LIÇÃO 2 - A Sabedoria considera as Causas Primeiras Universais e os Primeiros Princípios

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 2: 982a 4-982b 11

  1. Mas como estamos em busca desta ciência, será necessário considerar, portanto, com que tipo de causas e princípios a sabedoria ou a ciência lida. Isso talvez se torne evidente se considerarmos as opiniões que temos sobre o sábio. Antes de tudo, então, pensamos que o sábio é aquele que conhece todas as coisas no mais alto grau, como convém, sem ter um conhecimento individual delas.

  2. Em seguida, dizemos que é sábio aquele que é capaz de conhecer coisas difíceis e não fáceis para o homem compreender. Pois a percepção sensorial é comum a todos e, portanto, é fácil e não uma questão de sabedoria.

  3. Novamente, [consideramos sábio aquele que é] mais certo.

  4. E em todo ramo da ciência, dizemos que é mais sábio aquele que é mais capaz de nos ensinar sobre as causas das coisas.

  5. Novamente, entre as ciências, consideramos que aquela ciência que existe por si mesma e é desejável pelo conhecimento é sabedoria em maior grau do que aquela que é desejável por causa de efeitos contingentes.

  6. E consideramos que uma ciência superior, que é antes a mais básica, aproxima-se mais da sabedoria do que uma ciência subordinada. Pois o sábio não deve ser dirigido, mas deve dirigir, e não deve obedecer a outro, mas deve ser obedecido por quem é menos sábio. Tais são, então, e tantas são as opiniões que temos sobre o sábio e sobre a sabedoria.

  7. Ora, desses atributos, o de conhecer todas as coisas pertence necessariamente àquele que tem conhecimento universal no mais alto grau, porque ele conhece aquilo em que as coisas estão subordinadas.

  8. Mas as coisas que estão quase entre as mais difíceis para o homem compreender são também aquelas que são mais universais; pois estão mais distantes dos sentidos.

  9. Novamente, as mais certas das ciências são aquelas que estão mais preocupadas com as coisas primárias. Pois ciências baseadas em menos princípios são mais certas do que aquelas que têm princípios adicionais, assim como a aritmética é mais certa do que a geometria.

  10. Além disso, aquela ciência que especula sobre as causas das coisas é mais instrutiva. Pois aqueles que nos ensinam são os que atribuem as causas de cada coisa singular.

  11. Novamente, o entendimento e o conhecimento científico por si mesmos são encontrados no mais alto grau na ciência que tem como objeto o que é mais cognoscível. Pois aquele que deseja conhecimento científico por si mesmo desejará no mais alto grau a ciência que é mais verdadeiramente ciência, e tal ciência tem como objeto o que é mais cognoscível. Ora, os primeiros princípios e causas são os mais cognoscíveis; pois é por causa deles e a partir deles que outras coisas são conhecidas, e não estes a partir de coisas que lhes são subordinadas.

  12. Mas aquela ciência é a mais elevada e superior às ciências subordinadas que conhece a razão pela qual cada coisa singular deve ser feita. Este é o bem de cada coisa singular e, visto universalmente, é o maior bem em toda a natureza.

  13. Em vista de tudo o que foi dito, então, o termo que estamos investigando evidentemente recai sobre a mesma ciência. Pois esta ciência deve especular sobre os primeiros princípios e causas, porque o bem, ou aquilo para o qual algo é feito, também é uma das causas.

COMENTÁRIO

Seis opiniões sobre quem é sábio

  1. Tendo mostrado que a sabedoria é um conhecimento das causas, o objetivo do Filósofo aqui é estabelecer com quais tipos de causas e quais tipos de princípios ela se preocupa. Ele mostra que ela se ocupa com as causas mais universais e primárias, e argumenta isso a partir da definição de sabedoria.

A respeito disso, ele faz três coisas. Primeiro, formula uma definição de sabedoria a partir das diferentes opiniões que os homens têm sobre o sábio e sobre a sabedoria. Segundo (44), mostra que todas essas opiniões são próprias daquela ciência universal que considera as primeiras e universais causas ("Agora, dessas"). Terceiro (50), extrai a conclusão a que visa ("Diante de tudo"). Quanto ao primeiro, ele dá seis opiniões comuns que os homens têm sobre a sabedoria.

