LIÇÃO 1 - As Substâncias Sensíveis Possuem Diferentes Tipos de Matéria

TEXTO DE ARISTÓTELES — Livro VIII, Capítulo 1: 1042a 3–1042b 8

691. É necessário, pois, argumentar a partir dos pontos já estabelecidos e, depois de fazer um resumo, levar nossas investigações à conclusão.

692. Afirmou-se que são as causas, os princípios e os elementos das substâncias que estão sendo procurados (564).

693. Ora, algumas substâncias são admitidas por todos; mas há outras sobre as quais alguns pensadores expressaram opiniões que lhes são peculiares. As que são admitidas por todos são as substâncias físicas, tais como o fogo, a terra, a água e os outros corpos simples; as plantas e suas partes; os animais e as partes dos animais; e, por fim, o céu e suas partes. Mas certos outros pensadores fazem a alegação peculiar de que as Formas e os objetos da matemática são substâncias (566).

694. De outros argumentos também se segue que há outras substâncias, a saber, a essência e o sujeito subjacente. Ademais, de outro ponto de vista, o gênero é substância em maior grau do que a espécie, e o universal em maior grau do que as coisas singulares (568). E as Ideias têm uma conexão com o universal e o gênero, pois parecem ser substâncias pelos mesmos fundamentos.

695. Além disso, como a essência é substância, e a definição é a expressão inteligível da essência, por essa razão examinamos tanto a definição como tudo o que é predicado essencialmente (576-597). E, uma vez que a definição de uma coisa é sua expressão inteligível, e a expressão inteligível tem partes, então, quanto à noção de parte, foi também necessário considerar que coisas são partes da substância e que coisas não o são, e se estas são necessárias à definição (625-649). Ademais, nem o universal nem o gênero são substância (650-681). Questões conexas acerca das Ideias e dos objetos da matemática devem ser examinadas mais tarde; pois alguns dizem que estas são substâncias além das sensíveis. Mas agora devemos tratar daquelas coisas que todos admitem ser substâncias, e estas são as substâncias sensíveis.

696. Todas as substâncias sensíveis têm matéria. E o sujeito subjacente é substância: em um sentido, a matéria (por matéria entendo aquilo que não é uma coisa particular em ato, mas em potência); em outro sentido, a estrutura inteligível ou forma, que é uma coisa particular e é separável pelo pensamento; e, em um terceiro sentido, a coisa composta dessas, a qual, somente ela, está sujeita à geração e à corrupção, e é separável em sentido absoluto. Pois, segundo a estrutura inteligível das substâncias, algumas são separáveis e outras não.

697. Ora, é evidente que a matéria é substância; pois em todo processo de mudança entre contrários há algo que subjaz a essas mudanças. Por exemplo, na mudança de lugar, há algo que está agora aqui e depois em outro lugar; na mudança de tamanho, aquilo que agora tem tal tamanho e depois é menor ou maior; e, na mudança de qualidade, aquilo que agora é sadio e depois é doente. E, similarmente, na mudança de substância, há algo que está agora no processo de geração e depois no processo de corrupção, e que é agora um sujeito e esta coisa particular e depois um sujeito de privação.

698. E as outras mudanças seguem-se a esta mudança, mas esta mudança não se segue a uma ou duas das outras. Pois, se uma coisa tem matéria que está sujeita à mudança de lugar, não é necessário que ela também tenha matéria que seja generável e corruptível. A diferença entre o vir-a-ser em sentido absoluto e o vir-a-ser em sentido qualificado foi explicada na Física.

COMENTÁRIO

1681. Tendo tratado da substância por meio do método dialético no Livro VII, isto é, examinando a definição e suas partes e outras coisas desse tipo que são consideradas do ponto de vista da dialética, o Filósofo pretende agora, no Livro VIII, tratar das substâncias sensíveis por meio de seus princípios próprios, aplicando a essas substâncias aquelas coisas que foram investigadas acima por meio do método dialético.

