Primeira Epístola a Timóteo Prólogo Era costume dos Apóstolos que, convertido à fé o povo de uma cidade por sua doutrina, não se detivessem ali, mas, consagrado ali um bispo para instruir os que se haviam tornado fiéis sobre o que se deve manter depois da fé, passassem a outros povos a congregar para a fé. Mantendo Paulo a forma deste costume, convertidos os efésios, consagrou-lhes por bispo Timóteo, colaborador do Evangelho, para que, passando Paulo aos macedônios a converter, os efésios tivessem Timóteo, que os instruísse em cada ponto, a fim de que, deixados sem doutor, não perecesse o trabalho de Paulo neles. Estes efésios Paulo foi o primeiro a converter à fé; a eles João evangelista depois presidiu como bispo, tendo Timóteo sido chamado por Paulo à obra do Evangelho. Esta Epístola, com as outras três que seguem, escreve-a a pessoas: duas a Timóteo; a terceira a Tito; a quarta a Filêmon; as demais escreve às Igrejas. Consagrado Timóteo, como se disse, bispo dos efésios, levantam-se contra ele falsos doutores, dizendo que, embora tivesse sido introduzida a lei nova, com ela se devia contudo manter a circuncisão e os ritos dos sacrifícios antigos. Entendido isto, Paulo dirige esta Epístola a Timóteo, não porque duvide de que ele consentirá em algo com os falsos doutores, mas para que a doutrina dele, robustecida pela autoridade de Paulo, que ensina o mesmo que Timóteo, seja de maior autoridade e reverência, ouvindo os efésios que Timóteo ensina o mesmo que Paulo, a quem esta doutrina foi transmitida por Cristo. Nesta Epístola Paulo trata da ordem eclesiástica, ensinando que os falsos doutores devem ser repelidos da Igreja, e que se lhes deve denunciar que não ensinem perversamente; se por isso não desistirem, deve denunciar-se aos povos que não os ouçam. Ensina aqui também Paulo a Timóteo sobre a ordem sacerdotal e levítica, como devem ser eleitos e provados. Ensina também sobre a ordem das viúvas, como convém que ministrem na Igreja; ensinar, porém, ainda que sejam sapientíssimas, nunca se deve permitir às mulheres. Assim ensinando sobre a ordem eclesiástica, pretende Paulo que, conforme a medida da sua doutrina, mantenham-se a Igreja de Éfeso e, com ela, toda a Igreja. Capítulo 1 Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandato de Deus nosso Salvador e de Cristo Jesus, nossa esperança, a Timóteo, amado filho na fé. Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. Como te rogei que ficasses em Éfeso quando eu ia para a Macedônia, para ordenares a alguns que não ensinem doutrina diferente, nem se apliquem a fábulas e genealogias intermináveis, que suscitam questões mais do que a edificação de Deus, que é na fé. O fim do preceito, porém, é a caridade que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida. Dela se desviaram alguns e se perderam em vãs palavras, querendo ser doutores da lei, sem entender nem o que dizem, nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém usa dela legitimamente; sabendo isto: que a lei não foi posta para o justo, mas para os injustos e insubmissos, para os ímpios e pecadores, para os celerados e contaminados, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, fornicadores, sodomitas, plagiários, mentirosos e perjuros, e para o que quer que seja outra coisa contrária à sã doutrina, que é segundo o Evangelho da glória do Deus bem-aventurado, que me foi confiado. Dou graças àquele que me deu forças, a Cristo Jesus, nosso Senhor, porque me julgou fiel, pondo-me no ministério, a mim que antes fui blasfemo, perseguidor e injuriador; mas alcancei misericórdia de Deus, porque o fiz por ignorância, na incredulidade. Superabundou, porém, a graça de nosso Senhor, com a fé e a caridade que há em Cristo Jesus. Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim primeiro mostrasse Cristo Jesus toda a sua longanimidade, como exemplo dos que hão de crer nele para a vida eterna. Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Este preceito te confio, filho Timóteo, segundo as profecias que precederam sobre ti, para que militem nelas a boa milícia, tendo fé e boa consciência, que alguns, rejeitando, naufragaram na fé; dos quais são Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar. Comentário Paulo , etc. Prestes a escrever ao discípulo, antepõe a saudação, dizendo: Paulo ; nome que é de humildade, Paulo, com efeito, diz-se como "pequeno". Aqui, porém, onde há necessidade de autoridade, é nome de autoridade; Paulo, com efeito, era nome muito conhecido; donde, para mais refutar os falsos doutores, diz: Paulo, Apóstolo , isto é, legado ou enviado — embora todos os santos sejam legados de Deus, sobretudo os Apóstolos assim se chamam, sob os quais está todo o gênero de santos, acima dos quais só se acha Cristo —; Apóstolo, digo, de Jesus Cristo , porque só por Cristo foram enviados os Apóstolos, pelos Apóstolos, porém, os demais santos, como Timóteo por Paulo. Se Paulo é Apóstolo de Cristo, consta que quem contradiz a Paulo contradiz também a Cristo, que enviou Paulo; quem ofende Timóteo, enviado por Paulo, ofende tanto a Paulo como a Cristo. Paulo, digo, Apóstolo de Cristo Jesus segundo o mandato. Põe em outras Epístolas "segundo a vontade", mas, para assinalar maior rigor, pôs aqui "mandato"; queremos, com efeito, certas coisas que não mandamos; as que, porém, mandamos fazer, tanto queremos como parece que proibimos que não se façam; donde diz: segundo o mandato de Deus Pai ; Deus Pai, com efeito, mandou que eu fosse Apóstolo: de Deus , digo, nosso Salvador , isto é, que salva os que obedecem ao seu mandato e aliena da salvação os que não obedecem; donde se deve temer pelos que não obedecem ao mandato de Timóteo, porque nem a mim, nem a Deus, que mandou que eu fosse Apóstolo, obedecem, e assim estão alheios à salvação de Deus: segundo o mandato de Deus Pai, digo, e segundo o mandato de Cristo , rei e sacerdote; segundo o homem, digo, que também se imolou a si mesmo no altar da Cruz para nos limpar dos delitos, e se deu a nós para ser imolado cada dia no altar; e rei, porque tanto dá os bens como rege nos bens; de Cristo, digo, Jesus , isto é, Salvador, que tanto no presente salva dos males como no futuro há de dar aos seus a salvação eterna; de Cristo Jesus, digo, autor da nossa esperança , isto é, de recuperar a impassibilidade e a imortalidade, que esperamos recuperar por ele, que elevou a nossa carne, unida em si ao Verbo de Deus, acima de toda criatura, nada deixando acima dela senão a Divindade que lhe adere: a esperança, com efeito, diz-se não das coisas que temos, como a justificação dos pecados no batismo, mas daquelas que cremos ter, como a imortalidade e a impassibilidade por Cristo; a esperança é, com efeito, a espera de um bem futuro, com desejo. Paulo, digo, Apóstolo, assim e assim deseja, manda, ou algo semelhante, a Timóteo , filho que bem o imita, a quem gerou na fé , porque, sendo infiel, o fez fiel; filho , digo, amado de modo peculiar e especial, porque, embora todo fiel deva ser amado, há contudo alguns entre eles que se devem amar com privilégio de amor. Paulo, digo, manda a Timóteo isto a si, ou a ti, Timóteo: graça, misericórdia e paz — em outras costuma pôr apenas graça e paz, significando ali pela graça o que aqui pela misericórdia, a saber, a remissão dos pecados, que se diz graça porque são perdoados gratuitamente, sem preço nem mérito nosso; diz-se misericórdia a remissão porque pela misericórdia de Deus os pecados são perdoados —; misericórdia, pois, isto é, remissão dos pecados, e paz , isto é, tranquilidade de ânimo, que aqui têm os santos, antegozando por isso a doçura da paz eterna: esta misericórdia e paz, digo, sejam-te perseverantes; não deseja isto porque ignore ter sido feita a remissão dos pecados a Timóteo, e que ele faz parte dos santos, mas para que nisto permaneça. Estas duas, misericórdia e paz, devem desejar-se a todo fiel e podem advir; esta terceira, porém, isto é, a graça, deve desejar-se só aos prelados e só a eles pode advir; recebe, com efeito, por graça a doação do Espírito Santo, que certamente é dado, não pelos prelados, mas por seu ministério, sem diferença de méritos, sejam justos ou injustos os prelados (contanto que seja pura a sua consagração), àqueles que santificam, se são idôneos para que nele deva habitar o Espírito; «não habitará, com efeito, em corpo sujeito aos pecados» (Sb 1,4). Se se pergunta por que os súditos, por causa dos pecados, não merecem receber o Espírito Santo, quando por ministério dos prelados que são pecadores (contanto que seja justa a sua consagração) é dado? A isto deve responder-se: porque é dado por Deus, e não pelo prelado, que o que não teve não pôde dar, mas por ministério do prelado; e não sem causa quis Deus dar isto por ministério, pois, se o Espírito Santo fosse dado sem ministros, cada um, presumindo ter o Espírito Santo, se jactaria; e assim os ministros da Igreja, mesmo que fossem justos, cairiam em desprezo: dessa coisa Cristo deixou a forma, ressuscitado Lázaro, dizendo aos discípulos: «Desatai-o e deixai-o ir» (Jo 11,44), mostrando que ninguém pode ser desatado senão por ministros a quem estes ministérios foram confiados. Graça, misericórdia e paz te sejam certamente da parte de Deus , que, sendo Deus, pode isto e tudo; Deus Pai , digo, que, pelo fato de ser Pai, tem vontade e piedoso afeto por ti e por todo filho. Sejam-te também isto mesmo de Cristo Jesus , que, sendo Rei e tendo vindo salvar, tem igualmente a vontade; de Cristo, digo, nosso Senhor , o qual, porque é Senhor, aparece que pode isto e tudo. Terminada a saudação, começa a Epístola, dizendo: ó Timóteo, faze assim, subentende-se, como te rogei — onde diz "como", nota a quantidade, como se dissesse: eu te adverti de muitos modos, com frequente repetição, que insistisses em ensinar, e como te adverti, faze-o de todos os modos, com toda assiduidade; onde diz "rogei", podendo dizer "como discípulo te mandei", sendo ele o prelado, recomenda bastante Timóteo, insinuando que era tal que não devia ser coagido por império, mas exortado por certa dignidade de paridade —; como, digo, te rogei que ficasses em Éfeso para ordenar ali a ordem eclesiástica, quando eu ia para a Macedônia , convertidos os efésios, para converter os macedônios pela palavra da pregação; no que também tu me serias necessário, e te ofereceste por vontade a ir comigo; vendo contudo que incumbia maior necessidade, deixei-te para instruir os efésios. Aqui começa primeiro sobre os falsos doutores a repelir, dizendo: ficasses, digo, para ordenares — dizemos "anunciar" entre iguais, "ordenar" porém, de prelado a súditos —; ordenasses certamente a alguns , isto é, àqueles doutores que introduzem doutrina singular, desviando-se da comunhão da Igreja: isto, digo, ordenasses: que não ensinem doutrina diferente , isto é, algo alheio à minha doutrina, com que ensinei os efésios e tu ainda ensinas. Se os doutores, ordenando-lho tu, não quisessem desistir, ordenasses aos súditos que não dessem atenção às doutrinas deles, ou os ouvissem. A forma desta coisa conserva-se ainda na Igreja; primeiro, com efeito, o prelado perverso é proibido pela Igreja. Se o desobediente não cessa, então se interdiz aos súditos obedecer-lhe. Nem se apliquem , digo, a fábulas dos falsos pregadores, que dizem dever manter-se na lei nova a circuncisão e os antigos sacrifícios. Diz-se fábula aquilo em que só há palavras e não coisa; assim na doutrina deles havia, sim, palavras nuas da verdade da coisa, porque a circuncisão e aquelas coisas que ensinavam não podiam salvar. Não se apliquem, digo, a fábulas e genealogias , isto é, a discursos sobre a sua geração; dizem, com efeito, que a salvação foi prometida somente a eles, nascidos da carne de Abraão e de Davi, e não a outros; genealogias intermináveis , isto é, proibidas, para que ninguém confie nelas, ou então, intermináveis, isto é, que não têm termo nem fim onde subsistam provadas como dizem; se alguém considera, com efeito, verá muitos filhos de Abraão segundo a carne reprovados, como Esaú; achará também muitos não gerados da carne de Abraão que contudo Deus escolheu, como Jó. Estas genealogias suscitam questões , isto é, litígios, e nenhuma solução; isto, digo, suscitam mais do que a edificação , que de modo algum prestam — aqui "mais" é eletivo, tratando de coisas que não participam —; edificação certamente [de Deus, isto é] das virtudes, não a prestam; edificação que não é pela circuncisão, mas que é na fé , isto é, pela fé: toda justificação, com efeito, é da fé, que se lança como fundamento; e sobre esta, como sobre fundamento, as demais virtudes são edificadas. Prova que na fé está a edificação de Deus, dizendo: se da fé procede a boa consciência, isto é, a esperança, da esperança, porém, o coração puro, e do coração puro a caridade; sendo a caridade o fim, isto é, o cumprimento de todo o preceito, da lei nova ou da antiga: se desse modo da fé se segue o cumprimento de todo preceito, então na fé está toda a edificação