Epístola aos Efésios

Prólogo

Éfeso é uma cidade da Ásia. Não esta Ásia que divide o orbe, mas uma província da Grécia, que tem sete cidades, das quais Éfeso é a metrópole, às quais João, relegado na ilha de Patmos, escreveu o Apocalipse. Estes efésios, ouvida a palavra da fé por Paulo, creram e operaram louvavelmente as obras da fé. A eles o Apóstolo, quando estava em Roma, no cárcere, escreveu esta Epístola, provendo solicitamente para que não se ensoberbecessem porque tinham perseverado bem na fé e atribuíssem isso à própria virtude, quando, como a misericórdia de Deus havia começado neles, assim piedosamente a consumava. Nesta Epístola, porém, tem por matéria os benefícios de Deus; dos quais trata deste modo: mostrando que eles não vêm do mérito do homem, mas do beneplácito de Deus, mostra também que os benefícios de Deus são tais que ninguém sobe neles a tanta perfeição que não lhe reste ainda onde possa subir; assim como o homem, com efeito, sempre tem onde recair, sempre tem também onde crescer. Trata aqui também de como os pais devem presidir aos filhos, os filhos sujeitar-se aos pais; igualmente dos senhores e servos, das esposas e maridos, com quanta aliança devem servir-se mutuamente segundo o modo da condição e do sexo. Dos benefícios de Deus trata assim para que os efésios não tenham ocasião de ensoberbecer-se do bem que fazem, ao ouvir que nada têm de si, mas tudo têm da misericórdia de Deus; de novo, para que não se entorpeçam em obrar bem, ao ouvir que podem achar onde crescer no obséquio de Deus. A estes efésios Paulo, ao despedir-se deles, convocou juntos, dizendo-lhes: Eis que vos transmiti a fé sã, vede que não a torneis vã; eu, doravante, sou livre, mas, se obrardes mal, Deus vo-lo exigirá (At 20,27). Por estas palavras e semelhantes foram mais solícitos em prover-se.

Capítulo 1

Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, a todos os santos que estão em Éfeso, e aos fiéis em Cristo Jesus. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda bênção espiritual nos céus, em Cristo, como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele na caridade. Ele nos predestinou para a adoção de filhos por Jesus Cristo, para si, segundo o beneplácito da sua vontade, para louvor da glória da sua graça, com a qual nos agraciou no seu amado Filho, no qual temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça, que superabundou em nós, em toda sabedoria e prudência; para nos dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que nele propôs, para a dispensação da plenitude dos tempos, de restaurar todas as coisas em Cristo, as que estão nos céus e as que estão na terra; nele em quem também fomos chamados à herança, predestinados segundo o propósito daquele que opera todas as coisas segundo o conselho da sua vontade; para que sejamos para louvor da sua glória, nós que antes esperamos em Cristo; no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade (o Evangelho da vossa salvação), e nele tendo crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, que é penhor da nossa herança, para a redenção do povo adquirido, para louvor da sua glória. Por isso também eu, ouvindo falar da vossa fé no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos, não cesso de dar graças por vós, fazendo memória de vós em minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento dele; iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, e qual a sobre-excelente grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que ele operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à sua direita nos céus, acima de todo Principado, Potestade, Virtude e Dominação, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no futuro.

E tudo submeteu debaixo de seus pés; e deu-o por Cabeça sobre toda a Igreja, que é o seu corpo e a plenitude daquele que tudo em todos plenifica.

Comentário

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, a quem Cristo Jesus consagrou Apóstolo dos gentios, donde aparece que é Apóstolo para vós; Paulo, digo, Apóstolo de Cristo, não por mérito seu, mas pela só vontade e beneplácito de Deus (assim também vós, que sois bons, não referis ao vosso mérito, mas à graça de Deus); Paulo, digo, Apóstolo pela vontade de Deus, escreve a todos os santos, isto é, aos mais perfeitos, que foram santificados nas virtudes; escreve também aos fiéis, isto é, aos menos perfeitos, que, contudo, conservaram bem a integridade da fé; aos fiéis, digo, em Cristo Jesus, isto é, que guardam a fé de Cristo Jesus; aos santos, digo, e fiéis que estão em Éfeso, deseja isto Paulo: graça perseverante a vós que não pecastes; aos que ao menos nos veniais caíram, seja a graça da segunda remissão; seja também a vós paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, como muitas vezes foi exposto.

Para mostrar que todo benefício vem da misericórdia de Deus, nos primeiros benefícios dá graças a Deus, dizendo: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, se é Pai de Cristo, e nós, pela fé, filhos de Cristo, assim por Cristo o Pai é nosso. A nossa bênção em Deus nada outra é que louvar e magnificar a sua glória; a bênção de Deus em nós, porém, é a nossa exaltação e o progresso da nossa salvação. Aqui prossegue agora as duas eleições de Deus em nós: a primeira, pela qual desde a eternidade nos elegeu para sermos tais; a outra, no tempo, quando nos infundiu misericordiosamente o Espírito cooperando conosco: e acrescenta as consumações de uma e outra eleição; pondo primeiro a que no tempo se faz por último, na qual havemos de recuperar a imortalidade e a impassibilidade. Esta, porém, porque é mais digna, antepõe àquela que se completa quando a alma, pela misericórdia de Deus, é libertada do fardo dos pecados, dizendo: bendito seja Deus, que nos abençoou, isto é, exaltou. Por isso designou pelo pretérito o que é futuro, para mostrar-se tão certo desta bênção futura como alguém é certo do que vê ter passado; por isso também assim diz, porque entendeu que os santos já segundo as almas reinam com Cristo. Deus nos abençoou com toda bênção; toda, porque suficiente; bênção, digo, espiritual — embora, com efeito, esta bênção se faça segundo o corpo, é, contudo, espiritual, porque, assim como o espírito do homem será sustentado só pela contemplação da glória de Deus, assim o corpo será saciado com o pasto da visão de Deus —; bênção, digo, já tida por alguns segundo as almas e a ser plenamente tida por todos os santos, não nesta terra, mas nos céus, para que também pela dignidade do lugar esta bênção seja mais recomendável; abençoou, digo, assim em Cristo Jesus, isto é, na operação de Cristo Jesus, no qual o Pai tudo opera.

Mostrada a consumação da outra eleição, acrescenta a eleição que se cumpre segundo a justificação da alma neste tempo, determinando que a consumação dita é da misericórdia de Deus pela eleição, de que acrescenta, dizendo: assim Deus nos abençoou por graça, como só por graça nos escolheu antes da fundação do mundo, onde é claro que não precedeu mérito do homem; escolheu-nos, digo, nele, em Cristo, no qual tudo fez, ou então, nele para permanecermos: para isto escolheu, para sermos santos e imaculados, santos pela posse dos bens, imaculados pela purificação dos males; para sermos tais diante dele, isto é, para que contemplássemos só a ele e em nada atendêssemos ao mundo; ou então, diante dele, isto é, para que fôssemos contemplados por ele: escolheu-nos, digo, na caridade, isto é, no só amor.

Dita a eleição que aqui se completa segundo a justiça da alma, acrescenta aquela eleição de cuja consumação já falou, dizendo: escolheu-nos para sermos santos; que nos predestinou, isto é, preordenou desde a eternidade, ou então preparou no tempo, para a adoção de filhos a termos — não quis dizer imortalidade, mas, para tudo referir à graça de Deus, para a adoção, isto é, para a incorrupção dos filhos concedida a nós só pela adoção de Deus —; adoção, digo, a ter por Jesus Cristo; nós, digo, a virmos para ele, para que, como ele, assim também nós fôssemos imortais e impassíveis: predestinou, digo, segundo o beneplácito da sua vontade, isto é, segundo a sua vontade proposta; proposta, isto é, assim preordenada desde a eternidade, ou então proposta, isto é, oferecida a todos os que hão de ser salvos, se a culpa deles não o impedir; predestinou, digo, só por vontade para louvor da glória da sua graça, isto é, para que seja louvada a sua graça, na qual graça é múltipla a glória; há, com efeito, algumas graças de Deus, como estas temporais que piedosamente ministra, nas quais não se deve gloriar; mas na incorrupção é múltipla a glória. E isto devíamos ter dito: porque primeiro começa comumente pelas bênçãos que se fazem publicamente a todos os justos; depois desce àquelas que se fazem aos Apóstolos; em terceiro lugar acrescenta as que Deus deu aos efésios.

Posta a dupla eleição e antecipada a consumação da mais digna, acrescenta a consumação da outra, dizendo: com a qual graça nos agraciou, isto é, nos fez gratos, no seu amado Filho, isto é, na fé do seu amado Filho, que, porque ama, também nos ama a nós, filhos do seu Filho; no qual Filho temos a redenção, e não por vil preço, mas pelo sangue [dele] do Filho derramado; no qual também temos a remissão dos pecados — todos têm a redenção, porque o preço suficiente para a redenção de todos, se quisessem, foi dado; mas só estes têm a remissão, que se mostraram dignos da redenção de Cristo —; temos a remissão segundo as riquezas da sua graça, isto é, segundo a sua graça rica nisto, porque tanto os originais quanto os atuais, quer poucos, quer muitos, a todos sem diferença perdoou.

Enumerados os benefícios que se fazem aos santos em público, desta comunidade desce aos Apóstolos, dizendo: graça que superabundou em nós Apóstolos, sobre, isto é, mais que nos outros: e foi digno; porque dos Apóstolos haviam de receber os outros; superabundou, digo, em toda sabedoria e prudência. Sabedoria diz-se do conhecimento das coisas divinas, prudência, como providência, com que Paulo sabia bem prover às suas Igrejas; toda, não porque soubessem tudo, mas porque tudo o que lhes era necessário, tanto das coisas divinas quanto das humanas, tinham à mão. Superabundou de tal modo que nos deu a conhecer, a nós Apóstolos, o mistério, isto é, o segredo da sua vontade, isto é, a ordem da redenção humana: mistério (sacramentum) diz-se como segredo, porque não a todos mas a poucos é lícito contemplá-lo. Dará a conhecer este mistério, a saber, restaurar segundo o seu beneplácito, não segundo mérito do homem, porque nenhum havia; beneplácito que nele, em Cristo, propôs, isto é, preordenou desde a eternidade, ou então, propôs, isto é, expôs publicamente Deus o seu beneplácito, se quiser; propôs, digo, para a dispensação da plenitude dos tempos, isto é, na plenitude dos tempos; o tempo da graça, com efeito, diz-se plenitude dos tempos, ou porque todas as coisas antes preditas e esperadas nele foram cumpridas por Cristo, ou plenitude, isto é, fim e consumação dos tempos que Deus constituíra preceder o tempo da graça: plenitude, digo, convenientemente dispensada; primeiro, com efeito, quis Deus que os homens experimentassem que pela liberdade do arbítrio e pela lei natural nada podiam; depois entregou a lei escrita, pela qual de novo se mostraram impotentes para escapar ao pecado; e depois que o homem se reconheceu por todos os lados impotente, então finalmente aplicou Deus oportunamente a graça, com cujo auxílio o homem pudesse o que por si não podia. De restaurar todas as coisas em Cristo, digo, isto é, por Cristo, as que estão nos céus, imperfeitas, e as que estão na terra, corrompidas pelo pecado; para isto, com efeito, Deus fez o homem e o redimiu, para reintegrar a diminuição dos Anjos, salvo o homem; por isso também Cristo tomou a carne para restaurar na justiça o homem corrompido nos pecados. Mas este restaurar entende-se de diversos modos; Cristo, com efeito, foi causa da restauração dos Anjos, não quanto a eles necessidade, os Anjos eram, com efeito, puros, embora diminuídos de alguns companheiros: Cristo, porém, causa e necessidade da restauração dos homens; causa para que por ele fosse reintegrada a queda dos Anjos; necessidade porque, se não fosse restaurado por Cristo, estava perdido pelo pecado. Restaurar, digo, as que estão na terra, de modo que nele permaneçam; se não permanecerem, com efeito, na fé dele, a restauração deles será nula. Ou de outro modo: restaurar em Cristo as que estão nos céus, isto é, os santos cujas almas já nos céus reinam com Cristo, e as que estão na terra nele, isto é, os justos, que, se ainda são retidos pela conversação na terra, já estão, contudo, nele pela pureza de vida.

