Primeira Epístola aos Coríntios

Prólogo

Paulo havia pregado aos coríntios e os convertera à fé; permaneceu entre eles, como cremos, por um ano e meio, vendo que por muito tempo e em muitas coisas se devia aconselhar os coríntios, porque aderiam demasiadamente à carnalidade. Enquanto Paulo esteve presente, aderiram com simplicidade aos preceitos dele, a quem ele pregara simplesmente, como a gente simples, sabendo que os mistérios da fé, se lhes fossem revelados, antes prejudicariam do que aproveitariam à carnalidade deles; e por isso julgou melhor que a simplicidade deles fosse cultivada em coisas simples do que corrompida na altura dos mistérios de Deus, dos quais antes hesitariam do que creriam. Mas, tendo Paulo partido de Corinto, introduziram-se entre eles falsos doutores, que inverteram a boa simplicidade da doutrina anterior; doutrina que, por versar sobre razões mundanas, que contradiziam inteiramente a doutrina espiritual, começou a atrair mais e a levar os coríntios a darem-lhe crédito, porque aderiam mais ao mundo do que a Deus, e a destruir neles, pela astúcia da razão humana, o que Paulo edificara seguindo a simplicidade da fé. Os coríntios, porém, desviando-se da instrução de Paulo, precipitaram-se em muitos erros: julgaram que os méritos dos que batizam aproveitam aos batizados tanto mais quanto maiores forem, e prejudicam se forem menores; e deste modo atribuíam ao homem o que era só de Deus, a saber, perdoar os pecados. Daí acontecia que quem fora batizado por um mais digno julgava menos digno quem fora batizado por um menos digno: nisto, certamente, derrogando a Deus. Erravam também porque distinguiam pouco o Corpo do Senhor dos outros alimentos. De novo, porque os homens oravam com a cabeça coberta, e as mulheres com a cabeça descoberta. Havia ainda outro erro: não criam, como Paulo pregara, na ressurreição futura. Eram acusados também porque se ouvia entre eles falar de fornicação, que nem os gentios toleravam; um deles, com efeito, tomara por esposa a sua madrasta; a quem nem corrigindo haviam emendado, nem interditado a participação na Igreja a tão criminoso; mas por uma paciência ilícita pareciam consentir neste incesto. Conhecidos estes erros, Paulo, por meio de Sóstenes, que lhe fora enviado com uma carta pelos irmãos de Cloé, lugar que se contava na arquidiocese dos coríntios, escreveu-lhes esta Epístola, na qual trata dos coríntios que erravam: enumerando os erros deles e reprovando-os com razões adequadas, com a intenção de os afastar desses vícios.

Capítulo 1

Paulo, chamado a ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, em todo lugar deles e nosso. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças sempre ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus, porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado em vós; de modo que nenhuma graça vos falta, enquanto aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, irrepreensíveis, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais a mesma coisa e que não haja entre vós divisões, mas que sejais perfeitos no mesmo pensar e no mesmo parecer. Foi-me comunicado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Digo isto porque cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus porque a ninguém de vós batizei, exceto Crispo e Gaio, para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; quanto ao mais, não sei se batizei algum outro de vós. Pois Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; não com sabedoria de palavra, para que não se esvazie a Cruz de Cristo. Pois a palavra da Cruz é loucura para os que perecem; para os que se salvam, isto é, para nós, é poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e rejeitarei a prudência dos prudentes (Is 29,14). Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século? Não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Pois, como o mundo, na sabedoria de Deus, não conheceu a Deus pela sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado: escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os mesmos chamados, judeus e gregos, Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus; porque o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Considerai, irmãos, a vossa vocação: não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas Deus escolheu o que é loucura no mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir os fortes; e Deus escolheu o que é vil e desprezível no mundo, e o que não é, para destruir o que é; para que nenhuma carne se glorie diante dele. Dele é que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Quem se gloria, glorie-se no Senhor (Jr 9,23-24).

Comentário

Paulo, etc. Porque era preciso autoridade para reprimir a soberba dos coríntios, põe o nome da autoridade, dizendo: Paulo, nome que é certamente conhecido em toda parte; Paulo, digo, chamado por Deus, isto é, constituído Apóstolo por vocação divina; ou então, chamado por todos, porque já todos sabem que é Apóstolo; Apóstolo, digo, isto é, enviado de Jesus Cristo, isto é, não se intrometendo presunçosamente como os falsos apóstolos, mas enviado de Cristo Jesus; e não enviado por Cristo por oportunidade de exercer a ira, como Saul, mas pela vontade, isto é, pelo beneplácito de Deus: Paulo certamente, e com ele o irmão Sóstenes — não porque Sóstenes tenha escrito algo nesta Epístola, mas para que Paulo mostre por isso que conhece todos os erros, porque quem era deles e convivia entre eles lhos havia anunciado; também para mostrar que Sóstenes lhe anunciou os erros deles, não com ânimo mau contra eles, mas por desejo da correção deles — Paulo, digo, e o irmão Sóstenes escrevem à Igreja de Deus que está em Corinto; à Igreja, digo, aos santificados, isto é, justificados dos pecados no batismo, e tudo isto em Cristo Jesus, não pelo mérito dos que batizam. Como "Igreja" é nome coletivo, junta-se com bastante conveniência ao plural, de modo que digamos: à Igreja, aos santificados; e não só santificados por Cristo, mas pela graça do mesmo, chamados santos, isto é, para serem santificados, de modo que o lavacro e a santificação se atribuam à vocação, e a própria santificação se reconheça como vinda de Deus, e se exclua todo mérito do batizado e do batizante. Paulo escreve à Igreja dos coríntios com todos, isto é, e a todas as Igrejas retidas nos mesmos erros; a todos, digo, os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, naquele que invocam, confessam ser o único que justifica. Não a todas as Igrejas, digo, do mundo, mas às que estão em todo lugar deles, dos próprios coríntios, isto é, a toda Igreja sujeita à metrópole dos coríntios e caída no mesmo erro; Igrejas que, embora sejam lugar dos próprios coríntios, porque lhes são antepostas, são também nosso lugar, porque as sujeito aos coríntios de modo, contudo, a exercer sempre sobre elas a minha providência, como sobre os coríntios. Paulo diz isto para que os coríntios não dissessem: de nós apenas tens de julgar, e não dos súditos. Costume cuja regra ainda hoje se mantém, porque o Sumo Pontífice, embora tenha sujeitado Igrejas a Igrejas, examina, contudo, o erro de todas, mas por direito mediante os metropolitas.

Paulo e Sóstenes escrevem isto aos coríntios: Graça e paz a vós. Como entre os coríntios havia alguns que haviam guardado íntegra a graça que lhes fora dada no batismo, obrando bem, para os quais não se devia desejar o perdão, que já haviam recebido e firmemente conservado; e outros entre eles que, errando, haviam aniquilado a graça recebida, e para estes era necessário repetir o perdão; por esta diversidade de perfeitos e imperfeitos, deve-se desejar esta graça de modo diverso, de maneira que se diga: a vós, que pecastes de novo, seja dada segunda graça, isto é, sejam perdoados de novo os pecados; a vós, porém, que não tornastes vã, pecando, a justificação recebida, seja graça, isto é, a guarda perseverante da justificação recebida. Assim da paz: aos pecadores seja restituída a paz do ânimo; aos que não pecam persevere a tranquilidade do ânimo. Graça, digo, e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, de quem só crede que vem toda justificação, excluído todo mérito do que batiza.

Porque entre os coríntios havia alguns que perseveravam na doutrina de Paulo, não comungando no erro dos outros, fala primeiro separadamente a estes, para que, ouvindo que o seu bem é de tanta autoridade para o Apóstolo, se animem mais ao bem; e também para que por isso se empenhem mais na correção dos irmãos que erram, e para que os que erram obedeçam a estes sem reclamação, quando ouvirem que a perfeição deles é de tanto peso para o Apóstolo. Por isso diz: Dou graças ao meu Deus, isto é, a quem faço meu, não detraindo dele como os falsos apóstolos, que dizem que os méritos do que batiza prejudicam ou aproveitam aos batizados; dou graças ao meu Deus por vós sempre, isto é, em toda a minha oração; dou, digo, graças pela graça, isto é, na consideração da graça de Deus que persevera em vós; graça que vos foi dada em Cristo Jesus, isto é, por Cristo Jesus, que ministra esta graça ao homem reconciliado com Deus. Disto, certamente, dou graças; porque (isto é, que) fostes enriquecidos em tudo, porque tendes copiosamente tanto cada graça como todas; fostes enriquecidos, digo, nele, isto é, por Cristo, cuja misericórdia sozinha dá a graça; em tudo, digo, a saber, em toda palavra, isto é, em toda doutrina dos espirituais, dos medianos e dos simples; enriquecidos também em todo conhecimento literal, moral e alegórico: assim enriquecidos em tudo, assim como o testemunho de Cristo, isto é, a doutrina sobre Cristo atestada a vós pelas Escrituras; assim como, digo, este testemunho foi confirmado, isto é, persevera firmemente em vós. Pois na medida em que mantivestes firme a fé de Cristo, nessa medida Deus vos enriqueceu com as suas graças; confirmação cuja causa e semelhança foi a vossa.

Assim, pois, o testemunho de Cristo foi confirmado em vós, de modo que nenhuma graça vos falta, isto é, que mantendes toda graça com tanta firmeza quanta vos foi transmitida; a vós, digo, que aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, em razão da segurança que tendes pela justificação conservada, aguardais seguros o dia da vossa dissolução, em que ele se revelará a vós. Enquanto vivemos, com efeito, a nossa alma, cercada de carne, não pode contemplar a essência divina, que contemplará mais plenamente quando for libertada do peso da carne. Esta revelação, quem obra bem aguarda-a seguro; quem, porém, obra mal, antes parece fugir dela do que aguardá-la. Vós aguardais certamente a Cristo, que, assim como vos confirmou no passado, assim também vos confirmará continuamente até o fim, isto é, até o dia da vossa dissolução; e não digo que vos confirmará de modo que possais abster-vos dos veniais, mas vos confirmará irrepreensíveis, isto é, feitos imunes dos capitais; até o fim, digo, a saber, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, que vem a cada justo na dissolução, recebendo a sua alma para a levar. Por isso determinou assim "irrepreensíveis", para que, se por acaso os vissem cair nos veniais, não insultassem e dissessem: eis que agora aparece a justiça daqueles a quem Paulo estimava tanto: na verdade confirmará daqui em diante; pois prometeu, dizendo: «Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos» (Mt 28,20). Deus, que prometeu, é fiel, e não pode mentir; por isso confio que vos confirmará; confio também porque por ele fostes chamados; se, estando vós no pecado, vos chamou por misericórdia, deve-se crer que, já justificados e já merecendo, vos confirmará daqui em diante: por Deus, certamente, fostes chamados à comunhão de seu Filho, isto é, para que, segundo o vosso modo, permaneçais na justiça com seu Filho; e não digo Filho adotivo, mas Jesus Cristo, nosso Senhor, próprio e consubstancial.

Depois de ter corroborado os perfeitos no seu bem, volta o discurso aos que pecaram nas coisas ditas, dizendo: a vós perfeitos louvo pela confirmação, mas a vós que errais rogo, isto é, conjuro com toda constrição, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo; a quem, contudo, chamo irmãos, embora tenhais errado (chama-os irmãos para que, se não os chamasse irmãos, não desesperassem pelo excesso do pecado); rogo-vos, digo, que todos digais a mesma coisa, isto é, que todos confesseis que só Deus pode perdoar os pecados; e, dizendo isto, não haja entre vós divisões, isto é, algum cisma de infidelidade. Não haja divisões, mas sejais perfeitos no mesmo pensar, isto é, na mesma vontade, e no mesmo parecer, isto é, no mesmo saber, de modo que queirais e saibais o mesmo: há, com efeito, os que querem o mesmo e, contudo, não sabem o mesmo; há outros cuja vontade é diversa e, no entanto, é o mesmo o saber. Por isso assim vos rogo, porque foi-me comunicado a vosso respeito, por cartas, meus irmãos (o que repete pela causa dita), pelos da casa de Cloé, certamente, que há contendas entre vós, isto é, que um contende contra o outro. Cloé é nome de um lugar na arquidiocese dos coríntios, de onde esta contenda lhe havia sido comunicada por Sóstenes; nome que aqui põe para que os coríntios não queiram dissimular o seu erro, sabendo que Paulo o soube pelos mesmos que convivem entre eles.

Não só sei que contendeis, mas também as palavras da própria contenda; digo isto porque cada um de vós diz, preferindo-se por seu batizador, um contra o outro; isto certamente diz: eu, na verdade, fui distinguido por justiça muito maior que aquele, que teve um batizador inferior; eu sou de Paulo; eu, de Apolo (que era arcebispo dos coríntios); eu, de Cefas, isto é, de Pedro. Não põe estes nomes porque se gloriassem deles, já que nem tinham visto Pedro, mas porque, se repusesse os nomes daqueles falsos apóstolos de quem se gloriavam, diriam: Paulo, porque tem inveja destes, não quer que nos gloriemos nos nomes deles, mas julgaria bom que nos gloriássemos no seu nome e no dos seus companheiros. Para remover isto, Paulo pôs o seu nome e o de Pedro, mostrando que não queria que se gloriassem em seu nome; e, se não no nome de Paulo, muito menos devem gloriar-se nos falsos doutores. Os infiéis dizem isto: eu sou de Paulo, eu de Cefas; o fiel, porém, diz: eu sou de Cristo, cuja graça sozinha justifica. E porque este diz ser de Paulo, aquele de outro, está Cristo dividido?, e já não é um só, mas muitos são os Cristos; cada um, com efeito, faz de seu batizador um Cristo, ao atribuir-lhe o perdão dos pecados, que é só de Cristo. Ou então: Cristo está dividido, porque dá divisamente os dons de sua graça, justificando menos por este, mais por aquele. Ou então: porque errais dizendo assim, por isso Cristo está dividido, isto é, separado de vós. Vós dividis Cristo, fazendo cada um o seu Cristo, ou crendo que Cristo dá a graça divisamente; mas porventura Paulo — a quem alguns de vós fazem seu Cristo, ou por cujo mérito credes que Cristo dá melhor a um do que a outro — porventura Paulo foi crucificado por vós? Isto certamente não podeis negar, porque fostes redimidos por Cristo, a quem Paulo não tocou. Ou fostes batizados em nome de Paulo? Se atendêsseis diligentemente às palavras do batismo, nas quais confessais só a Deus, entenderíeis que toda justificação vem de Deus.

E visto que este bem do batismo se faz mal para vós que errais, porque eu não fiz este bem, dou graças a Deus meu porque a ninguém de vós batizei, exceto Crispo e Gaio. Por isso não quero ter batizado alguns, para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Com Crispo e Gaio, batizei também a casa, isto é, a família de Estéfanas. Destes me lembro; mas não sei se batizei algum outro. Por isso batizei tão poucos, porque Cristo não me enviou para batizar. Nisto muito humilha o ministério de batizar, quando diz que não foi enviado para isso, que também podem fazer quaisquer infiéis, se a necessidade o exigir; ministério em que, contudo, os coríntios se preferiam reciprocamente uns aos outros. Diz aqui que o sacramento da Igreja foi concedido, em tempo de necessidade, até ao infiel, porque é aquele sem o qual ninguém pode ser salvo; mas os outros sacramentos foram confiados só aos ministros, porque, embora aproveitem à salvação, não são, contudo, aqueles sem os quais o homem não possa salvar-se; porque só a fé do batismo, se conservada íntegra, basta para a salvação.

Aqui termina a questão do batismo e começa o discurso sobre a sua pregação, dizendo: Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; enviou-me, sim, para pregar, não com sabedoria de palavra, isto é, não com a verbosa sabedoria do mundo; e isto para que não se esvazie a Cruz de Cristo. Se eu seguisse as razões da sabedoria humana, que destroem inteiramente que o imortal possa morrer e que o morto possa viver de novo, comprovar-se-ia plenamente que Cristo não provou a morte da Cruz, e assim se destruiria o preço de toda a salvação: por isso não fui enviado com a verbosa sabedoria do mundo, segundo cujas razões a Cruz de Cristo pode facilmente ser esvaziada.

Na verdade, se eu seguisse a sabedoria do mundo, esvaziar-se-ia a Cruz de Cristo; pois a palavra, isto é, a pregação da Cruz, para os que perecem, isto é, os sábios do mundo, que se dizem perecentes porque a sabedoria deles logo perecerá e será destruída, ou porque por causa dessa sabedoria perecerão e serão condenados; a palavra da Cruz é certamente loucura para os sábios deste mundo, porque a razão humana não obriga ninguém a crer que Cristo, que era imortal por natureza, pôde morrer e, morto, viver de novo. Para os que perecem é loucura; mas para os que se salvam, isto é, para nós, que nos afastamos da verbosa sabedoria, para nós, certamente, a palavra da Cruz é poder de Deus; considerando, com efeito, que por tão grande fraqueza (como pela morte) foi vencido o antigo inimigo, cuja força prevalecera sobre todo o gênero humano, admiramos mais nisto o poder de Deus, em que destruiu a fortaleza pela fraqueza, do que se extinguisse um poder menor por uma fortaleza manifesta.

Na verdade Deus não me teria enviado com sabedoria de palavra; assim está escrito em Abdias: Destruirei (diz o Senhor) a sabedoria dos sábios (cf. Ab 8), seja porque a destruirei, seja porque os condenarei, porque aderiram à sabedoria humana. E não só a sabedoria destruirei, mas também rejeitarei a prudência dos prudentes, isto é, a previdência com que astutamente sabem premunir as suas sentenças, para que não sejam quebradas por alguma impugnação; alguns, com efeito, têm a sabedoria da arte, que, contudo, não sabem premunir-se bastante contra as capciosidades de quem objeta; essa prudência certamente rejeitarei, porque a nenhum dos prudentes deste mundo assumirei no ministério da minha pregação.

Ou liga-se onde diz para os que perecem: na verdade perecem; pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios. E na verdade tais prudentes foram reprovados (estas são palavras do Apóstolo); pois onde está o sábio?, isto é, o lógico que confia em sua argumentação? E onde o escriba?, isto é, o ético que trata dos costumes? E onde o inquiridor deste século?, isto é, o físico que investiga a natureza de todas as coisas? Se o lógico disser: se pariu, coabitou com homem, mente; porque Maria concebeu sem coito viril do Espírito Santo. Se o ético ensinar sobre os costumes e o culto dos ídolos, é repelido; porque novos costumes, novo culto foi introduzido. Se de novo o físico disser que repugna à natureza que uma virgem dê à luz e que um morto viva, é réu de mentira.

Visto que o sábio, o escriba e o físico são repelidos, não é por isso manifesto que Deus tornou louca, isto é, comprovou ser louca, a sabedoria deste mundo? Deus repele a sabedoria deste mundo; pois assim lhe aprouve. E, quando ouvires que isto agrada a Deus, não perguntes a causa disto. Aprouve certamente a Deus salvar pela loucura da pregação, isto é, tanto pela coisa louca pregada quanto pelos loucos pregadores, os que creem nele. Por isso lhe aprouve salvar os que creem pela loucura, porque o mundo, isto é, os homens do mundo, não conheceu a Deus pela sabedoria carnal.

Se alguns filósofos entenderam que há um só Deus, que criou todas as coisas, não o conheceram, contudo, na sabedoria de Deus, isto é, a ponto de entender o desígnio de Deus, com que ordem dispunha salvar o homem perdido pela Encarnação do Verbo, e o mais. Ou assim: o fato de o mundo não ter conhecido a Deus pela sua sabedoria isto foi na sabedoria de Deus, isto é, assim aprouve à sabedoria de Deus, de não misturar a sua com a mundana.

Na verdade salvou pela loucura os que creem; pois tanto a coisa pregada foi louca quanto os pregadores foram loucos: na verdade pela coisa louca pregada; pois os judeus, que já tinham conhecido a Deus por sinais, como no Egito, pedem ainda sinais para comprovar ser verdadeiro o que se prega de Cristo; e os gregos, isto é, os gentios, que ignoram a Deus, buscam sabedoria, isto é, querem que se lhes aprove por razões mundanas o que se diz de Cristo; nós, porém, para satisfazer aos judeus, pregamos Cristo, poder de Deus, porque os judeus exigem o poder dos milagres; aos gregos, que buscam sabedoria, pregamos que Cristo é sabedoria de Deus, o que, para uns e outros, judeus e gregos eleitos, é poder e sabedoria, mas para os reprovados é escândalo e loucura; e por isso dissemos que os que creem se salvam por uma coisa louca. Exponhamos agora a letra: na verdade Deus salva pela loucura os que creem; porque os judeus pedem sinais, eles que costumavam conhecer a Deus por milagres; e os gregos buscam a sabedoria mundana, porque não entendem outra; nós, porém, loucos, pregamos coisa louca, a saber, Cristo crucificado: escândalo para os judeus, porque se lhes censura que crucificaram o seu rei; loucura para os gentios, porque não sabem entender por que razão dizemos Deus aquele mesmo que dizemos ter morrido. Para os judeus e gregos reprovados é escândalo e loucura; mas para os mesmos chamados, isto é, eleitos por Deus, judeus e gregos, pregamos Cristo, poder de Deus; pois Deus não pôde operar milagre maior do que destruir a morte pela morte. Pregamos também Cristo sabedoria de Deus; porque não se pode achar maior sabedoria do que destruir a soberba pela humildade e a fortaleza pela fraqueza. Na verdade Cristo é a sabedoria de Deus; pois o que é loucura de Deus, segundo a estima dos homens, é mais sábio que os homens, ou porque os homens não podem alcançar tamanha sabedoria nem operar tão sabiamente. E na verdade Cristo é o poder de Deus; pois o que é fraqueza de Deus, segundo os carnais, é mais forte que os homens, ou porque não sabem entender este poder, ou porque nada podem fazer com tamanha fortaleza.

Ou de outro modo liga-se a letra acima assim: por isso o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria; porque os judeus pedem sinais e os gregos sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado: aos judeus não sinal, mas escândalo; aos gregos ou gentios não sabedoria, mas loucura. E porque na Cruz de Cristo o mundo não entende nem poder nem sabedoria, por isso não conheceu a Deus. E aí termina a sentença. Mas, embora a Cruz de Cristo seja escândalo e loucura para os judeus e gregos reprovados, para os mesmos judeus e gregos chamados, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. A letra seguinte não muda.

Provou em parte que pela loucura, pois pela coisa louca pregada, se salvam os que creem; prova agora a outra parte, a saber, que Deus salvou os que creem por meio de pregadores loucos, dizendo: na verdade Deus salvou pela loucura os que creem; considerai, com efeito, a vossa vocação, isto é, os vossos chamadores, por quem fostes chamados à fé; isto, digo, considerai deles: que não há muitos sábios, etc.; mas Deus escolheu o que é louco no ministério da vossa vocação. Ou liga-se assim ao imediato: na verdade o que é loucura e fraqueza de Deus é mais sábio e mais forte que os homens; pois considerai agora os vossos chamadores; achá-los-eis loucos e fracos. E segundo esta continuação, aquilo que precede, isto é, que o que é louco e fraco de Deus é mais sábio e mais forte que os homens, olha a comprovar que os pregadores foram loucos, como no precedente quis mostrar que a coisa pregada foi louca. No que segue nota-se também o efeito desta loucura e insensatez: considerai, digo, a vossa vocação, isto é, aqueles por quem fostes chamados, irmãos; porque entre eles não há muitos sábios segundo a carne, isto é, a sabedoria carnal; não há muitos poderosos segundo a carne; nem muitos nobres segundo a nobreza da carne. Dizem os santos que Paulo disse "não muitos" porque ele mesmo foi perfeito nas letras seculares, rico de bens terrenos, ilustre pela parentela romana.

Os vossos chamadores não foram nem sábios nem nobres, mas Deus escolheu o que é loucura no mundo, isto é, o que o mundo julga loucura, para confundir os sábios, isto é, para que Deus, por meio dessas coisas, envergonhe os sábios do mundo, vendo que não podem resistir com seus argumentos aos loucos pregadores de Deus. Escolheu também Deus o que é fraco no mundo, isto é, os que no mundo eram de nenhum poder, para confundir os fortes, isto é, para que por esses fracos envergonhe os poderosos do mundo. E o que é vil no mundo, isto é, os que de sua linhagem não podiam gloriar-se, e desprezível, isto é, aqueles em quem não havia reverência alguma pelas pessoas, estes escolheu Deus. E, para enumerar uma a uma, e o que não é, isto é, o que ao mundo parecia nada ser, isto escolheu Deus, para destruir o que é pelo que não é, isto é, o que parece ser bens do mundo. E tudo isso fez Deus assim para que nenhuma carne se glorie, isto é, para que convenha a toda carne não gloriar-se diante dele, a saber, porque, se os pregadores considerassem a sua abjeção, ou os gentios por eles convertidos, entenderiam que nada se deve a si mesmos, mas tudo à graça de Deus. Ou assim, para que não se torça: que nenhuma carne se glorie diante de Deus, isto é, considerando o poder de Deus e a sua fraqueza, nem o pregador nem os súditos atribuam algo aos mestres, mas tudo à graça de Deus.

Mas, embora os pregadores fossem loucos e fracos, vós, contudo, nada tivestes de menos por isso; sois, com efeito, feitos fiéis em Cristo Jesus. E, como aparece tanta fraqueza dos pregadores, vós, contudo, nada tendes de menos: consta por isso que tudo vem do próprio Deus e nada do mérito dos doutores. Aqui se considera otimamente o efeito da loucura e da fraqueza. Vós, digo, estais em Cristo Jesus, Cristo que se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, porque Deus, instruindo-nos por Cristo, fez-nos sábios nos ministérios de Deus; e, para nos fazer sábios, tornou-se para nós justiça, fazendo-nos viver na justiça das virtudes; para que vivêssemos na justiça, tornou-se para nós santificação, pois nos santificou perdoando os pecados; e, para santificar, tornou-se redenção, isto é, deu o preço de seu sangue, com que nos redimisse, para que, redimidos, nos santificasse, santificados nos confirmasse na justiça das virtudes e aos que permanecem na justiça desse a sabedoria. Tudo isto se tornou para nós, para que todo aquele que se gloria se glorie não em si mesmo ou nos doutores, mas em Deus; segundo o que está escrito em Jeremias: «Nisto se glorie o que se gloria: em saber e conhecer-me, porque eu sou o Senhor» (Jr 9,24).

Capítulo 2

Também eu, irmãos, quando fui ter convosco, não fui com sublimidade de palavra ou de sabedoria, anunciando-vos o testemunho de Cristo. Pois não julguei saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. E estive entre vós em fraqueza, temor e muito tremor; e a minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas na demonstração do espírito e do poder; para que a vossa fé não se apoie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Falamos, porém, uma sabedoria entre os perfeitos; sabedoria que não é deste século, nem dos príncipes deste século, que estão sendo destruídos; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, a que estava escondida, a que Deus predestinou antes dos séculos para a nossa glória, a que nenhum dos príncipes deste século conheceu; pois, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito: O que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem, o que Deus preparou para os que o amam (Is 64,4). A nós, porém, Deus o revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito perscruta tudo, até as profundezas de Deus. Pois, quem dos homens sabe o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está? Assim também ninguém conheceu o que é de Deus, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecermos as coisas que nos foram dadas por Deus; as quais também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas na doutrina do Espírito, comparando coisas espirituais com espirituais. O homem animal, porém, não percebe as coisas que são do Espírito de Deus; pois são loucura para ele, e não pode entendê-las, porque se examinam espiritualmente. O espiritual, porém, julga tudo, e ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois, quem conheceu o pensamento do Senhor, para o instruir? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo.

Comentário

Disse que os vossos chamadores foram loucos e desprezíveis; e, como eles, assim também eu mesmo, quando fui ter convosco, ó irmãos, não fui com sublimidade de palavra, isto é, esforçando-me por falar artificiosamente e por usar palavras gloriosas, o que, por insensatez, não deixei de fazer; nem com sublimidade de sabedoria, a ponto de vos pregar pela sabedoria mundana. Há, com efeito, alguns que têm sermões sublimes, mas não tanta sabedoria da arte; e há também alguns que sabem os preceitos da arte, mas não têm bastante artifício de linguagem. Eu, digo, não fui com sublimidade de palavra ou de sabedoria, anunciando-vos Cristo; e isto pelo testemunho, porque o que dizia de Cristo, mostrava assim testemunhado nos Profetas. Na verdade não preguei com sublimidade de palavra ou de sabedoria; pois não julguei saber coisa alguma entre vós, embora soubesse muitas, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado, segundo a loucura dos gentios e a fraqueza dos judeus. Não me antepus, com efeito, aos outros pregadores pela sabedoria do mundo que tinha, mas preguei a mesma loucura, isto é, a Cruz de Cristo, como eles.

Não fui com sublimidade de palavra e de sabedoria, nem tampouco com reverência da pessoa, mas estive entre vós em fraqueza, isto é, em muita tribulação; e por esta fraqueza estive em temor de Deus e em tremor do corpo. E, embora padecesse tudo isso, a minha palavra, que tinha em particular, e a minha pregação, feita em público, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, isto é, não me esforcei tanto por falar apropriadamente para persuadir; mas a minha pregação foi na demonstração do espírito, isto é, de modo que se comprovasse que o Espírito Santo falava por mim, e do poder, isto é, dos milagres de Deus; e por isso somente no espírito e no poder de Deus, para que a vossa fé, que vos ministrei, não se apoie na sabedoria dos homens, mas se firme no poder de Deus. E, embora eu julgasse nada saber entre vós, contudo falamos sabedoria, mas entre os perfeitos; a vós, porém, porque éreis imperfeitos, não pude falar.

Mas, embora não a falássemos a vós, temos, contudo, uma sabedoria, não carnal, mas espiritual, que é muito mais digna que a carnal a que aderis; o que diz assim: temos, sim, sabedoria, mas não a deste século, isto é, dos carnais; nem a dos príncipes deste século, isto é, ou dos filósofos, ou dos espíritos malignos que principam sobre os homens do mundo; os quais príncipes são destruídos, tanto segundo a doutrina quanto porque por causa da falsa doutrina são condenados. A sabedoria deste século não falamos, mas falamos a sabedoria de Deus, existente em mistério. Chama aqui sabedoria de Deus aquele desígnio com que Deus dispôs salvar o gênero humano pela Encarnação do Filho. Falamos esta sabedoria latente em mistério; e não de modo que quaisquer possam percebê-la, como o mistério do batismo e algumas outras coisas, mas a que estava escondida, e revelada a ninguém senão a poucos pelo Espírito Santo. Sabedoria que Deus predestinou antes dos séculos, isto é, Deus desde a eternidade preordenou que assim seria, para a nossa glória, isto é, de todos os fiéis, para que todos por ela tenhamos a glória eterna; ou então: para a nossa glória, isto é, dos pregadores que ministramos esta sabedoria. Era certamente conveniente que nós, que ministramos aos outros, entendêssemos mais copiosamente que os outros esta sabedoria; sabedoria que nenhum dos príncipes deste século, isto é, dos filósofos ou demônios, conheceu. Na verdade os príncipes não a conheceram; pois, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado — os diabos, que puseram no coração de Judas que o entregasse, ou nos corações dos judeus que crucificassem Jesus — nunca teriam crucificado certamente aquele que por esta crucificação soubessem ser o Senhor da glória. Se a tivessem conhecido, não o teriam crucificado; mas não conheceram, como está escrito em Isaías. Isto, digo, está escrito: O que o olho não viu (Is 64,4). O que é da letra de Paulo, e não de Isaías, que diz assim: o olho, isto é, o homem sensual, não viu por si, e o ouvido, isto é, o mesmo sensual, o que por si não pôde entender, não ouviu de outro que ensinasse; nem subiu ao coração, isto é, à própria razão do homem, isto é, que sabe humanamente; porque, se o homem entendesse, então certamente o que, não entendendo, crê vil, subiria nele e creria ser grande. Estas coisas, digo, nem viu nem ouviu, que, isto é, quão grandes e dignas Deus preparou para os que o amam. Ou então, aquele "que" lê-se como nome assim: está escrito aqui que aquilo que o olho não viu, etc., é o que Deus preparou para os que o amam. E é uma relação bastante boa.

Dir-se-ia: se isto não subiu ao coração do homem, como então tu o sabes? A isto Paulo: ninguém deste século o conheceu; mas a nós, que já nos despojamos do mundo, Deus o revelou pelo seu Espírito; o Espírito de Deus, com efeito, ensinou aquilo em que a sabedoria humana inteiramente falha. Deve-se crer certamente que Deus nos revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito perscruta tudo, não que Ele tenha algo ignorado que lhe seja necessário perscrutar, mas porque nos abre tudo o que deve ser investigado com máximo escrutínio. Abre-nos também as profundezas de Deus, isto é, o mais alto e o mais oculto da essência de Deus, como aquilo de como a Trindade permanece na unidade, e a unidade na Trindade.

Prova o que disse pelo menor e pelo semelhante, assim: na verdade o Espírito de Deus só pode perscrutar o que é de Deus; pois o espírito do homem só conhece o que está no próprio homem; e se só o espírito do homem conhece o que é desse homem, pelo semelhante e pelo maior consta que só o Espírito de Deus perscruta o que é de Deus. O que diz assim: o Espírito, digo, perscruta as profundezas de Deus; pois quem dos homens sabe o que é do homem, de outro, senão o espírito do mesmo homem, que nele está? Ninguém, certamente. E visto que ninguém conhece o que é do homem senão o espírito do mesmo, assim por razão semelhante ninguém conheceu o que é de Deus, senão o Espírito de Deus, que nos revelou a sabedoria de Deus.

