Epístola aos Romanos Prólogo[1] Paulo ainda não tinha chegado a Roma, mas, por meio de alguns discípulos que ali pregavam, haviam abraçado a fé alguns romanos, em parte gentios, em parte judeus; entre eles havia uma altercação inconveniente. Com efeito, os judeus pretendiam dever ser preferidos aos gentios, e os gentios, ao contrário, afirmavam que eles é que deviam ser tidos por mais dignos que os judeus. A razão dos judeus era esta: a promessa dessa salvação fora feita a seus pais, como Abraão, Davi e os demais; Deus lhes dera também a Lei e os Profetas, que tudo prefiguravam a salvação futura por meio de Cristo, ao passo que em nada disso fizera menção dos gentios; por isso, diziam, mereciam ser preferidos aos gentios nessa salvação. Os gentios, ao contrário, objetavam que os judeus deviam ser julgados mais indignos, porque, se Deus tivera por eles tamanha solicitude a ponto de lhes conceder as coisas acima mencionadas, eles haviam abusado de todos os bens de Deus: prevaricando contra a Lei que Ele dera, desprezando os Profetas que enviara e, por fim, condenando ao patíbulo da cruz o Salvador que lhes fora enviado; por isso deviam antes ser humilhados do que exaltados por esses motivos. Os próprios gentios, ao contrário, é que mereciam ser preferidos, pois, assim que ouviram a palavra de Deus, acolheram a fé; e, se antes não haviam acreditado, era porque não tinham tido nem a Lei nem os Profetas, de modo que se declaravam escusáveis. Como os discípulos, por cuja pregação se tinham convertido, não conseguiam apaziguar essa discórdia, enviaram a Paulo, para que o mestre obtivesse o que a autoridade deles não bastava para alcançar. Paulo, aproveitando então essa ocasião, escreve-lhes esta Epístola, na qual tens por matéria os romanos, isto é, os gentios convertidos à fé. Trata deles da seguinte maneira: primeiro repreende os gentios, para que, ensoberbecendo-se seja de sua sabedoria, seja de seu livre-arbítrio, e assim diminuindo a graça de Cristo, não se julguem mais dignos na fé do que quaisquer outros que a tenham abraçado, uma vez que a fé e a salvação são concedidas unicamente pela graça de Deus. Se se envaidecem do livre-arbítrio, nisso mesmo são sumamente culpados, pois tiveram o conhecimento natural, pelo qual poderiam conhecer o seu Criador sem mestre algum. Negligenciando o Criador, adoraram as criaturas; e acrescenta muitas outras coisas para abater a soberba dos gentios. Quanto ao abatimento dos judeus, porque os percebeu mais obstinados, como quem alegava mais razões, demora-se mais tempo, provando que não devem ensoberbecer-se por terem tido a Lei e os Profetas, uma vez que, justamente naquilo em que deveriam ter aplacado o Senhor, sempre ofenderam a Deus prevaricando. Estas e muitas outras coisas aduz para reprimir os judeus. E tem por fim proceder assim a fim de submeter uns e outros, judeus e gentios, à graça de Deus, levando-os a crer que nada advém aos judeus da linhagem, da Lei ou dos Profetas, nem aos gentios da ignorância que alegam, nem do livre-arbítrio. Notas O texto das Epístolas do bem-aventurado Paulo que se encontra nas edições mais antigas da presente obra não concorda inteiramente nem com os códices que São Bruno tinha em mãos, nem com a edição Vulgata da Sagrada Bíblia; por isso, suprimimo-lo como supérfluo e julgamos útil inserir as Epístolas do bem-aventurado Paulo nos comentários de São Bruno segundo a referida edição Vulgata, pois assim cada um poderá comparar comodamente as variantes de leitura com essa versão aprovadíssima. Capítulo 1 Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado a ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus, que ele antes havia prometido por meio de seus Profetas nas Santas Escrituras, acerca de seu Filho, que lhe nasceu da descendência de Davi segundo a carne, que foi predestinado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor; por quem recebemos a graça e o apostolado, para obedecer à fé em todas as nações, por amor de seu nome; entre as quais estais também vós, chamados de Jesus Cristo: a todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados santos. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, por todos vós, porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo. Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito no Evangelho de seu Filho, é-me testemunha de que sem cessar faço memória de vós, sempre pedindo em minhas orações que, de algum modo, finalmente, por vontade de Deus, eu tenha uma feliz viagem para ir ter convosco; pois desejo ver-vos, a fim de comunicar-vos alguma graça espiritual para vos confirmar, isto é, para nos consolarmos juntos em vós, pela fé que nos é comum, a vossa e a minha. Não quero, porém, que ignoreis, irmãos, que muitas vezes me propus ir ter convosco (e fui impedido até agora), para colher algum fruto também entre vós, como entre as demais nações. Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a ignorantes; assim, quanto está em mim, estou pronto a evangelizar também a vós que estais em Roma. Pois não me envergonho do Evangelho; porque é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu primeiro e também do grego. Pois nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: O justo, porém, vive da fé (Hab 2,4). Revela-se, com efeito, a ira de Deus, do céu, sobre toda impiedade e injustiça dos homens que retêm a verdade de Deus na injustiça; porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho manifestou. Com efeito, as perfeições invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são vistas e compreendidas por meio das coisas que foram feitas, bem como o seu eterno poder e a sua divindade, de modo que são inescusáveis. Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas se desvaneceram em seus pensamentos, e o seu coração insensato se obscureceu; dizendo-se sábios, tornaram-se estultos. E trocaram a glória do Deus incorruptível por uma semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes. Por isso Deus os entregou aos desejos de seus corações, à impureza, de modo que desonraram entre si os seus próprios corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém. Por isso Deus os entregou a paixões ignominiosas. Pois suas mulheres mudaram o uso natural em outro, que é contra a natureza. Semelhantemente também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em seus desejos uns pelos outros: homens com homens cometendo torpeza, e recebendo em si mesmos o pagamento que convinha ao seu erro. E, como não julgaram conveniente ter a Deus em seu conhecimento, Deus os entregou a um sentimento depravado, para fazerem o que não convém, cheios de toda iniquidade, malícia, fornicação, avareza, maldade, cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade, murmuradores, detratores, odiosos a Deus, insolentes, soberbos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, desordenados, sem afeição, sem aliança, sem misericórdia. Estes, embora tenham conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que praticam tais coisas são dignos de morte; e não só os que as praticam, mas também os que consentem com os que as praticam. Comentário Como é costume nas epístolas, antepõe a saudação, dizendo: Paulo , que antes se chamava Saulo, e de Saul tirou a linhagem, o nome e o ímpeto. Este nome, Paulo, em língua hebraica soa "tranquilo"; por isso, assim como lhe vale para a autoridade, por ser um nome conhecido e honrado por todos, assim também lhe vale para o propósito pela sua humildade; pois aqui Paulo se empenha em tornar os romanos tranquilos e pacíficos entre si. Ou, se "Paulo" for tomado em latim como "pequeno", ainda assim convém bem ao assunto, pois ele se esforça para submeter à graça de Deus, por meio da Epístola, os romanos, tornados pequenos e humildes. Paulo , digo, servo de Cristo Jesus . Porque aqui visa por todos os meios persuadir à humildade, antepôs ao nome de dignidade o nome de humildade, dizendo: Paulo, servo de Cristo Jesus , Rei e Sacerdote, que só pode reger e salvar pelo seu sacrifício vespertino; servo também de Jesus , isto é, do Salvador, fora do qual ninguém basta para salvar: assim também vós, à minha imitação, nada presumais de vós mesmos, mas submetei-vos inteiramente à servidão de Jesus Cristo. Paulo , digo, servo de Cristo Jesus, chamado pela graça de Deus, não por mérito da Lei ou da linhagem, mas somente pela graça, para ser apóstolo , a cuja autoridade vos convém obedecer; ou então: Paulo, apóstolo, não em segredo, mas chamado por todos, porque já todos reconheceram que fui consagrado apóstolo por Deus; por isso mais ainda se me deve obediência. Ambas as interpretações servem para reprimir os dois povos, o judeu e o gentio. De diversos modos se fazem as vocações de Deus; Paulo, porém, foi chamado tanto pela aflição exterior do corpo, como pela voz de Cristo, que dizia: «Saulo, por que me persegues?» (At 9,4), como também por inspiração interior. Escolhido : aqui Paulo não determina de quem, mas para quê, a saber, para o Evangelho . Foi escolhido, pois, ou dos demais apóstolos, porque estes foram constituídos pregadores dos judeus, e eu, dos gentios. Com efeito, depois de convertido à fé, Paulo foi instruído durante alguns dias pelos discípulos que estavam em Damasco (At 9,19), e logo começou a ensinar sobre Cristo na sinagoga; por isso o governador de Damasco quis prendê-lo, mas foi descido pelos irmãos num cesto, por cima do muro, e assim escapou-lhe das mãos; dali partiu para a Arábia, pregando ali aos gentios durante três anos, após os quais voltou a Jerusalém e ali encontrou Pedro e Tiago, que antes se haviam admirado muito ao ouvir Paulo pregar aos gentios, a quem nunca tinham visto; e deram a Paulo e a Barnabé a mão direita em sinal de comunhão (Gl 2,9), aprovando a doutrina deles e declarando que pregavam o mesmo: não que consagrassem apóstolo a quem o próprio Deus havia consagrado, mas concordando com a sua doutrina, para que os que por eles se convertessem se reconhecessem de uma só e mesma fé. Ou então, escolhido separado da Lei; porque, sendo eu fariseu, isto é, "observante", e dos principais na Lei, tanto pela linhagem como pela ciência, vendo que ela não bastava para a salvação, separei-me dela. Ora, se eu, que era tão grande na Lei, abandonei a Lei, quanto mais deveis vós afastar-vos dela, que sois muito inferiores a mim. Esta última interpretação diz respeito somente aos judeus; a primeira, a ambos. Até aqui recomendou a sua própria pessoa, tanto pela humildade quanto pela autoridade; agora começa a recomendar a sua pregação, dizendo: escolhido , digo, ou da Lei, ou dos demais apóstolos, vindo para o Evangelho a pregar (Evangelho significa "boa nova"), o Evangelho , digo, de Deus . A nova Lei diz-se de modo especial de Deus, porque Ele a ensinou não por meio de um ministro, mas por sua própria pessoa; a antiga Lei, porém, foi dada a Moisés por meio de um anjo, e por Moisés foi dada aos judeus, razão pela qual não se diz tão propriamente de Deus. Que ele antes havia prometido : antes de ser dado, o Evangelho foi prometido por Deus, como convém a quem iria dá-lo, pois prometer cabe a quem há de dar a coisa prometida; Deus, portanto, prometeu, ao passo que os Profetas, como ministros e sem poder de dar, apenas o predisseram. Ao dizer que Deus o prometeu desde a eternidade, assinala o grande cuidado de Deus com este Evangelho, que antes havia prometido por meio de seus Profetas , isto é, daqueles que previram o futuro. E porque houve alguns que predisseram o futuro por espírito pitônico, e outros que profetizaram por inspiração divina, como Balaão, sem terem, porém, de Deus esse ofício, precisa os seus Profetas , os quais receberam de Deus tanto a ciência das coisas futuras quanto o ministério de profetizar. E para que esta profecia permanecesse perpetuamente, foi prometida nas Santas Escrituras , isto é, ou compostas pelo Espírito Santo, ou que santificam aqueles que obram conforme o que as Escrituras ensinam. Aqui passa a recomendar a Cristo, de quem diz ter recebido o apostolado, depois de feita a sua recomendação: nas Escrituras, digo, tidas acerca de seu Filho ; pois toda a Escritura, mesmo quando trata do Pai ou do Espírito Santo, parece tratar principalmente do Filho, porque tudo o que nas Escrituras foi predito foi consumado pelo Filho: acerca do Filho , digo, não adotivo, mas seu próprio, isto é, consubstancial e coeterno a Ele. Que lhe nasceu , isto é, recebeu uma certa criação. Poderia alguém dizer: que milagre é este, que o Filho, sempiterno com o Pai, tenha sido feito no tempo? Contra isso diz: foi feito , digo, não segundo a Divindade, mas segundo a carne, que uniu a si pessoalmente, no tempo, à Divindade: carne, digo, assumida da descendência , isto é, da carne de Davi , segundo a linhagem da Mãe de Cristo, na qual recebeu a formação da carne; para ele , isto é, para Deus, ou seja, para a manifestação de Deus; pois, se Cristo não tivesse assumido a carne, os homens teriam pouco ou nenhum conhecimento de Deus. De Cristo poderia dizer-se igualmente que nasceu de Salomão ou de Roboão; mas, porque as promessas acerca de Cristo foram feitas a Abraão e a Davi, por isso se diz em toda parte que nasceu de um deles ou de ambos. Aqui, porém, a razão pela qual se cala Abraão e se antepõe Davi é esta: por Abraão entendem-se os justos, porque foi justo; por Davi, na maioria das vezes, os pecadores, porque pecou gravemente; ora, aqui o discurso se dirigia a pecadores, e Paulo pretendia que se confessassem pecadores; e por isso mencionou Davi, em memória dos pecados. Este Cristo, no tempo foi feito, mas desde a eternidade predestinado , isto é, preordenado e disposto, para ser Filho de Deus assumindo a carne; Cristo, digo, enquanto Filho de Deus, está em poder , isto é, permanece sempre com o Pai na mesma potência da Divindade, e não foi predestinado segundo a Divindade, mas somente segundo a humanidade: pois predestinar diz-se do que não existe, ao passo que o Filho de Deus sempre existiu desde o princípio. Mas, porque em Cristo se consideram duas naturezas, uma divina e outra humana, em razão da união indivisa de ambas as substâncias diz-se muitas vezes da divina o que é próprio da humana, como aqui, onde se diz predestinado o Filho, o que não pode ocorrer na natureza da Divindade; à semelhança do que sucede quando, considerando no homem o corpo e a alma, se diz muitas vezes da alma, por afinidade, o que é próprio do corpo, e vice-versa. Este modo de falar convém mais expressamente a Cristo, em quem se diz que o Homem é Deus e que Deus é Homem, ao passo que, no homem, não é lícito dizer que o corpo é a alma, nem que a alma é o corpo. Quando, porém, referimos assim, que Cristo , não excluímos nenhuma das naturezas; mas, quando as examinamos por partes, atribuímos à divina o que convém à divina e à humana o que convém à humana. Cristo, digo, foi predestinado a fazer-se homem não pela concupiscência da carne, mas segundo o Espírito , isto é, foi concebido do Espírito Santo; do Espírito, digo, de santificação , que o santificou no seio da Mãe, tornando-o imune de pecados. Que Cristo é Filho de Deus em poder evidencia-se pela ressurreição dos mortos , pelo fato de que, ressurgindo dos mortos, fez ressurgir mortos com Ele, coisa inaudita que de modo algum poderia fazer se não fosse Deus; dos mortos, digo, não de todos, mas somente dos que foram de nosso Senhor Jesus Cristo, pois não fez ressurgir com Ele os infiéis; por isso dizem que ressuscitaram com Cristo sobretudo os que foram sepultados com Abraão em Hebron. Por quem , Jesus Cristo, recebemos a graça , isto é, a remissão (Paulo, para melhor persuadir à humildade, antepõe o nome da humildade ao nome da dignidade), recebemos também o apostolado em todas as nações; pois o Espírito Santo me constituiu Apóstolo dos gentios, quando diz: «Separai-me Barnabé e Paulo para a obra a que os chamei» (At 13,2); recebemos, digo, o apostolado entre as nações para obedecer à fé , isto é, para pregarmos a fé e, depois de recebida a fé, obedecermos ao que a fé ordena, sem derrogar da graça de Deus por soberba; e isto deve ser feito por amor de seu nome , isto é, para a glória do nome de Deus; entre as quais , isto é, entre as quais nações estais também vós , romanos, gentios e judeus, chamados , isto é, pela vocação da graça de Deus, e não por vosso mérito; para a fé fostes eleitos, digo, de Jesus Cristo , isto é, para pertencerdes a Jesus Cristo. Se agora os judeus quisessem objetar que não devem submeter-se a Paulo, por ser ele apóstolo apenas dos gentios, estariam enganados; pois, uma vez que habitam entre os gentios, pertencem ao apostolado do mesmo a quem pertencem os gentios; assim como, se estrangeiros quaisquer vêm morar numa diocese, ainda que sejam de outra nação, pela residência serão contados como da própria diocese; assim também aqueles judeus, por se terem encaminhado para os gentios, eram contados entre os gentios. Paulo, digo, tal e tal, apóstolo de Deus, escreve a todos os que estão em Roma ; e, para excluir os infiéis, acrescenta: a todos, digo, amados de Deus , isto é, que Deus ama e predestinou para serem seus; a esses, digo, chamados santos pelo amor e pela graça de Deus, isto é, chamados para serem santos: graça a vós , isto é, remissão de vossos pecados, e paz , isto é, tranquilidade de ânimo e perseverança no bem, da parte de Deus , que pode, nosso Pai , e por isso tem a vontade, e do Senhor Jesus Cristo , que igualmente quer e pode. Paulo, que vai corrigir os romanos com repreensão múltipla e áspera, para que suportem com benignidade as asperezas que lhes vai dizer e para que lhe sejam benévolos, declara de antemão que dá graças a Deus pelos bens que já receberam e que, com toda solicitude, ora a Deus pelo que ainda lhes é necessário; como se dissesse: tenho muito a dizer-vos para vossa instrução, mas antes de tudo direi o que me é mais agradável e com que estou mais solícito, a saber: dou graças a Deus . Dar graças a Deus é atribuir tudo a Deus e nada ao homem; por isso diz: dou graças a Deus, isto é, os bens que já vejo em vós atribuo à graça de Deus, e não a vós; a meu Deus , que de certo modo especial é meu, por Jesus Cristo , a quem tenho como único mediador entre mim e Deus; vós, porém, passais por mim a Cristo, e por Cristo a Deus; e por isso dou graças por Cristo; vós, porém, deveis dar graças a Cristo por mim, e assim a Deus. Talvez pensassem uns, os judeus ou os gentios, que ele dava graças só pelos outros, isto é, que só aos outros atribuía os bens à graça de Deus; para que, por isso, um não se ensoberbecesse contra o outro, diz: por todos vós , romanos, sejais judeus ou gentios, dou graças, e os bens de vossa fé atribuo só a Ele. Determina por que dá graças, dizendo: dou graças a Deus porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo : a vossa fé não aproveita só a vós, mas é anunciada em todo o mundo; pois, ouvindo que em Roma, que é a cabeça do orbe, foi recebida a fé de Cristo, os demais a recebem, imitando a sua cabeça. Na verdade, o bem já alcançado de vossa fé atribuo à graça do bom Deus, porque em minhas orações faço memória de vós , isto é, rogando a Deus pelos bens que haveis de ter, a Ele tudo atribuo; pois, se os bens que vêm depois da fé se atribuem à graça de Deus, muito mais se devem dar graças a Deus pela fé, que arranca o homem somente dos pecados e o conduz à justiça. E que eu faça memória de vós, Deus me é testemunha ; e se o chamasse a testemunhar o que é falso, julgar-me-ia réu de falsidade. Talvez alguém dissesse: como não te importas com Deus, por isso levianamente o convocas por testemunha de coisa falsa. Contra isso diz: a quem eu sirvo ; ora, um servo não invocaria seu senhor como testemunha de falsidade. Sirvo a Deus em meu espírito , isto é, por vontade, e não por coação; ou então, em espírito, isto é, sirvo a Deus não em coisas carnais, mas espirituais. Determina em que coisa serve, a saber, no Evangelho , isto é, no anúncio de seu Filho ; e esse serviço era então mais grato a Deus: pregar a glória de Cristo, Filho de Deus. Por isso Deus me é testemunha de que em minhas orações faço memória de vós, isto é, faço Deus lembrar-se de vós, sem cessar , porque nunca, ao orar, vos omito. Poderia orar uma vez por mês, e então seria pouco não os ter omitido; por isso diz: sempre em minhas orações , isto é, todos os dias continuamente, tenho memória de vós, não só orando, mas também suplicando, em certos sacramentos e conjurações, instando a Deus com insistência, se de algum modo eu tiver, ouvido, o caminho para ir ter convosco. Tenha-o, digo, de algum modo , isto é, com qualquer dificuldade que isso se desse; não me importaria com ladrão nem tempestade. Finalmente : com isto mostra que há muito o desejava e não pudera realizá-lo. Tenha algum dia a viagem, isto é, em qualquer tempo, quer no inverno, quer no verão, que isso acontecesse, não me importaria. Digo ainda, em favor do espírito, que seja para realizar o que quero. E, porque muitas coisas se realizam que desagradam a Deus, acrescenta: por vontade de Deus ; pois, se Deus não quisesse isso, antes eu rejeitaria do que desejaria o êxito dessa coisa. Quis ir ter convosco porque desejo ver-vos , a fim de comunicar-vos alguma graça . Vós já tendes a graça da fé; mas, como para guardá-la seriam oportunas outras graças, como a graça da unidade, não determina, contudo, qual graça, porque lhes ministraria toda aquela que visse necessária. Comunicar-vos, digo, alguma graça, não secular, como seria se os conciliasse com quaisquer príncipes deste mundo, mas graça espiritual , isto é, graça que nutra o espírito para a vida eterna. Para que não julgassem inútil a graça da fé que haviam recebido dos discípulos de Paulo, por ele ter dito que lhes daria uma graça, diz: não digo que vos comunique a graça para vos iniciar na fé (pois recebestes uma fé sã), mas para vos confirmar , isto é, para confirmar a vossa fé nas coisas que devem acompanhar a fé, a saber, que tenhais unidade e que nenhum julgue o outro mais digno ou menos digno da graça de Deus. Isto que digo: desejo confirmar-vos, isto é, desejo consolar-me juntamente em vós . Ao dizer consolar-se juntamente, mostra que sofreu com o erro deles; ao dizer juntamente , insinua que devem ser consolados pela sua doutrina e que, por ambas as razões, devem suportar com ânimo sereno qualquer repreensão áspera de Paulo, já que por ela serão consolados e Paulo sofreu pelo erro deles e está solícito em afastá-lo. Desejo, digo, consolar-me em vós pela fé, a vossa e a minha , comum , isto é, tal que seja recíproca, isto é, que tenha a mesma reciprocidade, de modo que, assim como a minha fé tudo atribui à graça de Deus, assim também a vossa o faça. Ou então: desejo consolar-me pela minha fé, feita vossa, para que creiais que todo bem vem da graça de Deus; vossa fé, digo, feita comum , isto é, tal que seja recíproca, isto é, subserviente a seu modo, para que, assim como eu, o que é próprio do mestre, ensino mandando, assim vós, o que é próprio dos discípulos, aprendais obedecendo. Eu certamente desejei ir ter convosco, mas não pude, porque fui impedido. Esses impedimentos davam-se a Paulo ora pelo Espírito Santo, ora, na maioria das vezes, pelos perigos de ladrões ou das tempestades no mar. Por que fui impedido de ir, não quero que ignoreis, irmãos meus na fé; pois, se examinardes com diligência a causa deste impedimento, ser-vos-á útil para a correção, quando entenderdes que fui impedido pelo pecado de vossa contenda. Isto, digo, não quero que ignoreis, porque muitas vezes me propus ir ter convosco , e fui impedido de ir até agora . Ao dizer até agora , mostra que foi impedido muitas vezes; como se dissesse: assim como muitas vezes me propus, assim muitas vezes fui impedido. Propus-me ir ter convosco para colher algum fruto em vós (como também colho nos demais), isto é, ou para que, corrigidos pelo meu ensino, frutifiqueis para melhor, ou para que eu receba o fruto da recompensa, porque trabalhei entre vós. Colha, digo, em vós, como entre as demais nações , isto é, para que, assim como ensinei as outras nações a atribuir tudo à graça de Deus, assim também vós, instruídos por mim, façais o mesmo. Nem posso cessar de vos ensinar e de ensinar às outras nações, pois sou devedor , isto é, prego por dever, porque assim me foi imposto pelo Espírito Santo, a gregos e a bárbaros . Exceto os gregos, chama bárbaras todas as nações; mas os gregos sempre procuraram a sabedoria acima dos demais, e foi também na Grécia que Paulo primeiro constituiu Igrejas de gentios. E a esses, gregos ou bárbaros, sou devedor, a sábios e a ignorantes ; porque entre os gregos há sábios e ignorantes, e assim também entre os bárbaros. E assim como devo às demais nações, assim sou devedor de evangelizar também a vós, judeus e gentios convertidos, que estais em Roma ; isto é, evangelizar estou pronto , isto é, preparado, quanto está em mim , isto é, no que depende de mim. Vede que não me encontreis ouvintes despreparados. Realmente estou pronto, porque não me envergonho do Evangelho . De três modos alguém se envergonha do Evangelho: ou quando se envergonha tolamente de pregar as misérias de Cristo, a cruz, a morte, etc.; ou quando, vivendo corruptamente, teme pregar a justiça, para não ser repreendido por ensinar de um modo e viver de outro; ou quando falta o poder dos milagres para confirmar a pregação. Mas Paulo não se envergonhava de nenhum desses modos. Portanto, não me envergonho do Evangelho: pois no Evangelho tenho à mão o poder de Deus , com o qual perdoo os pecados e opero milagres; Evangelho que digo valer para a salvação de todo aquele que crê , isto é, para se ter a salvação pela fé com que se creu: de todo aquele que crê, digo, a saber, do judeu primeiro , que primeiro creu no tempo (pois foi na Judeia que começou a Igreja de Cristo); crê também do grego , isto é, dos gentios: porque os gregos, pela ciência, eram a cabeça das nações, por isso por qualquer grego entende quaisquer gentios. Ou então: o Evangelho é salvação para o judeu e o grego que creem, primeiro , isto é, sobretudo, porque dará salvação suficiente a ambos. Verdadeiramente pelo Evangelho se obtém a fé, e pela fé a salvação eterna; pois nesse Evangelho se revela, tanto no conhecimento quanto no hábito, pela fé , isto é, pela fé recebida também através do Evangelho, a justiça , isto é, a prática das boas obras, pela qual justiça se obtém a salvação eterna. Porque, se pelo Evangelho a fé, pela fé a justiça e pela justiça a salvação eterna, então pelo Evangelho a salvação; acrescenta algo mais, que vale para o caso, assim: revela-se de fé em fé . Não diz isso para entender fés diversas, mas para ensinar que há muitos graus na fé. Os romanos tinham fé sã acerca de Cristo, mas erravam nisto: que não atribuíam tudo à graça de Deus; e Paulo pretende colocá-los neste grau da fé. Da fé se tem a justiça, e daí a salvação, como está escrito no profeta Habacuc: O justo, porém, vive da fé (cap. 2,4). Confirma o Evangelho pelo Profeta; pois diz o Profeta: Da fé, que se obtém pelo Evangelho, torna-se o homem justo ao operar o bem, e pela justiça vive na salvação eterna. Até aqui lisonjeou os romanos, dizendo-se solícito com a sua salvação, para que recebam com ânimo sereno as correções do Apóstolo; aqui, porém, ataca primeiro os gentios, que entende poderem ser mais facilmente corrigidos, para depois se demorar mais na refutação dos judeus. Contudo, começa assim: verdadeiramente da fé a justiça, e da justiça a salvação; pois, ao contrário, da impiedade, isto é, da não fé ou da idolatria, segue-se a injustiça, isto é, as obras más; e da injustiça segue-se a ira de Deus , isto é, a condenação eterna, contrária à salvação. Diz equivalentemente: verdadeiramente da fé se revela a justiça, e assim a salvação; pois sobre toda impiedade : diz sobre , em oposição à impiedade; e, quando diz impiedade, é mais do que se dissesse todos os ímpios; pois, se dissesse ímpios, indicaria certamente todos os ímpios, mas não que deveriam ser punidos por cada impiedade; ao dizer, porém, toda impiedade , insinua que todos os ímpios devem ser punidos por cada impiedade; sobre toda impiedade , pois, da infidelidade procede a injustiça , isto é, o pensamento ou a obra perversos, e sobre toda injustiça se revela , isto é, se reconhece, a ira de Deus , que virá do céu no dia do juízo; então, com efeito, será revelada àqueles que até aquele dia não tiverem crido que Cristo é o juiz de todos. Ou então: a ira de Deus se revela do céu, porque o próprio elemento, em seu ornato e feitura, mostra que se deve temer a ira daquele que formou semelhante criatura. Revela-se, digo, a ira sobre a injustiça dos homens ; dos homens, digo, que retêm a verdade de Deus, isto é, o verdadeiro conhecimento de Deus, que por natureza têm ou podem ter, e o retêm, isto é, retraem, a fim de que não ascenda, como a natureza exigiria, a conhecer algo mais de Deus; retêm-na certamente na injustiça , isto é, pelos males que praticam. Verdadeiramente os ímpios retêm assim a verdade de Deus; porque o que se pode conhecer de Deus , isto é, o que de Deus pode ser conhecido, isto é manifesto , se não em ato, ao menos entre eles , isto é, em suas razões e na potência de seu intelecto. Realmente o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre todos eles em potência; pois Deus lho manifestou em ato, isto é, a alguns deles, o que se pode conhecer de Deus; e, se a alguns foi revelado em ato, é certo que a todos é manifesto em potência; com efeito, Platão e alguns filósofos conheceram naturalmente que há um só Criador de todas as coisas, não, porém, sem o auxílio da graça de Deus. Prova que Deus revelou isto em ato a alguns, e acrescenta o modo da revelação, dizendo: verdadeiramente Deus o revelou a alguns; pois as perfeições invisíveis de sua essência divina são vistas desde a criação do mundo , não obscuramente, mas com clareza, compreendidas por meio das coisas que foram feitas . Pelas perfeições invisíveis significa o Pai, porque não tem princípio de ninguém, ao passo que o Filho e o Espírito Santo o têm do Pai; pôs porém o número plural porque a fraqueza do intelecto humano não consegue considerar em Deus senão por intervalos de tempo, que nele são naturais e simultâneos, devendo ser considerados num só instante (se isso é possível). Bem como o seu eterno poder , isto é, de sua essência divina, isto é, o Filho, que se diz virtude e sabedoria do Pai, sempre eterno com o Pai; e a sua divindade , isto é, a bondade; por isso também chamamos divinos os homens bons; bondade, isto é, o amor de sua essência divina, a saber, o Espírito Santo, que não é outra coisa senão a bondade e o amor do Pai e do Filho: esta, digo, virtude e divindade são vistas , compreendidas por meio das coisas que foram feitas ; pois o homem não pode compreender as coisas invisíveis senão por meio do que vê; mas, quando olha algum rei de grande império, entende por ele, de certo modo, que é muito maior o Rei que o criou; e, quando vê a virtude ou a sabedoria em alguém, pensa que muito mais está a virtude e a sabedoria naquele que a deu a ele; assim também, pela bondade da criatura, pode conhecer-se a bondade ou o amor de Deus. Ora, ponderar naturalmente em Deus essa virtude e divindade teria bastado, ainda que ignorassem aqueles nomes, isto é, Filho e Espírito Santo; pois a virtude e a divindade, ou amor de Deus, são o mesmo que o Filho e o Espírito Santo. A virtude e a divindade de Deus são compreendidas pelas coisas que foram feitas, de modo que os homens são inescusáveis por isto: porque, tendo conhecido a Deus, se não em ato, ao menos pela potência de seu intelecto natural, não o glorificaram como Deus , cultuando-o e honrando-o como Deus, nem lhe renderam graças , isto é, não atribuíram à graça de Deus, mas a si mesmos, os bens de seu pensamento. Não renderam graças a Deus, mas, ensoberbecendo-se em seus pensamentos, desvaneceram-se , à semelhança da fumaça, que quanto mais sobe, tanto mais se reduz a nada. E, porque ao se ensoberbecerem se desvaneceram, por isso o coração , isto é, a inteligência deles, antes sutil, obscureceu-se por causa da soberba, a ponto de tornar-se insensato . Desvaneceram-se, com efeito; pois dizendo-se sábios , isto é, que a sabedoria era deles mesmos, sem dom de Deus; e na verdade o seu coração se obscureceu; pois, dizendo isto e crendo que assim era, tornaram-se estultos ; e assim da soberba caíram na ignorância, da ignorância na estultícia, de modo que trocaram a glória do Deus incorruptível , isto é, imutável, fora do qual toda criatura é mutável e por isso corruptível; trocaram, pois, a glória desse Deus, não por um homem verdadeiro, mas por uma semelhança da imagem do homem corruptível . E, para fabricarem para si um simulacro expresso, trocaram-na por uma semelhança de imagem , isto é, por uma imagem semelhante, cultuando a criatura em lugar do Criador. Primeiro por uma semelhança de homem , depois por uma semelhança de aves , em seguida por uma semelhança de quadrúpedes , e depois por uma semelhança de serpentes , trocaram os gentios o culto e a religião do Criador, como foi dito. Porque se ensoberbeceram no intelecto, foram privados do intelecto; porque rejeitaram o Criador, foram punidos no culto da criatura; e porque, como a natureza ensinava, não quiseram glorificar a Deus, mas, contra o que a natureza repugnava, cultuaram criaturas, por isso foram precipitados em pecados que são contra a natureza, como segue: por isso , isto é, porque, contra a natureza, cultuaram criaturas, por isso, retirando a graça, Deus os entregou aos desejos de seus corações , de modo que os cobiçassem no ânimo; em seguida, à impureza , isto é, à prática da impureza desejada; a isto, digo, assim os entregou, de modo que desonraram , isto é, contaminaram, com insultos , isto é, com aquelas poluções que, se lhes fossem infligidas à força, teriam por grande insulto, os seus próprios corpos ; desonraram, digo, entre si , isto é, ou um ao outro, ou em si mesmos. Entenderam que se devia fazer isto não por Deus, eles que antes se ensoberbeciam do intelecto. O que disse acima, trocaram a glória , repete-o para enumerar os modos da troca, dizendo: os gentios trocaram a verdade de Deus, isto é, o culto que a verdade natural afirmava dever ser prestado a Deus, pela mentira , isto é, pelas criaturas que mentirosamente imaginavam serem deuses; e, depois de as imaginarem, adoraram-nas , isto é, veneraram-nas; depois ainda serviram-nas , oferecendo e imolando à criatura. Por estes três modos trocaram a glória de Deus: primeiro, mentirosamente julgaram que o ídolo era deus; depois, adorando-o; em terceiro lugar, imolando-lhe vítimas. Serviram certamente à criatura, julgando que isso era preferível a servir ao Criador; o qual Criador nada perde com o afastamento deles; pois é bendito pelos séculos , quem quer que adorem. Amém , isto é, assim é, sem dúvida. O que disse acima de novo, Deus os entregou aos desejos , repete aqui o mesmo, para comparar a pena do pecado com o próprio pecado; porque, assim como, negando ao Criador o culto que a natureza exigia, se voltaram para um culto não natural das criaturas, assim também eles foram precipitados em pecados não naturais. Enumera também o próprio pecado, como se difundiu em ambos os sexos, dizendo: por isso , porque serviram à criatura e não ao Criador, Deus os entregou , privados de sua graça, a paixões ignominiosas , isto é, a pecados ignominiosos, que, embora a carne os desejasse mal, a própria natureza sofria violência, ao agir nela não naturalmente. Enumera as paixões ignominiosas, dizendo: foram entregues certamente a ignomínias; pois as mulheres desses gentios mudaram o uso natural do homem em outro, que é contra a natureza , para que uma abusasse da outra; porque haviam negado ao Criador o culto natural. Semelhantemente também os homens , como as mulheres, deixando o uso natural da mulher, inflamaram-se em seus desejos uns pelos outros , de modo que, abrasados pelo fogo da libido, desejaram-se mutuamente; e, como o ânimo deles havia desejado, cumprindo-o em obra, homens com homens cometendo torpeza ; e assim recebendo o pagamento de seu erro , isto é, a pena daquele pecado; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus: recebendo-o, não em perda de bens ou de filhos, mas em si mesmos , porque os próprios foram punidos com essa pena. Esse pagamento convinha , isto é, era conveniente que o recebessem: já que, desprezando o que a natureza os advertia a não fazer, desprezaram o Criador e adoraram a criatura, foi justo que, por esse pecado não natural, fossem precipitados em pecado não natural e em pena do pecado. E, assim como, por terem pecado no culto não natural da criatura, foram punidos por pecados não naturais, assim também, como não julgaram conveniente ter a Deus em seu conhecimento , isto é, porque não tiveram a Deus em seu conhecimento, a quem a própria natureza provava que se devia justamente conhecer, isto é, porque pecaram, por soberba, abusando do conhecimento de Deus que lhes fora naturalmente concedido; por isso, perdido oportunamente o conhecimento anterior, Deus os entregou a um sentimento depravado , porque não quiseram usar do sentimento reto; entregou-os, digo, para fazerem o que não convém , isto é, o que a própria natureza compreenderia com bastante clareza não convir; primeiro, porque abusaram do conhecimento concedido, julgando que esse bem do intelecto natural vinha deles e não de Deus, foram privados do intelecto concedido e, abandonando o Criador, cultuaram, contra a natureza, as criaturas; razão pela qual foram novamente punidos por pecados não naturais. Mas, como ainda assim, depois dos pecados não naturais, não se arrependeram, foram precipitados em outros males, como segue: o Senhor os entregou a um sentimento depravado; a esses, digo, cheios de toda iniquidade , porque tiveram todas as iniquidades, e cada uma delas em plenitude. Quando disse toda iniquidade , compreendeu tudo o que segue; mas, para os atemorizar mais, enumera cada gênero de iniquidade, dizendo: realmente toda iniquidade; porque cheios de malícia ; agiam, com efeito, maliciosamente contra o próximo, tirando-lhe os bens ou afligindo-o com açoites; cheios também de fornicação (chama fornicação tudo o que se faz fora da legítima esposa, a qual, como se diz, é dada tanto para gerar prole quanto para evitar a fornicação); cheios também de avareza , retendo ilicitamente o que é seu ou cobiçando o alheio; e cheios de maldade : a maldade ( nequitia ) se diz ou de nequeo, nequis ("não posso"), ou do nome nequam ("mau"), porque não podem conter-se do ilícito; e quem não pode conter-se não deve ser considerado homem; cheios também de inveja , porque, embora não cobicem para si os bens alheios, gostariam, no entanto, que os outros não os tivessem; cheios também de homicídios , que se cometem não só pelas mãos, mas por deliberação e consentimento; cheios de contenda , porque entre si litigam com gritos e opróbrios; cheios de dolo , porque fazem uma coisa e pensam outra; cheios de malignidade , porque, contrários à benignidade, estão sempre na amargura do ânimo. Os quais são também murmuradores , que transferem ocultamente os males de um próximo a outro; também detratores , tirando os bens que existem e imputando os males que não existem. Para que estas duas coisas não parecessem fáceis, porque não julgariam ser condenados só por palavras, agrava essas duas, dizendo: murmuradores e detratores, odiosos a Deus . Também os chamo insolentes , isto é, que infligem uns aos outros insultos torpes; soberbos , isto é, que se põem acima dos outros ou desejam pôr-se; arrogantes , que não suportam nem iguais nem superiores, como César, que não quis suportar Pompeu como maior, nem Pompeu a César como igual; inventores de males , seja de costumes maus, seja de tormentos; desobedientes aos pais carnais, o que a natureza ensina até nos filhotes das aves; insensatos , isto é, sem discernimento para o bem e para o mal; desordenados , tanto nas vestes quanto pela imodéstia dos membros; pois por estas coisas que vemos por fora julgamos as interiores; sem afeição , isto é, sem aplicação do ânimo a algo digno; sem aliança , isto é, sem vínculo de ânimo; pois, porque as alianças valem para alimentar a fé, a fim de que sempre se multiplicassem, foram proibidos os matrimônios dentro da mesma parentela, que já está bastante aliada pelo vínculo da consanguinidade. Os quais são também sem misericórdia , porque, se virem alguns miseráveis, não têm para com eles entranhas de misericórdia. Em todas estas coisas os gentios foram punidos pelos pecados acima mencionados; mas, como ainda assim não se arrependeram, foram precipitados em outro mal: cegos, prometeram-se a impunidade dos pecados; por isso diz: os gentios, cegos, não compreenderam que os que praticam tais coisas , como foi dito, são dignos de morte eterna. Dessa maneira não compreenderam, tendo antes conhecido naturalmente a justiça de Deus; por cujo conhecimento se diz que foram privados, porque dele se ensoberbeceram. Dignos de morte são certamente não só os que praticam as coisas ditas, mas também os que consentem com os que as praticam . Consentir, segundo Ambrósio, é, se alguém pode repreender e se cala, ou se, ouvindo, adula; se, portanto, os que fazem os males ditos e os que consentem com eles são dignos de condenação, nenhum dos gentios escapará desta morte. Capítulo 2 Por isso és inescusável, ó homem, quem quer que sejas que julgas; pois, naquilo em que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; com efeito, praticas as mesmas coisas que julgas. Sabemos, porém, que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas. E tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, e as fazes, pensas que escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas as riquezas de sua bondade, de sua paciência e de sua longanimidade? Ignoras que a benignidade de Deus te conduz à penitência? Mas, segundo a tua dureza e o teu coração impenitente, entesouras para ti a ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: aos que, pela perseverança no bem operar, buscam a glória, a honra e a incorrupção, a vida eterna; mas aos que são contenciosos e não se submetem à verdade, mas obedecem à iniquidade, ira e indignação. Tribulação e angústia sobre toda alma de homem que pratica o mal, do judeu primeiro e também do grego; glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego; pois em Deus não há acepção de pessoas. Com efeito, todos os que pecaram sem lei, sem lei perecerão; e todos os que pecaram na lei, pela lei serão julgados; pois não são justos diante de Deus os que ouvem a lei, mas os que praticam a lei serão justificados. Quando, pois, os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas da lei, esses, não tendo lei, são lei para si mesmos; eles mostram a obra da lei escrita em seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência, e os pensamentos que entre si ora os acusam, ora também os defendem, no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, segundo o meu Evangelho, por Jesus Cristo. Mas tu, que te chamas judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus, e conheces a sua vontade, e, instruído pela lei, discernes o que é mais útil; confias que és guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas, educador dos insensatos, mestre dos pequeninos, tendo na lei a forma da ciência e da verdade. Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo; tu, que pregas que não se deve furtar, furtas; tu, que dizes que não se deve cometer adultério, cometes adultério; tu, que abominas os ídolos, praticas sacrilégio; tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei; pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado por vossa causa entre os gentios. A circuncisão, de fato, é útil, se observas a lei; mas, se és transgressor da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão. Se, pois, o incircunciso guarda as justiças da lei, não será a sua incircuncisão reputada como circuncisão? E aquele que é por natureza incircunciso, cumprindo a lei, não te julgará a ti, que, pela letra e pela circuncisão, és transgressor da lei? Pois não é judeu quem o é exteriormente, nem é circuncisão a que é exterior, na carne; mas é judeu quem o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus. Comentário Até aqui desonrou bastante os gentios segundo o seu estado anterior, mostrando que não podem escusar-se pela ignorância, uma vez que tiveram naturalmente o conhecimento de Deus, do qual foram privados por causa do pecado; o que, porém, foi dito somente dos gentios, ele estende aqui a ambos, isto é, aos judeus e aos gentios, declarando inescusáveis os dois povos. Pois, se o judeu disser que foi povo peculiar de Deus, nascido da linhagem de Abraão, que teve a Lei e os Profetas, e que, sendo assim tão amado por Deus, não se deve crer que Deus permita perecer quem lhe é tão caro, ainda que tenha errado, e censurar o gentio como indigno da salvação, de quem Deus nunca se lembrou; se, ao contrário, o gentio disser que o judeu é indigno da salvação, porque, tendo conhecido a Deus pela Lei, não quis glorificá-lo como Deus, e por isso julgar que ele próprio deve ser preferido ao judeu, porque, logo que ouviu falar de Deus, imediatamente creu, e que não é culpado do que pecou por ignorância: contra ambos age o Apóstolo, dizendo que o gentio é inescusável pela ignorância, porque teve conhecimento natural; e que o judeu se gloria em vão da Lei ou da linhagem, uma vez que sempre foi pior justamente onde deveria ter melhorado, prevaricando contra a Lei, degenerando na fé de Abraão, e coisas semelhantes. Como se dissesse: por isso , isto é, porque os que fazem e os que consentem são dignos de morte, por isso tu, ó homem , que vives e entendes de comum acordo, todo judeu e gentio, és inescusável ; tu, digo, que julgas , isto é, que condenas a outro; pois, se tu, judeu, dizes que deves ser preferido ao gentio porque foste amado de Deus, o qual dizes nunca se ter lembrado do gentio; ou se tu, gentio, te preferes ao judeu, escusado pela ignorância, porque o judeu desonrou a Deus que lhe era conhecido pela Lei, ambos sois inescusáveis: tanto o gentio, porque teve conhecimento natural, quanto o judeu, a quem a Lei e o intelecto natural ensinaram acerca de Deus. Na verdade ambos sois inescusáveis, porque naquilo em que julgas a outro , seja o judeu ao gentio, seja o gentio ao judeu, a ti mesmo te condenas ; pois, se a lei dada condena o judeu porque não a guardou, a lei natural não guardada condena igualmente o gentio. Verdadeiramente te condenas a ti mesmo; pois praticas as mesmas coisas que julgas , isto é, que condenas no outro: se tu, judeu, julgas que o gentio deve ser condenado pelas coisas ditas, e julgas que a ti, que praticas os mesmos crimes, se deve poupar por causa da Lei e da linhagem, em vão o pensas; ao contrário, se tu, gentio, condenas o judeu porque teve a Lei e não a guardou, nisso condenas a ti mesmo, transgressor da lei natural. Na verdade, naquilo em que julgas a outro, condenas a ti mesmo; pois nós , que somos de grande autoridade, sabemos que o juízo de Deus contra os que praticam tais coisas , como as acima ditas, não é segundo a ignorância que tu, gentio, em vão alegas, nem segundo a linhagem de Abraão, de que tu, judeu, te glorias, mas segundo a verdade , isto é, conforme os atos de cada um, do judeu e do gentio; tu, porém, pensas , isto é, falsamente julgas isto, ó homem , seja judeu, seja gentio, que julgas os que praticam tais coisas como as ditas, e tu mesmo as fazes; isto, digo, pensas: que escaparás ao juízo de Deus , isto é, por aquilo mesmo por que julgas que o outro deve ser condenado, crês que escaparás impune. Primeiro, porque julgam que o juízo de Deus se faz segundo a dignidade ou indignidade das pessoas, e não segundo as obras, caem neste mal, de prometerem a si mesmos a impunidade; e, de novo, pelo mal da impunidade que se prometem, precipitam-se em outro, a saber, abusam da bondade e da paciência de Deus. O que diz aqui, que escaparás ao juízo de Deus, já o havia significado acima, onde diz: «Não compreenderam que os que praticam tais coisas são dignos de morte» (cap. 1,32), em ambos os lugares tratando da impunidade que se prometem; mas ali apenas dos gentios, aqui, porém, entende-se de ambos. Ou desprezas as riquezas de sua bondade , julgando escapar ao juízo de Deus? Diz-se isto por semelhança com um poderoso que, ao oferecer comida a alguém, se esse a quem é oferecida, indignado por servir-se dela, a lançasse fora, pareceria desprezar não a comida, mas quem a dá; assim também aquele que abusa da bondade de Deus, não a usando para a correção, para a qual Deus a dá, é réu não só dos pecados passados, mas também do desprezo da majestade. Fala de riquezas da bondade porque Deus dá abundantemente até bens temporais aos maus, dos quais nem seriam dignos, para que, considerando a benignidade de Deus, voltem para Ele; dá também mestres que os ensinem e a inteligência pela qual saibam ser bom voltar a Deus, e muitas outras coisas. Ou desprezas as riquezas de sua bondade, e de sua paciência , porque te suporta não em um, mas em mil pecados, e de sua longanimidade , porque durante muitos tempos espera a tua correção? Desprezas, digo, ignorando que a benignidade de Deus , pela bondade, paciência e longanimidade, quanto está em si, te conduz à penitência ? A benignidade de Deus, quanto está em si, chama-te à penitência, mas segundo a tua dureza , isto é, segundo os teus atos obstinados no mal, e o teu coração impenitente , porque nem te afastas da obra má nem entendes que obras mal (há, com efeito, alguns obstinados nas obras más que, no entanto, creem agir mal); tu, digo, segundo o coração impenitente, entesouras para ti a ira , isto é, acumulas para ti a própria condenação futura para o dia da ira , isto é, da condenação comum dos ímpios; dia , digo, da revelação do justo juízo de Deus , porque naquele dia os ímpios, que sempre o negaram, crerão que Cristo é o juiz de todos: então, com efeito, o verá toda carne; esse Deus retribuirá então a cada um , ao judeu e ao gentio, segundo as suas obras , não poupando o gentio pela ignorância, nem salvando o judeu pela Lei ou pela linhagem de Abraão. O que disse em geral, expõe-no por partes, dizendo: retribuirá a cada um segundo as suas obras : aos que são de boa obra, isto é, que obraram bem pela perseverança , isto é, não abusando da paciência de Deus, mas corrigindo-se enquanto eram suportados por Deus; ou então, pela perseverança, porque suportaram com ânimo sereno quaisquer adversidades por Deus: a estes, certamente, dará a glória , isto é, a claridade do corpo e a iluminação da alma; e dará a honra , porque na presença de Cristo estarão entre os honrados, porque com os Anjos de Deus; dará também a incorrupção , isto é, o estado permanente na glória e na honra, que poderiam possuir por uma hora e perder. A estes, digo, com esta determinação: que buscam a vida eterna , isto é, se obram bem por amor da vida eterna, não buscando daí lucros temporais nem a glória do mundo. Aos que são de boa obra retribuirá assim; mas aos que são contenciosos , isto é, que contenciosamente se preferem uns aos outros (este vício ele reprova sobretudo, porque nisto se afadigavam, e deste procura afastá-los); a estes, digo, que contendem e não se submetem à verdade , quando o bem lhes é aconselhado, como os romanos que não queriam submeter-se aos discípulos de Paulo, mas obedecem à iniquidade , preferindo-se uns aos outros; a estes certamente haverá ira , isto é, condenação eterna, e indignação , tal ira que seja indignação: os ímpios, com efeito, postos no fogo, indignar-se-ão gravemente contra si mesmos por terem obrado mal. E enquanto esse juízo tarda, sobre toda alma de homem que pratica o mal , digo, do judeu primeiro , isto é, sobretudo, que pratica o mal, porque é réu tanto da lei natural quanto da lei dada, e do grego , isto é, do gentio, que só é arguido pela lei natural; sobre a alma de quem pratica o mal, indistintamente judeu e grego, haverá tribulação , isto é, condenação, e angústia ; é isto o que disse, indignação, porque trata do mal que ocorreria tanto depois do juízo quanto antes. Do bem, porém, não diz o que lhe sucederá antes, mas depois do juízo, enquanto não se chega ao juízo: ao que pratica o mal haverá tribulação; a todo aquele que pratica o bem , ao judeu primeiro , segundo o tempo, que obra bem (pois na Judeia teve princípio a Igreja de Cristo), e ao grego , isto é, ao gentio, que obra o bem posteriormente no tempo, haverá glória , isto é, aquela claridade, e honra , porque estará entre os honrados, e paz , isto é, na glória e na honra, tranquilidade duradoura. Na verdade, ao judeu e ao gentio indistintamente se dará a glória, contanto que tenham obrado bem; pois em Deus não há acepção de pessoas , de modo a salvar o judeu que obra mal porque teve a Lei, ou a reprovar o gentio de bom mérito porque não foi da carne de Abraão, cuja fé é melhor imitar do que dele tirar a linha da linhagem, pois muitos da carne de Abraão passaram para os gentios, e muitos dos gentios, imitando a fé de Abraão, se fizeram dignos das promessas de Abraão e foram reputados entre os judeus, como os prosélitos. Prova que Deus não faz acepção da pessoa do judeu ou do gentio, porque julgará ambos; e expõe o modo do juízo futuro para ambos, dizendo: na verdade em Deus não há acepção de pessoas, porque julgará a todos, tanto os que estão sem lei quanto os que estão na lei: todos os que pecaram sem lei , isto é, sem terem lei escrita, sem lei perecerão , isto é, serão condenados, não por prevaricação da lei escrita, mas somente da natural: isto foi dito dos gentios. E todos os que pecaram na lei , isto é, tendo lei escrita, como os judeus, pela lei serão julgados , isto é, serão condenados pela prevaricação da lei dada, acrescida aos seus pecados. Objetaria o judeu que, embora tenha transgredido a lei, não é condenado, mas Deus o poupará. Contra isso Paulo: na verdade os que têm a lei serão julgados pelo pecado, porque não são justos diante de Deus , ainda que sejam reverenciados entre os homens, os que ouvem a lei , isto é, os que apenas ouviram a lei e não a praticaram, como os judeus; mas os que praticam a lei , quer a tenham ouvido, quer apenas a tenham praticado, serão justificados , sejam gentios, sejam judeus; apenas cumpriram a obra da lei. O versículo que se segue trata somente dos gentios, provando que se salvam pela lei natural, fazendo as mesmas coisas que são da lei escrita, e que se condenam se não as fizerem. Este versículo trata de ambas as coisas: da salvação dos gentios pela obra da lei e da condenação dos mesmos se não tiverem cumprido a lei; como se objetasse a Paulo: dizes que quaisquer que forem praticantes da lei serão salvos; mas os gentios não devem salvar-se, porque, ainda que façam a obra da lei, fazem-na indistintamente, não conduzidos pela razão, mas por acaso, como os que não foram instruídos por Escritura alguma. Contra isto Paulo: na verdade os gentios, se forem praticantes da lei, serão justificados e, ao contrário, se obrarem o mal, serão condenados com ira e indignação; e com razão devem salvar-se pelo bem e ser punidos pelo mal, porque eles são lei para si mesmos , isto é, têm em si mesmos a lei natural; eles, digo, não tendo lei dessa espécie, isto é, escrita, como os judeus. E na verdade eles são lei para si mesmos, pois acontece que os gentios, que não têm lei escrita , isto é, os gentios, fazem naturalmente as coisas da lei , isto é, o que a lei escrita prescreve, seguindo a lei natural. E não fazem indistintamente as coisas da lei; porque mostram , por meio da operação, que a obra da lei está escrita em seus corações , deixando os males, aderindo aos bens; pois esta é a obra da lei: apartar-se do mal e fazer o bem. E se não credes que os gentios se salvam pela lei natural, isso em nada impede a salvação deles; porque no dia em que Deus julgar , aparecerá que a obra da lei estava escrita nos seus corações: então, naquele dia, a consciência deles , que então se tornará patente a todos (ali, com efeito, as obras de cada um serão manifestas a todos), dar-lhes-á testemunho dos bens ou dos males que fizeram. Terão então muitas testemunhas, pois a sua consciência não será ocultada a ninguém. E, como acerca das obras, assim a consciência deles lhes dará testemunho dos pensamentos, porque, como as obras, assim também os pensamentos serão justificados; dos pensamentos, digo, que os acusam se forem maus, ou também os defendem se forem bons; e isto entre si , porque os pensamentos que forem maus acusarão os bons, e reciprocamente , porque, ao contrário, os bons impugnarão os maus. Esta luta se dará naqueles cujos bens ou males são incertos; mas naqueles em que os bens são certos, sem mistura de males, como nos santos, e naqueles em que os males são certos, sem alívio de bens, como nos muito maus, neles não haverá esta luta de acusação ou defesa, mas salvação certa aos muito bons e condenação indubitável aos muito maus. Este testemunho das obras e dos pensamentos dará a eles a sua consciência naquele dia em que Deus julgar os segredos dos homens , isto é, as coisas incertas deles, boas ou más; julgará certamente por Jesus Cristo , que foi constituído juiz de todos, segundo o meu Evangelho , isto é, segundo o que eu anuncio, porque Deus julgará todas as coisas por meio de Cristo. Provou que o gentio pode salvar-se naturalmente praticando a obra da lei escrita; agora começa a provar que nada aproveita ao judeu ser chamado judeu, ele que teve a Lei e a circuncisão, se não cumprir a obra da Lei e da circuncisão, dizendo: o gentio teve a lei natural, tu, porém, judeu, tiveste a lei natural e a escrita (deve-se considerar que o Apóstolo trata do judeu e dos gentios segundo o estado anterior); tu, digo, te chamas judeu , isto é, tens este cognome de dignidade, que és chamado judeu (antes de Judas Macabeu, só os da tribo de Judá eram chamados judeus, mas todos eram chamados Israel; a partir de Judas Macabeu, por causa de sua probidade, todos passaram a ser chamados judeus); concedo, diz Paulo, que te chamas judeu, porque repousas na lei ; as outras nações, com efeito, estão no erro, sem documentos de vida, mas tu tens repouso na ciência da lei; e te glorias em Deus , porque só em Israel se diz que Deus é conhecido (Sl 75,2), as outras nações estão como sem Deus; por isso, jactando-te, te glorias. Conheces a sua vontade , isto é, de Deus, o que quer que se faça, o que quer que não se faça; e tu, instruído pela lei, discernes o que é mais útil , isto é, sabes discernir, entre as coisas úteis da lei, as mais úteis. Confias também que és guia dos cegos gentios; pois, se alguns dos gentios quiserem passar ao judaísmo, ensinas-lhes a observar o sábado e as demais coisas da lei, sendo eles ainda cegos, por não saberem o que isso significa. Confias também que és luz dos que estão nas trevas ; pois, quando eles observam o sábado, ainda ignorando o mistério do sábado, tu os iluminas ensinando-lhes o que isso significa e para que serve, e assim os tiras das trevas da ignorância. Confias também que és educador dos insensatos judeus; pois, se alguns são insensatos na lei, ensinas-lhes a ser sábios. Confias também que és mestre dos pequeninos ; pois, se alguns são simples e não sabem falar da lei, ensinas-lhes a discorrer sobre a lei; e que tens a forma da ciência , porque, se alguém quiser considerar quão grande é a lei, saiba que é tão grande quanto a tua ciência nela; tendo também a forma da verdade na lei , porque conheces a ciência da lei e que são verdadeiras todas as coisas que ela ensina: podemos, com efeito, ter a ciência de Ovídio sem, contudo, saber que são verdadeiras as coisas que ali entendemos narradas. Portanto, já que és guia dos cegos e os iluminas com a doutrina da lei, tu que ensinas a outro, por que não te ensinas a ti mesmo? Assim, quando deverias progredir pela lei, rejeitando a obra da lei, tornas-te convicto de ser ainda mais réu. Tu também que pregas que não se deve furtar, por que furtas? Furtavam os judeus, com frequência, as coisas uns dos outros; e, o que é pior, furtavam o sentido são da lei. Tu também que dizes que não se deve cometer adultério, por que cometes adultério? Cometiam adultério literalmente; cometiam também adultério interpretando adulterinamente a lei, depois de lhe terem furtado o sentido são. Tu que abominas os ídolos , isto é, que julgas que os gentios que cultuam ídolos nem devem ser chamados homens, por que praticas sacrilégio? , isto é, tu mesmo por que cultuas ídolos? Muitas vezes, com efeito, os judeus caíram no culto dos ídolos; praticavam sacrilégio negando a Cristo o seu culto: sacrilégio é, com efeito, negar à criatura o que naturalmente deve ao Criador, a saber, o culto a Deus. Tu que te glorias na lei , isto é, que te jactas de ser o único que teve a lei, por que desonras a Deus pela transgressão da lei? Prevaricar na lei é não fazer o que ela manda fazer e fazer o que ela proíbe; os judeus, abandonando a lei e fazendo o contrário da lei, desonravam a Deus, quanto à opinião dos homens, sem nada tirar, contudo, de sua glória. Na verdade desonrais a Deus, quanto está em vós, porque o nome de Deus é blasfemado por vossa causa entre os gentios ; pois, vendo os gentios que fazeis o contrário da lei, profanais a justiça de Deus, participais dos alimentos dos gentios, e coisas semelhantes, dizem e pensam que Deus assim vos instituiu e que não escolheu com muita providência tais homens para o seu culto. Isto disse Ezequiel, ainda que com outras palavras, dos judeus dispersos entre os gentios, que passavam à idolatria; por isso Paulo diz: isto que digo, que Deus é blasfemado por vossa causa entre os gentios, digo-o como está escrito ; a Escritura, com efeito, dá testemunho nesta matéria. E porque prevaricaste na lei, por isso a tua circuncisão tornou-se incircuncisão , isto é, não vale mais teres sido circuncidado do que um gentio incircunciso: assim como acima afirmou que nada aproveitava ser chamado judeu e ter a lei, assim prova aqui que a circuncisão de nada vale a quem não tiver cumprido o mistério da circuncisão; aquele corte da carne significa, com efeito, que a geração carnal, que está nos pecados, deve ser cortada, e a geração espiritual deve ser daí em diante mantida. Diria o judeu: se a circuncisão se torna incircuncisão, foi dada em vão, já que não aproveita. Contra isso Paulo: a circuncisão, de fato, é útil, se observas a lei da circuncisão, isto é, se, conforme a circuncisão significa, cortas de ti todos os vícios; é útil, certamente, observada a lei; mas, se és transgressor da lei da circuncisão, não cortando os vícios do coração, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão , isto é, não te é mais útil do que a incircuncisão ao gentio. Chama-se circuncisão a própria limpeza da carne; incircuncisão ( præputium ), isto é, a carne que era cortada, chama-se a própria imundície, porque essa carne é como o leito da libido. E porque a circuncisão, não observada a lei da circuncisão, se torna incircuncisão, portanto a incircuncisão, se guardar as justiças da lei da circuncisão, tornar-se-á circuncisão. Mas, para que ninguém ouse contradizer, põe sob forma de pergunta, dizendo: se o incircunciso , isto é, o gentio, a quem tu julgas a própria imundície, e a ti a circuncisão, isto é, a própria limpeza; se, digo, o incircunciso guarda as justiças da lei da circuncisão, cortando os vícios do coração, mesmo sem ter a carne cortada, não será a sua incircuncisão reputada como circuncisão ?, isto é, não lhe aproveitará, como aproveita ao circunciso a lei da circuncisão guardada? E aquele que é por natureza incircunciso e cumpre a lei, isto é, a realiza, e isto por natureza , isto é, pela lei natural, não te julgará , isto é, não te condenará por comparação consigo? A ti, digo, que és transgressor da lei , observada pela letra , porque escolhes a observância literal e rejeitas a espiritual; és também transgressor pela circuncisão tida na carne e não observada no coração. Na verdade a circuncisão torna-se incircuncisão; pois não é judeu quem o é exteriormente , isto é, somente de nome, nem se deve crer que esse seja judeu; nem é circuncisão a que é exterior, na carne , e assim somente na carne e não no coração, essa não se deve chamar circuncisão. Prova de novo que a incircuncisão (como foi dito) se tornará circuncisão, dizendo: o judeu exterior não é judeu, mas quem o é interiormente , isto é, na manifestação das obras, é judeu, ainda que não seja chamado por este nome; e a circuncisão do coração , feita no espírito , isto é, cumprida espiritualmente, não na letra , isto é, não literalmente como a carnal, esta é a circuncisão espiritual e verdadeira; cujo louvor , isto é, o louvor dessa circuncisão, não vem dos homens, mas de Deus ; pois só Deus pode dar a justiça do coração; os homens, porém, podem cortar a carne e nada mais. Capítulo 3 Que vantagem, pois, tem o judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em todos os aspectos: primeiramente, porque lhes foram confiados os oráculos de Deus. E que importa que alguns deles não tenham crido? Porventura a incredulidade deles anulará a fidelidade de Deus? De modo algum. Deus é veraz, e todo homem é mentiroso, como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e vençam quando fores julgado (Sl 50,6). Mas, se a nossa iniquidade põe em relevo a justiça de Deus, que diremos? Será Deus injusto ao infligir a ira? (Falo à maneira humana.) De modo algum. Do contrário, como Deus julgará este mundo? Pois, se a verdade de Deus abundou para a sua glória na minha mentira, por que ainda sou eu julgado como pecador? E por que não (como somos caluniados e como alguns afirmam que dizemos) faremos o mal para que venham os bens? A condenação desses é justa. Que então? Somos superiores a eles? De modo algum. Pois já acusamos que judeus e gregos estão todos debaixo do pecado, como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se desviaram, juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um só. Sepulcro aberto é a sua garganta, com suas línguas urdiam enganos, veneno de víboras está sob seus lábios; a sua boca está cheia de maldição e de amargura; seus pés são velozes para derramar sangue; ruína e infelicidade há em seus caminhos, e não conheceram o caminho da paz; não há temor de Deus diante de seus olhos (Sl 13). Sabemos, porém, que tudo o que a lei diz, o diz aos que estão sob a lei, para que toda boca seja fechada e todo o mundo se torne sujeito a Deus; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele. Pois pela lei vem o conhecimento do pecado. Mas agora, sem a lei, manifestou-se a justiça de Deus, testemunhada pela lei e pelos Profetas. A justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem nele; pois não há distinção. Todos, com efeito, pecaram e estão privados da glória de Deus. Justificados gratuitamente por sua graça, pela redenção que está em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, mediante a fé, em seu sangue, para manifestação de sua justiça, pela remissão dos pecados anteriores, na paciência de Deus, para manifestação de sua justiça no tempo presente, a fim de que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus Cristo. Onde está, pois, a tua glória? Foi excluída. Por que lei? A das obras? Não, mas pela lei da fé; porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. Porventura Deus é só dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios; porque há um só Deus, que justifica a circuncisão pela fé e a incircuncisão por meio da fé. Destruímos, pois, a lei pela fé? De modo algum; antes, confirmamos a lei. Comentário Como provou acima que a incircuncisão se torna circuncisão e, ao contrário, a circuncisão se torna incircuncisão, o judeu objetaria por isso que, sob o estado do Antigo Testamento, nada mais lhe foi conferido do que ao gentio. Para refutar isto, diz Paulo, inserindo a objeção do judeu: porque eu disse que a incircuncisão é reputada como circuncisão, e vice-versa, dir-me-á, por isso: que vantagem tem o judeu no estado antigo, mais que o gentio? Ou qual a utilidade da circuncisão ao judeu, se ao gentio valia o mesmo a incircuncisão? A circuncisão pareceria feita em vão, a lei dada supérfluamente, se sem essas coisas se pôde ter o bem da lei e da circuncisão, como se mostra no gentio. Teve certamente o judeu no estado antigo muito mais conferido do que o gentio (ainda que não tenha observado); pois ser circuncidado e instruído nas demais coisas da lei foram boas preparações e certas instruções para entender a fé de Cristo; o gentio, porém, não teve instrução alguma além do intelecto natural. Não digo, contudo, que o judeu deva ser tido por mais digno que o gentio na fé de Cristo, mas certamente estava mais preparado para a fé; por isso, se não consentiu na fé, é mais condenado que o gentio; se consentiu, não superou por isso o gentio na dignidade da fé. Perguntas o que mais foi conferido ao judeu; muito , certamente, e em todos os aspectos , tanto segundo a alma quanto segundo o corpo, e em cada coisa, no corpo e na alma, muitos bens foram feitos ao judeu, dos quais o gentio nada teve: no corpo, porque os livrou dos inimigos e lhes deu a terra da promessa, etc.; na alma, porque os instruiu pela lei e tiveram conhecimento de Deus, etc. E muitas coisas semelhantes lhes conferiu, no corpo e na alma; das quais diz Paulo: muitas coisas poderia aduzir para comprovar que mais foi conferido ao judeu do que ao gentio; mas primeiramente , isto é, porque isto é o principal para provar o que pretendo, porei isto: que mais foi conferido ao judeu porque lhes foram confiados , isto é, propostos para sua instrução, os oráculos de Deus , os preceitos que Deus deu na lei e nos Profetas. Contra isto o judeu novamente: pelos oráculos dados não houve mais para o judeu que para o gentio, porque não creu nos oráculos de Deus. Na verdade, diz Paulo, houve mais pelos oráculos confiados ao judeu; pois que importa se alguns deles , dos judeus, não creram nos oráculos de Deus e por isso foram reprovados? Que impede que não tenha sido conferido mais ao judeu do que ao gentio? Nada o impede; pois, quanto dependeu de Deus, preparou-os para a fé, embora tenham permanecido incrédulos. Realmente, se alguns deles não creram, nada impede; porque Deus não deixou de cumprir o que prometera por causa da incredulidade deles: porventura a incredulidade deles anulará a fidelidade , isto é, o cumprimento das promessas de Deus? Nada do que Deus prometeu deixou por cumprir, e por isso nada impede que o judeu tenha tido mais, embora alguns tenham sido condenados na incredulidade. Pergunto se por causa dos incrédulos foi anulada a fidelidade de Deus; de modo algum ; que a fidelidade de Deus possa ou se creia poder ser anulada de algum modo; porque, embora alguns deles não tenham crido, Deus, contudo, é veraz , isto é, cumpridor de tudo o que prometeu. Deus é certamente veraz, mas todo homem , quem quer que seja, judeu ou gentio, é mentiroso , isto é, pecador; pois Deus, ao vir para salvar, encontrou todo homem sob o pecado e, segundo os méritos, indigno da salvação; donde é manifesto que a fé e a salvação de Deus provêm igualmente da graça para judeus e gentios. Chama-se mentira todo pecado, porque toda criatura, que naturalmente deve obedecer ao seu Criador, ao transgredir o mandamento de Deus torna mentirosa a sua própria natureza, abandonando a pureza em que foi criada. Que Deus seja veraz, afirmo-o também pelo testemunho da Escritura: digo isto como está escrito , acerca da veracidade de Deus, num salmo; Deus é sem dúvida veraz, pois diz Davi: Para que sejas justificado em tuas palavras (Sl 50,6), isto é, justificando-me, apareças verdadeiro em tuas promessas. Aquele "para que" lê-se na sequência do salmo, no qual Davi, réu de muitos crimes, como a traição ao soldado, a morte do próximo, a concupiscência ilícita e o adultério, tratava de obter o perdão de tudo isso, do qual estava certo pela promessa que lhe fora feita acerca de Cristo, feita somente àqueles que haviam de ser salvos por Cristo; por isso confia que será limpo deste crime, pois do contrário seria indigno da salvação futura. Além disso, deve-se notar que, como Davi, sem alegar mérito algum, confia ser salvo somente pela graça e se confessa pecador, ele que ninguém mais santo viveu sob a lei, ninguém pode salvar-se por mérito, mas só pela graça. Sejas justificado certamente em tuas palavras , e vençam os ímpios, quando fores julgado por eles como não sendo o Filho de Deus, e os venças nisto, justificando os homens como prometeste; ou então, vençam quando fores julgado , isto é, quando te associas a alguém como a mim; dizem, com efeito, que não devo ser salvo por causa do pecado, embora me tenhas sido prometido. Aqui Paulo entra em algo que parece alheio ao começado; imputava-se, com efeito, a ele e aos demais Apóstolos que ensinavam ser bom pecar, porque, quanto mais numerosos fossem os pecados dos homens, tanto mais glorioso apareceria Deus perdoando todos quantos fossem; tomando daí ocasião: porque «onde abundou o delito, superabundou a graça», e semelhantes. Isto Paulo começa aqui a destruir, e com muita pertinência; pois aqui provará que toda salvação é da graça de Deus e nada do mérito do homem, dizendo que todo homem mentiroso foi achado réu; Deus, porém, justificando todo réu por graça, é veraz nas promessas; por isso aparece que a nossa iniquidade põe em relevo a justiça de Deus , isto é, torna Deus digno de louvor, justificando os homens dos pecados somente pela graça; e isto é verdade, porque quanto mais copiosa é a sua graça na remissão dos pecados, tanto mais, sem dúvida, é digno de louvor Deus. Mas, embora perdoe quaisquer pecados, não dá com isso motivo de pecar. A nossa iniquidade põe Deus em relevo, mas, se é assim, que Deus seja mais digno de louvor por causa da nossa iniquidade, que diremos a isso? Parece seguir-se daí algo estranho; por isso, que diremos? Será Deus injusto por infligir a ira , isto é, a vingança, por causa do pecado que o torna mais digno de louvor? Isto parece contrário à equidade. Isto que digo, que não é bastante justo, porque pune o pecado que o louva, digo-o à maneira humana , isto é, segundo o que entende carnalmente; mas de mim digo isto: de modo algum seja Deus injusto, por punir o pecado. E prova-o pelo impossível, dizendo: na verdade Deus não é injusto ao infligir a ira; do contrário , isto é, se Deus fosse injusto, como julgará este mundo? Não se deve crer que aquele que foi constituído juiz de todo o mundo seja injusto: e isto é impossível. Realmente, se Deus é injusto, não julgará o mundo, porque nem a mim só; a mim, porém, não julgará pelo pecado, porque assim aumento a sua glória; pois, se a verdade de Deus abundou na minha mentira , isto é, por causa do meu pecado, isto é, mais abundantemente se mostra Deus, pela verdade da promessa, como quem perdoou os pecados; abundou, para a sua glória , isto é, de Deus, porque quanto mais perdoou, tanto mais glorioso é conhecido por sua misericórdia; se certamente o meu pecado é causa de sua glória, por que ainda , isto é, por que também neste mundo eu (para omitir outros) sou julgado , isto é, desprezado, como pecador? Deveria ser arguido por este pecado em que aumento a glória de Deus? E por que não faremos o mal, para que os bens da misericórdia de Deus venham por isso em aumento, como somos caluniados por alguns que creem? Como também afirmam de nós alguns que nós não só cremos, mas também dizemos e pregamos aos outros: façamos o mal , isto é, pequemos à porfia, para que venham os bens , isto é, para que Deus tenha o que perdoar abundantemente. A condenação desses que assim nos caluniam é justa , isto é, devem ser justamente condenados por esta blasfêmia. Se julgo que estes devem ser condenados pelo pecado de blasfêmia, é claro que não prego que seja bom pecar. Os que assim pensavam, porém, pregavam que a glória de Deus está em sua misericórdia. Como acima se provou que todo homem, judeu e gentio, é mentiroso, portanto, ó judeu, diz-me: que então? , isto é, qual é a causa pela qual devamos ser superiores a eles , isto é, aos gentios, na salvação? De modo algum somos superiores a eles. Na verdade não somos superiores; pois já acusamos , isto é, comprovamos com causas e razões convenientes, que judeus e gregos , todos (não excetuo ninguém), estão debaixo do pecado , não só no pecado, mas tão deprimidos sob o pecado que ninguém poderia por si ressurgir, sem a graça auxiliadora. Prova dos judeus que todos estão debaixo do pecado, dizendo: quanto ao que digo, que todos os judeus estão sob o pecado, a Escritura me dá testemunho; afirmo-o como está escrito num salmo: não há justo, nem um sequer (aquele "que" lê-se na ordem do salmo); não há, com efeito, nenhum justo, isto é, que deixe o mal e faça o bem; e isto porque não há quem entenda . Não entendem, porém, porque não há quem busque a Deus ; pois, se buscassem a Deus, certamente entenderiam e, entendendo, procurariam a justiça. Ninguém entre os judeus é justo, mas todos se desviaram , obrando mal em si mesmos; o que não lhes bastou, mas também se tornaram inúteis , isto é, empenhados na depravação dos outros; os quais se desviaram a tal ponto que não há entre eles quem faça o bem. Nem digo que, excluídos muitos do bem, alguns permaneçam no bem; mas não há entre eles quem faça o bem, nem um só ; porque nem um só que faça o bem fica entre eles. Ou então, não há quem faça o bem até que se venha a um só , isto é, a Cristo pela fé; quem, com efeito, vier a Cristo pela fé, esse certamente faz o bem. Não há neles quem faça o bem, mas a sua garganta é um sepulcro aberto , que, recebidos os cadáveres, exala mau cheiro e ainda está aberto para receber cadáveres: assim eles fedem dos pecados anteriores e ainda anseiam por perpetrar crimes. E o que não podem fazer abertamente, urdiam enganos com suas línguas , pensando uma coisa e simulando outra. E sob os seus lábios , isto é, no coração, que está sob os lábios, está veneno de víboras , incurável; porque ninguém, enquanto consentir com eles, poderá ser curado. A boca desses judeus está cheia de maldição ; maldiziam, com efeito, a Cristo, dizendo que era filho de um carpinteiro, e coisas semelhantes. Também a boca deles está cheia de amargura ; diziam palavras amargas, clamando: «Crucifica-o, crucifica-o» (Lc 23,21). E os pés , isto é, as afeições desses judeus, são velozes para derramar sangue ; antes de fato derramaram, com a vontade, o sangue de Cristo. E porque são tão iníquos, por isso em seus caminhos , isto é, em suas obras, há ruína , isto é, a miserável dispersão deles pelo orbe, feita pelos romanos. Há também em suas obras infelicidade , isto é, a condenação das almas, que é a única que se deve chamar infelicidade. E tudo isto lhes sucedeu porque não conheceram o caminho da paz , isto é, a Cristo, por quem se vai à verdadeira paz; e, assim como não o conheceram pelo amor, assim também nem pelo temor: não há temor de Deus diante de seus olhos ; porque, mesmo que tivessem por natureza o temor de Deus e se lembrassem bem de que Deus deve ser temido, não tiveram então o temor de Deus diante, mas atrás dos olhos, porque o desprezaram. Talvez dissesse o judeu que isto foi dito do gentio. Contra isto Paulo: tu, judeu, talvez julgues que isto não foi dito de ti; mas eu e todos os santos sabemos, e à autoridade deles não se deve resistir, sabemos certamente que tudo o que a lei diz , isto é, este salmo, sem dúvida o diz aos que estão sob a lei , isto é, aos judeus. Dizemos que o sabemos para que por esta palavra toda boca seja fechada ; convencido o judeu, não há quem resista, pois ninguém duvida de que o gentio está sob o pecado; e assim, convencidos todos, todo o mundo se torne sujeito a Deus , tanto judeus quanto gentios, isto é, confessem todos que se salvam somente pela graça de Deus. E é justo que todo o mundo esteja sujeito a Deus e ninguém à lei; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele , ainda que aos olhos dos homens pareça justa; mas todo aquele que está na lei permanece ali carne , isto é, carnal. Na verdade ninguém será justificado pelas obras da lei; pois pela lei vem o conhecimento do pecado , e não a justificação dos pecados. Se alguns, como Moisés e Davi, foram justificados sob a lei, não o tiveram da lei, mas pela fé de Cristo, a quem criam e esperavam como Redentor. Assim todos os justos sob a antiga lei foram justificados não pela lei, mas por Cristo, que, crendo, esperavam que viria [1] . E porque pela lei só se tem o conhecimento do pecado, agora , portanto, mostrado isto, manifestou-se, sem a lei, a justiça de Deus , isto é, tornou-se patente que Deus justifica os que creem somente pela graça, sem lei alguma; essa partícula é ilativa; justiça de Deus testemunhada pela lei de Moisés e pelos demais Profetas como devendo realizar-se pela graça. Provado que a justiça de Deus se faz sem a lei, acrescenta por que meios se faz: pela fé e pela efusão do sangue de Cristo, dizendo: a justiça de Deus não se faz pela lei, mas se faz mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que creem; todo aquele, com efeito, que crer em Cristo será justificado dos pecados: e também sobre todos ; porque o justificado nunca pode merecer tanto que a graça de Deus, retribuindo o seu mérito, não o supere. Na verdade todos são justificados pela fé; pois não há distinção , de modo que este seja justificado por mérito e aquele por graça. Não há distinção porque todos , tanto judeus quanto gentios, pecaram , como foi mostrado acima; e por isso estão privados da glória de Deus , isto é, de serem justificados por Deus, coisa em que Deus aparece glorioso. Estavam certamente privados da glória de Deus, porque foram justificados gratuitamente , sem mérito deles, por sua graça , isto é, pela efusão do Espírito Santo, cuja graça foi dada pela redenção precedente, que está em Cristo Jesus , isto é, pelo preço dado do sangue de Cristo: a quem Jesus Deus Pai propôs , isto é, expôs publicamente ao mundo, feito homem, como propiciação ; em Cristo, com efeito, Deus se tornou propício ao mundo mediante a fé , isto é, aos que têm uma fé sã acerca de Cristo: propiciação em seu sangue , o do próprio Cristo; porque nem a fé sem a efusão do sangue, nem o sangue sem a fé aproveitaria para a salvação. Deus certamente propôs assim Cristo para manifestação de sua justiça , isto é, para mostrar-se justo e veraz, pela remissão dos pecados anteriores , isto é, para perdoar os pecados anteriores de Abraão e dos justos, na paciência de Deus ; pois Deus suportou pacientemente os pecados deles, quando