa só, teria cumprido o "milites" que dissera, mas, para mostrar que queria que militasse sempre e em tudo, acrescentou "milícia boa", isto é, útil; será útil, com efeito, que assim milites —; confio-te, digo, que milites *nelas*, as profecias, isto é, em toda visão e inteligência que tens de Deus; a profecia, com efeito, é visão, profeta diz-se vidente. Advirto-te que milites *segundo as profecias que precederam sobre ti*, isto é, segundo o que no tempo precedente foste ensinado nas sagradas Escrituras; Timóteo, com efeito, nascido de pai gentio e de mãe cristã (At 16,1), foi desde a própria meninice entregue a ser instruído nas sagradas Letras; donde diz "segundo as profecias que precederam sobre ti". Ou de outro modo: confio-te que milites segundo as profecias que precederam sobre ti, isto é, a teu respeito; ensinado, com efeito, pelo Espírito de profecia, tomei-te para a obra do Evangelho; vê, porém, que, degenerando da fé, não faças mentiroso o Espírito, que me ensinou a escolher-te. Deves militar, tanto porque é bom e útil como porque podes bem, *tendo fé*, pela qual foste plenamente justificado, *tendo também boa consciência*; a ti, com efeito, que pregas, não se pode objetar que ensinas bem e vives mal.

Agora volta por um momento aos falsos doutores, dizendo: *boa consciência que alguns rejeitaram* de si; quem age e ensina perversamente, com efeito, não tem de que ser bem consciente de si: e porque a rejeitaram, por isso *naufragaram na fé*, isto é, quebraram a sua nau, rodeando a fé e não entrando nela. *Destes falsos doutores* naufragantes *são Himeneu e Alexandre*, príncipes dos que queriam reconduzir a circuncisão; *aos quais eu entreguei a Satanás*, isto é, separei excomungados da Igreja; e não para que pereçam eternamente, *mas para que aprendam a não blasfemar*, isto é, para que, assim corrigidos e penitentes, cessem da sua perversidade, e já não blasfemando sejam de novo tirados a Satanás, recebidos no seio da Igreja. Nota-se que excomungar é entregar a Satanás, porque, quando alguém é excomungado, é entregue a Satanás, de quem era antes de ser justificado pelo batismo.

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# Capítulo 2

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> Peço, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que levemos uma vida quieta e tranquila, em toda piedade e castidade. Isto, com efeito, é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo em redenção por todos, testemunho nos seus tempos; para o qual fui posto eu pregador e Apóstolo (digo a verdade, não minto), doutor das nações na fé e na verdade. Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos puras, sem ira e sem contenda. Do mesmo modo, que as mulheres, em traje decoroso, se ornem com pudor e sobriedade, e não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou vestes preciosas; mas, como convém a mulheres que professam piedade, com boas obras. A mulher aprenda em silêncio, com toda sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que domine sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Pois Adão foi formado primeiro, depois Eva. E Adão não foi seduzido; a mulher, porém, seduzida, caiu em prevaricação. Será, contudo, salva pela geração de filhos, se permanecer na fé, na caridade e na santificação, com sobriedade.

## Comentário

Depois de Paulo admoestar Timóteo a que militasse, insinua em seguida em que lhe ordena militar, dizendo: uma vez que Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, no ministério de cuja pregação me constituiu, a fim de que por ele sejais salvos e a minha pregação frutifique em vós, *portanto*, isto é, por causa destas premissas, *peço que oreis*; se Deus, com efeito, não operar pelo Espírito Santo nos vossos corações, a minha palavra será inútil: peço, pois, *primeiramente antes de tudo*, isto é, sobretudo antes de todas as coisas, *que se façam súplicas*, etc.

Porque o Apóstolo viu que em todo gênero de oração prevalece a celebração da Missa, na qual se faz memória da Paixão de Cristo, pela qual todo o gênero dos homens foi redimido, por isso, embora se deva orar também de outros modos, antepôs este gênero de oração, porque viu que prevalece, dizendo: *primeiramente antes de tudo*, isto é, antes de todas as coisas, peço *que se façam súplicas.* Aquelas orações que precedem, isto é, junto e antes de consagrado o Corpo do Senhor (como no princípio da Missa), chama súplicas, como que ditas junto da consagração. *Orações, petições e ações de graças* peço que se façam.

Chama orações às preces em que, quando são ditas, aquela substância de pão e de vinho posta no altar passa a Corpo e Sangue de Cristo. Chama petições às preces que se fazem depois da comunhão, como aquela: «Leva a termo em nós, Senhor, o que contêm os teus santos mistérios», isto é, depois de nos teres alimentado com este teu Corpo e Sangue, resta, como por dívida, que leves a termo o que piedosamente começaste, apascentando-nos com o alimento indefectível da tua glória nos céus, que aqui no altar antegozamos; petição, com efeito, diz-se como oração feita de coisa que já é devida por misericórdia ou mérito. Chama ações de graças ao que se diz no fim da Missa: Benedicamus Domino; Deo gratias; para que, dizendo isto, insinuemos que se deve referir tudo à graça de Deus, o que deu e o que há de dar eternamente. Peço, porém, que isto se faça *por todos os homens*, para que sejam salvos por vontade de Deus.

Se se pergunta por que o Apóstolo manda orar por todos, quando alguns foram reprovados por Deus, e quem reza por eles parece ofender a Deus, que os reprova; contra isto diz-se que Deus, por sua benignidade e clemência, quer que todo homem se salve, mas este, quanto está em si, não permanece em Deus, e a injustiça dos ímpios desvia a benignidade de Deus. Donde em Deus se considera dupla vontade: uma de benignidade e clemência, pela qual quer que todos se salvem; outra é a vontade de justiça de Deus, pela qual reprova os maus e elege os bons. Segundo a vontade de benignidade de Deus, manda o Apóstolo orar por todos, para que o que Deus piedosamente quer, também nós, seguindo a sua piedade, queiramos, e oremos para que se faça a vontade de Deus; o que, se não fizéssemos, pareceríamos dissentir da clemência de Deus.

Ou leiamos de outro modo o que precede, de modo que nestas palavras não haja menção da Missa: peço que se façam súplicas, isto é, aquelas adjurações, como na litania, onde se adjura pela Paixão, pela Ressurreição e semelhante, como se alguém adjurasse a Deus pela conversão de um celeradíssimo, o que mal parecesse poder obter-se de Deus; convertido, porém, aquele ímpio pelas preces do justo, o justo faria orações por ele, para que Deus, com a fé, lhe desse as virtudes que seguem; recebidas estas, restariam já as petições (como se disse) pela glória celeste, que é devida a quem já tem as virtudes: por todas estas coisas, isto é, a conversão, a posse das virtudes, a concessão da glória celeste, seguem as ações de graças; o que fez o presbítero Justino, que, recebido nos céus o espírito de Lourenço, em ação de graças ofereceu a Deus o Sacrifício de louvor. Peço, porém, que isto se faça por todos os homens, como se disse.

Porque talvez alguns julgassem que não se devia orar pelos príncipes e tiranos que oprimem a Igreja de Deus, acrescenta: assim digo que se deve orar por todos que nem os perseguidores da Igreja exclua, mas orai também *pelos reis e por todos os que estão em eminência* secular, sejam duques, sejam cônsules. E que vós oreis por eles não só aproveitará a eles, mas também a vós, *para que*, cessando eles da sua tirania, *levemos uma vida quieta* sem perseguição; nem numa só coisa, mas também *tranquila*, isto é, quieta em toda coisa. A tranquilidade da Igreja muitíssimo aproveita a alguns mais tenros, que na paz da Igreja conservam a sua justificação, os quais, se os tormentos os alcançassem, talvez recuassem da fé; e por isso diz que se deve orar pelos reis e príncipes. Levemos, digo, vida tranquila *em toda piedade*, isto é, religião, *e castidade*, isto é, integridade da fé, que, se sobreviesse a perseguição, não perduraria íntegra em todos.

Por isso admoesto a orar por todos, *isto, com efeito, que se ore por todos, é bom*, isto é, útil para o progresso da Igreja; e tal bem que seja *agradável* e grato a Deus; e não de modo que agrade no tempo e desagrade em outro tempo, mas agradável de modo que seja *diante de Deus*, isto é, que sempre permaneça nos olhos do seu beneplácito; *Deus*, digo, *nosso Salvador*, que, assim como nos salvou, *quer que todos os homens se salvem*, segundo a vontade da sua benignidade, como acima se disse; e, para que se salvem, quer que todos *cheguem ao conhecimento da verdade*, isto é, da verdadeira fé, pela qual há caminho para a salvação.

Prova o que disse: verdadeiramente Deus quer que todos se salvem; o que é patente pelo fato de que *há um só Deus*, isto é, Criador de todos; e, sendo Deus Criador de todos, não há causa por que negue a sua benignidade a um e a conceda a outra criatura; a qual o ímpio certamente a si nega, porque age impiamente, perdurando salva e íntegra para todos a benignidade de Deus. Daí também é patente que Deus quer que todos se salvem, porque *há um só Mediador entre Deus e os homens*, e não vários mediadores; donde consta que, por querer aproveitar igualmente a todos, foi feito Mediador de todos. Cristo diz-se Mediador porque os dois extremos, e inteiramente divididos entre si, a saber, Deus, em quem há toda a justiça e nenhuma injustiça, e o homem, em quem há toda a injustiça e nenhuma justiça, fê-los concordes pela humanidade a si assumida, justificando o homem. Prova ainda que Deus quer que todos se salvem, dizendo: este Mediador, sendo glorioso na Deidade, *fez-se homem*, coisa tão vil e tão contumeliosa que nunca o faria se não quisesse salvar os homens; este Mediador é *Cristo*, imolando por nós a si mesmo como sacrifício a Deus, e Rei dirigindo-nos à salvação; este é *Jesus*, Salvador, a quem este nome designa Salvador de todos; Cristo Jesus *deu-se em redenção*, e não ouro ou prata, mas a si mesmo deu como preço *por todos* a redimir. Mas, embora aquele preço não tenha aproveitado a todos, porque perduraram na impiedade, Cristo deu contudo o preço que bastaria para a salvação de todos, se todos quisessem ser bons; e porque deu a redenção por todos, quis salvar a todos igualmente.

*Testemunho disto*, a saber, de que quer que todos se salvem, *foi confirmado*, porque o que os Profetas testemunharam antes de Cristo sobre este Salvador, Cristo o confirmou, cumprindo tudo o que os Profetas haviam predito dele; isto, porém, por cumprimento, foi confirmado *nos seus tempos*, isto é, nos congruentes, como a Natividade de Cristo em certo tempo, noutro a Paixão, e o mais de Cristo em diversos tempos; se os testemunhos dos Profetas, com efeito, não tivessem precedido Cristo, pouco ou nada se lhe creria; o que o mesmo insinua quando, aparecendo depois da Ressurreição a dois discípulos, diz: «Ó insensatos e tardos de coração para crer em tudo o que os Profetas falaram, etc.» (Lc 24,25); o que ele mesmo diz noutro lugar no Evangelho: Nisto é verdadeira a palavra: um é o que semeia e outro o que colhe (Jo 4,37): os Profetas, com efeito, semearam, Cristo, porém, com os seus Apóstolos colheu o fruto da semente.

Para provar o mesmo, que Deus quer que todos se salvem, aduz a sua autoridade, dizendo: *para o qual*, isto é, para a qual coisa a pregar, a saber, que Deus deu a si mesmo como preço pela salvação de todos, e o mais que foi premissado, *fui posto eu por Deus pregador*, para que isto pregue a todos; e pregador de grande dignidade, porque também *Apóstolo* constituído para pregar isto; e eu sem dúvida *digo a verdade, não minto*, não em qualquer parte, mas de modo a não mentir em lugar algum; e eu já fui constituído *doutor das nações na fé e na verdade*, isto é, já ensinei muitos discípulos, que são fiéis e pregam a verdade. Se meus discípulos são verdadeiros, consta que eu, seu doutor, não sou mentiroso. Que se nomeie pregador e Apóstolo não são palavras de soberba, mas para por esta autoridade corroborar a fé dos seus ditos.

Uma vez suficientemente provado que se deve orar por todos os homens, *quero, pois*, que todos, homens e mulheres, orem, para que segundo a vontade de Deus se salvem; *quero* certamente que *os homens orem* não só na igreja, mas *em todo lugar, levantando mãos puras*, etc. Aqui ensina quais se devem preparar para orar: chama mãos puras as afeições limpas, de modo que nada queiram que lhes seja dado por Deus que seja nefando Deus dar, mas sobretudo pedam a salvação; puras, digo, levantando por incrementos de boa obra e de oração piedosa, e isto *sem ira*, isto é, sem ódio do próximo; quem odeia o próximo, com efeito, rasga-se da unidade da Igreja; *e sem contenda*, isto é, orai sem desconfiança, feitos tais que por temor do pecado não convenha disputar se Deus vai ou não dar-vos o que pedis; como se dissesse: orai com dileção de Deus e do próximo. *Do mesmo modo* quero que as mulheres orem com os homens, igualmente sem ira e sem contenda, estando *em traje* não que as ornamente, mas *decoroso*, isto é, que seja ornado por elas, de modo que seja tanta a reverência das mulheres que até as suas vestes pareçam ornadas, porque mulheres santas as usam; permanecendo *com pudor*, para que tudo façam com vergonha, *e sobriedade* de comida, bebida e palavras — com as outras virtudes recomenda estas duas sobretudo às mulheres, porque viu que sobretudo sofrem da doença da impudicícia e da intemperança —; mulheres, digo, *ornando-se, não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou veste preciosa*, isto é, não aplicadas ao cuidado dos corpos, mas *promovendo a piedade com boas obras*, que por fora operam, isto é, pondo à vista a religião da mente por boa operação exibida por fora.

Ao orar, quero homens e mulheres semelhantes, mas ao ensinar ou interrogar quero-os dessemelhantes; *a mulher aprenda*, ouça o sermão na igreja, não interrogando nem respondendo, mas esteja *em silêncio*; e, se hesita em algo, quando vier a casa, interrogue o marido. *Aprenda* em silêncio *com toda sujeição*, estando atrás dos homens com a cabeça coberta, o olhar fixo no chão; quando nos reunimos na igreja, com efeito, ali nos representamos ao Juiz, a quem pela sedução da mulher provocamos à ira; lembrada disto, a mulher, que foi autora de toda perdição, deve na presença do Juiz muito envergonhar-se. Que aprenda, concedo à mulher; *ensinar*, porém, ao homem com doutrina espiritual, isso de modo algum o permito à mulher, *nem que domine* com algum domínio espiritual *sobre o homem*; mas que esteja sempre não só em silêncio de interrogar ou responder, mas também em silêncio de conversar com alguém na igreja.

Por isso a mulher não deve dominar sobre o homem, *porque Adão foi formado primeiro, depois Eva*; a ordem, porém, da criação deles significa que o homem deve dominar sobre a mulher, e não a mulher sobre o homem; pois, podendo Deus, se quisesse, criar a mulher antes do homem, ou no mesmo momento com o homem, não sem razão a fez posterior no tempo ao varão. Por isso ainda a mulher não deve dominar sobre o homem; *e Adão não foi seduzido* daquele modo que a mulher, de modo a crer que pelo gosto do pomo se faria Deus, mas nisto foi seduzido porque, persuadindo-o a mulher que Deus lhe dera como auxílio, julgou que ambas as coisas podiam fazer-se, e comprazer à esposa, e, praticado o crime, feita penitência, obter perdão de Deus; *Adão não foi seduzido, a mulher, porém, seduzida*, crendo que se faria deusa, como a serpente persuadira, *caiu em prevaricação*, isto é, em ato de pecado, a saber, na comida do pomo. E por tantas causas a mulher deve estar sempre sujeita ao homem, não preferida: com preferência espiritual, digo; se tem servos, com efeito, pode bem dominar sobre eles com domínio secular. Pode também a mulher presidir a mulheres de modo espiritual, mas ao homem nunca. Para que a alguém não parecesse que a mulher não pode salvar-se, porque foi causa de toda perdição, e porque o mesmo Paulo tanto detestou a mulher, acrescenta sobre a salvação dela, dizendo: embora a mulher tenha sido seduzida e o homem não, contudo *a mulher será salva*; não só a virgem ou continente, mas também a que vai *pela geração de filhos*, isto é, também a casada; com esta condição, digo, *se permanecer na fé*, de modo que tenha fé sã, *e na caridade* de Deus e do próximo, *e na santificação* que recebeu no batismo; permaneça, digo, nelas *com sobriedade*, que por isso repete, porque nesta costumam as mulheres pecar muitíssimo. Por isso disse que as casadas podem ser salvas, porque, se tivesse falado só das virgens ou viúvas, pensar-se-ia que entendera que as casadas não podem ser salvas, as quais, devendo ser salvas, consta por isso a salvação das virgens e viúvas. Ou continuemos de outro modo: embora não permita à mulher ensinar na igreja, contudo será salva, isto é, poderá merecer a salvação *pela geração de filhos*, isto é, instruindo espiritualmente em casa os seus filhos; será salva sob esta lei: se, quanto dela depender, os seus filhos permanecerem na fé, na dileção e na santificação, com sobriedade, como se disse.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Fiel é esta palavra: Se alguém deseja o episcopado, deseja uma boa obra. É preciso, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, ornado, pudico, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, mas moderado; não litigioso, não cobiçoso, mas que governe bem a sua casa, tendo filhos submissos com toda a castidade. Pois, se alguém não sabe governar a sua casa, como terá cuidado da Igreja de Deus? Não neófito, para que, inchado de soberba, não caia no juízo do diabo. É preciso também que tenha bom testemunho dos de fora, para que não caia no opróbrio e no laço do diabo. Os diáconos, do mesmo modo, sejam pudicos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe lucro; mantendo o mistério da fé em consciência pura. E estes sejam primeiro provados; e assim exerçam o ministério, não tendo nenhum crime. As mulheres, do mesmo modo, pudicas, não maldizentes, sóbrias, fiéis em tudo. Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, que governem bem os seus filhos e as suas casas. Pois os que bem exercerem o ministério adquirirão para si um bom grau e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus. Estas coisas te escrevo, esperando ir ter contigo em breve; se, porém, demorar, para que saibas como convém conduzir-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e firmamento da verdade. E, sem dúvida, grande é o mistério da piedade: que foi manifestado na carne, justificado no espírito, apareceu aos Anjos, foi pregado aos gentios, foi crido no mundo, foi elevado em glória.

## Comentário

Depois de ter admoestado a comunidade da Igreja a orar, e por isso ter dado um preceito público a todos, acrescenta alguns preceitos divididos, que não tratem de todos, a saber, sobre o sacerdócio e o diaconato, insinuando quais e como devam ser promovidos a estas Ordens. Porque viu que este preceito é oneroso e difícil a alguns, antes de o propor, recomenda-o, dizendo: este discurso que vou dizer *é fiel*, isto é, deve ser crido, e a ninguém é oneroso; este certamente é o discurso que recomendo: *é preciso que o bispo seja irrepreensível.* Aqui por bispo significa o sacerdote; supérfluo seria, com efeito, que instruísse Timóteo, que era bispo dos efésios, sobre a ordenação de bispo para os efésios, pois, episcopando ele ali, seria absurdo que outro ali fosse feito bispo, nem se deve crer. Além disso, se desse preceito sobre os diáconos, omitida a ordem sacerdotal, que precede, pareceria dissonante e feito sem ordem. Nem é de admirar que por bispo signifique o presbítero, quando nesta mesma Epístola por presbítero significa o bispo. E porque o que quer ser bispo necessariamente deve ser irrepreensível, por isso *se alguém deseja o episcopado*, isto é, superintender os que lhe são confiados, *deseja* aqui não ouro, não riquezas, não a jucundidade do século, mas *uma obra*, isto é, um trabalho *bom*, isto é, útil a si e àqueles sobre quem superintende; bispo, com efeito, diz-se superintendente, [explicação do termo grego, corrompida no OCR: *epi*, "sobre"; *scopos*, "intenção"]. E porque quem deseja o episcopado deseja operar o bem, *é preciso, pois, que o bispo*, isto é, é necessário que o que quer ser bispo, *seja irrepreensível*, porque, se for repreensível enquanto o for, não pode operar o bem. Chama irrepreensível o réu de nenhum crime, que, mesmo sem ter crime, se guarda de modo que nem nele pareça haver alguma ocasião de crime donde se suspeite dele criminoso.

Este bispo, isto é, o que quer exercer o sacerdócio, convém que tenha sido *marido de uma só mulher*, isto é, que tenha tido uma só mulher, enquanto lhe foi lícito casar-se; não que a tenha no episcopado, ou que, se nenhuma teve, deva ser repudiada, mas antes aceita. Por isso nega o sacerdócio ao marido de muitas mulheres, porque, desligado da primeira mulher, ao contrair segundas núpcias indicou que não podia conter-se; não é lícito, porém, que o incontinente seja bispo. E para ser irrepreensível, convém que o bispo seja *sóbrio* em palavra e obra, *prudente* também, que saiba tirar do tesouro do seu peito a lei nova e a velha. Convém também que seja *não dado ao vinho*, dissoluto por contínua bebida; *não violento* também com agressão corporal; tem, com efeito, as armas espirituais de que deve usar contra os adversários, a saber, a palavra de Deus, por isso não convém que use armas corporais: *não violento, mas moderado*, isto é, guarda de toda moderação. Convém que seja *não litigioso*, isto é, que não pague injúria por injúria, mas seja paciente em tudo; *não cobiçoso* também, para que a cobiça não o impeça de dar aos pobres os bens da Igreja, que são patrimônio deles, não próprios dos bispos. Convém também que tenha *governado bem a sua casa*, que tenha bem contido de quaisquer vícios a sua família privada; e não só o resto da família, mas também *tendo filhos submissos*, isto é, que nem na contenção dos filhos tenha sido enganado por afeição paterna; e não de modo, digo, que os tenha corrigido depois de cometido o vício, mas *com toda a castidade*, isto é, guardada toda a integridade, porque foi tão rigoroso na guarda dos filhos que não lhes foi lícito chegar ao ato do crime. Quem assim sabe governar a sua casa, é bom que seja promovido ao sacerdócio; *mas se alguém não sabe governar a sua casa privada*, em que poucas coisas há a dispor, *como terá cuidado*, isto é, diligente guarda, *da Igreja de Deus*, em que tantas e tão grandes coisas há a procurar?

Além do que foi dito, convém que *não seja neófito*, isto é, recém-convertido, para que, se ainda rude na fé for promovido ao sacerdócio, *inchado de soberba*, pensando consigo: se eu agora não me tivesse convertido, não haveria fora de mim quem soubesse presidir a Igreja; assim, ensoberbecendo-se, *caia no juízo*, isto é, na condenação *do diabo*, que por soberba foi condenado, para que este neófito igualmente por soberba seja condenado. Nem só estas coisas lhe são necessárias, mas também *é preciso*, isto é, é necessário que tenha *bom testemunho* não só dos fiéis, mas também *dos de fora*, isto é, de fora da fé, a saber, dos infiéis, *para que não caia no opróbrio*; porque, se os infiéis agora o veem feito sacerdote, pregando a palavra de Deus, injuriá-lo-ão dizendo: tu, que pouco antes furtavas, adulterava, e o mais, jactas-te agora de mestre nosso, em cuja boca até as coisas boas são desprezíveis; ele, ouvindo isto, inflamado de ira, pague com opróbrios recíprocos, e deste modo *caia no laço do diabo*, que com estes dolos trabalha por enlaçá-lo: por isso convém que quem é promovido ao sacerdócio, mesmo quando foi infiel, tenha vivido sem queixa entre os seus.

Quais dissemos que convém serem os presbíteros, tais convém serem os diáconos; *sóbrios*, e o mais que não repete, com o que diz "do mesmo modo" significou que se devem entender na ordenação dos diáconos; Ordem que pouco difere em dignidade do sacerdócio: os diáconos, digo, convém que sejam *pudicos*, isto é, guardas da castidade, *e não de língua dobre*, isto é, que não semeiem discórdias entre irmãos, *não dados a muito vinho*, de que é lícito usar sobriamente; *não cobiçosos de torpe lucro*, de modo que nem emprestem a juros, nem negociem; *mantendo* também *o mistério*, isto é, o segredo *da fé*, para que conheçam aqueles segredos da nossa fé que a simplicidade do vulgo não basta para apreender; o ofício dos diáconos, com efeito, é evangelizar a palavra de Deus ao povo; em sinal disso se lhes entrega o Evangelho para ler; por isso convém que lhes sejam conhecidos os arcanos da fé, a eles que hão de ensinar sobre a fé.

E, embora tenham tudo isso, contudo, antes de serem ordenados, *sejam primeiro provados* pelas interrogações com que costumam ser interrogados antes das Ordens, como aquela: Queres guardar a castidade? e semelhantes. Estes sejam certamente provados, e igualmente os sacerdotes, de quem não o premissara, *e assim* enfim ordenados *exerçam o ministério*, isto é, distribuam os bens da Igreja em usos necessários, como nas refeições dos pobres e semelhantes: foi estabelecido, com efeito, também na Igreja primitiva que aqueles sete diáconos dispusessem as coisas eclesiásticas e domésticas, ministrassem aos pobres, etc., para que os Apóstolos, livres de tais cuidados, vagassem mais livremente à pregação; donde ainda hoje, se é feito conforme o direito, pelas mãos dos diáconos se distribuem os ministérios das Igrejas. Exerçam o ministério, digo, *não tendo nenhum crime* em ato, nem mesmo em suspeita; com tanta vigilância devem, com efeito, olhar-se que o inimigo não tenha ocasião nem de suspeitar algo criminoso deles. "Não tendo crime" é o mesmo que acima disse "irrepreensível".

Aqui insere um preceito sobre as mulheres, tratando antes e depois dos diáconos; inserção que, se de algum modo não disser respeito aos diáconos, parece inconveniente esta ordem; para que, porém, o que diz sobre as mulheres se julgue convenientemente inserido, expomos assim: as mulheres que forem casadas com os que são promovidos ao diaconato, *do mesmo modo é preciso que sejam pudicas*, isto é, é necessário professar a castidade, como os seus maridos; melhor seria, com efeito, que permanecessem com os maridos na castidade do matrimônio do que separadas dos maridos vivessem impudicamente; e por isso os seus maridos não sejam recebidos na Igreja se as suas mulheres não professarem a castidade. As quais convém que sejam não só pudicas, mas também *não maldizentes*, porque, se vagam à detração, melhor teria sido estar com os maridos, que as corrigissem. Convém também que sejam *sóbrias* em comida, bebida e vestuário; *e fiéis em tudo*, isto é, guardando intacta em tudo a justificação dos pecados que receberam pela fé. Ou: sejam fiéis em tudo, de modo que, se algo eclesiástico lhes for confiado, como ministrar aos pobres, o executem fielmente. Ou, se se prefere, as mulheres diaconisas, a saber, as monjas, do mesmo modo é preciso que sejam pudicas, etc., como foi dito.

*Os diáconos sejam* também, isto é, tenham sido, *maridos de uma só mulher; que governem bem os seus filhos e as suas casas*, como foi exposto do bispo. Para que a ninguém parecesse difícil preparar-se assim para ter o diaconato, diz: não vos seja oneroso fazer-vos tais e tais para subirdes a esta Ordem, porque *os que bem e religiosamente exercerem o ministério* no diaconato *adquirirão por isso para si um grau maior, bom*, isto é, útil a si, o presbiterado ou o episcopado. E se acaso morrerem sem receber grau maior, porque bem serviram no diaconato, adquirirão *muita*, isto é, de múltiplo bem celeste, *confiança na fé*, isto é, ser justificados pela fé *que há em Cristo Jesus*; ou então, de modo que entendamos certa fé privada: assim adquirirão confiança na fé que há em Cristo Jesus, isto é, na pessoa do Filho. Embora a fé plena não esteja em uma só pessoa, mas nas três, diz fé privada em Cristo porque pela Redenção e pelo mais que é próprio da pessoa do Filho confia salvar-se.

*Estas coisas*, sobre a Ordem sacerdotal e levítica e o mais, *te escrevo, filho Timóteo, esperando* contudo, embora agora te escreva, *ir ter contigo em breve.* Onde diz que escreve quando em breve irá, indica por isso a grande necessidade de que se observem as coisas que escrevendo ordena. Em breve espero ir a ti; mas, *se demorar*, escrevo, *para que saibas como convém conduzir-te na casa de Deus*, isto é, com quanta vigilância deves guardar os fiéis, nos quais Deus habita como em casa. E porque casa se poderia dizer de poucos, acrescenta: *casa que é a Igreja*, isto é, em que Deus convocou muitos à fé; Igreja, digo, *do Deus vivo*, isto é, que dá à sua Igreja a vida eterna que tem; Igreja que é *coluna*, segundo alguns, dos firmes e retos na fé, que se dizem coluna quanto a si; dizem-se também *firmamento da verdade*, quanto a outros débeis na fé, que, se não fossem firmados pelo exemplo e exortação destes, vacilariam na fé. Nesta Igreja está o *mistério* (sacramento), isto é, Cristo; e este mistério *da piedade*, isto é, de toda a religião, *é grande*, porque da sua magnitude não há fim: é certamente este mistério nela *manifesto*, isto é, aparente pelos muitos milagres que Deus opera pelos membros da Igreja. Cristo diz-se mistério por semelhança, assim como sob a lei antiga certos mistérios se guardavam no templo que não era lícito ao povo ver; assim, em Cristo, embora se vejam muitas coisas, muitas contudo nele estão escondidas, que nenhuma criatura basta para compreender; mistério, porém, diz-se coisa envolta em mistérios. Este mistério, isto é, Cristo, *foi manifestado na carne*, porque pelo Verbo de Deus encarnado a Deidade de certo modo foi tornada visível pela carne; a qual, senão na carne, era inteiramente invisível. Este mistério, isto é, Cristo, *foi justificado*, não porque tenha tido pecado, mas aquele homem que Deus assumiu foi feito justo *no espírito*, isto é, pelo Espírito, a saber, pela Deidade a ele co-unida; porque, enquanto os outros homens são concebidos da concupiscência da carne, Cristo foi concebido do amor do Pai. Este mistério, de novo, *apareceu aos Anjos*, isto é, Cristo fez-se conhecer pelos Anjos, pelas coisas que, feito homem, operou na terra; vistas estas, com efeito, muito progrediram os Anjos no conhecimento de Deus; não lhes haviam sido revelados, com efeito, todos os mistérios. Este mistério também *foi pregado aos gentios* pelos Apóstolos; *foi crido também no mundo*, o mundo, com efeito, já crê em Cristo; *foi elevado também em glória*, onde se senta à direita do Pai, vindo-lhe ao encontro os Anjos no dia da sua Ascensão.

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> O Espírito, porém, diz manifestamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, dando atenção a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, por hipocrisia de falsos mestres, que têm a sua própria consciência cauterizada, que proíbem casar-se, que mandam abster-se de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos fiéis e por aqueles que conheceram a verdade. Porque toda criatura de Deus é boa, e nada se deve rejeitar do que se recebe com ação de graças; pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração. Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, nutrido com as palavras da fé e da boa doutrina que seguiste. Evita, porém, as fábulas profanas e de velhas; exercita-te, antes, na piedade. Porque o exercício corporal é útil para pouco; a piedade, porém, é útil para tudo, tendo a promessa da vida presente e da futura. Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação. Pois para isto trabalhamos e somos injuriados, porque esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis. Ordena estas coisas e ensina-as. Ninguém despreze a tua juventude; mas sê modelo dos fiéis na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na castidade. Até que eu chegue, dedica-te à leitura, à exortação e à doutrina. Não negligencies a graça que há em ti, que te foi dada por profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas, permanece nelas, para que o teu progresso seja manifesto a todos. Atende a ti mesmo e à doutrina; persevera nelas. Pois, fazendo isto, salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.

## Comentário

Para que Timóteo não objetasse a Paulo: uma vez que há na Igreja tão grande mistério, como dizes, não me convém vigiar muito pela guarda dela, porque por este mistério será suficientemente guardada. Contra isto Paulo diz: saibas que a Igreja de Cristo se deve conservar com toda vigilância, porque *nos últimos tempos alguns apostatarão da fé.* Isto, porém, não o recebi levianamente de qualquer um, mas *o Espírito Santo me disse*, não sob algumas figuras, mas *manifestamente*, que nos últimos tempos alguns hereges apostatarão da fé de Cristo, *dando atenção a espíritos enganadores*, isto é, a demônios que falam pela boca dos sedutores; dando atenção não só às razões deles, mas também *às doutrinas*, isto é, às afirmações das doutrinas *de demônios*, *por hipocrisia de falsos mestres*, isto é, em simulação de bem, quando verdadeiramente são maus; *e que têm a sua própria consciência*, isto é, a sua mente consciente de todo mal, *cauterizada*, isto é, marcada por fora com manifesta queimadura. Cauterizar diz-se de *caveo, caves*; cautério, com efeito, diz-se aquela queimadura que se faz nos ladrões apanhados, para que os que os virem, por este sinal, se acautelem deles, sabendo que são ladrões. Por esta semelhança diz "que têm a consciência cauterizada", porque emitem por fora certos sinais da sua mente dolosa, pelo fato de *proibirem casar-se*; esta é, com efeito, aquela queimadura que nos abre o mal da consciência deles: que proíbem casar-se, isto é, que mandam não casar; e que mandam ainda *abster-se de alimentos que Deus criou para serem recebidos pelos fiéis*, e isso *com ação de graças*; porque por isso se devem render graças a Deus Criador, para que, se porventura os recebêssemos sem bênção, o que muitas vezes se ouviu, o diabo não entrasse com eles; criou certamente para serem recebidos *pelos fiéis e por aqueles*, isto é, também pelos mesmos tais *que conheceram a verdade*, esta a saber, que toda criatura de Deus, no que foi criada por Deus, é boa e útil a todo crente nisto; se, porém, é nociva a alguém, como a víbora, isso se dá porque não creu que esta criatura de Deus lhe fosse boa, como, se alguém agora cresse que não é bom comer carne, mesmo lícita, e contudo a comesse, pecaria, porque usaria do que duvidava ser bom. Conheceram também os fiéis que *nada se deve rejeitar*. Determina o que diz que não se deve rejeitar, aquilo a saber *que se recebe*, isto é, o que se deve receber com ação de graças; nem toda carne, com efeito, se deve comer. Receber, digo, e dar graças é bom, *porque aquela criatura que se toma como alimento é santificada pela palavra*, isto é, pelo Filho de Deus; pelo Filho, com efeito, tudo criou e todas as coisas criadas santificou. É santificada também *pela oração*, isto é, tanto pela bênção que precede como pela ação de graças que segue. Quando Paulo instrui Timóteo sobre o tempo do Anticristo, insinua que os membros do Anticristo precedem por longos tempos a sua cabeça. Insinua também que esta instrução foi feita para toda a Igreja e segundo todos os tempos futuros.

*Estas coisas* que acima foram ditas — não detrair das núpcias, não derrogar os alimentos que Deus criou para serem recebidos pelos fiéis, e o mais premissado — *propondo-as tu aos irmãos*, isto é, pondo-as em público, embora assim propondo pareças a alguns demasiado remisso e indulgente com a carnalidade, *serás contudo bom ministro de Cristo Jesus*, isto é, mais útil do que aqueles que, excedendo a medida por excessivo rigor, proíbem casar-se e usar das coisas carnais. Assim deves propor, tanto porque assim serás bom, isto é, útil, quanto porque podes; tu, com efeito, *nutrido*, isto é, posto fora dos rudimentos e da nutrição pueril, *foste instruído nas palavras da fé*; sabes, com efeito, em quem e como convém que creias: foste nutrido também *nas palavras da boa doutrina*, isto é, aprendeste a instrução útil dos costumes, *que seguiste* plenamente por mim, que também te batizei e o que ainda devia ser ensinado te ensinei suficientemente: este Timóteo, com efeito, foi entregue menino por sua mãe fiel a aprender as sagradas Letras, não, porém, até ser batizado por Paulo: e por isso diz que foi nutrido na fé, sabendo que se deve crer em Cristo, nutrido também na boa doutrina, isto é, na instrução dos costumes.

Tais coisas propõe aos irmãos; *mas as fábulas profanas*, que não têm verdade alguma, como a proibição de alimentos e de núpcias; fábulas profanas também *de velhas*, isto é, inúteis, que, embora tenham semelhança de verdade, como reconduzir a circuncisão, são contudo sem toda utilidade; *evita-as* não só como te preveni com interdição, mas evita-as se alguém quiser discuti-las contigo em segredo; nem estudes sozinho nelas, mas antes *exercita-te*, e não parcialmente, mas a ti mesmo todo, em corpo e ânimo, *na piedade*, isto é, na doutrina e na guarda da religião. E para que, todo, possas fortemente vagar à piedade, não queiras afligir excessivamente a tua carne; *pois o exercício corporal*, por jejuns, é útil, sim, mas em relação à piedade vale para pouco; que aproveita, com efeito, ao prelado afligir-se de tal modo que, pela debilidade da carne, não possa vagar à instrução dos súditos? A aflição do corpo é pouco útil; *a piedade*, porém, isto é, aplicar-se por piedade de comiseração à instrução dos filhos, esta, digo, piedade *é útil*, não para algumas coisas, mas *para tudo* — por isso, de certo modo, repreende Timóteo pela aflição do corpo, porque sabia que ele jejuava e se abstinha de beber vinho a tal ponto que o seu estômago por isso se debilitava; por isso lhe manda nas passagens seguintes que use de vinho —; *piedade que tem a promessa da vida presente*, isto é, o evitar o mal e o aumento da justiça, que nesta vida é lícito ter; tem também *a promessa da futura* e perpétua vida.

Este discurso que disse, aplicar-se à piedade e não afligir o corpo de modo que se impeça a piedade, *é fiel e digno de toda aceitação*; porque, fortalecido o corpo, é fomentada a piedade útil para tudo. E que deva ser aceito exercitar-se na piedade, aparece daí, porque *para isto*, isto é, na piedade, *trabalhamos* nós, buscando o alimento do trabalho das mãos; *somos injuriados* também pelos infiéis, por isso *porque esperamos* aplicando-nos *no Deus vivo*, que dará a vida eterna que tem aos que esperam nele. Merecidamente se deve esperar naquele que é *Salvador de todos os homens*, bons e maus, com salvação temporal; porque «faz nascer o seu sol sobre justos e injustos» (Mt 5,45); e, sendo Salvador de todos, é contudo *principalmente* e sobretudo *dos fiéis*, a quem dará a vida eterna, que negará aos ímpios; os quais, contudo, neste mundo salva nos bens temporais.

Uma vez que exercitar-te na piedade é bom, e nós trabalhamos no mesmo, a quem contudo neste mundo deves imitar, tu, pois, vagando à piedade, *ordena estas coisas* aos que sabem mas são preguiçosos para operar, a saber, os preceitos que foram premissados; se também há os que ignoram, *ensina-os*: e tanto uma coisa como outra com tanta severidade e limpeza que *ninguém despreze a tua juventude*, para que a honestidade da vida e do hábito tornem a tua idade, jovem em anos, madura em costumes. Ninguém, digo, te despreze; *mas sê modelo* de quaisquer *fiéis na palavra*, na humildade falando a todos, *na conduta*, feito tudo para todos *na caridade*, isto é, na dileção do próximo, *na fé*, isto é, permanecendo na justificação, *e na castidade*, virtude que é gema das virtudes no jovem. Por isso instrui o jovem sobre a castidade, a adolescência, com efeito, é idade mais propensa à lascívia que as outras.

E para seres modelo dos fiéis, *dedica-te à leitura*, isto é, revolve assiduamente a Sagrada página, *até que eu chegue* (isto é, enquanto não chego); depois, com efeito, que eu chegar a ti, suficientemente te admoestarei; a voz viva, com efeito, anima mais qualquer um que a leitura; mas, contudo, muitos sabem bastante que, se não fossem incitados pela leitura, entorpeceriam enquanto o seu admoestador estivesse ausente; e por isso diz: dedica-te à leitura; *e à exortação*, isto é, exorta os que foram ensinados e todavia são preguiçosos para operar; dedica-te também *à doutrina*, isto é, ensina os que não sabem. E para que nisto sejas mais atento, *não negligencies a graça* do Espírito Santo *que há em ti*, que te foi conferida; graça, digo, pontifical, *que te foi dada por profecia*, isto é, por previsão; ensinado, com efeito, de antemão pelo espírito de profecia, vi que eras idôneo para a graça pontifical; e esta te foi dada *com a imposição das mãos do presbitério*, isto é, do bispo que, consagrando-te bispo, impôs as mãos sobre ti; ou então do presbitério, isto é, do presbiterado; porque, embora um imponha especialmente as mãos e consagre, contudo os demais bispos que assistem consagram o mesmo com ele<sup>[1]</sup>. E para que conserves a graça que há em ti, *medita estas coisas* que admoesto, *e permanece nelas* por operação, para que assim, meditando e operando, *o teu progresso seja manifesto a todos*, e pelo teu exemplo progridam. E para que assim possas progredir, *atende a ti mesmo*, corrige sutilmente a tua vida; e, olhando-te por todos os lados, *atende à doutrina*, isto é, ensina os outros; a tua vida, com efeito, se for louvável, recomendará a tua pregação, e por isso *persevera nelas*, isto é, na direção da vida e na doutrina dos súditos. *Pois, fazendo isto*, isto é, perseverando nelas, *salvarás a ti mesmo*; atendendo a ti, *salvarás também* aos que te ouvem pela doutrina.

## Notas

<sup>[1]</sup> Que o Espírito Santo seja dado pela imposição da mão não faz que não pudesse ser dado sem isso; mas a mão é imposta para que aquele que é consagrado aprenda por isso a exibir plena sujeição a Deus e ao seu consagrador: donde aquele consagrador tem esta prelazia sobre aquele que consagra, que nunca mais será julgado por ele. Aquela profecia também, que mencionou, porque agora não pode fazer-se assim — não são hoje, com efeito, espirituais os bispos —, faz-se contudo conforme pode fazer-se, quando aquele que há de ser consagrado é apresentado ao consagrador e é interrogado sobre a fé e o mais, como tem o Ordo. (Nota do próprio Autor.)

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Não repreendas asperamente o ancião, mas exorta-o como a pai; os jovens, como a irmãos; as anciãs, como a mães; as jovens, como a irmãs, com toda a castidade. Honra as viúvas que são verdadeiramente viúvas. Se uma viúva tem filhos ou netos, aprendam eles primeiro a governar a própria casa e a retribuir aos pais; pois isto é agradável diante de Deus. A que é verdadeiramente viúva e desamparada espere em Deus e persevere em súplicas e orações noite e dia. Pois a que vive em delícias, embora viva, está morta. E ordena isto, para que sejam irrepreensíveis. Se alguém não tem cuidado dos seus, e sobretudo dos de casa, negou a fé e é pior que um infiel. Seja escolhida como viúva a que não tenha menos de sessenta anos, que tenha sido mulher de um só marido, que tenha bom testemunho nas obras boas, se educou filhos, se exerceu hospitalidade, se lavou os pés dos santos, se socorreu os atribulados, se seguiu toda obra boa. As viúvas mais jovens, porém, evita; pois, quando se entregam à luxúria contra Cristo, querem casar-se, incorrendo em condenação por terem violado a primeira fé. Ao mesmo tempo, ociosas, aprendem a andar de casa em casa; e não só ociosas, mas também faladoras e curiosas, dizendo o que não convém. Quero, pois, que as jovens se casem, tenham filhos, sejam mães de família, não dando ocasião alguma ao adversário de maledicência. Pois já algumas se desviaram para trás de Satanás. Se algum fiel tem viúvas, socorra-as, e não seja onerada a Igreja, para que baste às que são verdadeiramente viúvas. Os presbíteros que governam bem sejam tidos por dignos de dupla honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. Pois diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi que debulha (Dt 25,4); e: O operário é digno do seu salário (Lc 10,7). Não aceites acusação contra um presbítero senão com duas ou três testemunhas. Os que pecam repreende-os diante de todos, para que os demais tenham temor. Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus e dos Anjos eleitos que guardes estas coisas sem prevenção, nada fazendo por parcialidade. A ninguém imponhas depressa as mãos, nem te tornes participante dos pecados alheios. Conserva-te casto. Não bebas mais só água, mas usa um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades. Os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo-os ao juízo; os de outros, porém, seguem-nos. Do mesmo modo, também as obras boas são manifestas; e as que de outro modo se passam não podem ficar ocultas.

## Comentário

Para que Timóteo, a quem assim admoestou, "ordena, ensina", etc., não ensinasse sem discernimento, não atentando às diversidades de idades e sexos, acrescenta Paulo como cada idade deve ser ensinada, dizendo: embora diga "ordena, ensina", vê contudo que *não repreendas com austeridade o ancião* em idade, mas *exorta-o* com tanta diligência *como a pai*; *os jovens*, porém, exorta *como a irmãos*; *as anciãs*, porém, *como a mães*; *as jovens*, *como a irmãs.* E porque Timóteo era jovem, por isso, ao falar das jovens, acrescentou *com toda a castidade*; muito retamente, com efeito, no trato com as jovens o jovem é admoestado a toda castidade, para que não se mova sequer pelo mínimo titilar da carne a respeito delas.

Instruído Timóteo com que discrição devia ensinar, acrescenta o preceito sobre as viúvas, determinando quais devam ser sustentadas com os bens da Igreja e quais não, dizendo: assim exorta as jovens; as *viúvas*, porém, que se refugiam nas Igrejas, *honra-as* do modo como devem ser honradas, dando, a saber, alimento e vestuário somente às que *são verdadeiramente viúvas*, não querendo voltar mais às coisas do mundo, de modo a querer casar-se de novo; também às que são desamparadas, o que acrescenta abaixo. Chama desamparadas às que não têm filhos ou pais que possam sustentá-las, ou com quem elas, com as suas coisas, se as têm, possam usar e instruí-los. *Honra*, digo, *as que são verdadeiramente viúvas*; mas, *se uma viúva tem filhos ou netos*, esta certamente, porque não é desamparada, *aprenda primeiro*, antes de receber despesas da Igreja, a *governar especialmente a sua casa*, isto é, filhos e netos; e, se ainda tem pais, *aprenda a retribuir aos pais*, que a criaram quando era criança; faça bem, digo, aos pais, *porque isto*, e governar especialmente os seus, *é agradável diante de Deus*, mais do que se abandonasse os pais na calamidade.

A viúva que tem filhos não passe à Igreja, mas *aquela que é verdadeiramente viúva*, não querendo voltar mais ao matrimônio, *e desamparada*, não tendo filhos ou netos, *esta espere em Deus*, isto é, seja sustentada com os bens da Igreja, e ali *persevere em súplicas e orações noite e dia.* Ou de outro modo, para que neste versículo se determine qual é verdadeiramente viúva: digo que as verdadeiras viúvas devem ser alimentadas pela Igreja; para que, porém, não sejas enganado, sabe que é verdadeiramente viúva e desamparada aquela que espera em Deus, e não em filhos ou netos, e que persevera em súplicas e orações noite e dia. A que é verdadeiramente viúva, só espera em Deus, ou espere: *pois a viúva que vive em delícias* da carne, vivendo para o mundo, *está morta* para Deus, e tal não deve ser recebida na Igreja. *Ordena também isto* sobre as viúvas: que, sendo verdadeiramente viúvas e desamparadas, sejam também *irrepreensíveis*, isto é, nem tendo crime, nem dando em algo ocasião de acusá-las.

A viúva que tem filhos ou netos, governe-os, porque *se alguém não tem cuidado dos seus* que deve governar, *e sobretudo mais que os demais dos de casa*, isto é, filhos ou netos, esta tal *negou a fé* que prometeu a Deus; é claro, com efeito, que quem não tem cuidado do próximo não amou o próximo, e assim nem a Deus ama; quem, com efeito, não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? Se nem a Deus ama, negou claramente a fé; *e é pior que um infiel*, que nunca teve fé, porque é réu do pacto que pactuou com Deus e assim o tornou vão. Ou assim: a viúva governe os filhos e netos; se algum deles, porém, expulsa a mãe viúva que quer ser sustentada por eles, o que equivalentemente diz: "se alguém não tem cuidado dos seus, negou a fé, e é pior que um infiel."

Esta é viúva, se tem as premissas; não seja contudo *escolhida* para receber na Igreja a de *menos de sessenta anos*; *que também tenha sido mulher de um só marido*, para que, casando-se pela segunda vez, não pareça ré de incontinência; que também tenha vivido zelosa *nas obras boas*, tendo também *bom testemunho* da Igreja; *se educou filhos* com ensinamentos espirituais; *se exerceu hospitalidade* com os pobres; *se lavou os pés dos santos*, isto é, se exibiu aos pregadores toda obra de piedade, sem temer as ameaças dos perseguidores, que condenavam quaisquer que ministrassem aos santos; *se socorreu os atribulados*, isto é, os santos encarcerados; para tudo compreender, *se seguiu toda obra boa*, seja escolhida.

Sejam escolhidas as viúvas de sessenta anos; *as mais jovens, porém*, as que não têm tantos anos, quero que se casem, e por isso *evita-as*, não as aceites no ministério da Igreja: evita, porque, se as aceitas, *quando* (isto é, depois que) *se entregam à luxúria*, isto é, lascivas por demasiada abundância, *querem casar-se*, e isto *em Cristo*, isto é, legalmente, não meretrizar; tais *incorrem em condenação*, porque, assim quebrando os votos, *violaram a primeira fé* que haviam prometido no batismo, onde disseram renunciar ao diabo, ao qual de novo se entregaram, quebrando o voto de continência que haviam feito, insinuando patentemente que, necessitadas, refugiaram-se nos auxílios da Igreja, não por amor da continência; as quais não só querem casar-se, mas também, reunidas, *aprendem a andar de casa em casa*, e isto porque *são ociosas*, e não só ociosas, mas também *faladoras*, indagando os rumores da cidade, falando também curiosamente e com muito empenho *o que não convém*, a saber, quaisquer coisas impudicas. E porque por causa do ócio caem em tão grande perdição, *portanto, por isso quero que as viúvas mais jovens*, que não têm os anos fixados, *quero, digo, que se casem, tenham filhos, sejam mães de família*, para que tenham a quem se aplicar e não ociosas como de costume: e assim quero que *não deem ocasião alguma ao adversário*, isto é, ao infiel, *de maledicência*, isto é, a quem é muito grato ter ocasião de maldizer dos fiéis. Por isso prefiro que se casem a serem recebidas na Igreja; *já algumas*, com efeito, votando continência, *se desviaram* do que votaram, *indo para trás de Satanás.* Se estas viúvas não acham com quem possam casar-se, quero que, se alguma ou algum fiel tem estas viúvas, ou mãe, ou irmãs, ou filhas, *socorra-as, e não seja onerada a Igreja* no sustento delas, *para que baste às que são verdadeiramente viúvas* e desamparadas.

Dado o preceito sobre as viúvas, insinua de que modos os presbíteros devem ser honrados pelo povo, dizendo: assim ordena sobre as viúvas; ordena também que *os presbíteros sejam tidos por dignos de dupla honra*, a espiritual, de modo que se incline diante deles e se obedeça aos seus preceitos, e a corporal, de modo que lhes sejam suficientemente ministradas pelos súditos as coisas temporais; estes certamente, os presbíteros *que governam bem*, isto é, cuja prelazia é útil aos súditos, porque ou vagam à instrução deles ou oram por eles. E, embora esta dupla honra seja devida a todo presbítero, seja contudo prestada *sobretudo aos que trabalham na palavra* da fé, ensinando o que se deve crer, *e na doutrina*, isto é, na instrução dos costumes.

Disse que dupla honra deve ser exibida aos presbíteros; uma delas, a espiritual, porque viu que por razão alguma pode ser negada, nada acrescentou para a provar; mas a outra, a saber, sustentar o sacerdote com os bens do povo, porque viu que alguns avarentos a negariam, prova-a pela autoridade do Antigo e do Novo Testamento, dizendo: como ordeno, devem ser tidos por dignos os presbíteros, *porque diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi que debulha* (Dt 25,4). Era costume entre os antigos, e ainda é em algumas partes, que as searas postas na eira fossem trilhadas por bois e outros animais ensinados para esta obra; contudo, era próprio dos bois que, triturada assim a messe, os grãos fossem separados das palhas: acerca dos quais mandou Moisés que não se atasse a boca ao boi que tritura na eira, mas que daquilo em que trabalhava comesse livremente, pretendendo com este preceito outra coisa, a saber, que o pregador que debulha na eira do Senhor receba, do seu trabalho, o suficiente para si daqueles para cuja instrução trabalha. Diz também o Senhor no Evangelho: *O operário é digno do seu salário* (Lc 10,7), isto é, o pregador receba daqueles na instrução dos quais opera as coisas que lhe forem necessárias.

