Primeira Epístola aos Tessalonicenses

Prólogo

Os tessalonicenses estão na Macedônia. Estes, ouvida a palavra da fé por Paulo, creram, recebendo muita graça no próprio início da fé. Mas, tendo Paulo voltado de junto deles, alguns, conforme dele haviam recebido, perseveraram no bem como imitadores de Paulo; outros, porém, foram pouco a pouco corrompidos, caindo na fossa da fornicação; começaram também a ser ociosos, não querendo trabalhar, e curiosos, indagando com muito afã os rumores da cidade; errando também por duvidar da ressurreição dos mortos, razão pela qual se afligiam além da medida na morte dos amigos, julgando que não ressuscitariam mais. Sendo, pois, duas as partes deles, uma caminhando no itinerário direto de Paulo, a outra, como se disse, desviada do caminho da verdade, Paulo enviou-lhes Timóteo desde Atenas. Voltando este, e conhecendo Paulo com certeza, por Timóteo, a fé de uns e o erro de outros, escreve-lhes esta Epístola, na qual ambas as partes deles, os perfeitos, a saber, e os errantes, são matéria: louvando os bons pela perfeição da fé e exortando-os ao incremento dos bens que começaram; retraindo os errantes da curiosidade, do ócio, da fornicação e da dúvida tida sobre a futura ressurreição com razões congruentes; matéria em que a sua intenção é bastante clara: que os bons trabalhem pelo incremento; os outros, deixado o erro, se conformem à perfeição dos bons pela fé e pela obra.

Capítulo 1

Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos tessalonicenses, em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. Graça a vós e paz. Damos sempre graças a Deus por todos vós, fazendo memória de vós nas nossas orações sem cessar, lembrando-nos da obra da vossa fé, do trabalho, da caridade e da firmeza da esperança de nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus e Pai nosso; sabendo, irmãos amados por Deus, da vossa eleição; porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavra, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em grande plenitude, como sabeis que fomos entre vós, por vossa causa. E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a palavra em muita tribulação, com a alegria do Espírito Santo; de modo que vos tornastes modelo para todos os que creem na Macedônia e na Acaia. Porque de vós ressoou a palavra do Senhor, não só na Macedônia e na Acaia, mas em todo lugar a vossa fé em Deus se espalhou, de modo que não temos necessidade de dizer coisa alguma. Eles mesmos, com efeito, anunciam a nosso respeito que entrada tivemos entre vós, e como vos convertestes a Deus, deixando os ídolos, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus o seu Filho (a quem ressuscitou dentre os mortos), Jesus, que nos livra da ira vindoura.

Comentário

Paulo, etc. Como é seu costume, antepõe a saudação, dizendo: Paulo, Silvano e Timóteo. Põe consigo na saudação Silvano porque colaborou com ele na conversão deles, tendo autoridade junto deles; Timóteo, porque por conselho de Timóteo, que de junto deles voltara, Paulo lhes escreve esta Epístola; põe também Timóteo para que saibam que nada do que se passa entre eles se esconde a Paulo. Paulo, Silvano e Timóteo escrevem à Igreja dos tessalonicenses; Igreja, digo, existente em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo, isto é, o que ela é como Igreja, tem-no de Deus Pai e de Jesus Cristo: persevere, pois, na fé daquele de quem já recebeu o nome de eleição. Isto, digo, escrevem: graça a vós e paz.

Em primeiro lugar dirige-se à parte deles que conservara a integridade da fé, engrandecendo-lhes a fé e as graças concedidas no princípio da fé, para que pelo louvor do Apóstolo se animem para o melhor, dizendo: ouvindo o fruto da vossa fé, damos graças a Deus, e não raramente, mas sempre, e por todos vós, que perseverais no que vos transmiti. Damos graças, fazendo memória, isto é, Deus memorioso de vós, nas nossas orações, tidas sem cessar, porque a oração é contínua e em nada vos omito. De que dá graças, acrescenta: damos graças, lembrando-nos da obra da vossa fé; embora muitas sejam as obras da fé, esta a fé tem de principal: confessar o que crê; estes, porém, na presença dos perseguidores não temiam confessar Cristo. Lembrando-nos também do vosso trabalho; estes, com efeito, empobrecidos pelos infiéis, trabalhavam para ter de que viver. Lembrando-nos também da vossa caridade; amavam, com efeito, a tal ponto os próximos que comunicavam aos ociosos o fruto dos seus trabalhos. Lembrando-nos também da vossa firmeza; muito, com efeito, padeciam dos infiéis: firmeza, digo, da esperança, isto é, da coisa esperada; a coisa que esperais, com efeito, opera em vós tão grande paciência: esperança, digo, de nosso Senhor Jesus Cristo; a Cristo, com efeito, pertence o cumprimento desta esperança, tida diante de Deus e Pai nosso; assim, com efeito, esperavam confiadamente, como se já tivessem Deus diante dos olhos.

Recomendadas a fé e a caridade deles, diz que Deus lhes conferiu, no início da fé, graças mais admiráveis do que às outras Igrejas; e diz isto para incitação deles: fazendo memória de vós nas nossas orações, sabendo, irmãos amados por Deus, da vossa eleição, isto é, de quem, porque amou, escolheu, e de novo, depois da eleição, amou mais — antepôs "amados" à eleição para mostrar que os bens deles vinham do amor de Deus —; sabendo, digo, da vossa eleição, esta, a saber, porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavra, isto é, de modo que só palavras houvesse na vossa conversão, mas foi em poder de milagres e no Espírito Santo; na própria recepção da fé, com efeito, tivestes muitas graças; e de tal modo no poder e no Espírito que em grande plenitude tanto de milagres como de graças espirituais. Que isto, a saber, tanto os poderes de milagres quanto as graças do Espírito Santo, estiveram em vós, sabemos, assim como vós sabeis isto visível de nós, quais, isto é, quão veementemente atribulados fomos entre vós; e isto por vossa causa, para vos ganhar, não por outra vantagem.

