Epístola aos Gálatas

Prólogo

A Galácia é um lugar na Grécia; e nela Paulo havia permanecido durante algum tempo, pregando aos gálatas a palavra de Deus, e os fundara também na fé. Enquanto Paulo ficou entre eles, portaram-se bastante honestamente na fé; mas, tendo Paulo partido dali, introduziram-se entre eles falsos doutores, cujo trabalho era perseguir a Igreja de Cristo, destruindo impiamente o que Paulo havia religiosamente edificado, dizendo que não se devia crer em Paulo, nem manter a sua doutrina, porque nem convivera com Cristo na terra, nem fora por ele instruído ou eleito, nem sequer fora instruído por Pedro ou por aqueles que haviam convivido com Cristo. Estes falsos apóstolos derrogavam também muitíssimo à graça de Deus, dizendo que ela não bastava para a salvação, se não se observassem a circuncisão e as demais coisas da lei antiga; nisto arguíam que Paulo ensinara mal, pois destruía a lei que, como é notório a todos, Deus dera por Moisés e que o próprio Cristo observara enquanto convivia entre os homens; e, dizendo isto entre os que eram simples, pareciam trazer razões convenientes. Por estas falácias já tinham sido de tal modo seduzidos que, se a solicitude de Paulo não acorresse logo por esta Epístola, já se disporiam a circuncidar-se e às demais práticas legais.

Nesta Epístola, porém, Paulo trata da recomendação de sua pessoa, que os falsos apóstolos deprimiam; trata também da destruição da lei antiga, não que a reprove por não dever ter sido observada; trata também da recomendação da graça de Cristo: estas três coisas são aqui a matéria. Recomenda-se a si deste modo: como aqueles lhe objetam que não viu a Cristo, nem foi por ele eleito ou instruído, prova que foi eleito por Cristo e instruído muito mais dignamente que os outros Apóstolos; a esses, com efeito, enquanto mortal convivia entre mortais, Cristo elegeu e ensinou segundo a fraqueza do entendimento carnal: eram ainda carnais e não podiam captar os mistérios da Divindade, porque, embora tivessem recebido o Espírito, ainda não fora dado senão para a remissão; o que o mesmo Jesus claramente insinua, quando diz: «Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora; quando, porém, vier o Espírito, etc.» (Jo 16,12-13). Esses, digo, enquanto mortal, ensinou como a carnais; mas Paulo já feito imortal, já sentado à direita do Pai, já dado o Espírito Santo, elegeu, chamou e ensinou; e assim aparece que, naquilo em que Paulo parecia inferior, é muito mais glorioso que os outros. A lei antiga reprova assim, mostrando que foi dada para ser por um tempo, e vinda a graça logo ter fim, como a sombra, vindo o corpo; lei que, enquanto durou, nada foi senão jugo pesado e fardo insuportável e inútil, porque a ninguém pôde justificar. Destruída a lei, recomenda a graça de Cristo, como a única que basta à salvação e sem a qual, nem antes de ser dada a graça nem depois, ninguém pôde salvar-se. De todas estas coisas trata com a intenção de retrair os gálatas que queriam judaizar, para que não o façam, e não ouçam mais os falsos mestres.

Capítulo 1

Paulo, apóstolo, não da parte dos homens nem por meio de um homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, e todos os irmãos que estão comigo, às Igrejas da Galácia: graça e paz a vós da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos arrancar do presente século mau, segundo a vontade de Deus e nosso Pai; a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Admiro-me de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro Evangelho; o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou um Anjo do céu vos anuncie um evangelho diferente do que vos anunciamos, seja anátema. Como já dissemos, agora de novo digo: Se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema. Pois, agora, persuado eu a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se ainda agradasse a homens, não seria servo de Cristo. Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; pois nem eu o recebi de homem, nem o aprendi, mas por revelação de Jesus Cristo. Ouvistes, com efeito, a minha conduta outrora no judaísmo: como perseguia além da medida a Igreja de Deus e a devastava, e progredia no judaísmo mais do que muitos coetâneos do meu povo, sendo muito mais zeloso das tradições de meus pais. Quando, porém, aprouve àquele que me separou desde o seio de minha mãe e me chamou por sua graça revelar em mim o seu Filho, para que eu o anunciasse entre os gentios, imediatamente não consultei a carne e o sangue, nem subi a Jerusalém para os que eram apóstolos antes de mim; mas parti para a Arábia; e voltei de novo a Damasco; depois, passados três anos, subi a Jerusalém para ver Pedro, e fiquei com ele quinze dias; e não vi nenhum outro dos Apóstolos, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. Quanto às coisas que vos escrevo, eis que diante de Deus não minto. Depois fui às regiões da Síria e da Cilícia. Era, porém, desconhecido de rosto das Igrejas da Judeia que estão em Cristo; tinham apenas ouvido dizer: Aquele que outrora nos perseguia agora anuncia a fé que outrora devastava. E glorificavam a Deus por causa de mim.

Comentário

Paulo, etc. Neste princípio reúne brevemente estas três coisas em que principalmente versa, a saber, a recomendação de si, a reprovação da lei, a aprovação da graça, dizendo: Paulo, apóstolo: põe o seu nome, que era conhecido em toda Igreja, para autoridade; Paulo, digo, Apóstolo, não da parte dos homens que o elegessem, nem por meio de um homem que o consagrasse, como eles objetam, por Ananias. Por isso diz "nem da parte dos homens, nem por meio de um homem"; alguns, com efeito, não elegidos por homens mas por Deus, foram, contudo, consagrados por um homem, e vice-versa. Ou assim: Paulo, Apóstolo não por homens que o elegessem ou consagrassem, nem por meio de um homem, isto é, não por Cristo mortal e vivendo na humanidade, mas por Jesus Cristo ressuscitado: do que segue "ressuscitou" entendemos convenientemente "ressuscitado". Dir-se-ia: ainda que Cristo destrua a lei, não cremos, porque discorda de Deus, que deu a lei. Por isso acrescenta o Apóstolo: por Cristo ressuscitado e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos; quem em vão quereria que morresse, se de outro modo pela lei pudesse justificar o homem; mas, porque viu a lei vã, excluiu a lei, para pela graça de Cristo aperfeiçoar naquilo em que a lei falhava. Paulo, digo, e todos os irmãos que estão comigo escrevemos às Igrejas da Galácia. Por isso na saudação junta os irmãos a si, porque os falsos apóstolos objetavam que Paulo estava sozinho na destruição da lei, que Pedro e os outros toleravam em suas Igrejas. Ao dizer que foi feito Apóstolo não por homem, mas por Cristo ressuscitado e por Deus Pai, bastante se recomendou nisto.

A vós, ó gálatas, seja graça, isto é, aos que pecaram, seja segunda remissão; aos que permaneceram na justiça, seja perseverança da graça; seja também a vós paz, isto é, tranquilidade do ânimo, da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo, ambos os quais podem e querem. Agora recomendará a graça de Cristo, reprovando por oposição a lei, dizendo: Cristo, que se entregou a si mesmo, não outro sacrifício, porque nada além dele bastaria; a si mesmo, digo, porque era tão grande (semet para discrição, ipsum diz para grandeza); entregou-se a si mesmo pelos nossos pecados para apagá-los, que, se a lei os pudesse destruir, seria tido por monstruosidade, porque então o Pai entregaria supérfluamente o Filho à morte; nem quis morrer para tirar apenas os pecados precedentes, mas para que, destruídos os pecados, nos arrancasse do presente século mau, isto é, da conformidade com o presente mundo, que nos atrai e tanto mais prende quanto menos se veem as coisas eternas. Arrancasse do presente século, no qual viu que ninguém pode permanecer sem pecado: no que se nota a máxima virtude de Cristo, que na fornalha dos pecados nos livra do incêndio do pecado. Arrancasse, digo, como que por violência de boa conversação, do século, mas mau, isto é, segundo a maldade do pecado, Cristo arranca os seus do século. Que Cristo se tenha entregue à morte, isto se fez segundo a vontade de Deus e Pai nosso, o qual, porque viu a lei inútil, para nos salvar, por piedade entregou o Filho à morte; e que Cristo se tenha entregue pelos nossos pecados à morte pela vontade de Deus, sabei-o por isto: porque a este Cristo com Deus pertence a glória da remissão dos pecados, não à lei, nos séculos presentes; e permanecerá nos séculos dos séculos consecutivos destes. Amém, isto é, em verdade é assim que a Cristo a glória, não à lei: "amém" é ora afirmativo, ora optativo.

E porque Cristo se entregou pelos nossos pecados segundo a vontade de Deus, e anulou a lei, admiro-me, pois, de que tão vehementemente, abandonados todos os meus mandamentos, e tão depressa, porque pouco tempo faz desde que me afastei de vós; admiro-me, digo, disto: que passeis — para mais gravemente os deprimir, assim diz; passam-se, com efeito, as coisas insensíveis, como as pedras; conduzem-se as irracionais; os homens agem pela razão; mas a estes julga insensíveis; por isso na sequência os chama insensatos — admiro-me de que passeis daquele, a saber, Deus, que vos chamou não por mérito da lei, mas pela graça; chamou, digo, inspirando interiormente e aplicando pregadores, à graça de Cristo, isto é, para serdes participantes da graça de Cristo; passais, digo, para outro Evangelho (segundo aqueles, chama Evangelho a lei antiga); o qual Evangelho, contudo, não é outro que o nosso, senão que há alguns que vos perturbam, isto é, os falsos apóstolos, que, ensinando carnalmente a lei antiga, fazem discordar do Evangelho de Cristo, com o qual é o mesmo entendido espiritualmente: "perturbar" diz-se por semelhança com a água turva, na qual nada se discerne claramente; assim estes perturbaram o entendimento dos gálatas, a ponto de não discernirem já o mal do bem. Perturbam-vos e querem perverter o Evangelho de Cristo: "perverter" diz-se por semelhança com quem anda em viagem e se volta atrás diante do que o obstrui; assim também estes gálatas, recebida a fé de Cristo pelo Evangelho de Paulo, já tinham sido bem dirigidos na vereda da boa obra, da qual os queriam desviar aqueles falsos apóstolos. Onde diz "querem", insinua que os gálatas ainda não haviam consentido a eles com a obra, embora com o assentimento.

Eles querem perverter; mas ainda que nós, isto é, eu ou o próprio Pedro, ou um Anjo maligno vindo do céu, isto é, em figura esplêndida para mais facilmente persuadir; se, com efeito, emergindo das trevas do inferno se apresentasse torvo e informe, não seria tão idôneo para enganar; ou então, Anjo bom vindo do céu; se anunciar um evangelho diferente, isto é, diferente do que vos anunciamos, quer seja Apóstolo quer Anjo, não só ouso separá-lo do corpo de Cristo, mas seja anátema, para que ele mesmo seja separação deles. Aqui responde astutamente aos que lhe objetavam que não tolerava os ritos judaicos em suas Igrejas, não entendendo que Pedro os tolerava, não porque os aprovasse, mas para que não atemorizasse a rudeza da fé deles, que devia antes ser nutrida com estas concessões do que destruída com demasiada aspereza. Isto, porém, só tolerava aos judeus; mas Paulo, que pregava aos gentios, não tinha de ser indulgente com eles naquelas coisas em que nunca estiveram; o que também depois, para que a fé de Cristo fosse sólida, convinha destruir com mais difícil trabalho. E porque nem a um Anjo nem a um Apóstolo toleraríamos que vos pregasse outra coisa, portanto, se alguém falso apóstolo vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes de mim, seja anátema. E isto agora de novo digo dos falsos apóstolos, como acabo de dizer de nós e do Anjo. Ou assim: como já dissemos quando estava entre vós, que excomungaria todos os falsos apóstolos; assim também agora de novo digo: se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema.

Digo: seja anátema; e isto e as demais coisas antecipadas, tendo zelo de Cristo, digo, porque agora, porventura, persuado a homens, isto é, falo persuasivamente segundo a vontade dos homens, ou a Deus, isto é, para a glória de Deus? Como se dissesse: por isso digo "seja anátema", etc., porque outrora, antes da fé, persuadia a homens, pregando a lei, mas agora, na fé, persuado a glória de Deus. Por isso já não persuado a homens, porque não procuro agradar-lhes; ou procuro ainda mais agradar aos homens? Se pregasse a lei, que o homem podia operar por sua virtude, então agradaria aos homens; mas não quero agradar, porque, se ainda agradasse aos homens, pregando a lei, já não seria servo de Cristo, enquanto o que atribuísse à lei, derrogaria à graça de Cristo. Ou assim: porventura agora persuado a homens ou a Deus? Se pregasse a lei, persuadiria a homens; o que a lei preceitua, com efeito, o homem bastante pode operar, como cortar a pelezinha, imolar a rês e semelhantes. Se por estas coisas dissesse salvo o homem, derrogaria a Deus a salvação do homem e a atribuiria ao homem. O resto não muda.

Ao que acima disse "não da parte dos homens, nem por meio de um homem" aqui começa a responder; a letra liga-se, contudo, ao próximo: por isso não procuro agradar aos homens, mas a Cristo, porque o meu Evangelho não é segundo o homem, mas de Deus; e por isso faço-vos saber, irmãos, o Evangelho, não aquele antigo, mas o que foi por mim anunciado; isto dele vos faço saber: que não me foi transmitido segundo o homem. E isto prova: na verdade não segundo o homem, porque nem o recebi de homem que me consagrasse neste ministério, nem o aprendi de homem — poderia ser consagrado por Deus e, contudo, depois aprender aqueles preceitos de homem —; não o recebi de homem, nem aprendi, mas por revelação de Jesus Cristo, isto é, por Jesus Cristo que abertamente me revelou, não falando por parábolas, como ensinou aos outros Apóstolos, enquanto na carne era ainda mortal e eles mais fracos de entendimento.

