Epístola aos Filipenses

Prólogo

Filipos é uma cidade da Macedônia; daí os filipenses. Estes eram do número daqueles que Paulo, na segunda Epístola aos Coríntios, tanto engrandeceu, dizendo: «Primeiro se entregaram a si mesmos; depois, o que era seu» (2Cor 8,5). Paulo havia permanecido algum tempo entre estes filipenses, pregando-lhes a palavra de Deus, e por meio dele receberam a fé de Cristo; confirmados eles nos mandamentos de Deus, partiu de junto deles. Mas, estando ele em Roma em cadeias, por causa da ausência e da tribulação do pastor, os perseguidores da justiça e os falsos apóstolos, corruptores da verdade, julgaram ter-se-lhes dado a oportunidade de assaltar os filipenses que Paulo instruíra: para que, de um lado, cedessem mais facilmente à perseguição por causa da aflição e do desprezo do mestre, e para que, de outro, os falsos apóstolos pervertessem mais oportunamente a fé deles, ausente Paulo que os confirmasse. Percebendo Paulo ambas as lutas, a dos perseguidores e a dos falsos doutores, escreveu-lhes esta Epístola, na qual trata daquela dupla luta dos perseguidores e dos falsos doutores, de modo a provar que devem sofrer de bom grado a perseguição pela fé de Cristo, quando ouvem que o seu Apóstolo se alegra nas cadeias, ele que foi tido por digno de sofrer afronta pelo nome de Jesus; quando sabem, ainda, que Jesus padeceu pela salvação deles. Por estas e outras causas recomenda-lhes a paciência com a humildade. De novo, a doutrina desses falsos apóstolos rebaixa-a a tal ponto que a chama esterco; e dá muitas razões pelas quais não devem ser escutados. E, tratando desse modo de ambas as lutas, pretende armá-los por esta Epístola neste combate, para que nem cedam à perseguição nem consintam no erro.

Capítulo 1

Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos. Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças ao meu Deus em toda a lembrança de vós, sempre, em todas as minhas orações por todos vós, fazendo com alegria a súplica, pela vossa comunhão no Evangelho de Cristo, desde o primeiro dia até agora; confiando nisto mesmo: que aquele que começou em vós a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus; como é justo que eu sinta isto a respeito de todos vós, porque vos tenho no coração, e que, tanto nas minhas cadeias como na defesa e confirmação do Evangelho, todos vós sois companheiros da minha alegria. Pois Deus me é testemunha de como vos desejo a todos nas entranhas de Jesus Cristo. E isto peço: que a vossa caridade abunde mais e mais em ciência e em todo discernimento, para que aproveis o melhor, para que sejais sinceros e sem ofensa para o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. Quero, porém, que saibais, irmãos, que as coisas que me sucederam redundaram antes em proveito do Evangelho, de modo que as minhas cadeias se tornaram manifestas em Cristo em todo o pretório e em todos os demais lugares; e que a maior parte dos irmãos no Senhor, confiando nas minhas cadeias, com mais ousadia, sem temor, falam a palavra de Deus. Alguns, na verdade, pregam a Cristo por inveja e contenda; outros, porém, por boa vontade; uns por caridade, sabendo que fui posto para a defesa do Evangelho; outros anunciam a Cristo por contenda, não sinceramente, julgando suscitar aflição às minhas cadeias. Que importa? Contanto que de toda maneira, por pretexto ou por verdade, Cristo seja anunciado, nisto me alegro, e me alegrarei também. Pois sei que isto me resultará em salvação, pela vossa oração e pela assistência do Espírito de Jesus Cristo, segundo a minha expectativa e esperança, de que em nada serei confundido, mas com toda a confiança, como sempre, também agora Cristo será engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Pois para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Mas se o viver na carne é para mim fruto de trabalho, não sei o que escolher. Estou, porém, em aperto entre as duas coisas: tenho o desejo de ser desatado e estar com Cristo, o que é muito melhor; mas permanecer na carne é necessário por causa de vós. E, confiando nisto, sei que ficarei e permanecerei com todos vós, para vosso proveito e gáudio da fé, a fim de que seja abundante em Cristo Jesus a vossa exultação por mim, pela minha nova vinda a vós. Somente vivei de modo digno do Evangelho de Cristo, para que, quer eu vá e vos veja, quer ausente ouça falar de vós, saiba que permaneceis firmes em um só espírito, unânimes, combatendo juntos pela fé do Evangelho; e em nada sejais atemorizados pelos adversários; o que para eles é causa de perdição, para vós, porém, de salvação, e isto da parte de Deus; porque vos foi concedido por Cristo, não somente crer nele, mas também padecer por ele; tendo o mesmo combate que vistes em mim e agora ouvis de mim.

Comentário

Paulo, etc. Não pôs aqui os títulos de dignidade, sabendo que os filipenses não duvidavam do apostolado de Paulo, a quem confessavam como mestre e Apóstolo seu, enquanto, conforme Paulo lhes transmitira, obravam na fé; mas, pretendendo recomendar-lhes a humildade com a paciência, inseriu o nome de humildade, dizendo-se servo; por isso diz: Paulo e Timóteo. Não acrescentou Timóteo por ter escrito a Epístola com Paulo, mas porque consentiu com Paulo na mesma vontade; também porque, como indica nas passagens seguintes, estava para lhes enviar em breve Timóteo; a quem, para que lhe obedecessem em tudo, convinha prefixar a recomendação de Paulo. Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo: assim também vós guardai a servidão de Cristo, sofrendo com toda humildade; Paulo, digo, e Timóteo escrevem a todos os santos que estão em Filipos; santos, digo, em Cristo Jesus, isto é, na fé de Cristo Jesus santificados e confirmados. Onde diz "a todos os santos", entende a comunidade da Igreja, isto é, os súditos; a quem na mesma saudação junta os prelados, dizendo: escrevem a todos os santos, isto é, aos súditos, com os bispos, isto é, e com os bispos e diáconos da mesma Igreja. Aqui por bispos entendemos os presbíteros, pois na mesma cidade não se deve pensar que houvesse vários bispos; ou, se Filipos fosse uma região com diversas cidades, seria absurdo passar dos bispos aos diáconos, omitidos os presbíteros; nem é absurdo que os sacerdotes se digam bispos, pois, segundo Agostinho, qualquer pai de família, porque superintende a casa, pode dizer-se bispo. Paulo, digo, e Timóteo escrevem assim: Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, como muitas vezes foi exposto.

Aqui, de início, trata misturadamente de ambas as lutas, recomendando-lhes a humildade com a paciência, até o ponto mais abaixo em que diz "quero que saibais", etc.; como se dissesse: ouvindo a vossa fé e paciência, dou graças ao meu Deus, isto é, ao que me favorece bem em vós — dizemos nosso o Deus quando piedosamente concede o que pedimos —; dou graças, digo, em toda a lembrança de vós, porque, quantas vezes ouço algo de vós (porque são dignos da fé de Cristo), dou graças a Deus, não em alguma, mas em toda lembrança de vós, ouvindo bem em tudo a vosso respeito; graças, digo, dou a Deus em toda a lembrança de vós, fazendo a súplica por todos vós, porque ninguém se faz indigno da minha intercessão; e isto com alegria: se pecassem, rogaria por eles, sim, mas em tristeza; porque, porém, são perfeitos, resta que ore por eles com alegria. Fazendo, diz, a súplica em todas as minhas orações; nunca, com efeito, oro que vos omita: orações, digo, não raras, mas sempre, isto é, continuamente celebradas. Dou, digo, graças pela (isto é, por causa da) vossa comunhão mostrada no Evangelho de Cristo; comungastes, com efeito, no Evangelho de Cristo, crendo tão logo ouvistes, fazendo também as obras da fé, e pregando a outros comigo a fé de Cristo. Ou assim: dou graças pela vossa comunhão, isto é, por terdes exibido os vossos bens comuns a todos os santos; comunhão, digo, feita no Evangelho, isto é, segundo o Evangelho de Cristo; porque vós primeiro vos entregastes a Deus, depois o que era vosso aos santos, e no Evangelho por estas e todas as coisas cumprindo os preceitos: comunhão, digo, começada desde o primeiro dia da vossa conversão até agora, isto é, até o dia presente.

Dou graças, fazendo por vós a súplica; e isto mesmo, isto é, como peço, confiando que obterei por inteiro; não, porém, por vossa virtude, mas confiando porque Deus, que começou em vós a boa obra, a aperfeiçoará ele mesmo — por isso diz "começou" e "aperfeiçoará", e, como acima, "dou graças", para mostrar que o princípio e o fim da sua justiça são inteiramente da graça de Deus; por isso diz também "confiando", porque, se a piedade de Deus começou o bem nos que eram maus, muito mais se deve crer que, nos que já são justos, levará a termo a consumação —: aperfeiçoará, digo, até o dia de Cristo Jesus. Na morte de cada um, quanto a quem morre, começa o dia de Cristo; daí por diante, com efeito, nada faz além da vontade de Cristo, ele que, enquanto vivia, teve o seu dia, fazendo o bem ou o mal que quis. Ou, se por dia de Cristo entendemos o dia do juízo, então será para a prova, assim: aperfeiçoará em vós a boa obra até, isto é, fazendo-o assiduamente nos justos até o dia de Cristo Jesus, isto é, enquanto o mundo durar.