Porque de novo viu o Apóstolo que, quando o presbítero repreende os vícios dos súditos, alguns se movem mal, querendo depravar a vida do presbítero, para que isto não se creia temerariamente, diz: assim seja honrado o presbítero pelos súditos; *contra o presbítero*, porém, *não aceites acusação* feita de crime *senão com duas ou três testemunhas.* Se, porém, é demandado por dívida ou qualquer coisa secular, responda a cada um. Agora, porém, porque os homens decaem cada vez mais para o pior, nem mesmo [ainda que seja acusado] por muitíssimas testemunhas<sup>[2]</sup> se concede hoje que o presbítero responda, a não ser que seja interpelado por heresia. Com duas ou três testemunhas respondam os presbíteros; se, porém, *pecam*, isto é, se os presbíteros são convencidos de ter pecado naquilo de que são arguidos, *repreende-os diante de todos*, para que, assim como o crime deles, assim a penitência do crime seja pública a todos, para que, se fizerem penitência em privado, não se pense que não fazem penitência os que foram apanhados em pecado por todos. Por isso repreende diante de todos, *para que os demais tenham temor*, vendo isto, de pecar, os outros sacerdotes, sabendo que serão punidos com pena semelhante se pecarem; ou então, os demais, isto é, os súditos, que, vendo com quanto rigor são coibidos os prelados, mais temam por si, que são súditos.

Para que não aconteça que alguns presbíteros sejam assim convencidos de pecado — não é pequeno mal, com efeito, serem apanhados em crime aqueles que devem ser forma de bem para os outros —, para que isto certamente não aconteça, ordeno que não consagres ninguém sacerdote sem prévio exame: e para que de modo algum omitas este mandamento, *conjuro-te diante de Deus* Pai, para que Deus não de mim, mas de tua mão peça contas disto, se contudo o fizeres; conjuro-te também *diante de Cristo Jesus*, que há de ser juiz de todos, para que no juízo não a mim, mas a ti arguirá a este respeito; conjuro-te também *diante dos Anjos eleitos*, por cujo ministério no dia do juízo os bons serão separados dos ímpios, para que naquele dia me sejam testemunhas desta coisa e não me repilam por isso da parte dos piedosos; conjuro-te, digo, que *guardes estas coisas* que vou dizer, a saber, *nada faças*, isto é, a ninguém promovas ao sacerdócio *sem prevenção*, isto é, sem exame prévio<sup>[3]</sup>; e, examinado qualquer com juízo premissado, se pelo exame o achares indigno do sacerdócio, *nada faças por parcialidade*, em sentido diverso do que ensinou o exame, de modo que o que achaste mau ao examinar, depois, seduzido de algum modo, consagres sacerdote; se, porém, foi provado e achado digno, segundo o que agora foi visto, contudo *a ninguém impões depressa as mãos*, isto é, não consagres logo, mas adia ainda por tempo congruente, para que, se algo se esconde que o exame feito não achou, seja achado pela dilação do tempo. E nada fazendo sem prevenção, nem precipitado na consagração de ninguém, *não te tornes participante dos pecados alheios*; se não examinasses, com efeito, ou consagrasses demasiado cedo, serias participante de todos os crimes que o injustamente consagrado cometesse no sacerdócio. E para que examines sutilmente os outros, consagres dignamente, *conserva-te casto*, isto é, íntegro em toda virtude.

Porque o admoestou sobre a castidade, para cuja guarda não usava de vinho, razão pela qual também o seu estômago se debilitava, para que não julgasse dever abster-se totalmente do vinho, diz Paulo: *não bebas mais só água*; com o "mais" designou que antes usava de água; não bebas só água, mas usa, não uma vez, mas tem em uso; usa, digo, *de um pouco de vinho*, isto é, guardando a medida, a saber, não por embriaguez, mas *por causa do teu estômago*, isto é, por causa da doença que frequentemente se assenta no estômago, *e das tuas frequentes enfermidades*, isto é, por causa dos múltiplos acessos e ardores da mesma doença. Como qualquer febril tem sempre a doença em si, embora ora mais agudamente, ora mais remissamente a padeça, mas os acessos de ardor da febre padece alternadamente, e não sempre; assim este Timóteo tinha continuamente no estômago a natureza da doença, mas os acessos da doença os padecia alternadamente, com dificuldade.

Por isso é necessário o exame antes de se consagrar o presbítero, porque *os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo ao juízo*; porque, antes de se chegar ao juízo ou à discussão, precederam aquela discussão certos pecados daqueles que devem ser provados, bastante conhecidos só pela fama: das coisas que são públicas, porém, não convém discutir; *os de outros, porém, seguem-nos*, pecados achados depois de feita a discussão; porque, antes que se fizesse a discussão acerca deles, estavam ocultos os crimes que pela discussão se abriram, e por causa destes crimes ocultos foi necessária a discussão. Igualmente, como dos maus, algumas obras boas dos que devem ser provados são manifestas e não precisam de exame; e, ao contrário, as boas obras dos mesmos *que de outro modo se passam*, isto é, que não são manifestas, *não podem ficar ocultas* na discussão; para achar essas boas obras foi oportuno discutir. E porque assim em alguns os pecados, em outros as boas obras são ocultos, por isso é necessário examinar os que hão de ser consagrados, para que os que forem achados maus sejam reprovados, os bons, porém, promovidos. Esta sentença é do bem-aventurado Agostinho; Ambrósio, porém, liga assim as palavras ao próximo: admoesto-te a usar de vinho, no que é bom que sejas obediente; porque, embora não pareça a todos que isto faças bem, não por isso te amedrontes; porque é verdade que algumas obras boas são manifestas, e algumas obras que de outro modo se passam, isto é, não são manifestas, não podem ficar ocultas no dia do juízo; assim, se agora não pareces agir bem usando de vinho, porque antes todos souberam que te abstinhas dele para guardar a sobriedade, não te preocupes; porque, embora não agora, no dia do juízo será manifesto que agiste bem ao usar do vinho, obedecendo-me. Que algumas obras boas sejam manifestas, outras não, aparece pelos contrários, porque os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo ao juízo, e os de outros seguem-nos, como foi exposto. Assim se lê na ordem da letra.

## Notas

<sup>[2]</sup> Silvestre II, que regeu a Igreja pouco antes dos tempos de São Bruno, exige não menos de quarenta e quatro testemunhas para firmar a acusação contra um presbítero; «porque, diz, devem instituir-se na Igreja tais pessoas, a cuja santidade se creia mais do que a muitas testemunhas.»

<sup>[3]</sup> "Prevenção" (*præjudicium*) toma-se aqui como "juízo precedente"; mas nos cânones *præjudicium* diz-se de sentença precipitada. (Nota do próprio Autor.)

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Todos os que estão sob o jugo como servos julguem os seus senhores dignos de toda honra, para que não sejam blasfemados o nome do Senhor e a doutrina. Os que têm senhores fiéis não os desprezem, porque são irmãos; antes sirvam-nos melhor, porque são fiéis e amados, e participam do benefício. Ensina e exorta estas coisas. Se alguém ensina de outro modo e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, nada sabe, mas delira em questões e disputas de palavras, das quais nascem invejas, contendas, blasfêmias, más suspeitas, altercações de homens de mente corrompida e privados da verdade, que julgam que a piedade é fonte de lucro. É, porém, grande lucro a piedade com a suficiência. Pois nada trouxemos a este mundo; sem dúvida nada podemos levar dele. Tendo, pois, alimento e com que nos cobrir, contentemo-nos com isso. Os que querem enriquecer caem em tentação e em laço do diabo, e em muitos desejos inúteis e nocivos, que mergulham os homens na ruína e perdição. Pois a raiz de todos os males é a cobiça; alguns, desejando-a, desviaram-se da fé e se enredaram em muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Combate o bom combate da fé; alcança a vida eterna, para a qual foste chamado e fizeste a boa confissão diante de muitas testemunhas. Ordeno-te diante de Deus, que dá vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu testemunho, sob Pôncio Pilatos, de boa confissão, que guardes o mandamento sem mácula, irrepreensível, até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, que a seu tempo mostrará o bem-aventurado e único Poderoso, Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que tem a imortalidade e habita numa luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu, nem pode ver; a quem seja honra e império sempiterno. Amém. Aos ricos deste século ordena que não sejam altivos nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo (que nos dá abundantemente tudo para o nosso gozo); que pratiquem o bem, se enriqueçam em boas obras, deem com facilidade, repartam, entesourando para si um bom fundamento para o futuro, a fim de alcançarem a verdadeira vida. Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as novidades profanas de palavras e as oposições da falsamente chamada ciência, que alguns, professando, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém.

## Comentário

Porque de novo viu Paulo que alguns servos convertidos à fé se indignavam, não querendo servir aos seus senhores infiéis, julgando absurdo que quem era fiel servisse a um infiel; nem mesmo a senhores fiéis, dizendo que, sendo todos os fiéis irmãos em Cristo, todos deviam ser de uma mesma condição; para refutar o mal desta opinião, diz: como disse antes sobre os presbíteros a consagrar, observa; ordena também isto: que quantos servos *estão sob o jugo* de senhores infiéis, *julguem os seus senhores dignos de toda honra*, guardada contudo a fé em tudo: por "jugo" significou os infiéis, porque os senhores infiéis oprimiam os servos mais duramente que os fiéis. Sujeitem-se assim aos senhores, *para que não sejam blasfemados o nome do Senhor*, dizendo que Deus é injusto, que mudou as condições e agora fez livres os servos que por seus pecados ou dos pais foram feitos servos (como Cam, filho de Noé, com a sua geração, porque descobriu as vergonhas do pai). Sirvam também aos senhores *para que a doutrina*, isto é, a pregação dos santos, não seja blasfemada e se torne desprezível, enquanto tira aos senhores o que é deles. Aqueles servos, porém, que têm senhores fiéis, *não os desprezem porque são irmãos* em Cristo; mas *antes*, não para pagarem mais dívidas, mas com maior dileção, *sirvam-nos*, porque são *fiéis e amados* de Deus, e porque *participam do benefício* de Deus, isto é, das justiças que se têm no presente, e da bem-aventurança futura.

*Ensina* isto, a saber, que os servos sejam sujeitos aos senhores, aos que não o sabem, *e exorta* os soberbos, que o sabem e desdenham servir. *Se alguém* falso apóstolo *ensina de outro modo*, a saber, que os servos não devem servir aos senhores, e, proibido por ti de o ensinar, *não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo*, e *não concorda com a doutrina que é segundo a piedade* — a doutrina de Deus, com efeito, é piedosa, não mudando as condições, a ninguém tirando o que é seu; piedosa também porque por isso convida e atrai muito os senhores à fé; doutrina que, se lhes tirasse os servos, certamente julgariam intolerável e rejeitariam; piedosa também para os servos, porque, tendo sido feitos servos por pecados seus ou dos pais, se sofrem pacientemente esta pena do pecado, merecem ser justificados pela humildade, se, porém, recusam, são condenados pela soberba —; se alguém, digo, ensina de outro modo, e proibido não desiste, este seja rejeitado como *soberbo e que nada sabe*, quando julga saber alguma coisa e afirma que todos os homens são de uma só condição; que nada sabe, digo, *mas delira*, isto é, dissoluto e lânguido, *em questões* que levanta e não sabe resolver, *e disputas de palavras*, isto é, em palavras que pugnam, como aquela: «Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres» (Jo 8,36), e aquela: «Dai a César o que é de César» (Lc 20,25); as quais, contudo, não são contrárias entre si.

Destas disputas de palavras *nascem invejas*, porque os senhores invejam os servos que se ensoberbecem; nascem também *contendas*, porque os senhores contendem com os servos em palavras; nascem também *blasfêmias*, porque (como se disse) daí são blasfemados Deus e a sua doutrina; nascem também *más suspeitas*, porque os senhores julgam que os pregadores recebem presentes dos servos; nascem também *altercações de homens* que pregam isto, porque também pelejam com os que pregam isto; de homens, digo, isto é, perdidos, *de mente corrompida*, isto é, que têm o entendimento corrupto; que também *estão privados de toda verdade* de palavras; homens, digo, que ainda *julgam que a piedade*, isto é, a doutrina cristã, *é fonte de lucro*, isto é, que pensam ser-lhes lícito, por sua doutrina, juntar riquezas: mas pensam falsamente; porque a piedade não é lucro de coisas temporais, mas é *grande lucro*, isto é, de coisa grande e incomparável, *a piedade com a suficiência*, isto é, com alimento e vestuário, o que deve bastar a cada um, por isso *porque nada trouxemos a este mundo*, nascidos nus, *e sem dúvida nada podemos levar* dele ao sair do mundo.

Para que, por ter dito que entramos nus no mundo e nus voltamos, não se julgasse que se devia andar nu no mundo, contra isto diz: embora nada tenhamos trazido ao mundo, contudo, enquanto nele permanecemos, *tendo alimento e com que nos cobrir*, não em que nos entreguemos à luxúria, *contentemo-nos* com estes alimentos e coberturas, porque vemos que os que querem enriquecer *caem em tentação* do ânimo, e por esta *em laço do diabo*, isto é, em obra de tentação: depois que também se tornaram ricos, caem *em muitos desejos*; cobiçam, com efeito, casas e propriedades; desejos, digo, *inúteis*; e não só sem utilidade, mas também *nocivos*, porque *mergulham os homens* que desejam *na ruína*, e depois da morte *na perdição eterna.*

Verdadeiramente estes desejos assim mergulham os homens; *pois a cobiça é a raiz de todos os males*, não porque cada mal se faça por cobiça de dinheiro, mas não há gênero de mal em que não se tenha feito algum mal por cobiça de riquezas; cobiça que *alguns, desejando, se desviaram da fé*, negando a Deus pelo desejo das riquezas, que, para as aumentar cobiçosamente, *se enredaram em muitas dores*, vexando os seus corpos e almas por mar, por terras.

Os que vagam à cobiça erram; *tu, porém, ó homem de Deus*, Timóteo, *foge destes* desejos; foge destes, *segue a justiça*, dando os teus bens aos próximos indigentes, o que a cobiça nunca faz; segue também *a piedade*: se tens tão pouco que não podes dar ao próximo sem a tua indigência, o que a justiça não te obrigaria a fazer, reparte contudo com ele por piedade; segue também *a fé*, que alguns negaram por cobiça; segue também *a caridade*, isto é, a dileção de Deus e do próximo; segue também *a paciência*, isto é, sofre pacientemente se alguém te roubar os teus bens; segue também *a mansidão*, isto é, não litigues como faz a cobiça. Segue estas coisas, e *combate o bom combate* (nota a frequência); combate, digo, *da fé*, que é bom e útil combater pela fé de Cristo; *e alcança a vida eterna*, para cuja posse *foste chamado* da infidelidade por graça. Fizeste também, ao seres consagrado bispo, *a boa confissão diante de muitas testemunhas*, que comigo te consagravam, confissão da qual não deves recuar, porque é boa, isto é, útil a ti e aos súditos, se nela perseverares.

Admoestei acima que fugisses da cobiça e seguisses os contrários da cobiça; para que o faças não só admoesto, mas também *ordeno-te*, fazendo com admoestação um mandamento, para que, se o transgredires, sejas convencido réu de desobediência; ordeno-te, digo, isto *diante de Deus* Pai, para que Deus nada mais peça da minha mão, *que dá vida a todas as coisas*; vê, pois, que, cumprindo o que ordeno, vivas naquele por quem vivem todas as coisas. Ordeno-te também isto *diante de Cristo Jesus*, para que, como juiz de todos, nada disto peça de mim no dia do juízo; *Jesus que deu testemunho sob Pôncio Pilatos*; quando, com efeito, foi interrogado por Pilatos: És tu o Filho de Deus?, respondeu: Tu o disseste, porque na verdade eu sou o Filho de Deus (Mt 26,64). Assim também tu, Timóteo, confessa Cristo, ainda que iminentes sejam os tormentos ou a morte. Deu, digo, testemunho, a saber, *de boa confissão*, isto é, útil; que há, com efeito, tão útil para a redenção como o que foi e confessou ser o Filho de Deus? Certamente, se tivesse negado, não seria crucificado, nem redimiria o gênero humano; e por isso foi útil confessar que era o Filho de Deus. Pilatos chamava-se Pôncio da ilha de Ponto, para que nem os hereges pudessem inverter que se dissera de outro Jesus ou de outro Pilatos; muitos, com efeito, então podiam dizer-se Jesus, por isso Paulo acrescentou Pôncio. Ordeno-te, digo, que guardes este mandamento, que mais sem culpa não podes preterir; mandamento, digo, *sem mácula*, porque em nenhuma parte da minha doutrina pode achar-se mácula alguma, mas na doutrina dos hereges, embora se anteponha algum bem, para assim enganar melhor, a mácula contudo logo se acha inserida; mandamento, digo, não só sem mácula, mas também *irrepreensível*, porque nem ocasião de repreender daí se pode conceber, se alguém sanamente atender; que guardes, digo, *até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo*, isto é, até o dia da tua morte: quando, com efeito, morre um fiel, nesse dia se diz que Deus vem a ele, porque então o recebe Deus na glória, a quem, como alheio a si, nas misérias do mundo, enquanto vivia, havia deixado; enquanto o justo, com efeito, é detido no mundo, parece que Deus não vem a ele, porque ali permite que seja afligido, mas quando o justo é desligado da carne, diz-se que Deus vem a ele, cuja alma recebe no repouso.

Diria talvez Timóteo: sustentaria Deus, se não tardasse a sua vinda. Contra isto diz Paulo: bom homem, sustenta, porque *a vinda que a seu tempo mostrará* Deus aos seus, isto é, em tempos congruentes; quando, com efeito, vir o tempo idôneo, virá a ti. Põe a causa de por que deve sustentar, dizendo: deves guardar isto até que Deus venha, porque *aquele bem-aventurado* te dará a bem-aventurança, se sustentares; *e aquele único Poderoso* te fará poderoso sobre todos os perseguidores; *Rei dos reis* também te fará rei, porque nem perseguidor nem tentação, posto com ele, temerás; *que também é Senhor dos senhores*, e te fará dominar os teus inimigos. Nota-se que alguns são poderosos, e contudo não dominam sobre outros. *Deus, que só tem a imortalidade*, isto é, a imutabilidade, porque permanece sempre no mesmo estado; *que também habita a luz* — fala de Deus por semelhança com quem habitasse numa região esplêndida —; habita, digo, a luz, porque toda luz verdadeira habita nele; luz, digo, *inacessível*, isto é, para cujo entendimento ninguém pode aproximar-se; o que ele mesmo determina, dizendo: inacessível porque essa luz em Deus, ou esse Deus na luz, *nenhum dos homens viu* segundo o homem, *nem pode ver* quanto ao futuro, enquanto homem: *a quem*, Deus, *é a glória* segundo a Deidade, *honra* segundo o homem, *império sempiterno* segundo o juízo com que julga e há de julgar a todos; império, digo, duradouro por toda a eternidade. E o que desejo, que lhe seja glória e honra, *Amém*, isto é, certamente assim será e não pode faltar.

O que diz, "nenhum dos homens viu a Deus", deve ser tomado enquanto é homem; porque também Paulo foi arrebatado ao terceiro céu, onde ouviu o que não é lícito ao homem ouvir; sendo contudo Paulo homem antes de ser arrebatado e depois, e tendo sucedido o mesmo com João evangelista, por isso o homem, enquanto é homem, não basta para ver a luz da Deidade, porque a alma do homem, encarcerada, é deprimida na carne, e por isso não pode ver ou pensar coisa alguma se não for excitada por algum sentido corpóreo, vista, ouvido, ou semelhante. Se, enquanto a alma está encerrada no cárcere da carne, não pode fazer coisa alguma se não for excitada pelos sentidos corpóreos, dos quais é patente que pouco entendem de Deus, deve crer-se que nem a alma do homem, enquanto está no homem, excede os sentidos corpóreos no conhecimento de Deus; se, porém, a alma de Paulo ou de João viu de Deus o que não é lícito ao homem ver, deve crer-se que ou a alma dele deixou inteiramente o corpo naquela hora, ou, se permaneceu no corpo, excedeu todos os sentidos do corpo, e segundo isto esteve fora do homem, porque naquele tempo os sentidos corpóreos estiveram como mortos: donde as visões são mostradas antes aos que dormem que aos que vigiam; enquanto o homem dorme, com efeito, os sentidos corpóreos nada então sentem, a alma, porém, então só vigia.

Porque dissera acima Paulo: tenhamos alimento e com que nos cobrir; para que por isso Timóteo não julgasse que só os pobres se deviam receber e os ricos repelir da Igreja, contra isto diz: embora tenha dito que devemos contentar-nos com alimentos e coberturas, não rejeites contudo os ricos, mas *aos ricos deste século ordena que não sejam altivos*, isto é, que não se ensoberbeçam por causa das riquezas, *nem ponham a esperança na incerteza das riquezas*, isto é, nas riquezas incertas, como quem hoje tem e amanhã talvez não terá, *mas em Deus*; e acrescenta a causa por quê: *Deus, que nos dá abundantemente tudo*, não só para usar, mas também *para gozar*, isto é, para que com jucundidade usemos delas. Gozar (*frui*) dizemos da coisa que é suave e útil; usar (*uti*), porém, da coisa que, embora útil, tem uso amargo, como várias poções que têm gosto amargo e são úteis. Ordena também aos ricos *que pratiquem o bem*, e que se enriqueçam *em boas obras*, que são melhores que o ouro e a prata; ordena também que deem *com facilidade* os seus bens aos pobres; nem só isto, mas também *repartam* com os pobres nos seus bens, para que não façam as riquezas mais próprias suas que dos necessitados; e, assim distribuindo o seu, ordena-lhes que *entesourem para si um fundamento*, isto é, virtudes em que estejam firmemente fundados (quem hoje é casto, amanhã incasto, este teve a virtude da castidade como que em lugar escorregadio e não em fundamento); fundamento, digo, *bom*, isto é, útil *para o futuro*, a fim de que por ele *alcancem a verdadeira vida* os que aqui estão fundados nas virtudes.

Para que, porém, observes sadiamente o que ordenei sobre os ricos e sobre tudo, *por isso, ó Timóteo, guarda o depósito*, isto é, o dom do Espírito Santo, confiado e creditado a ti; e para que o guardes bem, sê *evitando as novidades profanas de palavras*, isto é, as equivalências alternadas das palavras da nossa fé; porque são profanas: os hereges, com efeito, mudam as palavras com que confessamos a fé de Deus, pondo equivalentes, até que insensivelmente, por estas equivalências, enganem o fiel incauto; por isso manda evitar as novidades de palavras. Evita também *as oposições*, isto é, as disputas dos sofistas; oposições, digo, *da ciência falsamente chamada*: falsamente se diz ciência, com efeito, porque com nome verdadeiro se chamaria insipiência; ciência falsa que *alguns, professando*, isto é, jactando-se de a ter, *se desviaram da fé*, isto é, pereceram porque não quiseram entrar na fé. E para que guardes este depósito, *a graça de Deus seja contigo. Amém*, isto é, assim certamente será; vê contudo que perseveres.

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# Segunda Epístola a Timóteo



# Prólogo

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Diz-se que a Epístola precedente foi enviada de Roma por Paulo a Timóteo. Se foi a primeira, consta que também esta segunda enviou de Roma; depois, com efeito, que Paulo veio a Roma, dali não partiu até sofrer o martírio por Cristo. Escreveu-a Paulo de novo a Timóteo, estando em Roma em cadeias. Ouvira dele, na verdade, muitas coisas boas, mas contudo um pouco remisso, por temor dos sofrimentos e da morte, não instando como deveria na pregação; por isso, nesta Epístola trata com ele dos sofrimentos e da morte, apresentando-lhe os seus sofrimentos junto com os sofrimentos e a morte de Cristo, mostrando quão grande fruto provém destes sofrimentos, e recomenda-lhos de muitos modos, com o fim de que, assim exortado, esteja pronto a padecer e morrer por Cristo e, como que indo espontaneamente ao encontro da morte, pregue com toda instância a palavra de Deus.

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# Capítulo 1

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> Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que há em Cristo Jesus, a Timóteo, filho caríssimo: graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. Dou graças a Deus, a quem sirvo desde os meus antepassados com consciência pura, porque sem cessar faço memória de ti nas minhas orações, noite e dia; desejando ver-te, lembrado das tuas lágrimas, para me encher de alegria, recordando-me da fé não fingida que há em ti, e que habitou primeiro em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice; estou certo de que também em ti. Por esta causa te admoesto que ressuscites a graça de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu espírito de temor, mas de fortaleza, de amor e de sobriedade. Não te envergonhes, pois, do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro; mas colabora no Evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos. Agora, porém, foi manifestada pela vinda de nosso Salvador Jesus Cristo, que destruiu a morte e fez resplandecer a vida e a incorrupção pelo Evangelho; do qual fui constituído pregador, Apóstolo e mestre das nações. Por esta causa também padeço estas coisas, mas não me envergonho. Porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia. Tem o modelo das sãs palavras que de mim ouviste, na fé e na caridade em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós. Sabes isto: que me abandonaram todos os que estão na Ásia, entre os quais Fígelo e Hermógenes. Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me reconfortou e não se envergonhou da minha cadeia; antes, chegando a Roma, procurou-me com diligência e me encontrou. Conceda-lhe o Senhor achar misericórdia da parte do Senhor naquele dia. E quanto serviu em Éfeso, tu o sabes melhor.

## Comentário

*Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus*, como foi exposto na precedente; Apóstolo, digo, *segundo a promessa da vida.* A vida foi certamente prometida aos que combatem legitimamente; promessa que bem sigo, combatendo legitimamente; tu, porém, animado, segue comigo a promessa da vida, não da presente, mas daquela vida que há *em Cristo Jesus*, isto é, a eterna; se combatemos legitimamente, com efeito, certamente teremos a vida eterna. Paulo escreve isto a Timóteo, *filho caríssimo*: *graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor*, te sejam, como acima expusemos.

Aqui, em primeiro lugar, lisonjeia-o Paulo, para melhor o induzir àquilo que procura persuadir, dizendo: *dou graças a Deus, a quem sirvo* ensinado *por meus antepassados*, isto é, por Abraão, Isaac e Jacó; este Paulo, com efeito, era da tribo de Benjamim; sirvo, digo, *com consciência pura*; em nada, com efeito, a minha consciência me repreende; assim também tem tu consciência pura, e assim poderás guardar a graça que te foi confiada: disto certamente dou graças, *porque faço memória de ti sem cessar nas minhas orações*, isto é, porque Deus te fez tal que ele quer e é digno que eu me lembre sempre de ti, de modo que nem uma só vez posso orar sem memória de ti, *noite e dia*, isto é, continuamente, *desejando ver-te*; se te visse, com efeito, certamente, estando eu presente, não temerias a morte. Eu, digo, *lembrado das tuas lágrimas*, que derramaste porque eu te deixava em paz em Éfeso, querendo tu passar comigo e sofrer cadeias e mortes. Vê que, assim como estando eu presente, assim agora, vista a minha Epístola, vás espontaneamente aos sofrimentos e à morte. Por isso certamente desejo ver-te, *para me encher de alegria*; se estivesse presente, com efeito, certamente não temerias a morte; do que muitíssimo me alegraria. *Recordando-me* também *da fé não fingida que há em ti*, isto é, não inventada, ou não frágil; fé que *habitou primeiro em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice.* Se tens nas tuas antepassadas, e no sexo feminino, exemplo de fé, como já natural para ti, deves certamente por isso fervorar muitíssimo na fé: em tua mãe e em tua avó houve fé; *estou certo*, porém, *de que também habita em ti* a fé, mas oxalá fervesse!

*Por esta causa*, porque vejo em ti a fé e o exemplo de fé como que natural, *admoesto-te que ressuscites* a graça de Deus *que há em ti pela imposição das minhas mãos* — quando, com efeito, te consagrava bispo pela imposição das minhas mãos, recebeste a graça do Espírito Santo —; quero certamente que ressuscites, isto é, despertes, aquela graça um pouco adormecida em ti; e, fervendo aquela graça em ti, te alegres de padecer e morrer pelo nome de Cristo. Lembra-te daquilo: *porque Deus nos deu o Espírito Santo, não espírito de temor, mas de fortaleza*, isto é, de constância, para que virtuosamente toleremos tudo; *e de amor* de Deus; deu também *espírito de sobriedade*, isto é, de temperança; a temperança, com efeito, nutre o amor, o amor a virtude: onde há amor, com efeito, certamente não há temor; a caridade perfeita lança fora o temor. Vê, pois, que, assim como foste meu companheiro em receber a graça do Espírito Santo, assim sejas imitador dos meus sofrimentos.

E, uma vez que comigo recebeste o Espírito de fortaleza e de amor, *portanto não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor Jesus Cristo.* Se te lançam em rosto que adoras um Crucificado, confessa claramente que assim adoras. *Nem te envergonhes também de mim, seu prisioneiro.* Se alguém de novo te lança em rosto: eis que o teu mestre foi condenado a cadeias; não te envergonhes por isso, *mas colabora no Evangelho* e prega comigo *segundo o poder de Deus*, isto é, seguindo a constância que o amor de Deus nutre. Deus *que nos libertou* do jugo do diabo, *e nos chamou com santa vocação*, isto é, para que fôssemos santos; e para esta santidade não nos chamou *segundo as nossas obras*, isto é, pelo mérito das nossas obras, *mas segundo o seu propósito*, isto é, segundo a sua providência, pela qual misericordiosamente previu que lhe seríamos idôneos: e assim como a vocação, também a providência não foi por algum mérito, mas *segundo a graça que nos foi dada*, isto é, que foi preordenada ser-nos dada *em Cristo Jesus antes dos tempos eternos*, isto é, desde a eternidade antes destes nossos tempos, que rolam pelos séculos. Outrora foi prometido que esta graça nos seria dada, *agora*, porém, no tempo de Cristo, *foi manifestada*, isto é, cumprida, como fora prometida, *pela vinda* (iluminação) *de nosso Salvador Jesus Cristo*, isto é, por Cristo posto, pela humanidade a si assumida, na luz do nosso conhecimento.

A isto talvez dissesse Timóteo: não quero morrer, mas permanecer nesta iluminação. Contra isto Paulo: não temas morrer; porque Cristo, morrendo, *destruiu a morte* e, destruída a morte, *fez resplandecer*, isto é, revelou e fez conhecida, a vida não transitória, mas *a incorrupção*, isto é, a vida incorruptível, em que seremos impassíveis e imortais; fez resplandecer, digo, *pelo Evangelho*; Evangelho *do qual*, a pregar, *fui constituído* por Deus *pregador, Apóstolo e mestre das nações*; a quem, por tantas autoridades, é justo que não te envergonhes de imitar. *Por esta causa*, isto é, porque ensinei este Evangelho às nações, *padeci muito; estas cadeias também agora padeço; mas contudo não me envergonho*, isto é, não me envergonho, mas me alegro de padecer por Cristo; assim também tu não te envergonhes. Por isso, paciente, não me envergonho, *porque sei em quem tenho crido*, isto é, em quem pus a fé, a saber, em Deus; ou assim: sei a quem confiei, isto é, a quem encomendei os meus sofrimentos e obras; *e estou certo* da recompensa deles: porque aquele a quem confiei *é poderoso para guardar o meu depósito*, isto é, o meu confiado, *até aquele dia* da remuneração de todos.

E porque vês que Deus guarda o que se deposita junto dele, tu, pois, a exemplo dele, *guarda o depósito*, isto é, a graça episcopal a ti confiada; este depósito, com efeito, é *bom*, isto é, útil, se for guardado. Nem julgues poder guardar isto por tuas forças, mas pelo Espírito Santo que coadjuva, *que habita em nós.* E para que guardes bem o depósito, sê *tendo o modelo das sãs palavras que de mim ouviste*, isto é, conforma-te a mim tão expressamente que pareças ser Paulo: tem certamente o meu modelo *na fé* a conservar e *na caridade* a ter; fé e caridade que *há em Cristo Jesus.*

É muito necessário, porém, que tu guardes o depósito, porque *me abandonaram todos* os discípulos que, deixando-me, *estão na Ásia*; e isto tu o sabes bem; *entre os quais Fígelo e Hermógenes.* Designa-os por isso pelo nome, para que, se viessem a ele, julgando-os ainda fiéis, não pudessem mais facilmente persuadi-lo e como da parte de Paulo enganá-lo: Éfeso, com efeito, estava na Ásia.

Estes me abandonaram, mas Onesíforo permaneceu; e por isso *conceda o Senhor* não só a ele, mas também *à casa de Onesíforo misericórdia*, isto é, retribuição da misericórdia que me fez; porque *muitas vezes me reconfortou*, tanto consolando na fé como ministrando o necessário; *e não se envergonhou da minha cadeia* (vê que tu também não te envergonhes, mas a abraces): certamente não se envergonhou; *antes, chegando a Roma, procurou-me com diligência e, procurando-me, me encontrou*; e porque me encontrou, *conceda-lhe o Senhor* Pai *achar misericórdia*, isto é, o fruto desta misericórdia, *da parte do Senhor*, isto é, de Cristo juiz, *naquele dia* do juízo. Em Roma, em cadeias, assim ministrou; *e quanto serviu em Éfeso, tu o sabes melhor* do que estas coisas que agora ministrou, ou melhor do que os outros discípulos.

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# Capítulo 2

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> Tu, pois, meu filho, fortalece-te na graça que há em Cristo Jesus; e o que de mim ouviste diante de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para ensinar também a outros. Trabalha como bom soldado de Cristo Jesus. Ninguém que milita para Deus se embaraça em negócios seculares, para agradar àquele a quem se provou. Pois também aquele que combate no certame não é coroado, se não combater legitimamente. O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a participar dos frutos. Entende o que digo; o Senhor, com efeito, te dará entendimento em tudo. Lembra-te de que o Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, da descendência de Davi, segundo o meu Evangelho, pelo qual trabalho até às cadeias, como malfeitor; mas a palavra de Deus não está presa. Por isso tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que há em Cristo Jesus, com a glória celeste. Fiel é esta palavra: Pois, se morremos com ele, também com ele viveremos; se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; se não crermos, ele permanece fiel, não pode negar-se a si mesmo. Recorda estas coisas, testemunhando diante do Senhor. Não contendas com palavras; pois para nada é útil, senão para a subversão dos que ouvem. Procura com solicitude apresentar-te aprovado diante de Deus, como operário que não tem de que se envergonhar, que maneja retamente a palavra da verdade. Evita, porém, as profanidades e vãs palavrórias; pois muito contribuem para a impiedade, e a sua palavra serpeia como câncer; entre os quais estão Himeneu e Fileto, que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se fez, e subvertem a fé de alguns. Mas o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e afaste-se da iniquidade todo aquele que invoca o nome do Senhor. Numa grande casa, porém, não há só vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns para honra, outros para desonra. Se alguém, pois, se purificar destas coisas, será vaso santificado para honra, útil ao Senhor, preparado para toda boa obra. Foge, porém, dos desejos da juventude; segue a justiça, a fé, a caridade e a paz com os que invocam o Senhor de coração puro. Evita as questões tolas e sem instrução, sabendo que geram contendas. Ora, ao servo do Senhor não convém altercar, mas ser manso para com todos, apto para ensinar, paciente, corrigindo com modéstia os que resistem à verdade, na esperança de que Deus lhes conceda penitência para conhecerem a verdade, e se libertem dos laços do diabo, que os mantém cativos para fazerem a sua vontade.

## Comentário

Porque por causa da defecção de alguns és mais necessário, porque também pelo exemplo dos que perseveram és admoestado à fortaleza; *portanto tu, meu filho Timóteo, fortalece-te*, isto é, sê forte, não temas; fortalece-te, digo, *na graça que há em Cristo Jesus*, isto é, na doutrina pontifical, cuja graça Deus te conferiu; ou então, fortalece-te na graça, isto é, na remissão dos pecados e na vida eterna a pregar; esta é, com efeito, a graça que há por Jesus Cristo. E para que, fortalecido, mais progridas, estas coisas que te recomendo ensinar, *confia-as também tu a homens fiéis*, isto é, constitui sob ti pregadores que preguem contigo ao povo de Deus; estes sejam de fé sã, e, sendo fiéis, convém que sejam tais que *sejam idôneos* pela ciência e graça da eloquência *para ensinar a outros* que lhes forem confiados: a tais, digo, confia estas coisas *que ouviste de mim*, isto é, que eu te ensinei, aprovando-as *diante de muitas testemunhas*, isto é, por muitos testemunhos da lei e dos Profetas; o que, com efeito, te ensinei acerca da fé de Cristo, mostrei-o todo pré-assinalado na lei e nos Profetas.

Para que Timóteo não julgasse poder agora repousar, constituídos sob si pregadores, contra isto diz Paulo: embora tenhas posto alguns à frente para ensinar outros, não por isso entorpeças, mas *trabalha como soldado de Cristo Jesus*, isto é, lembra-te de que militas no acampamento de Cristo; ao que milita, porém, convém o trabalho, não o ócio; *trabalha como bom soldado*, isto é, útil. Como seja bom, determina nas passagens seguintes, dizendo: se fores bom soldado, não te embaraçarás em negócios seculares; *ninguém, com efeito, que milita para Deus se embaraça em negócios seculares*, isto é, não se aplica às discussões das causas seculares, mas das espirituais; o mundo tem, com efeito, juízes seculares, que julgam das coisas temporais; os bispos, porém, devem vagar às doutrinas espirituais. Ou assim: quem milita para Deus não se embaraça em negócios seculares, de modo a negociar e vender a sua pregação, exigindo por isso preço dos ouvintes. Por isso quem milita para Deus não se embaraça nestas coisas, *para agradar àquele*, a saber, a Deus, *a quem*, vivendo bem, dando boa estima de si pela vida anterior, *se provou* que lhe agradaria. Prova pelo que é menos: quem milita para Deus não se embaraça nas coisas mundanas, para assim agradar a Deus; *pois também* (o que é menos) *aquele que combate no certame*, isto é, em alguma contenda, como na palestra ou no estádio, este, *se não combater legitimamente*, isto é, segundo a lei daquele certame, *não é coroado*, isto é, não recebe o louvor ou o prêmio.

Para que Timóteo não opinasse, por lhe ter interditado os negócios seculares, que nada se devia receber dos súditos em coisas temporais, diz Paulo: embora te interdite os negócios seculares, quero contudo que recebas os temporais do fruto da pregação; *a ti, com efeito, que trabalhas* na cultura do campo do Senhor, *convém ser o primeiro a receber dos frutos* daquele campo, isto é, as coisas temporais que o campo, isto é, o povo, pode dar; receba, digo, primeiro do fruto o que lhe baste; e, se sobra, secundariamente recebam os pobres; ou então, o primeiro, isto é, muito dali receba, porque a coisa que ministra é digníssima; receber, porém, da pregação o que baste não é negócio secular. Ou liguemos assim: digo, não te embaraces em coisas seculares, nem te é necessário; porque dos frutos da pregação em que trabalhas receberás o que te for oportuno: o que equivalentemente diz.

Para que Timóteo não julgasse absurdo viver da pregação, porque Paulo não vivia assim, mas do trabalho das mãos, diz Paulo: *entende o que digo*, isto é, que recebas do fruto da pregação o oportuno; entende a causa por que não recebo o que mando que tu recebas. A causa disto dizem os santos ser que, porque Timóteo era enfermo e, se trabalhasse com as mãos, não poderia insistir na pregação; Paulo, porém, forte e laborioso, era suficiente para ambas as coisas, por isso ele nada recebia, e por isso queria que Timóteo recebesse. Poderás certamente entender esta causa: *porque o Senhor te dará entendimento*, tanto nisto como em tudo.

Trabalha ao modo de bom soldado, como te preveni; e para que assim trabalhes, *lembra-te da Ressurreição de Cristo*, e de que tu ressuscitarás com ele, se bem trabalhares; tendo, digo, esperança de ressurgir, *lembra-te de que o Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos.* Só Cristo ressuscitou dos mortos; porque depois não teve ato de mortalidade, nem pôde morrer; Lázaro, porém, e quantos foram ressuscitados, sofreram de novo a morte.

Diria talvez Timóteo: porque foi Deus, pôde ressurgir. Contra isto Paulo: digo que Jesus ressuscitou *da descendência de Davi*, isto é, enquanto foi homem, porque segundo a carne foi só filho de Davi; ressuscitou certamente *segundo o meu Evangelho*, isto é, segundo o que eu prego, no qual se deve crer, porque sou Apóstolo enviado por Deus. Ou assim: foi Cristo da descendência de Davi segundo o meu Evangelho; *no qual*, porque ressuscitou, pregando, *trabalho até às cadeias*; por isso, com efeito, porque assim prego, posto em cadeias sou constrangido *como malfeitor*, isto é, como apanhado em algum crime; como se dissesse: sofro tanto a pena como, o que mais agrava, os opróbrios; se julgassem, com efeito, que padeço pela justiça, seria para mim um consolo. E eu estou, sim, preso em cadeias, *mas a palavra de Deus não está presa*; porque também em cadeias prego, vê, pois, que também em ti o temor não prenda a palavra de Deus.

Deves lembrar-te de que Cristo ressuscitou; porque, por me lembrar, a saber, da Ressurreição dele, creio que assim ressurgirei por ele, *suporto tudo*, cadeias e opróbrios. Diria alguém: mesmo que não suportasses estas coisas, bastaria a limpeza da vida e a fé sã. Contra isto diz: suporto certamente *pelos eleitos* de Deus a salvar; *para que também eles*, preeleitos por Deus, *alcancem a salvação*, isto é, a justificação dos pecados no presente, *que há em Cristo Jesus*; alcancem, digo, esta salvação *com a glória celeste*; porque pela remissão dos pecados, que aqui se faz, chega-se à glória eterna.

Este discurso, porém, que disse, a saber, que se deve trabalhar pela esperança da ressurreição, *é fiel* e bem digno de crédito. É certamente fiel e bem digno de crédito que, se trabalhas legitimamente, ressurgirás como Cristo; *pois, se morremos com ele*, deixando os atos do homem velho Adão, *também com ele viveremos*, feitos impassíveis e imortais como ele: Cristo, certamente, enquanto conversou no mundo, teve todos os atos do homem velho, exceto o pecado; teve fome, sede, cansou-se, como é patente no Evangelho de João (cap. 4), falando junto ao poço com a cananeia, como quem era verdadeiramente mortal e passível; mas depois de suportar a morte por todos, nem mão nem pé estendeu aos atos do homem velho, feito impassível e imortal: se nós, porém, morremos com ele no batismo, que ele consagrou na Cruz para a justificação dos homens, derramando água do seu lado, e justificados pelo batismo não estendermos mais os nossos sentidos aos atos do homem velho, isto é, às misérias do pecado, viveremos com ele, feitos com ele impassíveis e imortais; se, porém, não formos participantes desta morte, não seremos participantes da sua vida. Se somente morremos com ele, viveremos com ele; *se, porém* (o que é maior) *sofrermos*, como os mártires, a quem não bastou morrer para os pecados, mas quiseram padecer pela justiça; nós certamente, porque sofreremos, *reinaremos com ele*, isto é, não só viveremos, mas também a palma e certo triunfo nos será feito pela dignidade do martírio. Embora a todos baste estar com Cristo, contudo naquela bem-aventurança há distinções de dignidades. Verdadeiramente, se morremos com ele, viveremos com ele; porque, *se o negarmos* agindo mal, *também ele nos negará*, não concedendo a vida eterna; negar, com efeito, de Deus é não conceder os bens eternos.

Diria talvez Timóteo: parece incrível que Deus, por causa do pecado, negue aquele que lhe confessou a fé. Contra isto Paulo: *se não cremos* que Deus há de negar quem o nega, *ele permanece fiel*, isto é, veraz e digno de crédito, ele que diz: «Quem se envergonhar de mim diante dos homens, eu me envergonharei dele diante de meu Pai» (Lc 9,26); permanece fiel, porém, de modo que é impossível que não seja veraz; *não pode, com efeito, negar-se a si mesmo*, isto é, negar que é Deus; se mentisse, com efeito, certamente não seria Deus.

Isto, a saber, que morras com Cristo e assim ensines os outros pela esperança de com ele viver, *recorda-te*, testemunhando-o a ti *diante de Deus*, para que Deus não peça mais o sangue de Timóteo da mão de Paulo. E embora te advirta com tanto rigor, contudo *não contendas com palavras*, ensinando imoderadamente o que ensino. Ou assim: isto, isto é, que se deve morrer com Cristo pela esperança de viver com ele, adverte aos outros, testemunhando-lhes isto diante de Deus, para que o sangue deles não seja pedido da tua mão. E ao advertir não contendas com palavras, *pois para nada é útil litigar, senão para a subversão dos que ouvem*; se, com efeito, os insensatos ouvem quaisquer litigar, julgam que têm causa mais justa os que são mais clamorosos; é próprio dos estultos, com efeito, aderir aos estultos; se, porém, nenhum dos litigantes superar pelo clamor, os simples duvidam a qual deles se deva aderir mais.

Não contendas; mas *procura com solicitude apresentar-te* todo, de corpo e ânimo, *aprovado*, isto é, louvável, *diante de Deus.* Para que, porém, sejas aprovado, convém que sejas *operário que não tem de que se envergonhar*, de modo que não te envergonhes de pregar a Cruz de Cristo, etc.; *e que maneja retamente*, isto é, sem contenda, com toda modéstia, *a palavra da verdade.* Para que possas manejar retamente a palavra de Deus, *evita as profanidades*, isto é, aquelas inteiramente abomináveis; evita também as *vãs palavrórias*, isto é, as que, se não são assim profanas, são contudo inúteis: evita-as, porque estas palavras vãs *muito contribuem para a impiedade* a persuadir; *e a palavra* dos que falam coisas vãs *serpeia como câncer*, doença que primeiro ocupa pouco da carne, mas pouco a pouco mais e mais aumenta, até matar; e assim os hereges primeiro introduzem astutamente o que não parece nem aproveitar nem prejudicar, e depois, alternando as razões, insensivelmente a doutrina deles cresce em máxima heresia: *entre estes vãos faladores estão Himeneu e Fileto, que se desviaram da verdade da fé.* Determina qual é a heresia deles, para que, se porventura vierem a Timóteo, se acautele: *dizendo que a ressurreição já se fez*, ou nos que ressuscitaram com Cristo, ou no batismo, em que ressurgimos da morte do pecado à vida das virtudes; aquela tríplice imersão, com efeito, significa a sepultura de Cristo de três dias, a elevação, porém, a Ressurreição de Cristo. E assim dizendo, *subvertem a fé de alguns.*

*Mas*, embora aqueles subvertam, contudo *o firme fundamento de Deus*, isto é, aqueles em quem a fé está bem fundada, e que, ao contrário, estão fundados na fé por Deus, *permanece*; este fundamento, digo, é firme, *tendo este selo* — isto foi dito por semelhança com o estrênuo capitão, que dá aos seus soldados um sinal pelo qual sejam distinguidos dos outros: assim Deus assinala os seus para que, visto o sinal, o diabo passe por eles, sabendo que nada tem a ver com eles —; o sinal, porém, é este: *o Senhor conhece os que são seus*; isto põe Paulo da sua parte, significando a eleição de Deus nos justos, dizendo: o Senhor conheceu desde a eternidade quais seriam seus; o seguinte, porém, diz seguindo Isaías, tratando do poder do livre-arbítrio, dizendo: *afaste-se da iniquidade todo aquele* homem *que invoca o nome do Senhor*, que é poderoso, pela liberdade do arbítrio, e que o invoca com fé e obra. Pela divina eleição e pelo livre-arbítrio, que pelas boas obras corresponde à divina eleição, com estas duas coisas são assinalados os que permanecerão na justiça; Deus, com efeito, previu cada eleito como futuro bom, de modo que previa nele ao mesmo tempo as boas obras; quantos, porém, são assinalados pela eleição de Deus e pelas boas obras do livre-arbítrio, tornam-se de Deus. Não te admires, contudo, se na casa de Deus se dá que alguns recuem da fé, outros perseverem na fé; *porque numa grande casa, qualquer que seja, não só há vasos de ouro e de prata*, como na casa de Deus alguns são mais perfeitos, outros perfeitos sob eles; *mas também* há na mesma casa vasos *de madeira e de barro*, como na casa de Deus alguns maus, outros piores. *E uns* destes vasos são *para honra*, nos quais se guardam as bebidas boas; *outros, para desonra*, para receber a urina e semelhantes; contudo, assim como os vasos mais honrosos são necessários na casa, do mesmo modo os desonrosos: assim na Igreja de Deus os maus e os bons são, cada um a seu modo, necessários; se não houvesse maus, com efeito, não haveria mérito dos bons; se não houver perseguição, onde a paciência dos bons? Uma vez que os vasos ou são para honra ou para desonra, e nada há ali de meio, *portanto, se alguém se purificar destas coisas*, isto é, se alguém não for vaso para desonra, *será vaso para honra* de Deus; vaso, digo, *santificado*, isto é, justificado dos pecados, e também *útil ao Senhor*, porque *preparado para toda boa obra* a fazer.

Evita as profanidades; e não só isto, mas também *foge dos desejos da juventude*, isto é, os que instigam a lúbrica juventude. Foge destes, *segue a justiça*, isto é, a equidade para com todos, *a fé* em Deus, a castidade da carne e do ânimo. *Tem a paz*, isto é, a concórdia, *com os que invocam o Senhor de coração puro.* Nem só fujas dos desejos juvenis, mas também *evita as questões tolas*, nas quais nem há ciência, nem parece haver. Evita também aquelas que, embora não tão tolas, são contudo sem fruto da disciplina cristã, como as questões dialéticas; *sabendo que* as que são tais *geram contendas.* *Ao servo do Senhor* (o que tu és e deves ser) *não convém altercar*; mas convém ser *manso*, isto é, moderado em tudo e *para com todos*, a saber, *apto para ensinar*, isto é, ensinando outros com habilidade; *paciente* também em tudo o que lhe for infligido; *e corrigindo com modéstia os que resistem à verdade*, não com litígio: por isso assim corrigindo, *na esperança de que Deus lhes conceda penitência*; talvez, com efeito, alguma vez se arrependerão de ter obrado mal, vindo assim ao conhecimento da verdade da fé; e, conhecida a verdade da fé, *se libertem dos laços do diabo*, isto é, dos pecados com que o diabo os enlaçara; diabo *por quem são mantidos cativos* enquanto estão em pecados; mantidos, digo, *para fazerem a vontade* do próprio diabo.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos; e haverá homens amantes de si mesmos, cobiçosos, altivos, soberbos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, celerados, sem afeição, sem paz, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem benignidade, traidores, protervos, inchados, amantes dos prazeres mais do que de Deus; tendo, sim, a aparência de piedade, mas negando-lhe a virtude. Também a estes evita; pois deles são os que se introduzem nas casas e levam cativas mulherzinhas carregadas de pecados, que se deixam levar por variados desejos; sempre aprendendo e nunca chegando ao conhecimento da verdade. Assim como Janes e Mambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade, homens de mente corrompida, reprovados na fé; mas não irão mais longe; pois a sua insensatez será manifesta a todos, como também foi a daqueles. Tu, porém, seguiste a minha doutrina, o meu modo de proceder, o meu propósito, a fé, a longanimidade, o amor, a paciência, as perseguições, os sofrimentos, tais como me sucederam em Antioquia, Icônio e Listra; que perseguições suportei! E de todas me livrou o Senhor. E todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrerão perseguição. Os homens maus e os sedutores, porém, irão de mal a pior, errando e levando ao erro. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e te foi confiado; sabendo de quem o aprendeste; e que desde a infância conheces as Sagradas Letras, que te podem instruir para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, instruído para toda boa obra.

