LIÇÃO 4 - O Caráter Análogo da Definição. Sua Aplicabilidade aos Acidentes TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulos 4 & 5: 1030a 17-1031a 14 582. Ou outra solução é que a definição, assim como a quididade de uma coisa, é usada em muitos sentidos. Pois, em um sentido, quididade significa a substância e esta coisa particular, e em outro sentido, significa qualquer uma das categorias, como quantidade, qualidade e outras tais. Pois assim como o ser é encontrado em todas as coisas, embora não da mesma maneira, mas em uma coisa primariamente e nas outras secundariamente, também a quididade é encontrada em sentido absoluto na substância, mas em outro sentido nas outras categorias. Pois poderíamos até falar da quididade da qualidade, de modo que a qualidade também é uma daquelas coisas que têm quididade; não em sentido absoluto, contudo, mas assim como alguns dizem, em sentido lógico, que o não-ser é, não em sentido absoluto, mas enquanto é não-ser; e este é também o caso da qualidade. 583. Portanto, é também necessário considerar como devemos predicá-la de cada coisa particular, contudo não mais do que a condição de cada uma permite. Por isso, também, uma vez que o que é dito é evidente, a essência (ou quididade) será encontrada de maneira semelhante primariamente e em sentido absoluto na substância, e então nas outras categorias, não como essência em sentido absoluto, mas como a essência da qualidade e da quantidade. Pois estas coisas devem ser ditas seres ou equivocamente ou por adição ou remoção de algo, assim como se diz que o incognoscível é conhecido. Pois a verdade da questão é que esta palavra não é usada nem equivocamente nem segundo o mesmo significado, mas assim como a palavra médico é usada em referência a uma e mesma coisa, embora não segundo um e mesmo significado ou equivocamente; pois um corpo e uma operação e um instrumento são chamados médicos nem equivocamente nem segundo um significado, mas em referência a uma coisa. Não faz diferença, então, quanto à maneira como alguém deseja expressar isso. 584. Ora, é evidente que a definição e a essência no sentido primário e absoluto pertencem às substâncias. E pertencem não apenas a estas, mas também a outras coisas, embora não no sentido primário. Pois se mantivermos isso, não é necessário que haja uma definição de qualquer palavra que signifique a mesma coisa que qualquer conceito, mas ela deve significar a mesma coisa que um conceito determinado. E este será o caso se for o conceito de alguma coisa una, não porque seja contínua, como a Ilíada, ou una das coisas que são unas por estarem ligadas entre si, mas se for una segundo um dos muitos significados desse termo. Mas a palavra uno é usada no mesmo número de sentidos que ser; e em um sentido ser significa uma coisa particular, e em outro, quantidade, e em outro, qualidade. E por esta razão haverá uma definição e conceito de homem branco, mas em um sentido diferente daquele de brancura e de substância. Capítulo 5 585. Ora, se alguém nega que um conceito que envolve a adição de algo mais seja uma definição, surge o problema de como pode haver uma definição de coisas que não são simples, mas compostas; pois isso deve ocorrer por meio de adição. Refiro-me, por exemplo, a que há nariz e concavidade e chateza, que é uma palavra composta de ambos, porque um é encontrado no outro; e nem a concavidade nem a chateza são um atributo acidental do nariz, mas um atributo essencial. Nem pertencem ao nariz como o branco pertence a Cálias ou ao homem (porque Cálias, que por acaso é homem, é branco), mas como o macho pertence ao animal e o igual à quantidade, e como todos aqueles atributos que se diz pertencerem a algo essencialmente. Ora, esses atributos são aqueles nos quais se encontra ou o conceito ou o nome do sujeito ao qual cada um pertence, e que não podem ser explicados separadamente dele; por exemplo, é impossível explicar o branco separadamente do homem, mas não o fêmea separadamente do animal. Logo, não há essência e definição de nenhuma dessas coisas, ou, se há, é da maneira que descrevemos (582-84). 