Confiando e fazendo tão grande súplica como é justo, isto é, não peço menos por vós do que exige a vossa justiça e a benignidade com que me recebestes honrosamente; é justo, digo, para mim, que a ninguém sou ingrato de benefício, mas benignamente retribuo; assim como, digo, é justo que eu não só suplique, mas sinta isto a respeito de vós; sinto, com efeito, a vossa tribulação por força de compaixão, como se a sofresse na minha carne; a respeito de todos vós, digo, porque todos sois perfeitos. Digo e sinto isto porque vos tenho não só nos lábios, mas no próprio coração; atribulo-me, com efeito, interiormente pelas vossas tribulações. Tenho-vos no coração, quer esteja nas cadeias, quer na defesa, quer posto na confirmação do Evangelho: nas minhas cadeias tenho-vos no coração, lembrando que sofreis perseguição como eu. E na defesa do Evangelho, isto é, em que defendo a fé contra os falsos apóstolos que procuram pervertê-la, tenho-vos no coração, lembrando que vós pelejais com os falsos apóstolos para defender a vossa fé. Por cadeias e defesa, fazendo menção de ambas as suas lutas, conforta-os em ambas. Tenho-vos também no coração na confirmação do Evangelho, isto é, quando aos simples cristãos confirmo a sua fé pelas Escrituras e o mais, lembro-me de que vós igualmente confirmais a fé dos simples. E, assim como me lembro das vossas tribulações, sede também vós participantes da minha humildade; inútil é, com efeito, a paciência que a humildade não acompanha. Tais como vos tenho no coração, espero que todos sejais companheiros da minha alegria, da minha remuneração no gáudio eterno; assim como da minha tribulação, com efeito, assim sereis participantes do gáudio.

Verdadeiramente vos tenho no coração; Deus, com efeito, me é testemunha de como, isto é, com quão infinito desejo eu desejo que todos vós estejais, não nos pés de Cristo, mas nas entranhas de Jesus Cristo, isto é, não nos inferiores, mas entre os mais amados de Deus, que se dizem as suas entranhas. E porque assim desejo por vós, por isso peço isto, que a vossa caridade, progredindo mais, abunde, temperada em toda a ciência, isto é, em toda sorte de discrição. A ciência é necessária à caridade porque, se esta for sem discrição, muitas vezes abominará de tal modo algo venial no próximo que, repreendendo intemperadamente, suscitará litígio ou algum crime maior, quando, se agisse discretamente, melhor corrigiria o próximo pela brandura; por isso diz: a caridade abunde em toda a ciência. E porque alguns que têm ciência muitas vezes se esquecem dela no ato, acrescenta: e em todo discernimento, isto é, em toda atenção, para que sempre atentemos de memória e tenhamos a ciência à mão. Abunde de modo que não só aproveis, os bens dos males, mas também escolhais probamente o melhor, isto é, dos bens os melhores; aproveis de modo que sejais sinceros, isto é, puros em vós, e sem ofensa para o próximo, indo assim para o dia de Cristo, de modo que nada se ache em vós por purificar no dia do juízo: vós, digo, cheios então, no dia de Cristo, do fruto, isto é, da remuneração da justiça que aqui tivestes; cheios, digo, por Jesus Cristo, distribuidor daquele fruto: da justiça, digo, tida para glória e louvor de Deus, isto é, de modo que se diga em vós: glorioso e louvável o Senhor em seus santos. Ou assim: sejais tais para o dia de Cristo; vós, digo, entretanto, enquanto viveis, cheios não da justiça, que não tenha faculdade de operar, mas do fruto, isto é, das obras da justiça, para que tanto a justiça quanto as obras da justiça vos sejam em uso: cheios, digo, por Jesus Cristo, de quem vem toda justiça; e isto para glória e louvor de Deus, isto é, para que a Deus atribuais tudo e a vós nada. Glória de Deus diz-se a claridade da Deidade; louvor de Deus entendemos nas coisas que vemos com os olhos corporais. Sinceros, se compomos de sin e cera, alonga-se a sílaba do meio, o nominativo singular sincerus tem dois plurais, sinceri e sinceres, como diaconus, diaconi e diacones: se, segundo Isidoro, compomos de sine e carie, abrevia-se a sílaba do meio, e no singular carece.

Até aqui tratou misturadamente de ambas as lutas; aqui separadamente começa a luta dos perseguidores, dizendo: ouvindo bens de vós, dou graças; suplico com alegria, confiando de vós: eu assim ajo; quero, porém, que saibais, irmãos, as coisas que me sucederam — notifica-lhes isto para que pelo seu exemplo os induza à paciência e à humildade —; quero, digo, que saibais que as coisas que me sucederam (circa, porque de todos os lados me cercam os males; ou circa, porque por fora, no corpo, sou afligido, mas por dentro, na alma, congrego forças): as coisas, digo, que me sucederam redundaram antes em proveito do Evangelho do que em detrimento; como eles mesmos pensavam que, atado Paulo, estaria atada a palavra de Deus; redundaram em proveito, de modo que as minhas cadeias, isto é, a utilidade das minhas cadeias, se tornaram manifestas em Cristo, isto é, na magnificação do nome de Cristo; manifestas, digo, em todo o pretório e em todos os demais lugares, isto é, entre os príncipes e entre os inferiores: ainda que, com efeito, nem por toda parte se saiba que Paulo está em cadeias, a utilidade das suas cadeias, contudo, difunde-se por toda parte, enquanto a fé de Cristo, por ele dilatada, é pregada por toda parte. Ou assim: redundaram em proveito, de modo que as mesmas cadeias se tornassem manifestas em Cristo, isto é, as que eu padecia por Cristo; manifestas, digo, em todo o pretório e em todos os demais lugares; por toda parte, com efeito, diziam: Vede a constância de Paulo, que mesmo em cadeias não cessa de pregar a fé de Cristo. Tornaram-se manifestas de modo que a maior parte dos irmãos, confiando no Senhor nas minhas cadeias, isto é, por causa das minhas cadeias, em que, posto, pregava audazmente, confiados no meu exemplo, ousassem mais abundantemente falar sem temor a palavra de Deus aos gentios, eles que antes, por temor, não ousavam.

Estes são os bons irmãos; mas alguns, na verdade, isto é, distintos dos bons, porque [perversos], pregam perversamente a Cristo, por inveja, porque querem diminuir o nome de Paulo, em quem a palavra de Deus não está atada. E, se não julgam poder usurpar para si o louvor de Paulo, pregam também por contenda, esforçando-se por se igualar a Paulo no louvor da pregação. Outros, porém, que são bons, pregam a Cristo ainda que não sofram tribulação, por boa vontade tida para com todos, que quereriam que todos os homens viessem ao conhecimento da verdade. Alguns também, igualmente bons, por caridade, isto é, por privada afeição que têm para comigo, pregam a Cristo, sabendo que fui posto para a defesa, isto é, por causa da defesa do Evangelho; ou assim: sabendo que fui posto, isto é, ordenado por Deus para a defesa, isto é, para defender o Evangelho. Esses pregavam por privada caridade, dizendo: o nosso amado Paulo, porque está atado, não pode agora instruir as suas Igrejas, suplamos a sua vez, para que talvez os falsos apóstolos não destruam o que ele edificou; e assim a dileção carnal era para proveito do Evangelho. Alguns, porém, perversos, como aqueles por privada caridade, assim estes por contenda, isto é, por privado ódio, anunciam a Cristo não sinceramente, isto é, não em pureza, julgando suscitar deste modo aflição às minhas cadeias, isto é, a mim posto em cadeias: esses perversos, com efeito, haviam disputado com Paulo, e Paulo os vencera; agora, porém, pregavam o que dele tinham ouvido, para que, quando lhes dissessem: por que pregais as palavras dele, a saber, do condenado Paulo?, dissessem: isto não é de nós, mas assim o recebemos dele, ele leve a pena disso; e com estas palavras os infiéis, concitados, mais veementemente se enfureciam contra Paulo.

