Epístola a Tito
Prólogo
Paulo, convertidos os cretenses, consagrou ali Tito arcebispo, para que os instruísse em tudo o que visse oportuno. Tendo, porém, Paulo ido a Nicópolis (o que esta Epístola parece insinuar nas passagens seguintes), escreveu esta Epístola a Tito; ouvira, com efeito, a respeito dele que exercia o ofício episcopal com demasiada simplicidade; porque os hereges, ou quaisquer perversos, não os expulsava da Igreja pelo império pontifical, como convinha. Denunciava-lhes, sim, que agiam mal e deviam desistir; mas, não cessando eles do mal começado (o que a dignidade pontifical exigia), não os coibia, mas humildemente os suportava. Por isso Paulo escreve esta Epístola a Tito, tratando nela do ofício pontifical, de modo a instruí-lo sobre quais bispos deve consagrar pelas cidades do seu arcebispado; demorando-se sobretudo nesta instrução, para que use do poder e império pontifical, porque, embora ser simples seja bom, a excessiva humildade do bispo traz incômodo ao regime da Igreja; e por isso adverte Tito que ensine, exorte e argua com império episcopal; e, se há hereges que não querem corrigir-se, os expulse da Igreja. E assim tratando do ofício episcopal, pretende tornar Tito um bispo perfeito, para que, pelo exemplo dele, tornasse animados quaisquer bispos demasiado simples e usassem do império episcopal.
Capítulo 1
Paulo, servo de Deus, Apóstolo, porém, de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade, na esperança da vida eterna; que prometeu, antes dos tempos eternos, Deus, que não mente, e manifestou a seu tempo a sua palavra na pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador; a Tito, filho amado segundo a fé comum: graça e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador. Por esta razão te deixei em Creta: para que corrijas o que falta e constituas presbíteros em cada cidade, como eu também te ordenei. Se alguém é sem crime, marido de uma só mulher, que tenha filhos fiéis, não acusados de luxúria nem insubmissos. Pois o bispo deve ser sem crime, como dispensador de Deus; não soberbo, não iracundo, não dado ao vinho, não violento, não cobiçoso de torpe lucro; mas hospitaleiro, benigno, sóbrio, justo, santo, continente, apegado à palavra fiel que é conforme à doutrina, para que seja capaz de exortar na sã doutrina e de refutar os que contradizem. Pois há muitos insubmissos, vãos faladores e sedutores, sobretudo os da circuncisão, aos quais é preciso fechar a boca; eles subvertem casas inteiras, ensinando o que não convém, por torpe lucro. Disse um deles, profeta próprio deles: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas más, ventres preguiçosos. Este testemunho é verdadeiro. Por isso repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé, não dando atenção a fábulas judaicas e a mandamentos de homens que se apartam da verdade. Tudo é puro para os puros; para os contaminados e infiéis, porém, nada é puro, mas contaminadas estão a sua mente e a sua consciência. Confessam que conhecem a Deus, mas com as obras o negam, sendo abomináveis, incrédulos e reprovados para toda obra boa.
Comentário