Dir-me-iam os efésios: vós, Apóstolos, certamente fostes chamados a tão grande altura, à qual julgar que possamos chegar é insensato ao menos opinar. A isto Paulo: nele Cristo também nós, Apóstolos, fomos chamados à herança, não por nosso mérito, nem por dignidade de linhagem, mas por sorte, isto é, por eleição divina: diz-se sorte a eleição divina, como quando o juízo humano falha, os homens recorrem à eleição de Deus. Não só fomos chamados por graça, mas também predestinados, isto é, preparados segundo o propósito daquele, isto é, segundo o que a sua piedade propôs a nosso respeito; daquele, digo, que, como estas coisas em nós, assim opera todas as coisas em cada um segundo o conselho da sua vontade, isto é, segundo a sua vontade agindo com conselho e discrição. Ou assim: não só nos chama por graça, mas também opera em nós tudo o que se segue à vocação segundo o conselho da sua vontade, como foi dito. Por isso chamados e predestinados, para que sejamos para louvor da sua glória, isto é, para que com digno louvor glorifiquemos a Deus, que quer ser louvado por nós, não que o nosso louvor lhe confira algo, mas para que tenha causa de nos fazer bem; sejamos, digo, nós que antes que vós esperamos em Cristo. Só no tempo vos precedemos, mas, se quiserdes, na glória não precedemos, antes talvez vós nos precedereis, uma vez que os dons de Deus consistem só na eleição, não na linhagem ou na prioridade de tempo.

Agora dos Apóstolos desce aos benefícios de Deus conferidos aos próprios efésios, dizendo: em Cristo, no qual também vós fostes chamados como nós, e predestinados, não por vosso mérito, mas tendo ouvido a palavra da verdade, porque por só graça enviou a vós pregadores e interiormente vos inspirou a ouvir. E não só chamados, mas nele também, tendo crido, fostes selados para que apareçais da milícia de Cristo, com o Espírito Santo, Espírito, digo, da promessa, isto é, ou que Deus nos prometeu, ou Espírito que, já segundo a alma nos deificando, nos promete a imortalidade do corpo no futuro; Espírito que é penhor, isto é, arras e princípio da nossa herança a ter, a nós prometida na glória futura. Fostes selados para a redenção, isto é, para que apareçais dos que Cristo redimiu; redenção, digo, do povo adquirido; por esta, com efeito, nós adquirimos a Deus, e Deus nos adquiriu. Chamados e selados, etc., para louvor da sua glória, isto é, para que por vós seja louvada a sua glória. Agora determina a sua intenção, dizendo: porque, chamados, crestes, e fostes selados com o Espírito Santo, por isso também eu (e os santos que estão comigo) dou graças por vós; e dando graças não cesso — aqui bem insinua que não se deve entorpecer na segurança da sua justiça, mas a toda hora trabalhar pelo incremento da perfeição —; eu, digo, não cesso, ouvindo falar da vossa fé que está em Cristo Jesus: isto diz respeito aos menos perfeitos, de que no princípio disse "aos fiéis em Cristo Jesus"; ouvindo também do vosso amor tido para com todos os santos: isto diz respeito aos mais perfeitos, de que ali mesmo disse "a todos os santos". Não cesso de dar graças por vós, fazendo memória de vós em minhas orações pelos bens a ter; como se dissesse: assim como entendo que os bens já recebidos vêm da graça de Deus, assim sinto de tudo o que haveis de ter. Faço memória de vós, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, de quem segundo a natureza humana Deus é, o Pai da glória, dele; Cristo, com efeito, segundo a Deidade, que nele é glória, é Filho de Deus; para que Deus e Pai vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação, para que, revelado, possais entender os mistérios de Deus; sabedoria, digo, e revelação tidas no conhecimento dele, para que conheçais a Deus e os seus mistérios. Dê-vos também iluminados os olhos, não digo do corpo, mas do vosso coração. Toca aqui o insensato erro de alguns, sobretudo gentios, que na fé primitiva, porque tinham costume de manejar com a mão os ídolos que possuíam, julgavam com mente cega que Deus era coisa tal que pudesse ser vista com os olhos da carne e apalpada com as mãos. Dê-vos iluminados os olhos, para que saibais qual, isto é, quão digna coisa e quão valiosa é a esperança; não só a coisa esperada, mas só o esperar é bem-aventurado; qual é a esperança da sua vocação, isto é, da coisa a que chamamos, ou então, dos chamados, isto é, eleitos dele; e quais as riquezas da glória da sua herança, isto é, quão digna é a sua herança, na qual há riquezas, isto é, nenhuma penúria, mas toda a cópia; na qual também há glória, isto é, gozo permanente sem mistura de dor; herança, digo, a distribuir nos santos quaisquer; e para que saibais qual é a grandeza do poder, isto é, o seu poder grande e incompreensível. E, sendo esta grandeza futura em todos os santos, será, contudo, sobre-excelente para conosco Apóstolos, que antes que os outros cremos; e que Deus opere em nós este poder, prova-o por isto: porque já o operou em Cristo; o que diz assim: afirmo este poder futuro para conosco segundo a operação da força do seu poder, isto é, segundo o seu poder operando potencialmente, poder que operou em Cristo.

E expõe este poder, aprovando por isso que igualmente pode e opera em nós: operou o poder em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, pelo que também a nós ressuscitará, e aparece que pode; e fazendo-o, Cristo ressuscitado, sentar à sua direita, isto é, à sua igualdade, nos céus, e de modo que acima de todo Principado, Potestade, Virtude e Dominação. Aqui temos quatro ordens de Anjos; e pelo que segue, e de todo nome, entendemos as demais ordens; que se nomeia, isto é, é nomeável, não só neste século, mas também qualquer que se nomeará no futuro. Isto acrescentou, para que ninguém lhe objetasse: segundo o que pouco dos Anjos agora conheceis, concedo que Cristo seja posto acima deles, mas segundo o que deles no futuro mais plenamente conhecereis, a carne de Cristo não será posta acima deles. Contra isto diz: não só o que se nomeia neste século, mas também acima de tudo o que dos Anjos se conhecerá no futuro. Pô-lo acima de tudo e tudo submeteu a ele; alguns, com efeito, são postos acima de muitos que, embora inferiores, não lhes estão, contudo, sujeitos; por isso diz: tudo submeteu debaixo de seus pés, isto é, em tão plena sujeição como quem é calcado aos pés; ou então, debaixo de seus pés, isto é, sob a humanidade de Cristo tudo submeteu.

Dir-se-ia aquele: e que provas com isso, se pôs Cristo ressuscitado sobre tudo e lhe submeteu tudo? Bem provo por isso, diz Paulo, que Deus deu o mesmo Cristo por Cabeça sobre toda a Igreja, Igreja que é o corpo do próprio Cristo; e julgais que na Cabeça glorioso e no corpo permaneça ignominioso? A Igreja é o corpo e a plenitude de Cristo, o qual Cristo por ela é plenificado; se os justos, com efeito, não forem ressuscitados, indo até o último justo, o corpo de Cristo permanece imperfeito: Cristo que, embora seja plenificado pela plenitude da Igreja, ele mesmo é, contudo, tudo, isto é, toda perfeição, em todos, isto é, em cada um dos membros, porque nem os próprios membros podem plenificá-lo senão por ele.

Capítulo 2

E vós, que estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade deste ar, o espírito que agora opera nos filhos da desconfiança; entre os quais também todos nós vivemos outrora nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos, e éramos por natureza filhos da ira, como os demais: Deus, porém, que é rico em misericórdia, por causa do seu grande amor com que nos amou, mesmo quando estávamos mortos pelos pecados, nos vivificou juntamente com Cristo (por cuja graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente, e nos fez sentar juntamente nos céus em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça, na sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Pois somos obra sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, que Deus preparou para que andemos nelas. Por isso lembrai-vos de que outrora vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se chamam circuncisão feita na carne por mão de homem; que estáveis naquele tempo sem Cristo, alheios à comunidade de Israel, estrangeiros às alianças, sem esperança da promessa e sem Deus neste mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós que outrora estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Pois ele é a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, derrubando o muro de separação, a inimizade, na sua carne; abolindo a lei dos mandamentos expressos em preceitos, para criar em si mesmo, dos dois, um só homem novo, fazendo a paz, e reconciliar ambos com Deus em um só corpo, por meio da Cruz, nela matando a inimizade. E, vindo, anunciou a paz a vós que estáveis longe, e a paz aos que estavam perto. Porque por ele temos ambos acesso ao Pai num só Espírito. Portanto, já não sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus; edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, sendo a pedra angular o próprio Cristo Jesus; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor; no qual também vós sois edificados juntamente para morada de Deus no Espírito.

Comentário

Disse acima que os efésios foram chamados por eleição de Deus, selados com o Espírito Santo, e que ele ora por eles para que o que Deus piedosamente começou neles aperfeiçoe com incremento cotidiano; e, depois de os ter dito tão dignos nesta novidade da graça, reconduz-lhes à memória o estado anterior que tiveram nos pecados, para que, lembrados da sua imundície, não ousem presumir, a não ser da graça de Deus, como se por seu mérito tivessem algo de novidade: de novo, por isso, recorda-lhes o estado de infidelidade, para que, vendo que a graça de Deus os atraiu da injustiça à justiça, tenham por certo que, se já justos trabalham, Deus, que a eles injustos conferiu, muito mais e mais de boa vontade conferirá aos já justificados, se quiserem merecer. A letra liga-se assim: nós, Apóstolos, cremos, e vós igualmente crestes; ou ali: Deus ressuscitou Cristo dos mortos, e igualmente ressuscitou a vós da morte do pecado; ou com o verbo que segue abaixo, assim podemos construir: deu Cristo por Cabeça sobre a Igreja, e a vós vivificou com Cristo; onde quer que se junte, contudo, a sentença pende ali, onde diz: deu Cristo por Cabeça sobre a Igreja, e deu a vós por membros dele; e vós, que estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados — mortos por isso, porque tão sepultados no pecado que por nenhuma força humana podiam escapar ao laço do pecado. Chama delitos quando, não fazendo o que Deus preceitua, o desertamos; pecados diz aqueles atos, fornicar, furtar e semelhantes —; pecados, digo, vossos, isto é, que, já acostumando-vos a eles, tínheis feito como vossos próprios.

Prossegue em que modo estiveram nos pecados, dizendo: nos quais pecados vós outrora, isto é, no tempo da infidelidade, andastes, isto é, precipitáveis-vos de mal em pior segundo o curso deste mundo, isto é, seguindo a secularidade, que nunca cuida de Deus, mas sempre das coisas mundanas. E para mais agravar o pecado, acrescenta que não só segundo o curso do mundo, mas também segundo o príncipe do espírito, isto é, segundo o diabo, que é príncipe, tendo império sobre os demais espíritos malignos: ou então, segundo o príncipe do espírito, para que tomemos coletivamente, como dos demônios; ou então, segundo o príncipe dos espíritos, isto é, dos outros demônios; assim como entre os Anjos bons alguns são prelados, outros súditos, assim entre os maus são as mesmas distinções, e, contudo, um só se crê prelado de todos; príncipe, digo, da potestade deste ar, isto é, que tem potestade neste ar; move, com efeito, muitas vezes ventos e turbilhões no ar, com que prejudique os homens e os frutos da terra, como aquele vento que, vindo da região do deserto, derrubou a casa e oprimiu os filhos de Jó, crê-se por ele enviado, com permissão de Deus, contudo. Esses espíritos malignos, Deus dispôs que convivam no ar, porque, se estivessem na terra com os homens, corromperiam os frutos da terra e afligiriam intoleravelmente os próprios homens. Por chamá-los espíritos, quer tornar curiosos os homens para que ajam previdentemente, porque o inimigo que ameaça é invisível: por dizer ainda que estão no ar, de novo nos admoesta, porque o insidiador está perto. Esse príncipe, o diabo, agora, quando a graça de Deus vos livrou dele, opera nos filhos da desconfiança, isto é, de cuja salvação nós desconfiamos; o Espírito, com efeito, significava a Paulo em quais devia trabalhar e em quais não, sabendo o coração deles impenitente: ou então, nos filhos da desconfiança, que desconfiam da salvação; ouvindo, com efeito, que hão de ressuscitar, subir ao céu, julgam isto estultícia, e por isso não querem converter-se. E, tendo a graça de Deus de tão grandes pecados vos atraído à justiça, vede que, jamais presumindo, não derrogueis à graça de Deus.