Objetaria alguém ao que acima disse, "as minhas cadeias redundaram em proveito do Evangelho": nos bons, que animados pelo teu exemplo pregaram, aproveitaram, sim; mas nos que por inveja e contenda pregavam, as tuas cadeias nada aproveitaram. A isto Paulo: aproveitaram também nesses; que importa, com efeito, contanto (isto é, somente) que Cristo seja anunciado de toda maneira, a saber, seja por pretexto de me suscitar aflição, como fazem os falsos apóstolos, seja por verdade, como anunciam os bons? Eu não me importo quem seja o que anuncia, somente que os ouvintes progridam na fé; alegro-me de que Cristo seja anunciado por pretexto, e nisto me alegro de que me suscitem aflição, e me alegrarei não só agora, mas sempre, no mesmo. Em Deus me alegro e me alegrarei; sei, com efeito, que isto, isto é, que a aflição me é suscitada, me resultará em salvação, pela vossa oração que intercede por mim, e pela assistência, isto é, pelo amparo e sustentáculo do Espírito; assim como a coluna posta no meio sustenta a casa para que não caia, assim o Espírito me ampara; Espírito, digo, de Jesus Cristo, isto é, que Cristo dá, por quem padeço; resultará, digo, em salvação segundo a minha expectativa e esperança, isto é, conferindo não menos salvação do que espero e aguardo — expectativa diz-se longanimidade em sustentar, sem certeza, porém; esperança, porém, é aguardo certo —; por isso segundo a esperança, porque em nada serei confundido, isto é, não me envergonharei em coisa alguma, de modo que eu desfaleça no Evangelho de Cristo por causa da tribulação iminente. Não serei confundido, mas, como sempre, isto é, no passado foi engrandecido, assim também agora, isto é, no futuro será engrandecido Cristo, não só na alma, mas também na parte mais frágil, no meu corpo. Será engrandecido certamente, seja pela vida, seja pela morte, isto é, na vida do corpo e na morte. Devo engrandecer a Cristo pela vida, pois para mim o viver é Cristo, isto é, eu não vivo para outra coisa senão para engrandecer a Cristo. Devo engrandecê-lo pela morte; pois o morrer é para mim lucro, isto é, para morrer, tomando o próprio Cristo, lucro, se por Cristo morro. Ou assim: pela morte devo engrandecer a Cristo; pois morrer é para mim lucro, isto é, na morte lucro eu, recebendo nos céus a retribuição dos meus trabalhos: e, sendo o morrer lucro para mim, resta que eu escolha a morte.

Sentença adversa: mas, ainda que morrer seja lucro, viver na carne é para mim fruto de trabalho, isto é, que pela vida Cristo será engrandecido; e porque morrer é para mim lucro de tão grande bem-aventurança, e viver na carne é para mim fruto de engrandecer a Cristo, eis (isto é, vede) não sei o que escolher destas duas coisas, a vida ou a morte. Por isso não sei, porque estou em aperto; ou então, não só não sei, mas estou também em aperto, tendo o desejo entre as duas coisas, isto é, de ser desatado e de permanecer na carne; mas ser desatado e estar com Cristo é muito melhor, quanto a mim; permanecer, porém, na carne é necessário por causa de vós, para que Cristo seja engrandecido por mim em vós. E confiando nisto, isto é, que serei necessário e útil, sei que ficarei, e também permanecerei longamente com todos vós, para vosso proveito e gáudio da fé, isto é, para que vos alegreis do mérito da fé; então tem o justo gáudio da fé, quando já não teme as adversidades e está seguro do prêmio. Permanecerei para vosso proveito, de modo que a vossa exultação, isto é, a vossa exultação ou ação de graças — ambas as coisas, com efeito, significa gratulor: alegrar-se e dar graças —, a vossa exultação, digo, abunde em Cristo, isto é, em louvor de Cristo Jesus, em mim, isto é, na consideração de mim; abunde, digo, pela minha nova vinda a vós.

Abundará certamente, contanto que vejais que vivais de modo digno do Evangelho de Cristo, isto é, como convém e ensina o Evangelho que recebestes; de modo tão digno que, quer eu vá e vos veja, quer ausente, de qualquer modo que eu estiver, ausente ou presente, ouça isto de vós, que permaneceis firmes em um só Espírito Santo que vos justifica. E porque poderiam estar no mesmo Espírito, este em humildade, este em castidade, mas não tendo entre si dileção, por isso acrescenta unânimes na dileção, e combatendo juntos, pela paciência nas tribulações, pela fé do Evangelho, isto é, a fé que aprendestes no Evangelho. Ouvirei também que em nada sois atemorizados pelos adversários; causa que, a saber, querem atemorizar-vos, para eles é causa de perdição; para vós, porém, que permaneceis sem temor, de salvação. E isto vos vem da parte de Deus, que não sejais atemorizados, porque vos foi concedido por Cristo, isto é, pelo mérito de Cristo, não somente crer nele, mas também padecer por ele; vós, digo, tendo o mesmo combate que vistes em mim, quando estava convosco, e agora ouvis de mim, que padeço em Roma. Imitai, pois, o que me vedes sofrer em humildade, seguindo a paciência e a humildade.

Capítulo 2

Se, portanto, há alguma consolação em Cristo, se algum alívio da caridade, se alguma comunhão do Espírito, se algumas entranhas de misericórdia, completai a minha alegria, para que sintais o mesmo, tendo a mesma caridade, unânimes, sentindo uma só coisa. Nada façais por contenda, nem por vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si, não considerando cada um o que é seu, mas o que é dos outros. Pois tende em vós o mesmo sentir que houve em Cristo Jesus; o qual, sendo na forma de Deus, não julgou rapina o ser igual a Deus; mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens, e reconhecido por figura como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus também o exaltou, e lhe deu um nome que está acima de todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e nos infernos; e toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai. Portanto, meus caríssimos (como sempre obedecestes), não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, operai a vossa salvação com temor e tremor. Pois é Deus quem opera em vós o querer e o realizar, segundo a sua boa vontade. Fazei tudo sem murmurações e hesitações, para que sejais irrepreensíveis e simples filhos de Deus, sem mácula no meio de uma nação depravada e perversa; entre os quais brilhais como luzeiros no mundo, mantendo a palavra de vida para a minha glória no dia de Cristo, porque não corri em vão, nem trabalhei em vão. Mas, ainda que eu seja imolado sobre o sacrifício e a oblação da vossa fé, alegro-me e congratulo-me com todos vós. E vós também alegrai-vos do mesmo modo e congratulai-vos comigo. Espero, porém, no Senhor Jesus, enviar-vos em breve Timóteo, para que também eu fique de bom ânimo, conhecendo as coisas que vos dizem respeito. Pois não tenho ninguém tão unânime que com sincera afeição se preocupe por vós. Todos buscam o que é seu, não o que é de Jesus Cristo. Conhecei, porém, a prova dele, porque, como filho a pai, serviu comigo no Evangelho. A este, pois, espero enviar-vos, logo que eu tiver visto o que se passa comigo. Confio, porém, no Senhor, que também eu mesmo irei em breve a vós. Julguei necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão, cooperador e companheiro de armas, vosso apóstolo e ministro da minha necessidade; porque ele desejava a todos vós e estava aflito por terdes ouvido que adoecera. Com efeito, adoeceu até à morte; mas Deus teve misericórdia dele; e não só dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Enviei-o, portanto, com mais presteza, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu fique sem tristeza. Recebei-o, pois, com toda a alegria no Senhor, e tende em honra os que são como ele; porque pela obra de Cristo chegou até às portas da morte, entregando a sua vida, para suprir o que faltava da vossa parte no serviço que me prestais.

Comentário

Disse acima: as cadeias que me sucederam redundaram em proveito do Evangelho; o que também vós padeceis, é-vos causa de salvação, e assim vos foi concedido padecer pelo mérito de Cristo. Disto agora infere, dizendo: porque o meu padecer é proveito do Evangelho, e porque igualmente padeceis por Cristo, é-vos causa de salvação, portanto, irmãos, completai a minha alegria, alegria que já começastes, desde que sofrestes afronta por Cristo. Entende por completar a alegria que padeçam por Cristo de tal modo que tenham sempre associada a humildade da paciência; aqui, com efeito, mais abertamente os exortará a que tenham, com a paciência, a humildade, para que, se padecem por Cristo, não se anteponham por isso, como mais dignos, aos demais; a paciência, com efeito, sem a humildade é inútil. Completai a minha alegria se há alguma consolação em Cristo, isto é, se de Cristo buscais consolação em alguma coisa; ou então (para calar de Cristo), se algum alívio da caridade, isto é, da dileção fraterna, quereis ter, completai então a minha alegria. Ou assim: se alguma consolação me é dada junto de vós em Cristo, isto é, por amor de Cristo, e se algum alívio da caridade, isto é, da dileção fraterna, tenho junto de vós, de querer consolar-me por fraterna caridade, completai então a minha alegria. E se há em vós alguma (isto é, qualquer) comunhão do Espírito, isto é, se no Espírito Santo tendes comunhão com as outras Igrejas; e se há em vós algumas entranhas, isto é, alguns afetos piedosos de misericórdia, isto é, de exibição de misericórdia, completai a minha alegria. As entranhas põem-se aqui como misericórdia; o afeto piedoso (ainda que nada opere) diz-se misericórdia; o efeito da misericórdia chama-se comiseração. Por isso tão instantemente os conjura, porque quer que mantenham a humildade, sem a qual entende ser vã a paciência deles. Completai, digo, a alegria, de modo que sintais o mesmo, isto é, de modo que as prosperidades do próximo tenham tão bom sabor em vós como se fossem vossas; sintais, digo, tendo a mesma caridade, isto é, igual dileção para com todo próximo: ainda que, com efeito, por vezes convenha ter maior familiaridade com alguns, como Cristo a teve com João, isto não se deve contudo dizer caridade, mas maior familiaridade, que se tem conforme alguns são mais oportunos para certas coisas, outros menos.

