LIÇÃO 7 - Os Tipos de Unidade Acidental e de Unidade Essencial

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 6: 1015b 16-1016b 3

423. O termo uno é usado tanto para o que é acidentalmente uno quanto para o que é essencialmente uno. Diz-se que algo é acidentalmente uno, por exemplo, quando dizemos "Córisco" e "músico" e "músico Córisco". Pois dizer "Córisco", "músico" e "músico Córisco" equivale à mesma coisa; e isso também é verdade quando dizemos "justo", "músico" e "justo músico Córisco". Pois todos esses são ditos acidentalmente unos: justo e músico porque são acidentes de uma substância, e músico e Córisco porque um é acidente do outro. E, de modo semelhante, em certo sentido, músico Córisco é uno com Córisco, porque uma das partes dessa expressão é acidente da outra. Assim, músico é acidente de Córisco, e músico Córisco é acidente de justo Córisco, porque uma parte de cada expressão é acidente de um mesmo sujeito. Pois não faz diferença se músico é acidente de Córisco [ou se justo Córisco é acidente de músico Córisco]. O mesmo também ocorre se um acidente é predicado de um gênero ou de qualquer termo universal, por exemplo, quando se diz que homem e homem músico são o mesmo; pois isso ocorre ou porque músico é acidente de homem, que é uma substância, ou porque ambos são acidentes de algo singular, por exemplo, Córisco. Contudo, ambos não pertencem a ele do mesmo modo, mas um talvez como gênero e substância, e o outro como hábito ou modificação da substância. Portanto, quaisquer coisas que sejam ditas acidentalmente unas são ditas tais dessa maneira.

424. Mas, no caso das coisas que são ditas essencialmente unas, algumas são ditas tais por natureza de sua continuidade; por exemplo, um feixe torna-se uno por meio de uma amarra, e pedaços de madeira tornam-se unos por meio de cola. E uma linha contínua, mesmo se curvada, é dita una, assim como cada parte [do corpo humano], por exemplo, uma perna ou um braço. E dessas próprias coisas, as que são contínuas por natureza são mais unas do que as que são contínuas por arte. E diz-se que é contínuo aquilo cujo movimento é essencialmente uno e não pode ser de outro modo. E o movimento é uno quando é indivisível, i.e., indivisível no tempo.

425. Novamente, todas aquelas coisas são essencialmente contínuas que são unas não meramente por contato; pois, se você colocar pedaços de madeira de modo que se toquem, não dirá que são unos, seja uma tábua, seja um corpo, seja qualquer outra coisa contínua. Portanto, as coisas que são contínuas em toda a sua extensão são ditas unas, mesmo que sejam curvadas. E as que não são curvadas são ainda mais unas; por exemplo, a canela ou a coxa é mais una do que a perna, porque o movimento da perna pode não ser uno. E uma linha reta é mais una do que uma linha curvada. Mas o que é curvado e angular referimos como sendo uno ou não uno, porque seu movimento pode ser simultâneo ou não. Mas o movimento de uma linha reta é sempre simultâneo, e nenhuma parte dela que tenha extensão está em repouso quando outra se move, como em uma linha curvada.

426. Novamente, uma coisa é dita una em outro sentido porque seu sujeito subjacente é uniforme em espécie; e é uniforme em espécie como aquelas coisas cuja forma é indivisível do ponto de vista da percepção sensorial. E o sujeito subjacente é ou aquele que é primário ou aquele que é último em relação ao fim. Pois o vinho é dito uno e a água é dita una na medida em que são indivisíveis em espécie. E todos os líquidos são ditos unos, como o óleo, o vinho e os fluidos, porque o sujeito último de todos é o mesmo; pois todos esses são constituídos de água ou de ar.

427. E são ditas unas aquelas coisas cujo gênero é uno e que diferem por diferenças opostas. E todas essas coisas são ditas unas porque o gênero, que é o sujeito das diferenças, é uno; por exemplo, homem, cão e cavalo são unos porque todos são animais; e isso é de um modo mais próximo ao modo como a matéria é una. E, às vezes, as coisas são ditas unas desse modo, e, às vezes, em seu gênero superior, que é dito o mesmo se aqueles que são superiores a estas são as últimas espécies do gênero; por exemplo, o triângulo isósceles e o equilátero são a mesma figura porque ambos são triângulos; mas não são os mesmos triângulos.