Que possam chegar ao aumento da perfeição, indica pelas passagens seguintes, como que respondendo aos efésios que lhe objetam: a nós, antes deprimidos por tão grande fardo de pecado, não é lícito esperar perfeição alguma, basta-nos que de algum modo possamos salvar-nos. Para remover isto, Paulo iguala-se a si e aos Apóstolos a eles, porque antes da fé igualmente estiveram nos pecados, de modo dessemelhante, contudo, como indicarão as passagens seguintes; por isso diz: entre os quais também todos nós Apóstolos, como vós, efésios, mesmo Pedro, outrora, isto é, antes da fé, vivemos: na verdade nos pecados; pois nos desejos da nossa carne, de modo que desejássemos o que a carne sugeria; e não só nos desejos, mas também fazendo em obra a vontade da carne, como comer até a superfluidade e luxuriar; fazendo também a vontade dos pensamentos, nos quais a carne não se deleita tanto, como trabalhar pela glória do mundo, ou, ditando a avareza, padecer muito por juntar muito. Nem apenas nestes atuais, mas também éramos, nós, judeus, filhos da ira, isto é, gerados para tolerar a vingança, por natureza, isto é, por causa do original; nós, judeus, como os demais, embora então falsamente opinássemos que pela circuncisão éramos purificados do pecado de Adão: ira de Deus nada outro é que vingança.

Se continuarmos, ou àquilo que diz: nós cremos, e vós crestes, ou àquilo: ressuscitando Cristo, também a vós ressuscitou, então aqui será bem versículo; se, porém, mais abaixo se estender a construção até "vivificou juntamente", ainda não termina o versículo, dizendo assim: estando vós mortos, vivificou-vos com Cristo; Deus, porém, foi quem vivificou. Ou, se ali é o fim, continuaremos o versículo assim: nós, na verdade, estávamos nos pecados, mas Deus, que é rico e copioso em misericórdia, sua misericórdia, com efeito, está acima de todas as suas obras; Deus certamente por causa do seu grande amor, isto é, incompreensível, com que nos amou — dir-se-ia: amou-nos justificados, mas não que ame alguns no pecado; a isto Paulo: amou, digo, mesmo quando estávamos mortos pelos pecados; para que não pareça absurdo que Deus se diga amar o homem nos pecados; a sua criatura, com efeito, sempre e em toda parte ama, mas o mal que nela está odeia —; Deus, digo, porque nos amou, nos vivificou juntamente, isto é, fez-nos viver pela justiça da alma, com Cristo, isto é, à semelhança de Cristo, que, como ele justo, assim nós justos; por cuja graça, isto é, de Deus, como nós, assim também vós sois salvos, isto é, vivificados pela justiça da alma: ou então, se pender abaixo a construção, de modo que digamos: vivificou-nos e a vós com Cristo; então diremos: por cuja graça sois salvos, da futura salvação.

Vivificou-nos pela primeira ressurreição da alma, ressuscitou-nos juntamente também pela segunda ressurreição dos corpos (pela certeza que daí tem, significa o futuro pelo pretérito), e a nós, ressuscitados com Cristo, fez sentar juntamente, como já reinando em quietude; sentar juntamente, digo, com Cristo nos céus, para que esta bem-aventurança seja mais recomendável também pelo lugar; sentar, digo, com Cristo em Cristo Jesus, e com ele e por ele. Por isso vivificou, e ressuscitados fez sentar, para mostrar nos séculos vindouros, isto é, futuros, as abundantes riquezas da sua graça, isto é, a sua graça rica e abundante em nós; graça, digo, feita na bondade, isto é, por só beneplácito seu, porque para merecer a graça nenhum mérito precedeu; bondade, digo, feita para conosco, isto é, que nos superou, porque é tanta que nem o nosso intelecto basta para a captar: e tudo isto, digo, em Cristo Jesus; nele, com efeito, e por ele Deus opera tudo isto em nós. Por isso quis Deus que isto se tornasse conhecido aos que haviam de vir, para que o homem entendesse quantas coisas, se quisesse, pudesse esperar da bondade de Deus.

Agora põe aquilo que parece mérito do homem, isto é, a fé, e mostra que não é mérito: na verdade na bondade; pois pela graça sois salvos, isto é, justificados. Concedo também que acrescentes, mediante a fé; e isto mesmo, isto é, a fé, não vem de vós que mereceis ter fé: na verdade a fé não vem de vós; pois é dom de Deus, e não das vossas obras. E por isso Deus quis que tudo fosse por graça e nada por obras, para que ninguém se glorie; vendo, com efeito, que a queda do Anjo e do homem fora por soberba, quis muito precaver o homem contra a soberba. E assim como a fé é de dom de Deus, assim as obras que seguem a fé são pela graça de Deus: digo bem, para que ninguém se glorie na fé; pois também nas obras que seguem a fé não deixou Deus ao homem de que pudesse gloriar-se; o que diz assim: somos obra sua, do próprio Deus, quando nada éramos em bem, criados em Cristo Jesus, isto é, por Cristo Jesus, para as boas obras, obras que Deus preparou para nós, para que andemos nelas, isto é, por ele progridamos e cresçamos. Ou, se "obra" for ablativo, assim: obra, isto é, pela obra de Deus somos criados em Cristo: nada ali muda.

O que acima diz, "fomos nos pecados como vós", agora determina dizendo que os judeus não pecaram tão gravemente como os gentios, mas, embora antes da fé os vis judeus abominassem os gentios, Deus, contudo, sem discrição de pessoas os igualou, não àqueles que antes os censuravam, mas aos santos e perfeitos; e por isso prova que eles são muito obnóxios à graça de Deus, e que podem, se querem, trabalhar com segurança pelo incremento da justiça, dizendo: por isso, para que ninguém de vós se glorie, lembrai-vos de que outrora, no tempo da infidelidade, vós, gentios, isto é, tais quais éreis gerados no pecado, na carne, isto é, nas obras da carne; vós, digo, que éreis chamados incircuncisão, isto é, a própria imundície, por aquela circuncisão, isto é, os judeus, que se diz circuncisão, isto é, a própria limpeza, e nada é, porque esta circuncisão era na carne, não no coração, feita por mão de qualquer, não pelo Espírito Santo. Lembrai-vos também de que naquele tempo de infidelidade estáveis sem Cristo, porque Cristo não vos era prometido; estáveis também alheios à comunidade de Israel, isto é, do povo judaico; não convivíeis então, com efeito, com vós; ou então, se acaso convivíeis com eles como prosélitos, éreis estrangeiros às alianças, isto é, instáveis, isto é, ora indo, ora voltando, éreis levados à lei. Diz "alianças" no plural, porque Moisés tinha a sua, Isaías a sua, e qualquer Profeta a sua aliança. Estáveis também então sem esperança da promessa feita a Abraão; não era lícito, com efeito, então aos gentios esperar a salvação. E estáveis sem Deus, adorando ídolos; vós, digo, neste mundo, isto é, aderentes a estas coisas mundanas.

Outrora éreis assim; mas agora, vós que outrora estáveis longe de Deus e dos judeus, fostes aproximados de ambos em Cristo Jesus, isto é, por Cristo Jesus; e como por Cristo determina: pelo sangue, isto é, pela efusão do sangue de Cristo. Prova de ambos, mas primeiro dos judeus, dizendo: na verdade fostes aproximados dos judeus; pois ele é a nossa paz, isto é, pacificou-nos juntos, gentios e judeus, ele, Deus, que de dois povos fez um só, isto é, o judeu e o gentio, um só pela unidade da fé, dos costumes e do sacrifício; um só deste modo: derrubando o muro de separação, isto é, que, posto no meio, separava um do outro — este muro foi, da parte dos judeus, as observâncias deles; da parte dos gentios, o culto dos ídolos; e este muro deles derrubou, quando aboliu a idolatria e os ritos judaicos —; muro, digo, de separação (maceriae). Maceria diz-se, segundo alguns, o muro firmemente compacto e conexo: este muro era de maceria, isto é, forte e de difícil destruição, porque os judeus pela autoridade da lei e dos Profetas defendiam os seus ritos; as nações, porém, pela filosofia defendiam o seu (em que mal haviam acostumado). Ou diz-se maceria um amontoado de pedras reunido sem cimento: assim aquele muro era de maceria, isto é, débil e leve para Cristo derrubar, como um monte de pedras secas; e, derrubado o muro do meio, derrubou na sua carne, que assumiu, as inimizades de ambos os povos; destruídos, com efeito, os ritos do judeu e do gentio, já não havia de que se inimizassem entre si.

Como desfez as inimizades mostra da parte dos judeus, cuja razão mais combatia; mas porque aos gentios nenhuma razão havia, nada acrescentou deles: desfazendo as inimizades, porque abolindo a lei dos mandamentos carnais expressos em preceitos, isto é, em mandamentos dados, achados por discrição; por isso abolindo daqui a lei, dali o ídolo, para criar em si mesmo, dos dois, isto é, do judeu e do gentio, um só homem novo. E porque poderia criar em si os ainda divididos, acrescenta: fazendo a paz, isto é, pacificando-os mutuamente. E em que fez a paz acrescenta: fazendo a paz, digo, em si mesmo, um só homem novo; novo, porque homem da graça: por isso novo, porque, se fosse legal, seria oposto ao gentio, se de novo gentio, seria oposto ao judeu, e nenhum consentiria ao inimigo. Provou que o gentio está perto do judeu; prova que está perto de Deus, dizendo: e por isso desfazendo as inimizades, para reconciliar com Deus ambos, isto é, judeu e gentio, unidos em um só corpo, isto é, na Igreja. O modo da reconciliação acrescenta: reconciliar, digo, matando o mesmo Cristo em si mesmo as inimizades que havia entre Deus e o homem; de tal modo em si mesmo que por meio da Cruz, isto é, pela morte da Cruz.

Tudo isto, porém, pouco aproveitaria se não fosse pregado; por isso acrescenta: e o mesmo Cristo, vindo em carne, anunciou por meio dos Apóstolos a paz com Deus restituída a vós, gentios, que estáveis longe de Deus, porque estáveis sem Cristo e sem Deus neste mundo: anunciou também a paz aos que estavam perto, isto é, os judeus, porque cultuavam a Deus. Fez que isto se pregasse: porque por ele, Cristo, temos ambos, judeu e gentio, acesso ao Pai, Deus, nós ambos postos num só Espírito da fé, quando este antes estava no espírito da lei, este no espírito do ídolo.

E porque ambos, postos no mesmo Espírito, temos acesso a Deus, portanto vós, efésios gentios, já não sois estrangeiros às alianças, como aqueles vos censuravam; e já não sois forasteiros, isto é, não sois mais chamados prosélitos — porque, embora então estáveis na lei, eram sempre chamados adventícios —; não sois estrangeiros, mas sois concidadãos, e não dos que vos censuravam, mas dos santos, isto é, de quaisquer perfeitos: e não sois forasteiros, mas familiares, isto é, naturais da casa, e não deles, mas familiares de Deus; vós, digo, edificados — hoje a piedade, amanhã sobre ela se edificará a humildade —; e assim edificados sobre o fundamento, isto é, a doutrina dos Apóstolos e dos Profetas, em cuja doutrina foi fundada a Igreja; ou então, sobre o fundamento, isto é, Cristo, sobre quem os Apóstolos e Profetas estão fundados: edificados nele, digo, o próprio Cristo Jesus sendo a pedra por causa da firmeza, angular, isto é, o supremo, isto é, que consuma a vossa justiça, ligando em si ambos os povos, o judeu e o gentio. Esta pedra, onde esteve à letra, não temos certeza; cremos, contudo, que esteve, que, até a consumação de ambos os muros, não pôde ser idoneamente posta; mas no cimo, com admirável conveniência, uniu ambos os muros. Esta pedra significou Cristo, que une em perfeição da fé o judeu e o gentio; Cristo que, assim como é o supremo consumador da justiça, é também princípio da justiça; o que diz assim: no qual, pedra, todo o edifício, construído pela fé, cresce pela operação para templo santo, para que o homem seja templo em que Deus habite; santo, digo, no Senhor, isto é, pelo Senhor: no qual, pedra, Cristo, também vós, gentios, sois edificados juntamente com os judeus para morada, isto é, para que sejais morada de Deus; edificados, digo, juntamente no Espírito, isto é, pelo Espírito Santo que vos purifica para Deus.