Sejais também sentindo uma só coisa nas adversidades do próximo, de modo que a angústia dele não só a sintais no ânimo, mas vos pique como própria; vós, digo, unânimes, isto é, tendo igual ânimo de compaixão para com todo próximo; vós, de novo, nada fazendo por contenda, de modo que um que mais padece conteste antepor-se a outro que menos padece; ou então, nada dispondo das coisas eclesiásticas por contenda; nem fazendo coisa alguma por vanglória, isto é, por glória mundana: mas sede julgando cada um os outros superiores a si, que um repute o outro superior a si; e isto não com fingida soberba, mas com humildade, de modo que, assim como um antepõe a si o outro, assim tenha no coração a mesma humildade, julgando superior a si aquele a quem antepõe. E de que modo um julgue o outro superior a si, põe o conselho, dizendo: para que julgueis uns aos outros superiores a vós, não considereis cada um os bens que são seus; mas considerai apenas os bens que são dos outros; se, com efeito, postos de lado os vossos, atendeis às virtudes dos outros, assim os julgareis superiores a vós.

Para lhes recomendar ambas as coisas, humildade e paciência, expõe quão grande foi a humildade e a paciência de Cristo, dizendo: digo bem "com humildade"; pois tende em vós o mesmo sentir que vedes sobretudo não só em mim, mas em Cristo Jesus. E não só tende isto, mas também senti-lo, isto é, prová-lo pela experiência da coisa. Por isso diz "sentir"; muitos há, com efeito, que julgam poder sofrer tudo por Cristo e que, se acaso chegassem à prova, desfaleceriam. Senti, digo, em vós a humildade e a paciência que vedes sobretudo em mim e em Cristo Jesus; o qual Cristo Jesus, sendo na forma, isto é, na igualdade de Deus Pai, invisível como ele, coeterno e consubstancial a ele, soube ser igual a Deus; e nisto que soube, maior humildade; se, com efeito, ignorada a sua altura, assim se humilhasse, a sua humildade, por causa da ignorância, não seria tão recomendável: sabendo certamente ser igual a Deus, não julgou rapina, para usurpar coisa alheia; ou assim, na mesma sentença: julgando ser igual a Deus, não fez rapina, como o anjo maligno, que dizia: «Porei a minha sede ao Aquilão, e serei semelhante ao Altíssimo» (Is 14,13-14); e o homem, a quem a serpente disse: «Sereis como deuses» (Gn 3,5): ambos fizeram rapina, ao quererem usurpar mal para si o que era próprio de Deus; Cristo, porém, não fez rapina, porque julgou coisa própria.

E, embora Cristo estivesse na forma de Deus, contudo esvaziou-se, isto é, esvaziou a claridade da Deidade, ao pô-la sob a forma de servo; esvaziou-se, digo, a si mesmo, isto é, a própria Deidade, permanecendo, porém, ele mesmo no mesmo com o Pai; assim, com efeito, assumiu o que não era, de modo a permanecer o que era: e nisto muita humildade; se, com efeito, qualquer rei, perdido o direito do reino, é humilde, não é muito; mas se, tendo o direito do reino, dele se aliena permanecendo em humildade, é recomendável a sua humildade; esvaziou-se, digo, tomando a forma de servo: incomparável é a humildade, onde o Senhor escolheu ser servo. De novo, poderia tomar a forma de servo sem corrupção, de modo a não sentir as misérias da carne; por isso acrescenta: feito, isto é, recebendo nova feitura, à semelhança dos homens; assim, com efeito, foi passível e mortal como os outros homens. De novo, poderia estar à semelhança dos homens, tendo mãos e pés, e não se haver como homem; por isso acrescenta: e reconhecido por figura, isto é, no haver-se, foi achado como homem pelo tentador, o diabo; o diabo, com efeito, investigava se era Deus ou homem; mas, quando o achou faminto, julgou-o somente homem.

Nem só foi feito à semelhança dos homens, mas também humilhou-se a si mesmo, ele que era tão grande, ele mesmo, a saber, perdurando, porém, na glória da Deidade; humilhou-se, digo, feito obediente ao Pai em tudo, até a morte, e não morte de pessoa que fosse digna, mas morte de cruz, gênero de morte que era mais ignominioso que todo outro. Onde diz "morte", recomenda nele a paciência; onde diz "cruz", a humildade. Por isso, isto é, porque em tão grande humildade e paciência obedeceu a Deus, Deus também o exaltou, ele mesmo por seu mérito e Deus com ele o exaltou, isto é, pô-lo em grande altura, a saber, à sua direita; e a ele exaltado deu um nome, isto é, uma honorificência, nome que está acima de todo nome, isto é, superior a tudo o que se pode nomear, e tão acima que ao nome, isto é, para honra de Jesus se dobre todo joelho, isto é, todas as coisas lhe sejam plenamente sujeitas, como é sujeito quem dobra o joelho: todo joelho, digo, porque dos que estão nos céus, isto é, dos Anjos, na terra, isto é, dos homens, e nos infernos, isto é, dos demônios e das almas que ali estão, se dobre o joelho. E toda língua confesse — isto será no dia do juízo, quando, queiram ou não, os ímpios confessarão a Cristo —; confesse, digo, que o Senhor Jesus Cristo está na glória, isto é, na igualdade de Deus Pai segundo a Deidade, e depois do Pai primeiro quanto à humanidade, sobre toda criatura.

Porque Cristo foi tão paciente e humilde, e por ambas as coisas assim exaltado, portanto, meus caríssimos, operai a vossa salvação, isto é, a vossa exaltação, juntando em vós a humildade à paciência; vós, digo, como sempre me obedecestes enquanto estava convosco, assim agora, com temor do ânimo e tremor do corpo (deve-se, com efeito, sempre temer, ao que está de pé, que caia), operai a vossa salvação, de modo que não só na minha presença se diga que obedecestes, mas muito mais agora na minha ausência se prove a vossa obediência. E por isso nunca seguros, mas sempre com temor e tremor, porque é Deus quem opera em vós (para nada vos deixar) também o querer; e depois que pela graça tiver dado o querer, igualmente opera em vós o realizar; e isto não pelo vosso mérito precedente, mas somente segundo a sua boa vontade.

Deus tudo opera em vós; vós, porém, cooperando com Deus, fazei tudo sem murmurações, para que, se for necessário sofrerdes por muito tempo, não murmureis impacientemente contra Deus, como se injustamente permitisse que fôsseis afligidos. Fazei também tudo sem hesitações, isto é, que não digais: amanhã vigiarei, jejuarei, amanhã começarei a padecer por Cristo. Fazei assim, pois, para que sejais irrepreensíveis, isto é, para que não haja em vós de que um homem possa justamente queixar-se de vós; e para que sejais simples filhos de Deus, isto é, para que haja em vós, pela inocência, simples filiação de Deus; para que sejais também sem mácula, de modo que nem ocasião alguma apareça em vós por que pareçais repreensíveis, ainda que não haja culpa em vós.

Dir-me-iam: é pesado viver sem repreensão entre tantos que invejam a justiça. A isto ele: é verdade, porque habitais no meio de uma nação depravada e perversa em si, isto é, que perverte os outros, entre os quais, contudo, pela fé e pelas boas obras brilhais como luzeiros no mundo; assim como, com efeito, o sol e a lua iluminam o mundo, assim a vossa justiça ilumina as trevas deles: vós, digo, mantendo a palavra de vida, isto é, o Evangelho de Cristo, na fé do qual se tem a vida eterna; mantendo, digo, à maneira do vaso que bem contém o líquido nele infundido e o oferece a outros; assim também vós guardais em vós a palavra de Deus e a ministrais a outros; mantendo, digo, para a minha glória: pois, se eu hei de ter glória por vós manterdes a palavra de vida, muito mais vós que a mereceis; glória, digo, que me caberá no dia de Cristo, quando Cristo remunerará os seus. Terei certamente a minha glória, porque não corri em vão, nem trabalhei em vão. Correu quanto àqueles que facilmente converteu; trabalhou quanto aos mais difíceis no acesso à fé.

Corri, sim, e trabalhei em vós; nem me arrependo, mas, ainda que seja preciso que eu seja imolado por vós, nisto me congratulo convosco; o que diz assim: ainda que eu seja imolado sobre o sacrifício da vossa fé, e sobre a oblação da vossa fé, isto é, eu ofereci a vossa fé a Deus como sacrifício em odor de suavidade, e obséquio, isto é, as vossas boas obras em que depois da fé obsequiastes a Deus; mas se ainda depois destes trabalhos for preciso que eu seja imolado por vós, disso me alegro e congratulo-me, isto é, rendo graças, ou então, alegro-me junto com todos vós, que deveis alegrar-vos, se for vontade de Deus que eu seja imolado por vós. Vós, porém, o mesmo, retribuindo-me, para que igualmente sejais imolados por mim, alegrai-vos e congratulai-vos comigo, que vos armei para coisa tão digna, como é ser imolado por Cristo.

