Livro VIII

Os Princípios das Substâncias Sensíveis

LIÇÃO 1 - As Substâncias Sensíveis Possuem Diferentes Tipos de Matéria

TEXTO DE ARISTÓTELES — Livro VIII, Capítulo 1: 1042a 3–1042b 8

691. É necessário, pois, argumentar a partir dos pontos já estabelecidos e, depois de fazer um resumo, levar nossas investigações à conclusão.

692. Afirmou-se que são as causas, os princípios e os elementos das substâncias que estão sendo procurados (564).

693. Ora, algumas substâncias são admitidas por todos; mas há outras sobre as quais alguns pensadores expressaram opiniões que lhes são peculiares. As que são admitidas por todos são as substâncias físicas, tais como o fogo, a terra, a água e os outros corpos simples; as plantas e suas partes; os animais e as partes dos animais; e, por fim, o céu e suas partes. Mas certos outros pensadores fazem a alegação peculiar de que as Formas e os objetos da matemática são substâncias (566).

694. De outros argumentos também se segue que há outras substâncias, a saber, a essência e o sujeito subjacente. Ademais, de outro ponto de vista, o gênero é substância em maior grau do que a espécie, e o universal em maior grau do que as coisas singulares (568). E as Ideias têm uma conexão com o universal e o gênero, pois parecem ser substâncias pelos mesmos fundamentos.

695. Além disso, como a essência é substância, e a definição é a expressão inteligível da essência, por essa razão examinamos tanto a definição como tudo o que é predicado essencialmente (576-597). E, uma vez que a definição de uma coisa é sua expressão inteligível, e a expressão inteligível tem partes, então, quanto à noção de parte, foi também necessário considerar que coisas são partes da substância e que coisas não o são, e se estas são necessárias à definição (625-649). Ademais, nem o universal nem o gênero são substância (650-681). Questões conexas acerca das Ideias e dos objetos da matemática devem ser examinadas mais tarde; pois alguns dizem que estas são substâncias além das sensíveis. Mas agora devemos tratar daquelas coisas que todos admitem ser substâncias, e estas são as substâncias sensíveis.

696. Todas as substâncias sensíveis têm matéria. E o sujeito subjacente é substância: em um sentido, a matéria (por matéria entendo aquilo que não é uma coisa particular em ato, mas em potência); em outro sentido, a estrutura inteligível ou forma, que é uma coisa particular e é separável pelo pensamento; e, em um terceiro sentido, a coisa composta dessas, a qual, somente ela, está sujeita à geração e à corrupção, e é separável em sentido absoluto. Pois, segundo a estrutura inteligível das substâncias, algumas são separáveis e outras não.

697. Ora, é evidente que a matéria é substância; pois em todo processo de mudança entre contrários há algo que subjaz a essas mudanças. Por exemplo, na mudança de lugar, há algo que está agora aqui e depois em outro lugar; na mudança de tamanho, aquilo que agora tem tal tamanho e depois é menor ou maior; e, na mudança de qualidade, aquilo que agora é sadio e depois é doente. E, similarmente, na mudança de substância, há algo que está agora no processo de geração e depois no processo de corrupção, e que é agora um sujeito e esta coisa particular e depois um sujeito de privação.

698. E as outras mudanças seguem-se a esta mudança, mas esta mudança não se segue a uma ou duas das outras. Pois, se uma coisa tem matéria que está sujeita à mudança de lugar, não é necessário que ela também tenha matéria que seja generável e corruptível. A diferença entre o vir-a-ser em sentido absoluto e o vir-a-ser em sentido qualificado foi explicada na Física.

COMENTÁRIO

1681. Tendo tratado da substância por meio do método dialético no Livro VII, isto é, examinando a definição e suas partes e outras coisas desse tipo que são consideradas do ponto de vista da dialética, o Filósofo pretende agora, no Livro VIII, tratar das substâncias sensíveis por meio de seus princípios próprios, aplicando a essas substâncias aquelas coisas que foram investigadas acima por meio do método dialético.

Isto se divide em duas partes. Na primeira (691:C 1681), ele vincula esta discussão com a precedente; e, na segunda (696:C 1686), ele leva a cabo sua intenção («Todas as substâncias sensíveis»).

Em relação à primeira, ele faz três coisas. Primeiro, afirma de modo geral o que pretende fazer. Segundo (692:C 1682), repete algumas das afirmações que foram feitas («Afirmou-se»). Terceiro (695:C 1685), vincula a discussão precedente com a que há de vir («Além disso, como a essência»).

Ele diz primeiro (691), então, que, uma vez que muitas das afirmações feitas sobre a substância no Livro VII pertencem à consideração da dialética, devemos raciocinar a partir das afirmações que foram feitas para que as coisas enunciadas do ponto de vista da dialética possam ser aplicadas às coisas que existem na realidade. E «depois de fazer um resumo», isto é, depois de reuni-las novamente de modo breve e sumário, devemos levar nossa investigação a termo completando o tratado sobre a substância. Ele faz isso discutindo aquelas coisas que foram omitidas no tratado precedente.

1682. Afirmou-se (692).

Aqui ele repete algumas das afirmações que foram feitas, porque se afirmou no Livro VII (564:C 1260) que os objetos principais de nossa busca nesta ciência são as causas, os princípios e os elementos das substâncias. Pois, uma vez que esta ciência investiga como seu sujeito próprio o ente em geral, e este se divide em substância e as nove classes de acidentes, e o conhecimento dos acidentes depende da substância, como foi mostrado no Livro VII (585-6:C 1342-50), segue-se que esta ciência se ocupa principalmente das substâncias. E, como conhecemos cada coisa somente quando conhecemos seus princípios e causas, segue-se também que esta ciência deve ocupar-se principalmente dos princípios, causas e elementos das substâncias. O modo pelo qual esses três diferem foi mostrado acima no Livro V (403-12:C 751-807).

1683. Ora, algumas substâncias (693).

Depois, ele repete um dos pontos discutidos acima, a saber, os vários sentidos em que se usa o termo substância. Primeiro, ele dá as coisas que se diz serem substâncias reais. Entre estas há algumas cuja existência é admitida por todos os pensadores, a saber, as substâncias sensíveis, tais como a terra, a água e os outros elementos; e acima destas, na ordem de sua nobreza e perfeição, as plantas e os animais e suas partes; e, por último, o céu e suas partes, como as esferas e as estrelas, que superam em nobreza as outras substâncias sensíveis. No entanto, há algumas substâncias cuja existência não é admitida por todos, mas somente por certos pensadores particulares, que afirmam que as Formas e os objetos da matemática têm existência separada. Eles adotaram essa posição porque pensavam que, para toda abstração do intelecto, há uma abstração correspondente na realidade. Assim, porque o intelecto considera o universal à parte das coisas particulares, como «homem» à parte de Sócrates e Platão, eles sustentaram que as Formas têm existência separada por si mesmas. E, como o intelecto considera algumas formas à parte das coisas materiais sensíveis, como a curvatura (cujo conceito não contém nariz, como contém o conceito de adunco) e uma linha e outras coisas desse tipo, que chamamos de objetos da matemática, eles também sustentaram que os objetos da matemática têm existência separada.