586. E há também uma segunda dificuldade sobre elas. Pois se nariz chato e nariz côncavo são o mesmo, chato e côncavo serão o mesmo; mas se não são, então, como é impossível usar a palavra chato sem a coisa da qual é um atributo próprio (porque chato é concavidade em um nariz), ou é impossível falar de um nariz chato, ou o mesmo termo é usado duas vezes — um nariz côncavo nariz. Pois um nariz chato será um nariz côncavo nariz. Logo, é absurdo que tais coisas tenham uma essência. E se a têm, haverá uma regressão infinita; porque algum outro nariz será encontrado no nariz do nariz chato. É claro, então, que há definição apenas da substância; pois se as outras categorias também tivessem definição, isso teria que ser resultado da adição de algo, assim como não há definição de igual e ímpar sem número ou de fêmea sem animal. E por "adição de algo" quero dizer aquelas expressões nas quais a mesma coisa acontece ser dita duas vezes. E se isso é verdade, não haverá nenhuma definição daquelas coisas que são compostas, por exemplo, número ímpar. 587. Mas isso nos escapa, porque os conceitos dessas coisas não são expressos exatamente. Mas se essas coisas também têm fórmulas, ou elas as têm de uma maneira diferente — ou, como dissemos (582-84), definição e essência devem ser usadas em muitos sentidos. Logo, em um sentido, não haverá definição de nada, e definição e essência serão encontradas apenas na substância; e em outro sentido, as outras coisas terão definição e essência. É evidente, então, que uma definição é um conceito da essência de uma coisa, e que a essência pertence às substâncias ou sozinha, ou principalmente, primária e absolutamente. COMENTÁRIO 1331. Aqui ele apresenta a segunda solução para a questão levantada; e, a esse respeito, faz três coisas. Primeiro (582:C 1331), dá a solução. Segundo (584:C 1339), prova-a ("Ora, é evidente"). Terceiro (585:C 1342), afasta certas dificuldades que poderiam surgir da discussão anterior ("Agora, se alguém nega"). Ele diz, portanto, primeiro (582), que é necessário afirmar, como foi dito na solução anterior (581:C 1325), que não há definição e quididade dos acidentes, mas apenas das substâncias; ou, segundo outra solução, é necessário afirmar que os termos definição e quididade são usados em muitos sentidos. Pois, em um sentido, quididade significa substância e este ente particular; em outro sentido, significa cada uma das outras categorias, como quantidade, qualidade e similares. Além disso, assim como se diz que o ser pertence a todas as outras categorias, embora não da mesma maneira, mas primariamente à substância e secundariamente às demais, de modo semelhante a quididade pertence à substância de modo absoluto, "mas em outro sentido às outras categorias", isto é, de modo relativo. 1332. Pois o fato de pertencer às outras "em outro sentido", i.e., de modo relativo, é claro pelo fato de que, em cada uma das outras categorias, alguma resposta pode ser dada à pergunta "O que é?". Pois perguntamos de que qualidade é uma coisa, ou qual é sua qualidade, como "O que é a brancura?" E respondemos: "Cor". Logo, é evidente que a qualidade é uma das muitas coisas em que se encontra a quididade. 1333. No entanto, a qualidade não tem quididade de modo absoluto, mas a quididade da qualidade. Pois, quando pergunto o que é o homem, e alguém responde "Animal", o termo animal, por pertencer ao gênero da substância, não apenas designa o que é o homem, mas também designa um "o quê", i.e., uma substância, de modo absoluto. Mas, quando se pergunta o que é a brancura, e alguém responde "Cor", essa palavra, embora signifique o que é a brancura, não significa o que algo é de modo absoluto, mas de que qualidade é. Logo, a qualidade não tem quididade de modo absoluto, mas com alguma qualificação. Pois esse tipo de quididade encontra-se na qualidade, como quando dizemos que a cor é a quididade da brancura; e esse tipo de quididade é substancial, em vez de substância. 