De novo: assim vos edifico pela Epístola para a paciência e humildade; espero, porém, no Senhor Jesus, enviar-vos em breve Timóteo, para que eu, conhecendo o que vos diz respeito, esteja de bom ânimo e seguro de vós, que receio vejais perturbados por causa da peleja iminente de ambos os lados. Por isso enviar-vos-ei antes Timóteo, pois não tenho ninguém tão unânime convosco, e que com tão sincera afeição se preocupe por vós. Verdadeiramente ninguém; todos, com efeito, que agora estão comigo, buscam o que é seu, não o que é de Jesus Cristo.

Envio-vo-lo, preocupado por vós; vós, porém, recebendo-o honrosamente, conhecei a prova dele; não o diz simplesmente, mas a prova dele, isto é, ele bem provado por mim; em muitas coisas, com efeito, tive prova: prova digo bem, porque, como filho a pai, serviu comigo no Evangelho, como filho obediente ao pai. E porque com sincera afeição vos ama, e como a pai me serviu, portanto espero enviar-vo-lo logo que eu tiver visto o fim do que se passa comigo. Por isso assim diz; Nero, com efeito, havia disposto dar em breve sentença sobre ele, se o mataria ou o reservaria. Esperava, porém, escapar, porque instruíra na fé muitos da casa de César, que trabalhavam pela sua libertação. Por isso acrescentou: confio, porém, no Senhor, que também eu mesmo irei em breve a vós. E, embora diga que hei de ir, e que hei de enviar Timóteo, entretanto julguei necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão e cooperador na pregação e companheiro de armas na tribulação, vosso apóstolo, isto é, ou legado, porque o haviam enviado a Paulo, ou apóstolo, isto é, pregador deles, ou bispo deles, e ministro da minha necessidade, isto é, que o que me enviastes me ministrou no tempo da necessidade; por isso julguei que devia ser enviado a vós, embora me fosse necessário, porque desejava a todos vós, e estava aflito, não por si açoitado, mas por terdes ouvido que adoecera, e não queria que vos entristecêsseis por ele. Este Epafrodito, enquanto ministrava a Paulo, interceptado pelos guardas, foi afligido veementemente com açoites. Adoecido, digo, por isso, pois adoeceu até à morte; mas Deus teve misericórdia dele, e não só dele, mas também de mim teve misericórdia nele, [para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.] E porque vos doíeis por ele, enviei-o, portanto, com mais presteza do que faria (era-me, com efeito, necessário), para que, vendo-o, vos alegreis novamente; outrora, com efeito, quando estava convosco, vos alegráveis. E enviei-o para que eu fique sem tristeza, porque de vós, entristecidos por ele, tenho tristeza. E porque vos ama tanto, e vós a ele, enviamo-lo a vós; recebei-o, pois, com toda a alegria, não em cítaras e flautas, mas com alegria tida no Senhor; e aos que são como ele, que tanto sofreu por vós e tanto vos ama, tende em toda honra: e é justo; porque ele chegou até à morte pela obra de Cristo, que operava em mim, entregando a sua vida, e para suprir quanto ao meu obséquio o que faltava da vossa parte; vós enviáveis dinheiro, mas, além dele, não havia quem ousasse ministrar-me. Por este Epafrodito Paulo lhes enviou esta Epístola.

Capítulo 3

Quanto ao mais, irmãos meus, alegrai-vos no Senhor. Escrever-vos as mesmas coisas, a mim não me é penoso, e para vós é necessário. Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus operários, guardai-vos da mutilação. Pois nós é que somos a circuncisão, nós que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não pomos a confiança na carne, embora eu também tenha motivo de confiança na carne. Se algum outro parece confiar na carne, eu mais: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, quanto à lei fariseu, quanto ao zelo perseguidor da Igreja de Deus, quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas as coisas que para mim eram lucros, julguei-as perdas por causa de Cristo. Mais ainda: considero tudo como perda, por causa da eminente ciência de Jesus Cristo, meu Senhor, por quem tudo perdi, e tudo tenho por esterco, para ganhar a Cristo, e ser achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas aquela que vem da fé de Cristo Jesus, a justiça que vem de Deus, na fé, para o conhecer, e o poder da sua Ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformado à sua morte; para ver se de algum modo chego à ressurreição que é dentre os mortos; não que eu já a tenha alcançado, ou já seja perfeito; mas prossigo, para ver se de algum modo a alcanço, pois também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não julgo que já a tenha alcançado. Uma só coisa, porém: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e lançando-me às que estão diante, persigo o alvo, o prêmio da vocação celeste de Deus em Cristo Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentir; e se em algo pensais diversamente, Deus também isto vos revelará. Contudo, naquilo a que chegamos, sintamos o mesmo e permaneçamos na mesma regra. Sede meus imitadores, irmãos, e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós. Pois muitos andam, dos quais muitas vezes vos dizia, e agora também o digo chorando, que são inimigos da Cruz de Cristo; o fim deles é a perdição; o seu deus é o ventre, e a sua glória está na sua confusão, eles que pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos o Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humildade, conformando-o ao corpo da sua glória, segundo a operação pela qual também pode sujeitar a si todas as coisas.

Comentário

Depois de os ter suficientemente instruído na luta dos perseguidores, recomendando sempre a humildade com a paciência, instrui-os na outra luta, que lhes moviam os falsos doutores, rebaixando-lhes a lei e exaltando a fé; como se dissesse: assim como vos ensinei, sede pacientes e humildes para com os perseguidores; quanto ao mais, isto é, quanto à outra luta que os falsos apóstolos vos movem, assim vos instruo: irmãos meus, alegrai-vos no Senhor, isto é, não busqueis a alegria em outro lugar, como eles mal ensinam nas coisas carnais, mas pondei toda a vossa alegria no Senhor; só ele, com efeito, justifica, e nada do que pregam os falsos apóstolos aproveita para isto: portanto, não nas coisas carnais, mas alegrai-vos no Senhor. E para que saibais alegrar-vos no Senhor, a mim, que sou pronto e diligente na instrução dos filhos, não me é penoso o que talvez fosse penoso repetir a outros, não falar, porque as palavras depressa escapariam da memória, mas escrever-vos, para que, permanecendo o escrito, perdure em vós a memória das minhas tradições: a mim não é penoso, e para vós era necessário que eu não me pesasse de escrever.

Para que vos alegreis no Senhor, guardai-vos dos cães, isto é, acautelai-vos daqueles falsos apóstolos, que com razão se dizem cães; porque, assim como o cão faz festa àquele que costuma ver, ainda que venha para a destruição da casa ou para o matar; aos que, porém, não costuma, ladra, ainda que venham para o alimentar ou para utilidade da casa; assim estes falsos apóstolos fazem festa aos carnais a quem se acostumaram, ainda que nisto esteja a morte deles e a destruição da casa, isto é, da Igreja; aos pregadores da verdade, porém, ladram, somente porque não se acostumaram a eles, que contudo vêm para os vivificar e para a edificação da casa de Deus. E de tais falsos apóstolos diz: guardai-vos dos cães, que fazem festa ao costume carnal e ladram contra a espiritualidade insólita; aos quais não basta contradizer a verdade, mas são também maus operários, sobressemeando o joio; e guardai-vos destes maus operários, para que com falsa doutrina não vos seduzam. Guardai-vos também da mutilação, eles que, assim como têm cortada a pelezinha, assim têm todo o entendimento cortado e separado do bem; eles que não só são mutilados, mas são também mutilação dos outros que seduzem.

Com razão aqueles carnais são mutilação, pois nós, espirituais, somos os únicos que somos a circuncisão, isto é, a purificação, isto é, não só purificados, mas somos, por doutrina e exemplo, a purificação dos outros; a abscisão, com efeito, daquela pelezinha supérflua era sinal de que todas as coisas supérfluas deviam ser circuncidadas do coração: aqueles, porém, cortada a pelezinha, têm o coração incircunciso; nós, porém, tendo a realidade, isto é, a circuncisão do coração, desprezamos a sombra deles. Nós, digo, somos a circuncisão, nós que servimos a Deus não na carne, que é coisa vil, mas na parte mais digna, a saber, em espírito; quanto, com efeito, a espiritualidade excede a carnalidade, tanto a nossa servidão a deles. Servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, isto é, Cristo Jesus é a nossa glória e a nossa alegria, e nenhuma glória temos em outro. Assim nos gloriamos em Cristo Jesus, não digo de modo que não nos gloriemos na carne, mas nem pondo a mínima confiança na carne, isto é, nas coisas carnais que eles persuadem.