Ele apresenta a primeira onde diz "Mas como estamos em busca"; e esta opinião é a seguinte: em geral, consideramos especialmente sábios aqueles que conhecem todas as coisas, conforme o caso, sem ter conhecimento de cada coisa singular. Pois isso é impossível, já que as coisas singulares são infinitas em número, e uma quantidade infinita de coisas não pode ser compreendida pelo intelecto.

  1. Em seguida, dizemos que (15).

Aqui ele dá a segunda opinião, que é esta: consideramos sábio o homem que é capaz, por razão de seu intelecto, de conhecer coisas difíceis e aquelas que não são fáceis para os homens comuns entenderem. Pois a percepção sensorial, ou seja, o conhecimento das coisas sensíveis, é comum a todos os homens e, portanto, é fácil e, assim, não é uma questão de sabedoria. Isto é, não é nem uma marca nem a função de um sábio. Assim, fica claro que tudo o que pertence propriamente à sabedoria não é facilmente conhecido por todos.

  1. Novamente, [consideramos] (16).

Aqui ele dá a terceira opinião: que dizemos ser sábio aquele que, em relação ao que sabe, é mais certo do que os outros homens geralmente são.

  1. E em todo ramo (17). Aqui ele dá a quarta opinião: que se diz que o homem é mais sábio em toda ciência que pode dar as causas de qualquer coisa que seja posta em questão e pode ensinar por meio disso.

  2. Novamente, entre as ciências (18).

Aqui ele dá a quinta opinião, que é esta: entre muitas ciências, aquela que é mais desejável e querida por si mesma, ou seja, escolhida pelo conhecimento e pelo conhecimento em si mesmo, é mais da natureza da sabedoria do que aquela que é para algum dos outros efeitos contingentes que podem ser causados pelo conhecimento, como as necessidades da vida, o prazer e assim por diante.

  1. E pensamos (19). Aqui ele dá a sexta opinião: que esta sabedoria, da qual se fez menção, deve ser ou é dita ser "antes a mais básica", i.e., mais nobre, do que "uma ciência subordinada". Isso pode ser entendido a partir do que foi dito. Pois, no campo das artes mecânicas, os artistas subordinados são aqueles que executam por operações manuais as ordens dos artistas superiores, aos quais ele se referiu acima como artistas mestres e sábios.

  2. Que a noção de sabedoria pertence às ciências que dão ordens em vez daquelas que as recebem, ele prova por dois argumentos. O primeiro é que as ciências subordinadas são direcionadas às ciências superiores. Pois as artes subordinadas são direcionadas ao fim de uma arte superior, como a arte de cavalgar ao fim da arte militar. Mas, na opinião de todos, não é apropriado que um sábio seja dirigido por outro, mas que ele dirija os outros. O segundo é que os artistas inferiores são induzidos a agir pelos artistas superiores na medida em que confiam nos artistas superiores para as coisas que devem fazer ou produzir. Assim, o construtor naval confia nas instruções do navegador quanto ao tipo de forma que um navio deve ter. No entanto, não convém a um sábio que ele seja induzido a agir por outro, mas que use seu conhecimento para induzir outros a agir.

  3. Essas são, então, o tipo de opiniões que os homens têm sobre a sabedoria e o sábio; e de todas elas pode-se formular uma descrição da sabedoria, de modo que o sábio é descrito como aquele que conhece tudo, até mesmo as matérias difíceis, com certeza e através de sua causa; que busca este conhecimento por si mesmo; e que dirige os outros e os induz a agir. E, dessa forma, a premissa maior do silogismo torna-se evidente. Pois todo sábio deve ser assim, e, inversamente, quem é assim é sábio.

Esses seis atributos são encontrados no metafísico.