1334. Pois, pelo fato de todas as outras categorias obterem a noção de ser a partir da substância, o modo de ser da substância, i.e., ser um "o quê", é portanto participado por todas as outras categorias segundo uma certa semelhança proporcional; por exemplo, dizemos que, assim como o animal é a quididade do homem, de modo semelhante a cor é a quididade da brancura, e o número é a quididade do dobro; e assim dizemos que a qualidade tem quididade, não quididade em sentido absoluto, mas uma quididade deste tipo particular; assim como alguns dizem, por exemplo, ao falar do não-ser do ponto de vista lógico, que o não-ser é, não porque o não-ser seja de modo absoluto, mas porque o não-ser é não-ser. E de modo semelhante, a qualidade não tem quididade em sentido absoluto, mas a quididade da qualidade. 1335. Portanto, também o é (583). Ele mostra agora que quididade e definição são predicadas da natureza encontrada na substância e nos acidentes. Ele diz que, uma vez que definição e quididade se encontram de algum modo tanto na substância quanto nos acidentes, deve-se, portanto, tentar considerar como devemos "predicá-la", i.e., predicar a definição, de cada coisa, mas não mais do que sua condição permite; de modo que, ou seja, não digamos que aqueles predicados são aplicados univocamente, os quais não têm um caráter essencial único na realidade. 1336. E por esta razão, as coisas que foram ditas sobre definição e quididade em relação à substância e aos acidentes são claras: a saber, que a quididade pertencerá primária e absolutamente à substância, e secundariamente às outras categorias, não, é claro, de modo a ser quididade em sentido absoluto, mas a quididade desta ou daquela categoria particular, a saber, de quantidade ou qualidade. Pois é evidente que definição e quididade devem ser predicadas da substância e dos acidentes ou equivocamente, ou por adição ou remoção de algo em maior ou menor grau; ou de modo primário ou secundário, como o ser é predicado da substância e do acidente, e como dizemos que "o incognoscível é conhecido" em sentido relativo, i.e., secundariamente, porque, no que diz respeito ao incognoscível, podemos saber que ele não é objeto de conhecimento; e assim podemos também dizer do não-ser que ele não é. 1337. Pois a verdade é que quididade e definição não são predicadas da substância e dos acidentes nem equivocamente nem de modo absoluto e segundo o mesmo significado, i.e., univocamente, mas como o termo médico é predicado de diferentes particulares em referência a uma e mesma coisa, embora não signifique uma e mesma coisa no caso de todas as coisas das quais é predicado; nem é também predicado equivocamente. Pois, um corpo é dito médico porque é o sujeito da arte da medicina; e uma atividade é dita médica porque é realizada pela arte da medicina, como purgar; e um instrumento, como uma seringa, é dito médico porque é usado pela arte da medicina. Assim, fica claro que o termo médico não é usado em um sentido puramente equívoco dessas três coisas, pois as coisas equívocas não têm relação com algo uno. Nem é usado univocamente segundo o mesmo significado, pois o termo médico não é predicado no mesmo sentido de quem usa a arte da medicina e de algo que auxilia a arte da medicina a produzir seu efeito, mas é predicado analogicamente em referência a uma coisa, a saber, à arte da medicina. E, de modo semelhante, quididade e definição não são predicadas da substância e do acidente nem equivocamente nem univocamente, mas em referência a uma coisa. Pois são predicadas de um acidente em relação à substância, como foi explicado. 1338. E, como ele tinha dado duas soluções, acrescenta que não faz diferença quanto ao modo como se deseja responder à questão acima, i.e., se alguém diz que os acidentes não têm definição, ou que a têm de modo secundário e relativo. No entanto, a afirmação feita na primeira solução, de que os acidentes não têm definição, deve ser entendida em sentido primário e absoluto. 