LIÇÃO 8 - Prioridade da Atualidade sobre a Potência na Substância

TEXTO DE ARISTÓTELES: Capítulo 8: 1050a 4-1050b 6

784. Mas a atualidade é também anterior em substância; (1) porque aquelas coisas que são posteriores na geração são anteriores na forma e na substância; por exemplo, o homem é anterior ao menino, e o ser humano à semente; pois um já possui sua forma, mas o outro não.

785. E (2) porque tudo o que vem a ser move-se em direção a um princípio, a saber, seu objetivo [ou fim]. Pois aquilo em vista do qual uma coisa vem a ser é um princípio; e a geração é em vista do objetivo. E a atualidade é o objetivo, e é em vista disso que a potência é adquirida.

786. Pois os animais não veem para que possam ter o poder da visão, mas têm o poder da visão para que possam ver.

787. E da mesma forma os homens têm a ciência da construção para que possam construir, e têm o conhecimento teórico para que possam especular; mas não especulam para que possam ter conhecimento teórico, a menos que estejam aprendendo pela prática. E estes últimos não especulam [de modo perfeito], mas ou em algum grau ou porque não precisam especular.

788. Além disso, a matéria está em potência até o momento em que atinge sua forma; mas quando existe atualmente, então possui sua forma. E o mesmo vale no caso de outras coisas, mesmo daquelas cujo objetivo é o movimento. E por essa razão, assim como aqueles que ensinam pensam que atingiram seu objetivo quando exibem seu aluno realizando, assim também ocorre com a natureza.

789. Pois se não fosse assim, o Mercúrio de Pausão existiria novamente, porque não seria mais evidente se o conhecimento científico é interno ou externo, como ocorre com a figura de Mercúrio. Pois a atividade é o objetivo, e a atualidade é a atividade. E por essa razão o termo atualidade é usado em referência à atividade e é estendido à completude.

790. Mas, embora no caso de algumas coisas o efeito último seja o uso (como, por exemplo, no caso da visão o efeito último é o ato de ver, e nenhuma outra obra além desta resulta do poder da visão), ainda assim de algumas potências algo mais é produzido; por exemplo, a arte de construir produz uma casa além do ato de construir. No entanto, em nenhum dos casos o ato é menos ou mais o fim da potência; pois o ato de construir está na coisa sendo construída, e ele vem a ser e existe simultaneamente com a casa. Portanto, naqueles casos em que o resultado é algo diferente do uso, a atualidade está na coisa sendo produzida; por exemplo, o ato de construir está na coisa sendo construída, e o ato de tecer na coisa sendo tecida. O mesmo vale em todos os outros casos. E, em geral, o movimento está na coisa sendo movida. Mas no caso daquelas coisas em que nada mais é produzido além da atividade, a atividade está presente nestas, como o ato de ver está naquele que vê, e o ato de especular naquele que especula, e a vida na alma. Consequentemente, a felicidade está na alma, pois é um tipo de vida.

791. É evidente, então, que a substância ou forma é atualidade. Portanto, fica claro segundo este argumento que a atualidade é anterior à potência em substância. E, como dissemos (780), uma atualidade é sempre anterior a outra no tempo, retrocedendo até aquela atualidade que é sempre o primeiro princípio do movimento.

COMENTÁRIO
Prioridade do ato substancialmente

1856. Tendo mostrado que a atualidade é anterior à potência na inteligibilidade e, em um sentido, no tempo, o Filósofo mostra agora que ela é anterior em substância. Esta era a terceira maneira dada acima (1845) pela qual a atualidade é anterior à potência.

Isso se divide em duas partes. Na primeira parte, ele prova sua tese por argumentos extraídos de coisas que são às vezes potenciais e às vezes atuais. Na segunda parte (1867), ele prova sua tese comparando as coisas eternas, que são sempre atuais, com as coisas móveis, que são às vezes atuais e às vezes potenciais ("Mas a atualidade").

E, visto que ser anterior em substância é ser anterior em perfeição, e visto que a perfeição é atribuída a duas coisas, a saber, à forma e ao objetivo [ou fim], portanto, na primeira parte ele usa dois argumentos para provar sua tese. O primeiro deles diz respeito à forma, e o segundo (1857) ao objetivo, dado nas palavras: "E porque".