Paulo, etc. Como é seu costume, antepõe a saudação, dizendo: Paulo, servo de Deus, isto é, simples e humilde ao modo de servo; aqui insinua que a simplicidade é boa: servo certamente de Deus, mas contudo Apóstolo de Jesus Cristo, isto é, agindo e coibindo a cada um como exige o império da sublimidade apostólica; tu, pois, a meu exemplo, sê simples de modo que a excessiva humildade não impeça o império pontifical — não disse "servo de Deus e Apóstolo de Cristo" porque também não seja Apóstolo de Deus e servo de Cristo, mas para insinuar que por Cristo Deus Pai dirigiu Paulo ao ministério do apostolado —; Apóstolo, digo, segundo a fé dos eleitos de Deus (segue, com efeito, e prega a fé que mantiveram os Profetas e quaisquer eleitos de Deus), Apóstolo também segundo o conhecimento da verdade, isto é, segundo o que conheceu do verdadeiro conhecimento de Deus, não de qualquer verdade, digo, mas daquela que é segundo a piedade, isto é, a verdade que segue o culto de Deus; fé, digo, e conhecimento da verdade, que vão na esperança da vida eterna, porque pela fé recebida e pela verdade conhecida esperamos alcançar a vida eterna; e não em vão, porque esta vida prometeu, isto é, preordenou dar; nem é lícito duvidar desta promessa, prometeu-a, com efeito, aquele que não mente e não pode mentir, porque é Deus; nem a prometeu no tempo, mas, para que se considere em Deus a diligência da coisa prometida, prometeu-a antes dos tempos eternos, isto é, desde a eternidade, assim preordenou antes dos tempos, que rolam pelos séculos: prometeu, digo; manifestou, porém, isto é, cumpriu o que prometera aos seus, a seu tempo, isto é, em tempos congruentes, a vida eterna; porque Abel viu algo disso, mais perfeitamente Abraão; e assim pouco a pouco os Profetas, quanto mais se aproximava a redenção, tanto mais dela conheceram; e João mais que todos, que com o dedo mostrou a vida eterna, isto é, Cristo: mas sobretudo no tempo da graça manifestou Deus a vida eterna, a saber, a sua palavra, isto é, o Filho encarnado, nascido e de outros modos. Manifestou também esta Palavra na pregação que me foi confiada, isto é, pela pregação que me foi encomendada; confiada certamente a mim por mandato de Deus, isto é, porque Deus assim ordenou; de Deus, digo, nosso Salvador: Paulo, digo, tal e tal, escreve a Tito, amado de modo especial; a Tito, digo, filho segundo a fé comum, isto é, católica, em que o gerei, e não segundo a carne (katholikón, com efeito, diz-se comum ou universal); ou então, a Tito, filho, deseja que sinta segundo a fé comum, isto é, vulgar, e não segundo as doutrinas privadas dos hereges: seja-te, Tito, graça, tanto segundo a remissão dos pecados como segundo o ofício episcopal; e paz te seja, isto é, tranquilidade de ânimo, quanta aqui se pode ter; estas coisas te sejam certamente da parte de Deus Pai, que pode e tem vontade, e de Jesus Cristo, que igualmente pode, nosso Salvador, e tem vontade.
Terminada a saudação, assim se dirige a Tito: ó Tito, eu te deixei consagrado arcebispo em Creta, por esta razão, isto é, por esta coisa, que, se se fizer, me será grata; a coisa é esta: para que corrijas, isto é, para que, corrigindo o que deve ser corrigido, completes o que falta; isto, porém, foi dito dos costumes; e, corrigindo os costumes, constituas também presbíteros, isto é, bispos, em cada cidade sujeita ao teu arcebispado; constituas, digo, do modo como eu também te ordenei. Onde diz "como eu te ordenei", nota que, quando estava com ele, o instruiu sobre a consagração de bispos. Constitui bispo aquele, a saber, se alguém é sem crime, isto é, sem ato e infâmia de qualquer coisa criminosa, que também tenha sido marido de uma só mulher, como noutro lugar expusemos, que tenha filhos fiéis, isto é, que tenha instruído os seus filhos na fé sã, e não os tenha acusados de luxúria, de modo que nem mau rumor daí tenha saído; se, com efeito, permitiu que os seus filhos se entregassem à luxúria, deu exemplo de que não corrigirá bem os filhos da Igreja: ou não tendo filhos insubmissos, isto é, desobedientes a si; se, com efeito, apareceu remisso para com os filhos privados, mostra que não coibiria suficientemente a Igreja a ele confiada.