428. Além disso, duas coisas quaisquer são ditas unas quando a definição que expressa a essência de uma é indistinguível daquela que significa a essência da outra. Pois, em si mesma, toda definição é divisível. E o que aumentou e o que diminuiu são unos desse modo, porque sua definição é una. Um exemplo disso é encontrado nas figuras planas, que são unas em espécie.

429. E essas coisas são totalmente uma e no mais alto grau, cujo conceito, que apreende sua essência, é indivisível e não pode ser separado nem no tempo, nem no lugar, nem em sua estrutura inteligível; e destas, especialmente todas aquelas que são substâncias.

COMENTÁRIO

842. Tendo apresentado os vários sentidos dos termos que significam causas, o Filósofo agora procede a fazer o mesmo com aqueles termos que significam de algum modo o sujeito desta ciência. Isso se divide em duas partes. Na primeira (423:C 843), ele dá ou distingue os diferentes sentidos dos termos que significam o sujeito desta ciência; e na segunda (445:C 908), ele distingue os diferentes sentidos dos termos que significam as partes desse sujeito ("Diz-se que as coisas são o mesmo").

O sujeito desta ciência pode ser tomado ou como aquilo que deve ser considerado geralmente em toda a ciência, e como tal é a unidade e o ser, ou como aquilo com que esta ciência se ocupa principalmente, e isto é a substância. Portanto, primeiro (423), ele dá os diferentes sentidos do termo um; segundo (435:C 885), do termo ser ("O termo ser"); e terceiro (440:C 898), do termo substância ("O termo substância").

Quanto à primeira parte desta divisão, ele faz duas coisas. Primeiro, distingue entre o que é essencialmente um e o que é acidentalmente um, e também indica os vários sentidos em que se diz que as coisas são acidentalmente uma. Segundo (42VC 848), ele nota os vários sentidos em que se diz que as coisas são essencialmente uma ("Mas no caso").

843. Ele diz (423), então, que o termo um significa tanto o que é essencialmente um quanto o que é acidentalmente um. E nos diz que o que é acidentalmente um deve ser considerado primeiro no caso dos termos singulares. Ora, os termos singulares podem ser acidentalmente um de duas maneiras: de um modo, segundo um acidente se relaciona com um sujeito; e de outro modo, segundo um acidente se relaciona com outro. E em ambos os casos, três coisas devem ser consideradas — uma coisa composta e duas simples. Pois, se o que é acidentalmente um é considerado como tal segundo um acidente se relaciona com um sujeito, então há, por exemplo, estas três coisas: primeiro, Córisco; segundo, músico; e terceiro, Córisco músico. E essas três são acidentalmente uma; pois Córisco e o que é músico são o mesmo em sujeito. Similarmente, quando um acidente se relaciona com um acidente, três termos devem ser considerados: primeiro, músico; segundo, justo; e terceiro, Córisco justo músico. E todos estes são ditos acidentalmente um, mas por razões diferentes.

844. Pois justo e músico, que são dois termos simples no segundo modo, são ditos acidentalmente um porque ambos são acidentes de um mesmo sujeito. Mas músico e Córisco, que são dois termos simples no primeiro modo, são ditos acidentalmente um porque "um", a saber, músico, "é um acidente do outro", a saber, de Córisco. E similarmente quanto à relação de Córisco músico com Córisco (que é a relação de um termo composto com um dos dois termos simples), estes são ditos acidentalmente um no primeiro modo, porque nesta expressão, i.e., no termo complexo, Córisco músico, uma das partes, a saber, músico, é um acidente da outra, que é designada como uma substância, a saber, Córisco. E pela mesma razão, pode-se dizer que Córisco músico é um com Córisco justo, que são dois compostos no segundo modo, porque duas das partes de cada composto são acidentes de um sujeito, Córisco. Pois, se músico e Córisco músico, e justo e Córisco justo, são o mesmo, então tudo o que é um acidente de músico é também um acidente de Córisco músico; e tudo o que é um acidente de Córisco é também um acidente de Córisco justo. Logo, se músico é um acidente de Córisco, segue-se que Córisco músico é um acidente de Córisco justo. Portanto, não faz diferença se dizemos que Córisco músico é um acidente de Córisco justo, ou que músico é um acidente de Córisco.