  1. Agora, dessas (20). Aqui ele mostra que todos os atributos acima se reúnem no homem que conhece as primeiras e universais causas das coisas; e ele segue a mesma ordem que usou acima. Assim, ele primeiro sustentou que o conhecimento de todas as coisas em grau máximo pertence àquele que tem conhecimento universal. Esta foi a primeira opinião, e é esclarecida desta forma: Quem conhece os universais conhece, de certa forma, as coisas que estão subordinadas aos universais, porque ele conhece o universal nelas. Mas todas as coisas estão subordinadas àquelas que são mais universais. Portanto, aquele que conhece as coisas mais universais conhece, de certo modo, todas as coisas.

  2. Mas as coisas (21).

Aqui ele prova que o segundo atributo pertence à mesma pessoa, pelo seguinte argumento. As coisas que estão mais distantes dos sentidos são difíceis para os homens conhecerem; pois a percepção sensorial é comum a todos os homens, já que todo conhecimento humano se origina dela. Mas as coisas mais universais são as mais distantes das coisas sensíveis, porque os sentidos lidam com coisas singulares. Portanto, os universais são os mais difíceis para os homens conhecerem. Assim, fica claro que a ciência mais difícil é aquela que mais lida com universais.

  1. No entanto, a afirmação que aparece no Livro I da Física parece contradizer isso. Pois lá se diz que as coisas mais universais são conhecidas primeiro por nós; e as coisas que são conhecidas primeiro são aquelas que são mais fáceis. Contudo, deve-se dizer que aquelas coisas que são mais universais segundo a simples apreensão são conhecidas primeiro; pois o ser é a primeira coisa que entra no intelecto, como diz Avicena, e o animal entra no intelecto antes do homem. Pois, assim como na ordem da natureza, que procede da potência ao ato, o animal é anterior ao homem, também na gênese do conhecimento o intelecto concebe o animal antes de conceber o homem.

Mas com respeito às investigações das propriedades e causas naturais, as coisas menos universais são conhecidas primeiro, porque descobrimos as causas universais por meio das causas particulares que pertencem a um gênero ou espécie. Ora, aquelas coisas que são universais na causalidade são conhecidas posteriormente por nós (não obstante o fato de serem coisas que são primariamente cognoscíveis segundo sua natureza), embora as coisas que são universais por predicação sejam conhecidas por nós de certa forma antes das menos universais (não obstante o fato de não serem conhecidas antes das coisas singulares). Pois em nós o conhecimento sensorial, que é cognitivo das coisas singulares, precede o conhecimento intelectivo, que é sobre os universais. E alguma importância também deve ser atribuída ao fato de que ele não diz que as coisas mais universais são as mais difíceis absolutamente, mas "quase". Pois aquelas coisas que são totalmente separadas da matéria no ser, como as substâncias imateriais, são mais difíceis para nós conhecermos do que os universais. Portanto, embora esta ciência chamada sabedoria seja a primeira em dignidade, ainda assim é a última a ser aprendida.

  1. Novamente, a mais certa (22).

Aqui ele mostra que o terceiro atributo pertence à mesma ciência, por este argumento: quanto mais as ciências são anteriores por natureza, mais certas elas são. Isso fica claro pelo fato de que aquelas ciências que se dizem originar-se como resultado da adição de algo a outras ciências são menos certas do que aquelas que consideram menos coisas; por exemplo, a aritmética é mais certa do que a geometria porque os objetos considerados na geometria são resultado da adição àqueles considerados na aritmética. Isso se torna evidente se considerarmos o que estas duas ciências tomam como seu primeiro princípio, a saber, o ponto e a unidade. Pois o ponto adiciona à unidade a noção de posição, porque o ser indivisível constitui a estrutura inteligível da unidade; e na medida em que isso tem a função de medida, torna-se o princípio do número. E o ponto adiciona a isso a noção de posição. No entanto, as ciências particulares são posteriores na natureza às ciências universais, porque seus sujeitos adicionam algo aos sujeitos das ciências universais. Por exemplo, é evidente que o ser móvel, com o qual a filosofia da natureza lida, adiciona ao ser puro e simples, com o qual a metafísica se ocupa, e ao ser quantificado, com o qual a matemática lida. Por isso, a ciência que trata do ser e das coisas mais universais é a mais certa. Além disso, a afirmação aqui de que esta ciência lida com menos princípios não se opõe à feita acima, de que ela conhece todas as coisas; pois o universal abrange menos inferiores em ato, mas muitos em potência. E quanto mais certa é uma ciência, menos coisas em ato ela tem que considerar ao investigar seu objeto de estudo. Por isso, as ciências práticas são as menos certas, porque devem considerar as muitas circunstâncias que acompanham os efeitos individuais.