## Comentário

*Evita as questões tolas*; evita também os homens *que têm a aparência de piedade*, etc. Mas, antes de o pôr, antepõe as causas por que tais devem ser evitados, dizendo: não somente saibas que se deve fazer o que foi premissado, mas *sabe também isto: que nos últimos dias*, isto é, perto do fim do mundo, *sobrevirão tempos perigosos*, isto é, naquele tempo sobrevirão, ensinando e afligindo os que não consentirem, doutores perigosos, que, aos que lhes crerem, mergulharão em muitos perigos. E então, nesses tempos, *haverá homens amantes de si mesmos*, isto é, que se comprazem na sua carnalidade, nestes modos: haverá, com efeito, *cobiçosos*, isto é, amantes do dinheiro; haverá também *altivos*, isto é, que desejam pôr-se acima dos outros; haverá *soberbos*, isto é, que ilicitamente se gloriam nas honras alcançadas; haverá também *blasfemos* contra Deus e a sua doutrina; haverá também *desobedientes aos pais*, ou carnais (o que é nefando), ou espirituais, como bispos e presbíteros: haverá *ingratos*, porque, se alguém lhes ensinou o bem, de que deveriam ser gratos, serão molestos aos seus doutores; haverá também *celerados*, cometendo homicídios e semelhantes crimes; haverá *sem afeição*, não tendo piedosa vontade para com o próximo, mesmo que nada possam dar; haverá *sem paz*, isto é, sem concórdia, mas sempre em litígio; haverá *caluniadores*, isto é, imputando crimes aos justos, quando eles mesmos são *incontinentes*, e se precipitam por toda parte em quaisquer crimes; haverá *cruéis*, isto é, sem toda mansidão, *e sem benignidade*, isto é, sem largueza, não dando o seu aos indigentes; haverá também *traidores*, entregando os justos à morte; haverá também *protervos*, isto é, desavergonhados nas maledicências e, mesmo repreendidos, impacientes disso; haverá também *inchados*, isto é, inflados de ânimo, mesmo que não tenham honra nem esperança de honra: e estes tais serão *amantes dos prazeres*, isto é, de toda luxúria, *mais do que de Deus*, a quem em nada parecem amar. Destes, porém, deves acautelar-te sutilmente; estes, com efeito, são *os que têm a aparência de piedade*, isto é, que simulam ser religiosos; *mas negam-lhe a virtude*, isto é, a dileção, que é a virtude de toda a religião, forte, com efeito, como a morte é a dileção; ou então, a virtude, isto é, a verdade da religião, negando-a com a obra. *E a estes tais evita.*

Diria Timóteo: por que me precaves contra estes, que hão de existir perto do fim do mundo? Por isso, diz Paulo, evita-os, porque *destes* futuros nos últimos dias *são os que se introduzem nas casas*, etc. Deve-se notar que, desde que o mundo começou, teve nele Deus o seu reino e o diabo o seu; em Abel, com efeito, começou a reinar Deus, e em Caim o diabo. Deus, porém, assumindo a carne e operando o que se seguiu, consumou o seu reino, remitindo os pecados, etc., como pôde consumar-se no presente; reino que consumará plenamente no futuro, dando a vida eterna. Assim como Deus no bem, assim o diabo consumará o seu reino na perfeição da iniquidade perto do fim do mundo, pelo Anticristo; e assim como Deus quis que os Patriarcas e Profetas precedessem a vinda de Cristo, assim muitos membros do Anticristo precederão a sua cabeça, isto é, o Anticristo; contra cujos membros Paulo instrui Timóteo, dizendo: destes que descrevi são os falsos doutores, que se introduzem nas casas, não ousando ensinar nas praças, para que a sua doutrina não se patenteie ao ouvido dos bons, mas, para seduzir mais livremente, ensinam em privado nas casas, e assim *levam cativas as mulherzinhas*, que facilmente se enganam com qualquer vento de doutrina, levam-nas seduzidas, feitas cativas por qualquer indução, porque foram cativadas por Deus e dadas sob os direitos do diabo; ou então, para cúmulo de opróbrio, assim como as mulheres, também aos homens chama mulherzinhas, isto é, moles, cedendo a todo vento de doutrina, para que, ouvindo o nome do seu opróbrio, mais depressa se envergonhem e se convertam ao Senhor: mulherzinhas, digo, *carregadas de pecados*, quando foram seduzidas pelo diabo; mulheres que *se deixam levar por variados desejos*, porque *sempre aprendendo e nunca chegando ao conhecimento da verdade*, isto é, sempre trabalhando e nunca chegando à perfeição. E estes tais não só ensinam nas casas privadas, mas também estes homens resistem à verdade abertamente; *assim como Janes e Mambres*, dois irmãos magos no Egito, *resistiram a Moisés* diante do Faraó, fazendo por seus encantamentos algumas das coisas que Moisés fazia, não porém todas (Ex 7,11): estes homens, digo, *de mente corrompida*, isto é, depravados no entendimento e na obra, e *reprovados na fé*, em torno da qual andam, mas, porque não entram nela, foram reprovados por Deus.

Para que Timóteo não se aterrasse com estas coisas ditas, consola-o Paulo, dizendo: tais, sim, hão de existir; mas não temas, porque *não irão mais longe.* Por isso, porque a insensatez deles, como a de Janes e Mambres, *será manifesta* por fim, não irão mais longe; *tu, porém*, como se dissesse, deves e podes progredir; *tu, com efeito, seguiste a minha doutrina* na ciência, *e o meu modo de proceder* na disposição da vida e nos costumes, *e o meu propósito*, porque assim como propus a vida eterna como fim do meu trabalho, assim também tu; seguiste também *a fé*, porque crês sadiamente como eu, *e a longanimidade* na esperança, porque estás pronto, enquanto a Deus aprouver, a sofrer comigo; tens também *o amor* de Deus e do próximo, *e a paciência*, isto é, a própria virtude, ainda que nada seja necessário operar, e os atos dessa paciência, a saber, *as perseguições* de lugar em lugar, *e os sofrimentos* dos tormentos: sabes também *quais coisas me sucederam em Antioquia, Icônio, Listra*, e além delas *que perseguições eu suportei* em muitos lugares. Mas que há daí a temer? *De todas, com efeito, me livrou o Senhor*; e assim te livrará do que te acontecer sofrer.

Deves ser incitado à continência pelo meu exemplo e de todos os religiosos; *todos, com efeito, os que querem viver piedosamente*, isto é, religiosamente, *em Cristo Jesus, sofrerão perseguição*; e por isso não te perturbes se sofreres alguma. Os que vivem piedosamente sofrerão; *os homens maus*, porém, em si e *sedutores* de outros, *irão*, sim, adiante nas coisas mundanas, mas tudo isto lhes será *de mal a pior* e para a condenação; eles mesmos, digo, *errando* em si, e por isso maus, *e levando* também outros *ao erro*, e por isso sedutores. Eles errarão; *tu, porém, permanece nos preceitos que de mim aprendeste, e no que te foi confiado*, isto é, na graça pontifical, *sabendo* e lembrando *de quem* e de quão grande doutor *aprendeste* estas coisas; se te recordas, com efeito, da minha autoridade, a falsa doutrina se te tornará desprezo. E quero que disso te lembres, porque desde a infância conheces as Sagradas Letras, entregue às escolas por tua mãe, que foi fiel; as quais todas podem instruir-te *para a salvação* da vida eterna, a que se vai *pela fé que há em Cristo Jesus.*

Verdadeiramente as Sagradas Letras podem instruir-te para a salvação; porque *toda a Escritura divinamente inspirada*, isto é, entendida espiritualmente, segundo Deus, *é útil para ensinar* os que não sabem, *e para repreender*, isto é, para convencer os que contradizem a fé, *e para corrigir* os que pecam e não negam ter pecado, *e para instruir* os que ainda são rudes e simples; instruir, digo, *na justiça*, isto é, a fim de serem justificados, despindo os rudimentos da infidelidade; assim, digo, seja instruído, para que, quanto depender do doutor, aquele que é instruído seja *homem de Deus perfeito*; perfeito de tal modo que seja *instruído para toda boa obra* a fazer.

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, e pela sua vinda e pelo seu reino: prega a palavra, insiste oportuna e importunamente; repreende, exorta, corrige, com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, conforme os seus próprios desejos, amontoarão para si mestres, com comichão nos ouvidos; e desviarão o ouvido da verdade, voltando-se para as fábulas. Tu, porém, vigia, trabalha em tudo, faze obra de evangelista, cumpre o teu ministério. Sê sóbrio. Pois eu já estou sendo oferecido em libação, e o tempo da minha partida está iminente. Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé. Quanto ao mais, está-me reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda. Apressa-te a vir ter comigo depressa. Pois Demas me abandonou, amando o presente século, e foi para Tessalônica; Crescente para a Galácia, Tito para a Dalmácia. Só Lucas está comigo. Toma Marcos e traze-o contigo, pois me é útil para o ministério. Enviei Tíquico a Éfeso. Quando vieres, traze contigo o manto que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos. Alexandre, o ferreiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe retribuirá segundo as suas obras; evita-o tu também, pois resistiu muito às nossas palavras. Na minha primeira defesa ninguém me assistiu, mas todos me abandonaram; não lhes seja imputado. O Senhor, porém, assistiu-me e me fortaleceu, para que por mim se cumprisse a pregação e todas as nações a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrou de toda obra má e me salvará para o seu reino celeste; a ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Saúda Prisca e Áquila e a casa de Onesíforo. Erasto ficou em Corinto. Trófimo deixei doente em Mileto. Apressa-te a vir antes do inverno. Saúdam-te Êubulo, Pudente, Lino, Cláudia e todos os irmãos. O Senhor Jesus Cristo esteja com o teu espírito. A graça esteja convosco. Amém.

## Comentário

E porque a Escritura de Deus, que conheces, é útil para ensinar, repreender e corrigir, *por isso te conjuro diante de Deus*, para que não exija isto de mim mais, *e diante de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos*; os que achar vivos na hora do juízo, que num instante serão dissolvidos e ressurgirão: há de julgar também antes do dia do juízo os mortos; ou então, há de julgar os vivos e os mortos, isto é, os justos e os pecadores; conjuro-te também *pela sua vinda*, para que estejas tão preparado como quem cada dia espera o juiz que vem, a fim de que por temor dele faças o que exorto; conjuro-te também *pelo seu reino*, no qual os santos reinarão com ele, para que por amor de reinar com Cristo faças estudiosamente o que advirto; isto, digo, te conjuro: *prega a palavra*, isto é, a doutrina de Deus, e pregando *insiste oportunamente* com os que de bom grado ouvem; insiste também *importunamente* com os que a princípio são difíceis de ouvir, mas depois, conhecida a razão, ouvem de bom grado; *repreende* também, isto é, convence os que contradizem a fé; *exorta* também os justos, para que sempre sejam promovidos ao melhor; *corrige* também, com a devida austeridade, os apanhados em pecados: faze isto *com toda a paciência*, para que quaisquer coisas que te sejam infligidas as suportes de bom grado; e não de modo a desistires de ensinar, mas sê sempre *na doutrina.* Por isso te advirto a ensinar com tanta instância, *porque virá o tempo*, perto do fim do mundo, *em que os homens não suportarão a sã doutrina*; se naquele tempo, porém, a Igreja não for robustecida pela doutrina apostólica, perecerá a fé; *não suportarão a sã doutrina, mas amontoarão para si mestres conforme os seus desejos*; se foram luxuriosos, um luxurioso, e assim nos demais; homens, digo, então *com comichão nos ouvidos*, isto é, desejosos de ouvir coisas novas e inauditas; nos quais a verdade não estará, e *desviarão* de fato *o ouvido da verdade, mas se voltarão para as fábulas*, em que não há verdade da coisa.

Aqueles assim se aplicam às fábulas; *tu, porém, vigia*, isto é, acautela-te com toda solicitude, *e trabalha em tudo*, se podes, em converter; e para que o teu trabalho seja idôneo, *faze obra de evangelista*, isto é, de pregador, a saber, opera o que pregas que se deve operar; e faze-o de modo a *cumprir o teu ministério*, isto é, o ofício de pregador, para que não te detenhas aquém, mas faças tudo o que é de pregador, e trabalhando nos outros e em ti, completando por obra o que ensinaste aos outros. E embora assim advirta "faze obra de evangelista", contudo *sê sóbrio*, não dado além da medida à abstinência, para que, debilitado pelo excesso do jejum, não possas aplicar-te à pregação como convém.

Por isso te advirto com tanta instância, *porque eu já estou sendo oferecido em libação*, isto é, sacrificado, e pouco a pouco, em cadeias, cada dia desfaleço, *e o tempo da minha partida*, isto é, o dia da minha morte, *está iminente* e próximo: dia que estou certo estar iminente, porque *combati o bom combate* (nota a frequência), isto é, útil à Igreja de Deus; combati certamente padecendo tudo o que convinha padecer, *terminei a carreira*, isto é, a velocidade de bem agir, onde não foi necessário padecer assim, esta certamente consumei, porque a minha justiça subiu tanto que não tem mais para onde subir: e no combater e no correr *guardei a fé.* E porque já terminei a carreira, por isso *quanto ao mais*, isto é, na vida que nos fica reservada para o futuro, *está-me reservada*, isto é, guardada para mim, *a coroa da justiça*, isto é, merecida pela justiça; coroa que como devida *me dará o Senhor naquele dia* da retribuição futura, nem pode negar-ma, porque *é justo juiz*, e a justiça exige que isto me seja dado: a mim, sim, mas não só a mim, mas também *a todos os que amam a sua vinda* para o juízo, isto é, que têm consciência pura; os que, com efeito, são mal conscientes de si, estes certamente não amam a vinda do juiz, mas a temem. Por isso muitíssimo anima Timóteo, ao dizer que se prepara a coroa da justiça aos que amam a vinda de Deus.

Instruído Timóteo no que devia fazer publicamente, manda-lhe sobre algumas coisas próprias, dizendo: porque está iminente o dia da minha partida, *apressa-te a vir ter comigo depressa.* E és-me necessário, *porque Demas me abandonou*, apostatando, *amando o presente século*; e ele *foi para Tessalônica*; *Crescente*, porém, outro discípulo permanente na fé, *para a Galácia*; *Tito* foi *para a Dalmácia*: e assim, dispersos os outros, *só Lucas está comigo.* Vem, digo, e ao vir *toma Marcos e traze-o contigo*; este, com efeito, *me é útil para o ministério.* Talvez o Apóstolo ia enviá-lo em alguma legação. *Enviei Tíquico a Éfeso*, onde tu és bispo. Tu, porém, vindo a mim, *traze contigo o manto que deixei em Trôade, em casa de Carpo*; traze também *os livros*; e sobretudo mais que os demais traze *os pergaminhos*, de que preciso para enviar Epístolas. O manto era veste dada aos tarsenses pelos romanos porque tinham vindo ao império dos romanos espontaneamente, e não por guerra; mandava trazê-lo, pois, para comprovar que era cidadão romano, como apelara perante Festo. Ou o manto era outra veste, que pedia que lhe trouxessem contra o frio, devendo passar o inverno no cárcere.

Quando, porém, vieres a mim, *acautela-te de Alexandre*; este Alexandre, com efeito, *ferreiro* (nome de dignidade), *causou-me muitos males*; nem disso me preocupo, porque *o Senhor lhe retribuirá segundo as suas obras.* A este Alexandre evita-o tu também; *este, com efeito, resistiu muito às nossas palavras.*

Vem certamente, porque és necessário; *na minha primeira defesa*, quando me defendi à vista de Nero, *ninguém dos discípulos me assistiu, mas todos me abandonaram*: rogo, porém, que *isto não lhes seja imputado.* Aqueles me abandonaram, *mas o Senhor me assistiu*; e assistindo *me fortaleceu*, isto é, me fez forte, para que, e a tal ponto, *por mim se cumprisse a pregação*, não cedendo às ameaças dele; se consentisse com ele, com efeito, ficaria incumprida a pregação. Fortaleceu-me também *para que todas as nações a ouvissem*; e isto também ouçam: que *fui libertado*, para que não consentisse, *da boca do leão*, isto é, de Nero, ou do diabo que me invadia por Nero. E não só do leão, mas *o Senhor me livrou de toda obra má*, para que nada obrasse mal; e livre, *me salvará*, transferido *para o seu reino celeste*: ao qual Senhor *seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.*

Recebida esta Epístola, *saúda Prisca e Áquila e a casa de Onesíforo.* *Erasto ficou em Corinto*, e *Trófimo deixei doente em Mileto*; e porque tantos estão ausentes, *apressa-te a vir ter comigo antes do inverno.* Dos que estão conosco: *saúdam-te Êubulo, Pudente, Lino, Cláudia e todos os irmãos.* E eu te saúdo: *o Senhor Jesus Cristo esteja com o teu espírito*; e conceda que *a graça esteja convosco*, isto é, que a dileção começada entre mim e ti persevere. *Amém.*

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# Epístola a Tito



# Prólogo

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Paulo, convertidos os cretenses, consagrou ali Tito arcebispo, para que os instruísse em tudo o que visse oportuno. Tendo, porém, Paulo ido a Nicópolis (o que esta Epístola parece insinuar nas passagens seguintes), escreveu esta Epístola a Tito; ouvira, com efeito, a respeito dele que exercia o ofício episcopal com demasiada simplicidade; porque os hereges, ou quaisquer perversos, não os expulsava da Igreja pelo império pontifical, como convinha. Denunciava-lhes, sim, que agiam mal e deviam desistir; mas, não cessando eles do mal começado (o que a dignidade pontifical exigia), não os coibia, mas humildemente os suportava. Por isso Paulo escreve esta Epístola a Tito, tratando nela do ofício pontifical, de modo a instruí-lo sobre quais bispos deve consagrar pelas cidades do seu arcebispado; demorando-se sobretudo nesta instrução, para que use do poder e império pontifical, porque, embora ser simples seja bom, a excessiva humildade do bispo traz incômodo ao regime da Igreja; e por isso adverte Tito que ensine, exorte e argua com império episcopal; e, se há hereges que não querem corrigir-se, os expulse da Igreja. E assim tratando do ofício episcopal, pretende tornar Tito um bispo perfeito, para que, pelo exemplo dele, tornasse animados quaisquer bispos demasiado simples e usassem do império episcopal.

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# Capítulo 1

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> Paulo, servo de Deus, Apóstolo, porém, de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade, na esperança da vida eterna; que prometeu, antes dos tempos eternos, Deus, que não mente, e manifestou a seu tempo a sua palavra na pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador; a Tito, filho amado segundo a fé comum: graça e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador. Por esta razão te deixei em Creta: para que corrijas o que falta e constituas presbíteros em cada cidade, como eu também te ordenei. Se alguém é sem crime, marido de uma só mulher, que tenha filhos fiéis, não acusados de luxúria nem insubmissos. Pois o bispo deve ser sem crime, como dispensador de Deus; não soberbo, não iracundo, não dado ao vinho, não violento, não cobiçoso de torpe lucro; mas hospitaleiro, benigno, sóbrio, justo, santo, continente, apegado à palavra fiel que é conforme à doutrina, para que seja capaz de exortar na sã doutrina e de refutar os que contradizem. Pois há muitos insubmissos, vãos faladores e sedutores, sobretudo os da circuncisão, aos quais é preciso fechar a boca; eles subvertem casas inteiras, ensinando o que não convém, por torpe lucro. Disse um deles, profeta próprio deles: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas más, ventres preguiçosos. Este testemunho é verdadeiro. Por isso repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé, não dando atenção a fábulas judaicas e a mandamentos de homens que se apartam da verdade. Tudo é puro para os puros; para os contaminados e infiéis, porém, nada é puro, mas contaminadas estão a sua mente e a sua consciência. Confessam que conhecem a Deus, mas com as obras o negam, sendo abomináveis, incrédulos e reprovados para toda obra boa.

## Comentário

*Paulo*, etc. Como é seu costume, antepõe a saudação, dizendo: *Paulo, servo de Deus*, isto é, simples e humilde ao modo de servo; aqui insinua que a simplicidade é boa: servo certamente de Deus, mas contudo *Apóstolo de Jesus Cristo*, isto é, agindo e coibindo a cada um como exige o império da sublimidade apostólica; tu, pois, a meu exemplo, sê simples de modo que a excessiva humildade não impeça o império pontifical — não disse "servo de Deus e Apóstolo de Cristo" porque também não seja Apóstolo de Deus e servo de Cristo, mas para insinuar que por Cristo Deus Pai dirigiu Paulo ao ministério do apostolado —; Apóstolo, digo, *segundo a fé dos eleitos de Deus* (segue, com efeito, e prega a fé que mantiveram os Profetas e quaisquer eleitos de Deus), Apóstolo também *segundo o conhecimento da verdade*, isto é, segundo o que conheceu do verdadeiro conhecimento de Deus, não de qualquer verdade, digo, mas daquela *que é segundo a piedade*, isto é, a verdade que segue o culto de Deus; fé, digo, e conhecimento da verdade, que vão *na esperança da vida eterna*, porque pela fé recebida e pela verdade conhecida esperamos alcançar a vida eterna; e não em vão, porque esta vida *prometeu*, isto é, preordenou dar; nem é lícito duvidar desta promessa, prometeu-a, com efeito, aquele *que não mente* e não pode mentir, porque é Deus; nem a prometeu no tempo, mas, para que se considere em Deus a diligência da coisa prometida, *prometeu-a antes dos tempos eternos*, isto é, desde a eternidade, assim preordenou antes dos tempos, que rolam pelos séculos: prometeu, digo; *manifestou*, porém, isto é, cumpriu o que prometera aos seus, *a seu tempo*, isto é, em tempos congruentes, a vida eterna; porque Abel viu algo disso, mais perfeitamente Abraão; e assim pouco a pouco os Profetas, quanto mais se aproximava a redenção, tanto mais dela conheceram; e João mais que todos, que com o dedo mostrou a vida eterna, isto é, Cristo: mas sobretudo no tempo da graça manifestou Deus a vida eterna, a saber, *a sua palavra*, isto é, o Filho encarnado, nascido e de outros modos. Manifestou também esta Palavra *na pregação que me foi confiada*, isto é, pela pregação que me foi encomendada; confiada certamente a mim *por mandato de Deus*, isto é, porque Deus assim ordenou; de Deus, digo, *nosso Salvador*: Paulo, digo, tal e tal, escreve a *Tito*, amado de modo especial; a Tito, digo, *filho segundo a fé comum*, isto é, católica, em que o gerei, e não segundo a carne (*katholikón*, com efeito, diz-se comum ou universal); ou então, a Tito, filho, deseja que sinta segundo a fé comum, isto é, vulgar, e não segundo as doutrinas privadas dos hereges: *seja-te, Tito, graça*, tanto segundo a remissão dos pecados como segundo o ofício episcopal; *e paz* te seja, isto é, tranquilidade de ânimo, quanta aqui se pode ter; estas coisas te sejam certamente *da parte de Deus Pai*, que pode e tem vontade, *e de Jesus Cristo*, que igualmente pode, *nosso Salvador*, e tem vontade.

Terminada a saudação, assim se dirige a Tito: ó Tito, eu *te deixei* consagrado arcebispo *em Creta*, *por esta razão*, isto é, por esta coisa, que, se se fizer, me será grata; a coisa é esta: *para que corrijas*, isto é, para que, corrigindo o que deve ser corrigido, completes *o que falta*; isto, porém, foi dito dos costumes; e, corrigindo os costumes, *constituas também presbíteros*, isto é, bispos, *em cada cidade* sujeita ao teu arcebispado; constituas, digo, do modo *como eu também te ordenei.* Onde diz "como eu te ordenei", nota que, quando estava com ele, o instruiu sobre a consagração de bispos. Constitui bispo aquele, a saber, *se alguém é sem crime*, isto é, sem ato e infâmia de qualquer coisa criminosa, que também tenha sido *marido de uma só mulher*, como noutro lugar expusemos, *que tenha filhos fiéis*, isto é, que tenha instruído os seus filhos na fé sã, *e não os tenha acusados de luxúria*, de modo que nem mau rumor daí tenha saído; se, com efeito, permitiu que os seus filhos se entregassem à luxúria, deu exemplo de que não corrigirá bem os filhos da Igreja: *ou não tendo filhos insubmissos*, isto é, desobedientes a si; se, com efeito, apareceu remisso para com os filhos privados, mostra que não coibiria suficientemente a Igreja a ele confiada.

Por isso quero que aquele que for sem crime seja constituído bispo; *convém, com efeito, que o bispo seja sem crime*, tanto em ato como em suspeita, *como dispensador de Deus*, isto é, como quem dispensa o próprio Deus àqueles a quem prega. Convém também que o bispo seja *não soberbo*, isto é, que não deseje pôr-se acima dos outros; *não iracundo*, mas reja bem o ânimo; *não dado ao vinho*, isto é, não dado a muito vinho; *não violento*, isto é, que não golpeie com armas corporais, tem, com efeito, as armas do Espírito Santo; ou então, não golpeando as consciências dos ouvintes, para que não pregue tal coisa de que nasça má opinião; *não cobiçoso de torpe lucro*, isto é, não embaraçado em negócios seculares: *mas hospitaleiro*, que tenha recebido pobres em hospedagem; recebidos os pobres, e quaisquer, *benigno*, isto é, ministrando largamente o seu; *sóbrio* também em comida, bebida e vestuário; *justo* também para com os próximos; *santo* também para com Deus; *continente* também, para ser exemplo de continência aos outros. E além disso convém que seja *apegado*, isto é, tratando diligente e assiduamente, *à palavra fiel*, isto é, veraz, e não a toda verdade, mas àquela *que é conforme à doutrina*, isto é, que é idônea para a pregação; há, com efeito, muitas verdades a que seria culpa do bispo aplicar-se. E por isso abrace esta palavra, *para que*, pelo uso e pela ciência, *seja capaz de exortar* os fiéis *na sã doutrina*; possa também, pelo uso e pela ciência, *refutar os que contradizem* a sã doutrina, isto é, convencer os infiéis que impugnam a fé. E é necessário que seja assim capaz de refutar; *porque há muitos insubmissos* aos bispos; há também *vãos faladores*, falando coisas inúteis; e nesta vã locução há *sedutores*, isto é, têm a arte e a astúcia de seduzir os ouvintes por vaniloquências: poderiam, com efeito, falar coisas vãs sem astúcia de sedução: e sobretudo mais que todos seduzem *os da circuncisão*, os judeus; *aos quais é preciso fechar a boca*, porque são sedutores principais; estes, com efeito, que vieram da circuncisão *subvertem* não só o pai de família da casa, mas *casas inteiras*, isto é, toda a família, *ensinando por torpe lucro*, isto é, por amor do torpe lucro, *o que não convém* crer nem ensinar.

Verdadeiramente há entre os cretenses maus sedutores; o que aprova *um deles, profeta próprio deles*, isto é, natural deles, razão pela qual se lhe deve crer mais; este, porém, *profeta*, isto é, vidente, enquanto considerou sutilmente os vícios dos cretenses; este se chamou Epimênides; que disse isto deles: *os cretenses são sempre mentirosos, bestas*, meditando bestialmente, *e más*, isto é, como meditam, assim cruelmente operam; são também *ventres preguiçosos*, isto é, luxuriosos e que se carregam de comidas, e por isso tardos para todo bem. Para que da verdade destas coisas não se duvidasse, porque era gentio aquele que isto disse, afirma-o Paulo, dizendo: *este testemunho*, que Epimênides deu dos cretenses, *é verdadeiro.* *Por isso*, porque são mentirosos, etc., *repreende-os*, isto é, os cretenses, *severamente*, isto é, a saber, com austeridade e império pontifical, *para que* perseverem *sãos na fé, não dando atenção a fábulas judaicas*; porque o que ensinam sobre reconduzir a circuncisão são fábulas e não têm verdade da coisa. Não devem dar atenção a elas, porque são fábulas, e porque são *mandamentos de homens*, e não de Deus; outrora, com efeito, sob a lei antiga, Deus mandou a circuncisão e o mais; mas, depois que veio o tempo da graça, Deus mandou que isto não se fizesse. E por isso diz: não deem atenção a mandamentos, não de Deus, mas *de homens que se apartam da verdade*, porque a verdade da lei, a saber, o entendimento espiritual, não querem aceitar. Das passagens seguintes insinua que tais pregavam que se devia abster de certos alimentos, dizendo: não se deve dar atenção às fábulas dos judeus, que julgam imundos certos alimentos, quando *tudo é puro para os puros*, isto é, para os que os tomam em pureza e santidade; estes alimentos, com efeito, Deus os criou para o sustento dos que o servem; por isso são puros e dignos dos que com coração e obra puros servem a Deus. Toda criatura também, no que foi criada por Deus, é pura, aqui contudo não é necessário tratar de tudo. Para os puros de consciência e fé tudo é puro, mas *para os contaminados* de consciência *e infiéis* nem o que reputam puro lhes é puro: como não creem no Criador e têm a consciência contaminada, é injusto que usem de alguma criatura de Deus<sup>[1]</sup>. *Nada lhes é puro; mas contaminadas estão a sua mente*, isto é, o intelecto, a saber, a fé deles, *e a consciência*, por isso nada lhes é puro. Talvez dissesse alguém: por que estes são contaminados, quando confessam a Deus? Sei, sim, diz Paulo, *que confessam com a boca que conhecem a Deus*, mas de que lhes serve? *com as obras o negam* nos seus feitos; negam-no certamente, *sendo abomináveis*, isto é, de mau presságio, ou então, separados do número dos homens redimidos por Deus; *sendo também incrédulos*, isto é, não hábeis para crer, por excesso da sua impiedade; *sendo também reprovados para toda obra boa*, porque nada fazem que tenha semelhança de bem: muitas vezes, com efeito, alguns infiéis fazem coisas tais que, embora verdadeiramente boas não sejam, parecem contudo ser boas.

## Notas

<sup>[1]</sup> Aqui, e até o fim deste capítulo, parece faltar a clareza e a pureza de doutrina que até agora encontramos nas exposições de São Bruno; e talvez seja lícito duvidar se o manuscrito do autor não sofreu alguma interpolação. Estas palavras: «É injusto que (os infiéis e pecadores) usem de alguma criatura de Deus» soam quase o mesmo que a proposição de Miguel Baio: «Todas as obras dos infiéis são pecados», que é falsa e foi condenada pela Santa Sé. O que se segue, a saber, «nada lhes é puro», etc., até o fim, embora não se ache tão evidentemente errôneo, carece certamente de clareza: os pecadores, com efeito, e os hereges podem fazer algumas obras, não só que parecem boas, mas que verdadeiramente são moralmente boas, e por vezes as fazem.

O sentido genuíno do Apóstolo é oportunamente exposto assim por Cornélio a Lapide: «Assim como para os puros, isto é, os cristãos, todas as coisas, isto é, todos os alimentos proibidos pela lei, são puros; assim, ao contrário, para os judaizantes e infiéis nada, isto é, nenhum alimento, é puro; porque estes, com mente e consciência supersticiosa, judaica ou herética, ou se abstêm de todos os alimentos ou os comem. Julgam, com efeito, supersticiosamente que a lei antiga obriga ainda os cristãos, e que segundo ela se devem discernir os alimentos, de modo que sejam obrigados a abster-se dos proibidos pela lei, e possam comer os permitidos pela lei. Assim todos os Padres citados (Crisóstomo, Jerônimo, Teodoreto, Ambrósio, etc.), e Santo Agostinho, no livro XXXI *Contra Fausto*, cap. 4: "O infiel — diz —, quer coma, quer se abstenha, não come nem se abstém santa ou justamente, porque faz ambas as coisas com prava opinião."»

O mesmo Cornélio dá outro sentido, expresso a partir da língua hebraica: «Poderia ser — diz — um hebraísmo, de modo que o verbo neutro em *qal* se tome por ativo em *hifil*; o que é dizer: para os infiéis nada é puro, isto é, nenhum alimento os purifica da sua infidelidade e crimes; como, ao contrário, para os outros, puros, que são de boa consciência, nada, isto é, nenhum alimento, nem por sua natureza nem pela lei antiga, é impuro, que os suje ou contamine; não há nenhum que lhes asperja alguma impureza, corporal ou legal, como outrora os alimentos proibidos pela lei de Moisés aspergiam aos judeus uma certa impureza legal. A esta exposição favorece a antítese que o Apóstolo acrescenta, dizendo: mas contaminadas estão a sua mente e a sua consciência; o que é dizer: por isso nenhum alimento lhes é puro, isto é, pode purificá-los, porque está contaminada e permanece a sua mente e consciência, à qual o alimento corporal não pode penetrar nem expiá-la. Embora também segundo o sentido anterior se possa comodamente expor esta antítese, como se desse a causa por que para os infiéis nenhum alimento é puro, mas antes todo lhes é impuro: porque, a saber, usam de todo alimento ou se abstêm dele por consciência infiel e perversa, pela qual querem submeter igualmente à lei de Moisés e à de Cristo, e abraçar ambas; fazem, assim, contra a lei de Cristo e contra a liberdade evangélica, que ensina que a lei de Moisés foi abolida e de modo algum deve ser misturada ao Cristianismo; e, por conseguinte, enquanto perseveram nesta mente, e dela comem ou não comem os alimentos, contaminam-se com infidelidade e judaísmo.

«*Confessam* (isto é, professam) *que conhecem a Deus, mas com as obras o negam; sendo abomináveis, incrédulos e reprovados para toda obra boa.* — Em vez de abomináveis, em grego está *bdelyktoí*, isto é, abomináveis e, como traduz Jerônimo, execráveis, a saber, na vida e nos costumes. Segundo: em vez de incrédulos, em grego está *apeitheîs*, isto é, incrédulos; Jerônimo traduz: desobedientes; outros: intratáveis; o siríaco: impersuasíveis, a quem, a saber, por nenhuma razão a verdade, a pureza e a liberdade do Cristianismo podem persuadir. Isto, com efeito, significa propriamente *apeitheîs*... Terceiro: reprovados, isto é, ímprobos, desviados, inaptos para a obra boa, e isto por sua malícia, pela qual, por sua livre e ímproba vontade, obstinados na sua infidelidade e vida ímpia, repudiam e reprovam toda obra boa, isto é, a maior parte das obras boas (é hipérbole); o que é dizer: estes judaizantes estão lançados em todos os crimes; isto, com efeito, traz consigo a heresia, o judaísmo e a infidelidade: daqui, contudo, não se segue que os hereges e infiéis não possam fazer algumas obras ao menos moralmente boas, e de fato as façam; pois confessam a Deus: isto, porém, é obra boa; é, com efeito, obra da fé e da sua profissão.»

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# Capítulo 2

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina: que os anciãos sejam sóbrios, pudicos, prudentes, sãos na fé, na caridade, na paciência; as anciãs, do mesmo modo, em traje santo, não caluniadoras, não escravas de muito vinho, mestras do bem, para que ensinem as jovens a ser prudentes, a amar os seus maridos e os seus filhos, a ser prudentes, castas, sóbrias, cuidadosas da casa, benignas, sujeitas aos seus maridos, para que a palavra de Deus não seja blasfemada. Exorta igualmente os jovens a serem sóbrios. Em tudo apresenta-te como exemplo de boas obras, na doutrina, na integridade, na gravidade, na palavra sã e irrepreensível; para que o adversário se envergonhe, não tendo nada de mau a dizer de nós. Os servos sejam sujeitos a seus senhores, agradando-lhes em tudo, sem contradizer, sem defraudar, mas mostrando em tudo boa fidelidade, para que em tudo honrem a doutrina de Deus, nosso Salvador. Pois a graça de Deus, nosso Salvador, apareceu a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e aos desejos mundanos, vivamos neste século sóbria, justa e piedosamente, aguardando a bem-aventurada esperança e a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador nosso Jesus Cristo; que se entregou a si mesmo por nós, para nos remir de toda iniquidade e purificar para si um povo aceitável, zeloso de boas obras. Estas coisas fala, exorta e repreende com toda a autoridade. Ninguém te despreze.

## Comentário

Os reprovados agem assim perversamente; *tu, porém*, não assim, mas *fala o que convém*, a *sã doutrina.* Isto, a saber, fala aos anciãos: *que os anciãos sejam sóbrios*, não dados à bebida; sejam também *pudicos*, isto é, castos; sejam *prudentes*, para saberem ensinar os mais jovens; sejam *sãos na fé*, sejam *sãos na caridade*, para que, como aos domésticos, assim amem a todos os outros; sejam também *sãos na paciência*, de modo que não sofram as injúrias de tal sorte que sejam impacientes aos opróbrios. *As anciãs, do mesmo modo*, adverte *que estejam em traje santo*, isto é, que indique a santidade delas, *e que não sejam caluniadoras*, isto é, que não imputem crimes a quaisquer, doença que sobretudo é das velhas; *não sejam também escravas de muito vinho, mas mestras do bem*: nem na igreja ou aos homens ensinem, mas assim, digo, *que ensinem as jovens a ser prudentes*; esta, a saber, *a amar os seus maridos*, e não os adúlteros, *e também a amar os seus filhos*, fomentando-os com toda solicitude; e ensinem-nas a ser *prudentes, castas e sóbrias*, tanto em comidas como em ornamentos, *e cuidadosas da casa*, isto é, que trabalhem com os maridos a bem providenciar a família; ensinem-nas também a ser *benignas* na distribuição de esmolas, *e sujeitas aos seus maridos*, não tendo império sobre os maridos. Adverte que tudo isto se faça, *para que a palavra*, isto é, a pregação de Deus, *não seja blasfemada*; se as mulheres, com efeito, se ensoberbecessem contra os maridos, se fossem incestas, etc., os insensatos opinariam que isso se contém na doutrina cristã, e por isso blasfemariam a palavra de Deus. *Exorta igualmente os jovens a serem sóbrios* e temperados.

Para que corrijas a todos convenientemente, *apresenta-te* aos outros *como exemplo de boas obras*; e não em algumas, mas em todas as obras; apresenta-te, digo, como exemplo para eles *na doutrina*, de modo que ensines o que seja útil aos ouvintes, *e na integridade* de todas as virtudes, para seres perfeito e íntegro nos bens; e ensina *na gravidade*, isto é, com severidade e império pontifical. E a palavra da tua doutrina seja *sã*, nada tenha de infidelidade misturada; seja também *irrepreensível*, de modo que nenhuma ocasião de repreensão daí se possa conceber. E isto convém, *para que o adversário*, isto é, o insidiador infiel, *se envergonhe de dizer mal de nós*, não tendo de que possa maldizer.

Exorta também os *servos a serem sujeitos a seus senhores*, para que não se ensoberbeçam contra eles, mas lhes agradem bem *em tudo* o que lhes for mandado, *sem contradizer-lhes* em coisa alguma; *e sem defraudar*, quer das coisas a eles confiadas, quer do trabalho a eles imposto, vagando ao ócio quando devem trabalhar, *mas mostrando em todas as suas ações que a fé cristã é boa*, isto é, útil; *para que assim fazendo honrem em tudo a doutrina de Deus, nosso Salvador*; quando, com efeito, os servos feitos fiéis não subtraem, mas servem mais devotamente aos senhores, honra-se por isso e louva-se a doutrina de Deus, que assim instruiu os servos fiéis a serem sujeitos aos senhores.

Por isso te advirto a trabalhar em tudo, sejam servos ou senhores, sejam anciãos ou mais jovens, *porque a graça de Deus apareceu* para salvar a todos; apareceu certamente quando o Verbo do Pai, feito carne no útero da Virgem, se mostrou visível aos homens; apareceu, digo, *a graça de Deus*, isto é, Deus por graça, não por méritos dos homens, mas só por misericórdia; de Deus, digo, *nosso Salvador*: e assim como apareceu para nos salvar, porque já fomos justificados pela fé, assim *apareceu a todos os homens* para os salvar; e por isso deves trabalhar em tudo. E porque o aparecer de Deus não bastaria para a salvação se por ele não fôssemos instruídos, diz: apareceu Deus por graça *ensinando-nos* a todos; isto a saber: *que, renunciando à impiedade*, isto é, ao culto dos ídolos, *e renunciando aos desejos mundanos*, isto é, que o século ministra e de que é causa, *vivamos sobriamente*, isto é, temperadamente em nós mesmos, *justamente* para com o próximo; *e piedosamente* vivamos para com Deus, mesmo neste corpo tão frágil, em que mal é lícito viver justamente: assim, vivendo sóbria, justa e piedosamente, *aguardando a bem-aventurada esperança*, isto é, a bem-aventurança esperada, *e a vinda gloriosa de Jesus Cristo*, isto é, quando Cristo, que antes apareceu em humildade para nos instruir, virá com glória julgar o século; de Cristo, digo, *grande Deus e Salvador nosso*, porque então, no juízo, queiram ou não, o confessarão grande Deus e Salvador dos santos, que vem então com grande poder e majestade, os que até aquele dia nunca confessaram ser Cristo Deus: Cristo Jesus, *que*, entre estas duas vindas, *se entregou por nós*, para *nos remir de toda iniquidade*, isto é, tanto da fragilidade da carne como do poder e sugestão do diabo; antes de Cristo na Cruz nos remir, com efeito, não podíamos resistir ao diabo e à sua sugestão, nem à fragilidade da nossa carne; e se desse perigo Deus não nos livrasse, ainda que nos purificasse de todos os pecados, nada contudo aproveitaria se não nos desse também a virtude de resistir às sugestões do diabo e à fragilidade da carne; quem, com efeito, pôde subverter o primeiro homem, criado em tão grande virtude, quanto mais àquele que é oprimido por tantas misérias de passibilidade e mortalidade? Entregou-se também *para nos purificar* de todo delito, original ou atual, no batismo; nós, digo, feitos *povo aceitável* a si depois da purificação do batismo; *zeloso de boas obras* por isso: primeiro, com efeito, arranca-nos do império do diabo e da fragilidade da carne, depois purifica-nos de todo delito, e ambas as coisas no batismo; depois, pela posição das boas obras, faz-nos aceitáveis a Deus.

Estas coisas ditas, a saber, que Deus apareceu por graça e há de vir ao juízo com glória, etc., *fala e ensina* aos que não sabem, *e exorta* os que sabem, a que se preparem dignos da segunda vinda. Se, admoestados, recusam obedecer, *repreende-os com toda autoridade*, isto é, com severidade episcopal, de modo que *ninguém te despreze*, isto é, que a tua excessiva humildade não gere desprezo da autoridade pontifical.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Admoesta-os a serem sujeitos aos príncipes e às autoridades, a obedecerem à ordem, a estarem prontos para toda obra boa, a não blasfemarem de ninguém, a não serem litigiosos, mas modestos, mostrando toda a mansidão para com todos os homens. Pois também nós éramos outrora insensatos, incrédulos, errantes, escravos de desejos e prazeres vários, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros. Mas, quando apareceu a benignidade e a humanidade de Deus, nosso Salvador, não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, salvou-nos pelo lavacro da regeneração e renovação do Espírito Santo, que derramou sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra; e quero que a afirmes com firmeza, para que os que creem em Deus procurem distinguir-se nas boas obras. Estas coisas são boas e úteis aos homens. Evita, porém, as questões tolas, as genealogias, as contendas e as disputas sobre a lei; pois são inúteis e vãs. Ao homem herege, depois de uma e de duas admoestações, evita-o, sabendo que tal homem está pervertido e peca, condenado pelo seu próprio juízo. Quando eu te enviar Artemas ou Tíquico, apressa-te a vir ter comigo a Nicópolis, pois resolvi passar ali o inverno. A Zenas, o jurisconsulto, e a Apolo despacha-os com solicitude, para que nada lhes falte. Aprendam também os nossos a distinguir-se nas boas obras para as necessidades urgentes, para que não sejam infrutuosos. Saúdam-te todos os que estão comigo. Saúda os que nos amam na fé. A graça de Deus esteja com todos vós. Amém.

## Comentário

Para que Tito, por ter dito Paulo "com toda a autoridade", não julgasse que o povo a ele confiado devia ser sujeito só a ele, e não às potestades do mundo, removendo isto diz: *adverte aqueles* cretenses *a serem sujeitos aos príncipes* do mundo, como aos reis e às demais potestades, pagando os tributos e censos a eles devidos. Adverte-os também *a obedecerem à ordem*, isto é, aos preceitos dos príncipes; e contudo não para obra nefanda, mas *a estarem prontos para toda obra boa* que lhes for mandada pelos seus príncipes; se, com efeito, os príncipes mandassem que fossem ao culto do ídolo ou a qualquer coisa nefanda, não deveriam ir: «Convém, com efeito, obedecer mais a Deus do que aos homens» (At 5,29). Adverte-os também *a não blasfemarem de ninguém* dos seus senhores; *nem a serem litigiosos*, isto é, nem disputar contra os senhores, *mas modestos* e bem temperados, *mostrando toda a mansidão* e humildade, não só para com os senhores, mas *para com todos os homens*.

Por isso quero que todos obedeçam assim, mesmo a senhores infiéis, porque talvez os que agora são infiéis logo se façam fiéis como também nós; *éramos, com efeito, outrora*, isto é, pouco antes, *insensatos*, ainda que fôssemos sábios do mundo; e porque do conhecimento de Deus nada sabíamos, por isso éramos *incrédulos*, não tendo a fé de Deus; éramos também *errantes*, isto é, pecadores, *e escravos de desejos*, porque, se desejávamos dinheiro ou honras, servíamos com muito trabalho a alcançá-los: escravos também de *prazeres vários* da carne, isto é, segundo todos os sentidos; o que o olho via ou o ouvido ouvia, a mão trabalhava por apreender; nós, digo, *vivendo em malícia*, porque os males que eram lícitos infligíamos aos próximos; vivendo também *em inveja*, porque, quando não podíamos mais, invejávamos os próximos: nós *odiosos* aos outros, digo, e ao contrário *odiando-nos uns aos outros*, indo reciprocamente, isto é, em recompensação do ódio.

Tais éramos antes; *mas, quando apareceu a benignidade de Deus*, isto é, Deus por benignidade, *e a humanidade* de Deus — designa por que e por que meio isto se fez, a saber, por benignidade e por humanidade; quando, com efeito, Deus, por causa da benignidade, apareceu ao mundo pela humanidade co-unida ao Verbo do Pai —; de Deus, digo, *nosso Salvador*, porque, assim como por nós, assim também apareceu para salvar os que ainda são infiéis: *não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito*, isto é, para que Deus aparecesse nunca o havíamos merecido; mas *segundo a sua misericórdia nos salvou* Deus *pelo lavacro da regeneração*, isto é, pelo batismo, em que a primeira geração, que está em pecados, é destruída, e se tem a segunda, a geração espiritual; *e renovação*; o batismo que precede, com efeito, nos faz tais que, crescendo cada dia para o melhor, mais e mais nos renovamos, segundo aquilo: «Renovai-vos no espírito da vossa mente» (Ef 4,23); donde diz "regeneração", pela evacuação dos males, e "renovação", pela posição dos bens: ambas as coisas, regeneração e renovação, *do Espírito Santo*; pelo Espírito Santo, com efeito, tanto se remitem os pecados como se recebem as virtudes; *Espírito Santo que derramou* Deus *sobre nós abundantemente*, isto é, suficientemente para a remissão de todos os delitos; derramou, digo, *por Jesus Cristo, nosso Salvador*, segundo o homem (isto se entenda); Deus, com efeito, que estava naquele homem, por aquele homem deu o Espírito Santo, a fim de que nós, *justificados pela graça do próprio Deus, sejamos herdeiros da vida eterna*, e isto *segundo a esperança*, isto é, segundo o que esperamos enquanto somos mantidos neste mundo.

*Esta palavra* que disse, a saber, que somos salvos pelo lavacro da regeneração e seremos herdeiros da vida eterna, etc., esta, digo, palavra *é fiel* e bem digna de crédito; e por isso, sobre estas coisas que predisse, *quero*, ó Tito, *que confirmes* os cretenses, para que, crendo firmemente nelas, *procurem distinguir-se nas boas obras*, de modo que, se hoje operam bem, operando amanhã melhor, façam presidir as boas obras de hoje; procurem também presidir aos outros, dando exemplo de bens, *os que creem em Deus*: e estas coisas, a saber, distinguir-se nas boas obras, *são boas* para eles mesmos, *e úteis aos homens* que os imitam.

Sobre isto confirma os cretenses; mas *evita as questões tolas, as genealogias, as contendas* que disputam entre si sobre o entendimento das Escrituras, *e as disputas sobre a lei*, isto é, as que parecem contrariar-se mutuamente, tudo o que é semelhante; *são, com efeito, inúteis*, sem fruto algum, e, o que é pior, *vãs*, isto é, sem verdade. Evita estas questões; evita também *o homem herege*, isto é, dividido da unidade da fé; evita-o, digo, se for incorrigível *depois de uma*, isto é, a primeira, *e de duas admoestações*; porque, se admoestado duas vezes não fizer penitência, *tal homem*, isto é, o herege, *está pervertido*, não por ignorância, mas sabendo e prudente mete a mão no fogo; e este tal *peca, condenado pelo seu próprio juízo*, isto é, por sua própria deliberação, sem ninguém o impelir, e por isso é condenado por Deus.

Nota-se que deste lugar se colhe que, se alguém erra imprudentemente e não defende o seu erro, este não deve ser julgado herege, mas só aquele que, o que pior é, pensa mal da fé e incorrigivelmente o assevera e defende. Se por esta razão negamos que os simoníacos sejam hereges — sabem, com efeito, que agem mal e não o aprovam, mas ambiciosamente se cegam —; contra isto diz-se que o que eles pretenderam, comprando por preço os dons do Espírito Santo, não se sabe, só a Deus, com efeito, estão reveladas as coisas ocultas dos corações; mas segundo o que nos seus feitos exteriores vemos, julgamos do interior; porque, com efeito, os vemos permanecer no episcopado, que alcançaram por preço, julgamos deles como dos que creem que o Espírito Santo pode ser possuído com dinheiro. Se dizem que compraram só os benefícios temporais, e não a consagração, e por isso não são simoníacos, sentem muito pior; está escrito, com efeito: Quem se separar, diga-se-lhe: anátema; assim como, com efeito, o corpo e a alma não podem separar-se de modo a viver um deles, assim o benefício temporal do espiritual no bispo não pode separar-se. Isto deve sentir-se sobre as ordens e as honras temporais.

Depois de ensinar Tito sobre as coisas eclesiásticas, escreve-lhe sobre algumas coisas privadas, dizendo: *quando eu te enviar, ó Tito, Artemas ou Tíquico, apressa-te a vir ter comigo a Nicópolis; pois resolvi passar ali o inverno.* E antes que venhas, *despacha Zenas*, perito da lei, ou da Escritura divina ou secular, *e com ele Apolo*: a estes despacha certamente *com solicitude*, isto é, bem providos, dando-lhes o que é necessário; assim, digo, com solicitude, *para que nada lhes falte.* Se perguntas donde receber isto, quero também que *os nossos* cretenses *aprendam a distinguir-se nas boas obras*, de dia em dia melhorando; assim distinguir-se, certamente, administrando aos pregadores *para os usos necessários*, para que estes cretenses *não sejam infrutuosos* aos seus doutores, mas ministrem tudo o que for necessário ao uso deles: «Convém, com efeito, que o lavrador que trabalha seja o primeiro a participar dos frutos» (2Tm 2,6).

*Saúdam-te todos os que estão comigo*; e tu, *saúda os que nos amam na fé*, isto é, os fiéis. *A graça de Deus esteja com todos vós. Amém.*

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# Epístola a Filêmon



# Prólogo

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

Paulo escreve uma carta familiar a Filêmon, a quem convertera à fé, estando em Roma, preso no cárcere; tomada a ocasião de que um servo de Filêmon, Onésimo, quando ainda era infiel, fugira furtivamente do senhor e levara secretamente dinheiro do senhor; e, enquanto estava ausente do senhor, veio a Roma a Paulo no cárcere, e ali, recebida a palavra da fé, foi batizado por Paulo, e dali em diante ministrou a Paulo, e talvez com o dinheiro furtado. Desejando reconciliá-lo, Paulo reenvia o servo com esta Epístola ao senhor, na qual trata de Filêmon, rogando-lhe por muitas e diversas causas que perdoe ao servo o que pecou. Nesta matéria pretende instruir-nos de que se deve rezar pelo delinquente, se fizer penitência, e que deve poupá-lo aquele que tem poder sobre o delinquente, se se refugiou na misericórdia.

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# Comentário

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus, e o irmão Timóteo, a Filêmon, amado e nosso colaborador, e à irmã Ápia, caríssima, e a Arquipo, nosso companheiro de armas, e à Igreja que está em tua casa. Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças ao meu Deus, fazendo sempre memória de ti nas minhas orações, ouvindo da tua caridade e da fé que tens no Senhor Jesus e para com todos os santos; para que a comunhão da tua fé se torne evidente no conhecimento de toda obra boa que há em vós em Cristo Jesus. Tive, com efeito, grande alegria e consolação na tua caridade, porque as entranhas dos santos foram reconfortadas por ti, irmão. Por isso, tendo muita confiança em Cristo Jesus para te ordenar o que convém, prefiro rogar-te pela caridade, sendo tal qual sou, Paulo, o ancião, e agora também prisioneiro de Jesus Cristo; rogo-te por meu filho, que gerei nas cadeias, Onésimo, que outrora te foi inútil, mas agora é útil a mim e a ti, e que te reenvio. Tu, porém, recebe-o como as minhas próprias entranhas; eu queria retê-lo comigo, para que em teu lugar me servisse nas cadeias do Evangelho; mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu bem não fosse como que forçado, mas voluntário. Talvez, com efeito, tenha ele se afastado de ti por um momento, para que o recebesses para sempre, não mais como servo, mas, em lugar de servo, como irmão caríssimo, sobretudo para mim; quanto mais para ti, tanto na carne como no Senhor? Se, pois, me tens por companheiro, recebe-o como a mim; se em algo te prejudicou ou te deve, põe isso na minha conta. Eu, Paulo, escrevi de minha mão: eu pagarei, para não dizer que tu me deves até a ti mesmo. Sim, irmão, que eu tire proveito de ti no Senhor; reconforta as minhas entranhas no Senhor. Confiando na tua obediência, escrevi-te, sabendo que farás ainda mais do que digo. Ao mesmo tempo, prepara-me também hospedagem; pois espero ser-vos devolvido pelas vossas orações. Saúda-te Epafras, meu companheiro de prisão em Cristo Jesus, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito. Amém.