Por isso quero que aquele que for sem crime seja constituído bispo; convém, com efeito, que o bispo seja sem crime, tanto em ato como em suspeita, como dispensador de Deus, isto é, como quem dispensa o próprio Deus àqueles a quem prega. Convém também que o bispo seja não soberbo, isto é, que não deseje pôr-se acima dos outros; não iracundo, mas reja bem o ânimo; não dado ao vinho, isto é, não dado a muito vinho; não violento, isto é, que não golpeie com armas corporais, tem, com efeito, as armas do Espírito Santo; ou então, não golpeando as consciências dos ouvintes, para que não pregue tal coisa de que nasça má opinião; não cobiçoso de torpe lucro, isto é, não embaraçado em negócios seculares: mas hospitaleiro, que tenha recebido pobres em hospedagem; recebidos os pobres, e quaisquer, benigno, isto é, ministrando largamente o seu; sóbrio também em comida, bebida e vestuário; justo também para com os próximos; santo também para com Deus; continente também, para ser exemplo de continência aos outros. E além disso convém que seja apegado, isto é, tratando diligente e assiduamente, à palavra fiel, isto é, veraz, e não a toda verdade, mas àquela que é conforme à doutrina, isto é, que é idônea para a pregação; há, com efeito, muitas verdades a que seria culpa do bispo aplicar-se. E por isso abrace esta palavra, para que, pelo uso e pela ciência, seja capaz de exortar os fiéis na sã doutrina; possa também, pelo uso e pela ciência, refutar os que contradizem a sã doutrina, isto é, convencer os infiéis que impugnam a fé. E é necessário que seja assim capaz de refutar; porque há muitos insubmissos aos bispos; há também vãos faladores, falando coisas inúteis; e nesta vã locução há sedutores, isto é, têm a arte e a astúcia de seduzir os ouvintes por vaniloquências: poderiam, com efeito, falar coisas vãs sem astúcia de sedução: e sobretudo mais que todos seduzem os da circuncisão, os judeus; aos quais é preciso fechar a boca, porque são sedutores principais; estes, com efeito, que vieram da circuncisão subvertem não só o pai de família da casa, mas casas inteiras, isto é, toda a família, ensinando por torpe lucro, isto é, por amor do torpe lucro, o que não convém crer nem ensinar.
Verdadeiramente há entre os cretenses maus sedutores; o que aprova um deles, profeta próprio deles, isto é, natural deles, razão pela qual se lhe deve crer mais; este, porém, profeta, isto é, vidente, enquanto considerou sutilmente os vícios dos cretenses; este se chamou Epimênides; que disse isto deles: os cretenses são sempre mentirosos, bestas, meditando bestialmente, e más, isto é, como meditam, assim cruelmente operam; são também ventres preguiçosos, isto é, luxuriosos e que se carregam de comidas, e por isso tardos para todo bem. Para que da verdade destas coisas não se duvidasse, porque era gentio aquele que isto disse, afirma-o Paulo, dizendo: este testemunho, que Epimênides deu dos cretenses, é verdadeiro. Por isso, porque são mentirosos, etc., repreende-os, isto é, os cretenses, severamente, isto é, a saber, com austeridade e império pontifical, para que perseverem sãos na fé, não dando atenção a fábulas judaicas; porque o que ensinam sobre reconduzir a circuncisão são fábulas e não têm verdade da coisa. Não devem dar atenção a elas, porque são fábulas, e porque são mandamentos de homens, e não de Deus; outrora, com efeito, sob a lei antiga, Deus mandou a circuncisão e o mais; mas, depois que veio o tempo da graça, Deus mandou que isto não se fizesse. E por isso diz: não deem atenção a mandamentos, não de Deus, mas de homens que se apartam da verdade, porque a verdade da lei, a saber, o entendimento espiritual, não querem aceitar. Das passagens seguintes insinua que tais pregavam que se devia abster de certos alimentos, dizendo: não se deve dar atenção às fábulas dos judeus, que julgam imundos certos alimentos, quando tudo é puro para os puros, isto é, para os que os tomam em pureza e santidade; estes alimentos, com efeito, Deus os criou para o sustento dos que o servem; por isso são puros e dignos dos que com coração e obra puros servem a Deus. Toda criatura também, no que foi criada por Deus, é pura, aqui contudo não é necessário tratar de tudo. Para os puros de consciência e fé tudo é puro, mas para os contaminados de consciência e infiéis nem o que reputam puro lhes é puro: como não creem no Criador e têm a consciência contaminada, é injusto que usem de alguma criatura de Deus[1]. Nada lhes é puro; mas contaminadas estão a sua mente, isto é, o intelecto, a saber, a fé deles, e a consciência, por isso nada lhes é puro. Talvez dissesse alguém: por que estes são contaminados, quando confessam a Deus? Sei, sim, diz Paulo, que confessam com a boca que conhecem a Deus, mas de que lhes serve? com as obras o negam nos seus feitos; negam-no certamente, sendo abomináveis, isto é, de mau presságio, ou então, separados do número dos homens redimidos por Deus; sendo também incrédulos, isto é, não hábeis para crer, por excesso da sua impiedade; sendo também reprovados para toda obra boa, porque nada fazem que tenha semelhança de bem: muitas vezes, com efeito, alguns infiéis fazem coisas tais que, embora verdadeiramente boas não sejam, parecem contudo ser boas.