Dir-me-iam: talvez nem tu terias de que confiar na carne; pois [texto corrompido no OCR]. A isto ele: não me envergonho nem confio na carne, embora eu tenha, isto é, pudesse ter motivo de confiança, se algum houvesse, na carne. Eu certamente teria confiança, se alguma houvesse na carne; pois se algum outro parece confiar na carne (digo aqui "outro", isto é, muito diverso de mim, que só em Cristo confio), eu certamente mais do que ele poderia confiar na carne; mais, porque eu fui circuncidado ao oitavo dia segundo a lei; aquele, talvez já adulto, passando ao judaísmo, foi circuncidado. A circuncisão, que se fazia ao oitavo dia, significava que, pela justiça cuja forma era a circuncisão, havíamos de voltar àquela oitava que perdemos pela culpa de Adão; em sinal de cuja oitava celebramos o dia do Senhor; este mundo, com efeito, gira por sete dias; acabado, porém, o mundo, começará esta oitava, que não terá fim por toda a eternidade.

Porque também os que não eram de Israel eram circuncidados ao oitavo dia, como os filhos dos prosélitos, por isso acrescenta: eu sou também da raça de Israel. Porque, de novo, alguns eram de Israel por um dos pais e dos gentios por outro, como Davi, que por uma das partes era da raça de Rute, a gentia, por isso acrescenta: nascido da tribo de Benjamim. Porque, de novo, alguns de Benjamim caíram em idolatria, acrescentou: hebreu, nasci de hebreus. Fui também fariseu quanto à lei, isto é, egrégio, tanto pelo entendimento quanto pelo cumprimento da lei: phares significa divisão, donde fariseu, dividido, porque eram separados do povo, egrégios na lei, no entendimento e na contemplação. Fui também perseguidor da Igreja de Deus quanto ao zelo, isto é, por zelo e dileção de defender a lei. Para que me pareça preferido a todos aqueles na lei, vivi na lei irrepreensível; assim, com efeito, me guardei, que ninguém pôde queixar-se de mim; irrepreensível, digo, quanto à justiça que há na lei, não a que é verdadeira, mas a que há na lei, que o homem pode bastante operar por si; cortar, com efeito, aquela pelezinha, imolar o bode e semelhantes, qualquer um facilmente pode operar. E porque fui tão grande na lei, se houvesse na carne alguma glória, a ninguém maior que a mim. Tão proeminente fui na lei; mas, contudo, as coisas que antes da graça eram para mim lucros — era lucro, com efeito, operar as figuras, enquanto ainda se esperava a verdade —, estas, antes lucros, agora julguei perdas, isto é, destruidoras do verdadeiro bem, por causa de Cristo a abraçar; enquanto, com efeito, estivesse na sombra, não compreenderia o corpo, isto é, Cristo.

Mas, embora diga que por Cristo deixei estas coisas velhas, mais ainda (para calar esta causa, isto é, Cristo) considero tudo como perda, o verdadeiro bem somente por causa da eminente ciência que agora nas Escrituras alcancei; antes, com efeito, enquanto estava na lei, parecia ter a ciência da lei, que em verdade não tinha, mas, vindo a Cristo, então pela primeira vez tive a verdadeira ciência das Escrituras, muito eminente em relação àquela que antes julgava ter; ciência, digo, de Jesus Cristo, meu Senhor, isto é, a que Jesus Cristo distribui aos que vêm a ele; segundo Ambrósio, movido pelo amor, disse "seu Senhor". Por quem, Cristo, a compreender, tudo perdi, não só julguei, mas fiz parecer aos outros todas estas coisas carnais perda; nem só as julgo perda, mas também esterco, porque contaminam tudo o que lhes adere. Julgo-as por isso esterco, para ganhar a Cristo, para assim fazer de Cristo o meu lucro; porque, deixando aquelas, ganho para mim Cristo, a ter mais plenamente no futuro. Por isso também assim julgo, para que, entretanto, enquanto ainda não recebo plenamente a Cristo, seja achado nele, membro nele, isto é, no seu corpo; eu, digo, não tendo a minha justiça (minha, certamente, porque a que é da lei, as obras da lei qualquer um pode operar), mas tendo aquela justiça que vem da fé de Cristo Jesus, isto é, que temos pelo fato de crermos em Cristo Jesus.

Dir-me-iam: dizes que a justiça da lei é tua; aquela, porém, que vem da fé de Cristo opões como se não fosse tua. Assim, diz Paulo, não é minha, mas a justiça que vem de Deus; justiça, digo, assim como se tem pela fé, assim perdurando na fé. Porque alguém pensaria: é verdade que a fé vem de Deus, e que sem a fé não se pode ter a justiça, mas, tida já a justiça, a fé não é mais necessária; por isso diz que, assim como a justiça nasce pela fé, assim há de perdurar na fé, e não sem ela.

Disse acima que por Cristo se tinha eminente ciência, mesmo neste mundo; agora acrescenta que por ele se tem conhecimento muito maior, mas isto no futuro, quando veremos o Senhor como é: justiça que está na fé; justiça, digo, para conhecer aquele na glória, como é, não como agora por espelho, e o poder da sua Ressurreição, isto é, para ressurgir na imortalidade; a nossa ressurreição, que é poder da sua Ressurreição; a sua Ressurreição, com efeito, faz isto, que nós igualmente ressurjamos. Justiça, de novo, que vale para ter a comunhão dos seus sofrimentos, de modo que, assim como ele por nós, assim nós padeçamos por ele — chama paixões de Cristo as que sofreu antes da cruz durante todo o tempo —; valendo também para ter a conformação à sua morte, para que nos conformemos de todos os modos à sua morte; de modo que, assim como ele só por dileção morreu por nós, assim também nós nos alegremos de morrer na sua dileção. O que dissemos, significam as suas palavras, que contudo se constroem assim: seja achado nele; eu, digo, conformado à sua morte.

Alguém diria: por que queres assim conformar-te à sua morte, quando a tua justiça sem a morte basta para ter a glória? A isto Paulo: por isso quero conformar-me à sua morte, para ver se de algum modo; eu não me importaria de que gênero de paixão ou de morte tivesse estas coisas; para ver se de algum modo, digo, chego — servo e senhor chegam-se um ao outro; este bem servindo, aquele bem remunerando: assim Paulo chega a Cristo, enquanto morre por ele, como Cristo morreu por Paulo —; chego, digo, tendendo à ressurreição. Ou assim: se de algum modo chego à ressurreição, de modo que no "chegar" notemos o desejo dos santos; ressurreição que é dentre os mortos; nós, com efeito, ressurgiremos fora da sociedade dos mortos, mas os ímpios não ressurgirão dentre os mortos, porque de dia em dia morrerão. Digo, pois, "se de algum modo", porque não entendo que já tenha recebido algo daquela glória a que tendo; ou já seja perfeito no conhecimento de Cristo, para cujo conhecimento usamos agora a fé, como alguém usa o espelho para conhecer qualquer coisa. Ainda não recebi, mas prossigo, como coisa não tida e que desejo; prossigo, digo, para ver se de algum modo (como se disse acima) o alcanço — por abundância de afeição diz "alcançar"; como se dissesse: se pudesse alcançá-lo, encerrá-lo-ia nos meus abraços —; alcançar, digo, no modo em que fui alcançado por Cristo Jesus, quando, assim como Cristo me conhece perfeitamente como sou, assim eu o conheça como ele é. Ou assim: alcance Cristo no modo de claridade em que fui alcançado por Cristo Jesus, quando me chamou no caminho, para que, na quanta claridade então estava, pudesse abraçá-lo.

Por isso digo "alcançar", porque eu, irmãos, ainda que tenha sido arrebatado ao terceiro céu, contudo não julgo que tenha alcançado a Cristo, a não ser pelo espelho da fé. Não julgo ter alcançado, mas persigo uma só coisa, isto é, uma só realidade, da qual um só clamava: «Uma só coisa pedi ao Senhor, esta buscarei» (Sl 26,4). Segue uma só coisa quem está sempre na mesma operação do bem; segue duas quem ora o bem, ora o mal opera. Persigo uma só coisa; eu, na verdade, esquecendo-me das coisas que ficam para trás, isto é, as temporais e quaisquer carnais; ou assim: esquecendo o que fica para trás, isto é, os méritos passados; e lançando-me às que estão diante, isto é, às melhores, porque eternas, ou àqueles méritos que são anteriores em utilidade, embora posteriores no tempo aos precedentes — por isso os últimos são anteriores, porque os precedentes seriam vãos se não seguissem estes que lhes dão valor —; lançando-me a essas que são anteriores com todo o desejo, estendendo-me com a carne e o espírito, indo assim ao alvo, isto é, à coisa que me está destinada, a saber, ao prêmio, isto é, ao prêmio do trabalho; prêmio, digo, da vocação de Deus, para cuja recepção Deus me chama; vocação, digo, celeste, isto é, a ter nas alturas dos céus, em Cristo Jesus, distribuidor deste prêmio aos seus combatentes. Nestas palavras insere tanto a certeza quanto a recomendação da coisa que espera: por "destinado" e "vocação" significa a certeza; por "celeste", "de Deus" e "em Cristo Jesus", a dignidade desta coisa.