Dissera que Deus lhe revelou pelo Espírito, mas ainda não dissera que eles receberam aquele Espírito; sobre o que acrescenta: não só Deus nos revelou pelo seu Espírito, mas também nós recebemos não o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para que por esse Espírito conheçamos os mistérios de Deus, as coisas que nos foram dadas por Deus pela graça; coisas que também falamos e manifestamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, apegando-nos a ela, mas as falamos na doutrina do Espírito, isto é, segundo o que dita e nos ensina o Espírito Santo. Nem a quaisquer falamos estes mistérios, mas só aos espirituais, nós, digo, comparando, isto é, pesando em justo exame coisas espirituais com espirituais; porque, se temos ouvinte espiritual, damos-lhe coisas espirituais; se carnal, calamos. O espiritual percebe as coisas espirituais; mas o homem animal, que só tem vigor de sensualidade como os demais animais, não de razão, este, digo, não percebe as coisas que são do Espírito de Deus. Por isso não percebe, porque são loucura para ele, isto é, porque o que o Espírito ensina, ele reputa loucura, aderindo à carnalidade; e porque lhe são loucura, por isso não pode entender as coisas do Espírito de Deus. O animal certamente não pode entender, porque se examinam, isto é, comprova-se a sua animalidade, e é convencido de sua impiedade espiritualmente, isto é, pelas coisas espirituais que lhe são concedidas; Deus, com efeito, dá a alguns certas graças, sabendo com certeza que não cooperarão com a graça; mas faz isto para que seja manifesta a justa condenação dos ímpios. Ou então, para que "examina-se" seja impessoal: o homem animal não percebe as coisas do Espírito, porque se examina, isto é, faz-se o exame e o conhecimento aprovado delas vivendo espiritualmente; os que vivem carnalmente, porém, não podem entender.

O animal não percebe; mas o espiritual julga tudo, isto é, discerne, escolhendo os bens, reprovando os males. E ele mesmo, o espiritual, não é julgado por ninguém animal; o carnal, com efeito, não consegue perceber a causa por que o espiritual escolhe isto e rejeita aquilo. Na verdade o espiritual não é julgado pelo carnal; pois o espiritual tem o pensamento de Cristo, que o carnal não pode conhecer; o que diz assim: quem, animal, conheceu o pensamento, isto é, a sabedoria do Senhor, a ponto de conhecer as suas disposições? Ou quem o instruirá sobre o que ele deve fazer, o que não deve fazer? O animal certamente não conheceu o pensamento do Senhor, mas nós, pelo Espírito que recebemos, temos o pensamento de Cristo, e por isso não podemos ser julgados por nenhum carnal.

Capítulo 3

Eu também, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais. Como a pequeninos em Cristo, dei-vos leite como bebida, não alimento sólido; pois ainda não o podíeis suportar; mas nem agora o podeis, porque ainda sois carnais. Pois, havendo entre vós inveja e contenda, não sois carnais e não andais segundo o homem? Quando alguém diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; não sois homens? Que é, pois, Apolo? E que é Paulo? Ministros daquele em quem crestes, e cada um conforme o Senhor lhe concedeu. Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega; mas Deus, que dá o crescimento. O que planta e o que rega são um. Cada um, porém, receberá o seu próprio salário, conforme o seu trabalho. Pois somos colaboradores de Deus; vós sois lavoura de Deus, edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, como sábio arquiteto lancei o fundamento; outro edifica por cima. Mas veja cada um como edifica sobre ele. Pois ninguém pode lançar outro fundamento além do que já foi posto, que é Jesus Cristo. Se alguém edifica sobre este fundamento ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se tornará manifesta; pois o dia do Senhor a declarará, porque será revelada pelo fogo; e o fogo provará qual é a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou permanecer, receberá recompensa; se a obra de alguém for queimada, sofrerá prejuízo; ele mesmo, porém, será salvo, mas como através do fogo. Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; pois santo é o templo de Deus, que sois vós. Ninguém se engane a si mesmo; se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, torne-se louco para vir a ser sábio. Pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porque está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia (Jó 5,13). E ainda: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos (Sl 93,11). Portanto, ninguém se glorie nos homens. Pois tudo é vosso, seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro: tudo é vosso; vós, porém, sois de Cristo; e Cristo, de Deus.

Comentário

Embora, irmãos, sejamos espirituais, como se mostrou, e ensinemos coisas espirituais, contudo eu, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais falei. E porque éreis carnais, dei-vos, como a pequeninos em Cristo, isto é, tenros na fé de Cristo, leite como bebida. Por leite significa a doçura da doutrina; por bebida, a facilidade. Dei-vos leite, não alimento sólido, isto é, aquela doutrina para ruminar na vossa simplicidade, que devia antes ser nutrida com facilidade do que oprimida com dificuldade. Por isso não vos dei coisas espirituais, porque ainda não podíeis suportá-las; mas nem agora o podeis, embora vos gloriais de novos doutores. Na verdade ainda não podeis; pois ainda sois carnais: e na verdade carnais; pois, havendo entre vós inveja, isto é, zelo do ânimo, e contenda nas palavras, não sois carnais? e não andais segundo o homem, isto é, segundo a doutrina carnal dos homens que seguis? Na verdade sois carnais e andais segundo o homem; porque, quando alguém de vós diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo; não sois homens?, isto é, não sentis segundo o homem?

Porque dizeis: eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, dizei-me, pois, que é Apolo? E que é Paulo? E o que credes que nos confere a vós? Isto podeis na verdade sentir deles: que são ministros daquele em quem crestes; e nada mais são senão aquilo que por mandato de Deus ministram a vós as coisas de Deus, embora de modo diverso; porque, conforme o Senhor concedeu a cada um de nós, nessa medida eu plantei, isto é, evangelizei e vos atraí à fé; Apolo regou, isto é, batizou-vos já crentes por mim; mas Deus deu o crescimento dos bens, só ele, pelo seu Espírito. Segue a metáfora da árvore plantada, que um rega, outro planta, e a que só Deus dá o crescimento. E porque só a Deus pertence dar o crescimento, portanto, nem o que planta é alguma coisa quanto ao dom da fé, nem o que rega é alguma coisa na remissão dos pecados, mas Deus é tudo, ele que só dá o crescimento da fé e da justiça subsequente.

Dir-se-ia o adversário: embora sejam ministros de Deus, são, contudo, diversos nos méritos, e creio que os méritos algo me conferem. Contra isto Paulo: embora um seja mais digno e outro menos, o que planta e o que rega são um e indiferentes ao administrar, apenas dispensam o dom de Deus, que nem pode ser aumentado nem diminuído pelos bons ou maus méritos deles. Embora o que planta e o que rega sejam indiferentes no fato de serem ministros de Cristo, diferem, contudo, em que cada um receberá o seu próprio salário, medido segundo o seu trabalho, isto é, conforme o modo como trabalhou na obra de Deus; mais se deve, com efeito, a quem mais merece. E isto serve bem ao propósito; pois, ao mostrar que ele merece mais que os outros na fé dos coríntios, e que não se deve gloriar de si, diz aos súditos: muito menos se deve gloriar naqueles que menos merecem, e mostra que nada são inteiramente.

Voltemos à letra. Na verdade receberá o salário conforme o seu próprio trabalho; nós, com efeito, ajudamos a Deus em vós mais que os outros, e por isso seremos remunerados mais que os outros; o que diz assim: somos colaboradores de Deus, isto é, operários; e, como servos, ministrando aos preceitos do Senhor, ajudamos a Deus em vós, ministrando a sua fé como ele mesmo nos dispôs. Na verdade ajudamos a Deus em vós; pois vós sois lavoura de Deus, isto é, cultivo de campo, do qual já foram erradicados os espinhos dos pecados. Sois, digo, lavoura pela remoção dos males; e sois edifício de Deus pela posição das virtudes, porque sobre a vossa fé Deus já edificou outras virtudes. E que sois lavoura e edifício de Deus, isto é por mim; eu, com efeito, lancei o fundamento, isto é, a fé sobre a qual se fundam as demais virtudes; lancei-o certamente como arquiteto, isto é, chefe da obra, porque, embora tenha tido outros coadjutores em vós, eu fui ali o chefe; arquiteto, digo, sábio, isto é, repartindo com discrição a cada um o que podia bastar à sua capacidade. Isto, porém, fiz segundo a graça de Deus; não poderia, com efeito, fundar-vos na fé, se a graça de Deus não operasse comigo, graça para ter a qual não precedeu mérito, mas que me foi dada por misericórdia.

Eu, no que me toca, lancei o fundamento são; mas outro a quem cabe edificar sobre este fundamento, veja como edifica por cima; outro é, com efeito, o que edifica sobre este fundamento; como se dissesse: o que era meu, lancei o fundamento; o que é vosso, vede que edifiqueis bem por cima. Diz-se edificar por cima aquele que ou edifica virtudes ou, se peca, não o faz de modo a destruir o fundamento; fundamento que é destruído pelos pecados capitais, a menos que sejam apagados por apta penitência. É destruído também pelos veniais, que não só temos por necessidade, já que até o justo cai sete vezes ao dia (Pr 24,16), mas pelos veniais que admitimos por vontade e consentindo neles sem penitência. Eu, na verdade, lancei com previdência o fundamento; veja, porém, cada um de vós como edifica sobre este fundamento; deixa-se, com efeito, esta obra ao vosso arbítrio, já fortalecido pela graça recebida. Deve-se notar que se dizem edificar por cima apenas aqueles cujas culpas não destroem o fundamento; quem destrói, com efeito, deve-se antes dizer ruína do pecado do que edificação por cima.

Deveis certamente cuidar da edificação por cima, para que não varie; pois quanto ao fundamento, torno-vos seguros, porque é um só; ninguém pode lançar outro fundamento além do que foi posto por mim, fundamento que, isto é, a fé, é Jesus Cristo: a tua fé em Cristo, segundo Agostinho, é Cristo em teu coração. Se algo outro além da fé é posto, é ruína do fundamento, não fundamento. O fundamento é um só, e não pode haver outro; mas as edificações por cima são diversas, porque um edifica por cima ouro ou prata, outro feno ou palha; o que diz assim: se alguém edifica sobre este fundamento, isto é, a fé, ouro, prata, pedras preciosas; por esses três entendem-se as virtudes, mas distintas: ou madeira, feno, palha; por esses três entendem-se males distintos, que, contudo, não destroem o fundamento. Todas estas coisas, porém, serão provadas pelo fogo (como logo acrescentará).

Por ouro [designam-se] os perfeitos em justiça, de modo que neles nada absolutamente há que purgar, os quais certamente passarão pelo fogo, não para ali serem detidos por alguma aspereza, mas como o ouro puríssimo aplicado ao fogo, que não só não sofre dano algum, mas por isso se torna mais esplêndido em brilho, assim os perfeitos não sentem lesão do fogo, mas, mais provados pela agilidade das virtudes, emergem facilmente deste fogo. Por prata significam-se os justos em quem, contudo, há algumas coisas leves a purgar; porque, como a prata posta no fogo perde a cor (cor que é restituída pela arte do artífice depois do fogo), assim eles sofrerão o fogo, mas levemente, porque cometeram coisas leves. Por pedras preciosas designam-se os justos que, embora oprimidos por alguns veniais, aderiram mais à justiça, e por isso sofrerão no fogo mais que os ditos; como as pedras preciosas sentem mais dano pelo fogo que a prata. Disse "pedras" no plural porque neste grau serão diversos e sentirão segundo a diversidade dos méritos.

Por estes três, o gênero dos perfeitos; pelos três que seguem, designam-se os imperfeitos. Por madeira entendem-se aqueles que permanecem no mundo, têm esposas, filhos e posses; os quais convém que cuidem do que é da esposa e dos filhos, e por isso trabalhem muito, e por isso não podem participar das orações da Igreja como deveriam. Estes, porém, porque não amam o mundo a ponto de antepô-lo a Deus, serão salvos, mas serão punidos longamente pelo fogo; como a madeira é matéria longa para o fogo e queima por muito espaço. Por feno designam-se aqueles que por algum tempo são afligidos pelo fogo, mas, como o feno que no fogo logo se consome, logo escaparão. Por palha, porém, que por ser seca se queima mais depressa que o feno, designam-se aqueles cuja pena será abreviada na passagem do fogo.

Se alguém, pois, edifica isto ou aquilo, a obra de cada um, seja ouro, seja madeira, ou qualquer outra coisa, tornar-se-á manifesta. E o prova: pois o dia do Senhor a declarará. Chama dia do Senhor desde a hora da dissolução de cada um até o juízo; desde que a alma se separa do corpo, com efeito, é dia do Senhor para ela, porque já nada pode operar além da vontade de Deus; mas enquanto o homem vive, é dia do homem e não de Deus, porque o homem opera o que lhe agrada, bem ou mal, por liberdade de arbítrio. Na verdade o dia do Senhor a declarará; pois será revelada pelo fogo, isto é, tornar-se-á manifesta a sua obra. Este fogo diz contínuo, como o dia; na morte do homem, com efeito, está pronto o diabo com fogo e seus algozes, e, se há algo a purgar, purga-o pelo fogo aplicado; se nada há de purgação, como em São Martinho, a própria saída do fogo revela a bondade de sua obra e que naquele a quem atormenta não houve mancha alguma. Mas porque ainda não se pode isto ver claramente, no fogo purgatório as obras de cada um serão reveladas a cada um.

Na verdade a obra de cada um será revelada no fogo; pois o fogo provará qual é a obra de cada um, seja ouro, seja madeira, ou o que quer que seja. Na verdade o fogo provará a obra de cada um; pois há obra boa e obra má: boa certamente; se a obra que alguém edificou sobre o fundamento permanecer ilesa, este certamente receberá a recompensa do bem edificado por cima. A obra má o fogo provará; pois se a obra de alguém for queimada, isto é, se se achar que pode ser queimada, como a madeira, o feno, a palha, este certamente sofrerá prejuízo e será afligido pela violência do fogo; mas, embora sofra prejuízo, ele mesmo será salvo; digo salvo, porém, como através do fogo; o que antes foi doce cometer, convém que seja punido pela amargura do fogo.

Determinou agora as distinções das obras que não destroem o fundamento, dizendo que serão salvos todos os que não o destroem; agora acrescenta sobre as obras que destroem o fundamento e entesouram a ruína eterna, dizendo: se alguém não destrói o fundamento, será salvo; se alguém, porém, destruir o templo de Deus, será destruído. Mas, para os compungir, antepõe esta interrogação, dizendo: não sabeis que sois templo de Deus? Deus, com efeito, vos santifica para que sejais templo para ele; e assim, digo, templo, e que o Espírito de Deus habita com toda assiduidade em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, destruindo o fundamento da fé, ou em si pelos pecados capitais, ou nos ouvintes ensinando falsidades, a este certamente Deus destruirá na ruína eterna. E com razão quem o profana será destruído; pois santo é o templo de Deus, e não deve ser violado, templo que sois vós. E porque sois templo de Deus, por isso vede que nenhum dos falsos doutores vos seduza por falsa doutrina; ou então: ninguém de nós engane a si mesmo, destruindo o fundamento da fé: ninguém, digo, se engane a si mesmo; mas se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, isto é, na ciência secular, torne-se louco, isto é, creia e confesse que é louco, para vir a ser sábio de verdade. Na verdade é necessário que se torne louco para vir a ser sábio; pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. E na verdade é loucura diante de Deus; pois está escrito em Jó, falando Deus da sabedoria mundana: Os sábios do mundo eu apanharei, isto é, encerrá-los-ei na sua própria astúcia (Jó 5,13), isto é, naquilo em que se julgam mais astutos, e não poderão resistir. E ainda se escreve da sabedoria do mundo num salmo: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios (a nossa tradução traz "dos homens", isto é, dos que são sábios humanamente), isto conhece deles: que são vãos (Sl 93,11).

Visto que a sabedoria do homem é provada ser loucura, portanto, ninguém de vós se glorie mais nos homens, isto é, nos doutores de quem vos gloriais por causa da sabedoria humana. Prova que não se deve gloriar neles, seja porque são servos daqueles a quem pregam, também ele mesmo; e não é lícito gloriar-se de coisa inferior ou igual, mas só de maior que si: seja também porque, se não se deve gloriar de Paulo e de Cefas, muito menos dos carnais, que consta serem inferiores a estes. Por isso diz: não vos deveis gloriar nos homens; pois tudo é vosso, isto é, destinado ao vosso serviço, seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas[1], isto é, Pedro, o seu chefe; seja o mundo, é vosso, serve-vos, mesmo se ministra o necessário e mesmo se inflige quaisquer asperezas para o mérito de vossa justiça; seja a vida, é vossa, pois para vos arrependerdes do mal praticado e depois merecerdes obrando bem, é-vos concedida a vida presente; seja a morte, é vossa, pois é útil abraçar a morte por Cristo, se se apresentar; seja o presente, seja o futuro, bens ou males: vossas são na verdade as coisas ditas; pois tudo é vosso; vós, porém, sois somente de Cristo, em quem só deveis gloriar-vos; e Cristo é de Deus, não que Cristo difira dele em substância, mas porque, por meio do mediador Cristo, somos reconduzidos a Deus.

Notas

  1. Cefas significa cabeça; Simão, obediente; Barjonas, filho da pomba; mas, como Deus lhe mudou o nome de Cefas e o chamou Pedro, daí veio o costume de mudar os nomes dos apostólicos. (Nota do próprio Autor.)

Capítulo 4

Assim, pois, considere-nos o homem como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus. Ora, o que se requer dos dispensadores é que cada um seja achado fiel. A mim, porém, pouco me importa ser julgado por vós ou por tribunal humano. Mas nem eu me julgo a mim mesmo. Pois de nada me sinto culpado; mas nem por isso estou justificado; quem me julga é o Senhor. Portanto, não julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual trará à luz o que está escondido nas trevas e manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor. Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim e a Apolo, por vossa causa; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, e ninguém se ensoberbeça a favor de um contra outro. Pois quem te distingue? Que tens que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias como se não o tivesses recebido? Já estais saciados, já vos tornastes ricos; sem nós reinais, e oxalá reineis, para que também nós reinemos convosco. Pois penso que Deus nos expôs, a nós Apóstolos, em último lugar, como condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os Anjos e para os homens. Nós, loucos por causa de Cristo; vós, prudentes em Cristo; nós, fracos; vós, fortes; vós, nobres; nós, desprezíveis. Até a hora presente passamos fome e sede, estamos nus, somos esbofeteados, não temos morada fixa e nos afadigamos trabalhando com as nossas mãos; somos amaldiçoados, e abençoamos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e exortamos; tornamo-nos como o lixo do mundo, a escória de todos, até agora. Não escrevo isto para vos envergonhar, mas para vos admoestar como a meus filhos caríssimos. Pois, ainda que tenhais dez mil pedagogos em Cristo, não tendes muitos pais; pois fui eu quem vos gerou em Cristo Jesus, pelo Evangelho. Rogo-vos, pois, sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo. Por isso vos enviei Timóteo, meu filho caríssimo e fiel no Senhor, que vos recordará os meus caminhos em Cristo Jesus, como ensino por toda parte, em todas as Igrejas. Como se eu não fosse ter convosco, alguns se ensoberbeceram. Mas irei logo ter convosco, se o Senhor quiser; e conhecerei não a palavra dos que se ensoberbeceram, mas o seu poder. Pois o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder. Que preferis? Que vá a vós com vara, ou com caridade e espírito de mansidão?

Comentário

Porque se havia humilhado tanto, dizendo Paulo e Apolo vossos, para que por isso os coríntios não se ensoberbecessem, diz que é de grande dignidade, porque ministros de Cristo, etc. O texto liga-se assim: embora eu tenha dito antes: eu, Paulo, e Apolo somos vossos, assim, contudo, considere-nos o homem, qualquer que seja entre os coríntios, como ministros de Cristo, isto é, como dignos de ministrar Cristo e a sua fé aos súditos; considere-nos também dispensadores dos mistérios de Deus; dispensamos, com efeito, os ofícios eclesiásticos, consagrando este presbítero, aquele diácono; ou então, dispensadores dos mistérios, isto é, dos segredos de Deus; sabemos, com efeito, e falamos aos fiéis os desígnios de Deus. Por isso digo: assim nos considere o homem, porque aqui, isto é, nesta Igreja dos coríntios, já, isto é, antes do tempo oportuno do juízo (neste mundo, com efeito, porque as obras são ocultas, não é lícito julgar); ou então, aqui, isto é, por esta ocasião em que eu disse que devíamos ser considerados ministros e dispensadores: por isso já se busca entre os dispensadores qual deles se achará fiel, isto é, perfeito, e cuja justiça confira algo distinto aos seus batizados. "Fiel" foi dito como ali: «achado em figura como homem» (Fl 2,7).

Mas, quaisquer que sejam os sentimentos de outros dispensadores, eu respondo isto: a mim pouco me importa, e tenho em pouco, ser julgado por vós, isto é, que vós me condeneis, ou por tribunal humano, isto é, por homem, que pela sutileza do engenho também se chame dia. Vós não sabeis julgar-me, mas nem eu me julgo, isto é, não me censuro em nada, porque de nada me sinto culpado; e, assim como a minha ciência não acha o que julgar, muito menos vós, que não podeis perscrutar os segredos da consciência. Mas, embora a minha consciência de nada me acuse, nem por isso estou justificado, porque talvez estime boas algumas coisas que brotam mal da raiz.

Nem o homem nem a minha própria consciência me podem julgar; mas quem me julga, isto é, quem tem o poder de me julgar, é o Senhor, e fora dele ninguém pode. E visto que só Deus pode julgar, e o homem não, porque nem a si mesmo se entende bastante, portanto, não julgueis nem a mim nem a outro antes do tempo, isto é, agora, quando ainda estão ocultas as coisas escondidas, até que venha o Senhor ao juízo; o qual certamente virá e trará à luz, isto é, tornará manifesto o que está escondido nas trevas, isto é, dos pecados, porque entre os pecados alguns estão ocultos; o qual manifestará também os desígnios dos corações, isto é, as obras boas, que foram feitas por conselho e deliberação do coração reto; e então, naquela vinda, a cada um que obrou retamente por conselho do coração haverá louvor da parte do Senhor.

O que disse acima que os coríntios diziam: eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, expõe aqui como o disse figuradamente, significando aqueles de quem se gloriavam pelo seu nome, e por Apolo, o que fez em exemplo de humildade; por isso diz: o que acima pus, que vós dizeis: eu sou de Apolo, eu de Paulo, não o fiz para que vos gloriásseis de nós; mas, ó irmãos, eu apliquei figuradamente, isto é, transferi estas coisas a mim, falando figuradamente, enquanto atribuía os nossos nomes àqueles falsos apóstolos. Estas coisas, certamente, apliquei a mim e a Apolo, e isto para vos insinuar, para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, e ninguém se ensoberbeça a favor de um contra outro, feito outro, isto é, mais digno que o outro pelo mérito de seu batizador; ou então, a favor de outro, isto é, de um doutor mais justo que teve. Não vos ensoberbeçais, digo, fazendo o que acima; está escrito acima que quem se gloria não se glorie no mérito do homem, mas no Senhor.

Não deves ensoberbecer-te contra outro; pois quem te distingue de outro, sabendo os méritos de cada um? É certamente insensato quem presume distinguir-te. De novo não deves ensoberbecer-te; porque que tens daquele doutor de quem te glorias que não tenhas recebido de mim? Mais certamente de mim recebeste, porque a fé, do que daquele. De novo não deves ensoberbecer-te; porque se recebeste de mim, por que te glorias de outro como se não o tivesses recebido de mim o que daquele? Mais certamente de mim. Ou de outro modo: não te ensoberbeças, porque quem te distingue da massa dos perdidos em Adão, para te fazer vaso para honra, senão só Deus? Ninguém, certamente. De novo não te ensoberbeças; porque que bem tens de alguém que não tenhas recebido de Deus? Deus é o doador de todo bem. De novo não deves ensoberbecer-te; porque, se recebeste algo de Deus, por que te glorias disso, atribuindo-o ao mérito do homem, como se não o tivesses recebido de Deus? Digo que não vos glorieis, mas digo mal; porque com razão deveis gloriar-vos: já estais saciados, isto é, tendes em vós bens bastantes; já vos tornastes ricos, tendo o que repartir a cada um; reinais, isto é, regeis bem a vós mesmos sem nós. Tudo isto ironicamente, mas doravante a sério. Reinais, digo, e oxalá reineis de verdade; isto desejaria, com efeito, que não precisásseis do nosso governo; reineis de modo que também nós reinemos convosco, isto é, que vós, naquele reino, nos precedêsseis em dignidade de vida: preferiria certamente que vós fôsseis na frente e eu seguisse, do que o contrário, porque estou mais certo de mim do que de vós.

De novo ironicamente: vós reinais, nós de modo nenhum; porque penso que vós pensais isto: a saber, que Deus nos expôs em último lugar, isto é, como piores e sem dignidade alguma, a nós Apóstolos; nós, digo, como condenados à morte, isto é, porque somos afligidos por Cristo a ponto de parecermos nascidos só para a morte; por isso somos desprezíveis para vós que florescem no mundo; também porque nos tornamos espetáculo para este mundo; todos se reúnem, com efeito, para nos oprimir, e os nossos males são jogo para eles; para este mundo, digo; e para os anjos maus, que se alegram da nossa aflição, e para os homens. E por isso somos reputados loucos; mas seria bom imitar esta loucura, porque nós, loucos por causa de Cristo; vós, prudentes em Cristo; o que nem sois nem deveis ser: nós, fracos e débeis para o mundo; vós, fortes, e vos gloriando do poder do mundo; vós, nobres; nós, desprezíveis.

Ou de outro modo, para que se leia sem ironia: quisera reinar convosco, pois estou certo de que na verdade reinaremos; penso, com efeito, e nisto confio, que Deus nos expôs em último lugar, a nós Apóstolos, isto é, semelhantes aos últimos, isto é, a Henoc e Elias; porque tanto padecemos agora no princípio da Igreja quanto eles padecerão do Anticristo no fim. Por isso o mesmo Paulo diz: «Nós somos aqueles sobre quem chegou o fim dos séculos» (1Cor 10,11). Por isso também Nero foi chamado Anticristo, porque, assim como este matará Henoc e Elias, aquele matou Pedro e Paulo. Na verdade somos os últimos; como condenados à morte; espetáculo para o mundo, e o resto exponha-se igualmente, mas com ironia. Nós loucos, vós prudentes; vós fortes, nós fracos: aqui a mesma ironia.

E não só padecemos os males ditos, mas desde o princípio da nossa pregação até a hora presente passamos fome e sede, estamos nus, somos esbofeteados, não temos morada fixa, fugidos de lugar em lugar; e nos afadigamos trabalhando com as nossas mãos, para termos o sustento. Somos amaldiçoados pelos ímpios, e abençoamos a eles; somos perseguidos, e suportamos alegremente; somos caluniados, e exortamos os ímpios a não blasfemarem, ou a Deus que perdoe os blasfemadores. E enfurecem-se tanto contra nós que nos tornamos como o lixo deste mundo; parece-lhes, com efeito, que o mundo se polui por nós e se purga pela nossa ruína. Tornamo-nos certamente a escória, isto é, a purgação de todos; porque todos já estariam purificados se não existíssemos, mas por nós são poluídos. Escória (peripsema) diz-se a purgação da maçã ou a espuma do ferro, segundo Ambrósio: tais nos tornamos desde o princípio do mundo até agora.

Porque falara asperamente aos coríntios, começa de novo a lisonjeá-los, dizendo: embora eu tenha dito ironicamente que sois prudentes, fortes e nobres, não escrevo isto para vos envergonhar e fazer corar; mas admoesto-vos, ora com brandura, ora asperamente, como a meus filhos caríssimos. Na verdade filhos; pois, ainda que tenhais dez mil pedagogos, isto é, mestres (mesmo fiéis) em Cristo, não tendes muitos pais, segundo a fé. Na verdade não muitos, pois só a mim; fui eu, com efeito, quem vos gerou em Cristo Jesus, pelo Evangelho. E visto que eu sou pai e vós filhos, portanto vos rogo, irmãos, sede meus imitadores, como filhos do pai. Por isso, porque sois filhos e para que sejais imitadores, enviei-vos Timóteo, meu filho caríssimo e fiel no Senhor; e a este aquiescei. Enviei-o para que haja quem vos recorde os meus caminhos, para que, como eu, assim também vós andeis em toda justiça; caminhos que devem ser seguidos, porque são em Cristo Jesus, e toda a Igreja os segue; o que diz assim: como ensino por toda parte, e não esparsamente pelos campos, mas em todas as Igrejas. Diz-se que o Apóstolo enviou por este Timóteo esta Epístola aos coríntios.

Falou acima daqueles batizadores e provou bastante que um não deve ser anteposto ao outro; acusou-os também por causa da sabedoria mundana, que era de louvor excessivo entre eles, e do desprezo por ele: agora passa àquilo de certo fornicador, que tomara por esposa a sua madrasta; a quem eles nem separaram da comunhão da Igreja, nem se condoeram do pecado do irmão, mas antes se ensoberbeciam por isso, dizendo: se tivesse sido batizado por um bom, nunca teria caído em tão grande fosso do pecado, como se via naqueles em quem, para que não pecassem semelhantemente, operava a justiça do batizador. O texto liga-se assim: eu, solícito de vós como pai de filhos, envio-vos Timóteo; mas alguns de vós estão ensoberbecidos e talvez, por sua soberba, não o ouçam. Por isso toca-os aqui da soberba, para que em toda humildade os ache obedecendo a Timóteo. Estais certamente ensoberbecidos como se eu não fosse ter convosco, e não reverenciais a minha vinda, que certamente devéis reverenciar, a menos que vos corrijais. Talvez creiais que eu não virei, porque agora envio Timóteo; mas sabei que irei logo ter convosco; o que, contudo, não é de direito, e por isso determino: se o Senhor quiser, a cuja vontade não é lícito contrariar. Irei certamente, e então conhecerei, isto é, aprovarei, segundo aquilo: «O Senhor conhece os que são seus» (2Tm 2,19); conhecerei certamente não a palavra deles, isto é, não a cortesia e o artifício da palavra, a que aderem os que por tal palavra se ensoberbeceram; mas conhecerei e louvarei em vós o poder, isto é, a humildade, a paciência, etc.; estas coisas, com efeito, devem ser louvadas, não a sublimidade da palavra. Por isso conhecerei o poder e não a palavra, pois o reino de Deus não consiste em palavra deste mundo, isto é, não se adquire por ela, mas em poder da fé íntegra e da boa obra.

E, quanto às duas coisas que vos propus: a palavra que reprovo, o poder que aprovo, que preferis, isto é, qual destas escolheis? Que vá a vós com vara, isto é, com a aspereza da correção, ou vá a vós com caridade, isto é, com mansidão, e de tal modo com espírito de mansidão, isto é, como acostumado à mão e gozando em servir-vos? Se achar em palavra, irei com vara; se em poder, irei no espírito de caridade. Parece, quando diz "com vara ou com caridade", insinuar como se a correção não fosse por caridade, se é áspera, o que é certamente falso; mas diz isto segundo a fraqueza daqueles que julgavam que tudo o que contrariava a vontade da carne era por ira.

Capítulo 5

Ouve-se em absoluto que há entre vós fornicação, e fornicação tal que nem entre os gentios, a ponto de alguém ter a mulher de seu pai. E vós estais ensoberbecidos! E não antes vos entristecestes, para que fosse tirado do meio de vós aquele que cometeu tal ação? Eu, na verdade, ausente de corpo, mas presente em espírito, já julguei, como presente, aquele que assim agiu, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, congregados vós e o meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus, entregar tal homem a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor nosso Jesus Cristo. Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento corrompe toda a massa? Expurgai o fermento velho, para serdes nova massa, como sois ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da maldade, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. Escrevi-vos na carta que não vos associásseis aos fornicadores; não, evidentemente, aos fornicadores deste mundo, ou aos avarentos, ou aos ladrões, ou aos idólatras; do contrário, teríeis de sair deste mundo. Agora, porém, escrevi-vos que não vos associeis a quem, chamando-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou ladrão; com tal pessoa nem sequer comais. Pois que tenho eu que julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora Deus os julgará. Tirai o mau do meio de vós.

Comentário

Certamente deve-se ir a vós com vara, porque se ouve que há entre vós fornicação; em absoluto se ouve, isto é, segundo a infâmia de todos: sobre o que, porque todos vos infamam (a fama também me trouxe isto), não é preciso esperar acusador. E não uma fornicação que se deva tolerar, mas fornicação tal que nem entre os gentios se ouve, isto é, entre os gentios ainda aderentes à primeira geração. Ouve-se de tal modo que alguém de vós tenha a mulher de seu pai, isto é, tomou por esposa a sua madrasta.

Dir-me-iam: que nos importa? Muito, diz Paulo; porque, tendo o irmão pecado, vós estais ensoberbecidos com isso, vos ensoberbecendo como se fôsseis melhor justificados que ele pelo batismo, porque não caístes igualmente; e não só ensoberbecidos, mas nem vos entristecestes, condoendo-vos antes pela queda do irmão, o que devíeis escolher em vez de ensoberbecer-vos; nem tivestes o cuidado de que fosse tirado do meio de vós, isto é, de que separásseis da comunhão da Igreja aquele que cometeu tal ação, isto é, que ilicitamente usurpou a mulher do pai. Vós, presentes, não o tirastes do meio; mas eu, na verdade, ausente de corpo, mas presente em espírito, isto é, com autoridade apostólica — dizem também os santos que o Espírito Santo lhe tornara conhecidos os fatos até dos ausentes —, presente em espírito já julguei, isto é, condenei-o como se estivesse presente de corpo; a aquele, digo, que assim agiu com a mulher do pai. Julguei certamente; e saibais que o fiz em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, para que não digais que a expulsão dele seja detrimento da Igreja de Cristo, que antes é honrada nisto do que diminuída, e que certamente seria infectada pelo veneno deste mal se este não fosse repelido. Julguei, certamente, congregados vós, entregar este a Satanás. Ou então aquele "em nome do Senhor" refere-se à letra seguinte, assim: isto, digo, julguei dele, para que, congregados vós em nome do Senhor Jesus Cristo, e o meu espírito, presente, isto é, com a minha autoridade cooperando convosco. Que importa isso, diria o ímpio, se o teu espírito está conosco? Muito, certamente, diz Paulo; pois, estando o meu espírito, digo, com o poder de nosso Senhor Jesus; porque o poder de Deus cooperará comigo e, por mim, convosco. Julguei, digo, que convinha entregar tal homem a Satanás. Diz entregar a Satanás por excomungar; assim como o diabo tem todo o direito sobre o homem antes que se justifique pela fé, assim, depois que por culpa é separado dos sacramentos da Igreja, com os quais, como armas, somos munidos contra Satanás, fica daí atado ao jugo de Satanás, porque nem por si pode resistir, nem talvez quer, e é inteiramente destituído do auxílio de Deus. Entregar a Satanás, digo, para a destruição da carne, isto é, para que a sua carne, que se deleitou no pecado, pereça pouco a pouco pela aflição das doenças; o diabo, com efeito, depois que vê o homem enfraquecido sem Deus, ataca-o livremente e vexa a sua carne com várias doenças; o que Deus permite para que o homem, vendo-se angustiado por tantas doenças depois que se afastou de Deus, confesse o pecado e, arrependendo-se, volte a Deus, a fim de que o seu espírito seja salvo. Ou assim: entregar a Satanás para a destruição; porque, depois que não é protegido pelos sacramentos da Igreja, cai de dia em dia do mal para pior; o que é ruína da alma: da carne, isto é, por meio da carne, à qual consente quando mal o persuade. Nem entrega para perecer perpetuamente, mas para que, oprimido pelo peso dos pecados, condoendo-se dos pecados se arrependa, e assim o seu espírito seja salvo no dia, isto é, na iluminação do Senhor nosso Jesus Cristo; então, com efeito, Cristo o ilumina, quando ferve de desejo de penitência. Isto deve ser visto pelos prelados da Igreja, para que excomunguem os réus com a intenção com que Paulo o fez, a saber, para que os seus espíritos sejam salvos.