Notas
[1] Aqui, e até o fim deste capítulo, parece faltar a clareza e a pureza de doutrina que até agora encontramos nas exposições de São Bruno; e talvez seja lícito duvidar se o manuscrito do autor não sofreu alguma interpolação. Estas palavras: «É injusto que (os infiéis e pecadores) usem de alguma criatura de Deus» soam quase o mesmo que a proposição de Miguel Baio: «Todas as obras dos infiéis são pecados», que é falsa e foi condenada pela Santa Sé. O que se segue, a saber, «nada lhes é puro», etc., até o fim, embora não se ache tão evidentemente errôneo, carece certamente de clareza: os pecadores, com efeito, e os hereges podem fazer algumas obras, não só que parecem boas, mas que verdadeiramente são moralmente boas, e por vezes as fazem.
O sentido genuíno do Apóstolo é oportunamente exposto assim por Cornélio a Lapide: «Assim como para os puros, isto é, os cristãos, todas as coisas, isto é, todos os alimentos proibidos pela lei, são puros; assim, ao contrário, para os judaizantes e infiéis nada, isto é, nenhum alimento, é puro; porque estes, com mente e consciência supersticiosa, judaica ou herética, ou se abstêm de todos os alimentos ou os comem. Julgam, com efeito, supersticiosamente que a lei antiga obriga ainda os cristãos, e que segundo ela se devem discernir os alimentos, de modo que sejam obrigados a abster-se dos proibidos pela lei, e possam comer os permitidos pela lei. Assim todos os Padres citados (Crisóstomo, Jerônimo, Teodoreto, Ambrósio, etc.), e Santo Agostinho, no livro XXXI Contra Fausto, cap. 4: "O infiel — diz —, quer coma, quer se abstenha, não come nem se abstém santa ou justamente, porque faz ambas as coisas com prava opinião."»
O mesmo Cornélio dá outro sentido, expresso a partir da língua hebraica: «Poderia ser — diz — um hebraísmo, de modo que o verbo neutro em qal se tome por ativo em hifil; o que é dizer: para os infiéis nada é puro, isto é, nenhum alimento os purifica da sua infidelidade e crimes; como, ao contrário, para os outros, puros, que são de boa consciência, nada, isto é, nenhum alimento, nem por sua natureza nem pela lei antiga, é impuro, que os suje ou contamine; não há nenhum que lhes asperja alguma impureza, corporal ou legal, como outrora os alimentos proibidos pela lei de Moisés aspergiam aos judeus uma certa impureza legal. A esta exposição favorece a antítese que o Apóstolo acrescenta, dizendo: mas contaminadas estão a sua mente e a sua consciência; o que é dizer: por isso nenhum alimento lhes é puro, isto é, pode purificá-los, porque está contaminada e permanece a sua mente e consciência, à qual o alimento corporal não pode penetrar nem expiá-la. Embora também segundo o sentido anterior se possa comodamente expor esta antítese, como se desse a causa por que para os infiéis nenhum alimento é puro, mas antes todo lhes é impuro: porque, a saber, usam de todo alimento ou se abstêm dele por consciência infiel e perversa, pela qual querem submeter igualmente à lei de Moisés e à de Cristo, e abraçar ambas; fazem, assim, contra a lei de Cristo e contra a liberdade evangélica, que ensina que a lei de Moisés foi abolida e de modo algum deve ser misturada ao Cristianismo; e, por conseguinte, enquanto perseveram nesta mente, e dela comem ou não comem os alimentos, contaminam-se com infidelidade e judaísmo.
«Confessam (isto é, professam) que conhecem a Deus, mas com as obras o negam; sendo abomináveis, incrédulos e reprovados para toda obra boa. — Em vez de abomináveis, em grego está bdelyktoí, isto é, abomináveis e, como traduz Jerônimo, execráveis, a saber, na vida e nos costumes. Segundo: em vez de incrédulos, em grego está apeitheîs, isto é, incrédulos; Jerônimo traduz: desobedientes; outros: intratáveis; o siríaco: impersuasíveis, a quem, a saber, por nenhuma razão a verdade, a pureza e a liberdade do Cristianismo podem persuadir. Isto, com efeito, significa propriamente apeitheîs... Terceiro: reprovados, isto é, ímprobos, desviados, inaptos para a obra boa, e isto por sua malícia, pela qual, por sua livre e ímproba vontade, obstinados na sua infidelidade e vida ímpia, repudiam e reprovam toda obra boa, isto é, a maior parte das obras boas (é hipérbole); o que é dizer: estes judaizantes estão lançados em todos os crimes; isto, com efeito, traz consigo a heresia, o judaísmo e a infidelidade: daqui, contudo, não se segue que os hereges e infiéis não possam fazer algumas obras ao menos moralmente boas, e de fato as façam; pois confessam a Deus: isto, porém, é obra boa; é, com efeito, obra da fé e da sua profissão.»