1684. De outros argumentos (694).

Aqui ele dá os diferentes modos como a substância é considerada do ponto de vista de sua estrutura inteligível; e há dois desses modos. O primeiro é que substância significa a qüididade de qualquer substância natural, e esta é meramente a essência (whatness) de um ente natural. No segundo modo, a substância é considerada em um sentido diferente, isto é, no sentido em que se diz que o gênero é substância em maior grau do que a espécie, e o universal em maior grau do que as coisas singulares, como alguns homens sustentaram, conforme foi tratado nas questões do Livro III (220-234:C 423-442). E a este modo de considerar a substância, segundo o qual tanto um gênero como um universal são chamados de substâncias, está ligada a teoria das Ideias, ou Formas, como Aristóteles as chamou acima (693:C 1683); pois essa teoria sustenta que tanto as Ideias como os universais são substâncias pelos mesmos fundamentos.

1685. Além disso, como a essência (695).

Ele vincula esta discussão com a precedente, enunciando o que foi resolvido e o que permanece por resolver. Ele diz que, como a essência é substância, e a expressão inteligível que a significa é a definição, por essa razão foi necessário, no livro precedente, tratar da definição. E, como uma definição é composta daqueles atributos que são predicados de uma coisa essencialmente, por essa razão foi também necessário, naquele livro, resolver a questão sobre a predicação essencial (576-597:C 1299-1380). Ademais, como a definição de uma coisa é sua expressão inteligível, e esta é composta de partes, então, quanto às partes de uma definição, foi também necessário determinar que partes são partes da coisa definida e quais não são; e se as partes da definição e as da coisa definida são as mesmas (625-649:C 1482-1565). Outro texto diz «Se as partes da definição devem ser definidas», mas a primeira versão é melhor. No Livro VII (650-681:C 1566-1647) mostrou-se também que nem o universal nem o gênero são substância. Assim, todo o estudo que pode ser feito das definições e da substância foi levado a cabo no Livro VII. Mas, dentre as substâncias que existem na realidade, será necessário examinar mais tarde as Ideias e os objetos da matemática, que uma escola de pensadores afirma subsistir por si mesmos à parte das substâncias sensíveis. Isso é feito nos últimos livros desta obra. Mas agora é necessário tratar imediatamente daquelas substâncias que todos os homens admitem existir, a saber, as substâncias sensíveis, para que possamos proceder do que se tornou evidente para o que ainda permanece desconhecido.

A substância sensível é matéria, forma, composto.

1686. Todas as substâncias sensíveis (696).

Tendo vinculado a discussão precedente com a que há de vir, o Filósofo começa aqui a tratar das substâncias sensíveis, investigando seus princípios. Isto se divide em duas partes. Na primeira (1686), ele estabelece o que é verdadeiro acerca da matéria e da forma, que são os princípios das substâncias sensíveis. Na segunda (1755), ele considera o modo pelo qual elas estão unidas entre si («Parece que devemos»).

Em relação à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro, mostra que a matéria e a forma são princípios das substâncias sensíveis. Segundo (1705), trata daqueles pontos que devem ser investigados sobre cada um desses princípios («E não devemos»).

Em relação à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro, mostra que a matéria é um princípio das substâncias sensíveis; e, segundo (1691), que o mesmo é verdadeiro quanto à forma («Mas, uma vez que aquilo que tem o caráter de sujeito»).

Em relação à primeira, ele faz três coisas. Primeiro, mostra o que é a matéria, distinguindo-a dos outros modos como a substância é considerada. Daí ele diz que todas as substâncias sensíveis têm matéria; e a razão é que todas estão em movimento, e o movimento não existe sem matéria.

1687. Mas deve-se notar que, em um sentido, substância significa (1) matéria, em outro (2) forma, e em ainda outro (3) a coisa composta dessas.

Pois a matéria é chamada substância, não como se fosse um ente considerado como tendo existência atual em si mesmo, mas como algo capaz de ser atual (e isto se diz ser uma coisa particular).

E a forma, que também é denominada estrutura inteligível porque a estrutura inteligível da espécie dela deriva, é chamada substância (1) na medida em que é algo atual, e (2) na medida em que é separável da matéria pelo pensamento, mas não na realidade.

E a coisa composta dessas é chamada substância na medida em que é algo «separável em sentido absoluto», isto é, capaz de existir separadamente por si mesma na realidade; e somente ela está sujeita à geração e à corrupção. Pois a forma e a matéria são geradas e corrompidas apenas em razão de outra coisa.

E, embora o composto seja separável em sentido absoluto, todavia algumas das outras coisas que são chamadas substâncias são separáveis pelo pensamento e algumas não o são. Pois uma forma é separável pelo pensamento porque pode ser entendida sem entender a matéria sensível individuante; mas a matéria não pode ser entendida sem entender a forma, uma vez que é apreendida somente na medida em que está em potência para a forma.

Ou as afirmações podem significar que «segundo a estrutura inteligível das substâncias», isto é, das formas, algumas são separáveis em sua estrutura inteligível, como os objetos da matemática, e algumas não o são, como as formas naturais.

Ou, ainda, pode significar que há certas formas separadas que existem sem matéria, sobre as quais ele estabelecerá a verdade mais tarde (2447-2454).

1688. Ora, é evidente (697).

Segundo, ele diz que nas substâncias sensíveis devemos pôr a matéria como substância e sujeito. Pois, em toda mudança entre contrários, deve haver um sujeito comum aos termos da mudança. Por exemplo, na mudança de lugar, há um sujeito comum que está agora aqui e depois em outro lugar; e, no crescimento, há um sujeito comum que agora tem tanta quantidade e depois é menor (se a mudança é diminuição) ou maior (se é aumento). E, na alteração, há um sujeito comum que agora é sadio e depois é doente. Daí, uma vez que há mudança substancial, isto é, geração e corrupção, deve haver um sujeito comum que subjaz às mudanças opostas de geração e corrupção. E este é o sujeito para os termos que foram dados, isto é, forma e privação, de modo que às vezes este sujeito é atual em razão de uma forma, e às vezes é o sujeito da privação dessa forma.

1689. Ora, deste argumento de Aristóteles é claro que a geração e a corrupção substanciais são a fonte da qual derivamos nosso conhecimento da matéria prima. Pois, se a matéria prima por natureza tivesse uma forma própria, ela seria uma coisa atual em razão dessa forma. Daí, quando se acrescentasse uma forma adicional [à matéria prima], tal matéria não existiria em sentido absoluto em razão dessa forma, mas se tornaria este ou aquele ente; e então haveria geração em sentido qualificado, mas não em sentido absoluto. Daí todos aqueles que sustentaram que este primeiro sujeito é um corpo, como ar ou água, afirmaram que a geração é o mesmo que a alteração. Mas é claro, a partir deste argumento, o que devemos sustentar que a matéria prima é; pois ela se relaciona com todas as formas e privações assim como o sujeito da mudança qualitativa se relaciona com as qualidades contrárias.

1690. E as outras mudanças (698).

Aqui ele mostra que a matéria não está presente do mesmo modo em todas as substâncias sensíveis. Ele diz que as outras mudanças se seguem à matéria que está sujeita à geração e à corrupção; pois, se a matéria está sujeita à geração e à corrupção, segue-se que está sujeita à alteração e à mudança de lugar. Mas esta matéria, isto é, aquela que está sujeita à geração e à corrupção, não se segue a todas as outras mudanças, especialmente à mudança de lugar. Pois, se algo tem «matéria que está sujeita à mudança de lugar», isto é, pela qual está potencialmente em um lugar, não se segue que também tenha «matéria que é generável e corruptível», a saber, aquela que está sujeita à geração e à corrupção. Pois este tipo de matéria falta nos corpos celestes, nos quais há um tipo de alteração na medida em que são iluminados e privados de luz, mas não há geração nem corrupção. Daí ele ter dito «uma», por causa da mudança de lugar, ou «duas», por causa do tipo de alteração que se acaba de mencionar, embora esta realmente não seja alteração, porque a iluminação não é movimento, mas o termo do movimento. Assim, devemos pôr a matéria para toda mudança, conforme haja em tudo o que muda um vir-a-ser, seja em sentido absoluto, seja em sentido qualificado. A diferença entre o vir-a-ser em sentido absoluto e em sentido qualificado foi explicada na Física, Livro I; pois o vir-a-ser em sentido absoluto pertence à substância, e o vir-a-ser em sentido qualificado pertence aos acidentes.