se cometiam, até purificá-los deles no tempo da graça. Deus propôs também Cristo como propiciação para manifestação de sua justiça , isto é, de sua justificação, no tempo presente , a saber, para que neste tempo da graça ficasse bem demonstrado a todos que, não libertando do vínculo do pecado nem o intelecto natural nem a lei dada, somente Deus podia justificar. Isto, digo, seria demonstrado a fim de que ele seja justo , isto é, veraz no cumprimento das promessas, e justificador de todo aquele que tem fé em Jesus Cristo , dos pecados. Já que (como se provou acima) toda justiça é pela fé e é para todos; pois o judeu não se distingue do gentio, uma vez que todos igualmente pecaram; portanto, ó judeu, onde está a tua glória? Não te resta mais de que te glories na lei, pois pela lei não há justificação alguma, mas toda é pela fé: por isso foi excluída , isto é, foi tirada, a tua glória, com que te preferias pela lei ao gentio. Mas por que lei foi excluída a glória da tua lei? Foi tirada por uma lei semelhante das obras ? A lei antiga era lei das obras, porque nela era igualmente necessário operar, imolando e observando os demais ritos carnais, como em campo ou vinha. Se Deus sobrepusesse a esta lei das obras outra lei semelhante, pareceria incongruente e indiferente que, por obras, repelisse obras; por isso diz: não foi excluída a tua glória pela lei das obras, mas pela lei da fé , isto é, pela fé que justifica, cuja lei é o Evangelho. Na verdade a tua glória é excluída pela fé; pois só a fé justifica, sem obra alguma da lei. E a este passo acrescenta uma autoridade, dizendo: eu e os justos comigo julgamos que o homem é justificado pela fé , só, sem as obras da lei , isto é, ainda que nenhuma obra da lei tenha precedido, a fé só basta, contudo, para a justificação do homem. Diria o judeu: concedo que se justifica pela fé, mas só os judeus. Contra isso Paulo: não se deve crer que Deus justifique pela fé só os judeus; porventura Deus é Criador só dos judeus? Não o é também dos gentios? Assim como é dos judeus, assim também é Criador dos gentios. Sim, também dos gentios. Se criou igualmente os gentios e os judeus, é certo que Deus quer salvar igualmente a ambos. Na verdade, o Deus dos judeus é o Deus dos gentios, porque há um só Deus de todos. Se há um só Deus, é certo que é o mesmo o Deus dos gentios e o dos judeus. Visto que é um só o Criador dos gentios e dos judeus, é certo que este mesmo é quem justificou a circuncisão , isto é, os judeus, pela fé , e não pela lei, e quem justificou a incircuncisão , isto é, os gentios, igualmente por meio da fé . Os que espreitam a letra dizem que algo mais expressivo é notado pelo que diz "pela fé" ( ex fide ) do que quando diz "por meio da fé" ( per fidem ); querem, com efeito, designar ao dizer ex fide que os judeus não tiveram nenhum início de justificação senão pela fé; dos gentios, porém, porque não havia dúvida alguma, não se exprimiu assim. Mas Agostinho diz que ex fide e per fidem são equivalentes, já que em outro lugar o Apóstolo diz que os judeus são justificados per fidem e os gentios ex fide . E porque dizemos que se é justificado somente pela fé, sem as obras da lei, destruímos, pois , isto é, por isso, a lei pela fé introduzida? De modo algum , que a fé destrua a lei; nós certamente não a destruímos, mas antes confirmamos , isto é, comprovamos que a lei foi estável e válida; se, com efeito, não se seguisse a fé que justifica, a lei antiga seria certamente vã, porque não se daria nem a realidade nem a figura; mas prova-se agora que foi válida porque figurou a graça, que assim justificaria pela fé. Quer ainda comprovar, pelo exemplo de Abraão, que a lei não pode justificar e que a fé só basta para isso, pois ele, antes de ter a lei da circuncisão, foi justificado somente pela fé, dizendo: Notas Na primeira condição do homem, o homem caiu por soberba; Deus esperou-o por muito tempo, para que, se pudesse, ressurgisse pelo intelecto natural. Depois que o homem se achou incapaz disso, disse que, se tivesse uma lei pela qual discernisse os males dos bens e, inversamente, os bens dos males, poderia assim finalmente ressurgir. Deus, porém, para mostrar o homem impotente em tudo por si mesmo, deu a lei pela qual pudesse discernir os bens dos males; e nem assim pôde libertar-se. Deus certamente já sabia bem que assim seria com o homem, mas, conforme o desejo do homem, deixou-lhe o intelecto natural e depois concedeu-lhe a lei, para que, não libertado por estas coisas concedidas, cresse que por si nada é e assim recorresse à graça de Deus, que Deus, depois do intelecto natural e da lei, que não bastavam para a justificação, convenientemente concedeu, quando já nem se podia pensar em outro gênero de salvação. (Nota do próprio Autor.) Capítulo 4 Que diremos, pois, que alcançou Abraão, nosso pai segundo a carne? Se Abraão foi justificado pelas obras da lei, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15,6). Ora, ao que trabalha não se imputa o salário como graça, mas como dívida; ao que, porém, não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça, segundo o desígnio da graça de Deus; como também Davi proclama a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputou o pecado (Sl 31,1-2). Esta bem-aventurança, pois, permanece só na circuncisão? Ou também na incircuncisão? Pois dizemos que a fé foi imputada a Abraão como justiça; como, então, lhe foi imputada? Na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve na incircuncisão, para ser pai de todos os que creem na incircuncisão, para que também a eles seja imputada a justiça; e para ser pai da circuncisão, não só dos que são da circuncisão, mas também dos que seguem as pegadas da fé que nosso pai Abraão teve na incircuncisão. Pois não foi pela lei que se fez a promessa a Abraão ou à sua descendência, de que seria herdeiro do mundo, mas pela justiça da fé; porque, se são herdeiros os que são da lei, a fé torna-se vã, a promessa é abolida. A lei, com efeito, produz a ira. Pois onde não há lei, não há tampouco transgressão. Por isso é pela fé, para que, segundo a graça, a promessa seja firme para toda a descendência, não só para a que é da lei, mas também para a que é da fé de Abraão, que é pai de todos nós (como está escrito: Eu te constituí pai de muitas nações) (Gn 17,5), diante de Deus, em quem creu, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se fossem. Ele, contra a esperança, creu na esperança, para vir a ser pai de muitas nações, conforme lhe foi dito: Assim será a tua descendência (Gn 15,5). E não fraquejou na fé, nem considerou o seu corpo já morto, tendo quase cem anos, nem o seio morto de Sara; nem duvidou, por desconfiança, da promessa de Deus, mas fortalecido pela fé, deu glória a Deus, plenissimamente certo de que Deus é poderoso para cumprir tudo o que prometeu; por isso também lhe foi imputado como justiça. Ora, não foi escrito só por causa dele que lhe foi imputado como justiça, mas também por causa de nós, a quem será imputado, a nós que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus Cristo, nosso Senhor, que foi entregue por causa de nossos delitos e ressuscitou por causa da nossa justificação. Comentário Visto que das obras da lei não há justificação alguma, mas só pela fé, que diremos, pois, que alcançou Abraão, nosso pai , tanto dos gentios como dos judeus, segundo a fé, segundo a carne , isto é, segundo a observância da lei carnal? Ou assim: que diremos que alcançou, pela circuncisão da carne, Abraão, nosso pai, isto é, dos judeus segundo a carne , isto é, segundo a descendência da carne, ele que é pai de todos os que creem segundo a instituição da fé? Nenhuma justificação, certamente, alcançou Abraão pelas obras da lei. O que prova por certo absurdo: na verdade Abraão não foi justificado pela lei; pois, se se cresse que foi justificado pelas obras da lei, teria glória entre os homens, mas não é glorioso diante de Deus, porque nem em sua presença foi justificado: e é impossível que alguém justificado diante de Deus seja sem glória. Ou assim: se Abraão foi justificado pela lei, tem daí glória a referir aos seus méritos, mas não diante de Deus , isto é, isso não deveria ser atribuído à graça de Deus; ora, derrogar a graça de Deus e, derrogando-a, ser justificado, quem é injusto, não podem coexistir. Provou, pelo absurdo acima, que não se pode ser justificado pela lei; prova que se é justificado pela fé, pela autoridade que segue, dizendo: é impossível ser justificado pelas obras da lei, mas a fé justifica, como testemunha a Escritura; pois que diz a Escritura? Isto, a saber: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça , isto é, pela fé com que creu em Deus, mereceu ser justificado. Diz foi imputado porque Deus lhe prometeu isto muitas vezes e em diversos tempos, e nenhuma vez Abraão vacilou, mas sempre creu. O que disse de Abraão, a saber, que foi justificado pela fé e não pelas obras da lei, adapta a todos, dizendo: não só a Abraão isto sucede, isto é, não achar nenhuma justificação nas obras da lei, mas também ao que trabalha , isto é, que segue a lei das obras, isto é, a antiga, e não a graça, não se imputa o salário como graça , isto é, este procura ser remunerado não pela graça de Deus, mas como dívida , isto é, conforme é devido aos méritos de suas obras; ao que, porém, não trabalha , isto é, que não segue a lei das obras, mas crê naquele que justifica o ímpio , isto é, que do ímpio, se creu, faz justo, a sua fé , digo, a do que crê, lhe é imputada como justiça ; porque é justificado sem mérito algum, somente pela fé, como foi mostrado acima em Abraão. Ou de outro modo: embora eu tenha dito que se é justificado somente pela fé, sem a lei, contudo ao que trabalha , isto é, que tem tempo de operar, não convém entregar-se ao ócio, mas, obrando bem, deve crer na graça que vem; aos que têm idade de operar não se imputa o salário, mas faz-se a retribuição, não só como graça, mas como dívida , isto é, devem merecer de tal modo que pelo mérito ajudem a graça; ao que, porém, não trabalha , isto é, que não tem tempo de operar, como as crianças que morrem logo, mas crê naquele que pela fé justifica o ímpio , a sua fé lhe é imputada como justiça , isto é, somente a fé basta para a sua justificação, ele a quem a tenra idade negou obras. Assim como acima provou, pelo exemplo de Abraão, que todo crente é justificado pela fé, assim aqui começa a provar, pela autoridade de Davi, que toda justificação é pela graça; pois assim como a fé é pela graça, assim a justiça se tem somente pela graça de Deus; por isso diz: a fé é imputada a todo crente como justiça; a qual justiça é segundo o desígnio da graça de Deus , isto é, toda justificação se faz pela graça de Deus; graça que está proposta e preparada para todo crente. A justiça se faz certamente pela graça de Deus, como diz não só eu, mas também Davi , que é esta a bem-aventurança do homem , isto é, a pureza desta vida e, no futuro, a vida eterna; a quem Deus atribui , isto é, aceitável a Deus; ou então, a quem Deus atribui gratuitamente, sem mérito, a justiça , isto é, a quem Deus justifica por graça, sem obras que mereçam a justificação. Isto diz Davi, dizendo assim: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades foram perdoadas (Sl 31,1) (não determina por quem, mas o versículo seguinte insinua que são perdoadas pelo Senhor). Bem-aventurados são aqueles cujas iniquidades, isto é, nos quais o fomes natural do pecado foi remitido e debilitado, de modo que já não pode passar ao ato, se quiserem usar o livre-arbítrio fortalecido. Mas, porque não bastaria à salvação ser remitido o fomes do pecado se os pecados passados não fossem perdoados, acrescenta: e cujos pecados foram cobertos , bem-aventurados são aqueles cujos pecados atuais foram cobertos no batismo; cobertos , porque Deus já não os vê para punir. Bem-aventurado também o homem a quem o Senhor não imputou o pecado original. Aqui não parece tratar muito da graça; deve-se saber, contudo, que todo o salmo gira em torno da recomendação da graça de Deus e prova que ninguém pode ser justificado senão pela graça. Visto que assim se lê em Davi, por esta autoridade é certo que a bem-aventurança, isto é, a justificação (como foi dito), se faz pela graça; mas, sendo assim, vejamos se esta bem-aventurança permanece só na circuncisão , isto é, somente nos judeus, ou também na incircuncisão , isto é, nos gentios, como nos judeus. Quer provar de novo, por Abraão, que foi justificado pela fé antes de ser circuncidado, que os gentios se justificam pela graça como os judeus, dizendo: por isso pergunto se esta justificação permanece só na circuncisão ou na incircuncisão, porque dizemos que a fé foi imputada a Abraão como justiça , isto é, que Abraão foi justificado pela fé; e, tendo sido justificado pela fé, resta dizer como , isto é, em que estado lhe foi imputada a fé como justiça : na circuncisão, ou antes de ser circuncidado, quando ainda estava na incircuncisão, isto é, na gentilidade? Pergunto em que estado, mas é claro que não foi justificado pela fé no tempo da circuncisão, mas na incircuncisão , enquanto ainda permanecia nela. Se Abraão, ainda incircunciso, foi justificado pela fé, por que os gentios incircuncisos não seriam igualmente justificados, se tiverem fé? Objetaria de novo o judeu: se a circuncisão em nada aproveitou à justificação de Abraão, por que, depois de justificado, se circuncidou? Oportunamente, digo, para figurar na carne a verdade que tinha oculta na alma, pretendendo ensinar mais a circuncisão do coração do que a da carne; o que diz equivalentemente: e recebeu o sinal da circuncisão , embora Abraão tenha sido justificado na incircuncisão, depois recebeu na carne o sinal da circuncisão e da justificação já obtida, não para ser justificado pela circuncisão, mas para assim ser mostrado justo; sinal , digo, não aberto a todos, mas selo , que continha algo oculto: à semelhança da cera em que se imprime o sinete, que contém em si o que não aparece por fora. Assim a circuncisão da carne era sinal da justiça interior, o que poucos judeus consideravam com acerto. Selo , digo, da justiça da fé , isto é, da justificação obtida pela fé, fé e justiça que está na incircuncisão , isto é, é considerada em Abraão no tempo da incircuncisão, e convenientemente Abraão foi justificado neste estado, para ser pai , isto é, instituidor segundo a forma da fé, não só dos judeus, mas de todos os que creem ; seja, digo, pai da fé de todos na incircuncisão , isto é, pela fé tida no tempo da incircuncisão; para que também a eles seja imputada , a todos os que creem, a sua fé como justiça, assim como a ele. E como Abraão é pai da fé, assim seja pai da circuncisão , isto é, instituidor da circuncisão, isto é, da justificação que se segue da fé; seja pai, digo, não só dos que são da circuncisão da carne, isto é, dos judeus, mas também dos que seguem as pegadas da fé de Abraão , obrando bem pelo seu exemplo mediante a fé, fé que foi tida no tempo da incircuncisão de nosso pai Abraão . Na verdade Abraão será pai de todos os que creem, não pela lei, mas pela fé; pois a promessa desta coisa, a saber, de que seria herdeiro do mundo , o que é o mesmo que ser pai de todas as nações, esta promessa, digo, não foi feita pela lei , isto é, pelo mérito da lei, mas pelo mérito da fé. Se não foi prometida pela lei, também não deve cumprir-se pela lei; o que diz assim: Deus prometeu a Abraão ou à sua descendência, isto é, a Cristo, que seria herdeiro do mundo, quando se disse: «Dar-te-ei as nações por herança, etc.» (Sl 2,8). Isto, digo, não prometeu pela lei, mas pela justiça da fé , isto é, a justiça que se segue da fé; fé e justiça da fé que devem ter todos os que querem ser contados na herança de Cristo: Abraão teve em si a fé e a justiça, que seus filhos devem imitar. Na verdade a promessa não se faz pela lei; porque, se são herdeiros só os que são da lei, isto é, os judeus, da promessa de Abraão, então a fé de Cristo se torna vã , isto é, é vazia, e em vão a recebestes, ó judeus, se a lei vos bastava para serdes herdeiros: o que vós mesmos julgais o maior absurdo, que a fé de Cristo seja em vão. E não é só isso, mas também, se somente os judeus são herdeiros, assim é abolida , isto é, anulada, a promessa , e é falso o que foi dito: «Em tua descendência serão abençoadas todas as nações» (Gn 22,18), se esta bênção se faz somente nos judeus. Na verdade os que são só da lei não merecem a herança, pois a lei produz a ira e merece apenas a ira; porque, se alguns sob a lei obraram bem, foi pela fé, e não pela lei. Na verdade a lei produz a ira; pois produz a transgressão, e verdadeiramente a transgressão; pois onde não há lei, não há transgressão , e onde quer que haja transgressão, aí há lei. Pelas razões ditas, os que são da lei não serão herdeiros; mas os que são da fé serão herdeiros, para que , segundo a graça, a promessa feita e que se há de cumprir seja firme para toda a descendência , isto é, para todo aquele que imita Abraão pela fé, não só para a que é da lei , isto é, o judeu, mas também para toda a que é da fé de Abraão , isto é, que segue Abraão pela fé; que é pai de todos nós , tanto gentios quanto judeus, segundo a forma da fé e da justiça. É certamente pai de todos, como está escrito no Gênesis: Eu te constituí pai de muitas nações (cap. 17,5). Aquele "porque" refere-se à ordem do texto de que foi tomado. Isto, digo, está escrito: eu te destinei, Abraão, a ser, segundo a instituição da fé, pai de muitas nações; a ti, digo, feito justo pela justiça diante de Deus , isto é, no beneplácito de Deus, em quem creste. Daí seguem as palavras de Paulo: Deus, que faz viver os mortos para o pecado, justificados pela fé; e não só vivifica, mas também, pela graça, chama as coisas que não são , isto é, os gentios, que por não terem tido a lei parecem não ser nada, como se fossem , isto é, como chama os judeus, que se gloriam de ser eles somente por causa da lei. Provou acima, por Abraão, que toda justificação é pela fé; mas, para que na plenitude da fé imitemos perfeitamente Abraão, determina a qualidade da fé de Abraão, a fim de que, assim como ele creu que se cumpririam por Deus todas as coisas impossíveis segundo a visão dos homens, assim também nós não duvidemos do poder de Deus, opondo-lhe a lei da natureza; por isso diz: foi dito a Abraão: Constituí-te pai de muitas nações; Abraão, contra a esperança, creu na esperança ; poderia dizer-se contra a opinião. Esperança diz-se a expectativa certa de coisa futura; mas disse oportunamente contra a esperança , porque, segundo a lei da natureza, vista a sua velhice e a esterilidade da esposa, certissimamente já não esperava ter descendência; mas contra a esperança que lhe oferecia a lei da natureza, creu na esperança que, rompido o direito da natureza, a onipotência de Deus sugeria. Creu certamente isto: para vir a ser pai de muitas nações ; do que, segundo o homem, poderia duvidar bastante, vendo-se genitor de um só filho. Creu, digo, tudo o que lhe foi dito, isto é, creu que seria pai de muitos, não só segundo a descendência da carne, mas segundo a forma da fé imitada. Isto, digo, lhe foi dito: assim será a tua descendência , Abraão, como as estrelas do céu e como a areia do mar (Gn 15,5; 22,17). Pelas estrelas do céu significa os filhos espirituais de Abraão, conspícuos pela luz das virtudes; pela areia do mar, os filhos carnais infrutíferos. Assim foi prometido a Abraão e, recebida esta promessa, por mais que fosse protelada, não fraquejou na fé , de modo a crer menos na firme promessa que lhe fora feita; e, para perseverar firme na fé da coisa prometida, não considerou o seu corpo já morto , isto é, não ponderou que a deficiência natural de gerar pudesse mudar a vontade de Deus, tendo quase cem anos , e o tempo de gerar já tendo passado nele; e não considerou o seio morto de Sara , isto é, que os órgãos genitais da esposa tinham falhado, tanto pelo vício da esterilidade quanto pela antiguidade dos anos. Não fraquejou na fé da primeira promessa; nem duvidou, por desconfiança, da promessa de Deus , porque Deus muitas vezes lhe repetiu a mesma, certamente na promessa em que Deus lhe prometia que, antes de findar o ano, daria um filho: nesta certamente não vacilou por desconfiança. Vacilou, sim, admirando-se e revolvendo consigo o mistério da coisa, mas não vacilou por desconfiança, a ponto de desconfiar de que não se cumpriria tudo o que Deus prometera, mas foi fortalecido pela fé ; pois, podendo objetar, ao esperar longamente a coisa tantas vezes prometida: a demora me faz duvidar; ergueu-se mais forte na crença da coisa prometida, dando glória a Deus , nada atribuindo aos seus méritos do bem desta promessa, mas glorificando a Deus em tudo, plenissimamente certo , sem vacilação alguma, de que Deus é poderoso para cumprir tudo o que prometeu , segundo todo o modo que prometeu. E por isso, porque, sabendo-o, deu plenissimamente fé às promessas de Deus, não só se lhe cumpriu a promessa, por ter assim crido, mas também lhe foi imputado como justiça , isto é, pelo mérito de tão grande fé mereceu ser justificado. Visto que agora expressou bastante o modo da fé de Abraão, adapta ao seu propósito o que dele disse, dizendo: porque Abraão creu assim, por isso foi justificado; isto, porém, de Abraão não foi escrito apenas por causa dele , para ser louvado por tão grande fé, a saber, que lhe foi imputado como justiça ; mas foi escrito também por causa de nós , para sermos conformados à fé de Abraão, a quem será imputado , crendo, o nosso crer (como vemos nele) como justiça ; a nós, digo, que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus Cristo, nosso Senhor , isto é, assim como Abraão creu que receberia de Deus o que era contra a natureza, assim também nós não duvidemos de crer e confessar, embora seja contra o direito da natureza, que Cristo ressuscitou dos mortos: aquele que é autor da natureza, como lhe aprouve pôde invertê-la. Estas duas coisas que seguem: foi entregue à morte, e ressuscitou para a justificação , não eram necessárias para a prova do que foi dito, mas ao Apóstolo pareceram oportunas para a instrução dos romanos, e por isso acrescentou: que foi entregue ; não determina para quê, mas é bastante claro que para a morte; e isto por causa de nossos delitos , isto é, para nos purificar de nossos delitos; que também ressuscitou por causa da nossa justificação , isto é, para que, purificados de nossos delitos, nos tornasse justos pela posse das virtudes. Não diz que morreu por causa de nossos delitos e ressuscitou por causa da justificação como se a sua morte não fosse causa da nossa justiça e a Ressurreição, causa da remissão dos pecados; mas diz ressuscitou por causa da justificação para mostrar que a sua Ressurreição é causa de nossa justificação de modo tal que seja sinal de coisa futura em nós, a saber, de uma dupla ressurreição. A primeira é aquela em que, no batismo, ressurgimos da morte do pecado para viver na justiça. Esta é a ressurreição da alma, que antes estava morta nos pecados e agora, fortalecido o livre-arbítrio, pode resistir a toda sugestão má e conhece a Deus. A segunda ressurreição é a futura, segundo o corpo, quando, retomadas a impassibilidade e a imortalidade, reinaremos com Cristo, se a primeira ressurreição tiver sido guardada íntegra. A Ressurreição de Cristo e Pentecostes, que dela depende, celebram-se por isso em tempos variáveis, porque prefiguram coisas ainda por vir e não tratam só das passadas, como a festa da Natividade. Capítulo 5 Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo; por quem também temos acesso, pela fé, a esta graça em que estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus. E não só isso, mas gloriamo-nos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência, a paciência a prova, e a prova a esperança; e a esperança não engana, porque a caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Para que, com efeito, Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios? Pois dificilmente alguém morre por um justo; por um bom, talvez alguém ouse morrer. Mas Deus demonstra a sua caridade para conosco, porque, quando ainda éramos pecadores, a seu tempo, Cristo morreu por nós. Muito mais, pois, agora justificados em seu sangue, seremos salvos da ira por meio dele. Porque, se, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não só isso, mas gloriamo-nos também em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora recebemos a reconciliação. Por isso, assim como por um só homem o pecado entrou neste mundo, e pelo pecado a morte, e assim a morte passou a todos os homens, naquele em quem todos pecaram; porque até a lei o pecado estava no mundo; mas o pecado não era imputado, não havendo lei; contudo, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre os que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é figura do que havia de vir. Mas o dom não é como o delito. Pois, se pelo delito de um só morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom, pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundaram sobre muitos. E o dom não é como o que veio por um só que pecou. Pois o julgamento, a partir de um só, levou à condenação; a graça, porém, a partir de muitos delitos, leva à justificação. Pois, se pelo delito de um só a morte reinou por meio de um só, muito mais os que recebem a abundância da graça, do dom e da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Portanto, assim como pelo delito de um só veio a condenação sobre todos os homens, assim também pela justiça de um só vem sobre todos os homens a justificação que dá a vida. Pois, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão constituídos justos. A lei, porém, interveio para que abundasse o delito; mas onde abundou o delito, superabundou a graça, para que, assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça reine pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Comentário Visto que, pelo que precede, se provou suficientemente que toda justificação é pela fé, justificados, pois, pela fé , tenhamos paz , isto é, concórdia entre nós, para que nem o judeu se anteponha ao gentio, nem o gentio ao judeu, nesta nova graça. Para mais os deter da discórdia e os induzir à concórdia, diz: tenhamos paz com Deus ; se, com efeito, formos discordes entre nós, certamente não temos paz com Deus: tenhamos, digo, paz por nosso Senhor Jesus Cristo , a quem devemos obedecer em tudo, que quis ser entregue à morte por causa de nossos delitos, etc.; por esse Cristo, não só os delitos foram perdoados e nos foram dadas a vida e a justiça, mas também temos esta graça , isto é, tão excelente que podemos afastar doenças e fazer milagres. Mas, para que os judeus não julgassem ter, por mérito da lei, algum degrau para esta graça, diz Paulo: por esse Cristo temos também acesso , isto é, o primeiro degrau para chegar a esta graça; graça que alcançamos pela fé , como a justificação, porque a fé justifica e a fé dá esta graça, na qual estamos firmes , isto é, perseveramos (a Adão foi conferida muita graça, mas nela não se firmou); e, firmes nesta graça, gloriamo-nos na esperança da glória dos filhos de Deus , isto é, porque esperamos com toda certeza ter a glória que têm os filhos de Deus: e não só na esperança desta glória, mas gloriamo-nos também nas tribulações . Esta é a máxima virtude: alegrar-se naquilo que naturalmente se teme. Gloriamo-nos nas tribulações porque sabemos que a tribulação produz a paciência , isto é, porque o uso e o costume das tribulações nutrem a paciência; a paciência produz a prova , isto é, a purificação, porque, como o ouro é purificado pelo fogo, assim o que há de ser purgado nestas coisas é consumido pelo fogo da tribulação: por isso, os que terminam a vida na tribulação, temo-los sem hesitação alguma por santos, porque tudo o que antes pecaram o fogo da tribulação consumiu inteiramente; os que, porém, terminam a vida em paz, por mais louvavelmente que tenham vivido (ninguém, com efeito, está sem mancha), sem uma demonstração certa de milagres, não os contamos no catálogo dos santos. A prova produz a esperança ; com toda certeza, com efeito, pode esperar quem foi suficientemente purificado; a esperança , assim tida depois da purificação, não engana , isto é, não faz envergonhar os que esperam, os quais tornaria confusos se fosse frustrada. Na verdade a esperança não engana, mas se cumprirá, o que temos por certo pelo Espírito Santo que nos foi dado ; o Espírito Santo, com efeito, já em parte nos deificando, dá a certeza de que seremos plenamente deificados no futuro, iluminados segundo a alma com maior conhecimento de Deus e, segundo o corpo, incorruptíveis. Que o Espírito Santo nos foi dado evidencia-se por isto: a caridade de Deus foi derramada em nossos corações , isto é, o amor de Deus foi ampliado em nossos corações, porque estamos prontos a sofrer e a morrer por Ele. Ou de outro modo: na verdade não engana, mas se cumprirá; o que se evidencia porque a caridade de Deus foi derramada , isto é, porque Deus nos ama abundantemente e porque a caridade de Deus arde tanto para conosco. Sentimos isto em nossos corações iluminados pelo Espírito Santo que nos foi dado . Prova que a esperança (como foi dito) se cumprirá, por diversas causas: seja porque, se não se cumprisse, em vão Deus se teria feito homem e teria gostado a morte, se não levasse a perfeito termo, consumando a esperança, o que começara com piedade; seja também porque, se, quando éramos ímpios e havia em nós mérito de condenação, quis fazer tanto que, por nós ímpios, enfrentou a dificuldade da morte, não se deve duvidar de que nos salvará, já justificados e já alegando o mérito da salvação; o que lhe é fácil, porque não precisa mais morrer; por isso diz: na verdade a esperança não engana, mas se cumprirá; porque, se não se consumasse como esperamos, para que Cristo morreu , justo pelos ímpios, ou em lugar dos ímpios, porque os ímpios deveriam morrer por seu pecado, ou em vista da redenção dos ímpios? Dir-se-ia: porque morreu, por isso não pode. Morreu, digo, a seu tempo ; ao terceiro dia, com efeito, ressuscitou. De novo o adversário: ímpios, sim, éreis, mas já justificados ao tempo de sua morte. Ímpios, digo, quando ainda éramos fracos , isto é, perseverávamos na impiedade. Em vão o justo morreu pelos ímpios, se deixa de salvar os justificados; não se deve crer que deixe incompleto aquilo por que enfrentou tamanha dificuldade. Dir-se-ia: foi tão grande assim morrer pelos ímpios? Sim, digo; dificilmente , com efeito, alguém, isto é, algum digno de morte ou que logo vai morrer, morre por um justo , isto é, em lugar ou em favor de um justo; donde é claro que foi algo grande Cristo, que, quanto à sua justiça, não haveria de morrer, morrer pelos ímpios. Por isso digo que dificilmente alguém morre por um justo; pois por um bom talvez alguém ouse morrer . Se há dúvida sobre se alguém morre por um bom, grande foi Cristo, o piedoso, morrer pelo ímpio. Dificilmente alguém ousaria morrer por um justo; mas Cristo morreu por nós, e com isto Deus demonstra a sua caridade para conosco ; pois, se quando ainda éramos pecadores Cristo morreu, o que foi tão difícil e indevido, o justo por nós pecadores, muito mais, pois (isto é, por isso), deve-se crer que agora, justificados em seu sangue , isto é, pela efusão de seu sangue, nós que antes éramos pecadores, seremos salvos da ira por meio dele , que não precisa mais ser mudado do seu estado, como quando sofreu a morte pelos pecadores. E porque poderíamos ser justificados e, no entanto, não recuperar a paz perdida com Deus, diz: na verdade, justificados, seremos salvos, uma vez que já alegamos o mérito da justificação, porque, quando éramos inimigos e tínhamos o mérito da condenação, fomos reconciliados com Deus por coisa tão grave como a morte de seu Filho; e, se antes inimigos, agora pela morte de seu Filho fomos reconciliados, muito mais se deve crer que nós, reconciliados e já de algum modo merecedores da salvação, seremos salvos. E nos salvará com muita facilidade, porque pela sua vida ; já não é, com efeito, necessário que morra, como antes. Deve-se considerar como opõe cada coisa a cada coisa: pecadores justificados, inimigos reconciliados, pela morte na vida; não esperamos somente a salvação futura, mas também gloriamo-nos em Deus pela esperança e pelo gozo dela, ainda enquanto aqui estamos; gloriamo-nos, diz, por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora , pouco antes, recebemos , inimigos, a reconciliação com Deus. Alguém objetaria: Cristo foi, sim, bastante justo, mas não parece que sua justiça seja suficiente para a salvação de todos. O que o Apóstolo prova, dizendo: como pela desobediência de um só todo homem caiu, parece digno e conveniente que pela obediência de um só se repare a queda do gênero humano, por Jesus apenas; por isso pudemos ser reconciliados para a salvação, assim como por um só homem o pecado entrou neste mundo , não enviado por Deus, mas por certa violência, isto é, tornado tão miserável pelo pecado, e consequentemente pelo pecado de um só homem entrou a morte, tanto corporal quanto espiritual, no mesmo homem; e assim a morte passou dele a todos os homens ; e com razão dele a todos, porque este foi aquele em quem todos pecaram ; nos rins de Adão, com efeito, toda aquela massa do gênero humano foi corrompida pelo pecado da prevaricação. Alguns estendem este versículo até aquele muito mais abaixo: portanto, assim como pelo de um só , etc.; mas, como expusemos, pode ser bastante abreviado. Na verdade todos pecaram em Adão, embora antes da lei isto fosse ignorado por quase todos; pois o pecado estava no mundo desde Adão até a lei ; mas, embora fosse assim, este pecado não era imputado , isto é, ninguém era julgado réu pelo pecado original antes de Moisés, não havendo lei , a qual, depois que veio, tornou manifesto esse pecado; ou digamos por inteiro: este pecado estava no mundo antes da lei, mas era ignorado, porque nenhum pecado era imputado, não havendo lei. E, embora o pecado original não fosse imputado antes da lei, pode-se bastante reconhecê-lo pelo fato de que reinou a morte corporal, que foi a pena do original, enviando antes de si todas as suas misérias, a sede, a fome, as febres e o mais; reinou , digo, desde Adão até Moisés , não só sobre os que ao pecado original acrescentaram os seus pecados, mas também sobre os que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão , isto é, os que, da sua parte, não prevaricaram como Adão: estes são as crianças, que não tiveram tempo de pecar, mas foram punidas somente pelo original. O qual Adão é figura do que havia de vir , isto é, do futuro Adão, que é Cristo. Adão foi figura de Cristo porque, assim como aquele é pai de todos segundo a carne, assim Cristo é pai dos fiéis segundo a fé; e, assim como do lado de Adão adormecido foi formada Eva, assim do lado de Cristo adormecido no sono da morte na Cruz foi fabricada a Igreja. E Adão é figura de Cristo porque Deus decretou emendar por um só Cristo o que por um só Adão foi pecado. Ou leiamos assim, segundo Ambrósio: na verdade todos pecaram em Adão; pois o pecado original estava no mundo até a lei; mas, embora estivesse no mundo, esse pecado não era imputado, porque não havia lei que o desse a conhecer. Mas, embora esse pecado fosse ignorado, em pena desse pecado reinou a morte desde Adão até Moisés, não só sobre os que pecaram por obras atuais, mas também sobre os que pecaram à semelhança da transgressão de Adão, isto é, que por mera semelhança, por serem filhos de Adão, o prevaricador, foram condenados. Mostrou acima que um só Cristo é suficiente para a salvação de todos, porque um só Adão foi suficiente para a perdição de todos; e, assim como comparou a pessoa de Cristo à pessoa de Adão, assim opõe a causa de Cristo, isto é, a obediência, à causa de Adão, que é a desobediência; e opõe o efeito da causa de Cristo, isto é, a justificação no presente e a vida eterna no futuro, ao efeito daquela, isto é, à morte temporal e à condenação eterna. Prova também que a graça de Cristo abunda muito mais do que o pecado de Adão; pois, de Adão contraímos apenas o original, ao passo que a graça de Cristo, no batismo, perdoou não só o original, mas com ele todos os atuais. O texto liga-se assim: Adão foi figura antiga do futuro Adão; mas, embora uma pessoa fosse oposta a uma pessoa, as causas são dessemelhantes; não é, com efeito, o dom como o delito : não é, com efeito, o dom de Deus, que é a graça, como o delito de Adão. Na verdade o dom de Cristo não foi como o delito de Adão; pois o dom de Cristo abundou muito mais do que o delito de Adão, porque o delito foi um só, que chamamos original; Cristo, porém, perdoou o original e todos os atuais. E prova: realmente só Cristo foi suficiente para a justificação de todos; pois, se pelo delito , isto é, por meio do delito de um só Adão, e por um só (o que determinará mais plenamente a seguir), isto é, pela desobediência; se por este delito, diz, que chamamos original, muitos morreram , contraindo esse original do primeiro pai (diz muitos não porque nem todos tenham sido atingidos por este pecado, mas porque nem todos foram retidos nele perseverando, depondo esse original pela fé recebida em Cristo); se, diz, pelo delito de um só muitos morreram, muito mais , segundo a dignidade da pessoa e da causa de Cristo, abundou a graça de Deus , isto é, a remissão dos pecados. Abundou também o dom , isto é, o fortalecimento pelo Espírito Santo; depois de remitidos os pecados, são com efeito necessárias as armas do Espírito Santo, com as quais resistamos ao diabo que mal aconselha. A graça , diz, e o dom abundaram na graça , isto é, pela graça de um só homem . Diz com acerto pela graça , porque, assim como a contração do original foi por necessidade, assim a salvação foi feita pela graça, isto é, pela vontade; ninguém, com efeito, se salva senão por vontade. Assim como, diz, o delito de um só se difundiu em muitos, assim igualmente a graça de um só homem abundou em muitos. Não diz que a graça abundou em mais do que o delito, mas sobre muitos , isto é, em muitos; nem todos, com efeito, foram salvos, porque não quiseram. De um só homem, digo, que não pôde menos do que quis; pois de Jesus Cristo , isto é, do Salvador e Rei. Como diversificou as causas de Cristo e de Adão, assim distingue os efeitos das causas ao opô-los, dizendo: assim como o dom de Cristo não foi como o delito de Adão, assim também não é como o que veio por um só que pecou o dom , isto é, os efeitos do pecado de Adão e da graça de Cristo são diversos, porque o pecado é simples, o dom, porém, é múltiplo. E prova-o dizendo: na verdade o efeito do pecado de Adão e o efeito da graça de Deus não são semelhantes; pois o julgamento , isto é, a justa sentença de Deus, leva à condenação , isto é, condena os filhos de Adão a partir de um só delito , isto é, somente por causa do original; mas a graça de Cristo leva à justificação , isto é, justifica seus filhos a partir de muitos delitos , isto é, tanto dos atuais quanto do original. Deve-se notar que aquele primeiro pecado debilitou, sim, a nossa natureza e a tornou mais propensa à queda, mas não foi causa dos pecados atuais, aos quais poderíamos resistir pela razão natural (embora em grande parte debilitada). Deve-se ver também que, embora no pecado de Adão se considerem muitas coisas, como a soberba e a gula, diz-se apenas um, porque a desobediência. Prova que a graça justificou a partir de muitos delitos, dizendo: realmente pela graça de Cristo os homens são justificados a partir de muitos delitos; pois, recebida a justiça (o que é maior), reinarão com Cristo na vida eterna; o que diz equivalentemente: os homens que recebem a abundância da graça , isto é, a remissão abundante, porque não só do original, mas de todos os atuais; e que recebem a abundância do dom , isto é, os dons do Espírito Santo, abundantes para o fortalecimento no bem; e que recebem a abundância da justiça , isto é, da operação justa, porque, depois de remitidos os pecados e fortalecidos pelo Espírito Santo, só então é lícito obrar bem; estes, digo, que recebem estas coisas, reinarão com Deus postos na vida eterna: todas as quais coisas, a graça, o dom e o reino, receberão por meio de um só, Jesus Cristo . E realmente por este só; porque, se no delito de um só Adão, que foi causa da perdição, a morte reinou , tanto temporal quanto eterna, por meio de um só , por um só delito, isto é, pela desobediência, muito mais , segundo a dignidade da pessoa, da causa e do efeito, os que são recebedores da abundância da graça, do dom e da justiça reinarão na vida por meio de um só Jesus Cristo . Já que ali há também semelhança, pois Adão é um e Cristo é um, e há a maioridade segundo a dignidade, que foi dita: portanto, do semelhante e do maior posso inferir que, assim como pelo delito de um só Adão, delito, digo, que passa a todos os homens, se chegou à condenação, assim também pela justiça de um só Cristo , que passa a todos os homens segundo a potência (Cristo, com efeito, deu o preço suficiente por todos), por meio da justiça de um só , diz, chegou-se à justificação que dá a vida . Mostrou suficientemente acima que Cristo era poderoso e bastava para restaurar tudo o que caíra por Adão, mas não determinara o que fazia nesta reparação, se por potência ou por mérito; o que aqui determina, dizendo que, assim como Adão, merecendo mal pela desobediência, precipitou a todos, assim Cristo, merecendo bem pela obediência, redimiu a todos. O texto liga-se assim: na verdade pelo delito de um só todos são condenados, pois pela desobediência; e assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores , porque nem todos permaneceram no pecado, assim também pela obediência de um só Cristo, que isto mereceu, muitos serão constituídos justos : muitos, porque nem todos quiseram ser justificados. Como agora diz que Cristo justifica os homens dos pecados, diz que também os transgressores da lei justifica da prevaricação da lei recebida; e aduz isto para comprovar que os judeus são mais obnóxios à graça de Deus do que os próprios gentios, aos quais se preferiam nesta nova graça; porque os gentios eram réus somente da lei natural, os judeus, porém, eram réus da prevaricação tanto da lei natural quanto da escrita. O texto liga-se assim: a obediência de Cristo justificou muitos; a lei, porém, interveio para que abundasse o delito — interveio , diz, porque o pecado já antes entrara — a lei entrou para que o delito abundasse, não porque a lei fosse má, mas porque sob ela estavam aqueles que tornaria réus, mandando, e não ajudando. A lei era tida de três modos em seu tempo: para alguns era apenas sinal, como para Abraão, que foi circuncidado não para ser por isso justificado, mas como sinal da justificação já recebida pela fé; para outros a lei era pedagogo, de modo que, assim como a guarda dos pedagogos refreia o menino para que não se desmande vagando, assim a lei, ameaçando com a pena, refreava alguns do ato do pecado; para outros, porém, a lei era causa de prevaricação. Nestes dois primeiros, para os quais a lei era sinal da justiça ou pedagogo, nada operava; porque os que eram justos, como Abraão, o eram pela fé, não pela lei; os que se refreavam do mal pelo temor, não o faziam pela lei, mas pelo dom do Espírito Santo, isto é, pelo espírito de temor. Para outros, porém, a lei era causa de delito, porque de prevaricação. Pela lei o delito abundou, mas pela graça foi esvaziado; onde quer que o delito tenha abundado, sob a lei ou fora da lei, aí a graça superabundou sobre o delito; porque não só perdoou os pecados, mas também concedeu operar com justiça. Como alguns ainda erravam por causa do que foi dito, que a graça superabundou onde houve delito, dizendo que podiam pecar impunemente, até oportunamente, porque a graça de Deus tudo perdoaria e, quanto mais, tanto mais gloriosa seria, Paulo determina que a graça de Deus, quantos sejam os pecados, no batismo os perdoa todos, mas, depois de justificados, se pecam de novo, os pecados não serão perdoados como antes por graça, mas pelo mérito da penitência; por isso diz: a graça de Deus abundou certamente com esta condição: para que, assim como o pecado reinava antes da justificação levando à morte, assim também a graça reine , depois de perdoar os pecados, pela justiça recebida e bem conservada, indo para a vida eterna , não olhando mais para a iniquidade: reine, digo, por nosso Senhor Jesus Cristo , que, depois de justificar pela graça, dá a vida eterna. Capítulo 6 Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo algum. Nós, que morremos para o pecado, como viveremos ainda nele? Ou ignorais, irmãos, que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados em sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida. Porque, se fomos enxertados nele pela semelhança de sua morte, também o seremos pela de sua ressurreição. Sabendo isto: que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com ele, para que seja destruído o corpo do pecado, e não sirvamos mais ao pecado. Pois quem morreu, está justificado do pecado. Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Cristo; sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido para o pecado, morreu uma vez por todas; quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós, considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, para que obedeçais às suas concupiscências. Nem ofereçais os vossos membros ao pecado como armas de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como vivos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como armas de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Que então? Pecaremos, porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo algum. Não sabeis que, àquele a quem vos ofereceis como servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, seja do pecado para a morte, seja da obediência para a justiça? Mas graças a Deus, porque fostes servos do pecado, mas obedecestes de coração àquela forma de doutrina a que fostes entregues; libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça. Falo à maneira humana, por causa da fraqueza de vossa carne; assim como oferecestes os vossos membros para servir à imundície e à iniquidade, para a iniquidade, assim agora oferecei os vossos membros para servir à justiça, para a santificação. Pois, quando éreis servos do pecado, éreis livres em relação à justiça. Que fruto tivestes então nas coisas de que agora vos envergonhais? Pois o fim delas é a morte. Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte; mas a graça de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Comentário Visto que a graça deve reinar pela justiça sempre conservada, até chegar à vida eterna, que diremos, pois? Permaneceremos de novo no pecado, já justificados pela graça, para que a graça abunde , perdoando de novo gratuitamente o que de novo delinquimos? De modo algum , que voltemos ao pecado com tão perversa intenção. Aqui começa a falar da dupla ressurreição: a primeira, pela qual somos justificados segundo a alma no batismo, batismo que Cristo consagrou para nós em sua morte, derramando de seu lado a água da remissão; insinuando que devemos morrer com Ele no batismo, para que, assim como Ele, tendo morrido uma vez, não voltou aos atos do homem velho, assim também nós, uma vez justificados no batismo, matando ali toda a velhice do pecado, guardemos a ressurreição da alma (ali, com efeito, a alma justificada ressurge), andando em novidade de vida; porque, se tivermos conservado na justiça a ressurreição da alma, teremos certamente a futura ressurreição dos corpos com Cristo, na incorrupção. Voltemos à letra, onde prova que não se deve voltar ao pecado, dizendo: na verdade, aos que foram uma vez justificados, não se deve permanecer mais no pecado; pois nós, que no batismo morremos para o pecado , isto é, para que não pratiquemos mais o pecado, mortos, digo, segundo a velhice do pecado deposta, como , isto é, por que razão nós, que assim morremos com Cristo, viveremos ainda , isto é, perseveraremos nele , no pecado? E na verdade não deveis mais viver nesse pecado; porque ou ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus , isto é, por instituição de Cristo, ou por Cristo, que nos consagrou o batismo, nós fomos certamente batizados, isto é, lavados dos pecados, em sua morte , isto é, na semelhança de sua morte, para que, assim como Ele morreu uma vez e vive para sempre, assim também nós morramos uma vez, no batismo, para os pecados, e vivamos sempre na justificação? Assim como provou que, uma vez justificados, não devemos pecar de novo, assim prova também que podemos conter-nos bem do pecado, dizendo: na verdade, os justificados temos o poder, se queremos, de não pecar; pois fomos sepultados com Ele , não só mortos, na morte pelo batismo ; assim como Cristo, posto no sepulcro, não teve poder, segundo a carne, de estender mão ou pé para os atos do homem velho, assim também a nós, se queremos, deu no batismo poder de não voltar mais à velhice do pecado. Para isto fomos sepultados, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos , para não retomar mais ato de mortalidade (ressuscitou, digo, pela glória do Pai , isto é, pelo Verbo a Ele unido, ou para engrandecer a glória do Pai), assim também nós andemos , postos em novidade de vida , isto é, na ressurreição da alma justificada pelo batismo, progredindo na novidade recebida. Na verdade podemos andar em novidade de vida; pois somos semelhantes à sua Ressurreição, porque, assim como Cristo ao ressurgir foi homem novo, assim também nós, deposta pelo batismo a velhice do pecado, sejamos homens novos na novidade das boas obras. E na verdade seremos semelhantes à sua Ressurreição se fomos enxertados ; e isto não se pode fazer por nós, mas pela graça de Deus, feitos enxertados na semelhança de sua morte , isto é, se tivermos morrido com Cristo, com esta semelhança: que, assim como Ele, uma vez deposta a miséria do homem velho, não voltou mais a ela, assim também nós, uma vez deposta no batismo a velhice do pecado, não voltemos mais a ela; se, pois, fomos assim enxertados na semelhança de sua morte, também o seremos , simultaneamente, por mérito da unidade da morte, na semelhança de sua Ressurreição , progredindo na novidade das obras. Enxertados diz-se a partir da semelhança com o ramo de uma boa árvore que é inserido no tronco de uma árvore má e ali produz frutos novos; assim também a novidade da justificação, inserida no tronco de nossa velhice, extinto o sabor antigo, produza frutos da novidade inserida. Devemos, sem dúvida, fazer-nos semelhantes à morte de Cristo; sabendo isto: que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com Cristo na Cruz, para que seja destruído em nós o corpo do pecado ; seja de tal modo destruído o nosso corpo naquilo em que pecava que não sirvamos mais ao pecado , mas tenhamos império sobre o pecado. O Senhor Jesus poderia, se quisesse, escolher outro gênero de morte, mas não sem mistério quis antes ser pregado à cruz, significando-nos que, assim como teve afixados as mãos e os pés, isto é, os sentidos humanos, assim também nós tenhamos afixados não só as obras, mas também os sentidos, para que não pensemos nem pratiquemos o mal. E devemos e podemos bem não servir ao pecado; pois aquele que morreu no batismo está libertado do pecado ; e não só isso, mas também justificado do pecado . Depois de ter ensinado suficientemente sobre a primeira ressurreição, que é a da alma, como deve ser observada, acrescenta sobre a segunda, dizendo que a teremos por mérito da primeira bem guardada; e, para sermos mais cativados pelo amor dela, faz a sua recomendação, mostrando quão digna e quão útil é, dizendo: não só justificamos mortos ao pecado, justificação que é a primeira ressurreição, mas também, se morremos com Cristo para o pecado, isto é, de modo que, assim como Cristo, tendo morrido uma vez, nunca voltou à velhice deposta, assim também nós, mortos uma vez para o pecado pelo batismo, não voltemos ao pecado; cremos certamente que também viveremos na segunda ressurreição juntamente , isto é, tornados impassíveis e imortais; e isto não em outro lugar senão com Cristo , isto é, viveremos postos em sua presença, incorruptíveis. Se morremos com Cristo, cremos certamente que viveremos com Cristo, sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre , isto é, já não provará mais a morte; porque, tendo morrido uma vez, foi suficiente para a justificação de todos. E não só não morre, mas também a morte já não tem domínio sobre Ele . Os domínios da morte são a fome, a penúria, as febres e todas as misérias; a cabeça e a consumação de todas as misérias é a morte: mas nem a morte nem as misérias, que são arautos da morte, dominarão mais a Cristo, que uma vez morreu. Na verdade Cristo já não morre; pois quanto a ter morrido para o pecado , isto é, para a destruição do pecado, morreu uma vez por todas , isto é, bastou-lhe morrer uma vez. E por isso basta-nos morrer uma vez com Ele no batismo, perseverando na justificação recebida. Prova também que a morte não dominará mais a Cristo; pois quanto a viver, vive para Deus , isto é, com a vida de Deus; porque, se vive como Deus vive, eternamente e sem corrupção, certamente não haverá nele domínio algum da morte. O que disse em geral, que devemos morrer com Cristo para viver com Ele, adapta agora aos romanos, para cuja instrução aqui visava, dizendo: visto que é necessário morrer com Cristo se queremos viver com Ele, assim , isto é, instruídos por esta razão, vós, romanos, considerai-vos mortos para o pecado , isto é, crede que morrestes no batismo, para que não estendais mais a mão ao ato do pecado; e, se assim estais mortos, considerai-vos também vivos para Deus , isto é, vivendo na justificação da alma recebida e, por este mérito, destinados a viver na incorrupção dos corpos; e tudo isto em Cristo Jesus , isto é, por Cristo Jesus, que no presente justifica e prepara a vida eterna aos que permanecem na justificação. O que havia dito acima, que morremos para o pecado e devemos viver para Deus, vendo que o homem de modo algum pode nesta vida abster-se dos veniais, determina em quais pecados devemos e podemos morrer, sabendo que o fomes do pecado está naturalmente em cada um, mas, já fortalecido o livre-arbítrio, podemos coibir o fomes do pecado para que não irrompa em ato; e, determinando isto, diz: visto que viveis para Deus, não reine, pois, o pecado , isto é, o fomes natural do pecado, em vós : reinar do pecado é consentir, agir e acostumar-se à obra do pecado. Não reine certamente o pecado em vosso corpo , isto é, que já é vosso e, pelo fortalecimento do livre-arbítrio, sujeito ao domínio da razão; corpo, digo, embora justificado, ainda mortal e, se não é regido pela razão, propenso à obra do pecado: por isso é preciso ver que, consentindo em vossa mortalidade, não deixeis de viver para Deus. Não reine, portanto, o pecado para que obedeçais às suas concupiscências , isto é, do pecado, isto é, para que não realizeis em obra o que a fraqueza de vossa carne mal aconselha. E não só não obedeçais por obra, mas nem ofereçais , de modo a torná-los prontos e disponíveis pelo consentimento, os vossos membros ao pecado ; porque, assim como não deveis operar, assim também não deveis consentir no mal: os vossos membros, digo, tornam-se então armas de iniquidade , se forem oferecidos ao pecado; se consentirdes, com efeito, ao pecado, então a iniquidade se arma com os vossos membros, para realizar por essas armas o que perversamente deseja. Não vos ofereçais ao delito, mas oferecei-vos a Deus , isto é, preparai-vos, obrando bem, idôneos para Deus, e é justo; vós, digo, tornados vivos na justiça dentre os mortos ; mortos, com efeito, éreis no pecado. E não só em ato oferecei-vos a Deus, mas também os vossos membros , no consentimento e na exortação dos bens, preparai para Deus; os vossos membros, digo, tornados então armas de justiça : com estas armas, com efeito, a justiça realizará o que bem aconselha e deseja. Devéis, certamente, e podeis oferecer-vos a Deus; pois o pecado, embora esteja naturalmente em vós, não terá domínio sobre vós , se quiserdes usar do livre-arbítrio fortalecido; antes, vós dominareis o próprio pecado, para que não tenha ato. Na verdade o pecado não terá domínio sobre vós; pois já não estais debaixo da lei , que tornava réus mandando e não ajudando, mas debaixo da graça , que perdoa os pecados e ajuda a operar o bem. Porque sente que alguns de novo erravam pelo que dissera, que tudo é perdoado pela graça, e que por essa confiança pecavam, porque a graça estava pronta e suficiente para relaxar tudo, diz, contra os que assim obram mal, que por esta intenção não se deve pecar, porque a graça, sim, tudo perdoa; mas, se alguém, pecando, se subtrair à graça, feito servo do pecado, como sabe se poderá voltar à graça, estando já atado ao jugo do pecado? Visto que estamos sob a graça, que suficientemente purifica tudo, que diremos, pois? Pecaremos licitamente porque não estamos debaixo da lei , que, mandando, pesa e não ajuda, mas debaixo da graça , que tanto remite os pecados quanto ajuda a obrar o bem? De modo algum . Isto, diz, deve estar longe: que pequemos por confiança na graça; porque não sabeis que, àquele a quem vos ofereceis como servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis? Feitos servos, digo, daquele a quem obedecestes, isto é, na hora em que depressa obedecestes; servos, digo, ou do pecado , a quem obedecestes, que conduz à morte, isto é, à condenação, ou servos da obediência , isto é, da justiça, que vos conduz a maior justiça; porque, obedecendo ao pecado, tornar-vos-eis servos do pecado e não podereis romper os grilhões desta servidão, perdida a liberdade. Por isso é bom que, feitos servos da justiça, não vos afasteis da graça; porque, feitos servos do pecado, não podeis por vosso direito voltar à graça. Perseverai, pois, na justiça; e não só por isso, mas também porque, tendo outrora deposto o jugo do pecado e sido feitos servos da justiça, se de novo recairdes no vômito da antiga servidão, sois réus de instabilidade e de justa perdição; o que diz assim: não só pelo que foi dito deveis perseverar na justiça, mas também pelo que segue: graças, porém, a Deus , meu Deus, que vos libertou gratuitamente, sem mérito vosso, do jugo do pecado; por isso dou graças, porque fostes servos do pecado , mas já obedecestes , e não coagidos, mas de coração , isto é, por própria vontade, indo à forma de doutrina , isto é, à doutrina que vos fez conformes a Deus (a imagem de Deus, com efeito, estava deformada e cegada em vós; mas pela minha instrução reformei em vós a imagem de Deus); forma , digo, aquela, isto é, tão excelente como a reforma da imagem de Deus; a que fostes entregues pela misericórdia de Deus e pela nossa doutrina; por vós mesmos, com efeito, éreis insuficientes para ser reformados. Outrora fostes servos do pecado, mas agora, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça ; e por isso não queirais ser reduzidos de novo à servidão do pecado. E a vós, já feitos servos da justiça, falo à maneira humana , isto é, ordeno-vos algo bastante leve, ao qual a vossa humanidade pode bastar; e, porque não vos ordeno o espiritual e o árduo, faço-o por causa da fraqueza de vossa carne , isto é, porque sei que ainda sois oprimidos pela carnalidade e não bastante firmes nas coisas espirituais. Falo certamente à maneira humana, pois isto é humano: assim como oferecestes os vossos membros para servir à imundície, isto é, à luxúria, à gula, à libido, servir também à iniquidade , isto é, a tudo o que é contrário à equidade, para a iniquidade , para consumar a iniquidade, ao menos assim, agora feitos fiéis, oferecei os vossos membros para servir à justiça, para a santificação , isto é, para a plenitude da justiça. Isto é certamente bastante humano: que tanto sirvais a Deus quanto servistes ao diabo, a quem sois muito mais obrigados. Na verdade, porque fostes feitos servos de Deus, deveis servir à justiça; pois quando éreis servos do pecado, éreis livres em relação à justiça , isto é, isentos de toda justiça, servindo fielmente ao pecado; mas agora, feitos servos da justiça, devéis servir a Deus muito mais fielmente. Visto que por amor do pecado vos fizestes isentos de toda justiça; que fruto , pois, isto é, que utilidade, tivestes então , antes da conversão, nas coisas de que agora vos envergonhais , depois da conversão? Por isso, perguntando assim, investe contra eles, para mais os afastar da servidão do pecado. Do fruto temporal do pecado pergunto só isto; pois quanto ao fim delas é bastante claro: o fim delas é a morte , isto é, no fim da vida a condenação eterna os absorve. Feitos servos do pecado, nenhum fruto tivestes, mas agora, libertados pela graça do pecado, feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto , isto é, digno da fé recebida; fruto, digo, que tende para a santificação , isto é, para a plenitude da justiça; os ímpios têm a morte, mas vós tendes por fim a vida eterna . Na verdade a morte é o fim deles; pois o salário do pecado é a morte , isto é, o pecado ministra esta paga, isto é, a morte: salário diz-se aquilo que o tribuno ou o pretor, pesada a recompensa do soldado, lhe ministra no exército. A morte vem do pecado, mas a vida eterna vem da graça de Deus ; embora haja ali algum mérito, a primeira justificação foi, contudo, somente da graça; e a direção da vida que se segue é, pela mesma graça, remunerada muito mais do que mereceu. A graça dá a vida eterna; e isto em Cristo Jesus, nosso Senhor , isto é, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Capítulo 7 Ou ignorais, irmãos (pois falo a quem conhece a lei), que a lei tem domínio sobre o homem enquanto ele vive? Pois a mulher casada está ligada pela lei ao marido enquanto ele vive; se, porém, o marido morrer, fica livre da lei do marido. Portanto, vivendo o marido, será chamada adúltera se estiver com outro homem; se, porém, o marido morrer, fica livre da lei do marido, de modo que não é adúltera se estiver com outro homem. Assim também vós, meus irmãos, fostes mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dos mortos, a fim de frutificarmos para Deus. Pois, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que se manifestavam pela lei, operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. Mas agora fomos libertados da lei da morte, na qual estávamos presos, de modo que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra. Que diremos, então? A lei é pecado? De modo algum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; pois não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás (Ex 20,17; Dt 5,21). Mas o pecado, tomando ocasião do mandamento, produziu em mim toda concupiscência. Pois sem a lei o pecado estava morto. Eu outrora vivia sem a lei. Mas, vindo o mandamento, o pecado reviveu; e eu morri; e o mandamento, que era para a vida, achei que era para a morte. Pois o pecado, tomando ocasião do mandamento, seduziu-me e por ele me matou. Assim, a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. O que é bom tornou-se, pois, morte para mim? De modo algum. Mas o pecado, para que se manifeste como pecado, por meio do que é bom produziu em mim a morte; a fim de que o pecado, pelo mandamento, se torne excessivamente pecaminoso. Sabemos, com efeito, que a lei é espiritual; eu, porém, sou carnal, vendido ao pecado. Pois o que faço, não o entendo. Pois não faço o bem que quero; mas o mal que odeio, esse faço. Se, porém, faço o que não quero, concordo com a lei, reconhecendo que é boa. Mas agora já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim. Pois sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem. Porque o querer está ao meu alcance, mas o realizar o bem, não o encontro. Pois não faço o bem que quero; mas o mal que não quero, esse pratico. Se, porém, faço o que não quero, já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim. Encontro, pois, esta lei: quando quero fazer o bem, o mal está ao meu lado; pois me deleito na lei de Deus segundo o homem interior; mas vejo nos meus membros outra lei, que luta contra a lei da minha mente e me torna cativo da lei do pecado que está nos meus membros. Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim, pois, eu mesmo sirvo com a mente à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado. Comentário Porque acima havia provado suficientemente que deviam sujeitar-se à graça e que se devia servir a Deus, para que agora não julgassem dever servir a Deus nas coisas legais (julgavam ser pecado, com efeito, se mesmo no tempo da graça omitissem as coisas legais), prova Paulo que já não se deve servir nas coisas legais, as quais, se as abandonam, não há pecado; se as praticam, são réus: não se deve, com efeito, reter a sombra depois que veio a verdade, e, expulsando a lei carnal, liga-os à lei espiritual. O texto liga-se assim: só por Cristo Jesus há a vida eterna; pois pela lei não; porque ou ignorais, irmãos — (para mais excitar ao entendimento desta coisa, chama-os irmãos e pergunta); nem devéis ignorar, pois falo a quem conhece a lei , porque, se bem consultardes, achareis o mesmo — ou ignorais , digo, que qualquer lei que seja posta tem domínio sobre o homem , não sempre, mas enquanto vive a lei nesse homem, ou o homem sob essa lei? Como se em alguma cidade se pusesse algum preceito até determinados anos: quem, dentro desses anos, não atendesse ao preceito posto seria réu de transgressão da lei posta; quem, porém, findos os anos determinados, agisse contra a lei posta, não seria réu por isso, porque o tempo da mesma lei já teria passado: assim também a respeito da lei dos judeus, quem não a observasse desde o tempo de Moisés até o tempo de Cristo seria réu; mas, depois que veio a graça, já passou o tempo dessa lei e assim não é réu quem a abandona. Na verdade a lei posta domina enquanto o homem vive sob a lei, ou a lei nele; pois esta é a lei conjugal: a mulher que está sob o marido , unida em modo marital, está ligada à lei do marido enquanto ele vive; mas, se o marido morrer, a mulher fica livre da lei do marido . Visto que a mulher, vivendo o marido, está ligada a ele: portanto, se, vivo seu marido, tiver relação com outro homem, será chamada adúltera; mas, se seu marido morrer, fica livre da lei do marido, de modo que , se estiver unida a outro homem, já não seja julgada adúltera. E assim, isto é, por razão semelhante, meus irmãos, vós fostes mortos para a lei antiga, que foi dada apenas até a vinda de Cristo: mortos, digo, pelo corpo de Cristo , isto é, por Cristo que veio, que foi o corpo, isto é, a verdade da própria lei, da qual corpo a lei foi sombra; e não mortos para ficardes viúvos, mas para que doravante sejais de outro , a saber, daquele que ressuscitou dos mortos , o que o torna bastante recomendável a vós. Ressuscitou para que por Ele frutifiquemos para Deus , isto é, pela graça, para a honra de Deus. E agora, finalmente, é lícito dar fruto sob a graça, porque, quando estávamos na carne , isto é, detidos na carnalidade, então as paixões dos pecados , isto é, os maus desejos, que embora o homem sensual os desejasse, o racional julgava, contudo, serem paixões; as quais paixões eram conhecidas pela lei e aumentadas pelo delito da prevaricação, operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte , isto é, para produzirem o fruto da condenação; mas agora, depois que veio a graça, fomos libertados da lei antiga, que era para nós lei da morte , na qual morte do pecado éramos retidos e não podíamos levantar-nos com o auxílio da lei. Fomos libertados, diz, da lei carnal, de modo que (isto é, por isso) doravante sirvamos em novidade de espírito , isto é, renovando-nos espiritualmente cada dia ao obrar bem, conforme aquilo: «Renovai-vos no espírito de vossa mente» (Ef 4,23); e não mais sirvamos na velhice da letra , aderindo ao entendimento literal, como costuma a velhice. Porque dissera acima que os judeus estavam mortos para a lei antiga e que não se devia voltar a ela, porque as paixões dos pecados eram pela lei e por ela frutificavam para a morte, chamara-a também lei da morte; para que os judeus não julgassem mal que Paulo entendesse isto como se a lei fosse causa eficiente do pecado e compelisse a pecar, prova que a lei, quanto está nela, é boa; que os judeus pecassem mais sob a lei, isto fazia a natureza corrompida, e não a lei. O texto liga-se assim: visto que pela lei frutificávamos para a morte, que diremos, pois? Diremos que a lei é pecado, isto é, causa eficiente do pecado e compelindo a pecar? De modo algum que digamos que a lei é pecado; porque, se o disséssemos, provaríamos que a lei é injusta e arguiríamos de injustiça a Deus, doador da lei, que teria dado uma lei que compele ao pecado. Pela lei não há pecado, mas o bem, pois é o conhecimento do pecado; não conheci o pecado senão pela lei . Antes da lei houve certamente conhecimento do pecado, quando o copeiro e o padeiro do Faraó foram postos no cárcere por causa de pecado; mas diz que pela lei foi conhecido o pecado, porque o original era ignorado por quase todos antes da lei, e muitos atuais não se sabiam ser pecado, como a concupiscência, de que acrescenta; também a pena infernal, que se segue aos pecados, não era assim conhecida, nem o prêmio futuro dos que não pecam; julgavam, com efeito, que todos permaneceriam no inferno, embora com dessemelhança de penas: mas pela lei foi conhecido o original, foram conhecidos também muitos atuais antes desconhecidos; e mesmo os que eram conhecidos não se criam tão graves: foi conhecida também a condenação futura pelos pecados. E por isso diz: pela lei conheci o pecado, tanto o original quanto os atuais, quão graves eram, e a pena futura por eles. Na verdade pela lei conheci o pecado; pois não conheceria a concupiscência , que não sabia ser pecado, se a lei não dissesse: Não cobiçarás . A lei é certamente boa, porque dá o conhecimento do pecado; mas, contudo, pela lei nada de bom, mas todo mal tive, embora não por culpa da lei; o que diz equivalentemente: embora a lei seja boa, o pecado , isto é, a natureza corrompida, ou o diabo que instiga, produziu em mim toda concupiscência , isto é, na vontade, no ato, no costume de pecar; isto, diz, produziu o pecado, tomando ocasião do mandamento , isto é, da lei mandada aos homens; tomando, diz, ocasião, isto é, oportunidade da lei, seja porque a fragilidade humana mais tendia ao proibido, seja porque o diabo, recebida a lei, mais fervorosamente insultava o homem, vendo que a lei dada seria certo degrau para o homem voltar à salvação, o qual antes, possuindo em pacífico direito, negligenciava inquietar. Deve-se notar também que chama pecado à natureza corrompida; há, com efeito, em cada um o homem sensual e o espiritual: sensual chama-se aquela parte da alma, com o corpo, que dá sensibilidade ao corpo e que é de tal modo oprimida pelo peso da carne que, por cada sentido, se congratula com o prazer, amando o suave ao paladar, o canoro à audição, o deleitável à vista, o agradável ao tato, o bem cheiroso ao olfato. A outra parte da alma, que não é assim oprimida pela carne e aqui se chama racionalidade, contradiz a sensualidade e naturalmente deseja o que é bom. Na verdade o pecado produziu em mim o mal pelo mandamento; pois sem a lei o pecado estava morto , isto é, a natureza corrompida, enquanto menos era combatida pelo diabo, menos desejava o pecado, porque não era proibido. O pecado estava então morto, eu, porém, vivia , isto é, parecia-me viver, outrora sem a lei ; porque também conhecia menos, nem desejava tanto o pecado, nem o diabo ardia tanto. Antes da lei o pecado estava morto; mas, vindo o mandamento, o pecado reviveu , o que estava morto, isto é, a natureza corrompida retomou as forças, incitando mais o diabo e, como é vício da fragilidade humana, desejando mais o proibido. Reviveu, diz, porque no princípio havia vivido, e o original fora conhecido quando ainda era recente. Vindo o mandamento, reviveu o pecado; eu, porém, morri , feito réu não só dos anteriores, mas também da prevaricação da lei dada; e visto que pela lei reviveu o pecado e eu morri, portanto o mandamento que me fora dado para a vida , segundo a intenção do doador, esse mandamento já não para a vida, mas, invertido, achei que era para a morte ; não porque me compelisse ao pecado, mas porque foi causa sem a qual nem seria réu de prevaricação, e causa por que o diabo mais insurgia, contra o que a lei não ajudava, mas, preceituando, impedia. Diz com acerto: achei ; não fora posto, com efeito, o mandamento para a morte. Prova que o mandamento lhe foi para a morte, não, porém, por culpa da lei, mas por vício da natureza corrompida que compele, dizendo: na verdade o mandamento foi achado para a morte; pois o pecado , isto é, a sensualidade corrompida ou o diabo, tomando ocasião , seja porque a sugestão do prazer ao pecado é mais veemente quando há proibição, seja porque o diabo mais ardentemente insistia; assim, tomada a oportunidade pelo mandamento, seduziu-me , para que consentisse ao pecado, e por ele me matou , precipitando-me no ato do pecado; e visto que o mandamento era para a vida, por culpa do pecado foi invertido para a morte. Portanto a lei é santa , isto é, os preceitos da lei são santos, e o mandamento , isto é, a obra dos preceitos, como jejuar, dar esmola, este mandamento , diz, santo , isto é, sancionado e firmado no bem; é também justo , guardando a equidade para com o próximo; é também bom , isto é, útil a quem o cumpre. Agora provou suficientemente que a lei é boa em si; mas dir-se-ia o judeu: não me importa se a lei é boa, já que me é causa de condenação. Contra isso Paulo prova que pela lei ninguém é condenado, mas antes nutrido no bem; a natureza corrompida, porém, é que é a causa que compele ao pecado; por isso diz: visto que o mandamento é santo, o que é bom em si deve-se crer que se me tornou morte , isto é, causa que me compele à morte? De modo algum que o que é bom seja causa que produz o mal: o mandamento, que é bom, não se me tornou morte, mas o pecado , isto é, a natureza corrompida, ou o diabo que instiga ao pecado; para que se manifeste , digo, isto é, para que seja conhecido como pecado, por meio do que é bom produziu em mim a morte , isto é, tomada a ocasião da lei que é boa, forçou-me a pecar mais, e mesmo a prevaricar, o que antes não existia; produziu, diz, por meio do bem, a fim de que o pecado se torne excessivamente pecaminoso agora na lei, acima do modo anterior, isto é, antes que a lei fosse dada, pelo mandamento , isto é, pecando mais pela prevaricação do mandamento. Na verdade a lei não produziu a morte, mas o pecado; pois nós sabemos , por autoridade que tem força, sabemos certamente que a lei é espiritual , isto é, ou dada pelo Espírito Santo ou nutrindo o espírito do homem; se algum dos dois for verdade, é claro que não é causa de morte. A lei é espiritual, eu, porém, sou carnal , isto é, aderente à carnalidade, vendido , a quem o primeiro pai vendeu pelo gosto do fruto; e não de modo a estar apenas no pecado, mas também sob o pecado ; porque, embora queira e trabalhe longamente, por mim, contudo, não posso levantar-me. Aqui começa a mostrar que a lei e o homem racional concordam na vontade do bem, mas são, contudo, superados por aquele terceiro, isto é, pela natureza corrompida. E isto da racionalidade, que seja boa e queira o bem, prova convenientemente; pois, assim como, se a lei fosse má, o doador da lei seria por isso vituperado, assim também, se a razão natural fosse adversa ao bem, com justiça quem deu a razão seria caluniado pelo mal da razão: na verdade estou sob o pecado; pois o que eu opero , seja deixando o bem, o que é certamente obrar o mal, seja fazendo o mal; o que, digo, opero eu sensual, não o entendo , eu racional, que se deva operar. Na verdade opero, deixando o bem, que entendo que se deve operar; não faço, com efeito, o bem que quero eu racional: e realmente opero fazendo o mal, que entendo que não se deve operar; pois eu carnal faço o que odeio eu racional. E agora, porque a lei é espiritual e boa, e a minha racionalidade quer o bem com a lei, daí aparece que a lei e a razão sentem juntas, embora a carnalidade prevaleça. Faço, diz, o que odeio, isto é, o que não quero; se, porém, faço o que não quero , eu racional, o que faço carnal, eis que já concordo com a lei , isto é, querendo o mesmo, sou testemunha em favor da lei de que é boa. Visto que eu racional não quero o que faço carnal; portanto agora (esse "agora" é ilativo) eu racional já não sou eu que o faço , o que opera a carne contra a minha vontade, mas o pecado , isto é, o fomes do pecado, que habita em mim , isto é, permanece assiduamente em mim carnal. E na verdade o pecado habita em mim, porque o bem não habita em mim; o que diz assim: sei, com efeito, que em mim não habita o bem , isto é, em minha carne , isto é, em mim carnal. E prova-o: realmente o bem não habita em minha carne, nem pela vontade nem pelo ato: pela vontade, não habita; pois o querer está ao meu alcance , a mim carnal, isto é, de certo modo se aproxima da carne (ninguém, com efeito, é tão ímpio que alguma vez, ao menos, não queira o bem); se está ao alcance, então não habita em mim. O querer o bem está ao alcance; mas realizar esse bem de modo algum o encontro em minha carne. Na verdade realizar o bem não está em mim carnal; pois eu carnal não faço o bem que quero racional. Mas pratico , carnal, o mal que não quero , racional. Ou de outro modo: na verdade não encontro em mim o realizar o bem por inteiro; pois nem mesmo faço o bem que reconheço ser bom e por isso quero fazer; mas nem todos os bens me são conhecidos. Do que disse acima para provar outra coisa, não faço o bem que quero , provado isto de novo por outro modo, infere dizendo: visto que eu racional não quero o mal que faço carnal, portanto eu racional já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim , isto é, a corrupção da natureza, que pecado habita em mim carnal, opera esse mal. Repete o ponto de onde infere: se faço o que não quero . Visto que eu racional não quero o mal, e a lei (como foi provado) igualmente não quer o mal, portanto eu racional encontro esta lei , que ela é boa, isto é, útil a mim racional que quero fazer o bem . A lei que ensina o bem e a razão que quer o bem encontram-se mutuamente, consentindo no bem. A mim que quero fazer o bem, e não o faço, digo bem, porque o mal da carnalidade está ao meu lado , racional; e por isso não consigo realizar o bem que quero. Nota que Paulo figuradamente fala de todos sob a sua pessoa, assumindo a pessoa ora anterior à lei, ora na lei. Na verdade encontro o bem em mim; pois me deleito na lei de Deus , porque ela quer o bem e eu com ela; deleito-me, digo, segundo o homem interior , porque o homem interior racional quer, sim, o bem, embora não possa operá-lo. Como agora disse que a lei e a racionalidade querem o bem, mostra que ambas são superadas por um terceiro, isto é, pela carnalidade, e que esse terceiro deve ser superado pela graça; e isto faz com muita pertinência: pois, ao mostrar que a lei é deprimida pela carnalidade e que os que estiveram sob a lei nada fizeram de bom senão pela graça, insinua claramente por isso que os judeus devem sujeitar-se inteiramente à graça de Deus, e não mais à lei; e, por outro lado, ao dizer que a racionalidade, embora quisesse o bem, sucumbiu, contudo, à carnalidade, deprime os gentios, para que não se ensoberbeçam do livre-arbítrio, e assim sujeita todos à graça de Deus: embora segundo o interior me deleite na lei de Deus, vejo, contudo, outra lei em meus membros , isto é, em minha carnalidade (chama lei porque, assim como a razão dita fazer o que é bom, assim a sensualidade, o que é mau); lei dos membros, digo, que luta contra a lei de minha mente , isto é, contra os bens que a razão aconselha; e não só luta, mas também me torna cativo da lei do pecado , para que opere o que a sensualidade corrompida dita; lei do pecado que está em meus membros , isto é, difundida em cada sentido. E visto que a lei dos membros me conduz cativo ao pecado, portanto eu racional sou infeliz , porque sou homem , isto é, porque sou deprimido pela carnalidade; e a mim infeliz, quem me libertará deste corpo de morte , isto é, da morte dos pecados, que estão em meu corpo? Ou então, deste corpo de morte , isto é, de toda esta massa de pecados que conduzem à morte. A lei não pode libertar a mim judeu, nem a razão natural a mim gentio; como estas faltam em ambos, sei a minha libertação: a graça de Deus , dada por Jesus Cristo, nosso Senhor . Esta certamente me libertará, e por isso vós, judeus, sujeitai-vos à graça eficaz, e não à lei impotente; vós, por outro lado, gentios, à graça de Deus, e não à razão debilitada. Deve-se considerar que o querer o bem é duplo no homem: um, segundo a razão natural, que, deprimida pela corrupção do pecado, não basta para operar o bem que quer; outro querer, segundo a inspiração do Espírito Santo, pelo qual o fomes do pecado é deprimido, para que possamos operar o bem. O querer da razão natural era aquele de que dizia acima: não faço o bem que quero . Dissera acima que o homem interior e a lei se deleitam no bem somente pela vontade, não pelo ato, porque contra esses dois se robustecia o fomes do pecado, combatendo a lei e a razão; mas, depois que Deus mostrou que ambos os bens, o da lei e o da razão, faltam ao homem, deu por fim a sua graça, que fortaleceu o livre-arbítrio, de modo que agora, se quiser, o homem possa operar o bem e coibir bem o fomes do pecado. Que Deus, pela graça, não tenha separado inteiramente do fomes do pecado o homem redimido teve esta causa: porque deixou ao homem o mérito; se, com efeito, o homem não pecasse somente por necessidade, porque não poderia, não haveria mérito pelo qual devesse ser salvo; mas, para que houvesse lugar de merecer, deixou o fomes do pecado resistente, porém debilitado e, se o homem quiser, sujeito à razão. Que, por outro lado, o homem redimido do pecado não tenha sido restituído em tanta dignidade quanta tinha Adão quando caiu, foi feito para que o homem, ensoberbecendo-se de tão súbita e tamanha felicidade, não caísse de novo irreparavelmente; por isso, para memória do pecado e guarda da humildade, foi oportunamente deixada a pena do pecado, a fim de que também por isso se mostre a força do Espírito Santo, com cujo auxílio o homem racional submete a si o carnal, a quem esteve sujeito enquanto esteve sem a graça. O texto liga-se assim: visto que a graça de Deus, dada por Jesus Cristo, me libertou, portanto eu mesmo , que antes da graça estava sujeito à carnalidade, agora, podendo operar o que de bom queria, não só quero, mas também sirvo com a mente , isto é, tenho o poder, conforme a razão aconselha, de servir à lei de Deus obrando bem; e não de modo tal que o fomes do pecado esteja inteiramente destruído em mim, mas tenho o poder de servir com a carne , isto é, segundo a carnalidade, à lei do pecado . Nisto também assinala o maior milagre: que o fomes do pecado, contra o qual antes nada podia a razão, agora esteja sujeito à razão, se o homem quiser. Capítulo 8 Portanto, nenhuma condenação há agora para os que estão em Cristo Jesus, os que não andam segundo a carne. Pois a lei do espírito de vida, em Cristo Jesus, libertou-me da lei do pecado e da morte. Com efeito, o que era impossível à lei, enquanto enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu Filho em semelhança de carne de pecado, e por causa do pecado condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça da lei fosse cumprida em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito. Pois os que vivem segundo a carne cuidam das coisas da carne; os que vivem segundo o espírito, das coisas do espírito. Porque a prudência da carne é morte; a prudência do espírito, porém, é vida e paz. Pois a sabedoria da carne é inimiga de Deus; não se submete à lei de Deus, nem o pode. Os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele. Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justificação. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por causa de seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis; se, porém, pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Com efeito, não recebestes o espírito de servidão, para estardes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: Abba (Pai). O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Se filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se é que sofremos com ele para sermos também com ele glorificados. Julgo, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não são dignos de comparação com a glória futura que se há de revelar em nós. Pois a ansiosa expectativa da criatura aguarda a revelação dos filhos de Deus. A criatura, com efeito, foi sujeita à vaidade, não de bom grado, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança; porque também a própria criatura será libertada da servidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Sabemos, com efeito, que toda a criatura geme e sofre dores de parto até agora. E não só ela, mas também nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção de nosso corpo. Pois fomos salvos em esperança. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o esperaria? Se, porém, esperamos o que não vemos, aguardamo-lo com perseverança. Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza; pois não sabemos o que devemos pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que perscruta os corações sabe qual é o desejo do Espírito; porque ele intercede pelos santos segundo Deus. Sabemos, porém, que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, dos que, segundo o seu desígnio, são chamados santos. Pois os que ele previu, também os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, a esses também chamou; e os que chamou, a esses também justificou; e os que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, a respeito disto? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria também com ele todas as coisas? Quem acusará os eleitos de Deus? Deus é quem os justifica; quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, que está à direita de Deus, e que também intercede por nós. Quem, pois, nos separará da caridade de Cristo? A tribulação? A angústia? A fome? A nudez? O perigo? A perseguição? A espada? (Como está escrito: Por tua causa somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro) (Sl 43,23). Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores por aquele que nos amou. Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem as Virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a fortaleza, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura alguma poderá separar-nos da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Comentário Visto que posso servir à lei de Deus com a mente, portanto, agora, no tempo da graça, nenhuma condenação resta àqueles que estão em Cristo Jesus , isto é, que renasceram na fé de Cristo; não porque às vezes sejam bons e às vezes deixem de agir mal, mas porque estão de tal modo em Cristo Jesus que não andam segundo a carne , isto é, não se comprazem nos males, seguindo a carnalidade. Diz oportunamente andar , afastando outra coisa: é impossível, com efeito, não fazer às vezes as coisas da carne; por isso não disse "os que estão segundo a carne", mas os que andam , isto é, os que não se arrependem do mal, mas, acostumando-se, se deleitam nele. Na verdade nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus; pois a lei do espírito , isto é, ou a que o Espírito Santo dita, ou a própria racionalidade; do espírito, digo, do doador da vida, isto é, que dá viver aqui nas virtudes, de onde provém também a vida eterna; da vida, digo, tida em Cristo Jesus , isto é, por Cristo Jesus, libertou-me da lei do pecado , isto é, do fomes do pecado, e da morte , isto é, do ato do fomes do pecado, para que não praticasse o que o fomes mal aconselha. Na verdade fui libertado da lei do pecado; pois pelo Filho de Deus: Deus, com efeito, enviou seu Filho; não que o Filho estivesse ausente de algum lugar, mas porque Ele, invisível por natureza, tornou-se visível pela carne unida a si, diz-se enviado segundo o nosso conhecimento. Enviou certamente Deus seu Filho, não em carne de pecado, mas em semelhança de carne de pecado , isto é, em carne semelhante à carne pecadora: Cristo, com efeito, suportou toda a matéria da carne, exceto o pecado. E pelo Filho enviado condenou o pecado , isto é, o fomes do pecado, que estava em nossa carne, por causa do pecado , isto é, pelo Filho, que foi vítima oferecida pelos pecados de todos; por isso Cristo também foi chamado pecado: a vítima oferecida pelo pecado, com efeito, chamava-se pecado, ou pelo pecado . Ou assim: condenou o pecado, isto é, Satanás, por causa do pecado que o diabo cometeu na carne de Cristo; o diabo, com efeito, tinha direito sobre todo homem por causa do pecado original; do qual, porque Cristo não era réu (não nasceu, com efeito, na concupiscência da carne), usurpou contra Ele um direito indevido; por isso perdeu o direito que lhe fora concedido sobre todos, e assim, porque se apossou do que não lhe fora concedido, perdeu justamente o que lhe fora concedido. Condenou certamente o pecado a fim de que a justiça da lei fosse cumprida em nós , isto é, a que a lei prefigurava e não podia cumprir em nós definitivamente; nós que não andamos segundo a carne , isto é, seguindo os desejos da carne, mas segundo o espírito , isto é, segundo o que o Espírito Santo ou a razão dita. Condenou, digo, o pecado; o que, a saber, condenar o pecado, era impossível à lei : a lei, com efeito, era impotente para libertar do original, enquanto nisto, isto é, em cumprir a justificação, a lei se enfraquecia pela carne , isto é, porque seguia a carnalidade. Na verdade a justificação não se cumpre naqueles que andam segundo a carne; pois os que seguem a carnalidade cuidam , isto é, tomam bom sabor nas coisas que são da carne. Daqui em diante, nas passagens seguintes, recomendará longamente a lei espiritual por oposição, deprimindo a carnal. Que diria alguém a respeito, se cuidam das coisas da carne? É certamente grande mal isto; pois a prudência da carne é morte , isto é, ocupar-se das coisas que a carne persuade é morte da alma. Naqueles que seguem o espírito cumprir-se-á a justificação da lei; pois os que são segundo o espírito cuidam, isto é, saboreiam e seguem as coisas que são do espírito . E que diria alguém a respeito? Muito, na verdade; pois a prudência do espírito é vida , isto é, viver aqui nas virtudes, e paz , isto é, tranquilidade do ânimo e sossego das tentações; nem todos, com efeito, os que vivem nas virtudes têm esta paz, mas bem poucos. Por isso a prudência da carne é morte, porque a sabedoria da carne é inimiga de Deus ; enquanto é inimiga de Deus, não pode viver, mas quem antepõe a Deus o bem de sua carnalidade diminui, quanto está em si, o reino de Deus, submetendo-se ao reino da carne. Na verdade a sabedoria da carne é inimiga de Deus; pois não se submete à lei de Deus , mas ao império da carne: não se submete, nem o pode , enquanto aderir à carnalidade. Por que procuro, com efeito, enumerar cada coisa, dizendo: a prudência da carne é morte e inimiga de Deus? Para compreender em poucas palavras: os que estão na carne , isto é, na carnalidade, enquanto aí são retidos, não podem agradar a Deus . Porque acabava de dizer que os que estão na carne não podem agradar a Deus, para que por isso não atemorizasse os romanos, que, tendo recebido antes a justificação, haviam recaído em alguns pecados, acalma-os lisonjeando-os, insinuando, contudo, claramente o que devem fazer: os que estão na carne não podem agradar a Deus; vós, porém, ó romanos, não estais na carne , nem entendo que estejais na carne, mas no espírito . Declaro-vos, no entanto, no espírito com esta condição: se o Espírito de Deus , que recebestes no batismo, habita , isto é, persevera, em vós ; se alguém , não digo de vós, mas quem quer que seja, não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele , isto é, de Deus, isto é, não tem parte com Deus. Aqui o Apóstolo mostra claramente que o Espírito procede do Filho como do Pai, quando diz Espírito de Deus e Espírito de Cristo, e que o Espírito de Deus e o Espírito de Cristo são o mesmo. Se, porém, Cristo , isto é, o Espírito de Cristo, está em vós, o corpo , vosso, está morto , isto é, ainda sujeito à mortalidade por causa do pecado , isto é, ou por causa da pena do pecado, ou para guarda, a fim de que não caiais de novo por elação: o corpo ainda está morto, mas o espírito vosso vive já por causa da justificação , isto é, pelas obras da justiça que exerce o justificado dos pecados. Ao dizer: se Cristo está em vós, insinua que Cristo e o Espírito Santo são o mesmo na substância da Deidade. E não só pelo Espírito que habita em vós tereis a vida do espírito, mas também se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos , por esta causa, porque o Espírito Santo nele habitou; se, diz, o mesmo Espírito habita em vós, vivificará também os vossos corpos mortais , tornados imortais pela mesma causa, a saber, por causa de seu Espírito que habita em vós , e que pode e vai fazer assim convosco prefigurou-o em ter já ressuscitado Jesus Cristo dentre os mortos. E se se pergunta por que Cristo foi ressuscitado incorruptível antes de todos, responde-se: porque foi concebido do Espírito Santo, porque não cometeu pecado, e porque por Ele todos hão de ter a incorrupção, era digno que antecedesse a todos no tempo e recebesse mais que todos. Visto que Deus já vivificou a alma e vivificará o corpo, portanto, irmãos, não somos devedores à carne , isto é, nada devemos já à carnalidade, mas ao espírito; porque pelo espírito vivemos e ainda seremos vivificados. Devemos, sim, à carne o que lhe é necessário, como sustento e cobertura, mas não de modo a vivermos seguindo a carnalidade; se, pois, viverdes segundo a carne , não sereis vivificados, mas morrereis ; se, porém, pelo espírito fizerdes mortas as obras da carne, vivereis , tanto aqui segundo a alma quanto no futuro segundo a incorrupção do corpo. E deveis mortificar, pois sois conduzidos pelo Espírito de Deus ; e realmente vivereis, porque sereis filhos de Deus; o que diz assim: na verdade, se mortificardes a carne pelo espírito, vivereis; pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus (o que é mortificar as obras da carne), esses são filhos de Deus , e esta é a vida eterna. Depois de ter recomendado bastante a lei do espírito, mostra quanta utilidade nos vem pelo Espírito Santo, o que já em parte mostrou acima; o que diz assim: na verdade sois filhos; não recebestes , com efeito, o espírito de servidão , de modo que sejais mais servos e sirvais de novo no temor ; enquanto estáveis sob a lei, servíeis pelo temor das penas que a lei ameaçava; quem serve, porém, por temor da pena, evita a pena, mas não merece a glória: não recebestes certamente o espírito de servidão, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos , isto é, pelo qual somos adotados como filhos de Deus; no qual , Espírito que nos ensina, clamamos: Abba (Pai) . Abba é hebraico e significa o mesmo que pai, ou o grego pater . Por isso pôs a voz hebraica e a voz dos gentios, seja grega, seja latina, para mostrar que ambos os povos, o judeu e o gentio, devem servir a Deus em novidade de espírito, e não mais na velhice da letra. Na verdade clamamos no Espírito: Abba (Pai); pois o próprio Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito , isto é, ensina à nossa razão que somos filhos de Deus ; se o Espírito não o insinuasse, com efeito, não saberíamos que somos filhos de Deus. Se, porém, somos filhos, seremos também herdeiros. Eis quantas utilidades nos vêm pelo Espírito: primeiro somos adotados como filhos; depois clamamos; somos também constituídos herdeiros, e não de herança vil, mas herdeiros de Deus , porque Deus nos distribuirá a sua herança, isto é, a suficiência de todo bem. Se perguntamos como somos herdeiros de Deus, já que é costume que o herdeiro o seja pela morte do predecessor, responde-se que Deus de certo modo morrerá para nós na beatitude futura, segundo o que agora o vemos por espelho e em enigma, mas então o veremos face a face. Herdeiros seremos de Deus, co-herdeiros de Cristo , porque a mesma herança que Cristo, isto é, a incorrupção segundo a carne, receberemos ao nosso modo. Herdeiros, diz, de Deus, como daquele de quem é a herança e que a distribui; co-herdeiros de Cristo, como daquele que conosco tomará parte na herança. Co-herdeiros de Cristo seremos, digo, com esta condição: se sofremos com Cristo , não com a intenção de louvor ou lucro temporal, mas para sermos glorificados , só com o desejo da glória eterna. Devemos certamente sofrer com Ele para sermos glorificados; pois julgo (e é verdade) que os sofrimentos do tempo presente , isto é, que são temporais, e deste tempo, isto é, tão breve, não são dignos de comparação para merecer a glória futura que se há de revelar em nós ; porque nem nós mesmos, que a teremos, entendemos quão digna e grande ela é. Na verdade esta glória se revelará em nós; pois a ansiosa expectativa da criatura , isto é, de toda a Igreja, aguarda a revelação dos filhos de Deus , para que também ela seja revelada entre os filhos de Deus. Se toda a Igreja o aguarda, deve-se crer que será o que aguarda. "A expectativa aguarda" assinala frequência. Chama criatura à Igreja, pois esta é especialmente criatura de Deus, que, ao justificá-la, fez nova criatura. E porque por causa dela todos os bens foram criados, por isso a criatura, isto é, a Igreja, aguarda esta revelação, pois foi sujeita à vaidade , isto é, às misérias da carne, que são vãs; se agora come, daqui a pouco terá fome de novo; se bebe, terá sede de novo, e assim nas demais. E porque vê vãs todas estas coisas, por isso aguarda aquilo em que não haja variedade alguma. Foi sujeita à vaidade, não de bom grado , porque não quereria sofrer estas vaidades; e, embora não de bom grado, suporta, contudo, por causa daquele que a sujeitou a estas misérias, para que não perecesse de novo por soberba. Sujeitou-a, digo, na esperança , posta em esperança, para que tivesse a esperança de escapar desta vaidade; na esperança , digo, porque (isto é, pois) também a própria criatura , como Cristo, será libertada da servidão da corrupção , isto é, da variabilidade, transferida da servidão para a liberdade , da corrupção para a glória dos filhos de Deus . Digo bem: não é sujeita de bom grado; pois sabemos que toda a criatura , isto é, a Igreja, geme no ânimo e sofre dores de parto , isto é, trabalha com o máximo esforço, operando, como a parturiente que espera o fruto do trabalho; sofre dores de parto, digo, até agora , porque desde o primeiro justo a Igreja esteve sempre em trabalho, até este tempo. A criatura geme certamente, e não só ela, mas também nós mesmos , que somos de tão grande dignidade que somos reputados até deuses; nós, digo, que temos as primícias do Espírito , porque na Igreja primitiva recebemos o Espírito Santo antes de todos e mais abundantemente, mais abundantemente também que os Profetas que nos precederam; não falavam, com efeito, sempre pelo Espírito Santo, porque às vezes o Espírito Santo se retirava deles, e predisseram coisas falsas, como Natã em certa ocasião e alguns outros; mas os Apóstolos nunca foram privados do Espírito Santo, uma vez recebido. Nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, que somos tão dignos, também nós mesmos somos tão frágeis que gememos como a criatura: e, para que não se julgasse que gemiam por compaixão dos súditos, e não por si, determina: gememos , digo, em nosso íntimo , isto é, oprimidos pelas tentações que nos conturbam interiormente. Primeiro nota a dignidade, depois a fragilidade. Com isso o Apóstolo muito consola a Igreja e convida à paciência, ao dizer que os Apóstolos são oprimidos pela mesma fragilidade que oprime os súditos. Acrescenta ainda a grande consolação que têm, dizendo: gememos, digo, aguardando a adoção de filhos de Deus , isto é, para sermos adotados como filhos de Deus. A adoção é dupla: a primeira, pela qual Deus perdoa os pecados e justifica; a segunda, pela qual, na beatitude eterna, fazendo os santos co-herdeiros de Cristo, os remunera: desta segunda insinua Paulo que fala quando diz: adoção, digo, a redenção de nosso corpo , isto é, adoção na qual o nosso corpo, agora frágil, não será corrompido por mutabilidade alguma. Ao dizer aguardando , insinua que fala da adoção futura, não da já tida, pois a coisa já tida não a aguardamos. Deve-se crer também que Cristo assumiu corpo com alma para libertar ambos da corrupção. Na verdade aguardamos, porque temos esperança; essa esperança tem grande mérito, pois nos faz salvos; o que diz assim: pela esperança , isto é, pelo mérito da esperança, porque esperamos constantemente coisa invisível e até impensável, por este mérito somos salvos e fomos feitos salvos nesta esperança , por outro, não por nós; nossa fragilidade, com efeito, não esperaria se não fosse fortalecida pelo Espírito Santo, porque não saberia, e assim não teria o mérito da salvação. Pela esperança fomos feitos salvos: tamanho mérito tem a verdadeira esperança; mas aquela esperança , isto é, a coisa esperada que se vê, já não é esperança, nem tem mérito de esperança; a esperança, com efeito, é de coisa que não se vê, como se esperamos que alguém nos dê dinheiro: o que esperamos, a saber, termos o dinheiro, ainda não o vemos, embora vejamos o próprio dinheiro; da coisa que já se tem, porém, não há esperança, mas já se tem o uso. Na verdade da coisa que se vê não há esperança; pois o que alguém vê, como ou por que o espera? Não se deve mais esperá-lo, mas usá-lo. Da coisa que se vê não se deve falar de esperança, mas se esperamos o que não vemos , temos o mérito dessa esperança; pois aguardamo-lo com perseverança , isto é, na espera toleramos pacientemente tudo, pelo desejo da coisa que esperamos. E esta esperança, que é de tanto mérito, se tem pelo Espírito Santo. E não só isto nos dá o Espírito Santo, mas também do mesmo modo , isto é, como a esperança e, pela esperança, a paciência, assim o mesmo Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza ; assim como sem o Espírito Santo seríamos fracos na esperança, assim também seríamos fracos na oração, se o Espírito não nos ensinasse. Na verdade o Espírito socorre os fracos; pois não sabemos o que devemos pedir , como convém saber e orar, sabemos, sim, como não convém. Nós certamente não sabemos, mas o próprio Espírito intercede , isto é, nos faz pedir e o insinua; intercede, digo, por nós , isto é, ou em nosso lugar, ou por causa de nossa utilidade, com gemidos inexprimíveis . Diz inexprimíveis os gemidos porque os próprios contemplativos não saberiam, nem poderiam, explicar com quantos e quão grandes desejos ardem. Do que foi dito: "o Espírito intercede", alguns caíram em erros, dizendo o Espírito menor que o Pai e o Filho, porque quem pede é entendido menor que aquele a quem pede; convertendo em heresia a cortesia de Paulo; como alguém que ensinasse a outro com que modo de falar e com que palavras falar ao príncipe, e se dissesse que o instruído fala ao príncipe por aquele: assim o Espírito Santo nos instrui sobre o que e como pedir, e por nós instruídos se diz que pede, não de outro modo. O que disse acima: não sabemos orar como convém, isto é manifesto no próprio Paulo, que orou contra a salvação para que o espírito de Satanás fosse afastado dele, dado a ele em guarda da humildade; para que, por ter sido arrebatado ao terceiro céu e ouvido o que não é lícito ao homem falar, não se ensoberbecesse; mas, pela fragilidade que o impelia, se lembrasse da pusilanimidade da carne. O Espírito Santo nos faz esperar, nos ensina a orar e nos faz ser ouvidos; o que diz assim: o Espírito intercede; aquele, porém, que perscruta os corações , isto é, Deus, sabe , isto é, cumpre e aprova o que o Espírito deseja , isto é, o que o Espírito Santo nos faz desejar; sabe, portanto, porque o Espírito intercede segundo Deus , isto é, ensina-nos a pedir o que é bom para Deus conceder. Intercede, digo, pelos santos , isto é, ou em lugar ou por causa dos santos. Perscruta diz-se por semelhança: porque, como quem investiga com muito escrutínio conhece melhor a coisa, assim Deus, não que se afadigue em escrutar, mas como escrutador conhece, e muito melhor, os segredos dos corações. O Espírito não só dá a esperança, insinua a oração, faz ser ouvidos, mas também tudo o que, próspero ou adverso, acontece aos santos, Ele faz com que seja para o bem. O texto liga-se assim: por nós mesmos não sabemos orar como convém, mas o sabemos pelo Espírito Santo, porque o mesmo Espírito coopera em todas as coisas , prósperas ou adversas, para o bem , isto é, para a utilidade dos santos; ou então: todas as coisas cooperam pelo Espírito Santo para o bem, para dizê-lo passivamente; ou em sentido ativo: todas as coisas cooperam para o bem, e de novo pelo Espírito Santo (o sentido não muda); cooperam, digo, para os que amam a Deus , e não os que ora amam, ora pecando odeiam, mas para estes , isto é, para tais que amam e que foram chamados por Deus segundo o seu desígnio para serem santos . E porque nem todos os chamados são eleitos, acrescenta: chamados, digo, segundo o desígnio da presciência de Deus, que de modo algum pode ser mudado. Na verdade foram chamados segundo o desígnio e todas as coisas cooperam para o bem deles; pois Deus os previu desde a eternidade como idôneos para si e dignos de eleição; e porque os previu desde a eternidade, também os predestinou , isto é, preparou-os no tempo oportuno. Esta preparação foi a oferta da graça e a inspiração interna. Previu, diz, e predestinou a serem conformes , isto é, imitadores da imagem , isto é, da pureza de seu Filho ; porque neste mundo é lícito imitar o Filho de Deus apenas pela pureza, a quem no futuro os santos imitarão por maior pureza e imutabilidade. Isto dizemos da essência divina do Filho. Se por isso parecemos diversificar o Filho do Pai, porque dizemos imagem do Filho, respondemos que na substância são o mesmo em tudo, mas nas pessoas há variedade, e no fato de que o Pai é sem princípio, não de outro, ao passo que o Filho tem princípio do Pai (embora tenha estado sempre com o Pai), e assim de outro. Se, porém, aqui tratamos de Cristo segundo a humanidade, concordam com acerto as passagens seguintes, que tratam de Cristo somente segundo a carne, e diremos: sejamos conformes à imagem de seu Filho, para que, assim como Ele andou em novidade de espírito, assim também nós andemos. Conformes, porém, segundo ambos os sentidos, de modo que o próprio Filho seja o primogênito entre muitos irmãos , para que, assim como o filho primogênito é senhor da herança paterna e o que os outros filhos têm dela o têm por ele, assim também Cristo é Senhor nesta herança, e todos os que dela têm algo, têm tudo dele e por ele. Chama-se também primogênito dos mortos, porque foi o primeiro a ressuscitar dos mortos, mesmo assim de modo que alguns santos são cridos ter ressuscitado incorruptíveis com Ele. Os que, porém, foram ressuscitados por Cristo não ressurgiram dos mortos, porque haviam de morrer de novo. E não só previu, mas os que predestinou, a esses também chamou ; porque, depois de os ter inspirado, aplicou chamadores interiormente aos preparados, cuja chamada seria em vão se o espírito não operasse interiormente. E os que chamou, a esses também justificou , remitindo os pecados, infundindo a graça; e os que justificou, a esses também glorificou no futuro, quando reinarão com Ele; ou então, "glorificou" diz-se segundo a certeza da coisa futura, e segundo alguns que já reinam com Deus, quanto às almas. Visto que Deus previu, preparou, justificou e por fim glorificará os seus eleitos, que diremos, pois, a respeito disto? Há alguma coisa que possa contrariar esta disposição divina? Contra isto nada pode ser dito, porque Deus é por nós , e se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem pode perverter, para que não se cumpra o que Deus preordenou a nosso respeito? Na verdade Deus é por nós; pois é ele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou , isto é, dispôs que fosse entregue à morte por todos os seus eleitos. E, tendo feito coisa tão difícil como entregar à morte por nós o Filho caro mais que todos os filhos, como , isto é, por que razão não nos daria também com ele todas as coisas que restam, juntamente com aquele Filho, a quem teve por muito mais caro que toda coisa, que nos deu no momento da morte? Não se deve crer que quem deu o Filho vá negar-nos o que é menor que o Filho. E visto que Deus nos amou tanto a ponto de entregar o Filho por nós, quem acusará agora os eleitos de Deus? Acusar é contra o eleito dispor como seja subvertido, como Satanás, vendo Jó abundar em bens terrenos, porque julgou que Jó estava retido a eles em sua mente, tramava como, demolindo-lhe os bens, destruísse a justiça dele pela impaciência nascida da perda dos bens; mas, porque Jó era eleito, Satanás não pôde. Desde o princípio, com efeito, desde que disse: «Porei o meu trono ao Aquilão» (Is 14,13), sempre trabalhou por destruir o reino de Cristo, no qual ainda perversamente persevera. O diabo quer acusar, mas não pode; Deus pode, mas não quer; Deus é quem os justifica . Quem os condenará? Satanás quer condenar, mas não pode; Cristo poderia, mas não quer; o que é manifesto por isto: Cristo Jesus é quem morreu por nós; e não só isso, mais ainda, ressuscitou , para nos fazer ressurgir também a nós; que está à direita de Deus , onde também nos colocará consigo; que também intercede por nós , estando à direita do Pai: quem fez e faz tudo isso por nós, deve-se crer que nos condene? Diz-se que Cristo intercede não porque clame com voz, mas a humanidade assumida, que está aos olhos de Deus, sempre bate a Deus e o faz lembrar-se de cumprir aquilo por que quis que o Filho assumisse a carne; como um legado, só pela representação da pessoa de sua legação, faria lembrar-se aquele a quem fora enviado, por se lhe representar. Visto que Deus previu, justificou, etc., quem, pois, nos separará da caridade de Cristo , de modo a perverter assim o desígnio de Deus? Separar-nos-á a tribulação , isto é, qualquer aflição da carne? Ou a angústia , isto é, a ansiedade do ânimo? Ou a perseguição de lugar em lugar? Ou a fome? porque muitas vezes teve fome, a ponto de lhe causar tédio viver; ou a nudez? ou o perigo , isto é, a ameaça de morte? Ou a espada? ou a própria morte? Nenhuma destas coisas nos separará, como está escrito no livro dos Salmos: porque (esse "porque" liga-se ao que segue) por tua causa somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro (Sl 43,22); não as que se reservam para a procriação, mas as destinadas ao matadouro, isto é, que são estéreis e são mortas. E se somos mortos por causa de ti, é certo que de ti não seremos separados; mas que importa se somos mortos? Em todas estas coisas , a tribulação, a angústia e as demais, somos mais que vencedores , por aquele, ardendo de amor por Ele, que nos amou . Na verdade venceremos; porque nem a morte , isto é, a ameaça de morte, nem a vida , isto é, a promessa de vida ou de glória do mundo, nem os Anjos , que exercem a legação de Deus, nem os Principados , isto é, nem aquela ordem que tem principado mesmo sobre os Anjos, nem as Virtudes , isto é, nem aquela ordem cujo ofício é operar milagres; ou estas coisas, se quisermos, entendemo-las dos anjos maus (entre os quais também há distinções de ofícios, pois de cada ordem alguns caíram), de modo que digamos: nem os anjos maus, cujo ofício é cumprir legações, nem os principados, que no gênero dos maus presidem aos anjos súditos; nem as virtudes, pois os espíritos maus fazem milagres; nem as coisas presentes , isto é, atuais, sejam prósperas ou adversas, nem as futuras , bens ou males deste mundo, nem a fortaleza , isto é, a violência de qualquer fortíssimo, nem a altura , isto é, a promessa de honra, ou "altura" como aquela em que o diabo se mostrou purpurado e resplandecente de diadema; nem a profundidade , isto é, ainda que, aberto o inferno, me ameaçasse com o precipício dele, nem outra criatura alguma , isto é, se fizessem uma criatura nova e nunca vista: nenhuma de todas estas coisas poderá separar-nos da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor . Capítulo 9 Digo a verdade em Cristo, não minto, dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo, de que tenho grande tristeza e contínua dor em meu coração; pois eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne, que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e o testamento, e a legislação, e o culto, e as promessas; dos quais são os patriarcas, e dos quais descende Cristo segundo a carne, o qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém. Não é, porém, que a palavra de Deus tenha falhado. Pois nem todos os que são de Israel são israelitas; nem todos os que são descendência de Abraão são filhos de Abraão: Mas em Isaac será chamada a tua descendência (Gn 21,12); isto é, não os filhos da carne são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Pois esta é a palavra da promessa: Por este tempo virei, e Sara terá um filho (Gn 18,10). E não só ela, mas também Rebeca, que concebeu de um só, de Isaac, nosso pai. Pois, antes que os gêmeos nascessem, ou tivessem feito algum bem ou mal (para que permanecesse o propósito de Deus segundo a eleição), não pelas obras, mas por aquele que chama, lhe foi dito: O maior servirá ao menor (Gn 25,23), como está escrito: «Amei Jacó, mas odiei Esaú» (Ml 1,2-3). Que diremos, então? Há injustiça em Deus? De modo algum. Pois diz a Moisés: Terei misericórdia de quem tiver misericórdia, e usarei de compaixão para com quem me compadecer (Ex 33,19). Portanto, isso não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que tem misericórdia. Com efeito, diz a Escritura ao Faraó: Para isto mesmo te suscitei, para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra (Ex 9,16). Logo, tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer. Dir-me-ás, então: Por que ainda se queixa? Pois quem resiste à sua vontade? Ó homem, quem és tu para replicares a Deus? Porventura a obra moldada dirá ao que a moldou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para desonra? E que, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição, para dar a conhecer as riquezas de sua glória nos vasos de misericórdia, que preparou para a glória? A nós, que também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios, como diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada; e que alcançou misericórdia à que não havia alcançado misericórdia (Os 2,23-24). E acontecerá que, no lugar onde lhes foi dito: Vós não sois meu povo, ali serão chamados filhos do Deus vivo. Isaías, porém, clama a respeito de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o resto será salvo (Is 10,22). Porque o Senhor executará a sua palavra, consumando-a e abreviando-a em justiça; porque o Senhor fará uma palavra abreviada sobre a terra. E como predisse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, teríamos sido como Sodoma, e semelhantes a Gomorra (Is 1,9). Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, a justiça que vem da fé; Israel, porém, buscando a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como se fosse pelas obras; tropeçaram, com efeito, na pedra de tropeço, como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo; e todo aquele que nele crer não será confundido (Is 8,14). Comentário Já não serei mais separado da caridade de Cristo; mas outrora fui separado, e por isso muito me doo; e quanto a isto de que me doo, digo a verdade posto em Cristo, em cujo corpo não é lícito mentir. Nem sou veraz em uma coisa para mentir em outra, mas em nenhuma parte minto; e não só Cristo, mas também a minha consciência me dá testemunho de que não minto; consciência, digo, fundada no Espírito Santo , com o qual não daria testemunho falso. Quanto a isto, diz, digo a verdade: porque tenho grande tristeza , segundo a aflição do corpo, e contínua dor em meu coração , interiormente. Tenho dor, diz; e com razão; pois eu mesmo , que agora não posso ser separado, desejava ser anátema , isto é, separação de outros, separado de Cristo, por amor de meus irmãos ; porque queria separar de Deus aqueles que agora são irmãos em Cristo; que são meus parentes segundo a carne ; porque, embora a todos devamos a caridade, aos de nossa própria linhagem a devemos com mais empenho; que são israelitas , verdadeiros, que veem a Deus; dos quais é a adoção de filhos , isto é, que foram adotados como filhos de Deus; dos quais é também a glória dos milagres; dos quais é também o testamento , o Evangelho prometido; dos quais é a legislação , isto é, a inteligência espiritual que traz a lei; dos quais é o culto , isto é, o serviço de Deus; as promessas de salvação lhes foram feitas; dos quais são os patriarcas , aqueles de quem Cristo nasceu segundo a carne, o qual segundo a Deidade é Deus desde o princípio, sobre todas as coisas , permanecendo; Deus, digo, bendito eternamente pelos séculos. Amém. Por isso Paulo sofreu mais e maiores perseguições do que os outros Apóstolos, porque havia perseguido a Igreja de Cristo; o que ele mesmo afirma, dizendo: «Trabalhei mais do que todos» (1Cor 15,10); aumento de perseguição que lhe foi, contudo, para guarda da justiça e incremento da glória. Provou suficientemente acima que nenhuma coisa poderia separar de Deus os eleitos; nas passagens seguintes, porém, quer provar que esta eleição dos filhos não se faz segundo a descendência da carne, mas pela vocação de Deus. O texto liga-se assim: eu outrora desejava ser separação dos filhos de Deus em relação a Cristo; mas, contudo, a palavra de Deus não falhou , isto é, embora eu enfurecesse muito contra os servos de Deus e alguns fossem subvertidos, nem por isso a palavra, isto é, a promessa de Deus, pereceu sem cumprimento, aquela pela qual prometera redimir Israel; porque, embora muitos de Israel segundo a carne tenham sido alienados da salvação, todos os verdadeiros israelitas foram eleitos, e assim se cumpriu a promessa. Na verdade, embora alguns tenham sido separados de Deus, nem por isso a palavra de Deus falhou: pois nem todos os que são de Israel segundo a carne devem ser chamados israelitas; no tempo de Jeroboão, com efeito, muitos judeus passaram ao culto dos ídolos e foram reputados entre os gentios, e muitas vezes o fizeram: muitos também dentre os gentios passaram aos ritos dos judeus e foram reputados entre os judeus. Nem todos os que são de Israel segundo a carne devem ser chamados israelitas; nem todos devem ser chamados filhos , isto é, herdeiros de Abraão , só porque segundo a carne são descendência de Abraão; Ismael, com efeito, foi da descendência carnal de Abraão, e contudo não foi herdeiro; por isso está escrito: «Expulsa a escrava e seu filho, pois não será herdeiro, etc.» (Gn 21,10). Assim também não chamamos filhos de Abraão os que degeneram de sua fé: é costume, com efeito, dos pais chamar filho seu àquele que imita o pai; àquele, porém, que é contrário aos feitos do pai, o pai diz que não é filho seu, embora saiba que verdadeiramente nasceu de sua carne. Nem todos os que são segundo a carne da descendência de Abraão o são; mas os que nasceram, à semelhança de Isaac, pela promessa de Deus, esses são chamados filhos de Abraão; assim o atesta a Escritura, dizendo: em Isaac , isto é, à semelhança de Isaac, será chamada a tua descendência ; e isto não segundo a carne, mas será chamada , isto é, por vocação e promessa de Deus terás filhos, não tanto segundo a linha da carne quanto pela imitação da fé (Isaac, com efeito, nasceu não pela lei da carne, porque de pai velho e mãe estéril, cujos órgãos genitais já estavam murchos pela velhice, significou que não se devem chamar filhos de Abraão pela linha da carne), mas segundo o exemplo de Isaac, segundo a promessa de Deus. O Apóstolo expõe o que significa isto: em Isaac será chamada a tua descendência , dizendo: isto que digo, que a descendência será chamada em Isaac, deve ser entendido assim: não os filhos da carne de Abraão são por isso filhos de Deus , mas os filhos da promessa , isto é, eleitos pela promessa, esses são contados como descendência de Abraão, imitadores de sua fé, assim como Isaac nasceu pela promessa: e realmente pela promessa; pois esta é a palavra da promessa feita acerca de Isaac, palavra que o Anjo disse a Abraão, determinando a concepção do filho prometido muito antes, dizendo: Por este tempo virei , isto é, depois de passado um ano, neste mesmo dia, e depois que eu tiver vindo, Sara terá um filho (Gn 18,10). Segundo Ambrósio [1] , a letra acima mencionada liga-se de outro modo, muito acima, assim: eu desejava ser separação dos bons em relação a Cristo, o que fazia por amor de meus irmãos , isto é, por amor de meus irmãos judeus e por zelo da lei, a qual me doía julgar que os cristãos subvertiam; e não admira que fosse por meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne, e que deveriam ser verdadeiros israelitas, e dos quais é a adoção de filhos de Deus, isto é, que deveriam ser adotados como filhos de Deus, se a malícia deles não o desviasse; e a quem pertencia a glória dos oráculos de Deus confiados, e a quem era devido o testamento, isto é, o Evangelho, e dos quais era a legislação e o culto, isto é, o serviço de Deus. E as promessas lhes eram devidas, deles eram os patriarcas de quem nasceu, segundo a carne, Cristo; mas, embora estas promessas, por sua iniquidade que as impediu, não as tenham alcançado, não digo por isso que a palavra, isto é, o cumprimento da promessa de Deus, tenha falhado; porque, se nem todos os judeus segundo a carne, todos os que foram verdadeiros israelitas receberam, contudo, a promessa de Deus. A letra seguinte não muda. Não só Sara teve esta promessa, mas também Rebeca. Oportunamente traz Rebeca, em cujos filhos é manifesto que alguém se torna bom somente pela eleição de Deus; pois, se não há, pela linhagem, causa por que Jacó seja eleito mais que Esaú, na eleição ou reprovação dos quais nenhum mérito de pais nem de filhos precedeu: e por isso, por Rebeca prova mais claramente que se tornam filhos de Abraão segundo a promessa do que por Sara, que só teve um eleito. Rebeca recebeu, certamente, a promessa, tendo concebido de um só e mesmo concúbito, de Isaac, nosso pai . Para que se saiba que os méritos dos pais não aproveitaram a Jacó nem prejudicaram a Esaú, determina que foram gerados do mesmo concúbito, para que, se (como querem alguns naturalistas) tivessem sido gerados em tempos diversos, não se julgasse que os pais eram gratos a Deus quando geraram Jacó e ingratos quando geraram Esaú. Como dos pais, assim também exclui os méritos dos filhos, dizendo: Rebeca teve certamente a promessa; pois lhe foi dito: O maior servirá ao menor ; mas, antes de dizer a promessa, exclui oportunamente os méritos dos filhos com os méritos dos pais, para que conste que toda eleição é primeira e principalmente da graça de Deus, dizendo: Rebeca teve filhos que ainda não haviam nascido ; com isto exclui os méritos dos filhos; mas, porque se diz que lutavam no ventre da mãe, para que não se julgasse que ali podiam ter merecido, determinando isto diz: ou tivessem feito algum bem ou mal , pelo qual este devesse ser eleito, este reprovado: por isso, antes que praticassem bem ou mal, foi dito, para que permanecesse o propósito , isto é, a predestinação de Deus, pela qual elegia a um e reprovava a outro, isto é, para que se comprovasse que permanecia, segundo a eleição de Deus; eleição que não foi feita pelas obras , isto é, porque Jacó houvesse obrado bem, mas somente por aquele que chama , isto é, pela graça e beneplácito de Deus que chama. Isto, certamente, foi dito: porque , isto é, que o maior servirá ao menor . Não se diz servirá porque Esaú tenha alguma vez servido a Jacó, mas na maioria das vezes dominou-o, como quem era mais forte na terra; e por isso se deve entender assim: o maior servirá , isto é, será útil ao menor; quanto mais, com efeito, Esaú perseguia Jacó, tanto mais crescia o mérito da paciência no paciente; e assim foi dito no Gênesis: «O maior servirá ao menor» (Gn 25,23). Isto foi dito a Rebeca antes que os meninos nascessem; o que foi dito, como está escrito , por Malaquias dos mesmos, muito depois de sua morte; isto foi escrito: Amei Jacó (Ml 1,2), e por isto principalmente o elegi; Esaú, porém, odiei , reprovei; o ódio de Deus, com efeito, não é senão retirar por equidade a graça. Oportunamente, como pôs o testemunho do que precede para excluir que os méritos deles tivessem precedido, assim pôs também o testemunho do que se segue, para mostrar que o mérito posterior de Jacó teria sido insuficiente e que ele teria sido por si inteiramente indigno da graça de Deus; e por isso consta que foi eleito por misericórdia, para mostrar também que a graça foi justamente negada a Esaú, porque não iria cooperar com a graça. Pergunta-se por que Jacó foi eleito e Esaú reprovado, sem que em nenhum dos dois tenha precedido mérito de bem ou de mal; qual foi a causa da eleição de um e da reprovação do outro? A isto responde-se que Jacó foi eleito por misericórdia, Esaú reprovado segundo a justiça; Deus, com efeito, quando criou o homem pela primeira vez, assinalou-o com múltipla graça, a qual, porque ele a repeliu de si pecando, tornou-se indigno da graça de Deus; e desde então Deus nada deve ao homem, e assim não resta ao homem do que possa justamente queixar-se, se é destituído da graça de Deus. E se de novo se pergunta: como ambos poderiam ser reprovados por justiça por causa do original, e nenhum mérito foi achado em ambos pelo qual a este assim fosse dada a graça e a aquele negada, por que Jacó foi eleito mais que Esaú? A isto responde-se: porque Deus previu que Jacó seria idôneo e cooperaria com a graça, e Esaú não idôneo, porque não cooperaria; por isso a um concedeu misericordiosamente o que do outro alienou justamente por causa do original: o que se considera com bastante clareza em Judas, que, embora Deus soubesse com certeza que pereceria, permitiu-lhe, contudo, a graça dos milagres como aos outros Apóstolos, quando já era ladrão e tinha a bolsa; não porém sem saber que ele era irrevogável do mal, mas para nos comprovar por este que justamente nega a alguns toda graça, como às crianças que morrem logo sem batismo, às quais nega toda graça porque, se tivessem tempo de operar e lhes fosse concedida a graça, abusariam dela e assim seriam punidas muito mais gravemente por causa da graça, ao passo que, se cooperassem com ela, seriam salvas. Para que Deus tornasse isto notório, deu graça a alguns, dos quais não duvidava de que abusariam dela, mas para que tivéssemos também diante dos olhos que Ele nega justamente a alguns toda a graça. Ainda outra coisa: quando Deus criou todas as coisas, algumas constituiu necessárias, como o nascer do sol e semelhantes, outras voluntárias, como o homem e o Anjo; Deus, porém, elege um por misericórdia como reprova outro por justiça, de modo, contudo, a não destruir neles a faculdade voluntária; porque, embora tenha munido muitos santos neste século de múltipla graça, não os coagiu, contudo, a que obrassem o bem por necessidade, nem a que não pudessem declinar para o mal se quisessem, mas ajudou-os pela graça, porque viu que cooperariam com a graça. Ao contrário, não retirou de Judas a graça de modo que, retirada a graça, o impelisse, quisesse ou não, a operar a iniquidade, mas para que aparecesse o que a iniquidade pode por si; se, com efeito, a graça dada ou negada fosse compelente e necessária, não restaria mais ao homem o mérito da salvação ou da condenação. Visto que Jacó é eleito sem mérito precedente e Esaú igualmente é reprovado sem mérito, que diremos, então? Há injustiça em Deus , que elege Jacó sem mérito e reprova Esaú igualmente sem mérito? De modo algum que por isso se diga que Deus é injusto! Na verdade, na eleição de Jacó e na reprovação de Esaú Deus não é injusto; porque, elegendo este, é misericordioso, reprovando aquele, é justo. Da justiça trata mais adiante, onde acrescenta sobre o Faraó; prova da misericórdia, dizendo: na verdade, porque elegeu Jacó, não é injusto, é misericordioso; pois diz a Moisés : de quem me compadeço na presciência, terei misericórdia na justificação; e de quem tiver misericórdia na justificação, a esse usarei de compaixão na salvação (Ex 33,19). Aqui mostra suficientemente que tudo vem da misericórdia, porque a presciência, a justificação, a salvação, tudo flui da fonte da misericórdia. Visto que tudo (como foi mostrado) se faz pela misericórdia de Deus, portanto , querer o bem não depende de quem quer , para que lhe seja atribuído, nem correr de quem corre , isto é, operar não é de quem opera, mas de Deus que tem misericórdia ; o homem não pode nem querer nem fazer o bem, se a misericórdia de Deus não operar nele pelo Espírito Santo. Na verdade é de Deus que tem misericórdia o querer e o realizar, porque não é de quem não tem misericórdia nem querer nem realizar (isto é, reprovar), o que se mostra claramente no Faraó; pois a Escritura diz ao Faraó no Êxodo. — Oportunamente traz o Faraó, a quem Deus propôs esta graça: que, se quisesse, pudesse obrar bem pela doutrina de Moisés; tinha Deus por certo que o Faraó nunca se arrependeria; mas para nos mostrar claramente, naquele a quem concedeu a graça da doutrina e dela abusou, que a graça foi justamente negada a Esaú antes que merecesse, e a todos aos quais assim é negada; porque, se Deus desse a graça, abusariam dela e daí seriam punidos mais gravemente: por isso Deus aplicou também ao Faraó mestres, para que os males que antes nele estavam ocultos agora se tornassem manifestos, ao resistir a Deus em tantas e tamanhas coisas e não acolher os Profetas e os milagres. — Isto, digo, a Escritura diz ao Faraó: para isto mesmo , que se continua no Êxodo: para isto mesmo em que estavas, isto é, estavas no mal, mas oculto, e neste mal te suscitei , retirando a graça, para que aparecesses mau como eras; para isto, certamente, para mostrar em ti o meu poder , isto é, os sinais dos milagres, que não mostraria se tu acolhesses. Mostrarei também, para que o meu nome seja anunciado em toda a terra (Ex 9,16), por causa dos milagres feitos no Egito; onde quer que se ouvissem os sinais do Egito, dizia-se: grande é o Deus dos hebreus. Visto que Deus por vontade elegeu Jacó e por vontade reprova Esaú, é manifesto, portanto, que Deus tem misericórdia de quem quer , porque vê que cooperará com a graça, e endurece a quem quer , porque vê que não é idôneo para a graça: endurecer, em Deus, é não aplicar a graça. Porque disse que Deus tem misericórdia deste e endurece aquele por vontade, dizes e objetas a mim: por que ainda se queixa de nós para que obremos bem, nós que, reprovados, não podemos obrar bem? Ou assim: por que ainda se queixa, isto é, queixa-se Deus de nós, se ofendemos, quando, endurecidos, não podemos não ofender? Não há de que se queixe; ou então, o que exige de nós? Pois quem resiste à sua vontade? Quando nos endurece, parece não querer que obremos bem, ele cuja vontade é impossível mudar. Paulo diz tudo isto porque via que os romanos se gloriavam demais da sabedoria do mundo e insistiam além da medida em questões desta espécie; por isso, para mais os reprimir, atribui assim tudo à graça de Deus, a ponto de parecer nada deixar à liberdade do arbítrio: o que, contudo, se entende com bastante conveniência, porque nem o próprio início do querer bom pode ser só de nós, se a graça de Deus não inspira; por isso diz: tu me dizes: por que ainda se queixa de nós; mas, ó homem , aderente à humanidade, quem és tu para replicares a Deus , isto é, tu que, se Deus te narrasse o mistério desta coisa, o entenderias? Ou então: quem és tu para replicares, isto é, para litigar e disputar com Deus sobre o mistério desta coisa? Não tens que replicar a Deus a este respeito, como a obra do oleiro não tem que contradizer ao oleiro; e a semelhança é apta; porque, assim como o oleiro encontra o barro, assim Deus encontrou o homem barro e infectado de toda poluição. Não tens, pois, o que replicar a Deus; porventura a obra moldada dirá ao que a moldou: por que me fizeste assim , breve ou longa, informe ou formada? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro , de quem é a matéria de barro? Assim Deus vos encontrou a todos sujos de barro pelo original. Não pode ele , certamente, da mesma massa , que toda em si é imunda, fazer um vaso para honra , no qual se beba, e outro para desonra , no qual se depositem as imundícies da casa? E como o oleiro tem poder de fazer deste barro um vaso honroso, como lhe apraz, e destinar outro à imundície, conforme a matéria do vaso era imunda: assim Deus, achando toda a massa do homem corrompida por causa do original, se destina uma parte desta massa à limpeza, é por misericórdia; que deixe, porém, outra parte sujar-se na imundície, é por equidade; e reclamar contra a equidade é injusto, como foi mostrado. Se Deus, seguindo a justiça, deixar na imundície o que se sujou por seu pecado, o homem não tem o que contradizer a Deus. E que se dirá também disto: se Deus dá por misericórdia a graça a quem não deve, e estes abusam da graça recebida, não são tais merecidamente reprovados? O que diz equivalentemente: e que, se Deus , digo, querendo mostrar a sua ira , isto é, tornar manifesta aos homens a condenação dos ímpios (era-lhe, sem dúvida, notório que nunca cooperariam com a graça dada), e querendo dar a conhecer o seu poder , isto é, quão grande poder de paciência daria aos seus para tolerar as perseguições dos ímpios, razão pela qual nem nos ímpios reprovados Deus opera sem misericórdia, já que o mérito da paciência cresce nos seus pelo endurecimento dos maus: querendo, pois, Deus mostrar a ira nos ímpios e o poder nos eleitos, suportou com muita paciência , tanto segundo o tempo quanto segundo o número das impiedades; suportou, digo, os vasos de ira , isto é, aqueles em quem deve justamente ser infundida a ira, isto é, a condenação, vasos, digo, preparados para a perdição , isto é, para a ruína, por causa só do original, se nunca fosse dada a graça de que abusassem; suportou-os para dar a conhecer as riquezas de sua glória , isto é, a sua rica glória, nos vasos de misericórdia , isto é, naqueles em quem devia ser infundida a misericórdia; vasos que preparou , isto é, predestinou Deus para a glória futura. E não só predestinou; mas os que (isto é, os vasos de misericórdia) também chamou, enviando pregadores (esse "os que" refere-se ao sentido, não à letra); chamou, digo, a nós , e a nós , isto é, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios ; porque, como chamou os judeus, assim também as nações. Prova que a vocação dos gentios vem de Deus, dizendo: na verdade Deus chamou os gentios, como diz , não Oseias, mas o Senhor em Oseias; isto, certamente, diz: Chamarei meu povo ao que não era meu povo, isto é, a gentilidade, que agora se diz não ser meu povo, chamarei pela graça e farei meu povo (Os 2,24); e amada à que não era amada , a gentilidade chamarei pela graça e a farei amada, justificando-a dos pecados; e a mesma gentilidade, que não havia alcançado misericórdia , farei que alcance misericórdia na salvação. Em sinal da gentilidade que seria salva, este Oseias, que havia de pregar a salvação dos gentios, foi mandado por Deus tomar uma esposa de fornicação, etc. Chamarei certamente a gentilidade; e isto será no lugar onde lhes foi dito: Vós não sois meu povo , isto é, no mundo inteiro onde só os judeus eram chamados povo de Deus; os gentios, porém, não serão aí chamados doravante nações, mas serão chamados filhos do Deus vivo , o qual dará a vida eterna que possui àqueles que chamou por eleição. Ou então: no lugar , isto é, na Judeia, onde foi dito: Vós não sois meu povo, ali serão chamados filhos de Deus ; porque também dentre os judeus foram eleitos os Apóstolos por quem as nações se converteram, e na Judeia a Igreja teve sua primeira origem. Depois de ter confirmado a vocação dos gentios pela autoridade de Oseias, prova por Isaías a salvação dos judeus: e prova-o convenientemente; os gentios, com efeito, censuravam os judeus de que, uma vez repelidos e reprovados por sua culpa, seriam daí em diante indignos da salvação de Deus; Oseias diz isto dos gentios: Isaías, porém, clama e afirma isto a respeito de Israel (Is 10,22), isto é, para honrar o povo judaico, a quem muitas vezes censurou os seus males; isto certamente clama: ainda que (isto é, embora) o número dos filhos de Israel seja inumerável como a areia do mar , contudo o resto de Israel , isto é, os vis e abjetos, que nada confiam na carnalidade da lei, tal resto será salvo ; ou então, resto, isto é, aqueles que Deus deixou para si e reservou idôneos para a salvação, esses serão salvos. Determina o modo da salvação, para que não julgassem que se salvavam pela lei: na verdade o resto será salvo; pois pela palavra , isto é, pela doutrina da fé, palavra que era consumante , isto é, perfeitamente justificante, o que a lei não pôde fazer. Será também abreviante , tanto os preceitos da lei, que reduzirá todos ao amor de Deus e do próximo, como os sacrifícios, que reduzirá todos a um só sacrifício, o Corpo de Cristo. E, para que não se julgasse injusta esta palavra por abreviar a lei, acrescenta: em justiça ; porque, embora abrevie a lei, será, contudo, equitativo e justo; o que é manifesto por isto: que o Senhor fará esta palavra abreviada , como se disse quanto aos sacrifícios e preceitos; e não só sobre os judeus, mas também sobre a terra , isto é, sobre as nações. Ou então: o resto será salvo; pois pelo Verbo de que se disse: «No princípio era o Verbo, etc.» (Jo 1,1), Verbo, isto é, Cristo, que será consumante e abreviante da lei em justiça, como foi dito: porque o Senhor fará esta palavra abreviada , isto é, segundo a carne assumida, de mortalidade e passibilidade, diminuído abaixo dos Anjos, conforme aquilo: «Fizeste-o um pouco menor que os Anjos» (Sl 8,6). E fará esta palavra sobre a terra , isto é, o que na natureza da Deidade era invisível, exibi-lo-á visível aos homens na terra pela carne assumida. Na verdade, pelo Verbo abreviado o resto será salvo; pois, se o Senhor não nos tivesse deixado esta semente, pereceríamos; e digo isto não só de mim, mas também como predisse Isaías vaticinando acerca do mesmo: Se o Senhor dos Exércitos , isto é, tanto celestes quanto terrenos, não nos tivesse deixado descendência , isto é, Cristo, que antes dos tempos assim constituiu e no tempo deu; ou então, descendência, isto é, a palavra da pregação pela qual frutificam os que creem; ou então, se o Senhor, ao subir, não nos tivesse deixado a semente, isto é, os Apóstolos, que semeassem em nós a palavra da fé, teríamos sido certamente como Sodoma e semelhantes a Gomorra , isto é, estaríamos totalmente em perigo: e com razão; porque teríamos sido semelhantes, desprezando os preceitos de Deus (Is 1,9). O que disse acima sobre a vocação dos gentios por Oseias (cap. 2,23), para que os judeus não negassem que isso foi dito dos gentios, mas deles, que, afastando-se muitas vezes de Deus, tinham deixado de ser povo de Deus, expõe Paulo como estas palavras tratam só dos gentios: visto que acima se disse: chamarei meu povo ao que não era meu povo , que diremos, então? e como receberemos esta autoridade? Exporemos, certamente, nas palavras de Oseias, que os gentios, que não buscavam a justiça , isto é, que nem tinham lei, nem usavam o bem de sua razão, alcançaram , não por mérito, mas pela graça que lhes infundia, a justiça ; e não a justificação carnal, mas a justiça que vem da fé . Retoma ainda parte da autoridade que Isaías proferiu a respeito de Israel, a saber, que não a multidão dos filhos de Israel se salvaria, o Apóstolo prossegue, pondo a causa por que é reprovado, dizendo: os gentios alcançaram a justiça, mas Israel , isto é, o povo judaico, buscando a lei da justiça carnal, não chegou à lei da justiça espiritual. Mas por quê? Porque não creu justificar-se pela fé, mas presumiu que poderia justificar-se como que pelas obras . E porque não creram que podiam justificar-se pela fé, por isso tropeçaram , isto é, fizeram para si ofensa na pedra , isto é, em Cristo, que foi a pedra que tanto esmagaria os inimigos quanto sobre a qual se firmariam os alicerces dos justos; pedra de tropeço , digo, isto é, pedra que, pela humildade que teve, foi apta para que nela tropeçassem os soberbos, como está escrito em Isaías: Eis que ponho em Sião , isto é, no povo judaico, uma pedra de tropeço , isto é, Cristo, e uma rocha de escândalo (Is 8,14). Entre pedra e rocha nenhuma distância há, mas chama tropeço aos pecados cometidos contra Cristo, escândalo à condenação que provém da culpa dos pecados. Embora eu diga que Cristo foi pedra de tropeço para os judeus, nem todos, contudo, tropeçaram nele, mas todo de Sião que crê nele , Pedra, não será confundido , isto é, não se envergonhará de ter crido. Notas Os comentários a todas as Epístolas de São Paulo, aqui citados por São Bruno e, com frequência, também em outros lugares, sob o nome de Santo Ambrósio, não foram na verdade escritos por ele. Capítulo 10 Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus são, na verdade, em favor deles, para a salvação. Pois lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não segundo a ciência. Com efeito, ignorando a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus. Pois o fim da lei é Cristo, para a justiça de todo aquele que crê. Moisés, com efeito, escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei viverá por ela (Lv 18,5). Mas a justiça que vem da fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (Dt 30,12), isto é, para fazer Cristo descer; ou: Quem descerá ao abismo? isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos. Mas que diz a Escritura? Perto de ti está a palavra, em tua boca e em teu coração (Dt 30,14); esta é a palavra da fé que pregamos. Porque, se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz a confissão para a salvação. Diz, com efeito, a Escritura: Todo aquele que nele crê não será confundido (Sl 118,16). Pois não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam; porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 2,32). Como, então, invocarão aquele em quem não creram? Ou como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam o bem! (Is 52,7). Mas nem todos obedecem ao Evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? (Is 53,1). Logo, a fé vem do que se ouve; e o que se ouve, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura não ouviram? Pelo contrário: Por toda a terra se espalhou o seu som, e até os confins do mundo as suas palavras (Sl 18,5). Mas pergunto: Porventura Israel não o conheceu? Primeiro Moisés diz: Eu vos provocarei a ciúme com um povo que não é povo; com uma nação insensata vos irritarei (Dt 32,21). E Isaías ousa dizer: Fui achado pelos que não me procuravam, manifestei-me aos que não perguntavam por mim (Is 65,1). Mas a respeito de Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo incrédulo e rebelde (Is 65,2). Comentário Para que, por ter acabado de dizer: Israel não chegou à lei da justiça, mas tropeçaram em Cristo , não se julgasse que o Apóstolo dizia que os judeus estão por isso reprovados e que não podem mais salvar-se, diz que ora por eles, por quem certamente não oraria se os soubesse reprovados diante de Deus; por isso diz: embora os judeus tenham tropeçado em Cristo, contudo, irmãos, o desejo do meu coração é por eles , isto é, tenho boa vontade para com eles, que, se se arrependerem, confio que serão salvos; e não só o desejo, mas também a oração a Deus é por eles, para a salvação , para que a tenham. Por isso certamente rogo a Deus por eles, porque lhes dou testemunho de que têm com certeza zelo de Deus , isto é, amor de Deus; ou então, zelo, isto é, indignação contra os santos, por zelo de Deus e de sua lei; julgando, com efeito, que assim se deve defender a sua lei, perseguem os santos: têm certamente zelo de Deus, mas não segundo a ciência ; não amam, com efeito, a lei com ciência, nem assim se indignam em favor da lei; por isso diz o bem-aventurado Pedro: «Sei, irmãos, que o fizestes por ignorância, etc.» (At 3,17). Na verdade não segundo a ciência; pois eles, ignorando a justiça de Deus , isto é, que toda justificação vem somente de Deus, e procurando estabelecer , isto é, confirmar a sua própria , de modo a serem justificados pelas obras carnais da lei; justiça que seria, certamente, não de Deus, mas deles; procurando isto, não se sujeitaram à justiça de Deus , isto é, a Deus que justifica; antes, derrogando a Deus, atribuíam a si a justiça que é de Deus. Na verdade não se sujeitaram à justiça de Deus; pois não quiseram sujeitar-se a Cristo, que é para a justiça de todo aquele que crê , isto é, que justifica todo crente; Cristo, digo, que é o fim da lei , tanto segundo o seu cumprimento quanto porque, vindo Cristo, aquela lei findou e agora, por Cristo, tem lugar a graça. Na verdade Cristo é para a justiça, pois a lei não é para a justiça; Moisés, com efeito, escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei , isto é, as observâncias carnais que a lei prescreve, viverá por ela (Lv 18,5), pela lei, isto é, só terá do cumprimento da lei carnal que não morrerá pelo julgamento da lei; quem cumpre a lei, com efeito, apenas evita a pena, mas não é por ela justificado. Da justiça da lei assim diz; mas a justiça que vem da fé , o mesmo Moisés assim diz: Não digas em teu coração , isto é, nem creias com o coração nem digas com a boca isto: Quem subirá ao céu? (Dt 30,12), isto é, não duvides de que alguns subiram ao céu e de que ainda subirão quaisquer justos; dizer isso (quem subirá ao céu) é fazer Cristo descer do céu, isto é, negar que Cristo tenha subido ao céu. Ou não digas em teu coração: Quem descerá ao abismo , isto é, ao inferno? porque dizer isto é fazer Cristo subir dentre os mortos , isto é, dizer que nem Cristo morto desceu ao inferno, nem dali tirou Abraão e seus santos: duas coisas contrárias à fé. Isto não creias, mas crê o que segue; que diz, com efeito, a Escritura pelo mesmo Moisés? Perto de ti está a palavra, em tua boca , isto é, está preparada a palavra da doutrina; ou então, a Palavra de Deus, Cristo, em tua boca, para que o confesses e racionalmente o defendas. E esta mesma palavra está perto também em teu coração (Dt 30,14), para que creias nela; e esta palavra que digo estar perto é a palavra da fé , isto é, a doutrina apta a ser crida, ou Cristo, em quem convém crer; palavra que pregamos . Pregamos isto, a saber: se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos , e quaisquer coisas impossíveis creias a seu respeito, e que nem a lei da natureza pôde obstar-lhe; se isto, diz, confessares e creres, não só viverás a vida presente, como pela lei, mas também serás salvo eternamente. Na verdade, se creres com o coração, serás salvo; pois com o coração se crê para a justiça , isto é, para a justificação dos pecados; quem foi justificado está seguro da salvação. E na verdade, se confessares com a boca, serás salvo; pois com a boca se faz a confissão para a salvação . Pôs salvação porque parece maior, para a confissão da boca; confessar isto, a saber, a Deus, era coisa grande e principal no tempo do Apóstolo, com a perseguição furiosa; tempo em que muitos que criam sinceramente não ousavam falar abertamente nem confessar. Prova que a crença do coração justifica pela autoridade da Escritura, sem determinar, contudo, de que escritura se trata; mas nos salmos encontra-se muitas vezes coisa equivalente: na verdade com o coração se crê para a justiça; pois a Escritura diz: Todo aquele , quer judeu, quer gentio, que nele crê , naquele que Deus ressuscitou dentre os mortos, não será confundido , isto é, não se envergonhará como se tivesse crido mal. Digo bem todo ; pois não há distinção diante de Deus entre judeu e grego , isto é, Deus na sua salvação acolhe indistintamente o judeu como o gentio, e o gentio como o judeu. Na verdade diante de Deus não há distinção alguma entre judeu e gentio; porque o mesmo é o Senhor de todos ; quem criou um criou também o outro: donde aparece que tem igual vontade para ambos. E como a vontade, assim também tem o poder; pois Ele é rico e retribui abundantemente para com todos os que o invocam . Prova que a confissão é para a salvação; a letra responde, porém, ao imediato: na verdade Deus é rico para com todos os que o invocam; pois todo aquele , quem quer que seja, judeu ou gentio, que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 2,32). Visto que é preciso que invoquem para serem salvos, portanto é preciso que primeiro creiam, para depois invocarem; como invocarão, com efeito, aquele em quem não creram? como se dissesse: porque crerão, invocarão. Ou como crerão naquele de quem não ouviram falar? , isto é, porque ouvirão, crerão. E como ouvirão, se não há quem pregue? , isto é, porque lhes será pregado, ouvirão. E como pregarão, se não forem enviados? , isto é, porque Deus os enviará, pregarão. Com todas estas interrogações pretende que tudo venha da graça de Deus, desde o princípio da vocação até a salvação deles; quando diz, com efeito, que os pregadores foram enviados por Deus, que foram ouvidos, e depois de ouvidos creem, e em seguida invocam, e assim por fim são salvos, insinua que tudo deve ser referido à graça de Deus. Na verdade os pregadores são enviados por Deus, como está escrito em Isaías: Quão formosos são os pés , isto é, a chegada, dos que anunciam , isto é, dos que bem anunciam a paz entre Deus e o homem, dos que anunciam o bem (Is 52,7), isto é, a humildade, a castidade e coisas semelhantes. Porque havia dito acima que, por terem ouvido, creram, para que não pensássemos que só ouvir bastava para ter a fé, sem operar interiormente o Espírito Santo, diz: embora eu tenha dito que, ouvindo, crerão, contudo nem todos os que ouvem obedecem ao Evangelho ; e não digo isto só eu; mas Isaías, sentindo comigo, diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? (Is 53,1), isto é, ou nas coisas que ouviram de nós, ou nas que nós ouvimos de ti e lhes anunciamos? Ao dizer quem creu , insinua que muitos ouviram e que, se não todos, alguns, contudo, creram; e visto que alguns creram, logo a fé vem do que se ouve , isto é, alguns creem porque ouvem. Nem de todo ouvir, porém, se obtém a fé sã, mas do ouvir que se faz pela palavra de Cristo , isto é, segundo a doutrina de Cristo, a fé é salutar. Embora poucos tenham crido em nossa pregação, digo, contudo: Porventura não ouviram? como se dissesse: do fato de não terem crido são inescusáveis, porque ouviram a palavra da fé; pelo contrário , por toda a terra se espalhou o som , isto é, a fama daqueles pregadores; e não só a fama, mas também as suas palavras , isto é, as mesmas que eles pregavam, foram ouvidas até os confins do mundo : e digo da terra, que é o orbe, isto é, a terra redonda; em toda parte da terra, com efeito, foram ouvidas as palavras dos Apóstolos. Ouviram certamente, como se provou; e não digo só que ouviram, mas digo que também conheceram; o que põe em forma de pergunta, para mais os excitar, dizendo: Porventura Israel , isto é, o povo judaico, não o conheceu? Há dois gêneros de conhecimento: um, pelo qual, conhecendo uma coisa como boa, amamos e aprovamos o bem dessa coisa; e este é o bom conhecimento: outro, pelo qual vemos que a coisa é como se diz, sem poder contradizê-la, e contudo não amamos aquela coisa, mas (o que só podemos) temos para com ela uma vontade iníqua: este é o mau conhecimento que os judeus tiveram a respeito de Cristo. Prova pela autoridade de Moisés que os judeus conheceram a Cristo, dizendo: na verdade Israel conheceu; pois primeiro Moisés , primeiro no tempo segundo os escritos, ninguém, com efeito, escreveu profecia antes dele (ao dizer primeiro, insinua que há muitas testemunhas da mesma coisa, embora não as aduza); ou então, primeiro, isto é, principal em dignidade; Moisés, diz, primeiro diz isto: Eu vos provocarei , ó judeus, a ciúme , isto é, à inveja e indignação do ânimo, com um povo que não é povo , isto é, contra a gentilidade, que antes não se dizia meu povo, a quem vós mesmos chamáveis cães; ou então, com um povo que não é povo , isto é, contra a gentilidade a quem farei não-povo, isto é, não a deixarei como foi gerada, mas a farei nova criatura, regenerada pela água e pelo Espírito Santo. E não só vos conduzirei para que vejais, mas também vos irritarei , para que os persigais; irritarei, digo, com uma nação , isto é, contra a gentilidade, insensata , isto é, que antes era insensata; porque, embora muitos filósofos dos gentios tivessem ciência das coisas mundanas, eram, contudo, insensatos, porque ignoravam a verdade do culto divino. Pelo fato de os judeus verem cumprida a profecia de Moisés, ao invejarem os gentios feitos cristãos, que abandonam a idolatria e seguem a nova lei, reconhecem que chegou aquele tempo de que Moisés predizia isto, mas a amargura deles não quer aquiescer ao verdadeiro conhecimento. Moisés diz isto dos judeus; Isaías, porém, ousa e diz isto sobre a salvação dos gentios e a reprovação dos judeus: ousa certamente; este Isaías, com efeito, porque mais manifestamente que os demais profetizou a salvação dos gentios, muito sofreu dos judeus e por fim foi morto por eles; por isso diz: ousa , isto é, sem temor, mas com audácia diz: Fui achado pelos que não me procuravam (Is 65,1). Ao dizer-se achado e não procurado, que parecem repugnar, mostra que os gentios encontraram a salvação somente pela misericórdia de Deus. Fui achado, digo, pelos gentios que não me procuravam pela razão natural, que lhes dera para me entenderem; e manifestei-me a estes abertamente , isto é, posto à vista de todos; a estes, digo, que não perguntavam por mim , isto é, pelo conhecimento de mim a algum que entendesse; se, com efeito, me procurassem por sua razão e não bastassem para conhecer, seria oportuno que perguntassem a quem entende o que eles entendiam menos. Assim diz Isaías dos gentios; a respeito de Israel , porém, isto é, do povo judaico, diz isto: Todo o dia , isto é, durante todo o tempo, por meio dos pregadores; ou então, todo aquele dia em que pendi na Cruz, estendi as minhas mãos , isto é, as minhas afeições e obras, a um povo judaico incrédulo ; e não só incrédulo, mas também rebelde contra mim. A extensão das mãos de Cristo na cruz significou o amor, com o qual sempre quis abraçar os judeus, e com o qual, mesmo na Cruz, se se arrependessem, estava pronto a perdoar tudo. Eis que de novo em Isaías mostra que os judeus conheceram, uma vez que veem cumprido o que ele disse; mostra também a salvação dos gentios e a reprovação dos judeus. Capítulo 11 Pergunto, pois: Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo algum. Pois também eu sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o seu povo, que de antemão conheceu. Ou não sabeis o que diz a Escritura em Elias, como ele intercede a Deus contra Israel? Senhor, mataram os teus Profetas, derrubaram os teus altares; fiquei só eu, e procuram tirar-me a vida (1Rs 19,10). Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal (1Rs 19,18). Assim, pois, também no tempo presente ficou um resto, segundo a eleição da graça. Mas, se é pela graça, já não é pelas obras; caso contrário, a graça já não é graça. Que então? O que Israel buscava, não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram; os demais foram cegados, como está escrito: Deus lhes deu um espírito de torpor, olhos para não verem e ouvidos para não ouvirem, até o dia de hoje (Is 6,9). E Davi diz: Torne-se a sua mesa um laço, uma armadilha, um tropeço e uma retribuição para eles; escureçam-se os seus olhos para que não vejam, e faze curvar para sempre as suas costas (Sl 68,23-24). Pergunto, pois: Porventura tropeçaram para cair? De modo algum. Mas pela queda deles veio a salvação aos gentios, para os provocar a ciúme. Se a queda deles é riqueza do mundo, e a sua diminuição riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude? Digo-vos, pois, a vós, gentios: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, honrarei o meu ministério, para ver se de algum modo provoco à emulação a minha carne e salvo alguns deles. Pois, se a sua rejeição é reconciliação do mundo, que será a sua admissão, senão vida dentre os mortos? Se as primícias são santas, também a massa; e, se a raiz é santa, também os ramos. Se alguns dos ramos foram cortados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado entre eles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos. Se te glorias, não sustentas tu a raiz, mas a raiz te sustenta a ti. Dirás, então: Foram cortados os ramos para que eu fosse enxertado. Bem; foram cortados por causa da incredulidade. Tu, porém, estás firme pela fé; não te enalteças, mas teme. Pois, se Deus não poupou os ramos naturais, talvez não te poupe a ti. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: severidade para com os que caíram, mas bondade de Deus para contigo, se permaneceres na bondade; caso contrário, também tu serás cortado. Mas também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para enxertá-los de novo. Porque, se tu foste cortado da oliveira brava, que é a tua natural, e foste enxertado, contra a natureza, em oliveira boa, quanto mais estes, que são naturais, serão enxertados em sua própria oliveira! Pois não quero que ignoreis, irmãos, este mistério (para que não presumais de vós mesmos): que a cegueira veio em parte sobre Israel, até que entre a plenitude dos gentios, e assim todo Israel seja salvo, como está escrito: Virá de Sião o libertador, que afastará de Jacó a impiedade (Is 59,20). E esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados. Segundo o Evangelho, são inimigos por causa de vós; segundo a eleição, porém, são amadíssimos por causa dos pais. Pois os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. Assim como vós outrora não crestes em Deus, mas agora alcançastes misericórdia por causa da incredulidade deles, assim também eles agora não creram para que, pela misericórdia que vos foi feita, também eles alcancem misericórdia. Pois Deus encerrou a todos na incredulidade, para usar de misericórdia com todos. Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! Pois quem conheceu o pensamento do Senhor, ou quem foi seu conselheiro? (Sb 9,13; Is 40,13). Ou quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; a ele a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Comentário Porque digo que o povo dos judeus é incrédulo e rebelde, pergunto, pois , isto é, porventura julgam por isso que eu digo que Deus rejeitou o seu povo judaico, que antes elegera? De modo algum que Deus alguma vez rejeite o seu povo. Na verdade não o rejeitou; pois eu sou israelita , e muitos outros, que não fomos rejeitados; e não israelita de tal modo que, nascido de outra parte, tenha passado ao judaísmo, mas sou da descendência de Abraão ; nem ainda de Ismael ou dos filhos de Cetura, mas da tribo de Benjamim . Esta tribo foi preferida às outras, porque os que foram desta tribo não caíram tantas vezes quanto os outros na idolatria. E porque eu, da descendência de Abraão, não fui rejeitado, aparece por isso que Deus não rejeitou o seu povo. Chamo povo de Deus, certamente, aquele que de antemão conheceu , isto é, predestinou para a salvação. Não o rejeitou agora, certamente: como outrora, julgando Elias que todos, exceto ele, se haviam afastado do culto de Deus, muitos, contudo, que ele ignorava, foram reservados por Deus, assim agora Deus tem muitos eleitos que ignoramos. É certo que Deus não rejeitou o seu povo; porque ou não sabeis o que diz a Escritura em Elias , isto é, onde fala de Elias, como ele intercede a Deus contra Israel , isto é, para a condenação dos judeus, dizendo isto no terceiro livro dos Reis: Senhor, mataram os teus Profetas Acab e Jezabel; derrubaram também os teus altares (1Rs 19,14). Os fiéis de Israel, com efeito, porque não ousavam reunir-se para adorar em Jerusalém, tinham por isso erguido ocultamente altares nas cavernas e nas florestas, e ali imolavam; altares que os israelitas idólatras também destruíram desde os alicerces, e matavam os que encontravam imolando. Mataram, diz, os outros Profetas; e fiquei só eu no culto de Deus, e ainda procuram tirar-me a vida, para me matarem com os outros. Assim diz Elias; mas que lhe diz a resposta divina? Isto certamente: eu reservei , isto é, guardei para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal , isto é, que não adoraram os ídolos (1Rs 19,18). Não diz sete mil como se este número fosse determinado neles, de modo que nem mais nem menos houvesse, mas porque por sete se designa a universalidade; por isso também se põe um número certo em coisa incerta, para mostrar que esse número de eleitos é conhecido por Deus, embora ignorado pelos homens. O que antecipou sobre Elias, adapta agora ao que disse, assim: visto que no tempo de Elias muitos fiéis tinham sido reservados, que, contudo, ele mesmo ignorava, portanto (isto é, por isso) por semelhança deve-se crer que assim , isto é, pela misericórdia de Deus, como então; ou assim: porque, como então se ignorava, assim também agora não conseguimos discernir os eleitos de Deus: assim , diz, agora como outrora, também no tempo presente da graça , por cuja razão mais se deve crer que Deus misericordiosamente reservou para si os eleitos do que outrora, quando não era tempo de graça. Isto, digo, no tempo da graça: ficou um resto , isto é, aqueles que Deus deixou para si e previu idôneos para a salvação. O resto foi salvo, e isto segundo a eleição de Deus prevista desde a eternidade; eleição que não foi por mérito, mas da graça ; porque tanto elegeu por graça quanto salvou por graça. Se é pela graça , já consta que não é pelas obras que a mereçam; do contrário, se fossem eleitos por causa das obras, aquilo que se chama graça já não seria pura graça, mas mérito. Introduz isto convenientemente sobre a graça, para que nem aqueles que Deus deixou para si julguem que foram eleitos por mérito, como os maus foram reprovados porque mal mereceram; e, dizendo isso, serve bem ao propósito. Reúne aqui brevemente a soma das autoridades acima postas, para abrir o que por elas pretendia, dizendo: porque acima disse, segundo Isaías, que os judeus são incrédulos e rebeldes; disse de novo, segundo o mesmo, que o resto dos judeus foi salvo: que então colheremos destas coisas ditas que parecem opor-se? Isto certamente diremos: que o que Israel buscava , isto é, o povo judaico, a saber, estabelecer a sua própria justiça e nela ser salvo, não alcançou . Israel no todo não alcançou, mas a eleição alcançou , isto é, aqueles que Deus elegeu dentre Israel alcançaram a salvação; os demais , que não foram eleitos, não só não alcançaram, mas foram cegados . E digo isto como está escrito em Isaías, embora com outras palavras, no mesmo sentido: Deus lhes deu a esses judeus um espírito de torpor , a saber, um espírito maligno que os picasse e os forçasse a obrar o mal; ou então, espírito, isto é, vontade de compunção, pela qual fossem picados invejando e irando-se contra os fiéis: deu-lhes também olhos , isto é, a razão natural, mas de modo que não vejam , isto é, que sejam privados do bem da razão; deu-lhes também ouvidos , isto é, a mesma razão, com que, se não podiam entender por si algo, deviam ouvir e aprender, mas de modo que não ouçam ; não ouçam, digo, até o dia de hoje . Este dia de hoje foi o do Profeta; é também de hoje até o fim do mundo; como aquilo nos banhos: «Hoje com preço, amanhã sem preço». Diz também Davi, da cegueira dos judeus, isto: Torne-se a sua mesa , isto é, a Escritura, pela qual deviam perceber o bem, um laço para eles, isto é, enlacem-se nela, entendendo de dia em dia pior; torne-se-lhes também uma armadilha , porque foram capturados pelos romanos; e um tropeço (chama tropeço a miséria deles dispersos pelo mundo); torne-se-lhes também uma retribuição . Embora pudesse chamar retribuição à captura e ao tropeço, entende, contudo, por retribuição a ruína eterna, porque será permanente. Ou assim: a mesa deles, isto é, o fato de terem oferecido a Deus fel e vinagre, a Deus que queria ser refeito pela conversão deles, torne-se-lhes laço, isto é, sejam enlaçados por isso no cerco dos romanos: o resto não muda. E os olhos , isto é, a razão deles, escureçam-se para que não vejam nem entendam o bem; e as suas costas , isto é, a mesma razão com que deviam elevar-se ao conhecimento de Deus, faze curvar nas coisas terrenas, precipitando-os sempre mais e mais nas penas (Sl 68,23-24). Porque disse que os judeus foram cegados, pergunto, pois , porventura digo por isso que tropeçaram para cair , inutilmente e de modo irrecuperável, de modo que neles só haja queda? Aqui pretende reprimir os gentios, para que não se prefiram aos judeus, embora os tenha dito cegados, porque a queda deles é recuperável e muito útil à salvação dos gentios, dizendo: de modo algum que, embora tenham tropeçado, caiam