LIÇÃO 4 - Opiniões sobre a Causa Material

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 3: 983a 24-984a 16

  1. É evidente, então, que se deve adquirir conhecimento científico daquelas causas que estão no princípio, pois dizemos que temos conhecimento científico de cada coisa quando pensamos compreender sua primeira causa. Ora, as causas são mencionadas de quatro maneiras. Destas, dizemos que uma é a substância ou quididade de uma coisa, pois o primeiro "porquê" de uma coisa é reduzido à sua estrutura inteligível última, e o primeiro "porquê" de uma coisa é uma causa ou princípio; outra é a matéria ou sujeito; uma terceira é a fonte do movimento; e uma quarta é a causa oposta a esta, a saber, aquilo para o qual, ou o bem; pois este é o objetivo de toda geração e movimento. Já houve consideração suficiente destas em nossas obras sobre a natureza.

  2. No entanto, examinemos aqueles que empreenderam uma investigação das coisas existentes e filosofaram sobre a verdade antes de nós. Pois evidentemente eles também falam de certos princípios e causas. Portanto, para nós, que viemos depois, [suas opiniões] servirão como uma introdução ao estudo que agora estamos fazendo; pois ou descobriremos alguma outra classe de causa, ou ficaremos mais convencidos daquelas que acabaram de ser expostas.

  3. A maioria dos que primeiro filosofaram pensou que apenas as coisas que pertencem à classe da matéria são os princípios de todas as coisas. Pois aquilo de que todas as coisas são compostas, de onde primeiro vêm a ser e no que finalmente se dissolvem, enquanto sua substância permanece, embora seja alterada em seus atributos — isto eles chamam de elemento e princípio das coisas existentes.

  4. E por essa razão pensaram que nada é gerado ou corrompido, como se tal realidade sempre permanecesse em existência. E assim como não dizemos que Sócrates vem a ser em sentido absoluto quando se torna bom ou musical, ou é corrompido quando perde esses estados, porque o sujeito Sócrates mesmo permanece, da mesma forma eles dizem que nada mais é gerado ou corrompido. Pois deve haver alguma matéria, seja uma ou mais de uma, da qual outras coisas vêm a ser e que ela mesma permanece em existência. No entanto, nem todos falam da mesma maneira sobre o número e a natureza de tal princípio.

  5. Tales, o iniciador desse tipo de filosofia, diz que esse princípio é a água; e é por isso que ele também afirmou que a terra repousa sobre a água.

  6. Pois, presumivelmente, ele adotou essa posição porque viu que o nutrimento de todas as coisas é úmido, que o próprio calor é gerado a partir disso e que a vida animal vem disso. Mas aquilo de que cada coisa vem a ser é um princípio de todas as coisas. Ele baseia sua opinião nisso, então, e no fato de que as sementes de todas as coisas têm uma natureza úmida, enquanto a água é por natureza o princípio das coisas úmidas.

  7. Além disso, há alguns que pensam que os antigos, que viveram muito antes da geração atual e foram os primeiros a especular sobre os deuses, sustentavam essa visão sobre a natureza das coisas. Pois fizeram de Oceano e Tétis os pais da geração e consideraram o juramento dos deuses como sendo por um corpo de água, ao qual os poetas deram o nome de Estige. Pois o que é mais antigo é mais honroso, e o que é mais honroso é aquilo pelo qual se jura. Se essa visão da natureza é de fato a antiga e primária, talvez seja incerto. Diz-se que Tales se expressou dessa maneira sobre a primeira causa, mas ninguém poderia dizer que Hípon deve ser incluído neste grupo, devido à fraqueza de seu entendimento.

  8. Anaxímenes e Diógenes defendem que o ar é anterior à água e é o mais fundamental dos corpos simples.

  9. Hípaso de Metaponto e Heráclito de Éfeso defendem que o fogo [é o princípio primordial].

  10. Empédocles defende que existem quatro [corpos simples], pois ele adiciona um quarto — a terra — àqueles já mencionados. Pois ele diz que estes sempre permanecem e apenas se tornam muitos ou poucos em número ao serem combinados em uma unidade e separados de uma unidade.

