LIÇÃO 6 - Todas as Substâncias São Consideradas por uma Ciência ou por Muitas? A Ciência da Substância Considera os Acidentes Essenciais da Substância?

TEXTO DE ARISTÓTELES – Capítulo 2: 997a 15-997a 34

  1. E há o problema de saber se existe uma única ciência que trata de todas as substâncias, ou muitas ciências.

  2. Se não há uma única ciência, então com quais substâncias deve essa ciência tratar?

  3. Mas é irrazoável que haja uma única ciência de todas as substâncias; pois então uma única ciência demonstraria todos os acidentes essenciais, isto é, se é verdade que toda ciência demonstrativa especula sobre os acidentes essenciais de algum sujeito, procedendo a partir de opiniões comuns. Logo, é ofício da mesma ciência estudar os acidentes essenciais do mesmo gênero-sujeito, procedendo a partir das mesmas opiniões. Pois pertence a uma ciência considerar que algo é assim, e pertence a uma ciência considerar os princípios dos quais as demonstrações procedem, seja à mesma ciência ou a uma diferente. Portanto, pertence a uma ciência considerar os acidentes, quer sejam estudados por essas ciências, quer por uma derivada delas.

  4. Além disso, há o problema de saber se esta ciência se ocupa apenas das substâncias ou também dos acidentes. Quero dizer, por exemplo, que se um sólido é um tipo de substância, e também as linhas e as superfícies, surge a questão de saber se é função da mesma ciência conhecer estas coisas e também os acidentes de cada classe de coisas sobre as quais as ciências matemáticas fazem demonstrações, ou se é tarefa de uma ciência diferente.

  5. Pois se é tarefa da mesma ciência, uma ciência particular empreenderá essas demonstrações e esta será a que trata da substância. No entanto, não parece existir qualquer demonstração da quididade.

  6. Mas se é tarefa de uma ciência diferente, qual ciência será aquela que estuda os acidentes das substâncias? Pois resolver isto é muito difícil.

COMENTÁRIO

Qq. 3 & 6: A ciência da substância considera todas as substâncias, bem como os acidentes?

  1. Após ter debatido as questões, a terceira questão, que pertence àquelas que dizem respeito ao âmbito de investigação desta ciência, ele agora trata do estudo das substâncias e dos acidentes. Isso se divide em duas partes, na medida em que discute duas questões sobre este ponto. A segunda (403) começa onde ele diz: "Além disso, há".

Em relação à primeira, ele faz três coisas. Primeiro, levanta a questão se há uma ciência que considera todas as substâncias, ou se há muitas ciências que consideram diferentes substâncias.

  1. Se não há (203).

Segundo, ele argumenta o primeiro lado da questão com vistas a mostrar que há uma ciência de todas as substâncias. Pois se não houvesse uma ciência de todas as substâncias, então aparentemente seria impossível designar a substância que esta ciência considera, porque a substância enquanto substância é o tipo primário de ser. Logo, não parece que uma substância, em vez de outra, pertença à consideração da ciência básica.

  1. mas é irrazoável (204).

Terceiro, ele argumenta o outro lado da questão, dizendo que é irrazoável sustentar que há uma ciência de todas as substâncias. Pois disso resultaria que haveria uma única ciência demonstrativa de todos os acidentes essenciais. E isto é verdade porque toda ciência que demonstra certos acidentes especula sobre os acidentes essenciais de algum sujeito particular, e o faz a partir de certas concepções comuns. Portanto, uma vez que uma ciência demonstrativa considera apenas os acidentes de algum sujeito particular, segue-se que o estudo de algum gênero-sujeito pertence à mesma ciência que se ocupa do estudo dos acidentes essenciais desse gênero, e vice-versa, desde que as demonstrações procedam dos mesmos princípios.

  1. No entanto, às vezes ocorre que a função de uma ciência é demonstrar, a partir de certos princípios, que algo é assim, e, outras vezes, a função de uma ciência é demonstrar os princípios a partir dos quais se demonstrou que algo é assim, ora para a mesma ciência, ora para uma diferente.