de Deus, e não em outro lugar; mas na fé está o cumprimento de todo o mandamento, logo também a edificação de Deus. O que em ordem transversa põe assim: verdadeiramente na fé está a edificação de Deus; o fim , com efeito, isto é, porque o cumprimento de todo o preceito da lei velha ou nova é a caridade , isto é, o amor de Deus e do próximo, mandamento do qual dependem toda a lei e os Profetas; quem, com efeito, cumprir este mandamento, isto é, a caridade, sem dúvida cumpriu a lei nova e a velha. Ou leia-se ali continuadamente: onde diz acima "que não ensinem" e "que não se apliquem", insinua que alguns perversamente ensinavam e se aplicavam; donde diz: embora aqueles falsos apóstolos ensinem diferentemente de mim, o fim do preceito, isto é, todo cumprimento da lei, é a caridade, como eu ensino; donde o que eles ensinam, as coisas velhas, não deve ser reconduzido. A caridade procede de um coração puro , isto é, de inteligência limpa; que alguém tenha puro o entendimento, conservando-se na pureza em que Deus o purificou no batismo, entendendo que deve amar o seu Criador e em nada o ofender. A caridade procede também de uma boa consciência , isto é, da esperança, não porque a consciência seja o mesmo que a esperança, mas por aquela afinidade com que àquele a quem falta escrúpulo de má consciência, e em toda parte, olhando-se no ânimo e nada achando que o morda, assim enfim é lícito esperar; quem se vê pecador, com efeito, deve temer pelo pecado, não esperar. A caridade procede também de uma fé não fingida ; nós, com efeito, cremos Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não fingindo ou homem sem Deus, ou Deus sem homem, e, como alguns falsos apóstolos dizem, que Cristo teve não corpo verdadeiro, mas aéreo; ou então: fé nossa, digo, robusta e inviolável, não fingida, isto é, não frágil ao modo de vaso de barro, como é a doutrina dos falsos doutores. Recomendada a sua parte, reprova a dos adversários, dizendo: dela , a saber, da caridade, da boa consciência e da fé, alguns se desviaram , isto é, aqueles que introduzem doutrina singular, separados e por isso errantes; a separação, com efeito, da verdade é erro; desviando-se certamente, perderam-se , não na fé, mas em vãs palavras , falando coisas vãs e inúteis, dizendo, a saber, que a circuncisão deve ser mantida. A estes não basta falar estas vaniloquências consigo, mas, o que é pior, querendo ser doutores da lei , isto é, ensinando que se devem manter as observâncias carnais da lei; e isto bastante impudentemente, sem entender nem o que dizem , isto é, a circuncisão, que ensinam, que sob a lei antiga se manteve na carne para figurar que se devia manter a circuncisão do coração no tempo da graça, e não da carne; nem o que afirmam , não entendendo também as Escrituras dos Profetas, das quais, isto é, pelas quais afirmam que a circuncisão e os antigos sacrifícios, que dizem, se devem manter no tempo da graça; ou, ao contrário: não entendendo o que dizem dos Profetas para provar que se devem manter as coisas que ensinam; nem entendendo a circuncisão e os sacrifícios, de que coisa eram mistérios quando se faziam, dos quais eles afirmam que ainda se devem manter. Que tenha reprovado a parte dos adversários, dizendo "sem entender", etc., isto certamente não bastaria se não recomendasse também a sua parte e inserisse a causa da recomendação; poderia, com efeito, objetar-se-lhe assim: se a doutrina dos falsos doutores é perversa, a tua não é melhor de aprovar; donde julgas que se deve aderir antes a ti do que a eles? Para refutar isto, reprovada a parte dos adversários, acrescenta e aprova a sua, dizendo: os falsos doutores certamente não entendem a lei, nós, porém, sabemos , isto é, entendemos a lei. E acrescenta algo mais que vale para a causa, dizendo: sabemos certamente, não só a lei, mas também isto da lei sabemos: que a lei é boa , isto é, útil e justificante, entendida espiritualmente, segundo como nós a entendemos; segundo o entendimento carnal deles, porém, antes não boa, porque a ninguém justifica, e é cruel; donde o que eles entendem da lei não deve ser reconduzido. A lei certamente é boa, se alguém usa dela , isto é, da inteligência dela, legitimamente , isto é, segundo o que a própria lei ensina e preceitua, a saber, que seja entendida espiritualmente. Sabemos certamente da lei que é boa, sabendo isto também da mesma lei: que a lei antiga não foi posta para o justo , isto é, justificado sob a lei nova, nem mesmo sob a própria lei antiga foi posta para algum justo; a lei, com efeito, foi dada para punir o réu ou coagir o que quer pecar a não delinquir: mas quem é justo não deve ser coagido; não tem, com efeito, vontade de pecar, nem deve ser punido pela lei; mancha, com efeito, não há naquele que foi justificado. Donde aos justos que estiveram sob a lei antiga, quanto a si, não seria necessário manter a lei, a qual contudo congruentemente usaram, para que, rejeitando eles a lei, não viesse ela a desprezo, e para que, pela autoridade deles, mais devotamente a mantivessem aqueles a quem por causa dos pecados era necessária. Por isso também os justos mantiveram a lei antiga, para que o que ela prefigurava de Cristo e do tempo da graça eles o atestassem cumprindo a lei. Para o justo certamente não foi posta a lei, mas para os injustos , isto é, os judeus, aos quais, antes de dada a lei, Moisés deu preceitos morais, que, não os observando, se tornaram injustos: para os injustos certamente e insubmissos , isto é, os judeus, que não quiseram submeter-se a Deus, que dava a lei por Moisés, para se afastarem das injustiças. Quem chame injustos e insubmissos expõe, dizendo: a lei foi certamente posta para os ímpios , isto é, irreligiosos de ânimo contra Deus, e pecadores , isto é, os que irreligiosamente pensam, irreligiosamente operam, celerados , isto é, os que, vendo sacrificar aos ídolos ou semelhante, lhes aprouve prevaricar igualmente. A lei foi posta também para os contaminados , isto é, os que foram compelidos pela violência dos tormentos a sacrificar aos ídolos. Estas quatro [seis?] coisas fazem-se principalmente contra Deus; as demais que seguem fazem-se contra si e contra o próximo, não que todos os pecados não sejam contra Deus, mas porque as quatro ditas parecem ofender a Deus especialmente, sem algum meio. Foi posta também a lei para os parricidas , isto é, os matadores de pais, a quem, devendo-se muito pelo fato de serem homens, muito mais [porque] eram pais; e matricidas igualmente, e homicidas , e fornicadores , isto é, os que se mancham com adultério ou com qualquer gênero de fornicação, e sodomitas , o que é pior, a quem não basta mancharem-se se não corrompem também a outros; e plagiários , isto é, os que infligem golpes ao próximo; ou então, plagiários como "plagiosipis", isto é, os que infligem golpe com coisa viva, como se alguém furtasse ao pai o seu filho, ou semelhante; mentirosos também, que se aplicam a fraudes, e perjuros , que é um pouco pior que a mentira: para estes e semelhantes foi posta a lei. Além disso foi imposta a lei para o que quer que seja outra coisa das ditas contrária à sã doutrina , isto é, à lei natural e moral; os preceitos morais, com efeito, assim como na lei antiga, também na nova perduram; donde diz: sã doutrina, que é segundo o Evangelho , isto é, segue a lei nova; Evangelho, digo, da glória , isto é, que prega o Deus glorioso; ou então, Evangelho da glória, isto é, que dá aos que o seguem a glória eterna; glória, digo, do Deus bem-aventurado , pois a bem-aventurança que Deus tem, tal hão de ter dele os santos: bem-aventurado diz-se, com efeito, aquele a quem nada falta; aos santos com Cristo nada faltará. Este nome Deus não carece de adjetivo algum para que se diga bem-aventurado, ou algo destes, mas, para insinuar de que gênero de glória Deus há de ter e dar aos seus, acrescentou "bem-aventurado", como se dissesse: a glória que Deus tem e dá basta a ele e a quantos a dá. E porque a sã doutrina e o Evangelho se seguem mutuamente, por isso só estas coisas se devem manter, e não reconduzir a circuncisão e as velhas. Aqui entra a mostrar que, por ter-se afastado da lei antiga, todos os bens lhe foram conferidos; à qual lei enquanto aderiu, sempre se precipitou em despenhadeiro de males; donde diz: Evangelho que me foi confiado , isto é, previu a misericórdia de Deus que eu era idôneo a quem confiar (Evangelho, porém, diz-se boa nova; eu , com efeito, é bom; angelia , núncio [grafia grega corrompida no OCR]; donde Anjo se diz núncio); e por isso, porque Deus me confiou o Evangelho, dou graças a ele, e não à lei, por este benefício e pelos que seguem, a Deus que me julgou fiel. Aqui dizem alguns que as palavras de Paulo são insidiosas, como se dissesse: por isso dou graças a Deus porque, sendo infiel, me fez fiel; e julgou que eu era digno de me tornar fiel, isto é, a providência de Deus, que não sabe enganar-se, preordenou desde o princípio, e me deu forças feito fiel, isto é, me fez forte, de modo que nem a morte nem a espada poderão separar-me da sua caridade; e depois de me confiar o Evangelho da paz, pondo-me no ministério , isto é, na própria obra de pregar: a muitos prelados, com efeito, é confiado o Evangelho que, entorpecidos, não ministram aos súditos o que lhes foi confiado. Fui posto no ministério de Cristo Jesus , isto é, para honra e glória de Cristo Jesus, nosso Senhor; ou então, deu-me forças em Cristo Jesus, nosso Senhor, que me apareceu a mim, respirando mortes, no caminho. Eu certamente fui feito fiel, etc., depois que, deixando a lei, me submeti à graça de Deus, a mim que antes , quando estava sob a lei, me precipitava em todos os males, fui então blasfemo , blasfemando Cristo, dizendo-o homem sem Deus, filho de carpinteiro e semelhantes; fui também perseguidor de quaisquer justos; fui também injuriador , porque, se podia prender alguns, afligia-os com injúrias e açoites: mas eu, que sob a lei era tão perverso, logo que a deixei, alcancei misericórdia , isto é, remissão dos pecados. Disto, porém, alcancei misericórdia porque o fiz por ignorância , isto é, pequei ignorantemente; e porque ignorava Cristo, por isso permanecia na incredulidade. Assim "porque" por "o que" lemos; não bastaria, com efeito, para a causa que, por ter pecado ignorantemente, tenha por isso alcançado misericórdia. De outro modo, contudo, lê-se "porque" para a causa; como se alguém dissesse: tu outrora, sob a lei, pregavas que se devia manter a lei; tu, porém, deixada a mesma lei, pregas que se deve deixar a lei; a quem, pois, se deva crer, ou a ti sob a lei, ou a ti não sob a lei, duvidamos. Contra isto diz: a mim sob a lei não se devia crer, porque o fiz por ignorância; e porque ignorei, por isso permaneci na incredulidade. Nem só alcancei misericórdia, isto é, remissão dos pecados, mas também a graça de nosso Senhor superabundou em mim acima da misericórdia; porque tanto remitiu os pecados como deu muitas outras graças, como o conhecimento da essência divina e o mais. Ou de outro modo: enquanto era perseguidor da Igreja de Cristo, tive muito zelo da lei, mas contudo agora superabundou a graça de Deus em mim, porque, se me tivesse convindo padecer tanto pela lei antiga quanto padeço por Cristo, certamente teria desfalecido: o mais como foi dito. Superabundou, digo, a graça com a fé e a caridade ; porque a fé e o amor de Deus sempre cresceram em mim; fé e caridade que há em Cristo Jesus , isto é, tem-se por Cristo Jesus, e não pela lei. Esta misericórdia que eu alcancei, é fácil também vós a alcançardes; para que os pecadores fossem salvos , com efeito, Cristo Jesus veio a este mundo. Mas, antes de o dizer, antepõe a recomendação da coisa que vai dizer, assim: fiel é esta palavra que vos manifesto, isto é, tal que se lhe deve dar fé e que é bem digna de crédito; nem só é fiel, mas também digna de toda aceitação , isto é, que deve ser aceitável: há, com efeito, muitos discursos dignos de crédito, não porém dignos de aceitação, porque inúteis; este discurso, porém, é digno de crédito e aceito, porque útil: digno certamente de aceitação, não numa só vez ou num só tempo como a lei antiga, mas de toda , isto é, no presente e no futuro, e segundo o corpo e segundo a alma, porque em todo tempo e segundo ambos salva: este, digo, é aquele discurso: que Cristo Jesus veio a este mundo , isto é, tão desprezível e em que lhe convinha padecer tantas misérias; veio, digo, para salvar os pecadores ; se estes pudessem ser salvos pela lei, em vão Deus deporia o seu Cristo nas misérias deste mundo. Dos quais pecadores eu , e qualquer legalista, sou o primeiro , isto é, principal e péssimo; piores, com efeito, achou Deus os judeus aderentes à lei do que quaisquer sem lei. O que acima pôs absolutamente, aqui põe com a causa, dizendo: embora eu fosse o pior entre os pecadores, contudo alcancei misericórdia, para que Cristo Jesus em mim primeiro , isto é, maior pecador, ou então, primeiro, isto é, sobretudo, mostrasse toda a sua longanimidade , não em qualquer coisa una, mas total; suportou-me, com efeito, blasfemando, perseguindo e infligindo injúrias aos santos: toda a longanimidade certamente mostrou em mim, como exemplo dos que hão de crer nele , isto é, para que por mim ensinasse que ninguém deve desesperar, pela enormidade dos crimes, de crer nele; hão de crer, com efeito, nele para a vida eterna , isto é, para que pela fé tenham a vida eterna. E, uma vez que Cristo veio salvar os pecadores, o que a lei foi insuficiente para fazer, portanto ao Rei dos séculos , Cristo, seja por isso honra e glória ; porque nem à lei nem a outro além de Cristo é devida por isso a graça. Ou continue-se assim: Cristo mostrou em mim toda a longanimidade; àquele, porém, Cristo, Rei dos séculos, imortal , isto é, imutável, que está sempre no mesmo, e invisível , isto é, cuja Deidade nenhuma criatura basta para entender; a este único Deus Criador (só ele, com efeito, pode salvar), a este tão grande e tal seja honra e glória — honra diz-se, como das virtudes, humildade, prudência e semelhantes, que o homem pode ter; glória diz-se das coisas que são só de Deus e não do homem, como ressurgir ao terceiro dia e semelhantes —; honra, digo, e glória lhe seja pelos séculos dos séculos , consecutivos dos séculos presentes; e isto que peço, amém , isto é, certamente assim será. Uma vez que de Cristo Jesus vem toda a salvação, e da lei nenhuma, por isso, ó Timóteo, filho, confio-te este preceito , para que em tudo seja manifesto que não podes poupar nem tolerar ninguém neste assunto; este é, com efeito, o preceito que não é lícito transgredir, e a ti recomendado com suma obediência, para que milites excluindo da Igreja os falsos doutores; milites também dispondo outra ordem eclesiástica; milites a boa milícia — se militasse uma vez ou em uma coisa só, teria cumprido o "milites" que dissera, mas, para mostrar que queria que militasse sempre e em tudo, acrescentou "milícia boa", isto é, útil; será útil, com efeito, que assim milites —; confio-te, digo, que milites nelas , as profecias, isto é, em toda visão e inteligência que tens de Deus; a profecia, com efeito, é visão, profeta diz-se vidente. Advirto-te que milites segundo as profecias que precederam sobre ti , isto é, segundo o que no tempo precedente foste ensinado nas sagradas Escrituras; Timóteo, com efeito, nascido de pai gentio e de mãe cristã (At 16,1), foi desde a própria meninice entregue a ser instruído nas sagradas Letras; donde diz "segundo as profecias que precederam sobre ti". Ou de outro modo: confio-te que milites segundo as profecias que precederam sobre ti, isto é, a teu respeito; ensinado, com efeito, pelo Espírito de profecia, tomei-te para a obra do Evangelho; vê, porém, que, degenerando da fé, não faças mentiroso o Espírito, que me ensinou a escolher-te. Deves militar, tanto porque é bom e útil como porque podes bem, tendo fé , pela qual foste plenamente justificado, tendo também boa consciência ; a ti, com efeito, que pregas, não se pode objetar que ensinas bem e vives mal. Agora volta por um momento aos falsos doutores, dizendo: boa consciência que alguns rejeitaram de si; quem age e ensina perversamente, com efeito, não tem de que ser bem consciente de si: e porque a rejeitaram, por isso naufragaram na fé , isto é, quebraram a sua nau, rodeando a fé e não entrando nela. Destes falsos doutores naufragantes são Himeneu e Alexandre , príncipes dos que queriam reconduzir a circuncisão; aos quais eu entreguei a Satanás , isto é, separei excomungados da Igreja; e não para que pereçam eternamente, mas para que aprendam a não blasfemar , isto é, para que, assim corrigidos e penitentes, cessem da sua perversidade, e já não blasfemando sejam de novo tirados a Satanás, recebidos no seio da Igreja. Nota-se que excomungar é entregar a Satanás, porque, quando alguém é excomungado, é entregue a Satanás, de quem era antes de ser justificado pelo batismo. Capítulo 2 Peço, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que levemos uma vida quieta e tranquila, em toda piedade e castidade. Isto, com efeito, é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo em redenção por todos, testemunho nos seus tempos; para o qual fui posto eu pregador e Apóstolo (digo a verdade, não minto), doutor das nações na fé e na verdade. Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos puras, sem ira e sem contenda. Do mesmo modo, que as mulheres, em traje decoroso, se ornem com pudor e sobriedade, e não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou vestes preciosas; mas, como convém a mulheres que professam piedade, com boas obras. A mulher aprenda em silêncio, com toda sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que domine sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Pois Adão foi formado primeiro, depois Eva. E Adão não foi seduzido; a mulher, porém, seduzida, caiu em prevaricação. Será, contudo, salva pela geração de filhos, se permanecer na fé, na caridade e na santificação, com sobriedade. Comentário Depois de Paulo admoestar Timóteo a que militasse, insinua em seguida em que lhe ordena militar, dizendo: uma vez que Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, no ministério de cuja pregação me constituiu, a fim de que por ele sejais salvos e a minha pregação frutifique em vós, portanto , isto é, por causa destas premissas, peço que oreis ; se Deus, com efeito, não operar pelo Espírito Santo nos vossos corações, a minha palavra será inútil: peço, pois, primeiramente antes de tudo , isto é, sobretudo antes de todas as coisas, que se façam súplicas , etc. Porque o Apóstolo viu que em todo gênero de oração prevalece a celebração da Missa, na qual se faz memória da Paixão de Cristo, pela qual todo o gênero dos homens foi redimido, por isso, embora se deva orar também de outros modos, antepôs este gênero de oração, porque viu que prevalece, dizendo: primeiramente antes de tudo , isto é, antes de todas as coisas, peço que se façam súplicas. Aquelas orações que precedem, isto é, junto e antes de consagrado o Corpo do Senhor (como no princípio da Missa), chama súplicas, como que ditas junto da consagração. Orações, petições e ações de graças peço que se façam. Chama orações às preces em que, quando são ditas, aquela substância de pão e de vinho posta no altar passa a Corpo e Sangue de Cristo. Chama petições às preces que se fazem depois da comunhão, como aquela: «Leva a termo em nós, Senhor, o que contêm os teus santos mistérios», isto é, depois de nos teres alimentado com este teu Corpo e Sangue, resta, como por dívida, que leves a termo o que piedosamente começaste, apascentando-nos com o alimento indefectível da tua glória nos céus, que aqui no altar antegozamos; petição, com efeito, diz-se como oração feita de coisa que já é devida por misericórdia ou mérito. Chama ações de graças ao que se diz no fim da Missa: Benedicamus Domino; Deo gratias; para que, dizendo isto, insinuemos que se deve referir tudo à graça de Deus, o que deu e o que há de dar eternamente. Peço, porém, que isto se faça por todos os homens , para que sejam salvos por vontade de Deus. Se se pergunta por que o Apóstolo manda orar por todos, quando alguns foram reprovados por Deus, e quem reza por eles parece ofender a Deus, que os reprova; contra isto diz-se que Deus, por sua benignidade e clemência, quer que todo homem se salve, mas este, quanto está em si, não permanece em Deus, e a injustiça dos ímpios desvia a benignidade de Deus. Donde em Deus se considera dupla vontade: uma de benignidade e clemência, pela qual quer que todos se salvem; outra é a vontade de justiça de Deus, pela qual reprova os maus e elege os bons. Segundo a vontade de benignidade de Deus, manda o Apóstolo orar por todos, para que o que Deus piedosamente quer, também nós, seguindo a sua piedade, queiramos, e oremos para que se faça a vontade de Deus; o que, se não fizéssemos, pareceríamos dissentir da clemência de Deus. Ou leiamos de outro modo o que precede, de modo que nestas palavras não haja menção da Missa: peço que se façam súplicas, isto é, aquelas adjurações, como na litania, onde se adjura pela Paixão, pela Ressurreição e semelhante, como se alguém adjurasse a Deus pela conversão de um celeradíssimo, o que mal parecesse poder obter-se de Deus; convertido, porém, aquele ímpio pelas preces do justo, o justo faria orações por ele, para que Deus, com a fé, lhe desse as virtudes que seguem; recebidas estas, restariam já as petições (como se disse) pela glória celeste, que é devida a quem já tem as virtudes: por todas estas coisas, isto é, a conversão, a posse das virtudes, a concessão da glória celeste, seguem as ações de graças; o que fez o presbítero Justino, que, recebido nos céus o espírito de Lourenço, em ação de graças ofereceu a Deus o Sacrifício de louvor. Peço, porém, que isto se faça por todos os homens, como se disse. Porque talvez alguns julgassem que não se devia orar pelos príncipes e tiranos que oprimem a Igreja de Deus, acrescenta: assim digo que se deve orar por todos que nem os perseguidores da Igreja exclua, mas orai também pelos reis e por todos os que estão em eminência secular, sejam duques, sejam cônsules. E que vós oreis por eles não só aproveitará a eles, mas também a vós, para que , cessando eles da sua tirania, levemos uma vida quieta sem perseguição; nem numa só coisa, mas também tranquila , isto é, quieta em toda coisa. A tranquilidade da Igreja muitíssimo aproveita a alguns mais tenros, que na paz da Igreja conservam a sua justificação, os quais, se os tormentos os alcançassem, talvez recuassem da fé; e por isso diz que se deve orar pelos reis e príncipes. Levemos, digo, vida tranquila em toda piedade , isto é, religião, e castidade , isto é, integridade da fé, que, se sobreviesse a perseguição, não perduraria íntegra em todos. Por isso admoesto a orar por todos, isto, com efeito, que se ore por todos, é bom , isto é, útil para o progresso da Igreja; e tal bem que seja agradável e grato a Deus; e não de modo que agrade no tempo e desagrade em outro tempo, mas agradável de modo que seja diante de Deus , isto é, que sempre permaneça nos olhos do seu beneplácito; Deus , digo, nosso Salvador , que, assim como nos salvou, quer que todos os homens se salvem , segundo a vontade da sua benignidade, como acima se disse; e, para que se salvem, quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade , isto é, da verdadeira fé, pela qual há caminho para a salvação. Prova o que disse: verdadeiramente Deus quer que todos se salvem; o que é patente pelo fato de que há um só Deus , isto é, Criador de todos; e, sendo Deus Criador de todos, não há causa por que negue a sua benignidade a um e a conceda a outra criatura; a qual o ímpio certamente a si nega, porque age impiamente, perdurando salva e íntegra para todos a benignidade de Deus. Daí também é patente que Deus quer que todos se salvem, porque há um só Mediador entre Deus e os homens , e não vários mediadores; donde consta que, por querer aproveitar igualmente a todos, foi feito Mediador de todos. Cristo diz-se Mediador porque os dois extremos, e inteiramente divididos entre si, a saber, Deus, em quem há toda a justiça e nenhuma injustiça, e o homem, em quem há toda a injustiça e nenhuma justiça, fê-los concordes pela humanidade a si assumida, justificando o homem. Prova ainda que Deus quer que todos se salvem, dizendo: este Mediador, sendo glorioso na Deidade, fez-se homem , coisa tão vil e tão contumeliosa que nunca o faria se não quisesse salvar os homens; este Mediador é Cristo , imolando por nós a si mesmo como sacrifício a Deus, e Rei dirigindo-nos à salvação; este é Jesus , Salvador, a quem este nome designa Salvador de todos; Cristo Jesus deu-se em redenção , e não ouro ou prata, mas a si mesmo deu como preço por todos a redimir. Mas, embora aquele preço não tenha aproveitado a todos, porque perduraram na impiedade, Cristo deu contudo o preço que bastaria para a salvação de todos, se todos quisessem ser bons; e porque deu a redenção por todos, quis salvar a todos igualmente. Testemunho disto , a saber, de que quer que todos se salvem, foi confirmado , porque o que os Profetas testemunharam antes de Cristo sobre este Salvador, Cristo o confirmou, cumprindo tudo o que os Profetas haviam predito dele; isto, porém, por cumprimento, foi confirmado nos seus tempos , isto é, nos congruentes, como a Natividade de Cristo em certo tempo, noutro a Paixão, e o mais de Cristo em diversos tempos; se os testemunhos dos Profetas, com efeito, não tivessem precedido Cristo, pouco ou nada se lhe creria; o que o mesmo insinua quando, aparecendo depois da Ressurreição a dois discípulos, diz: «Ó insensatos e tardos de coração para crer em tudo o que os Profetas falaram, etc.» (Lc 24,25); o que ele mesmo diz noutro lugar no Evangelho: Nisto é verdadeira a palavra: um é o que semeia e outro o que colhe (Jo 4,37): os Profetas, com efeito, semearam, Cristo, porém, com os seus Apóstolos colheu