  11. Anaxágoras de Clazômenas, que foi anterior a Empédocles em anos, mas posterior em suas especulações, diz que os princípios das coisas são infinitos em número. Pois ele diz que quase todos os corpos que são compostos de partes semelhantes a si mesmos, como fogo ou água, são gerados ou corrompidos dessa maneira, meramente por combinação e separação; mas que, de outra forma, eles não são nem gerados nem corrompidos, mas sempre permanecem em existência. A partir dessas visões, então, pode-se pensar que a única causa é aquela que se diz pertencer à classe da matéria.

COMENTÁRIO

  1. Tendo apresentado um prefácio no qual indica o objetivo desta ciência, sua dignidade e meta, Aristóteles começa a tratar desta ciência; e isto se divide em duas partes. Na primeira (70), ele explica o que os primeiros filósofos tinham a dizer sobre as causas das coisas. Na segunda (274), ele começa a buscar a verdade desta ciência. Ele faz isso no Livro II ("O conhecimento teórico, isto é, especulativo").

A primeira parte se divide em duas seções. Primeiro, ele apresenta as opiniões dos filósofos sobre as causas das coisas. Segundo (181), ele as critica na medida em que suas afirmações são insatisfatórias ("Portanto, todos aqueles").

Em relação ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, retoma a enumeração das causas que foi tratada com mais detalhes no Livro II da Física. Segundo (72), ele apresenta as opiniões dos filósofos ("No entanto, examinemos").

As quatro causas e três características da causa final

  1. Assim, ele diz, primeiro, que, uma vez que é evidente que a sabedoria especula sobre as causas, devemos começar adquirindo conhecimento a partir das causas das coisas. Isso também parece estar de acordo com a estrutura inteligível da ciência, porque dizemos que conhecemos cientificamente cada coisa quando pensamos que não ignoramos sua causa. Ora, as causas são mencionadas de quatro maneiras. (1) Uma delas é a causa formal, que é a própria substância de uma coisa pela qual sabemos o que cada coisa é. Pois é bem conhecido, como é afirmado no Livro II da Física, que não dizemos que algo tem uma natureza antes de receber uma forma. Ora, é claro que a forma é uma causa, porque a pergunta "Por que algo é assim?" nós a reduzimos à sua causa formal como sua explicação última, começando pelas formas próximas e procedendo até a forma última. Mas evidentemente o "por quê?" pergunta sobre uma causa e princípio. Portanto, é evidente que a forma é uma causa. (2) Uma segunda causa é a causa material. (3) Uma terceira é a causa eficiente, que é a fonte do movimento. (4) Uma quarta é a causa final, que é oposta à causa eficiente assim como um objetivo é oposto a um ponto de partida; pois o movimento começa com a causa eficiente e termina com a causa final. Esta [última] causa é também aquilo para o que uma coisa vem a ser, e o bem de cada natureza.

  2. Ele torna a causa final conhecida por três considerações: (1) É o objetivo do movimento e, portanto, é oposta à fonte do movimento, que é a causa eficiente. (2) É primeira na intenção e, por esta razão, diz-se que é aquilo para o que [algo é feito]. (3) É desejável em si mesma e, por esta razão, é chamada de bem; pois o bem é o que todos desejam.

Assim, ao explicar como a causa final é oposta à causa eficiente, ele diz que ela é o objetivo [ou fim] de todo processo de geração e movimento, cujo ponto de partida é a causa eficiente. Por esses dois tipos de mudança, ele parece sugerir que existe um duplo objetivo: (1) Pois o objetivo de um processo de geração é a própria forma, que é parte de uma coisa. (2) Mas o objetivo do movimento é algo buscado fora da coisa movida. Ele diz que tratou dessas causas com suficiente extensão na Física, para que não lhe fosse solicitado um tratamento mais extenso delas.

