LIÇÃO 9 - DIVISÃO DO ENTE EM ACIDENTAL E ESSENCIAL. OS TIPOS DE ENTE ACIDENTAL E DE ENTE ESSENCIAL

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 7: 1017a 7-1017b 9

435. O termo ente (ens) significa tanto o ente acidental (ens per accidens) quanto o ente essencial (ens per se).

436. O ente acidental é designado quando dizemos, por exemplo, que o justo é musical, e que o homem é musical, e que o músico é um homem. E o mesmo se aplica quando dizemos que o músico constrói, porque é acidental para um construtor ser músico, ou para um músico ser construtor. Pois dizer que "isto é aquilo" significa que isto é um acidente daquilo. E assim é nos casos dados; pois quando dizemos que o homem é musical, e que o músico é um homem, ou que o que é musical é branco, neste último caso queremos dizer que ambos são acidentes da mesma coisa, e no primeiro que o atributo é acidental ao ente. Mas quando dizemos que o que é musical é um homem, queremos dizer que musical é um acidente desta pessoa. E neste sentido também o branco é dito ser, porque a coisa da qual é acidente é. Portanto, aquelas coisas que são ditas ser em um sentido acidental são ditas ser tais ou porque ambas pertencem ao mesmo ente, ou porque o atributo pertence ao ente, ou porque a coisa à qual ele pertence e da qual é predicado é.

437. Por outro lado, aquelas coisas são ditas ser essencialmente que significam as figuras da predicação;¹ pois o ser é significado de tantas maneiras quantas as predicações são feitas. Portanto, uma vez que algumas dessas predicações significam o que uma coisa é, outras como ela é, outras quanto, outras como relacionada, outras o que faz, outras o que sofre, outras onde, e outras quando, a cada uma destas corresponde um modo de ser que significa a mesma coisa. Pois não há diferença entre "o homem está se recuperando" e "o homem se recupera", ou entre "o homem está andando" ou "cortando" e "o homem anda" ou "corta". E o mesmo é verdadeiro em outros casos.

438. Além disso, o ser significa que algo é verdadeiro, e o não-ser significa que algo não é verdadeiro, mas falso. Isso também vale para a afirmação e a negação. Por exemplo, dizer que Sócrates é musical significa que isto é verdadeiro. Ou dizer que Sócrates não é branco significa que isto é verdadeiro. Mas dizer que a diagonal de um quadrado não é incomensurável com um lado significa que isto é falso.

439. Ademais, ser, ou ente, significa que algumas das coisas mencionadas são potencialmente e outras atualmente. Pois, no caso dos termos mencionados, predicamos o ser tanto do que é dito ser potencialmente quanto do que é dito ser atualmente. E similarmente, dizemos tanto de alguém que é capaz de usar o conhecimento científico quanto de alguém que o está usando atualmente que ele sabe. E dizemos que está em repouso aquilo que já está assim ou é capaz de estar assim. E isso também se aplica no caso das substâncias; pois dizemos que Mercúrio está na pedra, e metade da linha na linha, e chamamos de grão aquilo que ainda não está maduro. Mas quando uma coisa é potencial e quando não, deve ser determinado em outro lugar (773: C 1832).

COMENTÁRIO
Tipos de ente: Três modos per accidens

885. Aqui o Filósofo expõe os vários sentidos em que o termo ente é usado, e a respeito disso faz três coisas. Primeiro, divide o ente em ente essencial e ente acidental. Segundo (886), distingue entre os tipos de ente acidental ("O ente acidental"). Terceiro (889), distingue entre os tipos de ente essencial ("Por outro lado").

Ele diz, então, que embora as coisas sejam ditas ser tanto essencial quanto acidentalmente, deve-se notar que esta divisão do ente não é a mesma pela qual o ente é dividido em substância e acidente. Isso fica claro pelo fato de que ele posteriormente divide o ente essencial nos dez predicamentos, nove dos quais pertencem à classe do acidente (889). Portanto, o ente é dividido em substância e acidente na medida em que é considerado em um sentido absoluto; por exemplo, a brancura considerada em si mesma é chamada de acidente, e o homem, de substância. Mas o ente acidental, no sentido em que é tomado aqui, deve ser entendido comparando um acidente com uma substância; e essa comparação é significada pelo termo é quando, por exemplo, se diz que o homem é branco. Portanto, este todo "o homem é branco" é um ente acidental. É claro, então, que a divisão do ente em ente essencial e ente acidental baseia-se no fato de que uma coisa é predicada de outra ou essencial ou acidentalmente. Mas a divisão do ente em substância e acidente baseia-se no fato de que uma coisa é, por sua própria natureza, ou uma substância ou um acidente.