por isso irrecuperável e inutilmente. Na verdade não inutilmente, mas pela queda deles , isto é, pelo delito dos judeus, veio a salvação aos gentios ; se os judeus não rejeitassem a palavra de Deus, os Apóstolos, com efeito, não passariam aos gentios. A salvação veio certamente aos gentios para os provocar a ciúme , isto é, para que os gentios imitem aqueles judeus que foram fiéis e cuja lei é o fundamento do Novo Testamento. Ou assim: pelo delito dos judeus veio a salvação aos gentios, de modo que os judeus os emulem, isto é, imitem os gentios na fé de Cristo; e segundo isto se prova que a queda dos judeus é recuperável. Se a queda deles , pela qual os judeus foram repelidos, é riqueza do mundo , isto é, foi causa de a gentilidade ser enriquecida da graça de Deus, quanto mais a sua plenitude , isto é, os judeus plenamente salvos, será riqueza dos gentios? Por isto se prova que a queda dos judeus é recuperável; se Deus, com efeito, tornou útil aos gentios o mal dos judeus, muito mais se deve crer que o bem deles o tornará muito mais útil aos gentios. A queda deles é riqueza do mundo; e a sua diminuição , isto é, os Apóstolos, que, eleitos dentre os judeus, diminuíram em si uma parte dos judeus; esta, digo, diminuição é riqueza dos gentios : os Apóstolos, com efeito, enriqueceram os gentios com a palavra de Deus. Não diz plenitude como se todos devessem ser salvos, assim como nem toda a gentilidade foi eleita, mas porque muitos serão salvos. Na verdade a plenitude dos judeus será salva; pois mesmo no tempo da cegueira deles alguns serão salvos; e digo isto a vós, gentios : que sempre, enquanto eu for Apóstolo dos gentios , a quem somente fui enviado, honrarei, contudo, o meu ministério ; porque, embora o meu ofício exija somente isto, pregar aos gentios, torná-lo-ei honroso acima do que devo, trabalhando entre os judeus. Honrarei, digo, para ver se de algum modo (qualquer coisa que padecesse, não me importaria) provoco à emulação a minha carne , isto é, os judeus segundo a carne, meus parentes, à emulação , isto é, a imitar-me na fé, e salvo alguns , isto é, para que, assim provocando, Deus por mim salve alguns deles. Dá a razão por que deve trabalhar entre eles; e parece ter posto acima o mesmo, mas ali com determinação de tempo, onde diz plenitude, que consta ser no fim do mundo; aqui, porém, põe para outro fim e sem determinação de tempo, dizendo: por isso trabalharei por salvar alguns deles; pois, se a sua rejeição é reconciliação do mundo , isto é, se a cegueira deles foi causa de que a gentilidade fosse reconciliada com Deus, que (isto é, qual deve dizer-se) será a sua admissão , dos judeus, em qualquer tempo, senão vida dentre os mortos? Porque, se Deus pelo mal deles reconciliou consigo o mundo, muito mais se deve crer que, pela admissão deles, Deus fará viver muitos mortos no pecado; os quais, provocados pelo exemplo deles, viverão na fé de Cristo. Prova que a sua linhagem não impede a admissão deles, mas só a incredulidade, dizendo: digo bem admissão, pois bem podem merecer a admissão; se as primícias são santas , isto é, se os Apóstolos e outros que foram eleitos dentre a sua linhagem são santos, consta que também a massa , isto é, aquela plenitude dos judeus, pode ser salva; se, com efeito, a linhagem em nada obstou aos Apóstolos, também não deve obstar aos outros. Diz primícias ( delibatio ) por semelhança: assim como se prova um pouco do alimento para se saber se a massa toda está bem ou mal temperada, assim os Apóstolos foram chamados primícias de toda a massa dos judeus, nos quais ficou claro que a linhagem em nada prejudica os judeus. Prova de novo o mesmo por outro modo: por isso consta também que podem ser bem admitidos; pois a raiz deles , isto é, Abraão, Isaac e Jacó, é santa; se a raiz deles é santa, também os ramos podem ser santos. Dir-me-ás de novo que aqueles ramos foram cortados: se alguns dos ramos foram cortados da raiz pela incredulidade, tu, porém, foste enxertado entre eles , isto é, em lugar deles; sendo oliveira brava , isto é, estéril e alheia à santa raiz, tornaste-te também participante da raiz , isto é, dos Profetas, nos quais a fé está enraizada; e te tornaste participante da seiva , isto é, dos Apóstolos, que tiveram a seiva da fé e a abundância do Espírito Santo: da raiz e da seiva, digo, da oliveira , isto é, do povo judaico, porque os Profetas e os Apóstolos nasceram dos judeus. E se tu, alheio à raiz, foste enxertado, não te glories contra os ramos que ficam, nem te prefiras a eles, como se tu devesses ser eleito por mérito e eles rejeitados por linhagem. Se te glorias importunamente, ser-te-á dito: Irmão, não sustentas tu a raiz, mas a raiz te sustenta a ti ; porque em ti não há exemplo algum de bem, ao passo que na raiz (como em Abraão) há exemplo de toda a fé. Porque acabo de tirar-te o gloriar-te contra os ramos que ficam, portanto (isto é, por isso) dirás para me contraditar que te gloriarás contra os cortados: os ramos naturais foram cortados pela incredulidade para que eu fosse enxertado em seu lugar. Bem , e assim concedo, diz Paulo; mas eles foram cortados não por causa da linhagem, mas por causa da incredulidade ; tu, porém, estás firme em lugar deles pela fé somente; e por isso não te enalteças , isto é, não te ensoberbeças contra os cortados, mas teme , para que não sejas igualmente cortado. É certamente de temer; porque, se Deus não poupou os ramos naturais , isto é, os judeus, talvez não te poupe a ti , a quem parece dever menos, por não ser natural. Porque tu, não natural, foste enxertado pela graça, e aquele, natural, foi repelido por culpa, considera, pois, a bondade e a severidade de Deus : severidade para com os que caíram , isto é, para com os judeus, vê a severidade; mas para contigo , que foste enxertado por misericórdia, vê a bondade de Deus ; bondade, digo, com esta lei: se permaneceres na bondade , cooperando com a graça recebida; do contrário, se não permaneceres, como o judeu foi cortado, assim também tu serás cortado . E aqueles judeus, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados de novo; e digo bem: serão enxertados; pois Deus é poderoso para enxertá-los de novo , como outrora os enxertou. E na verdade Deus é poderoso; pois o ato deste poder, enxertando alguns, embora poucos, vai exercendo-o pouco a pouco neste tempo; o que diz equivalentemente: Deus certamente pode enxertá-los; pois, se tu , gentio, foste cortado da oliveira brava , isto é, da raiz infrutífera, oliveira brava, digo, natural a ti por longo costume; e foste enxertado em oliveira boa , pela graça, contra a natureza , isto é, contra o costume que, pela longa duração do tempo, passara à natureza; quanto mais estes judeus serão enxertados em sua própria oliveira , que lhes é segundo a natureza? Se tu, não natural, foste enxertado por causa da fé, não há razão por que os ramos naturais não devam ser enxertados pela mesma causa. Provou acima que Deus teria poder de os enxertar pelo ato de seu poder, porque na verdade serão enxertados, dizendo: na verdade os judeus serão de novo enxertados; pois já agora, no tempo da cegueira deles, em parte são enxertados e por fim todo Israel será salvo. Que agora alguns são enxertados, concebemo-lo quando diz: a cegueira veio em parte sobre Israel ; se foi em parte, e não no todo, por que não dizemos que agora também uma parte deles é de novo enxertada? E, ó irmãos , não quero que ignoreis que isto aconteceu, a saber, a cegueira em Israel, para que entrassem os gentios; o que certamente é mistério, porque, embora se considere a ordem da coisa, não se entende, contudo, a causa da cegueira dos judeus e da iluminação dos gentios: esta cegueira e iluminação, por isso, não quero que ignoreis que são mistério, para que não presumais de vós mesmos , isto é, para que não possais imputar isto à vossa sabedoria, que não basta para entender o sacramento desta coisa; se, com efeito, esta causa não estivesse oculta sob mistério, mas vos fosse aberta, presumindo imputaríeis isto à vossa sabedoria, a qual, por falhar no conhecimento deste mistério, reconhece a sua fraqueza e admira a altura do desígnio divino. Isto, digo, não quero que ignoreis, que a cegueira veio sobre Israel , e isto em parte ; nem todos, com efeito, foram cegados. Diz veio quanto à ignorância dos homens, que desconhece as causas deste mistério; ao passo que na providência de Deus nada há de contingente, nada de fortuito, pois Ele, assim como todas as coisas, conhece também as causas de todas. A cegueira veio certamente sobre Israel até que entre a plenitude dos gentios (esse "até que" é temporal e causal); como se dissesse: os judeus foram cegados para que entrasse, e enquanto não entrasse a plenitude dos gentios. Nem plenitude de modo que cada um dos gentios se salvasse, mas, naquele respeito em que antes dificilmente alguns dos gentios se salvavam, diz-se que no tempo da graça houve plena salvação dos gentios. E assim , depois que tivesse entrado a plenitude dos gentios, todo Israel seria salvo ; não todos os hebreus, contudo, mas quantos fossem Israel, que veem a Deus. É, porém, sentença de alguns que todos os judeus serão salvos no fim do mundo. Prova que os judeus agora se salvam em parte e no fim plenamente, pela autoridade de Isaías, dizendo: quanto ao que digo, que Israel será salvo, isto não afirmo de mim, mas como está escrito ; isto certamente está escrito: Virá de Sião , isto é, do povo judaico, o libertador que arranque por certa violência e com muito trabalho, como agora se faz no tempo da cegueira, o qual também com certa facilidade afastará , o que será no fim do mundo, quando os judeus correrão espontaneamente à salvação: arrancará, digo, e afastará de Jacó , isto é, do povo judaico, a impiedade (Is 59,20). Não chama impiedade aqui à idolatria habitual, mas ao negar o culto ao Filho de Deus, o que os judeus faziam; seu rito, com efeito, depois que veio o tempo da graça, foi verdadeiramente idolatria. Determinou por quem se faria a salvação dos judeus; determina também o tempo em que isto será, dizendo: e esta será a minha aliança com eles , isto é, esta promessa testada será cumprida por mim para eles, então, quando eu tirar os seus pecados e os justificar; o que agora se faz pouco a pouco, e nos últimos dias plenamente: agora alguns são arrancados da impiedade e tornam-se amados; outros, porém, que não querem ser arrancados, são inimigos, e isto segundo o Evangelho , isto é, porque invejam e detraem o Evangelho, pelo qual os gentios se convertem. São certamente inimigos; e isto por causa de vós , isto é, para vossa utilidade; se os judeus não rejeitassem a palavra de Deus, os Apóstolos, com efeito, não passariam aos gentios. Uns são inimigos; outros , porém, isto é, os predestinados, são amadíssimos segundo a eleição , isto é, não por mérito, mas porque Deus os elegeu pela graça; amadíssimos também por causa dos pais , não, contudo, por mérito dos pais, mas para que se cumpram as promessas feitas a seus pais. Na verdade segundo a eleição e por causa dos pais; pois os dons e a vocação de Deus , isto é, a eleição deles, e os dons, isto é, o cumprimento das promessas, são irrevogáveis , isto é, sem mudança; porque, como prometeu e elegeu, assim cumprirá. Ou assim: na verdade amadíssimos segundo a eleição; pois os dons de Deus, isto é, a remissão dos pecados, e a vocação de Deus, isto é, a instrução dos fiéis, que, depois de justificar no batismo, instrui por meio de doutores: estes dons e esta vocação de Deus são certamente sem mérito algum; pois sem penitência de aflição corporal, que excederia diante de Deus o mérito da penitência, se os dons e a sua vocação fossem segundo o mérito. Os judeus são certamente eleitos; pois, assim como vós , gentios, e alguns judeus antes da lei, vós outrora não crestes em Deus, mas agora , no tempo da graça, alcançastes misericórdia , isto é, por misericórdia a salvação, e isto por causa da incredulidade deles ; porque, como não receberam a palavra de Deus, o Apóstolo a transmitiu aos gentios. Assim como, diz, vós, outrora incrédulos, agora alcançastes misericórdia, assim também eles , os judeus, agora não creram , indo à vossa misericórdia, isto é, não querendo ser salvos como vós pela misericórdia de Deus; por isso não creram, para que, como vós, também eles alcancem misericórdia . Deus teve misericórdia de vós incrédulos, para que isto fosse imputado somente à sua graça, assim também dispôs ter misericórdia dos judeus mergulhados na incredulidade, para que ambos, judeu e gentio, igualmente atribuíssem tudo à graça de Deus e, conhecendo a sua fraqueza, não se ensoberbecessem; Deus, com efeito, vendo que o diabo e o homem caíram ambos por soberba, muito se empenhou depois em precaver o homem da soberba; por isso permitiu que ambos, judeu e gentio, fossem abalados na incredulidade, para que, quanto mais conhecessem a sua fraqueza, tanto mais se sujeitassem à misericórdia de Deus. Na verdade a incredulidade dos judeus é causa para que alcancem misericórdia; pois Deus encerrou a todos , ora gentios, ora judeus, na incredulidade , para que, feitos todos incrédulos, use oportunamente de misericórdia com todos : se, com efeito, uns ou ambos tivessem perseverado na fé, certamente atribuiriam ao mérito de sua fé o que era de misericórdia de Deus. E as causas destas coisas, por que agora estes são encerrados, agora aqueles, não procures investigar, mas admira comigo o desígnio de Deus, dizendo: Ó profundidade dos juízos de Deus , pelos quais agora os judeus são repelidos, agora os gentios enxertados. Estes juízos são tão altos quanto a sabedoria e a ciência de Deus; o que diz assim: Ó profundidade , isto é, abismo, das riquezas da sabedoria , isto é, da rica sabedoria e da ciência de Deus! A sabedoria e a ciência de Deus dizem-se ricas segundo a grande abundância; diz-se alta segundo a profundidade insondável. Chama-se sabedoria de Deus aquela pela qual se conhece quão grande é; ciência aquela pela qual conhece tudo o que há das criaturas. Ó profundidade da sabedoria e da ciência de Deus, quão insondáveis são os seus juízos! , isto é, ninguém é capaz de compreender a profundidade dos juízos que Ele pondera consigo. Dir-se-ia: enquanto os juízos são ponderados em Deus, é verdade que não são entendidos; mas, levados à execução, são bastante compreendidos. Contra isto Paulo: os juízos de Deus, enquanto ponderados em Deus, como não podem ser compreendidos, assim também os seus caminhos , isto é, as operações desses mesmos juízos, são inescrutáveis . Prova por Isaías o que antecipou, dizendo: na verdade a sabedoria e a ciência de Deus são inescrutáveis; pois quem conheceu o pensamento do Senhor? Ninguém, certamente, pôde conhecer o que Deus pensou. E na verdade os juízos e as obras dos juízos são inescrutáveis; pois quem foi seu conselheiro (Is 40,13), por cujo conselho ordenasse as suas coisas, ou a quem admitisse ao conselho de sua disposição? Ninguém, certamente. E assim como a ninguém abriu o seu pensamento, assim também concede por misericórdia quaisquer bens; quem, com efeito, lhe deu? Alguém, depois de recebida a graça, pôde em algo merecer; mas quem lhe deu primeiro, antes que Deus desse a graça; e a quem, assim dando, não será dado gratuitamente por Deus, mas lhe será retribuído , porque o mereceu? Estas são palavras de Isaías; as que seguem, porém, são palavras de Paulo: na verdade ninguém deu primeiro a Ele; porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas . Pelas diversas preposições, dele, por ele, para ele , nota a distinção das pessoas da Trindade; pelo mesmo pronome repetido três vezes, nota a identidade da substância, dizendo: dele , isto é, do Pai, que como princípio não é de outro; e por ele , isto é, pelo Filho, que tem princípio do Pai e por quem o Pai fez todas as coisas; e para ele , isto é, no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, que se diz bondade de Deus, pela qual bondade subsistem as coisas criadas. Dele, digo, e por ele, e para ele são todas as coisas: a ele, portanto, é devida a glória e a ação de graças por tudo, por todos os bens que dá misericordiosamente; e esta glória seja pelos séculos , isto é, eternamente. Amém , isto é, vede que assim seja. Podia aqui terminar a Epístola; havia reprimido suficientemente ambos os povos, para que não se ensoberbecessem reciprocamente entre si, e muitas razões antecipara a respeito; mas, porque, já não se ensoberbecendo contenciosamente entre si, era necessária a caridade alternada, admoesta-os por isso, já apaziguados da contenda, a servirem-se mutuamente e a suportarem-se um ao outro, para que, por tal serviço, se una e se fortaleça neles o vínculo do amor. Capítulo 12 Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus: este é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que discirnais qual é a vontade de Deus, a boa, a agradável e a perfeita. Digo, com efeito, pela graça que me foi dada, a todos os que estão entre vós: não saibais mais do que convém saber, mas saibais com sobriedade, e cada um conforme a medida da fé que Deus lhe repartiu. Pois, assim como num só corpo temos muitos membros, e todos os membros não têm a mesma função, assim também nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um membro uns dos outros. Tendo, porém, dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada: seja a profecia, conforme a medida da fé; seja o ministério, no servir; seja quem ensina, no ensino; quem exorta, na exortação; quem dá, com simplicidade; quem preside, com solicitude; quem pratica a misericórdia, com alegria. O amor seja sem fingimento. Aborrecei o mal, aderi ao bem; amai-vos uns aos outros com caridade fraterna; antecipai-vos em honrar-vos mutuamente; na solicitude não sejais preguiçosos; sede fervorosos de espírito; servi ao Senhor; alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverantes na oração; socorrei as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade. Abençoai os que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram; tende os mesmos sentimentos uns para com os outros; não aspireis a coisas elevadas, mas acomodai-vos às humildes. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos; a ninguém pagueis o mal com o mal; procurai o bem não só diante de Deus, mas também diante de todos os homens. Se for possível, no que depende de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, caríssimos, mas dai lugar à ira; pois está escrito: A mim a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor (Dt 32,35). Mas, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; pois, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem. Comentário O texto liga-se assim: visto que dele, por ele e nele são todas as coisas, portanto, irmãos, rogo-vos , isto é, exorto-vos por todas as coisas sagradas; rogo-vos pela misericórdia de Deus , isto é, pelo apostolado que me foi dado, não porque o tenha merecido, mas por misericórdia; ou então, rogo-vos pela misericórdia de Deus, da qual provei acima que procedem todos os bens, que ofereçais , isto é, que preparais, não só as vossas almas, mas também os vossos corpos . Ofereçais, digo, como hóstia , isto é, mortificada segundo a deposição das imundícies, viva segundo a posse das virtudes; e não viva por um tempo, mas santa , isto é, santa e perseverante na vida das virtudes; e nesta vida e santidade não buscando lucro ou louvor do mundo, mas agradável a Deus em tudo. E, para que, por ter acabado de dizer: oferecei os vossos corpos como hóstia, alguém não julgasse que se devia afligir o corpo sem temperança alguma, acrescenta o Apóstolo: hóstia, digo, de modo que o vosso culto seja racional , isto é, que jejueis, vigieis etc. com discrição. Agora alguém diria: estou pronto a oferecer-me a Deus, enquanto o mundo não me perturba, mas é duro resistir ao mundo que me constrange. Contra isto Paulo: oferecei-vos tais; e não vos conformeis , isto é, não vos torneis conformes a este século , de modo a obedecer em algo ao mundo que lisonjeia ou atemoriza. Não vos conformeis ao século, mas transformai-vos pelo batismo, vós que antes fostes deformados pela culpa de Adão; ou então, transformai-vos, isto é, renovai-vos cada dia, vós que justificados recebestes uma forma nova: transformai-vos, digo, progredindo assiduamente na renovação do vosso espírito , isto é, renovai-vos cada vez mais obrando bem, para que discirnais , isto é, conheçais provadamente, qual é a vontade de Deus , vontade, digo, boa , isto é, útil aos que a cumprem, e agradável aos que a experimentam em ato, e não de modo a agradar em um e desagradar em outro, mas perfeita em todos. Que ofereçais os vossos corpos como hóstia a Deus, isto admoesto sem constrição alguma de obediência; o que segue, porém, digo pela graça , isto é, ordeno com a autoridade de nosso apostolado. Deve-se considerar por que apenas admoesta as coisas ditas, mas as que seguem proíbe com toda autoridade: as coisas que geram ofensa, com efeito, é lícito ao prelado proibir aos súditos por força da obediência, mas, desde que não violem a lei, não devem ser constrangidos a coisas melhores, e sim, para que façam o bem, ser exortados por amor; se, com efeito, fossem constrangidos a coisas mais perfeitas pela constrição da obediência, o prelado mais os condenaria do que os ajudaria, pois, se não cumprissem o preceito, seriam condenados por desobediência; e por isso devem ser levados às coisas melhores antes por admoestação do que por coação; por isso diz: pela graça do apostolado que me foi dada , digo e ordeno a todos os que estão entre vós , e assim a todos como a cada um, isto a saber: não saibais mais do que convém saber , isto é, do que exige a fé sã. Não vos proíbo inteiramente saber, mas quero que saibais com sobriedade . E também não quero que todos vos esforceis até o mesmo termo de sabedoria, de modo que não vos baste a menos que todos igualmente saibais; e por isso baste a cada um saber conforme a medida da fé que Deus repartiu separadamente a cada um, isto é, os seus dons medidos, segundo o modo e a oportunidade da vossa fé. Reprime os romanos do excesso de sabedoria porque eles investigavam além da medida as causas dos mistérios de Deus. O fato de Deus não ter dado a ninguém saber tudo, mas ter repartido por partes a cada um, vale muito para que se sirvam mutuamente e se acomodem uns aos outros; quando, com efeito, um ignora o que o outro sabe, e vice-versa, na diversidade das graças recebidas um serve ao outro; para o que pôs uma semelhança apropriada: pois, assim como num só corpo temos muitos membros , os diversos membros, tendo diversas funções, o pé serve à mão, quando leva a mão a tocar o que deseja, a mão ao pé, quando o veste; assim também nós somos diversos membros, formando o único corpo da Igreja; assim como pela mesma alma os diversos membros no mesmo corpo são sensibilizados, assim nós no corpo da Igreja somos todos vivificados pelo mesmo Espírito. O texto liga-se assim: Deus deu certamente os seus dons divididamente; pois, assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, sendo muitos, somos um só corpo na Cabeça, Cristo; mas somos individualmente membros uns dos outros , isto é, de modo que este olho sirva àquele pé, e assim nos demais; essa acomodação de serviço é grandemente idônea para a guarda da humildade e da união. Somos individualmente membros uns dos outros; portanto, isto é, porque Deus quis que assim nos servíssemos mutuamente, temos dons diferentes , como este a profecia, este a doutrina, etc.; se, com efeito, cada um tivesse todos os dons, não haveria por que um servisse ao outro ou lhe fosse necessário, e assim um se ensoberbeceria contra o outro, não restando em que um se acomodasse ao outro. Tendo, digo, dons diferentes, e isto segundo a graça , isto é, pelo Espírito Santo, graça que nos foi dada pela graça, não recompensada pelo mérito: dons, digo, para que tenhamos a profecia , isto é, o conhecimento certo das coisas futuras ou a revelação de quaisquer segredos; tendo, digo, a profecia, e isto conforme a medida da fé — não determina de que fé, se da nossa ou da dos ouvintes, e pode referir-se a ambas assim: segundo a medida da nossa fé, porque Deus, conforme vê ser conveniente e segundo o modo de nossa fé, ou revela segredos ou anuncia coisas futuras; ou segundo a medida da fé dos ouvintes, porque, conforme Deus vê a fé e a capacidade dos ouvintes, tanto dá aos pregadores para que lhes revelem ou anunciem — nós, tendo certamente a profecia segundo a medida da fé, nossa ou dos ouvintes, sejamos membros uns dos outros. Ou, se temos o ministério de administrar aos irmãos os bens temporais, devemos ser membros uns dos outros no servir , conforme nos foi confiado. Seja quem ensina : diz ensinar quem tem a ciência de ensinar e a graça da palavra; quem, digo, ensina, seja membro do outro no ensino . Quem, porém, exorta, seja membro do outro na exortação . Ensinar é de quem é sábio; quem sabe menos, contudo, pode exortar e animar ao bem alguém muito mais prudente que ele, como qualquer rústico poderia exortar à guerra um forte soldado, cuja perícia na guerra o rústico, contudo, ignoraria. Quem dá, dê com simplicidade , isto é, não na esperança de receber, não por amor de louvor terreno, mas só por amor do próximo. Quem preside , presida com solicitude , isto é, tenha o cuidado dos súditos com toda vigilância. Quem tem o que dar, dê com simplicidade; quem não tem o que dar, tenha, porém, misericórdia no ânimo; e quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria , isto é, não coagido pelo preceito da lei, mas fervoroso pelo espírito de amor. E porque viu que, para que assim, servindo-se mutuamente, se acomodassem uns aos outros, era necessário o amor, acrescenta acerca dele, dizendo: para que por esses modos um se faça membro do outro, haja em vós o amor, e sem fingimento , para que se mostre por fora e arda por dentro. Não ameis de modo a aderir ao mal do próximo, mas aborrecei o mal dele, aderi ao bem do próximo, isto é, cooperando. Nem baste ter o amor em vós mesmos; mas também amando-vos com a caridade de fraternidade , isto é, que haja de bom amor nos vossos irmãos; caridade, digo, tida mutuamente, de modo que um opere caridade para com o outro; ou assim: assim como quero que ameis os próximos, assim quero que sejais amantes da caridade fraterna, retribuída mutuamente; e se os próximos retribuírem a vós algumas obras de caridade, recebei-as de bom grado. Havia, com efeito, alguns que faziam o bem aos próximos, mas, para não perderem a recompensa deste mérito, não queriam receber nada em troca dos próximos. E para que o vosso amor tenha sempre crescimento, antecipai-vos em honrar-vos mutuamente , isto é, um ao outro, de modo que quem pode mais depressa se levante diante do outro. Abrace o próximo com todo gênero de amor; e para que o bem da fraternidade cresça em vós, na solicitude não sejais preguiçosos , de modo que, com toda vigilância, um se preocupe em aliviar a necessidade do outro. Esta solicitude ordenou acima aos prelados; aqui a recomenda aos irmãos por certa paridade. Se não têm o que dar solicitamente, sejam, contudo, fervorosos de espírito , isto é, arda a caridade em seu ânimo, ainda que não tenham a possibilidade de operar. E, para que os contemplativos não julgassem mal descer do cume da contemplação às necessidades do próximo, diz Paulo: em tudo isto sabei que nós estamos servindo ao Senhor ; Deus, com efeito, muito ama este gênero de serviço: e, quando assim amantes vos tiverdes empenhado no cuidado do próximo, não espereis a recompensa presente, mas alegrai-vos na esperança da remuneração futura. Mostrado como devem comportar-se com os bons, determina como se hajam contra os maus, dizendo: para que não sejais frustrados na esperança futura, sede pacientes na tribulação , isto é, suportai pacientemente tudo o que for preciso sofrer por Cristo. Para que perseverreis na paciência, sede perseverantes na oração ; porque, se em tudo a oração é proveitosa, muito mais é necessária para suportar as paixões, que tanto repugnam à carne. Se, porém, não vos sobrevierem tribulações tão grandes, sede ao menos socorrendo as necessidades dos santos , de modo que torneis comuns convosco e com os vossos bens as carências dos que padecem; e não só socorrendo, mas praticando a hospitalidade , de modo que, recebendo com hospedagem, sem temor, os santos que os ímpios perseguem, tenhais cuidado deles. Padecei, sim, de quem vos tribula, e não só isso, mas abençoai os que vos perseguem ; e não uma vez, mas abençoai assiduamente; nem abençoeis em atenção à vossa paciência e amaldiçoeis considerando a crueldade deles, mas nunca queirais amaldiçoar. Para que o amor seja íntegro, deveis alegrar-vos com os que se alegram ; e isto quanto aos bens espirituais não há dúvida, e quanto aos temporais na medida em que a razão admite. Deveis também chorar com os que choram , se alguém é aflito movido pela penitência, ou se também é angustiado por dor de carne demasiado veemente; dor na qual, contudo, deve haver medida. Para que verdadeiramente choreis com os que choram, tende os mesmos sentimentos , de modo que não só no rosto, mas no coração interiormente vos aflijais, e isto mutuamente, este por aquele, aquele por este. Para que tenhais os mesmos sentimentos, não aspireis a coisas elevadas , isto é, não vos ensoberbeçais, mas acomodai-vos às humildes , isto é, sentis o mesmo com os abjetos. E, para que saibais acomodar-vos aos humildes, não sejais sábios aos vossos próprios olhos , isto é, provedores somente de vós mesmos das coisas que convêm, mas provede também aos outros; vós, digo, não retribuindo a ninguém o mal com o mal . Sede prudentes, diz, não só procurando o que é bom diante de Deus, mas também diante de todos os homens , tanto fiéis quanto infiéis; não basta, com efeito, só o testemunho de nossa consciência, se não concordam também os testemunhos dos estranhos: por isso as coisas que são de louvor tanto diante de Deus quanto diante dos homens, essas devem ser praticadas. Para que os vossos bens agradem a todos, tende paz com todos os homens , se for possível que eles também queiram ter paz convosco; se não querem, faça-se aquela paz no que depende de vós . Ou então: tende assim paz com todos, se for possível, que a vossa carne ame os que a afligem, o que, contudo, depende de vós, porque, se quereis, podeis, pela razão, amar a todos. Para que conserveis íntegra esta paz, não vos vingueis a vós mesmos , se vos infligem males; vós, digo, se fizerdes isto, então sois caríssimos . Não vos defendais, digo, mas, suportando com ânimo sereno, dai lugar à ira dos perseguidores, para que lhes seja lícito enfurecer-se como querem; ou assim: suportando os maus, dai lugar à ira de Deus; Deus, com efeito, propôs vingar-se dos ímpios de tal modo que a seu bel-prazer exerçam a sua iniquidade, para que nenhuma miséria falte à condenação deles. Deveis dar lugar à ira de um ou de outro modo; pois está escrito em Salomão (dizendo o Senhor): A mim reservai a vingança, eu retribuirei aos ímpios (Dt 32,35); assim se deve fazer, porque isto diz o Senhor: e não só não vos defendais dos ímpios, mas ainda amai-os e fazei-lhes bem; o que diz assim: Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber ; pois, fazendo isto, amontoarás sobre a sua cabeça , isto é, sobre a sua mente, brasas de fogo (Pr 25,21-22), isto é, o fervor do amor, porque, admirando a tua paciência, ame e imite o teu bem; ou então, brasas de fogo, isto é, penitência ardente, porque, vendo a tua constância, arrepender-se-á ardentemente, para merecer assemelhar-se a ti: e, para que amontoes tais brasas sobre a mente do inimigo, não te deixes vencer pela tua impaciência pelo mal dele, mas vence o mal do inimigo, superando-o com o bem de uma paciência indefectível. Capítulo 13 Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; pois não há potestade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Portanto, quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus. E os que resistem, atraem sobre si a condenação; pois os príncipes não são motivo de temor para a boa obra, mas para a má. Queres não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela; pois ela é ministra de Deus para o teu bem. Se, porém, fizeres o mal, teme; pois não é em vão que traz a espada. Ela é ministra de Deus, vingadora para castigo daquele que pratica o mal. Por isso, é necessário submeter-vos, não só por causa da ira, mas também por causa da consciência. Por isso também pagais tributos; pois são ministros de Deus, ocupados nisso mesmo. Pagai, pois, a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor mútuo; pois quem ama o próximo cumpriu a lei. Com efeito: Não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás; e qualquer outro mandamento, se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo. A plenitude da lei, pois, é o amor. E isto, sabendo o tempo; pois já é hora de despertar do sono. Agora, com efeito, a nossa salvação está mais próxima do que quando abraçamos a fé. A noite avançou, o dia se aproximou; deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como em pleno dia: não em orgias e bebedeiras, não em desonestidades e dissoluções, não em rixas e invejas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não procureis satisfazer a carne em seus desejos. Comentário Depois de ter ensinado como os súditos devem proceder mutuamente entre si, ensina que devem aos prelados algo maior, mesmo infiéis, salva, porém, a integridade da fé; havia, com efeito, quem cresse que nada devia já aos senhores fiéis, porque eram irmãos deles na fé; aos senhores infiéis, porém, negavam toda servidão, julgando absurdo que quem era fiel se sujeitasse a um infiel. O texto liga-se assim: estas coisas ditas, os súditos devem-nas mutuamente; mas algo maior, a saber, a sujeição, devem aos príncipes; e por isso toda alma esteja sujeita às potestades superiores , isto é, sublimadas segundo a vontade de Deus. Por alma , que é parte do homem, designou o homem todo, para mostrar que não só com o corpo, mas também com a vontade se deve servir aos príncipes. Na verdade todo homem deve sujeitar-se às potestades; pois não há potestade , boa ou má, que não venha de Deus ; e não de Deus de modo que Ele, não querendo, a permita: porque as que existem foram ordenadas por Deus , isto é, dispostas ordenadamente, e não precipitando-se por acaso fortuito. Visto que tanto a potestade quanto todas as coisas foram ordenadas por Deus, portanto quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus , isto é, a Deus que ordena esta potestade. Não julgueis leve resistir assim, porque os que assim resistem, por tal resistência atraem sobre si a condenação , isto é, só esta causa basta para a condenação deles. Não se deve, pois, resistir ao príncipe; pois os príncipes não são motivo de temor para a boa obra , isto é, quem obra bem não tem por que temer o príncipe; porque, mesmo que lhe seja hostil por causa da boa obra e o persiga, aumenta-lhe a virtude e o mérito: por isso não é motivo de temor para quem obra bem. Mas para a má , isto é, quem obra mal, esse certamente pode temer o príncipe. Agora, colhendo das premissas o conselho, diz: o príncipe não se deve temer pelos bons; se tu igualmente queres não temer a potestade, faze o bem ; e, fazendo o bem, terás louvor dela , qualquer que seja, boa ou má; porque, se é boa, louvar-te-á pelo bem; se é má, perseguir-te-á enquanto obras o bem, e serás louvado pela virtude da paciência. Na verdade terás louvor dela; pois este mesmo príncipe é ministro de Deus para o teu bem , isto é, para a tua utilidade, se fizeres o bem. Se, porém, fizeres o mal, teme-o . Deve ser certamente temido por quem faz o mal; pois este juiz não traz em vão a espada : na verdade não em vão; pois ele é ministro de Deus, vingador para o dano daquele que pratica o mal: vingador, digo, para castigo , isto é, para fazer a vingança de Deus; ou então, vingador para castigo, isto é, em sinal da vingança futura, que percebem pela vingança temporal que veem. Visto que este príncipe é ministro de Deus, por isso sede submissos de ânimo a esta necessidade , isto é, ao príncipe, a quem, queirais ou não, estareis sujeitos, de modo que desejeis o que é necessário; submissos, digo, não só para evitar a ira do príncipe, mas também por causa da consciência , para conservá-la pura, porque, se não vos submetêsseis de ânimo ao príncipe, a vossa consciência estaria manchada, opondo-se à ordenação divina. Deveis certamente ser submissos ao príncipe; pois por isso , isto é, em sinal desta sujeição, pagais tributos e as demais dívidas. Vós, digo, nisto mesmo que pagais tributos às potestades, servis a Deus; pois os próprios príncipes são ministros de Deus , isto é, servem a Deus pelos tributos recebidos, que lhes dão forças e poder de operar o que Deus dispõe. Ou assim: vós pagais tributos e fazeis bem; pois estes príncipes são ministros de Deus, ocupados , isto é, os que Deus constituiu para servi-lo nisso mesmo , nos tributos que de vós recebem; quando, com efeito, Deus constituiu o primeiro rei, Saul, disse que ele não viveria mais do seu trabalho, mas dos trabalhos dos súditos. E porque ou vós, ao pagardes tributos, servis a Deus, ou os príncipes nisso mesmo servem a Deus, portanto pagai a todos os príncipes o que lhes é devido : a quem deveis tributo, pagai tributo; a quem deveis imposto, pagai imposto (tributo diz-se, por exemplo, os mantimentos que se pagavam em casa; imposto, o que era sempre levado às casas dos senhores, como hoje o censo); a quem deveis só honra, dispensai honra; a quem temor, exibi temor e toda reverência. Para reunir tudo brevemente, ordeno universalmente: a ninguém devais coisa alguma , nem tributo, nem imposto, nem outra coisa, a não ser o amor mútuo ; porque quero que sejais sempre devedores do amor, de modo que nunca cesseis de amar. Por isso quero que sempre vos ameis mutuamente; porque quem ama o próximo cumpriu a lei . E na verdade cumpriu a lei; pois não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás ; e se há outro mandamento na lei, se resume , isto é, cumpre-se, nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo . Na verdade, no amor do próximo cumpre-se todo mandamento da lei; pois o amor do próximo não pratica o mal ; quem ama o próximo, com efeito, não cometerá adultério com a sua mulher, não o matará, não furtará os seus bens, etc. E visto que o amor do próximo não pratica o mal, portanto o amor é a plenitude da lei ; quem não pratica o mal, com efeito, cumpriu a lei. Sabemos certamente que o amor não pratica o mal; e não só isso sabemos dele, mas também, sabendo isto do amor, que nos faz despertar do sono e obrar o bem. A força da continuação e a soma da sentença dependem, porém, do que segue: deixemos, pois, as obras das trevas ; mas antecipa algumas razões, de onde infira mais oportunamente, dizendo: sabemos que o amor não pratica o mal; sabendo também isto do amor, o tempo , que já é hora ; como se dissesse: é tempo; mas significou por "hora" aquele tempo para mostrar que é breve e rapidamente passa, e que, se nele não nos arrependermos, é irrecuperável; sabemos certamente que já é hora , isto é, de agora em diante, desde que fomos justificados pela fé, de despertar do sono , isto é, da moleza do corpo, que nos torna preguiçosos para obrar bem. Diz despertar como velar com todo empenho sobre as boas obras; há, com efeito, alguns que, depois de justificados, quando deveriam fervilhar no trabalho da boa operação, tornam-se tíbios e negligentes, como se estivessem seguros pela justificação e porque se abstêm dos crimes. Na verdade devemos despertar do sono; pois a nossa salvação está mais próxima do que quando abraçamos a fé , isto é, quando recebemos a fé, fé que nos tornou próximos da salvação; mas agora, pelo mérito das coisas que operamos depois de recebida a fé, a nossa salvação está mais próxima do que então, quando só abraçamos a fé, isto é, quando só havia em nós a graça e ainda nenhum mérito. Ou assim: agora está mais próxima, segundo o tempo, a nossa salvação, isto é, o dia da nossa salvação, do que estava outrora quando primeiro abraçamos a fé; cada dia, com efeito, nos aproximamos mais e mais do juízo futuro, em que seremos remunerados. Na verdade agora está próxima a nossa salvação; pois a noite , isto é, a ignorância tida na infidelidade, avançou , e por isso devemos acautelar-nos para não recair nesta noite. A noite, diz, avançou, mas o dia da nossa salvação se aproximou pelos raios enviados, como a fé, a esperança, o amor e o mais, isto é, entende-se estar próximo: as virtudes que se têm no presente, com efeito, são raios da alegria futura. E visto que a noite deixou de existir e o dia se aproximou, deixemos, pois, as obras das trevas , isto é, as que operamos enquanto estávamos na ignorância; ou então, obras das trevas, isto é, dignas das trevas, dignas de não serem vistas, mas sempre ocultadas: deixemos, diz, estas obras e revistamo-nos das obras da luz , isto é, do verdadeiro conhecimento, ou obras dignas da luz e da manifestação, que são as armas com que defendemos a nossa fé e vencemos os vícios que se levantam, para que, revestidos das armas da luz, andemos honestamente , isto é, progridamos do bem para o melhor, como em pleno dia , isto é, como postos no conhecimento da verdade; convém, com efeito, a quem está no dia deixar as obras