Capítulo 2
Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina: que os anciãos sejam sóbrios, pudicos, prudentes, sãos na fé, na caridade, na paciência; as anciãs, do mesmo modo, em traje santo, não caluniadoras, não escravas de muito vinho, mestras do bem, para que ensinem as jovens a ser prudentes, a amar os seus maridos e os seus filhos, a ser prudentes, castas, sóbrias, cuidadosas da casa, benignas, sujeitas aos seus maridos, para que a palavra de Deus não seja blasfemada. Exorta igualmente os jovens a serem sóbrios. Em tudo apresenta-te como exemplo de boas obras, na doutrina, na integridade, na gravidade, na palavra sã e irrepreensível; para que o adversário se envergonhe, não tendo nada de mau a dizer de nós. Os servos sejam sujeitos a seus senhores, agradando-lhes em tudo, sem contradizer, sem defraudar, mas mostrando em tudo boa fidelidade, para que em tudo honrem a doutrina de Deus, nosso Salvador. Pois a graça de Deus, nosso Salvador, apareceu a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e aos desejos mundanos, vivamos neste século sóbria, justa e piedosamente, aguardando a bem-aventurada esperança e a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador nosso Jesus Cristo; que se entregou a si mesmo por nós, para nos remir de toda iniquidade e purificar para si um povo aceitável, zeloso de boas obras. Estas coisas fala, exorta e repreende com toda a autoridade. Ninguém te despreze.
Comentário
Os reprovados agem assim perversamente; tu, porém, não assim, mas fala o que convém, a sã doutrina. Isto, a saber, fala aos anciãos: que os anciãos sejam sóbrios, não dados à bebida; sejam também pudicos, isto é, castos; sejam prudentes, para saberem ensinar os mais jovens; sejam sãos na fé, sejam sãos na caridade, para que, como aos domésticos, assim amem a todos os outros; sejam também sãos na paciência, de modo que não sofram as injúrias de tal sorte que sejam impacientes aos opróbrios. As anciãs, do mesmo modo, adverte que estejam em traje santo, isto é, que indique a santidade delas, e que não sejam caluniadoras, isto é, que não imputem crimes a quaisquer, doença que sobretudo é das velhas; não sejam também escravas de muito vinho, mas mestras do bem: nem na igreja ou aos homens ensinem, mas assim, digo, que ensinem as jovens a ser prudentes; esta, a saber, a amar os seus maridos, e não os adúlteros, e também a amar os seus filhos, fomentando-os com toda solicitude; e ensinem-nas a ser prudentes, castas e sóbrias, tanto em comidas como em ornamentos, e cuidadosas da casa, isto é, que trabalhem com os maridos a bem providenciar a família; ensinem-nas também a ser benignas na distribuição de esmolas, e sujeitas aos seus maridos, não tendo império sobre os maridos. Adverte que tudo isto se faça, para que a palavra, isto é, a pregação de Deus, não seja blasfemada; se as mulheres, com efeito, se ensoberbecessem contra os maridos, se fossem incestas, etc., os insensatos opinariam que isso se contém na doutrina cristã, e por isso blasfemariam a palavra de Deus. Exorta igualmente os jovens a serem sóbrios e temperados.
Para que corrijas a todos convenientemente, apresenta-te aos outros como exemplo de boas obras; e não em algumas, mas em todas as obras; apresenta-te, digo, como exemplo para eles na doutrina, de modo que ensines o que seja útil aos ouvintes, e na integridade de todas as virtudes, para seres perfeito e íntegro nos bens; e ensina na gravidade, isto é, com severidade e império pontifical. E a palavra da tua doutrina seja sã, nada tenha de infidelidade misturada; seja também irrepreensível, de modo que nenhuma ocasião de repreensão daí se possa conceber. E isto convém, para que o adversário, isto é, o insidiador infiel, se envergonhe de dizer mal de nós, não tendo de que possa maldizer.