Na verdade não o aprendi de homem, porque nem antes da conversão nem depois da conversão. Antes da conversão mostra primeiro, dizendo: ouvistes a minha conduta outrora, isto é, no tempo da infidelidade tida no judaísmo; isto ouvistes: que perseguia a Igreja de Deus além da medida dos perseguidores; ninguém, com efeito, era tão violento contra os servos de Deus; perseguia, digo, e a devastava, segundo alguns; muitos que queriam converter-se, com efeito, ainda respirando ameaças e morte, fiz recuar; a muitos já fiéis forcei a negar a fé: devastava, digo, e progredia no judaísmo; a minha lei, com efeito, mais e mais por mim crescia em incremento; progredia, digo, agindo mais do que muitos coetâneos meus, que eram jovens e laboriosos como eu; coetâneos, digo, não prosélitos, mas do meu povo, tão filhos de Abraão como eu e criados na lei; e sendo muito mais zeloso, isto é, imitador e amador, não só da lei, mas também das tradições de meus pais — os Profetas, com efeito, além da lei, deram algumas tradições, como Zacarias o jejum do primeiro e o jejum do quarto (Zc 8,19), etc. —; tradições, digo, minhas, porque tão bem as operava que quase pareciam minhas próprias: e, como eu perseguia assim a Igreja de Cristo, aparece que antes da conversão não aprendi o Evangelho.

Acrescenta que depois da conversão não aprendeu. Eu assim perseguia a Igreja de Cristo, mas quando aprouve àquele, por graça, não por mérito, àquele, digo, que me separou do seio de minha mãe, de que nunca sairia se a sua misericórdia não me extraísse, tão misericordiosamente me chamou por sua graça à fé; ou assim: que me separou da minha mãe, isto é, da Sinagoga, na qual criança fora nutrido e instruído, nem do regaço ou colo, mas do próprio ventre da Sinagoga; fariseu, com efeito, eu era entre os príncipes da lei: e a mim, assim separado, chamou à fé por sua graça, não porque eu tivesse tido zelo da lei; chamou, digo, para revelar em mim o seu Filho; quem considerar, com efeito, a minha vocação, entenderá que toda salvação vem de Cristo, nenhuma da lei, que não me aproveitou; nem chamou só para revelar a sua graça à minha semelhança, mas também para que eu o anunciasse entre os gentios, e tornasse notória a misericórdia de Deus. Quando assim aprouve a Deus a meu respeito, imediatamente não consultei a carne e o sangue, isto é, os judeus que mal me persuadiam, que nada são senão carne voluptuosa e sangue, isto é, alma não segundo a razão, mas que por movimento do sangue deseja coisas torpes; nem imediatamente subi a Jerusalém para os Apóstolos meus antecessores, porque me haviam precedido na fé, para ser ensinado por eles, mas imediatamente parti para a Arábia (esta Arábia é aquela em que está o monte Sinai, perto do Egito, no deserto); e voltei de novo da Arábia a Damasco; depois, passados três anos, subi a Jerusalém, não para interrogar como menos sábio, mas apenas para ver Pedro; e fiquei com ele quinze dias, e em tão breve espaço, se precisasse, não poderia ser bastante ensinado; vi ali Pedro, mas nenhum outro dos Apóstolos vi naquele tempo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor, que era bispo em Jerusalém: e assim aparece que depois da conversão nada aprendi.

Quanto às coisas que vos escrevo, a saber, que nem antes nem depois aprendi, crede que nelas não minto; eis que, com efeito, falo estas coisas diante de Deus; se Deus estivesse presente, nada de falsidade arguiria no meu discurso. Depois, vistos Pedro e Tiago, fui às regiões da Síria e da Cilícia. Eu era, porém, desconhecido de rosto das Igrejas da Judeia que estavam em Cristo; se não me viram, aparece que nada aprendi delas. De rosto eu era desconhecido, mas tinham apenas ouvido de mim; isto, digo, tinham ouvido: que Paulo, que outrora nos perseguia, isto é, no tempo da infidelidade, agora anuncia a fé de Cristo, fé que outrora devastava: e, ouvindo isto, em mim convertido e assim pregando, glorificavam a Deus e magnificavam a misericórdia de Deus.

Capítulo 2

Depois, passados catorze anos, subi de novo a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito. Subi, porém, em virtude de uma revelação, e expus-lhes o Evangelho que prego entre os gentios, mas em particular aos que eram tidos por algo; para não correr, ou ter corrido, em vão. Mas nem Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi obrigado a circuncidar-se; e isto por causa dos falsos irmãos intrusos, que se introduziram para espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, a fim de nos reduzirem à servidão; aos quais nem por uma hora cedemos em sujeição, para que a verdade do Evangelho permaneça convosco. Quanto aos que eram tidos por algo (quais foram outrora, nada me importa; Deus não faz acepção de pessoas), esses, que eram tidos por algo, nada me acrescentaram. Pelo contrário, quando viram que me fora confiado o Evangelho da incircuncisão, como a Pedro o da circuncisão (pois aquele que operou em Pedro para o apostolado da circuncisão operou também em mim para os gentios), e quando reconheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram tidos por colunas, deram-me a mão direita, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão, para que nós fôssemos aos gentios e eles à circuncisão; apenas que nos lembrássemos dos pobres; o que também tive o cuidado de fazer. Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque era repreensível. Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, retirava-se e separava-se, temendo os que eram da circuncisão. E os demais judeus consentiram na sua dissimulação, de modo que até Barnabé foi arrastado por eles à dissimulação. Mas, quando vi que não andavam retamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas diante de todos: Se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, como obrigas os gentios a judaizar? Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios, sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, também nós cremos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei; porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada. Se, procurando ser justificados em Cristo, fomos achados também nós pecadores, porventura Cristo é ministro do pecado? De modo algum. Pois, se torno a edificar o que destruí, constituo-me transgressor. Pois eu, pela lei, morri para a lei, para viver para Deus; estou crucificado com Cristo na Cruz. E vivo, mas já não eu: é Cristo que vive em mim. E o que agora vivo na carne, vivo-o na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim. Não rejeito a graça de Deus. Pois, se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu em vão.

Comentário

Depois, passados catorze anos desde a primeira vinda, subi de novo a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito. Diz "subi" segundo a situação do lugar. Paulo veio por isso uma segunda vez a Jerusalém, trazendo consigo testemunhas idôneas, Barnabé dos judeus, Tito dos gentios, porque as Igrejas a que pregava lhe objetavam que discordava na pregação de Pedro e dos outros; querendo remover essa dúvida, subiu a Jerusalém com testemunhas, não que estivesse em dúvida em algo, mas para que se tornasse certo aos que duvidavam que não discordava de Pedro. Subi não só porque assim quis, mas também subi em virtude de uma revelação, isto é, porque Deus me revelou que assim convinha fazer. E então não aprendi deles, mas expus-lhes o Evangelho, dizendo: Assim e assim prego; não é assim também convosco?

Dir-se-ia: calaste algumas coisas que pregas aos gentios. Certamente não, diz Paulo, mas o Evangelho que prego entre os gentios, nem dele calei palavra, expus publicamente a toda a Igreja. Em particular, porém, isto é, separadamente, expus aos que eram tidos por algo, isto é, aos Apóstolos, não, contudo, em particular com eles para excluir os outros e tratar privadamente com eles; mas primeiro o meu discurso foi público a todos, agora a estes; ou assim: expus a eles, em particular, isto é, aos Apóstolos, para não parecer incapaz de defender o meu Evangelho sem o auxílio deles. Por isso assim expus, para não correr, isto é, para não ser tido por correr, ou ter corrido em vão, se por esta exposição não aprovasse o meu Evangelho. E não apenas expondo-o o comprovei, mas nem Tito, que estava comigo, sendo gentio de nação, foi obrigado a circuncidar-se. Pelo que diz "obrigado", insinua que aqueles falsos apóstolos muito trabalharam contra Paulo para que Tito fosse circuncidado.

Não só Tito não foi obrigado a isso; mas nem por uma hora cedemos em sujeição; o que diz assim: não foi obrigado a circuncidar-se; e isto por causa dos falsos irmãos intrusos — os judeus infiéis, com efeito, a quem Paulo, porque não respondia a infiéis, contratavam por prêmio falsos irmãos, por quem impugnassem Paulo —; por causa daqueles, digo, que se introduziram dolosamente para espiar a nossa liberdade, isto é, a fé que nos faz livres do jugo da lei, liberdade que temos em Cristo Jesus; espiar para, se pudessem, nos reduzir à servidão, isto é, à lei antiga, que é grave servidão: por isso muito recomenda a fé de Cristo, porque a chama liberdade; deprime a lei, que chama servidão. Por causa daqueles, digo, nem por uma hora cedemos em sujeição, isto é, à lei que, os que cedem a ela, sujeita à servidão. Por isso não cedemos, para que a verdade do Evangelho permaneça convosco, isto é, para que, como pregamos que a lei é inútil, a graça suficiente, assim sempre o crêsseis.

Paulo, vindo em outro tempo a Jerusalém, para tirar de si toda suspeita, fez circuncidar de novo Timóteo, já circuncidado, não que cresse que a circuncisão conferisse algo, mas porque alguns lhe haviam imputado que ele dissera que a lei fora inútil em todo tempo: para provar que isso era nada, apresentou Timóteo para ser circuncidado. Mas agora não quis de modo algum que Tito fosse circuncidado, porque, se agora, ao chegar a Jerusalém, para provar que a circuncisão é nada, o circuncidasse, diriam as Igrejas dos gentios: eis a falsidade de Paulo, a quem, queira ou não, convinha circuncidar Tito em Jerusalém.

Mostra, por aquela exposição do Evangelho, que depois da conversão não foi achado inferior a Pedro e aos outros; acrescenta também que antes da conversão era muito mais digno que eles sob a lei; astutamente, porém, como se fosse nada para si a dignidade que teve antes da fé. A letra liga-se assim: expus a eles, e apareci segundo, depois da fé recebida, irrepreensível, como eles; mas quais foram outrora, isto é, antes da fé, Pedro e os outros, que pareciam àqueles sábios segundo a carne ser algo, recordar isto, quais eles foram, qual eu sob a lei, nada me importa, isto é, nada confere ao meu caso; é verdade que eu era então mais digno que eles, mas não me importo com tal glória. "Eram tidos" diz-se quanto àqueles que julgavam tão grandes Pedro e os outros e Paulo nada. Por isso calo quais então foram; sei, com efeito, que Deus não faz acepção de pessoas, isto é, Deus não tem por aceito o homem por causa da pessoa da linhagem, das riquezas ou da ciência. Dizer quais antes foram, digo que nada importa ao meu caso, porque isto só me basta para recomendação: que Pedro e os outros, que eram tidos por algo, nada me acrescentaram, isto é, em nada me corrigiram; em nada me aproveitaram enquanto com eles expus o Evangelho. Ou por "mas" se copule: dizer quais foram antes da fé nada me confere; mas dizer que aqueles que eram tidos por algo nada me acrescentaram, é suficiente para recomendação.

Nada, de fato, me acrescentaram, mas até, desejando a nossa comunhão, deram-me a mão direita em sinal de comunhão, a mim e a Barnabé, meu discípulo; o que diz assim: nada acrescentaram, mas pelo contrário, quando aqueles viram que me foi confiado por Deus o Evangelho da incircuncisão, isto é, da gentilidade, com a mesma dignidade com que a Pedro foi confiado o Evangelho da circuncisão, isto é, entre os judeus: "pelo contrário" diz-se segundo a opinião dos que julgavam Paulo menos digno que Pedro. Digo bem "quando viram"; viram, com efeito, que o mesmo Deus que operou em Pedro, isto é, para a glória e recomendação de Pedro, milagres por ele, no apostolado da circuncisão, igualmente operou também em mim, isto é, para minha recomendação entre os gentios: Apóstolo dos gentios, com efeito, era. Quando viram que me foi confiado o Evangelho, e quando pelo efeito reconheceram o mesmo, vendo a graça que me foi dada (convertia, com efeito, mais que eles à fé); reconheceram, digo, Tiago, Cefas e João, que eram tidos por colunas, isto é, sustentadores da Igreja — estes, com efeito, eram mais honrados que os demais, porque Cristo sempre os admitia aos seus segredos, diante dos quais foi transfigurado no monte —; estes, digo, reconhecendo isto, deram-me a mão direita, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão, entendendo que não somos inferiores a eles mas iguais, não discípulos mas sócios: unir as mãos direitas era sinal de concórdia, com que se confederavam mutuamente os antigos. Fizeram pacto de comunhão conosco, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão; impondo-nos só isto singular: que nos lembrássemos dos pobres que estavam em Jerusalém, o que eles não podiam senão por nós; o que, a saber, fazer bem aos pobres, não só quis, mas até tive o cuidado de o fazer, de modo que isto mesmo, isto é, não fiz menos do que eles rogaram.