845. Mas porque predicados acidentais desse tipo são aplicados primeiro às coisas singulares e depois aos universais (embora o inverso seja verdadeiro para predicados essenciais), ele, portanto, esclarece que o que mostrou no caso dos termos singulares também se aplica no caso dos termos universais. Ele diz que, se um acidente é usado junto com o nome de um gênero ou de qualquer termo universal, a unidade acidental é tomada da mesma maneira que nos casos acima, quando um acidente é unido a um termo singular; por exemplo, quando se diz que homem e homem músico são acidentalmente um, embora difiram em algum aspecto.

846. Pois as substâncias singulares não estão presentes em um sujeito nem são predicadas de um sujeito, de modo que, enquanto são sujeito de outras coisas, elas mesmas não têm um sujeito. Ora, as substâncias universais são predicadas de um sujeito, mas não estão presentes em um sujeito, de modo que, enquanto não são sujeitos de acidentes, elas têm algo como seu sujeito. Logo, quando um acidente é unido a uma substância singular, a expressão que declara isso só pode significar que um acidente pertence a uma substância singular, como músico pertence a Córisco quando Córisco é dito músico.

847. Mas quando dizemos homem músico, a expressão pode significar uma de duas coisas: ou que músico é um acidente do homem, pelo qual a substância é designada, e disso deriva sua capacidade de ser o sujeito de um acidente; ou significa que ambos, homem e músico, pertencem a alguma coisa singular, por exemplo, Córisco, da maneira como músico foi predicado de justo, porque estes dois pertencem à mesma coisa singular e da mesma maneira, i.e., acidentalmente. Mas talvez um termo não pertença ao outro da mesma maneira, mas da maneira como a substância universal pertence ao singular como um gênero, como o termo animal, ou, se não é um gênero, ao menos pertence à substância do sujeito, i.e., como um predicado essencial, como o termo homem. Mas o outro termo, a saber, músico, não tem o caráter de gênero ou predicado essencial, mas o de um hábito ou modificação do sujeito, ou qualquer tipo de acidente que seja. Ele dá estes dois, hábito e modificação, porque há alguns acidentes que permanecem em seu sujeito, como os hábitos, que são movidos com dificuldade, e outros que não são permanentes, mas transitórios, como as modificações. É claro, então, que estas são as maneiras pelas quais se diz que as coisas são acidentalmente uma.

Tipos de unidade

848. Mas no caso (424).

Então ele dá as maneiras pelas quais as coisas são essencialmente uma, e quanto a isso faz duas coisas. Primeiro, indica os diferentes sentidos em que o termo um é usado; e segundo (880), os diferentes sentidos em que o termo muitos é usado ("Além disso, é evidente").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, dá os diferentes sentidos em que as coisas são uma do ponto de vista da natureza, i.e., segundo as condições encontradas na realidade; e segundo (876), do ponto de vista da lógica, i.e., segundo as considerações da lógica ("Além disso, algumas coisas").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, distingue os diferentes sentidos em que se diz que as coisas são uma. Segundo (872), indica uma propriedade que acompanha a unidade ("Mas a essência da unidade").

Em relação ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, estabelece os diferentes sentidos em que as coisas são ditas ser um. Segundo (866), reduz todos eles a um único sentido ("Pois, em geral").

Na primeira parte, ele apresenta cinco sentidos em que o termo uno é usado.

849. (1) O primeiro é este: algumas das coisas que são ditas ser essencialmente unas são tais "pela natureza de sua continuidade", i.e., por serem contínuas, ou "porque são contínuas", como diz outra tradução. Mas as coisas são ditas contínuas de duas maneiras; pois, como diz outro texto, algumas coisas são contínuas em razão de algo diferente delas mesmas, e outras em si mesmas.