o fruto da semente. Para provar o mesmo, que Deus quer que todos se salvem, aduz a sua autoridade, dizendo: para o qual , isto é, para a qual coisa a pregar, a saber, que Deus deu a si mesmo como preço pela salvação de todos, e o mais que foi premissado, fui posto eu por Deus pregador , para que isto pregue a todos; e pregador de grande dignidade, porque também Apóstolo constituído para pregar isto; e eu sem dúvida digo a verdade, não minto , não em qualquer parte, mas de modo a não mentir em lugar algum; e eu já fui constituído doutor das nações na fé e na verdade , isto é, já ensinei muitos discípulos, que são fiéis e pregam a verdade. Se meus discípulos são verdadeiros, consta que eu, seu doutor, não sou mentiroso. Que se nomeie pregador e Apóstolo não são palavras de soberba, mas para por esta autoridade corroborar a fé dos seus ditos. Uma vez suficientemente provado que se deve orar por todos os homens, quero, pois , que todos, homens e mulheres, orem, para que segundo a vontade de Deus se salvem; quero certamente que os homens orem não só na igreja, mas em todo lugar, levantando mãos puras , etc. Aqui ensina quais se devem preparar para orar: chama mãos puras as afeições limpas, de modo que nada queiram que lhes seja dado por Deus que seja nefando Deus dar, mas sobretudo pedam a salvação; puras, digo, levantando por incrementos de boa obra e de oração piedosa, e isto sem ira , isto é, sem ódio do próximo; quem odeia o próximo, com efeito, rasga-se da unidade da Igreja; e sem contenda , isto é, orai sem desconfiança, feitos tais que por temor do pecado não convenha disputar se Deus vai ou não dar-vos o que pedis; como se dissesse: orai com dileção de Deus e do próximo. Do mesmo modo quero que as mulheres orem com os homens, igualmente sem ira e sem contenda, estando em traje não que as ornamente, mas decoroso , isto é, que seja ornado por elas, de modo que seja tanta a reverência das mulheres que até as suas vestes pareçam ornadas, porque mulheres santas as usam; permanecendo com pudor , para que tudo façam com vergonha, e sobriedade de comida, bebida e palavras — com as outras virtudes recomenda estas duas sobretudo às mulheres, porque viu que sobretudo sofrem da doença da impudicícia e da intemperança —; mulheres, digo, ornando-se, não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou veste preciosa , isto é, não aplicadas ao cuidado dos corpos, mas promovendo a piedade com boas obras , que por fora operam, isto é, pondo à vista a religião da mente por boa operação exibida por fora. Ao orar, quero homens e mulheres semelhantes, mas ao ensinar ou interrogar quero-os dessemelhantes; a mulher aprenda , ouça o sermão na igreja, não interrogando nem respondendo, mas esteja em silêncio ; e, se hesita em algo, quando vier a casa, interrogue o marido. Aprenda em silêncio com toda sujeição , estando atrás dos homens com a cabeça coberta, o olhar fixo no chão; quando nos reunimos na igreja, com efeito, ali nos representamos ao Juiz, a quem pela sedução da mulher provocamos à ira; lembrada disto, a mulher, que foi autora de toda perdição, deve na presença do Juiz muito envergonhar-se. Que aprenda, concedo à mulher; ensinar , porém, ao homem com doutrina espiritual, isso de modo algum o permito à mulher, nem que domine com algum domínio espiritual sobre o homem ; mas que esteja sempre não só em silêncio de interrogar ou responder, mas também em silêncio de conversar com alguém na igreja. Por isso a mulher não deve dominar sobre o homem, porque Adão foi formado primeiro, depois Eva ; a ordem, porém, da criação deles significa que o homem deve dominar sobre a mulher, e não a mulher sobre o homem; pois, podendo Deus, se quisesse, criar a mulher antes do homem, ou no mesmo momento com o homem, não sem razão a fez posterior no tempo ao varão. Por isso ainda a mulher não deve dominar sobre o homem; e Adão não foi seduzido daquele modo que a mulher, de modo a crer que pelo gosto do pomo se faria Deus, mas nisto foi seduzido porque, persuadindo-o a mulher que Deus lhe dera como auxílio, julgou que ambas as coisas podiam fazer-se, e comprazer à esposa, e, praticado o crime, feita penitência, obter perdão de Deus; Adão não foi seduzido, a mulher, porém, seduzida , crendo que se faria deusa, como a serpente persuadira, caiu em prevaricação , isto é, em ato de pecado, a saber, na comida do pomo. E por tantas causas a mulher deve estar sempre sujeita ao homem, não preferida: com preferência espiritual, digo; se tem servos, com efeito, pode bem dominar sobre eles com domínio secular. Pode também a mulher presidir a mulheres de modo espiritual, mas ao homem nunca. Para que a alguém não parecesse que a mulher não pode salvar-se, porque foi causa de toda perdição, e porque o mesmo Paulo tanto detestou a mulher, acrescenta sobre a salvação dela, dizendo: embora a mulher tenha sido seduzida e o homem não, contudo a mulher será salva ; não só a virgem ou continente, mas também a que vai pela geração de filhos , isto é, também a casada; com esta condição, digo, se permanecer na fé , de modo que tenha fé sã, e na caridade de Deus e do próximo, e na santificação que recebeu no batismo; permaneça, digo, nelas com sobriedade , que por isso repete, porque nesta costumam as mulheres pecar muitíssimo. Por isso disse que as casadas podem ser salvas, porque, se tivesse falado só das virgens ou viúvas, pensar-se-ia que entendera que as casadas não podem ser salvas, as quais, devendo ser salvas, consta por isso a salvação das virgens e viúvas. Ou continuemos de outro modo: embora não permita à mulher ensinar na igreja, contudo será salva, isto é, poderá merecer a salvação pela geração de filhos , isto é, instruindo espiritualmente em casa os seus filhos; será salva sob esta lei: se, quanto dela depender, os seus filhos permanecerem na fé, na dileção e na santificação, com sobriedade, como se disse. Capítulo 3 Fiel é esta palavra: Se alguém deseja o episcopado, deseja uma boa obra. É preciso, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, ornado, pudico, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, mas moderado; não litigioso, não cobiçoso, mas que governe bem a sua casa, tendo filhos submissos com toda a castidade. Pois, se alguém não sabe governar a sua casa, como terá cuidado da Igreja de Deus? Não neófito, para que, inchado de soberba, não caia no juízo do diabo. É preciso também que tenha bom testemunho dos de fora, para que não caia no opróbrio e no laço do diabo. Os diáconos, do mesmo modo, sejam pudicos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe lucro; mantendo o mistério da fé em consciência pura. E estes sejam primeiro provados; e assim exerçam o ministério, não tendo nenhum crime. As mulheres, do mesmo modo, pudicas, não maldizentes, sóbrias, fiéis em tudo. Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, que governem bem os seus filhos e as suas casas. Pois os que bem exercerem o ministério adquirirão para si um bom grau e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus. Estas coisas te escrevo, esperando ir ter contigo em breve; se, porém, demorar, para que saibas como convém conduzir-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e firmamento da verdade. E, sem dúvida, grande é o mistério da piedade: que foi manifestado na carne, justificado no espírito, apareceu aos Anjos, foi pregado aos gentios, foi crido no mundo, foi elevado em glória. Comentário Depois de ter admoestado a comunidade da Igreja a orar, e por isso ter dado um preceito público a todos, acrescenta alguns preceitos divididos, que não tratem de todos, a saber, sobre o sacerdócio e o diaconato, insinuando quais e como devam ser promovidos a estas Ordens. Porque viu que este preceito é oneroso e difícil a alguns, antes de o propor, recomenda-o, dizendo: este discurso que vou dizer é fiel , isto é, deve ser crido, e a ninguém é oneroso; este certamente é o discurso que recomendo: é preciso que o bispo seja irrepreensível. Aqui por bispo significa o sacerdote; supérfluo seria, com efeito, que instruísse Timóteo, que era bispo dos efésios, sobre a ordenação de bispo para os efésios, pois, episcopando ele ali, seria absurdo que outro ali fosse feito bispo, nem se deve crer. Além disso, se desse preceito sobre os diáconos, omitida a ordem sacerdotal, que precede, pareceria dissonante e feito sem ordem. Nem é de admirar que por bispo signifique o presbítero, quando nesta mesma Epístola por presbítero significa o bispo. E porque o que quer ser bispo necessariamente deve ser irrepreensível, por isso se alguém deseja o episcopado , isto é, superintender os que lhe são confiados, deseja aqui não ouro, não riquezas, não a jucundidade do século, mas uma obra , isto é, um trabalho bom , isto é, útil a si e àqueles sobre quem superintende; bispo, com efeito, diz-se superintendente, [explicação do termo grego, corrompida no OCR: epi , "sobre"; scopos , "intenção"]. E porque quem deseja o episcopado deseja operar o bem, é preciso, pois, que o bispo , isto é, é necessário que o que quer ser bispo, seja irrepreensível , porque, se for repreensível enquanto o for, não pode operar o bem. Chama irrepreensível o réu de nenhum crime, que, mesmo sem ter crime, se guarda de modo que nem nele pareça haver alguma ocasião de crime donde se suspeite dele criminoso. Este bispo, isto é, o que quer exercer o sacerdócio, convém que tenha sido marido de uma só mulher , isto é, que tenha tido uma só mulher, enquanto lhe foi lícito casar-se; não que a tenha no episcopado, ou que, se nenhuma teve, deva ser repudiada, mas antes aceita. Por isso nega o sacerdócio ao marido de muitas mulheres, porque, desligado da primeira mulher, ao contrair segundas núpcias indicou que não podia conter-se; não é lícito, porém, que o incontinente seja bispo. E para ser irrepreensível, convém que o bispo seja sóbrio em palavra e obra, prudente também, que saiba tirar do tesouro do seu peito a lei nova e a velha. Convém também que seja não dado ao vinho , dissoluto por contínua bebida; não violento também com agressão corporal; tem, com efeito, as armas espirituais de que deve usar contra os adversários, a saber, a palavra de Deus, por isso não convém que use armas corporais: não violento, mas moderado , isto é, guarda de toda moderação. Convém que seja não litigioso , isto é, que não pague injúria por injúria, mas seja paciente em tudo; não cobiçoso também, para que a cobiça não o impeça de dar aos pobres os bens da Igreja, que são patrimônio deles, não próprios dos bispos. Convém também que tenha governado bem a sua casa , que tenha bem contido de quaisquer vícios a sua família privada; e não só o resto da família, mas também tendo filhos submissos , isto é, que nem na contenção dos filhos tenha sido enganado por afeição paterna; e não de modo, digo, que os tenha corrigido depois de cometido o vício, mas com toda a castidade , isto é, guardada toda a integridade, porque foi tão rigoroso na guarda dos filhos que não lhes foi lícito chegar ao ato do crime. Quem assim sabe governar a sua casa, é bom que seja promovido ao sacerdócio; mas se alguém não sabe governar a sua casa privada , em que poucas coisas há a dispor, como terá cuidado , isto é, diligente guarda, da Igreja de Deus , em que tantas e tão grandes coisas há a procurar? Além do que foi dito, convém que não seja neófito , isto é, recém-convertido, para que, se ainda rude na fé for promovido ao sacerdócio, inchado de soberba , pensando consigo: se eu agora não me tivesse convertido, não haveria fora de mim quem soubesse presidir a Igreja; assim, ensoberbecendo-se, caia no juízo , isto é, na condenação do diabo , que por soberba foi condenado, para que este neófito igualmente por soberba seja condenado. Nem só estas coisas lhe são necessárias, mas também é preciso , isto é, é necessário que tenha bom testemunho não só dos fiéis, mas também dos de fora , isto é, de fora da fé, a saber, dos infiéis, para que não caia no opróbrio ; porque, se os infiéis agora o veem feito sacerdote, pregando a palavra de Deus, injuriá-lo-ão dizendo: tu, que pouco antes furtavas, adulterava, e o mais, jactas-te agora de mestre nosso, em cuja boca até as coisas boas são desprezíveis; ele, ouvindo isto, inflamado de ira, pague com opróbrios recíprocos, e deste modo caia no laço do diabo , que com estes dolos trabalha por enlaçá-lo: por isso convém que quem é promovido ao sacerdócio, mesmo quando foi infiel, tenha vivido sem queixa entre os seus. Quais dissemos que convém serem os presbíteros, tais convém serem os diáconos; sóbrios , e o mais que não repete, com o que diz "do mesmo modo" significou que se devem entender na ordenação dos diáconos; Ordem que pouco difere em dignidade do sacerdócio: os diáconos, digo, convém que sejam pudicos , isto é, guardas da castidade, e não de língua dobre , isto é, que não semeiem discórdias entre irmãos, não dados a muito vinho , de que é lícito usar sobriamente; não cobiçosos de torpe lucro , de modo