# Epístola aos Hebreus



# Prólogo

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Na Judeia havia Igrejas constituídas na fé de Cristo, às quais o próprio Cristo havia pregado, e que, pela doutrina dos Apóstolos, e daqueles a quem, ao subir, confiou o instituir as Igrejas, haviam recebido a fé, e acerca de Cristo criam bem na Encarnação, na morte, na Ressurreição e no mais; mas erravam muitíssimo em que observavam a circuncisão e certas práticas legais, crendo que sem elas ninguém podia salvar-se, e nisto detraíam da eminência e da fé de Cristo. E sobre isto aduziam muitas razões verossímeis, a saber, que Cristo, nascido sob a lei, observara a lei em tudo, e que, se alguma vez era acusado de dissolver a lei, dava razões de que em nada dissolvia a lei, como ali, quando lhe objetaram que, ao curar no sábado, não observava o sábado, deu a razão e disse: Se vós, no dia de sábado, desatando o boi ou o jumento, o levais a beber, sem transgressão da lei, como eu, libertando um homem do demônio, transgrido a lei? (Lc 13,15) — não se lembrando de que Cristo pôs fim àquela lei, quando celebrou a antiga Páscoa e logo consagrou àquela antiga a nova Páscoa, a saber, o novo sacrifício, entregando o seu Corpo e Sangue aos seus Apóstolos, mostrando que tudo o que precedera fora sombra, mas agora entregava pela primeira vez a verdade. Por isso, porque tinham visto Cristo observar a lei, porque, de novo, Pedro e os outros que pregaram aos judeus não os haviam obrigado a afastar-se da circuncisão e de semelhantes práticas legais, temendo a impaciência deles, pois preferiam abandonar toda a fé a renunciar àquelas coisas a que estavam acostumados; sabiam, com efeito, Pedro e os outros que, se não os nutrissem assim na meninice, não poderiam ser de outro modo conduzidos à virilidade da perfeição; por isso, digo, mantinham a circuncisão com a fé de Cristo: mas Paulo, vendo que Cristo lhes era inútil enquanto mantivessem a lei com a fé, segundo o que diz aos gálatas: «Se vos circuncidardes, Cristo de nada vos aproveitará» (Gl 5,2), escreveu-lhes por superabundância esta Epístola, embora fosse só Apóstolo dos gentios, agindo segundo o que diz aos romanos: «Honrarei o meu ministério, a ver se de algum modo provoco à emulação a minha carne, etc.» (Rm 11,14). Por isso, porque não era Apóstolo deles, não quis antepor nesta Epístola os nomes de dignidade, como costuma fazer em cada uma. Calou-os também porque lhes era odioso, porque perseguia a lei e por toda parte a destruía; donde com frequência o acusaram, imputando-lhe que dizia que a lei não fora dada por Deus e que em todo tempo fora inútil; por isso, para se purgar destas coisas, convinha-lhe em Jerusalém purificar-se segundo os ritos dos judeus e, purificado, subir ao templo (At 21,26; 24,18), e circuncidar o discípulo Timóteo (At 16,3): se, porém, sendo por eles odiado como perseguidor da sua lei, tivesse antecipado os nomes da sua dignidade, no princípio eles rumorejariam, dizendo que não se devia ouvir o seu inimigo, ainda que persuadisse segundo a razão. Para evitar isto, não fez menção da sua dignidade; como se dissesse: nenhuma autoridade minha vos compele, mas atendei às autoridades da vossa lei e dos Profetas, e pela própria lei e Profetas entendereis que em Cristo esteve o fim da lei.

E porque, como nas demais, não antepôs o seu nome, disseram alguns que esta não é de Paulo; outros diziam ser de Barnabé, outros de Lucas, outros de Clemente. Contra eles assim argumenta Jerônimo: se, porque não é intitulada com o nome de Paulo, não é de Paulo, então, porque não é intitulada com o nome de ninguém, seja de ninguém. Lucas certamente a traduziu do hebraico para o grego.

Nesta Epístola tem por matéria a eminência de Cristo e a inutilidade da lei, comprovando pela mesma lei e Profetas que estes tiveram fim em Cristo; as práticas legais que nem no tempo em que deviam existir aproveitavam a ninguém, senão pela fé de quem havia de vir, mas Cristo basta de tal modo para a justificação que não carece do auxílio da lei, e, se a lei se mistura, torna vã a fé. Com este fim assim fala de Cristo e da lei, para que os judeus abandonem as práticas legais e na eminência de Cristo busquem e recebam a justificação. Perto do fim da Epístola instrui-os também sobre a moralidade, porque, como vício natural, os judeus sempre foram demasiado luxuriosos em comidas e na libido.

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# Capítulo 1

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Havendo Deus outrora falado muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos Profetas, nestes últimos dias falou-nos pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem também fez os séculos; o qual, sendo o resplendor da glória e a figura da sua substância, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, tendo feito a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade nas alturas, feito tanto melhor que os Anjos quanto mais excelente é o nome que herdou em comparação com eles. Pois a qual dos Anjos disse alguma vez: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E também: Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um Filho? E, quando de novo introduz o Primogênito no mundo, diz: E adorem-no todos os Anjos de Deus. E, quanto aos Anjos, diz: Aquele que faz dos seus Anjos espíritos, e dos seus ministros chama de fogo. Ao Filho, porém: O teu trono, ó Deus, é pelos séculos dos séculos; cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria acima dos teus companheiros. E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos: eles perecerão, tu, porém, permanecerás, e todos envelhecerão como uma veste, e como um manto os mudarás, e serão mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos não terão fim. E a qual dos Anjos disse alguma vez: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés? Não são todos eles espíritos servidores, enviados para o serviço em favor dos que hão de herdar a salvação?

## Comentário

*Muitas vezes*, etc. Agora, no princípio, pretende provar que Cristo, Filho de Deus, deve ser ouvido, comparando-o com os Profetas, que, se foram ouvidos porque Deus falou por eles como por instrumento, muito mais se devem observar os preceitos de Cristo, em quem Deus falou, como no Filho. Compara de novo Cristo com os Anjos, porque, se as palavras dos Anjos, proferidas pela boca dos Profetas, eram observadas, devem observar-se muito mais as palavras de Cristo, que *se fez muito melhor que os Anjos.* E tudo isto que antepõe diz respeito à conclusão posta abaixo, onde diz: *por isso, mais abundantemente*, etc. Como se dissesse: observai o que foi dito pelo Filho, porque Deus *outrora falando aos nossos pais*, isto é, aos primeiros judeus, que tanto na carne como no culto de Deus são pais para nós, falando, digo, *aos pais pelos Profetas*; não eram dos Profetas, com efeito, as coisas que falavam, mas de Deus que falava por eles como por instrumento — neste nome que é Deus muito se opunham a Paulo, dizendo que Deus é imutável, e que não se podia negar que Deus deu a lei, devendo, portanto, ser imutável a lei, que dera quem não podia mudar-se —; *outrora*, digo, falando Deus aos pais pelos Profetas *muitas vezes*, isto é, muitas vezes, para não nos determos na posição da palavra; muitas vezes, digo, porque a Abraão, a Isaac e a Jacó, e a cada um deles em muitas ocasiões; falando também *de muitos modos*, porque ora por sonhos, como a Daniel, ora em voz aberta, como a Moisés, ora por aspiração interior, como a Davi: ou então, "muitas vezes", isto é, em diverso gênero de locução, como a este em sonho, àquele em discurso aberto, àquele por inspiração interior; e por isso de diversos modos, porque, se fosse só em sonho, pensar-se-ia vão o que fora assim ouvido, mas, onde este em discurso aberto, este em sonho, outro por aspiração interna, todos testemunhavam o mesmo e sobre o mesmo, davam fé mais certa à coisa entendida por tantos modos; "muitas vezes", digo, isto é, por muito gênero de locução, e "de muitos modos", isto é, por diversas operações, como na sarça ardente a Moisés, no velo seco e molhado a Gedeão, e semelhantemente a muitos outros: *outrora falando aos pais pelos Profetas, falou-nos pelo Filho.* Pondo, em relação àquele tempo mais antigo, o presente, "falando", e em relação àquele que era como presente, o pretérito, "falou", significa que fala o mesmo pelo Filho que falou pelos Profetas, a não ser que nos Profetas a verdade era oculta e ainda por cumprir, no Filho, porém, aberta e completa. Dizendo também "Deus, falando aos pais, falou-nos", a nós filhos dos mesmos pais, insinua que ao mesmo povo não falou coisas diversas, mas, se pelos Profetas falasse aos judeus e pelo Filho só aos gentios, poderia opinar-se que a povos diversos falou de coisas diversas. *Falou-nos nestes últimos dias*, a saber, *nestes dias*; ainda restam, com efeito, muitos que o ouviram e viram falar; ou então: falou nestes dias, como foi dito; falou, digo, *novissimamente*, porque esta locução de Deus pelo Filho foi a última, por novidade de nenhuma locução a ser mudada depois, mas outrora falou nos Profetas não novissimamente, porque a verdade que havia de falar no Filho ia destruir a sombra que falava nos Profetas: e, se ouvistes os Profetas, porque Deus falou nos Profetas, observai mais abundantemente o que ouvistes de Deus no Filho.

Agora começa a engrandecer o Filho, ora segundo a substância humana, ora segundo a divina, ora segundo ambas juntas, dizendo: *a quem*, Filho, Deus Pai *constituiu*, isto é, firmemente estabeleceu, *herdeiro de todas as coisas*, isto é, firme possuidor de todas; não herdeiro como se o seu Pai tivesse falecido, o que se dá nas leis humanas, mas herdeiro segundo o que ele mesmo diz: «Tudo o que o Pai tem é meu» (Jo 16,15); esta constituição, enquanto homem, foi feita naquele em quem, segundo o divino, desde a eternidade esteve toda a plenitude. *Por quem*, de novo, *fez* não só as coisas celestes, mas também *os séculos*, isto é, quaisquer coisas seculares que vedes, segundo aquilo: «Fizeste todas as coisas na Sabedoria» (Sl 103,24); isto foi dito do Filho segundo o divino. *Este Filho, sendo o resplendor da glória*, isto é, da essência divina do Pai, Divindade que por excelência se diz glória, e em cuja consideração nada parece glorioso; o Filho, digo, é *resplendor da glória*, porque, assim como o raio significa que o sol luz, assim o Filho é raio que dá a conhecer o Pai, não porém outro que o Pai, como nem o raio é outro que o sol; isto foi dito do Filho segundo ambas as naturezas, sobretudo segundo a divina. Este Filho, sendo também *a figura da sua substância*, isto é, plena manifestação da essência do Pai; figura, porém, não por ser diverso do Pai, mas o mesmo; a mesma substância, com efeito, é o Filho com o Pai: isto, só segundo o divino. *Sustentando* também *todas as coisas*, porque, assim como não podiam ser criadas senão pelo Filho, assim, criadas, não poderiam subsistir senão pelo Filho; *sustentando todas as coisas pela palavra*, isto é, por sua só vontade, como julgaríamos poderoso qualquer rei que só com a palavra governasse o seu império; sustentando, digo, todas as coisas *pela palavra do seu poder*, isto é, pela sua palavra virtuosa.

Tudo isto ainda nada para eles, porque diriam: que nos aproveita se por ele foram feitas todas as coisas, se é resplendor da glória, etc.? A isto Paulo responde: o Filho, digo, *tendo feito a purificação dos pecados*, isto é, purificando os homens dos pecados. E que possa purificar comprova-se pelas premissas; por quem se diz que foram feitas e sustentadas todas as coisas, e que é com o Pai a mesma substância, etc.; o que também no tempo da lei os judeus confessavam, onde diziam ao mesmo Cristo: «Quem pode perdoar pecados senão só Deus?» (Mc 2,7); aqui claramente mostravam que ninguém pode ser salvo dos pecados pela lei. *Tendo feito a purificação dos pecados*: isto foi dito do Filho segundo o divino. Este Filho, sendo tal e tal, *está sentado à direita da Majestade*, isto é, na igualdade da paterna maioridade; Majestade, com efeito, diz-se a essência de Deus; e não naquele paraíso de onde foi expulso Adão, mas *nas alturas* dos céus, colocado à direita do Pai: isto, segundo o humano.

Agora compara o Filho com os Anjos, de modo contudo a preferi-lo muito a eles, dizendo: o Filho, digo, *feito tanto melhor que os Anjos quanto mais excelente é o nome que herdou*, isto é, a honorificência depois que ressuscitou e subiu; mais excelente, porque, quando ainda era passível e mortal, teve nome diferente, porque os Anjos lhe serviam (Mt 4,11), mas, subindo, possuiu nome muito mais excelente: e porque poderia ser mais excelente, não porém em relação aos Anjos, por isso diz "mais excelente" de modo que o seja em comparação com aqueles Anjos.

Verdadeiramente herdou nome acima dos Anjos; pois a voz do Pai lhe disse: *Tu és meu Filho* (Sl 2,7); o que a nenhum dos Anjos disse. Mas, para maior confirmação, sob interrogação assim diz: *a qual dos Anjos disse alguma vez*, isto é, nem antes de serem confirmados, nem depois que pela queda de outros foram confirmados; disse, digo: tu és meu Filho consubstancial, não adotivo, *eu hoje te gerei* (Sl 2,7), isto é, na eternidade? Por causa da fraqueza do nosso intelecto, quando "hoje", que é nota de tempo presente, pôs o pretérito, "gerei", para que, se dissesse "hoje te gero", não suspeitássemos que não foi gerado do Pai desde a eternidade; e por isso disse "gerei" segundo a nossa fraqueza, "hoje" segundo a Divindade, em que nada é passado, nada futuro, mas tudo ali é presente hoje. *E também*: a qual dos Anjos disse isto alguma vez? Ou sem interrogação, de novo o Pai diz isto do Filho — onde diz "também", significa que foi dito do mesmo —; diz o Pai: *Eu serei para ele*, isto é, para honra dele, *serei para ele um Pai, e ele, o Filho, será para mim um Filho*, para me engrandecer. "Serei" e "será" pôs não porque este não seja Pai e aquele Filho desde a eternidade, mas quanto ao conhecimento comum dos homens, nem ainda aquele Pai, nem este Filho, mas no dia do juízo será Pai, será Filho, quando todos os ímpios conhecerão que Cristo é Cristo Filho de Deus, o que, vivendo, negaram. Estas duas coisas foram ditas de Cristo segundo a Divindade.

E de novo diz o Pai do mesmo Filho: *adorem-no todos os Anjos de Deus* (Sl 96,7). Mas antepõe quando isto foi dito: *quando o Pai introduz*, isto é, mostra que será introduzido, *o Primogênito*, seu Cristo, *no mundo* — introduz, porque foi conduzido ao interior dos corações —; quando, digo, mostra que será introduzido, diz (o "e" liga-se na letra do salmo): *adorem-no*, a saber, o Filho segundo a natureza humana, *todos os Anjos de Deus*; e isto dele se deve entender depois da Ressurreição. Aquilo que precede, "eu serei para ele um Pai", acha-se em Isaías<sup>[1]</sup>; no salmo também (88), *Misericordias Domini*, tem-se ali o que vale o mesmo: «Ele me invocará: Tu és meu Pai» (Sl 88,27). O que segue, "adorem-no", tem-se no salmo (96), *Dominus regnavit, exsultet terra*, a não ser que ali está "adorai", aqui "adorem".

Diz também o Pai do mesmo Filho, pertinente aos Anjos, isto: *o Filho faz dos seus Anjos espíritos celestes*, isto é, seus legados, enviando-os aonde lhe apraz; e não só aqueles inferiores, mas também *fogo de chama*, isto é, os Serafins, ordem que em dignidade precede as outras, *faz seus ministros*, obsequiando-o também segundo a natureza humana. Isto diz o Pai, pertinente aos Anjos; isto, porém, o mesmo diz ao Filho: ó Deus Filho, *o teu trono*, isto é, a tua sede judicial, *permanece pelos séculos dos séculos*: e com razão; porque *o cetro do teu reino é cetro de equidade*, isto é, equidade direta e inflexível. O cetro do rei é reto, e por isso costuma fazer-se de bronze, para ser sinal da equidade direta e inflexível, equidade que em Cristo é direta e inflexível. Com razão, de novo, o teu trono é para sempre; porque tu *amaste a justiça*, isto é, todo bem, não coagido, mas por dileção a abraçaste; e assim como amaste a justiça, assim *odiaste a iniquidade*, isto é, todo mal; alguns, com efeito, amam de tal modo a justiça que contudo não odeiam certas injustiças.

E por isso, para que o teu trono fosse eterno, para que o cetro de equidade fosse teu, para que amasses a justiça, por todas estas coisas, para que existissem em ti, ó Deus Filho, *Deus Pai ungiu*, eu, a saber, que falo, ungi-te — outros foram ungidos por ministros, como Davi e Saul; Cristo, porém, pela própria operação do Pai —; ungiu-te, digo, *Deus, o teu Deus*, consubstancial a ti, *com óleo*, isto é, o Espírito Santo, porque, assim como o óleo fomenta a carne, assim o Espírito Santo fomenta e afaga a alma, *com óleo de alegria*: e com razão se diz de alegria; porque aquele homem permaneceu imune de pecado pelo Espírito de que foi concebido. Cristo foi ungido pelo Espírito Santo no útero da Mãe; recebeu de novo o Espírito Santo no batismo, quando em forma de pomba foi visto sobre ele, não recebendo contudo o Espírito no batismo como se precisasse de nova justificação, mas para mostrar que daria aos homens o Espírito Santo no batismo para justificar. Ungiu-te Deus com óleo *acima dos teus companheiros*, isto é, acima dos Apóstolos e dos demais que receberam o Espírito Santo: acima deles, porque Cristo foi concebido do Espírito Santo, todos os outros da semente da carne. Tudo isto foi dito do Filho segundo a humanidade.

Isto disse o Pai do Filho; e de novo o Profeta ao Pai do mesmo Filho segundo o divino: ó Senhor Pai, *tu fundaste a terra*, isto é, firmemente estabeleceste esta Igreja, que se diz terra em comparação com a Igreja superior dos Anjos; fundaste, digo, *no princípio*, isto é, pelo princípio, que é o Filho, segundo o que ele mesmo diz de si: «Eu sou o princípio, eu que também vos falo» (Jo 8,25); fundaste a terra, *e os céus*, isto é, os santos maiores, como os Apóstolos, que chovem os teus mistérios sobre os súditos, *são obra das tuas mãos*: isto, digo, não só fundaste, mas devem dizer-se obras próprias das tuas mãos; na excelência deles, com efeito, aparece que a tua mão operou, como qualquer artífice diria: esta imagem egrégia é obra minha, mas naquela feita pior não me reconheço; quando contudo ambas são obra sua. *E eles*, os céus, *perecerão*, isto é, pela morte será destruído quanto serão por sua natureza, *tu, porém, permanecerás neles*, isto é, a justiça e o mais que tu operarás neles permanecerão. *E todos*, sejam céus ou terra, *envelhecerão*, isto é, pouco a pouco se corromperão pela miséria da carne; envelhecerão, digo, e perecerão *como uma veste*, isto é, segundo o corpo que há neles, que envolve a alma como veste: eles perecerão, *e tu os mudarás como um manto*, isto é, o corpo, que é como manto da alma, mudarás, feito impassível e imortal; *serão mudados* também segundo as almas, feitas mais gloriosas e progredindo no conhecimento de Deus: eles perecerão e envelhecerão; *tu, porém, és o mesmo*, isto é, imutável, contra o fato de que eles envelhecem; *e os teus anos não terão fim*, isto é, a tua eternidade é permanente, contra o fato de que eles perecerão pela morte.

Não só pelas premissas se comprova ser maior que os Anjos, mas também por esta palavra dita ao Filho: «Senta-te à direita», que a nenhum Anjo foi dita; porque *a qual dos Anjos disse o Pai alguma vez* (como a mesma palavra acima notamos): *Senta-te*, isto é, julga e repousa *à minha direita*, isto é, nos meus bens maiores, *até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés* (Sl 109,1), isto é, tão plenamente sujeitos a ti como o escabelo é sujeito aos pés? Por pés, contudo, entende-se a humanidade de Cristo, que é a última parte nele: esta plena sujeição se consumará no último juízo segundo a humanidade do Filho.

Há ainda outra razão em que os Anjos são inferiores a Cristo, razão que se segue. *Não são todos eles espíritos servidores*, isto é, ministradores, *enviados para o serviço*, isto é, para o ministério das coisas que Cristo faz, *em favor dos que hão de herdar a salvação*, isto é, dos que se salvam; sendo todos inferiores a Cristo, não podem ser iguais a ele.

## Notas

<sup>[1]</sup> Leia-se: no segundo livro dos Reis (cap. 7, 14).

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# Capítulo 2

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> Por isso, devemos observar com mais abundância o que ouvimos, para que não nos deixemos escoar. Pois, se a palavra dita pelos Anjos se tornou firme, e toda prevaricação e desobediência recebeu justa retribuição de salário, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? Salvação que, tendo começado a ser anunciada pelo Senhor, foi confirmada entre nós por aqueles que a ouviram, dando Deus testemunho com sinais, prodígios e várias virtudes, e distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade. Pois não foi aos Anjos que Deus sujeitou o mundo futuro, do qual falamos. Mas alguém testemunhou em certo lugar, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres, ou o filho do homem, para que o visites? Fizeste-o um pouco menor que os Anjos, de glória e honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras das tuas mãos. Tudo sujeitaste debaixo dos seus pés. Ao sujeitar-lhe tudo, nada deixou que não lhe esteja sujeito. Agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja sujeito. Vemos, porém, a Jesus, que foi feito um pouco menor que os Anjos, coroado de glória e honra por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte em favor de todos. Convinha, com efeito, àquele por causa de quem são todas as coisas e por quem são todas as coisas, que, conduzindo muitos filhos à glória, consumasse pela paixão o autor da salvação deles. Pois tanto o que santifica quanto os que são santificados vêm todos de um só. Por isso não se envergonha de os chamar irmãos, dizendo: Anunciarei o teu nome aos meus irmãos, no meio da assembleia te louvarei. E de novo: Eu pus nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu. Porque, pois, os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou igualmente das mesmas coisas, para destruir, pela morte, aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e libertar os que, pelo temor da morte, estavam sujeitos à servidão durante toda a vida. Pois não tomou os Anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Por isso devia assemelhar-se em tudo aos irmãos, para ser misericordioso e fiel pontífice diante de Deus, a fim de expiar os pecados do povo. Pois, naquilo em que ele mesmo sofreu e foi tentado, pode também socorrer os que são tentados.

## Comentário

De todas as coisas anteriores infere (para comprovar isto trouxe tudo): porque Deus falou nos Profetas e no Filho, porque por meio do Filho foram feitas todas as coisas, porque é maior que os Anjos, porque foi dito ao Filho "senta-te à direita", o que a nenhum Anjo foi dito: *por isso* convém que observemos *com mais abundância* o que ouvimos do Filho do que o que ouvimos dos Profetas; aos Profetas, sim, abundantemente, mas ao Filho convém ouvir mais abundantemente, *para que, não ouvindo o Filho, nos deixemos escoar*: nós, com muitas misérias e pecados, cada dia nos escoamos, mas, se não observarmos os mandamentos de Cristo, nos escoaremos de todo, porque todo bem se esvairá de nós, e nos restará a pena de toda a justiça.

Provou que o Filho deve ser ouvido, tanto porque em o Filho falou Deus, como nos Profetas, quanto porque o Filho é maior que os Anjos, e isto provou pelas autoridades deles mesmos; agora diz que os mandamentos do Filho devem ser observados, porque não escaparão à pena os que tiverem negligenciado a salvação que lhes foi proposta pelo Filho; o que assim prova: verdadeiramente, se não observarmos o que ouvimos do Filho, nos escoaremos, isto é, seremos punidos, porque, se a palavra dos Anjos, não cumprida, infligiu pena aos que não a observaram, então a salvação do Filho, negligenciada, que é maior que os Anjos, infligirá pena aos negligentes; o que diz assim: *se a palavra*, isto é, a manifestação da vontade de Deus, ou na lei ou nos Profetas, palavra *dita pelos Anjos* — os Anjos, com efeito, ministravam a Moisés a lei e aos demais Profetas tudo o que ensinavam —; se, digo, esta palavra *se tornou firme*, isto é, foi confirmada, como a lei dada a Moisés, por certos milagres, isto é, pelos trovões ali ouvidos, confirmada também por algumas ameaças e promessas; se, digo, a palavra por meio dos Anjos se tornou firme, e por isso *toda prevaricação e desobediência* — chama prevaricação não só omitir o que se manda na lei, mas também fazer contra a lei, como quem é mandado amar o próximo, não só não ama, mas até mata; desobediência diz-se não cumprir o que na lei se manda, ainda que nada se opere contra a lei, como quem é mandado amar e não ama: por isso diz "toda prevaricação e desobediência", e não "todo prevaricador e desobediente", significando que uma só prevaricação ou desobediência não escapa à pena; o prevaricador ou desobediente, porém, pode ser réu de muitas prevaricações ou desobediências —; se, digo, toda prevaricação e desobediência *recebeu justa retribuição de salário*, isto é, salário retribuído — salário (*merces*) diz-se o que, segundo a qualidade do feito, quer seja mal quer bem, se paga; retribuição significa que tanto lhe foi pago quanto mereceu —; retribuição, digo, *justa*, porque Deus, retribuindo assim, age por justiça, e não penseis que seja tão misericordioso que se esqueça da justiça: se, digo, a prevaricação ou desobediência da palavra dita pelos Anjos recebeu salário retribuído, *como escaparemos nós* de nos escoarmos *se negligenciarmos*, não digo se formos prevaricadores, mas (o que é menos) se ao menos negligenciarmos, isto é, desprezarmos entender, não digo a palavra, mas *tão grande salvação*? A palavra de Cristo, com efeito, crida pelos que creem, é causa eficiente da salvação; salvação, digo, tão grande, isto é, indefectível; esta salvação, com efeito, tem princípio quando se remitem os pecados; incremento pela posição das virtudes; consumação na bem-aventurança eterna.

Agora torna-os inescusáveis, de modo que não possam alegar, como remotos, que não ouviram esta salvação, dizendo: *salvação que*, tendo recebido o princípio não de constituição, porque desde a eternidade estava assim disposto que se fizesse, mas *começado a ser anunciada pelo Senhor* dos Anjos, isto é, por Cristo, porque Cristo começou a anunciar esta salvação; então, digo, tendo recebido este princípio, *foi confirmada entre nós*, isto é, entre vós, judeus, *por aqueles que a ouviram* da própria boca de Cristo, a saber, os Apóstolos, cuja justiça e autoridade vos recomendou a firmeza desta salvação; confirmada, digo, *dando Deus testemunho*; os próprios Apóstolos, com efeito, com a sua autoridade a atestavam bastante, mas Deus a testemunhava igualmente com aqueles *sinais e prodígios* — chama sinais, como expulsar doenças, o que a arte médica poderia efetuar; prodígios, porém, os que eram contra a natureza, como abrir os olhos ao cego de nascença, ressuscitar Lázaro; os quais também significavam outra coisa —; *e várias virtudes*, dando testemunho também aqui, significa virtudes verdadeiras, como a justiça, a prudência e semelhantes, que ministrava aos seus fiéis; testemunhando também *por distribuições* do Espírito Santo, a um, com efeito, os gêneros de línguas, a outro as revelações das Escrituras, e aos demais outras graças distribuía: tudo isto feito *segundo a sua vontade*; não considerava, com efeito, o mérito, mas o beneplácito da sua misericórdia.

Disse que os negligentes da salvação de Cristo não escaparão à sua vingança; agora acrescenta que tem poder de vingar contra todos: disse: como escaparemos; e verdadeiramente não escaparemos à vingança os negligentes da salvação do Filho, quando os prevaricadores da palavra dos Anjos foram punidos, porque ao Filho sujeitará o mundo, que não sujeitou aos Anjos (este lugar faz fé a partir do menor); o que assim diz: *Deus Pai não sujeitou aos Anjos o mundo*; pelo ministério deles, sim, muitas coisas se fazem no mundo, mas todas dizem respeito ao império de Deus: o mundo, digo, *futuro*, que será sujeito àquele de quem falamos, a saber, Cristo; ou então: o mundo não o sujeitou aos Anjos, o qual, a saber, para ser sujeito, é futuro àquele de quem falamos, Cristo.

Que o mundo deva ser sujeito a Cristo, prova-o pela autoridade de Davi; que contudo fala desta sujeição futura como de passada, como admitido ao conselho divino, e para provar mais certamente a exaltação de Cristo sobre todas as coisas, antepõe a humildade dele, para que, calada a humildade, afirmando a exaltação, não se duvidasse de que um é o humilhado e outro o exaltado; donde diz: não digo eu só que o mundo deve ser sujeito a Cristo, mas *alguém* também *testemunhou* o mesmo comigo, *dizendo em certo lugar* (Sl 8,5-8); esta autoridade era tão conhecida que não precisava do nome do autor nem do lugar em que estava; estas coisas, digo, testemunha Davi, falando ao Pai: ó Senhor, aquele homem Cristo, *que é* (com admiração) *o homem*, isto é, que grande coisa será; mas quão grande seja, contudo, tudo isto *por teres tu memória dele*, daquele homem: lembrou-se Deus do homem Cristo quando o conservou imune de pecado. Chamo-o homem, ou, para dizer mais expressamente, aquele homem *filho do homem* é grande coisa em que *tu o visitas*; como o médico, para visitar, entra no enfermo, assim Deus visitou Cristo no sepulcro, entrando nele para que ressurgisse incorruptível. Onde diz "filho do homem", mostra que é verdadeiro homem e não nascido da semente de varão, filho *do homem*, não *dos homens*. E assim como conheci a sua Encarnação, assim a sua diminuição; *fizeste-o menor*, ao Filho de Deus em poder, pela natureza assumida de passibilidade e mortalidade; fizeste-o menor, digo, *um pouco*, isto é, menos por pouco, porque, embora mortal, nesta mortalidade mandava contudo aos Anjos; fizeste-o um pouco menor, separado dos Anjos, isto é, daquela dignidade de lugar; Deus, com efeito, feito homem, conversou entre os homens.