Depois de mostrar que eles nada lhe acrescentaram, e que ele antes lhes era necessário quanto à memória dos pobres, acrescenta algo maior, a saber, que, sendo ele irrepreensível, mostrou repreensível também Pedro, dizendo: conferindo com Pedro e os outros, nada me acrescentou, mas eu acrescentei a Pedro; porque quando Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe: e não em oculto, mas face a face, isto é, à vista da Igreja. Resisti-lhe porque era repreensível, se não pelo entendimento, ao menos pelo exemplo. Por isso Paulo resistiu a Pedro face a face, porque Pedro não pecava em si, de que certamente devia ser corrigido em segredo, mas pecava em cautelosa dissimulação, corrompendo a Igreja; e quem pecava em público devia ser publicamente arguido; os que tinham visto a ofensa, com efeito, era necessário que vissem a emenda da ofensa.

Pedro era certamente repreensível, porque antes de chegarem alguns convertidos dos judeus da parte de Tiago, que tinha a cátedra em Jerusalém; antes de estes chegarem, Pedro comia com os gentios, sem discrição de alimentos: antes assim fazia; mas, depois que chegaram, retirava-se da mesa dos gentios; e não se retirava às ocultas, mas se separava, isto é, fazia à parte a mesa dos judeus longe do rebanho dos gentios, ou em outra casa ou em outra mesa, temendo os que eram da circuncisão, isto é, os judeus, ofendê-los se participasse com os gentios; e na sua dissimulação — não cria, com efeito, haver discrição alguma entre judeu e gentio, mas só por evitar o escândalo dissimulava —, na dissimulação, digo, dele consentiram os demais judeus, de modo que até Barnabé, meu discípulo, foi arrastado por eles, judeus, à dissimulação, e não quis comungar com os gentios. Pedro, simplesmente não considerando que por isto se corrompia a fé da Igreja, declinava por esta dissimulação do escândalo do irmão judeu. Mas eu, quando vi que Pedro e os que estavam com ele não andavam retamente, digo, para comprovar a verdade do Evangelho, eles que haviam pregado que os ritos judaicos já eram inúteis e não deviam ser mantidos; quando vi isto, disse a Cefas diante de todos; assim convinha, com efeito, enquanto a dissimulação dele era corrupção de toda a Igreja; isto, digo, disse: se tu, Pedro, sendo judeu de nação, vives, isto é, costumas viver, como gentio, nada julgando impuro, e não como judeu, de modo a condenar os alimentos por imundície segundo aqueles ritos; se, digo, tu, judeu natural, não judaízas, como, isto é, por que razão obrigas os gentios, que nunca judaizaram, a judaizar pelo teu exemplo, embora não o preguem assim? Se não fosse, com efeito, nisto publicamente corrigido por Paulo e, por isso, não confessasse ser repreensível, julgariam não só os judeus, mas também os gentios, inútil a fé sem a lei.

Até aqui provou bastante que não é inferior a Pedro e aos outros, antes necessário e corretor deles[1]; agora passa a reprovar a lei, que de modo algum deve ser mantida, dizendo: os gentios certamente não devem judaizar; porque nós, judeus por natureza, se doravante judaizamos, agimos inutilmente; o que diz assim: nós, na verdade, somos judeus por natureza, nascidos no judaísmo e sempre insistindo na obra da lei; somos judeus, e não pecadores dentre os gentios, isto é, não pecamos à semelhança dos gentios, adorando ídolos e semelhantes, o que os judeus não fizeram; e, sendo nós judeus por natureza, não somos, contudo, justificados pelas obras da lei. E nós, sabendo isto, que nenhum homem é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, como os gentios, assim também nós, judeus, cremos em Cristo Jesus, para sermos assim justificados só pela fé em Cristo e não pelas obras da lei: porque, isto é, porque nós, judeus, somos justificados só pela fé, não pela lei, portanto toda carne, isto é, todo gentio obediente à carne, que ignora a Deus, não será justificada pelas obras da lei, se as fizer; se, com efeito, ao judeu não aproveitam as obras, muito menos ao gentio. Chama carne ao gentio, porque nunca esteve no culto da lei de Deus, mas sempre na obra da carne. Ou assim: porque, se o judeu não é justo pela lei, muito menos a carne, isto é, o pecador dentre os gentios.

Prova de novo o mesmo pelo impossível e pelo inconveniente. Digo que seremos justificados pela fé de Cristo; se não é assim, é isto que diz: se nós, procurando ser justificados em Cristo, isto é, pela fé de Cristo, não digo julgados, a estima dos insensatos não me importa, mas se, procurando a justificação pela fé de Cristo, fomos achados também nós pecadores, como os gentios, porque abandonamos a lei, passando à fé de Cristo; se isto, digo, é, então Cristo é ministro do pecado; ele mesmo, com efeito, ensinou que a lei não deve ser mantida, mas que toda justificação vem da fé. Mas porque lhe horrorizava dizer Cristo ministro do pecado, diz isto com admiração assim: porventura algum insensato ousa dizer que Cristo é ministro do pecado? De modo algum que Cristo seja ministro do pecado.

Na verdade Cristo não é ministro do pecado; pois destruí a lei, que não reedifico, para não me constituir transgressor; se, com efeito, reedificando a lei destruída, sou réu de prevaricação: então bem se segue que Cristo, porque excluiu a lei, não é ministro do pecado; o que diz assim: se torno a edificar as coisas legais que destruí, ensinando que devem ser mantidas, então certamente me constituo transgressor da lei que reconduzo; a própria lei, com efeito, manda que ela seja desprezada depois que vier a graça, como ali por Moisés: «O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um Profeta; a ele ouvireis como a mim» (Dt 18,15); como se dissesse: entretanto, até que venha, ouvi-me; quando vier, deixado eu, recorrei a ele. Diz "reedifico" porque alguns lhe imputavam que antes ensinara estultamente que a lei não devia ser mantida, mas agora, corrigido, reconduzia a lei.

Na verdade, se reedifico a lei, constituo-me transgressor da lei; pois eu, pela lei, morri para a lei, ela que assim mandava que não fosse mantida, vindo a graça. E não diz "abandonei", mas "morri para a lei", isto é, destruí a lei como quem nunca mais voltaria a ela, como da morte não se volta à vida. Morri para a lei para viver para Deus, isto é, pela graça de Deus. Na verdade, abandonando a lei, vive-se para Deus pela fé; pois cessa do mal e opera o bem; o que diz assim: estou crucificado com Cristo na Cruz, isto é, tenho cravados os meus sentidos pela virtude da Cruz de Cristo, de modo que, enquanto estou na fé de Cristo, não me seja lícito estender a mão ou o pé a obra má. Estou crucificado na Cruz de Cristo, isto é, para glória de Cristo, que assim me crucificou: e por estas coisas temos cessar do mal. Cristo, se tivesse querido, teria escolhido outro gênero de morte, mas quis que nem o próprio gênero de morte carecesse de mistério, prefigurando isto na fixação dos seus membros, que segundo o homem velho, passível e mortal, suportara até o dia da Cruz; para que, como os seus membros cravados não puderam, segundo a virtude do homem, estender-se a certos atos, assim naquela Cruz crucificava o homem da justiça de modo que, enquanto não violasse a fé de Cristo, não pudesse declinar para o ato de injustiça. Estou crucificado na Cruz, cessando do mal; vivo, mas já não eu, que era segundo a lei, é Cristo que vive em mim, isto é, vivo eu mesmo feito Cristo por conformidade: e por esta parte temos operar o bem.

Vivo certamente para Deus pela fé, pelo amor, pela entrega; isto diz assim: eu vivo; e o que agora vivo, posto na carne, porque, embora a carne impugne o espírito, o espírito, contudo, vive em mim e degola os desejos da carne, o que é milagre: viver assim na carne. Vivo isto, porém, na fé, isto é, vivo pela fé do Filho de Deus; e não pelas obras da lei, mas pelo amor de Cristo, que me amou, unindo a si pessoalmente o homem; vivo também pela entrega, porque Cristo se entregou a si mesmo à morte por mim, redimindo-me da morte; o que não podia efetuar-se pela lei. E porque vivo pela fé, e não pela lei, portanto não reconduzo a lei; o que, contudo, põe assim: não rejeito a graça de Deus, porque reconduzir a lei seria rejeitar a graça. Por isso não reconduzo a lei, porque a justiça não vem pela lei; se a justiça viesse pela lei, então Cristo morreu em vão, isto é, supérfluamente para justificar, já que pela lei se teria a justiça; mas que Cristo tenha morrido supérfluamente não quereríeis conceder.

Notas

  1. Estas palavras de São Bruno e as precedentes não devem ser entendidas de modo que ponham plena igualdade entre os santos Apóstolos Pedro e Paulo, e muito menos que insinuem a superioridade de Paulo. Paulo provou, sem dúvida, que não era inferior a Pedro quanto à ciência e à missão de pregar o Evangelho; nada impede, contudo, que Pedro fosse o príncipe e a cabeça de todos os Apóstolos, também de Paulo, e Apóstolo e Papa de todos os fiéis, convertidos tanto dentre os judeus como dentre os gentios.

Capítulo 3

Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou, para não obedecerdes à verdade, vós a cujos olhos Jesus Cristo foi exposto, crucificado entre vós? Só isto quero saber de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela audição da fé? Sois assim tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Tanto sofrestes em vão? Se é que foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito e opera milagres entre vós, fá-lo pelas obras da lei ou pela audição da fé? Como está escrito: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15,6). Sabei, pois, que os que são da fé, esses é que são filhos de Abraão. A Escritura, prevendo que Deus justifica os gentios pela fé, anunciou de antemão a Abraão: Em ti serão abençoadas todas as nações (Gn 12,3). Portanto, os que são da fé são abençoados com o fiel Abraão. Pois todos os que são das obras da lei estão debaixo de maldição. Pois está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para as cumprir (Dt 27,26). Que ninguém seja justificado pela lei diante de Deus é manifesto, porque o justo vive da fé. A lei, porém, não é da fé, mas: Quem as cumprir, viverá por elas. Cristo nos resgatou da maldição da lei, tornando-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que é pendurado no madeiro (Dt 21,23); para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus, e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito. Irmãos (falo à maneira humana), ninguém anula ou acrescenta algo a um testamento de homem, depois de confirmado. Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como se fossem muitas, mas como a uma só: E à tua descendência, que é Cristo. Digo, pois, isto: um testamento confirmado por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não o anula, de modo a abolir a promessa. Pois, se a herança vem da lei, já não vem da promessa. Mas Deus a concedeu a Abraão por promessa. Que é, então, a lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse a descendência a quem foi feita a promessa, ordenada por anjos, pela mão de um mediador. O mediador, porém, não é de um só; Deus, porém, é um só. Então a lei é contra as promessas de Deus? De modo algum. Pois, se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar, a justiça viria realmente da lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos que creem. Antes que viesse a fé, éramos guardados sob a lei, encerrados para a fé que havia de ser revelada. Assim, a lei foi nosso pedagogo em Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas, vinda a fé, já não estamos sob o pedagogo. Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Todos os que fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher: pois todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.

Comentário

E visto que a justiça vem pela fé, e não pela lei, ó gálatas insensatos, quem vos fascinou para não crerdes na verdade? Tendes a verdade em vós, a saber, a fé de Cristo, que verdadeiramente justifica, e não credes nela. Diz fascinados, acusando-lhes a insensatez; não diferem, com efeito, das velhinhas que creem que certos fascinadores podem corromper só com o olhar a quem querem. Digo que vós fostes fascinados a cujos olhos — porque tendes a própria verdade e a conheceis — Jesus Cristo foi exposto — diz-se proscrito quem é expulso do seu reino e herança; estes, porém, expulsavam Cristo do seu reino e herança, enquanto se subtraíam a Cristo, eles em quem devia reinar e que eram a sua herança —: não só proscrito, mas também Cristo foi crucificado entre vós; Cristo, com efeito, não se tornou mais vil aos olhos dos judeus e de Pilatos do que em vós, que assim o desprezais. Ou assim: a cujos olhos Cristo foi proscrito nos outros, que depravastes com mau exemplo, e também em vós mesmos, que repelis Cristo de vós; e embora esteja assim proscrito, foi crucificado por vós: e assim não devia ser proscrito.

Isto inseriu com evidência; agora volta àquilo: ó insensatos, embora eu tenha provado bastante que a fé vale, a lei é vã, e embora sejais insensatos, farei, contudo, que vós mesmos confesseis e comprovais que a justiça vem da fé, e não da lei. O que diz assim: muitas outras coisas ocorrem pelas quais poderia provar isto, mas só isto basta, e isto quero aprender de vós: recebestes o Espírito Santo pela lei ou pela fé? Pela lei não, porque vós, gentios, não tivestes lei. E não o põe assim simplesmente, mas acrescenta: pelas obras da lei, ou pela audição da fé, deprimindo a lei, cujas obras eram insuportáveis; recomendando a fé, que facilíssimamente se tem pela só audição. E, tendo recebido o Espírito pela fé, sois assim tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, a salvar-vos, acabeis agora pela carne, isto é, pela lei carnal, sejais consumados, isto é, aperfeiçoados. Muito desatinais ao dar ao Espírito o que é menos, a saber, começar, e ao atribuir à carne o que é mais, isto é, aperfeiçoar. E porque pela carne procurais a consumação, tanto sofrestes em vão; sofrestes muito dos infiéis, mas em vão. Sem causa, digo, sofrestes tanto; com esta condição, contudo, se é que foi em vão, isto é, se sois incorrigíveis; se vos arrependerdes, com efeito, a indulgência está à mão; e assim dizendo reanima a esperança deles.