Exorta também os servos a serem sujeitos a seus senhores, para que não se ensoberbeçam contra eles, mas lhes agradem bem em tudo o que lhes for mandado, sem contradizer-lhes em coisa alguma; e sem defraudar, quer das coisas a eles confiadas, quer do trabalho a eles imposto, vagando ao ócio quando devem trabalhar, mas mostrando em todas as suas ações que a fé cristã é boa, isto é, útil; para que assim fazendo honrem em tudo a doutrina de Deus, nosso Salvador; quando, com efeito, os servos feitos fiéis não subtraem, mas servem mais devotamente aos senhores, honra-se por isso e louva-se a doutrina de Deus, que assim instruiu os servos fiéis a serem sujeitos aos senhores.
Por isso te advirto a trabalhar em tudo, sejam servos ou senhores, sejam anciãos ou mais jovens, porque a graça de Deus apareceu para salvar a todos; apareceu certamente quando o Verbo do Pai, feito carne no útero da Virgem, se mostrou visível aos homens; apareceu, digo, a graça de Deus, isto é, Deus por graça, não por méritos dos homens, mas só por misericórdia; de Deus, digo, nosso Salvador: e assim como apareceu para nos salvar, porque já fomos justificados pela fé, assim apareceu a todos os homens para os salvar; e por isso deves trabalhar em tudo. E porque o aparecer de Deus não bastaria para a salvação se por ele não fôssemos instruídos, diz: apareceu Deus por graça ensinando-nos a todos; isto a saber: que, renunciando à impiedade, isto é, ao culto dos ídolos, e renunciando aos desejos mundanos, isto é, que o século ministra e de que é causa, vivamos sobriamente, isto é, temperadamente em nós mesmos, justamente para com o próximo; e piedosamente vivamos para com Deus, mesmo neste corpo tão frágil, em que mal é lícito viver justamente: assim, vivendo sóbria, justa e piedosamente, aguardando a bem-aventurada esperança, isto é, a bem-aventurança esperada, e a vinda gloriosa de Jesus Cristo, isto é, quando Cristo, que antes apareceu em humildade para nos instruir, virá com glória julgar o século; de Cristo, digo, grande Deus e Salvador nosso, porque então, no juízo, queiram ou não, o confessarão grande Deus e Salvador dos santos, que vem então com grande poder e majestade, os que até aquele dia nunca confessaram ser Cristo Deus: Cristo Jesus, que, entre estas duas vindas, se entregou por nós, para nos remir de toda iniquidade, isto é, tanto da fragilidade da carne como do poder e sugestão do diabo; antes de Cristo na Cruz nos remir, com efeito, não podíamos resistir ao diabo e à sua sugestão, nem à fragilidade da nossa carne; e se desse perigo Deus não nos livrasse, ainda que nos purificasse de todos os pecados, nada contudo aproveitaria se não nos desse também a virtude de resistir às sugestões do diabo e à fragilidade da carne; quem, com efeito, pôde subverter o primeiro homem, criado em tão grande virtude, quanto mais àquele que é oprimido por tantas misérias de passibilidade e mortalidade? Entregou-se também para nos purificar de todo delito, original ou atual, no batismo; nós, digo, feitos povo aceitável a si depois da purificação do batismo; zeloso de boas obras por isso: primeiro, com efeito, arranca-nos do império do diabo e da fragilidade da carne, depois purifica-nos de todo delito, e ambas as coisas no batismo; depois, pela posição das boas obras, faz-nos aceitáveis a Deus.
Estas coisas ditas, a saber, que Deus apareceu por graça e há de vir ao juízo com glória, etc., fala e ensina aos que não sabem, e exorta os que sabem, a que se preparem dignos da segunda vinda. Se, admoestados, recusam obedecer, repreende-os com toda autoridade, isto é, com severidade episcopal, de modo que ninguém te despreze, isto é, que a tua excessiva humildade não gere desprezo da autoridade pontifical.