Visto que não tivestes luto, nem o tirastes do meio de vós, daí aparece que a vossa jactância não é boa; é mau, com efeito, gloriar-se de justiça quem negligencia a salvação do próximo e se infecta com o mal dele. Na verdade não vos gloriais bem, porque não sabeis que um pouco de fermento, se for azedo, corrompe toda a massa da farinha tornada azeda? Assim também este, pouca coisa segundo o número da Igreja, corrompe toda a Igreja, tornada ré pela coabitação com este de quem participou. Visto que este fermento corrompe a massa da Igreja, portanto, tirando este e todo mal do meio de vós, expurgai o fermento, isto é, a vossa soberba e, se há outro, a saber, pecado a expulsar: fermento, digo, velho; se não vos purgardes, com efeito, sois membros do homem velho. Expurgai, pois, para serdes massa. Chama-se massa (conspersio) a farinha ligada por água sem fermento. A nossa humanidade, que por si é estéril e árida, é entendida pela farinha seca, que pelo orvalho do Espírito Santo no batismo é ligada, para que, afastada a aridez, dê fruto; assim como a farinha se une pela água, para ser útil. Sejais, digo, nova massa, isto é, feitos membros do novo Adão, a saber, Cristo, que vos renovou pelo Espírito Santo. Agora sede nova massa, como sois ázimos, como fostes antes no batismo sem fermento de todo pecado; é bom, com efeito, que assim agora sejais purgados pela penitência, que é outro batismo, como antes fostes purgados pelo batismo. Ázimo em grego, "sem fermento" em latim. Zymus é fermento, a sine, "sem", como ali acéfalos, isto é, sem cabeça.

Deveis certamente expurgar-vos; pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado no altar da Cruz; Cristo que é a nossa Páscoa, isto é, a nossa passagem da morte para a vida, da corrupção para a incorrupção; por quem agora finalmente podemos purificar-nos, nós que antes, atados ao jugo do diabo, não podíamos. Aqui remete-nos à história em que os filhos de Israel, para serem libertados do flagelo do Egito, são mandados untar os umbrais com o sangue do cordeiro imolado (Ex 12,7); depois da imolação desse cordeiro, libertados da servidão egípcia, passam à terra da promessa. Esta festa da imolação do cordeiro chama-se Fase entre eles, Páscoa entre os gregos, Passagem entre nós. Aquele cordeiro significou certamente o verdadeiro Cordeiro, em quem não houve mancha, Cristo, por cujo sangue derramado são untadas as nossas mentes, e assim somos libertados do flagelo do Anjo exterminador. Para comer esse Cordeiro, a Igreja se reúne cada dia, para por isso passar à verdade da coisa, de que agora se serve sob a espécie de pão e vinho, cujas espécies, embora permaneçam, cremos que passam na verdade à verdadeira substância do Corpo e do Sangue de Cristo. Por estas coisas, para passar à eternidade, celebremos a festa, digo, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia tida em nós mesmos, nem com o fermento da maldade, de modo que nada façamos contra o próximo; mas com os ázimos, isto é, com a humildade da sinceridade, isto é, da pureza conservada em nós, e da verdade, para que não defraudemos o próximo.

Paulo já antes escrevera aos coríntios sobre evitar a fornicação; mas eles, interpretando mal as suas palavras, julgavam que ordenava evitar os gentios quando fornicavam: agora, porém, por já lhes ter escrito sobre este crime, repreende-os e insinua como deviam entender a escritura que enviara, dizendo: com justiça os arguo de que não tirastes aquele fornicador do meio de vós; escrevi-vos, com efeito, na carta já enviada que não vos associásseis aos fornicadores; não, certamente, ordenando isto quanto aos fornicadores deste mundo, isto é, os gentios, que não seguem a Deus mas o mundo. Escrevi-vos também: ou aos avarentos, ou aos ladrões, ou aos idólatras, isto é, os que voltam ao culto do ídolo, ou comem sob veneração do ídolo o que foi imolado aos ídolos. Na verdade não proibi isto quanto aos fornicadores dos gentios; do contrário, isto é, se, agindo de outro modo, eu desse este preceito sobre os gentios a evitar, teríeis de sair deste mundo, se quisésseis obedecer, isto é, melhor vos seria morrer, abandonando tudo o que o mundo tem, do que, agindo de outro modo por temor, comungar com os fornicadores. Outrora escrevi, entendestes mal, mas agora determino-vos o que escrevi: que não deveis associar-vos com tais; o que se deve entender assim: se aquele que é irmão na fé, chamando-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra no culto ou comendo o que foi imolado sob veneração, ou maldizente, ou beberrão, isto é, habituado à detração e à embriaguez, ou ladrão: com tal pessoa, para excluir toda comunhão, proíbo o que parece mais leve, a saber, nem sequer comais. Observa o bem-aventurado Agostinho, onde diz "chamando-se" e não disse "se é", que o Apóstolo entendeu isto: porque, se o irmão é réu de crime e sua culpa está oculta, não deve ser excomungado; de coisas incertas, com efeito, não se deve ter julgamento, mas do crime manifestado e comprovado; e por isso disse "chamando-se": deste certamente o réu deve ser julgado.

Na verdade devemos julgar dos irmãos; pois que tenho eu, isto é, que cabe a mim e à Igreja, que julgar os de fora, isto é, os gentios? Nada, certamente. E, como não é lícito julgar dos que estão fora da Igreja, não julgais vós os de dentro, isto é, não deveis julgar os que estão dentro, isto é, na Igreja?

Na verdade só julgais os de dentro; pois os de fora, isto é, os gentios, Deus os julgará, e nada vos diz respeito quanto a eles. Visto que é a vós que cabe julgar dos fiéis, portanto tirai o mau do meio de vós, o do irmão fornicador; se o não tirardes, já vos contaminais com a culpa do mesmo crime.

Capítulo 6

Ousa algum de vós, tendo uma questão contra outro, ser julgado perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? E, se o mundo será julgado por vós, sois indignos de julgar as menores coisas? Não sabeis que julgaremos os Anjos? Quanto mais as coisas seculares! Se, pois, tiverdes juízos seculares, constituí para julgá-los os que são desprezíveis na Igreja. Digo-o para vossa vergonha. Assim, não há entre vós nenhum sábio que possa julgar entre os seus irmãos? Mas irmão contra irmão litiga em juízo, e isto perante infiéis! Já é, de fato, um delito entre vós o terdes litígios uns com os outros. Por que não antes sofreis a injustiça? Por que não antes suportais o prejuízo? Mas vós mesmos cometeis a injustiça e defraudais; e isto aos irmãos! Não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem beberrões, nem maldizentes, nem rapaces possuirão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus. Tudo me é lícito, mas nem tudo convém; tudo me é lícito, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma. Os alimentos são para o ventre e o ventre para os alimentos; mas Deus destruirá tanto um como os outros; o corpo, porém, não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará pelo seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, então, os membros de Cristo para fazê-los membros de uma meretriz? De modo algum. Não sabeis que quem se une à meretriz se faz um só corpo com ela? Serão, diz, dois numa só carne (Gn 2,24). Mas quem se une ao Senhor é um só espírito. Fugi da fornicação. Todo pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós, que recebestes de Deus, e que não sois de vós mesmos? Pois fostes comprados por grande preço. Glorificai, pois, e trazei Deus em vosso corpo.

Comentário

Por esta ocasião, porque começou a falar de juízos, passa a corrigir nos coríntios os males provenientes dos juízos. Se alguém deles, com efeito, tirasse algo a outro, aquele não o tolerava pacientemente, mas, impaciente, levava o irmão a juízo, e não perante juízes eclesiásticos, mas, desprezando-os, perante seculares; fazia também fraude ao irmão, dando presente ao juiz para oprimir o irmão. O texto liga-se assim: é lícito a vós julgar dos irmãos, mas não do modo como ousais intemperantemente perante injustos; ou assim: tirar o mal do meio de vós é bom; mas como ousa alguém de vós — onde diz "ousa", nota ser pecado tal atrevimento — como ousa, digo, alguém de vós, tendo uma questão, isto é, queixa sobre coisas seculares contra outro irmão, ser julgado, isto é, entrar em juízo com o irmão perante os injustos, isto é, juízes seculares, e não perante os santos, isto é, juízes fiéis da Igreja?

Dir-me-iam: tememos inquietar os santos em suas orações. De modo algum, diz Paulo, pois não sabeis que os santos hão de julgar o mundo no juízo futuro? E, se o mundo será julgado por vós, isto é, em comparação convosco, no último juízo, sois indignos de julgar as menores coisas aqui, em comparação com as futuras, a saber, os bens temporais da Igreja? E, como os homens, assim também os demônios serão julgados à nossa semelhança; porque não sabeis que julgaremos os Anjos apóstatas em comparação convosco? Se os anjos, quanto mais as coisas seculares é lícito julgar? Os homens maus serão julgados em comparação com os bons, porque, sendo da mesma condição e não tendo obrado o mesmo que os bons, esta só comparação é a sentença da condenação deles. Os demônios serão condenados de modo duplo, à semelhança dos justos, seja porque foram criados de natureza mais firme que o homem e não perseveraram no bem; seja porque sempre invejam os justos e não os podem vencer; pela vitória desta luta os justos condenarão os anjos maus.

Agora, de novo ironicamente, repreende-os por constituírem juízes insensatos, do que resultava que as causas das Igrejas eram transferidas aos seculares: visto que, como se provou, a Igreja deve julgar entre os irmãos, portanto, se tiverdes juízos seculares, isto é, litígios entre vós por coisas temporais — com isso nota que seria melhor se não tivessem tais juízos —, se, digo, tiverdes estes juízos, constituí para julgá-los, isto é, colocai como juízes sobre vós os que são desprezíveis, isto é, os mais insensatos na Igreja. E diz isto ironicamente, porque sabia que assim faziam. E o que digo, constituí os desprezíveis para julgar, digo-o para vossa vergonha, não mandando que o façais, mas recordando o que fazeis, para que tenhais vergonha; pois, quando assim fazeis, então, isto é, tornastes-vos tão insensatos que não há entre vós nenhum sábio que possa julgar entre o irmão e o irmão? Mas porque todos assim enlouquecestes, por isso irmão contra irmão litiga em juízo, isto é, por causa. E não basta o mal da contenda, mas isto se faz também perante juízes infiéis, por falta de juízes eclesiásticos.

Deste juízo certamente resulta este mal: que contendeis reciprocamente e levais os direitos da Igreja aos infiéis. Já é, certamente, por isso, de fato, isto é, como a todos é patente, um delito entre vós o terdes litígios uns com os outros; melhor seria, com efeito, não reclamar o que é vosso do que de tal reclamação resultarem tantos males à Igreja. E porque é delito haver juízos entre vós, por que não antes sofreis, isto é, toleráveis sem reclamação, a injustiça de quem abertamente vos tira o que é vosso? E por que não antes suportais o prejuízo, isto é, o dano oculto feito ao irmão por engano, a fim de que a Igreja não se aviltasse pela vossa reclamação? Seria bom que sofrêsseis a injustiça infligida pelo irmão; mas não só não a sofreis, como vós mesmos cometeis a injustiça contra ele, tirando-lhe o que é seu; e defraudais, isto é, ocultamente antecipais ao juiz com o vosso presente para oprimir o irmão: e tudo isto fazeis não a estranhos, mas aos irmãos, a quem deveríeis suportar.

E, fazendo isto aos irmãos, obrais injustamente; mas não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Por isso, para que não sejais alheios ao reino de Deus, não vos enganeis, defraudando e injuriando os irmãos. Na verdade os injustos não possuirão; pois nem fornicadores, nem os que servem a ídolos, nem adúlteros, nem efeminados, que padecem, nem sodomitas, que agem, nem ladrões, nem avarentos, nem beberrões, nem maldizentes, nem rapaces possuirão o reino de Deus.

Para que os coríntios não se atemorizassem com estas coisas e desesperassem, porque talvez tivessem voltado a elas depois do batismo, consola-os Paulo, lisonjeando-os; por isso diz: não vos atemorizeis com o que foi dito; e tais fostes alguns de vós e fizestes isto que antepus; mas fostes lavados destas coisas no batismo, mas fostes santificados, isto é, confirmados pelos dons do Espírito Santo, mas fostes justificados pela posse das virtudes em nome de nosso Senhor, isto é, do Pai, e em nome de Jesus Cristo, e no Espírito de nosso Deus, que procede de ambos, coisas que nos foram recordadas no batismo.

Porque havia dito acima: por que não antes sofreis a injustiça?, dir-me-iam: não nos é lícito reaver o que é nosso? Determina Paulo que há coisas que são de tal modo lícitas que aproveitam mais se deixadas, e estas são as coisas temporais; há outras que são de tal modo lícitas que o julgamento delas não deve ser deixado, e estas são os crimes que matam a alma. O texto liga-se assim: embora eu tenha dito: sofrei a injustiça antes que reclameis, sei, contudo, que a mim e a cada um de vós tudo isto é lícito, isto é, reaver o que é vosso, entrar em litígio com o irmão, etc., mas, embora sejam lícitas, nem tudo convém, isto é, não nos tornam desembaraçados para o bem, antes impedidos. O mesmo agora acrescenta outra causa: tudo me é lícito, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma, isto é, não serei reduzido ao poder de nenhum juiz ou de coisa alguma, a ponto de ter mais caro isso do que a paz do irmão. Ou assim: não serei reduzido ao poder de nenhum juiz, a ponto de, por presente ou algum obséquio, antecipá-lo para oprimir o irmão. E não só estas coisas lícitas devem ser deixadas, mas também as necessárias aos corpos, pelas quais igualmente o irmão não deve ser inquietado, como a comida, que certamente se prepara para o ventre, e o ventre se sustenta com os alimentos; mas, embora seja tão necessária, não se deve litigar por ela; porque Deus destruirá tanto o ventre como os alimentos. Por estas coisas temporais, porque logo passam e não condenam a alma se não reclamadas, não vos preocupeis em ter litígio, mas não tolereis impune aquela fornicação; o que assim se liga: o alimento é devido ao ventre; mas o corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor, a quem deve servir em tudo; e o Senhor para o corpo que o serve; porque, sendo por si nu, Deus o veste com o ornamento das virtudes se servir ao Senhor. Na verdade o Senhor fará bem ao corpo; pois o Senhor nos ressuscitará na incorrupção. Mas antepõe a prova disto, dizendo: na verdade Deus nos ressuscitará; pois ele já ressuscitou o Senhor Jesus, em quem ressuscitou a nossa carne; e isto cumprirá em nós. E se perguntas como ressuscita, sabe que pelo seu poder. Diz isto para reprimir os coríntios, que duvidavam da ressurreição: o que se declarará nas passagens seguintes.

Disse a causa por que o corpo é devido a Deus; acrescenta a causa por que não é devido à fornicação, dizendo: o corpo não deve ser sujeito à fornicação; porque não sabeis que não só as almas, mas também os vossos corpos são membros de Cristo? A alma é membro de Cristo, porque pela razão fixa os olhos interiores na admiração de Deus; o corpo é membro de Cristo, quando pela mão ministra ao pobre, pelos pés visita o enfermo, etc. E visto que somos membros de Cristo, tomarei, então, os membros de Cristo para fazê-los membros de uma meretriz? De modo algum. Podem certamente tornar-se membros da meretriz; porque não sabeis que quem se une à meretriz se faz um só corpo com ela? De dois modos o corpo de quem se une à meretriz se faz um só: um, por aquela mistura da carne, pela qual se estreitam numa certa unidade; outro, pela participação no pecado. Prova que pela união da carne se fazem um só corpo, porque disto mais se duvidava: na verdade se fazem um só corpo; pois Moisés diz no Gênesis: Serão dois numa só carne (Gn 2,24). Isto, contudo, disse do matrimônio legítimo; mas a mesma conjunção e identidade da carne se dá na cópula do adultério, como no matrimônio. Quem se une à meretriz faz-se um só corpo com ela, mas quem se une ao Senhor é um só espírito, isto é, une-se ao Senhor na identidade do espírito. E porque tão grande é o mal da fornicação, por isso fugi da fornicação. Deve-se notar que diz "fugi da fornicação"; este pecado, com efeito, não deve ser esperado, mas antes que venha deve-se fugir dele com os auxílios que podemos; é difícil, com efeito, escapar-lhe depois que a fornicação lançou as suas setas ardentes. E por isso disse "fugi", e não "esperai", porque, onde tem alguma entrada, não é do homem expulsá-la dali.

Acrescenta a causa por que se deve fugir da fornicação, dizendo: por isso certamente deveis fugir da fornicação; pois todo outro pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Há, com efeito, alguns pecados que não trazem à carne deleite algum, como o homicídio; a mão, com efeito, se mata, não sente nisso deleite: há outros, porém, em que a carne se deleita, como quando o alimento agrada bem ao paladar, ou quando se vê o que alimenta os olhos, se ouve o que é agradável aos ouvidos, e semelhantes: mas todos estes se dizem estar fora do corpo, em comparação com a fornicação; porque quem fornica peca contra o seu próprio corpo, porque a própria alma passa por esse ato à própria carnalidade; nisto, com efeito, toda a sensualidade consente e coopera, e passa à própria carne.

Ou de outro modo, segundo Ambrósio, para que entendamos aqui a fornicação só do adultério: fugi da fornicação, isto é, do adultério; porque todo outro pecado é fora do corpo, isto é, fora da esposa; mas quem fornica peca contra o seu corpo, isto é, contra a sua esposa; porque pelo pecado de fornicação a esposa pode separar-se dele, e não por outro. O corpo do marido chama-se a esposa, porque, tornando-se marido e esposa um só corpo, o marido é a cabeça, e a mulher parte do marido no mesmo corpo.

Ou de outro modo, segundo a novidade de alguns; e esta sentença parecerá continuar-se ao que antes dissera, que aquele fornicador devia ser expulso da Igreja: todo pecado que alguém cometa, isto é, usando a razão, é fora do corpo, isto é, fora da Igreja, que é o corpo da Cabeça Cristo; porque as coisas que faz usando a razão são veniais, e por elas não é separado da Igreja; mas o que fornica peca contra o seu corpo, isto é, contra a Igreja, de cujo corpo é membro; pelo pecado de fornicação, com efeito, é separado da Igreja.

De novo a causa por que fujam da fornicação: por isso se deve fugir da fornicação, porque não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, isto é, o Espírito Santo se serve dos vossos membros quando pela vossa mão dá esmola ao pobre, pelos pés se vai visitar o enfermo? E porque assim se serve o Espírito dos vossos membros na sua administração, não o expulseis de vós fornicando. De novo, porque o Espírito está em vós com assídua morada, não o repilais, porque o Espírito que tendes de Deus, o próprio doador, com efeito, torna bastante recomendável a vós o seu dom. E por tantas causas não sujeiteis os vossos membros à fornicação. E também ignorais que não sois vossos, mas de Deus? Quem é de outro, com efeito, deve entregar-se ao império dele. Na verdade não sois vossos; pois fostes comprados, e sois servos daquele que vos comprou; e comprados não por preço leve, mas grande, porque pelo sangue de Cristo. E por isso não fornique, mas glorificai a Deus. Glorificar a Deus é anunciar a glória de Deus pela pureza da vida; quem vê, com efeito, a justiça do justo glorifica a Deus, por cuja causa e auxílio vive assim. Glorificai, digo, e trazei Deus. Trazer Deus é suportar pacientemente o peso de toda adversidade que é infligida por causa de Deus; e, pelo exemplo de paciência, levar Deus aos outros, que, vista a paciência deste, se alegrem de sofrer afrontas pelo nome de Cristo. Trazei, digo, Deus não só na alma, mas também em vosso corpo, para que a pureza do vosso corpo seja digna de trazer o jugo de Cristo.

Capítulo 7

Quanto ao que me escrevestes: É bom ao homem não tocar mulher; mas, por causa da fornicação, cada um tenha a sua própria esposa, e cada mulher tenha o seu próprio marido. O marido pague à mulher o que lhe é devido; e do mesmo modo a mulher ao marido. A mulher não tem poder sobre o próprio corpo, mas o marido; e do mesmo modo o marido não tem poder sobre o próprio corpo, mas a mulher. Não vos defraudeis um ao outro, a não ser de comum acordo, por algum tempo, para vos dedicardes à oração; e depois voltai a estar juntos, para que Satanás não vos tente por causa da vossa incontinência. Isto, porém, digo por indulgência, e não por mandamento. Quereria que todos fôsseis como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom: um de um modo, outro de outro. Digo aos solteiros e às viúvas: é bom para eles se permanecerem assim, como eu. Mas, se não se contêm, casem-se. Pois é melhor casar-se do que abrasar-se. Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido; e, se se separar, permaneça sem casar-se ou reconcilie-se com o marido. E o marido não repudie a mulher. Quanto aos outros, digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher infiel, e esta consente em habitar com ele, não a repudie; e se alguma mulher fiel tem marido infiel, e este consente em habitar com ela, não repudie o marido; pois o marido infiel é santificado pela mulher fiel, e a mulher infiel é santificada pelo marido fiel; de outro modo, os vossos filhos seriam impuros; agora, porém, são santos. Se o infiel se separa, separe-se; pois o irmão ou a irmã não está sujeito à servidão em tais casos; mas Deus nos chamou à paz. Pois, como sabes, mulher, se salvarás o marido? Ou como sabes, marido, se salvarás a mulher? Mas cada um ande conforme o Senhor lhe repartiu, cada um como Deus o chamou; e assim ensino em todas as Igrejas. Foi alguém chamado sendo circunciso? Não dissimule a circuncisão. Foi alguém chamado sendo incircunciso? Não se circuncide. A circuncisão não é nada, e a incircuncisão não é nada; mas sim a observância dos mandamentos de Deus. Cada um permaneça na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes; mas, se podes tornar-te livre, aproveita antes a ocasião. Pois o que foi chamado no Senhor sendo escravo é liberto do Senhor; do mesmo modo, o que foi chamado sendo livre é escravo de Cristo. Fostes comprados por preço; não vos torneis escravos dos homens. Cada um, irmãos, permaneça diante de Deus naquilo em que foi chamado. Quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou um conselho, como quem alcançou misericórdia do Senhor para ser fiel. Julgo, pois, que isto é bom por causa da necessidade presente: que é bom ao homem ficar assim. Estás ligado a uma mulher? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures mulher. Mas, se te casares, não pecaste. E, se a virgem se casar, não pecou; terão, porém, tais pessoas tribulações na carne. Eu, contudo, vos poupo. Digo, pois, isto, irmãos: o tempo é breve; o que resta é que os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se não usassem; pois passa a figura deste mundo. Quero que estejais sem preocupação. Quem não tem mulher cuida das coisas do Senhor, de como agradar a Deus; quem tem mulher cuida das coisas do mundo, de como agradar à mulher, e está dividido. E a mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor, para serem santas de corpo e de espírito; a casada cuida das coisas do mundo, de como agradar ao marido. Digo isto para o vosso proveito; não para vos lançar um laço, mas para o que é honesto e vos dá a possibilidade de suplicar ao Senhor sem impedimento. Se alguém julga que se porta indecorosamente com sua virgem, por ser ela já de idade avançada, e que assim deve ser, faça o que quiser; não peca se ela se casar. Mas quem está firme em seu coração, não sob necessidade, mas tendo poder sobre a sua vontade, e decidiu em seu coração guardar a sua virgem, faz bem. Assim, quem dá a sua virgem em casamento faz bem; e quem não a dá faz melhor. A mulher está ligada pela lei enquanto vive o marido; se o marido morrer, fica livre; case-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor. Será, porém, mais feliz se permanecer assim, segundo o meu conselho; e creio que também eu tenho o Espírito de Deus.

Comentário

Aqui se acaba a questão daquele fornicador; mas, por esta ocasião, porque começara a falar de fornicação, responde convenientemente aos coríntios, que por cartas o haviam interrogado se é lícito também celebrar matrimônios ou se a necessidade da religião cristã os obrigaria a perseverar na continência. Havia, com efeito, entre eles alguns religiosos além da medida, que diziam que ninguém que permanecesse na obra do matrimônio poderia salvar-se; mas o Apóstolo, sabendo a fraqueza da fé deles, tolerava isso neles, não porque cresse que devessem ser salvos, mas para assim nutrir a Igreja, conduzindo-a pouco a pouco à perfeição. O texto liga-se assim: deve-se fugir da fornicação; mas não de modo a destruir o matrimônio, e sim para que, a fim de evitar a fornicação, cada um tenha a sua própria esposa. E isto digo respondendo às coisas que me escrevestes, interrogando se era lícito casar-se ou se era necessário conter-se. E sobre isto respondo-vos que é bom ao homem não tocar mulher naquele modo de coabitar; mas, contudo, para evitar a fornicação, cada um tenha a sua própria esposa, e cada mulher tenha o seu próprio marido; isto concedo. Quando diz "a sua própria esposa", exclui aqueles a quem não é lícito tomar esposa legitimamente, como os que servem ao altar. Quando diz "cada mulher tenha o seu marido", exclui as que não estão legitimamente unidas e não têm maridos, segundo aquilo no Evangelho: «Este que agora tens não é teu marido» (Jo 4,18). Embora aqui ponha apenas um bem do matrimônio, a saber, evitar a fornicação, são, contudo, estes: a intenção da prole, a fidelidade do leito, isto é, que não fornique, e a figura do verdadeiro matrimônio de Cristo e da Igreja: quando Deus uniu a primeira mulher ao homem, formada da costela do homem, figurou a Igreja a ser unida a Cristo, formada do seu lado na Cruz.

Nem marido e esposa convivam sem comércio (como pregam alguns falsos apóstolos), como irmão e irmã que coabitam; mas o marido pague à mulher o que lhe é devido; e do mesmo modo a mulher ao marido, sabendo isto: que a mulher não tem poder sobre o próprio corpo, de modo a conter-se se quiser, mas o marido. Do mesmo modo o marido não tem poder sobre o próprio corpo, mas a mulher, isto é, nenhum dos dois tem poder de conter-se sem o consentimento do outro. E por isso não vos defraudeis um ao outro, isto é, nenhum se subtraia ao outro na obra do matrimônio, a não ser que isso se faça de comum acordo de ambos; e isto não continuamente, mas por algum tempo, e por esta causa: para vos dedicardes à oração mais puramente. Se é preciso que os casados legitimamente se contenham para merecer orar dignamente, muito mais os que fornicam, e os que não só oram, mas cujas mãos também tratam os Sagrados mistérios do Senhor e os dispensam ao povo. E, passado o tempo da oração, voltai a estar juntos na própria obra do matrimônio, para que Satanás não vos tente, cessando do lícito, estimulando-vos ao ilícito. E isto digo por causa da vossa incontinência; sei, com efeito, a vossa fragilidade, que deve ser antes nutrida por indulgência do que aterrorizada por aspereza.

Embora eu vos tenha concedido tomar esposa para evitar a fornicação, digo isto por indulgência, para não parecer constranger-vos intemperantemente; não o digo por mandamento, para fazer disso um preceito; se isto fosse preceito, com efeito, todos tomariam esposas por necessidade. E, embora assim vos conceda, quereria, contudo, que todos fôsseis como eu mesmo, isto é, que todos se contivessem como eu. Desta palavra entende-se que Paulo (e o atesta Ambrósio) foi virgem; mas alguns atestam que antes tivera esposa. Aqui também objetam, porque diz querer que todos se contenham, que quereria destruir o matrimônio; mas nada é: porque, se todos, pelo exemplo de Paulo, se contivessem, os mesmos obrigariam alguns de si a contrair matrimônio, para que não perecesse a boa instituição de Deus. Diz também bem Agostinho que, se todos fossem como Paulo, logo se completaria a cidade de Deus e o número dos irmãos.

Para que, por ter dito: quero que sejais como eu, não julgassem que não se salvariam a não ser que se assemelhassem a ele pela continência, contra isto diz Paulo: embora eu diga que quereria que me imitásseis pela continência, cada um de vós tem o seu próprio dom, suficiente para a salvação, que eu talvez não tenha; e este dom o tem de Deus: um de um modo, por ser pródigo na esmola; outro de outro, como forte na paciência, grande na oração. Assim digo dos casados; digo, porém, aos solteiros, isto é, às virgens de ambos os sexos, e às viúvas, de ambos os sexos, que é bom para eles se permanecerem assim contendo-se, como muitos e eu me contemos. Mas, se não se contêm, isto é, não querem ou não podem conter-se, digo por indulgência: casem-se. Por isso concedo casar-se a tais, porque é melhor casar-se, não digo que fornicar, mas (o que é menos) do que abrasar-se, isto é, ser agitado e vencido pelos desejos da libido. Aos solteiros e às viúvas digo uma coisa por indulgência, outra por conselho; aos casados, porém, não só digo, mas ordeno, não eu, mas o Senhor, isto é, não por minha autoridade, mas pela do Senhor, que ordena no Evangelho, que a mulher não se separe do marido. Este preceito, porque era bastante conhecido, pô-lo imperfeito, omitindo isto: salvo por causa de fornicação. Se se separar a esposa do marido por causa de fornicação ou por consentimento de continência, ordeno que permaneça sem casar-se ou se reconcilie com o seu marido. E o marido igualmente não repudie a mulher, a não ser pela causa mencionada, a fornicação. Aqui de novo pôs o preceito imperfeito, porque o havia antecipado; e assim se deve entender: o marido não repudie a mulher a não ser por fornicação; e se por isso a repudiar, permaneça sem casar-se ou se reconcilie com a esposa.

A estes não ordeno eu; pois aos outros digo só eu, não o Senhor, isto é, por minha autoridade; não que o Senhor não consinta, mas porque não encontro a autoridade dele sobre este assunto na Escritura. Aos outros digo, isto é, aos unidos pela lei do matrimônio, fiel e infiel, e vice-versa; isto certamente digo: se algum irmão fiel tem mulher infiel, e esta consente em habitar com o fiel, não a repudie, nem a despreze por ser infiel, por ser ele fiel. E, ao contrário, se alguma mulher fiel tem marido infiel, e este consente em habitar com ela, não repudie o marido. Na verdade a mulher fiel não deve repudiar o marido infiel; pois muitas vezes o marido infiel é santificado, isto é, tornado fiel, pela mulher fiel que coabita com ele e muitas vezes o exorta à fé. Ou de outro modo: a mulher fiel não repudie o marido infiel; pois o marido infiel é santificado, isto é, puro, na própria obra do matrimônio, e isto pela mulher fiel, isto é, pela virtude da fé que a mulher tem. E de novo: o marido fiel não repudie a mulher infiel; pois muitas vezes a mulher infiel é santificada, recebida a fé, pelo marido fiel que a instrui. Ou de outro modo: a mulher infiel é santificada e pura no próprio coito, prevalecendo a fé do seu marido.

Não devem, portanto, repudiar-se mutuamente pelas razões ditas, mas permanecer juntos; porque de outro modo, isto é, se um repudiar o outro, os vossos filhos seriam impuros, isto é, não legítimos mas espúrios; se o conúbio se dissolve, com efeito, não se crê ter sido legítimo, e por isso os filhos não são legítimos. Se se repudiam, os filhos são impuros; mas agora, isto é, se coabitam, são santos, isto é, julgam-se legítimos. Ou de outro modo: por isso não vos separeis; de outro modo, isto é, se agirdes de outro modo, os vossos filhos seriam impuros, isto é, permaneceriam na infidelidade; se um dos pais, sendo infiel, passasse à fé, os filhos aderiram certamente àquele dos pais que permanecesse na seita anterior, na qual os filhos nasceram e na qual se acostumaram; e por isso é bom, por amor dos filhos, que os pais permaneçam juntos. Os vossos filhos seriam impuros pela infidelidade; mas agora, se os pais permanecerem juntos, são santos, isto é, purificados pela fé.

Ordeno que o fiel, marido ou mulher, não se separe do infiel; mas se o infiel, marido ou esposa, se separa e não consente em habitar com o fiel, separe-se; não siga aquele que é fiel. Por isso digo: permita-se ao infiel separar-se, ficando o fiel; pois o irmão ou a irmã fiel não está sujeito à servidão em tais coisas, que destruiriam a fé. Devem certamente servir-se mutuamente pela lei do matrimônio, mas não contra a fé. Digo: se se separa, separe-se; mas preferiria, contudo, que coabitásseis em paz; pois Deus nos chamou à paz na fé, isto é, para que não rompêssemos o laço do matrimônio; se não quisesse que permanecêssemos no matrimônio, com efeito, teríamos antes de ser afastados do matrimônio e depois chamados à fé.

Deve-se notar que há coisas em que Deus chama o homem, nas quais a obra não contradiz à fé, como Pedro na pesca, a quem, depois da vocação, foi lícito voltar a pescar; há outras de que chama, às quais, depois da fé, não é lícito voltar, como Mateus, chamado da coletoria, que depois não voltou à obra da coletoria. Daí aparece que a fé de Cristo a ninguém tira o estado anterior, contanto que não destrua a fé.