que nem emprestem a juros, nem negociem; mantendo também o mistério , isto é, o segredo da fé , para que conheçam aqueles segredos da nossa fé que a simplicidade do vulgo não basta para apreender; o ofício dos diáconos, com efeito, é evangelizar a palavra de Deus ao povo; em sinal disso se lhes entrega o Evangelho para ler; por isso convém que lhes sejam conhecidos os arcanos da fé, a eles que hão de ensinar sobre a fé. E, embora tenham tudo isso, contudo, antes de serem ordenados, sejam primeiro provados pelas interrogações com que costumam ser interrogados antes das Ordens, como aquela: Queres guardar a castidade? e semelhantes. Estes sejam certamente provados, e igualmente os sacerdotes, de quem não o premissara, e assim enfim ordenados exerçam o ministério , isto é, distribuam os bens da Igreja em usos necessários, como nas refeições dos pobres e semelhantes: foi estabelecido, com efeito, também na Igreja primitiva que aqueles sete diáconos dispusessem as coisas eclesiásticas e domésticas, ministrassem aos pobres, etc., para que os Apóstolos, livres de tais cuidados, vagassem mais livremente à pregação; donde ainda hoje, se é feito conforme o direito, pelas mãos dos diáconos se distribuem os ministérios das Igrejas. Exerçam o ministério, digo, não tendo nenhum crime em ato, nem mesmo em suspeita; com tanta vigilância devem, com efeito, olhar-se que o inimigo não tenha ocasião nem de suspeitar algo criminoso deles. "Não tendo crime" é o mesmo que acima disse "irrepreensível". Aqui insere um preceito sobre as mulheres, tratando antes e depois dos diáconos; inserção que, se de algum modo não disser respeito aos diáconos, parece inconveniente esta ordem; para que, porém, o que diz sobre as mulheres se julgue convenientemente inserido, expomos assim: as mulheres que forem casadas com os que são promovidos ao diaconato, do mesmo modo é preciso que sejam pudicas , isto é, é necessário professar a castidade, como os seus maridos; melhor seria, com efeito, que permanecessem com os maridos na castidade do matrimônio do que separadas dos maridos vivessem impudicamente; e por isso os seus maridos não sejam recebidos na Igreja se as suas mulheres não professarem a castidade. As quais convém que sejam não só pudicas, mas também não maldizentes , porque, se vagam à detração, melhor teria sido estar com os maridos, que as corrigissem. Convém também que sejam sóbrias em comida, bebida e vestuário; e fiéis em tudo , isto é, guardando intacta em tudo a justificação dos pecados que receberam pela fé. Ou: sejam fiéis em tudo, de modo que, se algo eclesiástico lhes for confiado, como ministrar aos pobres, o executem fielmente. Ou, se se prefere, as mulheres diaconisas, a saber, as monjas, do mesmo modo é preciso que sejam pudicas, etc., como foi dito. Os diáconos sejam também, isto é, tenham sido, maridos de uma só mulher; que governem bem os seus filhos e as suas casas , como foi exposto do bispo. Para que a ninguém parecesse difícil preparar-se assim para ter o diaconato, diz: não vos seja oneroso fazer-vos tais e tais para subirdes a esta Ordem, porque os que bem e religiosamente exercerem o ministério no diaconato adquirirão por isso para si um grau maior, bom , isto é, útil a si, o presbiterado ou o episcopado. E se acaso morrerem sem receber grau maior, porque bem serviram no diaconato, adquirirão muita , isto é, de múltiplo bem celeste, confiança na fé , isto é, ser justificados pela fé que há em Cristo Jesus ; ou então, de modo que entendamos certa fé privada: assim adquirirão confiança na fé que há em Cristo Jesus, isto é, na pessoa do Filho. Embora a fé plena não esteja em uma só pessoa, mas nas três, diz fé privada em Cristo porque pela Redenção e pelo mais que é próprio da pessoa do Filho confia salvar-se. Estas coisas , sobre a Ordem sacerdotal e levítica e o mais, te escrevo, filho Timóteo, esperando contudo, embora agora te escreva, ir ter contigo em breve. Onde diz que escreve quando em breve irá, indica por isso a grande necessidade de que se observem as coisas que escrevendo ordena. Em breve espero ir a ti; mas, se demorar , escrevo, para que saibas como convém conduzir-te na casa de Deus , isto é, com quanta vigilância deves guardar os fiéis, nos quais Deus habita como em casa. E porque casa se poderia dizer de poucos, acrescenta: casa que é a Igreja , isto é, em que Deus convocou muitos à fé; Igreja, digo, do Deus vivo , isto é, que dá à sua Igreja a vida eterna que tem; Igreja que é coluna , segundo alguns, dos firmes e retos na fé, que se dizem coluna quanto a si; dizem-se também firmamento da verdade , quanto a outros débeis na fé, que, se não fossem firmados pelo exemplo e exortação destes, vacilariam na fé. Nesta Igreja está o mistério (sacramento), isto é, Cristo; e este mistério da piedade , isto é, de toda a religião, é grande , porque da sua magnitude não há fim: é certamente este mistério nela manifesto , isto é, aparente pelos muitos milagres que Deus opera pelos membros da Igreja. Cristo diz-se mistério por semelhança, assim como sob a lei antiga certos mistérios se guardavam no templo que não era lícito ao povo ver; assim, em Cristo, embora se vejam muitas coisas, muitas contudo nele estão escondidas, que nenhuma criatura basta para compreender; mistério, porém, diz-se coisa envolta em mistérios. Este mistério, isto é, Cristo, foi manifestado na carne , porque pelo Verbo de Deus encarnado a Deidade de certo modo foi tornada visível pela carne; a qual, senão na carne, era inteiramente invisível. Este mistério, isto é, Cristo, foi justificado , não porque tenha tido pecado, mas aquele homem que Deus assumiu foi feito justo no espírito , isto é, pelo Espírito, a saber, pela Deidade a ele co-unida; porque, enquanto os outros homens são concebidos da concupiscência da carne, Cristo foi concebido do amor do Pai. Este mistério, de novo, apareceu aos Anjos , isto é, Cristo fez-se conhecer pelos Anjos, pelas coisas que, feito homem, operou na terra; vistas estas, com efeito, muito progrediram os Anjos no conhecimento de Deus; não lhes haviam sido revelados, com efeito, todos os mistérios. Este mistério também foi pregado aos gentios pelos Apóstolos; foi crido também no mundo , o mundo, com efeito, já crê em Cristo; foi elevado também em glória , onde se senta à direita do Pai, vindo-lhe ao encontro os Anjos no dia da sua Ascensão. Capítulo 4 O Espírito, porém, diz manifestamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, dando atenção a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, por hipocrisia de falsos mestres, que têm a sua própria consciência cauterizada, que proíbem casar-se, que mandam abster-se de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos fiéis e por aqueles que conheceram a verdade. Porque toda criatura de Deus é boa, e nada se deve rejeitar do que se recebe com ação de graças; pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração. Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, nutrido com as palavras da fé e da boa doutrina que seguiste. Evita, porém, as fábulas profanas e de velhas; exercita-te, antes, na piedade. Porque o exercício corporal é útil para pouco; a piedade, porém, é útil para tudo, tendo a promessa da vida presente e da futura. Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação. Pois para isto trabalhamos e somos injuriados, porque esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis. Ordena estas coisas e ensina-as. Ninguém despreze a tua juventude; mas sê modelo dos fiéis na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na castidade. Até que eu chegue, dedica-te à leitura, à exortação e à doutrina. Não negligencies a graça que há em ti, que te foi dada por profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas, permanece nelas, para que o teu progresso seja manifesto a todos. Atende a ti mesmo e à doutrina; persevera nelas. Pois, fazendo isto, salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem. Comentário Para que Timóteo não objetasse a Paulo: uma vez que há na Igreja tão grande mistério, como dizes, não me convém vigiar muito pela guarda dela, porque por este mistério será suficientemente guardada. Contra isto Paulo diz: saibas que a Igreja de Cristo se deve conservar com toda vigilância, porque nos últimos tempos alguns apostatarão da fé. Isto, porém, não o recebi levianamente de qualquer um, mas o Espírito Santo me disse , não sob algumas figuras, mas manifestamente , que nos últimos tempos alguns hereges apostatarão da fé de Cristo, dando atenção a espíritos enganadores , isto é, a demônios que falam pela boca dos sedutores; dando atenção não só às razões deles, mas também às doutrinas , isto é, às afirmações das doutrinas de demônios , por hipocrisia de falsos mestres , isto é, em simulação de bem, quando verdadeiramente são maus; e que têm a sua própria consciência , isto é, a sua mente consciente de todo mal, cauterizada , isto é, marcada por fora com manifesta queimadura. Cauterizar diz-se de caveo, caves ; cautério, com efeito, diz-se aquela queimadura que se faz nos ladrões apanhados, para que os que os virem, por este sinal, se acautelem deles, sabendo que são ladrões. Por esta semelhança diz "que têm a consciência cauterizada", porque emitem por fora certos sinais da sua mente dolosa, pelo fato de proibirem casar-se ; esta é, com efeito, aquela queimadura que nos abre o mal da consciência deles: que proíbem casar-se, isto é, que mandam não casar; e que mandam ainda abster-se de alimentos que Deus criou para serem recebidos pelos fiéis , e isso com ação de graças ; porque por isso se devem render graças a Deus Criador, para que, se porventura os recebêssemos sem bênção, o que muitas vezes se ouviu, o diabo não entrasse com eles; criou certamente para serem recebidos pelos fiéis e por aqueles , isto é, também pelos mesmos tais que conheceram a verdade , esta a saber, que toda criatura de Deus, no que foi criada por Deus, é boa e útil a todo crente nisto; se, porém, é nociva a alguém, como a víbora, isso se dá porque não creu que esta criatura de Deus lhe fosse boa, como, se alguém agora cresse que não é bom comer carne, mesmo lícita, e contudo a comesse, pecaria, porque usaria do que duvidava ser bom. Conheceram também os fiéis que nada se deve rejeitar . Determina o que diz que não se deve rejeitar, aquilo a saber que se recebe , isto é, o que se deve receber com ação de graças; nem toda carne, com efeito, se deve comer. Receber, digo, e dar graças é bom, porque aquela criatura que se toma como alimento é santificada pela palavra , isto é, pelo Filho de Deus; pelo Filho, com efeito, tudo criou e todas as coisas criadas santificou. É santificada também pela oração , isto é, tanto pela bênção que precede como pela ação de graças que segue. Quando Paulo instrui Timóteo sobre o tempo do Anticristo, insinua que os membros do Anticristo precedem por longos tempos a sua cabeça. Insinua também que esta instrução foi feita para toda a Igreja e segundo todos os tempos futuros. Estas coisas que acima foram ditas — não detrair das núpcias, não derrogar os alimentos que Deus criou para serem recebidos pelos fiéis, e o mais premissado — propondo-as tu aos irmãos , isto é, pondo-as em público, embora assim propondo pareças a alguns demasiado remisso e indulgente com a carnalidade, serás contudo bom ministro de Cristo Jesus , isto é, mais útil do que aqueles que, excedendo a medida por excessivo rigor, proíbem casar-se e usar das coisas carnais. Assim deves propor, tanto porque assim serás bom, isto é, útil, quanto porque podes; tu, com efeito, nutrido , isto é, posto fora dos rudimentos e da nutrição pueril, foste instruído nas palavras da fé ; sabes, com efeito, em quem e como convém que creias: foste nutrido também nas palavras da boa doutrina , isto é, aprendeste a instrução útil dos costumes, que seguiste plenamente por mim, que também te batizei e o que ainda devia ser ensinado te ensinei suficientemente: este Timóteo, com efeito, foi entregue menino por sua mãe fiel a aprender as sagradas Letras, não, porém, até ser batizado por Paulo: e por isso diz que foi nutrido na fé, sabendo que se deve crer em Cristo, nutrido também na boa doutrina, isto é, na instrução dos costumes. Tais coisas propõe aos irmãos; mas as fábulas profanas , que não têm verdade alguma, como a proibição de alimentos e de núpcias; fábulas profanas também de velhas , isto é, inúteis, que, embora tenham semelhança de verdade, como reconduzir a circuncisão, são contudo sem toda utilidade; evita-as não só como te preveni com interdição, mas evita-as se alguém quiser discuti-las contigo em segredo; nem estudes sozinho nelas, mas antes exercita-te , e não parcialmente, mas a ti mesmo todo, em corpo e ânimo, na piedade , isto é, na doutrina e na guarda da religião. E para que, todo, possas fortemente vagar à piedade, não queiras afligir excessivamente a tua carne; pois o exercício corporal , por jejuns, é útil, sim, mas em relação à piedade vale