Ele diz, então, primeiramente, que a atualidade é anterior à potência não apenas na inteligibilidade e no tempo, "mas em substância", i.e., em perfeição; pois a forma pela qual algo é aperfeiçoado é usualmente significada pelo termo substância. Esta primeira parte é esclarecida por este argumento: aquelas coisas que são posteriores na geração são "anteriores em substância e forma", i.e., em perfeição, porque o processo de geração vai sempre do imperfeito ao perfeito; por exemplo, no processo de geração, o homem é posterior ao menino, porque o homem vem do menino; e o ser humano é posterior à semente. A razão é que o homem e o ser humano já possuem uma forma perfeita, enquanto o menino e a semente ainda não possuem tal forma.

Logo, uma vez que, em um mesmo sujeito numericamente uno, a atualidade é posterior à potência tanto na geração quanto no tempo, como é evidente a partir do que foi dito acima, segue-se que a atualidade é anterior à potência na substância e na inteligibilidade.

1857. E (2) porque (785).

Aqui ele prova o mesmo ponto com um argumento envolvendo o objetivo da atividade. Primeiro, ele apresenta o argumento. Segundo (1858), ele explica um dos princípios assumidos em seu argumento ("Pois os animais"). Terceiro (1862), ele resolve uma questão que poderia causar dificuldade no argumento acima ("Mas enquanto").

Ele diz, portanto, primeiro, que tudo que vem a ser, quando se move em direção ao seu objetivo, move-se em direção a um princípio. Pois um objetivo, ou aquilo para o qual algo vem a ser, é um princípio porque é a primeira coisa intencionada por um agente, já que é para isso que a geração ocorre. Mas a atualidade é o objetivo da potência, e, portanto, a atualidade é anterior à potência e é um de seus princípios.

1858. Pois os animais (786).

Agora ele explica a posição que defendeu acima, ou seja, que a atualidade é o objetivo da potência. Ele torna isso claro, primeiro, no caso das potências ativas naturais. Ele diz (~) que os animais não veem para que possam ter o poder de visão, mas (+) eles têm o poder de visão para que possam ver. Assim, fica claro que a potência existe em função da atualidade e não vice-versa.

1859. E da mesma forma (787).

Segundo, ele torna a mesma coisa clara no caso das potências racionais. Ele diz que os homens têm o poder de construir para que possam construir; e eles têm "conhecimento teórico", ou ciência especulativa, para que possam especular. No entanto, eles não especulam para que possam ter conhecimento teórico, a menos que estejam aprendendo e meditando sobre aquelas matérias que pertencem a uma ciência especulativa para adquiri-la. E estes não especulam perfeitamente, mas até certo ponto e imperfeitamente, como foi dito acima (1853-55), porque a especulação não é empreendida por causa de alguma necessidade, mas em função do uso da ciência já adquirida. Mas há especulação por parte daqueles que aprendem devido à necessidade de adquirir ciência.

1860. Além disso, a matéria (788).

Terceiro, ele torna o mesmo ponto claro no caso das potências passivas. Ele diz que a matéria está em potência até receber uma forma ou princípio especificador, mas então ela está primeiro em estado de atualidade quando recebe sua forma. E isso é o que ocorre em todas as outras coisas que são movidas em função de um objetivo. Portanto, assim como aqueles que ensinam pensam ter alcançado seu objetivo quando exibem seu aluno, a quem instruíram, realizando aquelas atividades que pertencem à sua arte, de maneira semelhante a natureza alcança seu objetivo quando atinge a atualidade. Logo, torna-se evidente, no caso do movimento natural, que a atualidade é o objetivo da potência.