Por isso deveis coabitar em paz, porque como sabes, mulher fiel, se salvarás o marido infiel? Ou como sabes tu, marido fiel, se salvarás a mulher infiel? a não ser que cada um de vós ande como Deus repartiu a cada um de vós, ao marido, a saber, para reger a esposa, à esposa, para servir ao marido. E como sabeis ainda isto, a não ser que cada um de vós ande assim como Deus chamou cada um, de modo que, se foi chamado no matrimônio, permaneça no matrimônio? Se coabitardes, então poderá saber-se se o fiel lucrará o infiel; mas, se vos separardes, como se saberá? E isto vos digo, permanecer juntos no matrimônio, como ensino em todas as Igrejas. Diz isto porque alguns lhe imputavam que concedia aos coríntios (por serem demasiado carnais) matrimônios que interditava inteiramente às outras Igrejas.

Assim como acabou de dizer que não se deve mudar o estado do matrimônio por causa da fé, assim por semelhança concede outros estados em que foram chamados, salva, porém, a integridade da fé; e aquilo "como ensino em todas as Igrejas" liga à letra seguinte assim: quem foi chamado no matrimônio, permaneça nele; e como ensino em todas as Igrejas, se alguém foi chamado sendo circunciso, isto é, nos ritos dos judeus que não violam a fé, não dissimule a circuncisão, isto é, o costume da gentilidade, para que não seja forçado a usar os alimentos de que não costumava usar, que nem prejudicam nem ajudam se comidos ou não. De novo, se alguém foi chamado sendo incircunciso, isto é, na gentilidade, não se circuncide, isto é, não seja forçado a seguir os ritos judaicos. Nenhum dos dois deve ser forçado, porque a circuncisão não é nada, e a incircuncisão não é nada, isto é, nem abster-se nem comer estes alimentos aproveita ou prejudica para a bem-aventurança, mas a observância dos mandamentos de Deus basta para a alcançar.

E como do circunciso e do incircunciso, digo isto universalmente: que cada um que vem à fé permaneça naquele estado em que foi chamado. E saiba que esse estado é vocação de Deus; porque, como acima disse, se Deus negligenciasse este estado, nunca o teria chamado à fé enquanto estivesse nele. E por isso, se foste chamado sendo escravo, não te preocupes em permanecer na servidão; mas, se podes de algum modo tornar-te livre, aproveita antes a própria servidão, porque, quanto mais fores agora deprimido, tanto mais serás exaltado no futuro. Por isso digo: aproveita antes a servidão, porque o que foi chamado no Senhor sendo escravo, permanecendo no Senhor, é liberto do Senhor, isto é, servo do Senhor; e igualmente é escravo de Cristo aquele que foi chamado sendo livre. Escravo e liberto significam aqui o mesmo, mas deu ao escravo o vocábulo mais honroso, para atraí-lo mais a si. Porque ambos sois servos de Cristo, por isso não vos torneis escravos dos homens, de modo que se perca em vós a servidão de Cristo. E a causa antecipada é: fostes comprados por preço do sangue de Cristo. E, embora eu diga: não vos torneis escravos dos homens, cada um, irmãos, isto é, fiéis, permaneça naquilo em que foi chamado, na servidão ou na liberdade, diante de Deus.

Para evitar a fornicação, concedeu acima que cada um que quisesse tivesse a sua; deu também o preceito do Senhor sobre os casados, que não se separassem; deu o seu preceito sobre aqueles dos quais um fosse fiel, que não se separasse do infiel: mas, porque não dera preceito de permanecer em virgindade, os coríntios podiam perguntar por que o omitira. A isto responde Paulo. O texto liga-se assim: sobre os casados dei o preceito do Senhor, sobre aqueles dos quais um é fiel dei o meu preceito; quanto às virgens, porém, não determino preceito, porque não tenho mandamento do Senhor a respeito; não encontro, com efeito, nas Escrituras que o Senhor tenha ordenado que todos perseverem na virgindade. E porque não tenho preceito do Senhor sobre isto, dou o conselho acima dito: é bom às virgens se permanecerem assim como eu, etc. Agora aprova este conselho, dizendo: este meu conselho deve ser mantido; digo-o como quem alcançou misericórdia do Senhor. Chama aqui misericórdia tanto a remissão dos pecados como sobretudo o seu apostolado, ambos os quais recebeu do Senhor por graça. Alcancei assim misericórdia para ser fiel no apostolado confiado; dispenso, com efeito, fielmente os mistérios da fé a mim confiados por Deus; como nisto sou fiel, não se deve duvidar de que o meu conselho seja útil. E porque sou fiel, julgo, portanto, segundo a fé, que este conselho dito é bom, a saber, permanecer em virgindade, se podem, como eu; é certamente bom por causa da necessidade presente, isto é, que cada dia pesa sobre os casados, em nutrir os filhos e em sustentar-se mutuamente, etc. Maior bem é a bem-aventurança permanente da virgindade, que se adquire pelo mérito da virgindade, do que evitar as penúrias do mundo; mas aos ouvintes fracos apresenta o bem temporal da virgindade, porque, sendo carnais, sabia que podiam ser induzidos ao bem mais pela utilidade da carne do que pela do espírito, porque não eram espirituais. Isto julgo bom porque assim é na verdade da coisa; o que diz assim: é bom ao homem, de ambos os sexos, ficar assim, isto é, permanecer na virgindade ou continência.

Porque preferira tanto o bem da continência, para que por isso os casados não julgassem que devem desfazer os matrimônios e conter-se, opondo-se a isto diz Paulo: embora eu tenha dito que é bom seguir a castidade, contudo, estás ligado a uma mulher? Não procures separar-te; boa é, com efeito, a castidade conjugal. Sentença oposta: mas porque é melhor a continência vidual, estás livre de mulher? Não procures mulher, mas contém-te. De novo, para que os solteiros não dissessem: é verdade que os casados não devem separar-se, mas nós, que não estamos presos na lei do matrimônio, pecamos se nos casarmos. Contra isto Paulo: embora seja bom ao homem estar em castidade, se te casares, contudo, não pecaste, tu, homem; e se a virgem se casar, não pecou. Mas, embora às virgens seja lícito casar-se sem pecado, contudo, se se casarem, terão tais pessoas tribulações na carne, isto é, as que seguem o modo do matrimônio, a saber, os gemidos do ventre, o sustento dos filhos, e semelhantes. As casadas terão, sim, tribulação na carne, mas eu vos poupo a vós que quereis guardar a virgindade, enquanto vos provoco àquelas coisas que excluem as tribulações da carne e as solicitudes mencionadas.

Depois de conceder que as que não querem conter-se se casem, determina como devem comportar-se no matrimônio segundo a salvação da alma, dizendo: porque concedi tomar esposa sem pecado, portanto, isto é, para que permaneçais sem pecado no matrimônio, determino-vos que os que têm esposas sejam como se não as tivessem, isto é, não servindo mais à volúpia do que a Deus. E os que choram por danos seculares, assim chorem por fora que por dentro se alegrem pela esperança; e os que se alegram pela prosperidade temporal, que por dentro temam espiritualmente, nem se deixem corromper pela felicidade, nem quebrar pela adversidade. Que devam assim comportar-se, digo-o, irmãos, porque o tempo é breve e o fim está próximo; por isso, porque o tempo é breve, o que resta é isto, isto é, só isto se deixa à salvação: que os que têm esposas sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem; de modo que tudo o que há neste mundo, pela brevidade do tempo, pareça antes não ser do que ser. E os que compram, como se não possuíssem, isto é, usem como de coisas sem as quais não podem, mas não se deleitem; e os que usam deste mundo, como se não usassem, isto é, usem por necessidade, nada por deleite. Por isso se deve assim rejeitar o mundo, porque passa a figura deste mundo. O mundo, na verdade, não passará, mas as formas de suas substâncias serão destruídas, de modo que o ouro, perdida a cor, voltará à terra, e as demais coisas igualmente. Condenados, com efeito, os ímpios, a figura deste mundo perecerá pela conflagração dos fogos mundanos, como aconteceu pela inundação das águas mundanas no dilúvio.

E porque a figura do mundo passa, por isso quero que estejais sem preocupação, para que, sobrecarregados de coisas terrenas, não incorrais em dano das celestes. Diz "sem preocupação" para que os casados se desonerem quanto podem das coisas mundanas; os continentes sejam isentos de toda preocupação mundana. E assim prossegue, dizendo: quero que todos estejam sem preocupação, mas, contudo, um está mais desembaraçado para isso, outro mais impedido; quem não tem mulher, virgem ou continente, cuida, isto é, pode cuidar, das coisas do Senhor, isto é, das que pertencem a Deus; é-lhe lícito também estar solícito de como agradar a Deus. Quando diz "cuida das coisas do Senhor", entende as que bastam à salvação e sem as quais ninguém se salva; quando diz "como agradar a Deus", entende aquela suma perfeição, a que não basta só o que é necessário à salvação, se não tiver distribuído os seus bens aos pobres, abandonado o mundo, seguido nu a Cruz nua. Quem não tem esposa, assim lhe é lícito; quem, porém, tem mulher, por necessidade, cuida das coisas do mundo, para ministrar à esposa e aos filhos, sem as quais não podem subsistir; cuida também de como agradar à mulher, dando joias, preparando adornos: e assim está dividido, porque em grande parte se distrai no cuidado da esposa e do cultivo da família, e bem pequena parte lhe é deixada para o serviço de Deus. Assim como o homem continente cuida das coisas do Senhor, assim também a mulher não casada, isto é, a virgem e a viúva, cuida das coisas do Senhor, para ser santa de corpo e de espírito, isto é, por ambas as integridades, do corpo e do espírito; a casada, porém, cuida das coisas do mundo, isto é, das necessárias à casa, e de como agradar ao marido nas coisas supérfluas.

E, comendando-vos assim, a vós continentes, o bem da continência, digo isto, não de outro modo senão para o vosso proveito, a saber, não para vos lançar um laço, forçando-vos a fazer voto de virgindade, voto que depois quebrásseis; mas digo-o exortando-vos ao que é honesto, isto é, alheio ao contágio, e que vos dá a possibilidade de suplicar ao Senhor sem impedimento da tribulação da carne; por isto, com efeito, podeis observar a vossa pureza, pois a tal não vos impede a tribulação da carne, que pesa sobre as casadas.

Talvez os pais dissessem: às virgens é lícito casar-se, mas é culpa nossa não obrigarmos as nossas filhas a permanecer em virgindade. Contra isto diz Paulo: embora eu tenha dito que os continentes têm a possibilidade de servir ao Senhor sem impedimento, que não têm as casadas, se alguém julga que se porta indecorosamente com sua virgem, isto é, teme ser infamado por causa de sua virgem que quer casar-se, por ser ela já de idade avançada, não só adulta, mas passada da idade; e se assim deve ser, porque, se não se casar, a infâmia é próxima, faça o pai o que quer a filha; nisto, com efeito, o pai não peca se ela se casar, ela que prefere o matrimônio à castidade. De novo, porque alguns pais forçam violentamente a casar-se filhas que querem permanecer no propósito de virgindade, por cobiça do dote e para terem acréscimo de linhagem, e por semelhantes razões, proíbe Paulo que isto se faça. O texto liga-se assim: do pai que permite à filha que quer casar-se, digo que não peca; quanto àquele que concede à filha que quer permanecer em virgindade, que outra coisa direi senão que faz bem? Aquele que está firme em seu coração, isto é, que dispõe com racional conselho; aquele, digo, firme e perseverante, nisto certamente não sob necessidade dita, porque da filha não teme infâmia, mas tendo poder sobre a sua vontade, que se realize, porque a filha consente; e que decidiu isto, não só estabeleceu, mas deliberou em seu coração, considerando o peso do matrimônio, admirando o decoro da virgindade: este, se decidiu guardar a sua virgem, faz bem, enquanto a guarda na virgindade querendo ela. Visto que quem permite à que quer casar-se não peca, e quem guarda na virgindade a que não quer casar-se faz bem; assim, quem dá a sua virgem em casamento, querendo ela, faz bem; e quem não a dá, não querendo ela ser dada, faz bem e melhor.

Como disse das virgens, que a que se casa não peca, e a que não se casa faz melhor; assim das mulheres, que a que está unida ao marido não peca, mas a que permanecer em castidade será mais feliz; o que diz assim: a mulher está ligada enquanto vive o seu marido; se o marido morrer, fica livre da lei do marido, e é-lhe lícito casar-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor, isto é, segundo o costume legal do matrimônio. Mas, embora lhe seja lícito casar-se, será, contudo, mais perfeita se permanecer assim, isto é, sem casar-se, segundo o meu conselho. Que importa isso, dir-me-iam, se tu aconselhas assim? A isto Paulo: o meu conselho não deve ser desprezado; porque creio que, como os outros Apóstolos, também eu tenho o Espírito de Deus, e pelo Espírito a graça do conselho.

Capítulo 8

Quanto às carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento ensoberbece, mas a caridade edifica. Se alguém julga saber alguma coisa, ainda não conheceu como convém conhecer. Mas se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele. Quanto, pois, ao comer das carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus senão um só. Pois, embora haja os chamados deuses, quer no céu, quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas e para quem nós existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem existem todas as coisas e por quem nós existimos. Mas nem em todos há este conhecimento. Alguns, com a consciência ainda do ídolo até agora, comem como coisa sacrificada ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, é contaminada. Ora, o alimento não nos recomenda a Deus. Pois, se comermos, nada ganhamos; se não comermos, nada perdemos. Vede, porém, que esta vossa liberdade não se torne tropeço para os fracos. Pois, se alguém te vir, a ti que tens conhecimento, sentado à mesa num templo de ídolos, não será a sua consciência, que é fraca, levada a comer das carnes sacrificadas aos ídolos? E perecerá, por causa do teu conhecimento, o irmão fraco, por quem Cristo morreu? Pecando assim contra os irmãos e ferindo a sua consciência fraca, pecais contra Cristo. Por isso, se um alimento escandaliza o meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar o meu irmão.

Comentário

Havia um erro entre os coríntios acerca do uso dos alimentos; alguns, com efeito, sabendo que todas as coisas são puras, comiam tudo com fé sã; os que eram fracos na fé, porém, vendo que os mais prudentes comiam as carnes sacrificadas aos ídolos, criam que o faziam sob veneração do ídolo, e diziam: é bom que voltemos às carnes sacrificadas aos ídolos; se não entendessem, com efeito, que o ídolo é algo, não comeriam as carnes sacrificadas a eles os que entre nós são mais prudentes. Como alguns deles assim erravam, os mais prudentes não queriam, contudo, abster-se daqueles alimentos, e assim feriam as consciências dos fracos. E sobre tais começa aqui Paulo, dizendo: sobre os matrimônios me interrogastes por carta; mas sobre as coisas sacrificadas aos ídolos nada me perguntastes; e não era preciso, porque sabemos, isto é, vós o sabeis e eu o sei; e como igualmente sabemos, não era preciso que me perguntásseis. E diz isto ironicamente. Sabemos certamente sobre estas coisas, porque todos temos, não só este, mas qualquer conhecimento. Agora reprova este conhecimento pelo mal que dele se segue, dizendo: nós sabemos, sim; mas este conhecimento não é muito louvável, porque ensoberbece, isto é, vos faz ensoberbecer contra os irmãos fracos, em quem não agis por caridade, mas mal; porque a caridade edifica, nutrindo as virtudes até a consumação da perfeição; e por isso o vosso conhecimento ensoberbece, porque não é temperado pela caridade.

Reprovou o conhecimento deles pelo mal da soberba que o segue; agora o próprio conhecimento, mostrando que ignoram aquilo em que se julgam sábios: embora eu tenha dito que sabeis, contudo, se alguém julga saber alguma coisa, como vós, sem caridade, certamente este ainda não conheceu como convém conhecer: o modo, com efeito, é que o conhecimento seja temperado pela caridade. Sentença oposta: quem se ensoberbece não conheceu o modo do conhecimento; mas se alguém ama a Deus, porque tem caridade para com o próximo, esse é conhecido por ele, isto é, reconhecido e aprovado por Deus.

Agora determina o conhecimento deles, em que é louvável e em que reprovável, dizendo: sabemos que quem ama a Deus é conhecido por Deus; quanto às carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos, isto é, vós, firmes na fé, sabeis comigo, que o ídolo nada é no mundo, isto é, na criação do mundo. Deus criou, sim, a pedra ou a madeira de que se forma o ídolo, mas não fez a obra do ídolo; não provém a essa criatura de Deus que se chame ídolo, mas do artífice. E sabeis também que não há outro Deus senão um só, donde consta que o ídolo não é Deus. Na verdade há um só Deus; pois, embora haja os chamados deuses, quer no céu, como os Anjos, quer na terra, como os Apóstolos, segundo aquilo: «Eu disse: Sois deuses» (Sl 81,6) — digo bem, os chamados deuses, como há muitos deuses em verdade e muitos senhores entre os deuses, como no céu os Arcanjos dominam os Anjos, na terra os Apóstolos os mártires — embora haja muitos deuses, para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem no princípio foram criadas todas as coisas, e nós criados subsistimos nele pelo seu governo; e um só Senhor Jesus Cristo (e bem acrescentou sobre a unidade de Cristo com o Pai; disto, com efeito, hesitavam os coríntios), por quem Jesus Cristo foram feitas todas as coisas; o Pai, com efeito, criou tudo no Filho: e nós por ele, Cristo mediador, estamos em Deus.

Mas, embora tenhamos nestas coisas conhecimento sadio, nosso conhecimento não é, contudo, igualmente perfeito em todos: na verdade não em todos; alguns, com efeito, de fé não íntegra, com a consciência do ídolo ainda até agora, pela qual creem que o ídolo deve ser venerado, comem como coisa sacrificada ao ídolo, isto é, o que foi imolado ao ídolo sob veneração do ídolo; e, fazendo isto, a sua consciência é contaminada, sendo fraca pela imperfeição da fé. Contamina-os, sim, o alimento de que se servem porque nos veem servir; mas esse alimento não nos recomenda a Deus; nunca, com efeito, seremos mais caros a Deus por esse alimento; por isso não deveríamos ofender nisso. Na verdade esse alimento não nos recomenda a Deus: pois se não comermos esse alimento, nem por isso perderemos diante de Deus; nem se comermos, nem por isso ganharemos em bem.

E visto que nada impede abster-se, nada ajuda comer, vede, pois, que esta vossa liberdade não prejudique: é lícito, sim, segundo a vossa fé sadia, mas não de modo lícito que por isso se torne tropeço para os fracos, isto é, que pelo nosso exemplo, comendo carnes sacrificadas aos ídolos, pequem, porque sob veneração do ídolo. Digo, por isso, que não se faça tropeço, porque se alguém de fé não sadia te vir, a ti que tens conhecimento de que toda criatura de Deus é pura e não se contamina por causa do ídolo, se a fé for sadia, sentado à mesa num templo de ídolos, isto é, no lugar em que se imola ao ídolo, vendo isto o fraco, não será a sua consciência, sendo fraca, animada pelo teu exemplo a comer carnes sacrificadas aos ídolos sob veneração do ídolo? E assim, por consciência fraca, perecerá, por causa do teu conhecimento, o irmão fraco, por cujo exemplo comeu? Não julgues isto leve, porque este é o irmão por quem Cristo morreu, e por quem não queres deixar um pouco de comida que nada te confere. E porque por causa do teu conhecimento perecerá o irmão, pecas contra o irmão; pecando assim contra os irmãos e ferindo com o vosso alimento a sua consciência fraca, pecais contra Cristo, que morreu por causa do fraco. Por isso, isto é, porque pecar contra o irmão é pecar contra Cristo, se um alimento escandaliza o meu irmão, nunca mais comerei carne. É verdade que na eternidade ninguém usará de alimento de carne; mas diz assim para mais atemorizar do escândalo do irmão. Como se dissesse que, se se comesse alimento de carne na eternidade, rejeitá-lo-ia para não pôr tropeço ao irmão. Por isso não quereria comer carne eternamente; não só para não fazer pecar o meu irmão, mas para não o escandalizar, isto é, para não o contristar ao menos no ânimo.

Capítulo 9

Não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus Cristo, nosso Senhor? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se para outros não sou apóstolo, ao menos o sou para vós; pois sois vós o selo do meu apostolado no Senhor. A minha defesa perante os que me interrogam é esta. Porventura não temos direito de comer e beber? Porventura não temos direito de levar conosco uma mulher irmã, como os demais Apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? Ou só eu e Barnabé não temos direito de não trabalhar? Quem jamais serve como soldado à sua própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Porventura digo isto à maneira humana? Não o diz também a lei? Pois está escrito na lei de Moisés: Não porás mordaça ao boi que debulha (Dt 25,4). Porventura Deus se preocupa com os bois? Ou não o diz certamente por nossa causa? Sim, por nossa causa foi escrito, porque o que lavra deve lavrar com esperança, e o que debulha, na esperança de participar do fruto. Se nós semeamos entre vós os bens espirituais, é demais que colhamos os vossos bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, por que não antes nós? Mas não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pôr obstáculo ao Evangelho de Cristo. Não sabeis que os que trabalham no santuário comem do que vem do santuário, e os que servem ao altar participam do altar? Assim também o Senhor ordenou aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho. Eu, porém, de nada disto me servi. E não escrevi isto para que assim se faça comigo; pois seria melhor para mim morrer do que alguém esvaziar a minha glória. Pois, se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar; porque é uma necessidade que me incumbe; e ai de mim se não anunciar o Evangelho! Se o faço de boa vontade, tenho recompensa; se contra a vontade, é uma dispensação que me foi confiada. Qual é, então, a minha recompensa? Que, ao pregar o Evangelho, o apresente gratuitamente, sem usar do meu direito no Evangelho. Pois, sendo livre de todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus; para os que estão sob a lei, como se estivesse sob a lei (embora eu mesmo não estivesse sob a lei), a fim de ganhar os que estavam sob a lei; para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (embora não estivesse sem a lei de Deus, mas na lei de Cristo), a fim de ganhar os que estavam sem lei. Fiz-me fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar a todos. Faço tudo por causa do Evangelho, para dele me tornar participante. Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm, mas só um recebe o prêmio? Correi de modo a alcançá-lo. Todo aquele que luta no certame abstém-se de tudo; e aqueles, para receberem uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível. Eu, portanto, corro assim, não como à toa; assim luto, não como quem açoita o ar; mas castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser reprovado.

Comentário

Dissuade de novo do tropeço do irmão, dizendo: embora a vossa fé seja sadia, deveis, contudo, abster-vos de alimentos pelos quais se ofende a fraqueza do irmão, como vedes em mim, que, tendo poder de receber bens temporais dos coríntios a quem prego, não quero, contudo, dar tropeço à fraqueza deles. E o que poderia receber deles por direito de pregação, antepõe, dizendo: posso receber de vós bens carnais, se quiser; porque não sou livre? não tenho a liberdade que têm os outros Apóstolos, que recebem sustento da pregação? Assim diz porque aqueles falsos apóstolos haviam voltado em mal o seu bem, dizendo: por isso não recebe de vós o necessário, porque sabe que não é Apóstolo, já que só são Apóstolos os que conviveram com Cristo na terra, e este não o viu. Na verdade sou livre como os outros: não sou apóstolo? Não, diriam, porque não viste a Cristo. Contra isto Paulo: sou certamente Apóstolo; não vi Cristo, nosso Senhor? Viu-o na hora da vocação, quando lhe foi dito: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» (At 9,4). Viu-o de novo, quando a ele orando no templo foi dito: «Eu te enviarei para longe, às nações» (At 22,21). Sou Apóstolo porque vi a Cristo; sou-o também porque não sois vós a minha obra, isto é, do meu apostolado, no Senhor, cuja graça opera em mim e em vós sem mérito algum? Vós sois certamente a minha obra no Senhor, porque ainda que, isto é, embora para outros não seja apóstolo (o que certamente sou), ao menos o sou para vós. Na verdade para vós sobretudo; pois sois vós o selo do meu apostolado, isto é, porque em vós foram seladas e expressas as graças de Deus pelo ministério do meu apostolado, por isso vós sois a aprovação do meu apostolado; e tudo isto no Senhor, porque tanto o meu apostolado como as graças a vós dadas vêm da misericórdia de Deus. Dizia isto porque os coríntios haviam recebido diversas graças, como curas e gêneros de línguas; graça que preferiam às outras, sendo a mínima, como ele mesmo dirá. E que pelas graças recebidas sois o selo do meu apostolado, esta é a minha defesa, isto é, por isso sou defendido e comprovado Apóstolo perante os que me interrogam, isto é, os que duvidam de mim, porque não convivi corporalmente com Cristo, se sou Apóstolo ou não.

Depois de provar que é Apóstolo, prova que por direito do apostolado pode receber bens temporais daqueles a quem ministra os espirituais, dizendo: visto que, como se provou, sou Apóstolo, porventura não temos direito de comer e beber junto daqueles a quem pregamos? E porventura não temos direito de levar conosco uma mulher, isto é, de levar conosco por toda parte mulheres que nos ministrem dos seus bens temporais; mulher, digo, não na obra da carne, mas irmã na fé e na piedosa conversação. Esta forma de ter mulheres fiéis em seu séquito tiraram-na os Apóstolos do Senhor Jesus, que quis que mulheres coabitassem com ele para mostrar que, como o homem, assim também redime a mulher, do que alguns duvidavam porque a mulher foi causa de toda a perdição. Porventura não podemos fazer isto como os demais Apóstolos podem, e os irmãos do Senhor, a saber, Tiago de Jerusalém e Judas Zelotes, que se diz irmão de Tiago, e Cefas, isto é, Pedro, que certamente teve mulheres em seu séquito?

E, tendo-o todos, ou só eu e Barnabé, que trabalha comigo no Evangelho, não temos direito de não trabalhar, isto é, de receber dos súditos como os outros? Que lhe seja lícito receber, prova-o por razões humanas, pela lei antiga e pelo Evangelho, dizendo: na verdade devemos operar isto como lícito; quem jamais serve como soldado à sua própria custa? a lei da milícia não o tolera. E quem planta uma vinha e não come do seu fruto? E quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Porventura digo isto à maneira humana, isto é, segundo razões humanas, e aprovo que eu deva receber bens carnais dos súditos? Digo-o também pela lei; porque não o diz também a lei? Certamente, pois assim está escrito na lei de Moisés: Não porás mordaça ao boi que debulha na eira, mas comerá do que debulha (Dt 25,4). Dir-me-ia o carnal: que tens tu com isso? Este preceito é sobre o boi, não sobre o homem. Contra isto Paulo: porventura Deus se preocupa com os bois na lei, a ponto de pôr ali preceito a respeito deles? Deus certamente não se preocupa com os bois; mas não o diz certamente por nossa causa? Na verdade por nossa causa; pois também estas outras coisas foram escritas por nossa causa, a saber, que o que lavra deve lavrar com esperança de receber frutos temporais, e o que debulha debulha na esperança de receber frutos. Lavrar diz erradicar os espinhos da infidelidade do bem da fé, cultivar o que é infiel; debulhar diz quando, depois de já estarem na Igreja, recebida a fé, o pregador os debulha, separando os grãos das palhas, os bons dos maus: e tanto o que lavra como o que debulha merece receber bens temporais.

Prova de novo o mesmo por outras razões, dizendo: e se nós, pregadores, semeamos entre vós os bens espirituais, é demais, isto é, deve reputar-se de nenhum valor, que colhamos os vossos bens materiais? E se outros, isto é, os falsos doutores, participam desse direito sobre vós, de modo que fazem do que é vosso o que lhes apraz, por que não antes nós, que ministramos a doutrina sadia?

Provado que é Apóstolo e que, pela lei do ministério, tem poder de receber deles, vem por fim àquilo por que começou, dizendo: embora fôssemos Apóstolos e tivéssemos o poder do apostolado, não usamos, contudo, deste direito, de modo a receber algo de vós. Dir-me-iam: talvez não tivésseis necessidade. Temos necessidade certamente, mas suportamos tudo, fome, sede, nudez, para não pôr obstáculo ao Evangelho de Cristo, isto é, para não parecermos impedir em algo o bem de nossa pregação. Temia Paulo nesta matéria muitos tropeços: porque, se recebesse dos que eram demasiado avarentos, preferiam não ouvir a pregação do que dar bens temporais; além disso, porque, se Paulo recebesse, receberiam igualmente os falsos apóstolos, que, embora adversários de Paulo, o seguiam, contudo, nisto e em algumas coisas, não ousando fazer o que Paulo não fazia; os quais, se tivessem pelo exemplo de Paulo ocasião de receber, por poucos alimentos (porque eram glutões) absolveriam de grandes pecados, e por esta ocasião os próprios coríntios pecariam mais seguros.

Não usamos do direito para não fazer tropeço; por isso não deixamos, contudo, de ter lícito; não sabeis, com efeito, que os que trabalham no santuário, isto é, na obra do templo, como nas cortinas ou em alguma reparação, comem do que vem do santuário? Santuário (sacrarium) diz-se como "secretário" (secretarium), atrás do altar. E não sabeis que os sacerdotes que servem ao altar participam do altar? A parte, com efeito, era queimada sobre o altar, e a parte reservava-se aos sacerdotes como alimento. Ou de outro modo, para que aquilo antes dito digamos dos gentios: não sabeis que os que trabalham no santuário dos gentios comem do que vem do santuário, e os que servem ao altar dos judeus participam do altar? Assim, isto é, na mesma ordem de viver, a saber, da pregação, o Senhor ordenou aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho, quando diz no Evangelho: «Comendo e bebendo do que eles têm, etc.» (Lc 10,7). E, embora o Senhor tenha assim ordenado, eu de nada disto me servi, nem de comida, nem de bebida, nem de vestuário.

Dir-me-iam: Paulo age astutamente, falando assim, para receber depois em dobro o que antes não recebeu. Contra isto Paulo: embora assim escreva, não escrevi isto, a saber, que não me servi de nenhuma destas coisas, para que assim se faça comigo daqui em diante, isto é, para que receba multiplicado o que antes não recebi. Por isso não o fiz, nem quero daqui em diante que se faça comigo, porque é melhor para mim morrer, quanto mais padecer penúria, do que alguém esvaziar a minha glória, isto é, a recompensa que espero do Evangelho; se, com efeito, evangelizasse com tropeço do irmão, esvaziaria certamente a glória do meu mérito. Ou assim: é-me melhor morrer mais do que morrerei agora; agora, com efeito, morro com muitas tribulações, mas preferiria morrer ainda de maior penúria do que alguém esvaziar a minha glória. Na verdade devo temer que a minha glória seja esvaziada; pois se anuncio o Evangelho assim, isto é, com tropeço do irmão, por cobiça de receber sustento de vós, já não tenho de que me gloriar, mas perece a minha recompensa. Na verdade não me é devida glória; porque é uma necessidade que me incumbe, isto é, a penúria me incumbe, a qual me obriga a evangelizar para assim ter sustento. Na verdade a necessidade incumbe; pois ai de mim se não anunciar o Evangelho!, isto é, a dor da penúria, a saber, da fome e da nudez. Se por necessidade evangelizo, não tenho glória; se, porém, o faço de boa vontade, isto é, só por vontade, não por cobiça de sustento, então tenho recompensa do meu Evangelho.

Ou de outro modo: a isto que disse acima, prefiro morrer a que a minha glória seja esvaziada, diria alguém: se o teu Evangelho fosse coisa tal que, se não se fizesse, nada nos faltaria, ou que, se se faz, não abundássemos em bem, como seria comer carnes sacrificadas aos ídolos com fé sadia, poder-se-ia crer que a tua glória pereceria se evangelizasses com tropeço do irmão; mas porque o teu Evangelho é coisa de tanta dignidade, pela qual os homens se salvam, não é de crer que por ofensa do irmão fraco pereça a tua glória do Evangelho. Perecerá certamente, diz Paulo; pois se somente evangelizar, e não me afastar do tropeço do irmão, não terei glória só por evangelizar; de nenhum mérito é, com efeito, evangelizar de modo a não evitar a ofensa do irmão. Na verdade não é muito apenas evangelizar; pois a necessidade de evangelizar me incumbe por ofício imposto: e na verdade a necessidade do meu ofício me obriga a evangelizar; pois ai, isto é, condenação para mim se não evangelizar: e daí é manifesto que não é de tanto valor evangelizar cuja glória não pereça por tropeço do irmão. Se por necessidade do meu ministério só evangelizo, não tenho glória; mas se o faço de boa vontade, não para por cobiça de sustento ofender o irmão, então tenho do meu Evangelho recompensa. Mas se o faço contra a vontade, isto é, coagido pela necessidade, pouco me importando ofender o irmão, é verdade, sim, que a dispensação dos dons de Deus me foi confiada, isto é, que Deus não dispensa menos suas graças por causa do meu pecado, mas sem recompensa para mim. Nesta palavra, a mim contra a vontade e pecando por tropeço do irmão, foi confiada a dispensação das graças de Deus, os santos recebem autoridade de que, embora o ministro seja mau, os dons de Deus por ele dispensados não diminuem por causa do pecado dele, como nem aumentam por causa da justiça dele.

E porque disse: se o faço de boa vontade, então por vontade tenho recompensa, qual é, então, a minha recompensa? isto é, qual deve ser a vontade pela qual me venha a recompensa: tal deve ser a vontade que eu, pregando o Evangelho, o apresente, isto é, coloque o Evangelho e constitua o seu fundamento, gratuitamente, sem sustento recebido dos coríntios, pelo qual se ofenderiam; sem sustento, para não usar mal do meu direito concedido no Evangelho; posso, com efeito, receber sustento do Evangelho, mas, se nisto ofendo o irmão, uso mal este poder. Deve crer-se que apresentarei o Evangelho sem sustento, para que a fraqueza dos ouvintes não se ofenda; pois (o que é mais que o sustento) sendo livre de todos, e a nenhum deles devendo coisa alguma, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. E, tendo eu, pela utilidade deles, o jugo da servidão sob todos, deve crer-se que me abstenho do sustento, temendo a ofensa do irmão, por cujo lucro me mostrei servo.