Assim foi a vós o nosso Evangelho; e vós vos tornastes imitadores nossos, e porque nossos, por isso imitadores de Deus, a quem é glorioso imitar: imitadores, digo, em muita tribulação tolerada, acolhendo, isto é, ao acolher a palavra; assim que, com efeito, recebestes a palavra da fé, logo com a fé começastes a padecer; tribulação, digo, aceita não contrariada, mas com a alegria do Espírito Santo, porque a afluência das graças, que havia em vós, vos fazia alegrar nas tribulações. Fostes imitadores nossos, de modo que vos tornastes modelo de paciência para todos os que creem na Macedônia e na Acaia, que antes de vós creram; vendo, com efeito, que vós os precedíeis à coroa, louvavam a velocidade da vossa fé, acusando a sua tardança. A eles certamente vos tornastes modelo, porque de vós ressoou a palavra do Senhor, isto é, foi notificada pelo vosso exemplo, não só na Macedônia e na Acaia, mas também em todo lugar adjacente a elas. Nem só a palavra do Senhor, mas também a vossa fé muitíssimo se espalhou; fé em Deus, isto é, desprezada a glória do mundo, deseja só Deus; espalhou-se de tal modo que não temos necessidade de dizer coisa alguma sobre a nossa entrada entre vós ou sobre a vossa conversão. Por isso não é necessário dizer coisa alguma, porque eles mesmos anunciam a vosso respeito, isto é, para glória da vossa fé, que entrada, isto é, quão difícil entrada tivemos entre vós; muito, com efeito, padecemos ao vir e junto de vós; apesar disso não desprezastes a palavra de mim. Anunciam também a vosso respeito [como], isto é, quão perfeitamente vos convertestes a Deus, deixando os ídolos, nos quais só há simulação, nenhuma verdade; convertidos, digo, não só para crer, mas também para servir ao Deus vivo, isto é, eterno, que há de vos dar a vida da eternidade; vivo e verdadeiro, isto é, em quem há verdade, como no ídolo simulação: e não de qualquer modo servir, mas convertestes-vos também para esperar o seu Filho, que há de vir dos céus para o juízo — a tal ponto, com efeito, estão seguros de bem agir que se alegram de ir ao encontro do juiz, não temendo a pena, mas seguros do prêmio —; Filho a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, feito para nós Jesus, isto é, Salvador, cuja ressurreição opera a nossa ressurreição; Filho que nos livra da ira, isto é, da vingança vindoura sobre os ímpios; livrou-nos certamente no batismo, perdoando os pecados.

Capítulo 2

Pois vós mesmos sabeis, irmãos, que a nossa entrada entre vós não foi vã; mas, tendo antes padecido e sido ultrajados (como sabeis) em Filipos, tivemos confiança em nosso Deus para vos falar o Evangelho de Deus em meio a muita solicitude. Porque a nossa exortação não procede de erro, nem de impureza, nem de dolo; mas, assim como fomos aprovados por Deus para que nos fosse confiado o Evangelho, assim falamos, não como quem agrada aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações. Pois nunca usamos de palavra de adulação, como sabeis, nem de pretexto de avareza; Deus é testemunha; nem buscando glória dos homens, nem de vós, nem de outros, podendo, como Apóstolos de Cristo, ser-vos pesados; mas fizemo-nos pequeninos no meio de vós, como a ama que acaricia os seus filhos. Assim, desejando-vos com afeto, queríamos dar-vos não só o Evangelho de Deus, mas também as nossas próprias almas; porque vos tornastes muito queridos para nós. Lembrai-vos, com efeito, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, pregamos entre vós o Evangelho de Deus. Vós sois testemunhas, e Deus também, de quão santa, justa e irrepreensivelmente nos portamos convosco, os que credes; como sabeis que a cada um de vós (como um pai a seus filhos) exortando-vos e consolando-vos, testemunhamos que andásseis de modo digno de Deus, que vos chamou ao seu reino e glória. Por isso também nós damos graças a Deus sem cessar, porque, ao receberdes de nós a palavra de Deus que ouvistes, a recebestes não como palavra de homens, mas, como é de fato, como palavra de Deus, que opera em vós, os que credes. Pois vós, irmãos, vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia em Cristo Jesus, porque as mesmas coisas padecestes também vós de vossos compatriotas, como eles também dos judeus; os quais mataram o Senhor Jesus e os Profetas, e a nós nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os homens, impedindo-nos de falar aos gentios para que se salvem, a fim de encherem sempre a medida dos seus pecados; pois a ira de Deus veio sobre eles até o fim. Nós, porém, irmãos, privados de vós por pouco tempo, de vista, não de coração, mais abundantemente nos esforçamos por ver o vosso rosto, com grande desejo; pois quisemos ir a vós; eu, Paulo, uma e outra vez, mas Satanás nos impediu. Qual é, com efeito, a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de glória? Não sois vós, diante de nosso Senhor Jesus Cristo, na sua vinda? Pois vós sois a nossa glória e alegria.

Comentário

Dizendo acima "qual entrada" e "quais irmãos", já por duas vezes lhes tinha significado a dificuldade da sua entrada; como não a explicara, agora a insere com bastante astúcia, dizendo: não convém que eu diga que entrada tivemos entre vós; pois vós mesmos, irmãos, sabeis bem a nossa entrada entre vós, que (isto é, porque) não foi vã, isto é, inútil — seria vã se padecesse por coisas do mundo, ou se fugisse de padecer, ou se neles não fizesse fruto de fé —: não foi vã, mas, antes, isto é, ao vir, padecemos em Filipos a acerbidade da tribulação, e fomos também ultrajados, isto é, afligidos com palavras opróbrias; padecidos e ultrajados, digo, como vós mesmos sabeis. Nós, digo, assim padecemos e fomos ultrajados em meio a muita solicitude entre vós, isto é, cuidadosos das coisas domésticas; em grande penúria estávamos, com efeito, e cuidadosos para que vós, vendo o nosso desprezo, não desprezásseis em nós a palavra de Deus; e, embora estivéssemos em tão grande solicitude, tivemos contudo confiança de vos falar o Evangelho de Deus; tivemos, digo, em nosso Deus; por excessiva dificuldade, com efeito, a força humana, desfalecendo em nós, nos compelia a consultar Deus. Por isso tivemos confiança, porque a nossa exortação feita a vós não procede de erro, isto é, de persuasão de erro, como se vos ensinasse a errar na fé, nem de impureza, como aqueles nicolaítas que persuadem serem as mulheres comuns a todos. Nem a nossa exortação é em dolo, isto é, em engano; poderia, com efeito, não ser de erro nem de impureza e contudo em dolo, se pretendesse receber deles. Não foi em dolo, mas como fomos aprovados, isto é, provadamente examinados por Deus, para que por ele nos fosse confiado o Evangelho; como fomos aprovados, assim falamos, isto é, Deus não achou em nós menos do que previu que acharia; falamos, digo, não só sem agradar, mas nem sequer feitos como quem agrada aos homens, mas procurando agradar a Deus, que prova os nossos corações, isto é, a quem também está aberta a nossa vontade.