Por aqueles que provou terem o Espírito só pela fé, porque nunca tiveram a lei, quer agora provar de si que, tendo tido ambas as coisas, a lei e a fé, recebeu, contudo, o Espírito pela fé, não pela lei; o que, se não provasse, deixaria dúvida: por isso diz: visto que vós recebestes o Espírito pela fé, e não pela lei, aquele, pois, que vos dá o Espírito, isto é, por cujas mãos recebestes o Espírito Santo, Paulo, e opera milagres entre vós, dizei agora: teve o Espírito pelas obras da lei ou pela audição da fé? Por vós, por semelhança, podeis julgar que pela fé, não pela lei, embora tenha tido ambas.

Pela fé se tem o Espírito, pela fé se tem a justiça, e pela fé a promessa. A letra liga-se assim: pela fé se tem o Espírito como pela mesma fé se tem a justiça. A justiça vem certamente da fé; pois Abraão creu em Deus, isto é, teve fé, e isso lhe foi imputado como suficiente para ter a justiça. E porque Abraão teve a justiça pela fé, sabei, portanto, que os que são da fé e não da lei (como Abraão então também não era), esses são filhos de Abraão pela fé, isto é, justos, porque imitadores da fé de Abraão. Não só pela fé se tem o Espírito e a justiça, mas também na fé se tem a bênção, como ali se lê: ó Abraão, em ti, isto é, à semelhança da tua fé, serão abençoadas todas as nações, não só os judeus, mas todas as nações. Mas antes de pôr esta autoridade, diz de antemão como se deve entender aquilo "em ti", dizendo: a Escritura, no Gênesis, prevendo, isto é, mostrando que Deus previu; assim, com efeito, desde a eternidade Deus deliberou; prevendo, digo, isto: que Deus justifica não só os filhos da carne de Abraão, mas também os gentios; justifica, digo, não pela lei, mas pela fé. Aquela Escritura muito antes do tempo da graça anunciou de antemão, isto é, mostra que Deus anunciou de antemão a Abraão: em ti, pela fé imitada, serão abençoadas todas as nações (Gn 12,3). Deve-se notar que, devendo provar a bênção, diz "justifica pela fé", entendendo que onde precede a justiça, aí por necessidade se segue a bênção. O que aqui chama bênção entende o mesmo que promessa, testamento, herança. Além disso, deve-se ver que não é em ordem incongruente que pela fé se tem primeiro o Espírito, depois a justiça, por fim a bênção; depois da fé, com efeito, logo é dado o Espírito, sem o qual ninguém pode obrar bem; depois, pelo Espírito que ajuda, seguem-se as obras da justiça; depois da justiça segue-se a bênção, isto é, a retribuição das obras justas.

E porque a Escritura diz que se alcança a bênção pela fé, mediante a justiça, portanto os que são da fé, isto é, que põem o seu ser na fé, o que certamente fizeram Davi e muitos outros, que, estando sob a lei, tinham de subsistir, contudo, pela fé; esses que são da fé serão abençoados com o fiel Abraão, não circuncidado mas fiel, isto é, não pela lei, mas pela fé: nem se deve omitir isto: que Abraão foi justificado pela fé antes de ser circuncidado. Na verdade só pela fé se tem a bênção; pois pela lei não se tem, antes a maldição, todos os que são, isto é, que creem subsistir, das obras da lei, estão debaixo de maldição. E o prova: na verdade estão debaixo de maldição; pois está escrito no Deuteronômio, isto é, no resumo da lei, quando Moisés recapitulou brevemente a lei dada, e, reunidos todos os preceitos, depois diz: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro desta lei, não digo permanecer em vontade, mas de modo a cumpri-las. E Moisés, dizendo isto, era o mesmo que dissesse: esta lei não vo-la entrego para terdes nela justificação, mas para deprimir a vossa dureza; e sabei que deveis fugir para a graça, para que a graça de Cristo anule a maldição da lei. O próprio Pedro diz que é tanto o peso da lei que nem eles nem seus pais o puderam carregar (At 15,10).

Provou agora, por Abraão e Moisés, que a justiça e a bênção se têm pela fé; que ambas vêm da fé prova de novo por Habacuc: e deve-se considerar como sempre antepõe a fé à lei, e por Abraão, que foi antes da lei, e por Moisés, doador da mesma lei, e por Habacuc, que vivia sob a própria lei. Pela fé se tem a justificação: que, porém, na lei ninguém é justificado, não digo na estima dos homens, mas diante de Deus, é manifesto em Habacuc (cap. 2,4); porque diz que pela fé o homem se faz justo, e o justo vive, isto é, apreende a bênção prometida; e se só pela fé o justo vive, então não pela lei. Objetaria alguém: é verdade que pela fé o homem deve ser justificado, mas a lei ajuda a fé e de certo modo é necessária à fé. Ao que infere: o justo vive da fé, não da lei; a lei, porém, não é da fé, isto é, não depende da fé, nem é auxílio algum à fé. Mas quereis saber o que faz melhor? Isto: quem as cumprir, isto é, quem fizer o que a lei preceitua, viverá por elas, isto é, o que tem lhe será perdoado, mas nada lhe será aumentado pelo mérito da lei.

Porque dissera acima: maldito todo aquele que não cumprir os preceitos da lei, diria aquele: visto que Moisés assim diz, embora estejamos na fé, é necessário, contudo, que cumpramos a lei, para não incorrermos na maldição de Moisés. Contra isto Paulo: embora Moisés tenha maldito todo aquele que não cumpre a lei, não adirais, contudo, por isso à lei; Cristo, com efeito, nos resgatou da maldição da lei; o que também Moisés, quando maldizia, entendeu. Resgatou-nos Cristo, tornando-se por nós, para nos resgatar, não só maldito, mas maldição; se alguém dos crucificadores de Cristo quisesse maldizer a outro, maldizia dizendo: assim te aconteça como àquele crucificado. Na verdade por nós se fez maldição; porque está escrito no Deuteronômio: Maldito todo aquele que é pendurado no madeiro (Dt 21,23). Cristo, porém, pendurado no madeiro, não certamente por culpa de crime próprio, mas só foi maldito porque suportou a pena do maldito; Moisés, com efeito, mandara que, se algum réu fosse condenado, na própria condenação fosse maldito. Ou assim: maldito todo aquele que é pendurado no madeiro; Deus, com efeito, criado o primeiro homem, abençoou-o, se perseverasse na obediência, mas, porque pecou, maldisse-o; maldizer não foi senão despojá-lo da impassibilidade e imortalidade concedidas: Cristo, porém, assumindo a carne do velho Adão, foi maldito, porque passível e mortal; o que nele foi manifesto, quando pendeu no madeiro, não poderia, com efeito, padecer se fosse impassível.

Objetaria aquele gentio: embora Cristo tenha desfeito a maldição da lei, a nós, que não temos a lei, em nada aproveitou. Contra isto Paulo: Cristo nos resgatou para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus, como entre os judeus, isto é, a repromissão de Abraão, a ter em Cristo Jesus, não pela lei; viesse, digo, a promessa de modo que recebêssemos a promessa, isto é, a coisa frequentemente prometida; promessa, digo, do Espírito, isto é, feita a nós pelo Espírito, ou então, do Espírito, porque já recebemos o Espírito Santo, pelo qual já em parte somos deificados, arras da bem-aventurança a ter: recebêssemos, digo, não pela lei, mas pela fé.

O que agora provou pela autoridade da lei e do Profeta, a saber, que se recebe a bênção pela fé, prova o mesmo pela lei do costume humano, dizendo: assim como o testamento de qualquer homem, feito legalmente, não pode ser destruído, assim a lei não pode tornar vão o Testamento de Deus. Se objetarem que a lei é mais antiga que este Testamento e que o velho não deve ser destruído pelo novo, nada dizem, pois esta promessa foi feita a Abraão muito antes da lei. A letra liga-se assim: o que agora provei por autoridades, o mesmo, irmãos, agora digo à maneira humana, isto é, afirmo pelos costumes humanos assim: o testamento de homem, ainda que de qualquer homem vil, contudo este testamento confirmado, isto é, legalmente feito, com testemunhas, o testador a morrer, etc., este testamento ninguém despreza, de modo a deixá-lo sem cumprir, ou ninguém sobre ele ordena outro testado; e como o testamento de homem ninguém destrói, assim a lei não torna vão o Testamento de Deus. Antes de pôr isto, antecipa que na verdade o Testamento de Deus foi feito, e depois que o Testamento foi mais antigo que a lei: o testamento de homem ninguém despreza, o Testamento, porém, foi feito por Deus, porque as promessas foram feitas a Abraão — não diz que as promessas fossem de coisas diversas, mas o mesmo foi prometido em muitas repetições e em diversos tempos —; as promessas foram feitas a Abraão, e por Abraão foram ditas à sua descendência, isto é, a Cristo; como quando se promete ao pai a fecundidade dos filhos, o aumento da herança, embora o filho dele ainda não exista, na pessoa do pai se faz a promessa ao filho. A promessa foi feita à descendência, isto diz, e não diz "às descendências"; ou assim: diz "à descendência", não diz "nas descendências", como se em muitas devessem herdar os gentios, mas como a uma só: e à tua descendência, isto é, na tua descendência herdarão os gentios; que é Cristo: é boa a relação [por "que"], porque segue o próprio.

Aqui mostra que o Testamento de Deus foi feito a Abraão, agora mostra que o Testamento é mais antigo que a lei: digo, as promessas feitas a Abraão; do mesmo digo que este Testamento foi confirmado por Deus; jurou, com efeito, Deus que o cumpriria; este Testamento, digo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não o anula; se o testamento de qualquer homem não se torna vão, quanto mais o Testamento de Deus, que prometeu com juramento, e a Abraão, tão grande homem, e com tanta antiguidade de tempo, não será vão: a lei não o anula de modo a abolir a promessa, isto é, para que se aboli a promessa. O que diz "a lei não torna vão", assim devemos entender que torna vão que a própria lei justifique, dê a bênção, como foi prometido a Abraão que se faria pela fé.

Na verdade a promessa seria abolida, se o Testamento fosse tornado vão pela lei; pois se a herança vem da lei, o que, contudo, não pode ser, se da lei, já não vem da promessa; se não vem da promessa, falso é Deus que prometeu: se isto assim é, portanto nem de modo algum se tem. Mas Deus que prometeu é verdadeiro; portanto vem da sua promessa e não da lei. Se da lei, não da promessa; mas vem da promessa: na verdade da promessa, porque Deus a concedeu a Abraão por promessa, portanto não pela lei. E porque provo que pela lei nem se tem a justiça nem a bênção, portanto objetar-me-eis: que é a lei? Em vão parece ter sido dada, já que nem justifica nem salva. É verdade, diz Paulo, que nem justifica nem salva, e, contudo, não é por isso inútil, porque foi acrescentada por causa das transgressões a multiplicar; acrescentou, com efeito, o pecado de prevaricação, que não havia. E era necessário que abundassem as transgressões: «Onde abundou o delito, superabundou a graça» (Rm 5,20). Ou assim: a lei foi acrescentada para evitar as transgressões; a lei, com efeito, punindo o réu, faz temer o pecado.

De novo aquele: se por causa das transgressões, logo a lei útil deve ser mantida. De modo algum, diz Paulo, porque a lei foi posta para um tempo, até que viesse a descendência, isto é, Cristo, de que diz: «Na tua descendência, etc.»; a quem foi feita a promessa, isto é, a promessa foi feita: a lei, digo, ordenada, isto é, não permanente, mas disposta no tempo segundo a sua ordem; primeiro, com efeito, a lei natural, depois esta lei escrita, por fim a graça; ordenada, digo, por anjos, isto é, por Moisés e Aarão, que foram núncios de Deus ao povo, ou então, pelos Anjos celestes, por cujo ministério foi entregue a lei a Moisés.

De novo aquele: o que foi feito por Anjos, destruí-lo é mau. Contra isto Paulo: assim, digo, ordenada por anjos pela mão de um mediador, isto é, em poder do mediador Cristo; os Anjos, com efeito, quem quer que fossem, quiseram isto, que, vindo a fé, fosse abolida a lei. E porque acabara de dizer "mediador" (quem é meio, unindo duas extremidades, parece, com efeito, ser diverso daquelas que une), para que não se julgasse que Cristo, sendo mediador entre Deus e o homem, ou não era Deus, mas outro que Deus, a quem unia o homem; ou, se Deus fosse, se julgassem dois, um que unisse no meio as duas extremidades, outro Deus a quem se unisse o homem. E para remover isto acrescenta: digo mediador; o mediador, concedo que não é de um só, mas de duas extremidades, porque por um só não se diria meio; e embora não seja mediador de um só, mas de dois, nem por isso se segue que sejam dois Deuses, Deus, porém, é um só. Ou de outro modo: a lei foi posta na mão do mediador; este mediador, porém, não é de um só, isto é, apenas do povo judaico, mas é um só, isto é, igualmente do gentio como do judeu. Isto consta daí, porque Deus é tão bem do gentio como do judeu.