Posta a humilhação de Cristo, começa a falar da exaltação, dizendo: *de glória*, isto é, claridade de imortalidade, *e honra o coroaste*, porque diante dele se dobra todo joelho. Diz "coroaste" por semelhança com o vencedor que, voltando do triunfo, recebe a coroa; assim Cristo, triunfada a morte, mereceu ser coroado de glória e honra. *E o constituíste sobre as obras das tuas mãos*, sobre os homens e os Anjos, que propriamente se dizem obras das mãos de Deus; e de tal modo sobre as obras que *tudo sujeitaste debaixo dos seus pés*, isto é, a ele com plena sujeição; poderia, com efeito, ser superior em dignidade sem que contudo as inferiores lhe estivessem obnóxias por alguma sujeição.

Agora Paulo expõe como se deva entender o que diz Davi, "tudo sujeitaste", dizendo: diz Davi, tudo sujeitaste; *no que a Escritura sujeitou*, isto é, mostrou sujeitas a ele todas as coisas, *nada deixou que não lhe esteja sujeito*, porque, onde diz "tudo", nada exceta. Se, com efeito, "se tem", liga-se acima: digo bem que o mundo será sujeito a Cristo, porque ao sujeitar-lhe tudo, nada deixou que não lhe esteja sujeito. E embora tenha dito "tudo sujeitaste", *agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja sujeito*, razão por que dizia "futuro sujeito a ele"; hoje, com efeito, algo é sujeito, mas ainda não tudo, amanhã de novo algo, e ainda não tudo; e este "ainda não" poderá dizer-se até que no juízo também sejam sujeitos a ele os ímpios.

Alguém objetaria: assim como ainda não foram sujeitas, assim também nem eternamente serão sujeitas. A isto Paulo: embora ainda não lhe estejam sujeitas todas as coisas, contudo, porque vemos nele cumprida parte da profecia, a saber, coroado de glória e honra, estamos certos de que a parte que resta a cumprir, a saber, que lhe sejam sujeitas todas as coisas; o que diz assim: aquele que foi *feito um pouco menor*, isto é, por pouco menos *que os Anjos*; poderia, com efeito, diminuir-se do que era e contudo permanecer maior que os Anjos, [por isso] diz "feito menor que os Anjos"; a ele, digo, *vemos agora, Jesus*, isto é, o que salva os seus, *coroado de glória e honra*, isto é, de claridade de imortalidade e de que todo joelho se dobre diante dele; coroado, digo, não sem mérito, mas *por causa da paixão*, paixão não de qualquer modo tolerável, mas *paixão da morte.*

Aqui começa já a mostrar que os mandamentos de Cristo devem ser observados não só por causa do poder e da vingança, mas (para omitir aquelas) por causa da dileção com que nos amou tanto que, para a nossa salvação, escolheu a morte: diminuído, por isso, *para que provasse a morte em favor de todos* os predestinados, ou então, em favor de todos universalmente; o preço, com efeito, foi dado a todos, suficiente, se quiserem — diz "provasse" por causa da amargura da morte, que interiormente lhe soou amarga; ou então, "provasse", porque aquela morte logo passada foi como em prova, não embriagando por demora —; provasse, digo, e isto *pela graça*, isto é, pela graça de Deus, o homem não o havia, com efeito, merecido. Para que provasse a morte por todos, *porque convinha a ele*, isto é, a Deus Pai, *por causa de quem*, para ser glorificado, *são todas as coisas, e por quem são todas as coisas*; a ele, digo, que *conduzira*, isto é, predestinara a conduzir, *muitos filhos*, isto é, homens justificados, *à glória*, isto é, à salvação; a ele, digo, convinha *consumar pela paixão o autor da salvação desses filhos*, a saber, Cristo, da morte, como prometeu; em vão, com efeito, teriam sido feitas todas as coisas, se o homem não redimido perecesse: toda criatura terrena, com efeito, serve ao homem, para que o homem tenha nelas matéria de louvar a Deus; se o homem, porém, não fosse salvo, a disposição de Deus seria frustrada, ele que fez todas as coisas para ser glorificado, quando em nada seria glorificado, condenado o homem: e como todas as coisas foram feitas por causa de Deus a glorificar e por Deus, convinha que o seu conselho se cumprisse, para ser glorificado nas criaturas, para que não fosse absurdo não prover à salvação aquelas que fizera. A consumação de Cristo começa na Ressurreição, devendo ter a perfeição no dia do juízo, quando todas as coisas lhe serão sujeitas.

Prova que convinha consumar Cristo pelos sofrimentos, porque diriam eles que era bastante inconveniente que quem era autor da salvação, a quem todas as coisas deviam ser sujeitas, fosse deposto nas ignomínias da Paixão; donde diz: verdadeiramente não desconvinha consumá-lo assim, porque *tanto o que santifica* os predestinados à glória, isto é, Cristo, *quanto os que são santificados*, isto é, os predestinados, *todos vêm de um só*, isto é, de Deus Pai; assim, com efeito, o homem Cristo está sujeito ao poder de Deus, como os que por ele são salvos; e, dependendo Cristo de Deus, não desconvinha que dispusesse dele como lhe aprouve.

Prova pelas autoridades que o que santifica e os santificados dependem de um só, dizendo: *por esta causa*, porque o que santifica e os santificados vêm de um só, por isso, digo, *não se envergonha*, isto é, não se pejou Cristo de os chamar irmãos, dizendo no salmo: *anunciarei o teu nome*, isto é, a tua honorificência, *aos meus irmãos, e te louvarei*, posto *no meio da assembleia* (Sl 21,23), como coluna que sustenta e escora a casa, para que nada nela caia. E de novo prova o mesmo pela autoridade de Isaías, que fala na pessoa de Cristo, assim: eu, Cristo, *terei confiança nele*<sup>[1]</sup>, isto é, em Deus Pai; e, dizendo-se confiar em Deus, aparece que, como os outros, depende de Deus. E de novo prova que o que santifica e os santificados vêm de um só, dizendo em Isaías: *eis-me aqui*, eu, Cristo, pronto ao obséquio de Deus, *e os filhos que Deus me deu* (Is 8,18). Onde diz "eis-me aqui" e "Deus me deu", mostra que depende de Deus.

Provou que não desconvinha; conclui agora que convinha que Cristo, pela Paixão, fosse autor da salvação dos homens, dizendo: porque Cristo, que santifica, e os homens, que são santificados, vêm de um só, *portanto Cristo participou igualmente das mesmas coisas* dos homens, para se tornar passível e mortal. E por que o que santifica participou delas? Por isso, *porque os filhos* que santificava *participam da carne e do sangue*, isto é, do corpo e da alma — pelo sangue, com efeito, recebe a alma, não que seja a alma, mas porque é sede da alma —; participar da carne e do sangue diz que são verdadeiros homens. E por que Cristo por isso participou da humanidade? Porque os filhos que santificava eram homens; a saber, *para que pela morte* sofrida pela salvação dos filhos *destruísse aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo*, que mandava pela lei da morte a todo homem; se não fosse pela morte, com efeito, não poderia destruir a morte; não poderia morrer, porém, se não se fizesse homem, e por isso convinha que participasse igualmente das mesmas coisas. Deus, com efeito, criou o primeiro homem puro e em liberdade, a quem o diabo, seduzido (porque transgrediu o império de Deus), submeteu ao seu império como servo; o homem, porém, corrompido pelo pecado, por nenhuma virtude pôde escapar a esta servidão; ora, tendo o homem sido feito servo por si, se fosse libertado por outro que não por um homem, seria violência, e o diabo reclamaria com justiça que se lhe fazia injúria; por isso, para que o homem fosse redimido, convinha achar um homem em quem não houvesse pecado, para que o diabo, usurpando para si poder naquele em quem, por não haver pecado, não tinha nenhum, por infligir ao homem sem pecado a morte, que é pena do pecado, usurpando o que não era seu, justamente por esta presunção perdesse todo homem que justamente possuíra. Homem sem pecado, porém, não podia achar-se entre os homens, porque todos nasceram em concupiscência; se, porém, como alguns objetam, a natureza angélica se encarnasse, como tanto o Anjo como o homem têm na natureza o poder de pecar, facilmente cairia, consta que ambas as naturezas caíram por si. Assim fica que a natureza humana de modo algum pode subsistir sem pecado, a não ser que a Divindade se lhe una. Por isso também, como dizem os santos, Deus quis fazer-se homem para tornar por isso os homens mais obnóxios à dileção.

Mostra que Cristo não só pela morte destruiu o império da morte, mas também pelo mérito da sua morte esvaziou a lei, que mantivera os judeus em servidão; donde diz: *para que pela morte destruísse o diabo*, e para que pela morte libertasse *aqueles* judeus, a quem era este discurso, *que durante toda a vida, pelo temor da morte, estavam sujeitos à servidão*, isto é, à lei, que os coagia como a servos, dizendo: se fizeres isto, morrerás de morte; mas Cristo, não querendo que servísseis por temor da morte, esvaziou a lei, para que, como antes temíeis como servos, assim agora por graça, livres, amásseis.

Verdadeiramente participou igualmente para santificar os homens; *pois nunca tomou*, isto é, em Escritura alguma se lê ter tomado, *os Anjos*, isto é, a natureza angélica, para redimir os Anjos, *mas tomou*, isto é, lê-se ter tomado, *a descendência de Abraão*, assumindo carne de Abraão, para salvar os que pela fé são descendência de Abraão. Donde, *porque tomou a descendência de Abraão, devia assemelhar-se em tudo aos irmãos*, feito passível e mortal, *para ser misericordioso*, o que era na natureza, pela exibição da obra, *e pontífice*, isto é, feito para nós ponte (*pons*) pela qual passemos a Deus; pontífice, digo, *fiel*, porque nem dos que conduzia, nem de Deus a quem entregava, buscou prêmios da sua condução: assemelhar-se também *para expiar*, isto é, perdoando remitir *os pecados do povo*. E verdadeiramente é poderoso para expiar os pecados do povo; pois *naquilo*, isto é, na substância inferior dele em que ele mesmo padeceu sob Pilatos, *tentado* pelo diabo, *pode ele mesmo socorrer os que são tentados* e livrar das tentações.

## Notas

<sup>[1]</sup> Estas palavras não se acham em parte alguma de Isaías, segundo a edição vulgata da Sagrada Bíblia, e muitos intérpretes pensam que foram tomadas do Salmo 16. Diz, contudo, bem São Bruno que este testemunho é tirado de Isaías; pois, no cap. 8, 17, onde nós lemos «esperarei nele», os Setenta traduzem *pepoithòs ésomai ep' autô*; palavras que aqui cita o Apóstolo.

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# Capítulo 3

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celeste, considerai o Apóstolo e Pontífice da nossa confissão, Jesus, que é fiel àquele que o fez, como também Moisés em toda a sua casa. Pois este foi julgado digno de maior glória que Moisés, quanto maior honra tem a casa aquele que a edificou. Toda casa, com efeito, é edificada por alguém; mas aquele que criou todas as coisas é Deus. E Moisés foi fiel em toda a sua casa como servo, em testemunho das coisas que haviam de ser ditas; Cristo, porém, como Filho na sua casa; casa que somos nós, se retivermos firme até o fim a confiança e a glória da esperança. Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na exasperação, no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram, puseram à prova e viram as minhas obras durante quarenta anos; por isso me indignei contra esta geração e disse: Sempre erram no coração. Eles, porém, não conheceram os meus caminhos, de modo que jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso. Vede, irmãos, que não haja em algum de vós um coração mau de incredulidade, que se afaste do Deus vivo; mas exortai-vos uns aos outros cada dia, enquanto se diz "Hoje", para que nenhum de vós se endureça pela sedução do pecado. Pois nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firme até o fim o princípio da sua substância, enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como naquela exasperação. Alguns, com efeito, ouvindo, o exasperaram; mas não todos os que saíram do Egito por Moisés. E contra quem se indignou durante quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos cadáveres ficaram prostrados no deserto? E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram incrédulos? E vemos que não puderam entrar por causa da incredulidade.

## Comentário

Das coisas anteriores infere: que Cristo deve ser temido por vingança e poder, e de novo deve ser amado por vós pela dileção com que provou a morte por vós, porque é poderoso e está pronto a socorrer os tentados; *por isso*, isto é, por tudo isto, ó *irmãos santos*, feitos *participantes da vocação celeste*; fostes, com efeito, chamados a participar dos bens celestes; vós, digo, amando e operando o que ele preceitua, *considerai Jesus*, isto é, o Salvador, *Apóstolo* que o Pai enviou a vós, *e Pontífice*, isto é, feito para nós ponte pela qual passemos à glória; Jesus, Pontífice *da nossa confissão*, porque, o que quer que outros façam, nós o confessamos pela fé nosso Salvador.

Comparou Jesus aos Profetas, comparou-o aos Anjos, de modo a mostrá-lo maior que todos eles; agora compara-o a Moisés, de modo de novo a afirmá-lo mais digno que Moisés quanto o filho é mais digno que o servo dispensador; donde diz: considerai Jesus, o qual Jesus *é fiel àquele*, isto é, a Deus Pai, *que o fez*, isto é, que uniu ao Filho a feitura humana; fiel, porque sempre buscou não a sua glória, mas a do Pai, nem aterrado pelo temor, nem seduzido pelo amor, ocultou os mandamentos do Pai; fiel, digo, *àquele, como também Moisés foi fiel em toda a casa* daquele Jesus, ou de Deus Pai, na qual Moisés não era senhor, mas ministro. *Em toda*, porque em tudo o que era necessário, tanto no ensinar como no apascentar e no conduzir, fielmente nutria aquela casa, isto é, o povo dos judeus. Ou construamos assim: Jesus é fiel a Deus, como Moisés foi fiel; Jesus, digo, fiel em toda a casa dele, tanto nos judeus como nos gentios, não numa casa só, como Moisés nos judeus. Aquele "como" nota só semelhança, não quantidade.

Prova pelo efeito o que diz: verdadeiramente Jesus é fiel, como Moisés; pois *Jesus foi julgado digno*; este, digo, Jesus, que como Filho excede muito o ministro, é digno de glória, como Moisés, e ainda *de maior glória que Moisés*, isto é, mais que Moisés, ou então, existente acima de Moisés no merecer: tanto maior certamente *quanto maior honra tem a casa*, isto é, na casa, entre aqueles a saber que estão na casa, ou então, da casa, isto é, a respeito da casa edificada, *aquele que a edificou*; maior, digo, que aquele que é dispensador nela.

Agora restam duas coisas a provar: que a casa não foi edificada por si, mas por outro, e que Cristo a edificou — tudo isto, porém, deve entender-se da casa espiritual; muitas vezes aconteceu, com efeito, que nas nossas casas era mais honrado quem nelas ministrava do que aquele de quem era a casa —; como se dissesse: digo bem "aquele que a edificou", por si, com efeito, não pode edificar-se; *toda casa, com efeito, é edificada por alguém.* A isto ele: se por alguém, não contudo por Deus. A isto Paulo: verdadeiramente a casa é edificada por Deus; *pois aquele que criou todas as coisas é Deus*: se criou todas as coisas, consta que também a casa; e, porque a edificou, segue-se que é tido de maior glória nela do que quem só ministra na casa. Por isso, porque edificou a casa em que Moisés dispensou, foi por isso julgado digno acima de Moisés. Por isso também é de maior glória, porque *Moisés* é, sim, *servo* em casa não sua; *Cristo, porém, como Filho na sua casa* ("sim" e "porém" são conjunções distributivas); *Moisés foi fiel em toda a casa dele*, a saber, de Deus Pai, ou de Cristo, *como servo*, porque apenas servia nela; o servo, porém, que hoje está na casa, amanhã talvez será expulso, nunca será tão fiel como o filho que há de possuir a casa por herança. Moisés, como servo, estava *em testemunho das coisas*, isto é, para que apenas testemunhasse essas coisas, não para poder dar a graça auxiliadora para operar os mandamentos; coisas, digo, *que haviam de ser ditas*, isto é, que convinha dizer àquele povo carnal, que não podia apreender as espirituais. Moisés, como servo, em casa não sua; Cristo, porém, era assim fiel como filho, a quem aquela casa estava reservada por herança; filho, digo, em casa não de outro, mas sua: *casa que somos nós*, renascidos por graça; com esta condição, digo, somos casa, *se retivermos a confiança da esperança*, isto é, a esperança da bem-aventurança futura com confiança, para que confiadamente esperemos, *e a glória da esperança*, isto é, a esperança gloriosa, porque da jucundidade celeste; retenhamos, digo, a confiança da esperança *firme*, isto é, perdurante *até o fim* da vida, quando receberemos o que agora esperamos.

*Por isso*, porque, retendo a confiança e a glória da esperança, somos casa de Cristo, por isto *vede, irmãos*, que não haja, o que pode acontecer, *em algum de vós* — diz "em algum" porque sabia que na Igreja podia haver muitos perfeitos —; que não haja, digo, em algum de vós *um coração* de incredulidade, de modo que sejais incrédulos, julgando que Cristo não basta para a justificação, mas que a lei é necessária; coração, digo, *mau de incredulidade*, isto é, precipitado em muitos males; desde que alguém é incrédulo, com efeito, precipita-se no ato do pecado: nem pouco prejudica o coração de incredulidade, que é *ter coração de se afastar de Deus*; e mal para vós se vos afastais de Deus, porque do Deus, digo, *vivo*, de quem quem se afasta perde a vida, quem a ele se aproxima acha a vida. Vede que não haja em algum coração de incredulidade, o que eu proíbo, como, proibindo o mesmo, diz o Espírito Santo em Davi com estas palavras (Sl 94,8-11): *Hoje*, isto é, no tempo da graça — assim, com efeito, falava Davi, como presente em espírito nos dias de Cristo; por "hoje", porém, entende-se todo o tempo da graça, de Cristo até o fim do mundo —; hoje, digo, nos dias de Cristo, *não endureçais os vossos corações, se ouvirdes a sua voz*, como na verdade ouvireis (o "se" é afirmativo); *não endureçais o coração*, agindo *como na exasperação*, isto é, como muitas vezes, exasperando-me, fizeram os vossos pais. De muitas exasperações recolhe uma, dizendo: não endureçais *segundo o dia*, isto é, como eles se endureceram *no dia da tentação*, quando me tentaram, dizendo: «Porventura poderá este preparar mesa ao seu povo?» (Sl 77,19); tentação, digo, feita *no deserto*, onde mais deveriam ter recorrido ao auxílio de Deus do que provocá-lo pela tentação. Vós, porém, postos no deserto deste mundo, vede que não irriteis a Deus pelas tentações, *onde*, isto é, em que deserto, *vossos pais me tentaram*: vede se são pais segundo a carne, que não o sejam segundo a imitação. Tentaram-me, digo, *e puseram à prova*, isto é, acharam-me provado; *e viram* com efeito *as minhas obras durante quarenta anos*, nos quais experimentaram que posso tudo. *Por isso*, a saber, porque me tentaram, *indignei-me*, isto é, irei-me contra esta tão péssima geração, *e disse* deles: Estes *sempre erram*, e isto *no coração*, isto é, por própria deliberação, porque pecam seriamente, podendo e sabendo agir retamente. E embora assim lhes dissesse, *eles, porém, não conheceram os meus caminhos*, isto é, não quiseram conhecer as minhas obras em que deveriam andar; *mas porque não conheceram, jurei na minha ira*: se eles entrarem no meu repouso, que lhes tinha prometido. Defeito de oração, para que se entenda qualquer inconveniente, como se dissesse: se entrarem, ninguém mais me creia, ou qualquer coisa semelhante. Aquele "se" dizem alguns que é como "não", atendendo à força da sentença, não da palavra. Se entrarem, digo, como eu jurei, isto é, firmemente estabeleci que não entrarão; jurei certamente *na minha ira*, isto é, quando estava irado com eles: o que ambos, tanto a ira como o juramento, lhes tira o entrar no repouso. Se alguns houver ali, permanece na mesma sentença, assim: se entrarem no meu repouso aqueles a quem na minha ira jurei que não entrariam no repouso.

E porque, irmãos, por causa do coração endurecido na incredulidade foi negado o repouso a vossos pais, por isso, *irmãos, vede que não haja em algum de vós um coração mau de incredulidade, que se afaste do Deus vivo*, como foi exposto; que não sejais, digo, incrédulos, mas *exortai-vos uns aos outros* sobre o incremento das virtudes, dizendo *cada dia*: Vinde, exultemos, etc., *enquanto se diz "hoje"*, isto é, enquanto se chama em vós "hoje", isto é, o tempo da graça — diz "chama-se" para que, remotos dos dias de Cristo, não julgassem que Cristo lhes conferia menos do que aos contemporâneos —; hoje, digo, chama-se, porque esta graça, que também aos últimos é dada, é aparentada à graça dada nos dias de Cristo, valendo tanto aos posteriores quanto aos primitivos. Exortai-vos, digo, *para que nenhum de vós se endureça pela sedução*; sabei, com efeito, que o diabo vos seduz, se porventura vos endureceis; sedução, digo, causa do pecado, porque, depois que alguém é enganado, mais e mais daí se precipita no pecado.

Deveis exortar-vos e não endurecer; porque, o que não éramos, *nos tornamos por graça participantes de Cristo*, isto é, tomando parte com Cristo na herança do Pai: com esta condição, digo, participantes, *se retivermos firme até o fim* da vida, de modo que nunca abandonemos *o princípio da sua substância*, isto é, a fé, que é o princípio dos bens, e pela qual já somos deificados e de certo modo participamos da substância divina: retenhamos, digo, *enquanto* (isto é, durante o tempo em que) *se diz* em nós: hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, *como vossos pais endureceram naquela exasperação* mencionada. Digo bem "na exasperação", *alguns, com efeito, deles, ouvindo* os mandamentos do Senhor, *exasperaram* a Deus; *mas não todos os que saíram do Egito por Moisés*, isto é, pela condução de Moisés, exasperaram a Deus, porque nem Caleb nem Josué: semelhantemente também vós, saídos do Egito por Moisés, isto é, das trevas da infidelidade por Cristo, que vos consagra a água da remissão, não exaspereis a Deus.

Verdadeiramente alguns exasperaram; porque *contra quem se indignou Deus durante quarenta anos*, não foi contra os que pecaram, e não impunemente (para que não vos prometais impunidade), *porque os cadáveres* desses pecadores *ficaram prostrados no deserto*? Contra esses certamente se indignou Deus. De novo ao mesmo: *a quem*, porém, *jurou Deus que não entrariam no seu repouso*, isto é, na Jerusalém celeste, onde está o verdadeiro repouso, *senão aos que foram incrédulos* e nas palavras do Senhor não tiveram fé? A eles, prostrados por pecado, assim como tirou a terra da promessa, também o verdadeiro repouso que era significado por aquela terra. Vede, portanto, que vós, incrédulos (o que certamente sois se reconduzis a lei como necessária à fé, não crendo que Deus possa justificar), por incredulidade não entreis no repouso: Deus jurou, sim, que eles não entrariam no repouso; e como jurou, vemos cumprido; *porque não puderam entrar no repouso por causa da sua incredulidade.*

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# Capítulo 4

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Temamos, pois, que, tendo ficado a promessa de entrar no seu repouso, alguém de vós pareça ficar para trás. Pois também a nós foi anunciado, como a eles; mas não lhes aproveitou a palavra ouvida, por não ter sido unida pela fé ao que ouviram. Entraremos, com efeito, no repouso, nós que cremos; como disse: Assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso; e isto estando as obras acabadas desde a fundação do mundo. Pois disse em certo lugar do sétimo dia: E repousou Deus no sétimo dia de todas as suas obras. E neste lugar novamente: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele, e aqueles a quem primeiro foi anunciado não entraram por causa da incredulidade, de novo fixa um certo dia, "hoje", em Davi, dizendo, depois de tanto tempo, como acima foi dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações. Pois, se Josué lhes tivesse dado o repouso, não falaria depois de outro dia. Resta, portanto, um sabatismo para o povo de Deus. Pois quem entrou no seu repouso, também ele repousou das suas obras, como Deus das suas. Apressemo-nos, pois, a entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de incredulidade. Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes; e atinge até a divisão da alma e do espírito, das juntas também e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura invisível na sua presença; todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos, àquele a quem prestamos contas. Tendo, pois, um grande Pontífice que penetrou os céus, Jesus Filho de Deus, mantenhamos a confissão. Pois não temos um Pontífice que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas tentado em tudo à nossa semelhança, sem pecado. Cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça, para alcançarmos misericórdia e acharmos graça em socorro oportuno.

## Comentário

E porque, por causa da incredulidade, não puderam entrar no repouso, *temamos, pois*, que alguém de nós *pareça*, segundo a verdade, *ficar para trás* daquele repouso. Mas antepõe a possibilidade de entrar a nós concedida, dizendo: temamos, digo, que, *tendo ficado a promessa*, isto é, a frequente promessa *de entrar no seu repouso*, a saber, de Deus, donde consta que temos faculdade de entrar; que, digo, deixada esta por incredulidade, pareça alguém de nós faltar ao repouso. Digo bem "promessa"; pois *também a nós foi anunciado, como a eles*, que pela fé se pode entrar no repouso: a eles foi anunciado, sim, mas contudo *não lhes aproveitou a palavra ouvida* da anunciação, só ouvida e *não unida pela fé*, de modo que cressem nos que ouviam de Deus; fé, digo, recebida *do que ouviram*, para que, como ouviam, assim cressem que Deus cumpriria. Ou assim: a palavra ouvida e não unida pela fé, *por aquelas coisas*, isto é, por causa do que ouviram daqueles exploradores que voltaram, não lhes aproveitou. Segundo esta sentença, remete-nos à história, quando os doze exploradores enviados por Moisés, voltando, aterraram os filhos de Israel, dizendo que a terra era, sim, frutífera, mas que ali estavam os filhos de Enac, de estatura gigantesca, diante dos quais não poderiam permanecer; ouvidas estas e semelhantes coisas, disseram: «Façamos para nós um chefe e voltemos ao Egito» (Nm 14,4), exasperando a Deus na incredulidade.

Verdadeiramente a palavra só ouvida, porque não foi unida pela fé, não lhes aproveitou; pois, porque em nós é unida pela fé, aproveitará a nós (lugar dos contrários); o que assim diz: *nós que cremos*, isto é, que unimos pela fé o ouvido, *entraremos* no verdadeiro repouso, cuja figura e verdade eles, por incrédulos, perderam; nós, digo, entraremos, *como disse* que nós, pela fé, entraríamos, onde diz: *assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso.* E isto dizer foi por contrário, porque onde disse que eles, por incredulidade, não entrariam no repouso, aí mesmo, por contrário, disse que nós, porque cremos, entraremos no repouso. Ou atribuamos cada coisa a cada um: a nós foi anunciado sobre aquele repouso, porque nós, que cremos, entraremos no repouso; a eles não aproveitou a palavra só ouvida, *como disse: assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso.*

Disse acima: vede que não haja em algum de vós coração de incredulidade, porque por incredulidade não entraram no repouso prometido, do qual repouso vos foi anunciado que, se tiverdes fé, podeis alcançar este repouso; de que modos e em que tempos foi anunciado acrescenta, mostrando que duas anunciações deste repouso foram feitas em figura, porque ninguém ainda podia alcançar aquele repouso; cuja terceira anunciação foi feita não em figura, mas na própria verdade, quando já podia alcançar-se e se alcançava o próprio repouso, a saber, nos dias da graça. A letra liga-se assim: sobre aquele repouso foi-nos certamente anunciado; *pois* neste lugar, naquele e em outro; donde diz: anunciado nos foi, sim, sobre o repouso; *e isto* — o "e" significa as diversidades dos lugares onde se trata do repouso; o "sim" a distinção de tempo, porque o tempo em que primeiro foi anunciado este repouso, a saber, a constituição do mundo, distava muito do tempo do cumprimento, a saber, dos dias de Cristo —; *estando as obras acabadas*, começando *desde a fundação do mundo*, foi-nos anunciado sobre aquele repouso. Feito o homem, dizem-se acabadas as obras de Deus, quando toda a criação do mundo foi por causa do homem: se faltasse o homem, cabeça das criaturas, imperfeitas seriam todas as coisas criadas por causa do homem; e porque poderiam, segundo a opinião de alguns, ser acabadas e consumadas por Deus e não ter princípio em Deus, por isso diz, tomando-o *desde a fundação do mundo.*

Verdadeiramente, acabadas as obras, foi-nos anunciado; *disse*, com efeito, a Escritura, ou Moisés, *em certo lugar do sétimo dia* assim. Por isso, não determinando o lugar, diz "em certo lugar", porque tanto este lugar da Escritura lhes era bastante conhecido, quanto porque este lugar era distinto e egrégio, onde se tratava da salvação; distinto, digo, em dignidade daqueles onde se trata de imolar um touro. Ou, se ali não houver "com efeito", nada convém repetir, mas digamos: acabadas as obras, *disse em certo lugar do sétimo dia* assim. O "e" que segue tem força na ordem da letra de onde foi tomado, como se dissesse: isto e isto fez Deus; e, feitas estas coisas, repousou no sétimo dia. Não se diz que Deus repousou como quem fosse vexado por algum trabalho, mas para por isso significar o repouso futuro. Diz *repousou Deus*, isto é, cessou *de todas as suas obras*, que nada depois operaria cuja matéria ou semelhança na primeira criação não tivesse precedido; matéria nas coisas corpóreas, semelhança nas incorpóreas, como nas almas. Logo, na sexta-feira, feito o homem, repousou no sábado, como se por isso dissesse ao homem: se me fores obediente, este mesmo repouso, cumprida a obediência, está-te preparado. Onde diz "repousou no sétimo dia", assim se anunciou sobre o repouso, de modo que se esperasse tanto a figura do repouso, a saber, a terra da promessa, quanto a verdade da figura nos dias de Cristo, antes do qual ninguém teve o verdadeiro repouso.