da noite e assumir as armas da luz. Nós, digo, andemos assim no dia: não em orgias , isto é, não permanecendo em reuniões de banquetes públicos; e bebedeiras , de modo que nos entreguemos a excesso de bebida; nem em desonestidades , isto é, nos leitos, aos quais se vai pelo excesso de fartura e bebida, e ali se tem repouso supérfluo; nem dissoluções , isto é, no deleite da libido: quem desce ébrio ao leito, com efeito, é por consequência impelido pelas tochas da libido; nem em rixas : a intemperança da bebida e da libido, com efeito, frequentemente suscita altercações; e não estejais em invejas , isto é, na inveja: há quem, não ousando contender como pode, inveja o próximo; nestas coisas, portanto, não permaneçais; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo , isto é, vesti a vossa nudez com a fé de Cristo e as virtudes que se edificam sobre esta fé: o homem, com efeito, por causa do pecado foi expulso nu do paraíso; mas essa nudez deve ser coberta pelo ornamento da fé e das demais virtudes. E vós, revestidos do Senhor Jesus Cristo , não procureis , isto é, não procurareis satisfazer a carne; não proíbo o cuidado que a necessidade exige, mas não procureis satisfazer a carne em seus desejos , de modo que sigais os desejos da carne. Capítulo 14 Acolhei o que é fraco na fé, sem discutir opiniões. Um crê que pode comer de tudo; o que é fraco, porém, coma legumes. Quem come não despreze o que não come; e quem não come não julgue o que come, pois Deus o acolheu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor ele está de pé ou cai; mas ficará de pé, pois Deus é poderoso para o sustentar. Um distingue um dia de outro dia; outro considera iguais todos os dias; cada um tenha plena convicção em seu próprio modo de pensar. Quem observa o dia, observa-o para o Senhor; e quem come, come para o Senhor, pois dá graças a Deus; e quem não come, não come para o Senhor, e dá graças a Deus. Pois nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si; porque, se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, somos do Senhor. Para isto Cristo morreu e ressuscitou: para ser Senhor tanto dos vivos como dos mortos. Mas tu, por que julgas o teu irmão? Ou tu, por que desprezas o teu irmão? Pois todos compareceremos ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: Eu vivo, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará glória a Deus (Is 45,24). Assim, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. Não nos julguemos, portanto, mais uns aos outros; antes, julgai isto: não ponhais tropeço ou escândalo ao irmão. Sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nada é impuro por si mesmo, a não ser para aquele que julga que algo é impuro; para esse é impuro. Pois, se por causa de um alimento o teu irmão se entristece, já não andas segundo a caridade. Não faças perecer, com o teu alimento, aquele por quem Cristo morreu. Não seja, pois, blasfemado o nosso bem. Pois o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo; quem nisto serve a Cristo agrada a Deus e é aprovado pelos homens. Procuremos, pois, o que serve à paz e à edificação mútua. Não destruas, por causa de um alimento, a obra de Deus. Todas as coisas são puras, mas é mau para o homem comer causando tropeço. É bom não comer carne nem beber vinho, nem fazer coisa alguma em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Tens fé? Guarda-a para ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas quem tem dúvidas, se comer, está condenado, porque não age por fé. Tudo o que não procede da fé é pecado. Comentário Como os romanos discutiam entre si com grave discórdia, dizendo os convertidos do judaísmo que certos alimentos eram impuros e que não se devia usá-los; os judeus caluniavam também os gentios por comerem as carnes sacrificadas aos ídolos, dizendo que ainda aderiam aos ritos da gentilidade; ao contrário, os gentios, sabendo que todos os alimentos são puros, usavam-nos, acusando os judeus de não terem fé íntegra; como brigavam deste modo, o Apóstolo, querendo reconduzi-los à paz, instrui-os a não darem escândalo aos irmãos entre si, nem a julgarem um ao outro quanto às consciências. Dava escândalo aquele que, para incitar a ira do próximo, comia o que ofendia o próximo; ou fazia que o outro comesse, em incredulidade, o que julgava impuro. Julgar das consciências era quando o judeu, julgando impuras certas coisas, condenava o gentio, dizendo que usava as carnes sacrificadas aos ídolos porque ainda aderia aos ídolos. O texto liga-se assim: não procureis satisfazer a carne, mas fazei isto: acolhei o que é fraco na fé , isto é, quem não tem fé firme, julgando impuras certas criaturas de Deus (e este era o judeu), a esse não escandalizeis vós que sois firmes na fé, mas acolhei-o. Acolher é condescender com a sua fraqueza, abster-se do que ele se abstém, e assim, atraindo-o pouco a pouco, ensinar-lhe a integridade da fé, até que chegue à perfeição. Aqui removeu o escândalo. Acolhei o fraco, sem discutir opiniões , isto é, sem vos demorar nas opiniões dele, o fraco, isto é, não discutais, julgando alguém quanto à consciência do coração, que só Deus conhece e não vós. Na verdade o fraco deve ser acolhido; pois um é perfeito, que pode acolher e ensinar; outro é fraco, que precisa de acolhimento; o que diz assim: um crê que pode comer de tudo , sabendo que todas as coisas são puras, e este é firme na fé; outro, porém, é fraco, julgando que não pode comer tudo; este que é fraco , não querendo usar das carnes dos gentios, coma legumes , isto é, permita-se-lhe comer legumes, isto é, se quiser abster-se, é certamente bom, e não seja inquietado. Aqui começa a reprimir os romanos, para que não julguem das consciências: quem não quer comer, seja-lhe permitido abster-se; quem come , porém, sabendo que todos os alimentos são puros, não despreze o que não come , isto é, o gentio que come não despreze o judeu que se abstém, arguindo-o de imperfeição da fé; e quem não come , isto é, o judeu, não julgue , isto é, não condene o que come , o gentio: um não deve desprezar ou julgar o outro; pois Deus o acolheu , isto é, a ambos, o que come e o que não come. Acolheu-os, digo, pela fé que já têm, como servos; e visto que foram acolhidos por Deus, feitos servos dele, quem és tu, que julgas o servo alheio? Nem as leis do mundo toleram que um servo seja julgado por outro que não seu senhor. Não deves, pois, julgar o servo alheio; porque aquele servo está de pé obrando bem, reservado ao senhor, isto é, ao julgamento de seu senhor, ou cai pecando, a ser julgado por seu senhor. Mesmo que saibas claramente que caiu, não o julgues, contudo; porque amanhã pode ser melhor que tu, arrependendo-se; e de todos se deve sempre manter boa suspeita. E se também caiu, ficará de pé talvez amanhã, isto é, aparecerá forte no bem. Na verdade deve-se suspeitar dele que ficará de pé ; pois Deus, de quem é servo, é poderoso para o sustentar de novo. Porque só ao Senhor cabe julgar o servo, tu não deves julgá-lo; além disso, para que não o condenes; pois o que faz, faz por juízo e sã intenção do ânimo; o que diz assim: um , judeu ou gentio, distingue um dia de outro dia , isto é, que num dia se deve abster e noutro não; outro considera iguais todos os dias , que em todos se deve observar a abstinência; e quem quer que julgue que se deve abster, sente com acerto, e por isso é de louvar, não de condenar. Quem julga que se deve abster, seja este ou aquele, sente com acerto; e quero que cada um tenha plena convicção em seu próprio modo de pensar , isto é, naquilo que sábia e proveitosamente sente e opera, para que, se agora se abstém bem, depois se abstenha melhor e siga as demais coisas boas. Deve-se notar que, se abster-se fosse mal, o Apóstolo não quereria que eles tivessem plena convicção neste sentimento. Por isso desejo que tenham plena convicção neste sentimento, porque quem observa o dia , isto é, quem na abstinência observa o dia, observa-o para o Senhor , isto é, para a honra do Senhor. E quem come, come igualmente para o Senhor ; pois ao comer dá graças a Deus, tanto pelo são entendimento que tem das criaturas de Deus quanto porque é sustentado por esses benefícios. E quem não come, não come para o Senhor , isto é, jejua para a honra de Deus, e de novo dá graças ao Senhor pela abstinência que lhe foi concedida. E por isso se mostra suficientemente que ambos entendem com acerto e que nenhum deve ser condenado por isso. Ou aquilo acima lê-se de outro modo: não julgues o servo alheio; pois um , isto é, o homem, distingue um dia de outro , isto é, julga só do presente; outro , isto é, Deus, julga todos os dias , tanto o futuro como o presente. E, como o homem julga com acerto do presente, quero que cada um dos homens tenha plena convicção em seu bom modo de pensar: o resto não muda. Ambos, o que come e o que se abstém, dão graças a Deus: e com justiça; pois nenhum de nós vive para si , isto é, ninguém deve buscar a sua glória enquanto vive; e nenhum dos justos morre igualmente para si . Na verdade nem vivemos nem morremos para nós, mas para o Senhor; se vivemos, vivemos para o Senhor , isto é, vivemos para a honra do Senhor; se morremos, morremos para o Senhor : e porque vivemos e morremos para o Senhor, portanto somos do Senhor , quer vivamos, quer morramos; por isso tu, quem quer que sejas, não julgues o servo alheio. Na verdade somos do Senhor; pois para isto Cristo morreu e ressuscitou , para, pelo mérito da morte e pelo poder da Ressurreição, ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos . E como Deus é Senhor de todos, tu, porém , que te absténs, por que , isto é, por que julgas o teu irmão que come; ou tu, que comes, por que desprezas o teu irmão que jejua? Não vos julgueis mutuamente; pois todos compareceremos ante o tribunal de Deus , para sermos julgados por Deus. Diz compareceremos (de pé) por semelhança com os que esperam a sentença do juízo; diz tribunal como se Deus fosse sentar-se, à maneira de qualquer poderoso, diante do tribunal. Na verdade todos compareceremos; pois assim está escrito: isto diz o Senhor por Isaías (cap. 45,24): Eu vivo ; eis o juramento, para que o que se segue seja crido com toda certeza. Quando Isaías dizia: vivo, entendia de Cristo, que haveria de provar alguma vez a morte, a quem ressuscitando o Pai constituiria juiz de todos (o que os infiéis julgaram falso, ao vê-lo morto); e na voz de Cristo assim diz: eu verdadeiramente vivo; o que será manifesto por isto: que diante de mim se dobrará todo joelho , isto é, toda criatura se me sujeitará no juízo; e então toda língua , isto é, toda consciência, dará glória ao Senhor . E visto que assim diz a Escritura, que todos devem ser julgados por Deus, consta, portanto, que cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus , e não do próximo. E visto que daremos contas por nós, não nos julguemos, portanto, mais uns aos outros , isto é, o súdito ao súdito. Com esse uns aos outros insinua que não proíbe o julgamento dos prelados sobre os súditos, a respeito dos quais devem julgar, mas reprime somente os súditos, para que não presumam julgar-se mutuamente. Depois de mostrar suficientemente que não devem julgar-se mutuamente quanto às consciências, proíbe-os de escandalizar os irmãos, dizendo: não vos julgueis mutuamente; antes, julgai isto: não ponhais tropeço ou escândalo ao irmão . Chama tropeço, por exemplo, se fizesse o irmão pecar comendo em incredulidade, ou se comesse com ânimo tal que o irmão, abominando isso, brigasse e desprezasse o que come; chama escândalo a tristeza do irmão por ver comer o que julga impuro. Objetaria a Paulo aquele que entende que se deve usar de tudo: talvez tu estejas enfermo com o judeu, tu que dizes que eu ofendo quando uso das criaturas de Deus. Longe de mim, diz Paulo, que eu te acuse de que não creias com acerto; sei, com efeito, e estou persuadido no Senhor Jesus , isto é, por Jesus te testifico, que nada é impuro por si mesmo , isto é, comum; e isto por Ele, isto é, por Cristo, que nos libertou da lei, sob a qual muitas coisas eram julgadas impuras; mas, porque, abolida essa lei, foi devolvida a liberdade, nada já se deve dizer comum. Sei certamente que nada é comum, a não ser para aquele que julga que algo é comum ; para esse é certamente comum, não por causa da criatura, mas por causa da fraqueza de sua fé. Não ponhas escândalo ao irmão; pois, se por causa do alimento que comes o teu irmão se entristece, já não andas segundo a caridade , porque não tens cuidado do próximo. Para que te guardes do tropeço do irmão, não faças perecer com o teu alimento (que é coisa vil) aquele , de modo que o faças comer contigo em infidelidade, ou que briguem: não negligencies, digo, por coisa tão vil, aquele por quem Cristo morreu , isto é, a quem Cristo amou tanto que quis morrer por ele. Visto que o alimento é coisa vil, e perder o próximo é grave, portanto, para que o próximo não pereça por nosso alimento, não seja blasfemado o nosso bem , isto é, o são entendimento que temos das criaturas; esse bem, certamente, não seja blasfemado, isto é, não se torne blasfemável, de modo que por este bem ofendamos o irmão simples. Determina em que coisas não se deve ofender o próximo, a saber, nas que impedem a salvação; e em que coisas não se deve segui-lo, a saber, nas que tiram a salvação da alma, dizendo: não deves perder o próximo por causa de um alimento; pois o reino de Deus não é comida nem bebida , isto é, usar desta comida e desta bebida não dá o reino de Deus, nem o tira, se te abstiveres dessas coisas: estas coisas não dão o reino de Deus; mas justiça , isto é, a equidade guardada para com o próximo, para que em nada o ofendamos; e paz , isto é, a concórdia que vem da equidade guardada; e alegria , com que um se congratula com o outro no amor; alegria que, nutrida na paz, é no Espírito Santo , isto é, segundo o que dita o Espírito Santo: estas coisas, digo, são o reino de Deus; pois quem nelas , isto é, na paz, na justiça e na alegria, serve a Cristo, agrada a Deus e é aprovado pelos homens , isto é, este serviço é julgado digno de aprovação por todos; e não é como o teu comer, no qual o próximo se ofende. Por isso disse primeiro: serve a Cristo; depois: agrada a Deus; porque Cristo deu aos homens a lei da paz e da justiça, e eles, sem Cristo, não podem agradar a Deus. Visto que o serviço da paz agrada a Deus e é aprovado pelos homens, procuremos, pois, o que serve à paz ; não litiguemos com o próximo; mas procuremos também o que serve à edificação, e isto mútua , para que tu o edifiques no teu bem, e ele a ti no seu. O que aqui diz edificação é o mesmo que disse acima: acolhei o fraco. Procuremos o que serve à edificação, não o que serve à destruição; o que diz assim: não destruas, por causa do teu alimento , com o qual o próximo se ofende, a obra de Deus nele, isto é, a fé que Deus já operou nele; se, com efeito, o constranges com excessiva rigidez, deixará esse pouquinho de bem que tem; por isso a sua fraqueza deve ser antes alimentada do que constrangida com excessiva aspereza: o que Pedro observava com muito acerto, quando permitia que os judeus que convertera à fé de Cristo ainda se circuncidassem e conservassem algumas coisas legais, às quais, se os constrangesse de modo intemperante, mais depressa abandonariam o que dele haviam recebido do que subiriam assim repentinamente à perfeição; sabia, com efeito, que podiam e deviam ser conduzidos pouco a pouco à perfeição, como aconteceu. Não destruas, por causa de um alimento, a fé do próximo, não porque o alimento seja impuro, todas as coisas são puras ; mas é mau para o homem comer causando tropeço , com a intenção de ofender o próximo. E, para te guardares da ofensa ao próximo, deves abster-te não só destas coisas, mas também de toda carne e de toda bebida em que o irmão se ofende; o que diz assim: é bom não comer carne nem beber vinho, nem coisa alguma em que teu irmão tropece , ofendendo-se, pecando, ou se escandalize , entristecendo-se contigo, ou se enfraqueça na fé, hesitando um pouco. Para não ofenderes o próximo, deves abster-te destas coisas. Tens fé? sã; guarda-a para ti mesmo diante de Deus , isto é, basta-te que Deus entenda a tua fé; não convém que, diante de quem se abstém e se ofende, faças a obra da tua fé; guarda, pois, essa fé para ti mesmo, não diante do que se abstém. Pois bem-aventurado é aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova , isto é, no que aprova como verdadeiro; mas se tu usas dos alimentos, de que é lícito usar, para ofensa do próximo, naquilo que aprovas julgas-te réu da ofensa feita ao irmão. Aquele que naquilo que aprova não se condena é bem-aventurado; mas aquele que tem dúvidas e discerne alimentos de alimentos, dizendo estes puros, aqueles impuros, este, se comer nessa dúvida, está condenado ; não porque o alimento seja impuro, mas porque não come por fé , para crer que são puros. Na verdade, porque não por fé, está condenado; pois tudo o que não procede da fé é pecado . Capítulo 15 Nós, os fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não procurar o nosso próprio agrado. Cada um de nós procure agradar ao próximo, no que é bom, para a edificação. Pois também Cristo não buscou o seu próprio agrado, mas, como está escrito: Os insultos dos que te insultavam caíram sobre mim (Sl 68,10). Porque tudo o que foi escrito foi escrito para nosso ensinamento, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. O Deus da paciência e da consolação vos conceda ter o mesmo sentir uns para com os outros, segundo Jesus Cristo; para que unânimes, a uma só voz, glorifiqueis a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus. Digo, com efeito, que Cristo Jesus foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais; e que os gentios glorificam a Deus por sua misericórdia, como está escrito: Por isso te louvarei entre os gentios, Senhor, e cantarei ao teu nome (Sl 17,50). E diz também: Alegrai-vos, gentios, com o seu povo. E ainda: Louvai o Senhor, todos os gentios; exaltai-o, todos os povos (Sl 116,1). E de novo diz Isaías: Haverá a raiz de Jessé, e aquele que se levantará para reger os gentios; nele os gentios esperarão (Is 11,10). O Deus da esperança vos encha de toda a alegria e paz na fé, para que abundeis em esperança, pela virtude do Espírito Santo. Estou persuadido, meus irmãos, também eu mesmo, a respeito de vós, de que estais cheios de amor, repletos de todo conhecimento, a ponto de poderdes admoestar-vos uns aos outros. Escrevi-vos, porém, com certa ousadia, irmãos, em parte, como para vos trazer de novo à memória, pela graça que me foi dada por Deus, de ser ministro de Cristo Jesus entre os gentios, consagrando o Evangelho de Deus, para que a oferta dos gentios seja aceita e santificada no Espírito Santo. Tenho, pois, glória em Cristo Jesus nas coisas que dizem respeito a Deus. Pois não ouso falar de coisa alguma que Cristo não tenha realizado por meu intermédio, para a obediência dos gentios, por palavra e por obras, com a virtude de sinais e prodígios, com a virtude do Espírito Santo; de modo que, de Jerusalém e arredores até a Ilíria, tenho levado a plenitude do Evangelho de Cristo. Assim, porém, preguei este Evangelho, não onde Cristo já fora nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio; mas, como está escrito: Aqueles a quem não foi anunciado verão; e os que não ouviram entenderão (Is 52,15). Por isso fui muitas vezes impedido de ir ter convosco, e fui impedido até agora. Agora, porém, não tendo mais campo nestas regiões, e tendo desde muitos anos o desejo de ir ter convosco, quando me dirigir à Espanha, espero que, de passagem, vos veja e seja por vós encaminhado para lá, depois de ter gozado um pouco da vossa companhia. Agora, pois, vou a Jerusalém, a serviço dos santos. A Macedônia e a Acaia houveram por bem fazer uma coleta em favor dos pobres dentre os santos que estão em Jerusalém. Houveram por bem, e são devedores deles; pois, se os gentios participaram dos seus bens espirituais, devem também servi-los nos bens materiais. Concluído isto, e entregue a eles este fruto, partirei por vós para a Espanha. Sei que, ao ir ter convosco, irei na plenitude da bênção do Evangelho de Cristo. Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pela caridade do Espírito Santo, que me ajudeis com as vossas orações a Deus por mim, para que eu seja livrado dos infiéis que estão na Judeia, e a oferta do meu serviço seja bem aceita pelos santos em Jerusalém, para que eu vá ter convosco com alegria, pela vontade de Deus, e repouse convosco. O Deus da paz seja com todos vós. Amém. Comentário A isto diria aquele que fosse de fé sã: se eu, como tu mesmo confessas, sou de fé sã, crendo puras todas as coisas, e este, porém, é fraco na fé, parece causa mais justa que o fraco siga o forte do que eu, forte, siga a fraqueza dele. Não é assim, diz Paulo, mas, embora tu sejas de fé sã e este de fé fraca, nós, os fortes, devemos, contudo, suportar as fraquezas dos fracos e, por certa participação, nutri-las para o melhor, e não devemos procurar o nosso próprio agrado em tudo. Não procuremos agradar a nós mesmos, mas cada um procure agradar ao próximo , e isto no que é bom , porque para a edificação do próximo, que deve ser edificado segundo a caridade. Não procuremos agradar a nós mesmos; pois também Cristo (a quem devemos seguir em tudo) não buscou o seu próprio agrado , isto é, não consentiu à carne fraca, mas, como está escrito no salmo (68,10), diz Cristo ao Pai: Os insultos dos que te insultavam caíram sobre mim como um peso, e na morte me oprimiram; como se dissesse: porque expulsei do templo os que vendiam e compravam, no qual te insultavam, por isso me adjudicaram à morte. Que se segue daí, diria alguém, se assim está escrito? Muito, certamente, porque tudo o que foi escrito de Cristo foi escrito para nosso ensinamento , a fim de que, pelo ensinamento, tenhamos paciência, e na paciência tenhamos a consolação das Escrituras, que é muitíssimo útil aos que padecem; e para que, pela paciência e por esta consolação, tenhamos esperança da retribuição futura. E porque vejo que os vossos méritos e a minha doutrina são insuficientes para obter estas coisas, desejo que o Deus da paciência e da consolação , doador da paciência e do consolo, vos conceda ter o mesmo sentir , de modo que todos tenhais um pensamento verdadeiro, e isto uns para com os outros , de modo que o que este sente com acerto o sinta também aquele, e vice-versa; sentir, digo, segundo , isto é, por Jesus Cristo ; para que unânimes, a uma só voz , com uma só vontade e a mesma confissão, glorifiqueis a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo : não que Deus e Pai signifiquem pessoas diversas, mas no mesmo atribui causas diversas, dizendo que deve ser glorificado ora porque é Deus, ora porque é Pai do Senhor Jesus Cristo, por quem nos vem todo bem. Por isso , isto é, para que tenhais o mesmo sentir e glorifiqueis a Deus com o mesmo ânimo e uma só confissão, acolhei-vos uns aos outros , de modo que um acolha o outro com toda benignidade para o instruir, suportando-vos mutuamente; acolhei, digo, como também Cristo vos acolheu , com grande altura; acolheu-vos certamente para a glória — a maior honra foi perdoar os pecados, honra que aumentará ao dar a incorrupção — para a honra, digo, de Deus , isto é, dada só por Deus; Deus, com efeito, dá e dará por graça esta honra, para a qual honrar faltam os nossos méritos. Prova o que disse: acolheu a vós, romanos; pois acolheu judeus e gentios. E primeiro diz dos judeus: na verdade Cristo vos acolheu, ó judeus; pois eu digo (em quem se deve crer) que Cristo Jesus foi ministro da circuncisão , isto é, dos judeus. Cristo, com efeito, foi ministro e como Apóstolo dos judeus, a quem pregou em pessoa; isto, porém, não foi por mérito dos judeus, mas por causa da verdade de Deus , isto é, por causa das promessas de Deus: por isso, por causa das promessas, para confirmar , isto é, para que pelo próprio ato fossem confirmadas as promessas feitas aos pais , isto é, feitas a seus pais. Ou assim: Cristo foi ministro por causa da verdade de Deus, isto é, por causa do cumprimento das promessas de Deus; e para confirmar pela verdade do fato as promessas dos pais, isto é, as que fizeram os pais, isto é, os Profetas, pais dos judeus; Deus, com efeito, havia prometido também por si mesmo, como a Abraão, e mais frequentemente pelos Profetas. Provou que Deus acolheu os judeus; para o provar não aduziu autoridade alguma, porque era como que patente a todos; prova o mesmo dos gentios por autoridades, porque alguns tinham dúvida a respeito, dizendo: isto digo dos judeus; digo também que os gentios glorificam a Deus por sua misericórdia (isto é, pela misericórdia que lhes foi feita). E digo isto como está escrito no salmo (17,50): por isso ; esse "por isso" tem força na ordem do salmo; voz do Filho ao Pai: ó Senhor Pai, te louvarei entre os gentios , isto é, farei que os gentios louvem o teu nome; e não só louvarei, mas também cantarei e exultarei ao teu nome . E diz de novo a Escritura por Isaías [1] : Alegrai-vos, ó gentios, com o seu povo (Dt 32,43, segundo os Setenta), isto é, com os judeus, que se diziam povo peculiar de Deus, gentios que Isaías [2] convidaria em vão à alegria, se não considerasse o acolhimento deles. E de novo Davi sobre os gentios: Louvai o Senhor, todos os gentios , isto é, cada um dos gentios; e não só louvai, mas ainda exaltai-o , mostrando-o grande por boas obras, todos os povos que estais em cada uma das nações (Sl 116,1). E de novo diz Isaías sobre o mesmo: Jessé, pai de Davi, será a raiz dessa origem, da qual nascerá Cristo, que se levantará para reger os gentios; e naquele Rei os gentios esperarão (Is 11,10). Cristo levantou-se, porque só ele, entre todos, foi imune de pecado; levantou-se mais alto ao terceiro dia, retomada a incorrupção, quando Deus Pai deu todo o julgamento a este Filho Rei. Exorto-vos a acolher-vos mutuamente, mas, porque nem por vossas forças nem por minha doutrina podeis realizar isto, peço que o Deus da esperança , em quem espero e em quem deveis esperar, vos encha de toda a alegria , isto é, da perfeição do amor; alegria que, para que sejais dignos de ter, vos encha de paz , isto é, de toda concórdia; paz, digo, reformada na fé , isto é, em uma só e a mesma integridade da fé, para que a mesma fé faça a paz em vós; a paz, por sua vez, nutra a alegria: encha-vos, digo, de fé, paz e alegria, para que abundeis em esperança , isto é, para que, quanto melhor obrardes, tanto mais firme e abundantemente espereis; e, para que a vossa esperança não seja perturbada, abundeis pela virtude do Espírito Santo , isto é, o Espírito Santo vos ministre copiosas forças para perseverar no bem. Paulo começa aqui a acalmar alguns dos romanos, louvando-os pela integridade da fé, pela plenitude do amor e de todo conhecimento. Contudo, toca-os um pouco, porque não haviam corrigido a imperfeição dos irmãos que erravam, quando bem o podiam, porque eram sábios; quando deviam, porque os amavam; quando era também necessário, porque Paulo, ocupado com outros, não podia vagar suficientemente para a correção dos romanos; como se dissesse: a vossa consciência está certa da integridade da fé deles; igualmente também eu mesmo estou persuadido, meus irmãos , a respeito de vós, de que também vós estais cheios de fé e de amor , e não litigais com vossos irmãos; repletos de todo conhecimento , a ponto de poderdes admoestar-vos uns aos outros, isto é, instruir a fé fraca dos outros. E, embora estejais cheios de amor e de conhecimento, escrevi-vos, porém, com mais ousadia , isto é, com um pouco de audácia, irmãos, em parte , isto é, segundo a parte em que, agindo um pouco imperfeitamente, não reprimistes as contendas dos irmãos; escrevi-vos, sim, não vos ensinando, que sei serdes sábios, mas como para vos trazer de novo à memória as coisas que creio que sabeis, mas de que não vos lembrais bastante. Dir-me-iam: já que nos confessas perfeitos, por que nos repreendes? Diz Paulo ousadamente: pela graça , isto é, pela dignidade do apostolado, que me foi dada por Deus ; e este meu magistério me obriga a admoestar-vos assim. Foi-me dada a graça de ser ministro de Cristo Jesus entre os gentios , isto é, por meu ministério sujeito os gentios a Cristo, consagrando o Evangelho de Deus ; que consagro ao fazer o mesmo que prego: consagrando-o para que a oferta dos gentios seja aceita por Deus, isto é, eu, oferecendo os gentios, seja aceito por Deus; ou então, para que os gentios oferecidos sejam aceitos por Deus: oferta, digo, aceita e santificada no Espírito Santo , porque pela imposição das mãos dou o Espírito Santo, o que os falsos doutores não podem fazer. E porque consagro o Evangelho, tenho, pois, glória , isto é, glorio-me muito em meu apostolado; glória, digo, a referir não a mim, mas a Deus, e isto em Cristo Jesus , isto é, por Cristo, que me consagrou Apóstolo. Por isso tenho glória, porque não ouso falar de coisa alguma que Cristo não tenha realizado por meu intermédio , ministro, como fazem os falsos apóstolos, que dizem ter feito o que nunca fizeram; não falo das coisas que Deus não realiza por mim, mas falo das que Cristo realiza por mim, para a obediência dos gentios , isto é, para que ou eu lhe obedeça nos gentios, ou os gentios por mim lhe obedeçam. Realiza, digo, por mim por palavra , pois Cristo fala em mim; realiza também por obras , isto é, em minhas obras, porque opero o que falo bem; realiza, digo, com a virtude de sinais e prodígios , para os quais fazer me dá virtude (chama sinais, por exemplo, a cura de doenças; prodígios, o ressuscitar mortos); de prodígios, digo, feitos com a virtude do Espírito Santo . Ou então, Cristo realiza por mim na virtude do Espírito Santo, que distribui por minhas mãos. Realiza, digo, de modo que eu tenha levado a plenitude , isto é, pregado plenamente o Evangelho de Cristo , começando de Jerusalém e arredores até a Ilíria , o mar; e não por caminho reto, mas em volta , isto é, percorrendo cada lugar. Assim, porém, preguei este Evangelho, não onde Cristo já fora nomeado , na Judeia, para não edificar sobre fundamento alheio , isto é, sobre a fé que os outros Apóstolos pregaram. Nem foi, contudo, esta a causa por que não pregou ali, mas porque Deus o dirigiu aos gentios. Para não edificar, digo, assim; mas, como está escrito em Isaías: Aqueles a quem não foi anunciado os gentios, verão a Deus, e os que nem ouviram, entenderão (Is 52,15). Por isso , porque pregava a rudes e como que pétreos, fui muitas vezes impedido de ir ter convosco , ó romanos, porque era necessário que vós, que éreis sãos, edificásseis os fracos. Outrora era impedido; agora, porém, não tendo mais campo nestas regiões , porque todos se converteram, e tendo desde muitos anos o desejo de ir ter convosco , no que podeis notar quanto zelo tenho por vós; quando me dirigir à Espanha, espero que vos veja, de passagem por vós; não há, com efeito, razão para me demorar convosco, que sois fiéis; vos veja , digo, e seja por vós encaminhado para lá , se, contudo, tiver antes gozado de vós em parte , isto é, demorando-me algum tempo convosco. Porque aqui não tenho mais campo e desejo passar a vós, portanto , farei o que primeiro se deve fazer, a saber, irei a Jerusalém, a serviço dos santos . Quando Pedro e os que estavam com ele deram a Paulo e a Barnabé a mão direita em sinal de comunhão (Gl 2,9), impuseram-lhes que nas Igrejas dos gentios fizessem coletas, de que ministrassem aos santos em Jerusalém, a quem os infiéis haviam tirado tudo. Irei servir aos santos, porque a Macedônia e a Acaia , isto é, as suas Igrejas, houveram por bem , isto é, julgaram digno fazer uma coleta a ser levada em favor dos pobres dentre os santos , isto é, os pobres santos que estão em Jerusalém . Houveram por bem fazê-lo não coagidos por nós, mas porque lhes agradou ; e, se não lhes agradasse, são, contudo, devedores deles e deveriam fazê-lo por dever: na verdade são devedores deles; pois, se os gentios participaram dos seus bens espirituais , porque aqueles santos ministraram bens espirituais aos gentios, devem também os gentios servi-los nos bens materiais. Visto que me resta fazer isto primeiro, portanto, concluído isto e entregue a eles (isto é, tendo-lhes devolvido sob selo) este fruto, partirei por vós para a Espanha , passando por vós. Sei , porém, que, indo ter convosco movido por longo desejo, irei na plenitude da bênção de Cristo , isto é, farei abundar em vós a bênção de Cristo, comunicando o que falta da graça de Deus. E porque agora vou a Jerusalém, rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo, que me ajudeis com as orações derramadas a Deus por mim, para que por este auxílio eu seja livrado dos infiéis que estão na Judeia , e para que assim a oferta do meu serviço , isto é, aquilo em que obsequio, seja bem aceita pelos santos em Jerusalém , apresentada a eles sem diminuição; para que, completado isto prosperamente, vá ter convosco com alegria, pela vontade de Deus , isto é, como Deus tiver disposto; e repouse convosco , aperfeiçoando em vós o que encontrar imperfeito. Mas, porque para isto não bastais nem por vós nem por mim: o Deus da paz seja com todos vós , fazendo paz com todos vós. Amém. Notas Leia-se: Moisés. Leia-se: Moisés. Capítulo 16 Recomendo-vos Febe, nossa irmã, que está a serviço da Igreja de Cencreia, para que a recebais no Senhor, de modo digno dos santos, e a assistais em qualquer coisa de que precise de vós; pois ela também socorreu a muitos, e a mim mesmo. Saudai Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus (que expuseram o pescoço por minha vida; a quem não só eu agradeço, mas também todas as Igrejas dos gentios), e a Igreja que se reúne em sua casa. Saudai Epêneto, meu amado, que é as primícias da Ásia para Cristo. Saudai Maria, que muito trabalhou por vós. Saudai Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, ilustres entre os Apóstolos, que estiveram em Cristo antes de mim. Saudai Ampliato, meu diletíssimo no Senhor. Saudai Urbano, nosso colaborador em Cristo Jesus, e Estáquis, meu amado. Saudai Apeles, aprovado em Cristo. Saudai os da casa de Aristóbulo. Saudai Herodião, meu parente. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor. Saudai Trifena e Trifosa, que trabalham no Senhor. Saudai a querida Pérside, que muito trabalhou no Senhor. Saudai Rufo, eleito no Senhor, e sua mãe, que é também minha. Saudai Asíncrito, Flegonte, Hermes, Patrobas, Hermas e os irmãos que estão com eles. Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, e Olimpas, e todos os santos que estão com eles. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todas as Igrejas de Cristo vos saúdam. Rogo-vos, irmãos, que observeis os que causam dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes, e afastai-vos deles. Tais pessoas não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao seu próprio ventre; e com palavras doces e bênçãos seduzem os corações dos inocentes. Pois a vossa obediência é conhecida em todo lugar. Alegro-me, portanto, por vós. Mas quero que sejais sábios para o bem e simples para o mal. O Deus da paz esmague depressa Satanás debaixo dos vossos pés. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Saúda-vos Timóteo, meu colaborador, e Lúcio, Jasão e Sosípatro, meus parentes. Eu, Tércio, que escrevi esta Epístola, vos saúdo no Senhor. Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro, e toda a Igreja. Saúda-vos Erasto, tesoureiro da cidade, e o irmão Quarto. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. Àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério, mantido em silêncio durante tempos eternos (mas que agora foi manifestado pelas Escrituras dos Profetas, segundo o mandato do Deus eterno, para a obediência da fé), conhecido de todas as nações, ao único sábio Deus, por Jesus Cristo, a quem seja a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Comentário Terminada a Epístola, insere as suas saudações, dizendo: com as coisas que acima recomendei, recomendo-vos também Febe, nossa irmã, que está a serviço da Igreja , isto é, que ministra o necessário a uma Igreja, que ele constituiu em Cencreia ; isto, digo, dela recomendo: que a recebais no Senhor, de modo digno dos santos , isto é, ou como convém a vós, santos, recebê-la, ou como ela, santa, deve ser recebida. E, recebida, a assistais em qualquer coisa de que precise de vós . Diz-se que o Apóstolo enviou sua Epístola a Roma por esta Febe, a quem por isso recomenda, para que os romanos, ouvida a autoridade dela, aquiesçam em tudo o que ela bem persuadir. Deve-se assisti-la: pois ela também socorreu a muitos santos e a mim mesmo , servindo-os. Saudai também Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus ; ou então: saudai em Cristo: os quais ambos expuseram o pescoço por minha vida . Eles socorreram Paulo em muitos perigos e prisões. A quem não só eu agradeço, mas também todas as Igrejas dos gentios , que agora não teriam o seu Apóstolo, senão pelo auxílio destes. Saudai também a Igreja que se reúne em sua casa , isto é, a sua família. Saudai Epêneto, meu amado, que é as primícias da Ásia para Cristo. Este foi o primeiro da Ásia a receber a fé de Paulo. Saudai também Maria, que muito trabalhou por vós , chamando-vos de volta ao erro. Diz-se que esta Maria anunciou ao Apóstolo a dissensão dos romanos; por esta ocasião lhes escreveu esta Epístola. E esta voltara a Roma, e por isso diz que trabalhou. Saudai Andrônico e Júnia, meus parentes na linhagem dos judeus, e companheiros de prisão , que muitas vezes foram presos comigo; ilustres entre os Apóstolos (creem-se ter sido dos setenta e dois), que estiveram em Cristo antes de mim , que se converteram à fé antes de Paulo. Saudai Apeles, aprovado em Cristo. Saudai os da casa de Aristóbulo , isto é, a família, porque é fiel, o senhor de modo algum, porque é réu de infidelidade. Saudai os da casa de Narciso ; não todos, mas os que estão na fé no Senhor : alguns da sua família, com efeito, aderem a seu senhor na infidelidade. Saudai Rufo, eleito no Senhor, e sua mãe, que é também minha : dele segundo a carne, minha pelo benefício. E, para concluir, saudai-vos uns aos outros em meu nome com o ósculo santo , isto é, um diga ao outro; ou da parte de Paulo, beijando-se com o ósculo da paz no lugar dele. Como eu, assim todas as Igrejas de Cristo vos saúdam. Por isso Paulo saudou pessoas aprovadas nominalmente, para que, quando agora persuade os romanos a se afastarem dos falsos apóstolos, não pudessem talvez duvidar de algum daqueles a quem saudou. A vós, irmãos, saudados, rogo que observeis , isto é, que vos guardeis sagazmente dos que causam dissensões e também escândalos, precipitando no pecado, ensinando o que é contra a doutrina que de mim aprendestes. E, para observá-los, afastai-vos deles totalmente, separando-vos; porque os que são tais não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao seu próprio ventre ; buscam, com efeito, as suas coisas, não as de Jesus Cristo. E tais seduzem os corações dos inocentes , isto é, dos simples, com palavras doces , isto é, sedutoras, e com bênçãos simuladas. Deveis afastar-vos deles; pois a vossa obediência , e o bem dela, é conhecida em todo lugar : e por isso me alegro por vós. Mas quero que sejais sábios e astutos para o bem, e para o mal simples, de modo que sejais crianças na malícia. Embora eu tenha dito que sois sábios, porque a vossa sabedoria pouco pode por si só, peço que o Deus da paz esmague Satanás , e seus membros, prostrados debaixo dos vossos pés , e isto depressa. Ditas estas coisas, Paulo os saúda, dizendo: a graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Saúda-vos Timóteo, meu colaborador, e Lúcio, Jasão e Sosípatro , ou pai de Sósio, que são meus parentes. Eu, Tércio, que escrevi esta Epístola, vos saúdo no Senhor. Este Tércio era o notário do Apóstolo, que inseriu a sua saudação entre as saudações dos outros. Paulo volta às suas saudações e diz: Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro, e toda a Igreja , isto é, a sua família. Saúda-vos Erasto, tesoureiro da cidade, e o irmão Quarto. Todos estes assim dizendo: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Por todos os vossos bens, seja a Deus a honra e a glória; àquele, digo, que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho , isto é, como eu vos prego, e a pregação de Jesus Cristo , cuja pregação é a mesma que o meu Evangelho: Evangelho, digo, e pregação tida segundo a revelação do mistério (chama mistério a salvação dos homens, que sempre esteve oculta antes da vinda de Cristo, mas foi revelada por Ele); do mistério, digo, mantido em silêncio durante tempos eternos antes de Cristo; mistério que agora, no tempo da graça, foi manifestado pelas Escrituras dos Profetas , agora finalmente compreendidas por Cristo; manifestado, digo, segundo o mandato do Deus eterno , para quem desde a eternidade isto estava patente; manifestado para a obediência da fé em todas as nações , isto é, para que todas as nações obedeçam à fé. Se quiseres perguntar por que antes foi silenciado e agora revelado, em vão o procuras; porque o mistério, digo, é conhecido do único sábio Deus , que sozinho sempre conheceu a causa dele. Manifestado, digo, por Jesus Cristo ; a quem, Cristo, que é poderoso, seja a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.