Capítulo 3
Admoesta-os a serem sujeitos aos príncipes e às autoridades, a obedecerem à ordem, a estarem prontos para toda obra boa, a não blasfemarem de ninguém, a não serem litigiosos, mas modestos, mostrando toda a mansidão para com todos os homens. Pois também nós éramos outrora insensatos, incrédulos, errantes, escravos de desejos e prazeres vários, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros. Mas, quando apareceu a benignidade e a humanidade de Deus, nosso Salvador, não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, salvou-nos pelo lavacro da regeneração e renovação do Espírito Santo, que derramou sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra; e quero que a afirmes com firmeza, para que os que creem em Deus procurem distinguir-se nas boas obras. Estas coisas são boas e úteis aos homens. Evita, porém, as questões tolas, as genealogias, as contendas e as disputas sobre a lei; pois são inúteis e vãs. Ao homem herege, depois de uma e de duas admoestações, evita-o, sabendo que tal homem está pervertido e peca, condenado pelo seu próprio juízo. Quando eu te enviar Artemas ou Tíquico, apressa-te a vir ter comigo a Nicópolis, pois resolvi passar ali o inverno. A Zenas, o jurisconsulto, e a Apolo despacha-os com solicitude, para que nada lhes falte. Aprendam também os nossos a distinguir-se nas boas obras para as necessidades urgentes, para que não sejam infrutuosos. Saúdam-te todos os que estão comigo. Saúda os que nos amam na fé. A graça de Deus esteja com todos vós. Amém.
Comentário
Para que Tito, por ter dito Paulo "com toda a autoridade", não julgasse que o povo a ele confiado devia ser sujeito só a ele, e não às potestades do mundo, removendo isto diz: adverte aqueles cretenses a serem sujeitos aos príncipes do mundo, como aos reis e às demais potestades, pagando os tributos e censos a eles devidos. Adverte-os também a obedecerem à ordem, isto é, aos preceitos dos príncipes; e contudo não para obra nefanda, mas a estarem prontos para toda obra boa que lhes for mandada pelos seus príncipes; se, com efeito, os príncipes mandassem que fossem ao culto do ídolo ou a qualquer coisa nefanda, não deveriam ir: «Convém, com efeito, obedecer mais a Deus do que aos homens» (At 5,29). Adverte-os também a não blasfemarem de ninguém dos seus senhores; nem a serem litigiosos, isto é, nem disputar contra os senhores, mas modestos e bem temperados, mostrando toda a mansidão e humildade, não só para com os senhores, mas para com todos os homens.
Por isso quero que todos obedeçam assim, mesmo a senhores infiéis, porque talvez os que agora são infiéis logo se façam fiéis como também nós; éramos, com efeito, outrora, isto é, pouco antes, insensatos, ainda que fôssemos sábios do mundo; e porque do conhecimento de Deus nada sabíamos, por isso éramos incrédulos, não tendo a fé de Deus; éramos também errantes, isto é, pecadores, e escravos de desejos, porque, se desejávamos dinheiro ou honras, servíamos com muito trabalho a alcançá-los: escravos também de prazeres vários da carne, isto é, segundo todos os sentidos; o que o olho via ou o ouvido ouvia, a mão trabalhava por apreender; nós, digo, vivendo em malícia, porque os males que eram lícitos infligíamos aos próximos; vivendo também em inveja, porque, quando não podíamos mais, invejávamos os próximos: nós odiosos aos outros, digo, e ao contrário odiando-nos uns aos outros, indo reciprocamente, isto é, em recompensação do ódio.
Tais éramos antes; mas, quando apareceu a benignidade de Deus, isto é, Deus por benignidade, e a humanidade de Deus — designa por que e por que meio isto se fez, a saber, por benignidade e por humanidade; quando, com efeito, Deus, por causa da benignidade, apareceu ao mundo pela humanidade co-unida ao Verbo do Pai —; de Deus, digo, nosso Salvador, porque, assim como por nós, assim também apareceu para salvar os que ainda são infiéis: não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito, isto é, para que Deus aparecesse nunca o havíamos merecido; mas segundo a sua misericórdia nos salvou Deus pelo lavacro da regeneração, isto é, pelo batismo, em que a primeira geração, que está em pecados, é destruída, e se tem a segunda, a geração espiritual; e renovação; o batismo que precede, com efeito, nos faz tais que, crescendo cada dia para o melhor, mais e mais nos renovamos, segundo aquilo: «Renovai-vos no espírito da vossa mente» (Ef 4,23); donde diz "regeneração", pela evacuação dos males, e "renovação", pela posição dos bens: ambas as coisas, regeneração e renovação, do Espírito Santo; pelo Espírito Santo, com efeito, tanto se remitem os pecados como se recebem as virtudes; Espírito Santo que derramou Deus sobre nós abundantemente, isto é, suficientemente para a remissão de todos os delitos; derramou, digo, por Jesus Cristo, nosso Salvador, segundo o homem (isto se entenda); Deus, com efeito, que estava naquele homem, por aquele homem deu o Espírito Santo, a fim de que nós, justificados pela graça do próprio Deus, sejamos herdeiros da vida eterna, e isto segundo a esperança, isto é, segundo o que esperamos enquanto somos mantidos neste mundo.