Como no lugar mencionado, assim também *neste*, novamente, foi anunciado, ou, diz a Escritura sobre aquele repouso — onde diz "novamente", significa que foi dito do mesmo —; assim, digo, foi anunciado: *se entrarem no meu repouso*; onde, com efeito, dizendo isto negava o repouso aos incrédulos, significava que havia um repouso a ser possuído pelos fiéis. Esta Escritura, porém, acha-se em Davi, que já não podia profetizar sobre a figura, isto é, sobre aquela terra da promessa, que os filhos de Israel já havia muito tempo possuíam; e assim segundo Davi esta profecia era não da figura que já se tinha, mas da verdade da coisa que em Cristo se esperava: segundo Moisés, porém, que dizia isto mesmo aos filhos de Israel, a profecia era tanto da figura ainda não tida como da verdade a receber em Cristo.

Premissadas sobre o mesmo repouso duas anunciações em figuras, acrescenta a terceira segundo a verdade do cumprimento, dizendo: porque deste e daquele modo foi anunciado sobre aquele repouso, *portanto, para que se cumprissem as coisas ditas, fixa de novo*, tratando do mesmo repouso, *um certo dia* o Espírito Santo, *dizendo "hoje", em Davi* — chama este dia certo, isto é, distinto e que excede todos os que foram antes, porque neste dia se cumpre a salvação, que nos dias passados só pôde ser anunciada, nunca cumprida —; *dizendo "hoje" em Davi, depois de tanto tempo*; muito tempo, com efeito, havia passado desde Josué, que distribuiu a terra da promessa aos judeus, até o dia de Davi; donde aparece que Davi entendeu outro repouso futuro que não aquela terra que já havia muito possuíam: dizendo, digo, "hoje", *como acima foi dito* ali: *hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações*; porque, assim como os primeiros pais, por incredulidade, perderam até a figura, assim também vós, se fordes incrédulos, não possuireis o verdadeiro repouso. *Depois de tanto tempo* fixa por isso, *visto que resta*, isto é, ainda resta que alguns entrem naquele repouso; por isso também diz "não endureçais os corações", porque aqueles a quem primeiro foi anunciado sobre o repouso, *por causa da incredulidade* deles, nem sequer entraram na figura, quanto menos na própria verdade. Ou assim, permanecendo a mesma sentença: porque assim e assim foi prometido aquele repouso; logo, para que se cumpram as promessas, resta que alguns entrem naquele repouso; e visto que resta que alguns entrem, por isso fixa de novo um certo dia, depois de tanto tempo, dizendo "hoje", em Davi; e visto que aqueles a quem primeiro foi anunciado sobre aquele repouso, por incredulidade, não entraram nele, por isso: hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como acima foi dito a vossos pais.

Verdadeiramente resta que alguns entrem naquela terra; pois (como falsamente alguns pensam) *Jesus*, isto é, Josué, *não lhes deu aquele repouso*; se, com efeito, este Jesus, isto é, Josué, lhes tivesse dado este repouso, nunca Davi falaria de outro repouso, muito depois de Josué, dizendo "neste dia", isto é, "hoje"; ou então: nunca Davi falaria *de outro dia depois*, isto é, se tivesse entendido que por Josué fora distribuído o verdadeiro repouso. Assuma-se assim: mas Jesus (Josué) não lhes deu o verdadeiro repouso; e porque foi prometido e ainda não dado, *portanto*, só isto das premissas resta, a saber, *um sabatismo para o povo de Deus* — sabatismo diz-se jucundidade, e aquela deleitação que se faz no sábado significando a jucundidade do verdadeiro Sábado —: e digo bem "sabatismo"; pois *quem entrou no seu repouso*, seja Abraão ou qualquer santo, achou este sabatismo; o que assim diz: não só Cristo, mas também aquele que entrou *repousou das suas obras*, isto é, de todo trabalho, *como Deus das suas*: o repouso, com efeito, do Senhor foi sinal e causa do nosso repouso; Deus, com efeito, fez o homem no sexto dia, veio redimir na sexta idade, no sexto dia, e na sexta hora do mesmo dia o redimiu, repousando no sábado no sepulcro, significando que [nós] repousaríamos com ele no Sábado eterno.

E porque o repouso é reservado ao povo de Deus, e quem quer que entra nele, como Deus, assim repousa; *apressemo-nos*, pois, bem operando e sanamente crendo, *a entrar naquele repouso.* Apressemo-nos de modo que *ninguém de nós caia no mesmo exemplo de incredulidade*, isto é, na mesma incredulidade em que caíram nossos pais; nós, digo, ofendendo agora mais gravemente, porque os temos como exemplo para nos acautelarmos, eles caíram sem exemplo precedente. Convém-nos apressar ao repouso e não cair na incredulidade, porque *a palavra de Deus*, isto é, o Verbo do Pai, segundo aquilo: «Onipotente, a tua palavra, Senhor, vem das sedes reais» (Sb 18,15), esta, digo, palavra de Deus é *viva*, isto é, tendo vida e ministrando vida aos seus: e, sendo viva, é também *eficaz*, isto é, fazendo o que quer, remunerando os piedosos, condenando os ímpios: e, tendo tanto poder, não tem menor sabedoria; é, com efeito, *mais penetrante que qualquer espada*, isto é, que qualquer engenho humano, o qual, porque penetra as coisas ocultas, se diz espada que perfura o interior; espada, digo, *de dois gumes*, porque, assim como a espada de dois gumes, que se segura no meio, fere à frente e atrás, assim o engenho humano entende tanto da sabedoria espiritual como da ciência humana. A palavra de Deus também *atinge até a divisão da alma e do espírito*, porque sabe bem discernir o que é da alma, isto é, da sensualidade, e o que é do espírito, isto é, da razão: discerne também os próprios atos da sensualidade entre si e as disposições; porque por vezes a sensualidade arrasta consigo a razão ao pecado, ora, operando bem, consente ao espírito: sabe discernir também o que é do espírito entre si, como ora repugne à sensualidade, por vezes consinta, por vezes a force a operar bem consigo; *atinge até a divisão das juntas*, ou, o que vale o mesmo, é também discernidor das juntas da alma e do espírito; porque conhece a série compactada em certa ordem, ora na sensualidade, ora no espírito, como quando a sensualidade deixa de obrar mal e depois, operando bem, consente ao espírito; e assim gradualmente sobe também o espírito: primeiro começa a operar bem, depois contemplar aquelas coisas celestes, passando das celestes, fixa o olho no próprio Deus: é também discernidor *das medulas*, isto é, de toda a sutileza da alma e do espírito; porque nenhuma sutileza lhe pode ficar oculta: é também discernidor *de todos os pensamentos*, porque conhece tudo o que o homem pensa; e não só dos pensamentos, mas também *discernidor das intenções do coração*, porque conhece tudo o que por pensamentos pretende: e, para compreender brevemente a sua sabedoria, *não há criatura invisível*, isto é, que não apareça *na sua presença*, que é tão grande que compreende todas as coisas ao mesmo tempo: e, sendo a palavra de Deus tão eficaz que tem o poder de efetuar o que quer, e sendo tão sábia, bem poderá e saberá o que a cada um deve retribuir. Na sua presença nenhuma criatura invisível, mas *todas as coisas estão nuas*, isto é, reveladas, e (o que é mais) até interiormente *abertas aos olhos*, isto é, à perspicácia dele; *a quem*, tão poderoso, que tão sutilmente tudo vê, *prestamos contas*; a ele, com efeito, havemos de prestar conta de cada coisa. Apressai-vos, pois, a ele, deixado o mal da incredulidade.

Comparou, sim, Jesus, e mostrou-o maior que os Profetas e os Anjos, dizendo-o Filho de Deus, mas como nele pendesse toda a salvação dos homens ainda não dissera; ao que poderiam objetar: que nos aproveita se o Filho de Deus é maior que os Anjos, quando Deus não dispôs nele que nos salvássemos? A isto responde Paulo, dizendo que nele Deus propôs toda a salvação, destruindo pelo sacerdócio de Cristo o sacerdócio levítico e, pela graça de Cristo, o inútil peso da lei antiga. A letra liga-se assim: porque a este tão poderoso, tão sábio, *prestamos contas*, *mantenhamos*, pois, *a confissão* da nossa esperança, isto é, a fé pela qual nos é concedido esperar a glória futura; mantenhamos, digo, *tendo um Pontífice* que se fez para nós ponte para a salvação; Pontífice, digo, *grande*, muito acima de todos os levíticos; este nosso Pontífice *penetrou os céus* na sublimidade do poder; aos sacerdotes de Levi, porém, era lícito entrar uma vez por ano no Santo dos Santos, onde contudo só havia coisas feitas por mãos; este, porém, potencialmente, penetrados os céus, está sentado à direita do Pai: este Pontífice, digo, *Jesus*, isto é, nosso Salvador e poderoso para salvar, porque *Filho de Deus.* Nós, tendo tal Pontífice, mantenhamos a confissão da nossa esperança.

De novo, para que, pela grandeza de Jesus, os irmãos fracos não desesperassem, dizendo: porque é Filho de Deus, porque penetrou os céus, nunca se dignará condescender com as nossas fraquezas, diz Paulo: mantenhamos a confissão sem desconfiança; *porque não temos um Pontífice* que, embora seja Filho de Deus, *não possa compadecer-se e condescender com as nossas fraquezas*, tanto segundo a fragilidade da natureza como também com os caídos; mas temos um Pontífice *tentado* na carne *em tudo*, por todos os gêneros de tentação; tentado, digo, *à nossa semelhança*, isto é, porque foi semelhante a nós, mortal e passível; ou então, tentado à semelhança, isto é, para dar em si exemplo de resistir às tentações; e assim tentado contudo *sem pecado*: por ter sido tentado, com efeito, sabe compadecer-se; por ser sem pecado, pode libertar. Portanto, porque temos Pontífice que tanto se compadece como é poderoso para libertar, *cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça*, isto é, a Cristo, em quem não é certa graça, mas trono e sede de toda a graça; «de sua plenitude, com efeito, todos recebemos» (Jo 1,16): cheguemo-nos, por isso, *para alcançarmos* por ele *misericórdia* dos pecados cometidos, *e acharmos junto dele graça em socorro*, isto é, auxiliadora para bem operar no futuro; socorro, digo, não segundo o nosso querer, mas *oportuno*, porque de qualquer modo que Deus veja oportuno, nunca deixará os seus sem socorro.

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# Capítulo 5

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Pois todo pontífice, tomado dentre os homens, é constituído em favor dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados; ele pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, porque ele mesmo está cercado de fraqueza; e por isso deve, como pelo povo, assim também por si mesmo oferecer pelos pecados. E ninguém toma para si esta honra, senão o chamado por Deus, como Aarão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo para se fazer pontífice, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Como também diz em outro lugar: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. O qual, nos dias da sua carne, oferecendo preces e súplicas, com grande clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, foi atendido por causa da sua reverência. E, embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência pelas coisas que padeceu; e, consumado, tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salvação eterna, chamado por Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedec. Sobre ele temos muito que dizer, e difícil de explicar, porque vos tornastes lentos para ouvir. Pois, devendo vós ser mestres pelo tempo, de novo tendes necessidade de que vos ensinem quais são os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e tornastes-vos tais que precisais de leite, e não de alimento sólido. Pois todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça; porque é criança. Aos perfeitos, porém, convém o alimento sólido, àqueles que, pelo costume, têm os sentidos exercitados para discernir o bem e o mal.

## Comentário

Disse acima: cheguemo-nos a Cristo com confiança, para que por este Pontífice alcancemos misericórdia e graça em socorro; agora prova pelo menor que por este Pontífice Cristo podemos alcançar misericórdia, dizendo: verdadeiramente por Cristo podemos alcançar misericórdia em socorro; *pois todo pontífice*, pelo ministério dele, os homens que estão sob ele podem alcançar misericórdia, pontífice que é muito menor, porque *tomado dentre os homens*; Cristo, porém, Pontífice de Deus. E em algumas palavras comparará este pontífice a Cristo, e em outras mostrará o menor. Nem pareça repugnar o dizer que todo pontífice é constituído para que por seu ministério os súditos alcancem misericórdia, quando em muitos isto faltou; porque, embora isto faltasse ou por pecado do ministro ou do povo, para isto contudo foi consagrado o pontífice: para que por seu ministério o povo alcançasse misericórdia, se noutra coisa não tivesse pecado. O que assim diz: alcançaremos misericórdia por meio do Pontífice Cristo; *pois todo pontífice é dentre os homens*; porque, antes de ser eleito, é assim dentre os homens que não pode conferir a outro mais do que a si mesmo; este pontífice, digo, *tomado*, isto é, eleito por vontade divina — a eleição divina pela qual é tomado produz nele que possa interceder pelo povo, ele que, antes de ser assim tomado, é impotente nisto, como outro homem —; tomado, digo, *é constituído em favor dos homens*, ele que pouco antes era dentre os homens; constituído, digo, em favor dos homens, não para presidir-lhes nas coisas seculares, mas *nas coisas que dizem respeito a Deus*, isto é, a que pertencem a Deus, a saber, para suplicar e sacrificar por eles: nas coisas de Deus é assim constituído *para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados* do povo a apagar. Na lei antiga chamavam-se dons aquelas oblações menores; sacrifícios, porém, quando se imolava touro ou semelhante: em Cristo, porém, as preces e tudo o que fez até a hora da Paixão dizem-se dons; sacrifícios, porém, quando se ofereceu a si mesmo no altar da Cruz. Onde diz "tomado dentre os homens", mostra a maioridade de Cristo, que foi tomado por eleição de Deus; nas coisas ditas, a semelhança, porque, se por aquele pontífice que oferece dons e sacrifícios os homens alcançam misericórdia, por que não igualmente por Cristo que oferece estas mesmas coisas?

É constituído, digo, pontífice, *que possa*, isto é, que tenha em uso, *compadecer-se dos ignorantes*, isto é, dos que pecam ignorantemente por simplicidade, *e dos que erram*, isto é, que sabendo caem em pecado; tal, com efeito, deve ser eleito que saiba compadecer-se de todas as fraquezas dos irmãos, não que precipite impacientemente sentença de condenação sobre os súditos: nisto bem semelhante é Cristo, que, tentado em tudo, se compadece das nossas fraquezas. Digo: possa compadecer-se; e certamente deve, *porque, como os súditos, assim também ele mesmo está cercado de fraqueza*, isto é, tanto de fragilidade da carne como, mais frequentemente, de ato de pecado: nisto, porém, Cristo é maior, porque sem pecado. *E por isso*, porque ele está cercado de fraqueza, *como oferece pelo povo*, para o absolver dos pecados e conservar quanto ao futuro, assim também *do mesmo modo deve* (e é necessário) *oferecer por si mesmo*, em quem há fraqueza, para conservar quanto ao futuro e para apagar os pecados passados: nisto de novo Cristo é maior, porque não precisa de oferecer por si, senão só pelo povo.

Como este pontífice deva ser tomado, acrescenta, dizendo: este pontífice deve assim oferecer; *e ninguém* destes pontífices *toma*, isto é, não se ingere a tomar a honra; toma, digo, *para si*, isto é, em relação ao que é seu. Tomaria para si, se por dinheiro, se por causa da pessoa, se por causa da linhagem, por poder secular ou semelhante se ingerisse na honra; tudo isto, com efeito, é dele: mas quem por virtudes, paciência, humildade e semelhantes fosse tomado à honra, este não por si, isto é, pelo que é seu, mas pelas virtudes, que são de Deus, tomaria a honra. *Ninguém toma para si a honra, senão aquele que é chamado por Deus*, isto é, que é eleito por vocação divina — não se diz "chamado por Deus" porque ali se ouça a voz divina, mas, se por causa das virtudes de Deus é eleito pelos que são sãos, vale o mesmo que se Deus dissesse: vem, porque és digno de receber o pontificado —; *chamado por Deus, como Aarão foi chamado por Deus.* Aarão, contudo, não foi eleito por eleição comum, porque os filhos de Coré contradisseram, razão pela qual, trazido fogo estranho, incensando, foram consumidos pelo fogo, e Datã e Abiron, murmurando pelo mesmo, foram tragados pela terra (Nm 16); mas Moisés, por preceito de Deus e por milagre, assumiu Aarão ao sacerdócio; mandou, com efeito, que das doze tribos fossem postas no tabernáculo doze varas de doze homens, para que aquele cuja vara florescesse fosse feito pontífice segundo a vontade manifesta de Deus (Nm 17). Na eleição de Aarão mostra que, se poucos são os que elegem justamente e a multidão contradiz, contudo a sentença dos poucos que elegem canonicamente deve ser seguida, o erro da multidão reprovado.

O pontífice, se foi chamado como Aarão, não se ingerindo na honra, pode aproveitar aos homens: assim também Cristo, por semelhante causa, pode socorrer os seus, porque *Cristo não se glorificou [a si mesmo]*, isto é, não se ingeriu engrandecendo-se para se fazer pontífice, mas o Pai glorificou Cristo, *que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei*, como expusemos no princípio da Epístola. Estas, porém, não são as palavras com que o Pai o glorificou, mas nas quais mostrou Cristo digno do sacerdócio; quando, porém, ao ser Cristo batizado, disse: «Este é o meu Filho, no qual me comprazi» (Mt 3,17), nestas palavras glorificou o Filho; acrescentando, porém: «Ouvi-o» (Mt 17,5), nesta palavra consagrou o Pontífice.

Para mostrar o Pai a dignidade do Filho, "tu és meu Filho", assim diz de Cristo; como do pontificado do mesmo diz também *em outro lugar* da mesma Escritura: *Tu és sacerdote para sempre*, que durarás eternamente, *segundo a ordem*, isto é, segundo a dignidade da ordem *de Melquisedec*; o sacerdócio levítico, porém, durará não eternamente, mas no tempo. Por isso é necessário que o sacerdócio de Cristo permaneça eternamente, porque, assim como sem ele não se pode ter a bem-aventurança, assim sem ele não se pode reter a bem-aventurança tida. Nisto de novo, que é eterno, foi preferido ao sacerdócio levítico, porque aquele é no tempo; e se o sacerdócio a destruir pôde aproveitar, muito mais o eterno sacerdócio de Cristo, que é também de outra dignidade, porque segundo a ordem de Melquisedec.

*Cristo*, para que estejais certos de que nele alcançareis misericórdia, *nos dias da sua carne*, isto é, da sua passibilidade e mortalidade — é natural, com efeito, à carne sofrer e morrer —; nestes dias, digo, *ofereceu preces e súplicas* a Deus — chama preces quaisquer petições que fez antes do momento da Paixão; diz súplicas quando, iminente a hora da Paixão, orou com tanta intenção que emitiu suor de sangue —; ofereceu, digo, *àquele que o podia salvar da morte*, não para que não morresse, mas para que a morte não dominasse por muito tempo sobre ele, pretendendo que, por si libertado da morte, o gênero humano fosse libertado da mesma; ofereceu, digo, *com grande clamor*, não porque tenha clamado tão alto, mas com grande clamor, isto é, com máxima intenção, *e lágrimas.* Em outro lugar não se acha que Cristo tenha chorado nesta mesma hora, senão neste Evangelho de Paulo, ao qual não menos se deve crer; porque, se por Lázaro e pela destruição de Jerusalém, compadecendo-se por toda parte da deficiência humana, se diz que chorou, muito mais deve dizer-se que chorou, para, na consumação da sua obediência, sanar a deficiência do gênero humano. Oferecendo, digo, preces com lágrimas, *foi atendido*, cumprido o que pedia, *por causa da sua reverência*, isto é, por causa da sua religião; ou então, por causa da sua reverência, isto é, pela obediência com que provou ter sempre reverenciado o Pai.

Não só ofereceu preces com lágrimas, mas também *aprendeu*, não por conhecimento, mas por experiência da coisa, *a obediência pelas coisas que padeceu*, isto é, pela morte, *embora* (isto é, ainda que) *fosse Filho de Deus*, poderoso em tudo, quis contudo assim cumprir o seu sacerdócio. *E, consumado*, isto é, morto, ou então, consumado, isto é, constituído à direita do Pai, de modo que nada tivesse imperfeito, *tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem*, não para aqueles que recusam obedecer-lhe. Pode certamente ser causa de salvação, porque foi chamado Pontífice não pelos homens, mas por Deus, *nem segundo o levítico*, mas segundo a dignidade da ordem de Melquisedec.

Prestes a dizer-lhes como o seu sacerdócio destrói o sacerdócio legal, e como todas as coisas legais têm nele o fim, como também o seu sacerdócio precedeu o legal e permanecerá eternamente, primeiro os aborda, em parte contudo, com áspera invectiva; e convenientemente primeiro os corrige, para que, corrigidos, sejam mais devotos para ouvir e mais prontos para crer, dizendo: *sobre ele*, isto é, como Cristo seja Pontífice segundo a ordem de Melquisedec, *temos muito que dizer*, discurso grande, isto é, que compreende muitas coisas, *e difícil de explicar*, isto é, que agora não pode ser interpretado, nem por mim, porque não tenho ouvintes congruentes, nem por vós, porque não podeis apreender; difícil de explicar, digo, *a dizer*, isto é, a expor-vos, *porque vos tornastes lentos para ouvir*, isto é, para entender; ou então, este discurso é grande e interpretável, porque aqui se contêm muitos mistérios que convém expor: grande, digo, por isso, *porque vos tornastes lentos para ouvir*; verdadeiramente lentos, *pois, devendo vós ser mestres pelo tempo* prolixo que tivestes para aprender; vós, com efeito, fostes convertidos no próprio início da pregação; devendo, digo, ser mestres, *agora de novo tendes necessidade de que vos ensinem quais são os primeiros rudimentos das palavras de Deus.* Nas palavras de Deus contêm-se muitos graus: primeiro a instrução simples, depois a média, por fim a perfeita; chama exórdio quando alguém é ensinado a crer na Encarnação, na Paixão de Cristo e semelhantes coisas oportunas aos simples; rudimentos do exórdio são, por exemplo, narrar em série a matéria da Paixão ou algo semelhante.

Também vós vos tornastes *tais que precisais de leite*, isto é, de insinuação pueril, *e não de alimento sólido*, isto é, de doutrina perfeita: verdadeiramente tais de leite que não precisais de alimento sólido; *pois todo aquele que se alimenta de leite*, isto é, a quem é necessária a insinuação pueril, *este tal é inexperiente na palavra da justiça*, isto é, na doutrina dos justos, isto é, dos perfeitos; inexperiente, porque *é criança* em sentido: vós, porém, perfeitos em malícia, mas crianças em sentidos. Dos pequeninos é o leite, *dos perfeitos*, porém, *é o alimento sólido*, isto é, a doutrina sólida; dos perfeitos, isto é, *daqueles que têm os sentidos*, isto é, os intelectos, *pelo costume*, isto é, pela assiduidade do estudo, *exercitados para discernir o bem e o mal*, de modo que saibam discernir o bem do mal; e também, entre os bens, discernir quais são mais bons, quais menos; e entre os males, igualmente.

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# Capítulo 6

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, deixando a palavra do princípio de Cristo, avancemos para as coisas mais perfeitas, não lançando de novo o fundamento da penitência das obras mortas, da fé em Deus, da doutrina dos batismos, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. E isto faremos, se Deus o permitir. Pois é impossível que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celeste, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e as virtudes do século vindouro, e caíram, sejam renovados de novo para a penitência, crucificando de novo para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o ao ludíbrio. Pois a terra que bebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva útil para aqueles por quem é cultivada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada e próxima da maldição, cujo fim é ser queimada. Confiamos, porém, de vós, caríssimos, coisas melhores e mais vizinhas da salvação, embora assim falemos. Pois Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e da caridade que mostrastes no seu nome, vós que servistes e servis aos santos. Desejamos, porém, que cada um de vós mostre a mesma solicitude para a plena realização da esperança até o fim; para que não vos torneis negligentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela paciência, herdam as promessas. Pois Deus, ao prometer a Abraão, como não tinha nenhum maior por quem jurar, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente te abençoarei com bênção e te multiplicarei com multiplicação. E assim, esperando com longanimidade, alcançou a promessa. Pois os homens juram pelo que é maior que eles, e o juramento é para eles o fim de toda controvérsia, para a confirmação. Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu conselho, interpôs o juramento; para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos fortíssimo consolo, nós que nos refugiamos em reter a esperança proposta, a qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até o interior do véu, onde Jesus entrou por nós como precursor, feito Pontífice eterno segundo a ordem de Melquisedec.

## Comentário

Repreendidos duramente, de novo os afaga, inserindo-se, dizendo: *por isso*, isto é, porque pelo tempo devíeis ser mestres, e porque convém terdes sentidos exercitados na lei do Senhor, por isso nós, *deixando a palavra do princípio de Cristo*, isto é, os rudimentos do exórdio com que alguém começa no conhecimento de Cristo; deixando, digo, esta meninice, *avancemos para a perfeição*, para que saibamos como no princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus, etc.; avancemos, digo, para a perfeição, *não lançando de novo o fundamento da penitência das obras mortas*, etc. — chama obras mortas ou os pecados, que mortificam, ou os bens anteriores, mortificados pelo pecado superveniente; fazer penitência das obras mortas é fundamento, porque, se esta pedra não for posta primeiro, nada se edificará —; fundamento também *da fé em Deus*; quem, com efeito, busca em outro lugar a justificação, ou não crê todas as partes da fé, este não tem fé em Deus; fundamento também *da doutrina dos batismos* — diz "batismos" no plural porque há o batismo na água, diz-se também batismo nas lágrimas da penitência, e em terceiro modo, na efusão de sangue por Cristo —; fundamento também *da imposição das mãos*; se alguém, com efeito, não crê que pela imposição da mão também se remitem os pecados, recebendo o Espírito Santo, e somos robustecidos contra os males futuros, este não tem fundamento, por isso é vão tudo o que sobreedifica; fundamento também *da ressurreição dos mortos*; se alguém, com efeito, não crê que a Ressurreição de Cristo operou a ressurreição dos mortos, perdeu a fé e não tem sobre o que edificar: fundamento também *do juízo eterno*; diz juízo eterno porque tudo o que então for constituído, de bens ou de males, durará eternamente; quem não crê no juízo futuro, porém, não tem fundamento, porque é infiel. Todas estas coisas dizem-se fundamento porque, se não precederem no fundamento, ninguém pode de outro modo operar o bem.

Todas estas coisas, porém, lhes eram necessárias, a saber, o fundamento da penitência das obras mortas, porque pecaram gravemente, e os bens que neles haviam precedido, como acima diz, que muito sofreram por Cristo de seus compatriotas, tornaram-nos vãos pecando: de novo a fé em Deus, porque, se entendessem como da fé de Cristo se tem toda justificação, não recorreriam à circuncisão, como necessária a si; se de novo sobre o batismo fossem bem ensinados, como nele se remitem todos os pecados, confessariam supérfluas as coisas legais; se também soubessem como pela imposição da mão o Espírito Santo tanto perdoa as coisas anteriores como conforta contra os males vindouros, não cuidariam das coisas legais; se de novo cressem que a Ressurreição de Cristo é causa eficiente da nossa ressurreição na glória, nada buscariam além de Cristo; de novo, se ponderassem como Cristo será juiz de todos, pela fé no Juiz só procurariam agradar ao Juiz. Porque de todas estas coisas necessitavam, por isso diz: avancemos para a perfeição, *lançando*, como a pedra é lançada no fundamento, o fundamento da penitência e as seguintes, como foram expostas; lançando, digo, *não de novo*, isto é, não por iteração do modo anterior, de modo que, como antes lançamos em vós todas estas coisas, e, pecando vós, foram destruídas, de novo as mesmas iteradas sejam destruídas; de modo que, segundo esta sentença, neguemos somente aquele "de novo". Ou, se a negação se põe a tudo, a sentença permanece a mesma, assim: avancemos agora para a perfeição, de modo que [não] sejamos de novo, isto é, mais, lançando o fundamento da penitência; agora, sim, lançaremos, mas vede que não convenha lançar de novo: assim a negação se ponha a tudo, permanecendo a sentença.

Advirto: avancemos para a perfeição; e certamente isto faremos, isto é, avançaremos para a perfeição, *se Deus o permitir*, isto é, se nesta vida conceder espaço em que os nossos pecados possam ser remidos. Por isso digo "se Deus o permitir", porque é impossível na outra vida ser renovado pela penitência; ali, com efeito, é lugar de receber o que se mereceu; aqui, de merecer; o que diz assim: se Deus permitir, por isso digo, porque na vida futura não permitirá; *é impossível*, com efeito, *que sejam renovados* pela justiça recuperada alguns movidos à penitência na outra vida; o que seria renovar de novo; aqui, com efeito, é lícito o que ali não pode ser iterado, a saber, que alguém ali seja renovado: renovados, digo, *aqueles que uma vez foram iluminados* pela fé porque creram, os quais também, depois que confessaram a fé, *provaram* como que um gosto suave e jucundo *o dom celeste*, a saber, a remissão do pecado pelo batismo; dom que é do alto: estas duas coisas quanto à fé; os quais também *se tornaram participantes do Espírito Santo*, por terem tido os gêneros de línguas ou os demais dons; os quais também (o que é maior) *provaram*, não menos que nós, *a boa palavra de Deus*, isto é, a jucunda, isto é, entenderam a Divindade do Filho; os quais também *provaram*, isto é, por certa antecipação antegozaram, *as virtudes do século vindouro*, isto é, a impassibilidade e a imortalidade; os que também tiveram todas estas coisas e *caíram*, é impossível que de novo sejam renovados, movidos à penitência; e é impossível que estejam *crucificando de novo para si mesmos o Filho de Deus*, isto é, impotentes na outra vida para fazer que daí em diante lhes valha a crucifixão de Cristo, e de novo não tendo o Filho de Deus *por ludíbrio*, isto é, por mostra, para que imitem a sua mostra; como se dissesse: de novo impotentes para imitar o Filho de Deus.