## Comentário

*Paulo, prisioneiro*, etc. Para mover mais depressa Filêmon à misericórdia, calando aqui os nomes de dignidade, como "Apóstolo de Cristo", etc., introduz os nomes das misérias que padecia, dizendo: *Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus*, a quem por isso é mais grave ofender, porque é oprimido em cadeias; pareceria, com efeito, Paulo ser desprezado por Filêmon, ou que em nada se compadecia, se, ouvindo que ele estava preso, fechasse ao servo, por quem rogava, as entranhas de misericórdia, não estando Paulo preso por culpa sua, mas por Cristo Jesus: e para que, quantos mais vir a rogar, tanto mais depressa perdoe Filêmon, diz: Paulo e *Timóteo, irmão*, escrevem a Filêmon, por certa espiritualidade; e não só *amado*, mas também *nosso colaborador*, que não cessa de ajudar e sustentar com os seus bens os nossos fiéis. Escrevem também Paulo e Timóteo *à irmã Ápia*, esposa de Filêmon, nossa irmã segundo a fé, e por certa singularidade de dileção *caríssima*: por isso o Apóstolo escreve à mulher, para que ela, vendo-se feito a si pelo Apóstolo o que no sexo feminino não era costume, convencendo o seu senhor, o incline a poupar o servo. Escrevem também Paulo e Timóteo *a Arquipo*, filho de Ápia e de Filêmon, *nosso companheiro de armas*, pois milita para Deus conosco na pregação. Este é o Arquipo que fundou os colossenses na fé, a quem por isso saúda nesta Epístola, para que benevolamente exorte os pais a perdoar a Onésimo. Escrevem também *à Igreja*, isto é, à família convocada à fé de Cristo, *que está em tua casa.* Por isso saúda toda a família, que com tão digno nome, isto é, igreja, chama, para que toda a família intercedesse com ele por Onésimo junto de Filêmon, dizendo: *a vós todos*, ao pai de família, à mãe, ao filho e à família, *seja graça*, isto é, remissão dos pecados, *e paz*, isto é, tranquilidade de ânimo; sejam-vos, digo, estas coisas *da parte de Deus, nosso Pai*, que pode e quer, *e do Senhor Jesus Cristo*, que igualmente quer e pode.

Para o tornar dócil, o Apóstolo diz: eu, *ouvindo da tua caridade*, isto é, da dileção de Deus e do próximo, ouvindo também *da fé*, isto é, que perseveras na fé de Cristo — antepôs a caridade porque pretendia movê-lo a perdoar ao próximo —; *caridade que tens no Senhor Jesus*, como naquele que é fundamento da dileção; que tens também *para com todos os santos*, isto é, para com todos os santificados pelo batismo; por isso também para com Onésimo, santificado na fé, deve haver caridade e bondade: ouvindo isto, digo, *dou graças ao meu Deus*, *fazendo sempre memória de ti nas minhas orações*; dou, com efeito, graças pelos bens concedidos, e rogo que sempre tenham incremento, *para que a comunhão da tua fé*, isto é, a tua fé, que comunica os teus bens aos santos, *se torne evidente*, isto é, apareça a todos estar *no conhecimento de toda obra boa*, isto é, que pela fé sejas promovido a todo bem, e isso seja conhecido de todos.

Por isso, pelo incremento da tua caridade assim rogo, eu, com efeito, *tive grande alegria*, e com a alegria *consolação, na tua caridade*, isto é, na administração da tua caridade; e me alegrei e me consolei, *porque as entranhas dos santos*, isto é, os convertidos pela pregação dos santos, *foram reconfortadas por ti*, administrando-lhes, ó irmão Filêmon; muito repouso, com efeito, tiveram por ti, que afastavas o frio e a fome deles. *Por isso*, isto é, porque costumaste ter tão grande caridade para com os santos, *tendo daí muita confiança*, não tanto porque assim o tenha merecido, mas *em Cristo Jesus de te ordenar*; posso, com efeito, se quero, pela autoridade do apostolado recebida de Cristo Jesus, *ordenar-te o que convém*, isto é, à tua utilidade; do que é útil, com efeito, posso constranger-te, se me apraz; mas, omitindo o império, *prefiro rogar-te pela caridade* do que ordenar pela autoridade. E devo ser por ti rogado, *sendo tal qual sou*, Paulo, a saber, *ancião*; a idade semelhante, com efeito, exorta a que o ancião consinta com o ancião: e não só isto, mas também mais convida a ouvir que Paulo *agora*, isto é, no tempo em que rogo, *é também prisioneiro de Jesus Cristo*; quem, com efeito, não o ouve em cadeias, certamente ofende Jesus Cristo, por quem está preso: *rogo-te*, digo, por estas premissas, *por meu filho, que gerei nas cadeias*; assim como, se os pais gerassem um filho no cárcere, seria mais aceito a eles, porque nascido nas suas adversidades, assim Paulo recomenda Onésimo, que, encarcerado, batizou, que não se envergonhou da fé de Cristo por causa das cadeias de Paulo. Premissada muita recomendação, acrescenta por último o nome dele: rogo, digo, pelo filho que espiritualmente gerei, a saber, *Onésimo*, que *te foi inútil* por fugir furtivamente de ti, *outrora*, isto é, quando era infiel; *agora*, porém, feito fiel, *foi útil a mim* ministrando nas cadeias, e por isso *útil a ti*; o que ele, com efeito, fez de bem, por isso te é devido, de quem é servo, e talvez com o dinheiro: *Onésimo, que te reenvio* com esta Epístola.

*Tu, porém, recebe-o como as minhas entranhas*, isto é, sabe que ele está nas minhas entranhas, por isso, se não o recebes, rejeitas as minhas entranhas: *eu queria retê-lo comigo*; seria-me, com efeito, necessário que este me ministrasse, a mim retido *nas cadeias do Evangelho*, isto é, as cadeias que padeço por causa do Evangelho que prego: ministério que seria *em teu lugar*, isto é, para tua utilidade; se, com efeito, este teu servo, tirado, me ministrasse, a ti, que eras senhor, adquiriria mercê; mas, embora me fosse necessário, e a ti, se tirado me ministrasse, útil, contudo nada disto quis fazer sem o teu parecer, *para que* não fosse este teu bem *como que forçado*, isto é, quisesses ou não, *mas voluntário.*

Deves recebê-lo, porque *se afastou de ti por um momento*, talvez por isto: *para que o recebesses agora para sempre*, isto é, permanecendo perpetuamente contigo; se, com efeito, perdurando na infidelidade estivesse sempre à tua vista, neste século (o que é pouco) estaria contigo, porque morto seria contado com os ímpios, tu, porém, com os justos; mas agora, porque é fiel, tanto agora como no futuro permanecerá contigo — por isso diz "talvez", porque a disposição de Deus é incerta aos homens —; *e já não o tenhas só como servo*, mas tenhas-o como *irmão caríssimo no Senhor em lugar de servo*, isto é, no lugar de servo; ou então, tenhas-o, a saber, como irmão mais do que servo, isto é, mais do que tê-lo como servo caríssimo, [sobretudo] a mim certamente caríssimo. Se é tão caro a mim, a quem tanto é irmão em Deus, *quanto mais* deve ser caro *a ti*, *tanto na carne*, segundo a qual é servo, *como no Senhor*, em que é teu irmão. Uma vez que é tão caro a mim, *recebe-o, pois, como a mim*, se queres ter-me por companheiro; se, com efeito, odeias aquele que te é próximo, certamente nem a Deus amas, e com quem não ama a Deus não se deve ter comunhão alguma.

Agora talvez dissesse ele: restitua o que tirou, e eu lhe perdoarei; é bem justo, com efeito, perdoar, mas a religião cristã não proíbe reclamar o dinheiro. Contra isto Paulo: recebe-o; *se, porém, em algo te prejudicou*, subtraindo-se a ti, *ou se te deve* algo que sem teu conhecimento levou, nem por isso te compadeças dele menos, mas *põe isso tudo na minha conta*, como se eu fosse devedor destas coisas. E a mim certamente deves e podes imputar; *eu, Paulo, escrevi de minha mão: eu pagarei* o que Onésimo te deve. Por isso diz "de minha mão", punha, com efeito, certos sinais nas suas Epístolas, para que ninguém que visse os sinais duvidasse de serem dele. O que ele deve, não recuses imputá-lo a mim, *para não dizer a ti*, endurecido e que não queres perdoar, *que tu me deves até a ti mesmo*: Paulo tinha direito sobre aqueles que convertera à fé e sobre os bens deles. Para que não ouse pretextar recusa, acrescenta uma adjuração, dizendo: *sim, irmão Filêmon, que eu tire proveito de ti no Senhor*, se perdoares a Onésimo, como aquilo de Horácio: "assim te [guie] a deusa poderosa", etc.; e por isso *reconforta as minhas entranhas*, isto é, Onésimo, *em Cristo Jesus*, isto é, por causa de Cristo.

Isto, a saber, que o reconfortes, e as premissas, *escrevi-te, confiando na tua obediência*, confio, com efeito, que me obedecerás nisto; *sabendo também que farás* a Onésimo o que digo, e ainda mais, pois peço isso, porque não só perdoarás, mas, restituída a ele a tua graça, se de algo necessitar, lhe ministrarás.

Assim faze; ao mesmo tempo, com estes mandatos, *prepara-me hospedagem*, *pois espero ser-vos devolvido pelas vossas orações.* Também por isto, ao dizer que virá, induz Filêmon a compadecer-se do servo; se, com efeito, o Apóstolo, vindo, achasse o senhor sem misericórdia, o repreenderia mais severamente.

*Saúda-te Epafras em Cristo Jesus*; ou então, *meu companheiro de prisão em Cristo Jesus*, que por causa de Cristo Jesus padece comigo o cativeiro. *Saúdam-te também Marcos, Aristarco, Demas, Lucas, meus colaboradores. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito*, isto é, com Filêmon e a sua família. *Amém.* Como no princípio, assim no fim saudou a todos, para mitigar as afeições de todos para com Onésimo.

</div>

# Epístola aos Hebreus



# Prólogo

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

Na Judeia havia Igrejas constituídas na fé de Cristo, às quais o próprio Cristo havia pregado, e que, pela doutrina dos Apóstolos, e daqueles a quem, ao subir, confiou o instituir as Igrejas, haviam recebido a fé, e acerca de Cristo criam bem na Encarnação, na morte, na Ressurreição e no mais; mas erravam muitíssimo em que observavam a circuncisão e certas práticas legais, crendo que sem elas ninguém podia salvar-se, e nisto detraíam da eminência e da fé de Cristo. E sobre isto aduziam muitas razões verossímeis, a saber, que Cristo, nascido sob a lei, observara a lei em tudo, e que, se alguma vez era acusado de dissolver a lei, dava razões de que em nada dissolvia a lei, como ali, quando lhe objetaram que, ao curar no sábado, não observava o sábado, deu a razão e disse: Se vós, no dia de sábado, desatando o boi ou o jumento, o levais a beber, sem transgressão da lei, como eu, libertando um homem do demônio, transgrido a lei? (Lc 13,15) — não se lembrando de que Cristo pôs fim àquela lei, quando celebrou a antiga Páscoa e logo consagrou àquela antiga a nova Páscoa, a saber, o novo sacrifício, entregando o seu Corpo e Sangue aos seus Apóstolos, mostrando que tudo o que precedera fora sombra, mas agora entregava pela primeira vez a verdade. Por isso, porque tinham visto Cristo observar a lei, porque, de novo, Pedro e os outros que pregaram aos judeus não os haviam obrigado a afastar-se da circuncisão e de semelhantes práticas legais, temendo a impaciência deles, pois preferiam abandonar toda a fé a renunciar àquelas coisas a que estavam acostumados; sabiam, com efeito, Pedro e os outros que, se não os nutrissem assim na meninice, não poderiam ser de outro modo conduzidos à virilidade da perfeição; por isso, digo, mantinham a circuncisão com a fé de Cristo: mas Paulo, vendo que Cristo lhes era inútil enquanto mantivessem a lei com a fé, segundo o que diz aos gálatas: «Se vos circuncidardes, Cristo de nada vos aproveitará» (Gl 5,2), escreveu-lhes por superabundância esta Epístola, embora fosse só Apóstolo dos gentios, agindo segundo o que diz aos romanos: «Honrarei o meu ministério, a ver se de algum modo provoco à emulação a minha carne, etc.» (Rm 11,14). Por isso, porque não era Apóstolo deles, não quis antepor nesta Epístola os nomes de dignidade, como costuma fazer em cada uma. Calou-os também porque lhes era odioso, porque perseguia a lei e por toda parte a destruía; donde com frequência o acusaram, imputando-lhe que dizia que a lei não fora dada por Deus e que em todo tempo fora inútil; por isso, para se purgar destas coisas, convinha-lhe em Jerusalém purificar-se segundo os ritos dos judeus e, purificado, subir ao templo (At 21,26; 24,18), e circuncidar o discípulo Timóteo (At 16,3): se, porém, sendo por eles odiado como perseguidor da sua lei, tivesse antecipado os nomes da sua dignidade, no princípio eles rumorejariam, dizendo que não se devia ouvir o seu inimigo, ainda que persuadisse segundo a razão. Para evitar isto, não fez menção da sua dignidade; como se dissesse: nenhuma autoridade minha vos compele, mas atendei às autoridades da vossa lei e dos Profetas, e pela própria lei e Profetas entendereis que em Cristo esteve o fim da lei.

E porque, como nas demais, não antepôs o seu nome, disseram alguns que esta não é de Paulo; outros diziam ser de Barnabé, outros de Lucas, outros de Clemente. Contra eles assim argumenta Jerônimo: se, porque não é intitulada com o nome de Paulo, não é de Paulo, então, porque não é intitulada com o nome de ninguém, seja de ninguém. Lucas certamente a traduziu do hebraico para o grego.

Nesta Epístola tem por matéria a eminência de Cristo e a inutilidade da lei, comprovando pela mesma lei e Profetas que estes tiveram fim em Cristo; as práticas legais que nem no tempo em que deviam existir aproveitavam a ninguém, senão pela fé de quem havia de vir, mas Cristo basta de tal modo para a justificação que não carece do auxílio da lei, e, se a lei se mistura, torna vã a fé. Com este fim assim fala de Cristo e da lei, para que os judeus abandonem as práticas legais e na eminência de Cristo busquem e recebam a justificação. Perto do fim da Epístola instrui-os também sobre a moralidade, porque, como vício natural, os judeus sempre foram demasiado luxuriosos em comidas e na libido.

</div>

# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Havendo Deus outrora falado muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos Profetas, nestes últimos dias falou-nos pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem também fez os séculos; o qual, sendo o resplendor da glória e a figura da sua substância, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, tendo feito a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade nas alturas, feito tanto melhor que os Anjos quanto mais excelente é o nome que herdou em comparação com eles. Pois a qual dos Anjos disse alguma vez: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E também: Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um Filho? E, quando de novo introduz o Primogênito no mundo, diz: E adorem-no todos os Anjos de Deus. E, quanto aos Anjos, diz: Aquele que faz dos seus Anjos espíritos, e dos seus ministros chama de fogo. Ao Filho, porém: O teu trono, ó Deus, é pelos séculos dos séculos; cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria acima dos teus companheiros. E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos: eles perecerão, tu, porém, permanecerás, e todos envelhecerão como uma veste, e como um manto os mudarás, e serão mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos não terão fim. E a qual dos Anjos disse alguma vez: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés? Não são todos eles espíritos servidores, enviados para o serviço em favor dos que hão de herdar a salvação?

## Comentário

*Muitas vezes*, etc. Agora, no princípio, pretende provar que Cristo, Filho de Deus, deve ser ouvido, comparando-o com os Profetas, que, se foram ouvidos porque Deus falou por eles como por instrumento, muito mais se devem observar os preceitos de Cristo, em quem Deus falou, como no Filho. Compara de novo Cristo com os Anjos, porque, se as palavras dos Anjos, proferidas pela boca dos Profetas, eram observadas, devem observar-se muito mais as palavras de Cristo, que *se fez muito melhor que os Anjos.* E tudo isto que antepõe diz respeito à conclusão posta abaixo, onde diz: *por isso, mais abundantemente*, etc. Como se dissesse: observai o que foi dito pelo Filho, porque Deus *outrora falando aos nossos pais*, isto é, aos primeiros judeus, que tanto na carne como no culto de Deus são pais para nós, falando, digo, *aos pais pelos Profetas*; não eram dos Profetas, com efeito, as coisas que falavam, mas de Deus que falava por eles como por instrumento — neste nome que é Deus muito se opunham a Paulo, dizendo que Deus é imutável, e que não se podia negar que Deus deu a lei, devendo, portanto, ser imutável a lei, que dera quem não podia mudar-se —; *outrora*, digo, falando Deus aos pais pelos Profetas *muitas vezes*, isto é, muitas vezes, para não nos determos na posição da palavra; muitas vezes, digo, porque a Abraão, a Isaac e a Jacó, e a cada um deles em muitas ocasiões; falando também *de muitos modos*, porque ora por sonhos, como a Daniel, ora em voz aberta, como a Moisés, ora por aspiração interior, como a Davi: ou então, "muitas vezes", isto é, em diverso gênero de locução, como a este em sonho, àquele em discurso aberto, àquele por inspiração interior; e por isso de diversos modos, porque, se fosse só em sonho, pensar-se-ia vão o que fora assim ouvido, mas, onde este em discurso aberto, este em sonho, outro por aspiração interna, todos testemunhavam o mesmo e sobre o mesmo, davam fé mais certa à coisa entendida por tantos modos; "muitas vezes", digo, isto é, por muito gênero de locução, e "de muitos modos", isto é, por diversas operações, como na sarça ardente a Moisés, no velo seco e molhado a Gedeão, e semelhantemente a muitos outros: *outrora falando aos pais pelos Profetas, falou-nos pelo Filho.* Pondo, em relação àquele tempo mais antigo, o presente, "falando", e em relação àquele que era como presente, o pretérito, "falou", significa que fala o mesmo pelo Filho que falou pelos Profetas, a não ser que nos Profetas a verdade era oculta e ainda por cumprir, no Filho, porém, aberta e completa. Dizendo também "Deus, falando aos pais, falou-nos", a nós filhos dos mesmos pais, insinua que ao mesmo povo não falou coisas diversas, mas, se pelos Profetas falasse aos judeus e pelo Filho só aos gentios, poderia opinar-se que a povos diversos falou de coisas diversas. *Falou-nos nestes últimos dias*, a saber, *nestes dias*; ainda restam, com efeito, muitos que o ouviram e viram falar; ou então: falou nestes dias, como foi dito; falou, digo, *novissimamente*, porque esta locução de Deus pelo Filho foi a última, por novidade de nenhuma locução a ser mudada depois, mas outrora falou nos Profetas não novissimamente, porque a verdade que havia de falar no Filho ia destruir a sombra que falava nos Profetas: e, se ouvistes os Profetas, porque Deus falou nos Profetas, observai mais abundantemente o que ouvistes de Deus no Filho.

Agora começa a engrandecer o Filho, ora segundo a substância humana, ora segundo a divina, ora segundo ambas juntas, dizendo: *a quem*, Filho, Deus Pai *constituiu*, isto é, firmemente estabeleceu, *herdeiro de todas as coisas*, isto é, firme possuidor de todas; não herdeiro como se o seu Pai tivesse falecido, o que se dá nas leis humanas, mas herdeiro segundo o que ele mesmo diz: «Tudo o que o Pai tem é meu» (Jo 16,15); esta constituição, enquanto homem, foi feita naquele em quem, segundo o divino, desde a eternidade esteve toda a plenitude. *Por quem*, de novo, *fez* não só as coisas celestes, mas também *os séculos*, isto é, quaisquer coisas seculares que vedes, segundo aquilo: «Fizeste todas as coisas na Sabedoria» (Sl 103,24); isto foi dito do Filho segundo o divino. *Este Filho, sendo o resplendor da glória*, isto é, da essência divina do Pai, Divindade que por excelência se diz glória, e em cuja consideração nada parece glorioso; o Filho, digo, é *resplendor da glória*, porque, assim como o raio significa que o sol luz, assim o Filho é raio que dá a conhecer o Pai, não porém outro que o Pai, como nem o raio é outro que o sol; isto foi dito do Filho segundo ambas as naturezas, sobretudo segundo a divina. Este Filho, sendo também *a figura da sua substância*, isto é, plena manifestação da essência do Pai; figura, porém, não por ser diverso do Pai, mas o mesmo; a mesma substância, com efeito, é o Filho com o Pai: isto, só segundo o divino. *Sustentando* também *todas as coisas*, porque, assim como não podiam ser criadas senão pelo Filho, assim, criadas, não poderiam subsistir senão pelo Filho; *sustentando todas as coisas pela palavra*, isto é, por sua só vontade, como julgaríamos poderoso qualquer rei que só com a palavra governasse o seu império; sustentando, digo, todas as coisas *pela palavra do seu poder*, isto é, pela sua palavra virtuosa.

Tudo isto ainda nada para eles, porque diriam: que nos aproveita se por ele foram feitas todas as coisas, se é resplendor da glória, etc.? A isto Paulo responde: o Filho, digo, *tendo feito a purificação dos pecados*, isto é, purificando os homens dos pecados. E que possa purificar comprova-se pelas premissas; por quem se diz que foram feitas e sustentadas todas as coisas, e que é com o Pai a mesma substância, etc.; o que também no tempo da lei os judeus confessavam, onde diziam ao mesmo Cristo: «Quem pode perdoar pecados senão só Deus?» (Mc 2,7); aqui claramente mostravam que ninguém pode ser salvo dos pecados pela lei. *Tendo feito a purificação dos pecados*: isto foi dito do Filho segundo o divino. Este Filho, sendo tal e tal, *está sentado à direita da Majestade*, isto é, na igualdade da paterna maioridade; Majestade, com efeito, diz-se a essência de Deus; e não naquele paraíso de onde foi expulso Adão, mas *nas alturas* dos céus, colocado à direita do Pai: isto, segundo o humano.

Agora compara o Filho com os Anjos, de modo contudo a preferi-lo muito a eles, dizendo: o Filho, digo, *feito tanto melhor que os Anjos quanto mais excelente é o nome que herdou*, isto é, a honorificência depois que ressuscitou e subiu; mais excelente, porque, quando ainda era passível e mortal, teve nome diferente, porque os Anjos lhe serviam (Mt 4,11), mas, subindo, possuiu nome muito mais excelente: e porque poderia ser mais excelente, não porém em relação aos Anjos, por isso diz "mais excelente" de modo que o seja em comparação com aqueles Anjos.

Verdadeiramente herdou nome acima dos Anjos; pois a voz do Pai lhe disse: *Tu és meu Filho* (Sl 2,7); o que a nenhum dos Anjos disse. Mas, para maior confirmação, sob interrogação assim diz: *a qual dos Anjos disse alguma vez*, isto é, nem antes de serem confirmados, nem depois que pela queda de outros foram confirmados; disse, digo: tu és meu Filho consubstancial, não adotivo, *eu hoje te gerei* (Sl 2,7), isto é, na eternidade? Por causa da fraqueza do nosso intelecto, quando "hoje", que é nota de tempo presente, pôs o pretérito, "gerei", para que, se dissesse "hoje te gero", não suspeitássemos que não foi gerado do Pai desde a eternidade; e por isso disse "gerei" segundo a nossa fraqueza, "hoje" segundo a Divindade, em que nada é passado, nada futuro, mas tudo ali é presente hoje. *E também*: a qual dos Anjos disse isto alguma vez? Ou sem interrogação, de novo o Pai diz isto do Filho — onde diz "também", significa que foi dito do mesmo —; diz o Pai: *Eu serei para ele*, isto é, para honra dele, *serei para ele um Pai, e ele, o Filho, será para mim um Filho*, para me engrandecer. "Serei" e "será" pôs não porque este não seja Pai e aquele Filho desde a eternidade, mas quanto ao conhecimento comum dos homens, nem ainda aquele Pai, nem este Filho, mas no dia do juízo será Pai, será Filho, quando todos os ímpios conhecerão que Cristo é Cristo Filho de Deus, o que, vivendo, negaram. Estas duas coisas foram ditas de Cristo segundo a Divindade.

E de novo diz o Pai do mesmo Filho: *adorem-no todos os Anjos de Deus* (Sl 96,7). Mas antepõe quando isto foi dito: *quando o Pai introduz*, isto é, mostra que será introduzido, *o Primogênito*, seu Cristo, *no mundo* — introduz, porque foi conduzido ao interior dos corações —; quando, digo, mostra que será introduzido, diz (o "e" liga-se na letra do salmo): *adorem-no*, a saber, o Filho segundo a natureza humana, *todos os Anjos de Deus*; e isto dele se deve entender depois da Ressurreição. Aquilo que precede, "eu serei para ele um Pai", acha-se em Isaías<sup>[1]</sup>; no salmo também (88), *Misericordias Domini*, tem-se ali o que vale o mesmo: «Ele me invocará: Tu és meu Pai» (Sl 88,27). O que segue, "adorem-no", tem-se no salmo (96), *Dominus regnavit, exsultet terra*, a não ser que ali está "adorai", aqui "adorem".

Diz também o Pai do mesmo Filho, pertinente aos Anjos, isto: *o Filho faz dos seus Anjos espíritos celestes*, isto é, seus legados, enviando-os aonde lhe apraz; e não só aqueles inferiores, mas também *fogo de chama*, isto é, os Serafins, ordem que em dignidade precede as outras, *faz seus ministros*, obsequiando-o também segundo a natureza humana. Isto diz o Pai, pertinente aos Anjos; isto, porém, o mesmo diz ao Filho: ó Deus Filho, *o teu trono*, isto é, a tua sede judicial, *permanece pelos séculos dos séculos*: e com razão; porque *o cetro do teu reino é cetro de equidade*, isto é, equidade direta e inflexível. O cetro do rei é reto, e por isso costuma fazer-se de bronze, para ser sinal da equidade direta e inflexível, equidade que em Cristo é direta e inflexível. Com razão, de novo, o teu trono é para sempre; porque tu *amaste a justiça*, isto é, todo bem, não coagido, mas por dileção a abraçaste; e assim como amaste a justiça, assim *odiaste a iniquidade*, isto é, todo mal; alguns, com efeito, amam de tal modo a justiça que contudo não odeiam certas injustiças.

E por isso, para que o teu trono fosse eterno, para que o cetro de equidade fosse teu, para que amasses a justiça, por todas estas coisas, para que existissem em ti, ó Deus Filho, *Deus Pai ungiu*, eu, a saber, que falo, ungi-te — outros foram ungidos por ministros, como Davi e Saul; Cristo, porém, pela própria operação do Pai —; ungiu-te, digo, *Deus, o teu Deus*, consubstancial a ti, *com óleo*, isto é, o Espírito Santo, porque, assim como o óleo fomenta a carne, assim o Espírito Santo fomenta e afaga a alma, *com óleo de alegria*: e com razão se diz de alegria; porque aquele homem permaneceu imune de pecado pelo Espírito de que foi concebido. Cristo foi ungido pelo Espírito Santo no útero da Mãe; recebeu de novo o Espírito Santo no batismo, quando em forma de pomba foi visto sobre ele, não recebendo contudo o Espírito no batismo como se precisasse de nova justificação, mas para mostrar que daria aos homens o Espírito Santo no batismo para justificar. Ungiu-te Deus com óleo *acima dos teus companheiros*, isto é, acima dos Apóstolos e dos demais que receberam o Espírito Santo: acima deles, porque Cristo foi concebido do Espírito Santo, todos os outros da semente da carne. Tudo isto foi dito do Filho segundo a humanidade.

Isto disse o Pai do Filho; e de novo o Profeta ao Pai do mesmo Filho segundo o divino: ó Senhor Pai, *tu fundaste a terra*, isto é, firmemente estabeleceste esta Igreja, que se diz terra em comparação com a Igreja superior dos Anjos; fundaste, digo, *no princípio*, isto é, pelo princípio, que é o Filho, segundo o que ele mesmo diz de si: «Eu sou o princípio, eu que também vos falo» (Jo 8,25); fundaste a terra, *e os céus*, isto é, os santos maiores, como os Apóstolos, que chovem os teus mistérios sobre os súditos, *são obra das tuas mãos*: isto, digo, não só fundaste, mas devem dizer-se obras próprias das tuas mãos; na excelência deles, com efeito, aparece que a tua mão operou, como qualquer artífice diria: esta imagem egrégia é obra minha, mas naquela feita pior não me reconheço; quando contudo ambas são obra sua. *E eles*, os céus, *perecerão*, isto é, pela morte será destruído quanto serão por sua natureza, *tu, porém, permanecerás neles*, isto é, a justiça e o mais que tu operarás neles permanecerão. *E todos*, sejam céus ou terra, *envelhecerão*, isto é, pouco a pouco se corromperão pela miséria da carne; envelhecerão, digo, e perecerão *como uma veste*, isto é, segundo o corpo que há neles, que envolve a alma como veste: eles perecerão, *e tu os mudarás como um manto*, isto é, o corpo, que é como manto da alma, mudarás, feito impassível e imortal; *serão mudados* também segundo as almas, feitas mais gloriosas e progredindo no conhecimento de Deus: eles perecerão e envelhecerão; *tu, porém, és o mesmo*, isto é, imutável, contra o fato de que eles envelhecem; *e os teus anos não terão fim*, isto é, a tua eternidade é permanente, contra o fato de que eles perecerão pela morte.

Não só pelas premissas se comprova ser maior que os Anjos, mas também por esta palavra dita ao Filho: «Senta-te à direita», que a nenhum Anjo foi dita; porque *a qual dos Anjos disse o Pai alguma vez* (como a mesma palavra acima notamos): *Senta-te*, isto é, julga e repousa *à minha direita*, isto é, nos meus bens maiores, *até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés* (Sl 109,1), isto é, tão plenamente sujeitos a ti como o escabelo é sujeito aos pés? Por pés, contudo, entende-se a humanidade de Cristo, que é a última parte nele: esta plena sujeição se consumará no último juízo segundo a humanidade do Filho.

Há ainda outra razão em que os Anjos são inferiores a Cristo, razão que se segue. *Não são todos eles espíritos servidores*, isto é, ministradores, *enviados para o serviço*, isto é, para o ministério das coisas que Cristo faz, *em favor dos que hão de herdar a salvação*, isto é, dos que se salvam; sendo todos inferiores a Cristo, não podem ser iguais a ele.

## Notas

<sup>[1]</sup> Leia-se: no segundo livro dos Reis (cap. 7, 14).

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# Capítulo 2

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> Por isso, devemos observar com mais abundância o que ouvimos, para que não nos deixemos escoar. Pois, se a palavra dita pelos Anjos se tornou firme, e toda prevaricação e desobediência recebeu justa retribuição de salário, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? Salvação que, tendo começado a ser anunciada pelo Senhor, foi confirmada entre nós por aqueles que a ouviram, dando Deus testemunho com sinais, prodígios e várias virtudes, e distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade. Pois não foi aos Anjos que Deus sujeitou o mundo futuro, do qual falamos. Mas alguém testemunhou em certo lugar, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres, ou o filho do homem, para que o visites? Fizeste-o um pouco menor que os Anjos, de glória e honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras das tuas mãos. Tudo sujeitaste debaixo dos seus pés. Ao sujeitar-lhe tudo, nada deixou que não lhe esteja sujeito. Agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja sujeito. Vemos, porém, a Jesus, que foi feito um pouco menor que os Anjos, coroado de glória e honra por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte em favor de todos. Convinha, com efeito, àquele por causa de quem são todas as coisas e por quem são todas as coisas, que, conduzindo muitos filhos à glória, consumasse pela paixão o autor da salvação deles. Pois tanto o que santifica quanto os que são santificados vêm todos de um só. Por isso não se envergonha de os chamar irmãos, dizendo: Anunciarei o teu nome aos meus irmãos, no meio da assembleia te louvarei. E de novo: Eu pus nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu. Porque, pois, os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou igualmente das mesmas coisas, para destruir, pela morte, aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e libertar os que, pelo temor da morte, estavam sujeitos à servidão durante toda a vida. Pois não tomou os Anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Por isso devia assemelhar-se em tudo aos irmãos, para ser misericordioso e fiel pontífice diante de Deus, a fim de expiar os pecados do povo. Pois, naquilo em que ele mesmo sofreu e foi tentado, pode também socorrer os que são tentados.

## Comentário

De todas as coisas anteriores infere (para comprovar isto trouxe tudo): porque Deus falou nos Profetas e no Filho, porque por meio do Filho foram feitas todas as coisas, porque é maior que os Anjos, porque foi dito ao Filho "senta-te à direita", o que a nenhum Anjo foi dito: *por isso* convém que observemos *com mais abundância* o que ouvimos do Filho do que o que ouvimos dos Profetas; aos Profetas, sim, abundantemente, mas ao Filho convém ouvir mais abundantemente, *para que, não ouvindo o Filho, nos deixemos escoar*: nós, com muitas misérias e pecados, cada dia nos escoamos, mas, se não observarmos os mandamentos de Cristo, nos escoaremos de todo, porque todo bem se esvairá de nós, e nos restará a pena de toda a justiça.

Provou que o Filho deve ser ouvido, tanto porque em o Filho falou Deus, como nos Profetas, quanto porque o Filho é maior que os Anjos, e isto provou pelas autoridades deles mesmos; agora diz que os mandamentos do Filho devem ser observados, porque não escaparão à pena os que tiverem negligenciado a salvação que lhes foi proposta pelo Filho; o que assim prova: verdadeiramente, se não observarmos o que ouvimos do Filho, nos escoaremos, isto é, seremos punidos, porque, se a palavra dos Anjos, não cumprida, infligiu pena aos que não a observaram, então a salvação do Filho, negligenciada, que é maior que os Anjos, infligirá pena aos negligentes; o que diz assim: *se a palavra*, isto é, a manifestação da vontade de Deus, ou na lei ou nos Profetas, palavra *dita pelos Anjos* — os Anjos, com efeito, ministravam a Moisés a lei e aos demais Profetas tudo o que ensinavam —; se, digo, esta palavra *se tornou firme*, isto é, foi confirmada, como a lei dada a Moisés, por certos milagres, isto é, pelos trovões ali ouvidos, confirmada também por algumas ameaças e promessas; se, digo, a palavra por meio dos Anjos se tornou firme, e por isso *toda prevaricação e desobediência* — chama prevaricação não só omitir o que se manda na lei, mas também fazer contra a lei, como quem é mandado amar o próximo, não só não ama, mas até mata; desobediência diz-se não cumprir o que na lei se manda, ainda que nada se opere contra a lei, como quem é mandado amar e não ama: por isso diz "toda prevaricação e desobediência", e não "todo prevaricador e desobediente", significando que uma só prevaricação ou desobediência não escapa à pena; o prevaricador ou desobediente, porém, pode ser réu de muitas prevaricações ou desobediências —; se, digo, toda prevaricação e desobediência *recebeu justa retribuição de salário*, isto é, salário retribuído — salário (*merces*) diz-se o que, segundo a qualidade do feito, quer seja mal quer bem, se paga; retribuição significa que tanto lhe foi pago quanto mereceu —; retribuição, digo, *justa*, porque Deus, retribuindo assim, age por justiça, e não penseis que seja tão misericordioso que se esqueça da justiça: se, digo, a prevaricação ou desobediência da palavra dita pelos Anjos recebeu salário retribuído, *como escaparemos nós* de nos escoarmos *se negligenciarmos*, não digo se formos prevaricadores, mas (o que é menos) se ao menos negligenciarmos, isto é, desprezarmos entender, não digo a palavra, mas *tão grande salvação*? A palavra de Cristo, com efeito, crida pelos que creem, é causa eficiente da salvação; salvação, digo, tão grande, isto é, indefectível; esta salvação, com efeito, tem princípio quando se remitem os pecados; incremento pela posição das virtudes; consumação na bem-aventurança eterna.

Agora torna-os inescusáveis, de modo que não possam alegar, como remotos, que não ouviram esta salvação, dizendo: *salvação que*, tendo recebido o princípio não de constituição, porque desde a eternidade estava assim disposto que se fizesse, mas *começado a ser anunciada pelo Senhor* dos Anjos, isto é, por Cristo, porque Cristo começou a anunciar esta salvação; então, digo, tendo recebido este princípio, *foi confirmada entre nós*, isto é, entre vós, judeus, *por aqueles que a ouviram* da própria boca de Cristo, a saber, os Apóstolos, cuja justiça e autoridade vos recomendou a firmeza desta salvação; confirmada, digo, *dando Deus testemunho*; os próprios Apóstolos, com efeito, com a sua autoridade a atestavam bastante, mas Deus a testemunhava igualmente com aqueles *sinais e prodígios* — chama sinais, como expulsar doenças, o que a arte médica poderia efetuar; prodígios, porém, os que eram contra a natureza, como abrir os olhos ao cego de nascença, ressuscitar Lázaro; os quais também significavam outra coisa —; *e várias virtudes*, dando testemunho também aqui, significa virtudes verdadeiras, como a justiça, a prudência e semelhantes, que ministrava aos seus fiéis; testemunhando também *por distribuições* do Espírito Santo, a um, com efeito, os gêneros de línguas, a outro as revelações das Escrituras, e aos demais outras graças distribuía: tudo isto feito *segundo a sua vontade*; não considerava, com efeito, o mérito, mas o beneplácito da sua misericórdia.

Disse que os negligentes da salvação de Cristo não escaparão à sua vingança; agora acrescenta que tem poder de vingar contra todos: disse: como escaparemos; e verdadeiramente não escaparemos à vingança os negligentes da salvação do Filho, quando os prevaricadores da palavra dos Anjos foram punidos, porque ao Filho sujeitará o mundo, que não sujeitou aos Anjos (este lugar faz fé a partir do menor); o que assim diz: *Deus Pai não sujeitou aos Anjos o mundo*; pelo ministério deles, sim, muitas coisas se fazem no mundo, mas todas dizem respeito ao império de Deus: o mundo, digo, *futuro*, que será sujeito àquele de quem falamos, a saber, Cristo; ou então: o mundo não o sujeitou aos Anjos, o qual, a saber, para ser sujeito, é futuro àquele de quem falamos, Cristo.

Que o mundo deva ser sujeito a Cristo, prova-o pela autoridade de Davi; que contudo fala desta sujeição futura como de passada, como admitido ao conselho divino, e para provar mais certamente a exaltação de Cristo sobre todas as coisas, antepõe a humildade dele, para que, calada a humildade, afirmando a exaltação, não se duvidasse de que um é o humilhado e outro o exaltado; donde diz: não digo eu só que o mundo deve ser sujeito a Cristo, mas *alguém* também *testemunhou* o mesmo comigo, *dizendo em certo lugar* (Sl 8,5-8); esta autoridade era tão conhecida que não precisava do nome do autor nem do lugar em que estava; estas coisas, digo, testemunha Davi, falando ao Pai: ó Senhor, aquele homem Cristo, *que é* (com admiração) *o homem*, isto é, que grande coisa será; mas quão grande seja, contudo, tudo isto *por teres tu memória dele*, daquele homem: lembrou-se Deus do homem Cristo quando o conservou imune de pecado. Chamo-o homem, ou, para dizer mais expressamente, aquele homem *filho do homem* é grande coisa em que *tu o visitas*; como o médico, para visitar, entra no enfermo, assim Deus visitou Cristo no sepulcro, entrando nele para que ressurgisse incorruptível. Onde diz "filho do homem", mostra que é verdadeiro homem e não nascido da semente de varão, filho *do homem*, não *dos homens*. E assim como conheci a sua Encarnação, assim a sua diminuição; *fizeste-o menor*, ao Filho de Deus em poder, pela natureza assumida de passibilidade e mortalidade; fizeste-o menor, digo, *um pouco*, isto é, menos por pouco, porque, embora mortal, nesta mortalidade mandava contudo aos Anjos; fizeste-o um pouco menor, separado dos Anjos, isto é, daquela dignidade de lugar; Deus, com efeito, feito homem, conversou entre os homens.

Posta a humilhação de Cristo, começa a falar da exaltação, dizendo: *de glória*, isto é, claridade de imortalidade, *e honra o coroaste*, porque diante dele se dobra todo joelho. Diz "coroaste" por semelhança com o vencedor que, voltando do triunfo, recebe a coroa; assim Cristo, triunfada a morte, mereceu ser coroado de glória e honra. *E o constituíste sobre as obras das tuas mãos*, sobre os homens e os Anjos, que propriamente se dizem obras das mãos de Deus; e de tal modo sobre as obras que *tudo sujeitaste debaixo dos seus pés*, isto é, a ele com plena sujeição; poderia, com efeito, ser superior em dignidade sem que contudo as inferiores lhe estivessem obnóxias por alguma sujeição.

Agora Paulo expõe como se deva entender o que diz Davi, "tudo sujeitaste", dizendo: diz Davi, tudo sujeitaste; *no que a Escritura sujeitou*, isto é, mostrou sujeitas a ele todas as coisas, *nada deixou que não lhe esteja sujeito*, porque, onde diz "tudo", nada exceta. Se, com efeito, "se tem", liga-se acima: digo bem que o mundo será sujeito a Cristo, porque ao sujeitar-lhe tudo, nada deixou que não lhe esteja sujeito. E embora tenha dito "tudo sujeitaste", *agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja sujeito*, razão por que dizia "futuro sujeito a ele"; hoje, com efeito, algo é sujeito, mas ainda não tudo, amanhã de novo algo, e ainda não tudo; e este "ainda não" poderá dizer-se até que no juízo também sejam sujeitos a ele os ímpios.

Alguém objetaria: assim como ainda não foram sujeitas, assim também nem eternamente serão sujeitas. A isto Paulo: embora ainda não lhe estejam sujeitas todas as coisas, contudo, porque vemos nele cumprida parte da profecia, a saber, coroado de glória e honra, estamos certos de que a parte que resta a cumprir, a saber, que lhe sejam sujeitas todas as coisas; o que diz assim: aquele que foi *feito um pouco menor*, isto é, por pouco menos *que os Anjos*; poderia, com efeito, diminuir-se do que era e contudo permanecer maior que os Anjos, [por isso] diz "feito menor que os Anjos"; a ele, digo, *vemos agora, Jesus*, isto é, o que salva os seus, *coroado de glória e honra*, isto é, de claridade de imortalidade e de que todo joelho se dobre diante dele; coroado, digo, não sem mérito, mas *por causa da paixão*, paixão não de qualquer modo tolerável, mas *paixão da morte.*

Aqui começa já a mostrar que os mandamentos de Cristo devem ser observados não só por causa do poder e da vingança, mas (para omitir aquelas) por causa da dileção com que nos amou tanto que, para a nossa salvação, escolheu a morte: diminuído, por isso, *para que provasse a morte em favor de todos* os predestinados, ou então, em favor de todos universalmente; o preço, com efeito, foi dado a todos, suficiente, se quiserem — diz "provasse" por causa da amargura da morte, que interiormente lhe soou amarga; ou então, "provasse", porque aquela morte logo passada foi como em prova, não embriagando por demora —; provasse, digo, e isto *pela graça*, isto é, pela graça de Deus, o homem não o havia, com efeito, merecido. Para que provasse a morte por todos, *porque convinha a ele*, isto é, a Deus Pai, *por causa de quem*, para ser glorificado, *são todas as coisas, e por quem são todas as coisas*; a ele, digo, que *conduzira*, isto é, predestinara a conduzir, *muitos filhos*, isto é, homens justificados, *à glória*, isto é, à salvação; a ele, digo, convinha *consumar pela paixão o autor da salvação desses filhos*, a saber, Cristo, da morte, como prometeu; em vão, com efeito, teriam sido feitas todas as coisas, se o homem não redimido perecesse: toda criatura terrena, com efeito, serve ao homem, para que o homem tenha nelas matéria de louvar a Deus; se o homem, porém, não fosse salvo, a disposição de Deus seria frustrada, ele que fez todas as coisas para ser glorificado, quando em nada seria glorificado, condenado o homem: e como todas as coisas foram feitas por causa de Deus a glorificar e por Deus, convinha que o seu conselho se cumprisse, para ser glorificado nas criaturas, para que não fosse absurdo não prover à salvação aquelas que fizera. A consumação de Cristo começa na Ressurreição, devendo ter a perfeição no dia do juízo, quando todas as coisas lhe serão sujeitas.

Prova que convinha consumar Cristo pelos sofrimentos, porque diriam eles que era bastante inconveniente que quem era autor da salvação, a quem todas as coisas deviam ser sujeitas, fosse deposto nas ignomínias da Paixão; donde diz: verdadeiramente não desconvinha consumá-lo assim, porque *tanto o que santifica* os predestinados à glória, isto é, Cristo, *quanto os que são santificados*, isto é, os predestinados, *todos vêm de um só*, isto é, de Deus Pai; assim, com efeito, o homem Cristo está sujeito ao poder de Deus, como os que por ele são salvos; e, dependendo Cristo de Deus, não desconvinha que dispusesse dele como lhe aprouve.

Prova pelas autoridades que o que santifica e os santificados dependem de um só, dizendo: *por esta causa*, porque o que santifica e os santificados vêm de um só, por isso, digo, *não se envergonha*, isto é, não se pejou Cristo de os chamar irmãos, dizendo no salmo: *anunciarei o teu nome*, isto é, a tua honorificência, *aos meus irmãos, e te louvarei*, posto *no meio da assembleia* (Sl 21,23), como coluna que sustenta e escora a casa, para que nada nela caia. E de novo prova o mesmo pela autoridade de Isaías, que fala na pessoa de Cristo, assim: eu, Cristo, *terei confiança nele*<sup>[1]</sup>, isto é, em Deus Pai; e, dizendo-se confiar em Deus, aparece que, como os outros, depende de Deus. E de novo prova que o que santifica e os santificados vêm de um só, dizendo em Isaías: *eis-me aqui*, eu, Cristo, pronto ao obséquio de Deus, *e os filhos que Deus me deu* (Is 8,18). Onde diz "eis-me aqui" e "Deus me deu", mostra que depende de Deus.

Provou que não desconvinha; conclui agora que convinha que Cristo, pela Paixão, fosse autor da salvação dos homens, dizendo: porque Cristo, que santifica, e os homens, que são santificados, vêm de um só, *portanto Cristo participou igualmente das mesmas coisas* dos homens, para se tornar passível e mortal. E por que o que santifica participou delas? Por isso, *porque os filhos* que santificava *participam da carne e do sangue*, isto é, do corpo e da alma — pelo sangue, com efeito, recebe a alma, não que seja a alma, mas porque é sede da alma —; participar da carne e do sangue diz que são verdadeiros homens. E por que Cristo por isso participou da humanidade? Porque os filhos que santificava eram homens; a saber, *para que pela morte* sofrida pela salvação dos filhos *destruísse aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo*, que mandava pela lei da morte a todo homem; se não fosse pela morte, com efeito, não poderia destruir a morte; não poderia morrer, porém, se não se fizesse homem, e por isso convinha que participasse igualmente das mesmas coisas. Deus, com efeito, criou o primeiro homem puro e em liberdade, a quem o diabo, seduzido (porque transgrediu o império de Deus), submeteu ao seu império como servo; o homem, porém, corrompido pelo pecado, por nenhuma virtude pôde escapar a esta servidão; ora, tendo o homem sido feito servo por si, se fosse libertado por outro que não por um homem, seria violência, e o diabo reclamaria com justiça que se lhe fazia injúria; por isso, para que o homem fosse redimido, convinha achar um homem em quem não houvesse pecado, para que o diabo, usurpando para si poder naquele em quem, por não haver pecado, não tinha nenhum, por infligir ao homem sem pecado a morte, que é pena do pecado, usurpando o que não era seu, justamente por esta presunção perdesse todo homem que justamente possuíra. Homem sem pecado, porém, não podia achar-se entre os homens, porque todos nasceram em concupiscência; se, porém, como alguns objetam, a natureza angélica se encarnasse, como tanto o Anjo como o homem têm na natureza o poder de pecar, facilmente cairia, consta que ambas as naturezas caíram por si. Assim fica que a natureza humana de modo algum pode subsistir sem pecado, a não ser que a Divindade se lhe una. Por isso também, como dizem os santos, Deus quis fazer-se homem para tornar por isso os homens mais obnóxios à dileção.

Mostra que Cristo não só pela morte destruiu o império da morte, mas também pelo mérito da sua morte esvaziou a lei, que mantivera os judeus em servidão; donde diz: *para que pela morte destruísse o diabo*, e para que pela morte libertasse *aqueles* judeus, a quem era este discurso, *que durante toda a vida, pelo temor da morte, estavam sujeitos à servidão*, isto é, à lei, que os coagia como a servos, dizendo: se fizeres isto, morrerás de morte; mas Cristo, não querendo que servísseis por temor da morte, esvaziou a lei, para que, como antes temíeis como servos, assim agora por graça, livres, amásseis.

Verdadeiramente participou igualmente para santificar os homens; *pois nunca tomou*, isto é, em Escritura alguma se lê ter tomado, *os Anjos*, isto é, a natureza angélica, para redimir os Anjos, *mas tomou*, isto é, lê-se ter tomado, *a descendência de Abraão*, assumindo carne de Abraão, para salvar os que pela fé são descendência de Abraão. Donde, *porque tomou a descendência de Abraão, devia assemelhar-se em tudo aos irmãos*, feito passível e mortal, *para ser misericordioso*, o que era na natureza, pela exibição da obra, *e pontífice*, isto é, feito para nós ponte (*pons*) pela qual passemos a Deus; pontífice, digo, *fiel*, porque nem dos que conduzia, nem de Deus a quem entregava, buscou prêmios da sua condução: assemelhar-se também *para expiar*, isto é, perdoando remitir *os pecados do povo*. E verdadeiramente é poderoso para expiar os pecados do povo; pois *naquilo*, isto é, na substância inferior dele em que ele mesmo padeceu sob Pilatos, *tentado* pelo diabo, *pode ele mesmo socorrer os que são tentados* e livrar das tentações.

## Notas

<sup>[1]</sup> Estas palavras não se acham em parte alguma de Isaías, segundo a edição vulgata da Sagrada Bíblia, e muitos intérpretes pensam que foram tomadas do Salmo 16. Diz, contudo, bem São Bruno que este testemunho é tirado de Isaías; pois, no cap. 8, 17, onde nós lemos «esperarei nele», os Setenta traduzem *pepoithòs ésomai ep' autô*; palavras que aqui cita o Apóstolo.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celeste, considerai o Apóstolo e Pontífice da nossa confissão, Jesus, que é fiel àquele que o fez, como também Moisés em toda a sua casa. Pois este foi julgado digno de maior glória que Moisés, quanto maior honra tem a casa aquele que a edificou. Toda casa, com efeito, é edificada por alguém; mas aquele que criou todas as coisas é Deus. E Moisés foi fiel em toda a sua casa como servo, em testemunho das coisas que haviam de ser ditas; Cristo, porém, como Filho na sua casa; casa que somos nós, se retivermos firme até o fim a confiança e a glória da esperança. Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na exasperação, no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram, puseram à prova e viram as minhas obras durante quarenta anos; por isso me indignei contra esta geração e disse: Sempre erram no coração. Eles, porém, não conheceram os meus caminhos, de modo que jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso. Vede, irmãos, que não haja em algum de vós um coração mau de incredulidade, que se afaste do Deus vivo; mas exortai-vos uns aos outros cada dia, enquanto se diz "Hoje", para que nenhum de vós se endureça pela sedução do pecado. Pois nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firme até o fim o princípio da sua substância, enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como naquela exasperação. Alguns, com efeito, ouvindo, o exasperaram; mas não todos os que saíram do Egito por Moisés. E contra quem se indignou durante quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos cadáveres ficaram prostrados no deserto? E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram incrédulos? E vemos que não puderam entrar por causa da incredulidade.

## Comentário

Das coisas anteriores infere: que Cristo deve ser temido por vingança e poder, e de novo deve ser amado por vós pela dileção com que provou a morte por vós, porque é poderoso e está pronto a socorrer os tentados; *por isso*, isto é, por tudo isto, ó *irmãos santos*, feitos *participantes da vocação celeste*; fostes, com efeito, chamados a participar dos bens celestes; vós, digo, amando e operando o que ele preceitua, *considerai Jesus*, isto é, o Salvador, *Apóstolo* que o Pai enviou a vós, *e Pontífice*, isto é, feito para nós ponte pela qual passemos à glória; Jesus, Pontífice *da nossa confissão*, porque, o que quer que outros façam, nós o confessamos pela fé nosso Salvador.