Verdadeiramente não como quem agrada aos homens, pois nunca usamos de palavra de adulação, como vós sabeis, e vos tomo por testemunhas; nem fomos em palavra de avareza, nem sequer em pretexto, de modo que ao menos pudesse haver suspeita de nós; e Deus é testemunha disso: e não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros. Não fomos em pretexto de avareza, podendo (isto é, ainda que pudéssemos) ser-vos pesados, recebendo de vós as coisas temporais como Apóstolos de Cristo. Não buscando glória, mas fizemo-nos pequeninos no meio, isto é, humildes na vossa comunidade; ninguém houve, com efeito, a quem eu não condescendesse: pequeninos, digo, como a ama, que condescende com o pequenino e muito sofre dele; não ama contratada por preço, mas que acaricia os próprios filhos, a quem por só dileção é pequenina, nada ali buscando além dos filhos. Como a ama aos filhos, assim, desejando-vos, não as vossas coisas, queríamos com afeto dar-vos não só o Evangelho de Deus, mas também, se fosse preciso, as nossas próprias almas; isso porque vos tornastes muito queridos para nós.

Fizemo-nos certamente pequeninos como a ama; lembrai-vos, com efeito, irmãos, do nosso trabalho e fadiga: podia, com efeito, trabalhar não até a fadiga, mas muitas vezes trabalhava por Deus a ponto de desistir mais cansado do que voluntário. Digo bem "trabalho e fadiga"; nós, com efeito, pregamos entre vós o Evangelho de Deus, trabalhando noite e dia, quanto do dia restava da pregação e da oração; assim trabalhando, para não sermos pesados a nenhum de vós. E que assim fiz, vós sois testemunhas, e Deus também, de quão santamente em mim, e quão justamente para com o próximo, e irrepreensivelmente, isto é, inocentemente, sem todo mal, nos portamos convosco, os que credes. Porque santa e justamente nos portamos convosco, tendes isto tão sabido como sabeis, de que modo testemunhamos a cada um de vós, exortando-vos e consolando-vos aos atribulados, como um pai consolaria os seus filhos; testemunhamos que andásseis de modo digno de Deus, isto é, para serdes dignos de ter Deus, ou para que seja digno Deus habitar em vós; Deus que vos chamou ao seu reino, isto é, para que agora reinasse em vós, que antes éreis reino do diabo, e glória a ter no futuro.

E porque fostes chamados ao reino de Deus, por isso também nós damos graças a Deus sem cessar; porque, ao receberdes de nós a palavra que ouvistes, isto é, ao acolherdes a palavra de Deus só pelo ouvir, a recebestes não como palavra de homens, mas como palavra de Deus, o que é verdade; Deus que opera cada dia em vós, que credes. E verdadeiramente opera em vós; pois vós, irmãos, vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia; que estão, digo, em Cristo Jesus: imitadores nisto, porque as mesmas coisas padecestes também vós de vossos compatriotas, como eles também dos judeus; não é de admirar que esses judeus os persigam, porque mataram o Senhor Jesus e os Profetas; a nós também nos perseguiram; no que certamente não agradam a Deus, embora perseguindo-nos julguem prestar obséquio a Deus; esses judeus são também adversários de todos os homens, isto é, da utilidade de todos os homens, impedindo-nos de falar aos gentios para que se salvem; impedindo para encherem sempre a medida dos seus pecados, até serem justa e suficientemente provados, e os ímpios chegarem ao cúmulo da condenação. Por isso assim impedem, porque a ira, isto é, a cegueira de Deus veio sobre eles até o fim, quando Deus tirar o véu dos seus corações, e então os restos serão salvos; ou então, até o fim, isto é, até a morte, quando serão entregues ao fogo perpétuo.

E porque vós padecestes as mesmas coisas, por isso, irmãos, nós, privados de vós; a causa, com efeito, da nossa desolação vinha de vós, não porque lamentássemos a queda, mas porque temíamos; privados, digo, por pouco tempo, isto é, desde que enviamos Timóteo a vós até que por ele ouvimos a vossa constância — onde diz "por pouco tempo", insinua que não pecaram —; privados, digo, removido o rosto, isto é, a nossa palavra de vós, de vista, removida a vista, mas não de coração, mais abundantemente que antes nos esforçamos por ver o vosso rosto, com grande desejo. Digo bem "com desejo"; pois quisemos ir a vós, e no próprio caminho já estávamos; eu, Paulo, o que quer que outros temessem, quis ir uma e outra vez; mas Satanás nos impediu: Satanás, para, removida a consolação do mestre, mais facilmente vos poder perverter; Deus consentiu nisto para vos ter mais gloriosos pela tentação superada. Satanás impediu, portanto, porque vós sois a nossa esperança, etc. Ou assim: por isso quisemos ir, porque qual é a nossa esperança a ter no futuro, ou qual a alegria então de novo preparada para mim, ou coroa de glória, isto é, aquela alegria não será medíocre, mas coroa de glória, isto é, coroa gloriosa; digo, qual é a minha alegria e coroa? Mas não sois vós, pela pureza da vida, postos agora diante de nosso Senhor Jesus? Sois, digo, coroa preparada para mim na sua vinda. Verdadeiramente então sereis para mim alegria e coroa, porque já agora, onde, oprimido pela carne, menos entendo, sois vós a nossa glória e alegria.