Ou de outro modo, para negarmos a iteração do batismo neste versículo: é impossível que os que foram tais e tais, quanto menos os inferiores, sejam *renovados de novo*, isto é, rebatizados, movidos à penitência; eles, digo, se são rebatizados, *crucificando de novo para si mesmos o Filho de Deus*, não que de fato o crucifiquem de novo, mas na paridade do pecado, porque uma só é a fé, um só o batismo, e Cristo, que o consagra, morreu uma só vez pelos nossos pecados. Por isso se dizem crucificar de novo para si o Filho de Deus pela paridade do pecado, porque, se, antes justificados pelo batismo, depois pecaram, julgam por isso o primeiro batismo de tal modo vão que a penitência não valha para a justificação quanto ao futuro. Estes tais querem crucificar de novo Cristo, para da crucifixão iterada ter iterada remissão, não sabendo que um só batismo e uma só morte de Cristo, depois do pecado como antes (contanto que façam penitência), bastam para toda justificação.

"Ostentui" na primeira sentença, em vez de "ostensioni", é posto inusitadamente, mas é bastante bom segundo a origem da palavra, de *ostendo, ostendis*. Onde acima diz "caíram", designa a gravidade da queda, a saber, em crime.

Disse acima: avancemos para a perfeição, e, interpostas algumas coisas, acrescentou: isto, digo, faremos, isto é, avançaremos para a perfeição, se Deus o permitir; e sobre o mesmo acrescenta: verdadeiramente faremos o que avançamos para a perfeição; e é justo, *pois a terra que bebe a chuva* — por terra entende os homens, que, para fazerem fruto, são cultivados pela palavra de Deus —; esta terra, digo, que bebe a chuva, isto é, que com grande desejo recebe a doutrina da palavra divina; assim como a chuva, com efeito, embebe a terra seca e endurecida, assim a palavra de Deus faz mole e tempera o coração endurecido, para que possa fazer fruto; a terra, digo, que bebe a chuva *que muitas vezes cai*; muitas vezes, porque a doutrina divina deve ser nem assídua demais, para que não se avilte, nem escassa demais, para que não perca a oportunidade de frutificar, mas muitas vezes, para ser mais oportuna, moderada de ambos os lados; *que cai sobre ela*, porque a doutrina desce tanto de Deus como dos prelados, que são superiores na Igreja: a terra, digo, assim bebendo a chuva, *e produzindo erva*, isto é, fruto de boa obra; erva, digo, *útil para aqueles por quem é cultivada*, isto é, os pregadores que a cultivam; útil, porque produz não degenerada, mas o fruto da natividade, isto é, segundo o que são ensinados a operar e veem nos seus doutores: esta terra, digo, assim produzindo, *recebe a bênção*, isto é, a multiplicação dos bens, *de Deus*.

A boa terra recebe a bênção; *a que produz espinhos e abrolhos, porém, é reprovada.* Ou, se se tem "com efeito", liga-se assim, sem mudar a sentença: verdadeiramente a terra que produz erva útil recebe a bênção; pois a terra que produz espinhos e abrolhos é reprovada. "Produzindo" nota pecar tão mal que com mau exemplo corrompe os outros; por espinhos entende os pecados que menos picam; por abrolhos, que picam mais asperamente, os mais graves; a terra, digo, que produz espinhos e abrolhos *é reprovada*, isto é, inimiga de Deus, *e próxima da maldição*, isto é, da perdição: onde diz "próxima", significa que a pena está perto, mas que ainda pela penitência pode escapar-se; *cujo fim*, isto é, de cuja terra reprovada, *é ser queimada*, isto é, no fogo perpétuo, se não fizer penitência.

O mesmo versículo liga-se à letra próxima, não contudo tão idoneamente: verdadeiramente na outra vida ninguém pode ser renovado para a penitência; pois a terra, isto é, o homem nesta vida só bebe a chuva que vem, isto é, pode esforçar-se por emenda; aqui, com efeito, é lugar de merecer, ali de receber; ou segundo outra sentença: é impossível ser renovado, isto é, rebatizado; pois a terra bebe uma só vez a chuva, isto é, o homem recebe uma só vez a água do batismo.

Porque os repreendeu bastante duramente, dizendo acima "devendo vós ser mestres, de novo tendes necessidade de que vos ensinem", etc., e por isso, de novo, pelo que logo disse da bênção da boa terra, persuadiu-os a fazer fruto oportuno, e por contrário os atemorizou; agora os afaga, para que, como com ameaças os abalou, assim agora os alente com carícias, dizendo: *embora assim falemos*, repreendendo-vos acima, contudo, ó *caríssimos*, nós *confiamos* a vosso respeito *coisas melhores* do que ser queimados, *e mais vizinhas da salvação* do que são os espinhos e abrolhos. Onde diz "de vós", significa que há neles tal natureza que é idônea para a correção. "Melhores" e "mais vizinhas": esta comparação não se faz entre participantes.

Por isso confiamos de vós, porque muitos bens operastes outrora, que, se (depois de fazerdes penitência) Deus não retribuísse, seria injusto; mas *Deus não é injusto, para se esquecer da vossa obra*, com que fizestes comuns a todos os vossos bens, *e da caridade*, porque esta obra procedeu não do temor, mas da dileção; *caridade que mostrastes no seu nome*, isto é, para honra de Deus: da obra vossa digo bem, *porque servistes aos santos*, com os vossos bens, *e servis* ainda com a mesma dileção. Nota nelas tríplice bem, a saber, a obra boa, a dileção e a honorificência de Deus na sua obra. Servistes outrora, e ainda estais no mesmo; *desejamos*, porém, para o futuro *que cada um de vós*, para que nem um falte a esta obra, *mostre*, isto é, mostre frequentemente, *a mesma solicitude* de servir aos santos *até o fim* da vossa vida; mostre, digo, *para a plena realização da esperança*, isto é, para que na bem-aventurança futura se complete em vós o que agora esperais: assim desejamos mostrar, *para que não vos torneis negligentes* nesta solicitude, *mas imitadores daqueles*, isto é, dos santos, *que herdam as promessas*, isto é, as bem-aventuranças prometidas, não por causa da linhagem, mas *pela fé e pela paciência*, isto é, pela fé e porque, sofrendo longamente, não se cansaram.

Porque sabia Paulo que muito lhes agradaria se dissesse que a salvação foi repromessa a seus pais, diz, como se alguém perguntasse: foram feitas promessas? Foram certamente; *pois a Abraão*; e acrescenta três coisas: que as promessas foram feitas, que foram confirmadas por juramento e que em Abraão já foram cumpridas, dizendo: *Deus, ao prometer a Abraão, jurou por si mesmo*, e por si mesmo porque *não tinha nenhum maior por quem jurar.* E por que, porque não tinha maior, jurou por si, acrescentará, mas antepõe as palavras do juramento: jurou, digo, dizendo: ó Abraão, *certamente te abençoarei*, isto é, se não te enriquecer com incremento de virtudes nesta vida; abençoarei, digo, *com bênção*, isto é, de modo que no ofício de abençoar eu sempre permaneça; *e te multiplicarei* na bem-aventurança futura remunerando a tua fé; multiplicarei, digo, *com multiplicação*, isto é, não fazendo fim a esta multiplicação: se não fizer isto (defeito de locução), siga-se qualquer inconveniente. E assim Abraão, certificado, *esperando com longanimidade*, porque longamente e muitas adversidades sofreu, *alcançou por fim a promessa*, isto é, a bem-aventurança tantas vezes prometida.

Por isso jurou, porque o homem jura; por si, porque maior que ele não há; *os homens, com efeito, juram pelo que é maior que eles*; por isso Deus depois da promessa jurou, condescendendo ao costume dos homens, cujo uso é ficarem certos pelo juramento (como Jesus, nos seus dias, segundo o costume daquela região, falava-lhes em parábolas e semelhanças), quando contudo jurar de Deus nada mais é que estabelecer imutavelmente. Os homens juram pelo maior que eles, e *o juramento é o fim de toda controvérsia*, isto é, da altercação deles, *para a confirmação* da outra parte. *Por isso*, isto é, pelo juramento, *querendo Deus mostrar mais abundantemente* — abundantemente, com efeito, pela promessa, mas mais abundantemente mostrou pelo juramento —; querendo mostrar *a imutabilidade*, isto é, a imutabilidade *do seu conselho*: o conselho de Deus foi (que poucos conheciam) salvar os homens pela fé de Cristo; este conselho, digo, mostrando imóvel *aos herdeiros da promessa*, isto é, da frequente promessa, *interpôs o juramento*, meio entre a promessa e o cumprimento. Interpôs-o *para que por duas coisas imutáveis*, a saber, pela promessa e pelo juramento, *nas quais é impossível que Deus minta*, porque nem em uma delas, *por estas duas coisas tenhamos fortíssimo consolo*, isto é, que em toda adversidade nos faça fortes, querendo padecer por uma hora para reinar eternamente. *Jusjurandum* diz-se como "o que é direito para jurar" (*jus ad jurandum*); perjúrio, porém, diz-se não *jusjurandum*, mas *jus non jurandum*: neste juramento de Deus temos a autoridade de jurar, de modo contudo que nem juremos supérfluamente, ainda que digamos a verdade, nem, onde é necessário, deixemos de confirmar a verdade com juramento.

*Tenhamos consolo nós que nos refugiamos* em toda tribulação *em reter a esperança*, não por causa das adversidades abandonar; esperança, digo, *proposta* já a nós em Abraão e cumprida, ou então, proposta, isto é, oferecida a todos os que esperam na fé. Refugia-se na esperança aquele que despreza a tribulação pelo gáudio da bem-aventurança que espera ter no futuro; *esperança que temos como âncora da alma, segura e firme*, para que, assim como a âncora segura a nau para que não afunde, assim a esperança torne a nossa alma segura, para que não afunde consentindo na iniquidade, e firme, para que nunca recue de padecer, ao menos vacilando no mínimo: esperança também, digo, *que penetra até o interior do véu*, isto é, na bem-aventurança interior e velada, que nenhum dos vivos viu. Interior do véu dizia-se o lugar do Santo dos Santos, que estava atrás do véu; diante do véu, porém, dizia-se Santo o lugar em que estavam os sacerdotes, mas no Santo dos Santos entrava o pontífice uma vez por ano; o interior do véu significava a bem-aventurança celeste velada a nós nesta vida. E como esperamos, para lá certamente iremos; porque *onde*, isto é, em cujo interior *entrou Jesus precursor*, isto é, correndo adiante de nós para que o sigamos, corredor porque nenhuma culpa jamais fez recuar a sua carreira; entrou, digo, *por nós*, a nos introduzir: *por nós*, digo otimamente, porque *foi feito nosso Pontífice*, para durar *eternamente*, segundo a dignidade da ordem de Melquisedec.

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# Capítulo 7

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> Pois este Melquisedec, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que foi ao encontro de Abraão quando voltava da matança dos reis, e o abençoou; a quem também Abraão repartiu o dízimo de tudo: primeiramente, o seu nome se interpreta rei de justiça; depois, também rei de Salém, isto é, rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre. Considerai, pois, quão grande é este, a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo dos melhores despojos. E, de fato, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm mandamento de tomar dízimos do povo segundo a lei, isto é, de seus irmãos, embora também eles tenham saído dos lombos de Abraão. Aquele, porém, cuja genealogia não se conta entre eles, tomou dízimos de Abraão e abençoou aquele que tinha as promessas. Ora, sem nenhuma contradição, o menor é abençoado pelo maior. E aqui recebem dízimos homens que morrem; ali, porém, aquele de quem se testemunha que vive. E (por assim dizer) por Abraão também Levi, que recebe dízimos, pagou dízimo: pois estava ainda nos lombos de seu pai quando Melquisedec lhe saiu ao encontro. Se, pois, a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (pois sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia ainda de que se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e não se dissesse segundo a ordem de Aarão? Pois, mudado o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei. Aquele de quem se dizem estas coisas é de outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar; é manifesto, com efeito, que nosso Senhor nasceu de Judá, tribo da qual Moisés nada disse a respeito de sacerdotes. E é ainda mais manifesto, se, à semelhança de Melquisedec, se levanta outro sacerdote, que foi feito não segundo a lei de um mandamento carnal, mas segundo o poder de uma vida indissolúvel. Pois se testemunha: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. Dá-se, com efeito, ab-rogação do mandamento anterior, por causa da sua fraqueza e inutilidade; pois a lei nada levou à perfeição; mas a introdução de uma esperança melhor, pela qual nos aproximamos de Deus. E quanto isto não foi sem juramento (pois aqueles foram feitos sacerdotes sem juramento; este, porém, com juramento, por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre); tanto Jesus foi feito fiador de uma melhor aliança. E aqueles foram feitos sacerdotes em maior número, porque a morte os impedia de permanecer; este, porém, porque permanece para sempre, tem sacerdócio sempiterno. Donde também pode salvar perpetuamente os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós. Tal, com efeito, convinha que fosse o nosso Pontífice: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais alto que os céus; que não tem necessidade, como os sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiro pelos seus pecados, depois pelos do povo; pois isto fez uma vez, oferecendo-se a si mesmo. A lei, com efeito, constitui sacerdotes homens que têm fraqueza; a palavra do juramento, porém, que é posterior à lei, constitui o Filho, perfeito para sempre.

## Comentário

Como seja segundo a ordem de Melquisedec, interpostas muitas coisas, finalmente o prossegue, dizendo: digo bem que Jesus é pontífice segundo a dignidade de Melquisedec; *este, com efeito, Melquisedec, rei de Salém* — que agora é Jerusalém, então se chamava Salém; mas por causa dos jebuseus, que depois a habitaram, acrescentou-se *Jeru* a Salém, e daí teve o nome de Jerusalém —; este, digo, rei de Salém, foi *sacerdote do Deus Altíssimo*, isto é, não dos homens nem por homem, mas confiado em sua dignidade assumiu para si o sacerdócio de Deus: Melquisedec, *que foi ao encontro de Abraão quando voltava da matança dos reis*, que levavam cativo Ló, seu sobrinho; *e abençoou* a Abraão Melquisedec, e a ele que o abençoava Abraão *repartiu o dízimo de todos* os despojos (Gn 14,20). Este, primeiramente, se chamou Melquisedec, nome que se *interpreta rei de justiça*; depois, porém, se chamou rei de Salém, que é interpretado *rei de paz.* Este Melquisedec, de novo, *sem pai, sem mãe*, não que não tivesse pais, mas porque a Escritura de modo algum diz que os teve; foi também *sem genealogia*, não tendo filhos ou filhas, *não tendo princípio de dias nem fim de vida*, o que a Escritura fala, talvez omitindo de propósito. Este Melquisedec, porém, *feito semelhante ao Filho de Deus* nas coisas premissadas, *permanece sacerdote*, isto é, o seu sacerdócio dura *para sempre.*

Como foi semelhante ao Filho de Deus, voltando prossigamos por partes: Melquisedec diz-se rei de justiça; quem é, porém, Rei de justiça senão Cristo, que pelas procelas do mundo rege os seus em justiça; Cristo também rei de Salém, isto é, de paz, porque, depois que regeu os seus em justiça, não cessa de regê-los, colocados na verdadeira paz dos Anjos: *sacerdote do Deus Altíssimo*; quem é, porém, tão grande sacerdote como Cristo, que por obediência ao Pai se ofereceu a si mesmo no altar da Cruz. *Que foi ao encontro de Abraão quando voltava da matança* de cinco reis: os cinco reis são os cinco sentidos do corpo, por meio dos quais todos os vícios dominam no homem, como, pela vista, a cobiça, enquanto deseja o que viu; e assim pelos demais sentidos, segundo o que no Evangelho foi dito à mulher: «Cinco maridos tiveste» (Jo 4,18). Por Abraão entende-se qualquer fiel; a cada fiel, porém, que volta da matança dos inimigos, isto é, dos vícios que dominam pelos cinco sentidos, vem ao encontro Cristo, dando incremento da boa obra. Lê-se também ali que ofereceu a Abraão pão e vinho (Gn 14,18), o que aqui não se tem; estes, a saber, o pão e o vinho, significam o Corpo e Sangue de Cristo, por cuja participação tanto se remitem os pecados como, recebendo-se, se é fortalecido quanto ao futuro contra os vícios. *A quem repartiu Abraão*, isto é, o fiel, *o dízimo de tudo*, isto é, todas as perfeições que teve; todo fiel, com efeito, atribui a Cristo toda a sua perfeição: por dez, que é número perfeito (porque até dez o número cresce, e não além, mas recapitula desde o princípio dizendo onze, isto é, um e dez), designa-se a perfeição. *Primeiramente chamado Melquisedec, que se interpreta rei de justiça; depois rei de Salém, que é rei de paz*; assim Cristo primeiro rege os seus na justiça desta vida, na outra vida os rege na paz. *Sem pai* Cristo segundo a carne, *sem mãe* segundo a Deidade, *sem genealogia*, porque não teve filhos da carne, *não tendo princípio de dias nem fim* segundo a Divindade, coeterno ao Pai.

Pelas coisas precedentes foi bastante recomendada a dignidade de Melquisedec, mas agora também para aumento da dignidade do mesmo: *considerai quão grande é este* Melquisedec, *a quem Abraão patriarca*, isto é, príncipe dos nossos pais Isaac e Jacó, *deu o dízimo*, como servo e seu tributário, *dos melhores despojos* que tinha. E isto também de outro modo considerai quão grande é Melquisedec, pelo fato de que alguns *dos filhos de Levi*, *recebendo o sacerdócio*, têm mandamento de tomar dízimos do povo, nem de outro modo ousariam, e isto *segundo a lei*, em que são servos; *do povo*, digo, *isto é, de seus irmãos*, que, por serem irmãos, de bom grado lhes dão: no que tomam dízimos, diferem do povo, *embora também eles, filhos de Levi, tenham saído dos lombos de Abraão*, como os demais do povo. Os filhos de Levi tomam dízimos dos irmãos, mas Melquisedec, *cuja genealogia não se conta entre eles*, isto é, entre os judeus, este, digo, *tomou dízimos de Abraão e abençoou* aquele *que tinha as promessas*, no tempo de sua maior dignidade, a saber, quando já tinha as promessas de Deus.

Agora das premissas colige: Abraão deu, Melquisedec abençoou: *sem nenhuma contradição*, ninguém pode contradizer, com efeito, que *o menor é abençoado pelo maior*; ainda que, com efeito, segundo outra coisa, seja maior o abençoado, consta contudo que nisto é menor, que de quem abençoa recebe o que o abençoado não tinha. Também deste modo considerai a dignidade de Melquisedec, porque *aqui*, isto é, no sacerdócio levítico, *recebem dízimos homens que morrem*; *ali*, porém, no lugar superior da Escritura, *testemunha-se*, por Moisés, *que Melquisedec vive*, enquanto falando da vida nada acrescentou sobre a morte. Também deste modo considerai a sua dignidade, porque *Levi, que recebe dízimos*, a própria ordem levítica *pagou dízimo*, isto é, deu dízimos; e digo isto *por assim dizer* que Levi deu dízimos *por Abraão*, isto é, por causa material; quando, com efeito, Abraão deu dízimos, todos estavam ainda nos lombos de Abraão: o que muito bem parece seguir-se; se, com efeito, todos pecamos em Adão, porque estávamos nos seus lombos quando pecou, por que se não diria que Levi deu dízimos, ele que estava nos lombos de Abraão quando Abraão dava dízimos? E verdadeiramente Levi deu dízimos por Abraão que dava, *porque estava ainda nos lombos de seu pai Abraão quando Melquisedec lhe saiu ao encontro* a Abraão que lhe dava dízimos; se, com efeito, houvesse então Isaac, não se diria que Levi então estava nos lombos de Abraão, mas nos lombos de Isaac, mas porque ainda estava nos lombos de Abraão por meio de Isaac, igualmente também Levi. Diz-se que Levi pagou dízimo nos lombos de Abraão, e não Cristo, embora seja filho de Abraão, porque Cristo não nasceu dos lombos de Abraão segundo a concupiscência da carne; Levi, porém, nasceu dos lombos de Abraão pela lei dos membros, que é a concupiscência da carne.

Mostrou acima que Cristo é sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e provou suficientemente que este sacerdócio é mais excelente, em tempo e em muita dignidade, que o sacerdócio de Levi, que de novo de muitos modos rebaixou: agora, porém, recomendado o sacerdócio de Cristo, passa a mostrar como pelo sacerdócio de Cristo se destrói o sacerdócio levítico, destruído o qual, prova por necessidade que se segue a destruição da lei. A letra liga-se assim: uma vez que Cristo foi feito sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e se provou suficientemente que este sacerdócio preside de todos os modos ao levítico, responde-me, pois, tu, legalista, sobre o que segue: *se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico*, isto é, se por ele se tivesse a justificação perfeita: e digo bem que pelo sacerdócio devia fazer-se a consumação; *porque o povo recebeu a lei* existente sob o próprio sacerdócio; na mão do sacerdote, com efeito, estava a lei, e a lei não podia ser cumprida, nem sequer o mínimo operar-se, a não ser pelo ministério do sacerdote: se, digo, a consumação era pelo sacerdócio levítico, *que necessidade havia ainda*, depois que o antigo sacerdócio consumasse, *de que se levantasse outro sacerdote*, diferente dos levitas e quanto à tribo e quanto ao rito, *segundo a dignidade da ordem de Melquisedec, e não se dissesse segundo a ordem de Aarão*, como disse o profeta Davi?

E para que ninguém dissesse: levante-se, sim, segundo esta ordem, de modo contudo que misturadamente mantenha a ordem de Aarão. A isto diz que se diz *segundo a ordem de Melquisedec* de modo que em nada seja segundo a ordem de Aarão. Diz "levantar-se" porque os sacerdotes levíticos estavam deprimidos, impotentes para sacudir de si ou do povo o jugo do pecado pela lei; este, porém, Cristo, levantou-se, por cujo sacerdócio os fiéis, sacudindo o jugo do pecado, se levantam à bem-aventurança; como se dissesse: se pelo sacerdócio levítico fosse a consumação, em vão se levantaria outro sacerdócio segundo Melquisedec para consumar; mas levantou-se outro sacerdócio, logo o levítico não consumava; temos a assunção: *mudado o sacerdócio*, etc. A letra liga-se contudo assim: como se alguém dissesse: por que dizes que a lei está sob o sacerdócio, e que o sacerdócio foi destruído ao levantar-se outro sacerdote? que pretendes com isto? Digo certamente que a lei está sob ele e que o próprio sacerdócio levítico foi destruído porque, *mudado o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança* da lei desse sacerdócio, estando a lei na mão do sacerdote; pretendo, porém, provar a destruição da lei enquanto destruo o seu sacerdócio.

Verdadeiramente levantou-se outro sacerdote, e verdadeiramente o sacerdócio foi mudado (o que é o mesmo); pois outro quanto à tribo e quanto ao rito; ou então, verdadeiramente foi mudado, porque tanto quanto à tribo quanto ao rito. Que foi mudado quanto à tribo mostra primeiro, dizendo: verdadeiramente foi mudado, ou, verdadeiramente é outro o sacerdote; pois Cristo, *aquele de quem*, isto é, em cuja consideração *se dizem estas coisas*, *é de outra tribo*, e não da tribo de Levi; *da qual outra tribo ninguém serviu*, isto é, assistiu proeminentemente *ao altar*: e verdadeiramente de outra tribo; *porque é manifesto que nosso Senhor Cristo nasceu de Judá*, tribo *da qual Moisés nada disse a respeito de sacerdotes*, de modo que alguém daquela tribo devesse fazer-se sacerdote. A mudança do sacerdócio quanto à tribo já tinha precedido em Samuel, reprovados os filhos de Heli, que por linha de linhagem eram herdeiros do sacerdócio; mudança que significava a verdadeira, que havia de ser em Cristo.

Prova de novo que o sacerdócio foi mudado quanto ao rito, o que não se vira mais; porque, embora a tribo fosse reprovada, os ritos contudo não foram mudados; donde diz: provei que o sacerdócio é mudado quanto à tribo; *é ainda mais manifesto*, isto é, por razão mais ampla e firme, porque mais vale a prova pelo rito do que pela tribo; é manifesto, digo, que o sacerdócio é mudado, *se, à semelhança e rito de Melquisedec, se levanta outro sacerdote*, como foi predito; *outro* que *foi feito sacerdote não segundo a lei de um mandamento carnal*, isto é, lei que só mandava e prometia coisas carnais; mas *foi feito sacerdote segundo o poder*, isto é, a Deidade que estava nele; poder, digo, *de uma vida indissolúvel*, isto é, pelo qual dava aos que creem nele a vida indissolúvel, isto é, eterna. Ou assim: não segundo a lei do mandamento carnal, isto é, segundo o entendimento carnal da lei, mas segundo a virtude da própria lei, a saber, o entendimento espiritual; virtude, digo, de vida indissolúvel, porque a operação espiritual da lei promete a vida eterna, como a fraqueza a vida carnal. Digo: o sacerdócio foi mudado, se se levantou outro sacerdote; mas outro sacerdote se levantou; e isto prova pela autoridade, dizendo: verdadeiramente levantou-se outro sacerdote, *porque se testemunha*, isto é, Davi testemunha, comigo ou com muitas outras Escrituras, *que tu, Cristo, és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.* Quando devia dizer "Cristo é sacerdote", para fielmente pôr as palavras da profecia, diz: "tu és sacerdote".

Acrescenta a causa por que o sacerdócio antigo foi destruído e o novo introduzido, para que o adversário não objetasse: por que dizes que Deus deu outro sacerdócio para reprovação do antigo, quando certamente instituiu o sacerdócio antigo? A isto, respondendo, diz: *dá-se ab-rogação do mandamento anterior* e da lei antiga *por causa da sua fraqueza*, isto é, porque mesmo no tempo em que era mantida era fraca, porque, embora desse alguma justificação, não a dava perfeita; ab-rogada *por causa da sua inutilidade*, porque já não é só fraca se mantida, mas até danosa. Verdadeiramente teve fraqueza; no tempo, com efeito, em que a lei era mantida, *nada levou à perfeição*, isto é, nada valeu para levar à perfeição, porque, embora alguns sob ela tenham sido perfeitos, não foi por ela, mas pela fé do que havia de vir. No fato de que a lei se diz "anterior", significa-se que outro devia seguir-se para corrigir a imperfeição da lei. *A ab-rogação, sim, do mandamento anterior; a introdução, porém, de uma melhor*, para mais recomendar, não diz "de mandamento", mas *de esperança*, porque este novo mandamento de Cristo é tal que nele se tem esperança não carnal, mas de glória celeste; *pela qual esperança não só nos aproximamos, mas nos achegamos de Deus.*

Que a lei foi fraca, e que o mandamento de Cristo é a causa pela qual nos achegamos a Deus, é muito para o louvor do novo sacerdote: e quanto isto é, de novo, para a recomendação dele, que *não sem juramento* Jesus foi feito sacerdote; *aqueles*, isto é, os levitas, *foram feitos sacerdotes sem juramento*, como coisa que devia mudar-se; *este*, porém, Jesus, *com juramento* foi feito sacerdote *por aquele*, isto é, por Deus Pai, *que lhe disse*, a Jesus: *Tu és sacerdote para sempre*; e que o teu sacerdócio seja para sempre, *jurou o Senhor, e não se arrependerá*, isto é, não mudará o teu sacerdócio. Diz Davi, sim, que Deus jurou isto; mas onde, ou quando, ou com que palavras jurou isto não diz.

*Quanto* Jesus com juramento, aqueles sem juramento, e quanto por Jesus nos achegamos a Deus, e pela lei ninguém era levado à perfeição, *tanto* Jesus *foi feito fiador*, isto é, firmador e afirmador, *de uma melhor aliança*, isto é, de uma que promete coisas melhores, porque eternas. Como nas promessas, também nesta dignidade que segue, Jesus excede os sacerdotes levíticos: porque *aqueles*, isto é, os sacerdotes levíticos, *foram feitos em maior número*; em maior número porque *a morte os impedia de permanecer* em vida, sobrevindo a morte: este, porém, Cristo, tem sacerdócio sempiterno, *porque permanece para sempre*; donde, porque permanecendo para sempre tem sacerdócio sempiterno, *pode também salvar perpetuamente*, quando consta que os sacerdotes mortais da lei puderam, no tempo do seu sacerdócio, conferir algumas salvações.

Mostrado como pelo sacerdócio de Cristo o sacerdócio antigo e a lei são destruídos, e recomendado bastante o próprio sacerdócio de Cristo, recomenda agora também o ato e a exibição do ofício sacerdotal em Cristo, rebaixando por contrário a operação do sacerdócio antigo, dizendo: Jesus pode salvar perpetuamente; ele, digo, *aproximando-se de Deus*, não por hóstias alheias de animais, mas *por si mesmo*, hóstia viva oferecida no altar da Cruz; Jesus, digo, *vivendo sempre para interceder* ao Pai *por nós*, porque a sua carne vive sempre nos céus para isto, para que, pela sua representação, incessantemente solicite o Pai por nós: digo, aproximando-se por si mesmo; *convinha*, com efeito, e era necessário que tal, e aproximando-se por si mesmo, fosse para nós Pontífice, *santo* em si pela posse das virtudes, *inocente* para com o próximo, e, sendo santo pelo hábito dos bens, *imaculado* também pela ausência dos vícios; nem imaculado de modo a ter sido alguma vez maculado, mas cada dia *separado dos pecadores*, isto é, separado do rebanho dos pecadores; *feito também mais alto que os céus*, isto é, que toda criatura celeste: este Pontífice, tal e tal, *não tem necessidade de oferecer cada dia por si*, como os sacerdotes levíticos têm necessidade de oferecer hóstias, *primeiro interceder por seus pecados, depois pelos pecados do povo.* Não diz "cada dia" como se algum dia seja necessário a Cristo oferecer por si, mas para remover de Cristo o que atribui àqueles que cada dia têm necessidade de oferecer por si. Cristo não tem esta necessidade; *isto*, a saber, oferecer, *fez uma vez*, não porém por si, mas pelos delitos do povo; fez, digo, *oferecendo-se a si mesmo*: e a sua oblação, uma vez feita, foi suficiente a todos para a remissão de todos; por isso não é necessário que seja iterada. Aqueles sacerdotes têm necessidade de oferecer cada dia por si, porque *a lei constitui sacerdotes homens que têm fraqueza* tanto de fragilidade da natureza como de pecado; a lei constituiu tais sacerdotes, mas a palavra do juramento, que foi dita depois da lei dada, por Davi, constituiu sacerdote não homem, mas *o Filho de Deus*, não tendo fraqueza, mas duradouro eternamente e *perfeito.*

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# Capítulo 8

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> O ponto capital do que se está dizendo é: Temos tal Pontífice, que se assentou à direita do trono da Majestade nos céus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor armou e não o homem. Todo pontífice, com efeito, é constituído para oferecer dons e sacrifícios; donde é necessário que também este tenha algo que oferecer. Se, pois, estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, havendo os que oferecem dons segundo a lei, que servem de figura e sombra das coisas celestes; como foi respondido a Moisés, quando ia consumar o tabernáculo: Vê, disse, faze tudo segundo o modelo que te foi mostrado no monte. Agora, porém, alcançou ministério tanto melhor, quanto é mediador de uma melhor aliança, estabelecida sobre melhores promessas. Pois, se aquela primeira fosse sem defeito, não se buscaria lugar para uma segunda. Censurando-os, com efeito, diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, e consumarei sobre a casa de Israel e sobre a casa de Judá uma aliança nova, não segundo a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito; porque eles não permaneceram na minha aliança, e eu os desprezei, diz o Senhor. Pois esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as escreverei nos seus corações; e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará cada um ao seu próximo, e cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles; porque serei propício às suas iniquidades, e já não me lembrarei dos seus pecados. Ao dizer "nova", tornou velha a primeira. E o que se torna antigo e envelhece está perto de desaparecer.