Comparou Jesus aos Profetas, comparou-o aos Anjos, de modo a mostrá-lo maior que todos eles; agora compara-o a Moisés, de modo de novo a afirmá-lo mais digno que Moisés quanto o filho é mais digno que o servo dispensador; donde diz: considerai Jesus, o qual Jesus *é fiel àquele*, isto é, a Deus Pai, *que o fez*, isto é, que uniu ao Filho a feitura humana; fiel, porque sempre buscou não a sua glória, mas a do Pai, nem aterrado pelo temor, nem seduzido pelo amor, ocultou os mandamentos do Pai; fiel, digo, *àquele, como também Moisés foi fiel em toda a casa* daquele Jesus, ou de Deus Pai, na qual Moisés não era senhor, mas ministro. *Em toda*, porque em tudo o que era necessário, tanto no ensinar como no apascentar e no conduzir, fielmente nutria aquela casa, isto é, o povo dos judeus. Ou construamos assim: Jesus é fiel a Deus, como Moisés foi fiel; Jesus, digo, fiel em toda a casa dele, tanto nos judeus como nos gentios, não numa casa só, como Moisés nos judeus. Aquele "como" nota só semelhança, não quantidade.

Prova pelo efeito o que diz: verdadeiramente Jesus é fiel, como Moisés; pois *Jesus foi julgado digno*; este, digo, Jesus, que como Filho excede muito o ministro, é digno de glória, como Moisés, e ainda *de maior glória que Moisés*, isto é, mais que Moisés, ou então, existente acima de Moisés no merecer: tanto maior certamente *quanto maior honra tem a casa*, isto é, na casa, entre aqueles a saber que estão na casa, ou então, da casa, isto é, a respeito da casa edificada, *aquele que a edificou*; maior, digo, que aquele que é dispensador nela.

Agora restam duas coisas a provar: que a casa não foi edificada por si, mas por outro, e que Cristo a edificou — tudo isto, porém, deve entender-se da casa espiritual; muitas vezes aconteceu, com efeito, que nas nossas casas era mais honrado quem nelas ministrava do que aquele de quem era a casa —; como se dissesse: digo bem "aquele que a edificou", por si, com efeito, não pode edificar-se; *toda casa, com efeito, é edificada por alguém.* A isto ele: se por alguém, não contudo por Deus. A isto Paulo: verdadeiramente a casa é edificada por Deus; *pois aquele que criou todas as coisas é Deus*: se criou todas as coisas, consta que também a casa; e, porque a edificou, segue-se que é tido de maior glória nela do que quem só ministra na casa. Por isso, porque edificou a casa em que Moisés dispensou, foi por isso julgado digno acima de Moisés. Por isso também é de maior glória, porque *Moisés* é, sim, *servo* em casa não sua; *Cristo, porém, como Filho na sua casa* ("sim" e "porém" são conjunções distributivas); *Moisés foi fiel em toda a casa dele*, a saber, de Deus Pai, ou de Cristo, *como servo*, porque apenas servia nela; o servo, porém, que hoje está na casa, amanhã talvez será expulso, nunca será tão fiel como o filho que há de possuir a casa por herança. Moisés, como servo, estava *em testemunho das coisas*, isto é, para que apenas testemunhasse essas coisas, não para poder dar a graça auxiliadora para operar os mandamentos; coisas, digo, *que haviam de ser ditas*, isto é, que convinha dizer àquele povo carnal, que não podia apreender as espirituais. Moisés, como servo, em casa não sua; Cristo, porém, era assim fiel como filho, a quem aquela casa estava reservada por herança; filho, digo, em casa não de outro, mas sua: *casa que somos nós*, renascidos por graça; com esta condição, digo, somos casa, *se retivermos a confiança da esperança*, isto é, a esperança da bem-aventurança futura com confiança, para que confiadamente esperemos, *e a glória da esperança*, isto é, a esperança gloriosa, porque da jucundidade celeste; retenhamos, digo, a confiança da esperança *firme*, isto é, perdurante *até o fim* da vida, quando receberemos o que agora esperamos.

*Por isso*, porque, retendo a confiança e a glória da esperança, somos casa de Cristo, por isto *vede, irmãos*, que não haja, o que pode acontecer, *em algum de vós* — diz "em algum" porque sabia que na Igreja podia haver muitos perfeitos —; que não haja, digo, em algum de vós *um coração* de incredulidade, de modo que sejais incrédulos, julgando que Cristo não basta para a justificação, mas que a lei é necessária; coração, digo, *mau de incredulidade*, isto é, precipitado em muitos males; desde que alguém é incrédulo, com efeito, precipita-se no ato do pecado: nem pouco prejudica o coração de incredulidade, que é *ter coração de se afastar de Deus*; e mal para vós se vos afastais de Deus, porque do Deus, digo, *vivo*, de quem quem se afasta perde a vida, quem a ele se aproxima acha a vida. Vede que não haja em algum coração de incredulidade, o que eu proíbo, como, proibindo o mesmo, diz o Espírito Santo em Davi com estas palavras (Sl 94,8-11): *Hoje*, isto é, no tempo da graça — assim, com efeito, falava Davi, como presente em espírito nos dias de Cristo; por "hoje", porém, entende-se todo o tempo da graça, de Cristo até o fim do mundo —; hoje, digo, nos dias de Cristo, *não endureçais os vossos corações, se ouvirdes a sua voz*, como na verdade ouvireis (o "se" é afirmativo); *não endureçais o coração*, agindo *como na exasperação*, isto é, como muitas vezes, exasperando-me, fizeram os vossos pais. De muitas exasperações recolhe uma, dizendo: não endureçais *segundo o dia*, isto é, como eles se endureceram *no dia da tentação*, quando me tentaram, dizendo: «Porventura poderá este preparar mesa ao seu povo?» (Sl 77,19); tentação, digo, feita *no deserto*, onde mais deveriam ter recorrido ao auxílio de Deus do que provocá-lo pela tentação. Vós, porém, postos no deserto deste mundo, vede que não irriteis a Deus pelas tentações, *onde*, isto é, em que deserto, *vossos pais me tentaram*: vede se são pais segundo a carne, que não o sejam segundo a imitação. Tentaram-me, digo, *e puseram à prova*, isto é, acharam-me provado; *e viram* com efeito *as minhas obras durante quarenta anos*, nos quais experimentaram que posso tudo. *Por isso*, a saber, porque me tentaram, *indignei-me*, isto é, irei-me contra esta tão péssima geração, *e disse* deles: Estes *sempre erram*, e isto *no coração*, isto é, por própria deliberação, porque pecam seriamente, podendo e sabendo agir retamente. E embora assim lhes dissesse, *eles, porém, não conheceram os meus caminhos*, isto é, não quiseram conhecer as minhas obras em que deveriam andar; *mas porque não conheceram, jurei na minha ira*: se eles entrarem no meu repouso, que lhes tinha prometido. Defeito de oração, para que se entenda qualquer inconveniente, como se dissesse: se entrarem, ninguém mais me creia, ou qualquer coisa semelhante. Aquele "se" dizem alguns que é como "não", atendendo à força da sentença, não da palavra. Se entrarem, digo, como eu jurei, isto é, firmemente estabeleci que não entrarão; jurei certamente *na minha ira*, isto é, quando estava irado com eles: o que ambos, tanto a ira como o juramento, lhes tira o entrar no repouso. Se alguns houver ali, permanece na mesma sentença, assim: se entrarem no meu repouso aqueles a quem na minha ira jurei que não entrariam no repouso.

E porque, irmãos, por causa do coração endurecido na incredulidade foi negado o repouso a vossos pais, por isso, *irmãos, vede que não haja em algum de vós um coração mau de incredulidade, que se afaste do Deus vivo*, como foi exposto; que não sejais, digo, incrédulos, mas *exortai-vos uns aos outros* sobre o incremento das virtudes, dizendo *cada dia*: Vinde, exultemos, etc., *enquanto se diz "hoje"*, isto é, enquanto se chama em vós "hoje", isto é, o tempo da graça — diz "chama-se" para que, remotos dos dias de Cristo, não julgassem que Cristo lhes conferia menos do que aos contemporâneos —; hoje, digo, chama-se, porque esta graça, que também aos últimos é dada, é aparentada à graça dada nos dias de Cristo, valendo tanto aos posteriores quanto aos primitivos. Exortai-vos, digo, *para que nenhum de vós se endureça pela sedução*; sabei, com efeito, que o diabo vos seduz, se porventura vos endureceis; sedução, digo, causa do pecado, porque, depois que alguém é enganado, mais e mais daí se precipita no pecado.

Deveis exortar-vos e não endurecer; porque, o que não éramos, *nos tornamos por graça participantes de Cristo*, isto é, tomando parte com Cristo na herança do Pai: com esta condição, digo, participantes, *se retivermos firme até o fim* da vida, de modo que nunca abandonemos *o princípio da sua substância*, isto é, a fé, que é o princípio dos bens, e pela qual já somos deificados e de certo modo participamos da substância divina: retenhamos, digo, *enquanto* (isto é, durante o tempo em que) *se diz* em nós: hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, *como vossos pais endureceram naquela exasperação* mencionada. Digo bem "na exasperação", *alguns, com efeito, deles, ouvindo* os mandamentos do Senhor, *exasperaram* a Deus; *mas não todos os que saíram do Egito por Moisés*, isto é, pela condução de Moisés, exasperaram a Deus, porque nem Caleb nem Josué: semelhantemente também vós, saídos do Egito por Moisés, isto é, das trevas da infidelidade por Cristo, que vos consagra a água da remissão, não exaspereis a Deus.

Verdadeiramente alguns exasperaram; porque *contra quem se indignou Deus durante quarenta anos*, não foi contra os que pecaram, e não impunemente (para que não vos prometais impunidade), *porque os cadáveres* desses pecadores *ficaram prostrados no deserto*? Contra esses certamente se indignou Deus. De novo ao mesmo: *a quem*, porém, *jurou Deus que não entrariam no seu repouso*, isto é, na Jerusalém celeste, onde está o verdadeiro repouso, *senão aos que foram incrédulos* e nas palavras do Senhor não tiveram fé? A eles, prostrados por pecado, assim como tirou a terra da promessa, também o verdadeiro repouso que era significado por aquela terra. Vede, portanto, que vós, incrédulos (o que certamente sois se reconduzis a lei como necessária à fé, não crendo que Deus possa justificar), por incredulidade não entreis no repouso: Deus jurou, sim, que eles não entrariam no repouso; e como jurou, vemos cumprido; *porque não puderam entrar no repouso por causa da sua incredulidade.*

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Temamos, pois, que, tendo ficado a promessa de entrar no seu repouso, alguém de vós pareça ficar para trás. Pois também a nós foi anunciado, como a eles; mas não lhes aproveitou a palavra ouvida, por não ter sido unida pela fé ao que ouviram. Entraremos, com efeito, no repouso, nós que cremos; como disse: Assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso; e isto estando as obras acabadas desde a fundação do mundo. Pois disse em certo lugar do sétimo dia: E repousou Deus no sétimo dia de todas as suas obras. E neste lugar novamente: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele, e aqueles a quem primeiro foi anunciado não entraram por causa da incredulidade, de novo fixa um certo dia, "hoje", em Davi, dizendo, depois de tanto tempo, como acima foi dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações. Pois, se Josué lhes tivesse dado o repouso, não falaria depois de outro dia. Resta, portanto, um sabatismo para o povo de Deus. Pois quem entrou no seu repouso, também ele repousou das suas obras, como Deus das suas. Apressemo-nos, pois, a entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de incredulidade. Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes; e atinge até a divisão da alma e do espírito, das juntas também e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura invisível na sua presença; todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos, àquele a quem prestamos contas. Tendo, pois, um grande Pontífice que penetrou os céus, Jesus Filho de Deus, mantenhamos a confissão. Pois não temos um Pontífice que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas tentado em tudo à nossa semelhança, sem pecado. Cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça, para alcançarmos misericórdia e acharmos graça em socorro oportuno.

## Comentário

E porque, por causa da incredulidade, não puderam entrar no repouso, *temamos, pois*, que alguém de nós *pareça*, segundo a verdade, *ficar para trás* daquele repouso. Mas antepõe a possibilidade de entrar a nós concedida, dizendo: temamos, digo, que, *tendo ficado a promessa*, isto é, a frequente promessa *de entrar no seu repouso*, a saber, de Deus, donde consta que temos faculdade de entrar; que, digo, deixada esta por incredulidade, pareça alguém de nós faltar ao repouso. Digo bem "promessa"; pois *também a nós foi anunciado, como a eles*, que pela fé se pode entrar no repouso: a eles foi anunciado, sim, mas contudo *não lhes aproveitou a palavra ouvida* da anunciação, só ouvida e *não unida pela fé*, de modo que cressem nos que ouviam de Deus; fé, digo, recebida *do que ouviram*, para que, como ouviam, assim cressem que Deus cumpriria. Ou assim: a palavra ouvida e não unida pela fé, *por aquelas coisas*, isto é, por causa do que ouviram daqueles exploradores que voltaram, não lhes aproveitou. Segundo esta sentença, remete-nos à história, quando os doze exploradores enviados por Moisés, voltando, aterraram os filhos de Israel, dizendo que a terra era, sim, frutífera, mas que ali estavam os filhos de Enac, de estatura gigantesca, diante dos quais não poderiam permanecer; ouvidas estas e semelhantes coisas, disseram: «Façamos para nós um chefe e voltemos ao Egito» (Nm 14,4), exasperando a Deus na incredulidade.

Verdadeiramente a palavra só ouvida, porque não foi unida pela fé, não lhes aproveitou; pois, porque em nós é unida pela fé, aproveitará a nós (lugar dos contrários); o que assim diz: *nós que cremos*, isto é, que unimos pela fé o ouvido, *entraremos* no verdadeiro repouso, cuja figura e verdade eles, por incrédulos, perderam; nós, digo, entraremos, *como disse* que nós, pela fé, entraríamos, onde diz: *assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso.* E isto dizer foi por contrário, porque onde disse que eles, por incredulidade, não entrariam no repouso, aí mesmo, por contrário, disse que nós, porque cremos, entraremos no repouso. Ou atribuamos cada coisa a cada um: a nós foi anunciado sobre aquele repouso, porque nós, que cremos, entraremos no repouso; a eles não aproveitou a palavra só ouvida, *como disse: assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso.*

Disse acima: vede que não haja em algum de vós coração de incredulidade, porque por incredulidade não entraram no repouso prometido, do qual repouso vos foi anunciado que, se tiverdes fé, podeis alcançar este repouso; de que modos e em que tempos foi anunciado acrescenta, mostrando que duas anunciações deste repouso foram feitas em figura, porque ninguém ainda podia alcançar aquele repouso; cuja terceira anunciação foi feita não em figura, mas na própria verdade, quando já podia alcançar-se e se alcançava o próprio repouso, a saber, nos dias da graça. A letra liga-se assim: sobre aquele repouso foi-nos certamente anunciado; *pois* neste lugar, naquele e em outro; donde diz: anunciado nos foi, sim, sobre o repouso; *e isto* — o "e" significa as diversidades dos lugares onde se trata do repouso; o "sim" a distinção de tempo, porque o tempo em que primeiro foi anunciado este repouso, a saber, a constituição do mundo, distava muito do tempo do cumprimento, a saber, dos dias de Cristo —; *estando as obras acabadas*, começando *desde a fundação do mundo*, foi-nos anunciado sobre aquele repouso. Feito o homem, dizem-se acabadas as obras de Deus, quando toda a criação do mundo foi por causa do homem: se faltasse o homem, cabeça das criaturas, imperfeitas seriam todas as coisas criadas por causa do homem; e porque poderiam, segundo a opinião de alguns, ser acabadas e consumadas por Deus e não ter princípio em Deus, por isso diz, tomando-o *desde a fundação do mundo.*

Verdadeiramente, acabadas as obras, foi-nos anunciado; *disse*, com efeito, a Escritura, ou Moisés, *em certo lugar do sétimo dia* assim. Por isso, não determinando o lugar, diz "em certo lugar", porque tanto este lugar da Escritura lhes era bastante conhecido, quanto porque este lugar era distinto e egrégio, onde se tratava da salvação; distinto, digo, em dignidade daqueles onde se trata de imolar um touro. Ou, se ali não houver "com efeito", nada convém repetir, mas digamos: acabadas as obras, *disse em certo lugar do sétimo dia* assim. O "e" que segue tem força na ordem da letra de onde foi tomado, como se dissesse: isto e isto fez Deus; e, feitas estas coisas, repousou no sétimo dia. Não se diz que Deus repousou como quem fosse vexado por algum trabalho, mas para por isso significar o repouso futuro. Diz *repousou Deus*, isto é, cessou *de todas as suas obras*, que nada depois operaria cuja matéria ou semelhança na primeira criação não tivesse precedido; matéria nas coisas corpóreas, semelhança nas incorpóreas, como nas almas. Logo, na sexta-feira, feito o homem, repousou no sábado, como se por isso dissesse ao homem: se me fores obediente, este mesmo repouso, cumprida a obediência, está-te preparado. Onde diz "repousou no sétimo dia", assim se anunciou sobre o repouso, de modo que se esperasse tanto a figura do repouso, a saber, a terra da promessa, quanto a verdade da figura nos dias de Cristo, antes do qual ninguém teve o verdadeiro repouso.

Como no lugar mencionado, assim também *neste*, novamente, foi anunciado, ou, diz a Escritura sobre aquele repouso — onde diz "novamente", significa que foi dito do mesmo —; assim, digo, foi anunciado: *se entrarem no meu repouso*; onde, com efeito, dizendo isto negava o repouso aos incrédulos, significava que havia um repouso a ser possuído pelos fiéis. Esta Escritura, porém, acha-se em Davi, que já não podia profetizar sobre a figura, isto é, sobre aquela terra da promessa, que os filhos de Israel já havia muito tempo possuíam; e assim segundo Davi esta profecia era não da figura que já se tinha, mas da verdade da coisa que em Cristo se esperava: segundo Moisés, porém, que dizia isto mesmo aos filhos de Israel, a profecia era tanto da figura ainda não tida como da verdade a receber em Cristo.

Premissadas sobre o mesmo repouso duas anunciações em figuras, acrescenta a terceira segundo a verdade do cumprimento, dizendo: porque deste e daquele modo foi anunciado sobre aquele repouso, *portanto, para que se cumprissem as coisas ditas, fixa de novo*, tratando do mesmo repouso, *um certo dia* o Espírito Santo, *dizendo "hoje", em Davi* — chama este dia certo, isto é, distinto e que excede todos os que foram antes, porque neste dia se cumpre a salvação, que nos dias passados só pôde ser anunciada, nunca cumprida —; *dizendo "hoje" em Davi, depois de tanto tempo*; muito tempo, com efeito, havia passado desde Josué, que distribuiu a terra da promessa aos judeus, até o dia de Davi; donde aparece que Davi entendeu outro repouso futuro que não aquela terra que já havia muito possuíam: dizendo, digo, "hoje", *como acima foi dito* ali: *hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações*; porque, assim como os primeiros pais, por incredulidade, perderam até a figura, assim também vós, se fordes incrédulos, não possuireis o verdadeiro repouso. *Depois de tanto tempo* fixa por isso, *visto que resta*, isto é, ainda resta que alguns entrem naquele repouso; por isso também diz "não endureçais os corações", porque aqueles a quem primeiro foi anunciado sobre o repouso, *por causa da incredulidade* deles, nem sequer entraram na figura, quanto menos na própria verdade. Ou assim, permanecendo a mesma sentença: porque assim e assim foi prometido aquele repouso; logo, para que se cumpram as promessas, resta que alguns entrem naquele repouso; e visto que resta que alguns entrem, por isso fixa de novo um certo dia, depois de tanto tempo, dizendo "hoje", em Davi; e visto que aqueles a quem primeiro foi anunciado sobre aquele repouso, por incredulidade, não entraram nele, por isso: hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como acima foi dito a vossos pais.

Verdadeiramente resta que alguns entrem naquela terra; pois (como falsamente alguns pensam) *Jesus*, isto é, Josué, *não lhes deu aquele repouso*; se, com efeito, este Jesus, isto é, Josué, lhes tivesse dado este repouso, nunca Davi falaria de outro repouso, muito depois de Josué, dizendo "neste dia", isto é, "hoje"; ou então: nunca Davi falaria *de outro dia depois*, isto é, se tivesse entendido que por Josué fora distribuído o verdadeiro repouso. Assuma-se assim: mas Jesus (Josué) não lhes deu o verdadeiro repouso; e porque foi prometido e ainda não dado, *portanto*, só isto das premissas resta, a saber, *um sabatismo para o povo de Deus* — sabatismo diz-se jucundidade, e aquela deleitação que se faz no sábado significando a jucundidade do verdadeiro Sábado —: e digo bem "sabatismo"; pois *quem entrou no seu repouso*, seja Abraão ou qualquer santo, achou este sabatismo; o que assim diz: não só Cristo, mas também aquele que entrou *repousou das suas obras*, isto é, de todo trabalho, *como Deus das suas*: o repouso, com efeito, do Senhor foi sinal e causa do nosso repouso; Deus, com efeito, fez o homem no sexto dia, veio redimir na sexta idade, no sexto dia, e na sexta hora do mesmo dia o redimiu, repousando no sábado no sepulcro, significando que [nós] repousaríamos com ele no Sábado eterno.

E porque o repouso é reservado ao povo de Deus, e quem quer que entra nele, como Deus, assim repousa; *apressemo-nos*, pois, bem operando e sanamente crendo, *a entrar naquele repouso.* Apressemo-nos de modo que *ninguém de nós caia no mesmo exemplo de incredulidade*, isto é, na mesma incredulidade em que caíram nossos pais; nós, digo, ofendendo agora mais gravemente, porque os temos como exemplo para nos acautelarmos, eles caíram sem exemplo precedente. Convém-nos apressar ao repouso e não cair na incredulidade, porque *a palavra de Deus*, isto é, o Verbo do Pai, segundo aquilo: «Onipotente, a tua palavra, Senhor, vem das sedes reais» (Sb 18,15), esta, digo, palavra de Deus é *viva*, isto é, tendo vida e ministrando vida aos seus: e, sendo viva, é também *eficaz*, isto é, fazendo o que quer, remunerando os piedosos, condenando os ímpios: e, tendo tanto poder, não tem menor sabedoria; é, com efeito, *mais penetrante que qualquer espada*, isto é, que qualquer engenho humano, o qual, porque penetra as coisas ocultas, se diz espada que perfura o interior; espada, digo, *de dois gumes*, porque, assim como a espada de dois gumes, que se segura no meio, fere à frente e atrás, assim o engenho humano entende tanto da sabedoria espiritual como da ciência humana. A palavra de Deus também *atinge até a divisão da alma e do espírito*, porque sabe bem discernir o que é da alma, isto é, da sensualidade, e o que é do espírito, isto é, da razão: discerne também os próprios atos da sensualidade entre si e as disposições; porque por vezes a sensualidade arrasta consigo a razão ao pecado, ora, operando bem, consente ao espírito: sabe discernir também o que é do espírito entre si, como ora repugne à sensualidade, por vezes consinta, por vezes a force a operar bem consigo; *atinge até a divisão das juntas*, ou, o que vale o mesmo, é também discernidor das juntas da alma e do espírito; porque conhece a série compactada em certa ordem, ora na sensualidade, ora no espírito, como quando a sensualidade deixa de obrar mal e depois, operando bem, consente ao espírito; e assim gradualmente sobe também o espírito: primeiro começa a operar bem, depois contemplar aquelas coisas celestes, passando das celestes, fixa o olho no próprio Deus: é também discernidor *das medulas*, isto é, de toda a sutileza da alma e do espírito; porque nenhuma sutileza lhe pode ficar oculta: é também discernidor *de todos os pensamentos*, porque conhece tudo o que o homem pensa; e não só dos pensamentos, mas também *discernidor das intenções do coração*, porque conhece tudo o que por pensamentos pretende: e, para compreender brevemente a sua sabedoria, *não há criatura invisível*, isto é, que não apareça *na sua presença*, que é tão grande que compreende todas as coisas ao mesmo tempo: e, sendo a palavra de Deus tão eficaz que tem o poder de efetuar o que quer, e sendo tão sábia, bem poderá e saberá o que a cada um deve retribuir. Na sua presença nenhuma criatura invisível, mas *todas as coisas estão nuas*, isto é, reveladas, e (o que é mais) até interiormente *abertas aos olhos*, isto é, à perspicácia dele; *a quem*, tão poderoso, que tão sutilmente tudo vê, *prestamos contas*; a ele, com efeito, havemos de prestar conta de cada coisa. Apressai-vos, pois, a ele, deixado o mal da incredulidade.

Comparou, sim, Jesus, e mostrou-o maior que os Profetas e os Anjos, dizendo-o Filho de Deus, mas como nele pendesse toda a salvação dos homens ainda não dissera; ao que poderiam objetar: que nos aproveita se o Filho de Deus é maior que os Anjos, quando Deus não dispôs nele que nos salvássemos? A isto responde Paulo, dizendo que nele Deus propôs toda a salvação, destruindo pelo sacerdócio de Cristo o sacerdócio levítico e, pela graça de Cristo, o inútil peso da lei antiga. A letra liga-se assim: porque a este tão poderoso, tão sábio, *prestamos contas*, *mantenhamos*, pois, *a confissão* da nossa esperança, isto é, a fé pela qual nos é concedido esperar a glória futura; mantenhamos, digo, *tendo um Pontífice* que se fez para nós ponte para a salvação; Pontífice, digo, *grande*, muito acima de todos os levíticos; este nosso Pontífice *penetrou os céus* na sublimidade do poder; aos sacerdotes de Levi, porém, era lícito entrar uma vez por ano no Santo dos Santos, onde contudo só havia coisas feitas por mãos; este, porém, potencialmente, penetrados os céus, está sentado à direita do Pai: este Pontífice, digo, *Jesus*, isto é, nosso Salvador e poderoso para salvar, porque *Filho de Deus.* Nós, tendo tal Pontífice, mantenhamos a confissão da nossa esperança.

De novo, para que, pela grandeza de Jesus, os irmãos fracos não desesperassem, dizendo: porque é Filho de Deus, porque penetrou os céus, nunca se dignará condescender com as nossas fraquezas, diz Paulo: mantenhamos a confissão sem desconfiança; *porque não temos um Pontífice* que, embora seja Filho de Deus, *não possa compadecer-se e condescender com as nossas fraquezas*, tanto segundo a fragilidade da natureza como também com os caídos; mas temos um Pontífice *tentado* na carne *em tudo*, por todos os gêneros de tentação; tentado, digo, *à nossa semelhança*, isto é, porque foi semelhante a nós, mortal e passível; ou então, tentado à semelhança, isto é, para dar em si exemplo de resistir às tentações; e assim tentado contudo *sem pecado*: por ter sido tentado, com efeito, sabe compadecer-se; por ser sem pecado, pode libertar. Portanto, porque temos Pontífice que tanto se compadece como é poderoso para libertar, *cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça*, isto é, a Cristo, em quem não é certa graça, mas trono e sede de toda a graça; «de sua plenitude, com efeito, todos recebemos» (Jo 1,16): cheguemo-nos, por isso, *para alcançarmos* por ele *misericórdia* dos pecados cometidos, *e acharmos junto dele graça em socorro*, isto é, auxiliadora para bem operar no futuro; socorro, digo, não segundo o nosso querer, mas *oportuno*, porque de qualquer modo que Deus veja oportuno, nunca deixará os seus sem socorro.

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Pois todo pontífice, tomado dentre os homens, é constituído em favor dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados; ele pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, porque ele mesmo está cercado de fraqueza; e por isso deve, como pelo povo, assim também por si mesmo oferecer pelos pecados. E ninguém toma para si esta honra, senão o chamado por Deus, como Aarão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo para se fazer pontífice, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Como também diz em outro lugar: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. O qual, nos dias da sua carne, oferecendo preces e súplicas, com grande clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, foi atendido por causa da sua reverência. E, embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência pelas coisas que padeceu; e, consumado, tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salvação eterna, chamado por Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedec. Sobre ele temos muito que dizer, e difícil de explicar, porque vos tornastes lentos para ouvir. Pois, devendo vós ser mestres pelo tempo, de novo tendes necessidade de que vos ensinem quais são os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e tornastes-vos tais que precisais de leite, e não de alimento sólido. Pois todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça; porque é criança. Aos perfeitos, porém, convém o alimento sólido, àqueles que, pelo costume, têm os sentidos exercitados para discernir o bem e o mal.

## Comentário

Disse acima: cheguemo-nos a Cristo com confiança, para que por este Pontífice alcancemos misericórdia e graça em socorro; agora prova pelo menor que por este Pontífice Cristo podemos alcançar misericórdia, dizendo: verdadeiramente por Cristo podemos alcançar misericórdia em socorro; *pois todo pontífice*, pelo ministério dele, os homens que estão sob ele podem alcançar misericórdia, pontífice que é muito menor, porque *tomado dentre os homens*; Cristo, porém, Pontífice de Deus. E em algumas palavras comparará este pontífice a Cristo, e em outras mostrará o menor. Nem pareça repugnar o dizer que todo pontífice é constituído para que por seu ministério os súditos alcancem misericórdia, quando em muitos isto faltou; porque, embora isto faltasse ou por pecado do ministro ou do povo, para isto contudo foi consagrado o pontífice: para que por seu ministério o povo alcançasse misericórdia, se noutra coisa não tivesse pecado. O que assim diz: alcançaremos misericórdia por meio do Pontífice Cristo; *pois todo pontífice é dentre os homens*; porque, antes de ser eleito, é assim dentre os homens que não pode conferir a outro mais do que a si mesmo; este pontífice, digo, *tomado*, isto é, eleito por vontade divina — a eleição divina pela qual é tomado produz nele que possa interceder pelo povo, ele que, antes de ser assim tomado, é impotente nisto, como outro homem —; tomado, digo, *é constituído em favor dos homens*, ele que pouco antes era dentre os homens; constituído, digo, em favor dos homens, não para presidir-lhes nas coisas seculares, mas *nas coisas que dizem respeito a Deus*, isto é, a que pertencem a Deus, a saber, para suplicar e sacrificar por eles: nas coisas de Deus é assim constituído *para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados* do povo a apagar. Na lei antiga chamavam-se dons aquelas oblações menores; sacrifícios, porém, quando se imolava touro ou semelhante: em Cristo, porém, as preces e tudo o que fez até a hora da Paixão dizem-se dons; sacrifícios, porém, quando se ofereceu a si mesmo no altar da Cruz. Onde diz "tomado dentre os homens", mostra a maioridade de Cristo, que foi tomado por eleição de Deus; nas coisas ditas, a semelhança, porque, se por aquele pontífice que oferece dons e sacrifícios os homens alcançam misericórdia, por que não igualmente por Cristo que oferece estas mesmas coisas?

É constituído, digo, pontífice, *que possa*, isto é, que tenha em uso, *compadecer-se dos ignorantes*, isto é, dos que pecam ignorantemente por simplicidade, *e dos que erram*, isto é, que sabendo caem em pecado; tal, com efeito, deve ser eleito que saiba compadecer-se de todas as fraquezas dos irmãos, não que precipite impacientemente sentença de condenação sobre os súditos: nisto bem semelhante é Cristo, que, tentado em tudo, se compadece das nossas fraquezas. Digo: possa compadecer-se; e certamente deve, *porque, como os súditos, assim também ele mesmo está cercado de fraqueza*, isto é, tanto de fragilidade da carne como, mais frequentemente, de ato de pecado: nisto, porém, Cristo é maior, porque sem pecado. *E por isso*, porque ele está cercado de fraqueza, *como oferece pelo povo*, para o absolver dos pecados e conservar quanto ao futuro, assim também *do mesmo modo deve* (e é necessário) *oferecer por si mesmo*, em quem há fraqueza, para conservar quanto ao futuro e para apagar os pecados passados: nisto de novo Cristo é maior, porque não precisa de oferecer por si, senão só pelo povo.

Como este pontífice deva ser tomado, acrescenta, dizendo: este pontífice deve assim oferecer; *e ninguém* destes pontífices *toma*, isto é, não se ingere a tomar a honra; toma, digo, *para si*, isto é, em relação ao que é seu. Tomaria para si, se por dinheiro, se por causa da pessoa, se por causa da linhagem, por poder secular ou semelhante se ingerisse na honra; tudo isto, com efeito, é dele: mas quem por virtudes, paciência, humildade e semelhantes fosse tomado à honra, este não por si, isto é, pelo que é seu, mas pelas virtudes, que são de Deus, tomaria a honra. *Ninguém toma para si a honra, senão aquele que é chamado por Deus*, isto é, que é eleito por vocação divina — não se diz "chamado por Deus" porque ali se ouça a voz divina, mas, se por causa das virtudes de Deus é eleito pelos que são sãos, vale o mesmo que se Deus dissesse: vem, porque és digno de receber o pontificado —; *chamado por Deus, como Aarão foi chamado por Deus.* Aarão, contudo, não foi eleito por eleição comum, porque os filhos de Coré contradisseram, razão pela qual, trazido fogo estranho, incensando, foram consumidos pelo fogo, e Datã e Abiron, murmurando pelo mesmo, foram tragados pela terra (Nm 16); mas Moisés, por preceito de Deus e por milagre, assumiu Aarão ao sacerdócio; mandou, com efeito, que das doze tribos fossem postas no tabernáculo doze varas de doze homens, para que aquele cuja vara florescesse fosse feito pontífice segundo a vontade manifesta de Deus (Nm 17). Na eleição de Aarão mostra que, se poucos são os que elegem justamente e a multidão contradiz, contudo a sentença dos poucos que elegem canonicamente deve ser seguida, o erro da multidão reprovado.

O pontífice, se foi chamado como Aarão, não se ingerindo na honra, pode aproveitar aos homens: assim também Cristo, por semelhante causa, pode socorrer os seus, porque *Cristo não se glorificou [a si mesmo]*, isto é, não se ingeriu engrandecendo-se para se fazer pontífice, mas o Pai glorificou Cristo, *que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei*, como expusemos no princípio da Epístola. Estas, porém, não são as palavras com que o Pai o glorificou, mas nas quais mostrou Cristo digno do sacerdócio; quando, porém, ao ser Cristo batizado, disse: «Este é o meu Filho, no qual me comprazi» (Mt 3,17), nestas palavras glorificou o Filho; acrescentando, porém: «Ouvi-o» (Mt 17,5), nesta palavra consagrou o Pontífice.

Para mostrar o Pai a dignidade do Filho, "tu és meu Filho", assim diz de Cristo; como do pontificado do mesmo diz também *em outro lugar* da mesma Escritura: *Tu és sacerdote para sempre*, que durarás eternamente, *segundo a ordem*, isto é, segundo a dignidade da ordem *de Melquisedec*; o sacerdócio levítico, porém, durará não eternamente, mas no tempo. Por isso é necessário que o sacerdócio de Cristo permaneça eternamente, porque, assim como sem ele não se pode ter a bem-aventurança, assim sem ele não se pode reter a bem-aventurança tida. Nisto de novo, que é eterno, foi preferido ao sacerdócio levítico, porque aquele é no tempo; e se o sacerdócio a destruir pôde aproveitar, muito mais o eterno sacerdócio de Cristo, que é também de outra dignidade, porque segundo a ordem de Melquisedec.

*Cristo*, para que estejais certos de que nele alcançareis misericórdia, *nos dias da sua carne*, isto é, da sua passibilidade e mortalidade — é natural, com efeito, à carne sofrer e morrer —; nestes dias, digo, *ofereceu preces e súplicas* a Deus — chama preces quaisquer petições que fez antes do momento da Paixão; diz súplicas quando, iminente a hora da Paixão, orou com tanta intenção que emitiu suor de sangue —; ofereceu, digo, *àquele que o podia salvar da morte*, não para que não morresse, mas para que a morte não dominasse por muito tempo sobre ele, pretendendo que, por si libertado da morte, o gênero humano fosse libertado da mesma; ofereceu, digo, *com grande clamor*, não porque tenha clamado tão alto, mas com grande clamor, isto é, com máxima intenção, *e lágrimas.* Em outro lugar não se acha que Cristo tenha chorado nesta mesma hora, senão neste Evangelho de Paulo, ao qual não menos se deve crer; porque, se por Lázaro e pela destruição de Jerusalém, compadecendo-se por toda parte da deficiência humana, se diz que chorou, muito mais deve dizer-se que chorou, para, na consumação da sua obediência, sanar a deficiência do gênero humano. Oferecendo, digo, preces com lágrimas, *foi atendido*, cumprido o que pedia, *por causa da sua reverência*, isto é, por causa da sua religião; ou então, por causa da sua reverência, isto é, pela obediência com que provou ter sempre reverenciado o Pai.

Não só ofereceu preces com lágrimas, mas também *aprendeu*, não por conhecimento, mas por experiência da coisa, *a obediência pelas coisas que padeceu*, isto é, pela morte, *embora* (isto é, ainda que) *fosse Filho de Deus*, poderoso em tudo, quis contudo assim cumprir o seu sacerdócio. *E, consumado*, isto é, morto, ou então, consumado, isto é, constituído à direita do Pai, de modo que nada tivesse imperfeito, *tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem*, não para aqueles que recusam obedecer-lhe. Pode certamente ser causa de salvação, porque foi chamado Pontífice não pelos homens, mas por Deus, *nem segundo o levítico*, mas segundo a dignidade da ordem de Melquisedec.

Prestes a dizer-lhes como o seu sacerdócio destrói o sacerdócio legal, e como todas as coisas legais têm nele o fim, como também o seu sacerdócio precedeu o legal e permanecerá eternamente, primeiro os aborda, em parte contudo, com áspera invectiva; e convenientemente primeiro os corrige, para que, corrigidos, sejam mais devotos para ouvir e mais prontos para crer, dizendo: *sobre ele*, isto é, como Cristo seja Pontífice segundo a ordem de Melquisedec, *temos muito que dizer*, discurso grande, isto é, que compreende muitas coisas, *e difícil de explicar*, isto é, que agora não pode ser interpretado, nem por mim, porque não tenho ouvintes congruentes, nem por vós, porque não podeis apreender; difícil de explicar, digo, *a dizer*, isto é, a expor-vos, *porque vos tornastes lentos para ouvir*, isto é, para entender; ou então, este discurso é grande e interpretável, porque aqui se contêm muitos mistérios que convém expor: grande, digo, por isso, *porque vos tornastes lentos para ouvir*; verdadeiramente lentos, *pois, devendo vós ser mestres pelo tempo* prolixo que tivestes para aprender; vós, com efeito, fostes convertidos no próprio início da pregação; devendo, digo, ser mestres, *agora de novo tendes necessidade de que vos ensinem quais são os primeiros rudimentos das palavras de Deus.* Nas palavras de Deus contêm-se muitos graus: primeiro a instrução simples, depois a média, por fim a perfeita; chama exórdio quando alguém é ensinado a crer na Encarnação, na Paixão de Cristo e semelhantes coisas oportunas aos simples; rudimentos do exórdio são, por exemplo, narrar em série a matéria da Paixão ou algo semelhante.

Também vós vos tornastes *tais que precisais de leite*, isto é, de insinuação pueril, *e não de alimento sólido*, isto é, de doutrina perfeita: verdadeiramente tais de leite que não precisais de alimento sólido; *pois todo aquele que se alimenta de leite*, isto é, a quem é necessária a insinuação pueril, *este tal é inexperiente na palavra da justiça*, isto é, na doutrina dos justos, isto é, dos perfeitos; inexperiente, porque *é criança* em sentido: vós, porém, perfeitos em malícia, mas crianças em sentidos. Dos pequeninos é o leite, *dos perfeitos*, porém, *é o alimento sólido*, isto é, a doutrina sólida; dos perfeitos, isto é, *daqueles que têm os sentidos*, isto é, os intelectos, *pelo costume*, isto é, pela assiduidade do estudo, *exercitados para discernir o bem e o mal*, de modo que saibam discernir o bem do mal; e também, entre os bens, discernir quais são mais bons, quais menos; e entre os males, igualmente.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, deixando a palavra do princípio de Cristo, avancemos para as coisas mais perfeitas, não lançando de novo o fundamento da penitência das obras mortas, da fé em Deus, da doutrina dos batismos, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. E isto faremos, se Deus o permitir. Pois é impossível que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celeste, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e as virtudes do século vindouro, e caíram, sejam renovados de novo para a penitência, crucificando de novo para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o ao ludíbrio. Pois a terra que bebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva útil para aqueles por quem é cultivada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada e próxima da maldição, cujo fim é ser queimada. Confiamos, porém, de vós, caríssimos, coisas melhores e mais vizinhas da salvação, embora assim falemos. Pois Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e da caridade que mostrastes no seu nome, vós que servistes e servis aos santos. Desejamos, porém, que cada um de vós mostre a mesma solicitude para a plena realização da esperança até o fim; para que não vos torneis negligentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela paciência, herdam as promessas. Pois Deus, ao prometer a Abraão, como não tinha nenhum maior por quem jurar, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente te abençoarei com bênção e te multiplicarei com multiplicação. E assim, esperando com longanimidade, alcançou a promessa. Pois os homens juram pelo que é maior que eles, e o juramento é para eles o fim de toda controvérsia, para a confirmação. Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu conselho, interpôs o juramento; para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos fortíssimo consolo, nós que nos refugiamos em reter a esperança proposta, a qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até o interior do véu, onde Jesus entrou por nós como precursor, feito Pontífice eterno segundo a ordem de Melquisedec.

## Comentário

Repreendidos duramente, de novo os afaga, inserindo-se, dizendo: *por isso*, isto é, porque pelo tempo devíeis ser mestres, e porque convém terdes sentidos exercitados na lei do Senhor, por isso nós, *deixando a palavra do princípio de Cristo*, isto é, os rudimentos do exórdio com que alguém começa no conhecimento de Cristo; deixando, digo, esta meninice, *avancemos para a perfeição*, para que saibamos como no princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus, etc.; avancemos, digo, para a perfeição, *não lançando de novo o fundamento da penitência das obras mortas*, etc. — chama obras mortas ou os pecados, que mortificam, ou os bens anteriores, mortificados pelo pecado superveniente; fazer penitência das obras mortas é fundamento, porque, se esta pedra não for posta primeiro, nada se edificará —; fundamento também *da fé em Deus*; quem, com efeito, busca em outro lugar a justificação, ou não crê todas as partes da fé, este não tem fé em Deus; fundamento também *da doutrina dos batismos* — diz "batismos" no plural porque há o batismo na água, diz-se também batismo nas lágrimas da penitência, e em terceiro modo, na efusão de sangue por Cristo —; fundamento também *da imposição das mãos*; se alguém, com efeito, não crê que pela imposição da mão também se remitem os pecados, recebendo o Espírito Santo, e somos robustecidos contra os males futuros, este não tem fundamento, por isso é vão tudo o que sobreedifica; fundamento também *da ressurreição dos mortos*; se alguém, com efeito, não crê que a Ressurreição de Cristo operou a ressurreição dos mortos, perdeu a fé e não tem sobre o que edificar: fundamento também *do juízo eterno*; diz juízo eterno porque tudo o que então for constituído, de bens ou de males, durará eternamente; quem não crê no juízo futuro, porém, não tem fundamento, porque é infiel. Todas estas coisas dizem-se fundamento porque, se não precederem no fundamento, ninguém pode de outro modo operar o bem.

Todas estas coisas, porém, lhes eram necessárias, a saber, o fundamento da penitência das obras mortas, porque pecaram gravemente, e os bens que neles haviam precedido, como acima diz, que muito sofreram por Cristo de seus compatriotas, tornaram-nos vãos pecando: de novo a fé em Deus, porque, se entendessem como da fé de Cristo se tem toda justificação, não recorreriam à circuncisão, como necessária a si; se de novo sobre o batismo fossem bem ensinados, como nele se remitem todos os pecados, confessariam supérfluas as coisas legais; se também soubessem como pela imposição da mão o Espírito Santo tanto perdoa as coisas anteriores como conforta contra os males vindouros, não cuidariam das coisas legais; se de novo cressem que a Ressurreição de Cristo é causa eficiente da nossa ressurreição na glória, nada buscariam além de Cristo; de novo, se ponderassem como Cristo será juiz de todos, pela fé no Juiz só procurariam agradar ao Juiz. Porque de todas estas coisas necessitavam, por isso diz: avancemos para a perfeição, *lançando*, como a pedra é lançada no fundamento, o fundamento da penitência e as seguintes, como foram expostas; lançando, digo, *não de novo*, isto é, não por iteração do modo anterior, de modo que, como antes lançamos em vós todas estas coisas, e, pecando vós, foram destruídas, de novo as mesmas iteradas sejam destruídas; de modo que, segundo esta sentença, neguemos somente aquele "de novo". Ou, se a negação se põe a tudo, a sentença permanece a mesma, assim: avancemos agora para a perfeição, de modo que [não] sejamos de novo, isto é, mais, lançando o fundamento da penitência; agora, sim, lançaremos, mas vede que não convenha lançar de novo: assim a negação se ponha a tudo, permanecendo a sentença.

Advirto: avancemos para a perfeição; e certamente isto faremos, isto é, avançaremos para a perfeição, *se Deus o permitir*, isto é, se nesta vida conceder espaço em que os nossos pecados possam ser remidos. Por isso digo "se Deus o permitir", porque é impossível na outra vida ser renovado pela penitência; ali, com efeito, é lugar de receber o que se mereceu; aqui, de merecer; o que diz assim: se Deus permitir, por isso digo, porque na vida futura não permitirá; *é impossível*, com efeito, *que sejam renovados* pela justiça recuperada alguns movidos à penitência na outra vida; o que seria renovar de novo; aqui, com efeito, é lícito o que ali não pode ser iterado, a saber, que alguém ali seja renovado: renovados, digo, *aqueles que uma vez foram iluminados* pela fé porque creram, os quais também, depois que confessaram a fé, *provaram* como que um gosto suave e jucundo *o dom celeste*, a saber, a remissão do pecado pelo batismo; dom que é do alto: estas duas coisas quanto à fé; os quais também *se tornaram participantes do Espírito Santo*, por terem tido os gêneros de línguas ou os demais dons; os quais também (o que é maior) *provaram*, não menos que nós, *a boa palavra de Deus*, isto é, a jucunda, isto é, entenderam a Divindade do Filho; os quais também *provaram*, isto é, por certa antecipação antegozaram, *as virtudes do século vindouro*, isto é, a impassibilidade e a imortalidade; os que também tiveram todas estas coisas e *caíram*, é impossível que de novo sejam renovados, movidos à penitência; e é impossível que estejam *crucificando de novo para si mesmos o Filho de Deus*, isto é, impotentes na outra vida para fazer que daí em diante lhes valha a crucifixão de Cristo, e de novo não tendo o Filho de Deus *por ludíbrio*, isto é, por mostra, para que imitem a sua mostra; como se dissesse: de novo impotentes para imitar o Filho de Deus.

Ou de outro modo, para negarmos a iteração do batismo neste versículo: é impossível que os que foram tais e tais, quanto menos os inferiores, sejam *renovados de novo*, isto é, rebatizados, movidos à penitência; eles, digo, se são rebatizados, *crucificando de novo para si mesmos o Filho de Deus*, não que de fato o crucifiquem de novo, mas na paridade do pecado, porque uma só é a fé, um só o batismo, e Cristo, que o consagra, morreu uma só vez pelos nossos pecados. Por isso se dizem crucificar de novo para si o Filho de Deus pela paridade do pecado, porque, se, antes justificados pelo batismo, depois pecaram, julgam por isso o primeiro batismo de tal modo vão que a penitência não valha para a justificação quanto ao futuro. Estes tais querem crucificar de novo Cristo, para da crucifixão iterada ter iterada remissão, não sabendo que um só batismo e uma só morte de Cristo, depois do pecado como antes (contanto que façam penitência), bastam para toda justificação.

"Ostentui" na primeira sentença, em vez de "ostensioni", é posto inusitadamente, mas é bastante bom segundo a origem da palavra, de *ostendo, ostendis*. Onde acima diz "caíram", designa a gravidade da queda, a saber, em crime.

Disse acima: avancemos para a perfeição, e, interpostas algumas coisas, acrescentou: isto, digo, faremos, isto é, avançaremos para a perfeição, se Deus o permitir; e sobre o mesmo acrescenta: verdadeiramente faremos o que avançamos para a perfeição; e é justo, *pois a terra que bebe a chuva* — por terra entende os homens, que, para fazerem fruto, são cultivados pela palavra de Deus —; esta terra, digo, que bebe a chuva, isto é, que com grande desejo recebe a doutrina da palavra divina; assim como a chuva, com efeito, embebe a terra seca e endurecida, assim a palavra de Deus faz mole e tempera o coração endurecido, para que possa fazer fruto; a terra, digo, que bebe a chuva *que muitas vezes cai*; muitas vezes, porque a doutrina divina deve ser nem assídua demais, para que não se avilte, nem escassa demais, para que não perca a oportunidade de frutificar, mas muitas vezes, para ser mais oportuna, moderada de ambos os lados; *que cai sobre ela*, porque a doutrina desce tanto de Deus como dos prelados, que são superiores na Igreja: a terra, digo, assim bebendo a chuva, *e produzindo erva*, isto é, fruto de boa obra; erva, digo, *útil para aqueles por quem é cultivada*, isto é, os pregadores que a cultivam; útil, porque produz não degenerada, mas o fruto da natividade, isto é, segundo o que são ensinados a operar e veem nos seus doutores: esta terra, digo, assim produzindo, *recebe a bênção*, isto é, a multiplicação dos bens, *de Deus*.

A boa terra recebe a bênção; *a que produz espinhos e abrolhos, porém, é reprovada.* Ou, se se tem "com efeito", liga-se assim, sem mudar a sentença: verdadeiramente a terra que produz erva útil recebe a bênção; pois a terra que produz espinhos e abrolhos é reprovada. "Produzindo" nota pecar tão mal que com mau exemplo corrompe os outros; por espinhos entende os pecados que menos picam; por abrolhos, que picam mais asperamente, os mais graves; a terra, digo, que produz espinhos e abrolhos *é reprovada*, isto é, inimiga de Deus, *e próxima da maldição*, isto é, da perdição: onde diz "próxima", significa que a pena está perto, mas que ainda pela penitência pode escapar-se; *cujo fim*, isto é, de cuja terra reprovada, *é ser queimada*, isto é, no fogo perpétuo, se não fizer penitência.

O mesmo versículo liga-se à letra próxima, não contudo tão idoneamente: verdadeiramente na outra vida ninguém pode ser renovado para a penitência; pois a terra, isto é, o homem nesta vida só bebe a chuva que vem, isto é, pode esforçar-se por emenda; aqui, com efeito, é lugar de merecer, ali de receber; ou segundo outra sentença: é impossível ser renovado, isto é, rebatizado; pois a terra bebe uma só vez a chuva, isto é, o homem recebe uma só vez a água do batismo.

Porque os repreendeu bastante duramente, dizendo acima "devendo vós ser mestres, de novo tendes necessidade de que vos ensinem", etc., e por isso, de novo, pelo que logo disse da bênção da boa terra, persuadiu-os a fazer fruto oportuno, e por contrário os atemorizou; agora os afaga, para que, como com ameaças os abalou, assim agora os alente com carícias, dizendo: *embora assim falemos*, repreendendo-vos acima, contudo, ó *caríssimos*, nós *confiamos* a vosso respeito *coisas melhores* do que ser queimados, *e mais vizinhas da salvação* do que são os espinhos e abrolhos. Onde diz "de vós", significa que há neles tal natureza que é idônea para a correção. "Melhores" e "mais vizinhas": esta comparação não se faz entre participantes.

Por isso confiamos de vós, porque muitos bens operastes outrora, que, se (depois de fazerdes penitência) Deus não retribuísse, seria injusto; mas *Deus não é injusto, para se esquecer da vossa obra*, com que fizestes comuns a todos os vossos bens, *e da caridade*, porque esta obra procedeu não do temor, mas da dileção; *caridade que mostrastes no seu nome*, isto é, para honra de Deus: da obra vossa digo bem, *porque servistes aos santos*, com os vossos bens, *e servis* ainda com a mesma dileção. Nota nelas tríplice bem, a saber, a obra boa, a dileção e a honorificência de Deus na sua obra. Servistes outrora, e ainda estais no mesmo; *desejamos*, porém, para o futuro *que cada um de vós*, para que nem um falte a esta obra, *mostre*, isto é, mostre frequentemente, *a mesma solicitude* de servir aos santos *até o fim* da vossa vida; mostre, digo, *para a plena realização da esperança*, isto é, para que na bem-aventurança futura se complete em vós o que agora esperais: assim desejamos mostrar, *para que não vos torneis negligentes* nesta solicitude, *mas imitadores daqueles*, isto é, dos santos, *que herdam as promessas*, isto é, as bem-aventuranças prometidas, não por causa da linhagem, mas *pela fé e pela paciência*, isto é, pela fé e porque, sofrendo longamente, não se cansaram.