Capítulo 3

Por isso, não suportando mais, pareceu-nos bem ficar sós em Atenas; e enviamos Timóteo, nosso irmão e ministro de Deus no Evangelho de Cristo, para vos confirmar e exortar em favor da vossa fé; para que ninguém se abale nestas tribulações; vós mesmos sabeis, com efeito, que para isto fomos postos. Pois também, quando estávamos entre vós, vos predizíamos que haveríamos de padecer tribulações, como também aconteceu, e sabeis. Por isso também eu, não suportando mais, enviei para conhecer a vossa fé, para que porventura o tentador não vos tenha tentado e o nosso trabalho se torne vão. Agora, porém, tendo Timóteo chegado a nós, vindo de junto de vós, e anunciando-nos a vossa fé e caridade, e que tendes sempre boa lembrança de nós, desejando ver-nos, como nós também a vós; por isso fomos consolados, irmãos, a vosso respeito, em toda a nossa necessidade e tribulação, pela vossa fé; porque agora vivemos, se vós permaneceis firmes no Senhor. Que ação de graças, com efeito, podemos render a Deus por vós, em toda a alegria com que nos alegramos por vossa causa diante do nosso Deus, orando noite e dia, mais abundantemente, para que vejamos o vosso rosto e completemos o que falta à vossa fé? Que o próprio Deus e Pai nosso, e o Senhor Jesus Cristo, dirijam o nosso caminho até vós. A vós, porém, o Senhor multiplique e faça abundar a caridade de uns para com os outros e para com todos, como também nós para convosco; para confirmar os vossos corações, irrepreensíveis em santidade diante de Deus e Pai nosso, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus santos. Amém.

Comentário

Por isso, porque padecestes as mesmas coisas, e porque nós estamos privados de vós, e porque vós sois a nossa alegria e coroa, por isso não suportando mais — diz "suportando" porque, até que o consolou por Timóteo e por ele soube de que modo permaneciam na fé, suportou, como grave peso, o temor da queda deles —; não suportando mais, pareceu-nos bem, a mim e a Silvano, ficar sós em Atenas, isto é, de modo a ficarmos sós, privados do auxílio de Timóteo, que nos era necessário. Aqui significa que dirigiu esta Epístola desde Atenas. Ficamos em Atenas, e enviamos Timóteo, nosso irmão e ministro de Deus no Evangelho de Cristo; recomendo-o a vós, ouvi-o; enviamos, digo, para vos confirmar, para que progredísseis para o melhor; confirmar e exortar, digo, em favor da vossa fé, a guardar, para que não erre nem desfaleça; confirmar, digo, para que ninguém de vós se abale nestas tribulações, que vós padeceis e nós padecemos. Onde diz "ninguém se abale", insinua que ainda não foram abalados, e que não quer que sequer um seja abalado da fé. Não deveis abalar-vos; vós mesmos, com efeito, sabeis bem que para isto fomos postos, nós e vós, para padecer as adversidades: sabeis certamente; pois quando estávamos entre vós, vos predizíamos que haveríamos de padecer tribulações, como certamente, segundo a minha palavra, aconteceu, e vós bem sabeis que aconteceu. Por isso, isto é, porque padeci tribulações, para que a tribulação do mestre não fosse causa do vosso desfalecimento, eu, não suportando mais, enviei para conhecer a vossa fé, para que por um legado conhecesse a vossa fé. Enviei, portanto, para que porventura não vos tenha tentado aquele que tenta, isto é, cujo ofício é tentar; e para que assim o nosso trabalho não se torne vão, sucumbindo vós à tentação.

Outrora enviei; agora, porém, tendo Timóteo vindo de junto de vós a nós, e anunciando-nos a fé que firmemente mantendes, e a vossa caridade, com que provais amar a todos nós; anunciando também que tendes boa lembrança de nós, como deveis, desejando sempre ver-nos, como nós também desejamos ver-vos: ele anunciando isto, fomos consolados, irmãos, a vosso respeito, por isso, isto é, pelo que assim anuncia de vós, e não por outra coisa; poderia, com efeito, anunciar-se isto a ele mesmo e ele consolar-se por outra coisa. Fomos consolados a vosso respeito pela fé, isto é, por causa da vossa fé firmemente estável, ou então, pela vossa fé juro ter-me consolado, que, amando-a, não perjuraria; consolados, digo, em toda a nossa necessidade, isto é, penúria, e tribulação que padeço dos perseguidores; porque nem a minha aflição pode perturbar a alegria que tenho da vossa firmeza. Digo por isso que fomos consolados, porque agora vivemos, ainda em tribulação e penúria, isto é, cremos viver em alegria, se vós permaneceis firmes no Senhor, o que certamente é verdade, porque permaneceis: o "se" é aprobativo.

Com razão, portanto, vivemos: que ação de graças, com efeito, podemos render a Deus por vós, que permaneceis na fé e na caridade; podemos, digo, nós, postos em toda a alegria com que nos alegramos por vossa causa, existentes diante do nosso Deus; ou então, alegramo-nos diante do nosso Deus por causa de vós; agrada, com efeito, à vista de Deus que, esquecido da minha tribulação, me congratule com os vossos bens. Diz "render" porque os bens que Deus concede às Igrejas de Paulo, Paulo os conta como conferidos a si. Alegramo-nos, não só dando graças, mas orando noite e dia, mais abundantemente do que antes, ainda não ouvida a vossa perfeição; orando isto, para que vejamos o vosso rosto; e, presentes, completemos em vós o que ainda falta à vossa fé. Paulo, quando lhes transmitiu primeiro a fé, porque ainda eram simples, não capazes de apreender os mistérios de Deus, iniciou-os conforme o que era necessário à fé; mas, porque agora são perfeitos, se agora estivesse entre eles, abriria as Escrituras e os mistérios de Deus; que, assim como antes seriam supérfluos à simplicidade deles, assim agora faltavam à sua perfeição. Oramos para ver o vosso rosto; o próprio Deus e Pai nosso e o Senhor Cristo dirijam o nosso caminho até vós, isto é, tornem direto o nosso itinerário até vós.