Na verdade fiz-me servo de todos, dos judeus, samaritanos, gentios e irmãos fracos; o que assim prossegue: fiz-me judeu para os judeus, condescendendo com seus ritos, abstendo-me de carnes de que se abstinham, para assim ganhar os judeus, que mais de boa vontade aquiescem a mim porque não desprezo seus ritos. Para os que estão sob a lei, isto é, os samaritanos, que têm os cinco livros de Moisés, mas não têm os Profetas, fiz-me como se estivesse sob a lei; embora eu mesmo não estivesse sob a lei; mas fi-lo para por este modo ganhar os que estavam sob a lei, isto é, os samaritanos. Samaritanos são aqueles que o rei dos assírios, cativos os filhos de Israel, pôs a habitar os lugares da Samaria, e são de origem persa (2Rs 17,24); os quais receberam os cinco livros de Moisés, quando Deus os vexava com muitas tribulações, porque haviam usurpado ilicitamente a terra de seu povo Israel. Para os que estavam sem lei, isto é, os gentios, fiz-me como se estivesse sem lei, contentando-me com seus alimentos e afirmando que Deus os elegeu; embora não estivesse sem a lei de Deus, mas na lei de Cristo; assim me fiz para ganhar os gentios que estavam sem lei. Fiz-me também fraco para os irmãos fracos, abstendo-me de alimentos lícitos, para não gerar tropeço à sua fraqueza, para assim ganhar os fracos. E para que enumerar uma por uma? Fiz-me tudo para todos, perfeito para os perfeitos, e assim em cada um, para salvar a todos. Tudo isto faço por causa do Evangelho, para colocar o Evangelho, que, se não o fizesse, seria esvaziado por causa dos tropeços dos irmãos; por causa do Evangelho, para dele me tornar participante, isto é, para ter parte na recompensa que o Evangelho atesta e promete aos fiéis.

Aqui adaptou tudo o que de si trouxe; como se dissesse: assim como me fiz tudo para todos por causa do Evangelho, assim também compadecei-vos da fraqueza dos irmãos, para serdes participantes da bem-aventurança prometida. Disse que deveis abster-vos de coisas lícitas, por causa dos irmãos fracos, como eu, vosso Apóstolo, me abstenho de coisas lícitas para não dar tropeço ao Evangelho de Cristo; o que faço totalmente para merecer receber o que espero, induzido pelo exemplo daqueles que, para receberem coroa temporal, se abstêm de tudo o que os impeça de recebê-la: porque não sabeis que os que correm no estádio, todos correm, mas só um recebe o prêmio, isto é, a coroa ou o prêmio da corrida? Estádio diz-se o espaço de duzentos e vinte e cinco passos, quanto Hércules correu num só fôlego, sem respirar; e diz-se estádio de stare ("estar"), porque no fim da corrida se pára. Visto que os que correm no estádio se empenham solicitamente em receber o prêmio, correi, pois, assim, abstendo-vos de tudo o que vos possa impedir, de modo a alcançá-lo todos, o prêmio da felicidade eterna; se todos aqui correm onde só um recebe o prêmio, muito mais solicitamente deveis correr onde todos recebereis o prêmio eterno. Assim certamente deveis correr, abstendo-vos de tudo o que vos possa impedir; pois todo aquele que luta no certame, isto é, na competição de corrida, abstém-se de tudo o que impede a corrida. E aqueles, correndo no estádio, abstêm-se assim para receberem uma coroa corruptível; nós, que vamos receber uma incorruptível, muito mais devemos abster-nos, quanto mais digna é a coroa com que seremos remunerados.

E porque espero a coroa incorruptível, eu, portanto, corro assim, não como à toa. Corre à toa quem ora obra mal, ora bem; quando obra bem, com efeito, espera receber; quando mal, desconfia. Diz correr obrar bem, sem o impedimento da tribulação infligida; diz lutar quando se inflige a tribulação e resiste-se fortemente. Assim também luto, não como quem açoita o ar, de modo a não cumprir em mim, com a obra, o que digo bem: quem diz palavras em vão, com efeito, diz-se que só açoita o ar; ou assim: não como quem açoita o ar, isto é, não lançando em vão os meus golpes, como quem luta com o inimigo, quando, lançado o golpe, não toca o inimigo, diz-se açoitar o ar; eu, porém, esmagando o inimigo, não açoito o ar, mas castigo o meu corpo, isto é, reprimo as concupiscências da carne; e assim o reduzo à servidão, isto é, para que a carne não só não repugne, mas até sirva ao espírito. Por isso assim castigo e reduzo, para que talvez não aconteça (o que poderia acontecer) que, tendo pregado a outros, eu mesmo venha a ser reprovado e condenável. Quando diz "talvez", mostra bem que Deus assim elege os seus sem os coagir, para não destruir neles a liberdade do arbítrio, de modo que, se quiserem, possam cair de novo.

Capítulo 10

Não quero, pois, que ignoreis, irmãos, que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos atravessaram o mar; e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; e todos comeram o mesmo alimento espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual (bebiam, com efeito, de uma rocha espiritual que os acompanhava; e a rocha era Cristo). Mas na maioria deles Deus não se comprouve; pois foram prostrados no deserto. Estas coisas aconteceram como figura para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles cobiçaram. Nem vos torneis idólatras, como alguns deles; conforme está escrito: O povo sentou-se para comer e beber, e levantou-se para se divertir (Ex 32,6). Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram, e caíram em um só dia vinte e três mil. Nem tentemos a Cristo, como alguns deles o tentaram, e pereceram pelas serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo exterminador. Todas estas coisas lhes aconteciam como figura; e foram escritas para nossa advertência, a nós, para quem chegou o fim dos séculos. Portanto, quem julga estar de pé, veja que não caia. Não vos sobreveio tentação que não seja humana; fiel, porém, é Deus, que não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dará também o êxito, para que possais suportá-la. Por isso, meus caríssimos, fugi do culto dos ídolos. Falo como a pessoas prudentes; julgai vós mesmos o que digo. O cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do Sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a participação do Corpo do Senhor? Porque nós, que somos muitos, somos um só pão, um só corpo, todos os que participamos de um só pão e de um só cálice. Vede Israel segundo a carne: os que comem as vítimas não participam do altar? Que digo, então? Que o sacrificado aos ídolos é alguma coisa, ou que o ídolo é alguma coisa? Mas o que as nações sacrificam, sacrificam-no aos demônios, e não a Deus. Ora, não quero que sejais comparsas dos demônios; não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar o ciúme do Senhor? Somos porventura mais fortes do que ele? Tudo me é lícito, mas nem tudo convém. Tudo me é lícito, mas nem tudo edifica. Ninguém procure o seu próprio interesse, mas o do outro. Tudo o que se vende no mercado, comei-o sem perguntar nada por motivo de consciência: Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém (Sl 23,1). Se algum dos infiéis vos convida e quereis ir, comei tudo o que vos puserem, sem perguntar nada por motivo de consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência; consciência, digo, não a tua, mas a do outro. Por que, com efeito, a minha liberdade seria julgada pela consciência alheia? Se eu participo com ação de graças, por que sou censurado pelo que dou graças? Quer, pois, comais, quer bebais, quer façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não sejais motivo de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a Igreja de Deus; como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o que me é útil, mas o que é útil a muitos, para que se salvem.

Comentário

Porque Paulo dissera: castigo o meu corpo, etc., para não ser eu mesmo reprovado; a isto alguém diria: por que te afadigas tanto para não seres reprovado? Não se deve crer, com efeito, que Deus nos reprove levianamente, a nós a quem conferiu o batismo, a fé e os demais sacramentos da Igreja, ainda que alguma vez tenhamos obrado injustamente. Contra isto prova Paulo que os sacramentos nada valem para a salvação, se faltam as boas obras; os pais do Antigo Testamento, com efeito, tiveram em figura as mesmas coisas que nós temos em verdade; mas porque obraram mal, os sacramentos não lhes aproveitaram; assim também não nos aproveitarão, se forem más as nossas obras. O texto liga-se assim: por isso me afadigo tanto para não ser reprovado; vejo, com efeito, que me não bastam os sacramentos recebidos, se faltarem as obras, como não bastaram aos nossos pais sob a antiga lei, porque obraram mal: para o que vejais, não quero que ignoreis, irmãos, que nossos pais, isto é, os judeus, que nos precederam e ensinaram no culto de Deus, e cujas figuras geraram a nossa verdade; esses, digo, pais, todos, sem exceção, estiveram debaixo da nuvem: aquela nuvem que foi posta entre os egípcios e os judeus até o mar Vermelho significou a misericórdia divina, que protege os catecúmenos até chegarem ao batismo. E todos os nossos pais atravessaram o mar Vermelho: assim também nós todos atravessamos pelo batismo. E todos os nossos pais foram batizados em Moisés, isto é, no governo de Moisés, isto é, avançaram na nuvem que os separava dos egípcios e na passagem do mar. Diz "batizados", embora nem esta palavra tenha sido então dita deles, nem aquele mar tenha sido a verdade do batismo, porque só figura; mas põe o nome da coisa significada pelo próprio significante; porque, assim como eles foram protegidos sob a chefia de Moisés, assim muito melhor nós, tendo Cristo por chefe, somos protegidos no batismo, no qual nos perdoa os pecados e fortalece o nosso livre-arbítrio, para que possa resistir ao diabo que mal persuade. Por isso diz também "batizados", porque, quão eficaz nos é o batismo para a salvação, tal lhes seria a passagem do mar, se, crendo nos mandamentos de Deus, obedecessem.

E todos os nossos pais comeram o mesmo alimento, isto é, o maná; alimento, digo, espiritual, isto é, significativo do alimento espiritual do Corpo e do Sangue de Cristo: espiritual também porque o que o alimento do Corpo e do Sangue de Cristo faz em nós, o mesmo aproveitaria àquele maná para a salvação deles, se perseverassem no bem: não que fosse outra coisa que maná. E todos beberam a mesma bebida, isto é, a água que fluía da rocha; bebida, digo, espiritual, porque figurava a bebida do Sangue de Cristo e valia o mesmo na fé para eles, se fossem bons. E não beberam dela uma só vez, mas bebiam assiduamente da rocha, isto é, da água que manava da rocha, que os acompanhava, porque aonde quer que fossem no deserto, aquela água os seguia; rocha, digo, espiritual, isto é, que significava a rocha espiritual Cristo. Por isso não bebiam uma vez só, mas continuamente, porque não nos basta, a nós que cada dia caímos em pecado, tomar uma só vez o Sangue de Cristo; porque, assim como cada dia caímos, assim precisamos de contínuo remédio. E a rocha de que manava a água era Cristo, de cujo lado fluiu a água da nossa regeneração. E, embora nossos pais tivessem tantos sacramentos, na maioria deles Deus não se comprouve; porque, pecando, tornaram-se indignos dos sacramentos recebidos; na verdade a maior parte deles não agradou a Deus, pois foram prostrados no deserto, provocando sobre si a ira de Deus obrando mal.

E estas coisas ditas não foram feitas apenas por causa deles, mas também como figura para nós; em todas as coisas ditas, com efeito, foi figurada a verdade dos sacramentos que nos foi dada por Cristo; por isso foram feitas como figura para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles muitas vezes cobiçaram o mal; aqui Paulo se insere entre eles, para melhor os desviar, tomando como seus, por compaixão, os pecados deles. Agora repõe alguns pecados dos judeus, que viu estarem nos coríntios, dizendo: não cobicemos coisas más, a saber, nem vos torneis idólatras: aqui já se separa daqueles, a cuja idolatria não consentiu. Não sejais, digo, idólatras, como alguns deles. Os coríntios eram idólatras, porque ou comiam sob veneração do ídolo as carnes sacrificadas aos ídolos, ou, não se importando em ofender o irmão ao comê-las, eram causa de o irmão fraco ser idólatra, e assim acusáveis de idolatria. Foram idólatras alguns dos judeus, conforme deles está escrito no Êxodo: O povo dos judeus sentou-se para comer e beber o que imolaram ao bezerro de fundição, e depois levantou-se para se divertir (Ex 32,6), isto é, para dançar e o mais diante do ídolo; ou então, levantou-se para se divertir, isto é, para adorar o ídolo; o que parecia jogo e zombaria da parte dos que haviam sido instruídos por tantos milagres. Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram com as madianitas, e por isso caíram vinte e três mil. Havia fornicação entre os coríntios, como naquele que tomara a mulher do pai, cujo consentimento tornava réus os outros. Nem tentemos a Cristo, como alguns deles o tentaram, dizendo: «Poderá Deus preparar mesa no deserto?» (Sl 77,19); e pereceram pelas serpentes que os envenenavam, até que Moisés ergueu a serpente de bronze no madeiro, a qual, quem dos judeus a via, naquele dia ficava seguro da lesão das serpentes; serpente que significou Cristo segundo a humanidade, como ele mesmo diz no Evangelho: «Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim convém que seja levantado o Filho do homem» (Jo 3,14). Tentavam os coríntios a Deus, enquanto duvidavam da ressurreição, como se Deus não pudesse tudo o que por bondade quisesse. Nem murmureis (o que certamente faziam os coríntios, dos quais alguns diziam que Paulo não era Apóstolo, e coisas semelhantes), como alguns dos judeus murmuraram, como os filhos de Core, Datã e Abiram, dizendo que Moisés não consagrava Aarão sacerdote por mandato de Deus, mas pela exaltação de sua família; e por isso pereceram pelo exterminador, isto é, pelo Anjo que os feria.

Deve-se notar que, porque os judeus eram rudes e não podiam captar as coisas espirituais, por isso lhes foi proposto servir a Deus em coisas carnais; e assim como, ofendendo na servidão carnal, eram punidos segundo a carne, assim também nós, a quem foram dadas as coisas espirituais, se nelas ofendemos, seremos punidos segundo a alma. Não só os sacramentos ditos precederam como figura de nós, mas todas estas coisas, e os pecados e as penas dos pecados, lhes aconteciam como figura para nós; porque, se eles, permanecendo na sombra, foram condenados pela transgressão da sombra, quanto mais nós, se pecamos na própria verdade? Não só estas coisas lhes aconteceram em figura de nós, mas foram escritas para nossa advertência, para sermos advertidos pelos exemplos deles; nossa, digo, a nós, para quem chegou o fim dos séculos; porque, por mais que estes séculos hajam de durar, nós temos os fins, porque estes ritos, que foram dados pelo Evangelho, são os últimos ritos, e eles, enquanto o mundo existir, não terminarão. Ou assim: chegou a nós o fim dos séculos, porque acabou toda a secularidade, a saber, a carnalidade dos ritos antigos, e nos foi entregue a própria verdade.

Visto que os sacramentos anteriores em nada aproveitaram a nossos pais por causa do pecado, e estas coisas foram escritas para nossa doutrina, portanto, isto é, por isso aquele de vós que julga estar de pé, a saber, que entende sadiamente sobre as criaturas de Deus e que tudo lhe é lícito, veja que não caia por tropeço do irmão. E, para que os coríntios não se perturbassem com esta palavra, "veja que não caia", sabendo que até o justo cai sete vezes ao dia, determina Paulo de que queda entende, dizendo: veja cada um que não caia, de modo que não vos sobrevenha tentação — isto é, deleite do pecado — que não seja humana, isto é, vinda da necessidade da carne, a saber, venial. O que vos toca, vede que o façais; porque Deus é fiel e veraz nas promessas, que em nada abandona os seus fiéis; Deus não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; conforme vê a fortaleza ou a fraqueza de cada um, dispõe as tribulações. E não só não permitirá que sejais tentados além da medida, mas com a tentação dará também o êxito, isto é, tanto o aumento da virtude pela qual persevereis, como o aumento da tribulação; dará, digo, de modo que possais suportá-la, para que não fraquejeis na tribulação.

Por isso, isto é, porque quem está de pé deve ver que não caia e Deus está à mão para estender a mão, fugi do culto dos ídolos; se o fizerdes, então sereis para mim caríssimos. Diz fugir do culto dos ídolos tanto aos fracos que comiam sob veneração do ídolo, como aos que, embora de fé sadia, eram causa de se corromper a fraqueza dos irmãos. E para que fujais do culto dos ídolos, vou dizer coisa sutil, em que falo a vós não como a simples, mas como a prudentes; e por isso julgai vós mesmos, isto é, quanto mais sutilmente podeis, discuti entre vós o que vos digo. Reunamos brevemente a soma da sentença: por isso deveis fugir do culto dos ídolos, porque, assim como aquele que comunga no Corpo e no Sangue de Cristo se faz de certo modo um com Cristo, assim aquele que comunga no ídolo, comendo as carnas sacrificadas aos ídolos, incorpora-se ao diabo.

Agora exponhamos a letra: deveis fugir do culto dos ídolos; porque o cálice, isto é, o Sangue de Cristo; cálice, digo, de bênção, pelo qual recebemos as bênçãos das graças; porque pelo Sangue de Cristo, se o tomamos dignamente, somos libertados dos pecados anteriores e fortalecidos contra os que vêm; cálice que abençoamos, louvando-o, porque nunca houve tal cálice que libertasse dos pecados e fortalecesse para que não pequemos mais; ou então, cálice de bênção, isto é, que o próprio Deus abençoa e consagra, e que nós abençoamos por nosso ofício; Deus, com efeito, o realiza pelo sacerdote ministro: este cálice, pois, não é a comunhão do Sangue de Cristo?, isto é, não nos unimos a Cristo e nos conformamos a ele pelo Sangue assumido? E o pão, isto é, o verdadeiro Corpo de Cristo, que se recebe sob a só espécie de pão; pão, digo, que partimos no altar, para que, o que é um em verdade, embora assim pareça, mas não se pode dividir, dividindo-o signifiquemos que nós, que somos pessoas diversas, nos tornamos um em Cristo; este pão, digo, que partimos, não é a participação do Corpo do Senhor?, isto é, não recebemos por este Corpo a Deus em nós e o incorporamos a nós? Por isso Deus instituiu este sacrifício em duas substâncias, a saber, do Corpo e do Sangue, para, pela carne entregue no altar, mostrar que redime a nossa carne, a ser algum dia transferida pelos sacramentos à incorrupção; e, pelo Sangue que entrega, insinuar que igualmente redimiu a nossa alma; para insinuar o que respeita à alma, porque não pôde usar de coisa incorpórea, figurou dignamente a alma pelo sangue, que se diz sede da alma. Nem distribuiu em duas substâncias para entender partes diversas dele; quem recebe apenas o Sangue, ou apenas o Corpo, recebe-o todo; quem recebe ambos, não recebe mais por ambos do que por um. Corpo que, assim como é a verdadeira Carne de Cristo sob a espécie de pão, assim pela só espécie é triturado, diminuído, dividido em partes, ao passo que em verdade permanece incorruptível, indivisível, incapaz de diminuição.

Na verdade pela recepção do Sangue e do Corpo de Cristo nos unimos a Cristo; porque nós, que somos muitos, somos um só pão, isto é, assim como no pão os diversos grãos passam à unidade do pão, assim também nós nos unimos pela fé, pela esperança e pela caridade; somos também muitos um só corpo segundo a diversidade dos membros que mutuamente se servem na unidade do amor: nós todos somos um só pão e um só corpo, todos os que participamos de um só pão e de um só cálice, isto é, do Corpo e do Sangue de Cristo, por quem somos unidos a Cristo, incorporando-o a nós.

Agora, segundo Ambrósio, digamos o que segue: ó Israel, isto é, ó alma fiel que contemplas a Deus, o que agora vos mostrei nas coisas espirituais, vede, o mesmo acontece segundo a carne, isto é, pela participação carnal das carnes sacrificadas aos ídolos comunica-se com o diabo; os que comem as vítimas imoladas ao diabo não participam do altar do diabo?, isto é, não comungam com o próprio diabo por participarem do que se imola sobre o altar do ídolo? Como nas coisas espirituais, assim nas carnais não se pode negar que isto se dê. Porque digo que os que comem o sacrificado ao ídolo participam do diabo, que digo, então?, isto é, julga-se que digo que o sacrificado aos ídolos seja algo diverso do que era antes de ser sacrificado? Longe de mim parecer dizer que o ídolo seja algo diverso de pedra ou madeira ou aquilo de que foi fabricado, porque pelo sacrificado a ele digo que o homem se une ao diabo. Não digo, certamente, que o sacrificado aos ídolos, ou o ídolo, seja algo que antes não era; mas digo isto: que as nações que sacrificam essas coisas, sacrificam-nas aos demônios e por isso a eles se unem, não pela carne sacrificada, que seja outra coisa que carne, nem pelo ídolo, que seja outra coisa do que era antes; sacrificam aos demônios, e não a Deus; por isso se incorporam ao diabo.

Ou de outro modo, para que tomemos fora do livro a adaptação da semelhança assim: porque os que comungam no Corpo e no Sangue de Cristo se unem a Cristo, assim, por semelhança, os que participam do sacrificado ao ídolo se unem ao diabo; e isto tomemos fora da letra. Para que vejais nas coisas carnais o que mostrei pelas espirituais, vede agora Israel, isto é, o povo judaico, segundo a carne, isto é, agindo segundo os ritos carnais; os que entre os judeus comem as vítimas imoladas a Deus, não participam do altar, isto é, participam de Deus a quem imolam no altar? Do mesmo modo os que comem as carnes sacrificadas aos ídolos são participantes do diabo; e isto fora do livro. A letra seguinte liga-se assim: visto que digo que quem come das carnes sacrificadas aos ídolos participa do diabo, que, então, pareço dizer? A letra seguinte não muda.

Por isso quero que fujais do culto dos ídolos, porque não quero que sejais comparsas dos demônios, como se provou serem os que comem carnes sacrificadas aos ídolos. Seríeis comparsas dos demônios, se não fugíssemos dos ídolos, porque não podeis beber o cálice dos demônios e o cálice do Senhor, e não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Devemos fugir do culto dos ídolos, para não nos associarmos aos demônios; devemos também porque, participando da mesa dos demônios, provocamos o ciúme, isto é, invejamos ao Senhor, cujo reino diminuímos em nós mesmos e nos nossos imitadores. Mas provocamos o ciúme do Senhor? Invejamos-lhe certamente com o nosso mal, porque somos porventura mais fortes do que ele? quem inveja a quem é mais forte age mal, porque é oprimido por ele.

Dir-me-iam, os que com fé sadia creem que o ídolo e as coisas a ele imoladas nada são: parece, Paulo, que entendes que o sacrificado ao ídolo é algo, já que dizes que por isso nos tornamos comparsas dos demônios. Longe de mim, diz Paulo; confesso claramente que todas estas coisas me são lícitas, e a qualquer que tenha fé sadia, comer por fé; mas, contudo, não é lícito, porque nem tudo convém, antes impede a bem-aventurança por tropeço do irmão. De novo o mesmo: tudo me é lícito segundo a fé sadia, mas nem tudo edifica o próximo, e no que o destrói não é lícito. E porque tudo se deve fazer para a edificação do próximo, por isso ninguém procure o seu próprio interesse, e não o do próximo, mas procure o do outro, isto é, o que serve à edificação do próximo.

Porque acabou de dizer que segundo a fé é lícito, por tropeço do irmão não é lícito, determina o modo quando é lícito usar destes alimentos e quando não, dizendo: para que não ofendais nas coisas ditas, assim discerni: tudo o que se vende no mercado, isto é, se vende, comei, sem perguntar nada por motivo de consciência (que determinará nas passagens seguintes); comei tudo, porque do Senhor é a terra e tudo o que ela contém (Sl 23,1). Se algum dos infiéis vos convida ao banquete e quereis ir, o que é bem lícito, porque dos infiéis não temos de julgar, comei tudo o que vos puserem, sem perguntar nada por motivo de consciência, que de novo determinará. Vós nada pergunteis, mas se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência; que agora determina: consciência, digo, não a tua, que és são na fé, mas a do outro, isto é, do irmão fraco, para que não se ofenda em ti. Disse consciência, notando primeiro a consciência do judeu, que, se vir um cristão comer das carnes sacrificadas aos ídolos, dirá que não se deve aderir à fé cristã, porque voltam ao culto do ídolo; segundo, a consciência do gentio, que, vendo o mesmo, dirá: por que deixaria eu os meus ídolos, se os cristãos voltam a eles?; terceiro, a consciência do irmão fraco, pela causa tantas vezes dita.

Por causa da consciência do outro deves abster-te, porque por que a minha liberdade, isto é, o que me é lícito pela fé sadia, é julgada, isto é, torna-se julgável e condenável, pela consciência alheia, isto é, por causa da consciência fraca do irmão? E se eu participo das carnes sacrificadas aos ídolos com ação de graças, isto é, comendo em nome do Senhor, por que sou censurado, isto é, por que me mostro censurável pelo que dou graças? O fraco ou o infiel julga, com efeito, que eu venero os ídolos, quando dou graças a Deus. Visto que a consciência de ninguém deve ser lesada, quer, pois, comais, quer bebais, quer façais outra coisa, fazei estas e todas as coisas para a glória de Deus, não em licença da vossa fé, para que ninguém possa, justa ou injustamente, caluniar a fé de Cristo. E para que tudo façais para a glória de Deus, não sejais motivo de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a Igreja de Deus, isto é, os irmãos fracos, como acima foi determinado. Sede-o, digo, como também eu em tudo procuro agradar a todos, isto é, esforço-me por agradar a todos em tudo, não buscando o que me é útil só, mas o que é útil a muitos, para que assim se salvem muitos por mim: e para que sejais úteis a muitos, sede nesta matéria imitadores meus; porque, se meus, sereis também de Cristo, como também eu sou imitador de Cristo.

Capítulo 11

Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo. Louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as minhas instruções, como vo-las transmiti. Quero, porém, que saibais que a cabeça de todo homem é Cristo; a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus. Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é exatamente como se fosse rapada. Se, pois, a mulher não se cobre, seja tosquiada. Mas, se é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada, cubra a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus; a mulher, porém, é glória do homem. Pois o homem não procede da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por isso a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade, por causa dos Anjos. Todavia, nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Pois, assim como a mulher procede do homem, assim também o homem nasce pela mulher; e tudo vem de Deus. Julgai vós mesmos: convém que a mulher ore a Deus descoberta? Não vos ensina a própria natureza que ao homem, se deixa crescer a cabeleira, é desonra; mas à mulher, se a deixa crescer, é glória? Pois a cabeleira lhe foi dada como véu. Se, porém, alguém parece ser contencioso, nós não temos tal costume, nem a Igreja de Deus. Mas, ao dar-vos esta instrução, não vos louvo, porque vos reunis não para melhor, mas para pior. Primeiramente, ouço dizer que, quando vos reunis em assembleia, há divisões entre vós, e em parte o creio. Pois é preciso que haja também heresias, para que se manifestem entre vós os que são aprovados. Quando, pois, vos reunis em comum, não é mais para comer a ceia do Senhor. Pois cada um toma antecipadamente a sua própria ceia para comer. E um tem fome, e outro está embriagado. Porventura não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Pois eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu Corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de cear, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu Sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Pois todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha. Portanto, quem comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor. Por isso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos dormem. Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Quando somos julgados, somos corrigidos pelo Senhor, para não sermos condenados com este mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, para que não vos reunais para condenação. As demais coisas disporei quando eu for.

Comentário

Depois de ter repreendido neles o que se refere às carnes sacrificadas aos ídolos, para que não participassem delas nem sob tropeço do irmão nem sob veneração do ídolo[1], passa a outra coisa, que haviam costumado fazer com demasiada impudência, a saber, orarem os homens na Igreja com a cabeça coberta e as mulheres descoberta; o que proíbe que se faça daqui em diante entre eles, tanto pela lei da condição deles, como pela autoridade dos santos, como porque a natureza repugna. O texto liga-se assim: por comerdes as carnes sacrificadas aos ídolos, ou sob veneração do ídolo ou sob tropeço do irmão, eu vos repreendo; quanto a isto, porém, louvo-vos, ó irmãos, porque vos lembrais de mim em tudo o que vos mandei; lembrais-vos porque, como vos transmiti as minhas instruções, assim as guardais, sem omitir nada incompleto. E tudo isto ironicamente; porque dificilmente em alguma coisa haviam guardado o seu mandamento. Mas, embora assim vos louve, vitupero-vos naquilo em que o homem com a cabeça coberta e a mulher com a cabeça descoberta se desonram. Antepõe, porém, as razões com que aprova que assim não deve ser, dizendo: para que não desonreis tão perversamente as vossas cabeças, quero que saibais que a cabeça de todo homem, rico ou pobre, é Cristo; tem ele, com efeito, princípio de Deus, não de outro; e assim como na cabeça temos todos os sentidos, e nenhum no corpo exceto o tato, que de novo temos na cabeça, assim todos os nossos sentidos devem consentir e cooperar com a sua cabeça Cristo. Cristo é a cabeça do homem; o homem, porém, é a cabeça da mulher, isto é, o princípio; da costela do homem, com efeito, foi fabricada a mulher, e assim tirou do homem a matéria do seu princípio; homem que só de Deus teve princípio. Cristo é a cabeça do homem; e a cabeça de Cristo é Deus, isto é, o princípio de Cristo: segundo o homem, especialmente cabeça, porque Deus constituiu Cristo imune de pecado pela Divindade que lhe foi unida; segundo a Deidade, Deus é cabeça de Cristo, porque o Filho tem princípio do Pai, o Pai não de outro. E porque o homem tem só Cristo por cabeça, por isso todo homem que ora na Igreja a oração do Senhor, ou quaisquer orações, ou profetiza — diz profetizar ou ensinar o símbolo, em que se prega a ressurreição da carne e a vida eterna, que são futuras; ou então, profetizando, isto é, lendo na Igreja e revelando as coisas passadas ou futuras só acerca de Cristo — com a cabeça coberta, o homem que assim faz, desonra a sua cabeça. Poderíamos dizer aqui que a cabeça do homem é Cristo, que, enquanto age desonestamente, parece, quanto a si, desonrar, cujas ordens despreza; mas, porque a letra seguinte não o permite, dizemos: o homem que ora com a cabeça coberta desonra a sua própria cabeça, enquanto cobre com véu a liberdade que tem, porque está sob ninguém exceto Cristo, véu que é sinal de sujeição vergonhosa.

O homem que ora com a cabeça coberta desonra a sua própria cabeça; mas toda mulher que ora ou profetiza (como acima se expôs) com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça, que deveria sempre cobrir, em sinal do seu pudor, porque a mulher é causa de toda perdição, e sobretudo quando na Igreja se apresenta ao seu juiz, a quem tornou hostil todo o gênero humano, ao consentir com o diabo e impelir o homem a consentir com ele. Na verdade, a mulher não cobrir a cabeça é desonrar a cabeça; pois é exatamente como se fosse rapada, isto é, repartisse os cabelos na fronte, embora seja certo que não queira ser tosquiada. Pôs só "rapada", o que certamente tem por inconveniente, porque sabia que elas de modo algum queriam ser tosquiadas. Na verdade não cobrir a cabeça é ser rapada; pois, se a mulher não se cobre, seja tosquiada; como de modo algum o fará, segue-se que, com a cabeça descoberta, será rapada. Da cabeça descoberta segue-se necessariamente ou ser rapada ou tosquiada; mas se é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada, o que certamente a desonraria, cubra a cabeça, o que lhe convém.

A mulher cubra a cabeça, mas o homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem de Deus, de quem tem forma e princípio; e o homem é glória de Deus, pois, se tiver obrado bem, Deus se gloria nele. O homem é imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do homem, porque deve ser governada pelo homem; e, se for bem governada, tem glória pelo que a mulher bem fez. Na verdade o homem é glória só de Deus, e a mulher glória do homem; pois o homem não procede da mulher, isto é, na primeira criação o homem não teve origem da mulher, que ainda não existia; mas a mulher teve princípio do homem, porque da costela de Adão foi edificada Eva. De novo, na verdade o homem é glória só de Deus, e a mulher do homem; pois o homem não foi criado por causa da mulher, para servi-la, porque só a Deus; mas a mulher por causa do homem, para permanecer, com toda servidão, em auxílio do homem. E porque a mulher foi feita para a glória do homem e para estar sempre sujeita ao homem, por isso a mulher deve ter sempre poder, isto é, sinal de que está sob poder alheio, sobre a cabeça, que deve cobrir em sinal de sujeição; e por causa dos Anjos, isto é, por causa dos doutores da Igreja, que se dizem Anjos porque são núncios de Deus, para que, vista a lascívia das mulheres impudicas, não sejam ilicitamente movidos a elas; ou por causa dos Anjos de Deus, que estão presentes em todos os sacramentos da Igreja, para que não se ofendam com a intemperança de tão grande libido; ou por causa dos Anjos, isto é, dos Patriarcas e dos santos anteriores, que proibiram que isso se fizesse.

Porque acabara de deprimir tanto o sexo feminino, feito em tudo indigno em relação ao homem, agora o levanta e consola, dizendo: embora na primeira criação o homem tenha precedido a mulher, na sucessão posterior da geração, contudo, homem e mulher são iguais; porque nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem podem gerar, mas por participação do outro ambos geram igualmente; e não, contudo, que possam procriar por si, mas tudo no Senhor; o Senhor, com efeito, cria o homem pela conjunção do macho e da fêmea. Na verdade nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem; pois, assim como a mulher procede do homem, assim também o homem nasce pela mulher[2]. Embora eu diga que a mulher é gerada do homem, e vice-versa, tudo isto e todas as coisas vêm de Deus; porque nem o homem nem a mulher podem algo por si sem Deus.