Capítulo 3

Por isso, eu, Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus por vós, gentios, se é que ouvistes a dispensação da graça de Deus, que me foi dada em favor de vós; porque, segundo a revelação, me foi dado a conhecer o mistério, como acima escrevi em breves palavras; ao lerdes isso, podeis compreender a minha inteligência do mistério de Cristo; o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em outras gerações, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas, no Espírito: que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa dele em Cristo Jesus, pelo Evangelho, do qual me tornei ministro, segundo o dom da graça de Deus, que me foi dada segundo a operação do seu poder. A mim, o menor de todos os santos, foi dada esta graça: anunciar entre os gentios as insondáveis riquezas de Cristo, e iluminar todos sobre qual é a dispensação do mistério escondido desde os séculos em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela Igreja, seja dada a conhecer agora aos Principados e Potestades nos céus a multiforme sabedoria de Deus, segundo o desígnio eterno, que realizou em Cristo Jesus, nosso Senhor; no qual temos ousadia e acesso com confiança pela fé nele. Por isso peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, que são a vossa glória. Por esta razão dobro os meus joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, de quem toda paternidade nos céus e na terra toma o nome, para que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória, ser fortalecidos em poder, pelo seu Espírito, no homem interior; que Cristo habite, pela fé, em vossos corações; arraigados e fundados na caridade, para que possais compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer a caridade de Cristo, que excede todo conhecimento, para que sejais plenificados de toda a plenitude de Deus. Àquele, porém, que é poderoso para fazer, infinitamente mais do que pedimos ou entendemos, segundo o poder que opera em nós, a ele a glória na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações do século dos séculos. Amém.

Comentário

Para os tornar mais obnóxios à graça de Deus, diz que Deus o fez Apóstolo por causa deles; está também preso por eles; revelou-lhe também Deus os seus mistérios para utilidade deles: vós sois edificados juntamente em Cristo; e por esta razão, para que vós também sejais edificados juntamente, eu, Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo, o qual, aflito, não convém entristecer; prisioneiro certamente por vós, gentios; se eu, com efeito, não pregasse para a vossa salvação, de modo algum estaria em cadeias; por vós, digo, se é que ouvistes a dispensação da graça de Deus, isto é, a graça, a saber, o apostolado a mim entregue pela graça de Deus; graça, digo, dispensada por Deus, porque Deus bem dispensou consigo por que me constituiu Apóstolo; ou então, graça que eu dispenso a vós e às demais Igrejas: se, digo, ouvistes a graça que me foi dada em favor de vós, isto é, assim como verdadeiramente crestes que sou Apóstolo para vós, assim crede verdadeiramente que estou preso por vós. Esta graça foi-me dada certamente, porque o mistério, isto é, o segredo de Deus, me foi dado a conhecer segundo a revelação, isto é, de modo que, revelado, saiba falar dele; foi dado a conhecer, digo, como acima vos escrevi em breves palavras; onde diz: ele é a nossa paz, e o mais até "portanto, já não sois estrangeiros". Assim escrevi, de modo que podeis compreender: podeis certamente ao ler, isto é, se o lerdes atentamente, compreender, digo, não só o mistério, mas também podeis compreender a minha inteligência, tida no mistério (é o mesmo que "no sacramento") de Cristo, porque conheço o mistério e sei abri-lo prudentemente: mistério que não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em outras gerações, isto é, em outras idades; ou, se a alguns, não tão conhecido como agora foi revelado aos santos Apóstolos dele; e nisto não pareça que me glorio, porque foi revelado no Espírito Santo também aos Profetas, isto é, a quaisquer iluminados no sentido, este mistério, a saber, que os gentios são co-herdeiros dos judeus na idade futura, e aqui são membros do mesmo corpo, isto é, no mesmo corpo de Cristo, isto é, na Igreja, são também co-participantes da promessa feita a Abraão; co-herdeiros, digo, membros do mesmo corpo, co-participantes em Cristo Jesus, que fez ambos um só assim em Cristo, e isto pelo Evangelho, cuja pregação os leva à fé.

Evangelho que não é meu, mas do qual me tornei ministro; e isto não por meu mérito, mas segundo o dom da graça de Deus; graça que de novo não mereci ter, mas que me foi dada segundo a operação do seu poder, porque o seu poder operou muitas coisas por minha fraqueza. Foi-me dada: e a quem a mim? A mim, o menor de todos os santos, foi dada esta graça, a saber, anunciar entre os gentios as insondáveis riquezas de Cristo, isto é, incompreensíveis; foi-me dado também iluminar todos sobre isto: qual, isto é, quão digna é a dispensação, isto é, o cumprimento do mistério escondido desde os séculos anteriores, em Deus, contudo, isto é, no conhecimento de Deus existente; Deus que não pôde ignorar, porque criou todas as coisas: por isso evangelizar, iluminar, para que a sabedoria de Deus, pela Igreja, que se constitui em nossa pregação, a sabedoria, digo, de Deus, seja assim dada a conhecer aos Principados e Potestades, isto é, às ordens dos Anjos, existentes nos céus — os Anjos, com efeito, ignorando a salvação dos homens, admiram e louvam a Deus, quando, vista a conversão pela pregação dos Apóstolos, entendem a salvação deles —; a multiforme sabedoria de Deus, porque converteu este pela suavidade da palavra, aquele pela aspereza da fraqueza, de diverso modo em diversos; multiforme, digo, mostrada segundo o desígnio eterno, isto é, nos séculos predefinidos por Deus que ordena; desígnio, isto é, o que nos séculos predefinira fazer, realizou, isto é, completou em Cristo Jesus, nosso Senhor; no qual, isto é, por quem Cristo, temos ousadia de aproximar-nos de Deus; e não só ousadia, mas temos acesso a Deus, não temendo repulsa, mas com confiança, isto é, confiantes de ser introduzidos; confiança, digo, tida pela fé nele, a saber, em Cristo, em quem cremos.

Recordou que, para utilidade deles, foi consagrado Apóstolo por Deus, que também está preso por eles, que lhe foram revelados os mistérios de Deus para os instruir: por isso, porque todas estas coisas foram feitas por vós, porque tendes também acesso a Deus pela fé de Cristo conosco, por isso agora não só rogo, mas como coisa devida peço, e de vós exijo, que não desfaleçais nas minhas tribulações — por esta exortação quer Paulo premuni-los, porque duvidava que talvez, pela tribulação e aflição do mestre, tivessem em desprezo o que haviam aprendido de quem era tratado com desprezo —; tribulações, digo, minhas, tidas por vós; por isso, com efeito, Deus me permite ser afligido, para fazer aparecer qual seja a vossa fé na minha tentação; Deus, com efeito, tentou Abraão e quaisquer outros não porque ignorasse o que seria, mas para indicar ao mundo a fé deles provada: tribulação que é a vossa glória; se da minha tribulação tomais forças para a boa obra, então sois dignos de glória; se, porém, por minha tribulação desfaleceis, sois dignos de ignomínia. E por esta razão, isto é, para que não desfaleçais, porque esta coisa me é grata, a saber, que vós não desfaleçais, por isso dobro os joelhos — assim como pelo joelho se ergue e se humilha o corpo, assim pelo joelho erguido e dobrado se entende a elevação da mente e a humilhação: Paulo certamente dobrava os joelhos da carne para insinuar a humildade do espírito —; dobro os joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que também é Pai para nós, uma vez que somos filhos de Cristo, de quem é Pai; de quem, Pai, isto é, da instituição e exemplo de quem toda paternidade é para nós, isto é, são-nos todos os pais, nos céus, os Anjos provedores para nós, ou os que temos na terra, como bispos e quaisquer pais da Igreja. A paternidade não é assim simplesmente, mas toma o nome, isto é, quaisquer nomináveis pela dignidade das virtudes são-nos pais. Ou assim: a paternidade toma o nome, isto é, aqueles provedores nossos se dizem pais só de nome, isto é, só nuncupativamente, não substancialmente, o que Deus só é. Dobro os joelhos diante de Deus, para que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória, isto é, abundante e gloriosamente, a saber, com poder; conceda, digo, ser fortalecidos em poder, isto é, para que sejais fortalecidos no bem; e esta virtude em vós não creiais vossa, mas pelo seu Espírito, para que atribuais tudo à graça de Deus; conceda, digo, a virtude não exteriormente, mas no homem interior. Por isso Deus ordenou a virtude da justiça na alma, porque, se estivesse no corpo, que está exposto a toda adversidade, tão logo falharia, como o corpo, a virtude, que muito melhor reside na alma, do que diz Cristo: Depois que mataram o corpo, as almas nada têm que fazer (Mt 10,28). Para que vos dê o Espírito, e para que vos dê que Cristo habite em vossos corações; não que ali corporalmente se sente, mas pela fé. Embora onde está o Espírito, ali esteja Cristo, nenhum dos dois é, contudo, supérfluo, porque o Espírito pelo amor, Cristo pela fé.

Dobro os joelhos para que vós arraigados e fundados na caridade; por semelhança com a árvore profundamente enraizada, e que pela abundância de umores de que as raízes abundam em profundidade frutifica copiosamente, diz arraigados, isto é, frutificando na caridade, e fundados, isto é, sobre o fundamento em que se firme e cresça o edifício da casa de Deus. Para que vós, digo, arraigados e fundados, possais compreender por intelecto e utilidade, com todos os santos, isto é, como compreendem todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade. A largura, da direita à esquerda da Cruz de Cristo, significou a amplitude do amor com que orou também pelos inimigos; o comprimento da Cruz, da cabeça aos pés, significou a perseverança do amor, porque, tendo amado os seus, amou-os até o fim; a altura da Cruz, isto é, aquela parte que sobressaía à cabeça, na qual Pilatos escreveu o título, significou o respeito divino, para insinuar que Cristo não padecia por amor do mundo, mas para fazer a vontade de seu Pai, que está nos céus; a profundidade diz-se aquela parte da Cruz que estava fixada na terra, profundidade que designa a graça oculta de Deus, pela qual sem mérito multiplica bens aos seus, eles ignorando por que assim faz. Estas coisas entendemo-las, contudo, nos próprios, expondo assim: possais compreender qual é a largura, isto é, quão largos convém que sejais na caridade, para que façais bem até aos que vos odeiam; e o comprimento, isto é, quão longos e perseverantes no amor convém que sejais, para que, se convém, não receeis morrer por Deus ou pelo próximo; e qual é a altura, [isto é] como com respeito superno, não com respeito do mundo, façais quaisquer bens; e qual é a profundidade, isto é, a graça oculta de Deus em vós, pela qual vos justificou sem mérito e vos faz progredir, para que possais também conhecer a caridade de Cristo, isto é, como Cristo vos amou; caridade, digo, que excede todo conhecimento; nenhuma ciência, com efeito, basta para compreender quão grande é a caridade de Cristo. Ou assim: possais conhecer a caridade da ciência de Cristo, segundo a ciência; ignorando, com efeito, amamos muitas vezes, mas, se temos o conhecimento da coisa que amamos, muito mais nos inflamamos a amar a bondade da coisa conhecida: por isso diz "a caridade da ciência de Cristo", isto é, segundo a ciência tida de Cristo; caridade da ciência, digo, que excede a caridade da ignorância: o bem que se ignora é menos amado. Possais compreender e conhecer, para que sejais plenificados, indo para toda, isto é, para a plenitude de todos os bens de Deus, isto é, tida de Deus.