Esta palavra que disse, a saber, que somos salvos pelo lavacro da regeneração e seremos herdeiros da vida eterna, etc., esta, digo, palavra é fiel e bem digna de crédito; e por isso, sobre estas coisas que predisse, quero, ó Tito, que confirmes os cretenses, para que, crendo firmemente nelas, procurem distinguir-se nas boas obras, de modo que, se hoje operam bem, operando amanhã melhor, façam presidir as boas obras de hoje; procurem também presidir aos outros, dando exemplo de bens, os que creem em Deus: e estas coisas, a saber, distinguir-se nas boas obras, são boas para eles mesmos, e úteis aos homens que os imitam.
Sobre isto confirma os cretenses; mas evita as questões tolas, as genealogias, as contendas que disputam entre si sobre o entendimento das Escrituras, e as disputas sobre a lei, isto é, as que parecem contrariar-se mutuamente, tudo o que é semelhante; são, com efeito, inúteis, sem fruto algum, e, o que é pior, vãs, isto é, sem verdade. Evita estas questões; evita também o homem herege, isto é, dividido da unidade da fé; evita-o, digo, se for incorrigível depois de uma, isto é, a primeira, e de duas admoestações; porque, se admoestado duas vezes não fizer penitência, tal homem, isto é, o herege, está pervertido, não por ignorância, mas sabendo e prudente mete a mão no fogo; e este tal peca, condenado pelo seu próprio juízo, isto é, por sua própria deliberação, sem ninguém o impelir, e por isso é condenado por Deus.
Nota-se que deste lugar se colhe que, se alguém erra imprudentemente e não defende o seu erro, este não deve ser julgado herege, mas só aquele que, o que pior é, pensa mal da fé e incorrigivelmente o assevera e defende. Se por esta razão negamos que os simoníacos sejam hereges — sabem, com efeito, que agem mal e não o aprovam, mas ambiciosamente se cegam —; contra isto diz-se que o que eles pretenderam, comprando por preço os dons do Espírito Santo, não se sabe, só a Deus, com efeito, estão reveladas as coisas ocultas dos corações; mas segundo o que nos seus feitos exteriores vemos, julgamos do interior; porque, com efeito, os vemos permanecer no episcopado, que alcançaram por preço, julgamos deles como dos que creem que o Espírito Santo pode ser possuído com dinheiro. Se dizem que compraram só os benefícios temporais, e não a consagração, e por isso não são simoníacos, sentem muito pior; está escrito, com efeito: Quem se separar, diga-se-lhe: anátema; assim como, com efeito, o corpo e a alma não podem separar-se de modo a viver um deles, assim o benefício temporal do espiritual no bispo não pode separar-se. Isto deve sentir-se sobre as ordens e as honras temporais.
Depois de ensinar Tito sobre as coisas eclesiásticas, escreve-lhe sobre algumas coisas privadas, dizendo: quando eu te enviar, ó Tito, Artemas ou Tíquico, apressa-te a vir ter comigo a Nicópolis; pois resolvi passar ali o inverno. E antes que venhas, despacha Zenas, perito da lei, ou da Escritura divina ou secular, e com ele Apolo: a estes despacha certamente com solicitude, isto é, bem providos, dando-lhes o que é necessário; assim, digo, com solicitude, para que nada lhes falte. Se perguntas donde receber isto, quero também que os nossos cretenses aprendam a distinguir-se nas boas obras, de dia em dia melhorando; assim distinguir-se, certamente, administrando aos pregadores para os usos necessários, para que estes cretenses não sejam infrutuosos aos seus doutores, mas ministrem tudo o que for necessário ao uso deles: «Convém, com efeito, que o lavrador que trabalha seja o primeiro a participar dos frutos» (2Tm 2,6).
Saúdam-te todos os que estão comigo; e tu, saúda os que nos amam na fé, isto é, os fiéis. A graça de Deus esteja com todos vós. Amém.