Estas coisas antecipadas leem-se em alegoria, assim: o homem, que na primeira criação foi feito por Deus com grande fortaleza de racionalidade, significa a razão, que deve sempre reger a sensualidade; a mulher, porém, que não foi tão forte quanto o homem, significa a sensualidade, que, bem governada, deve obedecer à razão: o que o diabo, vendo sutilmente que não podia perverter o homem, que mais vigorava pela razão do que amolecia pela sensualidade, atacou a mulher, a quem sentiu mais oprimida pela sensualidade do que erguida pela razão. E segundo isto dizemos assim: o homem não deve cobrir a cabeça, porque o homem é imagem de Deus, isto é, pela força da razão imagina a Deus; e, agindo pela razão, é glória de Deus; Deus, com efeito, é glorificado nos servos que obram bem. A mulher, porém, isto é, a própria sensualidade, é glória do homem, que pela razão imagina a Deus; a sensualidade, com efeito, obrando bem e consentindo na razão, é glória dela. E embora por homem tomemos a razão, por mulher a sensualidade, não negamos, contudo, que ambos estejam em ambos: e a razão na mulher se diz homem, e a sensualidade no homem se chama mulher; nem aqui tratamos da razão e da sensualidade de modo a não olhar sempre às próprias pessoas. O homem deve ser glória de Deus, e a mulher do homem; pois o homem não procede da mulher, isto é, a racionalidade não deve depender da sensualidade, mas a mulher do homem, isto é, a sensualidade da razão. O homem certamente não procede da mulher; e o homem não foi criado, isto é, a razão não foi dada ao homem por causa da mulher, isto é, para que siga a sensualidade; mas a mulher por causa do homem, isto é, a sensualidade foi criada para obedecer à razão. E porque a mulher foi criada por causa do homem, por isso deve ter sinal de poder sobre a cabeça, e por causa dos Anjos, como se disse. Mas, embora eu tenha anteposto o homem à mulher em tamanha dignidade, contudo, nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem, isto é, um não precederá o outro no Senhor, isto é, na bem-aventurança, contanto que obrem bem: embora na primeira criação o homem tenha precedido a mulher, na verdade um não precederá o outro na salvação; pois o que acima foi dito, a mulher do homem, o homem não da mulher, em nada prejudicará, uma vez que na sucessão da geração o homem procede da mulher como a mulher do homem, embora na primeira criação a mulher tenha sido gerada só do homem: e tudo vem de Deus, como foi dito.

Provou, segundo a ordem da criação, segundo as instituições dos Pais, que o homem não deve ser velado, nem a mulher descobrir a cabeça; prova o mesmo pela natureza de ambos, que deu ao homem cabelos mais curtos em sinal de liberdade, à mulher prolixos em sinal de pudor a velar: embora alguns homens os tenham mais longos, isto se dá pela arte, não pela natureza; se as mulheres os têm mais curtos, isto é por algum vício, não pela natureza. O texto liga-se assim: provei acima pela ordem da criação que se deve velar a cabeça da mulher; agora julgai vós mesmos, coríntios, o que provarei não dever fazer-se pela natureza; julgai, digo, convém que a mulher ore a Deus descoberta? Certamente não; porque a própria natureza não vos ensina a agir assim, antes o proíbe; e como a natureza o proíbe, se o homem deixa crescer a cabeleira, é-lhe desonra, porque age contra a natureza; se, porém, a mulher a deixa crescer, é-lhe glória; pois a cabeleira longa lhe foi dada pela natureza como véu, isto é, em sinal de véu, que deve estar sempre sobre a cabeça. Provei pela ordem da criação e pela lei da natureza que o homem não deve cobrir a cabeça nem a mulher descobri-la; mas se alguém entre vós parece ser contencioso e não consente em nossas razões, só isto lhe diremos: irmão, nós não temos tal costume, nem o tivemos na sinagoga dos judeus, nem a Igreja de Deus ainda o tem na nova Igreja, de que o homem ore com a cabeça coberta e a mulher descoberta. E porque o costume não o teve, nem ainda o tem, por isso, porque abusas da nossa admoestação, já não só aconselho, mas ordeno com a nossa autoridade que não se faça daqui em diante este inusitado.

Depois de ter coibido os coríntios deste mal, passa a outros em que ofendiam muito pior: seduzidos, com efeito, por falsos mestres, tinham abandonado a instituição de Paulo, que lhes transmitira, sobre a recepção do Corpo e do Sangue de Cristo; os falsos apóstolos lhes haviam persuadido que deviam comungar depois da ceia, porque a essa hora Cristo transmitira estes sacramentos aos seus discípulos para serem participados. Daí tinham caído em muitos males; porque, havendo entre eles cismas, presumiam aproximar-se da unidade do Corpo de Cristo; e outro mal, porque antes ceavam e se embriagavam, e isto na Igreja; e nestas ceias envergonhavam os que não tinham tantos preparativos, e não ministravam aos necessitados; e depois destes males, ingeriam-se à mesa do Senhor. O texto liga-se assim: o que acima foi dito ordeno que não se faça; quanto a isto outro, não louvando, mas antes reprovando, a saber, que vos reunis para a ceia do Senhor, na qual deveríeis fazer-vos um, digo-vos que não é para melhor, como deveríeis, que vos reunis, mas para pior.

E, como são muitos os vossos males, primeiramente antepo isto de todos: que, quando vos reunis em assembleia, ouço que há entre vós divisões e discórdias, exigindo a Igreja a unidade; e, como ouço, em parte o creio, isto é, por causa de uma parte de vós, de quem sei que se gloria nos cismas: creio-o certamente, porque é preciso crer, porque pessoas religiosas mo comunicaram. Ou assim: há divisões entre vós; pois é preciso que haja divisões, isto é, quaisquer discórdias e (o que é maior) heresias; é necessário, com efeito, que venham escândalos, para que os que são aprovados e eleitos por Deus se manifestem entre vós, perseverando nas tentações, e para que igualmente se manifestem os reprovados.

Visto que há divisões entre vós, portanto, quando vos reunis em comum, vós que contradizeis à unidade, já não é, isto é, só pela causa da discórdia não é lícito, comer a ceia do Senhor, isto é, o Corpo e o Sangue de Cristo, que o Senhor transmitiu aos discípulos na ceia; ou então, já, isto é, neste mundo, a ceia do Senhor vos é interditada por causa da discórdia, mas no futuro sereis totalmente condenados. Por causa das divisões não é lícito receber o Corpo de Cristo; também por isso não vos é lícito, porque cada um de vós toma antecipadamente, isto é, presumindo antecipa a sua própria ceia, não só para preparar, mas também para comer. E ainda outro mal: porque um, que não tem de que se prepare, tem fome. De novo outro mal: e outro está embriagado. Mas, comendo assim na Igreja, porventura não tendes casas particulares para comer e beber? as quais, se não tivésseis, seria mais tolerável comer na praça; ou desprezais a Igreja de Deus, na qual vos embriagais, e envergonhais, isto é, infligis vergonha aos pobres que nada têm de que se preparem? E porque agis assim impudentemente, que vos direi? certamente estais sem caridade, desprezadores de Deus, seguidores da gula, etc. Louvar-vos-ei nisto? certamente não louvo, antes vitupero; ou então: louvo-vos em algumas outras coisas, mas nisto de modo algum louvo.

Depois de ter vituperado neles a ordem em que mal haviam costumado, determina-lhes como devem receber os sacramentos de Cristo, a saber, na abstinência; não na embriaguez, mas na dor e na tribulação. O texto liga-se assim: não vos louvo porque recebeis embriagados o Corpo do Senhor; assim, com efeito, não se deveria receber, mas em comemoração da tribulação e morte de Cristo. Mas antes que a isto chegue, recomenda o que vai dizer pela autoridade do Senhor, dizendo: eu recebi do próprio Senhor o que também vos transmiti, e agora de novo transmitirei, a saber, que nosso Senhor Jesus Cristo, naquela noite — a noite é sinal de adversidade e tristeza —, noite em que não banqueteava, não se embriagava, mas era entregue à morte por nossos pecados, tomou o pão, isto é, a verdadeira substância do pão, e dando graças a Deus Pai por isto: porque, como por ele dispusera, redimia o gênero humano e perseverava na obediência ao Pai — nestas palavras com que Cristo deu graças ao Pai diz-se que a substância do pão e do vinho posta no altar passa à verdadeira Carne e ao verdadeiro Sangue de Cristo —, dando graças, digo, partiu aquilo que, uno e inseparável, dura eternamente; mas partiu quando deu o todo a cada um, para insinuar com isso que nós, que somos pessoas diversas, devemos tornar-nos um no amor de Deus. Partiu, digo, e disse: Tomai, isto é, tende isto por aceitável e discuti sutilmente o mistério deste sacramento, para que, como eu por vós, assim também vos alegreis de padecer pelo meu nome e pelos próximos; tomai, digo, e comei: em que Cristo quis insinuar que não nos basta crer, se não vemos gostando quão suave é o Senhor; como comer de nada aproveitaria se não crêssemos. E isto que pouco antes era pão, agora é verdadeiramente o meu Corpo; Corpo que será entregue por vós à morte, embora agora vo-lo apresente imortal e impassível. Deve-se notar que estas coisas são também de tal modo sinais da substância que nelas não se nota qualidade alguma, nem mortalidade nem imortalidade; nem é de admirar, como diz Agostinho, que se levasse imortal em mãos mortais, quando na Transfiguração, quem então e depois foi mortal, mostrou-se na glória da imortalidade e impassibilidade a Pedro, Tiago e João. Comei, diz, o meu Corpo; e fazei isto, isto é, tomai continuamente, não em alegria e embriaguez, mas em memória de mim, para que vós, sempre lembrados da minha Paixão e morte, queirais padecer e morrer por mim.

Do mesmo modo, como o Corpo, tomou também o cálice, depois de cear — aqui insinua que depois da ceia deu o Corpo igualmente —, tomou, digo, o cálice, dizendo: Este cálice, que pouco antes era verdadeira substância de vinho; este cálice é o meu Sangue; e neste meu Sangue está a nova aliança, isto é, a nova promessa; a lei antiga, com efeito, prometia coisas carnais, mas este sacramento do meu Corpo e Sangue promete coisa nova, porque a bem-aventurança espiritual; aliança também nova porque nunca será mudada, de modo que se introduzam outros ritos. E fazei isto, a saber, o meu Sangue, isto é, tomai em memória de mim, isto é, de coração contrito e humilhado, não uma vez, mas todas as vezes que beberdes. E é justo que tomeis isto em memória de mim; porque todas as vezes que comerdes este pão, isto é, o meu verdadeiro Corpo, que retém a espécie e o sabor de pão, para que os que o tomam não o aborreçam; e todas as vezes que beberdes este cálice, isto é, o meu Sangue, que retém por isso o sabor e a espécie do vinho: todas as vezes, digo, que tomardes isto, anunciareis, isto é, representareis a morte do Senhor, com quem sempre deveis compadecer e morrer juntos, fazendo isto até que o Senhor venha ao juízo, e se entregue a vós face a face.

Deve-se notar por que o Senhor Jesus, depois da ceia, celebrada a antiga Páscoa, transmitiu aos discípulos o seu Corpo e Sangue, isto é, a nova Páscoa: o que foi feito em ordem bastante conveniente; se, com efeito, celebrasse primeiro a nova Páscoa, depois a antiga, não pareceria por isso destruir o novo sacramento as coisas antigas, nem que seria o fim das antigas; pareceria insinuar que depois destas novas reconduziria ainda aquelas antigas: para mostrar, porém, que todas as antigas têm fim neste novo sacrifício e que jamais se hão de reconduzir, convenientemente antepôs a antiga Páscoa para destruição e sobrepôs a nova Páscoa, que haveria de permanecer, na qual foi o fim de todas as antigas.

Visto que estes sacramentos devem ser tomados em comemoração e conformidade com Cristo, portanto, quem comer o pão, isto é, o Corpo do Senhor, ou beber o cálice, isto é, o Sangue do Senhor, indignamente, isto é, em cisma, em embriaguez ou em males semelhantes, esse será réu do Corpo e do Sangue do Senhor, isto é, condenável por causa do Corpo e do Sangue de Cristo indignamente recebidos. Para que o homem não se torne réu, examine-se a si mesmo, isto é, examine e julgue-se, sem se comparar com quem obra mal, como se por isso preferisse a sua justiça, mas julgue-se a si mesmo à vista da sua fraqueza: e assim, aprovado, coma daquele pão e beba do cálice. É preciso que o homem assim se examine; pois quem come e bebe indignamente come e bebe não a indulgência, mas a sua própria condenação, isto é, o julgamento para si: e com razão, não discernindo o Corpo do Senhor, isto é, distinguindo pouco do outro alimento o Corpo do Senhor, como não distinguiam os coríntios.

Porque o que antecipara em geral entendera sobretudo dos coríntios, infere das premissas contra eles: porque tomais indignamente o Corpo do Senhor e não o discernis dos outros alimentos, por isso entre vós, ó coríntios, há muitos fracos de febres e paixões semelhantes, e doentes, que são privados da virtude dos membros; e muitos dormem o sono da morte. Porque não nos examinamos, por isso somos assim afligidos; se, porém, nos julgássemos a nós mesmos, isto é, julgássemos os nossos maus feitos, isto é, os condenássemos com o flagelo da penitência, não seríamos julgados, isto é, condenados por eles pelo Senhor; de onde o homem se julga, daí escapa livre ao julgamento de Deus. E embora pela fraqueza e doença sejamos assim afligidos pelo Senhor, contudo, quando somos julgados e, segundo alguns, os de nós que obram mal são condenados, nós, outros, para não pecarmos igualmente, somos corrigidos pelo Senhor; no mesmo juízo em que Deus age contra os ímpios, castiga misericordiosamente os seus: somos corrigidos, digo, para não sermos condenados com este mundo. Por isso não diz "com os coríntios", mas "com o mundo"; entende, com efeito, que aos que pecam os sacramentos recebidos não aproveitam mais do que aos que permanecem no mundo, isto é, ainda na gentilidade.

Visto que os que tomam indignamente são condenados, e porque pela condenação dos ímpios somos corrigidos, portanto, meus irmãos, para que dignamente e bem corrigidos recebais, quando vos reunis para comer a ceia do Senhor, esperai uns pelos outros, isto é, um ao outro, não antecipando a hora fixada para receber a ceia do Senhor; segundo a tradição do Senhor, com efeito, a Igreja costumou comungar no dia da ceia à tarde. Digo que espereis; se alguém tem fome, e negligencia esperar a hora legítima, prefiro que coma em casa a que antecipe a ceia de Cristo antes da hora; não, contudo, que, depois de ter comido, participe da mesa de Cristo. Assim quero que vos espereis mutuamente, para que não vos reunais para condenação, isto é, para que a vossa reunião não vos seja causa de condenação. Estas coisas supradictas agora vos propus, porque sei que sem elas não podeis salvar-vos; as demais coisas, porém, sem as quais, contudo, podeis salvar-vos, mas proveitosas ao incremento da glória, disporei quando eu for.

Notas

  1. O primeiro versículo deste capítulo já foi exposto acima; pois, segundo São Bruno, parece pertencer ao capítulo precedente.
  2. Aqui alguns espreitam as palavras de Paulo, perguntando por que disse "a mulher do homem; o homem não da mulher, mas pela mulher", dizendo que o menino é concebido só do sêmen do homem, sem sêmen da mãe, e que somente pela mulher é acolhido o menino no útero da mãe, e que a mãe não tem ali sêmen, mas só a nutrição do útero; expondo mal as palavras de Paulo, [...] (o texto deste final da nota está corrompido no OCR). (Nota do próprio Autor.)

Capítulo 12

Quanto aos dons espirituais, não quero, irmãos, que ignoreis. Sabeis que, quando éreis gentios, éreis levados, conforme éreis conduzidos, aos ídolos mudos. Por isso vos faço saber que ninguém, falando no Espírito de Deus, diz: Anátema seja Jesus. E ninguém pode dizer: Senhor Jesus, a não ser no Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; e há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; e há diversidade de operações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para a utilidade comum. A um, com efeito, pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no mesmo Espírito; a outro, a operação de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, os diversos gêneros de línguas; a outro, a interpretação das palavras. Mas todas estas coisas as realiza um só e o mesmo Espírito, repartindo a cada um como quer. Pois, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, são um só corpo, assim também Cristo. Pois num só Espírito todos nós fomos batizados para formar um só corpo, quer judeus, quer gentios, quer escravos, quer livres; e todos fomos dessedentados num só Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; deixa por isso de ser do corpo? E se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; deixa por isso de ser do corpo? Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus dispôs os membros, cada um deles no corpo, como quis. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Mas agora há muitos membros, porém um só corpo. O olho não pode dizer à mão: Não preciso de ti; nem a cabeça aos pés: Não preciso de vós. Antes, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; e os que julgamos menos honrosos no corpo, a esses cercamos de maior honra; e as nossas partes indecorosas são tratadas com maior decoro. As decorosas não precisam disso; mas Deus compôs o corpo dando maior honra àquele a quem faltava, para que não haja divisão no corpo, mas os membros tenham o mesmo cuidado uns pelos outros. E, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo, e membros uns dos outros. E Deus estabeleceu na Igreja, primeiro, apóstolos; segundo, profetas; terceiro, doutores; depois, milagres; em seguida, dons de curas, ajudas, governos, diversidade de línguas, interpretação das palavras. Porventura todos são apóstolos? Porventura todos são profetas? Porventura todos são doutores? Porventura todos fazem milagres? Porventura todos têm o dom das curas? Porventura todos falam línguas? Porventura todos interpretam? Aspirai, porém, aos dons melhores. E ainda vos mostro um caminho mais excelente.

Comentário

Aqui termina o que se refere aos sacramentos do altar; agora passa a ensiná-los acerca dos dons do Espírito Santo, nos quais erravam gravemente: os que haviam recebido dons maiores, com efeito, gloriavam-se contra aqueles a quem foram concedidas graças menores; os que, porém, haviam recebido menos desesperavam, porque eram inferiores nos dons do Espírito Santo; e os que abundavam em graças maiores atribuíam-no aos seus méritos e censuravam isso nos méritos dos inferiores: deste modo derrogando ao Espírito. Erravam também nisto: que preferiam às demais as graças que eram inferiores, como os gêneros de línguas, e as desejavam mais. Para afastar este erro, instrui-os assim, dizendo: as demais coisas que disporei quando for, deixo de lado, mas de instruir-vos sobre os dons espirituais de modo algum adio. Não quero, irmãos, que ignoreis os dons espirituais, isto é, o que deveis sentir dos dons do Espírito Santo; digo isto do Espírito, que faz cessar do mal e operar o bem.

Mas, para o introduzir, antepõe uma semelhança, dizendo: sabei, por isso, que o Espírito Santo faz que não nos separemos de Cristo, porque sabeis que, quando éreis ainda gentios, isto é, gentios ou vivendo gentilicamente, éreis levados aos ídolos mudos conforme éreis conduzidos pelo espírito maligno; porque um era levado a imolar, outro a incensar, outro a adorar. Quando diz "ídolos mudos", mostra que não eram conduzidos pela razão, que poderia discernir bastante que o ídolo não é Deus, mas pelo espírito maligno. E por isso, porque pelo espírito maligno éreis conduzidos ao mal, por semelhança vos faço saber que pelo Espírito Santo desistis do mal anterior; o que diz equivalentemente: faço-vos saber que ninguém, falando no Espírito de Deus, falando em ato, pensamento e palavra — o espírito, com efeito, que é coisa invisível, não se conhece estar no homem senão por aquilo que exteriormente se vê ou ouve —; ninguém, digo, falando no Espírito de Deus, diz igualmente em ato, palavra, pensamento, anátema, isto é, separação de Jesus; ninguém, com efeito, que tenha o dom do Espírito Santo poderá operar, pensar ou falar algo pelo qual se separe de Jesus, enquanto o Espírito permanecer nele. Nisto muito alivia o desespero dos que haviam recebido graças menores, quando diz que não pode separar-se de Jesus aquele em quem o Espírito de Deus permanece por algum dom. E não só faz o Espírito que não nos separemos de Jesus, mas ninguém pode dizer, em palavra, obra, pensamento, Senhor Jesus é meu Senhor, porque eu sou seu servo, isto é, ninguém pode obrar bem a não ser no Espírito Santo, que por ele opera. Jesus é meu Senhor; isto não pode dizer quem não é servo seu, porque, se não é servo, mente antes do que diz a verdade. Aqui muito deprime os que se preferiam aos outros pelos dons maiores, ao dizer que nada vem do mérito do homem, mas tudo no Espírito Santo.

Embora o Espírito dê indiferentemente isto, apartar-se do mal e fazer o bem, as graças do mesmo Espírito são, contudo, distribuídas diversamente a diversos. Mas, embora haja divisões de graças, o Espírito que dá as graças divididas é, contudo, o mesmo e indiviso; e assim como há divisões de graças, assim há divisões de ministérios, que são efeitos delas: este, com efeito, ministra no episcopado, aquele no sacerdócio, e assim nos demais graus da Igreja. Dizemos também ministérios em tudo em que servimos idoneamente ao próximo. E, embora haja divisões de ministérios, o Senhor é o mesmo que dá a graça em que ministramos. Há também divisões de operações, que obramos bem em nós mesmos, orando, vigiando, jejuando; e estas operações são efeitos das graças; e embora as operações sejam divididas, o mesmo Deus é quem opera tudo em todos, tudo o que vê oportuno à salvação: o que diz assim, o mesmo Espírito, o mesmo Senhor, o mesmo Deus, não que entenda substâncias diversas, mas para designar a Trindade nas pessoas, a unidade na substância. E, embora haja divisões de graças, a cada um é dada a manifestação do Espírito, isto é, algum bem pelo qual se manifeste o Espírito a operar nele, para a utilidade comum; assim, com efeito, é útil o dom menor àquele a quem é dado, como o dom maior a outro; Deus, com efeito, não distribui as suas graças segundo os méritos dos homens, pois muitas vezes dá-se dom maior ao menos digno, e menor ao mais digno, conforme Deus vê este mais oportuno para exercer aquilo, aquele para outra coisa.

Enumera as graças, dizendo: há certamente divisões de graças; a um, isto é, distintamente, é dada pelo Espírito a palavra de sabedoria, isto é, o conhecimento das coisas divinas, e a palavra de sabedoria, para poder exprimir graciosamente o que sabe bem; a outro, porém, é dada a ciência das coisas humanas e a palavra de ciência, para falar com desembaraço o que sabe; e isto segundo o mesmo Espírito, excluído o mérito do homem; a outro é dada a fé, isto é, ou a constância da fé, para não duvidar de morrer por defender a fé, ou a fé, porque conhece os sacramentos da fé; e isto no mesmo Espírito. A outro é dado o dom das curas, para poder, pela virtude do Espírito, afastar doenças; e isto num só e mesmo Espírito. Porque lhe pesava acrescentar o Espírito a cada dom, compreende as demais graças e por fim acrescenta que todas são dadas pelo Espírito: a outro é dada a operação de milagres, isto é, de prodígios que se fazem contra a lei da natureza, como iluminar cego, ressuscitar morto; a outro é dada a profecia, isto é, a revelação de coisas futuras ou o entendimento das Escrituras; a outro é dado o discernimento dos espíritos, porque sabe discernir por que espírito cada um opera ou fala algo; a outro são dados os gêneros de línguas, porque sabe falar diversas línguas; a outro é dada a interpretação das palavras, porque sabe interpretar o grego pelo latim, ou vice-versa; ou então, interpretação das palavras, isto é, exposição das alegorias: e, embora estas diversas coisas sejam dadas a diversos, todas estas coisas as realiza um só e o mesmo Espírito, que acima chamei Deus e Senhor; Espírito, digo, repartindo a cada um como quer, isto é, por graça, não por mérito.

Aqui começa a mostrar a diversidade dos membros na mesma Cabeça, que é Cristo; e como aquelas coisas diversas se tornam um na Cabeça Cristo. O texto liga-se assim: digo bem, o Espírito repartindo a cada um, isto é, conferindo aos diversos membros diversas graças; pois Cristo é um só corpo que tem diversos membros: como vês que o corpo do homem é um só e, contudo, tem muitos membros, isto é, que têm funções diversas; e, contudo, todos os membros do corpo, embora muitos, isto é, diversos, são um só corpo; assim também Cristo tem diversos membros na Igreja e, contudo, naquela Cabeça são um só: e não é de admirar; porque, assim como pela mesma alma vivem os diversos membros, assim pelo mesmo Espírito são regidos todos os seus membros. Na verdade Cristo é um só corpo; pois num só Espírito todos nós fomos batizados e vivificados, passando a um só corpo de Cristo; todos, digo, indistintamente, quer judeus, quer gentios, quer escravos, quer livres. E como batizados, assim também todos depois do batismo fomos dessedentados num só e mesmo Espírito na confirmação e nas demais ordens da Igreja. Na verdade todos nós fomos batizados, isto é, somos na verdade membros diversos; pois, como o corpo do homem não é um só membro, mas muitos, por semelhança Cristo não é um só membro, mas muitos. Isto resume também toda a sentença.

Agora infere do que precede que nós todos, batizados e dessedentados num só Espírito, somos um só corpo de Cristo: porque um, portanto se o pé disser, isto é, o membro inferior na Igreja: porque não sou mão, isto é, operador tal como aquele, por isso não sou do corpo de Cristo; não se segue por isso que não seja do corpo de Cristo; o que é dizer: aquele que é inferior não pode romper-se da unidade de Cristo, porque tem outro superior a si no mesmo corpo de Cristo. E, como o pé não se rompe porque não é mão, assim se o ouvido disser, isto é, aquele que convém entender por outro que ensina: porque não sou olho, isto é, porque não entendo tudo por mim, por isso não sou do corpo; não se segue que não seja do corpo.

Dissera acima que o corpo não é um só membro, mas não dera a razão; por isso agora acrescenta, dizendo: na verdade o ouvido, embora não seja olho, é, contudo, do corpo; porque, se por isso não fosse, seguir-se-ia que o olho seria todo o corpo; mas se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Eis a penúria no corpo. E se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? De novo penúria (por olfato entendemos o discernimento do bem e do mal). Para que não houvesse esta penúria no corpo, Deus dispôs agora os membros diversos, cada um deles em um só corpo, como quis, distribuindo-lhes as graças. Não só para remover a penúria um membro não é todo o corpo, mas também porque não pode sê-lo, pois se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Pereceria certamente o corpo, porque, se todos os membros fossem mão, nem assim haveria corpo de homem: de novo, se todos na Igreja fossem Apóstolos, ou uma só coisa, nem os próprios seriam Apóstolos, por não haver a quem pregar.

Visto que, se um membro fosse todo o corpo, seguir-se-ia penúria no corpo e também defeito do corpo, por isso agora há muitos membros distintos, mas um só corpo desses membros; e porque por necessidade os inferiores, como os superiores, assim estão no corpo, portanto o olho não pode dizer à mão, isto é, o superior ao inferior: não preciso de ti; já que um membro retirado faz penúria ao corpo. Por isso aparece bastante que quem recebeu dom maior não tem de que se prefira ao que recebeu menos; pois o inferior faz penúria ao corpo como o superior, se for removido. Nem a cabeça aos pés, o superior igualmente ao inferior, pode dizer: não preciso de vós; já que o olho precisa de purgação pela mão, a cabeça de ser levada pelos pés para aquilo que deseja saborear, ouvir ou ver.

Os inferiores não são apenas necessários, mas também, muito mais, são às vezes necessários os membros do corpo que parecem mais fracos; muitas vezes, também, quaisquer ignorantes são mais necessários na administração dos bens eclesiásticos do que os mais sábios, segundo a oportunidade do tempo; e os membros da Igreja que julgamos menos honrosos, porque caem, a esses cercamos de maior honra, isto é, devemos tais pessoas tratar com mais solícito cuidado e reconduzi-los ao melhor. E as nossas partes indecorosas, como as pudendas no corpo; e aquele fornicador que tomara a mulher do pai na Igreja dos coríntios, como Davi quando pecou contra a mulher de Urias; estas indecorosas têm maior decoro, isto é, deve-se exibir-lhes diligente e honesto cuidado, para que, se forem desprezadas, não desesperem; porque talvez amanhã sejam perfeitas, como se viu em Davi. As indecorosas precisam de decoro; mas as decorosas não precisam de honra alguma dispensada a elas por outro; os que são perfeitos, com efeito, não precisam de outro. As decorosas, sim, não precisam de nada; mas Deus compôs, isto é, modificou o corpo, para que as decorosas ornassem as indecorosas; compôs, digo, dando maior honra àquele a quem faltava, para que o membro doente cercássemos de maior amor do que o são. Por isso assim compôs, para que não haja divisão, isto é, discórdia no corpo de Cristo; mas os membros tenham o mesmo cuidado uns pelos outros, isto é, um pelo outro, sentindo o mesmo, isto é, julgando própria a angústia do próximo. E se um membro sofre alguma moléstia, sofram com ele todos os membros; se um membro é honrado, alegrem-se com ele todos os membros. E tudo o que disse sobre a unidade do corpo de Cristo, tudo diz respeito a vós, ó coríntios; porque vós sois o corpo de Cristo, e diversos membros pendentes do membro de Cristo, que vos ensinou a fé; ou então, membros pendentes do membro, isto é, da Cabeça Cristo, que é o membro supremo da Igreja.

Falou acima da diversidade dos membros de Cristo, como são um só em sua Cabeça Cristo; fala ainda dos mesmos membros segundo as diversidades dos dons que têm do Espírito Santo, querendo comparar entre si aqueles dons, quais são mais úteis, quais menos, como a caridade e a profecia, que são as maiores; falar diversas línguas, muito inferior a estas: e compara-os por isso, porque os coríntios preferiam a todas as graças os gêneros de línguas, que era a última. O texto liga-se assim: vós sois membros pendentes do membro, isto é, da Cabeça Cristo, em quem sois um só corpo; e nesta unidade há distinção, porque a alguns, isto é, distintamente, Deus estabeleceu na Igreja: primeiro, isto é, no primeiro e excelentíssimo grau, pondo apóstolos; segundo, depois dos Apóstolos, estabeleceu profetas, isto é, homens de sentido iluminado, que abrissem as Escrituras; no terceiro grau, abaixo dos Profetas, estabeleceu doutores, que instruíssem sobre os costumes. Nestes três guardou a ordem; as demais misturou sem ordem: depois, após os Doutores, estabeleceu milagres, aqueles, a saber, que na virtude de Deus iluminassem cegos, ressuscitassem mortos; em seguida, estabeleceu dons de curas, aqueles, a saber, que por dom de Deus afastassem as doenças; depois ajudas, isto é, auxiliares da pregação, como Barnabé e Timóteo (ofício que ainda exercem os legados da Sé Romana); depois destas estabeleceu governos, isto é, bispos, presbíteros, que governassem as Igrejas dos fiéis; por fim estabeleceu diversidade de línguas, isto é, a última graça, que vós, ó coríntios, mais desejais. E convenientemente Deus ordenou as diversidades de graças na Igreja; porventura todos foram Apóstolos? Se todos, certamente nem um; pois assim, sendo todos Apóstolos, não haveria a quem pregar a palavra de Deus, porque todos perfeitos. De novo, porventura todos seriam Profetas? Assim já nada poderia ser revelado a alguém, porque cada um seria Profeta. Porventura, de novo, todos serão doutores? Não haveria quem instruir sobre os costumes, porque todos doutos. Porventura todos fazem milagres? Assim nem haveria a quem se fizessem milagres. Porventura todos têm o dom das curas? Não; porque não haveria a quem curar. Porventura todos falam diversas línguas? Assim o dom de Deus se tornaria vil e comum. Porventura todos interpretam, isto é, sabem transferir de língua a língua? Se todos fossem intérpretes, a interpretação seria reduzida a nada. Visto que são tantos os dons do Espírito Santo, aspirai, isto é, desejai aos dons melhores, isto é, os carismas, os dons gratuitos do Espírito, que entre os ditos são melhores: carisma diz-se dom gratuito. E além destas coisas que acima mostrei, mostro-vos ainda um caminho mais excelente, isto é, a caridade, que é caminho e mais excelente que todo dom, porque todas as demais coisas não bastam à bem-aventurança sem a caridade.

Capítulo 13

Se eu falar as línguas dos homens e dos Anjos, mas não tiver caridade, tornei-me como bronze que soa ou címbalo que retine. E se tiver o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios e toda a ciência; e se tiver toda a fé, a ponto de transportar montes, mas não tiver caridade, nada sou. E se distribuir todos os meus bens para alimento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, mas não tiver caridade, nada me aproveita. A caridade é paciente, é benigna; a caridade não tem inveja, não age com leviandade, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não procura o que é seu, não se irrita, não pensa mal, não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade jamais acabará; quanto às profecias, serão abolidas; quanto às línguas, cessarão; quanto à ciência, será destruída. Pois em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, será abolido o que é em parte. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Vemos agora por espelho, em enigma; então, porém, face a face. Agora conheço em parte; então, porém, conhecerei como também sou conhecido. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; a maior delas, porém, é a caridade.

Comentário

Porque quer que os coríntios desejem mais a caridade do que as línguas, prova que a caridade é mais excelente do que falar em línguas, dizendo: a caridade é certamente mais excelente que as línguas; pois se eu falar as línguas de todos os homens, falar também as línguas dos Anjos — não que os Anjos falem por línguas, mas que significam um ao outro a sua vontade por certos sinais —, e se eu fosse de tanta perfeição que conhecesse as admoestações dos Anjos; ou então, falaria as línguas dos Anjos, pois, quando os Anjos, assumida alguma forma, falam aos homens, é necessário que profiram palavras humanas; se, porém, eu falar essas mesmas palavras; ou então assim: se eu falar as línguas dos homens, isto é, dos que vivem humanamente, e as línguas dos Anjos, isto é, dos que neste mundo vivem contemplativamente, mas não tiver caridade, tornei-me inútil como bronze que soa, que infrutuosamente, quanto a si, é percutido, ou como címbalo que retine, que deleita os ouvidos dos homens e se percute e diminui a si mesmo. E se tiver o dom de profecia, para predizer o futuro com sentido iluminado, e conhecer todos os mistérios, isto é, as figuras das obras de Deus, como o dilúvio foi figura do batismo, e semelhantes; e toda a ciência, isto é, a significação dos próprios mistérios; e se tiver toda a fé, a ponto de transportar montes à letra (era este, com efeito, o mérito da fé, que, se o fiel dissesse ao monte: sai daqui e lança-te ao mar (Mt 21,21), assim certamente se faria); ou de outro modo: se tiver fé tão perfeita que transporte montes, isto é, os diabos dos corpos possessos para porcos ou semelhantes, mas não tiver caridade, nada sou, isto é, sou julgado de nenhum mérito por causa da fé sem caridade. E se distribuir, isto é, repartir por diversos, não só o meu supérfluo, mas também todos os meus bens, isto é, a faculdade e possibilidade que eu teria de reter; distribuir, digo, não em coisas supérfluas, mas em alimento, e não dos ricos, mas dos pobres; e todas as posses quantas sejam; e se entregar o meu corpo para ser queimado, como o bem-aventurado Lourenço, mas não tiver caridade, nada me aproveita.