1339. Ora, é evidente (584). Em segundo lugar, ele prova a solução que foi dada. Ele diz que é evidente que definição e essência pertencem primária e absolutamente às substâncias, mas não somente às substâncias, uma vez que, em certo sentido, os acidentes também têm definição e essência, embora não do primeiro modo. Isso é esclarecido como se segue: nem todo conceito pelo qual uma palavra é explicada é o mesmo que uma definição, nem a palavra explicada por cada conceito é sempre algo definido; mas é próprio que haja uma definição de qualquer conceito determinado, a saber, de um que significa uma coisa. Pois, se eu digo que Sócrates é branco e músico e de cabelos crespos, este conceito não significa uma coisa, exceto talvez acidentalmente, mas significa muitas; e, portanto, tal conceito não é uma definição. 1340. No entanto, não basta que a coisa significada por um conceito seja una do ponto de vista da continuidade para que haja uma definição dela; pois então a "Ilíada", i.e., o poema sobre a guerra de Troia, seria uma definição, porque aquela guerra foi travada durante um período contínuo de tempo. Nem basta que a coisa seja una por conexão; por exemplo, se eu dissesse que uma casa é pedras e argamassa e madeira, este conceito não seria uma definição de casa. Mas um conceito que significa uma coisa será uma definição se significar em algum daqueles sentidos em que o termo uno é predicado essencialmente; pois o termo uno é usado em tantos sentidos quantos o ser o é. E em um sentido, ser significa esta coisa particular; em outro, quantidade; em outro, qualidade; e assim por diante para as outras categorias. No entanto, é predicado primariamente da substância e secundariamente das outras categorias. Portanto, o termo uno em sentido absoluto se aplicará primariamente à substância e secundariamente às outras categorias. 1341. Se, então, é característico da noção de definição que ela signifique uma coisa, segue-se que haverá uma definição de homem branco, porque homem branco é, em certo sentido, uma coisa. Mas o conceito de branco será uma definição em sentido diferente do conceito de substância, porque o conceito de substância será uma definição em sentido primário, e o conceito de branco será uma definição em sentido secundário, assim como o termo uno é predicado de cada um em sentido primário e em sentido secundário. 1342. Agora, se alguém nega (585). Ele esclarece algumas dificuldades relacionadas ao ponto estabelecido acima; e isso se divide em duas partes, correspondendo às duas dificuldades que ele remove. A segunda (586:C 1347) começa onde ele diz "E há também". Ora, há duas coisas que devem ser notadas antes de tudo para tornar evidente a primeira parte desta divisão. A primeira é que alguns disseram que nenhuma definição ocorre "por adição", ou seja, nenhuma definição contém algo extrínseco à essência da coisa definida. E eles pareciam ter em mente o fato de que a definição significa a essência de uma coisa. Assim, pareceria que tudo que é extrínseco à essência de uma coisa não deveria ser dado em sua definição. 1343. A segunda coisa a ser notada é que alguns acidentes são simples e outros compostos. Dizem-se simples aqueles que não têm sujeito determinado incluído em sua definição, por exemplo, curvo e côncavo e outras entidades matemáticas; e dizem-se compostos aqueles que têm um sujeito determinado sem o qual não podem ser definidos. 1344. Daí surge um problema se alguém quiser dizer que um conceito formado por adição não é uma definição daqueles acidentes que são simples, mas daqueles que são compostos; pois parece que nenhum deles pode ter uma definição. Fica claro, então, que se acidentes compostos são definidos, sua definição deve ser formada por adição, já que não podem ser definidos sem seu sujeito próprio. Por exemplo, se tomarmos as três coisas seguintes: nariz, concavidade e chateza, então a concavidade é um acidente em sentido absoluto, especialmente em relação ao nariz, pois o nariz não está contido no conceito de concavidade. E a chateza é um acidente composto, pois o nariz é parte do seu conceito. Assim, a chateza será uma expressão de ambos, na medida em que significa que "um se encontra no outro", ou seja, um acidente determinado em um sujeito determinado, e nem a concavidade nem a chateza são um atributo