Lição 2 - A Forma Inferida a Partir das Diferenças Acidentais nas Substâncias Sensíveis. Definição Tríplice de Todas as Coisas

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 2: 1042b 9-1043a 28

699. Mas, uma vez que aquilo que possui o caráter de sujeito ou matéria foi admitido por todos como substância, e isto é o que está em potência, resta explicar o que é que constitui a substância das coisas sensíveis no sentido de atualidade.

700. Ora, Demócrito é como alguém que pensa que há três diferenças nas coisas. Pois ele sustenta que o corpo subjacente, como matéria, é o mesmo para todas as coisas, mas que difere em contorno, que é a figura; ou em disposição, que é a posição; ou em distribuição, que é o arranjo.

701. Contudo, parece haver muitas diferenças, na medida em que algumas coisas são ditas em razão do modo como suas partes materiais são combinadas; por exemplo, algumas coisas são combinadas por mistura, como a água com mel; outras por amarração, como a faixa em volta da cabeça; outras por cola, como um livro; outras por um prego, como um baú; e outras de várias dessas maneiras. Outras diferem pela posição, como uma soleira e uma verga, pois estas diferem, em certo sentido, segundo sua posição; outras diferem em relação ao tempo, como o jantar e o café da manhã; outras com respeito ao lugar, como as correntes de ar; outras em razão de propriedades sensíveis, como dureza e moleza, densidade e rarefação, secura e umidade. E algumas coisas diferem por algumas dessas diferenças e outras por todas elas juntas; umas por excesso e outras por defeito.

702. Por esta razão, é evidente que o ser também é usado no mesmo número de maneiras; pois uma soleira é tal porque está colocada nesta posição particular, e ser soleira significa estar colocada em tal e tal posição; e ser gelo significa estar congelado de tal e tal maneira. No entanto, o ser de algumas coisas será definido em todas estas maneiras: umas por serem misturadas; outras por serem combinadas; outras por serem atadas; outras por serem condensadas; e outras por outras diferenças, como uma mão e um pé.

703. Além disso, devemos considerar as classes de diferenças, pois estas serão os princípios do ser das coisas, como diferenças em grau, ou em densidade e rarefação, e outras tais como estas; pois todas são instâncias de excesso e defeito. De fato, se [algo difere] seja em figura, seja em lisura e aspereza [estas são redutíveis a diferenças] em retidão e curvatura. Além disso, o ser de algumas coisas consistirá em serem misturadas, e o seu não-ser consistirá no estado oposto.

704. É evidente, então, a partir destes exemplos, que, se a substância é a causa do ser de cada coisa que é composta destas diferenças, devemos buscar a causa do ser de cada uma delas entre estas diferenças. Ora, a substância não é nenhuma destas diferenças nem qualquer combinação delas; no entanto, ela é encontrada analogamente em cada uma. E, assim como no caso da substância, aquilo que é predicado da matéria é a própria atualidade, de maneira semelhante isso é mais verdadeiro no caso de outras definições. Assim, se uma soleira tem que ser definida, diremos que é um pedaço de madeira ou pedra colocado em tal e tal posição; e diremos que uma casa é tijolos e madeiras colocados em tal e tal posição. (Ou, novamente, em alguns casos, há também a causa final). E se o gelo tem que ser definido, diremos que é água congelada ou condensada de tal e tal maneira; e diremos que uma harmonia é tal e tal combinação de notas agudas e graves. [E devemos proceder] da mesma maneira também nas outras coisas.

705. A partir destes exemplos, então, é evidente que matérias diferentes têm uma atualidade e estrutura inteligível diferentes; pois, para algumas coisas, é a combinação, para outras, a mistura, e para outras, algumas daquelas diferenças mencionadas acima.

706. Portanto, entre aqueles que dão definições, aqueles que afirmam o que é uma casa dizendo que é pedras, tijolos e madeiras estão falando de uma casa potencial; pois estes são a sua matéria. Mas aqueles que dizem que é um abrigo para proteger bens e corpos, ou acrescentando alguma outra propriedade tal, falam de sua atualidade. E aqueles que falam de ambos juntos falam do terceiro tipo de substância, que é a coisa composta destes. Pois a estrutura inteligível que é expressa por meio de diferenças parece ser a da forma ou atualidade de uma coisa, mas aquela que é expressa pelas partes intrínsecas de uma coisa é antes a de sua matéria. O mesmo é verdadeiro acerca das definições que Arquitas aprovava, pois elas são ambas juntas. Por exemplo, O que é quietude? Repouso numa grande extensão de ar, onde o ar é como matéria e o repouso como atualidade ou substância. O que é calmaria? Lisura do mar, onde o mar é como sujeito ou matéria, e a lisura como atualidade ou forma.

707. Pelo que foi dito, então, é evidente o que é a substância sensível e como ela existe; pois, em um sentido, ela tem o caráter de matéria, e, em outro, o caráter de forma (porque é atualidade), e, em um terceiro sentido, é a coisa composta destas.

COMENTÁRIO

1691. Tendo investigado o princípio material nas substâncias sensíveis, o Filósofo examina seu princípio formal.

Primeiro (699:C 1691), ele conecta esta discussão com a anterior, dizendo que, uma vez que todos reconhecem a substância no sentido de matéria e sujeito (pois mesmo os filósofos mais antigos sustentavam que a matéria é a substância das coisas materiais), e este tipo de substância é algo potencial, resta agora explicar o que é a forma, que é a atualidade das coisas sensíveis.

1692. Ora, Demócrito é como alguém (700).

Em seguida, ele executa sua intenção; e a esse respeito, faz duas coisas. Primeiro (700:C 1692), examina as diferenças nas coisas sensíveis que indicam um princípio formal. Segundo (705:C 1699), tira algumas conclusões ("A partir desses exemplos").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, examina certas diferenças acidentais das coisas sensíveis. Segundo (704:C 1696), mostra como essas diferenças se relacionam com as diferenças substanciais ("É evidente").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro, investiga as diferenças acidentais das coisas sensíveis. Segundo (702:C 1694), mostra como essas diferenças se relacionam com aquelas coisas das quais são diferenças ("Por essa razão").

Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro (700), apresenta a opinião de Demócrito sobre as diferenças das coisas. Diz que Demócrito é como alguém que pensa "que existem três diferenças nas coisas", ou seja, de acordo com os princípios que ele apresenta, parece pensar que todas as diferenças das coisas se reduzem a três classes. Pois ele sustentava que os princípios materiais das coisas são corpos indivisíveis, que, sendo da mesma natureza, são semelhantes entre si; mas que constituem uma diversidade de coisas porque diferem em posição, forma e arranjo. Assim, parece sustentar que o corpo subjacente, como princípio material, é um e o mesmo em natureza, embora dividido em um número infinito de partes, e que difere, ou seja, é dividido em coisas diferentes, devido a diferenças de forma, posição e arranjo. Pois as coisas diferem em figura por serem retas ou curvas; em posição, por estarem acima ou abaixo, à direita ou à esquerda; e em arranjo, por estarem antes ou depois.