886. Em seguida, ele indica os vários sentidos em que uma coisa é dita ser acidentalmente. Ele diz que isso ocorre de três maneiras: (1) primeira, quando um acidente é predicado de um acidente, como quando se diz que alguém justo é musical; (2) segunda, quando um acidente é predicado de um sujeito, como quando se diz que o homem é musical; e (3) terceira, quando um sujeito é predicado de um acidente, como quando se diz que o músico é um homem. E, uma vez que ele mostrou acima (787) como a causa acidental difere da causa essencial, ele mostra agora, portanto, que o ente acidental é um resultado de uma causa acidental.

887. Ele diz que, ao dar uma causa acidental, dizemos que o músico constrói, porque é acidental para um construtor ser músico, ou vice-versa; pois é evidente que a afirmação "isto é aquilo", i.e., o músico é um construtor, simplesmente significa que "isto é um acidente daquilo". O mesmo é verdadeiro para os sentidos anteriores de ente acidental quando dizemos que o homem é musical predicando um acidente de um sujeito, ou quando dizemos que o que é branco é musical, ou, inversamente, que o que é musical é branco predicando um acidente de um acidente. Pois em todos esses casos é significa meramente o ente acidental: "no último caso", i.e., quando um acidente é predicado de um acidente, é significa que ambos os acidentes são acidentais ao mesmo sujeito; "e no primeiro", i.e., quando um acidente é predicado de um sujeito, é significa "que o atributo é acidental ao ente", i.e., ao sujeito. Mas quando dizemos que o que é musical é um homem, queremos dizer "que musical é um acidente desta pessoa", i.e., que musical, que ocupa a posição de um sujeito, é um acidente do predicado. E a razão para fazer a predicação é semelhante, em certo sentido, quando um sujeito é predicado de um acidente e quando um acidente é predicado de um acidente. Pois um sujeito é predicado de um acidente pelo fato de que o sujeito é predicado daquilo ao qual o acidente, que é expresso no sujeito, é acidental; e de maneira similar, um acidente é predicado de um acidente porque é predicado do sujeito de um acidente. E por esta razão o atributo musical é predicado não apenas do homem, mas também do branco, porque aquilo de que o atributo musical é um acidente, i.e., o sujeito, é branco.

888. É evidente, então, que aquelas coisas que são ditas ser em um sentido acidental são ditas ser tais por três razões: (1) ou "porque ambos", a saber, o sujeito e o predicado, pertencem à mesma coisa (como quando um acidente é predicado de um acidente); ou (2) "porque o atributo", a saber, o predicado, como musical, "pertence ao ente", i.e., ao sujeito que é dito ser musical (e isso ocorre quando um acidente é predicado de um sujeito); ou (3) "porque a coisa", i.e., o sujeito que é expresso no predicado, ao qual pertence o acidente do qual ele (o sujeito) é ele mesmo predicado, ela mesma é (e isso ocorre quando um sujeito é predicado de um acidente, como quando dizemos que o que é musical é um homem).

Dez modos per se

889. Por outro lado (437).

Aqui ele distingue os tipos de ser essencial; e quanto a isso faz três coisas. Primeiro, divide o tipo de ser que está fora da mente, que é o ser completo, pelos dez predicamentos. Segundo (895), dá outro tipo de ser, na medida em que o ser existe apenas na mente ("Além disso, ser significa"). Terceiro (897), divide o ser por potência e ato — e o ser dividido dessa maneira é mais comum do que o ser completo, pois o ser potencial é ser apenas imperfeitamente e em sentido qualificado ("Além disso, ser").

Ele diz, primeiro (437), que todas aquelas coisas que significam as figuras da predicação são ditas essencialmente. Pois deve-se notar que o ser não pode ser restringido a algo definido da maneira como um gênero é restringido a uma espécie por meio de diferenças. Pois, como uma diferença não participa de um gênero, ela está fora da essência de um gênero. Mas nada poderia estar fora da essência do ser que pudesse constituir uma espécie particular de ser ao adicionar ao ser; pois o que está fora do ser é nada, e isso não pode ser uma diferença. Daí, no Livro III desta obra (433), o Filósofo provou que o ser não pode ser um gênero.