Porque eu, Paulo, ainda não recebi coisa alguma, nem sou ainda perfeito, mas prossigo para alcançar, estendendo-me ao prêmio destinado da vocação celeste, portanto, todos que somos perfeitos, tenhamos este mesmo sentir, a saber, que ainda não recebestes Cristo desse modo, ou que ainda sois imperfeitos no conhecimento dele. Nem isto o diz em segunda pessoa, mas, a seu modo, para melhor os induzir, inseriu-se a si mesmo, dizendo: todos que somos perfeitos, tenhamos este sentir. O que diz acima, "não que eu já seja perfeito", parece oposto ao que aqui diz, "somos perfeitos"; mas não impede: ali fala, com efeito, da perfeição do conhecimento de Deus, na qual ninguém neste mundo é perfeito; aqui fala da perfeição das virtudes, que podemos ter neste mundo; nesta perfeição há muitos graus, Paulo, com efeito, é mais perfeito que outro, e qualquer um que leve a vida sem [mancha] criminosa diz-se perfeito.

E porque disse, sintamo-nos assim imperfeitos, para que por isso não desanimeis, se em algo pensais diversamente, isto é, menos perfeitamente, Deus, que o que já sabeis vos revelou, também isto que resta saber vos revelará. Ou assim: se em algo pensais diversamente, isto é, que já atingis algum grau de conhecimento, Deus vo-lo revelará, e assim fará o que resta. Ou assim: sintamo-nos imperfeitos; e se vós pensais algo diversamente do que se deve pensar, enganados pelos carnais, Deus vos revelará como devais sentir, ele que já fez algo em vós.

Dir-me-iam: e porque, como dizes, somos imperfeitos, por isso não podemos estar de pé, nem é de admirar que caiamos. A isto Paulo: embora ainda não sejamos perfeitos, contudo, convém que sintamos, isto é, entendamos todos o mesmo; e não o mesmo nas coisas carnais, mas aquilo mesmo a cujo entendimento chegamos pela fé; e convém que permaneçamos na mesma regra, isto é, na mesma retidão de viver. Para que permaneçais no mesmo, ó irmãos, sede meus imitadores. Se objetais que eu, a quem não vedes, não posso ser imitado, respondo a isto: observai, isto é, considerai diligentemente os que andam assim segundo a fé, como ainda tendes, creio, na memória o modelo que temos, o modo como ensinávamos e vivíamos quando estávamos convosco; assim como, com efeito, alguém recolhe o rosto de um homem outrora visto, assim também vós o modelo da nossa doutrina e costumes. Por isso digo: os que andam assim segundo o nosso modelo, muitos, com efeito, andam no gênero do mal, os quais muitos, estando convosco, muitas vezes vos dizia serem inimigos da Cruz de Cristo; enquanto, com efeito, dizem que o homem se justifica por outro meio que não por Cristo crucificado, certamente são inimigos da Cruz de Cristo. Então eu vo-lo dizia; agora, porém, digo o mesmo chorando, tanto pela condenação deles quanto pela vossa sedução.

Para retrair os filipenses desse consentimento, reprova-lhes os falsos apóstolos; a sua parte, porém, aprova, dizendo: o fim deles, inimigos de Cristo, é a perdição, isto é, a condenação eterna, e o seu deus é o ventre, isto é, o que contém pelo que é contido, isto é, a comida; enquanto, com efeito, creem purificar-se pela comida, atribuem à comida o que é de Deus; ou assim: o seu deus é o ventre; não pregam, com efeito, por amor de Deus, mas para encher o ventre. E a glória deles, que pensam nas coisas terrenas, isto é, que seguem e ensinam as carnais, está na sua confusão; são chamados, com efeito, mutilados: podem também envergonhar-se, enquanto aqueles, racionais, creem justificar-se pela imolação de um bode irracional. O fim deles é a perdição, mas a nossa pátria, não só a vontade, mas também a conversação, nós que amamos a Cruz de Cristo, está nos céus; postas de lado as coisas terrenas, com efeito, anelamos às celestes; donde, isto é, porque a nossa conversação está nos céus, com esta confiança seguros aguardamos, para o juízo, o Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humildade, isto é, da nossa abjeção — nós, com efeito, pelo pecado nos abjetamos da glória em que fomos criados —; este corpo, digo, transformará: quando, com efeito, criou o primeiro homem, formou-o em muita claridade; na ressurreição, porém, com claridade ainda maior transformará o nosso corpo, conformando-o ao corpo, isto é, posto na mesma figura em que estará o seu corpo; não ao corpo de mortalidade, que antes teve, mas ao corpo da sua glória: claridade de imortalidade que recebeu na Ressurreição, e nesta mesma claridade de imortalidade transformará o nosso corpo. E deve-se notar que a humildade dele foi a nossa claridade. Que seja poderoso para transformar, acrescenta dizendo: transformará, agindo segundo a operação na qual operação pode não só isto fazer, mas também sujeitar a si todas as coisas.

Capítulo 4

Portanto, meus irmãos caríssimos e desejadíssimos, minha alegria e minha coroa, assim permanecei firmes no Senhor, caríssimos. Rogo a Evódia e exorto a Síntique que sintam o mesmo no Senhor. Peço também a ti, fiel companheiro, que ajudes aquelas que comigo trabalharam no Evangelho, com Clemente e os demais meus cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida. Alegrai-vos sempre no Senhor; novamente o digo, alegrai-vos. A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens; o Senhor está perto. Não vos inquieteis por nada; mas em toda oração e súplica, com ação de graças, sejam os vossos pedidos manifestados a Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guarde os vossos corações e as vossas inteligências em Cristo Jesus. Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, se há algum louvor de disciplina, isso pensai. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz estará convosco. Alegrei-me muito no Senhor porque, finalmente, de novo floresceu o vosso sentir por mim, como também o tínheis; estáveis, porém, ocupados. Não o digo por causa de penúria; pois aprendi a bastar-me nas condições em que me acho. Sei viver humilhado, sei também viver na abundância (em toda parte e em tudo fui instruído): a estar saciado e a ter fome, a ter abundância e a padecer penúria. Tudo posso naquele que me conforta. Contudo, fizestes bem em tomar parte na minha tribulação. Sabeis também vós, filipenses, que no princípio do Evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma Igreja comunicou comigo em matéria de dar e receber, senão vós somente; pois também a Tessalônica enviastes, uma e duas vezes, o necessário para mim. Não que eu busque o dom, mas busco o fruto que abunde em vossa conta. Tenho tudo e abundo; estou cheio, tendo recebido de Epafrodito o que me enviastes, odor de suavidade, sacrifício aceito, agradável a Deus. O meu Deus, porém, preencherá toda a vossa necessidade, segundo as suas riquezas, na glória, em Cristo Jesus. A Deus e Pai nosso seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Saudai a todo santo em Cristo Jesus. Saúdam-vos os irmãos que estão comigo. Saúdam-vos todos os santos, principalmente os da casa de César. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito. Amém.

Comentário

E porque transformará a nós que conversamos nos céus, portanto, meus irmãos, conversai assim conosco: irmãos, digo, caríssimos, pelo que já fizestes bem, e desejadíssimos, isto é, que me desejais muito, ou então, desejadíssimos, isto é, muitíssimo por mim desejados; vós, digo, minha alegria no presente, é-me, com efeito, bom alegrar-me da vossa perfeição; vós e minha coroa no futuro, por vós, com efeito, confio ser coroado: vós, irmãos, permanecei assim firmes no Senhor, isto é, ou como vos ensinei, ou como até agora permanecestes, como caríssimos pelo passado, assim caríssimos pelo bem futuro. A vós assim admoesto em comum; mas Evódia, como quem cedo consente, rogo, e Síntique, que parece menos suplicável, exorto, que ambas sintam o mesmo, isto é, a unidade da fé; o mesmo, digo, não na lei, mas no Senhor. Estas duas eram matronas que haviam ministrado ao Apóstolo e aos discípulos na pregação; mas, por leviandade feminina, o que haviam feito ao Apóstolo, o mesmo faziam àqueles falsos apóstolos, julgando agir bem: e por isto são repreendidas por Paulo. Peço também a ti, ó Germano, que me és companheiro na pregação do Evangelho, ajuda aquelas ensinando, para que assim não errem mais: e é digno, porque trabalharam comigo no Evangelho, ministrando-me de seus bens; que também trabalharam com Clemente e os demais meus cooperadores, ministrando igualmente; nomes, isto é, méritos, pelos quais são nomináveis diante de Deus; nomes, digo, estão no livro da vida. Livro da vida diz-se a mente divina, na qual os bons estão escritos de memória desde a eternidade. Este Germano era coadjutor de Paulo na pregação.