1693. No entanto, parece que há (701).

Segundo, ele mostra que a posição de Demócrito é insatisfatória, porque parecem existir muitas outras diferenças das coisas que não são redutíveis às anteriores. Pois algumas coisas diferem pela maneira diferente como suas partes materiais são combinadas: em algumas coisas, as partes materiais são combinadas por mistura, como água com mel; em outras, por serem amarradas por algum laço, como a faixa ao redor da cabeça de uma mulher; em outras, por cola ou visgo, como ocorre em livros; em outras, por um prego, como ocorre em um baú; e em outras, as partes são unidas de várias das maneiras mencionadas. Por outro lado, algumas coisas diferem entre si por sua posição, como uma verga e uma soleira, que diferem porque são colocadas de tal e tal maneira — uma estando acima e a outra abaixo. Novamente, algumas diferem em termos de tempo, como o jantar, que é a refeição tardia, do café da manhã, que é a refeição matinal. Outras diferem com respeito ao lugar, como "as correntes de ar", i.e., os ventos, dos quais o aquilão vem do norte, o favônio do oeste, o austro do sul e o subsolano do leste. Outras diferem "em razão das qualidades dos corpos sensíveis", i.e., pela dureza ou maciez e outras características desse tipo; e algumas coisas diferem de várias dessas maneiras, e outras de todas elas. E algumas diferem por excesso e outras por defeito. Ele acrescenta isso porque os antigos filósofos sustentavam que todas as qualidades dos corpos sensíveis se reduzem a excesso ou defeito.

1694. Por essa razão (702).

Ele mostra a maneira como essas diferenças se relacionam com aquelas coisas das quais são diferenças. A esse respeito, faz duas coisas. Primeiro (702), mostra que essas diferenças constituem o ser das coisas das quais são diferenças. Segundo (703:C 1695), conclui que, para apreender os princípios do ser, devemos reduzir essas diferenças a certas classes primárias de diferenças ("Além disso, devemos considerar").

Primeiro, então, ele diz que, porque essas diferenças são constitutivas das coisas que mencionamos acima, é evidente que o ser das realidades mencionadas é diversificado de acordo com essas diferenças; pois uma diferença completa a definição, que significa o ser de uma coisa. Assim, uma soleira é esta coisa particular "porque é colocada em tal e tal posição", e seu ser, i.e., sua estrutura inteligível própria, consiste em ser colocada em tal e tal posição. Similarmente, ser gelo é ser condensado de tal e tal maneira. E por cada uma das diferenças mencionadas, o ser de coisas de um certo tipo é diferenciado: algumas por serem misturadas; outras por serem combinadas; e outras por outras diferenças, como uma mão e um pé e outras partes desse tipo que têm diferenças peculiares próprias na medida em que são direcionadas para certas operações definidas.

1695. Além disso, devemos considerar (703).

Ele conclui que, uma vez que o ser das coisas consiste em suas diferenças e deve ser conhecido dessa maneira, valerá a pena apreendermos as classes de diferenças reduzindo as diferenças secundárias de uma classe às diferenças primárias; porque diferenças comuns e próprias desse tipo serão os princípios do ser de toda uma classe. Isso é evidente nas diferenças de grau, de rarefação e densidade, e em outras coisas desse tipo; pois densidade e rarefação e similares são reduzidas à classe do grande e do pequeno, porque todas essas significam excesso e defeito. Similarmente, se as coisas diferem em figura ou em aspereza ou lisura, estas são reduzidas a diferenças de retidão e curvatura, que são as diferenças primárias de figura. Novamente, é necessário que algumas sejam reduzidas a serem misturadas ou não misturadas; pois o ser de algumas coisas consiste no fato de serem misturadas, e seu não ser no estado exatamente oposto.

1696. É evidente, então (704).

Ele mostra como essas diferenças se relacionam com as substâncias das coisas. Diz que agora é evidente, pelo que foi dito, que devemos tentar descobrir nessas diferenças a causa formal do ser de cada coisa, se é dessa maneira que a substância em um sentido formal, ou a quididade de uma coisa, é a causa do ser de cada coisa, como ficou claro no Livro VII (682-90:C 1648-80). Pois essas diferenças significam a forma ou quididade das coisas acima mencionadas. No entanto, nenhuma dessas diferenças é substância ou algo semelhante à substância, como se pertencesse ao gênero da substância; mas a mesma proporção é encontrada nelas como no [gênero da] substância.

1697. Pois, assim como no gênero da substância a diferença, que é predicada do gênero e o qualifica para constituir uma espécie, está relacionada ao gênero como atualidade ou forma, assim também é verdadeiro em outras definições.

(~) Pois não devemos entender que a diferença é forma ou que o gênero é matéria, já que gênero e diferença são predicados da espécie, mas matéria e forma não são predicadas do composto. (+) Mas falamos dessa maneira porque o gênero de uma coisa é derivado de seu princípio material, e sua diferença, de seu princípio formal.

O gênero do homem, por exemplo, é animal, porque significa algo que possui uma natureza sensitiva, que se relaciona como matéria à natureza intelectual, da qual racional, a diferença do homem, é extraída. Mas racional significa algo que possui uma natureza intelectual.

É por essa razão que um gênero contém suas diferenças potencialmente, e que gênero e diferença são proporcionais à matéria e à forma, como diz Porfírio. E por essa razão também se diz aqui que "atualidade", i.e., a diferença, é predicada "da matéria", i.e., do gênero; e o mesmo ocorre em outros gêneros.

1698. Pois se alguém deseja definir uma soleira, dirá que é uma peça de pedra ou madeira colocada em tal e tal posição; e nessa definição, pedra ou madeira é como matéria e posição como forma. Similarmente, na definição de uma casa, pedras e madeiras são como matéria, e estar combinadas de tal e tal maneira como forma. E novamente nas definições de algumas coisas, adiciona-se também seu fim, do qual depende a necessidade da forma. E assim também na definição de gelo, água é como matéria e estar congelado é como forma. Assim também na definição de uma harmonia, as notas agudas e graves são como matéria e a maneira como são combinadas é como forma. O mesmo se aplica em todas as outras definições.

1699. A partir desses exemplos (705).

Ele extrai duas conclusões adicionais do acima exposto. Primeiro, há diferentes atualidades ou formas para diferentes matérias. Pois em algumas coisas a atualidade consiste em ser combinado; em outras, em ser misturado, ou em alguma das diferenças acima mencionadas.

1700. Portanto, entre aqueles que (706).

Ele afirma a segunda conclusão; visto que em uma definição uma parte se relaciona com a outra como atualidade com matéria, algumas pessoas ao definir coisas dão uma definição inadequada ao declarar apenas sua matéria, como aqueles que definem uma casa por meio de cimento, pedras e madeiras, que são o material de uma casa; porque tal definição não significa uma casa atual, mas uma potencial. Aqueles que dizem que uma casa é um abrigo para bens e corpos vivos declaram a forma de uma casa, mas não sua matéria. No entanto, aqueles que declaram ambas definem a substância composta e, portanto, sua definição é uma definição completa. Mas o elemento conceitual que é derivado das diferenças pertence à forma, enquanto aquele que é derivado das partes intrínsecas pertence à matéria.