Isto se divide em duas partes. Na primeira (691:C 1681), ele vincula esta discussão com a precedente; e, na segunda (696:C 1686), ele leva a cabo sua intenção («Todas as substâncias sensíveis»).

Em relação à primeira, ele faz três coisas. Primeiro, afirma de modo geral o que pretende fazer. Segundo (692:C 1682), repete algumas das afirmações que foram feitas («Afirmou-se»). Terceiro (695:C 1685), vincula a discussão precedente com a que há de vir («Além disso, como a essência»).

Ele diz primeiro (691), então, que, uma vez que muitas das afirmações feitas sobre a substância no Livro VII pertencem à consideração da dialética, devemos raciocinar a partir das afirmações que foram feitas para que as coisas enunciadas do ponto de vista da dialética possam ser aplicadas às coisas que existem na realidade. E «depois de fazer um resumo», isto é, depois de reuni-las novamente de modo breve e sumário, devemos levar nossa investigação a termo completando o tratado sobre a substância. Ele faz isso discutindo aquelas coisas que foram omitidas no tratado precedente.

1682. Afirmou-se (692).

Aqui ele repete algumas das afirmações que foram feitas, porque se afirmou no Livro VII (564:C 1260) que os objetos principais de nossa busca nesta ciência são as causas, os princípios e os elementos das substâncias. Pois, uma vez que esta ciência investiga como seu sujeito próprio o ente em geral, e este se divide em substância e as nove classes de acidentes, e o conhecimento dos acidentes depende da substância, como foi mostrado no Livro VII (585-6:C 1342-50), segue-se que esta ciência se ocupa principalmente das substâncias. E, como conhecemos cada coisa somente quando conhecemos seus princípios e causas, segue-se também que esta ciência deve ocupar-se principalmente dos princípios, causas e elementos das substâncias. O modo pelo qual esses três diferem foi mostrado acima no Livro V (403-12:C 751-807).

1683. Ora, algumas substâncias (693).

Depois, ele repete um dos pontos discutidos acima, a saber, os vários sentidos em que se usa o termo substância. Primeiro, ele dá as coisas que se diz serem substâncias reais. Entre estas há algumas cuja existência é admitida por todos os pensadores, a saber, as substâncias sensíveis, tais como a terra, a água e os outros elementos; e acima destas, na ordem de sua nobreza e perfeição, as plantas e os animais e suas partes; e, por último, o céu e suas partes, como as esferas e as estrelas, que superam em nobreza as outras substâncias sensíveis. No entanto, há algumas substâncias cuja existência não é admitida por todos, mas somente por certos pensadores particulares, que afirmam que as Formas e os objetos da matemática têm existência separada. Eles adotaram essa posição porque pensavam que, para toda abstração do intelecto, há uma abstração correspondente na realidade. Assim, porque o intelecto considera o universal à parte das coisas particulares, como «homem» à parte de Sócrates e Platão, eles sustentaram que as Formas têm existência separada por si mesmas. E, como o intelecto considera algumas formas à parte das coisas materiais sensíveis, como a curvatura (cujo conceito não contém nariz, como contém o conceito de adunco) e uma linha e outras coisas desse tipo, que chamamos de objetos da matemática, eles também sustentaram que os objetos da matemática têm existência separada.

1684. De outros argumentos (694).

Aqui ele dá os diferentes modos como a substância é considerada do ponto de vista de sua estrutura inteligível; e há dois desses modos. O primeiro é que substância significa a qüididade de qualquer substância natural, e esta é meramente a essência (whatness) de um ente natural. No segundo modo, a substância é considerada em um sentido diferente, isto é, no sentido em que se diz que o gênero é substância em maior grau do que a espécie, e o universal em maior grau do que as coisas singulares, como alguns homens sustentaram, conforme foi tratado nas questões do Livro III (220-234:C 423-442). E a este modo de considerar a substância, segundo o qual tanto um gênero como um universal são chamados de substâncias, está ligada a teoria das Ideias, ou Formas, como Aristóteles as chamou acima (693:C 1683); pois essa teoria sustenta que tanto as Ideias como os universais são substâncias pelos mesmos fundamentos.