## Comentário

Como se tivesse dito pouco deste sacerdote, abrange agora brevemente a dignidade dele, acima da que abrangeu nas premissas; como se dissesse: muito, sim, disse do louvor deste sacerdote, mas agora farei *o capítulo*, isto é, um breve complexo de muitas coisas, capítulo, digo, *sobre isto*, isto é, superior e mais digno para o louvor de Cristo, contendo, sim, tudo o que se diz nas premissas; este, digo, é o capítulo: *temos tal Pontífice*, que há muito *se assentou* com o Pai repousando e julgando; assentou-se, digo, *à direita*, isto é, na igualdade *do trono da Majestade*, isto é, da Divindade que se assenta; Majestade, com efeito, diz-se o Pai, que, igualmente assentado, repousa e julga; assentou-se, digo, *nos céus*, isto é, ou sobre aqueles céus materiais, ou sobre os Tronos e Dominações: este Pontífice, digo, ali *ministro dos santuários*; nos céus, com efeito, ministra a glória significada pelo Santo dos Santos; *ministro* também ali *do verdadeiro tabernáculo*, isto é, da verdade que o tabernáculo antigo prefigurava, a saber, a justiça na Igreja presente, a glória na futura; tabernáculo verdadeiro que o Senhor *armou* para permanecer eternamente; aquele, porém, sombrio tabernáculo da lei não era armado, mas portátil de lugar em lugar. Diria o judeu: também o tabernáculo legal armou o Senhor por meio do ministro Moisés. Certamente, diz Paulo, mas isto armou o Senhor de modo que não esteve aqui com aquele por cujo ministério armava, mas armou pessoalmente.

Verdadeiramente Cristo é ministro; *pois todo pontífice é constituído para ministrar*, a saber, *para oferecer dons e sacrifícios*: donde, porque todo pontífice é constituído para oferecer, *é necessário que também este* Pontífice Cristo tenha *algo que oferecer*; e, sendo necessário que tenha algo para oferecer, ou isto será sobre a terra, ou celeste: mas não sobre a terra; *se estivesse na terra*, com efeito, *nem sequer seria sacerdote*, quanto menos pontífice; logo, será celeste o que ofereceria. Diz estar sobre a terra tudo o que se oferecesse em coisas carnais e por coisas carnais. Se fosse sobre a terra o que Jesus oferecesse, não só nego que seja pontífice, mas nem sequer seria sacerdote; em vão, com efeito, seria sacerdote em coisas carnais, *havendo muitos sacerdotes que oferecem dons segundo a lei*, isto é, sobre a terra.

Diria ele: muitos há que oferecem, mas, como ninguém pode oferecer assim dignamente, era bom que Jesus oferecesse segundo a lei. E isto remove, dizendo: *havendo os que oferecem segundo a lei e servem de figura*. Diz-se figura (*exemplar*) aquilo à semelhança do qual se faz algo; exemplo, porém, a semelhança que se toma do modelo. Quando Deus chamou Moisés ao monte, ali lhe revelou toda a verdade a cumprir sobre o culto de Deus; mas Deus, com Moisés, entendendo que aquele povo carnal não podia logo apreender as coisas espirituais, disse a Moisés que, conforme a verdade que ali via, fizesse figuras para aquele povo carnal, nas quais o povo pueril fosse nutrido tanto tempo até poder passar da meninice das figuras à maturidade da virtude; e deste modo a verdade antes mostrada foi modelo das figuras feitas à semelhança da verdade antes mostrada. De novo, em outra consideração, as figuras dizem-se modelo da verdade, segundo o cumprimento daquela à semelhança das figuras precedentes, e segundo este modo chama aqui as figuras modelo. Nas passagens seguintes, porém, chama modelo a verdade antes revelada a Moisés no monte, em relação às figuras achadas à semelhança da verdade mostrada. *Servem*, digo, *de figura*, isto é, de figuras, *e sombra*, e porque o modelo às vezes é a verdade e não figura, acrescenta "e sombra", porque aquelas figuras eram modelo, não tendo a verdade mas a sombra da verdade, a ser levemente repelida por Cristo; havendo, digo, os que servem de sombra *das coisas celestes*, cumprindo assim tudo *como foi respondido a Moisés* por Deus, e como aqueles sacerdotes bem cumpriam a lei, em vão Jesus assumiria este sacerdócio; *foi respondido a Moisés*, não quando começava, mas *quando ia consumar o tabernáculo*: algumas figuras, com efeito, pôde achar por si mesmo; mas, como não podia achá-las todas por si, voltou a Deus, para ser ensinado das figuras como da verdade; ao qual o Senhor diz: *Vê*, Moisés, *faze tudo*, isto é, todas as figuras, *segundo o modelo*, isto é, segundo a verdade, *que te foi mostrado no monte.*

Aqueles têm o ministério de servir à figura e sombra; mas Jesus *alcançou ministério melhor*, porque tanto ministra em coisas espirituais como dá as espirituais; alcançou, digo, agora, depois de mostrado que não oferece o que esteja sobre a terra; ministério, digo, *tanto melhor quanto o próprio Jesus é mediador de uma melhor aliança*, isto é, que promete coisas melhores, porque eternas: e não diz "doador", mas *mediador*, porque, médio entre Deus e o homem, recebe de Deus o que dá ao homem. Aliança que foi *estabelecida*, isto é, confirmada, para durar eternamente; estabelecida, digo, *sobre promessas*, isto é, muitas e diversas promessas; *melhores* promessas, digo, como muitas vezes foi dito.

Disse ali: Cristo é doador de uma melhor aliança; e isto prova dizendo: verdadeiramente a aliança de Cristo é melhor que a aliança anterior; *pois aquela primeira aliança não esteve sem defeito*, a de Cristo, porém, está sem defeito; *se aquela primeira aliança estivesse sem defeito*, não se daria a segunda aliança; mas, porque se deu a segunda, aparece que a primeira foi imperfeita e a segunda perfeita; em vão, com efeito, seria destruída a primeira aliança se não fosse imperfeita, e em vão se daria a segunda para correção da primeira imperfeita, se não fosse perfeita. O que assim diz: *se aquela primeira aliança fosse sem defeito*, não diz "se os homens sob ela fossem sem defeito", mas se aquela mesma aliança fosse sem defeito, isto é, vazia de culpa; nisto, com efeito, a própria lei parecia não ser vazia de culpa, porque mandava e não tinha a graça auxiliadora que ministrasse, assim tornando culpáveis todos os legais; se, digo, aquela primeira fosse sem defeito (o mesmo certamente vos digo), *não se buscaria lugar*, isto é, oportunidade, *para uma segunda* aliança a dar. Diz "buscaria" porque Deus, primeiro por Noé, depois pelos Patriarcas, depois pela lei e Profetas, instruindo paulatinamente na lei a rudeza carnal dos homens, buscava lugar em que, instruídos eles para a perfeição, daria oportunamente a aliança espiritual.

Se, digo, a primeira aliança estivesse sem defeito, não se buscaria lugar para a segunda; mas busca-se lugar para a segunda; e isto prova pelo testemunho de Jeremias, que diz: verdadeiramente se busca; *pois o Espírito Santo, censurando-os*, os legais, diz por Jeremias: *Eis que virão dias*, paulatinamente aproximando-se mais e mais — chama dias o tempo de Cristo, porque, vindo Cristo, as trevas foram repelidas e luziu o dia, isto é, o conhecimento da verdade —; e que venham estes dias, não o digo eu, mas *diz o Senhor*: crede-lhe. *E naqueles dias consumarei*, isto é, darei, *uma aliança nova*, que será consumadora da antiga, porque levando à perfeição: como nova, bastante determinará nas passagens seguintes. Consumarei, digo, aquela *sobre a casa de Israel e sobre a casa de Judá.* À letra, por Israel e Judá entendem-se só os judeus, mas, segundo as interpretações das palavras, entende-se todo aquele que vê e confessa a Deus. Divide Israel e Judá porque, depois da morte de Salomão, que teve reino sobre ambos, Roboão seu filho teve só a tribo de Judá e meia tribo de Benjamim, e as outras tribos de Israel, desde aquele dia, afastando-se dele, aderiram a Jeroboão (3Rs 12). Esta aliança nova darei *sobre a casa*, isto é, para que, como que vinda do alto, domine sobre Israel e Judá; e não seja como a lei antiga, serva na mão do sacerdote.

E porque a aliança nova poderia ser nova porque novas coisas terrenas prometesse e preceituasse, determina isto dizendo: *nova* de modo que não seja *segundo aquela aliança que fiz com os seus pais.* E porque a alguns pais, como Abraão, fizera aliança espiritual, por isso, determinando, diz: *que fiz no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito.* Diz "tomei pela mão" por semelhança com quem toma e levanta a mão de quem jaz na lama e é impotente para se levantar por si; assim Deus os tomou, impotentes por si, e os tirou da miséria dos egípcios. Como os censurou, diz agora: eu, sim, tomei-os pela mão; mas *porque eles não permaneceram na minha aliança*, eles me desprezaram; *e eu os desprezei*: e, se digo que fostes desprezados por Deus, não me sejais molestos, porque isto *diz o Senhor.*

Verdadeiramente darei aliança nova, e não segundo aquela que dei aos seus pais; porque *esta é a aliança que eu farei*, isto é, darei ordenadamente, *com a casa de Israel*, isto é, de todos os que veem a Deus, e não agora, mas *depois daqueles dias* determinados; e isto de novo crede, porque assim *diz o Senhor.* *Porei* certamente *as minhas leis na sua mente*, isto é, nas suas inteligências; nem só porei, mas também as escreverei, para que permaneçam eternamente, *nos seus corações*, isto é, nas suas vontades; porque tanto entenderão como por vontade operarão as minhas leis; escreverei, digo, como o que deve sobrar e dominá-los. E depois que tiverem as minhas leis escritas na mente e no coração, *serei o seu Deus*, porque se dirá: verdadeiramente Deus habita nestes, que resplandecem com tantos milagres; *e eles serão o meu povo*, porque se dirá deles: estes são na verdade o povo de Deus.

Esta parte da profecia cumpre-se neste mundo; o que segue resta a cumprir-se no futuro: *eles serão o meu povo*; *e não ensinará cada um ao seu próximo.* Diria alguém: talvez porque não cuidará dele; por isso acrescenta: nem ensinará cada um *ao seu irmão*, a quem muito ama, dizendo: Assim, irmão, *conhece o Senhor.* Por isso um não ensinará ao outro, *porque [todos] me conhecerão, desde o menor até o maior deles*: isto, porém, se cumprirá no dia do juízo, quando também os ímpios confessarão Cristo Filho de Deus. Notam os santos que diz "desde o menor até o maior", e não ao contrário, para mostrar que todos então conhecem perfeitamente a Deus; do menor, com efeito, é impossível ser ensinado o maior.

*E serei o seu Deus*, todos de novo me conhecerão; e tudo isto lhes farei, *porque serei propício às suas iniquidades, e já não me lembrarei dos seus pecados.* Diz iniquidades quando não guardam a equidade para com o próximo; pecados, quando em si mesmos obram mal. Ou, para tomarmos pecado e iniquidade como o mesmo, dizemos assim: diz: serei propício às suas iniquidades; e porque se poderia dizer propiciação se perdoasse sem vingança no presente, por isso acrescenta: serei propício de modo que já não me lembrarei dos seus pecados no futuro. Alguns livros têm "do pecado deles", e segundo esta letra entende-se o original.

A partir deste lugar começa Paulo: disse o Profeta: darei aliança nova; *ao dizer "nova", tornou velha a primeira*, em significação ativa; ou então, envelheceu, isto é, tornou-se velha a primeira aliança, em passiva. E digo bem "tornou velha a primeira", porque *está perto de desaparecer*; o que assim diz: *o que se torna antigo*, como nas coisas inanimadas, *e envelhece*, como nas animadas, tudo isto está perto de desaparecer; a velhice, com efeito, e a antiguidade são prenúncios da morte.

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# Capítulo 9

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Também a primeira aliança tinha regulamentos de culto e um santuário terrestre. Com efeito, foi armado um primeiro tabernáculo, no qual havia o candelabro, a mesa e a exposição dos pães, que se chama o Santo. Depois do véu, porém, o segundo tabernáculo, que se chama Santo dos Santos, tendo o turíbulo de ouro e a arca da aliança, toda revestida de ouro por todos os lados, na qual havia uma urna de ouro contendo o maná, e a vara de Aarão que florescera, e as tábuas da aliança; e sobre ela os Querubins da glória, que cobriam com a sua sombra o propiciatório; das quais coisas não é agora o momento de falar por miúdo. Assim dispostas estas coisas, no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes, cumprindo os ofícios dos sacrifícios; no segundo, porém, uma vez por ano, só o pontífice, e não sem sangue, que oferecia por si mesmo e pelas ignorâncias do povo; significando com isto o Espírito Santo que ainda não estava aberto o caminho do santuário, enquanto o primeiro tabernáculo estava de pé. O que é figura para o tempo presente, segundo a qual se oferecem dons e sacrifícios que não podem tornar perfeito, quanto à consciência, aquele que presta culto, consistindo apenas em alimentos e bebidas, e em várias abluções e regulamentos da carne, impostos até o tempo da reforma. Cristo, porém, tendo vindo como Pontífice dos bens futuros, por um tabernáculo maior e mais perfeito, não feito por mão, isto é, não desta criação, nem pelo sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue entrou uma vez no Santuário, tendo obtido eterna redenção. Pois, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha aspergida santificam os impuros, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! E por isso é mediador de um novo Testamento, para que, intervindo a morte para redenção das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento, os que foram chamados recebam a promessa da herança eterna. Pois onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. O testamento, com efeito, é confirmado pelos mortos; de outro modo ainda não vale, enquanto vive o testador. Por isso nem o primeiro foi inaugurado sem sangue. Pois, tendo Moisés lido a todo o povo todo o mandamento da lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã escarlate e hissopo, e aspergiu o próprio livro e todo o povo, dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus mandou para vós. Também o tabernáculo e todos os vasos do ministério aspergiu igualmente com sangue; e quase tudo, segundo a lei, se purifica com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. É necessário, pois, que as figuras das coisas celestes sejam purificadas por estes meios; as próprias coisas celestes, porém, por sacrifícios melhores que estes. Pois Jesus não entrou num santuário feito por mão, figura dos verdadeiros, mas no próprio céu, para comparecer agora diante da face de Deus por nós. Nem para se oferecer muitas vezes, como o pontífice entra no Santuário cada ano com sangue alheio; de outro modo, deveria ele ter padecido muitas vezes desde a origem do mundo; mas agora, uma vez, na consumação dos séculos, apareceu para destruir o pecado pelo seu sacrifício. E, assim como está estabelecido que os homens morram uma vez, e depois disso o juízo, assim também Cristo foi oferecido uma vez para tirar os pecados de muitos; aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam, para a salvação.

## Comentário

Mas, embora o primeiro testamento esteja perto de desaparecer, contudo *também o primeiro testamento tinha regulamentos*, não verdadeiros, mas segundo o modo do seu culto, isto é, carnais, porque carnal era o culto; *e um santuário*, não espiritual mas *terrestre*, porque pelos homens se julgava haver ali santidade, que contudo não havia. E isto prova: verdadeiramente o primeiro testamento tinha santuário, *pois teve tabernáculo primeiro e segundo*; o que assim diz: *foi armado o primeiro tabernáculo*, no qual primeiro *havia o candelabro.* Embora diga "candelabro" e no plural, era contudo um só candelabro, tendo uma haste no meio, na qual se apoiavam seis braços, três à direita, três à esquerda (Ex 25,32). E havia naquele tabernáculo *a mesa* logo depois da entrada, e sobre esta mesa estava *a exposição dos pães*, isto é, doze pães propostos a Deus pela santificação; dos quais se por acaso alguém fosse consumido por necessidade (este pão santificado era, com efeito, necessário aos sacrifícios), estava preparado igualmente um pão de flor de farinha, que logo era substituído no lugar do tomado: estes doze pães eram postos no sábado; retirados no sábado seguinte, eram repostos outros doze. Este tabernáculo, contendo estas coisas, *chama-se o Santo.* Havia, porém, fora deste tabernáculo, o altar a céu aberto, sobre o qual se imolavam os animais.

*Depois do véu, porém, havia o segundo tabernáculo*; um véu, com efeito, fora interposto, que separava o primeiro tabernáculo do segundo; este segundo tabernáculo *chama-se Santo dos Santos*: o segundo tabernáculo, digo, *tendo o turíbulo de ouro*, e *tendo a arca da aliança*, isto é, que continha o testamento, *revestida* em redor *de ouro*; e porque por fora poderia estar revestida de ouro e não por dentro, por isso acrescenta *toda revestida de ouro por todos os lados*, tanto dentro como fora. *Na qual arca havia uma urna de ouro*, isto é, um gomor feito de ouro, *contendo o maná*, para que tivessem de memória com que pão Deus os alimentara no deserto; e havia na mesma arca *a vara de Aarão que florescera*, isto é, pela qual foi eleito sacerdote; e havia ali *as tábuas da aliança*, em que estava escrita a lei. *E sobre a arca estavam os Querubins*, isto é, dois Anjos; Querubins, digo, *da glória*, isto é, gloriosamente decorados; e aqueles Querubins *cobriam com a sua sombra o propiciatório.* Havia sobre a arca uma tábua que se chamava propiciatório, porque entre os dois Querubins, sobre a mesma tábua fixada, costumava aparecer o Anjo que dava os oráculos divinos. E neste segundo tabernáculo estava o altar do incenso. No templo, porém, havia dois tabernáculos, que um véu interposto dividia. Havia no primeiro tabernáculo, junto da entrada, a mesa, e sobre ela doze pães, e sobre cada um deles incenso; havia também o candelabro de cada parte com três braços coerentes ao tronco do meio, nos quais braços havia pequenas esferas; depois das esferas, lírios; depois deles, taças.

O primeiro tabernáculo, pois, significa a Igreja dos fiéis que está no mundo, na qual os ministros da Igreja oferecem cada dia orações e sacrifícios. A mesa no templo, junto à porta, entende-se a Escritura divina, que se ministra aos que entram na Igreja pela fé, segundo a sua capacidade. Os doze pães são os doze Apóstolos, de cuja doutrina os fiéis se reconfortam na Igreja: o que, porém, sobrevindo alguma necessidade, alguém tomava dos pães e outro era substituído no lugar daquele, significa que, tirado do mundo algum dos Apóstolos ou dos seus sucessores, outro que faça as suas vezes deve ser substituído no lugar dele: pães que todos se consomem no sábado; porque, depois que se chegar ao repouso da verdadeira glória no dia do juízo, já nenhum ofício de bispo ou cuidado eclesiástico será exercido. Estes pães dizem-se de flor de farinha, porque nos Apóstolos nada houve senão pureza de inocência e perfeição das virtudes, nem nos seus sucessores deve haver; o incenso, porém, posto por cima, cujo odor é jucundo, são as orações deles, que são aceitáveis a Deus e jucundas e úteis aos seus súditos.

A haste do candelabro, à qual aderiam três braços à direita e outros tantos à esquerda, é Cristo, a quem, como a firme tronco, aderem tanto os fiéis da Igreja antiga como da nova, e tudo o que são ou foram o têm dele; os três ramos, com efeito, que estão à direita, mostram as três ordens dos fiéis desta Igreja, que é mais digna que a antiga; tens estes no Evangelho, onde se diz: Dois estarão no leito; um será tomado, o outro deixado: dois no campo; um será tomado, o outro deixado; dois no moinho; um será tomado, e o outro deixado (Lc 17,34-35). Dois no leito, os continentes; destes serão deixados os que, abstendo-se ou por favor do mundo, ou por Deus, contudo desfalecem; os que, porém, o fazem por Cristo e perseveram, serão tomados à glória: dois no campo, são os que trabalham na Igreja, que é o campo de Deus; dos quais (como se disse dos outros) alguns serão tomados à glória, alguns deixados à pena: dois no moinho demonstram os possuidores deste século, permanecendo na volubilidade das coisas mundanas, que trabalham para que o marido agrade à mulher e a mulher ao marido; destes serão deixados aqueles que a deleitação do próprio mundo arrasta aos crimes e à perdição; serão, porém, tomados os que não caem em crimes e do dinheiro da iniquidade fazem para si amigos (Lc 16,9). Aqueles três ramos que aderem à parte esquerda mostram as três ordens dos fiéis sob a antiga; tens-as por Daniel, por Noé, por Jó: Daniel, com efeito, que viveu castamente, mostra os continentes sob a lei antiga; Noé, fabricador e artífice da arca do Senhor, pré-assinalou os doutores da lei; Jó, que esteve no matrimônio e na posse das coisas, demonstra os que no matrimônio e nas coisas mundanas agradaram a Deus.

Em todos estes ramos havia esferas, porque em todos havia a redondeza da perfeição e a igualdade da justiça. A estas esferas seguiam-se lírios, porque depois que alguém é perfeito se torna odor grato a Deus e, na Igreja, olente pelo exemplo das boas obras. Depois dos lírios sucedem as taças, porque, quando alguém é provado perfeito e pelo exemplo da boa operação é reconhecido como lírio pelo seu odor, resta que se faça pregador e propinador da doutrina católica aos que dela carecem; o qual, feito tal pela operação e doutrina, tanto a si mesmo acende com o fogo da caridade como mostra aos outros a luz nas trevas.

O segundo tabernáculo, porém, era dividido do primeiro pela interposição do véu, no qual só o pontífice e uma vez por ano entrava com sangue. Aquele tabernáculo é a Igreja celeste; ele, porém, é coberto por um véu; porque, enquanto estamos nesta carne ainda mortal ou Igreja, que e quão grandes coisas Deus prepara aos seus não podemos conhecer, pela cegueira da ignorância. O pontífice, que uma vez por ano e com sangue entrava, é Cristo, que, na perfeição dos tempos, oferecendo uma vez o seu sangue, iniciou para nós o caminho da pátria celeste. Que a própria hóstia fosse reiterada cada ano mostrava a imperfeição da própria hóstia, e da sua mesma iteração mandava esperar outra hóstia, que não conviesse iterar. O turíbulo de ouro é Cristo, que, por ter tido perfeita sabedoria das coisas mundanas e das celestes, com razão se diz ter sido de ouro; por ter estado cheio do fogo da caridade para com Deus e o próximo, e ter derramado a Deus pelo mundo o jucundo odor das orações, com razão se assemelha ao turíbulo que contém o fogo e emite para o alto o odor do incenso. O mesmo é também a arca da aliança, isto é, em que se reservava a aliança e se ocultava; porque na Sabedoria do Pai, com a qual ele mesmo era pessoalmente, os preceitos da lei antiga e da nova estavam ocultos e já dependiam da sua disposição; ele, que os fecha e ninguém abre, abre e ninguém fecha (Ap 3,7). Esta arca estava revestida de ouro por todos os lados, tanto por dentro como por fora, porque ele resplandeceu, na alma e no corpo, pela consumação de todas as virtudes, e nenhuma justiça lhe faltou. Nesta arca havia uma urna de ouro, porque no corpo de Cristo havia a verdadeira alma humana, e essa cheia de toda virtude e perfeita sabedoria: na urna estava o maná escondido, porque na alma de Cristo está a própria Divindade, que é pão e refeição dos Anjos. Havia também na arca a vara de Aarão e as tábuas da Aliança: a vara de Aarão significou o verdadeiro sacerdócio; as tábuas da Aliança são os corações daqueles em quem os preceitos da lei se assentam e repousam. Estão, pois, na arca a vara de Aarão e as tábuas da Aliança, porque em Cristo está o verdadeiro sacerdócio e cada fiel; donde diz no Evangelho: «Permanecei em mim, e eu em vós» (Jo 15,4).

Sobre a arca estava a tábua que se chamava propiciatório, na qual Deus, aparecendo por um Anjo, se tornava propício aos pecados deles. Sobre o propiciatório, dois Querubins sempre com o rosto inclinado a olhá-lo, e com a conjunção das suas asas estendidas por cima o cobrindo com sombra. O mesmo Cristo é propiciatório, enquanto dele pedimos o que queremos, e com a sua misericórdia se torna propício aos nossos pecados. Sobre ele estão dois Querubins, porque também as virtudes mais altas dos céus se apoiam nele e têm nele o firmamento da sua estabilidade. Os mesmos Querubins olham sempre o propiciatório, mas por cima o cobrem com sombra, porque as virtudes celestes contemplam sempre a misericórdia de Deus, mas, quanto mais intensamente o olham, tanto mais obscuro e mais ignoto se torna, porque a misericórdia do Senhor é abismo profundo.

Na arca, porém, havia quatro anéis, nos quais se metiam varais, e assim a arca era levada aonde a coisa requeria. Os quatro anéis são os quatro Evangelhos; os varais, os santos pregadores, que, metidos na doutrina do Evangelho, levam Cristo e a sua fé aonde Deus quer e preordena. O fato de ter sido feita de madeira de setim, que é imputrescível, pré-assinalou que o corpo de Cristo, depois da Paixão, seria imortal e impassível. Estas coisas estão no primeiro e no segundo tabernáculo; *das quais não é agora o momento de falar por miúdo*, indo a interpretar cada uma delas. De cada uma, sim, não se deve falar, mas destas coisas assim dispostas deve dizer-se isto, a saber, que *no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes, cumprindo os ofícios dos sacrifícios*, isto é, aperfeiçoando os sacrifícios segundo o rito do seu ofício: no primeiro sempre, mas *no segundo tabernáculo entrava uma vez por ano só o pontífice, e não sem sangue*; tomado o qual do animal imolado fora, tingia com ele os cornos do altar do incenso; sangue que o sacerdote *oferece por si mesmo e pelas ignorâncias do povo* a perdoar; *significando com isto o Espírito Santo*, pelo fato de no primeiro entrarem todos, no segundo ninguém além do só pontífice, *que ainda não estava aberto o caminho do santuário*, isto é, que os santos não podiam entrar nos céus, caminho que lhes havia de ser aberto em Cristo, com a sua ressurreição: e ainda quando não estava aberto o caminho dos santos, mas Abraão e todos os santos eram mantidos nas trevas, então, digo, *estando o primeiro tabernáculo de pé*; até que, com efeito, foi aberto o caminho dos santos, celebrando Cristo a nova Páscoa, a lei antiga teve o seu estado por Deus.

*O que tudo é figura para o tempo presente* de todo o primeiro e verdadeiro tabernáculo, isto é, figura pertencente a este tempo que agora está iminente, porque tudo o que ali foi figurado agora foi cumprido em Cristo — no primeiro tabernáculo entravam sempre os sacerdotes consumando os sacrifícios, porque na Igreja presente entramos cada dia consumando o sacrifício espiritual de Cristo; no segundo tabernáculo o pontífice entrava uma vez por ano, porque Cristo, verdadeiro Pontífice, entrou na Igreja celeste uma vez, não voltando mais da glória; que o sacerdote reiterasse cada ano a entrada daquele segundo tabernáculo, esperava que o verdadeiro Pontífice Cristo ainda não entrara no seu tabernáculo nos céus, mas ainda havia de entrar: o pontífice legal não entrava sem sangue, porque Cristo não penetrou os céus senão derramando primeiro o seu sangue em redenção de todos; sangue que Cristo ofereceu, não por sua, mas pela ignorância de todo o povo a apagar —: *segundo a qual figura* se oferecem na lei antiga dons, isto é, as oblações menores; oferecem-se também sacrifícios de animais. Assim, nesta Igreja presente, os nossos dons são as orações em odor de suavidade a Deus, e os sacrifícios são os que são imolados por Cristo, como Lourenço, também os que se imolam a si mesmos com jejuns, vigílias e múltiplas aflições. Estes dons e sacrifícios, na lei antiga, *não podem tornar perfeito* aquele que presta culto nestas coisas; e, se é perfeito segundo a reputação dos homens, não é contudo perfeito *quanto à sua consciência*, porque a consciência lhe sussurra continuamente que se fez réu de crime e não foi purificado pelas coisas legais: nem é de admirar que não seja perfeito; porque *presta culto*, digo, *apenas em alimentos e bebidas*, porque come e bebe copiosamente; *e em várias abluções*, isto é, lavagens feitas segundo os ritos legais; prestando culto também em *regulamentos*, mas *da carne*, porque carnais são aqueles regulamentos, que livram o corpo da pena da lei, mas deixam a alma nos vínculos do pecado; regulamentos da carne, digo, *impostos* para durarem *até o tempo da reforma*, isto é, até Cristo, na perfeição do testamento por quem se corrigiria a imperfeição do antigo.