do nariz de modo acidental, como o branco pertence acidentalmente a Cálias e ao homem, na medida em que Cálias, que por acaso é homem, é branco. Mas a chateza é uma qualidade essencial do nariz, pois é próprio do nariz como tal ser chato. Outra tradução tem aquilino no lugar de côncavo, e seu significado é mais evidente, porque o nariz é dado na definição de aquilino assim como o é na definição de chato. A concavidade ou chateza, então, pertence ao nariz essencialmente, assim como o macho pertence ao animal essencialmente, e a igualdade à quantidade, e todas as outras coisas que se diz serem essencialmente presentes em outra coisa, porque o conceito de todas é o mesmo; e "esses atributos são aqueles nos quais", ou seja, nos conceitos dos quais, se encontra ou o nome da coisa "à qual esse atributo pertence", a saber, a substância, ou seu conceito. Pois nas definições, o conceito pode sempre ser dado no lugar do nome; por exemplo, quando dizemos que o homem é um animal racional mortal, a definição pode ser dada no lugar do termo animal, assim como se pode dizer que o homem é uma substância animada sensitiva racional mortal. E similarmente, se digo que um macho é um animal capaz de gerar em outro, posso também dizer que um macho é uma substância animada sensitiva capaz de gerar em outro. 1345. Assim, é claramente impossível "explicar" isto, ou seja, transmitir conhecimento de, um dos acidentes mencionados acima que chamamos de compostos, separado de seu sujeito, como é possível transmitir conhecimento de brancura sem dar homem em sua definição ou conceito. Mas não é possível transmitir conhecimento de fêmea sem mencionar animal, porque animal deve ser dado na definição de fêmea assim como deve ser dado na definição de macho. Daí é evidente que nenhum dos acidentes compostos mencionados acima tem uma quididade e definição real se não há definição por adição, como acontece nas definições de substâncias. 1346. Ou, se eles têm algum tipo de definição, já que só podem ser definidos por adição, eles terão uma definição de modo diferente do que as substâncias têm, como dissemos na segunda solução. Daí nesta conclusão ele apresenta a solução para a dificuldade anterior; pois a afirmação que ele fez ali, a saber, que não há definição por adição, é verdadeira da definição na medida em que se aplica às substâncias. Daí os acidentes mencionados acima não têm uma definição desse modo, mas diferentemente, ou seja, em um sentido secundário. 1347. E há (586). Aqui ele apresenta a segunda dificuldade; e quanto a isso, ele faz duas coisas. Primeiro, levanta a dificuldade; e segundo (587:C 1350), dá sua solução ("Mas isso está oculto"). Ele diz, então, primeiramente (586), que há outro problema concernente aos pontos discutidos acima. Pois dizer "nariz chato" e "nariz côncavo" é ou dizer a mesma coisa ou não. Se é o mesmo, segue-se que chato e côncavo são o mesmo; mas isso é claramente falso, pois a definição de cada um é diferente. 1348. Mas se dizer nariz chato e nariz côncavo não é dizer a mesma coisa, porque chato não pode ser entendido "sem a coisa da qual é um atributo próprio", ou seja, sem nariz, já que chateza é concavidade em um nariz (embora côncavo possa ser dito sem envolver nariz), e se o que chamo de chato envolve mais do que côncavo, então segue-se que esta coisa que chamo de nariz ou não pode ser chamada de nariz chato, ou, se é chamada assim, a palavra será usada duas vezes, a saber, na medida em que poderíamos dizer que um nariz chato é "um nariz nariz côncavo"; pois a definição de uma palavra pode sempre ser dada no lugar dessa palavra. Daí quando a palavra nariz chato é usada, a palavra chato pode ser removida e a definição de chato, que é um nariz côncavo, pode ser adicionada à definição de nariz. Assim, pareceria que falar de um nariz chato é meramente falar de um nariz nariz côncavo, o que é absurdo. E por essa razão, pareceria absurdo dizer que tais acidentes têm uma essência. 