  1. No entanto, examinemos (35).

Aqui ele afirma o que os filósofos tinham a dizer sobre as causas; e, em relação a isso, ele faz duas coisas. Primeiro, ele apresenta as razões pelas quais isso deve ser feito; e, segundo (36:C 73), começa a executar seu plano ("A maioria daqueles").

Assim, ele diz que, embora haja um tratado sobre as causas na Física, ainda é necessário considerar as opiniões dos filósofos que primeiro empreenderam uma investigação sobre as naturezas das coisas existentes e filosofaram sobre a verdade antes dele; porque eles também estabeleceram causas e princípios. Portanto, para nós, que viemos depois, uma consideração de suas opiniões será "um primeiro [passo]", ou preâmbulo, "para a investigação", i.e., para a arte que estamos agora buscando. Assim, o texto de Boécio também diz: "Portanto, ao entrarmos na tarefa desta ciência, suas opiniões constituirão um preâmbulo para o caminho que agora deve ser percorrido." Outro texto diz: "Portanto, para nós, que estamos começando esta investigação, será um certo trabalho vital na investigação que agora se nos apresenta," e deve ser lido desta forma: "Portanto, ao entrarmos em nosso curso presente," i.e., no presente estudo e arte, será necessário considerar a opinião desses homens "como um trabalho de vida," isto é, como necessário, como os trabalhos que são feitos para a preservação da vida, de modo que esta leitura é interpretada como uma forma metafórica de falar, significando por "trabalho de vida" qualquer coisa necessária. Ora, isso é útil, porque a partir das opiniões desses homens ou descobriremos outra classe de causas além daquelas já enumeradas, ou estaremos mais convencidos das coisas que acabam de ser afirmadas sobre as causas, ou seja, que existem quatro classes delas.

  1. A maior parte deles (36).

Aqui ele começa a tratar das opiniões dos filósofos antigos; e, a respeito disso, faz duas coisas. Primeiro (36), expõe as opiniões deles; e, segundo (86:C 181), critica-as ("Portanto, todos esses").

Quanto ao primeiro, faz duas coisas. Primeiro, expõe as opiniões que cada um dos filósofos tinha sobre as causas. Segundo (79:C 170), resume a discussão ("Examinamos").

A primeira parte se divide em duas seções. Na primeira (36:C 74), ele apresenta as opiniões daqueles que omitiram a causa formal. Na segunda (69:C 151), apresenta a opinião de Platão, que foi o primeiro a postular uma causa formal ("Após as filosofias").

Quanto ao primeiro, faz duas coisas. Primeiro, expõe a opinião daqueles que afirmavam que certas coisas evidentes são princípios. Segundo (55:C 12), expõe as opiniões daqueles que conceberam princípios extrínsecos ("Leucipo").

Quanto ao primeiro, faz duas coisas. Primeiro, aborda as opiniões que os filósofos antigos tinham sobre a causa material; e, segundo (45:C 93), sobre a causa eficiente ("Mas, como os homens").

Quanto ao primeiro, faz duas coisas. Primeiro, expõe de modo geral as visões daqueles que postularam uma causa material. Segundo (38:C 77), examina suas visões em detalhe ("Tales, o iniciador").

Quanto ao primeiro, faz duas coisas. Primeiro, expõe suas opiniões sobre a causa material. Segundo (37:C 75), expõe suas opiniões sobre a geração das coisas, que decorrem da primeira ("E por essa razão").