para pouco; que aproveita, com efeito, ao prelado afligir-se de tal modo que, pela debilidade da carne, não possa vagar à instrução dos súditos? A aflição do corpo é pouco útil; a piedade , porém, isto é, aplicar-se por piedade de comiseração à instrução dos filhos, esta, digo, piedade é útil , não para algumas coisas, mas para tudo — por isso, de certo modo, repreende Timóteo pela aflição do corpo, porque sabia que ele jejuava e se abstinha de beber vinho a tal ponto que o seu estômago por isso se debilitava; por isso lhe manda nas passagens seguintes que use de vinho —; piedade que tem a promessa da vida presente , isto é, o evitar o mal e o aumento da justiça, que nesta vida é lícito ter; tem também a promessa da futura e perpétua vida. Este discurso que disse, aplicar-se à piedade e não afligir o corpo de modo que se impeça a piedade, é fiel e digno de toda aceitação ; porque, fortalecido o corpo, é fomentada a piedade útil para tudo. E que deva ser aceito exercitar-se na piedade, aparece daí, porque para isto , isto é, na piedade, trabalhamos nós, buscando o alimento do trabalho das mãos; somos injuriados também pelos infiéis, por isso porque esperamos aplicando-nos no Deus vivo , que dará a vida eterna que tem aos que esperam nele. Merecidamente se deve esperar naquele que é Salvador de todos os homens , bons e maus, com salvação temporal; porque «faz nascer o seu sol sobre justos e injustos» (Mt 5,45); e, sendo Salvador de todos, é contudo principalmente e sobretudo dos fiéis , a quem dará a vida eterna, que negará aos ímpios; os quais, contudo, neste mundo salva nos bens temporais. Uma vez que exercitar-te na piedade é bom, e nós trabalhamos no mesmo, a quem contudo neste mundo deves imitar, tu, pois, vagando à piedade, ordena estas coisas aos que sabem mas são preguiçosos para operar, a saber, os preceitos que foram premissados; se também há os que ignoram, ensina-os : e tanto uma coisa como outra com tanta severidade e limpeza que ninguém despreze a tua juventude , para que a honestidade da vida e do hábito tornem a tua idade, jovem em anos, madura em costumes. Ninguém, digo, te despreze; mas sê modelo de quaisquer fiéis na palavra , na humildade falando a todos, na conduta , feito tudo para todos na caridade , isto é, na dileção do próximo, na fé , isto é, permanecendo na justificação, e na castidade , virtude que é gema das virtudes no jovem. Por isso instrui o jovem sobre a castidade, a adolescência, com efeito, é idade mais propensa à lascívia que as outras. E para seres modelo dos fiéis, dedica-te à leitura , isto é, revolve assiduamente a Sagrada página, até que eu chegue (isto é, enquanto não chego); depois, com efeito, que eu chegar a ti, suficientemente te admoestarei; a voz viva, com efeito, anima mais qualquer um que a leitura; mas, contudo, muitos sabem bastante que, se não fossem incitados pela leitura, entorpeceriam enquanto o seu admoestador estivesse ausente; e por isso diz: dedica-te à leitura; e à exortação , isto é, exorta os que foram ensinados e todavia são preguiçosos para operar; dedica-te também à doutrina , isto é, ensina os que não sabem. E para que nisto sejas mais atento, não negligencies a graça do Espírito Santo que há em ti , que te foi conferida; graça, digo, pontifical, que te foi dada por profecia , isto é, por previsão; ensinado, com efeito, de antemão pelo espírito de profecia, vi que eras idôneo para a graça pontifical; e esta te foi dada com a imposição das mãos do presbitério , isto é, do bispo que, consagrando-te bispo, impôs as mãos sobre ti; ou então do presbitério, isto é, do presbiterado; porque, embora um imponha especialmente as mãos e consagre, contudo os demais bispos que assistem consagram o mesmo com ele [1] . E para que conserves a graça que há em ti, medita estas coisas que admoesto, e permanece nelas por operação, para que assim, meditando e operando, o teu progresso seja manifesto a todos , e pelo teu exemplo progridam. E para que assim possas progredir, atende a ti mesmo , corrige sutilmente a tua vida; e, olhando-te por todos os lados, atende à doutrina , isto é, ensina os outros; a tua vida, com efeito, se for louvável, recomendará a tua pregação, e por isso persevera nelas , isto é, na direção da vida e na doutrina dos súditos. Pois, fazendo isto , isto é, perseverando nelas, salvarás a ti mesmo ; atendendo a ti, salvarás também aos que te ouvem pela doutrina. Notas [1] Que o Espírito Santo seja dado pela imposição da mão não faz que não pudesse ser dado sem isso; mas a mão é imposta para que aquele que é consagrado aprenda por isso a exibir plena sujeição a Deus e ao seu consagrador: donde aquele consagrador tem esta prelazia sobre aquele que consagra, que nunca mais será julgado por ele. Aquela profecia também, que mencionou, porque agora não pode fazer-se assim — não são hoje, com efeito, espirituais os bispos —, faz-se contudo conforme pode fazer-se, quando aquele que há de ser consagrado é apresentado ao consagrador e é interrogado sobre a fé e o mais, como tem o Ordo. (Nota do próprio Autor.) Capítulo 5 Não repreendas asperamente o ancião, mas exorta-o como a pai; os jovens, como a irmãos; as anciãs, como a mães; as jovens, como a irmãs, com toda a castidade. Honra as viúvas que são verdadeiramente viúvas. Se uma viúva tem filhos ou netos, aprendam eles primeiro a governar a própria casa e a retribuir aos pais; pois isto é agradável diante de Deus. A que é verdadeiramente viúva e desamparada espere em Deus e persevere em súplicas e orações noite e dia. Pois a que vive em delícias, embora viva, está morta. E ordena isto, para que sejam irrepreensíveis. Se alguém não tem cuidado dos seus, e sobretudo dos de casa, negou a fé e é pior que um infiel. Seja escolhida como viúva a que não tenha menos de sessenta anos, que tenha sido mulher de um só marido, que tenha bom testemunho nas obras boas, se educou filhos, se exerceu hospitalidade, se lavou os pés dos santos, se socorreu os atribulados, se seguiu toda obra boa. As viúvas mais jovens, porém, evita; pois, quando se entregam à luxúria contra Cristo, querem casar-se, incorrendo em condenação por terem violado a primeira fé. Ao mesmo tempo, ociosas, aprendem a andar de casa em casa; e não só ociosas, mas também faladoras e curiosas, dizendo o que não convém. Quero, pois, que as jovens se casem, tenham filhos, sejam mães de família, não dando ocasião alguma ao adversário de maledicência. Pois já algumas se desviaram para trás de Satanás. Se algum fiel tem viúvas, socorra-as, e não seja onerada a Igreja, para que baste às que são verdadeiramente viúvas. Os presbíteros que governam bem sejam tidos por dignos de dupla honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. Pois diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi que debulha (Dt 25,4); e: O operário é digno do seu salário (Lc 10,7). Não aceites acusação contra um presbítero senão com duas ou três testemunhas. Os que pecam repreende-os diante de todos, para que os demais tenham temor. Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus e dos Anjos eleitos que guardes estas coisas sem prevenção, nada fazendo por parcialidade. A ninguém imponhas depressa as mãos, nem te tornes participante dos pecados alheios. Conserva-te casto. Não bebas mais só água, mas usa um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades. Os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo-os ao juízo; os de outros, porém, seguem-nos. Do mesmo modo, também as obras boas são manifestas; e as que de outro modo se passam não podem ficar ocultas. Comentário Para que Timóteo, a quem assim admoestou, "ordena, ensina", etc., não ensinasse sem discernimento, não atentando às diversidades de idades e sexos, acrescenta Paulo como cada idade deve ser ensinada, dizendo: embora diga "ordena, ensina", vê contudo que não repreendas com austeridade o ancião em idade, mas exorta-o com tanta diligência como a pai ; os jovens , porém, exorta como a irmãos ; as anciãs , porém, como a mães ; as jovens , como a irmãs. E porque Timóteo era jovem, por isso, ao falar das jovens, acrescentou com toda a castidade ; muito retamente, com efeito, no trato com as jovens o jovem é admoestado a toda castidade, para que não se mova sequer pelo mínimo titilar da carne a respeito delas. Instruído Timóteo com que discrição devia ensinar, acrescenta o preceito sobre as viúvas, determinando quais devam ser sustentadas com os bens da Igreja e quais não, dizendo: assim exorta as jovens; as viúvas , porém, que se refugiam nas Igrejas, honra-as do modo como devem ser honradas, dando, a saber, alimento e vestuário somente às que são verdadeiramente viúvas , não querendo voltar mais às coisas do mundo, de modo a querer casar-se de novo; também às que são desamparadas, o que acrescenta abaixo. Chama desamparadas às que não têm filhos ou pais que possam sustentá-las, ou com quem elas, com as suas coisas, se as têm, possam usar e instruí-los. Honra , digo, as que são verdadeiramente viúvas ; mas, se uma viúva tem filhos ou netos , esta certamente, porque não é desamparada, aprenda primeiro , antes de receber despesas da Igreja, a governar especialmente a sua casa , isto é, filhos e netos; e, se ainda tem pais, aprenda a retribuir aos pais , que a criaram quando era criança; faça bem, digo, aos pais, porque isto , e governar especialmente os seus, é agradável diante de Deus , mais do que se abandonasse os pais na calamidade. A viúva que tem filhos não passe à Igreja, mas aquela que é verdadeiramente viúva , não querendo voltar mais ao matrimônio, e desamparada , não tendo filhos ou netos, esta espere em Deus , isto é, seja sustentada com os bens da Igreja, e ali persevere em súplicas e orações noite e dia. Ou de outro modo, para que neste versículo se determine qual é verdadeiramente viúva: digo que as verdadeiras viúvas devem ser alimentadas pela Igreja; para que, porém, não sejas enganado, sabe que é verdadeiramente viúva e desamparada aquela que espera em Deus, e não em filhos ou netos, e que persevera em súplicas e orações noite e dia. A que é verdadeiramente viúva, só espera em Deus, ou espere: pois a viúva que vive em delícias da carne, vivendo para o mundo, está morta para Deus, e tal não deve ser recebida na Igreja. Ordena também isto sobre as viúvas: que, sendo verdadeiramente viúvas e desamparadas, sejam também irrepreensíveis , isto é, nem tendo crime, nem dando em algo ocasião de acusá-las. A viúva que tem filhos ou netos, governe-os, porque se alguém não tem cuidado dos seus que deve governar, e sobretudo mais que os demais dos de casa , isto é, filhos ou netos, esta tal negou a fé que prometeu a Deus; é claro, com efeito, que quem não tem cuidado do próximo não amou o próximo, e assim nem a Deus ama; quem, com efeito, não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? Se nem a Deus ama, negou claramente a fé; e é pior que um infiel , que nunca teve fé, porque é réu do pacto que pactuou com Deus e assim o tornou vão. Ou assim: a viúva governe os filhos e netos; se algum deles, porém, expulsa a mãe viúva que quer ser sustentada por eles, o que equivalentemente diz: "se alguém não tem cuidado dos seus, negou a fé, e é pior que um infiel." Esta é viúva, se tem as premissas; não seja contudo escolhida para receber na Igreja a de menos de sessenta anos ; que também tenha sido mulher de um só marido , para que, casando-se pela segunda vez, não pareça ré de incontinência; que também tenha vivido zelosa nas obras boas , tendo também bom testemunho da Igreja; se educou filhos com ensinamentos espirituais; se exerceu hospitalidade com os pobres; se lavou os pés dos santos , isto é, se exibiu aos pregadores toda obra de piedade, sem temer as ameaças dos perseguidores, que condenavam quaisquer que ministrassem aos santos; se socorreu os atribulados , isto é, os santos encarcerados; para tudo compreender, se seguiu toda obra boa , seja escolhida. Sejam escolhidas as viúvas de sessenta anos; as mais jovens, porém , as que não têm tantos anos, quero que se casem, e por isso evita-as , não as aceites no ministério da Igreja: evita, porque, se as aceitas, quando (isto é, depois que) se entregam à luxúria , isto é, lascivas por demasiada abundância, querem casar-se , e isto em Cristo , isto é, legalmente, não meretrizar; tais incorrem em condenação , porque, assim quebrando os votos, violaram a primeira fé que haviam prometido no batismo, onde disseram renunciar ao diabo, ao qual de novo se entregaram, quebrando o voto de continência que haviam feito, insinuando patentemente que, necessitadas, refugiaram-se nos auxílios da Igreja, não por amor da continência; as quais não só querem casar-se, mas também, reunidas, aprendem a andar de casa em casa , e isto porque são ociosas , e não só ociosas, mas também faladoras , indagando os rumores da cidade, falando também curiosamente e com muito empenho o que não convém , a saber, quaisquer coisas impudicas. E porque por causa do ócio caem em