850. Primeiro, ele passa a tratar das coisas que são contínuas (a) em razão de algo diferente delas mesmas. Ele diz que há coisas que são contínuas como resultado de outra coisa; por exemplo, um feixe de gravetos é contínuo por meio de uma corda ou amarra; e, dessa forma também, pedaços de madeira que foram colados são ditos ser um por meio da cola. Agora, também há duas maneiras pelas quais isso ocorre, porque a continuidade das coisas que são unidas (i) às vezes assume a forma de uma linha reta e (ii) às vezes a de uma linha que não é reta. Este é o caso, por exemplo, de uma linha torta com um ângulo, que resulta do contato de duas linhas em uma superfície, de modo que elas não se unem em linha reta. E é dessa forma que as partes de um animal são ditas ser unas e contínuas; por exemplo, a perna, que é torta e contém um ângulo no joelho, é dita ser una e contínua; e o mesmo ocorre com o braço.

851. Mas, como esse tipo de continuidade que ocorre por meio de outra coisa pode existir ou vir a ser tanto por natureza quanto por arte, (b) as coisas que são contínuas por natureza são unas em maior grau do que aquelas que são contínuas por arte; pois a unidade que explica a continuidade das coisas que são contínuas por natureza não é extrínseca à natureza da coisa que é tornada contínua por ela, como acontece no caso das coisas que são unas por arte, nas quais a amarra ou cola ou algo do tipo é totalmente extrínseco à natureza das coisas que são unidas. Portanto, as coisas que são unidas por natureza ocupam o primeiro lugar entre aquelas que são essencialmente contínuas, que são unas no mais alto grau.

852. Para tornar isso claro, ele define o contínuo. Ele diz que é dito contínuo aquilo que tem apenas um movimento essencialmente e não pode ser de outra forma. Pois as diferentes partes de qualquer coisa contínua não podem ser movidas por movimentos diferentes, mas a coisa contínua inteira é movida por um único movimento. Ele diz "essencialmente" porque uma coisa contínua pode ser movida de uma maneira essencialmente e de outra ou outras acidentalmente. Por exemplo, se um homem em um navio se move contra o movimento do navio essencialmente, ele ainda é movido acidentalmente pelo movimento do navio.

853. Ora, para que o movimento seja uno, ele deve ser indivisível; e por isso quero dizer do ponto de vista do tempo, no sentido de que, ao mesmo tempo em que uma parte de uma coisa contínua é movida, outra também é movida. Pois é impossível que uma parte de uma coisa contínua esteja em movimento e outra em repouso, ou que uma parte esteja em repouso e outra em movimento, de modo que o movimento das diferentes partes ocorra em diferentes partes do tempo.

854. Portanto, o Filósofo define aqui o contínuo por meio do movimento, e não por meio da unicidade do limite no qual as partes das coisas contínuas são unidas, como é dito nas Categorias e na Física; porque a partir dessa definição, ele pode considerar diferentes graus de unidade em diferentes coisas contínuas (como será esclarecido mais adiante [856]), mas ele não pode fazer isso a partir da definição dada ali.

855. Além disso, deve-se notar que o que é dito aqui sobre o movimento de uma coisa contínua ser indivisível do ponto de vista do tempo não se opõe ao ponto provado no Livro VI da Física, de que o tempo de um movimento é dividido de acordo com as partes da coisa movida. Pois aqui o Filósofo está falando do movimento em um sentido não qualificado, porque uma parte de uma coisa contínua não começa a ser movida antes de outra parte; mas ali ele está falando de alguma designação que é feita na quantidade contínua sobre a qual o movimento passa. Pois essa designação, que é a primeira parte de uma quantidade contínua, é percorrida em um tempo anterior, embora nesse tempo anterior outras partes da coisa contínua que está em movimento também sejam movidas.

856. Novamente, todas essas (425).

Então ele passa a tratar das coisas que são essencialmente contínuas. Ele diz que aquelas coisas são essencialmente contínuas que são ditas ser uno não por contato. Ele prova isso da seguinte forma: coisas que se tocam, como dois pedaços de madeira, não são ditas ser um pedaço de madeira ou um corpo ou qualquer outro tipo de uno que pertença à classe do contínuo. Portanto, é evidente que a unicidade das coisas que são contínuas difere daquela das coisas que se tocam. Pois aquelas que se tocam não têm qualquer unidade de continuidade por si mesmas, mas por meio de algum vínculo que as une; mas aquelas que são contínuas são ditas ser essencialmente unas, mesmo que sejam tortas. Pois duas linhas tortas são contínuas em relação a um limite comum, que é o ponto em que o ângulo é formado.