Os dons e sacrifícios legais a ninguém podem tornar perfeito, mas *Cristo obteve eterna redenção*, o que é dizer: Cristo faz perfeito. Mas por que meio obteve a eterna redenção antepõe, dizendo: *Cristo, tendo vindo*; não determina a quem vem; e podemos dizer: Cristo, vindo ao Pai, interpelando sempre por nós pela sua representação, ou então, Cristo, vindo por nós, erguendo a nossa fraqueza às coisas celestes, estendendo-nos a mão do auxílio; Cristo, digo, vindo como *Pontífice* não das coisas carnais, mas *dos bens futuros*, isto é, celestes, ou então, dos bens futuros, isto é, da justiça presente e da bem-aventurança eterna, que todos no tempo da lei eram futuros: Cristo, digo, tal Pontífice *entrou no tabernáculo* — pelo nome do significante designa o significado —, tabernáculo, digo, *maior*, porque, se aquele antigo comportava mil ou muitos milhares de homens, o tabernáculo celeste é ainda maior, comportando largamente a infinidade de todos os que nele entram; tabernáculo *mais perfeito*, porque naquele tabernáculo se recebe a perfeição de toda a bem-aventurança, no tabernáculo legal havia por toda parte imperfeição; tabernáculo, digo, *não feito por mão*; e para que ninguém tomasse isto perversamente, julgando que não foi feito por mão, isto é, pela operação de Deus, determina, dizendo: o que digo, "não feito por mão", é dizer: aquele tabernáculo não é *desta criação*, isto é, humana, como o antigo, no qual as mulheres teciam cortinas, os ferreiros trabalhavam em seu gênero, e igualmente os demais artífices. Entrou, sim, neste tabernáculo, *nem pelo sangue de bodes e de bezerros* derramado, o que convinha fazer-se na entrada do segundo tabernáculo, mas entrou, *pelo seu próprio sangue* derramado, no tabernáculo celeste, a saber, no Santo dos Santos: entrou certamente *uma vez*, e por sangue derramado uma vez — pois dizer que entrou uma vez e derramou o sangue uma vez significa a perfeição daquele sacrifício, que não convinha iterar; que o sacrifício antigo tantas vezes o iterassem, significava que nele não estava, nem ainda tinha vindo, a perfeição —; *entrou no Santuário, tendo obtido redenção*; não determina por quem obtida, se por si, se por outro, e ambas as coisas podemos dizer: redenção obtida por Cristo, porque este Pontífice, no seu sacrifício, obteve a redenção dos homens dos pecados, em cuja obtenção os pontífices legais sempre falharam; ou então, redenção obtida por nós; nós, com efeito, em Cristo obtivemos a nossa redenção; redenção, digo, *eterna*, porque aos que redime faz eternos.

Prova-o a partir do menor, dizendo: verdadeiramente pelo sangue de Cristo se obteve a redenção; porque *se o sangue de bodes e de touros, e a cinza de uma novilha queimada, aspergida* sobre o povo, *santifica os impuros*, isto é, purifica as poluções dos pecados, santifica, digo, valendo *para a purificação*, certamente não da alma, mas só *da carne*, porque livra a carne da pena da lei, a alma permanece poluída; se, digo, o sangue daqueles animais de algum modo santifica, *quanto mais o sangue de Cristo purificará a nós?* Cristo, que ofereceu não um bode, não um touro, mas *a si mesmo a Deus*; a si, digo, *imaculado*, o que nenhum sacrifício pôde ser na lei; imaculado, digo, *pelo Espírito Santo* a ele unido no útero da mãe, de quem foi concebido, feito por isto imune de pecado; ou então, ofereceu-se pelo Espírito Santo, que lhe ditava que obedecesse ao Pai em toda a paciência: quanto mais, digo, o sangue de Cristo purificará, não digo a carne, mas também *a nossa consciência*, de modo que nem sobrará de que a consciência tema; purificará certamente *das obras mortas*, isto é, dos pecados que operam a morte, *para servirmos* — estas duas coisas, com efeito, o sangue de Cristo efetua em nós: tanto purifica dos pecados como restitui a virtude do livre-arbítrio, para que possa servir a Deus —; *ao Deus vivo* (posto como causa), porque aos que o servem dará a vida eterna.

*Ofereceu-se a si mesmo*: e é Mediador, isto é, doador do novo Testamento, médio entre Deus, de quem recebe, e o homem, a quem dá; por isso doador do Testamento novo, *para que*, intervindo a morte dele, isto é, vindo no meio entre a disposição e o cumprimento do Testamento, morte, digo, necessária *para a redenção*, não digo dos gentios, de quem consta, mas *das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento*; aquela lei primeira, com efeito, mandando, acrescentava prevaricações, das quais de modo algum podia libertar: para que, digo, intervindo a morte, *recebam a promessa da herança eterna*, isto é, a herança eterna frequentemente a eles prometida; recebam, não todos, mas *os que foram chamados* por Deus, eleitos desde a eternidade. Depois que Cristo dispôs o novo Testamento, foi necessário que, para a confirmação desse Testamento, morresse; tanto porque, se preso pelos judeus negasse o que antes dissera, e, por afirmação deles, recusasse padecer, pensariam os discípulos que Cristo não entendera serem verdadeiras as coisas que ensinara, ao negá-las por temor da morte; além disso, era preciso morrer para que, ressurgindo da morte, consumasse o que predisse que cumpriria, a saber, a redenção de Israel.

A novilha de que falamos acima era ruiva, trazendo o tipo do sangue de Cristo, e toda era queimada reduzida a cinza, para ser holocausto ao Senhor; cuja cinza era aspergida com água: assim Cristo, triturado por muitas tribulações, e finalmente pela morte como que reduzido a cinza. A cinza da novilha, que era lançada sobre os homens, significa a memória da contrição de Cristo, que deve sempre ser inculcada aos homens. Assim, irmão, lembra-te de que Cristo padeceu e foi triturado por ti, e pecando não o provoques. Se a cinza da novilha purificava a carne, muito mais dignamente a cinza de Cristo purifica a alma.

Disse acima que Cristo é doador do novo Testamento intervindo a morte; agora, que lhe convinha morrer para a confirmação do novo Testamento, aprova-o pelo costume da lei humana; como se alguém dissesse: que necessidade houve de que, para a confirmação do Testamento novo, interviesse a morte de Cristo? Convinha certamente, diz Paulo, que desse o Testamento intervindo a morte; porque, onde quer que se faça testamento nas leis humanas, é necessário que *intervenha*, isto é, venha no meio entre a disposição do testamento e o cumprimento, *a morte do testador*, isto é, de quem faz o testamento. Por isso é necessário que intervenha a morte do testador, *porque todo testamento é confirmado pelos testadores mortos*, isto é, pela morte dos que dispõem os testamentos; *de outro modo*, isto é, se for de outro modo, de modo que a morte do testador não intervenha, *ainda não vale* o testamento disposto, *enquanto* (isto é, durante o tempo em que) *vive o testador*; se o testador, com efeito, escapa à morte, de novo, se lhe aprouver, mudará o testamento.

*Por isso*, porque todo testamento é confirmado por sangue e morte, *nem o primeiro testamento foi inaugurado*, isto é, confirmado, *sem sangue*: certamente não foi inaugurado sem sangue; *tendo sido lido, com efeito, todo o mandamento da lei* — todo, porque, se omitisse alguns, pareceria reprovar os omitidos e confirmar apenas os lidos —; lido, digo, todo o mandamento por Moisés, o mesmo Moisés, com efeito, leu, *a todo o povo* que ouvia: então Moisés, depois que lera, *tomando o sangue dos bezerros e dos bodes*, misturado *com água*, tomada também *lã escarlate e hissopo* de que se faz o aspersório, *aspergiu o próprio livro e todo o povo* com sangue, *dizendo* assim: *Este é o sangue* com que vos asperjo *do testamento*, isto é, para confirmar o testamento *que Deus mandou para vós.* Como o livro, assim também *o tabernáculo e todos os vasos do ministério aspergiu igualmente* com o mesmo sangue: *e quase tudo*, diz Paulo, segundo a lei antiga *se purifica com sangue*; e o que quer que seja dos demais, *a remissão do pecado não se dá na lei antiga sem derramamento de sangue*, isto é, nenhum pecado se remitia a não ser que se imolasse algum animal em sacrifício.

Igualmente Cristo, que é significado por Moisés, lido todo o mandamento da sua lei nova na ceia, ouvindo todo o povo dos discípulos; depois que leu tudo, Jesus, *tomando o sangue dos bezerros e dos bodes*, isto é, o próprio sangue — Cristo diz-se bezerro por causa da virtude da Cruz, com cujos cornos desbaratou os ímpios; Cristo foi dito também bode por causa da semelhança da carne do pecado, e porque foi hóstia pelo pecado, enquanto levou os nossos pecados sobre o lenho —; tomando, digo, Cristo o seu sangue *com água* que saiu do seu lado na Cruz, pela água santificando o batismo, pelo preço do sangue remindo-nos dos pecados: tomando-o *com lã escarlate*, cor ígnea, *e hissopo*: a lã significa a caridade de Cristo, e que fosse escarlate semelhante ao fogo, o fervor da dileção de Cristo; o hissopo, que vale para expulsar o tumor do pulmão, a humildade de Cristo, que por fervor de dileção e humildade derramou o seu sangue pela nossa redenção. *O próprio livro*, isto é, o seu Evangelho, que confirmou intervindo a morte, *e todo o povo* dos fiéis *aspergiu*, isto é, santificou com o seu sangue, dizendo: este é o sangue que afirma o novo Testamento, *Testamento que Deus mandou para vós.* Aqui Moisés muito fielmente provou, dizendo as mesmas palavras que Cristo, quando depois da ceia entregou o cálice do seu Sangue dizendo: Este cálice é o novo Testamento no meu sangue. Aspergiu o livro, aspergiu também o tabernáculo igualmente com sangue: pela mesma alegoria entende-se por tabernáculo a Igreja de Cristo remida pelo seu sangue, que acima se entendia por todo o povo. *Aspergiu também todos os vasos do ministério*, porque Cristo remiu com o seu sangue os doutores da Igreja, nos quais se contêm os seus ministérios, e aos remidos deu o Espírito de sabedoria e ciência. *E tudo*, segundo a lei de Cristo, *se purifica no seu sangue* ("quase" nada tem na alegoria); *e sem derramamento do sangue de Cristo não se dá remissão* de qualquer pecado.

E porque tudo convém purificar-se no sangue, e sem derramamento de sangue nenhuma remissão se dá, *portanto é necessário que as figuras das coisas celestes*, isto é, as legais, que são figura das espirituais, *sejam purificadas por estes meios* acima ditos, a saber, de bezerros e bodes: as figuras das verdadeiras foi necessário purificá-las com estas hóstias; *as próprias coisas celestes*, porém, de que estas eram figura, foi necessário purificá-las *com sacrifícios melhores que estes* acima ditos, bode e bezerro.

E verdadeiramente foi melhor o sacrifício com que foram purificadas as coisas celestes, *pois Jesus*; e verdadeiramente estas são celestes, *pois não feitas por mão*, etc., o que assim diz: Jesus entrou não permanecendo nos santuários feitos por mão, que santuários feitos por mão foram, sim, figuras dos verdadeiros, mas entrou *no próprio céu.* Entrou para que *agora*, depois de mostrado serem inúteis os santuários feitos por mão, *compareça diante da face*, isto é, do beneplácito *de Deus por nós*, a introduzir conosco no céu. Entrou, sim, no céu, mas nem assim entrou que, muitas vezes de lá voltando, de novo se ofereça a si mesmo, como se o seu sacrifício, uma vez tirado, não bastasse a todos e em todo tempo; *nem para se oferecer muitas vezes*, como o pontífice legal *cada ano*, porque não basta, iterando o seu sacrifício, entra *no Santo dos Santos*; não com o seu, como Cristo, mas *com sangue alheio*; por isso, porque é sangue alheio, não pode justificar: nisto mostra tanto o seu sacrifício suficiente como o legal insuficiente.

*De outro modo*, isto é, se de outro modo queres dizer, que Cristo deva oferecer-se muitas vezes, então sem dúvida (se assim é) *deveria ter padecido muitas vezes, começando da origem do mundo*; se, com efeito, só aos que existiram em seu tempo aproveitou a sua Paixão, e a cada idade futura convenha que padeça iteradamente; então era necessário que, começando dos dias de Abel, em cada idade levasse uma cruz, ou Abraão e os demais santos não serão remidos. Assim certamente convinha; mas *agora*, depois de mostrado que daí se segue tão grande inconveniente, deve dizer-se que Cristo apareceu *uma vez* na consumação dos séculos — o tempo de Cristo diz-se consumação, porque Cristo consumou tudo o que dele fora predito; e, não havendo antes em nada consumação, isto é, verdadeira perfeição, ele trouxe a perfeição de tudo —; apareceu, digo, *para a destruição do pecado pelo seu sacrifício*, não alheio, mas seu.

Porque destruiu plenamente o pecado, não convém que Cristo padeça de novo; por isso também não deve morrer outra vez, porque os demais homens morrem uma só vez; *e, assim como está estabelecido que os homens morram uma vez, e depois disso o juízo*, resta deles o juízo depois de mortos; *assim também Cristo foi oferecido* a Deus *uma vez* pela morte *para tirar*, isto é, esvaziar, *os pecados de muitos.* Neste fato de ter morrido uma só vez, é semelhante ao homem; mas neste fato de que o homem morre para ser julgado, Cristo é dessemelhante, pois julga; o que assim diz: na segunda vinda, vindo ao juízo, *aparecerá Cristo sem pecado*, isto é, não em semelhança da carne do pecado, mas glorificada pela claridade da imortalidade e impassibilidade; ou então, aparecerá sem pecado, isto é, não vindo para, como antes, de novo se fazer hóstia pelo pecado: aparecerá certamente *para a salvação*, não dos ímpios, mas *dos que o esperam* em justiça e temor.

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# Capítulo 10

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> Pois a lei, tendo a sombra dos bens futuros e não a própria imagem das coisas, nunca pode tornar perfeitos, pelas mesmas hóstias que cada ano oferecem sem cessar, os que se aproximam; de outro modo, teriam deixado de ser oferecidas, porque os adoradores, uma vez purificados, já não teriam consciência de pecado; mas nelas se faz cada ano a lembrança dos pecados. Pois é impossível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados. Por isso, ao entrar no mundo, diz: Sacrifício e oblação não quiseste; mas um corpo me preparaste; os holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis que venho; no princípio do livro está escrito de mim: Para fazer, ó Deus, a tua vontade. Dizendo acima que não quiseste sacrifícios, oblações e holocaustos pelo pecado, nem te agradaram os que se oferecem segundo a lei; então disse: Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade; tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Nesta vontade somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. E todo sacerdote está presente cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes as mesmas hóstias, que nunca podem tirar os pecados; este, porém, tendo oferecido uma só hóstia pelos pecados, está sentado para sempre à direita de Deus, esperando daí por diante até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés. Com uma só oblação, com efeito, consumou para sempre os santificados. Dá-nos testemunho também o Espírito Santo. Pois, depois de dizer: Esta é a aliança que farei com eles depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis nos seus corações e as escreverei nas suas mentes; e já não me lembrarei mais dos seus pecados e iniquidades. Ora, onde há remissão destas coisas, já não há oblação pelo pecado. Tendo, pois, irmãos, confiança de entrar no Santuário pelo sangue de Cristo, pelo caminho novo e vivo que ele inaugurou para nós através do véu, isto é, da sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos com coração sincero, em plenitude de fé, aspergidos os corações de má consciência e lavado o corpo com água pura, mantenhamos firme a confissão da nossa esperança (pois fiel é aquele que prometeu), e consideremo-nos uns aos outros para estímulo da caridade e das boas obras; não abandonando a nossa assembleia, como é costume de alguns, mas exortando-nos, e tanto mais quanto vedes aproximar-se o dia. Pois, se pecarmos voluntariamente depois de ter recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas uma terrível expectativa de juízo e o ardor de um fogo que há de devorar os adversários. Quem viola a lei de Moisés morre sem misericórdia, pelo testemunho de duas ou três testemunhas; quanto mais pensais que merecerá piores suplícios aquele que pisou o Filho de Deus, e considerou profano o sangue da aliança com que foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Pois conhecemos aquele que disse: A mim a vingança, eu retribuirei. E de novo: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Lembrai-vos, porém, dos dias passados, nos quais, depois de iluminados, sustentastes grande combate de sofrimentos: de um lado, expostos como espetáculo por opróbrios e tribulações; de outro, feitos companheiros dos que assim viviam. Pois compadecestes-vos também dos presos, e aceitastes com alegria o saque dos vossos bens, sabendo que tendes melhor e permanente riqueza. Não percais, pois, a vossa confiança, que tem grande recompensa. Com efeito, necessitais de paciência, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Pois ainda um pouco, bem pouco, e aquele que há de vir virá, e não tardará. O meu justo, porém, vive da fé; e, se ele recuar, não agradará à minha alma. Nós, porém, não somos filhos do recuo para a perdição, mas da fé para a salvação da alma.

## Comentário

Cristo foi oferecido para tirar os pecados porque a lei não pode tornar perfeitos, a saber, não pode tirar os pecados. E por que a lei não pode tornar perfeitos antepõe, dizendo: *a lei, tendo a sombra dos bens futuros*, isto é, da justiça futura na Igreja presente e da salvação na futura; tendo de tal modo a sombra que *nem a própria imagem das coisas*, isto é, que nem tem em si alguma parte da verdade — a imagem, com efeito, mostra ao menos as figuras dos membros, uma a uma, a sombra, porém, tudo confusamente mistura —; a lei, digo, tendo a sombra, *pelas mesmas hóstias* que sempre eram as mesmas, isto é, imperfeitas, *hóstias que oferecem cada ano*, e isto *sem cessar*, isto é, ou cada mês, ou cada semana; a lei, digo, com as mesmas hóstias tantas vezes repetidas, *nunca pode tornar perfeitos os que se aproximam* dela.

Que não torna perfeitos prova-o por isto, que, se agora imolassem por algum pecado e segundo a lei fossem dele absolvidos, se de novo pecassem e por novo pecado de novo imolassem, o sacerdote fazia memória do pecado anterior, pelo qual já imolara, mostrando a imperfeição daquele sacrifício, pelo qual, se fosse justificado, em vão recapitularia o pecado antigo; o que assim diz: *de outro modo*, isto é, se as hóstias da lei tornassem perfeitos, sem dúvida *teriam deixado de ser oferecidas* aquelas hóstias pelos pecados passados; *porque os adoradores*, purificados uma vez, imolada a hóstia, *já não teriam consciência alguma do pecado passado.* Teriam deixado de ser oferecidas, sim; mas não deixavam de ser oferecidas as hóstias pelos passados: *nelas*, com efeito, nas hóstias oferecidas cada ano pelas culpas recentes, *faz-se cada ano a lembrança* dos pecados passados; logo, aquelas hóstias não podem tornar perfeitos. E é necessário que cada ano se faça a lembrança dos passados; *porque é impossível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados.*

Por isso, porque pelo sangue de touros e bodes os pecados não podem ser tirados, *por isso, ao entrar no mundo*, isto é, o Profeta introduzindo o Filho de Deus entrando no mundo pela assunção da carne, *diz*, na voz do Filho ao Pai: Ó Senhor Pai, tu *não quiseste sacrifício e oblação* segundo a tradição legal — diz sacrifícios de animais, oblação de pães e luminárias —; aquilo, sim, não quiseste, mas *me preparaste um corpo*, isto é, quiseste preparar-me um corpo, para que do meu corpo se te fizesse hóstia agradável e pura. Diz-se que o corpo de Cristo foi preparado, porque foi imune de pecado e passível e mortal; se não fosse sem pecado, com efeito, não poderia ser hóstia pura; se se fizesse impassível e imortal, não destruiria a morte, que, imortal, não poderia provar a morte: mas, porque foi imune de pecado, passível e mortal, por isso congruentemente diz: *um corpo me preparaste.* Sacrifício e oblação não quiseste; *holocaustos* também, isto é, sacrifício totalmente incendiado, *pelo pecado*, isto é, a hóstia que se chamava pecado ou pelo pecado; estas coisas, digo, *não te agradaram*: e então, depois que vi que isto te desagradava, para que uma hóstia pura e agradável te fosse oferecida, *disse*, isto é, deliberei comigo: *Eis que venho* oportunamente, porque agora, reprovadas aquelas coisas legais, serei hóstia nova e agradável a Deus; venho *para fazer a tua vontade*, isto é, para segundo a medida da tua vontade oferecer-te a mim mesmo sacrifício novo em odor de suavidade.

Que assim devamos construir, "venho para fazer", o mesmo ensina nas passagens seguintes: *para fazer a tua vontade*; *assim, com efeito, está escrito de mim no princípio do livro*: livro diz-se Cristo homem, que foi exposto a todos como exemplo de justiça; princípio do livro diz-se a Divindade que habita em Cristo, que o rege em toda perfeição. Ou, no princípio do livro, isto é, no princípio do Gênesis<sup>[1]</sup> ou do Saltério está escrito: na lei do Senhor está a sua vontade, etc.

Paulo expõe como se deva entender a autoridade premissada: assim o Profeta na voz do Filho, *dizendo acima* (em relação à parte superior, diz "acima"), dizendo, digo, isto: que tu, Pai, *não quiseste oblações e holocaustos e pelo pecado*, isto é, não pediste que se te fizessem, e ainda que os façam sem ordem, não te são agradáveis. Diria alguém talvez: por isso não agradam, porque não se fazem ordenadamente segundo a lei. Para remover isto diz: *não te agradaram as coisas que se oferecem segundo a lei*, isto é, ainda que se façam segundo a instituição da lei. *Então*, reprovadas as hóstias legais, disse: *Eis que venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade*; estas coisas, digo, dizendo, nestas palavras *tira o primeiro* Testamento, de modo a *estabelecer*, isto é, firmar para durar perpetuamente, *o segundo*, a saber, o Testamento novo: *nesta vontade*, isto é, neste novo Testamento constituído por vontade de Deus, *somos santificados* pela posição das virtudes, depois da purificação dos males; santificados, digo, *pela oblação do corpo de Jesus Cristo*, isto é, pelo corpo de Cristo oferecido *uma vez*, oblação que, feita uma só vez, foi suficiente para a purificação de todas as manchas.

Objetaria alguém: o sacrifício do pontífice era insuficiente porque se fazia só uma vez por ano; mas os sacrifícios quotidianos aproveitavam para tirar os pecados. Para remover isto diz: assim como o pontífice, feito o sacrifício uma vez, não podia tirar os pecados, assim também *todo sacerdote* legal *está presente cada dia, ministrando*; e ele, *oferecendo muitas vezes as mesmas hóstias*, ontem um bode, hoje de novo um bode; porque, como não aproveitou ontem, assim nem hoje; oferecendo, digo, as mesmas hóstias, *que nunca podem tirar os pecados.* O pontífice ou qualquer sacerdote legal, repetindo hóstias, não pode tirar os pecados, mas *este Pontífice* Cristo, *oferecendo uma só hóstia pelos pecados* de todos, não repetida, *está sentado*, isto é, repousa e reina, posto *à direita*, isto é, na igualdade de Deus Pai, para estar ali sentado *para sempre*; nem para voltar para de novo oferecer, como se a sua hóstia tivesse sido insuficiente, mas *daí por diante*, isto é, para o futuro, esperando ali à direita de Deus *até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés*, isto é, sejam sujeitos a ele por todo modo de sujeição, o que será no dia do juízo. Oferecendo uma só hóstia; por isso uma só, porque *com uma só oblação santificou*, e *consumou* os santificados na perfeição das virtudes, para permanecerem para sempre.

Nós dizemos, sim, que Cristo consumou os santificados com uma só oblação; nisto, porém, *dá-nos testemunho*, isto é, confirma-nos, afirmando o mesmo conosco, também o Espírito Santo; porque, depois de dizer em Jeremias (31,33): *Esta é a aliança que farei com eles*; e isto diz o Senhor: depois daqueles dias darei as minhas leis nos seus corações e as escreverei na sua mente. Depois de dizer isto, acrescentou o Espírito Santo: *e já não me lembrarei mais dos seus pecados [e] iniquidades.* Nestas palavras testemunha o Espírito Santo que uma só oblação consumou os santificados; porque *onde há remissão dos pecados, já não é necessária oblação pelo pecado.*

Depois que, pelo pontificado de Cristo, suficientemente destruiu o pontificado antigo, e reprovados os sacrifícios antigos, e testemunhou que no sacrifício de Cristo, oferecido uma vez, consiste toda a justificação, fazendo fim disto, passa à instrução moral, exortando-os em primeiro lugar a que com coração puro mantenham a integridade da fé; e, se for iminente perseguirem, confessem com audácia, alegrando-se de padecer por Cristo; e assim na fé e na confissão tenham firme esperança; donde diz: porque o Pontífice Cristo, oferecendo uma vez, santifica, os antigos nem com sacrifícios quotidianos podem aproveitar; *portanto, irmãos, tendo nós confiança na entrada*, isto é, sobre a entrada *do Santuário*, a saber, que nós verdadeiramente entraremos no Santo dos Santos; tendo, digo, confiança *no sangue de Cristo*, que, oferecendo uma vez, derramou para a nossa purificação; *caminho*, isto é, a entrada do Santuário, caminho, digo, *novo*, isto é, recentemente aberto em Cristo; ninguém, com efeito, antes de Cristo andou este caminho que Cristo inaugurou para nós; caminho *novo e vivo*, isto é, perdurante eternamente: inaugurou, digo, *através do véu*, isto é, pelo significado daquele véu que dividia os dois tabernáculos, *isto é, da sua carne*; aquele véu, com efeito, que ocultava o Santo dos Santos, prefigurava a carne de Cristo, que velava a Deidade a si unida; donde, expirando Cristo na cruz, consumadas todas as coisas, rasgou-se o véu do templo, significando estar aberto o caminho em Cristo de entrar no Santo dos Santos; ou assim: inaugurou-nos o caminho através do véu, isto é, da sua carne, cuja Carne e Sangue recebemos na aproximação da morte como viático para a pátria; Carne, digo, e Sangue, velada sob a espécie do pão: inaugurou-nos pela sua carne, e por si, sacerdote que cada dia interpela o Pai por nós; sacerdote, digo, *grande* em comparação com os legais; grande, digo, *constituído sobre a casa de Deus*, isto é, a Igreja presente e a futura: nós, digo, irmãos, tendo tal confiança, *aproximemo-nos*, isto é, achegamo-nos ao Senhor *com coração sincero*, isto é, com reta inteligência, *em plenitude de fé*, isto é, tendo fé plenária não só de algumas coisas, mas de todas as que se devem crer; aproximemo-nos, digo, *aspergidos os corações*, isto é, tendo os corações purificados não só do pecado, mas também *de má consciência*, de modo que a consciência de qualquer mal não nos morda, *e lavado o corpo com água pura*, isto é, tendo a carne purificada pelo batismo que nos purifica. Mantenhamos com obra e coração *a confissão*; se, vindo os males, por isso não temamos confessar Cristo; confissão, digo, *inabalável*, de modo que nem declinemos à direita nem à esquerda: confissão que é causa da nossa esperança; se, com efeito, não temermos confessar a fé de Cristo na presença dos perseguidores, então podemos certamente esperar a glória futura dos santos.

Diria ele: quem, tolerando por tanto tempo e tantas coisas, poderia esperar coisa talvez nunca a ter? A isto Paulo: se confessais audazmente, a esperança vos está salva, *porque fiel é Deus* e não pode mentir, *que prometeu* aos que o confessam os bens que esperais.

Mantenhamos a confissão, *e consideremo-nos uns aos outros*, isto é, um ao outro, não em litígio e detração, mas *para estímulo da caridade e das boas obras*, isto é, um pelo exemplo do outro seja estimulado à dileção e a bem operar: nós, digo, *não abandonando a nossa assembleia*, isto é, a congregação da Igreja, aterrados pelo temor dos perseguidores iminentes, *como é costume de alguns*, que creem por algum tempo e no tempo da tentação recuam (Lc 8,13); *não abandonando, mas exortando* a assembleia da Igreja; *e tanto mais* trabalhando nisto quanto mais *vedes aproximar-se o dia* da morte. Ou assim: estimulemos os irmãos à caridade, não abandonando a nossa assembleia, isto é, se os irmãos pecaram, não por isso nos separemos deles, soberbamente indignados, como é costume de alguns, desdenhando compadecer-se do irmão que cai; mas exortando a nossa assembleia; e tanto mais pela compaixão chamai-os de volta dos males quanto vedes aproximar-se o dia da retribuição, aos maus mal, aos bons bem.

Por isso mantenhamos a fé e a confissão, não abandonando a nossa assembleia; façamos todas estas coisas ditas porque, *pecando nós voluntariamente*, isto é, por vontade e própria deliberação permanecendo no pecado, *depois de ter recebido o conhecimento da verdade*, isto é, depois que conhecemos Cristo, que é a própria verdade, e recebemos a fé; se a vontade de pecar perdura em nós, *já não resta*, nada nos aproveitará Cristo feito hóstia pelos pecados a apagar; ou assim: já não resta, isto é, não é reservado Cristo, para que por quem de novo peca de novo se faça hóstia pelos pecados; mas isto nos resta, a saber, *uma terrível expectativa do juízo futuro*; e resta-nos *o zelo*, isto é, a inveja *do fogo*, zelo que *há de devorar os adversários* da verdade.