Eu dobro os joelhos para que possais compreender e conhecer; o próprio Deus, porém, é poderoso para fazer tudo o que for oportuno: fazer, digo, abundantemente mais do que pedimos ou entendemos; ninguém dos homens ousaria, com efeito, pedir a Deus que fizesse seu Filho Deus, homem: o que, contudo, fez; ninguém também poderia entender por que ordem de piedade restaurou o homem perdido, e os inumeráveis bens que faz; e por isso diz bem "mais do que pedimos ou entendemos". E que seja poderoso para fazer coisas tão grandes, podemos prová-lo indo segundo o poder que opera em nós, porque, se se consideram as coisas que nos conferiu, o poder dos milagres e muitas outras, por estas colhemos claramente que por vontade é poderoso, quanto ao mais, para consumar tudo em nós. A ele, pois, que é tão poderoso para fazer, só a ele, não à virtude humana, seja a glória na Igreja, isto é, na consideração dos bens que confere à Igreja, e também em Cristo Jesus; porque nem ao próprio Cristo segundo o homem se deve glória dos bens que fez, mas a Deus; glória, digo, permanente por todas as gerações; desde Abel, o primeiro justo, com efeito, nenhuma geração passou que não tivesse alguns em quem Deus se gloriasse: gerações, digo, do século, do princípio ao fim: do século dos séculos, digo, em que se contêm muitos séculos; a ele a glória. Amém, certamente é assim.

Capítulo 4

Rogo-vos, pois, eu, prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação com que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros na caridade, solícitos em guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Um só corpo e um só espírito, como fostes chamados numa só esperança da vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, age por todos e está em todos nós. A cada um de nós, porém, foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo. Por isso diz: Subindo às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens (Sl 67,19). Ora, que significa "subiu", senão que também desceu primeiro às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, para plenificar todas as coisas. E ele mesmo deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e doutores, para a consumação dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo; para que já não sejamos crianças, levados ao sabor das ondas e arrastados por todo vento de doutrina, pela maldade dos homens, pela astúcia que arma ao erro. Mas, praticando a verdade na caridade, cresçamos em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e unido por todas as juntas de que se serve, segundo a operação proporcionada a cada membro, produz o seu crescimento para a edificação de si mesmo na caridade. Isto, pois, digo e testifico no Senhor: que já não andeis como andam os gentios, na vaidade do seu sentir, tendo o entendimento obscurecido pelas trevas, alheios à vida de Deus pela ignorância que há neles por causa da cegueira do seu coração; os quais, desesperados, se entregaram à dissolução, para praticarem com avidez toda impureza. Vós, porém, não foi assim que aprendestes a Cristo; se é que o ouvistes e fostes nele ensinados, conforme é a verdade em Jesus, a despojar-vos, quanto à conduta anterior, do homem velho, que se corrompe segundo os desejos do erro. Renovai-vos no espírito da vossa mente, e revesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade. Por isso, deixando a mentira, falai a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, mas não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo. Quem furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para ter com que socorrer o que está em necessidade. Nenhuma palavra má saia da vossa boca; mas só a que for boa, para edificação da fé, a fim de dar graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e blasfêmia sejam removidas de vós, com toda malícia. Sede benignos uns para com os outros, misericordiosos, perdoando-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo.

Comentário

Depois de ter admoestado de diversos modos que não se enchessem de soberba pelos bens da graça de Deus, nem se entorpecessem, mas sempre vigiassem para progredir ao melhor — admoestações que parecem versar sobre os mais perfeitos —, passa à instrução moral, que parece pertencer mais aos menos perfeitos, instruindo primeiro todos em comum, depois separadamente as condições, os sexos e as idades. A letra liga-se assim: porque Deus é poderoso para fazer por vós mais do que pedimos ou entendemos, portanto rogo-vos, isto é, conjuro-vos por todas as coisas sagradas, eu, prisioneiro no Senhor, isto é, por causa do Senhor, a quem ofender em cadeias não é a menor culpa; rogo, digo, que andeis pelos degraus das virtudes de modo digno da vocação com que fostes chamados; não fostes, com efeito, chamados para cumprir os desejos da carne, mas para mortificar a carne segundo o espírito; a saber, que andeis com toda humildade, tanto no ânimo tida quanto por fora mostrada; é culpa, com efeito, ser humilde por dentro e simular soberba por fora, pois assim dá de si ocasião de maledicência e se oculta a virtude, cuja imitação podia instruir o próximo; humilde por fora, porém, e soberbo por dentro, a ninguém é dúvida que seja culpável; e com toda mansidão, para que seja tratável e afável a todos; e com paciência, guardada em quaisquer adversidades, suportando-vos uns aos outros, se um lhe infligiu molestia; ou então, suportando, isto é, compadecendo-se do próximo, se por acaso tiver caído, e ajudando-o com oração e jejum; suportando, digo, na caridade, não na expectativa de vingança; vós, digo, solícitos em guardar a unidade em vós, de modo que haja entre vós o mesmo querer, o mesmo não querer; unidade, digo, do Espírito, isto é, a que o Espírito Santo dita, guardá-la no vínculo da paz; paz que, guardada por fora, é vínculo e alimento da unidade espiritual.

E para guardardes esta unidade, sede um só corpo, isto é, um só na operação, e um só espírito, isto é, um só na vontade; sede um só em corpo e espírito, assim como é uma só a coisa a que fostes chamados; o que diz assim: fostes chamados numa só esperança, isto é, para uma só coisa esperada; esperança, digo, da vossa vocação, isto é, de que é digna a vossa vocação. De novo, deveis ser um só corpo e um só espírito, porque um só Senhor vos domina, e a vossa fé é uma só e indiferente, e um só é o vosso batismo, que justifica igualmente a todos, não segundo o que alguns dizem, segundo os méritos de diversos que batizam, mais ou menos dignamente; e há um só Deus, isto é, Criador de todos, e Pai de todos, que vos governa segundo o amor de filhos; Senhor, Deus e Pai que, dominando, criando, amando, está acima de todos pelo poder; está também por todos os lugares, nem é lícito de modo algum fugir dele; o qual, embora assim comumente esteja acima de todos e por todos, está, contudo, em todos os eleitos mais familiarmente, dando as suas graças. Aqui se pode entender a Trindade: acima de todos, o Pai; por todos, o Filho; em nós, o amor do Pai e do Filho, isto é, o Espírito Santo.

Porque dissera "somos um só corpo, um só espírito, um só é o nosso Senhor, uma só a fé", para que por isso não julgassem que todos são igualmente nesta nova graça, de modo que ninguém seja prelado, ninguém súdito, ninguém servo, ninguém senhor, determina isto dizendo: embora sejamos um só e tenhamos um só Deus e uma só fé, a cada um de nós foi dada a graça de Deus, não a mesma a todos, mas segundo a medida do dom, isto é, do doador Cristo; a este aquela graça, a este esta, e muitas vezes na mesma graça há diversidade, porque este tem menos, este mais da mesma graça. Por isso, para comprovar isto (a saber, que é doador de graças), diz o Espírito Santo no Salmo (Sl 67,19): o homem Cristo, subindo às alturas, isto é, acima da altura dos céus, levou cativo o cativeiro, isto é, a natureza humana, antes expulsa do paraíso e do céu, reconduziu em si, homem, cativa, porque, tirada do lugar que lhe era natural pelo pecado, levou-a de volta aos céus, a saber, à pátria antes destinada a ela, se não pecasse. O homem, com efeito, criado em pureza, teve o paraíso para habitar, de modo que ali, cumprida a obediência, dali fosse transferido aos céus; mas, porque pecou, perdeu o céu prometido e, do lugar da habitação, isto é, do paraíso, expulso, foi cativado nesta terra; terra que o pecado fez natural ao homem, como a justiça, enquanto nela esteve, fez natural o paraíso. De novo Cristo, destruído o pecado do homem, a natureza humana, cativa desta miséria (lugar que já lhe era natural pelo pecado), porque tirada do lugar natural, reconduziu à pátria anterior, a saber, aos céus: mas, quanto mais miserável o primeiro cativeiro, tanto mais glorioso o segundo. Cristo, subindo certamente às alturas, deu dons aos homens, porque enviou o Espírito Santo aos corações dos discípulos; e porque deu dons, provou-se que Cristo é doador de graças.

Que entendimento se deva colher do que diz "subindo às alturas", quer explicar, não, contudo, afastando-se do propósito: digo "subindo"; mas que significa, isto é, que se deve entender pelo fato de o Senhor subir ("subindo" e "subiu" tem por o mesmo), senão que, se subiu, segue-se que antes de subir desceu, isto é, esteve em lugar humilde? Se, com efeito, subiu, segue-se que do inferior ao superior subiu. Desceu, digo, às regiões inferiores da terra, isto é, ao inferno, que certamente se crê estar na terra, mas na parte inferior. Por isso provou que aquele que sobe antes habitou em lugar humilde como verdadeiro homem, para que, sabendo que Cristo, doador de graças, como nós, assim é homem, lhe peçamos com mais confiança as suas graças; que, se não tivesse participado da nossa humanidade, seria muito mais inexorável a nós. E porque ele desceu primeiro, portanto, aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, um só e mesmo Cristo indiviso, homem Deus. Ou de outro modo: que significa que a humanidade de Cristo subiu, senão que primeiro a Divindade desceu às regiões inferiores da terra, isto é, para unir a si a humanidade entre os homens? Se, com efeito, descesse até o globo do sol e da lua, estaria abaixo, mas descer às terras foi mais inferior. E, embora pareça outro o que sobe, isto é, o homem, outro o que desce, isto é, Deus, aquele, contudo, que desceu e que subiu acima de todos os céus é o mesmo e um só, pessoa indivisa. Assim, de novo, bem ao propósito; porque, vendo tão grande poder dele, que, homem Deus, subiu acima dos céus, podemos pedir com confiança àquele que tudo pode. Subiu para plenificar todas as coisas com os seus dons, segundo o que ele mesmo diz: «Se eu não for, o Paráclito não virá a vós» (Jo 16,7).

Depois de provar que Cristo é doador de graças, mostra a diversidade dos dons: digo bem, "plenificar todas as coisas"; e ele mesmo, Cristo, deu uns, isto é, distintamente dos outros, como apóstolos; outros deu como profetas, que revelassem as Escrituras; outros como evangelistas, isto é, pregadores; outros como pastores e doutores, isto é, bispos, que apascentem os súditos da mesa do Corpo de Cristo, e ensinem do Novo e do Antigo Testamento. Por isso deu uns e outros para a obra do ministério, porque, se desse tudo a um, enquanto um não bastasse a tudo, os ministérios de Cristo permaneceriam imperfeitos; ministério, digo, valioso para a consumação dos santos, isto é, para que os que já são justos subam à perfeição; ministério valioso também para a edificação do corpo de Cristo, isto é, para que dos que ainda são incrédulos seja edificado o corpo de Cristo, isto é, a Igreja.

Dir-lhe-iam aqueles a quem admoestara, para que por causa da unidade da Igreja não julgassem dever ser iguais: pouco aproveita termos recebido a fé, se sempre nos convém permanecer na sujeição. Disto os consola dizendo: não vos seja pesado que uns sejam sujeitos, outros preferidos, logo, com efeito, será o fim desta diversidade; diversidade, digo, que não durará mais, até que todos cheguemos (diz "cheguemos" segundo o desejo dos santos), até que cheguemos todos existentes na unidade da fé, isto é, a quem há uma só fé de Cristo, e existentes na unidade do conhecimento do Filho de Deus, isto é, na unidade das boas obras que seguem a fé, pelas quais obras se conhece o Filho de Deus; ou então, na unidade do conhecimento de Deus, para que do conhecimento da Deidade não trabalhemos, até que cheguemos ao estado de homem perfeito, isto é, para sermos homem perfeito, recebida a impassibilidade e a imortalidade; ao homem perfeito, digo, a saber, à medida, isto é, à meta da idade de Cristo; idade, digo, da plenitude, isto é, na qual Cristo teve a plenitude, a saber, depois da Ressurreição, feito impassível e imortal. Ou de outro modo: cheguemos ao homem perfeito, como foi dito, e à meta da idade de Cristo de trinta e três anos e meio; idade que foi de plenitude; depois que se chega a ela, com efeito, não há para onde a carne cresça, nem em aumento de forças nem de estatura; todos, com efeito, quer mais jovens quer mais velhos, ressuscitaremos no mesmo ponto de idade em que Cristo saiu do mundo e ressuscitou.