Infere do que precede: porque o testamento de homem ninguém despreza ou acrescenta algo; o Testamento, porém, foi feito antes da lei: logo a lei não destrói as promessas de Deus. Mas isto põe em interrogação assim: então a lei é contra as promessas de Deus? deve-se confessar que a lei é contra as promessas de Deus, de modo que pela lei se tenha o que pela fé se promete? De modo algum que a lei assim se oponha às promessas de Deus, a ponto de efetuar a bênção, que se promete pela fé. Na verdade a lei não é contra as promessas de Deus, de modo a poder dar a bênção; pois se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar, isto é, de dar a bênção prometida, então realmente a justiça viria da lei; se, com efeito, a justiça não precede, a bênção não pode ser apreendida: mas da lei não vem a justiça; a Escritura, com efeito, encerrou, isto é, mostrou encerrado; ou então, a Escritura, isto é, a mesma lei, e pelo pecado acrescentado, como que violentamente encerrou, e mostrou encerrados tudo debaixo do pecado. Por isso tudo foi encerrado debaixo do pecado, para que, assim encerrados, cressem, e a eles, por fim crentes, fosse dada a promessa, isto é, a bênção prometida, não pela lei, mas pela fé em Jesus Cristo; poderia, com efeito, julgar-se que, embora cressem, não receberiam, contudo, a bênção pelo mérito da fé. Por isso encerrou tudo debaixo do pecado, para que cressem; se os homens, com efeito, não fossem de tal modo atados sob o vínculo do pecado que nem com suas forças pudessem respirar, nunca recorreriam à misericórdia que consiste na fé.

Mas, embora a lei não possa vivificar, foi, contudo, oportuna; porque, antes que viesse a fé, nós, judeus postos sob a lei, éramos guardados, isto é, éramos nutridos sob a custódia da lei para a graça que viria: sob a lei, digo, encerrados, isto é, constritos no cárcere como servos; ameaçava, com efeito, pena, não prometia repouso: éramos guardados, digo, para passar desta custódia à fé que havia de ser revelada, então velada nas figuras da lei, por Cristo. E porque sob a lei éramos guardados para a fé, assim a lei foi nosso pedagogo em Cristo, nutrindo-nos para sermos postos em Cristo; por isso em Cristo, para que nós, judeus, sejamos justificados pela fé de Cristo, não pela lei. Pedagogo diz-se o nutridor do menino, que sempre segue os seus pés: igualmente a lei foi nosso pedagogo, nutrindo a nossa meninice e simplicidade, como costuma o menino ser nutrido com açoites e ameaças. Nós éramos meninos sob o pedagogo; mas, vinda (isto é, depois que veio) a fé, isto é, a maturidade dos costumes, e já somos adultos, nós, judeus, já não estamos sob o pedagogo, isto é, sob a lei. Por isso nós, judeus, não estamos mais sob a lei, porque todos vós, gálatas gentios, sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, não menos que nós; e se nada menos tendes diante de Deus pela fé do que nós, em vão manteríamos a lei, que por nós se prova nada nos conferir. Se nós, judeus, a lei, por inútil, a deixamos, certamente vós que não a tivestes, seria insânia apreendê-la.

Digo bem que sois filhos de Deus em Cristo Jesus; todos, com efeito, que fostes batizados em Cristo, isto é, na instituição de Cristo Jesus, de Cristo vos revestistes. Diz revestir; o homem, com efeito, nu pelo pecado, sofre penúria e ignomínia; mas no batismo, vindo a Cristo, reveste-se dele tanto para cobrir a sua nudez quanto para glória. Digo bem "todos"; não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, isto é, nem nação, nem condição, nem sexo diferente há na fé de Cristo; todos vós, com efeito, sois um só corpo pela fé em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, sendo Cristo de Abraão (acima, com efeito, foi dito: e à tua descendência, que é Cristo), logo, por Cristo, vós, gentios, sois descendência de Abraão; e se descendência, herdeiros da sua bênção, não pela lei, mas segundo a promessa.

Capítulo 4

Digo, pois: Enquanto o herdeiro é menino, em nada difere do escravo, ainda que seja senhor de tudo; mas está sob tutores e administradores até o tempo marcado pelo pai: assim também nós, quando éramos meninos, estávamos servilmente sujeitos aos elementos do mundo. Mas, quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai. Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, és também herdeiro por Deus. Mas então, ignorando a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Agora, porém, que conhecestes a Deus, ou antes, fostes conhecidos por Deus, como voltais de novo aos elementos fracos e pobres, aos quais quereis servir de novo? Observais dias, meses, tempos e anos. Temo por vós, não tenha eu trabalhado em vão entre vós. Sede como eu, porque também eu sou como vós; irmãos, eu vos rogo: em nada me ofendestes. Sabeis que foi por uma enfermidade da carne que vos anunciei o Evangelho da primeira vez, e não desprezastes nem rejeitastes a prova que isso foi para vós na minha carne; antes me recebestes como um Anjo de Deus, como a Cristo Jesus. Onde está, pois, a vossa felicidade? Pois dou-vos testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os vossos olhos e mos teríeis dado. Tornei-me, então, vosso inimigo, por vos dizer a verdade? Eles têm zelo por vós, mas não de boa maneira; querem excluir-vos, para que vós tenhais zelo por eles. É bom, porém, ter zelo no bem, sempre, e não só quando estou presente convosco, meus filhinhos, por quem sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós. Quisera estar agora convosco e mudar de tom, porque estou perplexo a vosso respeito. Dizei-me, vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, pela promessa; o que foi dito por alegoria. Estas são, pois, as duas alianças. Uma, do monte Sinai, que gera para a escravidão: é Agar; pois Sinai é um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém de agora, a qual é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém de cima é livre, e é a nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não davas à luz; rompe em brados, tu que não sentias dores de parto, porque são mais numerosos os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido (Is 54,1). Nós, irmãos, somos, à maneira de Isaac, filhos da promessa. Mas, como então o que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o espírito, assim também agora. Mas que diz a Escritura? Expulsa a escrava e o seu filho; pois o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre (Gn 21,10). Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre, com a liberdade com que Cristo nos libertou.

Comentário

No mesmo ponto que acima provou ainda se demora; assim como, com efeito, provou que não se devia voltar à lei, porque foi pedagogo, e para os perfeitos na fé não há necessidade de pedagogo; o mesmo prova ainda por outras razões, a saber, que os judeus não devem mais operar sob a lei, porque a lei esteve no lugar de tutor e administrador; de cujo tutor e administrador a maturidade da fé não precisa. E isto prova pela semelhança do pupilo, que o pai, ao morrer, dispõe que fique sob tutor e administrador, até que a maturidade da idade o faça digno da liberdade. Tutor do menino diz-se quem o defende contra o que o impugna, para que não possa ser deserdado; administrador do menino diz-se o mesmo ou outro, mas por causa diversa, a saber, porque trata e dispensa os bens do pupilo, paga os tributos, responde por ele nas causas. A lei igualmente se diz tutor e administrador; os homens, com efeito, tendo pouco conhecimento divino, e nele bastante miseráveis e pupilos, precisavam antes da lei que os constringisse como servos, para que, nutridos sob esta constrição, migrassem à perfeição da fé; e então a lei lhes era tutor pelos preceitos que dava, dizendo: não faças isto nem aquilo; se o fizeres, morrerás de morte. Assim, pelos preceitos dados, a lei os tutelava e defendia contra os vícios que irrompiam, dos quais cessavam por temor, ainda não por amor. A lei era também administrador do mesmo povo, pelos sacrifícios com que se tratava junto a Deus, para serem expiados dos pecados. A letra liga-se assim: não só por aquilo que foi antecipado, a saber, que a lei foi pedagogo, provo que não se deve permanecer mais sob a lei, mas também porque a lei esteve no lugar de tutor e administrador; de que, porque já não precisamos, é injusto manter a lei. Ou de outro modo liga-se, para que haja sentença adversativa, assim: porque somos um em Cristo e pela fé somos descendência de Abraão, é verdade que por isso não devemos já manter a lei; mas foi, contudo, necessária, enquanto de tutor e administrador ainda precisávamos como pupilos: e segundo esta continuação a causa que antes não fora dada agora será suprida.

Dissera, sim, que não era mais preciso o pedagogo, mas não pusera a causa; que aqui acrescenta, dizendo: embora vós agora, um em Cristo, não precisais de pedagogo, digo, contudo, que já precisastes, como vedes que, por quanto tempo segundo a disposição do pai, o herdeiro é menino, este que há de ser herdeiro; por quanto tempo, seja vinte anos, seja quinze, é menino, embora seja destinado a herdeiro, contudo em nada difere do escravo, porque muitas vezes é constrangido e açoitado pelo seu tutor: ainda que, isto é, embora haja de ser senhor de tudo, em nada difere, mas aquele pupilo está sob tutores, que defendem a sua herança para que não seja violentamente arrebatada, e administradores, que tratam as causas por ele e dispõem da sua herança. Está certamente sob eles até o tempo marcado pelo pai, isto é, enquanto o pai o constituiu estar sob direito alheio: era, com efeito, costume que até vinte e cinco anos o jovem estivesse sob patrono, para que não dissipasse ilicitamente a sua substância.

Porque Paulo não adapta toda a semelhança, é bom que adaptemos cada ponto: por quanto tempo (isto foi desde o primeiro homem até Cristo) o herdeiro, que há de ser herdeiro, a saber, o povo judaico, a quem foi prometida a salvação; enquanto este herdeiro é menino, em todo o tempo até Cristo, foi menino no conhecimento de Deus; e, sendo menino, em nada difere aquele povo do escravo: se fizesse os preceitos, com efeito, evitava a pena; se não, era atormentado asperrimamente como escravo; em nada difere entretanto do escravo, embora haja de ser senhor de todos os bens da herança: assim aquele povo, premido pela servidão da lei, se da lei passasse à fé, devia ser constituído senhor da herança celeste. O menino em nada difere do escravo, mas está sob tutores e administradores, isto é, sob a lei que o tutela pelos preceitos e age por ele pelos sacrifícios. Está certamente sob eles até o tempo marcado pelo Pai, em que tempo da servidão da lei seria transferido à liberdade da fé.

E assim como o menino herdeiro está sob tutores e administradores, assim também nós, quando éramos meninos no conhecimento de Deus, estávamos não livres mas servilmente sujeitos aos elementos do mundo, isto é, às coisas legais; porque, assim como o menino pelos elementos do alfabeto passa ao conhecimento das letras, assim pela lei se devia passar ao conhecimento de Deus, a ter na fé[1]; estávamos sob os elementos do mundo, isto é, que a lei prometia coisas mundanas e ensinava carnais. Antes assim éramos meninos; mas quando (isto é, depois que) veio a plenitude do tempo, ou o tempo da plenitude; plenitude porque quanto fora esperado nos séculos passados, então se completou; então, com efeito, a perfeita justificação, que antes não fora; então a presente e plena salvação, que antes daquele dia esperava Abraão com os demais santos; ou de outro modo: depois que veio a plenitude, isto é, o fim e a consumação do tempo, que Deus constituíra primeiro passar, então Deus enviou o seu Filho[2]; Filho, digo, a quem tanto humilhou que nascido de mulher, isto é, que aquele que era incriado e sempiterno quis receber nova criação de mulher; nascido sob a lei, porque viveu sob a lei e cumpriu a lei, quando por ele foi dada a hóstia: por isso sob a lei, para resgatar, dado o preço do sangue, os que estavam sob a lei — se não se fizesse sob a lei e a observasse, com efeito, não poderia libertar da lei e destruir a lei, como convinha que, provando a morte, destruísse a morte —; a fim de resgatar, e para que, resgatados, recebêssemos a adoção de filhos, isto é, fôssemos filhos recebendo a adoção, isto é, a herança eterna que a graça de Deus nos adotou.

Onde diz "nascido de mulher", pergunta-se, sendo Deus todo em toda parte, como teria estado mais no útero da Virgem. Para isso os santos põem semelhança tal: que, assim como a alma, enquanto está no corpo, sensibiliza o próprio corpo, o rege e faz viver; separada do corpo, em outro lugar está igualmente toda, e não faz ali, contudo, o ofício; assim a Divindade, embora esteja toda em outra parte como no útero da Virgem, não se segue, contudo, que opere em outro lugar o mesmo que no útero da Virgem. Acima devíamos ter notado que, assim como aquele menino, se morre antes de chegar aos anos maduros, perde a herança; assim quem da lei não quiser passar à maturidade da fé, fica privado da herança.

Dir-me-iam os gálatas: vós, judeus, certamente recebereis a adoção de filhos; mas que nos aproveitará a nós? A isto Paulo: não só nós somos filhos, mas que vós, gentios, igualmente sois filhos, prova-o isto: que Deus enviou o Espírito de seu Filho, isto é, o mesmo que o Filho teve, ou que o Filho deu; enviou, digo, aos nossos corações, isto é, ao meu e aos vossos; Espírito, digo, que clama, isto é, nos faz clamar: Abba, os judeus; Pai, os gentios. E visto que ambos somos filhos e clamamos; assim, já não há alguém escravo, mas filho: e se filho, será também herdeiro da herança bem-aventurada; e que assim será, tomo-vos por testemunha por Deus; ou assim: será herdeiro por Deus, isto é, pela misericórdia de Deus, não pela lei.