1685. Além disso, como a essência (695).

Ele vincula esta discussão com a precedente, enunciando o que foi resolvido e o que permanece por resolver. Ele diz que, como a essência é substância, e a expressão inteligível que a significa é a definição, por essa razão foi necessário, no livro precedente, tratar da definição. E, como uma definição é composta daqueles atributos que são predicados de uma coisa essencialmente, por essa razão foi também necessário, naquele livro, resolver a questão sobre a predicação essencial (576-597:C 1299-1380). Ademais, como a definição de uma coisa é sua expressão inteligível, e esta é composta de partes, então, quanto às partes de uma definição, foi também necessário determinar que partes são partes da coisa definida e quais não são; e se as partes da definição e as da coisa definida são as mesmas (625-649:C 1482-1565). Outro texto diz «Se as partes da definição devem ser definidas», mas a primeira versão é melhor. No Livro VII (650-681:C 1566-1647) mostrou-se também que nem o universal nem o gênero são substância. Assim, todo o estudo que pode ser feito das definições e da substância foi levado a cabo no Livro VII. Mas, dentre as substâncias que existem na realidade, será necessário examinar mais tarde as Ideias e os objetos da matemática, que uma escola de pensadores afirma subsistir por si mesmos à parte das substâncias sensíveis. Isso é feito nos últimos livros desta obra. Mas agora é necessário tratar imediatamente daquelas substâncias que todos os homens admitem existir, a saber, as substâncias sensíveis, para que possamos proceder do que se tornou evidente para o que ainda permanece desconhecido.

A substância sensível é matéria, forma, composto.

1686. Todas as substâncias sensíveis (696).

Tendo vinculado a discussão precedente com a que há de vir, o Filósofo começa aqui a tratar das substâncias sensíveis, investigando seus princípios. Isto se divide em duas partes. Na primeira (1686), ele estabelece o que é verdadeiro acerca da matéria e da forma, que são os princípios das substâncias sensíveis. Na segunda (1755), ele considera o modo pelo qual elas estão unidas entre si («Parece que devemos»).

Em relação à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro, mostra que a matéria e a forma são princípios das substâncias sensíveis. Segundo (1705), trata daqueles pontos que devem ser investigados sobre cada um desses princípios («E não devemos»).

Em relação à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro, mostra que a matéria é um princípio das substâncias sensíveis; e, segundo (1691), que o mesmo é verdadeiro quanto à forma («Mas, uma vez que aquilo que tem o caráter de sujeito»).

Em relação à primeira, ele faz três coisas. Primeiro, mostra o que é a matéria, distinguindo-a dos outros modos como a substância é considerada. Daí ele diz que todas as substâncias sensíveis têm matéria; e a razão é que todas estão em movimento, e o movimento não existe sem matéria.

1687. Mas deve-se notar que, em um sentido, substância significa (1) matéria, em outro (2) forma, e em ainda outro (3) a coisa composta dessas.

Pois a matéria é chamada substância, não como se fosse um ente considerado como tendo existência atual em si mesmo, mas como algo capaz de ser atual (e isto se diz ser uma coisa particular).

E a forma, que também é denominada estrutura inteligível porque a estrutura inteligível da espécie dela deriva, é chamada substância (1) na medida em que é algo atual, e (2) na medida em que é separável da matéria pelo pensamento, mas não na realidade.

E a coisa composta dessas é chamada substância na medida em que é algo «separável em sentido absoluto», isto é, capaz de existir separadamente por si mesma na realidade; e somente ela está sujeita à geração e à corrupção. Pois a forma e a matéria são geradas e corrompidas apenas em razão de outra coisa.

E, embora o composto seja separável em sentido absoluto, todavia algumas das outras coisas que são chamadas substâncias são separáveis pelo pensamento e algumas não o são. Pois uma forma é separável pelo pensamento porque pode ser entendida sem entender a matéria sensível individuante; mas a matéria não pode ser entendida sem entender a forma, uma vez que é apreendida somente na medida em que está em potência para a forma.

