# LIÇÃO 19 - Os Sentidos de Limite, de "Segundo o Qual", de "Em Si Mesmo" e de Disposição

##### TEXTO DE ARISTÓTELES, Capítulos 17 e 18: 1022a 4-1022a 36

> *504. E limite significa a forma, seja qual for, de uma quantidade contínua ou de algo que possui quantidade contínua; e significa também o objetivo ou fim de cada coisa. E tal é também aquilo para o qual o movimento e a ação se dirigem, e não aquilo de onde procedem. E às vezes é ambos, não apenas aquilo de onde, mas também aquilo para onde. E significa a razão pela qual algo é feito; e também a substância ou essência de cada coisa. Pois este é o limite ou termo do conhecimento; e se do conhecimento, também da coisa.*
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> *505. Portanto, fica claro que o termo limite tem tantos significados quanto o termo princípio tem, e ainda mais. Pois um princípio é um limite, mas nem todo limite é um princípio.*
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> *Capítulo 18*
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> *506. A expressão segundo o qual (secundum quod) tem vários significados. Em um sentido, significa a espécie ou substância de cada coisa; por exemplo, aquilo segundo o qual uma coisa é boa é a própria bondade. E em outro sentido, significa o primeiro sujeito no qual um atributo está naturalmente disposto a vir a ser, como a cor na superfície. Portanto, em seu sentido primário, "aquilo segundo o qual" é a forma; e em seu sentido secundário é a matéria de cada coisa e o primeiro sujeito de cada uma. E em geral, aquilo segundo o qual é usado da mesma forma que uma razão. Pois falamos daquilo segundo o qual ele vem, ou a razão de sua vinda; e daquilo segundo o qual ele raciocinou incorretamente ou simplesmente raciocinou, ou a razão pela qual ele raciocinou ou raciocinou incorretamente. Além disso, aquilo segundo o qual é usado em referência ao lugar, como segundo \[i.e., próximo\] ao qual ele está, ou segundo \[i.e., ao longo\] do qual ele anda; pois em geral estes significam posição e lugar.*
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> *507. Portanto, a expressão em si mesma (secundum se) deve ser usada em muitos sentidos. Pois em um sentido significa a quididade de cada coisa, como Cálias e a quididade de Cálias. E em outro sentido significa tudo o que se encontra na quididade de uma coisa. Por exemplo, Cálias é um animal em si mesmo, porque animal pertence à sua definição; pois Cálias é um animal. Novamente, é usado para uma coisa quando algo foi manifestado nela como seu primeiro sujeito ou em alguma parte dela; por exemplo, uma superfície é branca em si mesma, e um homem está vivo em si mesmo. Pois a alma é uma parte do homem na qual a vida está primeiramente presente. Novamente, significa uma coisa que não tem outra causa. Pois há muitas causas do homem, a saber, animal e bípede, contudo o homem é homem em si mesmo. Além disso, significa quaisquer atributos que pertencem a uma coisa sozinha e na medida em que pertencem a ela sozinha, porque o que é separado está em si mesmo.*

##### COMENTÁRIO

##### *Termo/limite*

1044\. Aqui Aristóteles procede a examinar os termos que significam as condições necessárias para a perfeição. Ora, o que é perfeito ou completo, como fica claro pelo que foi dito acima, é o que é determinado e absoluto, independente de qualquer outra coisa, e não privado de nada, mas tendo tudo o que lhe convém em sua própria linha. Portanto, primeiro, ele trata do termo *limite* (fronteira ou termo); segundo (1050), da expressão *em si mesmo* ("A expressão segundo o qual"); e terceiro (1062), do termo *ter* ("Ter significa").

Em relação ao primeiro, ele faz três coisas. Primeiro, ele dá o significado de limite. Ele diz que *limite* significa a última parte de qualquer coisa, de modo que nenhuma parte do que é primeiramente limitado esteja fora deste limite; e todas as coisas que lhe pertencem estão contidas dentro dele. Ele diz "primeiramente" porque a última parte de uma primeira coisa pode ser o ponto de partida de uma segunda coisa; por exemplo, o agora do tempo, que é o último ponto do passado, é o início do futuro.

1045\. **E limite significa a forma** (504).