Prova pelo menor que os que pecam contra Cristo devem ser punidos, dizendo: verdadeiramente quem voluntariamente peca contra a verdade será punido; pois alguém, prevaricando e tornando vã a lei de Moisés, que não era senão sombra da verdade, *morre sem misericórdia*, convicto do pecado *pelo testemunho de duas ou três testemunhas*; e, se o prevaricador morre na lei de Moisés, *quanto mais pensais que merecerá piores suplícios aquele que pisou o Filho de Deus?* (aquele entende o Filho de Deus pisável e demasiado vil, que o diz impotente para remitir os pecados se não se acrescentar a circuncisão;) *e considerou profano*, isto é, entendeu profano, *o sangue da aliança*, isto é, o sangue de Cristo, com que foi confirmado o Testamento novo? (diz profano o sangue de Cristo aquele que diz que nele não pode ser purificado todo delito: se Cristo, com efeito, foi hóstia pura, pôde também purificar de toda culpa; se não pôde purificar, segue-se que foi hóstia poluída;) *com o qual sangue foi santificado* qualquer batizado? Merece também piores aquele que fez ultraje *ao Espírito da graça* — quem diz que os pecados se remitem de outra parte que não pelo Espírito, age ultrajosamente contra o Espírito —; Espírito, digo, da graça, que é dado gratuitamente e gratuitamente remite os pecados.

Diria ele: embora a lei de Moisés, que era sem misericórdia, condenasse os seus prevaricadores, Cristo, que trouxe misericórdia e graça, ainda que pequemos, não só não condenará, mas perdoará. Para remover isto, Paulo prova que Cristo é juiz e que por causa da misericórdia não deixou o juízo, dizendo: verdadeiramente quem pisa o Filho de Deus sofrerá piores; *nós, com efeito, conhecemos aquele que disse* isto no Deuteronômio (32,35): *a mim a vingança*; se o próximo peca, minha é a vingança contra o próximo, *e eu retribuirei* a eles a seu tempo conforme o delito: se pecar contra o próximo não deixa sem vingança, quanto mais pecar contra si mesmo? *E de novo* a Escritura, aprovando o juízo de Deus, diz: *porque o Senhor julgará o seu povo*; e porque o Senhor, julgando, dará a cada um a vingança do pecado, vede que não pequeis, diz Paulo, *porque é horrível coisa cair nas mãos do Deus vivo*, isto é, poderoso para quanto quer.

Depois de os ter repreendido mais asperamente, agora, recordando os bens anteriores deles, afaga-os para que os que abalou com o terror do juízo atraia com algumas carícias, dizendo: vede que não caiais nas mãos de Deus, mas *lembrai-vos dos dias passados*, nos quais, *iluminados* pela fé, logo depois de recebida a fé *sustentastes grande combate de sofrimentos*; muito, com efeito, então padecestes de vossos compatriotas. Sustentastes certamente os sofrimentos, *pois de um lado*, isto é, por uma parte, *fostes feitos espetáculo* ao mundo, *por opróbrios [e tribulações]*, isto é, por causa dos opróbrios e tribulações infligidos a vós; *de outro*, porém, isto é, por uma parte, *fostes feitos companheiros dos que assim viviam* como nós, isto é, de todos aqueles que na religião da fé viviam convosco. Verdadeiramente companheiros; *pois vos compadecestes também dos presos*, ministrando-lhes nas cadeias o necessário de vossos bens: e opróbrios e tribulações padecestes; *aceitastes, com efeito, com alegria o saque dos vossos bens*, sabendo que tendes nos céus riqueza melhor, porque espiritual e permanente. E, uma vez que tais fostes no princípio da fé, *portanto não percais*, degenerando, *a vossa confiança*, isto é, as boas obras, pelas quais é lícito confiar; confiança que, se persevera, *tem grande recompensa.*

Diriam eles: é difícil sofrer tantas vexações e por tanto tempo. A isto Paulo: não percais a paciência, mas sede longânimes no sofrer; porque a paciência longânime *vos é necessária*, para que, padecendo e *fazendo a vontade de Deus*, alcanceis a promessa, isto é, a glória prometida. Nem sempre convirá padecer, porque *ainda um pouco*, de tempo, *bem pouco* de sofrimento, mas leve e momentâneo, resta; e depois disto *virá a vós aquele que há de vir*; e depois que vier, *não tardará*, isto é, não tardará a dar-vos a glória que prometeu: aos mártires a glória não se tarda, mas logo ao saírem do mundo é dada; aos que, porém, repousam na paz da Igreja parece tardar, porque de algumas coisas que ilicitamente contraíram é necessário primeiro fazer penitência. *Aquele que há de vir virá e não tardará*; e entretanto, enquanto vem, vós, justos, *vivereis da fé*, porque disse Deus pelo profeta: *O meu justo vive da fé* (Hab 2,4). Se, porém, o justo recuar da fé, *não agradará à minha alma*, isto é, à minha vontade: digo, se recuar; mas *não somos filhos do recuo*, para ir assim à perdição, mas somos [filhos] *da fé para a aquisição*, isto é, para que pela fé adquiramos a salvação da nossa alma.

## Notas

<sup>[1]</sup> São Bruno parece tratar aqui de uma sentença do bem-aventurado Jerônimo, segundo a qual por "princípio do livro" se entenderia o início do Gênesis, onde se lê: «No princípio», isto é (como diz) no Filho, «criou Deus o céu e a terra».

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# Capítulo 11

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> A fé é a substância das coisas que se esperam, a prova das que não se veem. Por ela, com efeito, os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os séculos foram ordenados pela palavra de Deus, de modo que das coisas invisíveis fossem feitas as visíveis. Pela fé Abel ofereceu a Deus uma hóstia mais excelente que a de Caim, pela qual alcançou testemunho de ser justo, dando Deus testemunho aos seus dons; e por ela, depois de morto, ainda fala. Pela fé Henoc foi trasladado, para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladou; antes da trasladação, com efeito, teve testemunho de ter agradado a Deus. Sem fé, porém, é impossível agradar a Deus. Pois é preciso que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é remunerador dos que o buscam. Pela fé Noé, avisado por oráculo das coisas que ainda não se viam, movido de temor, preparou a arca para salvação da sua casa, pela qual condenou o mundo e foi feito herdeiro da justiça que é pela fé. Pela fé, aquele que é chamado Abraão obedeceu para sair para o lugar que havia de receber em herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé demorou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaac e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. Esperava, com efeito, a cidade que tem fundamentos, da qual artífice e construtor é Deus. Pela fé também a própria Sara, estéril, recebeu virtude para conceber a semente, mesmo fora da idade, porque creu fiel aquele que prometera. Por isso, de um só, e já como morto, nasceram descendentes como as estrelas do céu em multidão, e como a areia inumerável que está na praia do mar. Na fé morreram todos estes, sem ter recebido as promessas, mas vendo-as de longe e saudando-as, e confessando que eram peregrinos e hóspedes sobre a terra. Pois os que dizem tais coisas, mostram que buscam uma pátria. E, se se lembrassem daquela de que saíram, teriam tempo de voltar. Agora, porém, aspiram a uma melhor, isto é, celeste. Por isso Deus não se envergonha de ser chamado Deus deles; pois lhes preparou uma cidade. Pela fé Abraão ofereceu Isaac, quando foi provado, e oferecia o unigênito aquele que havia recebido as promessas; ao qual foi dito: Em Isaac será chamada para ti a descendência; julgando que Deus é poderoso para ressuscitar até dentre os mortos; donde também o recebeu em figura. Pela fé Isaac abençoou Jacó e Esaú também a respeito das coisas futuras. Pela fé Jacó, moribundo, abençoou cada um dos filhos de José; e adorou o cimo da sua vara. Pela fé José, moribundo, lembrou-se da saída dos filhos de Israel; e deu ordem acerca dos seus ossos. Pela fé Moisés, nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que o menino era formoso, e não temeram o edito do rei. Pela fé Moisés, já adulto, negou ser filho da filha do Faraó, preferindo ser afligido com o povo de Deus a ter o gozo temporário do pecado, tendo por riqueza maior que os tesouros dos egípcios o opróbrio de Cristo; pois olhava para a recompensa. Pela fé deixou o Egito, sem temer a ira do rei; pois perseverou como vendo o invisível. Pela fé celebrou a Páscoa e a aspersão do sangue, para que o exterminador dos primogênitos não os tocasse. Pela fé atravessaram o Mar Vermelho como por terra seca; o que tentando os egípcios, foram devorados. Pela fé caíram os muros de Jericó, depois de cercados por sete dias. Pela fé Raab, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, tendo recebido em paz os exploradores. E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo para narrar de Gedeão, Barac, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os Profetas; os quais, pela fé, venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas, fecharam as bocas dos leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, de fracos se tornaram fortes, foram valentes na guerra, puseram em fuga exércitos estrangeiros; mulheres receberam seus mortos por ressurreição; outros foram torturados, não aceitando libertação, para alcançarem melhor ressurreição; outros, ainda, experimentaram escárnios e açoites, e além disso cadeias e prisões, foram apedrejados, serrados, tentados, morreram a fio de espada, andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, angustiados, afligidos; dos quais o mundo não era digno; errantes nos desertos, nos montes, nas cavernas e nos antros da terra. E todos estes, aprovados pelo testemunho da fé, não alcançaram a promessa, tendo Deus providenciado algo melhor para nós, para que não fossem consumados sem nós.

## Comentário

Porque começou o discurso sobre a fé, dizendo "nós somos filhos da fé", etc., acrescenta como que a definição da fé; a qual contudo não é definição, mas recomendação da fé; para cuja recomendação, demorando-se longamente, apresentará muitos exemplos dos antigos. Diz, pois: nós somos filhos da fé; *a fé*, porém, *é a substância*, isto é, a existência e aquisição *das coisas que se esperam*, isto é, dos bens futuros, que singularmente e sobretudo se devem esperar; a fé, digo, é assim substância dos bens futuros, porque nem sem a fé subsistem em qualquer pessoa, nem se adquirem senão pela fé. Ou digamos assim: a fé tida no presente é no futuro *substância das coisas*, isto é, dos bens celestes; pelo mérito, com efeito, da fé aqui tida subsistem então aqueles bens naquele que teve fé neste mundo; coisas, digo, que agora se esperam pela fé. A fé é também *prova*, isto é, aprovação *das coisas que não se veem*, isto é, dos bens que, enquanto permanecemos neste mundo, não podemos ver; se alguém, com efeito, considera Abraão, como por mérito da fé possuiu a glória, pode esperar o mesmo de si: que, se pela fé imitar Abraão, como ele possuirá pela fé a glória que não viu. Digo, a fé é substância dos bens futuros e prova. Por isso assim recomendo a fé, *porque nela*, isto é, na fé, *os antigos*, isto é, os pais mais antigos, *alcançaram bom testemunho.* Diz "antigos" não pela idade, mas pela precedência do tempo; Abel, com efeito, embora mais jovem em anos, é contudo mais antigo que Abraão pela antiguidade do tempo precedente.

Mas objetaria alguém: dizes que a fé é prova das coisas que não aparecem; mas como se podem crer as que não podem ver-se? A isto Paulo: a fé é certamente prova das coisas que não aparecem; *pois pela fé*, isto é, pela fé, *entendemos que os séculos foram ordenados*, isto é, aptamente formados; ordenados, digo, *pela palavra*, isto é, pelo Filho ou pelo império de Deus, o que é o mesmo; e se dos séculos cremos que foram formados pela palavra de Deus (o que contudo nenhum dos homens viu), creiamos igualmente pela fé das coisas ainda não aparecentes: os séculos, digo, cremos ordenados pela palavra de Deus, *de modo que das coisas invisíveis fossem feitas as visíveis*, isto é, as coisas visíveis das invisíveis; quando havia o caos, com efeito, como está escrito: «As trevas estavam sobre a face do abismo» (Gn 1,2). Trevas, porque aqueles elementos não podiam ser vistos, ainda que houvesse então quem tivesse visão humana; mas, depois que os elementos foram separados e, formadas as criaturas, cresceram coalescendo em certa espessura, os elementos antes invisíveis já foram visíveis: nem é de admirar que não pudessem ser vistos, embora fossem coisas corpóreas, quando aquele humor que há no grão da semente, de que brota o colmo e a espiga, não podemos ver nem discernir, embora esteja contido naquela massa do grão. Ou assim: são pela palavra de Deus, de modo que fossem feitas as visíveis das invisíveis, isto é, segundo as invisíveis que haviam precedido no conselho de Deus; primeiro, com efeito, Deus desde a eternidade no seu conselho dispôs as formas de todas as criaturas, e segundo o que cada uma fora preordenada no conselho, ainda invisíveis, segundo esse modo foram feitas visíveis no tempo da formação de cada uma.

Verdadeiramente os antigos alcançaram testemunho pela fé; *Abel, com efeito, pela fé*, isto é, pela fé, *ofereceu hóstia mais excelente*, isto é, mais aceitável a Deus, *que a de Caim*: a hóstia de Abel conhece-se ter sido grata a Deus, porque o cordeiro que ofereceu foi consumido por fogo divino; a hóstia de Caim é reprovada, porque, não sobrevindo fogo, o molho de frutos que ofereceu permaneceu íntegro. *Pela qual fé Abel justo alcançou este testemunho*, a saber, de ser justo; diz, com efeito, Cristo no Evangelho: «Desde o sangue de Abel justo, etc.» (Mt 23,35). Moisés, porém, recomenda a justiça de Abel, e muitos dos Profetas. Alcançou Abel testemunho, *dando Deus testemunho aos seus dons*, como dissemos; *e por aquela fé Abel, depois de morto, ainda fala*, porque nos faz falar da fé dele.

Henoc também, pela fé que teve, foi trasladado a outras pátrias, *para não ver a morte*, e trasladado *não foi achado, porque Deus o trasladou*; se por um homem tivesse sido trasladado, facilmente seria achado. Deus por isso o trasladou, *porque antes da trasladação teve testemunho de ter agradado a Deus.*

Pela fé assim estes agradaram a Deus; *sem fé, porém, é impossível* a alguém *agradar a Deus.* Verdadeiramente sem fé ninguém agradará a Deus; *pois é preciso que aquele que se aproxima*, isto é, que quer aproximar-se de Deus, *creia que ele existe*, que Deus é um só, *e que é remunerador dos que o buscam.* Se os gentios cressem somente isto, que o Criador é um só e retribui a cada um segundo os seus atos, bastaria a eles.

*Noé* também, *avisado por oráculo das coisas que ainda não se viam*, isto é, do dilúvio futuro, *movido de temor* daquele dilúvio pela fé que teve nas palavras do Senhor, *preparou a arca para salvação da sua casa*, isto é, em que salvasse seus filhos e filhas: pela qual fé, que creu futuro o dilúvio segundo a palavra de Deus, *condenou o mundo*, isto é, tornou condenável o mundo; enquanto Noé, com efeito, creu, e os homens julgaram estulto que preparasse a arca em que salvaria a sua casa, em comparação com a fé dele foram condenados: e o próprio Noé *foi feito herdeiro da justiça* dela, *que é pela fé.*

Agora desce aos pais dos judeus, mostrando neles e nos primeiros que toda justiça teve origem da fé. Aquele que por mérito da fé agora se chama Abraão, antes dito Abrão, *pela fé obedeceu* a Deus *para sair* de Ur dos caldeus *para o lugar* que por mérito da fé havia de *receber em herança*; obedeceu, digo, e *saiu* da terra da sua nação, *sem saber para onde ia.* O mesmo Abraão *pela fé demorou na terra da promessa como em terra alheia, habitando* ali *em tendas*, isto é, em tabernáculos, *com Isaac e Jacó* — não que Jacó tenha existido no mesmo tempo que Abraão, mas porque Jacó habitou a mesma terra como Abraão, buscando com seus pais não aquela, mas a verdadeira terra da promessa —; *Isaac e Jacó*, digo, *co-herdeiros da mesma promessa*; a eles, com efeito, frequentemente Deus, como a Abraão, fez promessa. Abraão habitava em tendas porque *esperava a cidade que tem fundamentos*, isto é, a estabilidade da eternidade, a saber, a Jerusalém celeste, cuja cidade *artífice* é Deus, isto é, dispondo com sua arte cada coisa para si; e o mesmo é *construtor* das coisas que dispõe, ele mesmo as fabricando. Abraão, habitando em tendas, mostrava não cuidar da Jerusalém terrena, mas buscar a celeste; *a própria Sara também*, estéril e nonagenária, *pela fé recebeu virtude* para a concepção, isto é, de conceber a semente; ela, digo, não só estéril, mas também *fora da idade*, porque, como foi dito, era nonagenária: *recebeu porque creu fiel*, isto é, veraz, *aquele que lhe prometera* a semente; *por isso*, porque creu fiel a Deus, e *de um só* ventre ou de um só pai, *e já como morto*, ou ventre ou pai, *nasceram* filhos *como as estrelas do céu em multidão*; não comparo segundo a claridade das virtudes às estrelas, mas indo à multidão delas; nasceram também *como a areia*; nem de novo comparo segundo a esterilidade só da areia, mas a que é *inumerável*, isto é, segundo a inumerabilidade deles; areia que está *na praia do mar*, isto é, junto ao litoral da Gentilidade; muitos, com efeito, dos filhos de Abraão resplandeceram em virtudes, como as estrelas, muitos estéreis e infrutuosos foram precipitados no litoral dos gentios.

*E todos estes*, a saber, Abraão, Isaac e Jacó, *morreram*, mesmo quando morriam, existentes *na fé*, isto é, crendo que haviam de receber as promessas de Deus; morreram, digo, *sem ter recebido as promessas* em vida, mas *vendo-as de longe*, as promessas futuras, isto é, nos dias de Cristo, *e saudando-as*, como os marinheiros saúdam a pátria que de longe veem e muito desejam, *e confessando* de si *que eram peregrinos sobre a terra*, sempre passando a outras, *e hóspedes*, isto é, vindos de outra parte. Por isso confessando assim; *os que dizem tais coisas*, a saber, que são peregrinos e hóspedes, *mostram* com estas palavras *que buscam uma pátria*, a verdadeira.

Diria alguém: buscavam a alheia, porque talvez não podiam voltar à sua pátria. A isto Paulo: diziam estas coisas; *e, se se lembrassem daquela pátria de que saíram*, querendo voltar para lá, certamente *teriam tempo*, isto é, oportunidade *de voltar*; mas *agora*, depois que dela não se lembravam, *aspiram a uma melhor*, isto é, *celeste*: e porque aspiram à celeste, por isso *Deus não se envergonha*, isto é, não se pejou *de ser chamado Deus deles*, de modo que se diga Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Por isso se chama Deus deles, *porque lhes preparou uma cidade* celeste.

Abraão, de novo, *pela fé ofereceu Isaac, quando foi provado*: Deus não tentava Abraão como quem ignorasse a sua fé, mas para que o próprio Abraão e o mundo conhecessem a virtude da sua fé. E, para que não se pensasse que Abraão imolava Isaac porque esperava que em outro filho se cumprissem as promessas, diz: *e o próprio Abraão, que havia recebido as promessas, ao qual foi dito: Em Isaac será chamada para ti a descendência*, ele oferecia este unigênito, *julgando que Deus é poderoso para ressuscitá-lo dentre os mortos*, e por ele ressuscitado ser chamada a semente de Abraão: *donde*, porque assim creu, *o recebeu* como filho, e para multiplicação da semente, e *em figura*, isto é, em figuras de Cristo; o carneiro, com efeito, que foi achado preso pelos cornos entre os espinhos, e Isaac significavam um só Cristo, Deus e homem; por isso, pelo fato de o carneiro ter sido imolado e Isaac subtraído à morte, significou-se que Cristo padeceria segundo a carne, mas segundo a Divindade não sentiria o perigo da morte: o carneiro imolado prefigurou a carne de Cristo a ser imolada, Isaac subtraído a Divindade de Cristo, que a Paixão não lesaria.

Isaac também *abençoou Jacó e Esaú*, tida fé também sobre eles, de como o maior serviria ao menor, *e a respeito das coisas futuras*, cujo tipo traziam, a saber, de como o primogênito, o povo judaico, abandonaria a sua primogenitura, isto é, o culto de Deus, e o menor, o gentio, a usurparia para si. *Jacó*, morrendo no Egito, *pela fé abençoou cada um dos filhos de José*, a saber, Manassés e Efraim, *e adorou o cimo da vara* de José, que, segundo depois do rei do Egito, trazia o cetro em sinal da sua dignidade: adorou o cimo da vara, isto é, Cristo, figurado por José, a quem *a vara de equidade é vara do seu reino* (Sl 44,7). *José*, moribundo, *pela fé*, isto é, pela fé, *lembrou-se da saída dos filhos de Israel*, que haviam de sair do Egito, e lembrando isto, *deu ordem acerca dos seus ossos*, para que fossem levados à sepultura de Abraão, confiando que haviam de ressurgir com Cristo aqueles a quem fora feita a promessa, se os seus corpos fossem achados na terra da promessa.

*Moisés*, nascido, pela fé, porque os pais creram que ele seria grande, vendo a sua formosura, *foi escondido três meses por seus pais, porque viram que o menino era formoso, e não temeram o edito do rei*, que mandara matar todo varão entre os meninos dos hebreus. *Moisés* também, *já adulto, negou ser filho da filha do Faraó*, pela fé, *preferindo ser afligido com o povo de Deus a ter o gozo temporário do pecado*; *e o opróbrio de Cristo*, que em si, padecendo por Cristo, prefigurava, *tendo por riqueza maior que todos os tesouros dos egípcios*; assim julgando porque *olhava para a recompensa* futura, não para o trabalho presente ou a jucundidade. Moisés *pela fé deixou o Egito*, conduzindo dali o povo dos judeus, *sem temer a ira do rei* dos egípcios: por isso sem temer *porque perseverou como vendo o invisível*, isto é, esperou Deus, a quem não podia ver, como se o visse corporalmente, dando fé às palavras de Deus. O mesmo Moisés *celebrou a Páscoa e a aspersão do sangue* do cordeiro, pela fé, *para que o exterminador dos primogênitos* do Egito *não tocasse os judeus.* Teve fé no sangue do cordeiro, de que pela virtude do cordeiro de inocência, isto é, de Cristo, que prefigurava, poderiam ser salvos.

Os filhos de Israel *pela fé atravessaram o Mar Vermelho como por terra seca*: e para que ninguém dissesse que isto foi acaso, *o que tentando os egípcios, foram devorados.* Os muros de Jericó, *pela fé, caíram, depois de cercados por sete dias.* Raab, a meretriz, *recebendo em paz os exploradores* dos judeus, *não pereceu com os incrédulos*, por causa da fé com que creu que Deus entregaria a cidade nas mãos dos judeus.

Muito disse do louvor da fé, *e que mais direi?* O tempo, com efeito (se eu prosseguisse tudo sobre a fé), *me faltaria*, isto é, deixar-me-ia, ao narrar *de Gedeão*, que pôs o velo na eira; *de Barac*, que pela fé libertou o povo; *de Sansão*, que pela fé muito operou; *de Jefté*, que, chefe do povo, libertou o povo, embora por voto estulto tenha imolado a filha: destes quatro mais plenamente se acha no livro dos Juízes; *de Davi* também, que muito fez pela fé; *e de Samuel, e dos outros Profetas*; os quais *venceram reinos*, isto é, superaram reis, pela fé; os quais também *praticaram a justiça* pela fé, *alcançaram as promessas*, as bem-aventuranças prometidas, pela fé, *fecharam as bocas dos leões* pela fé, como Daniel; *extinguiram a violência do fogo*, como os três meninos; *escaparam ao fio da espada*, como Judas Macabeu; *de fracos se tornaram fortes*, como Ezequias; *foram valentes na guerra* muitos; *puseram em fuga os exércitos estrangeiros*, fugados estes; *mulheres receberam seus mortos* vindo da ressurreição, como a viúva de Sarepta por Elias o filho único, e a sunamita por Eliseu; *outros foram torturados* em cavaletes, como os sete Macabeus, *não aceitando libertação*, isto é, não querendo ser remidos dos tormentos, *para alcançarem melhor ressurreição* pelo mérito dos sofrimentos; quanto mais, com efeito, alguém padece, tanto melhor será coroado. *Outros, ainda, experimentaram escárnios e açoites, e além disso cadeias e prisões, foram apedrejados, serrados*, como Isaías; *tentados*, se por temor da pena negariam a fé; *morreram a fio de espada*; *andaram* fugindo de cá para lá *vestidos de peles de ovelhas* — *melota* é (como dizem) vestimenta de pelos de camelo; ou *melus* é um animal que se chama texugo, e de *melus* se diz *melota* —; andaram também *em peles de cabras, necessitados* de bens temporais, *angustiados* de ânimo, *afligidos* de corpo; *dos quais*, santos, *o mundo não era digno* de os ter tais; ou então, dos quais o mundo não era digno, segundo as palavras dos ímpios, que dizem: estes tais são imundície do mundo, seja o mundo purgado deles: *errantes nos desertos*, como Matatias e os que estavam com ele; *e nos montes, e nas cavernas e nos antros da terra*: as cavernas são covas naturais; os antros, cavados por arte. *E todos estes, aprovados pelo testemunho da fé, não alcançaram a promessa*, isto é, a herança prometida, *tendo Deus providenciado algo melhor para nós*, a saber, para que os primeiros santos *não fossem consumados* na perfeição da jucundidade *sem nós*; se, com efeito, sem Cristo encarnado eles recebessem a bem-aventurança eterna, Cristo não se encarnaria, porque em vão, existindo a salvação de outro modo; e assim os primeiros santos seriam salvos sem nós.

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# Capítulo 12

<div style="text-align: justify; hyphens: auto; -webkit-hyphens: auto;" lang="pt-BR">

> Por isso, também nós, tendo ao nosso redor uma tão grande nuvem de testemunhas, deixando todo peso e o pecado que nos cerca, corramos com paciência o combate que nos é proposto; olhando para o Autor e Consumador da fé, Jesus, que, em vez do gozo que lhe era proposto, suportou a Cruz, desprezando a ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, aquele que suportou tal contradição da parte dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos. Ainda não resististes até ao sangue, lutando contra o pecado; e esquecestes a exortação que vos fala como a filhos, dizendo: Filho meu, não desprezes a disciplina do Senhor, nem desfaleças quando por ele és repreendido. Pois o Senhor corrige a quem ama e açoita todo filho que recebe. Perseverai na disciplina. Como a filhos vos trata Deus; pois qual é o filho a quem o pai não corrige? Se estais fora da disciplina, de que todos participaram, sois bastardos e não filhos. Depois, tivemos pais segundo a carne que nos educavam, e os reverenciávamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? E aqueles, por poucos dias, nos educavam como lhes parecia; este, porém, para o que é útil, a fim de recebermos a sua santificação. Toda disciplina, porém, no momento não parece ser de alegria, mas de tristeza; depois, porém, dá aos exercitados por ela um fruto pacatíssimo de justiça. Por isso, levantai as mãos cansadas e os joelhos frouxos; e fazei retos os passos dos vossos pés, para que o que manqueja não se desvie, mas antes seja curado. Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá a Deus; atentando a que ninguém falte à graça de Deus, a que nenhuma raiz de amargura, brotando para cima, vos impeça, e por ela muitos sejam contaminados. Que não haja nenhum fornicador ou profano, como Esaú, que por um só prato vendeu a sua primogenitura; sabei, com efeito, que depois, querendo herdar a bênção, foi rejeitado; pois não achou lugar de penitência, embora a tenha buscado com lágrimas. Pois não vos aproximastes de um monte palpável e de fogo ardente, de turbilhão, de escuridão, de tempestade, de som de trombeta e de voz de palavras, que os que a ouviram pediram que não se lhes falasse mais. Pois não suportavam o que se ordenava: Se uma fera tocar o monte, será apedrejada. E tão terrível era o que se via que Moisés disse: Estou aterrado e tremo. Mas vos aproximastes do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e de multidões de milhares de Anjos, e da assembleia dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e de Deus, juiz de todos, e dos espíritos dos justos aperfeiçoados, e de Jesus, mediador de uma nova aliança, e do sangue da aspersão que fala melhor que o de Abel. Vede que não recuseis aquele que fala. Pois, se aqueles não escaparam, recusando aquele que falava sobre a terra, muito mais nós, se nos desviarmos daquele que fala dos céus. A sua voz abalou então a terra; agora, porém, promete, dizendo: Ainda uma vez, e eu abalarei não só a terra, mas também o céu. Ao dizer "ainda uma vez", declara a mudança das coisas móveis, como das feitas, para que permaneçam as que são imóveis. Portanto, recebendo um reino inabalável, tenhamos graça, pela qual sirvamos agradando a Deus, com temor e reverência. Pois o nosso Deus é fogo consumidor.

## Comentário

Aduzidas tantas recomendações da fé, infere de todas: uma vez que a fé é recomendável por tantos testemunhos, *por isso*, como os primeiros, assim também nós, *tendo ao nosso redor uma tão grande nuvem de testemunhas* que recomendam a fé — diz "nuvem" porque, assim como a nuvem protege do calor e da chuva, assim os exemplos dos santos citados nos munem contra os males que irrompem —; nós também, como eles, *deixando*, pela penitência, *todo peso* de pecado que perpetramos, deixando também *o pecado que nos cerca* por todos os lados, isto é, toda perversa sugestão, *corramos com paciência*, sem nos voltar do bem, *o combate que nos é proposto*, não fomos, com efeito, chamados a carícias, mas a suportar trabalhos: corramos, digo, imitando, *olhando para Jesus, Autor [e Consumador] da nossa fé*, isto é, que nos consumará na glória, se a nossa fé perdurar íntegra; Jesus que *suportou a Cruz, desprezando* não só a acerbidade, mas também *a ignomínia*, isto é, a vergonha do gênero ignominioso de morte; suportou, digo, *em vez do gozo que lhe era proposto* na glória pelo mérito da Paixão; ou então, proposto a si o gozo terreno, isto é, as posses terrenas propostas pelos seus crucificadores, se quisesse negar ser Filho de Deus: e por isso, porque suportou a Cruz e desprezou a ignomínia, *está sentado à direita do trono*, isto é, na igualdade de Deus Pai que se assenta.