1701. As definições que Arquitas aceita são semelhantes a estas. Por exemplo, calmaria, que significa o estado da atmosfera quando está sem vento, é repouso numa grande extensão de ar; pois se apenas a menor quantidade de ar num recipiente está em repouso, não falamos de calmaria. Nesta definição, ar é como matéria e repouso como forma. Similarmente, quando uma bonança é definida como a lisura do mar, o mar é como matéria e lisura como forma. Ora, nessas definições a matéria é substância e a forma é um acidente; mas na definição de uma casa, a matéria são suas partes e a atualidade é a forma do todo.

1702. A partir do que (707).

Ele resume as coisas ditas sobre a forma. O texto é claro aqui.

LIÇÃO 3 - A Natureza da Forma como Parte da Essência de uma Coisa. A Semelhança entre Números e Formas

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 3: 1043a 29-1044a 14

708. E não devemos desconsiderar o fato de que às vezes não é aparente se um nome significa a substância composta ou a atualidade ou forma; por exemplo, se casa significa tanto a forma quanto a matéria juntas, i.e., um abrigo composto de tijolos, madeiras e pedras arranjados de tal e tal maneira, ou se significa a atualidade ou forma — um abrigo; e se linha significa dualidade em comprimento ou dualidade; e se animal significa uma alma num corpo ou uma alma, pois esta última é a substância ou atualidade de algum corpo.

709. Ora, animal também se aplicará a ambos, não no sentido de que ambos são expressos por um significado, mas na medida em que estão relacionados a alguma coisa una.

710. Essas distinções fazem diferença em relação a algo mais, mas não para a investigação das substâncias sensíveis, porque a essência dessa outra coisa consiste na forma ou atualidade. Pois a alma e a essência da alma são o mesmo, mas o homem e a essência do homem não são o mesmo, a menos que o homem seja também chamado de alma. E em algumas coisas, essência e coisa são idênticas e em outras não.

711. Assim, para aqueles que fazem investigações, não parece que uma sílaba consista de letras e sua combinação, nem que uma casa consista de tijolos e sua combinação. E isso é verdade, porque uma combinação ou mistura não consiste das coisas das quais é a combinação ou mistura. Nem, da mesma forma, qualquer uma das outras diferenças. Se uma soleira, por exemplo, é constituída por sua posição, a posição não é constituída pela soleira, mas sim esta por aquela. Nem o homem é animal e bípede, mas deve haver algo mais além disso, se isso é matéria. Ora, isso não é nem um elemento nem uma combinação de elementos, mas a substância; mas, omitindo isso, eles falam apenas de matéria. Portanto, se isso é a causa do ser de uma coisa, e isso é sua substância, eles não estarão enunciando sua substância.

712. Ora, isso deve ser ou eterno ou corruptível sem estar em processo de corrupção, e gerado sem estar em processo de geração. Mas foi demonstrado e esclarecido em outro lugar (611) que ninguém produz uma forma, nem ela é gerada; mas é esta coisa particular que é produzida e vem a ser a partir desses princípios.

713. Mas se as substâncias das coisas corruptíveis são separáveis ou não, ainda não está claro.

714. É evidente, no entanto, que isso pode não ocorrer no caso de algumas coisas, ou seja, no caso de todas aquelas que são incapazes de existir separadamente das coisas particulares, por exemplo, uma casa ou um vaso.

715. Na verdade, talvez nem essas coisas particulares nem nenhuma das outras que não são produzidas pela natureza sejam substâncias. Pois, pelo menos, pode-se sustentar que apenas a natureza das coisas corruptíveis é substância.

716. Por esta razão, o problema que confrontou Antístenes e outras pessoas incultas é aplicável aqui, ou seja, que não se pode definir o que uma coisa é (pois, segundo eles, a definição é uma afirmação longa), mas se pode dizer como ela é; por exemplo, não se pode dizer o que a prata é, mas se pode dizer que ela é como o estanho. Portanto, de um tipo de substância pode haver um limite ou definição, ou seja, do composto, seja ele sensível ou inteligível. Mas isso não pode ser verdade para as partes primárias das quais ele é composto, já que o conceito definitório designa algo como determinando outra coisa, e um destes deve ter o caráter de matéria e o outro o de forma.

717. Além disso, também é claro que, se os números são, em algum sentido, substâncias, eles são assim dessa maneira e não (como grupos) de unidades, como alguns afirmam. Pois uma definição é como um número e é divisível em partes indivisíveis, porque as definições não são compostas de um número ilimitado de partes; e isso também é verdade para os números.

718. E assim como, quando qualquer parte que constitui um número é subtraída ou adicionada, o mesmo número não permanece, mas um diferente, ainda que o mínimo seja subtraído ou adicionado, também nem a definição nem a essência serão mais as mesmas quando algo for subtraído ou adicionado.

719. E deve haver algo em razão do qual um número é uma coisa, embora eles não possam dizer o que o faz ser uma coisa; ou seja, se é uma coisa. Pois ou ele não é uma coisa, mas como um monte, ou, se é uma coisa, é necessário afirmar o que o faz ser uma coisa a partir de muitos. E uma definição é uma coisa; mas eles também são incapazes de dizer o que a faz ser uma coisa; e isso segue como uma consequência natural. Pois, pelo mesmo argumento, a substância também é uma coisa da maneira que explicamos, mas não, como alguns afirmam, como sendo um tipo de unidade ou ponto, mas como uma atualidade e um tipo de natureza.

720. E assim como o número não admite mais ou menos, também a substância no sentido de forma não admite; mas se fosse o caso [seria aquela substância que está unida] à matéria.

721. No que diz respeito à geração e corrupção das substâncias anteriores, de que modo isso é possível e de que modo é impossível, e no que diz respeito à semelhança que elas têm com os números, estabelecemos essas coisas até este ponto.

COMENTÁRIO

1703. Tendo investigado os princípios das substâncias sensíveis e mostrado que as substâncias sensíveis são compostas de matéria e forma, o objetivo do Filósofo aqui é estabelecer a verdade sobre os princípios formal e material das coisas, investigando os pontos que devem ser considerados sobre cada um.

Isso se divide em duas partes. Na primeira (708:C 1705), ele investiga as coisas que devem ser consideradas sobre o princípio formal. Na segunda (722:C 1729), ele investiga as coisas que devem ser consideradas sobre o princípio material ("Sobre as substâncias materiais").

1704. E, como Platão foi quem dedicou um tratamento especial ao princípio formal, por isso Aristóteles trata do princípio formal em referência àquelas coisas que Platão estabeleceu. Ora, Platão afirmava que as espécies [ou seja, Formas ou Ideias separadas] e os números são as formas das coisas. Portanto, a primeira parte se divide em duas seções. Na primeira (708:C 1705), ele trata do princípio formal em relação às espécies [ou Ideias]; e na segunda (717:C 1722), em relação aos números (“Ademais, também é claro”).

Ora, Platão sustentava quatro coisas a respeito das formas em relação às espécies [ou Ideias]. A primeira delas é que os nomes específicos significam apenas a forma e não a forma com a matéria. A segunda é que a forma é algo além das partes materiais. A terceira é que a forma não pode ser gerada nem corrompida. A quarta é que as formas são separadas das coisas sensíveis.

A primeira parte se divide em quatro seções, na medida em que Aristóteles investiga os quatro pontos mencionados. A segunda (711:C 1712) começa onde ele diz “Assim, para aqueles.” A terceira (712:C 1715) começa onde ele diz “Ora, isso deve.” A quarta (713:C 1717) começa onde ele diz “Mas se”.