OPINIÕES DAQUELES QUE SÓ DERAM A CAUSA MATERIAL

Quatro características da matéria

  1. Assim, ele diz, primeiro (36), que a maior parte daqueles que primeiro filosofaram sobre o mundo natural considerou que os princípios de todas as coisas são meramente aqueles que se referem à classe da causa material. A respeito disso, deve-se dizer que eles assumiram as quatro condições da matéria que parecem pertencer à noção de princípio. Pois (1) aquilo de que algo é composto parece ser um princípio dessa coisa. Ora, a matéria é tal coisa; pois dizemos que uma coisa que tem matéria é de sua matéria, como uma faca é de ferro. (2) Aquilo a partir do qual algo vem a ser, sendo também um princípio do processo de geração dessa coisa, parece ser uma de suas causas, porque uma coisa vem a ser por via de geração. Ora, uma coisa vem a ser primeiramente a partir da matéria, pois a matéria das coisas precede sua produção. E a coisa não vem da matéria de modo acidental; pois uma coisa é gerada de modo acidental a partir de seu contrário ou privação, como quando dizemos que o branco vem do preto. (3) Terceiro, aquilo no qual todas as coisas são em última análise dissolvidas pela corrupção parece ser um princípio das coisas. Pois assim como os princípios são primeiros no processo de geração, de modo semelhante são últimos no processo de dissolução; e obviamente isso também pertence à matéria. (4) Quarto, dado que um princípio deve permanecer em existência, então aquilo que permanece ao longo do processo de geração e corrupção parece ser um princípio. Ora, a matéria, que eles disseram ser a substância de uma coisa, permanece através de toda transmutação, embora seus atributos, como sua forma e tudo o que lhe advém além de sua substância material, sejam mudados. A partir de todas essas considerações, eles concluíram que a matéria é o elemento e princípio de todos os entes.

Sem causa material, não há geração ou corrupção

  1. E por essa razão (37).

Então ele apresenta, como ponto secundário, o que eles consideravam decorrente do acima, a saber, que no mundo nada é gerado ou corrompido em sentido absoluto. Pois quando ocorre alguma mudança em relação aos atributos de uma coisa, e sua substância permanece inalterada, não dizemos que ela é gerada ou corrompida em sentido absoluto, mas apenas em sentido qualificado; por exemplo, quando Sócrates se torna bom ou musical, não dizemos que ele simplesmente vem a ser, mas que vem a ser isto. E, similarmente, quando ele perde um estado desse tipo, não dizemos que ele é corrompido em sentido absoluto, mas apenas em sentido qualificado. Ora, a matéria, que é a substância das coisas segundo eles, sempre permanece; e toda mudança afeta alguns dos acidentes de uma coisa, como seus atributos. Disso eles concluíram que nada é gerado ou corrompido em sentido absoluto, mas apenas em sentido qualificado.

  1. No entanto, embora todos concordassem nesse ponto, ao postular uma causa material, diferiam em sua posição em dois aspectos: primeiro, quanto ao número de causas materiais, porque alguns sustentavam que há uma, e outros muitas; e segundo, quanto à sua natureza, porque alguns sustentavam que é o fogo, outros a água, e assim por diante. Similarmente, entre aqueles que postularam muitas causas materiais, alguns atribuíam certas coisas como princípios materiais dos entes, e outros, outras.

  2. Tales, o iniciador (38).

Aqui ele começa a expor as opiniões de cada um dos filósofos sobre a causa material. Primeiro, apresenta as opiniões daqueles que postularam uma única causa material; e, em segundo lugar (88), as opiniões daqueles que postularam múltiplas causas ("Empédocles").

Quanto ao primeiro ponto, ele faz três coisas. Primeiro, expõe as opiniões daqueles que afirmaram que a água é o princípio de todas as coisas; segundo (86), expõe a opinião daqueles que fizeram do ar o princípio das coisas ("Anaxímenes"); e terceiro (87), a opinião daqueles que afirmaram que o fogo é o princípio das coisas ("Hípaso").

Quanto ao primeiro ponto, ele faz duas coisas. Primeiro, expõe a opinião de Tales, que disse que a água é o princípio das coisas; e segundo (79), a razão dessa opinião ("Pois provavelmente").