Porque sabia Paulo que muito lhes agradaria se dissesse que a salvação foi repromessa a seus pais, diz, como se alguém perguntasse: foram feitas promessas? Foram certamente; *pois a Abraão*; e acrescenta três coisas: que as promessas foram feitas, que foram confirmadas por juramento e que em Abraão já foram cumpridas, dizendo: *Deus, ao prometer a Abraão, jurou por si mesmo*, e por si mesmo porque *não tinha nenhum maior por quem jurar.* E por que, porque não tinha maior, jurou por si, acrescentará, mas antepõe as palavras do juramento: jurou, digo, dizendo: ó Abraão, *certamente te abençoarei*, isto é, se não te enriquecer com incremento de virtudes nesta vida; abençoarei, digo, *com bênção*, isto é, de modo que no ofício de abençoar eu sempre permaneça; *e te multiplicarei* na bem-aventurança futura remunerando a tua fé; multiplicarei, digo, *com multiplicação*, isto é, não fazendo fim a esta multiplicação: se não fizer isto (defeito de locução), siga-se qualquer inconveniente. E assim Abraão, certificado, *esperando com longanimidade*, porque longamente e muitas adversidades sofreu, *alcançou por fim a promessa*, isto é, a bem-aventurança tantas vezes prometida.

Por isso jurou, porque o homem jura; por si, porque maior que ele não há; *os homens, com efeito, juram pelo que é maior que eles*; por isso Deus depois da promessa jurou, condescendendo ao costume dos homens, cujo uso é ficarem certos pelo juramento (como Jesus, nos seus dias, segundo o costume daquela região, falava-lhes em parábolas e semelhanças), quando contudo jurar de Deus nada mais é que estabelecer imutavelmente. Os homens juram pelo maior que eles, e *o juramento é o fim de toda controvérsia*, isto é, da altercação deles, *para a confirmação* da outra parte. *Por isso*, isto é, pelo juramento, *querendo Deus mostrar mais abundantemente* — abundantemente, com efeito, pela promessa, mas mais abundantemente mostrou pelo juramento —; querendo mostrar *a imutabilidade*, isto é, a imutabilidade *do seu conselho*: o conselho de Deus foi (que poucos conheciam) salvar os homens pela fé de Cristo; este conselho, digo, mostrando imóvel *aos herdeiros da promessa*, isto é, da frequente promessa, *interpôs o juramento*, meio entre a promessa e o cumprimento. Interpôs-o *para que por duas coisas imutáveis*, a saber, pela promessa e pelo juramento, *nas quais é impossível que Deus minta*, porque nem em uma delas, *por estas duas coisas tenhamos fortíssimo consolo*, isto é, que em toda adversidade nos faça fortes, querendo padecer por uma hora para reinar eternamente. *Jusjurandum* diz-se como "o que é direito para jurar" (*jus ad jurandum*); perjúrio, porém, diz-se não *jusjurandum*, mas *jus non jurandum*: neste juramento de Deus temos a autoridade de jurar, de modo contudo que nem juremos supérfluamente, ainda que digamos a verdade, nem, onde é necessário, deixemos de confirmar a verdade com juramento.

*Tenhamos consolo nós que nos refugiamos* em toda tribulação *em reter a esperança*, não por causa das adversidades abandonar; esperança, digo, *proposta* já a nós em Abraão e cumprida, ou então, proposta, isto é, oferecida a todos os que esperam na fé. Refugia-se na esperança aquele que despreza a tribulação pelo gáudio da bem-aventurança que espera ter no futuro; *esperança que temos como âncora da alma, segura e firme*, para que, assim como a âncora segura a nau para que não afunde, assim a esperança torne a nossa alma segura, para que não afunde consentindo na iniquidade, e firme, para que nunca recue de padecer, ao menos vacilando no mínimo: esperança também, digo, *que penetra até o interior do véu*, isto é, na bem-aventurança interior e velada, que nenhum dos vivos viu. Interior do véu dizia-se o lugar do Santo dos Santos, que estava atrás do véu; diante do véu, porém, dizia-se Santo o lugar em que estavam os sacerdotes, mas no Santo dos Santos entrava o pontífice uma vez por ano; o interior do véu significava a bem-aventurança celeste velada a nós nesta vida. E como esperamos, para lá certamente iremos; porque *onde*, isto é, em cujo interior *entrou Jesus precursor*, isto é, correndo adiante de nós para que o sigamos, corredor porque nenhuma culpa jamais fez recuar a sua carreira; entrou, digo, *por nós*, a nos introduzir: *por nós*, digo otimamente, porque *foi feito nosso Pontífice*, para durar *eternamente*, segundo a dignidade da ordem de Melquisedec.

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# Capítulo 7

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> Pois este Melquisedec, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que foi ao encontro de Abraão quando voltava da matança dos reis, e o abençoou; a quem também Abraão repartiu o dízimo de tudo: primeiramente, o seu nome se interpreta rei de justiça; depois, também rei de Salém, isto é, rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre. Considerai, pois, quão grande é este, a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo dos melhores despojos. E, de fato, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm mandamento de tomar dízimos do povo segundo a lei, isto é, de seus irmãos, embora também eles tenham saído dos lombos de Abraão. Aquele, porém, cuja genealogia não se conta entre eles, tomou dízimos de Abraão e abençoou aquele que tinha as promessas. Ora, sem nenhuma contradição, o menor é abençoado pelo maior. E aqui recebem dízimos homens que morrem; ali, porém, aquele de quem se testemunha que vive. E (por assim dizer) por Abraão também Levi, que recebe dízimos, pagou dízimo: pois estava ainda nos lombos de seu pai quando Melquisedec lhe saiu ao encontro. Se, pois, a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (pois sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia ainda de que se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e não se dissesse segundo a ordem de Aarão? Pois, mudado o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei. Aquele de quem se dizem estas coisas é de outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar; é manifesto, com efeito, que nosso Senhor nasceu de Judá, tribo da qual Moisés nada disse a respeito de sacerdotes. E é ainda mais manifesto, se, à semelhança de Melquisedec, se levanta outro sacerdote, que foi feito não segundo a lei de um mandamento carnal, mas segundo o poder de uma vida indissolúvel. Pois se testemunha: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. Dá-se, com efeito, ab-rogação do mandamento anterior, por causa da sua fraqueza e inutilidade; pois a lei nada levou à perfeição; mas a introdução de uma esperança melhor, pela qual nos aproximamos de Deus. E quanto isto não foi sem juramento (pois aqueles foram feitos sacerdotes sem juramento; este, porém, com juramento, por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre); tanto Jesus foi feito fiador de uma melhor aliança. E aqueles foram feitos sacerdotes em maior número, porque a morte os impedia de permanecer; este, porém, porque permanece para sempre, tem sacerdócio sempiterno. Donde também pode salvar perpetuamente os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós. Tal, com efeito, convinha que fosse o nosso Pontífice: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais alto que os céus; que não tem necessidade, como os sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiro pelos seus pecados, depois pelos do povo; pois isto fez uma vez, oferecendo-se a si mesmo. A lei, com efeito, constitui sacerdotes homens que têm fraqueza; a palavra do juramento, porém, que é posterior à lei, constitui o Filho, perfeito para sempre.

## Comentário

Como seja segundo a ordem de Melquisedec, interpostas muitas coisas, finalmente o prossegue, dizendo: digo bem que Jesus é pontífice segundo a dignidade de Melquisedec; *este, com efeito, Melquisedec, rei de Salém* — que agora é Jerusalém, então se chamava Salém; mas por causa dos jebuseus, que depois a habitaram, acrescentou-se *Jeru* a Salém, e daí teve o nome de Jerusalém —; este, digo, rei de Salém, foi *sacerdote do Deus Altíssimo*, isto é, não dos homens nem por homem, mas confiado em sua dignidade assumiu para si o sacerdócio de Deus: Melquisedec, *que foi ao encontro de Abraão quando voltava da matança dos reis*, que levavam cativo Ló, seu sobrinho; *e abençoou* a Abraão Melquisedec, e a ele que o abençoava Abraão *repartiu o dízimo de todos* os despojos (Gn 14,20). Este, primeiramente, se chamou Melquisedec, nome que se *interpreta rei de justiça*; depois, porém, se chamou rei de Salém, que é interpretado *rei de paz.* Este Melquisedec, de novo, *sem pai, sem mãe*, não que não tivesse pais, mas porque a Escritura de modo algum diz que os teve; foi também *sem genealogia*, não tendo filhos ou filhas, *não tendo princípio de dias nem fim de vida*, o que a Escritura fala, talvez omitindo de propósito. Este Melquisedec, porém, *feito semelhante ao Filho de Deus* nas coisas premissadas, *permanece sacerdote*, isto é, o seu sacerdócio dura *para sempre.*

Como foi semelhante ao Filho de Deus, voltando prossigamos por partes: Melquisedec diz-se rei de justiça; quem é, porém, Rei de justiça senão Cristo, que pelas procelas do mundo rege os seus em justiça; Cristo também rei de Salém, isto é, de paz, porque, depois que regeu os seus em justiça, não cessa de regê-los, colocados na verdadeira paz dos Anjos: *sacerdote do Deus Altíssimo*; quem é, porém, tão grande sacerdote como Cristo, que por obediência ao Pai se ofereceu a si mesmo no altar da Cruz. *Que foi ao encontro de Abraão quando voltava da matança* de cinco reis: os cinco reis são os cinco sentidos do corpo, por meio dos quais todos os vícios dominam no homem, como, pela vista, a cobiça, enquanto deseja o que viu; e assim pelos demais sentidos, segundo o que no Evangelho foi dito à mulher: «Cinco maridos tiveste» (Jo 4,18). Por Abraão entende-se qualquer fiel; a cada fiel, porém, que volta da matança dos inimigos, isto é, dos vícios que dominam pelos cinco sentidos, vem ao encontro Cristo, dando incremento da boa obra. Lê-se também ali que ofereceu a Abraão pão e vinho (Gn 14,18), o que aqui não se tem; estes, a saber, o pão e o vinho, significam o Corpo e Sangue de Cristo, por cuja participação tanto se remitem os pecados como, recebendo-se, se é fortalecido quanto ao futuro contra os vícios. *A quem repartiu Abraão*, isto é, o fiel, *o dízimo de tudo*, isto é, todas as perfeições que teve; todo fiel, com efeito, atribui a Cristo toda a sua perfeição: por dez, que é número perfeito (porque até dez o número cresce, e não além, mas recapitula desde o princípio dizendo onze, isto é, um e dez), designa-se a perfeição. *Primeiramente chamado Melquisedec, que se interpreta rei de justiça; depois rei de Salém, que é rei de paz*; assim Cristo primeiro rege os seus na justiça desta vida, na outra vida os rege na paz. *Sem pai* Cristo segundo a carne, *sem mãe* segundo a Deidade, *sem genealogia*, porque não teve filhos da carne, *não tendo princípio de dias nem fim* segundo a Divindade, coeterno ao Pai.

Pelas coisas precedentes foi bastante recomendada a dignidade de Melquisedec, mas agora também para aumento da dignidade do mesmo: *considerai quão grande é este* Melquisedec, *a quem Abraão patriarca*, isto é, príncipe dos nossos pais Isaac e Jacó, *deu o dízimo*, como servo e seu tributário, *dos melhores despojos* que tinha. E isto também de outro modo considerai quão grande é Melquisedec, pelo fato de que alguns *dos filhos de Levi*, *recebendo o sacerdócio*, têm mandamento de tomar dízimos do povo, nem de outro modo ousariam, e isto *segundo a lei*, em que são servos; *do povo*, digo, *isto é, de seus irmãos*, que, por serem irmãos, de bom grado lhes dão: no que tomam dízimos, diferem do povo, *embora também eles, filhos de Levi, tenham saído dos lombos de Abraão*, como os demais do povo. Os filhos de Levi tomam dízimos dos irmãos, mas Melquisedec, *cuja genealogia não se conta entre eles*, isto é, entre os judeus, este, digo, *tomou dízimos de Abraão e abençoou* aquele *que tinha as promessas*, no tempo de sua maior dignidade, a saber, quando já tinha as promessas de Deus.

Agora das premissas colige: Abraão deu, Melquisedec abençoou: *sem nenhuma contradição*, ninguém pode contradizer, com efeito, que *o menor é abençoado pelo maior*; ainda que, com efeito, segundo outra coisa, seja maior o abençoado, consta contudo que nisto é menor, que de quem abençoa recebe o que o abençoado não tinha. Também deste modo considerai a dignidade de Melquisedec, porque *aqui*, isto é, no sacerdócio levítico, *recebem dízimos homens que morrem*; *ali*, porém, no lugar superior da Escritura, *testemunha-se*, por Moisés, *que Melquisedec vive*, enquanto falando da vida nada acrescentou sobre a morte. Também deste modo considerai a sua dignidade, porque *Levi, que recebe dízimos*, a própria ordem levítica *pagou dízimo*, isto é, deu dízimos; e digo isto *por assim dizer* que Levi deu dízimos *por Abraão*, isto é, por causa material; quando, com efeito, Abraão deu dízimos, todos estavam ainda nos lombos de Abraão: o que muito bem parece seguir-se; se, com efeito, todos pecamos em Adão, porque estávamos nos seus lombos quando pecou, por que se não diria que Levi deu dízimos, ele que estava nos lombos de Abraão quando Abraão dava dízimos? E verdadeiramente Levi deu dízimos por Abraão que dava, *porque estava ainda nos lombos de seu pai Abraão quando Melquisedec lhe saiu ao encontro* a Abraão que lhe dava dízimos; se, com efeito, houvesse então Isaac, não se diria que Levi então estava nos lombos de Abraão, mas nos lombos de Isaac, mas porque ainda estava nos lombos de Abraão por meio de Isaac, igualmente também Levi. Diz-se que Levi pagou dízimo nos lombos de Abraão, e não Cristo, embora seja filho de Abraão, porque Cristo não nasceu dos lombos de Abraão segundo a concupiscência da carne; Levi, porém, nasceu dos lombos de Abraão pela lei dos membros, que é a concupiscência da carne.

Mostrou acima que Cristo é sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e provou suficientemente que este sacerdócio é mais excelente, em tempo e em muita dignidade, que o sacerdócio de Levi, que de novo de muitos modos rebaixou: agora, porém, recomendado o sacerdócio de Cristo, passa a mostrar como pelo sacerdócio de Cristo se destrói o sacerdócio levítico, destruído o qual, prova por necessidade que se segue a destruição da lei. A letra liga-se assim: uma vez que Cristo foi feito sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e se provou suficientemente que este sacerdócio preside de todos os modos ao levítico, responde-me, pois, tu, legalista, sobre o que segue: *se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico*, isto é, se por ele se tivesse a justificação perfeita: e digo bem que pelo sacerdócio devia fazer-se a consumação; *porque o povo recebeu a lei* existente sob o próprio sacerdócio; na mão do sacerdote, com efeito, estava a lei, e a lei não podia ser cumprida, nem sequer o mínimo operar-se, a não ser pelo ministério do sacerdote: se, digo, a consumação era pelo sacerdócio levítico, *que necessidade havia ainda*, depois que o antigo sacerdócio consumasse, *de que se levantasse outro sacerdote*, diferente dos levitas e quanto à tribo e quanto ao rito, *segundo a dignidade da ordem de Melquisedec, e não se dissesse segundo a ordem de Aarão*, como disse o profeta Davi?

E para que ninguém dissesse: levante-se, sim, segundo esta ordem, de modo contudo que misturadamente mantenha a ordem de Aarão. A isto diz que se diz *segundo a ordem de Melquisedec* de modo que em nada seja segundo a ordem de Aarão. Diz "levantar-se" porque os sacerdotes levíticos estavam deprimidos, impotentes para sacudir de si ou do povo o jugo do pecado pela lei; este, porém, Cristo, levantou-se, por cujo sacerdócio os fiéis, sacudindo o jugo do pecado, se levantam à bem-aventurança; como se dissesse: se pelo sacerdócio levítico fosse a consumação, em vão se levantaria outro sacerdócio segundo Melquisedec para consumar; mas levantou-se outro sacerdócio, logo o levítico não consumava; temos a assunção: *mudado o sacerdócio*, etc. A letra liga-se contudo assim: como se alguém dissesse: por que dizes que a lei está sob o sacerdócio, e que o sacerdócio foi destruído ao levantar-se outro sacerdote? que pretendes com isto? Digo certamente que a lei está sob ele e que o próprio sacerdócio levítico foi destruído porque, *mudado o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança* da lei desse sacerdócio, estando a lei na mão do sacerdote; pretendo, porém, provar a destruição da lei enquanto destruo o seu sacerdócio.

Verdadeiramente levantou-se outro sacerdote, e verdadeiramente o sacerdócio foi mudado (o que é o mesmo); pois outro quanto à tribo e quanto ao rito; ou então, verdadeiramente foi mudado, porque tanto quanto à tribo quanto ao rito. Que foi mudado quanto à tribo mostra primeiro, dizendo: verdadeiramente foi mudado, ou, verdadeiramente é outro o sacerdote; pois Cristo, *aquele de quem*, isto é, em cuja consideração *se dizem estas coisas*, *é de outra tribo*, e não da tribo de Levi; *da qual outra tribo ninguém serviu*, isto é, assistiu proeminentemente *ao altar*: e verdadeiramente de outra tribo; *porque é manifesto que nosso Senhor Cristo nasceu de Judá*, tribo *da qual Moisés nada disse a respeito de sacerdotes*, de modo que alguém daquela tribo devesse fazer-se sacerdote. A mudança do sacerdócio quanto à tribo já tinha precedido em Samuel, reprovados os filhos de Heli, que por linha de linhagem eram herdeiros do sacerdócio; mudança que significava a verdadeira, que havia de ser em Cristo.

Prova de novo que o sacerdócio foi mudado quanto ao rito, o que não se vira mais; porque, embora a tribo fosse reprovada, os ritos contudo não foram mudados; donde diz: provei que o sacerdócio é mudado quanto à tribo; *é ainda mais manifesto*, isto é, por razão mais ampla e firme, porque mais vale a prova pelo rito do que pela tribo; é manifesto, digo, que o sacerdócio é mudado, *se, à semelhança e rito de Melquisedec, se levanta outro sacerdote*, como foi predito; *outro* que *foi feito sacerdote não segundo a lei de um mandamento carnal*, isto é, lei que só mandava e prometia coisas carnais; mas *foi feito sacerdote segundo o poder*, isto é, a Deidade que estava nele; poder, digo, *de uma vida indissolúvel*, isto é, pelo qual dava aos que creem nele a vida indissolúvel, isto é, eterna. Ou assim: não segundo a lei do mandamento carnal, isto é, segundo o entendimento carnal da lei, mas segundo a virtude da própria lei, a saber, o entendimento espiritual; virtude, digo, de vida indissolúvel, porque a operação espiritual da lei promete a vida eterna, como a fraqueza a vida carnal. Digo: o sacerdócio foi mudado, se se levantou outro sacerdote; mas outro sacerdote se levantou; e isto prova pela autoridade, dizendo: verdadeiramente levantou-se outro sacerdote, *porque se testemunha*, isto é, Davi testemunha, comigo ou com muitas outras Escrituras, *que tu, Cristo, és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.* Quando devia dizer "Cristo é sacerdote", para fielmente pôr as palavras da profecia, diz: "tu és sacerdote".

Acrescenta a causa por que o sacerdócio antigo foi destruído e o novo introduzido, para que o adversário não objetasse: por que dizes que Deus deu outro sacerdócio para reprovação do antigo, quando certamente instituiu o sacerdócio antigo? A isto, respondendo, diz: *dá-se ab-rogação do mandamento anterior* e da lei antiga *por causa da sua fraqueza*, isto é, porque mesmo no tempo em que era mantida era fraca, porque, embora desse alguma justificação, não a dava perfeita; ab-rogada *por causa da sua inutilidade*, porque já não é só fraca se mantida, mas até danosa. Verdadeiramente teve fraqueza; no tempo, com efeito, em que a lei era mantida, *nada levou à perfeição*, isto é, nada valeu para levar à perfeição, porque, embora alguns sob ela tenham sido perfeitos, não foi por ela, mas pela fé do que havia de vir. No fato de que a lei se diz "anterior", significa-se que outro devia seguir-se para corrigir a imperfeição da lei. *A ab-rogação, sim, do mandamento anterior; a introdução, porém, de uma melhor*, para mais recomendar, não diz "de mandamento", mas *de esperança*, porque este novo mandamento de Cristo é tal que nele se tem esperança não carnal, mas de glória celeste; *pela qual esperança não só nos aproximamos, mas nos achegamos de Deus.*

Que a lei foi fraca, e que o mandamento de Cristo é a causa pela qual nos achegamos a Deus, é muito para o louvor do novo sacerdote: e quanto isto é, de novo, para a recomendação dele, que *não sem juramento* Jesus foi feito sacerdote; *aqueles*, isto é, os levitas, *foram feitos sacerdotes sem juramento*, como coisa que devia mudar-se; *este*, porém, Jesus, *com juramento* foi feito sacerdote *por aquele*, isto é, por Deus Pai, *que lhe disse*, a Jesus: *Tu és sacerdote para sempre*; e que o teu sacerdócio seja para sempre, *jurou o Senhor, e não se arrependerá*, isto é, não mudará o teu sacerdócio. Diz Davi, sim, que Deus jurou isto; mas onde, ou quando, ou com que palavras jurou isto não diz.

*Quanto* Jesus com juramento, aqueles sem juramento, e quanto por Jesus nos achegamos a Deus, e pela lei ninguém era levado à perfeição, *tanto* Jesus *foi feito fiador*, isto é, firmador e afirmador, *de uma melhor aliança*, isto é, de uma que promete coisas melhores, porque eternas. Como nas promessas, também nesta dignidade que segue, Jesus excede os sacerdotes levíticos: porque *aqueles*, isto é, os sacerdotes levíticos, *foram feitos em maior número*; em maior número porque *a morte os impedia de permanecer* em vida, sobrevindo a morte: este, porém, Cristo, tem sacerdócio sempiterno, *porque permanece para sempre*; donde, porque permanecendo para sempre tem sacerdócio sempiterno, *pode também salvar perpetuamente*, quando consta que os sacerdotes mortais da lei puderam, no tempo do seu sacerdócio, conferir algumas salvações.

Mostrado como pelo sacerdócio de Cristo o sacerdócio antigo e a lei são destruídos, e recomendado bastante o próprio sacerdócio de Cristo, recomenda agora também o ato e a exibição do ofício sacerdotal em Cristo, rebaixando por contrário a operação do sacerdócio antigo, dizendo: Jesus pode salvar perpetuamente; ele, digo, *aproximando-se de Deus*, não por hóstias alheias de animais, mas *por si mesmo*, hóstia viva oferecida no altar da Cruz; Jesus, digo, *vivendo sempre para interceder* ao Pai *por nós*, porque a sua carne vive sempre nos céus para isto, para que, pela sua representação, incessantemente solicite o Pai por nós: digo, aproximando-se por si mesmo; *convinha*, com efeito, e era necessário que tal, e aproximando-se por si mesmo, fosse para nós Pontífice, *santo* em si pela posse das virtudes, *inocente* para com o próximo, e, sendo santo pelo hábito dos bens, *imaculado* também pela ausência dos vícios; nem imaculado de modo a ter sido alguma vez maculado, mas cada dia *separado dos pecadores*, isto é, separado do rebanho dos pecadores; *feito também mais alto que os céus*, isto é, que toda criatura celeste: este Pontífice, tal e tal, *não tem necessidade de oferecer cada dia por si*, como os sacerdotes levíticos têm necessidade de oferecer hóstias, *primeiro interceder por seus pecados, depois pelos pecados do povo.* Não diz "cada dia" como se algum dia seja necessário a Cristo oferecer por si, mas para remover de Cristo o que atribui àqueles que cada dia têm necessidade de oferecer por si. Cristo não tem esta necessidade; *isto*, a saber, oferecer, *fez uma vez*, não porém por si, mas pelos delitos do povo; fez, digo, *oferecendo-se a si mesmo*: e a sua oblação, uma vez feita, foi suficiente a todos para a remissão de todos; por isso não é necessário que seja iterada. Aqueles sacerdotes têm necessidade de oferecer cada dia por si, porque *a lei constitui sacerdotes homens que têm fraqueza* tanto de fragilidade da natureza como de pecado; a lei constituiu tais sacerdotes, mas a palavra do juramento, que foi dita depois da lei dada, por Davi, constituiu sacerdote não homem, mas *o Filho de Deus*, não tendo fraqueza, mas duradouro eternamente e *perfeito.*

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# Capítulo 8

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> O ponto capital do que se está dizendo é: Temos tal Pontífice, que se assentou à direita do trono da Majestade nos céus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor armou e não o homem. Todo pontífice, com efeito, é constituído para oferecer dons e sacrifícios; donde é necessário que também este tenha algo que oferecer. Se, pois, estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, havendo os que oferecem dons segundo a lei, que servem de figura e sombra das coisas celestes; como foi respondido a Moisés, quando ia consumar o tabernáculo: Vê, disse, faze tudo segundo o modelo que te foi mostrado no monte. Agora, porém, alcançou ministério tanto melhor, quanto é mediador de uma melhor aliança, estabelecida sobre melhores promessas. Pois, se aquela primeira fosse sem defeito, não se buscaria lugar para uma segunda. Censurando-os, com efeito, diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, e consumarei sobre a casa de Israel e sobre a casa de Judá uma aliança nova, não segundo a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito; porque eles não permaneceram na minha aliança, e eu os desprezei, diz o Senhor. Pois esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as escreverei nos seus corações; e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará cada um ao seu próximo, e cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles; porque serei propício às suas iniquidades, e já não me lembrarei dos seus pecados. Ao dizer "nova", tornou velha a primeira. E o que se torna antigo e envelhece está perto de desaparecer.

## Comentário

Como se tivesse dito pouco deste sacerdote, abrange agora brevemente a dignidade dele, acima da que abrangeu nas premissas; como se dissesse: muito, sim, disse do louvor deste sacerdote, mas agora farei *o capítulo*, isto é, um breve complexo de muitas coisas, capítulo, digo, *sobre isto*, isto é, superior e mais digno para o louvor de Cristo, contendo, sim, tudo o que se diz nas premissas; este, digo, é o capítulo: *temos tal Pontífice*, que há muito *se assentou* com o Pai repousando e julgando; assentou-se, digo, *à direita*, isto é, na igualdade *do trono da Majestade*, isto é, da Divindade que se assenta; Majestade, com efeito, diz-se o Pai, que, igualmente assentado, repousa e julga; assentou-se, digo, *nos céus*, isto é, ou sobre aqueles céus materiais, ou sobre os Tronos e Dominações: este Pontífice, digo, ali *ministro dos santuários*; nos céus, com efeito, ministra a glória significada pelo Santo dos Santos; *ministro* também ali *do verdadeiro tabernáculo*, isto é, da verdade que o tabernáculo antigo prefigurava, a saber, a justiça na Igreja presente, a glória na futura; tabernáculo verdadeiro que o Senhor *armou* para permanecer eternamente; aquele, porém, sombrio tabernáculo da lei não era armado, mas portátil de lugar em lugar. Diria o judeu: também o tabernáculo legal armou o Senhor por meio do ministro Moisés. Certamente, diz Paulo, mas isto armou o Senhor de modo que não esteve aqui com aquele por cujo ministério armava, mas armou pessoalmente.

Verdadeiramente Cristo é ministro; *pois todo pontífice é constituído para ministrar*, a saber, *para oferecer dons e sacrifícios*: donde, porque todo pontífice é constituído para oferecer, *é necessário que também este* Pontífice Cristo tenha *algo que oferecer*; e, sendo necessário que tenha algo para oferecer, ou isto será sobre a terra, ou celeste: mas não sobre a terra; *se estivesse na terra*, com efeito, *nem sequer seria sacerdote*, quanto menos pontífice; logo, será celeste o que ofereceria. Diz estar sobre a terra tudo o que se oferecesse em coisas carnais e por coisas carnais. Se fosse sobre a terra o que Jesus oferecesse, não só nego que seja pontífice, mas nem sequer seria sacerdote; em vão, com efeito, seria sacerdote em coisas carnais, *havendo muitos sacerdotes que oferecem dons segundo a lei*, isto é, sobre a terra.

Diria ele: muitos há que oferecem, mas, como ninguém pode oferecer assim dignamente, era bom que Jesus oferecesse segundo a lei. E isto remove, dizendo: *havendo os que oferecem segundo a lei e servem de figura*. Diz-se figura (*exemplar*) aquilo à semelhança do qual se faz algo; exemplo, porém, a semelhança que se toma do modelo. Quando Deus chamou Moisés ao monte, ali lhe revelou toda a verdade a cumprir sobre o culto de Deus; mas Deus, com Moisés, entendendo que aquele povo carnal não podia logo apreender as coisas espirituais, disse a Moisés que, conforme a verdade que ali via, fizesse figuras para aquele povo carnal, nas quais o povo pueril fosse nutrido tanto tempo até poder passar da meninice das figuras à maturidade da virtude; e deste modo a verdade antes mostrada foi modelo das figuras feitas à semelhança da verdade antes mostrada. De novo, em outra consideração, as figuras dizem-se modelo da verdade, segundo o cumprimento daquela à semelhança das figuras precedentes, e segundo este modo chama aqui as figuras modelo. Nas passagens seguintes, porém, chama modelo a verdade antes revelada a Moisés no monte, em relação às figuras achadas à semelhança da verdade mostrada. *Servem*, digo, *de figura*, isto é, de figuras, *e sombra*, e porque o modelo às vezes é a verdade e não figura, acrescenta "e sombra", porque aquelas figuras eram modelo, não tendo a verdade mas a sombra da verdade, a ser levemente repelida por Cristo; havendo, digo, os que servem de sombra *das coisas celestes*, cumprindo assim tudo *como foi respondido a Moisés* por Deus, e como aqueles sacerdotes bem cumpriam a lei, em vão Jesus assumiria este sacerdócio; *foi respondido a Moisés*, não quando começava, mas *quando ia consumar o tabernáculo*: algumas figuras, com efeito, pôde achar por si mesmo; mas, como não podia achá-las todas por si, voltou a Deus, para ser ensinado das figuras como da verdade; ao qual o Senhor diz: *Vê*, Moisés, *faze tudo*, isto é, todas as figuras, *segundo o modelo*, isto é, segundo a verdade, *que te foi mostrado no monte.*

Aqueles têm o ministério de servir à figura e sombra; mas Jesus *alcançou ministério melhor*, porque tanto ministra em coisas espirituais como dá as espirituais; alcançou, digo, agora, depois de mostrado que não oferece o que esteja sobre a terra; ministério, digo, *tanto melhor quanto o próprio Jesus é mediador de uma melhor aliança*, isto é, que promete coisas melhores, porque eternas: e não diz "doador", mas *mediador*, porque, médio entre Deus e o homem, recebe de Deus o que dá ao homem. Aliança que foi *estabelecida*, isto é, confirmada, para durar eternamente; estabelecida, digo, *sobre promessas*, isto é, muitas e diversas promessas; *melhores* promessas, digo, como muitas vezes foi dito.

Disse ali: Cristo é doador de uma melhor aliança; e isto prova dizendo: verdadeiramente a aliança de Cristo é melhor que a aliança anterior; *pois aquela primeira aliança não esteve sem defeito*, a de Cristo, porém, está sem defeito; *se aquela primeira aliança estivesse sem defeito*, não se daria a segunda aliança; mas, porque se deu a segunda, aparece que a primeira foi imperfeita e a segunda perfeita; em vão, com efeito, seria destruída a primeira aliança se não fosse imperfeita, e em vão se daria a segunda para correção da primeira imperfeita, se não fosse perfeita. O que assim diz: *se aquela primeira aliança fosse sem defeito*, não diz "se os homens sob ela fossem sem defeito", mas se aquela mesma aliança fosse sem defeito, isto é, vazia de culpa; nisto, com efeito, a própria lei parecia não ser vazia de culpa, porque mandava e não tinha a graça auxiliadora que ministrasse, assim tornando culpáveis todos os legais; se, digo, aquela primeira fosse sem defeito (o mesmo certamente vos digo), *não se buscaria lugar*, isto é, oportunidade, *para uma segunda* aliança a dar. Diz "buscaria" porque Deus, primeiro por Noé, depois pelos Patriarcas, depois pela lei e Profetas, instruindo paulatinamente na lei a rudeza carnal dos homens, buscava lugar em que, instruídos eles para a perfeição, daria oportunamente a aliança espiritual.

Se, digo, a primeira aliança estivesse sem defeito, não se buscaria lugar para a segunda; mas busca-se lugar para a segunda; e isto prova pelo testemunho de Jeremias, que diz: verdadeiramente se busca; *pois o Espírito Santo, censurando-os*, os legais, diz por Jeremias: *Eis que virão dias*, paulatinamente aproximando-se mais e mais — chama dias o tempo de Cristo, porque, vindo Cristo, as trevas foram repelidas e luziu o dia, isto é, o conhecimento da verdade —; e que venham estes dias, não o digo eu, mas *diz o Senhor*: crede-lhe. *E naqueles dias consumarei*, isto é, darei, *uma aliança nova*, que será consumadora da antiga, porque levando à perfeição: como nova, bastante determinará nas passagens seguintes. Consumarei, digo, aquela *sobre a casa de Israel e sobre a casa de Judá.* À letra, por Israel e Judá entendem-se só os judeus, mas, segundo as interpretações das palavras, entende-se todo aquele que vê e confessa a Deus. Divide Israel e Judá porque, depois da morte de Salomão, que teve reino sobre ambos, Roboão seu filho teve só a tribo de Judá e meia tribo de Benjamim, e as outras tribos de Israel, desde aquele dia, afastando-se dele, aderiram a Jeroboão (3Rs 12). Esta aliança nova darei *sobre a casa*, isto é, para que, como que vinda do alto, domine sobre Israel e Judá; e não seja como a lei antiga, serva na mão do sacerdote.

E porque a aliança nova poderia ser nova porque novas coisas terrenas prometesse e preceituasse, determina isto dizendo: *nova* de modo que não seja *segundo aquela aliança que fiz com os seus pais.* E porque a alguns pais, como Abraão, fizera aliança espiritual, por isso, determinando, diz: *que fiz no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito.* Diz "tomei pela mão" por semelhança com quem toma e levanta a mão de quem jaz na lama e é impotente para se levantar por si; assim Deus os tomou, impotentes por si, e os tirou da miséria dos egípcios. Como os censurou, diz agora: eu, sim, tomei-os pela mão; mas *porque eles não permaneceram na minha aliança*, eles me desprezaram; *e eu os desprezei*: e, se digo que fostes desprezados por Deus, não me sejais molestos, porque isto *diz o Senhor.*

Verdadeiramente darei aliança nova, e não segundo aquela que dei aos seus pais; porque *esta é a aliança que eu farei*, isto é, darei ordenadamente, *com a casa de Israel*, isto é, de todos os que veem a Deus, e não agora, mas *depois daqueles dias* determinados; e isto de novo crede, porque assim *diz o Senhor.* *Porei* certamente *as minhas leis na sua mente*, isto é, nas suas inteligências; nem só porei, mas também as escreverei, para que permaneçam eternamente, *nos seus corações*, isto é, nas suas vontades; porque tanto entenderão como por vontade operarão as minhas leis; escreverei, digo, como o que deve sobrar e dominá-los. E depois que tiverem as minhas leis escritas na mente e no coração, *serei o seu Deus*, porque se dirá: verdadeiramente Deus habita nestes, que resplandecem com tantos milagres; *e eles serão o meu povo*, porque se dirá deles: estes são na verdade o povo de Deus.

Esta parte da profecia cumpre-se neste mundo; o que segue resta a cumprir-se no futuro: *eles serão o meu povo*; *e não ensinará cada um ao seu próximo.* Diria alguém: talvez porque não cuidará dele; por isso acrescenta: nem ensinará cada um *ao seu irmão*, a quem muito ama, dizendo: Assim, irmão, *conhece o Senhor.* Por isso um não ensinará ao outro, *porque [todos] me conhecerão, desde o menor até o maior deles*: isto, porém, se cumprirá no dia do juízo, quando também os ímpios confessarão Cristo Filho de Deus. Notam os santos que diz "desde o menor até o maior", e não ao contrário, para mostrar que todos então conhecem perfeitamente a Deus; do menor, com efeito, é impossível ser ensinado o maior.

*E serei o seu Deus*, todos de novo me conhecerão; e tudo isto lhes farei, *porque serei propício às suas iniquidades, e já não me lembrarei dos seus pecados.* Diz iniquidades quando não guardam a equidade para com o próximo; pecados, quando em si mesmos obram mal. Ou, para tomarmos pecado e iniquidade como o mesmo, dizemos assim: diz: serei propício às suas iniquidades; e porque se poderia dizer propiciação se perdoasse sem vingança no presente, por isso acrescenta: serei propício de modo que já não me lembrarei dos seus pecados no futuro. Alguns livros têm "do pecado deles", e segundo esta letra entende-se o original.

A partir deste lugar começa Paulo: disse o Profeta: darei aliança nova; *ao dizer "nova", tornou velha a primeira*, em significação ativa; ou então, envelheceu, isto é, tornou-se velha a primeira aliança, em passiva. E digo bem "tornou velha a primeira", porque *está perto de desaparecer*; o que assim diz: *o que se torna antigo*, como nas coisas inanimadas, *e envelhece*, como nas animadas, tudo isto está perto de desaparecer; a velhice, com efeito, e a antiguidade são prenúncios da morte.

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# Capítulo 9

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Também a primeira aliança tinha regulamentos de culto e um santuário terrestre. Com efeito, foi armado um primeiro tabernáculo, no qual havia o candelabro, a mesa e a exposição dos pães, que se chama o Santo. Depois do véu, porém, o segundo tabernáculo, que se chama Santo dos Santos, tendo o turíbulo de ouro e a arca da aliança, toda revestida de ouro por todos os lados, na qual havia uma urna de ouro contendo o maná, e a vara de Aarão que florescera, e as tábuas da aliança; e sobre ela os Querubins da glória, que cobriam com a sua sombra o propiciatório; das quais coisas não é agora o momento de falar por miúdo. Assim dispostas estas coisas, no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes, cumprindo os ofícios dos sacrifícios; no segundo, porém, uma vez por ano, só o pontífice, e não sem sangue, que oferecia por si mesmo e pelas ignorâncias do povo; significando com isto o Espírito Santo que ainda não estava aberto o caminho do santuário, enquanto o primeiro tabernáculo estava de pé. O que é figura para o tempo presente, segundo a qual se oferecem dons e sacrifícios que não podem tornar perfeito, quanto à consciência, aquele que presta culto, consistindo apenas em alimentos e bebidas, e em várias abluções e regulamentos da carne, impostos até o tempo da reforma. Cristo, porém, tendo vindo como Pontífice dos bens futuros, por um tabernáculo maior e mais perfeito, não feito por mão, isto é, não desta criação, nem pelo sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue entrou uma vez no Santuário, tendo obtido eterna redenção. Pois, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha aspergida santificam os impuros, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! E por isso é mediador de um novo Testamento, para que, intervindo a morte para redenção das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento, os que foram chamados recebam a promessa da herança eterna. Pois onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. O testamento, com efeito, é confirmado pelos mortos; de outro modo ainda não vale, enquanto vive o testador. Por isso nem o primeiro foi inaugurado sem sangue. Pois, tendo Moisés lido a todo o povo todo o mandamento da lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã escarlate e hissopo, e aspergiu o próprio livro e todo o povo, dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus mandou para vós. Também o tabernáculo e todos os vasos do ministério aspergiu igualmente com sangue; e quase tudo, segundo a lei, se purifica com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. É necessário, pois, que as figuras das coisas celestes sejam purificadas por estes meios; as próprias coisas celestes, porém, por sacrifícios melhores que estes. Pois Jesus não entrou num santuário feito por mão, figura dos verdadeiros, mas no próprio céu, para comparecer agora diante da face de Deus por nós. Nem para se oferecer muitas vezes, como o pontífice entra no Santuário cada ano com sangue alheio; de outro modo, deveria ele ter padecido muitas vezes desde a origem do mundo; mas agora, uma vez, na consumação dos séculos, apareceu para destruir o pecado pelo seu sacrifício. E, assim como está estabelecido que os homens morram uma vez, e depois disso o juízo, assim também Cristo foi oferecido uma vez para tirar os pecados de muitos; aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam, para a salvação.

## Comentário

Mas, embora o primeiro testamento esteja perto de desaparecer, contudo *também o primeiro testamento tinha regulamentos*, não verdadeiros, mas segundo o modo do seu culto, isto é, carnais, porque carnal era o culto; *e um santuário*, não espiritual mas *terrestre*, porque pelos homens se julgava haver ali santidade, que contudo não havia. E isto prova: verdadeiramente o primeiro testamento tinha santuário, *pois teve tabernáculo primeiro e segundo*; o que assim diz: *foi armado o primeiro tabernáculo*, no qual primeiro *havia o candelabro.* Embora diga "candelabro" e no plural, era contudo um só candelabro, tendo uma haste no meio, na qual se apoiavam seis braços, três à direita, três à esquerda (Ex 25,32). E havia naquele tabernáculo *a mesa* logo depois da entrada, e sobre esta mesa estava *a exposição dos pães*, isto é, doze pães propostos a Deus pela santificação; dos quais se por acaso alguém fosse consumido por necessidade (este pão santificado era, com efeito, necessário aos sacrifícios), estava preparado igualmente um pão de flor de farinha, que logo era substituído no lugar do tomado: estes doze pães eram postos no sábado; retirados no sábado seguinte, eram repostos outros doze. Este tabernáculo, contendo estas coisas, *chama-se o Santo.* Havia, porém, fora deste tabernáculo, o altar a céu aberto, sobre o qual se imolavam os animais.

*Depois do véu, porém, havia o segundo tabernáculo*; um véu, com efeito, fora interposto, que separava o primeiro tabernáculo do segundo; este segundo tabernáculo *chama-se Santo dos Santos*: o segundo tabernáculo, digo, *tendo o turíbulo de ouro*, e *tendo a arca da aliança*, isto é, que continha o testamento, *revestida* em redor *de ouro*; e porque por fora poderia estar revestida de ouro e não por dentro, por isso acrescenta *toda revestida de ouro por todos os lados*, tanto dentro como fora. *Na qual arca havia uma urna de ouro*, isto é, um gomor feito de ouro, *contendo o maná*, para que tivessem de memória com que pão Deus os alimentara no deserto; e havia na mesma arca *a vara de Aarão que florescera*, isto é, pela qual foi eleito sacerdote; e havia ali *as tábuas da aliança*, em que estava escrita a lei. *E sobre a arca estavam os Querubins*, isto é, dois Anjos; Querubins, digo, *da glória*, isto é, gloriosamente decorados; e aqueles Querubins *cobriam com a sua sombra o propiciatório.* Havia sobre a arca uma tábua que se chamava propiciatório, porque entre os dois Querubins, sobre a mesma tábua fixada, costumava aparecer o Anjo que dava os oráculos divinos. E neste segundo tabernáculo estava o altar do incenso. No templo, porém, havia dois tabernáculos, que um véu interposto dividia. Havia no primeiro tabernáculo, junto da entrada, a mesa, e sobre ela doze pães, e sobre cada um deles incenso; havia também o candelabro de cada parte com três braços coerentes ao tronco do meio, nos quais braços havia pequenas esferas; depois das esferas, lírios; depois deles, taças.

O primeiro tabernáculo, pois, significa a Igreja dos fiéis que está no mundo, na qual os ministros da Igreja oferecem cada dia orações e sacrifícios. A mesa no templo, junto à porta, entende-se a Escritura divina, que se ministra aos que entram na Igreja pela fé, segundo a sua capacidade. Os doze pães são os doze Apóstolos, de cuja doutrina os fiéis se reconfortam na Igreja: o que, porém, sobrevindo alguma necessidade, alguém tomava dos pães e outro era substituído no lugar daquele, significa que, tirado do mundo algum dos Apóstolos ou dos seus sucessores, outro que faça as suas vezes deve ser substituído no lugar dele: pães que todos se consomem no sábado; porque, depois que se chegar ao repouso da verdadeira glória no dia do juízo, já nenhum ofício de bispo ou cuidado eclesiástico será exercido. Estes pães dizem-se de flor de farinha, porque nos Apóstolos nada houve senão pureza de inocência e perfeição das virtudes, nem nos seus sucessores deve haver; o incenso, porém, posto por cima, cujo odor é jucundo, são as orações deles, que são aceitáveis a Deus e jucundas e úteis aos seus súditos.

A haste do candelabro, à qual aderiam três braços à direita e outros tantos à esquerda, é Cristo, a quem, como a firme tronco, aderem tanto os fiéis da Igreja antiga como da nova, e tudo o que são ou foram o têm dele; os três ramos, com efeito, que estão à direita, mostram as três ordens dos fiéis desta Igreja, que é mais digna que a antiga; tens estes no Evangelho, onde se diz: Dois estarão no leito; um será tomado, o outro deixado: dois no campo; um será tomado, o outro deixado; dois no moinho; um será tomado, e o outro deixado (Lc 17,34-35). Dois no leito, os continentes; destes serão deixados os que, abstendo-se ou por favor do mundo, ou por Deus, contudo desfalecem; os que, porém, o fazem por Cristo e perseveram, serão tomados à glória: dois no campo, são os que trabalham na Igreja, que é o campo de Deus; dos quais (como se disse dos outros) alguns serão tomados à glória, alguns deixados à pena: dois no moinho demonstram os possuidores deste século, permanecendo na volubilidade das coisas mundanas, que trabalham para que o marido agrade à mulher e a mulher ao marido; destes serão deixados aqueles que a deleitação do próprio mundo arrasta aos crimes e à perdição; serão, porém, tomados os que não caem em crimes e do dinheiro da iniquidade fazem para si amigos (Lc 16,9). Aqueles três ramos que aderem à parte esquerda mostram as três ordens dos fiéis sob a antiga; tens-as por Daniel, por Noé, por Jó: Daniel, com efeito, que viveu castamente, mostra os continentes sob a lei antiga; Noé, fabricador e artífice da arca do Senhor, pré-assinalou os doutores da lei; Jó, que esteve no matrimônio e na posse das coisas, demonstra os que no matrimônio e nas coisas mundanas agradaram a Deus.

Em todos estes ramos havia esferas, porque em todos havia a redondeza da perfeição e a igualdade da justiça. A estas esferas seguiam-se lírios, porque depois que alguém é perfeito se torna odor grato a Deus e, na Igreja, olente pelo exemplo das boas obras. Depois dos lírios sucedem as taças, porque, quando alguém é provado perfeito e pelo exemplo da boa operação é reconhecido como lírio pelo seu odor, resta que se faça pregador e propinador da doutrina católica aos que dela carecem; o qual, feito tal pela operação e doutrina, tanto a si mesmo acende com o fogo da caridade como mostra aos outros a luz nas trevas.

O segundo tabernáculo, porém, era dividido do primeiro pela interposição do véu, no qual só o pontífice e uma vez por ano entrava com sangue. Aquele tabernáculo é a Igreja celeste; ele, porém, é coberto por um véu; porque, enquanto estamos nesta carne ainda mortal ou Igreja, que e quão grandes coisas Deus prepara aos seus não podemos conhecer, pela cegueira da ignorância. O pontífice, que uma vez por ano e com sangue entrava, é Cristo, que, na perfeição dos tempos, oferecendo uma vez o seu sangue, iniciou para nós o caminho da pátria celeste. Que a própria hóstia fosse reiterada cada ano mostrava a imperfeição da própria hóstia, e da sua mesma iteração mandava esperar outra hóstia, que não conviesse iterar. O turíbulo de ouro é Cristo, que, por ter tido perfeita sabedoria das coisas mundanas e das celestes, com razão se diz ter sido de ouro; por ter estado cheio do fogo da caridade para com Deus e o próximo, e ter derramado a Deus pelo mundo o jucundo odor das orações, com razão se assemelha ao turíbulo que contém o fogo e emite para o alto o odor do incenso. O mesmo é também a arca da aliança, isto é, em que se reservava a aliança e se ocultava; porque na Sabedoria do Pai, com a qual ele mesmo era pessoalmente, os preceitos da lei antiga e da nova estavam ocultos e já dependiam da sua disposição; ele, que os fecha e ninguém abre, abre e ninguém fecha (Ap 3,7). Esta arca estava revestida de ouro por todos os lados, tanto por dentro como por fora, porque ele resplandeceu, na alma e no corpo, pela consumação de todas as virtudes, e nenhuma justiça lhe faltou. Nesta arca havia uma urna de ouro, porque no corpo de Cristo havia a verdadeira alma humana, e essa cheia de toda virtude e perfeita sabedoria: na urna estava o maná escondido, porque na alma de Cristo está a própria Divindade, que é pão e refeição dos Anjos. Havia também na arca a vara de Aarão e as tábuas da Aliança: a vara de Aarão significou o verdadeiro sacerdócio; as tábuas da Aliança são os corações daqueles em quem os preceitos da lei se assentam e repousam. Estão, pois, na arca a vara de Aarão e as tábuas da Aliança, porque em Cristo está o verdadeiro sacerdócio e cada fiel; donde diz no Evangelho: «Permanecei em mim, e eu em vós» (Jo 15,4).

Sobre a arca estava a tábua que se chamava propiciatório, na qual Deus, aparecendo por um Anjo, se tornava propício aos pecados deles. Sobre o propiciatório, dois Querubins sempre com o rosto inclinado a olhá-lo, e com a conjunção das suas asas estendidas por cima o cobrindo com sombra. O mesmo Cristo é propiciatório, enquanto dele pedimos o que queremos, e com a sua misericórdia se torna propício aos nossos pecados. Sobre ele estão dois Querubins, porque também as virtudes mais altas dos céus se apoiam nele e têm nele o firmamento da sua estabilidade. Os mesmos Querubins olham sempre o propiciatório, mas por cima o cobrem com sombra, porque as virtudes celestes contemplam sempre a misericórdia de Deus, mas, quanto mais intensamente o olham, tanto mais obscuro e mais ignoto se torna, porque a misericórdia do Senhor é abismo profundo.

Na arca, porém, havia quatro anéis, nos quais se metiam varais, e assim a arca era levada aonde a coisa requeria. Os quatro anéis são os quatro Evangelhos; os varais, os santos pregadores, que, metidos na doutrina do Evangelho, levam Cristo e a sua fé aonde Deus quer e preordena. O fato de ter sido feita de madeira de setim, que é imputrescível, pré-assinalou que o corpo de Cristo, depois da Paixão, seria imortal e impassível. Estas coisas estão no primeiro e no segundo tabernáculo; *das quais não é agora o momento de falar por miúdo*, indo a interpretar cada uma delas. De cada uma, sim, não se deve falar, mas destas coisas assim dispostas deve dizer-se isto, a saber, que *no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes, cumprindo os ofícios dos sacrifícios*, isto é, aperfeiçoando os sacrifícios segundo o rito do seu ofício: no primeiro sempre, mas *no segundo tabernáculo entrava uma vez por ano só o pontífice, e não sem sangue*; tomado o qual do animal imolado fora, tingia com ele os cornos do altar do incenso; sangue que o sacerdote *oferece por si mesmo e pelas ignorâncias do povo* a perdoar; *significando com isto o Espírito Santo*, pelo fato de no primeiro entrarem todos, no segundo ninguém além do só pontífice, *que ainda não estava aberto o caminho do santuário*, isto é, que os santos não podiam entrar nos céus, caminho que lhes havia de ser aberto em Cristo, com a sua ressurreição: e ainda quando não estava aberto o caminho dos santos, mas Abraão e todos os santos eram mantidos nas trevas, então, digo, *estando o primeiro tabernáculo de pé*; até que, com efeito, foi aberto o caminho dos santos, celebrando Cristo a nova Páscoa, a lei antiga teve o seu estado por Deus.

*O que tudo é figura para o tempo presente* de todo o primeiro e verdadeiro tabernáculo, isto é, figura pertencente a este tempo que agora está iminente, porque tudo o que ali foi figurado agora foi cumprido em Cristo — no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes consumando os sacrifícios, porque na Igreja presente entramos cada dia consumando o sacrifício espiritual de Cristo; no segundo tabernáculo o pontífice entrava uma vez por ano, porque Cristo, verdadeiro Pontífice, entrou na Igreja celeste uma vez, não voltando mais da glória; que o sacerdote reiterasse cada ano a entrada daquele segundo tabernáculo, esperava que o verdadeiro Pontífice Cristo ainda não entrara no seu tabernáculo nos céus, mas ainda havia de entrar: o pontífice legal não entrava sem sangue, porque Cristo não penetrou os céus senão derramando primeiro o seu sangue em redenção de todos; sangue que Cristo ofereceu, não por sua, mas pela ignorância de todo o povo a apagar —: *segundo a qual figura* se oferecem na lei antiga dons, isto é, as oblações menores; oferecem-se também sacrifícios de animais. Assim, nesta Igreja presente, os nossos dons são as orações em odor de suavidade a Deus, e os sacrifícios são os que são imolados por Cristo, como Lourenço, também os que se imolam a si mesmos com jejuns, vigílias e múltiplas aflições. Estes dons e sacrifícios, na lei antiga, *não podem tornar perfeito* aquele que presta culto nestas coisas; e, se é perfeito segundo a reputação dos homens, não é contudo perfeito *quanto à sua consciência*, porque a consciência lhe sussurra continuamente que se fez réu de crime e não foi purificado pelas coisas legais: nem é de admirar que não seja perfeito; porque *presta culto*, digo, *apenas em alimentos e bebidas*, porque come e bebe copiosamente; *e em várias abluções*, isto é, lavagens feitas segundo os ritos legais; prestando culto também em *regulamentos*, mas *da carne*, porque carnais são aqueles regulamentos, que livram o corpo da pena da lei, mas deixam a alma nos vínculos do pecado; regulamentos da carne, digo, *impostos* para durarem *até o tempo da reforma*, isto é, até Cristo, na perfeição do testamento por quem se corrigiria a imperfeição do antigo.