Corramos o combate proposto imitando Jesus, que, desprezada a ignomínia, suportou a Cruz; olhai para ele suportando a Cruz na morte; *considerai* também o mesmo Jesus *que suportou a contradição*, para que, como na morte, assim também o imiteis no sofrer a contradição: tudo o que de adversidade suportou Jesus até a hora da Paixão significa aqui por "contradição". Ou, se se tem "com efeito", liga-se assim: deveis olhar para Jesus que suporta a Cruz; pois também isto, que em Cristo é menos, a saber, a contradição que suportou, *considerai*, isto é, deveis frequentemente confiar à memória; o que diz assim: considerai Jesus que suportou *tal contradição*, isto é, tão desprezível e difícil; e o que mais pôde agravá-lo, ele, que não conheceu o pecado, suportou-a infligida *pelos pecadores*, não contra Pedro ou qualquer dos discípulos, mas *contra si mesmo*; considerai, digo, esta contradição, para que, lembrados dela, *não vos fatigueis*, isto é, não sejais cansados de padecer as adversidades; ou então, se vos fatigais no corpo, *não desfaleçais em vossos ânimos*, mas, sendo a carne fraca, os espíritos contudo sejam prontos; se, porém, a contradição for tanta que os ânimos se fatiguem, como o mesmo Paulo diz de si: «Fomos agravados além da medida, de modo que nos causava tédio viver» (2Cor 1,8), contudo não desfalecendo, como nem Paulo desfaleceu, embora estivesse fatigado o ânimo: desfaleceriam, se por temor das tribulações negassem a fé.

Deveis certamente sofrer sem fadiga e sem desfalecimento, porque, embora tenhais resistido, ainda *não até o sangue*, isto é, ainda não foi derramado o vosso sangue, que, se for preciso, deve ser padecido pela fé. Ainda não resististes até derramar o sangue, *lutando* contudo *contra o pecado* — dizendo assim, por uma parte os louva porque lutaram; por outra mostra que ainda podem subir, a saber, à efusão do sangue —; lutando, digo, contra o pecado, para que não tivesse lugar em vós; enquanto, com efeito, recusais consentir com os ímpios, estais contra o pecado; se consentísseis, o pecado logo teria lugar em vós. Lutastes outrora contra o pecado, e agora por que *esquecestes a exortação*, isto é, a Divindade que vos consola na tribulação? Esta consolação divina fala-nos não como a estranhos, mas *como a filhos* que pretende fomentar, dizendo em Salomão (Pr 3,11): ó *filho meu, não desprezes a disciplina*, isto é, as perseguições e açoites, que são disciplina; nelas, com efeito, o homem aprende quão grande é a sua fragilidade e quão pouco pode com as suas forças, se a graça de Deus não estiver presente; disciplina, digo, não dos perseguidores, mas *do Senhor*; eles, com efeito, nada podem senão por permissão de Deus, que deste modo quer purgar seus filhos. Não desprezes a disciplina, *nem desfaleças*, isto é, não fujas cansado de padecer, *quando por ele és repreendido*, isto é, convencido de réu por Deus por esta disciplina que te perdoa. Por esta disciplina também o homem conhece a sua fragilidade e (se pacientemente sofrer) merece indulgência dos pecados. Não deves desfalecer quando és repreendido, *pois o Senhor corrige a quem ama*, isto é, conduz por disciplina à castidade e continência dos vícios. Àquele a quem ama, corrige, *e açoita todo filho que recebe*, antes de o receber; ainda que perdoe os pecados, com efeito, a nenhum é remitida a pena sem que seja paga ou nesta vida ou na futura, ou pelo próprio homem por vontade espontânea, obra mais aceita, ou por outro que lha inflija; como podemos provar pelo original, que no batismo se perdoa, mas a pena daquele pecado, a mortalidade e passibilidade, permanece.

E uma vez que a disciplina do Senhor é tão recomendável, *perseverai, pois, na disciplina*, isto é, na paciência das tribulações. Nela certamente deveis perseverar; Deus, com efeito, oferece-se a vós, nas tribulações, como auxiliador, *como a filhos*: digo bem "como a filhos"; porque *qual é o filho a quem o pai não corrige?* Deus certamente não terá filho incorreto; filho não será senão o que é corrigido. *Se* (isto é, se, porém) *estais fora da disciplina*, por vos subtrairdes à disciplina do Senhor, *de que todos os filhos de Deus participaram*; se, digo, estais fora da disciplina, *sois bastardos*, não filhos legítimos, mas filhos adulterinos, isto é, a quem o pai não dá pedagogos, porque não cuida deles; ou então, sois filhos adúlteros, isto é, do diabo, adulterando-vos.

Provou pelos testemunhos da Escritura que devem perseverar na disciplina; agora aprova o mesmo por razões do costume humano, como se dissesse: que devemos perseverar na disciplina mostrei por autoridades; agora, depois dos testemunhos das Escrituras, introduzo razões do costume humano para provar o mesmo: nós, sim, *tivemos pais* não das nossas almas mas *da nossa carne*; a linha da carne, com efeito, derivamo-la deles; e à nossa carne, derivada da carne dos pais, Deus conferiu a alma; *estes pais tivemos como educadores, e os reverenciávamos*, exibindo-lhes honra os temíamos; reverenciar, com efeito, é dispensar honra com temor: e, se reverenciávamos os pais da carne, *não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos*, isto é, a Deus, que dá as almas, muito mais dignas que o corpo? Sujeitando-nos a ele, *viveremos* eternamente, o que os pais da carne nem a si nem a nós podem conferir. Ao Pai dos espíritos certamente se deve obedecer mais, porque *aqueles pais da carne por poucos dias nos educavam como lhes parecia*, este para a gramática, aquele para a arte de ferreiro, muitas vezes para coisas inúteis; este, porém, Pai dos espíritos, nos educa *para o que é certamente útil*, por disciplina, *a fim de recebermos a sua santificação*, isto é, a paciência e as demais virtudes, pela posição das quais santifica os seus.

O que eles poderiam objetar, dizendo: quem pode suportar tal disciplina, em que há sempre tristeza, nunca alegria? ele mesmo, para resolver, a si objeta, dizendo: eu, sim, vos recomendo a paciência da disciplina, mas confesso contudo que *toda disciplina no tempo presente parece*, aos que olham só a superfície da coisa, *não ser de alegria, mas apenas de tristeza*; a tristeza aqui é sempre, a alegria nunca. Agora acrescenta a solução: parece, sim, no presente ser de tristeza, *mas depois*, isto é, no futuro, *dá aos exercitados por ela* disciplina, postos de lado os bastardos, Deus *um fruto de justiça*; fruto, digo, não como é o fruto do mundo, que nunca está em tranquilidade, mas *pacatíssimo*, isto é, a possuir em toda quietude. *Por isso*, porque aos exercitados pela disciplina será tão frutuosa a sua justiça, *levantai* por isso *as mãos cansadas*, isto é, as operações de caridade, antes intensas, agora dissolvidas; *levantai também os joelhos frouxos*, isto é, a fortaleza, antes tida, agora dissolvida por temor da disciplina: por joelhos frouxos significa a perda da virtude, porque nos joelhos aparece primeiro o tremor, se estão dissolvidos, o levantar, se estão fortalecidos. Levantai os joelhos, *e fazei aos vossos pés*, isto é, às afeições da vossa fé, *passos retos*: o primeiro passo da fé é confessar; depois, se for necessário, padecer. Fazei-os retos de modo que *não se desvie* algum de vós, recuando da via da fé, nem ao menos *manqueje* na via; poderia, com efeito, manter a fé, crendo sadiamente, e manquejar nela, se temesse confessar; e pela afirmação da fé não se desvie alguém, mas antes seja curado do erro, se porventura errou.

Para que sejam retos os vossos passos, *segui a paz com todos*, mesmo com os inimigos; *segui também a santificação*, isto é, toda santidade, *sem a qual paz e santificação ninguém verá a Deus.* Como se deva seguir a santificação, insinua, dizendo: segui a santificação, *atentando a que ninguém de vós falte à graça de Deus*; a graça de Deus, com efeito, está preparada para vós, vede que não a repilais: atentando também a que *nenhuma raiz*, isto é, sugestão de pecado; raiz, digo, *de amargura*, embora alguns pensem ser de doçura; vede, digo, que a raiz tal não vos impeça, *brotando para cima*, isto é, irrompendo em ato de pecado; a sugestão, com efeito, brota para cima quando consuma por ato o que persuade mal. Vede que nenhuma raiz assim vos impeça, e por ela, brotando para cima, *muitos sejam contaminados*, mais propensos à imitação da torpeza que da honestidade. Atentando também a que *nenhum de vós seja fornicador ou profano*, abandonando o culto de Deus, *como Esaú*, que por um só prato de lentilhas vendeu a sua primogenitura a seu irmão Jacó: da fornicação de Esaú não achamos em outro lugar<sup>[1]</sup>. Ou, se insistimos na alegoria, digamos assim: que ninguém seja fornicador no culto de Deus — fornicadores eram os que criam que a circuncisão era necessária à fé de Cristo —; ou que ninguém seja profano, abandonando inteiramente a fé.

Não sejais como Esaú, julgando evitar a condenação com infrutuosa penitência; porque sabei isto de Esaú: que *depois*, tanto antes da venda como depois, *querendo herdar a bênção* do primogênito, *foi rejeitado*, se não pelo pai, ao menos por Deus: verdadeiramente rejeitado; *pois não achou lugar de penitência*; arrependeu-se, sim, de ter vendido a primogenitura, mas esta penitência não teve lugar de oportunidade, *embora a tenha buscado com lágrimas*; se, com efeito, chorasse confessando o pecado e punindo a sua iniquidade, a sua penitência teria lugar, mas, porque nas próprias lágrimas se indignava da eleição do irmão, pensando em matar o irmão, se pudesse, por isso lhe foi negado o lugar da penitência.

Deveis seguir a paz e a santificação; vede que a raiz de amargura não brote em vós, etc., *porque não vos aproximastes de uma lei insuportável e terrível* para quem a faz e inútil, como a lei primeira, mas vos aproximastes de uma lei jucunda por muita facilidade, da graça auxiliadora, da promessa das coisas celestes; o que difusamente diz, assim começando: *não vos aproximastes de um monte palpável e de fogo ardente*; na dação da lei antiga, com efeito, houve fogo corpóreo, se Deus o permitisse, que pudesse ser tocado por mãos humanas, e ao qual fosse possível aproximar-se: *nem de turbilhão, escuridão e tempestade*; turbilhão, isto é, comoção dos ventos, ali houve, e tenebrosa escuridão e tempestade; golpeando-se os ventos mutuamente, havia a contusão do granizo: *nem de som de trombeta e voz de palavras*; o clangor das trombetas e as palavras vocalizadas ali se ouviram; voz que os judeus que a ouviram *pediram que não se lhes falasse mais*, pretextando a sua fragilidade, isto é, que o Senhor não lhes falasse a eles, mas a Moisés, e Moisés a eles. Por isso assim se escusaram, *porque não suportavam*, isto é, não podiam suportar *o que se lhes ordenava.* Deus por isso dava a lei com tão grande aspereza de terror, porque sabia que pela brandura da dileção nada de bom operariam, e por isso deviam ser coagidos como servos por suplícios: prefigurava-se também em tão grande multiplicidade de terrores que nunca poderiam suportar aquela lei. E fora dito na recepção da lei que, *se uma fera tocar o monte*, em que se dava a lei, *será apedrejada* (Ex 19,12-13); ou, segundo alguns, por juízo, ou, segundo outros, pela contusão do granizo.

Todas estas coisas, por oposição, figuravam a dação da lei nova; nós, com efeito, recebendo a graça, aproximamo-nos do fogo, isto é, do ardor do Espírito Santo, nem palpável nem acessível, mas espiritual. O som da trombeta que ali houve significou a sugestão, que ao ato do pecado, como a trombeta ao combate, provoca; quanto mais, com efeito, era proibido aos judeus, tanto mais ardentemente se lançavam ao proibido. Ali houve, de novo, turbilhão, isto é, comoção das sugestões, a saber, o ato do pecado; na nova graça, tanto a sugestão como o ato de pecado se removem. Ali houve, de novo, tempestade, isto é, contusão do granizo, a saber, o costume de pecar; houve de novo escuridão, isto é, cegamento procedente do costume de pecar: nesta graça, também o costume de pecar é removido e toda cegueira iluminada. Ali houve voz de palavras, que puderam ouvir; aqui inspiração interior, que quem antegoza, com muito desejo corre para a alcançar. Aqueles não suportavam o que se dizia: o fardo, porém, desta é leve, e suave o jugo. Ali foi dito: se uma fera tocar o monte, será apedrejada; porque aqui, se alguém de vida e intelecto bestial pôs a sua boca blasfemando no monte, isto é, na Divindade, será apedrejado, contundido pelo poder da Deidade. E por ser tão terrível o que se via, assim disse o próprio Moisés: *Estou aterrado* de ânimo, *e tremo* de corpo.

À lei de terror e inútil não vos aproximastes, mas *a Sião*, isto é, à vida especulativa; a Sião, digo, *monte*, isto é, eminente em altura de virtudes, *e à cidade do Deus vivo*, isto é, que aos seus cidadãos dá a vida eterna, a saber, *à Jerusalém celeste, e à multidão de milhares de Anjos*, para que com eles ressoeis na glória de Deus, *e à assembleia dos primogênitos*, isto é, dos Patriarcas e Profetas, *que estão inscritos* senadores *nos céus*, *e a Deus*, Pai de todos, *juiz*, *e aos espíritos dos justos e aperfeiçoados*, isto é, a quem o Espírito Santo faz justos e perfeitos por diversidade de dons: como João costuma, diz no plural "Espíritos"; ou digamos assim: ao Senhor de todos, e ao Deus dos espíritos, isto é, das almas dos justos perfeitos. *E vos aproximastes de Jesus*, doador do novo Testamento: aproximastes-vos também *da aspersão do sangue*, isto é, do sangue de Cristo, com que aspergidos fostes purificados; sangue de Cristo, digo, *que fala melhor que o sangue de Abel*, de que está escrito: «O sangue de teu irmão Abel clama a mim da terra» (Gn 4,10). Melhor, porque o sangue de Abel clama vingança, o sangue de Cristo clama remissão.

E porque o sangue de Cristo fala por vós, *vede, pois, que não recuseis*, agindo mal, *aquele que fala* por vós, porque, se recusais, é para vosso mal: *se, com efeito, aqueles não escaparam, recusando aquele que falava sobre a terra*, isto é, Moisés ou o Anjo, à vingança; *muito mais nós não escaparemos, se nos desviarmos de Deus que nos fala* não da terra, mas *dos céus*, cuja voz falando *então*, na dação da lei antiga, *abalou a terra*, agora, porém, promete, dizendo em Ageu: *Ainda uma vez* (ainda, porque já havia abalado a terra), *eu abalarei não só a terra*, que outrora abalei, *mas também o céu* (Ag 2,7), transferindo a mutabilidade deles para a imutabilidade. Agora Paulo expõe: o que diz o Profeta, "ainda uma vez", por "ainda" declara a mudança das coisas móveis; mudados, com efeito, os elementos, de mobilidade se farão imóveis; mudança, digo, *das coisas móveis, como das feitas*, isto é, como das que fez; quem as fez do nada, com efeito, pôde mais facilmente transferir as feitas: diz "uma vez" para que, feita a mudança, permaneçam imóveis as que agora são móveis.

E uma vez que todas as coisas serão transferidas à imobilidade, *portanto nós, recebendo um reino inabalável*, isto é, nós que reinaremos nas coisas imóveis, *tenhamos* alguma graça em nós de Deus antecipada; se, com efeito, não precedesse em nós alguma graça de Deus, não seríamos recebidos por ele para reinar na imobilidade; ou assim: porque, mudadas, todas as coisas permanecerão imóveis, portanto nós, que então receberemos aquele reino inabalável, *tenhamos* alguma graça, *pela qual, agradando a Deus, sirvamos a ele com temor* de ânimo *e reverência*, isto é, temor do corpo e exibição de honra: é necessário, com efeito, que sirvamos a Deus com temor e reverência; *pois o nosso Deus é fogo consumidor*, isto é, que cozinha toda a ferrugem de todo pecado, e por isso é necessário que nos ache purgados, não a purgar.

## Notas

<sup>[1]</sup> Nem aqui tampouco se trata claramente de fornicação de Esaú; pois a sentença do bem-aventurado Crisóstomo, de Teofilacto, de Caetano e de outros, dizendo que as palavras "como Esaú" se referem somente a *profanus* (*bébēlos*), de modo algum a *fornicator* (*pórnos*), parece certamente bastante provável.

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# Capítulo 13

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> Permaneça em vós a caridade fraterna. E não vos esqueçais da hospitalidade; por ela, com efeito, alguns, sem o saberem, hospedaram Anjos. Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles; e dos que sofrem, como estando vós mesmos no corpo. Seja honrado entre todos o matrimônio, e imaculado o leito. Pois Deus julgará os fornicadores e os adúlteros. Sejam os vossos costumes sem avareza, contentes com o que tendes; pois ele mesmo disse: Não te deixarei, nem te abandonarei. De modo que digamos com confiança: O Senhor é o meu auxílio; não temerei o que me possa fazer o homem. Lembrai-vos dos vossos superiores, que vos falaram a palavra de Deus; considerando o desfecho da sua vida, imitai a sua fé. Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e pelos séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas. Pois é bom que o coração se firme na graça, e não em alimentos, que nada aproveitaram aos que andaram neles. Temos um altar, do qual não têm poder de comer os que servem ao tabernáculo. Pois os corpos dos animais cujo sangue é levado ao Santuário pelo pontífice, pelo pecado, são queimados fora do acampamento. Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele, fora do acampamento, levando o seu opróbrio. Pois não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura. Por ele, pois, ofereçamos sempre a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. Não vos esqueçais, porém, da beneficência e da comunhão; pois com tais sacrifícios se agrada a Deus. Obedecei aos vossos superiores e sede-lhes submissos. Eles, com efeito, velam como quem há de dar contas das vossas almas, para que o façam com alegria e não gemendo; pois isto não vos convém. Orai por nós: confiamos, com efeito, que temos boa consciência, querendo em tudo viver bem. Mais ainda vos peço que o façais, para que eu vos seja restituído mais depressa. O Deus da paz, que tirou dentre os mortos o grande Pastor das ovelhas, no sangue da aliança eterna, nosso Senhor Jesus Cristo, vos aperfeiçoe em todo bem, para que façais a sua vontade; fazendo em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo; a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra de consolação. Com efeito, escrevi-vos em poucas palavras. Sabei que o nosso irmão Timóteo foi posto em liberdade; com ele (se vier mais depressa) vos verei. Saudai todos os vossos superiores e todos os santos. Saúdam-vos os irmãos da Itália. A graça esteja com todos vós. Amém.

## Comentário

*Com temor e reverência servi a Deus*: *a caridade* também *permaneça* perseverantemente *em vós*; caridade, digo, *fraterna*, que a fraternidade reclama; isto, com efeito, que sois irmãos, exige que vos ameis mutuamente. *E não vos esqueçais da hospitalidade*, que é parte da caridade, na qual outrora vos distinguistes. Por dizer "não vos esqueçais", assinala que antes eram devotos na hospitalidade, agora são remissos. Por isso se deve seguir a hospitalidade, porque por esta virtude alguns agradaram a Deus, como Abraão e Ló, a quem Deus por isso significou terem-lhe agradado, *hospedando Anjos*; por isso, com efeito, enviou os seus Anjos como hóspedes, para que por isso conhecessem que a hospitalidade lhe era grata.

Permaneça a caridade em vós: *lembrai-vos também dos presos*, isto é, ministrai aos que são oprimidos em cadeias, *como se estivésseis presos com eles*, isto é, lembrados de que estais juntamente presos, porque, se aqueles estão no cárcere, vós estais presos pela moléstia da carne; ou assim: lembrai-vos dos presos como se estivésseis presos com eles, isto é, como quereríeis que se lembrassem de vós, se estivésseis igualmente em cadeias. Lembrai-vos também *dos que sofrem* por qualquer gênero de miséria mundana, como se vós mesmos sofrêsseis; o que o mesmo diz: *como estando vós mesmos no corpo*; qualquer, com efeito, que é oprimido pelo peso da carne nunca está isento de aflição e trabalho. *Seja também honrado em todos o matrimônio*; aqui remove a fornicação: e, celebrados os matrimônios, *seja imaculado o leito*; aqui rejeita o adultério. Por isso advirto sobre o matrimônio, a castidade do leito, removendo a fornicação e o adultério, porque *Deus julgará*, isto é, condenará *os fornicadores e os adúlteros*; não que não deva julgar os homicídios e os demais males, mas agora o discurso era só destes dois.

*Sejam também os vossos costumes sem avareza*, de modo que não cobiceis o supérfluo; vós, digo, *contentes com o que tendes*; é de Deus, com efeito, prover o amanhã. Deveis ser sem avareza; *ele mesmo*, com efeito, Deus *disse* a Josué, e por ele a todo fiel: ó tu, Josué, ou qualquer fiel, eu *não te deixarei* totalmente abjeto, *nem te abandonarei* em hora alguma sem auxílio<sup>[1]</sup>. Deus disse isto de tal modo que, sobre o que antes dissemos, a saber, que estejamos contentes com o que temos, agora digamos com confiança: *O Senhor é o meu auxílio*, e por isso *não temerei o que me possa fazer o homem*, ainda que tire o presente.

*Lembrai-vos também dos vossos superiores*, para vos conformardes a eles, *que vos falaram a palavra de Deus*, *considerando o desfecho*, isto é, o bom fim *da sua vida*; desfecho, digo, da conduta, isto é, da boa operação em que viveram; *imitai* primeiro *a sua fé*, para que assim a boa conduta e o bom desfecho estejam igualmente em vós. Diriam eles: não podemos seguir a perfeição deles, porque eles, ensinados pelo próprio Cristo, tiveram maior afluência de graça do que nós podemos ter. A isto Paulo: bem podeis imitar, diz; *Jesus Cristo*, com efeito, *que foi ontem* quanto a eles, *hoje* também está pronto no mesmo quanto a vós; ele mesmo estará também presente *por todos os séculos* aos que esperam nele, a quem diz: «Eis que estou convosco até a consumação dos séculos» (Mt 28,20).

Imitai a fé dos superiores, seguindo a doutrina deles; *e não vos deixeis levar por doutrinas várias*, que ora afirmam uma coisa ora outra, *e estranhas*, isto é, alheias, que procedem de outra parte que não de nós; por estas doutrinas, digo, não vos deixeis desviar do que de nós recebestes. Havia, com efeito, alguns sedutores que dogmatizavam, do fato de Paulo ter dito que todos os alimentos são puros e santificados por Deus, que quanto mais empanturrassem o ventre com a opulência das comidas, tanto mais seriam gratos a Deus, que santificara todos os alimentos para o comer; daí diz: não vos deixeis levar por tais doutrinas, *porque é bom que o coração*, e não o corpo, *se firme e se confirme na graça*, isto é, na liberdade que Deus nos trouxe no uso de todas as coisas, *e não em alimentos*, isto é, na multiplicação do prazer, *alimentos que nada aproveitaram aos que andaram* nos prazeres e lhes deram lugar além da medida.

Nos alimentos certamente não devemos firmar o coração, *porque temos um altar*, isto é, o Corpo de Cristo, que é consagrado no altar; sobre o qual, participado por nós, oferecemos a Deus votos e orações: *desse altar*, isto é, do Corpo de Cristo, *não têm poder de comer quantos servem ao tabernáculo*, isto é, aos prazeres do corpo; assim, com efeito, permaneceremos no corpo por uma hora, como o soldado na tenda militar.

Prova com dupla autoridade, primeiro da antiga, depois da nova lei, colhendo o mesmo sentido em ambas as autoridades, o que prometeu, dizendo: verdadeiramente os que servem ao tabernáculo do prazer não têm faculdade de comer deste altar, porque não estão fora do acampamento, isto é, porque segundo as dispensas dos prazeres não fazem sair os seus corpos; o que assim diz: *os corpos dos animais cujo sangue é levado pelo pontífice ao Santo dos Santos*, pelo pecado do povo a apagar, e isto uma vez por ano, *os corpos desses animais são queimados fora do acampamento.* Era costume (como muitas vezes dissemos) que o pontífice legal uma vez por ano levasse o sangue ao Santo dos Santos; este sangue, porém, era tomado dos animais queimados fora do acampamento: aquele Pontífice é Cristo, que, para apagar o pecado de todos, levou ao Santo dos Santos o seu sangue derramado na Cruz. Que aquele animal fosse queimado para se fazer cinza era sinal da contrição de Cristo, que suportou; cuja cinza, isto é, a memória da Paixão, deve ser aspergida sobre as cabeças, isto é, nas mentes de cada um. Que fosse queimado fora do acampamento significava que todo o que quer ser purificado deve sair fora do acampamento, isto é, dos prazeres carnais.

Agora acrescenta a autoridade do novo Testamento, que sente o mesmo com o antigo, dizendo: *por isso*, para comprovar isto, a saber, que os que servem ao tabernáculo não têm poder de comer deste altar; ou então, por isto prefigurado no antigo, agora a cumprir-se, *também Jesus padeceu fora da porta*, significando que os que participam do seu altar devem fazer-se fora da porta, isto é, fora dos sentidos do prazer; os sentidos, com efeito, são as portas da alma, porque pelos olhos é levada a cobiçar o que vê, e assim pelos demais sentidos: Jesus padeceu fora da porta, por isso, *para santificar o povo pelo seu próprio sangue.*

Porque Jesus padeceu fora da porta, *saiamos, pois, a ele*, postos fora do acampamento, isto é, fora dos prazeres do tabernáculo; nem só isto, mas também *levando*, se for necessário, *o seu opróbrio*, isto é, a morte de Cruz. E certamente assim devemos sair, porque, ainda que queiramos aqui permanecer, *não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura*, isto é, a eterna. E uma vez que buscamos a futura, para que a alcancemos, *ofereçamos por ele*, o próprio Jesus, *sacrifícios de louvor*, isto é, louvores que merecem a Deus não menos que sacrifícios, e isto *sempre*; e o que digo, "sacrifícios de louvor", é dizer: ofereçamos *o fruto dos lábios* — pela facilidade dos lábios, por fruto designa a utilidade —; dos lábios, digo, *que confessam o seu nome*, isto é, a sua glória. Ofereçamos louvores; *da beneficência*, porém, isto é, da largueza das esmolas, *e da comunhão* (depois que não dizíeis os bens como próprios, mas comuns) *não vos esqueçais*: nem deveis esquecer-vos; *porque com tais sacrifícios*, isto é, pela beneficência e comunhão, *se agrada a Deus*, em significação passiva.

Para que, porém, estejais lembrados destas coisas, *obedecei aos vossos superiores*, que são perfeitos e bem vos instruem, *e sede-lhes submissos*, isto é, obedecei de modo a exibir-lhes toda sujeição em palavra e obra. Deveis certamente ser-lhes submissos, *porque eles velam por vós, como quem há de dar contas das vossas almas* a eles confiadas. E por isso sede-lhes assim submissos, *para que o façam*, isto é, velem por vós, *com alegria e não gemendo*, por vossa dureza e intemperança; digo, não gemendo, *pois isto não vos convém*, que os façais gemer.

Obedecei aos superiores e *orai por nós.* Diriam eles: tu persegues a nossa gente e os nossos ritos, e como dizes "orai por nós"? A isto Paulo: deveis orar por nós; *nós, com efeito, confiamos*, isto é, confiadamente vos dizemos, *que temos boa consciência em tudo*, isto é, para com todos, *querendo viver bem* para com eles: onde, porém, a consciência é pura, também a obra é limpa; não me sejais, pois, molestos. Disse acima: orai por nós; agora, porém, *peço-vos mais ainda que o façais*, isto é, que oreis por nós mais instantemente, *para que* (isto é, a fim de que) *eu vos seja restituído mais depressa*, trazendo comigo os frutos das esmolas, se porventura for solto das cadeias.

Digo: orai por nós; eu, porém, assim oro por vós: *O Deus da paz vos aperfeiçoe em todo bem*; Deus *que tirou dentre os mortos* nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, do número dos mortos; Jesus, digo, *grande Pastor das ovelhas*, isto é, engrandecido acima de tudo; Pastor, digo, não dos lobos mas das ovelhas, isto é, dos mansos; pastor, digo, feito *no sangue*, isto é, pela oblação do seu sangue; sangue, digo, confirmador *da aliança eterna*, isto é, que há de durar eternamente: este Deus, digo, *vos aperfeiçoe em todo bem* — entende-os aperfeiçoados se neles houver boa vontade —; aperfeiçoe de modo que *façais a sua vontade*, a de Deus; e não por vossas forças, mas façais de modo que ele mesmo seja *fazendo em vós o que é agradável diante dele*, isto é, no beneplácito dele; fazendo, digo, *por Jesus Cristo, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.*

Porque os corrigira um pouco mais asperamente, agora os afaga para que não se perturbem vista a aspereza das palavras, dizendo: Deus vos aperfeiçoe assim; *eu, porém, irmãos, rogo-vos que suporteis esta palavra*, não de repreensão, como talvez alguns de vós julgam, mas esta Epístola de consolação, isto é, recebais em toda paciência; e podeis bastante suportar, *porque vos escrevi em poucas palavras*: aqui significa que são impacientes, a quem teria escrito muito mais se soubesse que ouviriam pacientemente. Suportai a palavra; *e sabei que o vosso irmão Timóteo*, por mim enviado a vós, ou então, agora *posto em liberdade* das cadeias com que estava ligado comigo; ele, digo, portador desta Epístola, *conhecei*, isto é, recebei honrosamente e com toda caridade, *com o qual vos verei*, como julgo, se, voltando mais depressa de junto de vós, vier a mim.

*Saudai todos os vossos superiores*; a eles, com efeito, porque eram perfeitos, não escrevia a Epístola, mas a alguns incorrigidos dos súditos: *saudai também todos os santos* na vossa Igreja; havia, com efeito, alguns dos súditos perfeitos, a quem igualmente não escrevia. *Saúdam-vos os irmãos da Itália. A graça de Deus esteja com todos vós. Amém*: sinal de Paulo de que a Epístola era dele.

## Notas

<sup>[1]</sup> Cf. Js 1,5.

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