A essas pessoas admoesto assim, nominalmente; em comum, porém, isto ordeno: alegrai-vos, não na lei, não nas coisas carnais, mas no Senhor, como admoestei no princípio; nem por uma hora, mas sempre alegrai-vos no Senhor; e novamente o digo, alegrai-vos no Senhor. Se dissesse uma só vez "alegrai-vos", não pareceria querer isto mais que outra coisa, mas, porque pretende persuadir mais isto, nunca diz demais o que nunca se faz demais. Alegrai-vos assim no Senhor, de modo que a vossa modéstia seja conhecida de todos os homens, para exemplo do bem. Chama modéstia como que medida, para que estejam de tal modo medidos que não busquem a alegria além do Senhor, nem presumam alegrar-se aquém. Busca a alegria além do Senhor quem junta à fé as coisas carnais; detém-se aquém quem busca a alegria nas próprias forças. Dir-me-iam: seria bom, para o culto de Deus, juntar a lei à fé. A isto Paulo: sede assim modestos, porque o Senhor está perto, isto é, está sempre pronto a ajudar os modestos. De novo aqueles: se mantivéssemos a disciplina da lei, seria útil para corrigir os inquietos. A isto de novo Paulo: não vos inquieteis por nada, isto é, não duvideis do auxílio de Deus, que vos apressa a dispensa da lei.

Ou tomemos isto mais amplamente, de modo que estas palavras respondam a ambas as lutas; como se dissesse: sois impugnados de ambos os lados, mas alegrai-vos sempre no Senhor, porque sois dignos de padecer pelo nome dele dos perseguidores e dos falsos apóstolos; novamente o digo, alegrai-vos. Dupla é a luta, dupla a exortação. Alegrai-vos de modo que a vossa modéstia, isto é, a temperança da vossa paciência, seja conhecida de todos os homens. Para que sejais modestos, sabei que o Senhor está perto, que não abandona os que esperam nele; e porque está perto, não vos inquieteis por nada, isto é, não duvideis dos perseguidores. Não sejais duvidosos, mas pedi em toda oração e súplica, e com ação de graças. Oração diz-se quando se pede, deprecativamente, coisa obtenível; súplica diz-se quando por adjurações pedimos o que parece difícil de obter; render graças é também útil para obter o futuro, assim como ser ingrato é nocivo. Pedi assim, para que os vossos pedidos sejam manifestados a Deus, isto é, conhecidos e aprovados diante de Deus: então o pedido é manifestado a Deus, se quem pede é justo e se o que pede é idôneo. Dizem-se pedidos as coisas que ora são oportunas, ora passam, como a chuva na seca, o calor na messe.

O que podeis de vós, fazei, e naquilo em que desfaleceis Deus por piedade supra; o que diz assim: e a paz de Deus, isto é, o Deus da paz — e convenientemente, porque sofriam peleja, aqui chama Deus da paz —; a paz, digo, de Deus, que excede todo entendimento; o intelecto do homem, com efeito, não basta para a captar; esta paz, digo, guarde os vossos corações, isto é, as vossas vontades, e as vossas inteligências em Cristo Jesus, que é a guarda de todo bem. Alguns entendem o mesmo, mas não querem o mesmo; alguns querem o mesmo, que contudo não entendem o mesmo.

Do passado assim vos instruí; quanto ao mais, isto é, quanto ao futuro, irmãos, pensai tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto: estas duas coisas, verdadeiro e honesto, tomam-se em relação à fé, uma das quais, embora não possa estar sem a outra na fé (se há, com efeito, verdade na fé, há também pudor, porque, se a fé é falsa, é também adúltera), não são, contudo, supérfluas, porque verdadeiro e honesto significam louvores diversos na fé. Pensai também tudo o que é justo para com o próximo, tudo o que é santo em vós, tudo o que é amável, isto é, por que quer que seja amada a vossa religião, e tudo o que é de boa fama, isto é, de que quer que os homens falem bem; digo, porém, "de boa fama", se há alguma virtude neles, ou, se não há tanta virtude, haja ali ao menos algum louvor de disciplina; basta, com efeito, somente a disciplina cristã para que apareça louvável. Pensai, digo, todas estas coisas, que também aprendestes de mim e também recebestes de mim; e é torpe que abandoneis o que bem começastes; que também ouvistes haver em mim, e, estando convosco, vistes em mim. Estas coisas não só pensai, mas praticai; e então o Deus da paz estará convosco, cooperando.

Assim vos admoesto quanto ao futuro; quanto ao passado, porém, alegrei-me muito no Senhor, a saber, porque finalmente, passado muito tempo, e então alguma vez, isto é, uma só vez e não mais, floresceu de novo: quando, com efeito, estava convosco, então florescestes a meu respeito; agora, porém, florescestes de novo, não só ministrar, mas também sentir por mim; assim, com efeito, vos foi pesada a minha indigência, como se vós mesmos das mesmas coisas necessitásseis; sentir, digo, como o tínheis, outrora, quando estava convosco, por mim sentíeis. Diz convenientemente "floresceu de novo"; assim como, com efeito, da flor, assim se espera o fruto desta administração. Agora finalmente floresceu de novo, mas estáveis ocupados antes, e por isso sois escusáveis, se, impedidos por outra parte, não ministrastes. Alegrei-me certamente, e não o digo por causa de penúria, que me fosse pesada; aprendi, com efeito, a bastar-me nas condições em que me acho; sei, com efeito, viver humilhado, isto é, empobrecido, sei também viver na abundância. Sabe humilhar-se quem não se quebra na indigência; sabe abundar quem com autoridade sabe mandar aos súditos, não porém para sua glória, mas para utilidade da Igreja. Sei humilhar-me e abundar; fui, com efeito, instruído, isto é, acostumado, em toda parte, isto é, em todo lugar, quer haja ali poucos, quer mais, quer pobres, quer ricos. E em todas as coisas fui instruído a estar saciado e a ter fome; e (para dizer mais amplamente) sei ter abundância e padecer penúria. E, embora diga "sei padecer", etc., posso, contudo, tudo isto não em minhas forças, mas naquele que me conforta por sua graça, ajudando-me. E, embora tenha dito que não me alegrei por causa de penúria, não sou contudo ingrato aos benefícios, mas fizestes bem em tomar parte na minha tribulação, isto é, em mim tribulado.

Digo: sei ter abundância e padecer penúria; vós, porém, ó filipenses, sabeis estas coisas, porque, quando parti da Macedônia, no princípio do Evangelho, nenhuma Igreja comunicou comigo em matéria, isto é, na consideração de dar e receber, de considerar que eu lhe dava as coisas espirituais e eu devia receber delas as carnais; ou ao contrário, que recebia de mim as espirituais e devia dar as temporais; nenhuma, digo, comunicou, senão vós somente, que me enviastes à Tessalônica uma e duas vezes, não, contudo, para juntar tesouro, mas para o uso, isto é, o que bastasse ao meu uso.

Dir-me-iam: por isso nos louva, para assim nos induzir a dar. A isto Paulo: não vos louvo por isso, porque busque o dom, isto é, que me deis, mas busco o fruto que abunde em vossa conta, isto é, na vossa administração feita por razão; como se dissesse: não busco de vós por amor de receber, mas para me oferecer como matéria capaz da vossa benignidade, a fim de que assim possa frutificar. Por isso não busco o dom, porque tenho tudo o que convém, e abundo nisso; abundo certamente, porque estou cheio, tendo recebido de Epafrodito o que me enviastes, odor de suavidade a Deus. Pelo incenso, que se diz odor suave a Deus, significa-se a oração; esta esmola, porém, não foi menos grata a Deus que a oração devota. Enviastes também este mesmo sacrifício aceito a Deus; e não de qualquer modo aceito, mas agradável a Deus. Chamava-se hóstia o que se oferecia pelos inimigos vencidos ou por vencer; estes, porém, se se imolassem com açoites ou jejuns para superar as tentações do inimigo invisível, não agradariam mais a Deus que esta administração.

Fui cheio por vós, o meu Deus, porém, preencherá toda a vossa necessidade — ou desejo —, não segundo o que merecestes, mas segundo as suas riquezas; preencherá, digo, na glória, e isto em Cristo Jesus, distribuidor da glória. Porque me enchestes, assim oro por vós; a Deus e Pai nosso, por isto e por tudo o que bem fazemos, seja a glória pelos séculos dos séculos, consecutivos destes séculos. Amém. Saudai a todo santo em Cristo Jesus; diz isto dos seus discípulos, se por acaso, passando, os vissem. Saúdam-vos os irmãos que estão comigo; isto, de novo, diz dos seus discípulos que estavam com ele. Saúdam-vos todos os santos; isto diz dos convertidos; principalmente saúdam-vos os da casa de César: quis significar-lhes que alguns da família de Nero tinham sido por ele convertidos, por cujo auxílio julgava que escaparia para os visitar. Sinal da Epístola: a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito, para que nas coisas espirituais sirvais a Deus, no qual também sempre vos alegrais. Amém.