Por isso deu uns profetas, outros doutores ou pastores, para que já — outrora, sim, assim fomos, mas daqui em diante — não sejamos crianças de entendimento, levados ao sabor das ondas, por nós mesmos, ora bem, ora mal agindo; e para que não sejamos arrastados por outros ora para cá, ora para lá, por todo vento de doutrina — alude à semelhança; o mar, com efeito, significa o mundo; o vento, os sedutores; a nau, a Igreja, que ora para baixo, ora para cima é impelida pela perseguição dos maus —; de doutrina, digo, feita pela maldade dos homens, nequíssimos são, com efeito, tais sedutores; doutrina também feita pela astúcia que sedu latentemente os simples; astúcia, digo, que arma ao erro, isto é, para nos enredarem no seu erro. Não sejamos levados ao sabor das ondas, mas cresçamos na caridade, isto é, no amor de Deus e do próximo, praticando a verdade, isto é, a doutrina pura da mentira, não só ouvindo, mas também fazendo em obra; cresçamos indo em tudo por boa cooperação e consentimento; cresçamos, digo, naquele que nos ajuda em que podemos bastante crescer, porque é a Cabeça, isto é, a altura em que se deve sempre subir, e que é Cristo, nosso Rei; de quem, Cabeça Cristo, todo o corpo da Igreja está bem ajustado pela fé. E porque ainda não basta, podem, com efeito, ajustar-se na mesma fé e não se seguirem mutuamente, como as madeiras só ajustadas, se se arrasta uma, não segue a outra; e este mal haveria se os membros não seguissem a Cabeça, por isso acrescenta: o corpo da Igreja ajustado pela fé, e unido pela caridade; o amor, com efeito, é o prego com que se ligam sem divisão; ajustado, digo, e unido por todas as juntas da fé, caridade e todas as virtudes; juntas, digo, de que se serve, isto é, para que um membro sirva ao outro; de que se serve, digo, segundo a operação proporcionada a cada membro da Igreja; um membro, com efeito, serve mais, outro menos, conforme a faculdade que tem: todo o corpo, digo, assim ajustado e unido produz o crescimento do corpo da Igreja; faz o incremento da justiça nos fiéis, e vale para a edificação de si mesmo, isto é, do seu corpo, a Igreja de que é membro — edificação, como acima, segundo os incrédulos que são edificados para a fé —; crescimento e edificação, digo, feitos na caridade, isto é, segundo o amor de Deus e do próximo. Ou assim construamos, sem mudar a sentença: de quem todo o corpo ajustado e unido por todas as juntas de que se serve produz o crescimento do corpo para edificação de si; produz, digo, segundo a operação distribuída em medida de cada membro, e tudo isso na caridade.

Porque Deus deu uns como Apóstolos, outros como evangelistas, outros como doutores, e isto para a vossa consumação, de novo porque ajustou e uniu todo o corpo da Igreja pela junta da fé e da caridade, portanto, isto digo e vos ordeno, nem simplesmente digo, mas também testifico no Senhor, isto é, nesta admoestação de vós aduzo Deus por testemunha, para que nada mais de vós seja de mim, mas, se pecais, de vossas mãos exija — estas palavras teve Paulo para eles, quando, convocada a Igreja dos efésios, disse: Não vereis mais o meu rosto. Permanecei no que vos ensinei; eu, com efeito, estou daqui em diante limpo do vosso sangue (At 20,26), vede o que fizerdes, porque será exigido de vossas mãos —: testifico, digo, no Senhor, que já não andeis como outrora andastes, e como os gentios ainda andam (onde diz "já", significa que antes andaram); não andeis como os gentios andam na vaidade do seu sentir, isto é, na secularidade do seu sentido, o sentido do mundo, com efeito, é vaidade; gentios, digo, tendo o entendimento, isto é, a razão natural, obscurecido pelas trevas, isto é, a ponto de por inteiro serem trevas e nada de luz; gentios, digo, alheios à vida de Deus, isto é, à eternidade em que Deus vive; alheios pelo conhecimento e participação, como ele mesmo diz: alheios pela ignorância, porque ignoram a vida de Deus; ignorância que há neles por causa da cegueira do seu coração, isto é, por causa do coração deles cego: quando, com efeito, lhes foi pregada a palavra de Deus, tiveram a faculdade de entender e de não entender; mas porque escolheram ignorar, por isso foram cegados a ponto de já serem impotentes para perceber o que é bom. Não diz isto por terem os efésios errado mal em algo, mas porque receava que fossem fáceis de ser retraídos aos ritos dos gentios, em que antes da fé haviam vivido. Que não tenham errado colhe-se do fato de que um pouco abaixo os chamará santos. Os quais, desesperados; quando, com efeito, ouvem: o homem ressuscitará em glória, reinará com Cristo, etc., julgando isto frívolo, desesperam, e por isso se entregaram à dissolução, e não só em consentimento e vontade, para praticarem toda impureza, porque o que mal quiseram, pior operaram; para a prática da impureza, digo, com avidez; quanto mais imundamente operavam, com efeito, tanto mais ávidos se tornaram das imundícies. Ou de outro modo: entregaram-se à impureza e à avareza. Os gentios assim andam impudica e imundamente; vós, porém, não foi assim que aprendestes que Cristo andou, a quem deveis seguir; com esta condição, contudo, digo, se o ouvistes, isto é, entendestes aquele Cristo, e fostes nele ensinados, isto é, na informação dele. O que é verdade, que o ouvistes e fostes nele ensinados, não de falsidade, mas conforme é a verdade em Jesus; ao que vos ensinei de Cristo, com efeito, nada de falsidade misturei, como os nicolaítas, que pregam que Cristo não reprovou o uso comum das mulheres, e com as demais falsidades confundem a verdade de Cristo.

E porque fostes ensinados segundo a verdade em Cristo, portanto despojai-vos do homem velho; ou assim: fostes certamente ensinados em Jesus a despojar-vos do homem velho, não que deponhais a carne dele derivada, que se depõe uma vez pela morte, mas despojai-vos dele quanto à conduta anterior, isto é, segundo a velhice da operação do pecado: despojai-vos também dele segundo os desejos do erro, isto é, vindos do erro ou precipitando no erro; homem velho que se corrompe na sua própria obra; quanto mais frequentemente peca, com efeito, tanto mais a própria carne se debilita e deforma. Ou na mesma sentença sigamos retamente a letra: despojai-vos do homem velho que se corrompe, não só segundo a obra, mas despojai-vos também segundo os desejos do erro. Despojai-vos do velho, revesti-vos porém do homem novo; e por isso renovai-vos, já pelo batismo uma vez foram feitos novos. Diz de novo, renovai-vos no Espírito Santo, iluminador da vossa mente; ou intransitivamente, renovai-vos no espírito da vossa mente, isto é, seguindo a vossa mente espiritual; e assim renovados revesti-vos do homem novo, novo porque faz novas todas as coisas; homem novo que foi criado, não segundo a lei da carne, mas segundo Deus, concebido e nascido do Espírito Santo; revesti-vos, digo, de Cristo na justiça guardada para com o próximo, e na santidade, isto é, possuindo-vos a vós mesmos para a santificação de Deus; santidade e justiça, digo, da verdade, não de simulação, para que não simulemos ser justos, sendo maus.

Por isso, isto é, porque o homem velho deve ser deposto, o novo revestido, assumamos os membros do novo, depondo os membros do velho, a saber, deixando a mentira, que é membro do velho, falai a verdade cada um com o seu próximo; a verdade, com efeito, é membro de Cristo. Devemos falar a verdade com o próximo, porque somos membros uns dos outros, isto é, um do outro; assim quem defrauda o próximo faz fraude em seu próprio corpo. De novo, revestindo o novo, irai-vos contra o pecado dos irmãos, e ao irar-vos não pequeis assim, de modo a, pelo desprezo do pecado, cair imprevidentemente no desprezo do próximo; assim se deve, com efeito, odiar o pecado de modo que nem por isso se ame menos a criatura de Deus. Ao irar-vos, porém, não pecareis se o sol, isto é, a Divindade que vos ilumina, ou então, o sol, isto é, a vossa razão iluminada, não se puser, isto é, não for destruída, sobre, isto é, por causa da vossa ira; para que a ira não vença em vós a razão. "Ponha-se o sol sobre a ira" foi dito por semelhança com aqueles aos quais, postos num vale, um grande monte sobrepusesse, sobre o qual lhes se pusesse o sol, enquanto a altura do monte desviava do vale o sol. Ou de outro modo, como se dissesse: vejo que não podeis ser totalmente contidos da ira; suporto-vos; irai-vos, e de modo que não pequeis, isto é, não consumeis a ira em ato; e para guardar-vos disto será útil que o sol não se ponha sobre a vossa ira, isto é, que antes que venha a tarde se deponha a ira.

Dir-me-iam: ordenas "não pequeis", mas como pode isto fazer-se, para não pecarmos? A isto diz: para poderdes evitar o pecado, não deis lugar, isto é, oportunidade de pecar, ao diabo em vós, mas fugi dele; não deis lugar ao diabo, mas aquele que antes furtava, não furte mais, daqui em diante (à letra); antes trabalhe, isto é, escolha trabalhar, fazendo com as próprias mãos não homicídios ou semelhantes, mas o que é bom e útil; e trabalhe tanto que tenha para si, e com que socorrer o próximo que está em necessidade. De novo outra coisa: nenhuma palavra má saia, isto é, nenhum discurso mau proceda da vossa boca; mas, se alguma palavra é boa e útil para edificação da fé, isto é, para edificar o próximo na fé, essa proceda; de modo, contudo, que dê graça aos que ouvem [isto é] que seja grata aos que ouvem em lugar e tempo.

Vós, prelados, ensinai como foi dito, e vós, ouvintes, não entristeçais, não digo só os que vos instruem, mas aquele que neles fala, o Espírito Santo, Espírito, digo, de Deus. Vede quão grave culpa, porque, se ofendeis o pregador, ofendeis também o Espírito que nele fala, e, se o Espírito, ofendeis também a Deus; assim quem ofende o pregador, ofende a Deus. Não entristeçais o Espírito, no qual Espírito fostes selados; vós, com efeito, sois a cera, o Espírito o selo impresso em vós; selados, digo, para o dia da redenção, isto é, do batismo, em que fostes remidos de todo pecado. Não entristeçais o Espírito, mas seja removida de vós toda amargura do ânimo, e ira, isto é, comoção súbita do ânimo, e indignação; se um ignóbil, com efeito, abunda sobre vós, nobres, não vos indigneis; e gritaria, para que não clameis desordenadamente litigando, e blasfêmia feita contra Deus ou o próximo; quem diz, com efeito: por que Deus fez isto?, parece ter dito que Deus não fez bem. Para remover brevemente tudo, estas coisas com toda malícia, isto é, toda malícia seja removida de vós. Não sejais amargos ou blasfemos, mas sede benignos, isto é, largos, dando uns aos outros; e se não tendes o que dar, sede ao menos misericordiosos de ânimo, perdoando-vos mutuamente, isto é, sendo indulgentes uns com os outros, como também Deus vos perdoou os pecados em Cristo, isto é, por Cristo.