Um exemplo de ser função da mesma ciência é visto no caso da geometria, que demonstra que um triângulo tem três ângulos iguais a dois ângulos retos em virtude do princípio de que o ângulo externo de um triângulo é igual aos dois ângulos internos opostos; pois demonstrar isso pertence apenas à geometria. E um exemplo de ser função de uma ciência diferente é visto no caso da música, que prova que um tom não é dividido em dois semitons iguais pelo fato de que uma razão de 9 para 8, que é superparticular, não pode ser dividida em duas partes iguais. Mas provar isso não pertence ao músico, e sim ao aritmético. É evidente, então, que às vezes as ciências diferem porque seus princípios diferem, desde que uma ciência demonstre os princípios de outra ciência por meio de certos princípios superiores.

  1. Mas, se se supõe que os princípios são idênticos, as ciências não poderiam diferir, desde que os acidentes sejam os mesmos e o gênero-sujeito seja o mesmo, como se uma ciência considerasse o sujeito e outra, seus acidentes. Daí segue-se que a ciência que considera uma substância considerará também seus acidentes, de modo que, se há muitas ciências que consideram substâncias, haverá muitas ciências que consideram acidentes. Mas, se há apenas uma ciência que considera substâncias, haverá apenas uma ciência que considera acidentes. Ora, isso é impossível, porque então se seguiria que haveria apenas uma ciência, já que não há ciência que não demonstre os acidentes de algum sujeito. Portanto, não é função de uma única ciência considerar todas as substâncias.

  2. Isso é tratado no Livro IV (546) desta obra, onde se mostra que o exame da substância enquanto substância pertence à primeira ciência, cuja província é considerar o ente enquanto ente; e assim ela considera todas as substâncias segundo o aspecto comum de substância. Portanto, pertence a esta ciência considerar os acidentes comuns da substância. Mas pertence às ciências particulares, que lidam com substâncias particulares, considerar os acidentes particulares das substâncias, assim como pertence à ciência da natureza considerar os acidentes da substância móvel. Contudo, entre as substâncias, há também uma hierarquia, pois as primeiras substâncias são imateriais. Daí, o estudo delas pertence propriamente à primeira-filosofia, assim como a filosofia da natureza seria a primeira filosofia se não houvesse outras substâncias anteriores às substâncias corpóreas móveis, como é afirmado abaixo no Livro VI (1170).

  3. Além disso, há o problema (205).

Aqui ele levanta outra questão sobre o estudo da substância e dos acidentes. Sobre isso, ele faz três coisas. Primeiro, ele levanta a questão se a investigação desta ciência diz respeito apenas à substância ou também aos atributos que são acidentes das substâncias. Por exemplo, se dizemos que linhas, superfícies e sólidos são substâncias de algum tipo, como alguns sustentaram, surge a questão se pertence à mesma ciência considerar tais coisas e também seus acidentes próprios, que são demonstrados nas ciências matemáticas, ou se pertence a outra ciência.

  1. Pois, se é preocupação (206).

Em segundo lugar, ele argumenta um lado da questão. Pois, se pertence à mesma ciência considerar acidentes e substâncias, então, já que uma ciência que considera acidentes demonstra acidentes, segue-se que uma ciência que considera substância demonstra substâncias. Mas isso é impossível; pois a definição de uma substância, que expressa a quididade, é indemonstrável. Daí, pertenceria à mesma ciência considerar substâncias e acidentes.

  1. Mas, se é preocupação (207).

Em terceiro lugar, ele argumenta o outro lado da questão: se ciências diferentes consideram substância e acidente, não será possível afirmar qual ciência é aquela que especula sobre os acidentes da substância; porque a ciência que faria isso consideraria ambos, embora isso pareça pertencer a todas as ciências; pois toda ciência considera os acidentes essenciais de seu sujeito, como foi explicado.

  1. O Filósofo responde a esta questão no Livro IV (570) desta obra, dizendo que é também ofício daquela ciência que se ocupa do estudo da substância e do ente considerar os acidentes próprios da substância e do ente. No entanto, não se segue que ela consideraria cada um da mesma maneira, isto é, demonstrando a substância como demonstra os acidentes, mas definindo a substância e demonstrando que os acidentes ou pertencem ou não pertencem a ela, como é explicado mais completamente no final do Livro IX (1895) desta obra.

Revision #1
Created 7 September 2026 16:36:09 by Admin
Updated 7 September 2026 16:36:30 by Admin