890. O ser deve então ser restringido a diversos gêneros com base em um modo (+) diferente de predicação, que flui de um modo diferente de ser; pois "o ser é significado", isto é, algo é significado como sendo, "em tantas maneiras" (ou em tantos sentidos) quantas pudermos fazer predicações. E por essa razão, as classes nas quais o ser é primeiramente dividido são chamadas de predicamentos, porque são distinguidas com base em diferentes maneiras de predicar. Portanto, como alguns predicados significam o que (i.e., substância); alguns, de que tipo; alguns, quanto; e assim por diante; deve haver um modo de ser correspondente a cada tipo de predicação. Por exemplo, quando se diz que um homem é um animal, o é significa substância; e quando se diz que um homem é branco, o é significa qualidade; e assim por diante.

891. Pois deve-se notar que um predicado pode ser referido a um sujeito de três maneiras.

(1) Isso ocorre de uma maneira quando o predicado afirma o que o sujeito é, como quando digo que Sócrates é um animal; pois Sócrates é a coisa que é um animal. E diz-se que esse predicado significa primeiramente substância, i.e., uma substância particular, da qual todos os atributos são predicados.

892. (2) Um predicado é referido a um sujeito de uma segunda maneira quando o predicado é tomado como estando no sujeito, e esse predicado está no sujeito ou (a) essencial e absolutamente e (i) como algo fluindo de sua matéria, e então é quantidade; ou (ii) como algo fluindo de sua forma, e então é qualidade; ou (b) não está presente no sujeito absolutamente, mas com referência a outra coisa, e então é relação.

(3) Um predicado é referido a um sujeito de uma terceira maneira quando o predicado é tomado de algo extrínseco ao sujeito, e isso ocorre de duas maneiras. (a) De uma maneira, aquilo de onde o predicado é tomado é totalmente extrínseco ao sujeito; e (i) se isso não é uma medida do sujeito, é predicado à maneira de vestimenta, como quando se diz que Sócrates está calçado ou vestido. (ii) Mas se é uma medida do sujeito, então, como uma medida extrínseca é ou tempo ou lugar, (aa) o predicamento é tomado ou em referência ao tempo, e assim será quando; ou (bb) se é tomado em referência ao lugar e a ordem das partes no lugar não é considerada, será onde; mas se essa ordem é considerada, será posição. (b) De outra maneira, aquilo de onde o predicado é tomado, embora fora do sujeito, está, no entanto, de certo ponto de vista, no sujeito do qual é predicado. (i) E se é do ponto de vista do princípio, então é predicado como uma ação; pois o princípio da ação está no sujeito. (ii) Mas se é do ponto de vista de seu termo, então será predicado como uma paixão; pois uma paixão termina no sujeito que está sendo afetado.

893. Mas, como há algumas predicações nas quais o verbo é claramente não é usado (por exemplo, quando se diz que um homem caminha), para que alguém não pense que essas predicações não envolvem a predicação do ser, por isso Aristóteles subsequentemente rejeita isso, dizendo que em todas as predicações desse tipo algo é significado como sendo. Pois todo verbo é reduzido ao verbo é mais um particípio. Pois não há diferença entre as afirmações "o homem está se recuperando" e "o homem se recupera"; e o mesmo ocorre em outros casos. É claro, então, que "ser" é usado em tantas maneiras quantas fizermos predicações.

894. E não há verdade na afirmação de Avicena de que predicados que pertencem à classe dos acidentes significam primariamente substância e secundariamente acidentes, como os termos branco e musical. Pois o termo branco, como é usado nas categorias, significa qualidade apenas. Agora, o termo branco implica um sujeito na medida em que significa brancura à maneira de um acidente, de modo que deve, por implicação, incluir o sujeito em sua noção, porque o ser de um acidente consiste em estar em algo. Pois, embora a brancura signifique um acidente, ainda assim não significa isso à maneira de um acidente, mas à de uma substância. Daí não implicar um sujeito de modo algum. Pois se significasse um sujeito primariamente, então o Filósofo não colocaria predicados acidentais sob o ser essencial, mas sob o ser acidental. Pois toda a afirmação "o homem é branco" é um ser em sentido acidental, como foi dito (886).