Capítulo 5

Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos; e andai no amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós como oferta e sacrifício a Deus em odor suave. A fornicação e toda impureza, ou a avareza, nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem a torpeza, nem a conversa tola, nem a graçola, coisas que não convêm; mas antes ações de graças. Pois sabei bem isto: que nenhum fornicador, ou impuro, ou avarento, o que é idolatria, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos seduza com palavras vãs; pois por causa destas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desconfiança. Não vos torneis, portanto, participantes deles. Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz: pois o fruto da luz está em toda bondade, justiça e verdade; provando o que é agradável a Deus. E não tenhais comunhão com as obras infrutuosas das trevas; antes, repreendei-as. Pois o que eles fazem em oculto, é vergonhoso até dizê-lo. Mas tudo o que é repreendido é manifestado pela luz; pois tudo o que é manifestado é luz. Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Vede, pois, irmãos, como andais com cautela; não como insensatos, mas como sábios; remindo o tempo, porque os dias são maus. Por isso não sejais imprudentes, mas entendei qual é a vontade de Deus. E não vos embriagueis com vinho, no qual há luxúria; mas enchei-vos do Espírito Santo, falando entre vós em salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando em vossos corações ao Senhor, dando graças sempre por tudo, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a Deus e Pai; sujeitos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres sejam sujeitas a seus maridos como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a Cabeça da Igreja; ele, o Salvador do seu corpo. Mas, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres a seus maridos em tudo. Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a no lavacro da água, pela palavra de vida, para apresentar a si mesmo a Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga nem coisa semelhante, mas santa e imaculada. Assim também os maridos devem amar suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Pois ninguém jamais odiou a sua própria carne; antes a nutre e a cuida, como também Cristo à Igreja; porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher; e serão dois numa só carne. Este mistério é grande; eu digo isto com referência a Cristo e à Igreja. Contudo, também vós, cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo; e a mulher respeite o seu marido.

Comentário

E porque Deus perdoou os pecados, sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos, perdoando uns aos outros. Nem apenas perdoando imitai, mas também andai no amor, de modo que um ame o outro, como também Cristo nos amou; amou-nos certamente; com efeito, entregou-se a si mesmo por nós como oferta e sacrifício a Deus em odor suave. Na lei antiga diziam-se ofertas os pães da proposição, as luminárias e semelhantes; sacrifício (hóstia), porém, o que se imolava no altar: em Cristo, porém, oferta foram todos aqueles bens que operou até o dia da morte; hóstia foi dito quando se ofereceu a si mesmo no altar da Cruz; e aquela antiga hóstia dizia-se ser suavíssimo odor a Deus segundo o sacrifício de Cristo que prefigurava, em si, com efeito, era fétido.

Sede imitadores de Deus, não porém fornicadores; o que diz assim: a fornicação e toda impureza (como muitas vezes expusemos) ou a avareza, não digo só que não haja, mas nem sequer se nomeiem entre vós, isto é, não vos mostreis imprevidentemente tais que daí alguém possa ao menos mal opinar; digo: não se nomeiem entre vós, como convém a santos, que vós sois, a prover o bem não só diante de Deus, mas também diante dos homens. Chamando-os santos, insinua que não escreve estas coisas porque tenham pecado, mas só para que daqui em diante se provejam. A fornicação não se nomeie entre vós, nem a torpeza, nem a conversa tola, nem a graçola — chama torpeza os manejos e aqueles beijos com mulheres; conversa tola, nos que se esforçam por falar apropriadamente às mulheres para persuadir; graçola é pentear-se e adornar-se para agradar aos que julgam a cortesia —: graçola que não convém, isto é, não olha a utilidade alguma, e por isso não se nomeie entre vós; mas antes ações de graças, isto é, portai-vos tão honestamente que em vós deem graças a Deus os que virem os vossos bens.

Por isso estas coisas não se nomeiem entre vós, porque quem é tal não tem herança no reino de Deus; ou assim: não só por isso não se nomeiem entre vós, porque não convêm, mas também porque tiram o reino de Deus; o que diz assim: sabei bem isto, entendendo, isto é, discutindo com sutil inteligência, que nenhum fornicador, ou impuro, ou avarento, o que, a saber, ser avarento, é idolatria; enquanto o avarento, com efeito, ama mais o dinheiro que a Deus, faz dele para si deus; o fornicador, digo, com eles não tem herança no reino de Cristo e de Deus. E para que não sejais alheios à herança do reino, vede, ninguém vos seduza com palavras vãs, isto é, falsas e mentirosas: diz isto por causa daqueles nicolaítas, que persuadiam que a Deus não desagradam quaisquer coisas carnais. Vede que ninguém vos seduza; pois por causa destas coisas acima proibidas vem a ira, isto é, a vingança de Deus, sobre os filhos da desconfiança, isto é, de cuja salvação desconfiamos, ou que desconfiam da salvação de Deus; e porque por estas coisas vem a ira de Deus, portanto não vos torneis participantes deles, isto é, da fornicação, impureza ou avareza.

Por isso não deveis participar destas coisas, porque agora seria mais difícil pecardes do que outrora; então, com efeito, por ignorância, mas agora, prudentes, meteríeis a mão no fogo; o que diz assim: éreis outrora, isto é, antes da fé, trevas, isto é, ignorantes, agora, porém, sois luz no Senhor, isto é, iluminados pelo Senhor; e por isso andai como devem andar os filhos da luz; andai, digo, em toda bondade tida em vós, e justiça guardada para com o próximo, e verdade, para que digais palavras verdadeiras; por isso nestas, porque assim andar não é simples obra, mas fruto da luz, isto é, obra frutuosa dos iluminados. Andai como filhos da luz, provando, isto é, considerando provadamente o que é agradável a Deus; e para que façais o que lhe é agradável, não tenhais comunhão com as obras das trevas, isto é, dos tenebrosos; com as obras, digo, infrutuosas e inúteis não tenhais comunhão, antes repreendei as obras das trevas. Não deveis ter comunhão, porque é vergonhoso até dizer, quanto mais fazer, o que eles fazem em oculto: «Quem, com efeito, obra mal, odeia a luz» (Jo 3,20).

Repreendei as obras das trevas, agora assume: tudo o que é repreendido pela luz, isto é, é reprovado pelos iluminados, é manifestado pela confissão, e, ao ser repreendido, arrepende-se de ter obrado mal. E é útil se é manifestado; tudo o que assim é manifestado pela confissão é luz, isto é, já começa a estar na luz da justiça, quando se arrepende de ter obrado mal. Ou de outro modo: tudo o que é repreendido pela luz, como foi dito, é manifestado aos próprios que são repreendidos; antes, com efeito, ignoravam o peso do seu pecado, que pela repreensão reconhecem; tudo o que assim é manifestado é luz, porque no fato de já conhecer o seu pecado, de certo modo é iluminado e se aproxima da justiça. Por isso, para comprovar isto, a saber, que as trevas se fazem luz pela manifestação, diz o Espírito Santo em mim; esta autoridade, com efeito, não se encontra em outro lugar nas Escrituras; diz, digo, assim: Desperta, tu que dormes por ignorância no pecado, desperta pelo conhecimento do pecado ou pela confissão, e, conhecido o pecado, levanta-te dentre os mortos, isto é, dos pecados que geram a morte; ou então, dentre os mortos, isto é, do número dos mortos, isto é, dos pecadores, fazendo frutos dignos de penitência; e assim, a ti que te levantas, Cristo iluminará, infundindo a graça.

Disse acima: repreendei as obras das trevas, as quais, repreendidas, pela manifestação se fazem luz; e porque da repreensão se segue tão grande utilidade que o tenebroso se faz luz, portanto, irmãos, repreendei as obras das trevas; e para que repreendais livremente, vede como andais com cautela, isto é, que talvez não se ache em vós o que nos outros repreendeis; andai com cautela, não como insensatos; quem, com efeito, repreende no outro o que está em si, age insensatamente, enquanto o que lhe desagrada no outro agrada-lhe em si; não como insensatos, mas como sábios, isto é, purgando primeiro a consciência, e então repreendendo livremente os males do próximo; andai, digo, com cautela; vós, digo, remindo o tempo. Segundo o bem-aventurado Gregório, remir o tempo é lavar com lágrimas os males passados; quando obramos mal, com efeito, perdemos o tempo; quando, porém, os males que fizemos emendamos pela penitência e daí em diante obramos bem, remimos o tempo perdido. Ou então, remindo, isto é, preparando para vós o tempo; remimos, com efeito, o tempo quando nos preparamos idôneos para fazer o que é bom; assim como quem obra mal perde o tempo, assim quem obra bem tem o tempo, mas não o remi; mas, preparando-se para ser idôneo para obrar bem, por estas preparações diz-se remir o tempo.

Vede como andais com cautela, e remi o tempo, porque os dias são maus, isto é, os homens nestes dias são maus: e por isso, porque os dias são maus, não sejais imprudentes, isto é, repreendendo imprevidentemente, mas entendei, isto é, corrigindo os males do próximo por inteligência e astúcia; entendendo, digo, qual é a vontade de Deus; a vontade de Deus, com efeito, é condescender humildemente com o próximo antes que o atemorizar com excessiva aspereza. Não sejais imprudentes; e não vos embriagueis com vinho, no qual vinho há, com a embriaguez, luxúria; mas embriagai-vos do Espírito Santo; o que diz assim: enchei-vos do Espírito Santo, falando entre vós, isto é, com inteligência do que proferis: falando, digo, em salmos. Salmo diz-se aquele canto que se faz com movimento de mãos naquele instrumento que se chama saltério; por isso diz: falando em salmos, isto é, nas coisas que pertencem à instrução da mortalidade; falando em hinos. Hino diz-se louvor de Deus com canto; hinos chama aqui ou louvores de Deus ou feitos dos santos igualmente para glória de Deus. Falando também em cânticos espirituais. Cântico diz-se exultação pelo bem celeste, e por isso diz espirituais; cânticos de que sobretudo usam os monges, agindo ali no desejo da bem-aventurança futura. Não só falando com inteligência os salmos, hinos, cânticos, mas também operando o que falam, o que diz assim: cantando em hinos e cânticos, e salmodiando, isto é, obrando bem em salmos — cantar em hinos e cânticos é operar segundo o seu modo —; cantando, digo, e salmodiando ao Senhor em vossos corações, isto é, por amor, não como coagidos; dando graças sempre a Deus e Pai, que [vos] criou e ama; graças, digo, por tudo, adversidades ou prosperidades; dando, digo, em nome, isto é, para glorificar o nome de nosso Senhor Jesus Cristo; vós, digo, sujeitos uns aos outros no temor, isto é, no amor de Cristo.

Depois de dar estes preceitos em público, admoesta separadamente os sexos e condições, como devem coabitar uns com os outros. A letra liga-se assim: digo, sede sujeitos uns aos outros; mas as mulheres, de outro gênero de sujeição, sejam sujeitas a seus maridos: sujeitas como ao Senhor. Sejam sujeitas aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça, isto é, o regente e o princípio da mulher, como Cristo é a Cabeça da Igreja, governando a que formou do seu lado: assim como, com efeito, da costela do varão a mulher, assim do lado de Cristo a Igreja. O próprio Cristo também é o Salvador do seu corpo, isto é, da Igreja; ele a salva; o marido, porém, pode reger a mulher, mas não pode salvá-la; e embora nisto difiram, que Cristo salva a Igreja, o marido não salva a mulher, nem por isso seja menor a sujeição, mas, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres a seus maridos em tudo o que convém.

Sejam as mulheres sujeitas aos maridos; vós, porém, maridos, não digo, sede sujeitos às mulheres, mas amai vossas mulheres; e não pouco, mas como Cristo amou a Igreja: amou certamente; com efeito, entregou-se a si mesmo à morte por ela, para a santificar dos pecados, purificando-a no lavacro da água; aqui mostra a água necessária à ablução; purificando, digo, pela palavra; palavra diz a proferição da Trindade; palavra, digo, de vida, isto é, na qual palavra se recebe a vida da justiça; ou então, pela Palavra de vida, isto é, Cristo, que no batismo nos restitui a vida da justiça. Santificou-a para apresentar a si mesmo, no dia das núpcias, a Igreja gloriosa pelo decoro das virtudes, sem mancha, isto é, algo criminoso, nem ruga, isto é, dolosidade, nem coisa semelhante, que ou pareça mancha ou dolo, mas santa pela posição das virtudes e imaculada pela remoção dos vícios.