1705. Em relação ao primeiro, ele faz três coisas. Primeiro (708) ele levanta uma questão. Devemos entender, diz ele, que para alguns homens há o problema se um nome específico significa a substância composta ou apenas a forma ou algo com o status de atualidade; por exemplo, se a palavra casa significa tanto a matéria quanto a forma juntas, de modo que casa significa um abrigo feito de tijolos e pedras devidamente arranjados (pois abrigo é como forma, e tijolos e pedras como matéria), ou se essa palavra significa apenas a atualidade ou forma, um abrigo.

1706. Da mesma forma, há o problema se a palavra linha significa dualidade e comprimento ou apenas dualidade. Ele menciona isso porque os platônicos afirmavam que os números são as formas das quantidades contínuas; pois diziam que um ponto é meramente o número um tendo posição, de modo que a posição é uma espécie de princípio material, e o número um um princípio formal. Igualmente, afirmavam que o número dois é a forma de uma linha, de modo que uma linha é meramente a dualidade no comprimento. Portanto, o Filósofo pergunta se a palavra linha significa apenas a dualidade como forma, ou a dualidade fundada no comprimento como forma na matéria. E, novamente, há o problema se a palavra animal significa uma alma num corpo como forma na matéria, ou apenas uma alma, que é a forma de um corpo orgânico.

1707. Ora, animal também se aplicará (709).

Ele mostra o que se segue se alguém disser que os nomes específicos são usados em ambos os sentidos, de modo que às vezes significam apenas a forma e às vezes a forma na matéria. E o resultado é que animal será tomado de um ou de outro significado, não de modo unívoco, como se fosse predicado com um único significado, mas de modo analógico, como acontece no caso daquelas coisas que têm um nome por estarem relacionadas a uma coisa. Pois o nome específico será predicado do composto apenas em razão da relação com aquilo que é predicado segundo a forma apenas, como os platônicos sustentavam. Pois eles afirmavam que o homem, que é um composto de matéria e forma, é assim nomeado porque participa da Ideia de homem, que é apenas uma forma.

1708. Essas distinções (710).

Em seguida, o Filósofo mostra o resultado a que conduz a investigação mencionada. Ele diz que, embora a questão de saber se um nome específico significa a substância composta ou apenas a forma (+) faça diferença em relação a algo mais, (~) não faz diferença para a investigação da substância sensível. Pois é evidente que uma substância sensível é composta de matéria e forma.

1709. (+) A que tipo de coisa isso faz diferença, se para aquelas neste estado ou em outro, ele esclarece a seguir. Pois é óbvio que, se existe algo que é apenas forma ou atualidade, sua essência “consiste nisto”, ou seja, a coisa e sua essência serão idênticas, assim como uma alma é idêntica à sua essência, ou é a sua própria quididade.

Mas se uma coisa é composta de matéria e forma, então, nesse caso, a própria coisa e sua essência não serão o mesmo; por exemplo, um homem e a essência de um homem não são o mesmo, a menos que, talvez, um homem seja dito ser apenas uma alma, como defendiam aqueles que dizem que os nomes específicos significam apenas a forma. Assim, é evidente que algo existe cuja essência é o mesmo que si mesmo, ou seja, tudo o que não é composto de matéria e forma, mas é apenas uma forma.

1710. A razão para essa posição é que a essência é o que a definição significa, e a definição significa a natureza da espécie. Mas, se existe algo que é composto de matéria e forma, então nessa coisa deve haver algum outro princípio além da natureza da espécie. Pois, como a matéria é o princípio de individuação, então em qualquer coisa composta de matéria e forma deve haver certos princípios individuantes distintos da natureza da espécie. Logo, tal coisa não é apenas sua própria essência, mas é algo além disso. Mas, se existe tal coisa que é apenas uma forma, ela não terá princípios individuantes além da natureza de sua espécie. Pois uma forma que existe por si mesma é individuada por si mesma. Portanto, essa coisa não é nada além de sua própria essência.

1711. É claro, então, que, se o nome específico significa apenas a forma, a essência de qualquer coisa será (+) o mesmo que seu ser, assim como um homem será sua essência, e um cavalo sua essência, e também todas as outras coisas desse tipo.

Mas, se os nomes específicos significam coisas compostas de matéria e forma, então tais coisas (~) não serão o mesmo que sua essência.

1712. Assim, para aqueles que (711).

Aqui ele trata do segundo ponto mencionado acima, ou seja, que a forma é algo adicional às partes materiais. Ele diz que, para os platônicos, ao levantar essa questão, não parece que uma sílaba consiste em seus elementos e sua combinação, como se a combinação, que é a forma de uma sílaba, fosse uma parte material de uma sílaba como seus elementos ou letras. Tampouco lhes parece que uma casa consiste em pedras e sua combinação, como se uma casa fosse constituída por essas como partes materiais.

1713. E neste ponto suas observações são verdadeiras, porque, se a forma fosse uma das partes materiais, ela dependeria da matéria. Mas vemos que isso é falso; pois a combinação ou mistura, que são princípios formais, não são constituídas pelas coisas que são combinadas ou misturadas; nem qualquer outro princípio formal é constituído por sua matéria, mas o contrário. Pois uma soleira é constituída pela posição, que é sua forma, e não o contrário.

1714. Portanto, se alguém sustenta que animal e bípede são a matéria do homem, o homem não será animal e bípede, mas será algo além disso. E isso não será um elemento nem algo composto de elementos, mas será apenas uma forma, como afirmam os platônicos, que omitem a matéria das definições. Mas parece que devemos sustentar, em oposição a essa posição, que, se apenas a forma, separada da matéria, é a substância ou princípio de ser de uma coisa, eles não poderão dizer que esta coisa particular é aquela substância separada; isto é, não poderão dizer que este homem, como entidade sensível, é composto de matéria e forma, mas que o homem é apenas uma forma.

1715. Agora, isso deve (712).

Ele considera o terceiro ponto mencionado acima, ou seja, a posição dos platônicos de que as formas são eternas e incorruptíveis. Daí ele conclui, a partir do que foi dito, que ou uma forma deve ser eterna, como os platônicos sustentavam quando afirmavam que as Ideias, que chamavam de formas das coisas, são eternas; ou uma forma deve ser corruptível por razão de outra coisa sem ser corrompida em si mesma, e, da mesma forma, deve vir a ser por razão de outra coisa sem vir a ser em si mesma. Isso está de acordo com a posição de Aristóteles, que não sustenta que as formas sejam separadas, mas que existem na matéria.

1716. Além disso, a afirmação de que as formas não podem ser corrompidas nem geradas em si mesmas (710-12:C 1708-15), na qual cada um dos pontos acima mencionados se baseia, Aristóteles procede a demonstrar pela razão do que foi mostrado anteriormente, ou seja, que ninguém faz ou produz uma forma, nem uma forma é gerada ou produzida em si mesma; mas é esta coisa particular que vem a ser ou é gerada em si mesma. E a razão é que tudo o que vem a ser vem a ser a partir da matéria. Portanto, uma vez que esta coisa particular é composta de matéria e forma, ela vem a ser ou é gerada "a partir desses princípios", i.e., a partir de seus princípios materiais e individuantes. Mas foi dito acima (711:C 1714) que uma forma não é um elemento nem algo composto de elementos. Portanto, segue-se que uma forma nem vem a ser nem é gerada em si mesma.