Agora reconduz-lhes à memória o estado anterior que tiveram no culto dos ídolos, provando que em vão deixaram os ídolos, se aceitam a lei; a lei, com efeito, é já idolatria desde que veio a graça, porque quem julga a lei necessária para justificar, derrogando a Deus, atribui à lei o que é de Deus, como os idólatras atribuíam ao ídolo o que era de Deus: agora, se aceitam a lei, será pior que antes; então, com efeito, por ignorância, agora, porém, sabendo e prudentes, meterão a mão no fogo. A letra liga-se assim: agora sois filhos, mas então, antes da conversão, [ignorando a Deus] servíeis aos que não eram deuses, e se por opinião, não por natureza. Então servíeis assim, mas agora, que conhecestes a Deus (contra o que diz "ignorando"); ou antes, fostes conhecidos, isto é, aprovados por Deus, como, isto é, por que razão, voltais de novo, porque outrora estáveis no mesmo, aos elementos, isto é, àquelas coisas legais fracas, isto é, impotentes mesmo no seu tempo para justificar quem quer que seja; e mesmo nesta fraqueza pobres, isto é, necessitadas de auxílio alheio? isto, com efeito, o pouco que se fazia, sem o auxílio da fé futura não podia: aos quais quereis servir de novo; a lei, com efeito, de agora em diante será para vós o mesmo que foi outrora o ídolo.

Na verdade voltais à lei; pois já observais dias, isto é, sábados; observais também meses, isto é, as novas luas, e tempos, isto é, os jejuns dos hebreus estabelecidos em tempos; observais também anos, isto é, o sétimo ano e o jubileu, ao modo dos hebreus. E porque assim agis, temo por vós, isto é, nada tanto temo em vós como por vós; temo, digo, não tenha eu talvez (o que logo pode acontecer) trabalhado em vão entre vós, isto é, sem fruto de utilidade. Mas, para que não aconteça que eu tenha trabalhado em vão, sede como eu, não vos importando com coisas legais, porque também eu fui outrora legal, como vós quereis ser, e abandonei: vede agora quão insensatamente o quereis. Ou assim: sede como eu, porque eu sou como vós, vivendo como gentio.

Imputava-se a Paulo por aqueles falsos apóstolos que odiava os gálatas e por isso não lhes abrira toda a verdade: do que agora se escusa e os louva pela conduta anterior, em que se mostraram muito benignos a Paulo; por isso também assim lisonjeia, porque depois de poucas palavras os vai atacar mais asperamente. A letra liga-se assim: sede como eu; e rogo-vos, irmãos, que sejais meus irmãos, tendo afeto piedoso para comigo; em nada, com efeito, me ofendestes, por isso eu, odiando-vos, devesse ter calado a verdade. Em nada me ofendestes; mas sei, e vós bem sabeis, que foi por uma enfermidade da carne que vos anunciei o Evangelho da primeira vez, não, contudo, do espírito; porque, se eu era fraco e desprezível segundo a carne, na virtude do Espírito pelos milagres aparecia forte. Preguei por enfermidade; e não por pouco tempo, mas da primeira vez, de modo que a minha enfermidade vos podia ser tédio. E, apesar de tamanha enfermidade me oprimir, vós, contudo, não desprezastes nem rejeitastes, quando preguei, a prova que isso foi para vós na minha carne, quando primeiro vim a pregar; na minha enfermidade, com efeito, Deus vos provava; como se dissesse: se desprezam a enfermidade de Paulo, são réus; se a recebem benignamente, são dignos. Rejeitar é mais que desprezar, como lançar fora totalmente é mais que desprezar padecendo. Não me desprezastes, antes me recebestes como um Anjo de Deus, como a Cristo Jesus. E, como por isso aparece que não há causa alguma de ódio, mas muita de amor, mal sente quem suspeita que me tornei inimigo vosso.

E porque na minha acolhida fostes tão benignos, onde está, pois, a vossa felicidade, de modo que antes assim obedecêsseis ao Evangelho? E na verdade felicidade, porque dou-vos testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os vossos olhos e mos teríeis dado: entende-se "ser possível" o que é oportuno fazer-se. E porque estáveis ligados a mim por tanta força de amor, portanto não se deve crer que me tornei vosso inimigo; o que julgais por isso: que vos digo a verdade: se calasse a verdade e vos acariciasse com lisonjas, assim me julgaríeis amigo. Eu não sou vosso inimigo; mas eles têm zelo, isto é, amam-vos não bem, mas porque querem excluir-vos da fé de Cristo, de modo que, depois que vos tiverem levado mais plenamente ao seu erro, tenhais zelo por eles e exijam de vós imperiosamente o que quiserem. Mas não tenhais zelo por eles, tende-o por mim e por qualquer bom, e nunca no mal, se por acaso eu persuadir, mas sempre no bem; e não só quando estou presente convosco tende zelo por mim, mas também quando estiver ausente.

O mesmo que acima provou, a saber, que a lei não deve ser mantida, ainda prova pelas palavras da própria lei; como depois mostra, vinda a liberdade da fé, deve repudiar-se a servidão da lei. A letra liga-se assim: tende zelo por mim e por qualquer bom; por eles, porém, não tenhais zelo; se quereis ter zelo por eles, ó meus filhinhos,... dizei-me; até aí pende a construção. Aos que antes eram filhos segundo a integridade da fé, chama por diminutivo filhinhos, porque, querendo aderir aos perversos, estavam muito diminuídos no bem da filiação. Filhinhos meus, por quem sofro de novo as dores de parto, isto é, por cuja instrução trabalho com máximo esforço — diz-se parturir aquele trabalho que a mãe padece na emissão do menino, antes que o menino seja dado à luz —; por quem sofro de novo; outrora, com efeito, quando éreis infiéis, tive muito trabalho em vós: sofro dores de parto e trabalho em vós até que Cristo seja formado em vós, em cuja fé estais deformados, porque àqueles falsos apóstolos ao menos consentistes; nem diz "até que sejais reformados", mas "até que Cristo seja formado em vós"; Cristo, com efeito, foi deformado e perdeu a sua forma em vós seduzidos; ou então, foi deformado em vós, isto é, à vossa semelhança; ouvindo, com efeito, outros como detraís da fé de Cristo, dizem pelo vosso exemplo que a fé de Cristo é insuficiente para a salvação. Para mais os atemorizar, agravou o dito ao dizer "até que Cristo seja formado", que, como se dissesse, deformastes. Chamo-vos filhinhos; mas, embora ausente vos chame filhinhos, quisera, contudo, agora estar presente convosco, e assim mudar de tom; porque, se agora vos chamo filhinhos, presente diria que sois estranhos, detratores de Deus, e muitos outros opróbrios; que Paulo, embora os dissesse se estivesse presente, não quis, contudo, escrever na Epístola, sabendo que a Epístola permaneceria e, confiando na correção deles, cujo vitupério não quis que durasse: e com razão, uma vez que haviam de ser corrigidos. Se estivesse convosco, mudaria o tom, por isso porque estou perplexo, isto é, envergonhado, a vosso respeito; louvara, com efeito, a vossa fé diante de outras Igrejas, que, ouvindo a corrupção da vossa fé, julgam-me réu de mentira, e disso me envergonho: vós, filhinhos meus, dizei-me. Ou, se agrada, não é preciso estender até lá, continuando assim: tende zelo por mim: o que certamente deveis, porque vós sois meus filhinhos por quem sofro de novo as dores de parto, etc.: a sentença das palavras não muda.

E porque estou perplexo a vosso respeito, seduzidos, dizei-me agora e respondei-me: vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei? Faz-lhes um dilema que fere de ambos os lados; porque, se não leram a lei, é insensato passar ao que não sabem; se, porém, leram, uma vez que a mesma lei, vinda a fé, proíbe que seja mantida, muito desatinam os que a querem manter. O outro membro do dilema prossegue, contudo, a saber, se leram a lei.

Dir-me-iam: que importa se lemos a lei? Por isso pergunto se lestes, porque a própria lei abertamente insinua que não deve ser mantida; está escrito, com efeito, na lei que Abraão teve dois filhos. Estas palavras, porém, não se encontram assim no Gênesis, mas de igual valor. Muitos filhos teve Abraão, mas destes dois foi conveniente figura para a fé e a lei; dos quais dois filhos Moisés descreveu tudo até o fim, o que não fez dos demais. Porque Paulo não segue a alegoria em cada ponto, é bom que a abramos com as mesmas palavras: Abraão, que se interpreta "pai de muitas nações", tendo dois filhos, isto é, dois povos, significa Deus tendo dois filhos, o gentio e o judeu; não, contudo, que cada um deles seja filho de Deus, a não ser os que em um e outro povo forem achados dignos. Abraão teve dois filhos, um da escrava, isto é, Ismael de Agar, e um da livre, isto é, Isaac de Sara. O filho da escrava significa o povo judaico, filho da escrava, isto é, da lei; os quais se dizem bem filhos da escrava, que como servos serviam por temor da pena e amor das coisas carnais em coisas carnais: o filho da livre, porém, significa o povo fiel, que na liberdade da fé serve a Deus por amor, não por temor, nem por causa dos temporais, mas dos eternos. E, embora ambos fossem filhos de Abraão, nasceram, contudo, de modo diverso; o da escrava, a saber, Ismael de Agar, nasceu segundo a carne, porque Agar era jovem e fecunda: igualmente o povo legal nasceu da escrava, isto é, da lei, segundo a carne, porque servia em coisas carnais e por amor das carnais; se pecasse, temia logo ser punido na carne. O filho da livre, porém, a saber, Isaac de Sara, nasceu não segundo a carne, Sara, com efeito, era velha e estéril, mas pela promessa de Deus; Deus, com efeito, como piedosamente prometera, faz nascer, por sua virtude, um filho de estéril e decrépita: igualmente o povo fiel, que foi da livre, isto é, nascido da fé que é livre, por amor, não como da escrava, por temor. Este povo nasceu pela promessa, porque Deus misericordiosamente prometera que faria a salvação pela fé: era por promessa, porque não serve a Deus por desejo das coisas carnais que vê, mas por amor das espirituais que ninguém viu, mas confia que terá só pela promessa de Deus.

Todas estas coisas, a saber, que Abraão teve dois filhos, este da escrava segundo a carne, este da livre pela promessa, foram ditas por alegoria, isto é, por outro entendimento que o literal deve aqui ter. Ele mesmo, contudo, não prossegue a alegoria de cada um, a não ser só da escrava e da livre. Na verdade foram ditas por alegoria; estas, com efeito, isto é, a escrava e a livre, são, isto é, significam as duas alianças, a antiga e a nova: uma, na verdade, aliança, isto é, a lei que gera filhos para a escravidão, porque serviam tanto por temor da pena quanto por coisas carnais; aquela uma, digo, dada no monte Sinai; ali, com efeito, a lei foi dada no deserto. Sinai interpreta-se "mandamento", e por monte tomamos a altura da soberba, para que digamos: gerando para a escravidão no monte Sinai, isto é, na soberba do mandamento; os judeus, com efeito, que sós tinham a lei, ensoberbeciam-se, dizendo-se povo de Deus, os outros não povo, mas cães. Uma aliança foi dada no monte Sinai, que é Agar, isto é, aquela aliança significa Agar (a relação é boa por "que", porque segue o próprio do gênero feminino): Agar interpreta-se "alienação", insinuando pelo próprio nome que a antiga aliança deve ser alienada e destruída. O mesmo significou o fato de que não na terra da promessa, mas no deserto foi dada, que nunca pelas obras desta lei viriam à verdadeira terra da promessa; pelo fato, com efeito, de, estando no cativeiro, receberem esta lei, significava-se que a lei dada no cativeiro os gerava para a servidão, nunca pelas obras da lei viriam à liberdade.

Na verdade para a servidão; pois Sinai é um monte da Arábia. O mesmo insinua o entendimento alegórico; Arábia, com efeito, interpreta-se "humildade" ou "aflição"; por isso dizemos assim: o monte Sinai está na Arábia, isto é, o mandamento e a soberba estão nos aflitos ou, o que é o mesmo, humilhados. Pelo fato de se ensoberbecerem do mandamento e de serem muitíssimas vezes afligidos pela lei como maus servos, aparece que aquela lei os gerava para a servidão. O monte Sinai está na Arábia; monte que corresponde, isto é, assemelhado, à Jerusalém, isto é, ao povo judaico que via a Deus; porque as outras nações naquele tempo ignoravam a Deus; Jerusalém, digo, de agora, isto é, que nas coisas presentes vê e cultua a Deus, não nas espirituais, e por isso não o verá no futuro — o monte corresponde, não que as suas raízes se estendam até Jerusalém, mas assemelhado aos judeus; porque pelo monte Sinai se significa a soberba deles, com que se ensoberbeceram do mandamento; pela Arábia se significa a aflição deles, com que, pecando pela lei, eram afligidos à maneira de servos —: a Jerusalém de agora, e que serve por temor da pena, não por amor; serve, digo, com seus filhos, isto é, com os prosélitos que da gentilidade passam à circuncisão; ou então, serve toda junta a Sinagoga com seus filhos próprios, este com um gênero de servidão, aquele com outro.