857. No entanto, aquelas coisas são unas em maior grau que são essencialmente contínuas e sem uma torção. A razão é que uma linha reta pode ter apenas um movimento em todas as suas partes, enquanto uma linha torta pode ter um ou dois movimentos. Pois a totalidade de uma linha torta pode ser entendida como sendo movida em uma parte; e também pode ser entendido que, quando uma parte está em repouso, a outra parte, que faz um ângulo com a parte em repouso, pode se aproximar pelo seu movimento da parte imóvel; por exemplo, quando a perna inferior ou canela é dobrada na direção da perna superior, que aqui é chamada de coxa. Portanto, cada uma destas—a canela e a coxa—é una em maior grau "do que o scelos", como diz o texto grego, i.e., o todo composto pela canela e pela coxa.

858. Além disso, deve-se notar que o texto que lê "curvo" em vez de "torto" é falso. Pois, como as partes de uma linha curva não contêm um ângulo, é evidente que elas devem estar em movimento juntas ou em repouso juntas, assim como as partes de uma linha reta estão; mas isso não acontece no caso de uma linha torta, como foi dito (857).

859. Novamente, uma coisa (426).

(2) Aqui ele dá a segunda maneira pela qual as coisas são unas. Ele diz que uma coisa é dita ser una de uma segunda maneira não meramente em razão da quantidade contínua, mas devido ao fato de que todo o sujeito é uniforme em espécie. Pois algumas coisas podem ser contínuas mesmo que difiram em espécie; por exemplo, quando o ouro é contínuo com a prata ou algo desse tipo. E então duas dessas coisas serão unas se apenas a quantidade for considerada, mas não se a natureza do sujeito for considerada. Mas se todo o sujeito contínuo é uniforme em espécie, ele será uno tanto do ponto de vista da quantidade quanto do ponto de vista da natureza.

860. Diz-se que um sujeito é uniforme quanto à espécie quando a mesma forma sensível não está dividida de modo que existam formas sensíveis diferentes em partes diferentes do sujeito, como às vezes acontece, por exemplo, que uma parte de um corpo sensível seja branca e outra preta. E este sujeito, que não difere em espécie, pode ser tomado de duas maneiras: de um modo como o primeiro sujeito, e de outro como o último ou sujeito final que se alcança ao final de uma divisão. É evidente, por exemplo, que uma quantidade inteira de vinho é dita una porque suas partes são partes de um sujeito comum que é indiferenciado especificamente. O mesmo vale para a água. Pois todos os líquidos ou coisas úmidas são ditos unos na medida em que têm um único sujeito último. Pois o óleo e o vinho e coisas semelhantes se dissolvem, em última análise, em água ou ar, que é a raiz da umidade em todas as coisas.

861. E aquelas coisas (427).

(3) Em seguida, ele indica a terceira maneira pela qual as coisas são ditas unas. Ele diz que são ditas unas aquelas coisas cujo gênero é um, mesmo que esteja dividido por diferenças opostas. E esta maneira se assemelha à anterior; pois algumas coisas eram ditas unas na maneira anterior porque seu sujeito-gênero é um, e agora algumas coisas são ditas unas porque seu gênero, que é o sujeito das diferenças, é um; por exemplo, um homem, um cavalo e um cão são ditos unos porque têm em comum a animalidade como um gênero, que é o sujeito das diferenças. No entanto, esta maneira difere da anterior, porque na maneira anterior o sujeito era uma coisa que não era diferenciada por formas; mas aqui o sujeito-gênero é uma coisa que é diferenciada por várias diferenças, como que por várias formas.

862. Assim, é evidente que algumas coisas são ditas unas em gênero de um modo mais próximo, e de uma maneira similar àquela pela qual algumas coisas são ditas unas em matéria. Pois aquelas coisas que são ditas unas em matéria também são diferenciadas por formas. Pois, embora um gênero não seja matéria, porque então não seria predicado de uma espécie, visto que a matéria é parte de uma coisa, ainda assim a noção de um gênero é tomada daquilo que é material em uma coisa, assim como a noção de uma diferença é tomada daquilo que é formal. Pois a alma racional não é a diferença do homem (já que não é predicada do homem), mas algo que tem uma alma racional (pois é isso que o termo racional significa). Similarmente, a natureza sensitiva não é o gênero do homem, mas uma parte. Mas algo que tem uma natureza sensitiva, que o termo animal significa, é o gênero do homem. De modo semelhante, então, a maneira pela qual as coisas são unas em matéria está intimamente relacionada àquela pela qual são unas em gênero.