As demais coisas sem a caridade não aproveitam; mas a caridade, mesmo que possa ser considerada por si, é paciente, isto é, tem a virtude da paciência, ainda que alguma vez nada sofra; é benigna, isto é, larga e abundante no amor do próximo, ainda que não tenha o que dar. Depois de pôr os bens na caridade, remove os males dela, dizendo: a caridade não tem inveja, isto é, não inveja a ninguém; não age com leviandade, isto é, nada perversamente; não se ensoberbece, isto é, não se orgulha de bem temporal ou espiritual; não é ambiciosa, a ponto de cobiçar as dignidades do mundo; não procura o que é seu apenas, mas atende igualmente à utilidade do próximo como à sua; ou então, não procura, isto é, não reclama o que é seu, se alguém lho tirou; não se irrita, isto é, não é provocada à ira; não pensa mal, para o dizer ou infligir a alguém; não se alegra com a injustiça; se vê que se age injustamente contra o próximo, antes se compadece; mas se alegra com a verdade, isto é, com quem fala ou age segundo a verdade; tudo suporta, mesmo as adversidades que lhe são infligidas, tolera pacientemente; tudo crê, tudo o que convém crer sadiamente de Deus; tudo espera, tanto no presente as virtudes como no futuro a glória; tudo sofre, isto é, se a retribuição é adiada, é longânime no sofrer.

Outra excelência da caridade: a saber, que a caridade jamais acabará, isto é, é permanente eternamente e nunca passou. Na verdade só a caridade não acaba; pois as profecias e a ciência, que entre as demais parecem mais permanecer, essas são destruídas: quanto às profecias, serão abolidas no futuro; quando tudo for aberto a todos, que profetizariam? Quanto às línguas, cessarão, pois no futuro haverá identidade de linguagem para todos; quanto à ciência que agora se tem, será destruída. Porque a alguns parecia que a ciência era permanente, prova que a ciência presente de fato será destruída; porque agora conhecemos, isto é, sabemos, em parte, isto é, imperfeitamente. E na verdade a profecia será abolida; pois agora profetizamos em parte, isto é, imperfeitamente. Mas no futuro, quando vier o que é perfeito, será abolido tudo o que é em parte, isto é, imperfeito.

Alguém objetaria: é verdade que a ciência agora é imperfeita, mas será perfeita no futuro; mas aquela parte da ciência que agora existe não será destruída, será encerrada naquela totalidade da ciência. E Paulo destrói isto pela semelhança trazida, de que nem a ciência que agora existe permanecerá; porque, assim como o menino nada entende pela razão, mas pelos sentidos e por certas imagens, da pedra que é dura e sólida, e das outras coisas igualmente; quando o mesmo menino se torna homem, deixadas as imagens, já não procurando discernir pelo sentido corporal, só pela força da razão conhece muito melhor as mesmas coisas, de tal modo que o conhecimento sensual e imaginário que teve de menino já não lhe parece ter razão nenhuma, a ele que usa da razão: assim a ciência deste mundo imagina a Deus por certas semelhanças, de modo que, porque vê alguém poderoso, pensa que Deus, que o criou, é muito mais poderoso, e das demais igualmente; mas no futuro conheceremos a Deus como ele é, a quem agora não conhecemos como é, mas apenas imaginamos por certas semelhanças. E porque então perfeita, agora imperfeita, então segundo a verdade da coisa, agora só segundo imagens, por isso disse que a ciência é destruída. O amor, porém, não será destruído, porque então amaremos o mesmo que agora amamos, embora então mais perfeitamente.

Na verdade o que é imperfeito será abolido quando vier o que é perfeito, como vedes que quando eu era criança, ignorando a força da razão, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança, tudo imperfeitamente; mas quando me tornei homem, e exerci a força da razão, deixei o que era próprio de criança; porque já pela razão entendi muito melhor as coisas que, enquanto era criança, mal conheci um pouco por imagens e sentidos. Igualmente, como crianças, vemos agora, isto é, no presente, a Deus por espelho, isto é, não pela verdade da coisa como é, mas por certa semelhança com que imaginamos a Deus; nem por espelho que seja um pouco lúcido, mas posto em enigma, isto é, em tanta obscuridade que a verdade da coisa, como é, de modo algum se conhece; mas então, no futuro, face a face, isto é, veremos a Deus como ele é: e porque assim será, aparece que a ciência presente será inteiramente destruída. Mas a caridade permanecerá, pois o mesmo que agora amamos, amaremos no futuro.

De vós, certamente, assim será, que agora conhecereis imperfeitamente, então perfeitamente; porque eu mesmo agora conheço a Deus em parte, isto é, imperfeitamente; então, porém, no futuro, conhecê-lo-ei tão perfeitamente como também sou conhecido por Deus, a quem nada se oculta em mim. Por isso a caridade é mais excelente, porque, quando as outras forem destruídas, só ela permanecerá. E também agora, enquanto no presente permanece com as outras virtudes, é mais excelente que todas. Mas a letra liga-se assim: no futuro serão destruídas, mas agora permanecem a fé, a esperança e a caridade — por estas entende todas as virtudes —, estas três; que podeis ter bastante facilmente a fé, a esperança e a caridade, porque não são senão estas três, e sendo tão poucas, preparam toda a glória: e embora permaneçam juntas, a maior delas, porém, é a caridade, isto é, entre estas; ou então, maior que estas, a saber, que a fé e a esperança: e porque permanecerá eternamente, e agora é maior, por isso procurai sobretudo a caridade, não os gêneros de línguas.

Capítulo 14

Procurai a caridade; aspirai aos dons espirituais, mas sobretudo a profetizar. Pois quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus; ninguém o entende. Em espírito, porém, fala mistérios. Mas quem profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação. Quem fala em língua edifica-se a si mesmo; quem profetiza edifica a Igreja de Deus. Quero que todos faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis. Pois maior é quem profetiza do que quem fala em línguas, a não ser que interprete, para que a Igreja receba edificação. Agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, que vos aproveitarei, se não vos falar ou em revelação, ou em ciência, ou em profecia, ou em doutrina? Também as coisas inanimadas que produzem som, seja flauta, seja cítara, se não derem distinção aos sons, como se saberá o que se toca na flauta ou na cítara? E se a trombeta der um som incerto, quem se preparará para a guerra? Assim também vós, se por meio da língua não derdes uma palavra inteligível, como se saberá o que dizeis? Estareis falando ao ar. Há tantos gêneros de línguas neste mundo, e nenhum sem significado. Se, pois, eu não souber o sentido da voz, serei bárbaro para aquele que fala, e o que fala será bárbaro para mim. Assim também vós, já que aspirais aos dons espirituais, procurai abundar para a edificação da Igreja. Por isso, quem fala em língua peça a graça de interpretar. Pois, se oro em língua, o meu espírito ora, mas a minha mente fica sem fruto. Que fazer, então? Orarei com o espírito, orarei também com a mente; cantarei com o espírito, cantarei também com a mente. Do contrário, se bendisseres com o espírito, o que ocupa o lugar do simples, como dirá Amém à tua bênção? Pois não sabe o que dizes. Tu, na verdade, dás bem graças; mas o outro não é edificado. Dou graças a Deus porque falo em línguas mais do que todos vós. Mas na Igreja prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também os outros, a dez mil palavras em língua. Irmãos, não sejais crianças no juízo; sede crianças na malícia, mas no juízo sede adultos. Na lei está escrito: Falarei a este povo em outras línguas e por lábios de estrangeiros; e nem assim me ouvirão, diz o Senhor (Is 28,11). Assim, as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; a profecia, porém, não para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a Igreja se reunir num só lugar e todos falarem em línguas, e entrarem simples ou infiéis, não dirão que estais loucos? Mas se todos profetizarem, e entrar algum infiel ou simples, é convencido por todos, é julgado por todos; os segredos do seu coração se tornam manifestos, e assim, caindo com o rosto em terra, adorará a Deus, declarando que Deus está verdadeiramente entre vós. Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, cada um de vós tem um salmo, tem uma doutrina, tem uma revelação, tem uma língua, tem uma interpretação: faça-se tudo para edificação. Se alguém fala em língua, sejam dois, ou no máximo três, e cada um por sua vez, e um interprete. Se não houver intérprete, cale-se na Igreja, e fale consigo mesmo e com Deus. Os profetas falem dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, a outro que está sentado for feita uma revelação, cale-se o primeiro. Pois todos podeis profetizar, um por um, para que todos aprendam e todos sejam exortados; e os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Pois Deus não é de desordem, mas de paz; como ensino em todas as Igrejas dos santos. As mulheres calem-se nas Igrejas; pois não lhes é permitido falar, mas devem ser submissas, como também a lei diz. Se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa aos seus maridos. Pois é vergonhoso para a mulher falar na Igreja. Porventura a palavra de Deus partiu de vós? Ou chegou só a vós? Se alguém se julga profeta ou espiritual, reconheça que o que vos escrevo são mandamentos do Senhor. Se alguém, porém, o ignora, será ignorado. Portanto, irmãos, aspirai a profetizar, e não proibais falar em línguas. Mas faça-se tudo com decoro e ordem.

Comentário

Depois de provar que a caridade é mais excelente, não só do que as línguas, mas do que toda virtude, prova que profetizar é mais digno e mais útil na Igreja do que falar em línguas; e prova-o de muitos modos, dizendo: embora eu diga: procurai acima de tudo a caridade, quero, contudo, que aspireis aos dons espirituais, isto é, desejeis as graças espirituais. E, como todas são úteis, desejai, contudo, sobretudo profetizar antes que falar em línguas: e isso é mais para desejar; porque quem fala em língua desconhecida não fala aos homens, isto é, não para edificação dos homens, mas a Deus, isto é, só para honra de Deus, que deu a língua: na verdade não aos homens, pois ninguém o entende, isto é, nenhum dos homens ouve o que ele diz; mas, embora ninguém ouça, em espírito, contudo, fala mistérios o Espírito Santo, por aquele que fala em língua desconhecida. Na verdade é mais útil profetizar do que falar em línguas; porque quem profetiza fala aos homens para edificação. Ou liguemos ao imediato, para que a sentença seja, contudo, a mesma: por isso que, porque devem responder aos próximos, quem fala em línguas não fala aos homens; pois só quem profetiza, isto é, quem abre as obscuridades das Escrituras, esse fala aos homens para edificação, isto é, para instruir a rudeza deles; e, depois de instruídos, para exortação, a fim de se erguerem ao melhor, e consolação, a fim de aparecerem fortes nas tribulações. Quem, porém, fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo mais; às vezes nem a si, porque não entende. Sentença oposta: mas quem profetiza, enquanto abre as Escrituras, edifica a Igreja inteira. E porque é tanta a utilidade de profetizar, quero que todos faleis em línguas, mas muito mais quero que profetizeis; porque quem profetiza é maior em dignidade, mérito e utilidade do que quem fala em línguas, a não ser que interprete (o que dificilmente acontece), isto é, exponha em língua conhecida o que diz em desconhecida, para que a Igreja receba edificação por sua interpretação; interpretação que vale o mesmo que a profecia.

Prova por semelhança consigo mesmo que não devem insistir nas variedades de línguas, dizendo: porque pela língua desconhecida a Igreja não é edificada, as línguas não devem por isso ser muito desejadas; nem também por isto: se eu agora, mesmo já convertidos e tendo vós as línguas, for ter convosco, irmãos, falando em línguas inauditas, que vos aproveitarei, se não vos falar ou em revelação, ou em ciência, ou em profecia, ou em doutrina, isto é, se nada vos falar em algum gênero de instrução? Por revelação e profecia entende dons de Deus, por ciência e doutrina os adquiridos por indústria, que se têm, com efeito, pela diligência do homem. E chama doutrina o que se aprende de outro; ciência, porém, o que se entende das Escrituras por estudo e exercício próprio; ou então doutrina dos costumes, em que convém operar; ciência das naturezas das coisas, em que basta a só especulação. Chama profecia ao conhecimento contínuo das coisas futuras, não por algumas figuras, mas pela só insinuação do Espírito Santo; revelação, porém, ao conhecimento súbito das coisas futuras, como se alguém, arrebatado pelo Espírito, predisse subitamente o futuro, e logo o Espírito se retirou dele; ou então, revelação, isto é, conhecimento das coisas futuras por sonhos, como em Daniel e José, ou por fatos, como Noé pela arca.

Prova o mesmo pela semelhança dos seres inanimados, dizendo: embora eu vos tenha trazido exemplo de mim mesmo, não era preciso; porque nas coisas que são sem alma, que produzem voz, isto é, som, seja flauta, seja cítara, se não derem distinção aos sons, como se saberá o que se toca na flauta ou o que se toca na cítara? assim também vós, porque confundis sons indistintos, não se entende o que dizeis. De novo por outra coisa provo que não se deve desejar a confusão de línguas: pois se a trombeta der um som incerto, sendo distinta a voz da trombeta que convida à guerra, quem se preparará para a guerra por um som incerto? Ninguém, certamente. Ou aquele "pois" liga-se ao imediato. A cítara ou a flauta soando confusamente não é entendida; e a trombeta, por semelhança, dando som incerto, não é entendida; e assim como a trombeta que dá som incerto não é entendida, assim também vós, se por meio da língua não derdes uma palavra inteligível, como se saberá, pelos ouvintes, o que por vós for dito? Não se saberá certamente; pois estareis falando ao ar, isto é, açoitando em vão o ar; falando, digo, tantos gêneros, isto é, como os gêneros de línguas são infinitos neste mundo, e em cada língua nada é sem significado; cada coisa tem seu vocábulo próprio e distinto dos outros. Portanto, porque as línguas são diversas e as vozes distintas, se eu não souber o sentido, isto é, a significação da voz que profiro, serei bárbaro para aquele a quem falo, e quem me fala será igualmente bárbaro para mim; assim sois também vós uns para os outros bárbaros. Ou então, para que aqui comece o versículo: assim, isto é, por esta razão, porque quem fala desconhecidamente é julgado bárbaro, vós também, já que aspirais aos dons espirituais, isto é, sois desejosos de bens espirituais, procurai abundar nestes dons que valem para a edificação da Igreja, como a profecia, e não vos apliqueis às variedades de línguas.

Porque deveis desejar aqueles dons que valham para a edificação da Igreja, por isso quem fala em língua desconhecida peça a Deus a graça de interpretar, isto é, de saber interpretar aos ouvintes o que fala em língua alheia; ou então: quem fala em língua, ore, isto é, fale, de modo que o que profere seja interpretado. Assim se deve falar, de modo que a interpretação seja companheira; pois se eu mesmo orar, isto é, falar, ou orar a Deus em língua desconhecida, o meu espírito ora, isto é, o Espírito Santo que me foi dado, ou então, o meu espírito, isto é, a minha razão, que, embora não entenda, sabe, contudo, que é bom o que diz, porque vem de dom de Deus; a razão, digo, ou o meu espírito em mim ora a Deus, ou ora, isto é, fala, mas a minha mente, isto é, o meu intelecto, fica sem fruto, isto é, sem utilidade de compunção, porque, por não entender, não posso compungir-me.

Visto que, se falo em língua desconhecida, estou sem fruto porque não interpreto, que fazer, então?, isto é, como se deve orar? Assim, certamente: orarei com o espírito, ou falarei, isto é, com a voz desconhecida que o Espírito dá, ou é a razão, e assim orarei também com a mente, isto é, com a inteligência, de modo que só profira o que entendo. Na verdade orarei com o espírito e com a mente; pois cantarei com o espírito, cantarei também com a mente: diz cantar salmos orar a Deus com modulação consoante da voz, consonância de diversas vozes na Igreja que insinua que todos devem louvar em consonância de fé e de vida. É bom orar ao mesmo tempo com o espírito e com a mente; do contrário (isto é, mas) se bendisseres com o espírito, isto é, só com a voz desconhecida, quem na tua oração ocupa o lugar, isto é, a voz do simples? Era costume na Igreja que os simples, isto é, rudes na fé, mesmo iletrados, quando o sacerdote orava, respondessem Amém, e com o teu espírito; mas agora, orando alguém em língua desconhecida, até os mais prudentes não sabiam onde estava o fim, onde o meio da oração, porque não entendiam; e assim não podiam fazer nem aquilo que os simples costumavam responder. Idioma diz-se o próprio, daí se dizem idiotas os que ainda estão na propriedade da natureza, nada sabendo senão o que os meninos aprenderam das mães. Ou aquele "do contrário" seja nome, assim: por isto que se disse, não deveis orar só em língua; do contrário, isto é, outra razão pela qual não façais o mesmo, porque se bendisseres com o espírito, etc. Na verdade ninguém ocupa o lugar do simples, quando oras com voz desconhecida; como dirá Amém à tua bênção até o sábio, porque não sabe o que dizes; não entende, com efeito, quando tu, falando em língua desconhecida, deves terminar ou prosseguir? Repreendo-te por isto: que o próximo não te entende; pois quanto à tua pessoa não te repreendo; pois tu dás bem graças, quanto está em ti, mas mal porque o outro, isto é, o próximo, não é edificado, porque nem entende. Ou liga-se ali acima: disse justamente "bendisseres"; pois tu dás bem graças, quanto está em ti; mas o irmão não é instruído.

Prova de novo pelo exemplo e autoridade sua que não devem seguir tanto as línguas, dizendo: não faleis em língua de modo a não haver instrução do próximo; pois eu, a quem deveis imitar, quero dizer na Igreja cinco, isto é, poucas palavras com a minha inteligência, isto é, com o intelecto, para entender o que digo (com isso nota que alguns falavam às vezes de modo que nem eles se entendiam); quero, digo, falar com a minha inteligência, para instruir também os outros, a (preferência) dez mil palavras em língua desconhecida, isto é, infinidade de palavras, o que de modo algum quero; o que certamente poderia se quisesse. Dou graças a Deus, porque, se quiser, falo em línguas mais do que todos vós; mas, isto é, contudo, na Igreja prefiro, etc. Por isso Paulo disse ter os gêneros de línguas, para que os coríntios não dissessem: porque não tem línguas, por isso nos censura quanto às línguas.

De novo outra razão por que não devem desejar as línguas, porque assim se tornam crianças; mas a letra liga-se assim ao imediato: como em mim vedes, falai com a vossa inteligência; e igualmente, irmãos, seguindo línguas cujo sentido não tendes, não sejais crianças no juízo, os que dizem o que não entendem; mas sede crianças na malícia: e diz isto porque eram muito maliciosos em sentidos, ou seja, em pensamento, palavra e ato. Crianças na malícia, mas no juízo sede adultos, isto é, desejando perfeita inteligência, para poderdes profetizar.

De novo, as línguas não devem ser desejadas por vós, porque sois fiéis, e as línguas não aproveitam aos fiéis, mas aos infiéis. E que assim seja, antepõe a autoridade de Isaías; que, contudo, diz estar na lei, designando pelo nome de lei a profecia: na verdade não aos fiéis, mas aos infiéis; pois na lei está escrito: [que] — aquele "que" ou ali se continua ou aqui se põe por "que" — isto, digo, está escrito: em outras línguas, isto é, na variedade de línguas, e por lábios de estrangeiros, isto é, em outros discursos, porque antes falei de coisas carnais, agora falarei de espirituais, falarei a este povo judaico infiel, para que, admirando a novidade das línguas, me ouçam; e nem assim, isto é, nem por tão evidente milagre, me ouvirão: e crede que assim é, porque isto diz o Senhor (Is 28,11). O que diz "por lábios de estrangeiros" nada serve para a prova, mas é costume pôr as autoridades completas. Agora da lei antecipada infere Paulo: porque ao povo incrédulo foram propostas diversas línguas, assim, por isso aparece que as línguas são um sinal, isto é, causa de milagre, não para os fiéis, cuja fé não precisa de milagres, mas para os infiéis, que pela novidade dos milagres devem ser atraídos à fé. Sentença oposta: as línguas não aos fiéis, mas aos infiéis; a profecia, porém, não aos infiéis, seria insensato revelar aos incrédulos os mistérios da fé, mas aos fiéis; e porque sois fiéis, procurai a profecia, que convém aos fiéis.

De novo outra razão por que não devem desejar as línguas: porque, falando eles na Igreja em várias línguas, se acaso entrarem infiéis, julgarão que estão loucos. A letra liga-se assim: porque as línguas não são sinal para os fiéis, vós, pois, que sois a Igreja, por que por causa das línguas sois reputados loucos? Se, pois, toda a Igreja se reunir num só lugar e todos falarem em línguas desconhecidas, e, clamando eles na variedade de línguas, entrarem simples ou infiéis, não dirão que estais loucos, porque vos tumultuais como frenéticos? Clamando na variedade de línguas, dirão que estais loucos; mas se todos na Igreja profetizarem, abrindo as Escrituras, e entrar durante a profecia deles algum infiel ou simples, é logo convencido por todos os que ali profetizam; ouvindo, com efeito, os preceitos de Deus, os mistérios da fé, a sua consciência o convence e argui, e assim é julgado, isto é, reconhece-se julgável e condenável, instruído por todos os que ali profetizam: e então os segredos do seu coração se tornam manifestos a si mesmo; porque naquilo em que não julgava ter pecado, pela doutrina que ouve reconhece-se gravemente réu: e assim convencido, caindo com o rosto em terra, adorará a Deus, para receber a remissão dos pecados, declarando, também abertamente a todos, que Deus está verdadeiramente entre vós que profetizais, a quem, tumultuando em línguas, pouco antes dizia estar loucos.

Porque nem quer que falem indiscretamente em línguas, para não serem julgados loucos, nem de novo quer que rejeitem inteiramente o dom de Deus, a saber, falar em línguas, determina como usem sobretudo deste e dos outros dons; fazendo tudo para a utilidade do próximo. A letra liga-se assim: visto que, tumultuando em línguas, somos ditos loucos, profetizando, porém, ditos ter Deus em nós; que fazer, pois, irmãos? profetizareis sempre, desprezadas inteiramente as línguas? De modo algum; mas quando vos reunis, cada um tem o seu dom: um tem um salmo, para cantar ou interpretar os salmos na Igreja; outro tem uma doutrina, para saber instruir sobre os costumes; outro tem uma revelação, isto é, a revelação das coisas ocultas. Estas três pôs só por semelhança; as duas que seguem, ao propósito: outro tem uma língua desconhecida; outro tem uma interpretação das Escrituras, isto é, a profecia. E, tendo vós todas estas coisas, faça-se tudo em vós para edificação da Igreja, quer façais isto, quer aquilo. Se alguém fala em língua desconhecida, faça-se isso por dois, isto é, permito que só dois falem assim, ou por três, para dizer o máximo; não concedo, com efeito, que seja lícito a mais de três: nem aqui dois ou três clamem na mesma parte do templo; mas por partes, como se este no começo, aquele no fim da Igreja; ou por partes do dia, como este à hora terça, aquele à sexta. E estes não falem sem profeta, mas haja sempre um à mão, para que o que se diz de modo inusitado seja interpretado em língua popular. Se objetardes que às vezes não estará à mão intérprete, prefiro que quem fala em língua se cale na Igreja do que rosne bárbaro sem intérprete; fale consigo mesmo e com Deus, isto é, para instrução de si e louvor divino.

Como os que falam em línguas, assim também os profetas falem dois ou três na Igreja, e por partes igualmente. Dir-me-iam outros: nós, que sabemos tanto, não profetizaremos? De modo algum; mas os outros profetas julguem o que é ensinado por aqueles irmãos, para que, se ensinarem algo mal, os outros os corrijam. De novo outra coisa sobre os profetas: se, porém, de repente for revelado algo pelo Espírito a outro que está sentado, levante-se e fale aquele, e cale-se o primeiro que falava antes: acontecia, com efeito, muitas vezes que o Espírito arrebatasse alguém subitamente; e sobre isto ordena o Apóstolo que, quando isto acontecer, se permita falar a este. Fale quem antes estava sentado, e o outro cale-se; e digo isto porque todos podeis profetizar, um por um, passando por cada um; veja-se apenas que todos aprendam, isto é, sejam instruídos pelo que profetiza — muitas vezes, com efeito, acontece que quem se julgava sábio aprendesse o que ignorava daquele subitamente inspirado —; aprendam, digo, e assim todos sejam exortados ao melhor. Por isso ordeno que o primeiro se cale, porque os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas, isto é, o Espírito Santo não os compele a falar, queiram ou não, porque, sendo o Espírito Deus, Deus não é de desordem; desordem que certamente haveria se litigassem clamando: mas de paz e concórdia; paz que se conserva se se suportarem alternadamente. Isto, porém, sobre as línguas, a profecia, a caridade e todas as coisas ditas, vo-lo digo, como ensino em todas as Igrejas, doutrina que imitais, porque é das Igrejas dos santos.

Ou aquele mesmo liga-se à letra seguinte: todos os homens podem profetizar, mas as mulheres nunca; e digo isto como ensino em todas as Igrejas; antes, as mulheres calem-se nas Igrejas; pois não lhes é permitido por mim ou por outro doutor falar na Igreja; mas ordeno que em toda parte sejam submissas aos maridos, aos quais se equiparariam se presumissem falar na Igreja. E isto digo das mulheres, que sejam submissas, como também a lei diz no Gênesis: «Estarás sob o poder do marido, e ele te dominará» (Gn 3,16). Dir-me-iam elas: não queremos falar, mas só perguntar. Não é assim; mas se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa aos seus maridos, não na Igreja, mas em casa; na Igreja nunca; pois é vergonhoso para a mulher falar na Igreja, isto é, prova ser mulher vergonhosa e impudente.

Estas coisas sobre os profetas e mulheres, e quanto acima ensinei, não as rejeiteis ensoberbecendo-vos para introduzirdes as vossas novidades; porque a palavra de Deus partiu de vós para as outras Igrejas, para agora introduzirdes novas doutrinas? Ou chegou só a vós, e vos gloriais como se só a vós tivesse chegado a palavra de Deus, e só vós crêsseis em Deus? Nenhum de vós, presumindo ser sábio, negligencie os meus preceitos; mas se alguém se julga profeta, isto é, entendendo as Escrituras, ou também espiritual, isto é, levando vida espiritual, quem quer que seja, reconheça que o que vos escrevo: e convém; porque estes mandamentos não são meus, mas do Senhor. Se alguém, porém, com soberba contumeliosa, ignora, desdenhando atender a estes mandamentos, digo-vos dele que será com certeza ignorado por Deus. Visto que quem ignora estes mandamentos será ignorado por Deus; portanto, irmãos meus, aspirai a profetizar, isto é, desejai profetizar, como ordeno; e, contudo, não proibais falar em línguas, como acima determinei: não proibais, mas faça-se tudo em vós com decoro, isto é, para edificação da Igreja; e ordem, que acima dispus, de modo que poucos falem ou profetizem, e por partes.

Capítulo 15

Faço-vos saber, irmãos, o Evangelho que vos preguei, que também recebestes, no qual também estais firmes, pelo qual também sois salvos, se o guardais tal como vo-lo preguei; a não ser que tenhais crido em vão. Pois transmiti-vos, antes de tudo, o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas, depois aos Onze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais muitos ainda vivem, mas alguns já adormeceram; depois apareceu a Tiago, depois a todos os Apóstolos; e por último de todos, como a um aborto, apareceu também a mim. Pois eu sou o menor dos Apóstolos, que não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça não foi vã em mim, mas trabalhei mais do que todos eles; não eu, contudo, mas a graça de Deus comigo. Quer eu, quer eles, assim pregamos, e assim crestes. Se, pois, se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é também a vossa fé; e somos até achados falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra Deus que ressuscitou a Cristo, a quem não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, pois ainda estais nos vossos pecados. Logo, também os que adormeceram em Cristo pereceram. Se só nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram, pois, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Cada um, porém, em sua ordem: as primícias, Cristo; depois os que são de Cristo, os que creram na sua vinda. Depois o fim, quando entregar o reino a Deus e Pai, quando tiver destruído todo principado, toda potestade e toda virtude. Pois convém que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte; pois tudo sujeitou debaixo de seus pés. Quando, porém, diz: Tudo lhe está sujeito, é evidente que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. Quando todas as coisas lhe forem sujeitas, então o próprio Filho se sujeitará àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos. De outro modo, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles? Por que também nós estamos em perigo a toda hora? Morro cada dia, pela glória que tenho em vós, irmãos, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Se (humanamente falando) combati com feras em Éfeso, que me aproveita, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. Não vos deixeis seduzir: as más companhias corrompem os bons costumes. Despertai, justos, e não pequeis; pois alguns têm ignorância de Deus: digo-o para vossa vergonha. Mas dirá alguém: Como ressuscitam os mortos? Com que corpo virão? Insensato, o que semeias não revive, se antes não morrer. E o que semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão, por exemplo de trigo ou de qualquer outra semente. Deus, porém, lhe dá um corpo como quer, e a cada uma das sementes o seu próprio corpo. Nem toda carne é a mesma carne; mas uma é a dos homens, outra a dos animais, outra a das aves, outra a dos peixes. Há também corpos celestes e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestes, outra a dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas. Pois uma estrela difere de outra estrela em claridade; assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se na corrupção, ressuscitará na incorrupção; semeia-se na ignomínia, ressuscitará na glória; semeia-se na fraqueza, ressuscitará no poder; semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também espiritual, como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7); o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo homem, vindo do céu, é celeste. Qual o terreno, tais também os terrenos; e qual o celeste, tais também os celestes. Portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem do celeste. Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus; nem a corrupção possuirá a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: todos, na verdade, ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Pois é necessário que este corpo corruptível se revista da incorrupção, e que este corpo mortal se revista da imortalidade. Quando este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi absorvida pela vitória (Os 13,14). Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças, porém, a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, abundando sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.

Comentário

Depois de os ter instruído sobre o batismo, sobre o Corpo e Sangue do Senhor e sobre os dons do Espírito Santo, por fim instrui-os sobre a ressurreição dos mortos, que em parte criam, em parte negavam. Criam, com efeito, que Cristo ressuscitara verdadeiramente dos mortos; criam também que ressuscitariam os que morressem na última trombeta, e logo reviveriam com a carne íntegra; mas diziam que aqueles cujos corpos se dissolvessem em cinzas não poderiam ressuscitar por razão alguma, aderindo além da medida a argumentos naturais. A letra liga-se assim: das línguas e da profecia vos instruo assim; da ressurreição dos mortos, porém, faço-vos saber, irmãos: faço saber, digo, o Evangelho, isto é, a ressurreição dos mortos, que é a maior parte da minha pregação; Evangelho que vos preguei, acerca da ressurreição, para que não aleguem pecar ignorantemente; que também recebestes, e deve ser vergonhoso negar de novo o que uma vez crestes bem; no qual também estais firmes; se não crêsseis a ressurreição, com efeito, em vão estaríeis firmes na fé; pelo qual Evangelho também sois salvos; a ressurreição da carne, com efeito, dizemos ser parte da fé, sem a qual ninguém pode salvar-se; salvos, digo, se o guardais tal como vo-lo preguei; a não ser que tenhais crido em vão, isto é, a não ser que digais inútil a vossa fé, o que os coríntios de modo algum confessariam, isto é, que em vão tivessem crido.

Transmito-vos o Evangelho; pois o que vos transmiti antes de tudo, isto é, entre os pontos principais da fé, o que também não tenho de mim, mas recebi de Deus, isto é, este Evangelho: que Cristo morreu pelos nossos pecados para os apagar; e, se os nossos pecados, cuja pena é a morte, foram apagados, por que somos retidos na morte? Cristo morreu; e isto digo segundo as Escrituras dos Profetas que atestam o mesmo. Como agora deve provar a ressurreição, antepõe que Cristo foi verdadeiramente morto, para que à verdadeira morte corresponda verdadeira Ressurreição. Também transmiti isto de Cristo: que foi sepultado, para que, ressuscitando logo depois da morte, não se dissesse: não morreu de verdade. Também transmiti isto dele: que ressuscitou ao terceiro dia; e isto digo segundo as Escrituras, que o atestam.

Provou pelos testemunhos das Escrituras; prova também que Cristo ressuscitou pelos testemunhos daqueles a quem foi visto depois da Ressurreição: e isto vos transmiti, que apareceu a Cefas, isto é, a Pedro (onde e como se deu esta aparição não lemos, mas está só escrito: O Senhor ressuscitou e apareceu a Pedro), e depois aos Onze Apóstolos, quando Tomé estava com eles. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais muitos ainda vivem até este tempo; e, se quiserdes, perguntai a eles; alguns, porém, já adormeceram (diz que Cristo morreu, que estes dormiram); depois apareceu a Tiago, bispo de Jerusalém, que, vendo Cristo na Cruz, fez voto de não comer pão até ver que Cristo ressuscitara: destas duas aparições nada se encontra nos Evangelhos. Depois a todos os Apóstolos, no dia da Ascensão. E por último de todos apareceu a mim, primeiro no caminho, depois no templo, orando; a mim, digo, como a um aborto, isto é, nascido para o apostolado por certa violência e compulsão: diz-se aborto porque, nascido fora do tempo em Cristo, recebeu o apostolado, estando o Senhor já recebido no céu com a carne. Digo bem aborto; pois eu sou o menor dos Apóstolos, que nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. E, embora não tenha sido digno, sou o que sou, isto é, Apóstolo, o que certamente sou pela graça de Deus; e, embora tenha sido antes perseguidor, desde que recebi a sua graça, a própria graça não foi vã, isto é, ociosa, em mim, mas trabalhei com todo gênero de paixão mais do que todos os outros Apóstolos; e, embora diga que trabalhei, contudo não eu o pude por mim, mas a graça de Deus operou comigo. Ao dizer que sofreu tantas e tão grandes coisas, aprova por isso bastante a ressurreição, na esperança da qual tudo padece.