A Jerusalém de agora serve; mas a Jerusalém de cima, isto é, que não deseja as coisas carnais mas as espirituais, esta é livre, porque não serve por temor, mas por amor, nem procura temporais, mas eternas: esta é a Igreja da fé, que, Jerusalém superior, é a nossa mãe; a Igreja, com efeito, nos gerou para a liberdade da fé. Na verdade livre, porque se alegra, rompe em brados e clama; na verdade mãe, pois os seus filhos são muitos; o que diz assim: a nossa mãe é livre; pois assim dela está escrito em Isaías (cap. 54,1): Alegra-te, tu, Sara estéril, que agora não dás à luz; rompe em brados e clama, tu que não sentes dores de parto, isto é, que nem trabalhas em parir; por isso alegra-te, porque mais numerosos são os filhos da abandonada Sara do que os de Agar, que agora tem marido. Tinha Agar a Abraão pela coabitação, não, contudo, pelo amor; faltava a Sara a coabitação de Abraão, a quem, contudo, tinha pelo amor, porque a cultuava e amava como esposa legítima. Isaías, que veio longos séculos depois de Abraão, em vão falaria assim de Sara e Agar à letra; por isso assim se deve entender: na verdade é livre, pois assim diz Isaías: ó tu, Igreja estéril; porque algumas estéreis, que depois parem pela graça, como a mesma Sara e Isabel, por isso acrescenta: tu estéril, que não dás à luz, alegra-te no ânimo; rompe também em gozo exterior; e clama, isto é, convida os outros a alegrar-se contigo; tu, digo, que não só não pares, mas nem sentes dores de parto, isto é, carente de esperança no tempo da lei, não te esforças por parir. Provou que é livre; prova também que é mãe; a letra responde, contudo, ao próximo: por isso alegra-te, etc., porque os filhos da abandonada, isto é, da Igreja, que no tempo da lei foi abandonada por Deus quanto à coabitação, não quanto ao amor — no tempo da lei, também, Deus amou mais a liberdade da fé do que a servidão da lei —; os filhos, digo, da abandonada são mais numerosos que os filhos daquela lei que agora tem marido; então, com efeito, a lei gerava muitos; mas os que eram fiéis, como Moisés e os Profetas, vendo a dureza deles, nem sequer pensavam em instruí-los nas coisas espirituais, a quem viam cada dia transgredir nos mandamentos carnais: a lei tinha então marido, isto é, Deus pela coabitação, não, contudo, pelo amor. Há duas mães, uma livre, outra escrava; mas nós, irmãos, eu e quantos fiéis, somos filhos, não da servidão, mas da promessa, isto é, pela graça prometida de Deus, à maneira, isto é, à semelhança de Isaac, que nasceu não pela lei da carne, mas pela virtude da promessa divina. Mostra que nascemos à semelhança de Isaac, porque os mesmos sinais, cuja figura precedeu nele, veem-se hoje nos filhos da Igreja; e, contudo, a conjunção da letra se opõe deste modo: embora sejamos filhos da promessa, como então, no tempo de Abraão, o que nasceu segundo a carne, isto é, Ismael, perseguia o que nasceu segundo o espírito, a saber, Isaac — Ismael, com efeito, mais velho, batia em Isaac ainda tenro, a quem via que seria senhor e herdeiro seu —: assim também agora se faz, que os carnais perseguem e afligem os espirituais.

E porque, como Isaac era afligido por Ismael, assim nós, espirituais, somos afligidos pelos carnais, portanto, irmãos, por isso aparece que não somos filhos da escrava; fomos, sim, servos outrora sob a lei, mas já somos filhos da livre, isto é, da graça. Mas intercala algumas coisas dizendo: os que são segundo a carne nos perseguem, mas não se deve fazer caso; eles, com efeito, serão expulsos, e nós entraremos na herança; o que diz assim: que diz a Escritura? No mesmo Moisés se encontra que, tendo Sara visto Agar e seu filho se ensoberbecendo contra ela e Isaac, disse a Abraão: «Expulsa a escrava e o seu filho» (Gn 21,10); igualmente os filhos da graça dizem: Senhor, expulsa a escrava, isto é, a lei, e o seu filho, isto é, o povo judaico; não será herdeiro o filho da escrava, isto é, da lei, na prometida bem-aventurança com o filho da livre, isto é, da fé; assim como o filho de Agar, a escrava, não foi herdeiro com o filho de Sara, a livre. Portanto, irmãos, já não somos filhos da escrava (como foi exposto), mas da livre; com a liberdade, isto é, por esta liberdade que temos, Cristo, tendo a mesma, nos libertou por ela; embora, com efeito, Cristo tenha estado sob a lei, a lei, contudo, não dominou a quem não teve pecado, mas por só liberdade fez tudo o que fez.

Notas

  1. "Elemento" diz-se ou como "elevamento", porque por ele alguém se eleva à ciência; ou como "elimento", de elimo, elimas ("limar"); ou como hylementum, pois hyle é matéria.
  2. Como o Filho de Deus estava em toda parte, todo e presente, enviar não foi outra coisa senão que aquele que era invisível, na forma de servo se mostrou visível.

Capítulo 5

Permanecei firmes e não torneis a submeter-vos ao jugo da servidão. Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos circuncidardes, Cristo de nada vos servirá. Testifico, de novo, a todo homem que se circuncida que ele é devedor de cumprir toda a lei. Estais separados de Cristo, vós que vos justificais pela lei; decaístes da graça. Pois nós, pelo Espírito, pela fé, aguardamos a esperança da justiça. Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a fé que opera pela caridade. Corríeis bem; quem vos impediu de obedecer à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chamou. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Eu confio em vós, no Senhor, de que não pensareis de outro modo; mas quem vos perturba, quem quer que seja, sofrerá o julgamento. Quanto a mim, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que ainda sofro perseguição? Então fica anulado o escândalo da Cruz. Oxalá se mutilem os que vos perturbam! Pois vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; apenas não deis a liberdade como pretexto à carne, mas pela caridade do Espírito servi-vos uns aos outros. Pois toda a lei se cumpre numa só palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais consumidos uns pelos outros. Digo, porém: Andai no Espírito, e não satisfareis os desejos da carne. Pois a carne deseja contra o espírito, e o espírito contra a carne; porque estes se opõem um ao outro, de modo que não façais tudo o que quereis. Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, dissolução, luxúria, idolatria, feitiçarias, inimizades, contendas, rivalidades, iras, rixas, dissensões, seitas, invejas, homicídios, embriaguezes, orgias e coisas semelhantes a estas; as quais vos previno, como já vos preveni, de que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus. O fruto do Espírito, porém, é caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência, castidade. Contra tais coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a sua carne com os vícios e as concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito. Não nos tornemos cobiçosos de vã glória, provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.

Comentário

E porque somos filhos da livre e por Cristo apreendemos a liberdade, como se colige claramente da mesma lei, é insânia que quem é livre pela fé se faça servo pela lei. E por isso, porque sois livres, permanecei firmes, isto é, perseverai nesta liberdade da fé, e não torneis a submeter-vos ao jugo da servidão, isto é, a ser de novo triturados pelo fardo da lei: e digo bem "de novo"; porque, se vós, fiéis, vos circuncidais agora, é o mesmo que voltar aos ídolos a quem antes servíeis.

Dir-me-iam: não queremos aceitar toda a lei, senão apenas a circuncisão, que teve Abraão, que foi sem lei. Contra isto Paulo: não vos submeteis ao jugo da lei, porque Cristo, isto é, a fé de Cristo, de nada vos servirá, se vos circuncidardes; e eis que eu, Paulo, cuja autoridade é divulgada por toda parte, isto digo e vos afirmo: que, se vos circuncidardes, a fé de Cristo não vos aproveitará. Não só porque Cristo não vos aproveitará, mas também por causa do fardo insuportável da lei, não deveis circuncidar-vos; o que diz assim: testifico, de novo, isto é, ou como outrora, quando estava na lei, testificava, ou então, de novo, isto é, outra vez aduzo isto para o mesmo desaconselhar o que pelas premissas desaconselhava; testifico a todo homem que se circuncida que ele é devedor de cumprir toda a lei; a circuncisão, com efeito, exige que sigam as demais obras da lei, como a fé exige depois do batismo que sigam as obras da fé; e não julgueis que podeis circuncidar-vos sem carregar o fardo da lei por inteiro. Na verdade Cristo de nada vos servirá; pois se vos circuncidardes, estais separados de Cristo, isto é, tornou-se vã para vós a fé de Cristo. Dir-me-iam: preferimos separar-nos de Cristo a não nos circuncidarmos, como Deus mandou. A isto Paulo: não só de Cristo, mas decaístes também da graça de Deus, vós que vos justificais pela lei, isto é, buscais a justificação pela lei. Aqui determina bem como proíbe a circuncisão, a saber, para que por ela não busquem a justificação; embora tenha, contudo, deixado que Timóteo fosse circuncidado, para tirar de si a suspeita, ambos, contudo, Paulo e Timóteo, entendendo que a circuncisão nada confere à justiça. Na verdade ninguém é justificado na lei; pois nós, só os que somos da fé, aguardamos a esperança da justiça, isto é, a bem-aventurança que se espera da justiça; e que a nossa expectativa seja certa consta disto: que aguardamos pelo Espírito, que nos insinua assim esperar. Por isso só pela fé temos esperança; pois em Cristo Jesus, isto é, na fé de Cristo Jesus, nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas só a fé, que, contudo, não seja ociosa, mas opere, e não contumeliosamente, mas pela caridade de Deus e do próximo.

Só a fé vale em Cristo, e nesta fé corríeis bem, isto é, por amor, isto é, operáveis; mas quem vos impediu, persuadindo mal, de obedecer à verdade que de mim aprendestes? Para que obedeçais à verdade, não consintais a algum dos carnais; porque esta persuasão deles não vem daquele, isto é, segundo Deus, que vos chamou por sua graça ao reino. Por isso não consintais, porque um pouco de fermento, isto é, ou ao menos o consentimento, ou só a persuasão, ou aqueles poucos que mal persuadem; este pouco, digo, leveda toda a massa e a faz azeda, isto é, ou toda a Igreja ou todos os bens deles. Um pouco de fermento, na verdade, leveda toda a massa; mas vós não sereis corrompidos; eu, com efeito, confio em vós, e isto no Senhor, isto é, pela graça de Deus que coopera convosco, de que não pensareis de outro modo senão o que é são e eu vos ensinei. Vós não pensareis de outro modo; mas aquele que vos perturba, isto é, que torna turva a pureza da vossa fé com a mistura da infidelidade, esse sofrerá o julgamento, isto é, suportará a condenação, quem quer que seja, isto é, ainda que seja Pedro ou um Anjo do céu.

Agora responde ao que os falsos apóstolos imputavam, a saber, que antes destruía a circuncisão; mas agora, corrigido em Jerusalém por Pedro e pelos outros, pregava a circuncisão; o que comprova ser falso, dizendo: aqueles vos perturbam, mas eu não vos perturbo; se, porém, irmãos, como aqueles imputam, ainda prego a circuncisão — "ainda" porque, quando era judeu, a pregava —; se, digo, assim prego ainda, como desde o princípio da pregação, por que ainda sofro perseguição dos judeus? Pois, se (como imputam) prego a circuncisão, então fica anulado o escândalo da Cruz; os judeus, com efeito, escandalizavam-se de que eu pregasse que o homem se justifica pela só Cruz: se à Cruz misturasse a circuncisão e dissesse que de ambas se justifica, os judeus estariam aplacados comigo.

Eu não vos perturbo, mas aqueles vos perturbam; e oxalá não só a pelezinha do prepúcio, mas se mutilem inteiramente os que vos perturbam. Paulo não entende a amputação de membros, mas, como os testículos amputados não geram, assim sejam estes amputados, para que não possam gerar ninguém no seu erro. Perturbam-vos certamente, quando querem reduzir-vos à servidão da lei; pois vós, irmãos, fostes chamados à liberdade de Deus. Apenas vede que não deis a vossa liberdade como pretexto à carne, isto é, que não julgueis, por causa da liberdade, poder pecar mais licenciosamente. Não façais isto, mas servi-vos uns aos outros pela caridade do espírito, isto é, agindo por espiritual amor.

Tomada a ocasião, quer mostrar-lhes a facilidade da lei nova, que se cumpre numa só palavra, e por esta ocasião os repreende da detração, dizendo: servi-vos uns aos outros pela caridade; pois toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, como expusemos na Epístola aos Romanos (cap. 11). A lei preceitua o amor; se, desprezando a lei, vos mordeis uns aos outros, detraindo um do outro; e não só mordeis, mas também devorais, isto é, devorais inteiramente por inveja os bens do próximo; vede que não sejais consumidos, isto é, que não sejais devorados uns pelos outros, isto é, tu, porque detrais do próximo; aquele, porque detrai de ti.

Depois de provar bastante que a lei não deve ser mantida, começa agora a aprovar a fé e a graça. A letra liga-se assim: vede que não sejais consumidos segundo a persuasão da carne, mordendo-vos e devorando-vos mutuamente; mas digo-vos: andai no Espírito, isto é, completai obrando bem segundo o que vos exorta o espírito, isto é, a razão; andai, digo, no Espírito, e isto em Cristo, isto é, que só é lícito fazer por Cristo, e não outra coisa, para que se opere segundo a razão. Se estais em Cristo, andareis segundo o espírito: também daí provém outro bem, que não satisfareis os desejos da carne, ainda que sintais a impugnação, não os completareis em ato. Mas, embora não completeis, a carne deseja, contudo, contra o espírito; e assim sentis a impugnação. Ou digamos de novo: digo bem "os desejos da carne"; pois a carne deseja contra o espírito, e o espírito, isto é, a razão, deseja o que é contra a carne. Na verdade a carne e o espírito desejam um contra o outro; estes, com efeito, isto é, a carne e o espírito, se opõem um ao outro, não a carne à carne, nem o espírito ao espírito, mas mutuamente, isto é, a carne ao espírito, o espírito à carne; opõem-se de tal modo que não façais tudo o que quereis, quer carnais, quer espirituais: ninguém, com efeito, é tão justo que não caia por sua vez; ninguém tão mau que não se abstenha às vezes de algo que a carne persuade.