1349. Pois se não é verdade que eles não têm uma essência, a mesma palavra pode ser repetida um número infinito de vezes quando a definição da palavra é colocada no lugar dessa palavra. Pois é óbvio que, quando digo "nariz côncavo", a palavra chato pode ser entendida no lugar de côncavo, porque chateza é meramente concavidade em um nariz; e o termo nariz côncavo também pode ser entendido no lugar de chato; e assim por diante, infinitamente. 1350. Daí pareceria evidente que apenas a substância tem uma definição; pois se as outras categorias também tivessem uma definição, isso teria que ser resultado de adicionar algo ao seu sujeito, como a definição de igual e a de ímpar devem ser derivadas da definição de seus sujeitos. Pois não há definição de ímpar sem número, ou de fêmea, que significa uma certa qualidade de animal, sem animal. Portanto, se algumas coisas são definidas por adição, segue-se que as mesmas palavras podem ser usadas duas vezes, como foi mostrado no exemplo dado acima. Daí, se é verdade que essa conclusão absurda resultaria, segue-se que acidentes compostos não têm uma definição. 1351. Mas isso está oculto (587). Ele resolve o problema levantado acima. Ele diz que quem levanta a questão acima ignora o fato de que esses conceitos não são expressos exatamente, ou seja, com exatidão, como aqueles que são usados univocamente, mas são empregados de modo primário e secundário, como foi dito acima (582:C 1331). Mas se os acidentes compostos mencionados acima têm uma fórmula, ou expressão conceitual, eles devem ter tal de modo diferente do que as definições têm, ou definição e essência, que é significada pela definição, devem ser usadas em sentidos diferentes. 1352. Logo, "em um sentido", i.e., primária e incondicionalmente, apenas a substância terá uma definição, e apenas a substância terá uma essência. "E em outro sentido", i.e., secundariamente e com alguma restrição, as outras categorias também terão uma definição. Pois a substância, que tem uma quididade em sentido absoluto, não depende de outra coisa no que diz respeito à sua quididade. Um acidente, contudo, depende de seu sujeito, embora o sujeito não pertença à essência do seu acidente (de modo muito semelhante a como uma criatura depende do criador, mas o criador não pertence à essência da criatura), de modo que uma essência extrínseca deve ser colocada em sua definição. De fato, os acidentes têm existência apenas pelo fato de que inerem em um sujeito e, portanto, sua quididade depende de seu sujeito. Por isso, um sujeito deve ser dado na definição de um acidente, ora diretamente e ora indiretamente. 1353. Ora, um sujeito é dado diretamente na definição de um acidente quando um acidente é significado concretamente como um acidente fundido com um sujeito, como quando digo que a chatice é um nariz côncavo; pois "nariz" é dado na definição de "chato" como um gênero para significar que os acidentes subsistem apenas em um sujeito. Mas quando um acidente é significado de modo abstrato, à maneira de uma substância, então o sujeito é dado em sua definição indiretamente, como uma diferença, como se diz que a chatice é a concavidade de um nariz. 1354. Portanto, fica claro que, quando digo nariz chato, não é necessário entender "nariz côncavo" no lugar de "nariz"; porque "nariz" não está incluído na definição de "chato" como se fosse parte de sua essência, mas como algo adicionado à sua essência. Logo, "chato" e "côncavo" são essencialmente o mesmo. Mas "chato" adiciona, além de "côncavo", uma relação a um sujeito determinado; e assim, neste sujeito determinado, "nariz", "chato" não difere em nada de "côncavo", nem é necessário que qualquer palavra seja colocada no lugar de "chato", exceto a palavra "côncavo". Assim, não será necessário usar "nariz côncavo" no lugar de "chato", mas apenas "côncavo". 1355. Ao concluir sua discussão, ele extrai a conclusão que se segue como óbvia, a saber, que uma definição, que é o conceito da essência de uma coisa e a própria essência, pertence apenas às substâncias, como a primeira solução sustentava. Ou as substâncias são definidas primária e incondicionalmente, e os acidentes secundária e condicionalmente, como foi dito na segunda solução.