Ser lógico

895. Além disso, ser significa (438).

Então ele dá outro sentido no qual o termo ser é usado, na medida em que os termos ser e é significam a composição de uma proposição, que o intelecto faz quando combina e separa. Ele diz que ser significa a verdade de uma coisa, ou como outra tradução expressa melhor, ser significa que alguma afirmação é verdadeira. Assim, a verdade de uma coisa pode ser dita determinar a verdade de uma proposição à maneira de uma causa; pois pela razão de que uma coisa é ou não é, um discurso é verdadeiro ou falso. Pois quando dizemos que algo é, significamos que uma proposição é verdadeira; e quando dizemos que algo não é, significamos que não é verdadeira. E isso se aplica tanto à afirmação quanto à negação. Aplica-se à afirmação, como quando dizemos que Sócrates é branco porque isso é verdadeiro; e à negação, como quando dizemos que Sócrates não é branco, porque isso é verdadeiro, ou seja, que ele não é branco. E de maneira similar, dizemos que a diagonal de um quadrado não é incomensurável com um lado, porque isso é falso, i.e., seu não ser incomensurável.

896. Ora, deve-se notar que esta segunda maneira como o ser é usado está relacionada à primeira como um efeito a uma causa. Pois do fato de que algo é na realidade segue-se que há verdade e falsidade em uma proposição, e o intelecto significa isso pelo termo é tomado como um verbo cópula. Mas, como o intelecto considera como um tipo de ser algo que em si mesmo é um não-ser, como uma negação e coisas semelhantes, portanto, às vezes o ser é predicado de algo nesta segunda maneira e não na primeira. Pois a cegueira é dita ser na segunda maneira com base no fato de que a proposição na qual algo é dito ser cego é verdadeira. No entanto, não é dita ser verdadeira na primeira maneira; pois a cegueira não tem nenhum ser na realidade, mas é antes uma privação de algum ser. Ora, é acidental a uma coisa que um atributo seja afirmado dela verdadeiramente no pensamento ou na palavra, pois a realidade não se refere ao conhecimento, mas o contrário. Mas o ato de ser que cada coisa tem em sua própria natureza é substancial; e, portanto, quando se diz que Sócrates é, se o é é tomado na primeira maneira, pertence à classe dos predicados substanciais; pois ser é um predicado mais alto com referência a qualquer ser particular, como animal com referência a homem. Mas se é tomado na segunda maneira, pertence à classe dos predicados acidentais.

Divisão por potência e ato

897. Novamente, o ser, ou o ente (439).

Aqui ele apresenta a divisão do ente em ato e potência. Ele diz que o ser e o ente significam algo que é expressável ou enunciável em potência ou em ato. Pois, no caso de todos os termos anteriores que significam os dez predicamentos, algo é dito ser assim em ato e algo outro em potência; e disso segue-se que cada predicamento é dividido por atualidade e potência. E assim como, no caso das coisas que estão fora da mente, algumas são ditas ser em ato e algumas em potência, também isso é verdadeiro no caso das atividades da mente e no das privações, que são apenas entes de razão. Pois diz-se que alguém conhece tanto por ser capaz de usar o conhecimento científico quanto por estar efetivamente usando-o; e similarmente, diz-se que uma coisa está em repouso tanto porque o repouso já lhe pertence quanto porque ela é capaz de estar em repouso. E isso é verdadeiro não apenas dos acidentes, mas também das substâncias. Pois "Mercúrio", dizemos, isto é, a imagem de Mercúrio, está presente em potência na pedra; e metade de uma linha está presente em potência numa linha, pois toda parte de um contínuo está em potência no todo. E a linha está incluída na classe das substâncias segundo a opinião daqueles que sustentam que os objetos da matemática são substâncias — opinião que ele ainda não refutou. E quando o grão ainda não está maduro, por exemplo, quando ainda está na espiga, diz-se que está em potência. Contudo, quando exatamente algo está em potência e quando não está mais deve ser estabelecido em outra parte, a saber, no Livro IX desta obra (1832).


Revision #2
Created 13 September 2026 21:45:26 by Admin
Updated 13 September 2026 22:05:42 by Admin