1717. Mas se as substâncias (713).

Ele examina o quarto ponto apresentado acima, ou seja, a posição de Platão de que as formas são separadas da matéria. Com relação a isso, ele faz três coisas. Primeiro, expõe qual é o problema nessa posição, dizendo que não está claro se "as substâncias", i.e., as formas, das coisas corruptíveis são separáveis como os platônicos afirmavam.

1718. É evidente, no entanto (714).

Segundo, ele indica o que parece ser evidente sobre este ponto. Ele diz que é evidente que as formas de algumas coisas corruptíveis não são separáveis, ou seja, "todas aquelas" que são incapazes de existir separadas de suas matérias, como uma casa ou um vaso, porque nem a forma de uma casa nem a de um vaso pode existir separada de sua matéria própria.

1719. De fato, talvez (715).

Terceiro, ele impede uma objeção, dizendo que talvez as formas dos artefatos não sejam substâncias ou algo por direito próprio, e, portanto, não podem ter existência separada. Nem tampouco outras formas artificiais, que não têm existência natural, porque nos artefatos apenas a matéria é considerada substância, enquanto as formas dos artefatos são acidentes. As formas naturais, no entanto, pertencem à classe da substância; e é por isso que Platão não sustentou que as formas dos artefatos existem separadas da matéria, mas apenas as formas substanciais.

1720. Por esta razão (716).

Ele apresenta argumentos que são claramente opostos à posição de Platão. Ele diz que se alguém sustenta que há formas separadas, como os platônicos mantinham, o problema que os seguidores de Antístenes levantaram, embora pareçam ser ignorantes, pode ser usado contra os platônicos. Pois eles argumentavam que é impossível definir uma coisa por meio de uma definição que significa sua quididade, já que a quididade de uma coisa é simples e não é adequadamente expressa por uma afirmação composta de muitas partes. Pois vemos que "o limite", ou definição, que é dado a uma coisa, é uma afirmação extensa composta de muitas palavras. Portanto, ela não significa o que uma coisa é, mas "como ela é", i.e., algo ao qual é semelhante; como se alguém dissesse que a definição de prata não significa prata, mas significa algo como chumbo ou estanho.

1721. Portanto, para resolver esse problema, devemos dizer que a substância que é definida, seja ela intelectual ou sensível, deve ser uma que é composta. Mas, uma vez que as partes primárias das quais uma definição é composta são simples, elas são incapazes de definição. Pois foi dito acima (706:C 1700) que a afirmação definitória junta uma parte a outra, uma das quais é como forma e a outra como matéria, porque o gênero é derivado da matéria e a diferença da forma, como foi apontado acima (704:C 1696-8). Portanto, se as espécies das coisas fossem apenas formas, como os platônicos sustentavam, elas seriam indefiníveis.

1722. Além disso, também fica claro (717).

Após determinar o que é verdadeiro sobre as formas em relação às Ideias introduzidas por Platão, Aristóteles agora "determina o que é verdadeiro sobre as formas em relação aos números". Pois Platão sustentava que os números são as formas e as substâncias das coisas, estabelecendo uma espécie de semelhança entre formas e números. Isso se divide em quatro partes, na medida em que há quatro maneiras pelas quais ele compara as formas aos números.

Primeiro, ele diz que, se os números são, de algum modo, as substâncias ou formas das coisas, é evidente que eles são tais dessa maneira, como se pode entender do que foi dito anteriormente, mas não como números de unidades, como diziam os platônicos. Ora, um número de unidades é chamado de número simples e absoluto [isto é, um número abstrato], mas o número aplicado às coisas é chamado de número concreto, como quatro cães ou quatro homens; e dessa maneira as substâncias das coisas, que são significadas por uma definição, podem ser chamadas de números. Pois uma definição é divisível em duas partes, uma das quais é como forma e a outra como matéria, como foi apontado acima (706:C 1700). E é divisível em partes indivisíveis; pois, como as definições não podem prosseguir ao infinito, a divisão de uma definição deve terminar em certas partes indivisíveis. Por exemplo, se a definição de homem é dividida em animal e racional, e a definição de animal em animado e sensível, isso não prosseguirá ao infinito. Pois é impossível haver um regresso infinito nas causas material e formal, como foi mostrado no Livro II (152:C 299). Assim, ele explica que a divisão de uma definição não é como a divisão de uma quantidade contínua, que é divisível ao infinito, mas é como a divisão de um número, que é divisível em partes indivisíveis.

1723. E assim como quando (718).

Ele apresenta a segunda maneira pela qual a substância que a definição significa é semelhante ao número. Ele diz que, se algo é adicionado ou subtraído de qualquer número, mesmo que seja um mínimo, o número resultante não será especificamente o mesmo. Pois, no caso dos números, o mínimo é o número um, que, quando adicionado ao número três, dá origem ao número quatro, que é um número especificamente diferente; mas se for subtraído do mesmo número, resta o número dois, que também é um número especificamente diferente. E isso é verdade porque a diferença última confere a um número sua espécie.

1724. E é semelhante no caso das definições e da essência, que a definição significa; porque, por menor que seja a parte que tenha sido adicionada ou subtraída, resulta outra definição e outra natureza específica. Pois apenas substância animada sensível é a definição de animal, mas se você também adicionar racional a isso, estabelece a espécie homem. E de modo semelhante, se você subtrair sensível, estabelece a espécie planta, porque a diferença última também determina a espécie.

1725. E deve haver (719).

Ele apresenta a terceira maneira pela qual as formas são semelhantes aos números. Ele diz que um número é uma coisa. Pois um número é uma unidade essencial, na medida em que a unidade última confere a um número sua espécie e unidade, assim como nas coisas compostas de matéria e forma, uma coisa é una e deriva sua unidade e espécie de sua forma. E por essa razão, aqueles que falam sobre a unidade de um número como se um número não fosse essencialmente uno não podem dizer o que o torna uma coisa, isto é, se ele é uno. Pois, como um número é composto de muitas unidades, ou ele não é una coisa em sentido absoluto, mas suas unidades são unidas à maneira de um monte, o que não constitui uma unidade em sentido absoluto e, portanto, não um ser em qualquer classe de coisas (e assim o número não seria uma classe de ser); ou, se é una coisa em sentido absoluto e um ser em si mesmo, ainda é necessário explicar o que o torna una coisa a partir de uma pluralidade de unidades. Mas eles são incapazes de atribuir uma razão para isso.

1726. Similarmente, uma definição é una coisa essencialmente, e assim eles não precisam atribuir nada que a torne una. Isso é compreensível, porque a substância que a definição significa é una coisa pela mesma razão que um número é, isto é, essencialmente, porque uma parte dela está relacionada à outra como forma [à matéria]. E é una, não por ser algo indivisível, como uma unidade e um ponto, como alguns afirmavam, mas porque cada uma delas é uma forma e uma espécie de natureza.

1727. E assim como o número (720).

Ele apresenta a quarta maneira pela qual as formas são semelhantes aos números. Ele diz que, assim como um número não admite mais ou menos, também a substância no sentido de forma não admite, embora talvez a substância no sentido de matéria admita tal diferença. Pois, assim como o conceito de número consiste em algum limite ao qual nem adição nem subtração podem ser feitas, como foi apontado (1723), assim também o conceito de forma.

Mas as coisas admitem mais ou menos devido ao fato de a matéria participar de uma forma de maneira mais ou menos perfeita. Daí também a brancura não difere em termos de mais ou menos, mas uma coisa branca difere.