Os dons e sacrifícios legais a ninguém podem tornar perfeito, mas *Cristo obteve eterna redenção*, o que é dizer: Cristo faz perfeito. Mas por que meio obteve a eterna redenção antepõe, dizendo: *Cristo, tendo vindo*; não determina a quem vem; e podemos dizer: Cristo, vindo ao Pai, interpelando sempre por nós pela sua representação, ou então, Cristo, vindo por nós, erguendo a nossa fraqueza às coisas celestes, estendendo-nos a mão do auxílio; Cristo, digo, vindo como *Pontífice* não das coisas carnais, mas *dos bens futuros*, isto é, celestes, ou então, dos bens futuros, isto é, da justiça presente e da bem-aventurança eterna, que todos no tempo da lei eram futuros: Cristo, digo, tal Pontífice *entrou no tabernáculo* — pelo nome do significante designa o significado —, tabernáculo, digo, *maior*, porque, se aquele antigo comportava mil ou muitos milhares de homens, o tabernáculo celeste é ainda maior, comportando largamente a infinidade de todos os que nele entram; tabernáculo *mais perfeito*, porque naquele tabernáculo se recebe a perfeição de toda a bem-aventurança, no tabernáculo legal havia por toda parte imperfeição; tabernáculo, digo, *não feito por mão*; e para que ninguém tomasse isto perversamente, julgando que não foi feito por mão, isto é, pela operação de Deus, determina, dizendo: o que digo, "não feito por mão", é dizer: aquele tabernáculo não é *desta criação*, isto é, humana, como o antigo, no qual as mulheres teciam cortinas, os ferreiros trabalhavam em seu gênero, e igualmente os demais artífices. Entrou, sim, neste tabernáculo, *nem pelo sangue de bodes e de bezerros* derramado, o que convinha fazer-se na entrada do segundo tabernáculo, mas entrou, *pelo seu próprio sangue* derramado, no tabernáculo celeste, a saber, no Santo dos Santos: entrou certamente *uma vez*, e por sangue derramado uma vez — pois dizer que entrou uma vez e derramou o sangue uma vez significa a perfeição daquele sacrifício, que não convinha iterar; que o sacrifício antigo tantas vezes o iterassem, significava que nele não estava, nem ainda tinha vindo, a perfeição —; *entrou no Santuário, tendo obtido redenção*; não determina por quem obtida, se por si, se por outro, e ambas as coisas podemos dizer: redenção obtida por Cristo, porque este Pontífice, no seu sacrifício, obteve a redenção dos homens dos pecados, em cuja obtenção os pontífices legais sempre falharam; ou então, redenção obtida por nós; nós, com efeito, em Cristo obtivemos a nossa redenção; redenção, digo, *eterna*, porque aos que redime faz eternos.

Prova-o a partir do menor, dizendo: verdadeiramente pelo sangue de Cristo se obteve a redenção; porque *se o sangue de bodes e de touros, e a cinza de uma novilha queimada, aspergida* sobre o povo, *santifica os impuros*, isto é, purifica as poluções dos pecados, santifica, digo, valendo *para a purificação*, certamente não da alma, mas só *da carne*, porque livra a carne da pena da lei, a alma permanece poluída; se, digo, o sangue daqueles animais de algum modo santifica, *quanto mais o sangue de Cristo purificará a nós?* Cristo, que ofereceu não um bode, não um touro, mas *a si mesmo a Deus*; a si, digo, *imaculado*, o que nenhum sacrifício pôde ser na lei; imaculado, digo, *pelo Espírito Santo* a ele unido no útero da mãe, de quem foi concebido, feito por isto imune de pecado; ou então, ofereceu-se pelo Espírito Santo, que lhe ditava que obedecesse ao Pai em toda a paciência: quanto mais, digo, o sangue de Cristo purificará, não digo a carne, mas também *a nossa consciência*, de modo que nem sobrará de que a consciência tema; purificará certamente *das obras mortas*, isto é, dos pecados que operam a morte, *para servirmos* — estas duas coisas, com efeito, o sangue de Cristo efetua em nós: tanto purifica dos pecados como restitui a virtude do livre-arbítrio, para que possa servir a Deus —; *ao Deus vivo* (posto como causa), porque aos que o servem dará a vida eterna.

*Ofereceu-se a si mesmo*: e é Mediador, isto é, doador do novo Testamento, médio entre Deus, de quem recebe, e o homem, a quem dá; por isso doador do Testamento novo, *para que*, intervindo a morte dele, isto é, vindo no meio entre a disposição e o cumprimento do Testamento, morte, digo, necessária *para a redenção*, não digo dos gentios, de quem consta, mas *das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento*; aquela lei primeira, com efeito, mandando, acrescentava prevaricações, das quais de modo algum podia libertar: para que, digo, intervindo a morte, *recebam a promessa da herança eterna*, isto é, a herança eterna frequentemente a eles prometida; recebam, não todos, mas *os que foram chamados* por Deus, eleitos desde a eternidade. Depois que Cristo dispôs o novo Testamento, foi necessário que, para a confirmação desse Testamento, morresse; tanto porque, se preso pelos judeus negasse o que antes dissera, e, por afirmação deles, recusasse padecer, pensariam os discípulos que Cristo não entendera serem verdadeiras as coisas que ensinara, ao negá-las por temor da morte; além disso, era preciso morrer para que, ressurgindo da morte, consumasse o que predisse que cumpriria, a saber, a redenção de Israel.

A novilha de que falamos acima era ruiva, trazendo o tipo do sangue de Cristo, e toda era queimada reduzida a cinza, para ser holocausto ao Senhor; cuja cinza era aspergida com água: assim Cristo, triturado por muitas tribulações, e finalmente pela morte como que reduzido a cinza. A cinza da novilha, que era lançada sobre os homens, significa a memória da contrição de Cristo, que deve sempre ser inculcada aos homens. Assim, irmão, lembra-te de que Cristo padeceu e foi triturado por ti, e pecando não o provoques. Se a cinza da novilha purificava a carne, muito mais dignamente a cinza de Cristo purifica a alma.

Disse acima que Cristo é doador do novo Testamento intervindo a morte; agora, que lhe convinha morrer para a confirmação do novo Testamento, aprova-o pelo costume da lei humana; como se alguém dissesse: que necessidade houve de que, para a confirmação do Testamento novo, interviesse a morte de Cristo? Convinha certamente, diz Paulo, que desse o Testamento intervindo a morte; porque, onde quer que se faça testamento nas leis humanas, é necessário que *intervenha*, isto é, venha no meio entre a disposição do testamento e o cumprimento, *a morte do testador*, isto é, de quem faz o testamento. Por isso é necessário que intervenha a morte do testador, *porque todo testamento é confirmado pelos testadores mortos*, isto é, pela morte dos que dispõem os testamentos; *de outro modo*, isto é, se for de outro modo, de modo que a morte do testador não intervenha, *ainda não vale* o testamento disposto, *enquanto* (isto é, durante o tempo em que) *vive o testador*; se o testador, com efeito, escapa à morte, de novo, se lhe aprouver, mudará o testamento.

*Por isso*, porque todo testamento é confirmado por sangue e morte, *nem o primeiro testamento foi inaugurado*, isto é, confirmado, *sem sangue*: certamente não foi inaugurado sem sangue; *tendo sido lido, com efeito, todo o mandamento da lei* — todo, porque, se omitisse alguns, pareceria reprovar os omitidos e confirmar apenas os lidos —; lido, digo, todo o mandamento por Moisés, o mesmo Moisés, com efeito, leu, *a todo o povo* que ouvia: então Moisés, depois que lera, *tomando o sangue dos bezerros e dos bodes*, misturado *com água*, tomada também *lã escarlate e hissopo* de que se faz o aspersório, *aspergiu o próprio livro e todo o povo* com sangue, *dizendo* assim: *Este é o sangue* com que vos asperjo *do testamento*, isto é, para confirmar o testamento *que Deus mandou para vós.* Como o livro, assim também *o tabernáculo e todos os vasos do ministério aspergiu igualmente* com o mesmo sangue: *e quase tudo*, diz Paulo, segundo a lei antiga *se purifica com sangue*; e o que quer que seja dos demais, *a remissão do pecado não se dá na lei antiga sem derramamento de sangue*, isto é, nenhum pecado se remitia a não ser que se imolasse algum animal em sacrifício.

Igualmente Cristo, que é significado por Moisés, lido todo o mandamento da sua lei nova na ceia, ouvindo todo o povo dos discípulos; depois que leu tudo, Jesus, *tomando o sangue dos bezerros e dos bodes*, isto é, o próprio sangue — Cristo diz-se bezerro por causa da virtude da Cruz, com cujos cornos desbaratou os ímpios; Cristo foi dito também bode por causa da semelhança da carne do pecado, e porque foi hóstia pelo pecado, enquanto levou os nossos pecados sobre o lenho —; tomando, digo, Cristo o seu sangue *com água* que saiu do seu lado na Cruz, pela água santificando o batismo, pelo preço do sangue remindo-nos dos pecados: tomando-o *com lã escarlate*, cor ígnea, *e hissopo*: a lã significa a caridade de Cristo, e que fosse escarlate semelhante ao fogo, o fervor da dileção de Cristo; o hissopo, que vale para expulsar o tumor do pulmão, a humildade de Cristo, que por fervor de dileção e humildade derramou o seu sangue pela nossa redenção. *O próprio livro*, isto é, o seu Evangelho, que confirmou intervindo a morte, *e todo o povo* dos fiéis *aspergiu*, isto é, santificou com o seu sangue, dizendo: este é o sangue que afirma o novo Testamento, *Testamento que Deus mandou para vós.* Aqui Moisés muito fielmente provou, dizendo as mesmas palavras que Cristo, quando depois da ceia entregou o cálice do seu Sangue dizendo: Este cálice é o novo Testamento no meu sangue. Aspergiu o livro, aspergiu também o tabernáculo igualmente com sangue: pela mesma alegoria entende-se por tabernáculo a Igreja de Cristo remida pelo seu sangue, que acima se entendia por todo o povo. *Aspergiu também todos os vasos do ministério*, porque Cristo remiu com o seu sangue os doutores da Igreja, nos quais se contêm os seus ministérios, e aos remidos deu o Espírito de sabedoria e ciência. *E tudo*, segundo a lei de Cristo, *se purifica no seu sangue* ("quase" nada tem na alegoria); *e sem derramamento do sangue de Cristo não se dá remissão* de qualquer pecado.

E porque tudo convém purificar-se no sangue, e sem derramamento de sangue nenhuma remissão se dá, *portanto é necessário que as figuras das coisas celestes*, isto é, as legais, que são figura das espirituais, *sejam purificadas por estes meios* acima ditos, a saber, de bezerros e bodes: as figuras das verdadeiras foi necessário purificá-las com estas hóstias; *as próprias coisas celestes*, porém, de que estas eram figura, foi necessário purificá-las *com sacrifícios melhores que estes* acima ditos, bode e bezerro.

E verdadeiramente foi melhor o sacrifício com que foram purificadas as coisas celestes, *pois Jesus*; e verdadeiramente estas são celestes, *pois não feitas por mão*, etc., o que assim diz: Jesus entrou não permanecendo nos santuários feitos por mão, que santuários feitos por mão foram, sim, figuras dos verdadeiros, mas entrou *no próprio céu.* Entrou para que *agora*, depois de mostrado serem inúteis os santuários feitos por mão, *compareça diante da face*, isto é, do beneplácito *de Deus por nós*, a introduzir conosco no céu. Entrou, sim, no céu, mas nem assim entrou que, muitas vezes de lá voltando, de novo se ofereça a si mesmo, como se o seu sacrifício, uma vez tirado, não bastasse a todos e em todo tempo; *nem para se oferecer muitas vezes*, como o pontífice legal *cada ano*, porque não basta, iterando o seu sacrifício, entra *no Santo dos Santos*; não com o seu, como Cristo, mas *com sangue alheio*; por isso, porque é sangue alheio, não pode justificar: nisto mostra tanto o seu sacrifício suficiente como o legal insuficiente.

*De outro modo*, isto é, se de outro modo queres dizer, que Cristo deva oferecer-se muitas vezes, então sem dúvida (se assim é) *deveria ter padecido muitas vezes, começando da origem do mundo*; se, com efeito, só aos que existiram em seu tempo aproveitou a sua Paixão, e a cada idade futura convenha que padeça iteradamente; então era necessário que, começando dos dias de Abel, em cada idade levasse uma cruz, ou Abraão e os demais santos não serão remidos. Assim certamente convinha; mas *agora*, depois de mostrado que daí se segue tão grande inconveniente, deve dizer-se que Cristo apareceu *uma vez* na consumação dos séculos — o tempo de Cristo diz-se consumação, porque Cristo consumou tudo o que dele fora predito; e, não havendo antes em nada consumação, isto é, verdadeira perfeição, ele trouxe a perfeição de tudo —; apareceu, digo, *para a destruição do pecado pelo seu sacrifício*, não alheio, mas seu.

Porque destruiu plenamente o pecado, não convém que Cristo padeça de novo; por isso também não deve morrer outra vez, porque os demais homens morrem uma só vez; *e, assim como está estabelecido que os homens morram uma vez, e depois disso o juízo*, resta deles o juízo depois de mortos; *assim também Cristo foi oferecido* a Deus *uma vez* pela morte *para tirar*, isto é, esvaziar, *os pecados de muitos.* Neste fato de ter morrido uma só vez, é semelhante ao homem; mas neste fato de que o homem morre para ser julgado, Cristo é dessemelhante, pois julga; o que assim diz: na segunda vinda, vindo ao juízo, *aparecerá Cristo sem pecado*, isto é, não em semelhança da carne do pecado, mas glorificada pela claridade da imortalidade e impassibilidade; ou então, aparecerá sem pecado, isto é, não vindo para, como antes, de novo se fazer hóstia pelo pecado: aparecerá certamente *para a salvação*, não dos ímpios, mas *dos que o esperam* em justiça e temor.

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# Capítulo 10

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> Pois a lei, tendo a sombra dos bens futuros e não a própria imagem das coisas, nunca pode tornar perfeitos, pelas mesmas hóstias que cada ano oferecem sem cessar, os que se aproximam; de outro modo, teriam deixado de ser oferecidas, porque os adoradores, uma vez purificados, já não teriam consciência de pecado; mas nelas se faz cada ano a lembrança dos pecados. Pois é impossível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados. Por isso, ao entrar no mundo, diz: Sacrifício e oblação não quiseste; mas um corpo me preparaste; os holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis que venho; no princípio do livro está escrito de mim: Para fazer, ó Deus, a tua vontade. Dizendo acima que não quiseste sacrifícios, oblações e holocaustos pelo pecado, nem te agradaram os que se oferecem segundo a lei; então disse: Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade; tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Nesta vontade somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. E todo sacerdote está presente cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes as mesmas hóstias, que nunca podem tirar os pecados; este, porém, tendo oferecido uma só hóstia pelos pecados, está sentado para sempre à direita de Deus, esperando daí por diante até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés. Com uma só oblação, com efeito, consumou para sempre os santificados. Dá-nos testemunho também o Espírito Santo. Pois, depois de dizer: Esta é a aliança que farei com eles depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis nos seus corações e as escreverei nas suas mentes; e já não me lembrarei mais dos seus pecados e iniquidades. Ora, onde há remissão destas coisas, já não há oblação pelo pecado. Tendo, pois, irmãos, confiança de entrar no Santuário pelo sangue de Cristo, pelo caminho novo e vivo que ele inaugurou para nós através do véu, isto é, da sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos com coração sincero, em plenitude de fé, aspergidos os corações de má consciência e lavado o corpo com água pura, mantenhamos firme a confissão da nossa esperança (pois fiel é aquele que prometeu), e consideremo-nos uns aos outros para estímulo da caridade e das boas obras; não abandonando a nossa assembleia, como é costume de alguns, mas exortando-nos, e tanto mais quanto vedes aproximar-se o dia. Pois, se pecarmos voluntariamente depois de ter recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas uma terrível expectativa de juízo e o ardor de um fogo que há de devorar os adversários. Quem viola a lei de Moisés morre sem misericórdia, pelo testemunho de duas ou três testemunhas; quanto mais pensais que merecerá piores suplícios aquele que pisou o Filho de Deus, e considerou profano o sangue da aliança com que foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Pois conhecemos aquele que disse: A mim a vingança, eu retribuirei. E de novo: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Lembrai-vos, porém, dos dias passados, nos quais, depois de iluminados, sustentastes grande combate de sofrimentos: de um lado, expostos como espetáculo por opróbrios e tribulações; de outro, feitos companheiros dos que assim viviam. Pois compadecestes-vos também dos presos, e aceitastes com alegria o saque dos vossos bens, sabendo que tendes melhor e permanente riqueza. Não percais, pois, a vossa confiança, que tem grande recompensa. Com efeito, necessitais de paciência, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Pois ainda um pouco, bem pouco, e aquele que há de vir virá, e não tardará. O meu justo, porém, vive da fé; e, se ele recuar, não agradará à minha alma. Nós, porém, não somos filhos do recuo para a perdição, mas da fé para a salvação da alma.

## Comentário

Cristo foi oferecido para tirar os pecados porque a lei não pode tornar perfeitos, a saber, não pode tirar os pecados. E por que a lei não pode tornar perfeitos antepõe, dizendo: *a lei, tendo a sombra dos bens futuros*, isto é, da justiça futura na Igreja presente e da salvação na futura; tendo de tal modo a sombra que *nem a própria imagem das coisas*, isto é, que nem tem em si alguma parte da verdade — a imagem, com efeito, mostra ao menos as figuras dos membros, uma a uma, a sombra, porém, tudo confusamente mistura —; a lei, digo, tendo a sombra, *pelas mesmas hóstias* que sempre eram as mesmas, isto é, imperfeitas, *hóstias que oferecem cada ano*, e isto *sem cessar*, isto é, ou cada mês, ou cada semana; a lei, digo, com as mesmas hóstias tantas vezes repetidas, *nunca pode tornar perfeitos os que se aproximam* dela.

Que não torna perfeitos prova-o por isto, que, se agora imolassem por algum pecado e segundo a lei fossem dele absolvidos, se de novo pecassem e por novo pecado de novo imolassem, o sacerdote fazia memória do pecado anterior, pelo qual já imolara, mostrando a imperfeição daquele sacrifício, pelo qual, se fosse justificado, em vão recapitularia o pecado antigo; o que assim diz: *de outro modo*, isto é, se as hóstias da lei tornassem perfeitos, sem dúvida *teriam deixado de ser oferecidas* aquelas hóstias pelos pecados passados; *porque os adoradores*, purificados uma vez, imolada a hóstia, *já não teriam consciência alguma do pecado passado.* Teriam deixado de ser oferecidas, sim; mas não deixavam de ser oferecidas as hóstias pelos passados: *nelas*, com efeito, nas hóstias oferecidas cada ano pelas culpas recentes, *faz-se cada ano a lembrança* dos pecados passados; logo, aquelas hóstias não podem tornar perfeitos. E é necessário que cada ano se faça a lembrança dos passados; *porque é impossível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados.*

Por isso, porque pelo sangue de touros e bodes os pecados não podem ser tirados, *por isso, ao entrar no mundo*, isto é, o Profeta introduzindo o Filho de Deus entrando no mundo pela assunção da carne, *diz*, na voz do Filho ao Pai: Ó Senhor Pai, tu *não quiseste sacrifício e oblação* segundo a tradição legal — diz sacrifícios de animais, oblação de pães e luminárias —; aquilo, sim, não quiseste, mas *me preparaste um corpo*, isto é, quiseste preparar-me um corpo, para que do meu corpo se te fizesse hóstia agradável e pura. Diz-se que o corpo de Cristo foi preparado, porque foi imune de pecado e passível e mortal; se não fosse sem pecado, com efeito, não poderia ser hóstia pura; se se fizesse impassível e imortal, não destruiria a morte, que, imortal, não poderia provar a morte: mas, porque foi imune de pecado, passível e mortal, por isso congruentemente diz: *um corpo me preparaste.* Sacrifício e oblação não quiseste; *holocaustos* também, isto é, sacrifício totalmente incendiado, *pelo pecado*, isto é, a hóstia que se chamava pecado ou pelo pecado; estas coisas, digo, *não te agradaram*: e então, depois que vi que isto te desagradava, para que uma hóstia pura e agradável te fosse oferecida, *disse*, isto é, deliberei comigo: *Eis que venho* oportunamente, porque agora, reprovadas aquelas coisas legais, serei hóstia nova e agradável a Deus; venho *para fazer a tua vontade*, isto é, para segundo a medida da tua vontade oferecer-te a mim mesmo sacrifício novo em odor de suavidade.

Que assim devamos construir, "venho para fazer", o mesmo ensina nas passagens seguintes: *para fazer a tua vontade*; *assim, com efeito, está escrito de mim no princípio do livro*: livro diz-se Cristo homem, que foi exposto a todos como exemplo de justiça; princípio do livro diz-se a Divindade que habita em Cristo, que o rege em toda perfeição. Ou, no princípio do livro, isto é, no princípio do Gênesis<sup>[1]</sup> ou do Saltério está escrito: na lei do Senhor está a sua vontade, etc.

Paulo expõe como se deva entender a autoridade premissada: assim o Profeta na voz do Filho, *dizendo acima* (em relação à parte superior, diz "acima"), dizendo, digo, isto: que tu, Pai, *não quiseste oblações e holocaustos e pelo pecado*, isto é, não pediste que se te fizessem, e ainda que os façam sem ordem, não te são agradáveis. Diria alguém talvez: por isso não agradam, porque não se fazem ordenadamente segundo a lei. Para remover isto diz: *não te agradaram as coisas que se oferecem segundo a lei*, isto é, ainda que se façam segundo a instituição da lei. *Então*, reprovadas as hóstias legais, disse: *Eis que venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade*; estas coisas, digo, dizendo, nestas palavras *tira o primeiro* Testamento, de modo a *estabelecer*, isto é, firmar para durar perpetuamente, *o segundo*, a saber, o Testamento novo: *nesta vontade*, isto é, neste novo Testamento constituído por vontade de Deus, *somos santificados* pela posição das virtudes, depois da purificação dos males; santificados, digo, *pela oblação do corpo de Jesus Cristo*, isto é, pelo corpo de Cristo oferecido *uma vez*, oblação que, feita uma só vez, foi suficiente para a purificação de todas as manchas.

Objetaria alguém: o sacrifício do pontífice era insuficiente porque se fazia só uma vez por ano; mas os sacrifícios quotidianos aproveitavam para tirar os pecados. Para remover isto diz: assim como o pontífice, feito o sacrifício uma vez, não podia tirar os pecados, assim também *todo sacerdote* legal *está presente cada dia, ministrando*; e ele, *oferecendo muitas vezes as mesmas hóstias*, ontem um bode, hoje de novo um bode; porque, como não aproveitou ontem, assim nem hoje; oferecendo, digo, as mesmas hóstias, *que nunca podem tirar os pecados.* O pontífice ou qualquer sacerdote legal, repetindo hóstias, não pode tirar os pecados, mas *este Pontífice* Cristo, *oferecendo uma só hóstia pelos pecados* de todos, não repetida, *está sentado*, isto é, repousa e reina, posto *à direita*, isto é, na igualdade de Deus Pai, para estar ali sentado *para sempre*; nem para voltar para de novo oferecer, como se a sua hóstia tivesse sido insuficiente, mas *daí por diante*, isto é, para o futuro, esperando ali à direita de Deus *até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés*, isto é, sejam sujeitos a ele por todo modo de sujeição, o que será no dia do juízo. Oferecendo uma só hóstia; por isso uma só, porque *com uma só oblação santificou*, e *consumou* os santificados na perfeição das virtudes, para permanecerem para sempre.

Nós dizemos, sim, que Cristo consumou os santificados com uma só oblação; nisto, porém, *dá-nos testemunho*, isto é, confirma-nos, afirmando o mesmo conosco, também o Espírito Santo; porque, depois de dizer em Jeremias (31,33): *Esta é a aliança que farei com eles*; e isto diz o Senhor: depois daqueles dias darei as minhas leis nos seus corações e as escreverei na sua mente. Depois de dizer isto, acrescentou o Espírito Santo: *e já não me lembrarei mais dos seus pecados [e] iniquidades.* Nestas palavras testemunha o Espírito Santo que uma só oblação consumou os santificados; porque *onde há remissão dos pecados, já não é necessária oblação pelo pecado.*

Depois que, pelo pontificado de Cristo, suficientemente destruiu o pontificado antigo, e reprovados os sacrifícios antigos, e testemunhou que no sacrifício de Cristo, oferecido uma vez, consiste toda a justificação, fazendo fim disto, passa à instrução moral, exortando-os em primeiro lugar a que com coração puro mantenham a integridade da fé; e, se for iminente perseguirem, confessem com audácia, alegrando-se de padecer por Cristo; e assim na fé e na confissão tenham firme esperança; donde diz: porque o Pontífice Cristo, oferecendo uma vez, santifica, os antigos nem com sacrifícios quotidianos podem aproveitar; *portanto, irmãos, tendo nós confiança na entrada*, isto é, sobre a entrada *do Santuário*, a saber, que nós verdadeiramente entraremos no Santo dos Santos; tendo, digo, confiança *no sangue de Cristo*, que, oferecendo uma vez, derramou para a nossa purificação; *caminho*, isto é, a entrada do Santuário, caminho, digo, *novo*, isto é, recentemente aberto em Cristo; ninguém, com efeito, antes de Cristo andou este caminho que Cristo inaugurou para nós; caminho *novo e vivo*, isto é, perdurante eternamente: inaugurou, digo, *através do véu*, isto é, pelo significado daquele véu que dividia os dois tabernáculos, *isto é, da sua carne*; aquele véu, com efeito, que ocultava o Santo dos Santos, prefigurava a carne de Cristo, que velava a Deidade a si unida; donde, expirando Cristo na cruz, consumadas todas as coisas, rasgou-se o véu do templo, significando estar aberto o caminho em Cristo de entrar no Santo dos Santos; ou assim: inaugurou-nos o caminho através do véu, isto é, da sua carne, cuja Carne e Sangue recebemos na aproximação da morte como viático para a pátria; Carne, digo, e Sangue, velada sob a espécie do pão: inaugurou-nos pela sua carne, e por si, sacerdote que cada dia interpela o Pai por nós; sacerdote, digo, *grande* em comparação com os legais; grande, digo, *constituído sobre a casa de Deus*, isto é, a Igreja presente e a futura: nós, digo, irmãos, tendo tal confiança, *aproximemo-nos*, isto é, achegamo-nos ao Senhor *com coração sincero*, isto é, com reta inteligência, *em plenitude de fé*, isto é, tendo fé plenária não só de algumas coisas, mas de todas as que se devem crer; aproximemo-nos, digo, *aspergidos os corações*, isto é, tendo os corações purificados não só do pecado, mas também *de má consciência*, de modo que a consciência de qualquer mal não nos morda, *e lavado o corpo com água pura*, isto é, tendo a carne purificada pelo batismo que nos purifica. Mantenhamos com obra e coração *a confissão*; se, vindo os males, por isso não temamos confessar Cristo; confissão, digo, *inabalável*, de modo que nem declinemos à direita nem à esquerda: confissão que é causa da nossa esperança; se, com efeito, não temermos confessar a fé de Cristo na presença dos perseguidores, então podemos certamente esperar a glória futura dos santos.

Diria ele: quem, tolerando por tanto tempo e tantas coisas, poderia esperar coisa talvez nunca a ter? A isto Paulo: se confessais audazmente, a esperança vos está salva, *porque fiel é Deus* e não pode mentir, *que prometeu* aos que o confessam os bens que esperais.

Mantenhamos a confissão, *e consideremo-nos uns aos outros*, isto é, um ao outro, não em litígio e detração, mas *para estímulo da caridade e das boas obras*, isto é, um pelo exemplo do outro seja estimulado à dileção e a bem operar: nós, digo, *não abandonando a nossa assembleia*, isto é, a congregação da Igreja, aterrados pelo temor dos perseguidores iminentes, *como é costume de alguns*, que creem por algum tempo e no tempo da tentação recuam (Lc 8,13); *não abandonando, mas exortando* a assembleia da Igreja; *e tanto mais* trabalhando nisto quanto mais *vedes aproximar-se o dia* da morte. Ou assim: estimulemos os irmãos à caridade, não abandonando a nossa assembleia, isto é, se os irmãos pecaram, não por isso nos separemos deles, soberbamente indignados, como é costume de alguns, desdenhando compadecer-se do irmão que cai; mas exortando a nossa assembleia; e tanto mais pela compaixão chamai-os de volta dos males quanto vedes aproximar-se o dia da retribuição, aos maus mal, aos bons bem.

Por isso mantenhamos a fé e a confissão, não abandonando a nossa assembleia; façamos todas estas coisas ditas porque, *pecando nós voluntariamente*, isto é, por vontade e própria deliberação permanecendo no pecado, *depois de ter recebido o conhecimento da verdade*, isto é, depois que conhecemos Cristo, que é a própria verdade, e recebemos a fé; se a vontade de pecar perdura em nós, *já não resta*, nada nos aproveitará Cristo feito hóstia pelos pecados a apagar; ou assim: já não resta, isto é, não é reservado Cristo, para que por quem de novo peca de novo se faça hóstia pelos pecados; mas isto nos resta, a saber, *uma terrível expectativa do juízo futuro*; e resta-nos *o zelo*, isto é, a inveja *do fogo*, zelo que *há de devorar os adversários* da verdade.

Prova pelo menor que os que pecam contra Cristo devem ser punidos, dizendo: verdadeiramente quem voluntariamente peca contra a verdade será punido; pois alguém, prevaricando e tornando vã a lei de Moisés, que não era senão sombra da verdade, *morre sem misericórdia*, convicto do pecado *pelo testemunho de duas ou três testemunhas*; e, se o prevaricador morre na lei de Moisés, *quanto mais pensais que merecerá piores suplícios aquele que pisou o Filho de Deus?* (aquele entende o Filho de Deus pisável e demasiado vil, que o diz impotente para remitir os pecados se não se acrescentar a circuncisão;) *e considerou profano*, isto é, entendeu profano, *o sangue da aliança*, isto é, o sangue de Cristo, com que foi confirmado o Testamento novo? (diz profano o sangue de Cristo aquele que diz que nele não pode ser purificado todo delito: se Cristo, com efeito, foi hóstia pura, pôde também purificar de toda culpa; se não pôde purificar, segue-se que foi hóstia poluída;) *com o qual sangue foi santificado* qualquer batizado? Merece também piores aquele que fez ultraje *ao Espírito da graça* — quem diz que os pecados se remitem de outra parte que não pelo Espírito, age ultrajosamente contra o Espírito —; Espírito, digo, da graça, que é dado gratuitamente e gratuitamente remite os pecados.

Diria ele: embora a lei de Moisés, que era sem misericórdia, condenasse os seus prevaricadores, Cristo, que trouxe misericórdia e graça, ainda que pequemos, não só não condenará, mas perdoará. Para remover isto, Paulo prova que Cristo é juiz e que por causa da misericórdia não deixou o juízo, dizendo: verdadeiramente quem pisa o Filho de Deus sofrerá piores; *nós, com efeito, conhecemos aquele que disse* isto no Deuteronômio (32,35): *a mim a vingança*; se o próximo peca, minha é a vingança contra o próximo, *e eu retribuirei* a eles a seu tempo conforme o delito: se pecar contra o próximo não deixa sem vingança, quanto mais pecar contra si mesmo? *E de novo* a Escritura, aprovando o juízo de Deus, diz: *porque o Senhor julgará o seu povo*; e porque o Senhor, julgando, dará a cada um a vingança do pecado, vede que não pequeis, diz Paulo, *porque é horrível coisa cair nas mãos do Deus vivo*, isto é, poderoso para quanto quer.

Depois de os ter repreendido mais asperamente, agora, recordando os bens anteriores deles, afaga-os para que os que abalou com o terror do juízo atraia com algumas carícias, dizendo: vede que não caiais nas mãos de Deus, mas *lembrai-vos dos dias passados*, nos quais, *iluminados* pela fé, logo depois de recebida a fé *sustentastes grande combate de sofrimentos*; muito, com efeito, então padecestes de vossos compatriotas. Sustentastes certamente os sofrimentos, *pois de um lado*, isto é, por uma parte, *fostes feitos espetáculo* ao mundo, *por opróbrios [e tribulações]*, isto é, por causa dos opróbrios e tribulações infligidos a vós; *de outro*, porém, isto é, por uma parte, *fostes feitos companheiros dos que assim viviam* como nós, isto é, de todos aqueles que na religião da fé viviam convosco. Verdadeiramente companheiros; *pois vos compadecestes também dos presos*, ministrando-lhes nas cadeias o necessário de vossos bens: e opróbrios e tribulações padecestes; *aceitastes, com efeito, com alegria o saque dos vossos bens*, sabendo que tendes nos céus riqueza melhor, porque espiritual e permanente. E, uma vez que tais fostes no princípio da fé, *portanto não percais*, degenerando, *a vossa confiança*, isto é, as boas obras, pelas quais é lícito confiar; confiança que, se persevera, *tem grande recompensa.*

Diriam eles: é difícil sofrer tantas vexações e por tanto tempo. A isto Paulo: não percais a paciência, mas sede longânimes no sofrer; porque a paciência longânime *vos é necessária*, para que, padecendo e *fazendo a vontade de Deus*, alcanceis a promessa, isto é, a glória prometida. Nem sempre convirá padecer, porque *ainda um pouco*, de tempo, *bem pouco* de sofrimento, mas leve e momentâneo, resta; e depois disto *virá a vós aquele que há de vir*; e depois que vier, *não tardará*, isto é, não tardará a dar-vos a glória que prometeu: aos mártires a glória não se tarda, mas logo ao saírem do mundo é dada; aos que, porém, repousam na paz da Igreja parece tardar, porque de algumas coisas que ilicitamente contraíram é necessário primeiro fazer penitência. *Aquele que há de vir virá e não tardará*; e entretanto, enquanto vem, vós, justos, *vivereis da fé*, porque disse Deus pelo profeta: *O meu justo vive da fé* (Hab 2,4). Se, porém, o justo recuar da fé, *não agradará à minha alma*, isto é, à minha vontade: digo, se recuar; mas *não somos filhos do recuo*, para ir assim à perdição, mas somos [filhos] *da fé para a aquisição*, isto é, para que pela fé adquiramos a salvação da nossa alma.

## Notas

<sup>[1]</sup> São Bruno parece tratar aqui de uma sentença do bem-aventurado Jerônimo, segundo a qual por "princípio do livro" se entenderia o início do Gênesis, onde se lê: «No princípio», isto é (como diz) no Filho, «criou Deus o céu e a terra».

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# Capítulo 11

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> A fé é a substância das coisas que se esperam, a prova das que não se veem. Por ela, com efeito, os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os séculos foram ordenados pela palavra de Deus, de modo que das coisas invisíveis fossem feitas as visíveis. Pela fé Abel ofereceu a Deus uma hóstia mais excelente que a de Caim, pela qual alcançou testemunho de ser justo, dando Deus testemunho aos seus dons; e por ela, depois de morto, ainda fala. Pela fé Henoc foi trasladado, para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladou; antes da trasladação, com efeito, teve testemunho de ter agradado a Deus. Sem fé, porém, é impossível agradar a Deus. Pois é preciso que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é remunerador dos que o buscam. Pela fé Noé, avisado por oráculo das coisas que ainda não se viam, movido de temor, preparou a arca para salvação da sua casa, pela qual condenou o mundo e foi feito herdeiro da justiça que é pela fé. Pela fé, aquele que é chamado Abraão obedeceu para sair para o lugar que havia de receber em herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé demorou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaac e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. Esperava, com efeito, a cidade que tem fundamentos, da qual artífice e construtor é Deus. Pela fé também a própria Sara, estéril, recebeu virtude para conceber a semente, mesmo fora da idade, porque creu fiel aquele que prometera. Por isso, de um só, e já como morto, nasceram descendentes como as estrelas do céu em multidão, e como a areia inumerável que está na praia do mar. Na fé morreram todos estes, sem ter recebido as promessas, mas vendo-as de longe e saudando-as, e confessando que eram peregrinos e hóspedes sobre a terra. Pois os que dizem tais coisas, mostram que buscam uma pátria. E, se se lembrassem daquela de que saíram, teriam tempo de voltar. Agora, porém, aspiram a uma melhor, isto é, celeste. Por isso Deus não se envergonha de ser chamado Deus deles; pois lhes preparou uma cidade. Pela fé Abraão ofereceu Isaac, quando foi provado, e oferecia o unigênito aquele que havia recebido as promessas; ao qual foi dito: Em Isaac será chamada para ti a descendência; julgando que Deus é poderoso para ressuscitar até dentre os mortos; donde também o recebeu em figura. Pela fé Isaac abençoou Jacó e Esaú também a respeito das coisas futuras. Pela fé Jacó, moribundo, abençoou cada um dos filhos de José; e adorou o cimo da sua vara. Pela fé José, moribundo, lembrou-se da saída dos filhos de Israel; e deu ordem acerca dos seus ossos. Pela fé Moisés, nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que o menino era formoso, e não temeram o edito do rei. Pela fé Moisés, já adulto, negou ser filho da filha do Faraó, preferindo ser afligido com o povo de Deus a ter o gozo temporário do pecado, tendo por riqueza maior que os tesouros dos egípcios o opróbrio de Cristo; pois olhava para a recompensa. Pela fé deixou o Egito, sem temer a ira do rei; pois perseverou como vendo o invisível. Pela fé celebrou a Páscoa e a aspersão do sangue, para que o exterminador dos primogênitos não os tocasse. Pela fé atravessaram o Mar Vermelho como por terra seca; o que tentando os egípcios, foram devorados. Pela fé caíram os muros de Jericó, depois de cercados por sete dias. Pela fé Raab, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, tendo recebido em paz os exploradores. E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo para narrar de Gedeão, Barac, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os Profetas; os quais, pela fé, venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas, fecharam as bocas dos leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, de fracos se tornaram fortes, foram valentes na guerra, puseram em fuga exércitos estrangeiros; mulheres receberam seus mortos por ressurreição; outros foram torturados, não aceitando libertação, para alcançarem melhor ressurreição; outros, ainda, experimentaram escárnios e açoites, e além disso cadeias e prisões, foram apedrejados, serrados, tentados, morreram a fio de espada, andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, angustiados, afligidos; dos quais o mundo não era digno; errantes nos desertos, nos montes, nas cavernas e nos antros da terra. E todos estes, aprovados pelo testemunho da fé, não alcançaram a promessa, tendo Deus providenciado algo melhor para nós, para que não fossem consumados sem nós.

## Comentário

Porque começou o discurso sobre a fé, dizendo "nós somos filhos da fé", etc., acrescenta como que a definição da fé; a qual contudo não é definição, mas recomendação da fé; para cuja recomendação, demorando-se longamente, apresentará muitos exemplos dos antigos. Diz, pois: nós somos filhos da fé; *a fé*, porém, *é a substância*, isto é, a existência e aquisição *das coisas que se esperam*, isto é, dos bens futuros, que singularmente e sobretudo se devem esperar; a fé, digo, é assim substância dos bens futuros, porque nem sem a fé subsistem em qualquer pessoa, nem se adquirem senão pela fé. Ou digamos assim: a fé tida no presente é no futuro *substância das coisas*, isto é, dos bens celestes; pelo mérito, com efeito, da fé aqui tida subsistem então aqueles bens naquele que teve fé neste mundo; coisas, digo, que agora se esperam pela fé. A fé é também *prova*, isto é, aprovação *das coisas que não se veem*, isto é, dos bens que, enquanto permanecemos neste mundo, não podemos ver; se alguém, com efeito, considera Abraão, como por mérito da fé possuiu a glória, pode esperar o mesmo de si: que, se pela fé imitar Abraão, como ele possuirá pela fé a glória que não viu. Digo, a fé é substância dos bens futuros e prova. Por isso assim recomendo a fé, *porque nela*, isto é, na fé, *os antigos*, isto é, os pais mais antigos, *alcançaram bom testemunho.* Diz "antigos" não pela idade, mas pela precedência do tempo; Abel, com efeito, embora mais jovem em anos, é contudo mais antigo que Abraão pela antiguidade do tempo precedente.

Mas objetaria alguém: dizes que a fé é prova das coisas que não aparecem; mas como se podem crer as que não podem ver-se? A isto Paulo: a fé é certamente prova das coisas que não aparecem; *pois pela fé*, isto é, pela fé, *entendemos que os séculos foram ordenados*, isto é, aptamente formados; ordenados, digo, *pela palavra*, isto é, pelo Filho ou pelo império de Deus, o que é o mesmo; e se dos séculos cremos que foram formados pela palavra de Deus (o que contudo nenhum dos homens viu), creiamos igualmente pela fé das coisas ainda não aparecentes: os séculos, digo, cremos ordenados pela palavra de Deus, *de modo que das coisas invisíveis fossem feitas as visíveis*, isto é, as coisas visíveis das invisíveis; quando havia o caos, com efeito, como está escrito: «As trevas estavam sobre a face do abismo» (Gn 1,2). Trevas, porque aqueles elementos não podiam ser vistos, ainda que houvesse então quem tivesse visão humana; mas, depois que os elementos foram separados e, formadas as criaturas, cresceram coalescendo em certa espessura, os elementos antes invisíveis já foram visíveis: nem é de admirar que não pudessem ser vistos, embora fossem coisas corpóreas, quando aquele humor que há no grão da semente, de que brota o colmo e a espiga, não podemos ver nem discernir, embora esteja contido naquela massa do grão. Ou assim: são pela palavra de Deus, de modo que fossem feitas as visíveis das invisíveis, isto é, segundo as invisíveis que haviam precedido no conselho de Deus; primeiro, com efeito, Deus desde a eternidade no seu conselho dispôs as formas de todas as criaturas, e segundo o que cada uma fora preordenada no conselho, ainda invisíveis, segundo esse modo foram feitas visíveis no tempo da formação de cada uma.

Verdadeiramente os antigos alcançaram testemunho pela fé; *Abel, com efeito, pela fé*, isto é, pela fé, *ofereceu hóstia mais excelente*, isto é, mais aceitável a Deus, *que a de Caim*: a hóstia de Abel conhece-se ter sido grata a Deus, porque o cordeiro que ofereceu foi consumido por fogo divino; a hóstia de Caim é reprovada, porque, não sobrevindo fogo, o molho de frutos que ofereceu permaneceu íntegro. *Pela qual fé Abel justo alcançou este testemunho*, a saber, de ser justo; diz, com efeito, Cristo no Evangelho: «Desde o sangue de Abel justo, etc.» (Mt 23,35). Moisés, porém, recomenda a justiça de Abel, e muitos dos Profetas. Alcançou Abel testemunho, *dando Deus testemunho aos seus dons*, como dissemos; *e por aquela fé Abel, depois de morto, ainda fala*, porque nos faz falar da fé dele.

Henoc também, pela fé que teve, foi trasladado a outras pátrias, *para não ver a morte*, e trasladado *não foi achado, porque Deus o trasladou*; se por um homem tivesse sido trasladado, facilmente seria achado. Deus por isso o trasladou, *porque antes da trasladação teve testemunho de ter agradado a Deus.*

Pela fé assim estes agradaram a Deus; *sem fé, porém, é impossível* a alguém *agradar a Deus.* Verdadeiramente sem fé ninguém agradará a Deus; *pois é preciso que aquele que se aproxima*, isto é, que quer aproximar-se de Deus, *creia que ele existe*, que Deus é um só, *e que é remunerador dos que o buscam.* Se os gentios cressem somente isto, que o Criador é um só e retribui a cada um segundo os seus atos, bastaria a eles.

*Noé* também, *avisado por oráculo das coisas que ainda não se viam*, isto é, do dilúvio futuro, *movido de temor* daquele dilúvio pela fé que teve nas palavras do Senhor, *preparou a arca para salvação da sua casa*, isto é, em que salvasse seus filhos e filhas: pela qual fé, que creu futuro o dilúvio segundo a palavra de Deus, *condenou o mundo*, isto é, tornou condenável o mundo; enquanto Noé, com efeito, creu, e os homens julgaram estulto que preparasse a arca em que salvaria a sua casa, em comparação com a fé dele foram condenados: e o próprio Noé *foi feito herdeiro da justiça* dela, *que é pela fé.*

Agora desce aos pais dos judeus, mostrando neles e nos primeiros que toda justiça teve origem da fé. Aquele que por mérito da fé agora se chama Abraão, antes dito Abrão, *pela fé obedeceu* a Deus *para sair* de Ur dos caldeus *para o lugar* que por mérito da fé havia de *receber em herança*; obedeceu, digo, e *saiu* da terra da sua nação, *sem saber para onde ia.* O mesmo Abraão *pela fé demorou na terra da promessa como em terra alheia, habitando* ali *em tendas*, isto é, em tabernáculos, *com Isaac e Jacó* — não que Jacó tenha existido no mesmo tempo que Abraão, mas porque Jacó habitou a mesma terra como Abraão, buscando com seus pais não aquela, mas a verdadeira terra da promessa —; *Isaac e Jacó*, digo, *co-herdeiros da mesma promessa*; a eles, com efeito, frequentemente Deus, como a Abraão, fez promessa. Abraão habitava em tendas porque *esperava a cidade que tem fundamentos*, isto é, a estabilidade da eternidade, a saber, a Jerusalém celeste, cuja cidade *artífice* é Deus, isto é, dispondo com sua arte cada coisa para si; e o mesmo é *construtor* das coisas que dispõe, ele mesmo as fabricando. Abraão, habitando em tendas, mostrava não cuidar da Jerusalém terrena, mas buscar a celeste; *a própria Sara também*, estéril e nonagenária, *pela fé recebeu virtude* para a concepção, isto é, de conceber a semente; ela, digo, não só estéril, mas também *fora da idade*, porque, como foi dito, era nonagenária: *recebeu porque creu fiel*, isto é, veraz, *aquele que lhe prometera* a semente; *por isso*, porque creu fiel a Deus, e *de um só* ventre ou de um só pai, *e já como morto*, ou ventre ou pai, *nasceram* filhos *como as estrelas do céu em multidão*; não comparo segundo a claridade das virtudes às estrelas, mas indo à multidão delas; nasceram também *como a areia*; nem de novo comparo segundo a esterilidade só da areia, mas a que é *inumerável*, isto é, segundo a inumerabilidade deles; areia que está *na praia do mar*, isto é, junto ao litoral da Gentilidade; muitos, com efeito, dos filhos de Abraão resplandeceram em virtudes, como as estrelas, muitos estéreis e infrutuosos foram precipitados no litoral dos gentios.

*E todos estes*, a saber, Abraão, Isaac e Jacó, *morreram*, mesmo quando morriam, existentes *na fé*, isto é, crendo que haviam de receber as promessas de Deus; morreram, digo, *sem ter recebido as promessas* em vida, mas *vendo-as de longe*, as promessas futuras, isto é, nos dias de Cristo, *e saudando-as*, como os marinheiros saúdam a pátria que de longe veem e muito desejam, *e confessando* de si *que eram peregrinos sobre a terra*, sempre passando a outras, *e hóspedes*, isto é, vindos de outra parte. Por isso confessando assim; *os que dizem tais coisas*, a saber, que são peregrinos e hóspedes, *mostram* com estas palavras *que buscam uma pátria*, a verdadeira.

Diria alguém: buscavam a alheia, porque talvez não podiam voltar à sua pátria. A isto Paulo: diziam estas coisas; *e, se se lembrassem daquela pátria de que saíram*, querendo voltar para lá, certamente *teriam tempo*, isto é, oportunidade *de voltar*; mas *agora*, depois que dela não se lembravam, *aspiram a uma melhor*, isto é, *celeste*: e porque aspiram à celeste, por isso *Deus não se envergonha*, isto é, não se pejou *de ser chamado Deus deles*, de modo que se diga Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Por isso se chama Deus deles, *porque lhes preparou uma cidade* celeste.

Abraão, de novo, *pela fé ofereceu Isaac, quando foi provado*: Deus não tentava Abraão como quem ignorasse a sua fé, mas para que o próprio Abraão e o mundo conhecessem a virtude da sua fé. E, para que não se pensasse que Abraão imolava Isaac porque esperava que em outro filho se cumprissem as promessas, diz: *e o próprio Abraão, que havia recebido as promessas, ao qual foi dito: Em Isaac será chamada para ti a descendência*, ele oferecia este unigênito, *julgando que Deus é poderoso para ressuscitá-lo dentre os mortos*, e por ele ressuscitado ser chamada a semente de Abraão: *donde*, porque assim creu, *o recebeu* como filho, e para multiplicação da semente, e *em figura*, isto é, em figuras de Cristo; o carneiro, com efeito, que foi achado preso pelos cornos entre os espinhos, e Isaac significavam um só Cristo, Deus e homem; por isso, pelo fato de o carneiro ter sido imolado e Isaac subtraído à morte, significou-se que Cristo padeceria segundo a carne, mas segundo a Divindade não sentiria o perigo da morte: o carneiro imolado prefigurou a carne de Cristo a ser imolada, Isaac subtraído a Divindade de Cristo, que a Paixão não lesaria.

Isaac também *abençoou Jacó e Esaú*, tida fé também sobre eles, de como o maior serviria ao menor, *e a respeito das coisas futuras*, cujo tipo traziam, a saber, de como o primogênito, o povo judaico, abandonaria a sua primogenitura, isto é, o culto de Deus, e o menor, o gentio, a usurparia para si. *Jacó*, morrendo no Egito, *pela fé abençoou cada um dos filhos de José*, a saber, Manassés e Efraim, *e adorou o cimo da vara* de José, que, segundo depois do rei do Egito, trazia o cetro em sinal da sua dignidade: adorou o cimo da vara, isto é, Cristo, figurado por José, a quem *a vara de equidade é vara do seu reino* (Sl 44,7). *José*, moribundo, *pela fé*, isto é, pela fé, *lembrou-se da saída dos filhos de Israel*, que haviam de sair do Egito, e lembrando isto, *deu ordem acerca dos seus ossos*, para que fossem levados à sepultura de Abraão, confiando que haviam de ressurgir com Cristo aqueles a quem fora feita a promessa, se os seus corpos fossem achados na terra da promessa.

*Moisés*, nascido, pela fé, porque os pais creram que ele seria grande, vendo a sua formosura, *foi escondido três meses por seus pais, porque viram que o menino era formoso, e não temeram o edito do rei*, que mandara matar todo varão entre os meninos dos hebreus. *Moisés* também, *já adulto, negou ser filho da filha do Faraó*, pela fé, *preferindo ser afligido com o povo de Deus a ter o gozo temporário do pecado*; *e o opróbrio de Cristo*, que em si, padecendo por Cristo, prefigurava, *tendo por riqueza maior que todos os tesouros dos egípcios*; assim julgando porque *olhava para a recompensa* futura, não para o trabalho presente ou a jucundidade. Moisés *pela fé deixou o Egito*, conduzindo dali o povo dos judeus, *sem temer a ira do rei* dos egípcios: por isso sem temer *porque perseverou como vendo o invisível*, isto é, esperou Deus, a quem não podia ver, como se o visse corporalmente, dando fé às palavras de Deus. O mesmo Moisés *celebrou a Páscoa e a aspersão do sangue* do cordeiro, pela fé, *para que o exterminador dos primogênitos* do Egito *não tocasse os judeus.* Teve fé no sangue do cordeiro, de que pela virtude do cordeiro de inocência, isto é, de Cristo, que prefigurava, poderiam ser salvos.

Os filhos de Israel *pela fé atravessaram o Mar Vermelho como por terra seca*: e para que ninguém dissesse que isto foi acaso, *o que tentando os egípcios, foram devorados.* Os muros de Jericó, *pela fé, caíram, depois de cercados por sete dias.* Raab, a meretriz, *recebendo em paz os exploradores* dos judeus, *não pereceu com os incrédulos*, por causa da fé com que creu que Deus entregaria a cidade nas mãos dos judeus.