Volta ao que acima: na verdade Cristo ressuscitou; pois assim pregamos, quer eu, quer aqueles outros Apóstolos (lugar da autoridade); e assim crestes também vós; que Cristo ressuscitou verdadeiramente, não o negueis. Se, pois, se prega, e não se pode negar, que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos? Se Cristo ressuscitou, o que certamente é verdade, segue-se por necessidade a ressurreição dos mortos. Provou acima, por autoridades das Escrituras e por testemunhos dos santos que viram a Cristo, que de fato ressuscitou dos mortos; e daí inferiu que, se Cristo ressuscitou, haverá também ressurreição dos mortos; esta consequência assim prova: na verdade, se Cristo ressuscitou, há também ressurreição dos mortos; pois se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Este lugar é de semelhança e, entre causa e efeito, sob diversos respeitos: a semelhança está em que, se Cristo não pôde ser retido na morte, porque nele não houve o pecado, que é a causa da morte, nem nós, justificados dos pecados segundo o nosso modo, seremos retidos na morte. Se escapamos à morte, então ressuscitaremos, por esta semelhança, a saber, que, justificados dos pecados, ressuscitaremos com Cristo; mas porque Cristo é muito maior que nós em justiça, será também maior na glória da ressurreição. De novo, a Ressurreição de Cristo e tudo o que operou na terra olhavam a que o homem fosse restituído à bem-aventurança perdida: se este efeito, a saber, a ressurreição dos mortos, não se segue, em vão aquelas causas precederam; mas Cristo ressuscitou. E isto prova por muitos inconvenientes que provêm de ele não ter ressuscitado: digo que Cristo ressuscitou; pois se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, isto é, sem realidade; porque a coisa que prega não é assim. E do mesmo, outro inconveniente: vã é também a vossa fé, isto é, infrutuosa, se Cristo não ressuscitou: o que os coríntios, a saber, que a sua fé fosse vã, de modo algum confessariam. De novo outro inconveniente, se Cristo não ressuscitou, porque então somos achados falsas testemunhas de Deus Pai, porque testemunhamos contra Deus; — não agrada a Deus, com efeito, que alguém lhe atribua o que Deus não fez —; este testemunho, a saber, de que ressuscitou a Cristo, a quem, certamente, não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam. É verdade que os mortos ressuscitam como dizeis; pois se os mortos não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou. O mesmo havia posto acima, mas para outro fim; ali, com efeito, para provar que é verdadeira esta, se Cristo ressuscitou, os mortos ressuscitarão; aqui, porém, para inferir verdadeira aquela que diz que Cristo não foi ressuscitado, a não ser que os mortos ressuscitem.

Diria o coríntio: preferiria negar a Ressurreição de Cristo a conceder que os mortos ressuscitam. Prova de novo pelo inconveniente que Cristo ressuscitou: na verdade Cristo ressuscitou; pois se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé em Cristo; nula foi aquela fé que recebestes: na verdade, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé; pois ainda estais nos vossos pecados. Lê-se que ressuscitou para a nossa justificação: se não ressuscitou, nem nos justificou, e assim vã é a vossa fé; e porque os homens ainda estão nos pecados, logo, também os que adormeceram em Cristo, isto é, os mortos na fé de Cristo, pereceram, isto é, estão condenados. De novo outro inconveniente: se só nesta vida esperamos em Cristo, e não vamos ressuscitar, como dizeis, sem haver de ter a futura, então somos os mais miseráveis de todos os homens, porque nem desta nem de outra vida gozaremos, estando cada dia envolvidos em angústias.

Visto que tantos inconvenientes se apresentam da negada ressurreição, agora, portanto, isto é, das razões antecipadas colhe-se que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos; Cristo, digo, primícias, tanto segundo o tempo como segundo a dignidade: [no tempo], porque, embora alguns tenham sido ressuscitados antes dele, não dos mortos, recaíram no número dos que morrem; na dignidade, porque terá glória maior que todos, e tudo o que os outros tiverem, terão dele e por ele: Cristo, digo, primícias dos que adormeceram. Com isto, ao dizer Cristo primícias, insinua que os outros que dormem o seguirão na ressurreição. Dir-se-ia: não parece que, pelo mérito de um só homem, Cristo, possam ressuscitar todos os homens. Contra isto Paulo: na verdade os demais que dormem ressuscitarão por suas primícias, isto é, Cristo; pois assim como por um homem veio a morte de todos, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Donde isto por semelhança: e assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados; se a culpa só de Adão bastou à condenação de todos, para que, omitida a maioridade, falemos só da semelhança, por que de modo semelhante a justiça só de Cristo não bastaria à justificação de todos?

Depois de provar que a ressurreição de todos será verdadeira, acrescenta convenientemente sobre a ordem desta ressurreição, para por isso os certificar mais e convidar à mesma ressurreição, dizendo: embora todos ressuscitem igualmente, cada um, contudo, em sua ordem; quem mais mereceu, com efeito, receberá mais glória; e de tal modo que Cristo será as primícias no tempo e na dignidade, como acima; depois, após Cristo, estarão na glória os que são de Cristo. Digo que são de Cristo naquilo: os que creram na sua vinda, isto é, na ressurreição; e assim creram, na integridade da fé e das boas obras, indo ao encontro, na vinda de Cristo. Poderia dizer: os que creram na Natividade de Cristo ou na Paixão; mas por isso disse "na vinda", porque pretendia recomendar-lhes a ressurreição.

E depois que os que são de Cristo ressuscitarem, depois o fim, isto é, o cumprimento da bem-aventurança prometida, quando entregar o reino, isto é, a sua Igreja, que rege com poder; entregar, digo, a Deus e Pai: dirá então Cristo entregar o reino ao Pai, quando colocar a sua Igreja diante dos olhos de Deus, para que o que aqui viu por espelho e em enigma, ali o veja face a face. Diz a Deus e Pai para mostrar aquele que não teve princípio de outro; para notar também que é tanto Criador como que exerce paterno amor para com as criaturas. Quando entregar, digo, o reino; e quando tiver destruído todo Principado, toda Potestade e toda Virtude.

Deve-se notar que Deus pôs nos Anjos diversidades de ofícios, e isto totalmente por causa dos homens, para que os Anjos ministrassem à salvação deles; mas, depois que os homens já estiverem na perfeição e de nenhuma administração necessitarem, esses nomes serão destruídos nos Anjos, com os quais se chamavam pela diversidade da administração humana: há, com efeito, alguns entre os Anjos que têm principado sobre todos os outros; há também outros que cumprem por poder o que lhes é imposto pelo principado; há outros que se dizem Virtudes, porque são operadores de milagres. Igualmente nos anjos maus, alguns são príncipes sobre todos os outros; outros têm poder de executar o que os príncipes ordenaram; outros, virtudes, que induzem alguns como que milagres novos: e estas coisas serão de novo abolidas no fim; porque, assim como os Anjos bons já não terão em que guardar os homens, assim os maus já não terão em que lhes fazer mal. Assim também entre os homens será destruída toda diferença de prelatura ou sujeição; entre eles não haverá desigualdade alguma de governo.

No fim Cristo entregará o seu reino ao Pai; mas por ora, enquanto não é o fim, convém que reine, isto é, que Cristo reja com poder a sua Igreja; — diz "convém" porque assim foi profetizado nas Escrituras, que por necessidade convém que se cumpram —; reinar, digo, até que Deus ponha todos os inimigos de Cristo debaixo de seus pés, isto é, em tão plena sujeição como alguns estão prostrados aos pés de outros; ou então, debaixo de seus pés, isto é, sujeitos à humanidade de Cristo, que por isso se significa pelos pés, porque pela humanidade assumida a Divindade veio aos homens. E depois que todas estas coisas forem abolidas, então será destruída também a morte, o último inimigo; porque, depois que não houver pecado, nem a pena do pecado, a saber, a morte, permanecerá; a morte, digo, inimiga, a quem os homens são inimigos, e que é inimiga dos homens. Na verdade os inimigos serão postos debaixo dos pés de Cristo; pois está escrito no salmo: Tudo sujeitou Deus debaixo de seus pés (Sl 8,8), isto é, de Cristo, como foi exposto no salmo: tem-se, contudo, "sujeitaste". Quando, porém, a Escritura diz "tudo", é evidente que tudo está sujeito a Cristo, exceto aquele que lhe sujeitou todas as coisas, a saber, exceto a Divindade. Deus, que sujeitou tudo a Cristo, não está sujeito a Cristo; mas o próprio Cristo estará sujeito àquele, isto é, à Deidade, que lhe sujeitou todas as coisas, isto é, a Cristo. Dir-se-ia: por ora Cristo estará sujeito a Deus, até que Deus lhe sujeite todas as coisas; mas depois não. Estará certamente, diz Paulo; porque, quando todas as coisas lhe forem sujeitas, então o próprio Cristo estará sujeito a Deus, que lhe sujeitou todas as coisas; sujeito, contudo, de modo a ser igual, a saber, para que Deus seja tudo em todos, isto é, em cada uma das criaturas; e assim em todos que tudo a cada um, isto é, perfeita bem-aventurança, perfeita glória e paz que supera também todo desejo do homem.

Volta a provar a ressurreição dos mortos, dizendo: a morte será destruída por Cristo, e os homens então ressuscitarão; de outro modo, isto é, se disseres que não há ressurreição dos mortos, que farão os que se batizam pelos mortos? Toca aqui o costume reprovável de alguns que, ouvindo que haveria ressurreição dos que se batizassem, depois de batizados batizavam-se de novo no lugar do pai infiel já morto, para assim o pai ou a mãe se salvarem na ressurreição. E isto aduz à vergonha dos coríntios; porque, se aqueles perversos tinham tanta fé na ressurreição, quanto mais os coríntios deveriam crer na ressurreição? A letra é esta: que farão os que se batizam pelos mortos, na esperança de ressurgir, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles, para serem justificados, se nem eles são justificados? Se fossem justificados dos pecados, com efeito, também ressuscitariam. Ou de outro modo assim: de outro modo, isto é, se não há ressurreição, que farão os que se batizam pelos mortos nas obras, isto é, pelos pecados, que operam a morte? Batizam-se, digo, na esperança da ressurreição; e que farão, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que também se batizam por eles, isto é, para serem justificados dos pecados? Ou de outro modo: de outro modo, se os mortos não ressuscitam, que farão os que se batizam por si mortos, isto é, a serem mortificados pelo pecado; ou, por si mortificados a Deus pelo pecado: o resto como foi dito.

De novo, se não há ressurreição dos mortos, por que também nós, Apóstolos, estamos em perigo a toda hora? As nossas tribulações, com efeito, não têm fim, as quais nos alegramos de padecer na esperança da futura ressurreição. Na verdade estamos em perigo; pois morro cada dia, isto é, padeço perigos de morte, irmãos, pela glória que tenho em vós, para que sejais dignos da glória da ressurreição. Ou, segundo Agostinho: morro, e juro isto pela vossa glória, irmãos; glória que já tenho em esperança em Cristo Jesus, nosso Senhor, que já ressuscitou em glória com a minha carne, que também mereceu que eu ressuscitasse com ele. Se, de novo, os mortos não ressuscitam, que me aproveita se, humanamente falando, isto é, segundo o poder da razão humana; ou então, segundo o homem, porque eu, homem, contra feras; humanamente certamente combati com feras em Éfeso, isto é, contra os efésios bestiais; porque, negando a ressurreição, dizem que o homem só vive neste mundo, o que também as feras fazem. Que me aproveita aquela luta, digo, se depois da morte não vou ter glória? Os efésios negavam a ressurreição; contra eles Paulo disputou com muito trabalho, aprovando que haveria ressurreição.

E visto que, segundo vós, não resta vida depois desta, nada mais já se deve fazer senão que, desesperados, comamos e bebamos; porque amanhã morreremos para não mais viver. Esta palavra disseram os judeus quando eram afligidos no cativeiro da Babilônia e desesperavam do auxílio de Deus; igualmente os que negam a ressurreição desesperam do auxílio e poder de Deus. E porque, irmãos, não se deve assim desesperar, mas confiar na ressurreição, por isso não vos deixeis seduzir pelos falsos apóstolos que não têm a fé da ressurreição. Ao dizer "seduzir", nota que há seduzidores entre eles. Não creiais nos seduzidores; pois as más companhias, isto é, os colóquios deles, não só violam a fé, mas corrompem os bons costumes; quem não crê na vida futura, com efeito, não sei por que se esforçaria em aderir aos bons costumes. E, para que não sejais corrompidos pelos seduzidores, despertai a fim de serdes justos; e, para conservardes a justiça, não pequeis mais. É necessário que desperteis; alguns, com efeito, entre vós têm ignorância de Deus, isto é, ignoram a equidade e a fidelidade de Deus; e digo-o para vossa vergonha, isto é, para a vossa confusão, para que tenhais vergonha dos vossos pecados.

Depois que Paulo, por razões necessárias, pelos inconvenientes que daí provêm e, de novo, pelo poder de Cristo, aprovou a ressurreição futura, quer aprová-la pela lei da natureza, porque a sabedoria humana argumenta mais segundo a passibilidade da natureza; como se dissesse: embora acima eu tenha aprovado suficientemente a ressurreição, contudo, objetando segundo a lei da natureza, dirá alguém: Como ressuscitam os mortos já dissolvidos em pó? A natureza não parece suportar isto. De novo, se de algum modo aquele pó se conglutina, com que corpo virão os homens que ressuscitarem? Pode-se porventura crer que tanta glória possa vir ao pó dissolvido, como pregas? Responde à primeira questão: a natureza suporta bem que os mortos ressuscitem; aquilo que tu, insensato, que duvidas da ressurreição; a semente, digo, que tu semeias não revive, isto é, de modo algum pode viver, se antes não morrer e apodrecer: como vês que convém que a semente apodreça, para depois viver, não duvides que o homem possa viver de novo depois da morte, já que por meio da morte convém viver. Prova a outra questão, a saber, a futura glória dos corpos, pela semelhança da mesma semente, dizendo: na verdade virão em maior glória dos corpos; pois o que semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão; o corpo, porém, que há de nascer do simples grão terá muitos grãos, palhas e colmos: igualmente não te seja absurdo se dissermos que os nossos corpos ressuscitarão em maior glória do que são aqui semeados. Tu semeias um simples grão, por exemplo, isto é, como o grão de trigo ou o grão de qualquer das outras searas; tu semeias o simples grão, mas Deus dá àquele grão um corpo como quer, glorioso pela fertilidade dos grãos, das espigas e dos colmos; e, contudo, a cada uma das sementes dá o seu próprio corpo; porque, se foi semeado trigo, brota trigo; e assim, na identidade das sementes, cada grão ressuscita, e isto em exemplo de ressurreição melhorada, não de substância perdida.

E, como todos convêm em que terão a glória da ressurreição, diferem, contudo, em que alguns terão glória mais gloriosa, outros não tanto, segundo a diferença dos méritos, diria alguém: como toda a matéria dos homens consta dos mesmos elementos, parece que tudo o que se conferir a um, a matéria semelhante o possuiria totalmente em outro. O que Paulo, para sempre provocá-los ao melhor, refuta pela semelhança de outras criaturas: porque, assim como todos os animais foram feitos dos mesmos elementos, a mesma matéria não impede, contudo, que sejam uns e outros diversos entre si; nas criaturas celestes também, constituídas das mesmas matérias, há diferença de claridade entre si; assim, nos homens, a natureza da carne, a mesma em todos, não impede que possam diversificar-se na glória da ressurreição. A letra liga-se assim: embora todos ressuscitem em maior glória da carne, contudo, diferentemente; nem isto impede a mesma matéria da condição em todos; como vês que nem toda carne é a mesma carne, embora toda da mesma matéria, mas uma é a carne dos homens, outra a dos animais, outra a carne das aves, outra a carne dos peixes. E assim como os corpos terrestres diferem entre si, assim os celestes dos terrestres; há, com efeito, corpos celestes e corpos terrestres; e, convindo em serem corpos, diferem, contudo, em que uma é a glória dos corpos celestes, outra a dos terrestres. E assim como os celestes diferem dos terrestres, assim os próprios celestes entre si; pois uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas; nas próprias estrelas também há diferença; pois uma estrela difere de outra em claridade: e assim como estas criaturas diferem entre si em claridade, assim também a ressurreição dos mortos será diferente para os justos na claridade da glória.

E, embora difiram na glória da ressurreição, têm, contudo, indiferentemente isto: que aqui se semeia o corpo do homem na corrupção, isto é, para que fique sujeito à corrupção — diz semear desde o dia em que o homem é concebido até o dia da ressurreição de todos —; semeia-se, sim, na corrupção, mas ressuscitará na incorrupção, isto é, para que seja alheio a toda corrupção, e este ressurgir será no dia do juízo. Semeia-se não só na corrupção, mas também na ignomínia; o homem, com efeito, é gerado em muita vileza da carne; mas então ressuscitará na glória perpétua a ter. Semeia-se aqui na fraqueza; está, com efeito, aqui sujeito a todas as doenças e diversas misérias; mas então ressuscitará no poder da impassibilidade e da imortalidade. Semeia-se aqui corpo animal, que convém sustentar com os cuidados cotidianos dos alimentos, como qualquer animal; mas então ressuscitará corpo espiritual, que é regido só pelo espírito, sem uso de alimento corporal. Na verdade semeia-se corpo animal, se este vosso corpo é animal; ressuscitará o mesmo corpo espiritual, se então será espiritual. Ou de outro modo: na verdade ressuscitará corpo espiritual; pois, se o corpo agora se diz animal, deve chamar-se também o mesmo corpo espiritual; animal, com efeito, não se diria senão em relação ao espiritual, de modo que animal e espiritual tenham quase força de relativos. Na verdade este corpo é animal, como está escrito no Gênesis (cap. 2,7): O primeiro homem, aqui chamado Adão, foi feito alma vivente, não que vivificasse o corpo, porque logo foi dissolvido pela morte, mas alma vivente, isto é, que ali viveria na carne; se o corpo não fosse alimentado por alimentos, com efeito, a alma não viveria ali, e por isso se diz vivente, como por forças alheias, e não vivificante: e na verdade ressuscitará corpo espiritual; pois o último Adão, isto é, Cristo — diz-se Adão porque dele nasceu segundo a linha da carne; e por isso último, porque depois dele não haverá outro Adão que introduza nova geração; todo homem, com efeito, é ou filho carnal de Adão ou espiritual —; este último Adão, digo, foi feito espírito, não vivente, mas vivificante; naquela ressurreição, com efeito, a alma vivificará o corpo de tal modo que viva perpetuamente sem necessidade de alimento algum.

Diria aquele: embora Cristo, que foi Deus, tenha podido ser assim vivificado, eu não poderei assim, que sou só homem. Nada impede, diz Paulo, porque, embora Cristo seja Deus, não foi primeiro aquele corpo que é espiritual, mas foi primeiro aquele corpo que é animal; e depois foi aquele corpo que é espiritual. Na verdade o primeiro homem foi feito alma vivente; pois o primeiro homem foi feito da terra, terreno; e o segundo Adão foi feito espírito vivificante; pois o segundo homem foi feito celeste, vindo do céu. E qual foi aquele primeiro terreno, tais são também os terrenos, que aderem à terrenidade dele; e qual foi aquele segundo celeste, tais serão também os imitadores dele, celestes. E, visto que quem seguir o terreno será terreno e quem o celeste será celeste, portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno Adão, pelo pecado, tragamos daqui em diante também a imagem do celeste Adão, pela justiça de vida, para que, deposto o peso da terrenidade, nos alegremos na leveza da glória celeste.

Porque acabara de dizer: qual foi o celeste, tais serão os que a ele aderem, dissera também: tragamos a imagem do celeste; para que, por ocasião destas palavras, não julgássemos que nos basta para a salvação depor o homem velho no batismo e assumir ali o homem novo, determina Paulo que não basta trazer assim a imagem do celeste, se não a trazemos por contínua imitação das obras. A letra liga-se assim: embora eu tenha dito: tragamos a imagem do celeste, e seremos celestes, digo-vos, contudo, isto, isto é, determino-vos, irmãos: que a carne e o sangue, isto é, os que aquiescem à carne e ao sangue — alguns pecados, com efeito, são da carnalidade, como a mole luxúria, outros do vício do sangue, como a ira pela melancolia — e quantos seguem a carne e o sangue do pecado, não podem possuir o reino de Deus, isto é, a si mesmos na glória futura; o reino de Deus, com efeito, nada outro é que os próprios homens. Nesta vida ninguém possui a si mesmo, porque não há dia em que alguém não seja possuído pelo pecado; mas na bem-aventurança futura cada um dos justos possuirá a si mesmo, onde ninguém será inquietado por tentação da carne. Na verdade a carne e o sangue não possuirão o reino de Deus; pois a carne e o sangue são corrupção, ao passo que o reino de Deus é incorrupção; a corrupção, porém, não possuirá a incorrupção; portanto a carne e o sangue não possuirão o reino de Deus.

Porque acima dissera: quem trouxer a imagem do celeste ressuscitará em glória, e dissera de novo que a carne e o sangue de modo algum possuirão o reino de Deus; para que ninguém entenda estas palavras como contrárias, resolve-o absolvendo toda contrariedade, dizendo: para que não interpreteis mal as minhas palavras ditas, eis que vos digo um mistério, isto é, abro-vos coisa oculta, para que por sua abertura tire de vós a dúvida desta coisa: é verdade, como já disse, que todos ressuscitaremos, isto é, todos retomaremos os corpos, mas nem todos seremos transformados ao receber a glória; porque alguns ressuscitarão para aumentar a sua pena, outros para a glória. Ressuscitaremos, sim, num momento; e, para abrir maior facilidade da ressurreição, corrige o que dissera "num momento", dizendo: ressuscitaremos num abrir e fechar de olhos, isto é, tão depressa quanto o olho passa a ver algo, ou tão depressa quanto uma pálpebra se junta à outra. Isto, porém, se fará ao som da última trombeta; não que ali se ouça voz de trombeta, mas, assim como a voz da trombeta convida os vencedores à palma, e aos vencidos se faz de terror; assim aquela voz será sinal para os justos para que recebam o mérito do triunfo, e aos ímpios incutirá o terror da pena: última, porque, havendo Cristo dado muitas vozes no mundo, com as quais atemorizasse os ímpios e alegrasse os justos, aquela voz do juízo será a última, consumando aos justos a glória, aos ímpios a ira indefectível.

E porque nada mais dissera desta trombeta, acrescenta: digo bem trombeta; pois a trombeta soará; não determina se Cristo ou um Anjo deverá soar aquela trombeta; ou então, para que seja nominativo, aquela trombeta soará, e na voz da trombeta os mortos ressuscitarão incorruptíveis, isto é, restaurados na integridade dos membros; alguns, porém, a serem corrompidos pela dor das penas; mas nós, eleitos de Deus, seremos transformados, recebendo a glória da ressurreição. Na verdade seremos transformados; pois é necessário, isto é (para que as Escrituras sejam verdadeiras), inevitável; é necessário, digo, que este corpo corruptível, isto é, desgastado por tantas misérias, se revista da incorrupção. E porque poderia ser incorrupto por algum tempo, mas sem escapar, acrescenta: e é necessário que este corpo mortal se revista da imortalidade.

Na verdade este mortal se tornará imortal; pois a morte foi absorvida, isto é, destruída e engolida na vitória de Cristo, quando por sua morte superou a morte; ou então, na vitória sua, isto é, da morte; pelo fato de a morte ter presumido invadir Cristo, em quem não havia o pecado que é a causa da morte, sucumbiu na própria presunção. Esta autoridade encontra-se assim em Oseias: «Ó morte, eu serei a tua morte» (Os 13,14); e porque alguns interpretavam mal esta escritura, dizendo que isto estava escrito da morte da alma, não do corpo, Paulo antecipa a exposição desta autoridade, dizendo: quando, porém, este corpo mortal se revestir da imortalidade (não escapará à morte, com efeito, como alguns erradamente suspeitam, só a alma, mas com a alma também o corpo), então se cumprirá, isto é, realizar-se-á, a palavra que está escrita em Oseias: A morte foi absorvida pela vitória, como foi dito.

As palavras que seguem dizem-se do mesmo Profeta, que insulta a própria morte, porque foi destruída, e diz: visto que foi absorvida, onde está, ó morte, agora a tua vitória, com que sujeitavas tudo ao teu direito? E, ó morte, onde está agora o teu aguilhão, isto é, o pecado, que no aguilhão de sua cauda levava a morte em lugar de veneno? Diz Paulo: digo bem aguilhão; pois o aguilhão da morte é o pecado, isto é, picando com o seu aguilhão a morte nos homens. Por Paulo expor o que seja aguilhão, julga-se que as palavras precedentes não são dele. Ou, se são de Paulo, a sentença, contudo, não muda; insultando, com efeito, diz à morte: porque agora foste absorvida, onde está, ó morte, a tua vitória? O resto não muda.

Para que de novo não dissessem: já que, destruído o pecado, se destrói a morte, bem nos é agora, porque pela lei destruiremos o pecado. Contra isto Paulo: o pecado é o aguilhão da morte; a lei, porém, de modo algum enfraquece o pecado; antes é a força e o aumento do pecado. E isto removeu com acerto, para que, como pelo Cristo provara que se faz a ressurreição, assim por ele mostre ser toda a remissão do pecado. E porque a lei aumenta o pecado, por isso nenhuma graça à lei, mas graças a Deus, que nos deu a vitória sobre o pecado e a morte, e isto por nosso Senhor Jesus Cristo. E porque de Deus e por Cristo vem toda a vitória, portanto, irmãos meus amados, para serdes caros a Deus, sede firmes no bem, enquanto estais na quietude da paz; sede também inabaláveis na fé, se irromperem adversidades; vós, digo, abundando sempre na obra do Senhor, para obrardes cada vez melhor; vós, digo, sempre sabendo que o vosso trabalho não é vão, isto é, sem fruto, mas ressuscitareis em grande glória, e isto no Senhor, isto é, por meio do Senhor que misericordiosamente age em vós.

Capítulo 16

Quanto às coletas que se fazem para os santos, como ordenei às Igrejas da Galácia, assim fazei também vós. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte em sua casa o que lhe parecer bem, guardando-o, para que não se façam as coletas quando eu chegar. Quando eu estiver presente, enviarei com cartas os que tiverdes aprovado, para levarem a vossa oferta a Jerusalém. E, se for conveniente que eu também vá, irão comigo. Irei ter convosco depois de ter atravessado a Macedônia; pois atravessarei a Macedônia. Talvez permaneça convosco, ou mesmo passe o inverno, para que me encaminheis aonde quer que eu for. Pois não quero ver-vos agora de passagem, mas espero demorar-me algum tempo convosco, se o Senhor o permitir. Permanecerei, porém, em Éfeso até Pentecostes. Pois está-me aberta uma porta grande e eficaz, e os adversários são muitos. Se Timóteo chegar, vede que esteja sem temor entre vós; pois faz a obra do Senhor, como eu. Ninguém, portanto, o despreze; encaminhai-o em paz, para que venha a mim; pois o espero com os irmãos. Quanto ao irmão Apolo, faço-vos saber que muito lhe roguei que fosse ter convosco com os irmãos; mas não foi vontade dele ir agora; irá, porém, quando tiver oportunidade. Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos como homens, fortalecei-vos. Que tudo o que fazeis seja feito na caridade. Rogo-vos, irmãos: conheceis a casa de Estéfanas, de Fortunato e de Acaico, que são as primícias da Acaia e se dedicaram ao serviço dos santos; sede também vós submissos a tais pessoas e a todo aquele que coopera e trabalha. Alegro-me com a presença de Estéfanas, Fortunato e Acaico, porque eles supriram o que vos faltava. Pois reconfortaram o meu espírito e o vosso. Reconhecei, pois, os que são tais. Saúdam-vos as Igrejas da Ásia. Saúdam-vos muito no Senhor Áquila e Priscila, com a Igreja que se reúne em sua casa, em cuja casa me hospedo. Saúdam-vos todos os irmãos. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. A saudação é de minha própria mão, de Paulo. Se alguém não ama o nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema, Maran Atá. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. O meu amor esteja com todos vós em Cristo Jesus. Amém.

Comentário

Depois de ter disposto uma por uma as coisas que deviam ser ordenadas segundo a ordem da fé reta, no fim da Epístola admoesta-os sobre algumas coisas particulares, a saber, que socorressem os santos que estavam em Jerusalém, a quem tanto a rapina dos infiéis como a fome pública haviam oprimido, ministrando algo de suas abundâncias. A letra liga-se assim: sobre a ressurreição dos mortos crede assim; quanto às coletas que se fazem para serem levadas para os santos que estão em Jerusalém, assim fazei também vós, no primeiro dia da semana, isto é, do sábado, como ordenei que se fizesse nas Igrejas da Galácia. E, para que não julgueis que quero destinar estas coletas ao meu uso, ordeno que cada um de vós ponha de parte em sua casa, não, contudo, de modo a julgá-lo seu, mas guardando-o e conservando-o íntegro como alheio, o que lhe parecer bem distribuir aos santos pobres. Por isso, digo, fazei-o no primeiro dia da semana, para que não comecem as coletas a ser feitas só quando eu chegar. Para que, porém, afaste de vós toda suspeita, a vós mal suspeitosos, quando eu estiver presente, enviarei, não legados meus, mas os que tiverdes aprovado, isto é, os que dentre vós mesmos tiverdes escolhido, para levarem a vossa oferta, isto é, o vosso dom gratuito, a Jerusalém; enviarei, digo, com cartas, isto é, com minhas cartas entregues a eles em sinal.

Diriam os coríntios: levas os donativos dos outros, e por que desdenhas levar os nossos? A isto Paulo: se for conveniente o vosso donativo, que eu também vá, irão comigo os vossos legados, para que eu, indo junto, recomende a vossa oferta. Assim farei com a vossa oferta; irei também ter convosco depois de ter atravessado a Macedônia; primeiro, com efeito, devo ir aos macedônios. Digo bem "atravessado"; pois na verdade atravessarei a Macedônia; mas depois talvez permaneça convosco, isto é, se Deus o conceder; ou mesmo, para dizer mais, passe o inverno em vossa casa, para que me encaminheis aonde quer que eu for, partindo de vós. Por isso passarei o inverno, porque não quero ver-vos agora de passagem; por isso não vos verei de passagem, porque espero demorar-me algum tempo convosco, se o Senhor o permitir. E, embora diga que irei a vós, antes, contudo, permanecerei em Éfeso até Pentecostes; e é-me necessário permanecer ali; porque me está aberta uma porta grande, isto é, porque muitos dos efésios se preparam para a fé, e eficaz, porque já vejo neles alguns sinais de fé; e convém que eu insista, porque os adversários são muitos, que querem subtraí-los a Cristo. Eu agora permanecerei em Éfeso; se Timóteo, levando esta Epístola, chegar a vós, vede que esteja sem temor entre vós; tudo o que me anunciou de vós, com efeito, fê-lo para a vossa correção; e por isso vede que não o inquieteis. Deve certamente estar sem temor entre vós; porque faz a obra do Senhor em vós, como eu e os demais discípulos; e porque faz a obra do Senhor, portanto, vede que ninguém o despreze, mas obedecei às suas admoestações; e não só não o desprezeis, mas também encaminhai-o em paz, quando voltar a mim, para que venha ileso a mim; eu, com efeito, o espero com os outros irmãos.

Apolo, bispo dos coríntios, fugindo da dissensão deles, voltara a Paulo, e os coríntios haviam escrito a Paulo que lhes devolvesse o seu bispo. Responde-lhes Paulo que Apolo não quer voltar antes que estejam bem corrigidos, dizendo: de Timóteo agi assim; quanto, porém, ao irmão Apolo, nosso e vosso bispo, significo-vos que muito lhe roguei que fosse ter convosco; e não foi vontade dele ir agora a vós, mas irá quando tiver oportunidade e entender que estais bem corrigidos. Para merecerdes a vinda deste vosso pai, vigiai, isto é, acautelai-vos com empenho para não errardes, e permanecei firmes na fé, para não vos desviardes da fé sadia, e, firmes na fé, portai-vos como homens, isto é, obrai bem; não por uma hora, mas perseverando nos bons atos, fortalecei-vos, esforçando-vos por que tudo o que fazeis seja feito na caridade, isto é, no amor de Deus e do próximo, em que até agora fostes demasiadamente mornos.

Rogo-vos, irmãos, que sejais submissos a Estéfanas e Fortunato: e deveis; conheceis, com efeito, a casa de Estéfanas, de Fortunato e de Acaico; isto, digo, sabeis: que estes são as primícias da Acaia; foram, com efeito, os primeiros da Acaia a crer (Corinto está na Acaia); sabeis também isto: que se dedicaram ao serviço dos santos, a quem ministraram com suas próprias mãos e de seus bens; isto, digo, vos rogo: que sejais submissos a tais pessoas, as que entre vós são tais, e a todo aquele que coopera com eles no bem, e trabalha igualmente no serviço dos santos. Para que sejais submissos a eles, sabei que eu me alegro com a presença de Estéfanas, Fortunato e Acaico; assim me é com eles como se os tivesse presentes; alegro-me, digo, e com razão, porque eles supriram em mim e nos santos o que vos faltava; ministraram-nos, com efeito, nos bens temporais, o que vós, devendo-o, negligenciastes. Na verdade eles supriram; pois reconfortaram o meu espírito ministrando o necessário, e por isso o vosso; se não nos tivessem amparado com seus bens, com efeito, não poderíamos demorar-nos tanto na vossa instrução. E porque reconfortaram o meu espírito e o vosso, reconhecei, portanto, isto é, obedecei por amor a eles e a todos os que são tais. Saúdam-vos, ó coríntios, todas as Igrejas da Ásia. Saúdam-vos muito no Senhor Áquila e Priscila, com a Igreja que se reúne em sua casa, isto é, também a família deles vos saúda. Saúdam-vos todos os irmãos. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo, isto é, beijai-vos mutuamente, afastando de vós os cismas.

A saudação que segue foi feita de próprio punho, minha, digo, a saber, de Paulo, esta a saber: a graça de nosso Senhor, etc.

Era costume de Paulo que ele mesmo fechasse a Epístola de próprio punho, para que não se duvidasse de que a Epístola fosse enviada por ele; e isto por causa dos falsos apóstolos, que sob o nome de Paulo enviavam cartas furtivas. Desta sua saudação, porém, exclui os infiéis, dizendo: se alguém não ama o nosso Senhor Jesus Cristo, a este não saúdo, mas seja anátema, isto é, separado de Deus, anátema, digo, Maran Atá — esta palavra é composta de siríaco e hebraico, e significa: o Senhor vem —; como se dissesse: quem não ama a Cristo seja separado dele, quando o próprio Senhor vem para julgar. Ou então: seja anátema, e para seu mal; porque o Senhor vem talvez hoje ou amanhã, para dele se vingar. Esta é, porém, a minha saudação, da qual separo os ímpios: a graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco; e o meu amor esteja com todos vós, isto é, que todos me ameis, embora eu vos tenha corrigido um pouco mais asperamente; e isto em Cristo Jesus, isto é, por amor de Cristo Jesus. Amém, isto é, assim seja.