Como Cristo à Igreja, assim amem os maridos as mulheres; assim devem também amar como a seus próprios corpos: na verdade como os corpos; quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo; a mulher, com efeito, é carne do marido, e por isso deve amá-la: ninguém, com efeito, jamais odiou a sua própria carne; antes a nutre com alimentos e a cuida com vestes: os mártires também, que entregaram suas carnes ao fogo, dizem-se ter amado a carne, enquanto quiseram fazê-la sofrer por uma hora, para que assim repousasse eternamente; como o enfermo que entrega sua carne ao médico para queimar e cortar, a fim de que pela aspereza de um dia tenha por longo tempo a sã quietude do corpo —; nutre, digo, e cuida, como Cristo à Igreja, a saber, a nós que somos a sua Igreja. Por isso nos nutre, sua Igreja, porque somos membros do seu corpo de Cristo, isto é, da Igreja: nós, digo, existentes alguns da sua carne, estes são os fracos, menos fortes na Igreja; outros, porém, existentes dos seus ossos, isto é, dos mais robustos na Igreja. Cristo teve carne, segundo cuja fraqueza se entediava e temia; teve ossos, isto é, razão, segundo a qual dizia: «O espírito está pronto» (Mt 26,41); assim hoje na Igreja alguns se dizem carne, alguns ossos. Nesta palavra também nos remete à primeira criação, quando Adão, vendo Eva criada, disse: «Este agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Gn 2,23).

Por isso, porque a esposa é carne do marido, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher; e serão dois, marido e esposa, numa só carne. Embora o homem seja carne do pai e da mãe, em cuja carne teve origem, mais se diz a mulher carne do marido, tanto segundo a natureza da criação, em que a mulher foi formada do varão, quanto segundo a força daquela conjunção em que admiravelmente passam à unidade da carne, a ponto de dizerem os físicos que, se o sangue do marido e da mulher, que carnalmente se misturaram, for posto no mesmo vaso, mistura-se indivisivelmente; se, porém, o sangue dos que não tiveram relação for igualmente posto, não se mistura assim, mas o sangue do marido por si e o da mulher permanecem como antes ou depois foram postos. Porque são uma só carne, o marido deve amar a esposa; além disso, porque este mistério (isto é, "deixará o homem pai", etc.) é grande, isto é, sacramento de grande coisa: o que diz "deixará o homem o pai" significa o Filho de Deus ter deixado o Pai, enquanto ele, pela natureza da Deidade invisível como o Pai, se mostrou visível sob a forma de servo. Deixou ainda a mãe, isto é, a Sinagoga, em que fora nutrido, e se uniu à sua mulher, isto é, à Igreja, que desposou para si com o anel da fé. Este, digo, é o sacramento; eu, porém, digo que a realidade deste sacramento existe em Cristo e na Igreja, como foi dito. Se toda outra causa no matrimônio cessasse, deveria, contudo, celebrar-se só pela dignidade da coisa de que é figura. Mas, embora a realidade deste sacramento esteja só em Cristo e na Igreja, não no homem e na mulher, contudo, também vós, cada um, não aquele a mulher do próximo, mas cada um ame a sua como a si mesmo; e a mulher não só ame, mas também respeite o seu marido. Assim se hajam os maridos para com as esposas, e as esposas para com os maridos.

Capítulo 6

Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor; pois isto é justo. Honra teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa: para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a terra (Ex 20,12; Dt 5,16). E vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos; mas educai-os na disciplina e correção do Senhor. Servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na simplicidade do vosso coração, como a Cristo; não servindo só à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo com boa vontade, como ao Senhor e não aos homens; sabendo que cada um, seja servo ou livre, receberá do Senhor o bem que tiver feito. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças; sabendo que o Senhor deles e vosso está nos céus, e que para ele não há acepção de pessoas. Quanto ao mais, irmãos, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às ciladas do diabo. Pois a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos da maldade nas regiões celestes. Por isso tomai a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e, vencido tudo, permanecer firmes. Ficai, pois, firmes, cingidos os vossos lombos com a verdade, revestidos da couraça da justiça, calçados os pés na preparação do Evangelho da paz; em tudo tomando o escudo da fé, com o qual possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; e tomai o capacete da salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus); orando em todo tempo, com toda oração e súplica, no espírito; e velando nisto com toda a instância e súplica por todos os santos; e por mim, para que me seja dada a palavra ao abrir a minha boca, com confiança, para fazer conhecer o mistério do Evangelho, pelo qual desempenho uma embaixada em cadeias, de modo que nele ouse falar como convém. Para que também vós saibais o que se passa comigo e o que faço, tudo vos fará saber Tíquico, irmão caríssimo e fiel ministro no Senhor; o qual enviei a vós para isto mesmo, para que saibais o que se passa conosco e para que consolem os vossos corações. Paz aos irmãos, e caridade com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em incorrupção. Amém.

Comentário

Segue: também vós, filhos, obedecei a vossos pais, de modo, contudo, no Senhor; nas coisas que são contra a fé, com efeito, não se devem ouvir os pais; obedecei, digo, pois isto é justo, isto a saber: honra teu pai e tua mãe; mandamento que é o primeiro na segunda tábua. Duas tábuas foram dadas a Moisés. Na primeira foram postos três mandamentos pertencentes a Deus, a saber, amarás o teu Deus, e adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás; e não tomarás em vão o nome do teu Deus, etc. Na segunda tábua foram postos sete mandamentos, pertencentes aos homens; este, porém, "honra teu pai", etc., foi anteposto aos outros seis. Este mandamento foi também dado com promessa, porque logo depois do mandamento se acrescentou a promessa do mandamento, esta a saber, para que te vá bem a ti que honras o pai, e vivas muito tempo sobre esta terra, e na verdadeira terra da promessa vivas muito, porque permanente.

Os filhos obedeçam aos pais; e vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos; mas educai-os na disciplina, ensinando-lhes o que devem aprender, e correção, para que, se pecarem, os corrijais como convém; disciplina e correção, digo, do Senhor, isto é, feitas segundo o Senhor.

Filhos, obedecei aos pais; também vós, servos, obedecei a vossos senhores, mesmo carnais; obedecei, digo, com temor do ânimo e tremor do corpo; e na simplicidade do vosso coração, isto é, sem toda dolosidade obedecei a eles, como a Cristo obedeceríeis; vós, digo, não servindo só à vista, isto é, de modo a serdes devotos diante do rosto do senhor e atrás soberbos; digo, não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, de coração, não coagidos, fazendo a vontade de Deus, isto é, como seria bom para vós fazer a vontade de Deus, assim sejais servindo-os com boa vontade, como ao Senhor e não aos homens. Por isso diz "como ao Senhor", pois, tendo sido feitos servos por pecado seu ou dos pais, se tolerarem pacientemente esta pena do pecado, parecem obedecer mais a Deus que ao homem, que os reduziu a esta condição por causa do pecado. Servi-os como ao Senhor, sabendo que cada um, seja servo ou livre, receberá do Senhor que remunera o bem que tiver feito.

Servos, obedecei aos senhores; e vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, não que os sirvais, mas que piedosamente remuneréis os trabalhos deles; fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, isto é, não os vexeis com ameaças, sabendo que o Senhor deles e vosso é o mesmo, nos céus, e sabendo que para Deus não há acepção de pessoas; não ama menos o servo que o livre, contanto que seja bom.

Depois de ter feito admoestações singulares aos sexos e condições, volta à admoestação comum da Igreja, temendo a falta deles e sabendo que não veriam mais o seu rosto: assim se hajam os filhos para com os pais, os servos para com os senhores, e vice-versa; vós, porém, irmãos, em comum, quanto ao mais, isto é, no futuro, fortalecei-vos, isto é, sede fortes no Senhor; e para vos fortalecerdes, estai na força do seu poder, isto é, sede poderosos pela virtude dele. Virtude chama aqui as armas que seguem, com que são poderosos contra os inimigos: e para serdes fortes e poderosos, revesti-vos da armadura de Deus, para que, revestidos das armas de Deus, possais à maneira dos que pelejam resistir às ciladas do diabo, isto é, ao diabo que vos arma ciladas; e para que nesta luta não sejais negligentes, porque a nossa luta não é contra a carne e o sangue, isto é, contra um inimigo visível: onde diz luta, insinua que a peleja é de perto; mas é contra os principados, isto é, os espíritos malignos que presidem também a outros espíritos, e contra as potestades, isto é, os espíritos que têm poder sobre os príncipes, e contra os dominadores deste mundo, não que regem este século, mas dominadores deste mundo de trevas, isto é, destes tenebrosos nos pecados; a estes, com efeito, só, não a outros, regem. E a nossa peleja é contra os espíritos, isto é, contra inimigos invisíveis; espíritos, digo, da maldade, nequíssimos, com efeito, são estes espíritos. Esta peleja é nas regiões celestes, isto é, não por coisas terrenas, mas para tirar-vos as alegrias celestes; ou então, segundo Agostinho, contra os espíritos que habitam nas regiões celestes, isto é, no ar. E por isso, porque a peleja é contra príncipes e espíritos, tomai por isso a armadura espiritual de Deus, isto é, as virtudes, para que por estas armas possais resistir no dia mau, isto é, neste tempo, que se diz dia mau porque nele os santos são afligidos por tentações; e não só resistir, mas também possais permanecer firmes, consumada a justiça; permanecer, digo, em tudo, tanto nas adversidades quanto nas prosperidades.

E porque nesta peleja a armadura de Deus é necessária, portanto tomai o cinto, a couraça, o escudo, etc.; o que diz assim: ficai na peleja, cingidos os vossos lombos, isto é, tendo cinto nos lombos, com que se reprima a luxúria; cingidos, digo, com a verdade, para que talvez não simuleis por fora a castidade e tenhais por dentro a lascívia; ou então, cingidos os lombos na caridade, porque o amor de Deus seja cinto dos lombos, mortificando em nós a luxúria. Ficai também revestidos da couraça da justiça, isto é, seja-vos a justiça couraça, recebendo sem lesão quaisquer golpes. Não diz que a verdade é cinto dos lombos e a justiça couraça porque não fosse bom dizer o inverso. Ficai também calçados os pés, isto é, tendo bem munidas as vossas afeições, não digo só no Evangelho, mas também na preparação do Evangelho, para que primeiro mostreis em vós o que a outros evangelizareis; esta preparação, com efeito, é boa: do Evangelho da paz, digo, isto é, pelo qual se reforma a paz entre Deus e o homem. Calçados os pés, digo, vós, tomando em todas as impugnações o escudo da fé, isto é, a fé, escudo e proteção para vós; com o qual escudo da fé possais apagar todos os dardos inflamados daquele nequíssimo adversário. Tomai também o capacete da salvação, isto é, seja-vos a esperança e o desejo da salvação eterna capacete, com que envolvais a cabeça; assim como a cabeça é o membro mais digno, assim a salvação futura é respeito mais digno. Tomai também a espada do Espírito Santo, que é, isto é, esta espada é a palavra de Deus; e com esta espada, a saber, a palavra de Deus, são feridos os inimigos, e caem. Vós, digo, orando com toda, isto é, por toda sorte de oração e toda súplica — oração diz-se, como simplesmente, Deus, ajuda-me; súplica, quando com adjuração, como: pela tua Paixão, livra-nos, Senhor —; orando, digo, em todo tempo, não só com a língua, mas no espírito, isto é, de coração. E nisto, isto é, no orar, sede vigilantes com toda a instância e toda súplica feita por todos os santos; feita também por mim, para que me seja dada a palavra ao abrir a minha boca, isto é, para que à boca aberta se acomode a graça da palavra; e para que me seja dada com confiança a fazer conhecer o mistério, isto é, o segredo do Evangelho, para revelar o qual mistério desempenho uma embaixada posto em cadeias: de modo que me seja dada com confiança, para que ouse falar no próprio Evangelho como convém.

Como não irei mais a vós, sobre o que vos convém fazer assim vos ensinei; para que, porém, também vós saibais as tribulações que se passam comigo, e o que faço nelas, Tíquico, irmão caríssimo e fiel ministro no Senhor, tudo vos fará saber; esse Tíquico enviei a vós para isto mesmo, para que saibais por ele o que se passa conosco e para que consolem os vossos corações ao ouvirdes que padeço pelo nome de Cristo, por quem todo fardo é leve, todo jugo suave de levar. Este Tíquico foi aquele por quem enviou esta Epístola, pretendendo por ambos consolá-los.

Aos irmãos seja paz e caridade com fé, isto é, e a fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo; amam, digo, em incorrupção, isto é, na integridade do amor. Dito por semelhança com a esposa que prova amar o marido enquanto lhe reserva a sua integridade. Ou assim: a graça seja com eles na incorrupção, isto é, na esperança da incorrupção, isto é, da vida eterna. Amém.