tão grande perdição, portanto, por isso quero que as viúvas mais jovens , que não têm os anos fixados, quero, digo, que se casem, tenham filhos, sejam mães de família , para que tenham a quem se aplicar e não ociosas como de costume: e assim quero que não deem ocasião alguma ao adversário , isto é, ao infiel, de maledicência , isto é, a quem é muito grato ter ocasião de maldizer dos fiéis. Por isso prefiro que se casem a serem recebidas na Igreja; já algumas , com efeito, votando continência, se desviaram do que votaram, indo para trás de Satanás. Se estas viúvas não acham com quem possam casar-se, quero que, se alguma ou algum fiel tem estas viúvas, ou mãe, ou irmãs, ou filhas, socorra-as, e não seja onerada a Igreja no sustento delas, para que baste às que são verdadeiramente viúvas e desamparadas. Dado o preceito sobre as viúvas, insinua de que modos os presbíteros devem ser honrados pelo povo, dizendo: assim ordena sobre as viúvas; ordena também que os presbíteros sejam tidos por dignos de dupla honra , a espiritual, de modo que se incline diante deles e se obedeça aos seus preceitos, e a corporal, de modo que lhes sejam suficientemente ministradas pelos súditos as coisas temporais; estes certamente, os presbíteros que governam bem , isto é, cuja prelazia é útil aos súditos, porque ou vagam à instrução deles ou oram por eles. E, embora esta dupla honra seja devida a todo presbítero, seja contudo prestada sobretudo aos que trabalham na palavra da fé, ensinando o que se deve crer, e na doutrina , isto é, na instrução dos costumes. Disse que dupla honra deve ser exibida aos presbíteros; uma delas, a espiritual, porque viu que por razão alguma pode ser negada, nada acrescentou para a provar; mas a outra, a saber, sustentar o sacerdote com os bens do povo, porque viu que alguns avarentos a negariam, prova-a pela autoridade do Antigo e do Novo Testamento, dizendo: como ordeno, devem ser tidos por dignos os presbíteros, porque diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi que debulha (Dt 25,4). Era costume entre os antigos, e ainda é em algumas partes, que as searas postas na eira fossem trilhadas por bois e outros animais ensinados para esta obra; contudo, era próprio dos bois que, triturada assim a messe, os grãos fossem separados das palhas: acerca dos quais mandou Moisés que não se atasse a boca ao boi que tritura na eira, mas que daquilo em que trabalhava comesse livremente, pretendendo com este preceito outra coisa, a saber, que o pregador que debulha na eira do Senhor receba, do seu trabalho, o suficiente para si daqueles para cuja instrução trabalha. Diz também o Senhor no Evangelho: O operário é digno do seu salário (Lc 10,7), isto é, o pregador receba daqueles na instrução dos quais opera as coisas que lhe forem necessárias. Porque de novo viu o Apóstolo que, quando o presbítero repreende os vícios dos súditos, alguns se movem mal, querendo depravar a vida do presbítero, para que isto não se creia temerariamente, diz: assim seja honrado o presbítero pelos súditos; contra o presbítero , porém, não aceites acusação feita de crime senão com duas ou três testemunhas. Se, porém, é demandado por dívida ou qualquer coisa secular, responda a cada um. Agora, porém, porque os homens decaem cada vez mais para o pior, nem mesmo [ainda que seja acusado] por muitíssimas testemunhas [2] se concede hoje que o presbítero responda, a não ser que seja interpelado por heresia. Com duas ou três testemunhas respondam os presbíteros; se, porém, pecam , isto é, se os presbíteros são convencidos de ter pecado naquilo de que são arguidos, repreende-os diante de todos , para que, assim como o crime deles, assim a penitência do crime seja pública a todos, para que, se fizerem penitência em privado, não se pense que não fazem penitência os que foram apanhados em pecado por todos. Por isso repreende diante de todos, para que os demais tenham temor , vendo isto, de pecar, os outros sacerdotes, sabendo que serão punidos com pena semelhante se pecarem; ou então, os demais, isto é, os súditos, que, vendo com quanto rigor são coibidos os prelados, mais temam por si, que são súditos. Para que não aconteça que alguns presbíteros sejam assim convencidos de pecado — não é pequeno mal, com efeito, serem apanhados em crime aqueles que devem ser forma de bem para os outros —, para que isto certamente não aconteça, ordeno que não consagres ninguém sacerdote sem prévio exame: e para que de modo algum omitas este mandamento, conjuro-te diante de Deus Pai, para que Deus não de mim, mas de tua mão peça contas disto, se contudo o fizeres; conjuro-te também diante de Cristo Jesus , que há de ser juiz de todos, para que no juízo não a mim, mas a ti arguirá a este respeito; conjuro-te também diante dos Anjos eleitos , por cujo ministério no dia do juízo os bons serão separados dos ímpios, para que naquele dia me sejam testemunhas desta coisa e não me repilam por isso da parte dos piedosos; conjuro-te, digo, que guardes estas coisas que vou dizer, a saber, nada faças , isto é, a ninguém promovas ao sacerdócio sem prevenção , isto é, sem exame prévio [3] ; e, examinado qualquer com juízo premissado, se pelo exame o achares indigno do sacerdócio, nada faças por parcialidade , em sentido diverso do que ensinou o exame, de modo que o que achaste mau ao examinar, depois, seduzido de algum modo, consagres sacerdote; se, porém, foi provado e achado digno, segundo o que agora foi visto, contudo a ninguém impões depressa as mãos , isto é, não consagres logo, mas adia ainda por tempo congruente, para que, se algo se esconde que o exame feito não achou, seja achado pela dilação do tempo. E nada fazendo sem prevenção, nem precipitado na consagração de ninguém, não te tornes participante dos pecados alheios ; se não examinasses, com efeito, ou consagrasses demasiado cedo, serias participante de todos os crimes que o injustamente consagrado cometesse no sacerdócio. E para que examines sutilmente os outros, consagres dignamente, conserva-te casto , isto é, íntegro em toda virtude. Porque o admoestou sobre a castidade, para cuja guarda não usava de vinho, razão pela qual também o seu estômago se debilitava, para que não julgasse dever abster-se totalmente do vinho, diz Paulo: não bebas mais só água ; com o "mais" designou que antes usava de água; não bebas só água, mas usa, não uma vez, mas tem em uso; usa, digo, de um pouco de vinho , isto é, guardando a medida, a saber, não por embriaguez, mas por causa do teu estômago , isto é, por causa da doença que frequentemente se assenta no estômago, e das tuas frequentes enfermidades , isto é, por causa dos múltiplos acessos e ardores da mesma doença. Como qualquer febril tem sempre a doença em si, embora ora mais agudamente, ora mais remissamente a padeça, mas os acessos de ardor da febre padece alternadamente, e não sempre; assim este Timóteo tinha continuamente no estômago a natureza da doença, mas os acessos da doença os padecia alternadamente, com dificuldade. Por isso é necessário o exame antes de se consagrar o presbítero, porque os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo ao juízo ; porque, antes de se chegar ao juízo ou à discussão, precederam aquela discussão certos pecados daqueles que devem ser provados, bastante conhecidos só pela fama: das coisas que são públicas, porém, não convém discutir; os de outros, porém, seguem-nos , pecados achados depois de feita a discussão; porque, antes que se fizesse a discussão acerca deles, estavam ocultos os crimes que pela discussão se abriram, e por causa destes crimes ocultos foi necessária a discussão. Igualmente, como dos maus, algumas obras boas dos que devem ser provados são manifestas e não precisam de exame; e, ao contrário, as boas obras dos mesmos que de outro modo se passam , isto é, que não são manifestas, não podem ficar ocultas na discussão; para achar essas boas obras foi oportuno discutir. E porque assim em alguns os pecados, em outros as boas obras são ocultos, por isso é necessário examinar os que hão de ser consagrados, para que os que forem achados maus sejam reprovados, os bons, porém, promovidos. Esta sentença é do bem-aventurado Agostinho; Ambrósio, porém, liga assim as palavras ao próximo: admoesto-te a usar de vinho, no que é bom que sejas obediente; porque, embora não pareça a todos que isto faças bem, não por isso te amedrontes; porque é verdade que algumas obras boas são manifestas, e algumas obras que de outro modo se passam, isto é, não são manifestas, não podem ficar ocultas no dia do juízo; assim, se agora não pareces agir bem usando de vinho, porque antes todos souberam que te abstinhas dele para guardar a sobriedade, não te preocupes; porque, embora não agora, no dia do juízo será manifesto que agiste bem ao usar do vinho, obedecendo-me. Que algumas obras boas sejam manifestas, outras não, aparece pelos contrários, porque os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo ao juízo, e os de outros seguem-nos, como foi exposto. Assim se lê na ordem da letra. Notas [2] Silvestre II, que regeu a Igreja pouco antes dos tempos de São Bruno, exige não menos de quarenta e quatro testemunhas para firmar a acusação contra um presbítero; «porque, diz, devem instituir-se na Igreja tais pessoas, a cuja santidade se creia mais do que a muitas testemunhas.» [3] "Prevenção" ( præjudicium ) toma-se aqui como "juízo precedente"; mas nos cânones præjudicium diz-se de sentença precipitada. (Nota do próprio Autor.) Capítulo 6 Todos os que estão sob o jugo como servos julguem os seus senhores dignos de toda honra, para que não sejam blasfemados o nome do Senhor e a doutrina. Os que têm senhores fiéis não os desprezem, porque são irmãos; antes sirvam-nos melhor, porque são fiéis e amados, e participam do benefício. Ensina e exorta estas coisas. Se alguém ensina de outro modo e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, nada sabe, mas delira em questões e disputas de palavras, das quais nascem invejas, contendas, blasfêmias, más suspeitas, altercações de homens de mente corrompida e privados da verdade, que julgam que a piedade é fonte de lucro. É, porém, grande lucro a piedade com a suficiência. Pois nada trouxemos a este mundo; sem dúvida nada podemos levar dele. Tendo, pois, alimento e com que nos cobrir, contentemo-nos com isso. Os que querem enriquecer caem em tentação e em laço do diabo, e em muitos desejos inúteis e nocivos, que mergulham os homens na ruína e perdição. Pois a raiz de todos os males é a cobiça; alguns, desejando-a, desviaram-se da fé e se enredaram em muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Combate o bom combate da fé; alcança a vida eterna, para a qual foste chamado e fizeste a boa confissão diante de muitas testemunhas. Ordeno-te diante de Deus, que dá vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu testemunho, sob Pôncio Pilatos, de boa confissão, que guardes o mandamento sem mácula, irrepreensível, até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, que a seu tempo mostrará o bem-aventurado e único Poderoso, Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que tem a imortalidade e habita numa luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu, nem pode ver; a quem seja honra e império sempiterno. Amém. Aos ricos deste século ordena que não sejam altivos nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo (que nos dá abundantemente tudo para o nosso gozo); que pratiquem o bem, se enriqueçam em boas obras, deem com facilidade, repartam, entesourando para si um bom fundamento para o futuro, a fim de alcançarem a verdadeira vida. Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as novidades profanas de palavras e as oposições da falsamente chamada ciência, que alguns, professando, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém. Comentário Porque de novo viu Paulo que alguns servos convertidos à fé se indignavam, não querendo servir aos seus senhores infiéis, julgando absurdo que quem era fiel servisse a um infiel; nem mesmo a senhores fiéis, dizendo que, sendo todos os fiéis irmãos em Cristo, todos deviam ser de uma mesma condição; para refutar o mal desta opinião, diz: como disse antes sobre os presbíteros a consagrar, observa; ordena também isto: que quantos servos estão sob o jugo de senhores infiéis, julguem os seus senhores dignos de toda honra , guardada contudo a fé em tudo: por "jugo" significou os infiéis, porque os senhores infiéis oprimiam os servos mais duramente que os fiéis. Sujeitem-se assim aos senhores, para que não sejam blasfemados o nome do Senhor , dizendo que Deus é injusto, que mudou as condições e agora fez livres os servos que por seus pecados ou dos pais foram feitos servos (como Cam, filho de Noé, com a sua geração, porque descobriu as vergonhas do pai). Sirvam também aos senhores para que a doutrina , isto é, a pregação dos santos, não seja blasfemada e se torne desprezível, enquanto tira aos senhores o que é deles. Aqueles servos, porém, que têm senhores fiéis, não os desprezem porque são irmãos em Cristo; mas antes , não para pagarem mais dívidas, mas com maior dileção, sirvam-nos , porque são fiéis e amados de Deus, e porque participam do benefício de Deus, isto é, das justiças que se têm no presente, e da bem-aventurança futura. Ensina isto, a saber, que os servos sejam sujeitos aos senhores, aos que não o sabem, e exorta os soberbos, que o sabem e desdenham servir. Se alguém falso apóstolo ensina de outro modo , a saber, que os servos não devem servir aos senhores, e, proibido por ti de o ensinar, não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo , e não concorda com a doutrina que é segundo a piedade — a doutrina de Deus, com efeito, é piedosa, não mudando as condições, a ninguém tirando o que é seu; piedosa também porque por isso convida e atrai muito os senhores à fé; doutrina que, se lhes tirasse os servos, certamente julgariam intolerável e rejeitariam; piedosa também para os servos, porque, tendo sido feitos servos por pecados seus ou dos pais, se sofrem pacientemente esta pena do pecado, merecem ser justificados pela humildade, se, porém, recusam, são condenados pela soberba —; se alguém, digo, ensina de outro modo, e proibido não desiste, este seja rejeitado como soberbo e que nada sabe , quando julga saber alguma coisa e afirma que todos os homens são de uma só condição; que nada sabe, digo, mas delira , isto é, dissoluto e lânguido, em questões que levanta e não sabe resolver, e disputas de palavras , isto é, em palavras que pugnam, como aquela: «Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres» (Jo 8,36), e aquela: «Dai a César o que é de César» (Lc 20,25); as quais, contudo, não são contrárias entre si. Destas disputas de palavras nascem invejas , porque os senhores invejam os servos que se ensoberbecem; nascem também contendas , porque os senhores contendem com os servos em palavras; nascem também blasfêmias , porque (como se disse) daí são blasfemados Deus e a sua doutrina; nascem também más suspeitas , porque os senhores julgam que os pregadores recebem presentes dos servos; nascem também altercações de homens que pregam isto, porque também pelejam com os que pregam isto; de homens, digo, isto é, perdidos, de mente corrompida , isto é, que têm o entendimento corrupto; que também estão privados de toda verdade de palavras; homens, digo, que ainda julgam que a piedade , isto é, a doutrina cristã, é fonte de lucro , isto é, que pensam ser-lhes lícito, por sua doutrina, juntar riquezas: mas pensam falsamente; porque a piedade não é lucro de coisas temporais, mas é grande lucro , isto é, de coisa grande e incomparável, a piedade com a suficiência , isto é, com alimento e vestuário, o que deve bastar a cada um, por isso porque nada trouxemos a este mundo , nascidos nus, e sem dúvida nada podemos levar dele ao sair do mundo. Para que, por ter dito que entramos nus no mundo e nus voltamos, não se julgasse que se devia andar nu no mundo, contra isto diz: embora nada tenhamos trazido ao mundo, contudo, enquanto nele permanecemos, tendo alimento e com que nos cobrir , não em que nos entreguemos à luxúria, contentemo-nos com estes alimentos e coberturas, porque vemos que os que querem enriquecer caem em tentação do ânimo, e por esta em laço do diabo , isto é, em obra de tentação: depois que também se tornaram ricos, caem em muitos desejos ; cobiçam, com efeito, casas e propriedades; desejos, digo, inúteis ; e não só sem utilidade, mas também nocivos , porque mergulham os homens que desejam na ruína , e depois da morte na perdição eterna. Verdadeiramente estes desejos assim mergulham os homens; pois a cobiça é a raiz de todos os males , não porque cada mal se faça por cobiça de dinheiro, mas não há gênero de mal em que não se tenha feito algum mal por cobiça de riquezas; cobiça que alguns, desejando, se desviaram da fé , negando a Deus pelo desejo das riquezas, que, para as aumentar cobiçosamente, se enredaram em muitas dores , vexando os seus corpos e almas por mar, por terras. Os que vagam à cobiça erram; tu, porém, ó homem de Deus , Timóteo, foge destes desejos; foge destes, segue a justiça , dando os teus bens aos próximos indigentes, o que a cobiça nunca faz; segue também a piedade : se tens tão pouco que não podes dar ao próximo sem a tua indigência, o que a justiça não te obrigaria a fazer, reparte contudo com ele por piedade; segue também a fé , que alguns negaram por cobiça; segue também a caridade , isto é, a dileção de Deus e do próximo; segue também a paciência , isto é, sofre pacientemente se alguém te roubar os teus bens; segue também a mansidão , isto é, não litigues como faz a cobiça. Segue estas coisas, e combate o bom combate (nota a frequência); combate, digo, da fé , que é bom e útil combater pela fé de Cristo; e alcança a vida eterna , para cuja posse foste chamado da infidelidade por graça. Fizeste também, ao seres consagrado bispo, a boa confissão diante de muitas testemunhas , que comigo te consagravam, confissão da qual não deves recuar, porque é boa, isto é, útil a ti e aos súditos, se nela perseverares. Admoestei acima que fugisses da cobiça e seguisses os contrários da cobiça; para que o faças não só admoesto, mas também ordeno-te , fazendo com admoestação um mandamento, para que, se o transgredires, sejas convencido réu de desobediência; ordeno-te, digo, isto diante de Deus Pai, para que Deus nada mais peça da minha mão, que dá vida a todas as coisas ; vê, pois, que, cumprindo o que ordeno, vivas naquele por quem vivem todas as coisas. Ordeno-te também isto diante de Cristo Jesus , para que, como juiz de todos, nada disto peça de mim no dia do juízo; Jesus que deu testemunho sob Pôncio Pilatos ; quando, com efeito, foi interrogado por Pilatos: És tu o Filho de Deus?, respondeu: Tu o disseste, porque na verdade eu sou o Filho de Deus (Mt 26,64). Assim também tu, Timóteo, confessa Cristo, ainda que iminentes sejam os tormentos ou a morte. Deu, digo, testemunho, a saber, de boa confissão , isto é, útil; que há, com efeito, tão útil para a redenção como o que foi e confessou ser o Filho de Deus? Certamente, se tivesse negado, não seria crucificado, nem redimiria o gênero humano; e por isso foi útil confessar que era o Filho de Deus. Pilatos chamava-se Pôncio da ilha de Ponto, para que nem os hereges pudessem inverter que se dissera de outro Jesus ou de outro Pilatos; muitos, com efeito, então podiam dizer-se Jesus, por isso Paulo acrescentou Pôncio. Ordeno-te, digo, que guardes este mandamento, que mais sem culpa não podes preterir; mandamento, digo, sem mácula , porque em nenhuma parte da minha doutrina pode achar-se mácula alguma, mas na doutrina dos hereges, embora se anteponha algum bem, para assim enganar melhor, a mácula contudo logo se acha inserida; mandamento, digo, não só sem mácula, mas também irrepreensível , porque nem ocasião de repreender daí se pode conceber, se alguém sanamente atender; que guardes, digo, até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo , isto é, até o dia da tua morte: quando, com efeito, morre um fiel, nesse dia se diz que Deus vem a ele, porque então o recebe Deus na glória, a quem, como alheio a si, nas misérias do mundo, enquanto vivia, havia deixado; enquanto o justo, com efeito, é detido no mundo, parece que Deus não vem a ele, porque ali permite que seja afligido, mas quando o justo é desligado da carne, diz-se que Deus vem a ele, cuja alma recebe no repouso. Diria talvez Timóteo: sustentaria Deus, se não tardasse a sua vinda. Contra isto diz Paulo: bom homem, sustenta, porque a vinda que a seu tempo mostrará Deus aos seus, isto é, em tempos congruentes; quando, com efeito, vir o tempo idôneo, virá a ti. Põe a causa de por que deve sustentar, dizendo: deves guardar isto até que Deus venha, porque aquele bem-aventurado te dará a bem-aventurança, se sustentares; e aquele único Poderoso te fará poderoso sobre todos os perseguidores; Rei dos reis também te fará rei, porque nem perseguidor nem tentação, posto com ele, temerás; que também é Senhor dos senhores , e te fará dominar os teus inimigos. Nota-se que alguns são poderosos, e contudo não dominam sobre outros. Deus, que só tem a imortalidade , isto é, a imutabilidade, porque permanece sempre no mesmo estado; que também habita a luz — fala de Deus por semelhança com quem habitasse numa região esplêndida —; habita, digo, a luz, porque toda luz verdadeira habita nele; luz, digo, inacessível , isto é, para cujo entendimento ninguém pode aproximar-se; o que ele mesmo determina, dizendo: inacessível porque essa luz em Deus, ou esse Deus na luz, nenhum dos homens viu segundo o homem, nem pode ver quanto ao futuro, enquanto homem: a quem , Deus, é a glória segundo a Deidade, honra segundo o homem, império sempiterno segundo o juízo com que julga e há de julgar a todos; império, digo, duradouro por toda a eternidade. E o que desejo, que lhe seja glória e honra, Amém , isto é, certamente assim será e não pode faltar. O que diz, "nenhum dos homens viu a Deus", deve ser tomado enquanto é homem; porque também Paulo foi arrebatado ao terceiro céu, onde ouviu o que não é lícito ao homem ouvir; sendo contudo Paulo homem antes de ser arrebatado e depois, e tendo sucedido o mesmo com João evangelista, por isso o homem, enquanto é homem, não basta para ver a luz da Deidade, porque a alma do homem, encarcerada, é deprimida na carne, e por isso não pode ver ou pensar coisa alguma se não for excitada por algum sentido corpóreo, vista, ouvido, ou semelhante. Se, enquanto a alma está encerrada no cárcere da carne, não pode fazer coisa alguma se não for excitada pelos sentidos corpóreos, dos quais é patente que pouco entendem de Deus, deve crer-se que nem a alma do homem, enquanto está no homem, excede os sentidos corpóreos no conhecimento de Deus; se, porém, a alma de Paulo ou de João viu de Deus o que não é lícito ao homem ver, deve crer-se que ou a alma dele deixou inteiramente o corpo naquela hora, ou, se permaneceu no corpo, excedeu todos os sentidos do corpo, e segundo isto esteve fora do homem, porque naquele tempo os sentidos corpóreos estiveram como mortos: donde as visões são mostradas antes aos que dormem que aos que vigiam; enquanto o homem dorme, com efeito, os sentidos corpóreos nada então sentem, a alma, porém, então só vigia. Porque dissera acima Paulo: tenhamos alimento e com que nos cobrir; para que por isso Timóteo não julgasse que só os pobres se deviam receber e os ricos repelir da Igreja, contra isto diz: embora tenha dito que devemos contentar-nos com alimentos e coberturas, não rejeites contudo os ricos, mas aos ricos deste século ordena que não sejam altivos , isto é, que não se ensoberbeçam por causa das riquezas, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas , isto é, nas riquezas incertas, como quem hoje tem e amanhã talvez não terá, mas em Deus ; e acrescenta a causa por quê: Deus, que nos dá abundantemente tudo , não só para usar, mas também para gozar , isto é, para que com jucundidade usemos delas. Gozar ( frui ) dizemos da coisa que é suave e útil; usar ( uti ), porém, da coisa que, embora útil, tem uso amargo, como várias poções que têm gosto amargo e são úteis. Ordena também aos ricos que pratiquem o bem , e que se enriqueçam em boas obras , que são melhores que o ouro e a prata; ordena também que deem com facilidade os seus bens aos pobres; nem só isto, mas também repartam com os pobres nos seus bens, para que não façam as riquezas mais próprias suas que dos necessitados; e, assim distribuindo o seu, ordena-lhes que entesourem para si um fundamento , isto é, virtudes em que estejam firmemente fundados (quem hoje é casto, amanhã incasto, este teve a virtude da castidade como que em lugar escorregadio e não em fundamento); fundamento, digo, bom , isto é, útil para o futuro , a fim de que por ele alcancem a verdadeira vida os que aqui estão fundados nas virtudes. Para que, porém, observes sadiamente o que ordenei sobre os ricos e sobre tudo, por isso, ó Timóteo, guarda o depósito , isto é, o dom do Espírito Santo, confiado e creditado a ti; e para que o guardes bem, sê evitando as novidades profanas de palavras , isto é, as equivalências alternadas das palavras da nossa fé; porque são profanas: os hereges, com efeito, mudam as palavras com que confessamos a fé de Deus, pondo equivalentes, até que insensivelmente, por estas equivalências, enganem o fiel incauto; por isso manda evitar as novidades de palavras. Evita também as oposições , isto é, as disputas dos sofistas; oposições, digo, da ciência falsamente chamada : falsamente se diz ciência, com efeito, porque com nome verdadeiro se chamaria insipiência; ciência falsa que alguns, professando , isto é, jactando-se de a ter, se desviaram da fé , isto é, pereceram porque não quiseram entrar na fé. E para que guardes este depósito, a graça de Deus seja contigo. Amém , isto é, assim certamente será; vê contudo que perseveres.