Segundo, ele dá quatro sentidos em que o termo limite é usado:

O primeiro deles se aplica a qualquer tipo de quantidade contínua na medida em que o termo de uma quantidade contínua, ou de uma coisa que tem quantidade contínua, é chamado de limite; por exemplo, um ponto é chamado de limite de uma linha, e uma superfície o limite de um corpo, ou também de uma pedra, que tem quantidade.

1046\. O segundo sentido de limite é semelhante ao primeiro na medida em que um extremo de um movimento ou atividade é chamado de limite, i.e., aquilo para o qual há movimento, e não aquilo de onde há movimento, como o limite da geração é o ser e não o não-ser. Às vezes, porém, ambos os extremos do movimento são chamados de limites em sentido amplo, i.e., tanto aquilo de onde quanto aquilo para onde, na medida em que dizemos que todo movimento está entre dois limites ou extremos.

1047\. Em um terceiro sentido, limite significa aquilo para o qual algo vem a ser, pois este é o termo de uma intenção, assim como limite no segundo sentido significava o termo de um movimento ou de uma operação.

1048\. Em um quarto sentido, limite significa a substância de uma coisa, i.e., a essência de uma coisa ou a definição que significa o que uma coisa é. Pois este é o limite ou termo do conhecimento, porque o conhecimento de uma coisa começa com certos sinais externos a partir dos quais chegamos a conhecer a definição de uma coisa, e quando chegamos a ela temos o conhecimento completo da coisa. Ou a definição é chamada de limite ou termo do conhecimento porque sob ela estão contidas as notas pelas quais a coisa é conhecida. E se uma diferença é mudada, adicionada ou subtraída, a definição não permanecerá a mesma. Ora, se ela \[i.e., a definição\] é o limite do conhecimento, ela deve também ser o limite da coisa, porque o conhecimento se dá através da assimilação do conhecedor à coisa conhecida.

1049\. **Portanto, é evidente** (505).

Aqui ele conclui comparando um limite com um princípio, dizendo que limite tem tantos significados quanto princípio tem, e até mais, pois todo princípio é um limite, mas nem todo limite é um princípio. Pois aquilo para o qual há movimento é um limite, mas não é de modo algum um princípio, enquanto aquilo a partir do qual há movimento é tanto princípio quanto limite, como fica claro pelo que foi dito acima (1046).

1050\. **A expressão "segundo o qual"** (506).

Aqui ele trata da expressão *em si mesmo*; e a respeito disso faz três coisas. Primeiro, estabelece o sentido da expressão *segundo o qual*, que é mais comum do que a expressão em si mesmo. Segundo (1054), tira sua conclusão sobre os modos como a expressão *em si mesmo* é usada ("Daí a expressão"). Terceiro (1058), estabelece o significado do termo *disposição*, porque cada um dos sentidos em que usamos as expressões mencionadas acima significa de algum modo disposição. Quanto ao primeiro, ele dá quatro sentidos em que a expressão *segundo o qual* é usada:

O primeiro diz respeito à "espécie", i.e., à forma, ou "à substância de cada coisa", ou sua essência, na medida em que isso é aquilo segundo o qual algo é dito ser; por exemplo, segundo os platônicos, "o bem em si mesmo", i.e., a Ideia do Bem, é aquilo segundo o qual algo é dito ser bom.

1051\. Essa expressão tem um segundo sentido, na medida em que o sujeito no qual algum atributo está naturalmente disposto a primeiro surgir é denominado "aquilo segundo o qual", como a cor primeiro surge na superfície; e, portanto, diz-se que um corpo é colorido segundo sua superfície. Ora, esse sentido difere do anterior, porque o sentido anterior pertence à forma, mas este último pertence à matéria.

1052\. Há um terceiro sentido em que essa expressão é usada, na medida em que qualquer causa ou razão em geral é dita ser "aquilo segundo o qual". Daí que a expressão "segundo o qual" é usada no mesmo número de sentidos que o termo razão. Pois é o mesmo perguntar "Segundo o que ele vem?" e "Por que razão ele vem?" E, da mesma forma, é o mesmo perguntar "Segundo o que ele raciocinou incorretamente ou simplesmente raciocinou, e por que razão ele raciocinou?"