1861. Pois se isso não fosse (789).

Quarto, ele prova sua tese com um argumento a partir das consequências insustentáveis. Ele diz que se a perfeição e o objetivo de uma coisa não consistissem na atualidade, então não pareceria haver diferença entre alguém sábio, como Mercúrio, e alguém tolo, como Páuson. Pois se a perfeição da ciência não estivesse naquele que age, Mercúrio não a teria exibido em sua própria ciência, se ele tivesse "conhecimento científico interno", i.e., em referência à sua atividade interna, "ou externo", i.e., em referência à sua atividade externa, assim como Páuson também não. Pois é por meio do uso atual do conhecimento científico, e não por meio da potência ou poder, que se mostra ter uma ciência; porque a atividade é o objetivo de uma ciência, e a atividade é um tipo de atualidade.

E por esta razão o termo atualidade é derivado da atividade, como foi dito acima (1805); e a partir disso foi estendido à forma, que é chamada de completude ou perfeição.

1862. Mas enquanto (790).

Ele explica um ponto que poderia causar dificuldade no argumento anterior. Pois, como ele havia dito que algum produto é o objetivo da atividade, alguém poderia pensar que isso é verdadeiro em todos os casos. Mas ele nega isso, dizendo que o objetivo ou fim último de algumas potências ativas consiste no mero uso dessas potências, e não em algo produzido por sua atividade; por exemplo, o objetivo último do poder de visão é o ato de ver, e não há produto resultante do poder de visão além desta atividade. Mas, no caso de algumas potências ativas, algo mais é produzido além da atividade; por exemplo, a arte de construir também produz uma casa além da atividade de construir.

1863. Todavia, essa diferença não faz com que a atualidade seja o fim da potência em menor grau em algumas dessas potências e em maior grau em outras; pois a atividade está na coisa produzida, como o ato de edificar na coisa que está sendo edificada; e ela vem a ser e existe simultaneamente com a casa. Portanto, se a casa, ou a coisa edificada, é o fim, isso não exclui que a atualidade seja o fim da potência.

1864. Ora, é necessário considerar tal diferença entre as potências mencionadas, porque (1) quando algo além da atualidade dessas potências, que é a atividade, é produzido, a atividade de tais potências está na coisa que está sendo produzida e é a sua atualidade, assim como o ato de edificar está na coisa que está sendo edificada, e o ato de tecer na coisa que está sendo tecida, e, em geral, o movimento na coisa que está sendo movida.

E isso é verdade, porque quando algum produto resulta da atividade de uma potência, a atividade aperfeiçoa a coisa que está sendo produzida e não aquele que a realiza. Portanto, ela está na coisa produzida como sua atualidade e perfeição, mas não naquele que está agindo.

1865. Mas (2) quando nada além da atividade da potência é produzido, a atualidade então existe no agente como sua perfeição e não passa para algo externo para aperfeiçoá-lo; por exemplo, o ato de ver está naquele que vê como sua perfeição, e o ato de especular está naquele que especula, e a vida está na alma (se entendemos por vida a atividade vital). Portanto, foi mostrado que a felicidade também consiste em uma atividade do tipo que existe naquele que age, e não do tipo que passa para algo externo; pois a felicidade é um bem daquele que é feliz, ou seja, sua vida perfeita. Logo, assim como a vida está naquele que vive, de maneira semelhante a felicidade está naquele que é feliz. Assim, é evidente que a felicidade não consiste nem na construção nem em qualquer atividade do tipo que passa para algo externo, mas consiste no entendimento e na vontade.

1866. É evidente (791).

Por último, ele refaz seus passos para tirar a conclusão principal que tem em mente. Ele diz que foi mostrado pela discussão acima que a substância ou forma ou princípio especificador de uma coisa é um tipo de atualidade; e a partir disso é evidente que a atualidade é anterior à potência em substância ou forma. E é anterior no tempo, como foi dito acima (1848), porque a atualidade pela qual o gerador ou movente ou fazedor é atual deve sempre existir primeiro antes da outra atualidade pela qual a coisa gerada ou produzida se torna atual após ser potencial.

E isso continua até se chegar ao primeiro movente, que é apenas atualidade; pois tudo o que passa da potência à atualidade requer uma atualidade anterior no agente, que o traga à atualidade.


Revision #3
Created 17 September 2026 23:07:46 by Admin
Updated 17 September 2026 23:19:13 by Admin