863. Mas deve-se ter em mente que ser uno em caráter genérico tem dois significados. Pois às vezes algumas coisas são ditas unas em gênero, como foi dito, porque pertencem a um gênero, qualquer que seja ele. Mas às vezes algumas coisas são ditas unas em gênero apenas em referência a um gênero superior, o qual, juntamente com a designação "uno" ou "o mesmo", é predicado das últimas espécies de um gênero inferior quando há outras espécies superiores em uma das quais as espécies inferiores concordam. Por exemplo, figura é um gênero supremo que tem muitas espécies sob si, a saber, círculo, triângulo, quadrado e similares. E triângulo também tem espécies diferentes, a saber, o equilátero, que é chamado de isopleural, e o triângulo com dois lados iguais, que é chamado de equípede ou isósceles. Daí esses dois triângulos são ditos uma figura, que é seu gênero remoto, mas não um triângulo, que é seu gênero próximo. A razão para isso é que esses dois triângulos não diferem por diferenças que dividem a figura, mas por diferenças que dividem o triângulo. E o termo mesmo significa aquilo do qual algo não difere por uma diferença.

864. (4) Ele agora descreve a quarta maneira pela qual as coisas são ditas unas. Ele diz que coisas tais que a definição de uma (que é o conceito que significa sua quididade) não se distingue da definição da outra (que também significa sua quididade) são também ditas unas. Pois, enquanto toda definição deve ser divisível ou distinguível em si mesma, ou essencialmente, já que é composta de gênero e diferença, é possível que a definição de uma coisa seja indistinguível da de outra quando as duas têm uma definição. E isso se aplica (a) quer essas definições signifiquem a totalidade [da estrutura inteligível] da coisa definida, como túnica e vestimenta (e então coisas cuja definição é uma são unas em sentido absoluto), ou (b) quer essa definição comum não compreenda totalmente a estrutura inteligível das duas coisas que a têm em comum, como um boi e um cavalo têm em comum a definição una de animal. Daí eles nunca são unos em sentido absoluto, mas apenas em sentido relativo, na medida em que cada um é um animal. O mesmo se aplica no caso do aumento e da diminuição; pois há uma definição comum do gênero, porque cada um é um movimento relacionado à quantidade. E a mesma coisa é verdadeira para figuras planas, pois há uma definição da espécie, figura plana.

865. E aquelas coisas (429).

(5) Ele dá a quinta maneira pela qual as coisas são unas. Ele diz que aquelas coisas são "totalmente" unas, i.e., perfeitamente, e no mais alto grau, cujo conceito, que apreende sua quididade, é totalmente indivisível, como as coisas simples, que não são compostas de princípios material e formal. Daí o conceito que abrange sua quididade não as compreende de modo a formar uma definição a partir de princípios diferentes, mas (a) antes as apreende negativamente, como acontece no caso de um ponto, que não tem partes; ou (b) até as compreende relacionando-as a coisas compostas, como acontece, por exemplo, quando alguém define a unidade como o princípio do número. E porque tais coisas têm em si mesmas um conceito indivisível, e as coisas que são divididas de qualquer maneira podem ser entendidas separadamente, segue-se, portanto, que tais coisas são indivisíveis tanto no tempo quanto no lugar e em sua estrutura inteligível. Daí essas coisas são unas no mais alto grau, e especialmente aquelas que são indivisíveis no gênero da substância. Pois, embora o que é indivisível no gênero do acidente não seja composto em si mesmo, no entanto, forma um composto com outra coisa, a saber, o sujeito no qual inere. Mas uma substância indivisível não é composta em si mesma nem forma um composto com outra coisa. Ou o termo substância pode ser tomado no caso ablativo, e então o sentido é que, embora algumas coisas sejam ditas unas porque são indivisíveis no tempo e no lugar e na definição, ainda assim aquelas coisas nesta classe que são indivisíveis em substância são ditas unas no mais alto grau. Este sentido se reduz ao anterior.


Revision #2
Created 13 September 2026 21:43:48 by Admin
Updated 13 September 2026 22:04:09 by Admin