Disse que, se vivemos, podemos andar no Espírito; que, se seguimos o espírito, não satisfazemos os desejos da carne, porque a carne luta contra o espírito; dessa luta da carne e do espírito quer agora julgar, dizendo: a carne luta contra o espírito, o espírito luta contra a carne; se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, isto é, pela razão, já não estais sob a lei; a lei, com efeito, foi posta para coibir os pecadores, mas, se agis segundo o espírito, já não pecais; e quem não peca, é livre da lei.

Quem é conduzido pelo espírito não está sob a lei, quem, porém, pela carne, este é cativo sob a lei; o que diz equivalentemente: as obras do espírito a ninguém reduzem sob a lei; mas as obras da carne são manifestas, não é preciso censurá-las; a torpeza delas, com efeito, a todos é conhecida e cativeiro — por isso não se preocupa em detestar as obras da carne, porque só os nomes delas bastante assinalam a fealdade —; obras da carne, digo, que são estas, a saber, fornicação, impureza, dissolução, luxúria. Chama fornicação ser poluído com meretrizes ou casadas; impureza, a torpeza que se faz contra a natureza, e também em beijos incestuosos e em manejo poluído; dissolução chama, ainda que não seja fornicador ou impuro, ser quem não se tempera pudicamente em palavras, hábito e movimento dos membros; luxúria chama o excesso da carne, seja na gula, seja no coito; luxúria que pode haver até na esposa, se dela se usa em excesso.

Obras da carne são também idolatria, feitiçarias, inimizades, isto é, ódios longos, contendas em palavras, rivalidades, porque quem inveja se esforça por usurpar para si o bem de outro; são também iras, isto é, comoções súbitas do ânimo; e da ira rixas, quando a coisa se faz a socos; são ainda dissensões, que muitas vezes se fazem na Igreja; são também seitas, pelo que no grego se tem haireseis; são também invejas, isto é, mau livor do ânimo, que, embora saiba que não conseguirá a coisa do próximo, inveja-o, contudo, e não quereria que a tivesse; de novo homicídios, embriaguezes, isto é, bebidas habituais além da medida, orgias e coisas semelhantes a estas, que agora vos previno, como já preveni quando primeiro vos preguei, para que vos guardeis delas: porque os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus, se neste ato forem apanhados.

Estas ditas são obras da carne; mas as obras do Espírito são estas; e não diz "obras", mas, para recomendação, diz fruto do Espírito; destas obras, com efeito, convém e aproveita fruir: fruto, digo, do Espírito é caridade, isto é, amor de Deus e do próximo; desta caridade segue alegria e paz: alegria chama a consciência serena, paz a concórdia com todos pelo amor. É também fruto do Espírito a longanimidade, isto é, a esperança; se tarda, com efeito, a retribuição, nem por isso espera menos ou aguarda impacientemente. E é obra do Espírito a paciência, com que toleramos quaisquer adversidades, e a bondade, isto é, o piedoso afeto do ânimo, ainda que não tenha o que dar, a benignidade, isto é, a largueza de comunicar o que tem, a mansidão, porque é tratável e afável a todos, e a fé que retamente crê em Deus; a modéstia, isto é, a temperança de palavras e atos, a continência, com que até das coisas lícitas alguém se contém, a castidade, porque casto usa das coisas lícitas, como o marido da esposa: estas são as obras do Espírito, e contra tais coisas não há lei; como acima dissemos, não estais sob a lei. Estas são as obras da carne; estas são as obras do Espírito; os que são de Cristo, porém, fazem as obras do Espírito; o que diz assim: crucificaram a sua carne, os que são de Cristo, porque nenhum sentido, enquanto em Cristo estão, pode inclinar-se aos vícios; aqueles, digo, combatendo com os vícios e as concupiscências: toma vícios no ato, concupiscências na vontade. Não só crucifiquemos a carne, para não operar o mal; mas andemos também pelo Espírito, isto é, progridamos obrando bem segundo o que a razão admoesta. É justo que andemos pelo espírito, porque vivemos pelo Espírito; e se, justificados, vivemos pelo Espírito, segue-se que andemos também pelo espírito. O homem vive pela justificação da fé, anda quando opera o que a fé exige; e se vivemos e andamos, nesta caminhada não nos tornemos cobiçosos de vã, isto é, mundana glória: não é pecado se, obrando bem, somos louvados, mas se cobiçamos ser louvados. Não sejamos cobiçosos de vã glória; nós, digo, que isto cobiçamos, provocando-nos uns aos outros, porque a soberba, que não tolera igual, se não for preferida a todos, indigna-se, provocando à lide; e se não ousamos provocar abertamente, ao menos no ânimo invejando-nos uns aos outros, isto é, um ao outro.

Capítulo 6

Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós que sois espirituais instruí tal pessoa com espírito de mansidão, considerando-te a ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. Pois, se alguém se julga ser alguma coisa, sendo nada, a si mesmo se engana. Cada um examine a sua própria obra, e então terá glória só em si mesmo, e não no outro. Porque cada um levará o seu próprio fardo. Aquele que é instruído na palavra faça participar de todos os seus bens o que o instrui. Não vos enganeis; de Deus não se zomba. Pois aquilo que o homem semear, isso também colherá. Porque quem semeia na sua carne, da carne colherá corrupção; quem semeia no espírito, do espírito colherá a vida eterna. Não nos cansemos de fazer o bem; pois a seu tempo colheremos, se não desfalecermos. Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas sobretudo aos domésticos da fé. Vede com que letras grandes vos escrevi de minha própria mão. Todos os que querem agradar na carne, esses vos constrangem a circuncidar-vos, apenas para não sofrerem a perseguição da Cruz de Cristo. Pois nem os que se circuncidam guardam a lei; mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne. Quanto a mim, longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo. Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a nova criatura. E a todos os que seguirem esta regra, paz e misericórdia sobre eles, e sobre o Israel de Deus. Quanto ao mais, ninguém me moleste; pois eu trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito, irmãos. Amém.

Comentário

Depois de ter corrigido e instruído toda a Igreja em comum, agora admoesta separadamente os prelados a instruir com mansidão os súditos que pecam; e, ao contrário, admoesta os súditos a ouvir os prelados com ânimo sereno em toda obediência, dizendo: porque viveis pelo Espírito, andai pelo espírito; vós, porém, que sois espirituais, isto é, os prelados; todo perfeito, com efeito, ainda que careça de ofício, é, contudo, prelado do imperfeito; vós, digo, espirituais, se alguém for surpreendido em alguma falta; e não é de admirar se peca, porque homem — diz "surpreendido" não que tenha pecado de indústria, mas porque não soube providenciar para si —; vós, digo, prelados, instruí tal pessoa com espírito, não de furor, mas de mansidão. Agora do plural passa ao singular, falando igualmente a qualquer prelado: com mansidão corrige o que delinque, tu, quem quer que sejas, prelado, considerando-te a ti mesmo, para que não sejas também tentado igualmente; Deus, com efeito, muitas vezes dispõe piedosamente que quem, indignando-se, abomina a queda do próximo, seja precipitado no mesmo ou em pior. E não só instruí o que delinque, mas também levai os fardos uns dos outros, o prelado o fardo do súdito; levai, digo, compadecendo-se, orando e jejuando, para que lhe seja dada remissão; e assim, suportando-vos mutuamente, cumprireis a lei de Cristo; Cristo, com efeito, sem conhecer pecado, ao levar os nossos pecados na Cruz, trouxe em si esta lei, para que um assim levasse o pecado do próximo.

Considera-te a ti mesmo, para que não sejas tentado igualmente; pois se alguém, agindo inconsideradamente, se julga ser alguma coisa, sendo por si nada, ainda que a graça nele seja alguma coisa, ele mesmo, assim opinando, a si mesmo se engana, isto é, é sedutor de si mesmo. Não vos deixeis seduzir, mas cada um examine, isto é, veja se é provável a sua obra, e assim aprovado terá glória só em si mesmo, isto é, junto de si na consciência, e não no outro, isto é, não na consideração e desprezo do outro. Em si deve gloriar-se, não no outro; pois cada um, justo ou pecador, levará naquele dia o seu próprio fardo, isto é, o seu feixe, que as suas obras merecem colher, seja bom, seja mau. Ou assim, de modo que o discurso seja só do pecador: tu, para ser justo, não te glories no desprezo do pecador; pois cada pecador levará o seu fardo, isto é, o peso do seu pecado.

Admoestados os prelados sobre como devem mostrar-se aos súditos, admoesta os súditos a obedecer reverentemente aos prelados, dizendo: o prelado instrua com mansidão o súdito; aquele, porém, que é instruído, isto é, que é instruído, não por exemplo de boa obra, mas ao menos por palavra; este, digo, faça participar e obedeça em todos os bens que faz e exorta; ao que, digo, o instrui, isto é, ao que o ensina. Digo: participai com os que vos instruem; e não vos enganeis, isto é, não vos escuseis dizendo que não se deve obedecer aos que ensinam bem com a palavra e não agem assim; por isso não vos enganeis assim, porque de Deus não se zomba, isto é, não será enganado por ocasião velada; porque, se fosse enganado, seria irrisível. Na verdade não se zomba; porque aquilo que o homem semear, isso certamente colherá. E na verdade colherá o semeado; porque quem semeia na sua carne, isto é, quem opera os desejos corruptíveis da carne, este certamente da carne colherá corrupção, porque semeou corrupção: quem, porém, semeia no espírito, isto é, segundo a razão, este do espírito colherá as coisas espirituais, a saber, a vida eterna.

Depois de ter instruído separadamente os prelados, depois os súditos, de novo admoesta toda a Igreja em conjunto, dizendo: vós, prelados, instruí com mansidão os súditos; vós, súditos, em todo bem participai com os que vos instruem; todos, porém, tanto prelados quanto súditos, igualmente fazendo o bem, não nos cansemos de obrar bem. Nem devemos desfalecer no operar, porque colheremos a recompensa da obra a seu tempo, isto é, oportuno, se não desfalecermos no colher. E porque colheremos não desfalecendo, portanto, enquanto temos tempo de operar, isto é, neste mundo, façamos o bem a todos, mas sobretudo aos domésticos da fé; primeiro, com efeito, devemos ministrar o necessário aos fiéis, depois, se sobra, também aos infiéis.

A partir deste lugar o Apóstolo escreveu a Epístola de próprio punho, para que os gálatas não duvidassem de que esta Epístola é de Paulo, porque ela destruía aqui a circuncisão, do que aqueles falsos apóstolos haviam dito aos gálatas que Paulo agora ensinava a circuncisão; por isso diz: para que creiais que estes preceitos são meus, vede com que letras grandes vos escrevi de minha própria mão daqui em diante, para que pelo conhecimento da minha escritura estejais certos de que esta Epístola é minha. E aos que escrevi deveis obedecer, não àqueles; todos os que querem agradar àqueles judeus na carne, isto é, em persuasões carnais, esses vos constrangem a circuncidar-vos; constrangem certamente, porque com palavra importuna vos compelem ao que com razões não sabem comprovar; constrangem-vos a circuncidar-vos, pretendendo apenas não sofrer dos judeus a perseguição da Cruz de Cristo que pregam: os judeus, com efeito, bem concediam que a Cruz de Cristo fosse pregada com a circuncisão. Na verdade apenas para não sofrerem, porque por amor da lei nada fazem; o que diz assim: estes falsos apóstolos que se circuncidam não guardam a lei, mas por isto só querem que vos circuncideis: para se gloriarem na vossa carne circuncidada diante dos outros; dizem-lhes, com efeito: vede quanto incremento tem por nós a vossa lei.

Aqueles gloriam-se na carne; quanto a mim, porém, longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo; eu, com efeito, nem procuro nem prego glória senão da Cruz; pela qual Cruz — a cruz, segundo Prisciano, é de gênero duvidoso, e segundo Haimon, no grego é masculino, e por isso o tradutor não quis mudar a relação —; pela qual Cruz, ou pelo qual Cristo crucificado, o que vale o mesmo, o mundo está crucificado para mim, de modo que nada mais dos seus deleites o mundo me ofereça. E eu para o mundo; se o mundo me oferece algo, assim a Cruz de Cristo me firmou e me prendeu de modo que não possa declinar dela. Por isso só na Cruz me glorio, porque em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas só a nova criatura, isto é, a fé que renova a mente e também a carne, que faz livre dos pecados. Não acrescentou "incircuncisão" porque julgasse que ela vale algo para a fé, mas para mostrar que a circuncisão não confere mais em Cristo que a incircuncisão. Eu só me glorio na Cruz; e todos os que seguirem esta regra da Cruz, de se gloriarem só nela, paz sobre eles, gálatas que não pecaram, e misericórdia, isto é, segunda remissão aos que caíram; e não só sobre eles, mas também sobre o Israel de Deus todo, não o que for da carne, mas de Deus. Só em Cristo buscai a glória; quanto ao mais, isto é, da circuncisão, que excluo, ninguém me moleste; ou assim: no passado me molestastes, mas quanto ao mais, isto é, de agora em diante, vede que ninguém me moleste. Nem deveis molestar-me; eu, com efeito, trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus Cristo. Marca (stigma) diz-se o sinal que se faz com ferro quente: Paulo, aqui, suportando correntes e demais tormentos por Cristo, trazia no corpo as marcas, isto é, os sinais de que era soldado de Cristo. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito, irmãos. Amém.