  1. Além disso, aquela ciência (23).

Aqui ele prova que o quarto atributo pertence à mesma ciência, por este argumento: aquela ciência é mais instrutiva, ou mais apta a ensinar, que se ocupa em maior grau das causas. Pois apenas aqueles ensinam que atribuem as causas de cada coisa singular, porque o conhecimento científico ocorre através de alguma causa, e ensinar é causar conhecimento em outro. Mas a ciência que considera os universais considera a primeira de todas as causas. Logo, ela é evidentemente a mais apta a ensinar.

  1. Novamente, o entendimento (24).

Aqui ele prova que o quinto atributo pertence à mesma ciência, por este argumento: é ofício daquelas ciências que lidam com as coisas mais cognoscíveis, conhecer e entender mais propriamente por seu próprio fim, i.e., por causa das próprias ciências e não por algo outro. Mas são as ciências que lidam com as primeiras causas que consideram as coisas mais cognoscíveis. Portanto, essas ciências são desejadas mais por si mesmas. Ele prova a primeira premissa assim: Aquele que mais deseja conhecimento pelo conhecimento mais deseja conhecimento científico. Mas o mais alto tipo de conhecimento diz respeito às coisas mais cognoscíveis. Portanto, aquelas ciências são desejadas mais por si mesmas que têm a ver com as coisas mais cognoscíveis. Ele prova a segunda premissa assim: Aquelas coisas a partir das quais e por causa das quais outras coisas são conhecidas são mais cognoscíveis do que as coisas que são conhecidas por meio delas. Mas estas outras coisas são conhecidas através das causas e princípios, e não vice-versa, etc.

  1. Mas aquela ciência (25).

Aqui ele prova que o sexto atributo pertence à mesma ciência, pelo seguinte argumento: aquela ciência que considera a causa final, ou aquilo para o qual as coisas particulares são feitas, relaciona-se com as outras ciências como uma ciência principal ou mestra se relaciona com uma subordinada ou auxiliar, como é evidente a partir das observações anteriores. Pois o navegador, a quem pertence o uso, ou fim, do navio, é uma espécie de artista mestre em relação ao construtor naval que o serve. Mas a referida ciência se ocupa principalmente da causa final de todas as coisas. Isso é claro pelo fato de que aquilo para o qual todas as coisas particulares são feitas é o bem de cada uma, i.e., um bem particular. Mas o fim em qualquer classe de coisas é um bem; e aquilo que é o fim de todas as coisas, i.e., do próprio universo, é o maior bem em toda a natureza. Ora, isso pertence à consideração da ciência em questão, e portanto ela é a ciência principal ou arquitetônica com referência a todas as outras.

  1. Em vista de tudo (26). Aqui ele extrai dos argumentos anteriores sua conclusão pretendida, dizendo que fica claro a partir de tudo o que foi dito que o nome sabedoria que estamos investigando pertence à mesma ciência que considera ou especula sobre os primeiros princípios e causas. Isso é evidente a partir das seis condições primordiais que pertencem claramente à ciência que considera as causas universais. Mas porque a sexta condição tocou na consideração do fim, que não era claramente tido como uma causa entre os filósofos antigos, como será dito abaixo (1177), ele mostra portanto de uma maneira especial que esta condição pertence à mesma ciência, a saber, aquela que considera as primeiras causas. Pois o fim, que é um bem e aquilo para o qual outras coisas são feitas, é uma das muitas causas. Logo, a ciência que considera as primeiras e universais causas deve também ser aquela que considera o fim universal de todas as coisas, que é o maior bem em toda a natureza.

Revision #1
Created 6 September 2026 21:55:37 by Admin
Updated 6 September 2026 21:56:38 by Admin