Ele diz então que Tales, o iniciador desse tipo de filosofia, ou seja, a filosofia especulativa, disse que a água é o primeiro princípio de todas as coisas. Diz-se que Tales foi o iniciador da filosofia especulativa porque foi o único entre os sete sábios, que vieram depois dos poetas teólogos, a investigar as causas das coisas, enquanto os outros sábios se ocupavam de questões morais. Os nomes dos sete sábios são os seguintes. O primeiro foi Tales de Mileto, que viveu na época de Rômulo e quando Acaz, rei de Israel, reinava sobre os hebreus. O segundo foi Pítaco de Mitilene, que viveu quando Sedecias reinava sobre os hebreus e quando Tarquínio Prisco reinava sobre os romanos. Os outros cinco sábios foram Sólon de Atenas, Quílon de Lacedemônia, Periandro de Corinto, Cleóbulo da Lídia e Bias de Priene, todos os quais viveram durante o período do cativeiro babilônico. Portanto, como Tales foi o único entre esses homens a investigar as naturezas das coisas e a se destacar por registrar seus argumentos por escrito, ele é descrito aqui como o iniciador desta ciência.

  1. Nem se deve considerar inadequado se ele menciona aqui as opiniões daqueles que trataram apenas da filosofia da natureza; porque, segundo os antigos, que não conheciam outra substância além da corpórea e móvel, era necessário que a filosofia primeira fosse a filosofia da natureza, como é dito no Livro IV. E a partir dessa posição, Tales adotou em seguida esta: que a terra repousa sobre a água, assim como qualquer coisa que possui um princípio se baseia em seu princípio.

  2. Pois provavelmente ele tomou (39).

Aqui ele apresenta as razões pelas quais Tales poderia ser levado à posição acima. Primeiro, mostra como ele foi levado a essa posição por seu próprio raciocínio; e segundo (82), pela autoridade de seus predecessores ("Além disso, há alguns").

Ele foi levado por duas linhas de raciocínio; uma é tirada da própria causa de uma coisa, e a outra, de uma consideração sobre a geração das coisas ("E pelo fato"). Portanto, essas premissas estão relacionadas. Pois a segunda decorre da primeira, porque aquilo que é princípio de ser das outras coisas é também o primeiro princípio a partir do qual as coisas são geradas. A terceira decorre da segunda, porque, pela corrupção, cada coisa se dissolve naquilo a partir do que foi gerada. A quarta decorre da segunda e da terceira; pois aquilo que precede a geração das coisas e permanece após elas terem sido corrompidas deve sempre permanecer no ser.

  1. Na primeira linha de raciocínio, ele usa três indícios para mostrar que a água é o princípio de ser das coisas. O primeiro deles é que o nutriente dos seres vivos deve ser úmido. Mas os seres vivos obtêm nutrição e ser do mesmo princípio; e assim a umidade parece ser o princípio de ser das coisas. O segundo indício é que o ser de qualquer coisa física, e especialmente de um ser vivo, é conservado pelo seu calor próprio e natural. Mas o calor parece ser gerado a partir da umidade, pois a própria umidade é, de certo modo, a matéria do calor. Portanto, disso parece que a umidade é um princípio de ser das coisas. O terceiro indício é que a vida animal depende da umidade. Por isso, um animal morre como resultado de sua umidade natural se secar e é mantido em existência como resultado de sua umidade ser preservada. Mas, nos seres vivos, viver é ser. Portanto, também disso é evidente que a umidade é um princípio de ser das coisas. Esses três indícios também têm uma conexão natural entre si. Pois um animal é nutrido pela umidade, porque seu calor natural é sustentado pela umidade. E desses dois segue-se que a vida animal é sempre devida à umidade. Mas aquilo a partir do qual algo vem a ser, ou seja, a partir do que algo obtém seu ser, é um princípio de tudo que deriva o ser dele. E por essa razão ele adotou esta opinião: que a umidade é o princípio de todas as coisas.