Quer eu vá, quer não, o Senhor sempre vos multiplique segundo o aumento dos membros, e faça abundar a vossa caridade de uns para com os outros, para que todos reciprocamente vos ameis na Igreja; e para com todos, isto é, passe também aos infiéis a vossa caridade; faça abundar, como também nós abundamos em caridade para convosco; abundar, digo, para confirmar os vossos corações, para que a vossa vontade seja confirmada em todo bem; confirmar, digo, irrepreensíveis, para que nenhuma injustiça haja ali, e confirmar em santidade, para que sejais santificados e confirmados nos bens; santidade, digo, tida diante de Deus e Pai nosso, isto é, no beneplácito de Deus Pai. Corações, digo, assim a confirmar na vinda, isto é, na consideração da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; quem, com efeito, sempre se lembrar bem da vinda de Cristo para o juízo, temerá provocá-lo pecando; ou assim: a confirmar na vinda, isto é, até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; Cristo, digo, que há de vir com todos os seus santos, que com ele hão de julgar o mundo; ou então, a confirmar com todos os seus santos, para que assim vos confirme como confirmou os seus santos. Amém, isto é, assim seja, para que assim sejais confirmados.

Capítulo 4

Quanto ao mais, irmãos, rogamo-vos e exortamo-vos no Senhor Jesus que, assim como de nós recebestes o modo como convém andardes e agradardes a Deus, assim também andeis, para que abundeis ainda mais. Sabeis, com efeito, que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus. Esta é, com efeito, a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da fornicação; que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra, não na paixão do desejo, como também os gentios, que não conhecem a Deus; e que ninguém ultrapasse nem engane a seu irmão em negócio; porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como já vos dissemos e testificamos. Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santificação. Portanto, quem despreza isto não despreza um homem, mas a Deus, que também nos deu o seu Espírito Santo. Quanto à caridade fraterna, não temos necessidade de vos escrever; vós mesmos, com efeito, aprendestes de Deus a amar-vos uns aos outros. E isto de fato fazeis para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Rogamos-vos, porém, irmãos, que abundeis ainda mais, e procureis viver em sossego, tratar do que é vosso e trabalhar com as vossas mãos, como vos ordenamos; e que andeis honestamente para com os de fora, e de ninguém precisais. Não queremos, porém, irmãos, que ignoreis a respeito dos que dormem, para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus trará com ele, por Jesus, os que dormiram. Isto, com efeito, vos dizemos na palavra do Senhor: que nós, os que vivemos, os que ficamos até a vinda do Senhor, não precederemos os que dormiram. Porque o próprio Senhor, à voz de comando, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu; e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que vivemos, os que ficamos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens ao encontro de Cristo nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras.

Comentário

Até aqui louvou a parte dos perfeitos e exortou-os ao incremento da perfeição; agora começa a instruir aquela parte que parecia corromper-se pela fornicação, curiosidade, ócio e dúvida sobre a ressurreição, dizendo: assim louvo a vós perfeitos e convido ao incremento; quanto ao mais, irmãos, isto é, dirigindo-me à outra parte, rogamo-vos como coisa devida, e exortamo-vos, agindo mais brandamente, ao pedir o que é lícito mandar; exortamo-vos, digo, no Senhor Jesus, se dele quereis alegrar-vos, que, assim como de nós recebestes o modo como convém andardes e agradardes a Deus — diz-se andar naquelas coisas sem as quais o homem não pode salvar-se; agradar, naquelas que por dileção o homem acrescenta, como guardar a virgindade, nada possuir no mundo; coisas que, se não fizesse, poderia todavia salvar-se —, assim também andeis, como creio que andais, embora assim vos admoeste: rogamos e exortamos que, admoestados por mim, abundeis ainda mais, andando e agradando, do que antes.

E deveis abundar; sabeis, com efeito, que preceitos, isto é, quão dignos preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus que assim me instituía. Dignos preceitos certamente vos dei; pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação, isto é, que sejais santificados, removido de vós todo vício; esta é, digo, a vossa santificação: que vos abstenhais da fornicação, para não corromperdes a mulher do próximo, e que cada um de vós saiba possuir o seu vaso, isto é, o seu corpo — assim como o soldado na tenda, assim o espírito no corpo deve militar para Deus, ministrando com as mãos aos pobres, visitando com os pés os enfermos, e semelhantes nos demais membros; diz "possuir" porque o corpo deve ser domado pelo espírito de modo a ser possuído como servo da razão, levando qualquer fardo que lhe é imposto —; possuir, digo, em santificação, para que se faça santo na habitação das virtudes, e possuir em honra, para que não se incline ao ato de torpeza; e não na paixão do desejo, de modo que ao menos deseje o ato torpe, quanto mais o opere: desejo, digo, que é estar em paixão; grave paixão, com efeito, é do ânimo viver no desejo da carne: viver na paixão do desejo, como fazem os falsos cristãos e os gentios, que não conhecem a Deus. Abstende-vos da fornicação e do adultério; o que diz assim: que ninguém ultrapasse seu irmão em algum negócio privado tido com a mulher dele, nem o engane no mesmo. Ultrapassar seria se violentamente raptasse a mulher de outro; enganar, se por sedução de preço ou de rogo subvertesse a mulher do próximo a consentir consigo. Esta sentença não a insinuam bastante abertamente as palavras do livro, mas o que precede e segue parece querê-la.

Ou mudem-se aquelas primeiras: abstende-vos da fornicação com meretrizes, para que cada um de vós saiba possuir o seu vaso, isto é, a sua mulher, que é corpo do marido, em santificação, isto é, em limpeza, e em honra, não em torpeza, e não na paixão do desejo, isto é, para que não se afeiçoe demasiado carnalmente à mulher, como fazem os gentios, que ignoram a Deus: o que segue não se muda. Por isso ninguém engane o irmão, etc., porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, tanto da fornicação como do adultério, como já vos dissemos quando estávamos entre vós, e testificamos com testemunhos das Escrituras.