Muito disse do louvor da fé, *e que mais direi?* O tempo, com efeito (se eu prosseguisse tudo sobre a fé), *me faltaria*, isto é, deixar-me-ia, ao narrar *de Gedeão*, que pôs o velo na eira; *de Barac*, que pela fé libertou o povo; *de Sansão*, que pela fé muito operou; *de Jefté*, que, chefe do povo, libertou o povo, embora por voto estulto tenha imolado a filha: destes quatro mais plenamente se acha no livro dos Juízes; *de Davi* também, que muito fez pela fé; *e de Samuel, e dos outros Profetas*; os quais *venceram reinos*, isto é, superaram reis, pela fé; os quais também *praticaram a justiça* pela fé, *alcançaram as promessas*, as bem-aventuranças prometidas, pela fé, *fecharam as bocas dos leões* pela fé, como Daniel; *extinguiram a violência do fogo*, como os três meninos; *escaparam ao fio da espada*, como Judas Macabeu; *de fracos se tornaram fortes*, como Ezequias; *foram valentes na guerra* muitos; *puseram em fuga os exércitos estrangeiros*, fugados estes; *mulheres receberam seus mortos* vindo da ressurreição, como a viúva de Sarepta por Elias o filho único, e a sunamita por Eliseu; *outros foram torturados* em cavaletes, como os sete Macabeus, *não aceitando libertação*, isto é, não querendo ser remidos dos tormentos, *para alcançarem melhor ressurreição* pelo mérito dos sofrimentos; quanto mais, com efeito, alguém padece, tanto melhor será coroado. *Outros, ainda, experimentaram escárnios e açoites, e além disso cadeias e prisões, foram apedrejados, serrados*, como Isaías; *tentados*, se por temor da pena negariam a fé; *morreram a fio de espada*; *andaram* fugindo de cá para lá *vestidos de peles de ovelhas* — *melota* é (como dizem) vestimenta de pelos de camelo; ou *melus* é um animal que se chama texugo, e de *melus* se diz *melota* —; andaram também *em peles de cabras, necessitados* de bens temporais, *angustiados* de ânimo, *afligidos* de corpo; *dos quais*, santos, *o mundo não era digno* de os ter tais; ou então, dos quais o mundo não era digno, segundo as palavras dos ímpios, que dizem: estes tais são imundície do mundo, seja o mundo purgado deles: *errantes nos desertos*, como Matatias e os que estavam com ele; *e nos montes, e nas cavernas e nos antros da terra*: as cavernas são covas naturais; os antros, cavados por arte. *E todos estes, aprovados pelo testemunho da fé, não alcançaram a promessa*, isto é, a herança prometida, *tendo Deus providenciado algo melhor para nós*, a saber, para que os primeiros santos *não fossem consumados* na perfeição da jucundidade *sem nós*; se, com efeito, sem Cristo encarnado eles recebessem a bem-aventurança eterna, Cristo não se encarnaria, porque em vão, existindo a salvação de outro modo; e assim os primeiros santos seriam salvos sem nós.

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# Capítulo 12

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, também nós, tendo ao nosso redor uma tão grande nuvem de testemunhas, deixando todo peso e o pecado que nos cerca, corramos com paciência o combate que nos é proposto; olhando para o Autor e Consumador da fé, Jesus, que, em vez do gozo que lhe era proposto, suportou a Cruz, desprezando a ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, aquele que suportou tal contradição da parte dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos. Ainda não resististes até ao sangue, lutando contra o pecado; e esquecestes a exortação que vos fala como a filhos, dizendo: Filho meu, não desprezes a disciplina do Senhor, nem desfaleças quando por ele és repreendido. Pois o Senhor corrige a quem ama e açoita todo filho que recebe. Perseverai na disciplina. Como a filhos vos trata Deus; pois qual é o filho a quem o pai não corrige? Se estais fora da disciplina, de que todos participaram, sois bastardos e não filhos. Depois, tivemos pais segundo a carne que nos educavam, e os reverenciávamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? E aqueles, por poucos dias, nos educavam como lhes parecia; este, porém, para o que é útil, a fim de recebermos a sua santificação. Toda disciplina, porém, no momento não parece ser de alegria, mas de tristeza; depois, porém, dá aos exercitados por ela um fruto pacatíssimo de justiça. Por isso, levantai as mãos cansadas e os joelhos frouxos; e fazei retos os passos dos vossos pés, para que o que manqueja não se desvie, mas antes seja curado. Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá a Deus; atentando a que ninguém falte à graça de Deus, a que nenhuma raiz de amargura, brotando para cima, vos impeça, e por ela muitos sejam contaminados. Que não haja nenhum fornicador ou profano, como Esaú, que por um só prato vendeu a sua primogenitura; sabei, com efeito, que depois, querendo herdar a bênção, foi rejeitado; pois não achou lugar de penitência, embora a tenha buscado com lágrimas. Pois não vos aproximastes de um monte palpável e de fogo ardente, de turbilhão, de escuridão, de tempestade, de som de trombeta e de voz de palavras, que os que a ouviram pediram que não se lhes falasse mais. Pois não suportavam o que se ordenava: Se uma fera tocar o monte, será apedrejada. E tão terrível era o que se via que Moisés disse: Estou aterrado e tremo. Mas vos aproximastes do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e de multidões de milhares de Anjos, e da assembleia dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e de Deus, juiz de todos, e dos espíritos dos justos aperfeiçoados, e de Jesus, mediador de uma nova aliança, e do sangue da aspersão que fala melhor que o de Abel. Vede que não recuseis aquele que fala. Pois, se aqueles não escaparam, recusando aquele que falava sobre a terra, muito mais nós, se nos desviarmos daquele que fala dos céus. A sua voz abalou então a terra; agora, porém, promete, dizendo: Ainda uma vez, e eu abalarei não só a terra, mas também o céu. Ao dizer "ainda uma vez", declara a mudança das coisas móveis, como das feitas, para que permaneçam as que são imóveis. Portanto, recebendo um reino inabalável, tenhamos graça, pela qual sirvamos agradando a Deus, com temor e reverência. Pois o nosso Deus é fogo consumidor.

## Comentário

Aduzidas tantas recomendações da fé, infere de todas: uma vez que a fé é recomendável por tantos testemunhos, *por isso*, como os primeiros, assim também nós, *tendo ao nosso redor uma tão grande nuvem de testemunhas* que recomendam a fé — diz "nuvem" porque, assim como a nuvem protege do calor e da chuva, assim os exemplos dos santos citados nos munem contra os males que irrompem —; nós também, como eles, *deixando*, pela penitência, *todo peso* de pecado que perpetramos, deixando também *o pecado que nos cerca* por todos os lados, isto é, toda perversa sugestão, *corramos com paciência*, sem nos voltar do bem, *o combate que nos é proposto*, não fomos, com efeito, chamados a carícias, mas a suportar trabalhos: corramos, digo, imitando, *olhando para Jesus, Autor [e Consumador] da nossa fé*, isto é, que nos consumará na glória, se a nossa fé perdurar íntegra; Jesus que *suportou a Cruz, desprezando* não só a acerbidade, mas também *a ignomínia*, isto é, a vergonha do gênero ignominioso de morte; suportou, digo, *em vez do gozo que lhe era proposto* na glória pelo mérito da Paixão; ou então, proposto a si o gozo terreno, isto é, as posses terrenas propostas pelos seus crucificadores, se quisesse negar ser Filho de Deus: e por isso, porque suportou a Cruz e desprezou a ignomínia, *está sentado à direita do trono*, isto é, na igualdade de Deus Pai que se assenta.

Corramos o combate proposto imitando Jesus, que, desprezada a ignomínia, suportou a Cruz; olhai para ele suportando a Cruz na morte; *considerai* também o mesmo Jesus *que suportou a contradição*, para que, como na morte, assim também o imiteis no sofrer a contradição: tudo o que de adversidade suportou Jesus até a hora da Paixão significa aqui por "contradição". Ou, se se tem "com efeito", liga-se assim: deveis olhar para Jesus que suporta a Cruz; pois também isto, que em Cristo é menos, a saber, a contradição que suportou, *considerai*, isto é, deveis frequentemente confiar à memória; o que diz assim: considerai Jesus que suportou *tal contradição*, isto é, tão desprezível e difícil; e o que mais pôde agravá-lo, ele, que não conheceu o pecado, suportou-a infligida *pelos pecadores*, não contra Pedro ou qualquer dos discípulos, mas *contra si mesmo*; considerai, digo, esta contradição, para que, lembrados dela, *não vos fatigueis*, isto é, não sejais cansados de padecer as adversidades; ou então, se vos fatigais no corpo, *não desfaleçais em vossos ânimos*, mas, sendo a carne fraca, os espíritos contudo sejam prontos; se, porém, a contradição for tanta que os ânimos se fatiguem, como o mesmo Paulo diz de si: «Fomos agravados além da medida, de modo que nos causava tédio viver» (2Cor 1,8), contudo não desfalecendo, como nem Paulo desfaleceu, embora estivesse fatigado o ânimo: desfaleceriam, se por temor das tribulações negassem a fé.

Deveis certamente sofrer sem fadiga e sem desfalecimento, porque, embora tenhais resistido, ainda *não até o sangue*, isto é, ainda não foi derramado o vosso sangue, que, se for preciso, deve ser padecido pela fé. Ainda não resististes até derramar o sangue, *lutando* contudo *contra o pecado* — dizendo assim, por uma parte os louva porque lutaram; por outra mostra que ainda podem subir, a saber, à efusão do sangue —; lutando, digo, contra o pecado, para que não tivesse lugar em vós; enquanto, com efeito, recusais consentir com os ímpios, estais contra o pecado; se consentísseis, o pecado logo teria lugar em vós. Lutastes outrora contra o pecado, e agora por que *esquecestes a exortação*, isto é, a Divindade que vos consola na tribulação? Esta consolação divina fala-nos não como a estranhos, mas *como a filhos* que pretende fomentar, dizendo em Salomão (Pr 3,11): ó *filho meu, não desprezes a disciplina*, isto é, as perseguições e açoites, que são disciplina; nelas, com efeito, o homem aprende quão grande é a sua fragilidade e quão pouco pode com as suas forças, se a graça de Deus não estiver presente; disciplina, digo, não dos perseguidores, mas *do Senhor*; eles, com efeito, nada podem senão por permissão de Deus, que deste modo quer purgar seus filhos. Não desprezes a disciplina, *nem desfaleças*, isto é, não fujas cansado de padecer, *quando por ele és repreendido*, isto é, convencido de réu por Deus por esta disciplina que te perdoa. Por esta disciplina também o homem conhece a sua fragilidade e (se pacientemente sofrer) merece indulgência dos pecados. Não deves desfalecer quando és repreendido, *pois o Senhor corrige a quem ama*, isto é, conduz por disciplina à castidade e continência dos vícios. Àquele a quem ama, corrige, *e açoita todo filho que recebe*, antes de o receber; ainda que perdoe os pecados, com efeito, a nenhum é remitida a pena sem que seja paga ou nesta vida ou na futura, ou pelo próprio homem por vontade espontânea, obra mais aceita, ou por outro que lha inflija; como podemos provar pelo original, que no batismo se perdoa, mas a pena daquele pecado, a mortalidade e passibilidade, permanece.

E uma vez que a disciplina do Senhor é tão recomendável, *perseverai, pois, na disciplina*, isto é, na paciência das tribulações. Nela certamente deveis perseverar; Deus, com efeito, oferece-se a vós, nas tribulações, como auxiliador, *como a filhos*: digo bem "como a filhos"; porque *qual é o filho a quem o pai não corrige?* Deus certamente não terá filho incorreto; filho não será senão o que é corrigido. *Se* (isto é, se, porém) *estais fora da disciplina*, por vos subtrairdes à disciplina do Senhor, *de que todos os filhos de Deus participaram*; se, digo, estais fora da disciplina, *sois bastardos*, não filhos legítimos, mas filhos adulterinos, isto é, a quem o pai não dá pedagogos, porque não cuida deles; ou então, sois filhos adúlteros, isto é, do diabo, adulterando-vos.

Provou pelos testemunhos da Escritura que devem perseverar na disciplina; agora aprova o mesmo por razões do costume humano, como se dissesse: que devemos perseverar na disciplina mostrei por autoridades; agora, depois dos testemunhos das Escrituras, introduzo razões do costume humano para provar o mesmo: nós, sim, *tivemos pais* não das nossas almas mas *da nossa carne*; a linha da carne, com efeito, derivamo-la deles; e à nossa carne, derivada da carne dos pais, Deus conferiu a alma; *estes pais tivemos como educadores, e os reverenciávamos*, exibindo-lhes honra os temíamos; reverenciar, com efeito, é dispensar honra com temor: e, se reverenciávamos os pais da carne, *não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos*, isto é, a Deus, que dá as almas, muito mais dignas que o corpo? Sujeitando-nos a ele, *viveremos* eternamente, o que os pais da carne nem a si nem a nós podem conferir. Ao Pai dos espíritos certamente se deve obedecer mais, porque *aqueles pais da carne por poucos dias nos educavam como lhes parecia*, este para a gramática, aquele para a arte de ferreiro, muitas vezes para coisas inúteis; este, porém, Pai dos espíritos, nos educa *para o que é certamente útil*, por disciplina, *a fim de recebermos a sua santificação*, isto é, a paciência e as demais virtudes, pela posição das quais santifica os seus.

O que eles poderiam objetar, dizendo: quem pode suportar tal disciplina, em que há sempre tristeza, nunca alegria? ele mesmo, para resolver, a si objeta, dizendo: eu, sim, vos recomendo a paciência da disciplina, mas confesso contudo que *toda disciplina no tempo presente parece*, aos que olham só a superfície da coisa, *não ser de alegria, mas apenas de tristeza*; a tristeza aqui é sempre, a alegria nunca. Agora acrescenta a solução: parece, sim, no presente ser de tristeza, *mas depois*, isto é, no futuro, *dá aos exercitados por ela* disciplina, postos de lado os bastardos, Deus *um fruto de justiça*; fruto, digo, não como é o fruto do mundo, que nunca está em tranquilidade, mas *pacatíssimo*, isto é, a possuir em toda quietude. *Por isso*, porque aos exercitados pela disciplina será tão frutuosa a sua justiça, *levantai* por isso *as mãos cansadas*, isto é, as operações de caridade, antes intensas, agora dissolvidas; *levantai também os joelhos frouxos*, isto é, a fortaleza, antes tida, agora dissolvida por temor da disciplina: por joelhos frouxos significa a perda da virtude, porque nos joelhos aparece primeiro o tremor, se estão dissolvidos, o levantar, se estão fortalecidos. Levantai os joelhos, *e fazei aos vossos pés*, isto é, às afeições da vossa fé, *passos retos*: o primeiro passo da fé é confessar; depois, se for necessário, padecer. Fazei-os retos de modo que *não se desvie* algum de vós, recuando da via da fé, nem ao menos *manqueje* na via; poderia, com efeito, manter a fé, crendo sadiamente, e manquejar nela, se temesse confessar; e pela afirmação da fé não se desvie alguém, mas antes seja curado do erro, se porventura errou.

Para que sejam retos os vossos passos, *segui a paz com todos*, mesmo com os inimigos; *segui também a santificação*, isto é, toda santidade, *sem a qual paz e santificação ninguém verá a Deus.* Como se deva seguir a santificação, insinua, dizendo: segui a santificação, *atentando a que ninguém de vós falte à graça de Deus*; a graça de Deus, com efeito, está preparada para vós, vede que não a repilais: atentando também a que *nenhuma raiz*, isto é, sugestão de pecado; raiz, digo, *de amargura*, embora alguns pensem ser de doçura; vede, digo, que a raiz tal não vos impeça, *brotando para cima*, isto é, irrompendo em ato de pecado; a sugestão, com efeito, brota para cima quando consuma por ato o que persuade mal. Vede que nenhuma raiz assim vos impeça, e por ela, brotando para cima, *muitos sejam contaminados*, mais propensos à imitação da torpeza que da honestidade. Atentando também a que *nenhum de vós seja fornicador ou profano*, abandonando o culto de Deus, *como Esaú*, que por um só prato de lentilhas vendeu a sua primogenitura a seu irmão Jacó: da fornicação de Esaú não achamos em outro lugar<sup>[1]</sup>. Ou, se insistimos na alegoria, digamos assim: que ninguém seja fornicador no culto de Deus — fornicadores eram os que criam que a circuncisão era necessária à fé de Cristo —; ou que ninguém seja profano, abandonando inteiramente a fé.

Não sejais como Esaú, julgando evitar a condenação com infrutuosa penitência; porque sabei isto de Esaú: que *depois*, tanto antes da venda como depois, *querendo herdar a bênção* do primogênito, *foi rejeitado*, se não pelo pai, ao menos por Deus: verdadeiramente rejeitado; *pois não achou lugar de penitência*; arrependeu-se, sim, de ter vendido a primogenitura, mas esta penitência não teve lugar de oportunidade, *embora a tenha buscado com lágrimas*; se, com efeito, chorasse confessando o pecado e punindo a sua iniquidade, a sua penitência teria lugar, mas, porque nas próprias lágrimas se indignava da eleição do irmão, pensando em matar o irmão, se pudesse, por isso lhe foi negado o lugar da penitência.

Deveis seguir a paz e a santificação; vede que a raiz de amargura não brote em vós, etc., *porque não vos aproximastes de uma lei insuportável e terrível* para quem a faz e inútil, como a lei primeira, mas vos aproximastes de uma lei jucunda por muita facilidade, da graça auxiliadora, da promessa das coisas celestes; o que difusamente diz, assim começando: *não vos aproximastes de um monte palpável e de fogo ardente*; na dação da lei antiga, com efeito, houve fogo corpóreo, se Deus o permitisse, que pudesse ser tocado por mãos humanas, e ao qual fosse possível aproximar-se: *nem de turbilhão, escuridão e tempestade*; turbilhão, isto é, comoção dos ventos, ali houve, e tenebrosa escuridão e tempestade; golpeando-se os ventos mutuamente, havia a contusão do granizo: *nem de som de trombeta e voz de palavras*; o clangor das trombetas e as palavras vocalizadas ali se ouviram; voz que os judeus que a ouviram *pediram que não se lhes falasse mais*, pretextando a sua fragilidade, isto é, que o Senhor não lhes falasse a eles, mas a Moisés, e Moisés a eles. Por isso assim se escusaram, *porque não suportavam*, isto é, não podiam suportar *o que se lhes ordenava.* Deus por isso dava a lei com tão grande aspereza de terror, porque sabia que pela brandura da dileção nada de bom operariam, e por isso deviam ser coagidos como servos por suplícios: prefigurava-se também em tão grande multiplicidade de terrores que nunca poderiam suportar aquela lei. E fora dito na recepção da lei que, *se uma fera tocar o monte*, em que se dava a lei, *será apedrejada* (Ex 19,12-13); ou, segundo alguns, por juízo, ou, segundo outros, pela contusão do granizo.

Todas estas coisas, por oposição, figuravam a dação da lei nova; nós, com efeito, recebendo a graça, aproximamo-nos do fogo, isto é, do ardor do Espírito Santo, nem palpável nem acessível, mas espiritual. O som da trombeta que ali houve significou a sugestão, que ao ato do pecado, como a trombeta ao combate, provoca; quanto mais, com efeito, era proibido aos judeus, tanto mais ardentemente se lançavam ao proibido. Ali houve, de novo, turbilhão, isto é, comoção das sugestões, a saber, o ato do pecado; na nova graça, tanto a sugestão como o ato de pecado se removem. Ali houve, de novo, tempestade, isto é, contusão do granizo, a saber, o costume de pecar; houve de novo escuridão, isto é, cegamento procedente do costume de pecar: nesta graça, também o costume de pecar é removido e toda cegueira iluminada. Ali houve voz de palavras, que puderam ouvir; aqui inspiração interior, que quem antegoza, com muito desejo corre para a alcançar. Aqueles não suportavam o que se dizia: o fardo, porém, desta é leve, e suave o jugo. Ali foi dito: se uma fera tocar o monte, será apedrejada; porque aqui, se alguém de vida e intelecto bestial pôs a sua boca blasfemando no monte, isto é, na Divindade, será apedrejado, contundido pelo poder da Deidade. E por ser tão terrível o que se via, assim disse o próprio Moisés: *Estou aterrado* de ânimo, *e tremo* de corpo.

À lei de terror e inútil não vos aproximastes, mas *a Sião*, isto é, à vida especulativa; a Sião, digo, *monte*, isto é, eminente em altura de virtudes, *e à cidade do Deus vivo*, isto é, que aos seus cidadãos dá a vida eterna, a saber, *à Jerusalém celeste, e à multidão de milhares de Anjos*, para que com eles ressoeis na glória de Deus, *e à assembleia dos primogênitos*, isto é, dos Patriarcas e Profetas, *que estão inscritos* senadores *nos céus*, *e a Deus*, Pai de todos, *juiz*, *e aos espíritos dos justos e aperfeiçoados*, isto é, a quem o Espírito Santo faz justos e perfeitos por diversidade de dons: como João costuma, diz no plural "Espíritos"; ou digamos assim: ao Senhor de todos, e ao Deus dos espíritos, isto é, das almas dos justos perfeitos. *E vos aproximastes de Jesus*, doador do novo Testamento: aproximastes-vos também *da aspersão do sangue*, isto é, do sangue de Cristo, com que aspergidos fostes purificados; sangue de Cristo, digo, *que fala melhor que o sangue de Abel*, de que está escrito: «O sangue de teu irmão Abel clama a mim da terra» (Gn 4,10). Melhor, porque o sangue de Abel clama vingança, o sangue de Cristo clama remissão.

E porque o sangue de Cristo fala por vós, *vede, pois, que não recuseis*, agindo mal, *aquele que fala* por vós, porque, se recusais, é para vosso mal: *se, com efeito, aqueles não escaparam, recusando aquele que falava sobre a terra*, isto é, Moisés ou o Anjo, à vingança; *muito mais nós não escaparemos, se nos desviarmos de Deus que nos fala* não da terra, mas *dos céus*, cuja voz falando *então*, na dação da lei antiga, *abalou a terra*, agora, porém, promete, dizendo em Ageu: *Ainda uma vez* (ainda, porque já havia abalado a terra), *eu abalarei não só a terra*, que outrora abalei, *mas também o céu* (Ag 2,7), transferindo a mutabilidade deles para a imutabilidade. Agora Paulo expõe: o que diz o Profeta, "ainda uma vez", por "ainda" declara a mudança das coisas móveis; mudados, com efeito, os elementos, de mobilidade se farão imóveis; mudança, digo, *das coisas móveis, como das feitas*, isto é, como das que fez; quem as fez do nada, com efeito, pôde mais facilmente transferir as feitas: diz "uma vez" para que, feita a mudança, permaneçam imóveis as que agora são móveis.

E uma vez que todas as coisas serão transferidas à imobilidade, *portanto nós, recebendo um reino inabalável*, isto é, nós que reinaremos nas coisas imóveis, *tenhamos* alguma graça em nós de Deus antecipada; se, com efeito, não precedesse em nós alguma graça de Deus, não seríamos recebidos por ele para reinar na imobilidade; ou assim: porque, mudadas, todas as coisas permanecerão imóveis, portanto nós, que então receberemos aquele reino inabalável, *tenhamos* alguma graça, *pela qual, agradando a Deus, sirvamos a ele com temor* de ânimo *e reverência*, isto é, temor do corpo e exibição de honra: é necessário, com efeito, que sirvamos a Deus com temor e reverência; *pois o nosso Deus é fogo consumidor*, isto é, que cozinha toda a ferrugem de todo pecado, e por isso é necessário que nos ache purgados, não a purgar.

## Notas

<sup>[1]</sup> Nem aqui tampouco se trata claramente de fornicação de Esaú; pois a sentença do bem-aventurado Crisóstomo, de Teofilacto, de Caetano e de outros, dizendo que as palavras "como Esaú" se referem somente a *profanus* (*bébēlos*), de modo algum a *fornicator* (*pórnos*), parece certamente bastante provável.

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# Capítulo 13

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Permaneça em vós a caridade fraterna. E não vos esqueçais da hospitalidade; por ela, com efeito, alguns, sem o saberem, hospedaram Anjos. Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles; e dos que sofrem, como estando vós mesmos no corpo. Seja honrado entre todos o matrimônio, e imaculado o leito. Pois Deus julgará os fornicadores e os adúlteros. Sejam os vossos costumes sem avareza, contentes com o que tendes; pois ele mesmo disse: Não te deixarei, nem te abandonarei. De modo que digamos com confiança: O Senhor é o meu auxílio; não temerei o que me possa fazer o homem. Lembrai-vos dos vossos superiores, que vos falaram a palavra de Deus; considerando o desfecho da sua vida, imitai a sua fé. Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e pelos séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas. Pois é bom que o coração se firme na graça, e não em alimentos, que nada aproveitaram aos que andaram neles. Temos um altar, do qual não têm poder de comer os que servem ao tabernáculo. Pois os corpos dos animais cujo sangue é levado ao Santuário pelo pontífice, pelo pecado, são queimados fora do acampamento. Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele, fora do acampamento, levando o seu opróbrio. Pois não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura. Por ele, pois, ofereçamos sempre a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. Não vos esqueçais, porém, da beneficência e da comunhão; pois com tais sacrifícios se agrada a Deus. Obedecei aos vossos superiores e sede-lhes submissos. Eles, com efeito, velam como quem há de dar contas das vossas almas, para que o façam com alegria e não gemendo; pois isto não vos convém. Orai por nós: confiamos, com efeito, que temos boa consciência, querendo em tudo viver bem. Mais ainda vos peço que o façais, para que eu vos seja restituído mais depressa. O Deus da paz, que tirou dentre os mortos o grande Pastor das ovelhas, no sangue da aliança eterna, nosso Senhor Jesus Cristo, vos aperfeiçoe em todo bem, para que façais a sua vontade; fazendo em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo; a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra de consolação. Com efeito, escrevi-vos em poucas palavras. Sabei que o nosso irmão Timóteo foi posto em liberdade; com ele (se vier mais depressa) vos verei. Saudai todos os vossos superiores e todos os santos. Saúdam-vos os irmãos da Itália. A graça esteja com todos vós. Amém.

## Comentário

*Com temor e reverência servi a Deus*: *a caridade* também *permaneça* perseverantemente *em vós*; caridade, digo, *fraterna*, que a fraternidade reclama; isto, com efeito, que sois irmãos, exige que vos ameis mutuamente. *E não vos esqueçais da hospitalidade*, que é parte da caridade, na qual outrora vos distinguistes. Por dizer "não vos esqueçais", assinala que antes eram devotos na hospitalidade, agora são remissos. Por isso se deve seguir a hospitalidade, porque por esta virtude alguns agradaram a Deus, como Abraão e Ló, a quem Deus por isso significou terem-lhe agradado, *hospedando Anjos*; por isso, com efeito, enviou os seus Anjos como hóspedes, para que por isso conhecessem que a hospitalidade lhe era grata.

Permaneça a caridade em vós: *lembrai-vos também dos presos*, isto é, ministrai aos que são oprimidos em cadeias, *como se estivésseis presos com eles*, isto é, lembrados de que estais juntamente presos, porque, se aqueles estão no cárcere, vós estais presos pela moléstia da carne; ou assim: lembrai-vos dos presos como se estivésseis presos com eles, isto é, como quereríeis que se lembrassem de vós, se estivésseis igualmente em cadeias. Lembrai-vos também *dos que sofrem* por qualquer gênero de miséria mundana, como se vós mesmos sofrêsseis; o que o mesmo diz: *como estando vós mesmos no corpo*; qualquer, com efeito, que é oprimido pelo peso da carne nunca está isento de aflição e trabalho. *Seja também honrado em todos o matrimônio*; aqui remove a fornicação: e, celebrados os matrimônios, *seja imaculado o leito*; aqui rejeita o adultério. Por isso advirto sobre o matrimônio, a castidade do leito, removendo a fornicação e o adultério, porque *Deus julgará*, isto é, condenará *os fornicadores e os adúlteros*; não que não deva julgar os homicídios e os demais males, mas agora o discurso era só destes dois.

*Sejam também os vossos costumes sem avareza*, de modo que não cobiceis o supérfluo; vós, digo, *contentes com o que tendes*; é de Deus, com efeito, prover o amanhã. Deveis ser sem avareza; *ele mesmo*, com efeito, Deus *disse* a Josué, e por ele a todo fiel: ó tu, Josué, ou qualquer fiel, eu *não te deixarei* totalmente abjeto, *nem te abandonarei* em hora alguma sem auxílio<sup>[1]</sup>. Deus disse isto de tal modo que, sobre o que antes dissemos, a saber, que estejamos contentes com o que temos, agora digamos com confiança: *O Senhor é o meu auxílio*, e por isso *não temerei o que me possa fazer o homem*, ainda que tire o presente.

*Lembrai-vos também dos vossos superiores*, para vos conformardes a eles, *que vos falaram a palavra de Deus*, *considerando o desfecho*, isto é, o bom fim *da sua vida*; desfecho, digo, da conduta, isto é, da boa operação em que viveram; *imitai* primeiro *a sua fé*, para que assim a boa conduta e o bom desfecho estejam igualmente em vós. Diriam eles: não podemos seguir a perfeição deles, porque eles, ensinados pelo próprio Cristo, tiveram maior afluência de graça do que nós podemos ter. A isto Paulo: bem podeis imitar, diz; *Jesus Cristo*, com efeito, *que foi ontem* quanto a eles, *hoje* também está pronto no mesmo quanto a vós; ele mesmo estará também presente *por todos os séculos* aos que esperam nele, a quem diz: «Eis que estou convosco até a consumação dos séculos» (Mt 28,20).

Imitai a fé dos superiores, seguindo a doutrina deles; *e não vos deixeis levar por doutrinas várias*, que ora afirmam uma coisa ora outra, *e estranhas*, isto é, alheias, que procedem de outra parte que não de nós; por estas doutrinas, digo, não vos deixeis desviar do que de nós recebestes. Havia, com efeito, alguns sedutores que dogmatizavam, do fato de Paulo ter dito que todos os alimentos são puros e santificados por Deus, que quanto mais empanturrassem o ventre com a opulência das comidas, tanto mais seriam gratos a Deus, que santificara todos os alimentos para o comer; daí diz: não vos deixeis levar por tais doutrinas, *porque é bom que o coração*, e não o corpo, *se firme e se confirme na graça*, isto é, na liberdade que Deus nos trouxe no uso de todas as coisas, *e não em alimentos*, isto é, na multiplicação do prazer, *alimentos que nada aproveitaram aos que andaram* nos prazeres e lhes deram lugar além da medida.

Nos alimentos certamente não devemos firmar o coração, *porque temos um altar*, isto é, o Corpo de Cristo, que é consagrado no altar; sobre o qual, participado por nós, oferecemos a Deus votos e orações: *desse altar*, isto é, do Corpo de Cristo, *não têm poder de comer quantos servem ao tabernáculo*, isto é, aos prazeres do corpo; assim, com efeito, permaneceremos no corpo por uma hora, como o soldado na tenda militar.

Prova com dupla autoridade, primeiro da antiga, depois da nova lei, colhendo o mesmo sentido em ambas as autoridades, o que prometeu, dizendo: verdadeiramente os que servem ao tabernáculo do prazer não têm faculdade de comer deste altar, porque não estão fora do acampamento, isto é, porque segundo as dispensas dos prazeres não fazem sair os seus corpos; o que assim diz: *os corpos dos animais cujo sangue é levado pelo pontífice ao Santo dos Santos*, pelo pecado do povo a apagar, e isto uma vez por ano, *os corpos desses animais são queimados fora do acampamento.* Era costume (como muitas vezes dissemos) que o pontífice legal uma vez por ano levasse o sangue ao Santo dos Santos; este sangue, porém, era tomado dos animais queimados fora do acampamento: aquele Pontífice é Cristo, que, para apagar o pecado de todos, levou ao Santo dos Santos o seu sangue derramado na Cruz. Que aquele animal fosse queimado para se fazer cinza era sinal da contrição de Cristo, que suportou; cuja cinza, isto é, a memória da Paixão, deve ser aspergida sobre as cabeças, isto é, nas mentes de cada um. Que fosse queimado fora do acampamento significava que todo o que quer ser purificado deve sair fora do acampamento, isto é, dos prazeres carnais.

Agora acrescenta a autoridade do novo Testamento, que sente o mesmo com o antigo, dizendo: *por isso*, para comprovar isto, a saber, que os que servem ao tabernáculo não têm poder de comer deste altar; ou então, por isto prefigurado no antigo, agora a cumprir-se, *também Jesus padeceu fora da porta*, significando que os que participam do seu altar devem fazer-se fora da porta, isto é, fora dos sentidos do prazer; os sentidos, com efeito, são as portas da alma, porque pelos olhos é levada a cobiçar o que vê, e assim pelos demais sentidos: Jesus padeceu fora da porta, por isso, *para santificar o povo pelo seu próprio sangue.*

Porque Jesus padeceu fora da porta, *saiamos, pois, a ele*, postos fora do acampamento, isto é, fora dos prazeres do tabernáculo; nem só isto, mas também *levando*, se for necessário, *o seu opróbrio*, isto é, a morte de Cruz. E certamente assim devemos sair, porque, ainda que queiramos aqui permanecer, *não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura*, isto é, a eterna. E uma vez que buscamos a futura, para que a alcancemos, *ofereçamos por ele*, o próprio Jesus, *sacrifícios de louvor*, isto é, louvores que merecem a Deus não menos que sacrifícios, e isto *sempre*; e o que digo, "sacrifícios de louvor", é dizer: ofereçamos *o fruto dos lábios* — pela facilidade dos lábios, por fruto designa a utilidade —; dos lábios, digo, *que confessam o seu nome*, isto é, a sua glória. Ofereçamos louvores; *da beneficência*, porém, isto é, da largueza das esmolas, *e da comunhão* (depois que não dizíeis os bens como próprios, mas comuns) *não vos esqueçais*: nem deveis esquecer-vos; *porque com tais sacrifícios*, isto é, pela beneficência e comunhão, *se agrada a Deus*, em significação passiva.

Para que, porém, estejais lembrados destas coisas, *obedecei aos vossos superiores*, que são perfeitos e bem vos instruem, *e sede-lhes submissos*, isto é, obedecei de modo a exibir-lhes toda sujeição em palavra e obra. Deveis certamente ser-lhes submissos, *porque eles velam por vós, como quem há de dar contas das vossas almas* a eles confiadas. E por isso sede-lhes assim submissos, *para que o façam*, isto é, velem por vós, *com alegria e não gemendo*, por vossa dureza e intemperança; digo, não gemendo, *pois isto não vos convém*, que os façais gemer.

Obedecei aos superiores e *orai por nós.* Diriam eles: tu persegues a nossa gente e os nossos ritos, e como dizes "orai por nós"? A isto Paulo: deveis orar por nós; *nós, com efeito, confiamos*, isto é, confiadamente vos dizemos, *que temos boa consciência em tudo*, isto é, para com todos, *querendo viver bem* para com eles: onde, porém, a consciência é pura, também a obra é limpa; não me sejais, pois, molestos. Disse acima: orai por nós; agora, porém, *peço-vos mais ainda que o façais*, isto é, que oreis por nós mais instantemente, *para que* (isto é, a fim de que) *eu vos seja restituído mais depressa*, trazendo comigo os frutos das esmolas, se porventura for solto das cadeias.

Digo: orai por nós; eu, porém, assim oro por vós: *O Deus da paz vos aperfeiçoe em todo bem*; Deus *que tirou dentre os mortos* nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, do número dos mortos; Jesus, digo, *grande Pastor das ovelhas*, isto é, engrandecido acima de tudo; Pastor, digo, não dos lobos mas das ovelhas, isto é, dos mansos; pastor, digo, feito *no sangue*, isto é, pela oblação do seu sangue; sangue, digo, confirmador *da aliança eterna*, isto é, que há de durar eternamente: este Deus, digo, *vos aperfeiçoe em todo bem* — entende-os aperfeiçoados se neles houver boa vontade —; aperfeiçoe de modo que *façais a sua vontade*, a de Deus; e não por vossas forças, mas façais de modo que ele mesmo seja *fazendo em vós o que é agradável diante dele*, isto é, no beneplácito dele; fazendo, digo, *por Jesus Cristo, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.*

Porque os corrigira um pouco mais asperamente, agora os afaga para que não se perturbem vista a aspereza das palavras, dizendo: Deus vos aperfeiçoe assim; *eu, porém, irmãos, rogo-vos que suporteis esta palavra*, não de repreensão, como talvez alguns de vós julgam, mas esta Epístola de consolação, isto é, recebais em toda paciência; e podeis bastante suportar, *porque vos escrevi em poucas palavras*: aqui significa que são impacientes, a quem teria escrito muito mais se soubesse que ouviriam pacientemente. Suportai a palavra; *e sabei que o vosso irmão Timóteo*, por mim enviado a vós, ou então, agora *posto em liberdade* das cadeias com que estava ligado comigo; ele, digo, portador desta Epístola, *conhecei*, isto é, recebei honrosamente e com toda caridade, *com o qual vos verei*, como julgo, se, voltando mais depressa de junto de vós, vier a mim.

*Saudai todos os vossos superiores*; a eles, com efeito, porque eram perfeitos, não escrevia a Epístola, mas a alguns incorrigidos dos súditos: *saudai também todos os santos* na vossa Igreja; havia, com efeito, alguns dos súditos perfeitos, a quem igualmente não escrevia. *Saúdam-vos os irmãos da Itália. A graça de Deus esteja com todos vós. Amém*: sinal de Paulo de que a Epístola era dele.

## Notas

<sup>[1]</sup> Cf. Js 1,5.

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# Apêndice — Cartas de São Bruno



# Carta aos monges da Grande Cartuxa

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# Apêndice — Duas Epístolas de São Bruno

*Duas Epístolas que São Bruno escreveu no eremitério da Calábria.*

## Epístola Primeira

### Aos monges que habitam o eremitério da Grande Cartuxa

Aos seus irmãos unicamente amados em Cristo, o irmão Bruno, saúde no Senhor.

Conhecido o rigor inflexível da vossa disciplina, racional e verdadeiramente digna de louvor, pela frequente e doce relação do nosso bem-aventurado irmão Landuíno, e ouvido também o vosso santo amor e o incessante empenho por tudo o que é de integridade e honestidade, exulta o meu espírito no Senhor. Verdadeiramente exulto, e sou levado ao louvor e às ações de graças ao Senhor, e contudo suspiro amargamente: exulto, com efeito, como é justo, pelo incremento dos frutos das vossas virtudes; a mim mesmo, porém, lamento e envergonho-me de jazer inerte e negligente na imundície dos meus pecados. Alegrai-vos, pois, meus caríssimos irmãos, pela sorte da vossa bem-aventurança e pela larga mão da graça de Deus sobre vós; alegrai-vos, porque escapastes dos múltiplos perigos e naufrágios do mundo flutuante; alegrai-vos, porque obtivestes a quieta e segura estação de um porto mais recôndito, ao qual, embora muitos desejem chegar, e muitos também com algum esforço se empenhem, contudo não chegam; muitos, porém, depois que o possuíram, foram excluídos, porque a nenhum deles foi concedido do alto. Por isso, meus irmãos, seja-vos certo e provado que quem quer que tenha usado deste bem desejável, se de qualquer modo o perder, até o fim se doerá, se tiver alguma consideração ou cuidado da salvação da sua alma.

De vós, diletíssimos irmãos meus leigos, digo: A minha alma engrandece ao Senhor, porque vejo sobre vós a magnificência da sua misericórdia, segundo a informação do vosso Prior e amantíssimo pai, que muito se gloria por vós e se alegra. Alegremo-nos nós também, porque, embora sejais inexperientes na ciência das letras, o Deus poderoso inscreve com o seu dedo nos vossos corações não só o amor, mas também o conhecimento da sua santa lei; pela obra, com efeito, mostrais o que amais e o que conheceis: pois, quando observais a verdadeira obediência com toda cautela e empenho (a qual é o cumprimento dos mandamentos de Deus, e chave e selo de toda a disciplina espiritual, que nunca é sem muita humildade e egrégia paciência, e que sempre acompanha o casto amor do Senhor e a verdadeira caridade), é manifesto que lede sapientemente o próprio fruto suavíssimo e útil da Escritura divina. Permanecei, pois, meus irmãos, naquilo a que chegastes, e evitai como peste o rebanho doentio de certos leigos vaníssimos, que andam com os seus papeluchos, murmurando o que não entendem nem amam, e com palavras e fatos contradizem aquilo; ociosos e vagabundos, detraem de quantos são bons e religiosos, e julgam-se louváveis nisto, se infamarem os louváveis; para os quais a obediência e toda disciplina é odiosa.

Quis reter conosco o irmão Landuíno, por causa das nossas graves e frequentes enfermidades; mas, porque ele julga que nada lhe é são, nada jucundo, nada vital e útil sem vós, não acedeu, protestando-me, numa fonte de lágrimas que emanava por vós e com muitos suspiros, quanto estais junto dele em apreço e com quão perfeita caridade vos ama a todos. Por isso não quis fazer coação alguma, para não lesar nem a ele nem a vós, que tenho por caríssimos pelo mérito das vossas virtudes. Por isso advirto assiduamente a vossa fraternidade, e peço submissa e instantemente que a caridade que trazeis no coração a mostreis pela execução da obra para com ele, como vosso Prior e caríssimo pai, ministrando-lhe benigna e providamente o que lhe é necessário para a sua múltipla saúde.

Se ele, neste ofício de humanidade, não consentir convosco, preferindo arriscar a salvação e a vida a omitir algo do rigor da disciplina corporal, o que absolutamente se deve reprovar, talvez se envergonhará, de que quem é o primeiro na religião seja achado o último nesta parte, temendo que por sua ocasião algum de vós se torne mais remisso ou tíbio; o que de modo algum julgo de temer. Para que não fiqueis privados desta graça, concedemos à vossa caridade a nossa vez só nisto: que vos seja lícito forçá-lo reverentemente ao que cuidastes para a sua saúde.

De mim, irmãos, sabei que me é único, depois de Deus, o desejo de ir a vós e de ver-vos. E, quando eu puder, cumpri-lo-ei por obra, com a ajuda de Deus. Passai bem.

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# Carta a Raul o Verde

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# Epístola Segunda

### A Raul, o Verde, preposto da Igreja de Reims

Ao seu senhor venerável Raul, preposto de Reims, a ser observado com o culto da mais sincera caridade, Bruno, saúde.

A fé da antiga e aprovada amizade resplandece em ti tanto mais ilustre e digna de maior louvor quanto mais rara se encontra entre os homens: embora, com efeito, por longo trato de terras e prolixo espaço de tempo os corpos estejam separados um do outro, o ânimo da tua benevolência contudo não pôde ser arrancado do amigo; o que se mostrou bastante tanto pelas tuas suavíssimas cartas, nas quais amigavelmente me afagaste, quanto pelos benefícios, largamente gastos por causa de nós, não só a mim, mas também ao irmão Bernardo, e por alguns outros indícios. Por isso rendemos graças à tua benignidade, não decerto iguais aos méritos, mas contudo manando de fonte pura. Enviamos-te há tempos, com cartas, um peregrino, bastante fiel noutras legações, mas até agora não aparece. Julgamos digno transmitir à tua caridade um dos nossos, que (porque somos menos suficientes para isso com pena e tinta) narre mais copiosamente de viva voz tudo o que nos diz respeito.

Notificamos, pois, ao teu amor, à tua dignação, porque julgamos que isso não te é ingrato, que estamos de saúde no corpo, oxalá assim na mente, e que as coisas que pertencem ao exterior estão suficientemente conforme o desejo. Aguardo, contudo, suplicando a mão da divina misericórdia, que sare todas as minhas enfermidades inferiores e sacie de bens o meu desejo. Nas fronteiras da Calábria, com irmãos religiosos, e alguns bem instruídos (que, perseverando nas vigílias divinas, esperam a volta do seu Senhor, para que, quando bater, logo lhe abram), habito o eremitério, bastante remoto, por toda parte, da habitação dos homens; da sua amenidade, da temperança do ar e salubridade, ou da planície ampla e grata, estendida em comprimento entre montes, onde há prados verdejantes e pastos floridos, que direi digno? ou da vista dos outeiros que de todos os lados se erguem suavemente e do recesso dos vales umbrosos, com amável abundância de rios, riachos e fontes, quem o explicará suficientemente? nem faltam hortas irrigadas e a fertilidade de diversas árvores: mas por que me demoro mais nestas coisas? Outros, com efeito, são os deleites do varão prudente, mais gratos e muito mais úteis, porque divinos. Contudo, o ânimo mais fraco, fatigado de mais estreita disciplina e de estudos espirituais, muitas vezes nelas se alivia e respira; o arco, com efeito, se estiver assiduamente tenso, é mais remisso e menos apto para o ofício.

O que, porém, a solidão e o silêncio do eremitério conferem de utilidade e jucundidade aos seus amantes, só o sabem os que o experimentaram: aqui, com efeito, aos varões estrênuos é lícito tanto voltar a si quanto lhes apraz, e habitar consigo, e cultivar instantemente os germes das virtudes, e usar felizmente dos frutos do paraíso; aqui se conquista aquele olho, de cujo sereno olhar o Esposo é ferido de amor, e com o qual, puro e limpo, Deus é visto; aqui se celebra o ócio negocioso e se repousa na ação quieta; aqui, em troca do labor do combate, Deus retribui aos seus atletas o prêmio desejado, a saber, a paz que o mundo ignora e o gáudio no Espírito Santo. Esta é aquela Raquel formosa, bela de aspecto, mais amada por Jacó, embora menos fecunda em filhos do que Lia, mais fecunda mas remelenta; menos, com efeito, são os filhos da contemplação que os da ação; contudo José e Benjamim são mais amados do pai que os demais irmãos: esta é aquela parte ótima que Maria escolheu, que não lhe será tirada: esta é a sunamita belíssima, achada só em todas as fronteiras de Israel, para aquecer e fomentar o velho Davi; a qual tu, irmão caríssimo, oxalá amasses unicamente, para que, fomentado pelos seus abraços, te aquecesses no amor divino! se a caridade dela uma vez se assentasse no teu ânimo, logo aquela lisonjeira e blandiciosa enganadora, a glória do mundo, te pareceria vil, e as riquezas solícitas, onerosas à mente sã, lançarias levemente fora; e os prazeres, igualmente nocivos ao ânimo e ao corpo, de todo enfastiarias; sabe, com efeito, a tua prudência quem diz: «Quem ama o mundo e as coisas que há no mundo» (que são a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a ambição do século), «nele não há caridade do Pai» (1Jo 2,15-16). E também: «Quem é amigo deste mundo constitui-se inimigo de Deus» (Tg 4,4). Que há, pois, tão iníquo, que de mente tão insana e precipitada, que tão pernicioso, que mais infeliz, do que querer exercer inimizades contra aquele cujo poder não podes resistir nem fugir à vingança da justiça? Porventura somos mais fortes que ele? Porventura, porque a paciência da sua piedade agora nos provoca à penitência, não vingará por fim as injúrias do desprezo? Que há, com efeito, mais perverso, que tão oposto à razão, à justiça e à própria natureza, do que amar mais a criatura que o Criador?

Que julgas, pois, que se deve fazer, caríssimo? que senão ceder aos conselhos divinos, ceder à Verdade, que não pode enganar? Aconselha, com efeito, em comum, dizendo: «Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei» (Mt 11,28); porventura não é péssimo e inútil o labor de se distender pela concupiscência, de ser incessantemente aflito por solicitudes e ansiedades, temor e dor pelas coisas cobiçadas? Que fardo é mais grave do que o que deprime a mente da sublime cidadela da sua dignidade ao ínfimo, que é toda injustiça? Foge, pois, meu irmão, foge de todas estas moléstias e misérias, e transfere-te da tempestade deste mundo para a segura e quieta estação do porto.

Sabe também a tua prudência o que nos diz a Sabedoria: «Quem não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo» (Lc 14,33). O quão belo, quão útil e quão jucundo é permanecer na escola dele sob a disciplina do Espírito Santo, alcançar a filosofia divina, que só dá a verdadeira bem-aventurança, quem não o vê? Por isso vale a pena a tua prudência ponderar estas coisas com diligente exame. Se o amor de Deus não te convida, a utilidade de tão grandes prêmios não te provoca, ao menos a necessidade e o temor das penas devem compelir-te a isto; sabes, com efeito, por que promessa estás obrigado, e quão onipotente e terrível é aquele a quem te votaste como dom grato e inteiramente aceitável, a quem nem é lícito mentir, nem convém; ele, com efeito, não permite ser escarnecido impunemente.

Recorda-se, decerto, o teu amor de que, quando eu, tu e Fulcoio o Caolho estivemos um dia juntos no jardinzinho contíguo à casa de Adão, onde ele então se hospedava, tratávamos por algum tempo, como julgo, dos falsos deleites e das perecíveis riquezas deste mundo e dos gáudios da glória perene; donde, fervendo de amor divino, prometemos e votamos ao Espírito Santo, em breve, deixar as coisas fugitivas do século e captar as eternas, e também receber o hábito monástico: o que em breve já estaria cumprido, se Fulcoio não tivesse ido então a Roma, a cujo regresso adiamos o cumprimento; demorando-se ele e interpondo-se outras causas, o amor divino enlanguesceu, o ânimo esfriou e o fervor desvaneceu. Que resta, pois, caríssimo, senão libertares-te o mais cedo dos laços de tão grande dívida, para que, por tão grande e tão duradouro crime de mentira, não incorras na ira do Potentíssimo, e por isso em tormentos imensos? Quem, com efeito, deixaria impune ser defraudado por qualquer súdito do dom prometido, sobretudo se fosse de grande estima e preço para si? Por isso crê, não a mim, mas ao Profeta, antes ao Espírito Santo, que diz: «Fazei votos e cumpri-os ao Senhor vosso Deus, todos vós que estais ao redor dele, trazei dons; ao Terrível, àquele que tira o espírito dos príncipes, terrível para os reis da terra» (Sl 75,12-13). Por que o Espírito de Deus inculca tudo isto, senão para que a ti, que fizeste voto, urja a cumprir o que votaste?

Por que, porém, te pesa cumprir o que nenhuma perda ou diminuição faz dos teus bens, e que antes acumula lucros teus do que daquele a quem pagares? Por isso não te detenham as riquezas falazes, porque não podem expulsar a indigência, nem a dignidade da prepositura, que não podem administrar senão com grande perigo da alma; as coisas alheias, com efeito, de que és ministro e não possuidor, converter em usos próprios (com a tua licença o digo), é tão odioso quanto iníquo. Se, desejoso de esplendor e glória, quiseres reter numerosa família, não será necessário, quando as tuas coisas, que tens com justiça, não bastam, que de qualquer modo tires a uns o que dês a outros? o que não é ser benéfico ou liberal; nada, com efeito, é liberal que não seja ao mesmo tempo justo. Quero também persuadir ao teu amor que, por causa da intimidade do senhor Arcebispo, que muito crê e confia nos teus conselhos, que nem todos fáceis se dão como justos ou úteis, não declines de tão sublime promessa. Chamai de volta pela divina caridade, que quanto é mais justa tanto mais útil: que há, pois, tão justo e tão útil, ou tão inserido e congruente à natureza humana, como amar o bem? e que outra coisa é tão boa como Deus? antes, que outra coisa é boa senão só Deus? Donde a alma santa, sentindo em parte a incomparável beleza, esplendor e formosura deste bem, acesa pela chama do amor, diz: «A minha alma teve sede de Deus, fonte viva; quando virei e aparecerei diante da face de Deus?» (Sl 41,3).

Oxalá não desprezes o amigo que te adverte; oxalá não ouças com ouvido surdo as palavras do Espírito de Deus; oxalá satisfaças o meu desejo e longa espera, diletíssimo, para que não seja mais longamente crucificada por ti a minha alma com cuidados, solicitudes e temor: pois, se acontecer (o que Deus afaste) que te afastes desta vida antes de teres cumprido o voto da dívida, deixar-me-ás a mim, consumido em contínua tristeza, sem consolação alguma de esperança. Por isso desejo tanto rogar-te quanto imprecar-te que, ao menos por causa da oração a São Nicolau, te dignes vir daí até nós, para que vejas aquele que te ama unicamente, e possamos tratar de viva voz mútua o estado das nossas coisas e a ordem da religião, bem como o que diz respeito à utilidade comum: e confio no Senhor que não te arrependerás de ter subido o trabalho de tão grande viagem.

Excedi a medida da brevidade epistolar, porque, enquanto não posso ter-te corporalmente, ao menos mais longamente me demorarei conversando contigo; desejo solícito que a tua fraternidade viva longamente incólume, lembrada do nosso conselho e não esquecida do voto. Rogo que me transmitas a Vida de São Remígio, porque em parte alguma se encontra nas nossas regiões. Passa bem.

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