  2. De modo semelhante, ele também extrai um indício disso a partir da geração das coisas, porque os processos de geração dos seres vivos, que são os mais nobres dos seres [naturais], vêm da semente. Mas a semente ou sêmen de todos os seres vivos tem uma natureza úmida. Portanto, disso também parece que a umidade é um princípio de geração das coisas. Além disso, se adicionarmos a todos os pontos acima o fato de que a água é o princípio da umidade, segue-se que a água é o primeiro princípio das coisas.

  3. Além disso, há (40).

Aqui ele mostra como Tales foi levado à posição acima pela autoridade dos antigos. Ele diz que antes de Tales e muitos anos antes dos homens da época de Aristóteles, havia alguns homens, os primeiros a especular sobre os deuses, que parecem ter mantido essa opinião sobre a natureza, a saber, que a água é o princípio de todas as coisas.

  1. Para esclarecer isso, devemos ter em mente que, entre os gregos, os primeiros que se destacaram por seu aprendizado foram certos poetas teólogos, assim chamados por causa dos cânticos que escreveram sobre os deuses. Esses poetas, que eram três em número — Orfeu, Museu e Lino, dos quais Orfeu era o mais famoso —, viveram durante o tempo em que os juízes governavam o povo judeu. Portanto, é claro que viveram muito antes de Tales e muito mais antes de Aristóteles, que viveu durante a época de Alexandre. Esses poetas trataram, até certo ponto, da natureza das coisas por meio de certas representações figurativas em mitos. Pois disseram que Oceano [isto é, o oceano], onde se encontra a maior agregação de águas, e Tétis, que é o nome que deram à deusa das águas, são os pais da geração, implicando com isso, sob a forma de um mito, que a água é o princípio da geração.

  2. Eles encobriram essa visão com outra história fabulosa, dizendo que o juramento ou voto dos deuses era por um certo corpo de água, que os poetas chamam de Estige e descrevem como um pântano subterrâneo. E quando disseram que os deuses juravam pela água, implicaram que a água era mais nobre que os próprios deuses, porque um juramento ou voto é feito sobre o que é mais honroso. Ora, o que é anterior é mais honroso; pois o perfeito é anterior absoluto ao imperfeito, tanto na natureza quanto no tempo, embora em um ser particular a imperfeição seja temporalmente anterior à perfeição. Portanto, disso é evidente que eles pensavam que a água era anterior aos próprios deuses, os quais acreditavam ser corpos celestes. E como esses primeiros pensadores disseram que a água é o princípio das coisas, se houve alguma opinião sobre corpos naturais anterior à deles, não sabemos qual foi. Assim, o que se diz que Tales pensou sobre a primeira causa das coisas está agora claro.

  3. Certo filósofo chamado Hípon não foi considerado como tendo acrescentado algo àqueles mencionados devido à imperfeição de seu conhecimento ou entendimento. Por isso, em A Alma, Hípon é colocado entre os pensadores mais rudes; pois naquela obra afirma-se que Hípon, baseando seu argumento nas sementes das coisas, como foi dito aqui sobre Tales, sustentava que a água era a alma e o princípio das coisas. Portanto, fica claro que ele nada acrescenta à visão de Tales. Ou a afirmação pode significar que, como ele falou imperfeitamente, não se tornou digno de que sua doutrina fosse incluída aqui com as outras.