Verdadeiramente o Senhor é vingador destas coisas; pois Deus não nos chamou para a impureza a operar, mas para a santificação a ter; e porque Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santificação, portanto quem despreza o precaver-se disto, a saber, da fornicação e do adultério, não despreza um homem, mas a Deus, que chama à santificação; despreza também o seu hóspede, o Espírito Santo; o que diz assim: que também nos deu o seu Espírito Santo, a quem, se desprezais como Deus, perdeis com Deus desprezado.

Da fornicação e do adultério assim vos instruímos; mas quanto à caridade fraterna, não temos necessidade de vos escrever, porque vós mesmos aprendestes de Deus, ou inspirando interiormente, ou ensinando isto no Evangelho, a amar-vos uns aos outros, onde diz: «Este é o meu preceito, etc.» (Jo 15,12). Por isso, de novo, não é necessário escrever-vos, porque vós fazeis aquele preceito da dileção para com todos os irmãos existentes em toda a Macedônia. Mas, embora não seja necessário por isso escrever-vos, contudo rogamo-vos a todos, irmãos, que abundeis na caridade mais do que de costume, e procureis viver em sossego, não tão curiosos pela cidade a indagar rumores; e, para viverdes em sossego, tratai do que é vosso, para que, desprezado o próprio, não cuideis dos negócios alheios: nestas palavras interdiz o vício da curiosidade. E para viverdes em sossego, trabalhai com as vossas mãos, para que tenhais de que viver, a fim de que, ociosos, não consumais ilicitamente os trabalhos alheios: aqui proibiu a ociosidade. Trabalhai, digo, como vos ordenamos estando presentes; trabalhai porque vo-lo ordenamos, e andai honestamente para com os de fora, isto é, à vista dos infiéis, para que não tenham em que vos detraiam. Trabalhai também para que de ninguém precisais, isto é, para que, tendo do próprio trabalho, não cobiceis a coisa alheia, o que a indigência vinda do ócio compele a desejar.

Agora resolve com razões congruentes a dúvida que tinham sobre a ressurreição, dizendo: da caridade não é necessário escrever-vos; mas a respeito dos que dormem não queremos que ignoreis, irmãos — chama dormentes os mortos, para mostrar que Deus ressuscita os mortos tão facilmente como é fácil o dormente ser despertado do sono —; por isso não queremos que ignoreis a respeito dos que dormem, para que não vos entristeçais imoderadamente pelas mortes dos próximos, como os gentios e também os falsos cristãos, que não têm esperança da ressurreição futura. E os que desesperam da ressurreição não deveis assim entristecer-vos, pois, se cremos que Jesus — e para provar a sua verdadeira Ressurreição, antepõe: Jesus verdadeiramente morreu e ressuscitou; se isto, digo, cremos, assim também devemos crer que aqueles que, vivendo por Jesus, dormiram por Jesus, isto é, cuja vida e morte foi em Jesus, a estes, digo, Deus trará com ele, isto é, com Jesus, impassíveis, imortais, na glória.

Destrói a falsa opinião de alguns que diziam que os corpos ainda íntegros naquele dia poderiam ressurgir, mas os que estivessem dissolvidos em cinzas nunca ressurgiriam, dizendo: verdadeiramente os que dormiram serão trazidos com Jesus; pois isto vos dizemos na palavra do Senhor; Deus, com efeito, no-lo revelou; que nós, os que vivemos na vinda do Senhor, e que ficamos tantos males — põe-se como futuro no último dia, porque a perseguição dos Apóstolos e dos fiéis sob o Anticristo vindouros será comparada com semelhante dificuldade; donde o mesmo diz noutro lugar: Nós somos «aqueles para quem chegaram os fins dos séculos» (1Cor 10,11) —; nós, digo, que ficamos até a vinda do Senhor, não precederemos na ressurreição os que dormiram, os que antes de nós dormiram, como Abraão e os demais. Neste versículo fez ambas as coisas: aprovou a verdade da ressurreição de todos, e mostrou que a ressurreição daqueles de quem duvidavam será antes. Aqui, contudo, deve-se notar que só aprova a ressurreição dos justos.

Verdadeiramente nós, os que ficamos, não precederemos os primeiros; porque o próprio Senhor Cristo descerá do céu à voz de comando, isto é, com império, ele que outrora desceu em obediência e humildade; descerá também à voz do Arcanjo — quer este Arcanjo signifique Cristo, que soará com a própria voz, quer outro Anjo determinado; não temos quem dará aquela voz à qual ressurgirão os mortos —; à voz do Arcanjo e ao som da trombeta de Deus; aquela voz, com efeito, será como trombeta, que excita os seus e aterra os adversários; assim aquela voz convidará os santos à palma, aterrará os ímpios para a pena. Assim, digo, Jesus descerá; e então os mortos que estão em Cristo, que já há muito estão em Cristo, como Abraão e os demais, ressuscitarão primeiro; e depois, depois deles, nós, os que vivemos naquele tempo, e que ficamos de tantas perseguições do Anticristo, seremos arrebatados juntamente com eles primeiros nas nuvens; as nuvens, com efeito, nos levarão ao encontro do Senhor nos ares, onde julgará a todos; e dali estaremos sempre com o Senhor, nós os eleitos; estaremos, digo, assim, isto é, com os corpos retomados na incorrupção. E porque por estas palavras vos foi aprovada a verdade da ressurreição, consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras, isto é, um ao outro, dizendo: verdadeiramente ressurgiremos impassíveis; estaremos com o Senhor, etc.

Capítulo 5

Quanto aos tempos e momentos, irmãos, não precisais que vos escrevamos. Vós mesmos, com efeito, sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como ladrão de noite. Quando disserem: Paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina ruína, como as dores à mulher grávida, e não escaparão. Vós, porém, irmãos, não estais nas trevas, para que aquele dia vos surpreenda como ladrão; pois todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas. Portanto, não durmamos como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios. Pois os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestidos da couraça da fé e da caridade, e tendo por capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele. Por isso, consolai-vos uns aos outros e edificai-vos mutuamente, como também fazeis. Rogamo-vos, porém, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e vos presidem no Senhor, e vos admoestam, e que tenhais por eles mais abundante caridade, por causa da sua obra; tende paz com eles. Rogamo-vos também, irmãos: repreendei os inquietos, consolai os pusilânimes, amparai os fracos, sede pacientes para com todos. Vede que ninguém pague a alguém mal por mal; mas procurai sempre o que é bom, uns para com os outros e para com todos. Alegrai-vos sempre; orai sem cessar; em tudo dai graças; pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus a respeito de todos vós. Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias; examinai tudo; retende o que é bom. Abstende-vos de toda espécie de mal. O próprio Deus da paz vos santifique em tudo, e seja conservado íntegro e irrepreensível o vosso espírito, a vossa alma e o vosso corpo, para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que vos chamou, o qual também o fará. Irmãos, orai por nós. Saudai a todos os irmãos com o ósculo santo. Conjuro-vos pelo Senhor que esta Epístola seja lida a todos os santos irmãos. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco. Amém.