1053\. Essa expressão *segundo o qual* (*secundum quid*) é usada num quarto sentido, na medida em que significa posição e lugar; como na afirmação "segundo o qual ele está de pé", i.e., ao lado do qual, e "segundo o qual ele caminha", i.e., ao longo do qual ele caminha; e ambos significam lugar e posição. Isso aparece mais claramente no idioma grego.

1054\. **Daí a expressão** (507).

A partir do que foi dito acima, ele extrai quatro sentidos em que a expressão *em si mesmo* ou *por si mesmo* é usada:

O primeiro deles é encontrado quando a definição, que significa a quididade de cada coisa, é dita pertencer a cada uma em si mesma, como Calias "e a quididade de Calias", i.e., a essência da coisa, são tais que uma pertence à outra "em si mesma". E não apenas a definição inteira é predicada da coisa definida em si mesma, mas também, de certo modo, tudo o que pertence à definição, que expressa a quididade, é predicado da coisa definida em si mesma. Por exemplo, Calias é um animal em si mesmo. Pois animal pertence à definição de Calias, porque Calias é um animal individual, e isso seria dado em sua definição se as coisas individuais pudessem ter uma definição. E esses dois sentidos estão incluídos em um, porque tanto a definição quanto uma parte da definição são predicadas de cada coisa em si mesma pela mesma razão. Pois este é o primeiro tipo de predicação essencial dado nos *Segundos Analíticos*; e corresponde ao primeiro sentido dado acima (1050), em que usamos a expressão *segundo o qual*.

1055\. Essa expressão é usada num segundo sentido quando algo é mostrado estar em outra coisa como em um sujeito primeiro, quando lhe pertence por si mesmo. Isso pode ocorrer de duas maneiras: (a) ou o sujeito primeiro de um acidente é o próprio sujeito inteiro do qual o acidente é predicado (como uma superfície é dita colorida ou branca em si mesma; pois o sujeito primeiro da cor é a superfície, e, portanto, um corpo é dito colorido por causa de sua superfície); (b) ou também o sujeito do acidente é alguma parte do sujeito, assim como um homem é dito estar vivo em si mesmo, porque parte dele, a saber, a alma, é o sujeito primeiro da vida. Este é o segundo tipo de predicação essencial dado nos *Segundos Analíticos*, a saber, aquele em que o sujeito é dado na definição do predicado. Pois o sujeito primeiro e próprio é dado na definição de um acidente próprio.

1056\. Essa expressão é usada num terceiro sentido quando algo que não tem causa é mencionado como *em si mesmo*; como todas as proposições imediatas, i.e., aquelas que não são provadas por um termo médio. Pois nas demonstrações *a priori* o termo médio é a causa de o predicado pertencer ao sujeito. Portanto, embora o homem tenha muitas causas, por exemplo, animal e bípede, que são sua causa formal, ainda assim nada é a causa da proposição "O homem é homem", uma vez que é imediata; e por essa razão o homem é homem em si mesmo.

E a esse sentido se reduz o quarto tipo de predicação essencial dado nos *Segundos Analíticos*, o caso em que um efeito é predicado de uma causa; como quando se diz que o homem morto pereceu pelo assassinato, ou que a coisa resfriada foi feita fria ou esfriada pelo resfriamento.

1057\. Essa expressão é usada num quarto sentido na medida em que são ditas pertencer a algo *em si mesmas* aquelas coisas que lhe pertencem exclusivamente e precisamente como lhe pertencendo exclusivamente. Ele diz isso para diferenciar esse sentido de *em si mesmo* dos sentidos precedentes, nos quais não se dizia que algo pertence a algo em si mesmo porque lhe pertence exclusivamente; embora nesse sentido também algo lhe pertenceria exclusivamente, como a definição à coisa definida. Mas aqui algo é dito estar em si mesmo por causa de sua exclusividade. Pois *em si mesmo* significa algo separado, como um homem é dito estar por si mesmo quando está sozinho.

E a este sentido reduz-se o terceiro sentido dado nos *Analíticos Posteriores*, e o quarto sentido da expressão *segundo o qual*, que implica posição.