Ou as afirmações podem significar que «segundo a estrutura inteligível das substâncias», isto é, das formas, algumas são separáveis em sua estrutura inteligível, como os objetos da matemática, e algumas não o são, como as formas naturais.

Ou, ainda, pode significar que há certas formas separadas que existem sem matéria, sobre as quais ele estabelecerá a verdade mais tarde (2447-2454).

1688. Ora, é evidente (697).

Segundo, ele diz que nas substâncias sensíveis devemos pôr a matéria como substância e sujeito. Pois, em toda mudança entre contrários, deve haver um sujeito comum aos termos da mudança. Por exemplo, na mudança de lugar, há um sujeito comum que está agora aqui e depois em outro lugar; e, no crescimento, há um sujeito comum que agora tem tanta quantidade e depois é menor (se a mudança é diminuição) ou maior (se é aumento). E, na alteração, há um sujeito comum que agora é sadio e depois é doente. Daí, uma vez que há mudança substancial, isto é, geração e corrupção, deve haver um sujeito comum que subjaz às mudanças opostas de geração e corrupção. E este é o sujeito para os termos que foram dados, isto é, forma e privação, de modo que às vezes este sujeito é atual em razão de uma forma, e às vezes é o sujeito da privação dessa forma.

1689. Ora, deste argumento de Aristóteles é claro que a geração e a corrupção substanciais são a fonte da qual derivamos nosso conhecimento da matéria prima. Pois, se a matéria prima por natureza tivesse uma forma própria, ela seria uma coisa atual em razão dessa forma. Daí, quando se acrescentasse uma forma adicional [à matéria prima], tal matéria não existiria em sentido absoluto em razão dessa forma, mas se tornaria este ou aquele ente; e então haveria geração em sentido qualificado, mas não em sentido absoluto. Daí todos aqueles que sustentaram que este primeiro sujeito é um corpo, como ar ou água, afirmaram que a geração é o mesmo que a alteração. Mas é claro, a partir deste argumento, o que devemos sustentar que a matéria prima é; pois ela se relaciona com todas as formas e privações assim como o sujeito da mudança qualitativa se relaciona com as qualidades contrárias.

1690. E as outras mudanças (698).

Aqui ele mostra que a matéria não está presente do mesmo modo em todas as substâncias sensíveis. Ele diz que as outras mudanças se seguem à matéria que está sujeita à geração e à corrupção; pois, se a matéria está sujeita à geração e à corrupção, segue-se que está sujeita à alteração e à mudança de lugar. Mas esta matéria, isto é, aquela que está sujeita à geração e à corrupção, não se segue a todas as outras mudanças, especialmente à mudança de lugar. Pois, se algo tem «matéria que está sujeita à mudança de lugar», isto é, pela qual está potencialmente em um lugar, não se segue que também tenha «matéria que é generável e corruptível», a saber, aquela que está sujeita à geração e à corrupção. Pois este tipo de matéria falta nos corpos celestes, nos quais há um tipo de alteração na medida em que são iluminados e privados de luz, mas não há geração nem corrupção. Daí ele ter dito «uma», por causa da mudança de lugar, ou «duas», por causa do tipo de alteração que se acaba de mencionar, embora esta realmente não seja alteração, porque a iluminação não é movimento, mas o termo do movimento. Assim, devemos pôr a matéria para toda mudança, conforme haja em tudo o que muda um vir-a-ser, seja em sentido absoluto, seja em sentido qualificado. A diferença entre o vir-a-ser em sentido absoluto e em sentido qualificado foi explicada na Física, Livro I; pois o vir-a-ser em sentido absoluto pertence à substância, e o vir-a-ser em sentido qualificado pertence aos acidentes.


Revision #2
Created 16 September 2026 23:01:35 by Admin
Updated 16 September 2026 23:07:35 by Admin