Comentário

Depois de ter provado bastante claramente a ressurreição dos corpos, acrescenta sobre aquele último dia, que será aos justos para a glória, aos ímpios para a pena, para que, pelo terror daquele dia, os que estavam no pecado de fornicação, curiosidade e ócio voltem a si; pelo desejo da glória futura se insiram na conformidade dos bons. A letra liga-se assim: sobre a ressurreição dos mortos, porque ignoráveis, escrevemos-vos; mas sobre os tempos futuros até o dia do juízo, isto é, quantos tempos, sejam cem ou mil anos, haverá até o dia do juízo, ou então, sobre os tempos, isto é, se no verão ou no inverno, se de dia ou de noite será o juízo; e os momentos, isto é, em que hora do dia ou da noite, do verão ou do inverno; sobre estas coisas, irmãos, não precisais que vos escrevamos. Por isso não precisais, porque vós mesmos sabeis muito bem, isto é, por diligente investigação das Escrituras, o que nós dali sabemos, isto é, que o dia do Senhor virá assim como ladrão de noite. Não diz "dia" por saber determinadamente que o juízo será de dia, mas porque então, naquele juízo, todas as coisas serão como no dia, isto é, em aberta manifestação, as que antes estavam ocultas. Diz que este dia é do Senhor porque então tudo começará a fazer-se por vontade e império do Senhor; agora, porém, no mundo muitas coisas se fazem não por vontade de Deus, mas por permissão. O dia, digo, do Senhor virá assim, como ladrão, para ser mais oculto, vindo de noite: o ladrão, se vier de dia, mais facilmente podemos precaver-nos dele, mas, se de noite, a própria noite, prestando oportunidade, ajuda a iniquidade do ladrão. Por isso se diz que aquele dia virá como ladrão de noite, porque, assim como qualquer rico, à tarde cercado de muita opulência, interceptado de noite por um ladrão, no dia seguinte se acha nu, assim aqueles que nos pecados negligenciam precaver-se daquele dia, ricos tarde nas coisas mundanas, no dia seguinte, tirados do mundo, serão achados nus, perdidas as temporais, e entregues aos incêndios eternos. Aqui se entende sobretudo o dia do Senhor como dia do juízo; este dia do Senhor, contudo, começa na morte de cada um. Deve-se notar também que aquele dia aos ímpios, que não querem precaver-se, virá como ladrão de noite; aos justos, porém, sempre vigilantes, a qualquer hora que venha, não vem como ladrão, porque antes então serão aumentados do que em algo diminuídos.

Verdadeiramente virá assim como ladrão, porque quando aqueles amantes do mundo disserem: Paz nos é nas coisas presentes e segurança quanto ao futuro, então lhes sobrevirá repentina ruína, isto é, imprevista condenação; repentina, digo, como as dores à mulher grávida sobrevêm repentinas. Não determina o que tem no ventre, mas se entende bastante que isto foi dito da mulher grávida; e comparou-a à dor da grávida por ambas as razões, e porque aquela dor é súbita, nem a grávida sabe determinar a si hora certa, mas onde quer que seja surpreendida, pare, e pela maior angústia dessa dor; assim naquele dia tanto virá imprevista a ruína, como plena de toda angústia. Para que esta ruína não parecesse transitória como a dor da grávida, acrescenta: sobrevirá, sim, a ruína, e não escaparão os ímpios àquela ruína, perdurando sempre nela.

Porque agora os atemorizou com tanta aspereza de palavras, nas passagens seguintes os afaga, dizendo que não são aqueles a quem esta ruína deva sobrevir: os ímpios, sim, não escaparão da repentina ruína; mas vós, irmãos, não estais nas trevas, isto é, na ignorância e obscuridade do pecado, para que aquele dia vos surpreenda como ladrão: surpreenderia se os achasse impenitentes nos pecados. Verdadeiramente não estais nas trevas; pois todos vós sois filhos da luz, isto é, gerados na luz da fé, e sois filhos do dia, isto é, gerados nas boas obras; porque, assim como a luz precede, o dia segue, assim a fé é primeira, as obras boas seguem. Sois filhos da luz, e não filhos das trevas, isto é, da ignorância, e não filhos da noite, isto é, da densidade dos pecados; assim como, com efeito, as trevas precedem a noite, assim primeiro a ignorância da verdade, e pela ignorância chega-se à densidade do pecado. E porque somos filhos da luz e do dia, não da noite e das trevas, portanto não durmamos, isto é, não sejamos torpes, como os demais, isto é, os infiéis e também os falsos fiéis, mas vigiemos, isto é, sejamos zelosos em operar o bem, e sejamos sóbrios, isto é, não embriagados do amor das coisas temporais.