  4. Anaxímenes e Diógenes (41).

Aqui ele apresenta as opiniões daqueles que sustentavam que o ar é o princípio das coisas, a saber, Diógenes e Anaxímenes, que consideravam o ar naturalmente anterior à água e o princípio de todos os corpos simples, i.e., dos quatro elementos, e, portanto, de todas as outras coisas. Anaxímenes é o terceiro filósofo depois de Tales e discípulo de Anaximandro, que foi discípulo de Tales; e diz-se que Diógenes foi discípulo de Anaxímenes. No entanto, há esta diferença entre a opinião de Diógenes e a de Anaxímenes: Anaxímenes sustentava que o ar é o princípio das coisas em sentido absoluto, enquanto Diógenes dizia que o ar só poderia ser o princípio das coisas se possuísse uma natureza divina. Daí vem a opinião mencionada em A Alma, Livro I. Ora, a razão pela qual ele sustentava que o ar é o princípio das coisas poderia ser tirada do processo de respiração, pelo qual a vida dos animais é conservada, e porque os processos pelos quais as coisas são geradas e corrompidas parecem ser modificados como resultado de mudanças no ar.

  1. Hípaso de Metaponto (42).

Aqui ele afirma que os dois filósofos, Hípaso e Heráclito, sustentavam que o fogo é o princípio material das coisas. E eles poderiam ter sido influenciados por sua sutileza, como se diz abaixo.

  1. Empédocles (43).

Aqui ele apresenta as opiniões daqueles que postularam muitos princípios materiais. Primeiro, ele apresenta a opinião de Empédocles, que sustentava que há um número limitado de tais princípios; e, em segundo lugar (90), a de Anaxágoras, que sustentava que há um número infinito ("Anaxágoras").

Primeiro (43), ele apresenta a opinião de Empédocles sobre os três elementos mencionados acima, água, ar e fogo, que ele diz serem os princípios das coisas, acrescentando a eles um quarto, a terra.

  1. Em segundo lugar, ele apresenta a opinião de Empédocles sobre a permanência desses elementos; pois, como aqueles que sustentam que há uma única causa material, ele sustenta que esses elementos sempre permanecem e não são gerados nem corrompidos. No entanto, ele disse que outras coisas são geradas a partir desses elementos e neles se dissolvem, conforme um número maior ou menor deles é combinado ou separado, i.e., na medida em que esses quatro são unidos pelo processo de combinação e perdem sua unidade pelo processo de separação.

  2. Anaxágoras (44).

Aqui ele apresenta a opinião de Anaxágoras, que foi o outro discípulo de Anaxímenes e colega de classe de Diógenes. Natural de Clazômenas, ele foi anterior a Empédocles em anos, mas posterior em sua atividade ou obra, seja porque começou a filosofar mais tarde, seja porque sua explicação do número de princípios é menos satisfatória que a de Empédocles. Pois ele disse que há um número infinito de princípios materiais, enquanto é melhor tomar um número limitado e menor, como fez Empédocles, conforme afirmado no Livro I da Física. Pois Anaxágoras não apenas disse que o fogo, a água e os outros elementos são os princípios das coisas, como Empédocles, mas também afirmou que todas as coisas com partes semelhantes, como carne, ossos, medula e assim por diante, cujas menores partes são infinitas em número, são os princípios das coisas. Pois ele afirmava que em cada ser há um número infinito de partes de cada tipo de coisa, porque descobriu que, no caso das coisas inferiores, uma delas pode ser gerada a partir de outra. Ele disse, de fato, que as coisas só poderiam ser geradas sendo separadas de uma mistura, como Aristóteles explicou mais detalhadamente na Física, Livro I.

  1. Em segundo lugar, Anaxágoras também concorda com Empédocles neste ponto, a saber, que as coisas são geradas e corrompidas apenas na medida em que as partes desses princípios infinitos são combinadas ou separadas, e que, se não fosse esse o caso, nada seria gerado ou corrompido. Mas ele disse que o número infinito de princípios desse tipo, dos quais as substâncias das coisas são produzidas, sempre permanece em existência.

  2. A partir das opiniões desses filósofos, então, Aristóteles conclui que a única causa que esses homens reconheceram foi aquela que pertence à classe da causa material.


Revision #1
Created 6 September 2026 21:58:04 by Admin
Updated 6 September 2026 21:58:22 by Admin