Devemos vigiar e ser sóbrios, porque os que dormem, isto é, entorpecem, dormem de noite, isto é, por causa da noite, isto é, da densidade dos pecados em que estão; e os que se embriagam do amor das coisas temporais, esquecidos das celestes, estes embriagam-se de noite, isto é, por causa da noite, isto é (como se disse) da densidade dos pecados. Os que se embriagam, de noite se embriagam; mas nós, que somos não da noite, mas do dia, sejamos sóbrios, isto é, não cegados pelo amor das coisas temporais; sejamos, digo, sóbrios, revestidos da couraça da fé — e bem comparou a fé à couraça, porque, assim como na couraça muitos anéis estão encadeados em um, assim na fé muitas coisas são necessárias para crer, encadeadas, contudo, na mesma unidade —; revestidos também da couraça da caridade, com que amamos a Deus e o próximo, sejamos seguros e bem protegidos pela fé e pela caridade contra todo ímpeto dos inimigos; e tendo por capacete, isto é, a esperança da salvação futura, para que, assim como o capacete protege a cabeça, assim a nossa mente seja envolvida pela esperança da bem-aventurança futura; devemos esperar a salvação, porque Deus não nos destinou para a ira, isto é, para a perdição, mas nos destinou, nas coisas ditas, fé, caridade e esperança, para a aquisição da salvação, isto é, para que por isso adquiramos a salvação perpétua; salvação, digo, a ter por nosso Senhor Jesus Cristo. Põe o mérito de Cristo, com que nos mereceu esta salvação, dizendo: Cristo, que morreu por nós, para que vivamos juntamente com ele na glória eterna, quer vigiemos, isto é, quer vivos sejamos achados na vinda de Cristo, quer durmamos, isto é, quer mortos sejamos achados. Por isso, isto é, porque nos deu fé, caridade e esperança para a aquisição da salvação, consolai-vos uns aos outros, aos que sabem estas coisas, e edificai-vos mutuamente, aos que as ignoram, como creio que também fazeis.

Depois de ter bastante louvado a parte dos perfeitos pela fé e pelo bem da fé, e de ter admoestado a outra parte quanto à correção, edifica daqui em diante alternadamente súditos e prelados, como os súditos devam acomodar-se aos prelados, e vice-versa, dizendo: admoesto os bons a trabalhar pelo incremento, os errantes a desviar-se dos pecados; vós, porém, irmãos, que sois súditos, rogamo-vos que reconheçais os que trabalham entre vós, isto é, os prelados, que jejuando, orando e ensinando trabalham pela vossa salvação; diz "reconheçais" para que naquilo de que necessitam lhes ministreis; que trabalham, digo, e vos presidem no Senhor, que assim dispõe, e vos admoestam para o melhor; não só que os reconheçais, mas que os tenhais com mais abundante caridade do que costumais. E tende paz, isto é, concórdia, com eles, se vos repreendem mais acremente, por causa da sua obra, isto é, sabendo que assim exige a obra do seu ministério, que a vós, desviados, compelem ao caminho da justiça.

Aos súditos assim rogamos; vós, porém, irmãos, que sois prelados, rogamos isto: repreendei com correção mais áspera os inquietos, isto é, os curiosos que vagam pela cidade, consolai os pusilânimes, que têm pequeno ânimo na paixão das tribulações, ou então, pusilânimes, isto é, tendo pequena confiança na misericórdia de Deus, desesperados pela enormidade dos crimes; amparai os fracos, isto é, os que são de fraca fé, desesperados da ressurreição, amparai-os para sanar a enfermidade da fé, como o médico acolhe o doente; e sede pacientes para com todos, tanto para com os inquietos como para com os pusilânimes e os fracos, para que, se contradizem, não levantais por isso as mãos ao litígio. Dir-me-iam: toleramo-los, sim, mas não os ensinaremos mais. A isto Paulo: sede pacientes, e ao sofrer vede que ninguém pague a alguém mal por mal, calando a palavra de instrução, ainda que antes ouvida impacientemente, mas procurai sempre o que é bom, isto é, útil para a instrução da Igreja; procurai, digo, uns para com os outros, isto é, entre vós na Igreja, e também passando para com todos, ensinando também os infiéis. E sempre, quer seja preciso sofrer, quer não, alegrai-vos; e orai sem cessar, sem interrupção de horas determinadas, para que não negligencieis os tempos certos de oração; ou então, orai sem cessar, para que, quer durmais, quer vigieis, sempre oreis: e, segundo esta sentença, dizem os santos que está sempre em oração quem em nada ofende, mas, quer vigie, quer durma, sempre anseia por Cristo. E em tudo, quaisquer coisas que façais ou digais, dai graças a Deus, quer as adversidades incumbam, quer as prosperidades vos afaguem. Orai e dai graças, porque esta é a vontade de Deus a respeito de todos vós: que todos oreis e deis graças; é, digo, em Cristo Jesus, isto é, na instituição de Cristo Jesus; e, sendo instituição e vontade de Deus, convém orar, dar graças.

O que ali diz, "alegrai-vos sempre", etc., diz respeito aos prelados e aos súditos: alegrai-vos e orai todos; vós, porém, prelados, não extingais o Espírito, de modo a ocultar aos súditos o que o Espírito Santo tiver ministrado; e vós, súditos, não desprezeis as profecias, isto é, as revelações das Escrituras, feitas a vós pelos prelados. E, embora diga "não desprezeis", contudo examinai tudo, isto é, considerai primeiro provadamente, para que pela mistura de falsidade não sejais enganados; e, depois de provardes, retende o que é bom, isto é, útil; e abstende-vos não só do que é mau, mas também de toda espécie de mal, isto é, do que retém alguma imagem de mal, ainda que mal [não] seja. Por isso disse sobretudo "de espécie de mal", porque aqueles hereges tomavam emprestadas vozes da fé, para, por equivalências de palavras, levar os simples ao erro.

Vós, prelados e súditos, fazei o que podeis; o próprio Deus da paz leve a termo em vós aquilo em que desfaleceis, a saber, vos santifique em tudo; e na santificação por ele dada vos conserve perseverantemente; o que diz assim: santifique-vos, e seja conservado íntegro, isto é, não corrompido por alguma peste, o vosso espírito, isto é, a vossa razão, para que não queira consentir à sensualidade, e a alma, isto é, a sensualidade, para que não persuada mal à razão; e o corpo seja conservado irrepreensível, para que não se polua pela obra de qualquer torpeza; seja conservado, digo, para (isto é, até) a vinda, ou então, na vinda, isto é, na consideração da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Orai, e fazei o mais que segue, porque fiel é Deus, que vos chamou por graça, o qual também o fará, isto é, consumará em vós aquilo para que fostes chamados. Nós assim trabalhamos por vós, e vós, irmãos, orai por nós; e saudai a todos os irmãos por nossa dileção com o ósculo santo, para que um beije o outro.