1728. Em relação à geração (721).

Ele resume os pontos discutidos. Ele diz que tratou da "geração e corrupção de tais substâncias", ou formas, tanto quanto ao modo como isso é possível, a saber, por razão de outra coisa; quanto ao modo como isso é impossível, isto é, essencialmente; e também da semelhança que as formas têm com os números, isto é, reduzindo-as a números por meio de uma semelhança.

LIÇÃO 4 - O que Devemos Saber sobre a Matéria. Como a Matéria É Encontrada em Todas as Coisas

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulos 4 e 5: 1044a 15-1045a

722. Quanto à substância material, não devemos ignorar o fato de que, embora todas as coisas venham do mesmo primeiro [princípio] ou dos mesmos [princípios] ou primeiras [causas], e embora a mesma matéria seja o primeiro princípio das coisas que vêm a ser, ainda assim existe alguma matéria própria de cada coisa; por exemplo, a primeira matéria da fleuma é o doce ou o gorduroso, mas a da bile é o amargo ou algo mais. Mas talvez estas venham da mesma matéria.

723. Além disso, há várias matérias da mesma coisa quando uma vem de outra, como a fleuma vem do gorduroso e do doce, se o gorduroso vem do doce. E algo vem da bile ao dissolver a bile em sua primeira matéria. Pois uma coisa vem de outra de dois modos: ou porque é anterior à outra [no processo de desenvolvimento] ou porque vem da dissolução de uma coisa em seu primeiro princípio.

724. Ora, quando há uma só matéria, é possível que coisas diferentes venham a ser por virtude da causa de movimento, como um baú e uma cama vêm da madeira. Mas de certas coisas a matéria é necessariamente diferente quando as coisas são diferentes; por exemplo, uma serra não pode ser feita de madeira, e não está no poder da causa de movimento fazer isso; pois ele é incapaz de fazer uma serra de lã ou de madeira. Mas se a mesma coisa pode ser feita de matérias diferentes, é claro que a arte e o princípio que atua como motor são os mesmos. Pois se tanto a matéria quanto a causa de movimento são diferentes, também o será a coisa que é feita.

725. Portanto, quando se pergunta qual é a causa de algo, é necessário mencionar todas as causas envolvidas, já que causas são ditas em vários sentidos. Por exemplo: Qual é a causa material do homem? O fluido menstrual. Qual é a sua causa motora? A semente. Qual é a sua causa formal? Sua essência. Qual é a sua causa final? Seu fim. Mas talvez ambas sejam a mesma.

726. É necessário também dar as causas próximas. Qual é a matéria do homem? Não terra ou fogo, mas sua matéria própria.

727. De fato, concernente às substâncias naturais que são geráveis, é necessário proceder deste modo, se alguém há de proceder corretamente, admitindo que estas são as causas, que são deste número, e que é necessário conhecer as causas.

728. No caso das substâncias naturais que são eternas, há outro procedimento. Talvez algumas delas não tenham matéria ou não tenham este tipo de matéria, mas apenas aquela que é submetida à mudança de lugar.

729. Assim, todas aquelas coisas que são por natureza mas não são substâncias não têm matéria, mas o sujeito subjacente é a sua substância. Por exemplo: Qual é a matéria de um eclipse? Não há nenhuma, mas é a lua que é o paciente. Qual é a causa eficiente que destrói a luz? A terra. Qual é a causa final? Talvez não haja nenhuma. Qual é a causa formal? A definição. Mas esta não será clara se não incluir a causa [eficiente]. Por exemplo: O que é um eclipse? Uma privação de luz. E se alguém acrescenta, como resultado da interposição da terra, esta definição é uma que inclui a causa [eficiente]. No entanto, no caso do sono, não está claro qual é o sujeito primário, embora esteja claro que o animal é também um sujeito primário. Mas é assim em um sentido qualificado. E qual é o sujeito primário, o coração ou alguma outra parte? Então, por que [essa modificação é produzida]? E qual é essa modificação que pertence a essa [parte] e não ao todo? É este um tipo especial de imobilidade? É, mas pertence [ao animal] por razão de algum sujeito primário.

Capítulo 5

730. Mas visto que algumas coisas são e não são, sem geração e corrupção, tais como pontos, se de fato existem, e em geral as formas e princípios especificadores das coisas, então todos os contrários não vêm uns dos outros. Pois a brancura não vem a ser, mas a madeira branca vem; e tudo que vem a ser vem de algo e torna-se algo. E o homem branco vem do homem negro e o branco vem do negro de modos diferentes. Nem todas as coisas têm matéria, mas apenas aquelas que podem ser geradas e transformadas umas nas outras. Não há matéria naquelas coisas que são e não são sem sofrer mudança.

731. Novamente, há o problema de como a matéria de cada coisa se relaciona com os contrários. Por exemplo, se o corpo é potencialmente saudável e o oposto de saúde é doença, o corpo é potencialmente ambos? E a água é potencialmente vinho e vinagre? Ou ela se relaciona a um como matéria para sua forma ou atualidade, e ao outro como a privação e corrupção natural [de sua forma ou atualidade]?

732. Ora, isso levanta o problema de por que o vinho não é a matéria do vinagre, embora o vinagre venha dele, e por que o vivente não é o potencialmente morto; ou se não é este o caso, mas as corrupções destes ocorrem em virtude de outra coisa. De fato, a matéria de um corpo vivente é, por corrupção, a potência e a matéria de um corpo morto, e a água é a matéria do vinagre; pois eles vêm uns dos outros como a noite vem do dia. Portanto, quaisquer coisas que são transformadas umas nas outras deste modo devem retornar à sua matéria. Por exemplo, se um corpo vivente há de vir de um morto [este último deve retornar] à sua primeira matéria, e então um corpo vivente vem a ser. E o vinagre [deve retornar] à água, e então o vinho vem a ser.

COMENTÁRIO

1729. Após tratar dos pontos que deveriam ser considerados sobre o princípio formal da substância, Aristóteles agora estabelece o que é verdadeiro a respeito do princípio material. Isso se divide em três partes. Primeiro (7:22:C 1729), ele trata do princípio material em relação às coisas que vêm da matéria; segundo (724:C 1733), em relação às outras causas ("Ora, quando há uma matéria"); e terceiro (730:C 1746), em relação à mudança de geração e corrupção, cujo sujeito é a matéria ("Mas, visto que algumas coisas").

Quanto à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro (722), mostra se há um ou vários tipos de matéria, ou se há várias matérias para todas as coisas. E a respeito do princípio material, diz que não se deve ignorar o fato de que, embora todas as coisas venham do mesmo primeiro princípio material, isto é, a matéria primeira, que não tem forma própria, ou dos mesmos princípios materiais "ou primeiras [causas]" (o que é acrescentado por causa dos quatro elementos, os princípios materiais comuns a todas as coisas geráveis e corruptíveis), e embora a mesma matéria seja "o primeiro princípio das coisas que vêm a ser" (o que ele acrescenta devido ao fato de que a matéria não é apenas um princípio de ser, mas também de vir-a-ser), ou seja, embora a matéria primeira e os elementos estejam universalmente relacionados às coisas compostas pelos elementos, ainda há alguma matéria própria de cada coisa. Por exemplo, a matéria própria da fleuma (não em sentido absoluto, mas genericamente) é o gorduroso e o doce, pois estes têm uma certa relação com a fleuma devido à sua umidade. Mas a matéria primeira da bile são coisas amargas ou outras deste tipo; pois nas coisas amargas, o calor parece ter domínio absoluto sobre a umidade, a ponto de destruí-la. Assim, devido à secura e ao calor, o amargo tem uma relação com a bile. Mas talvez essas duas matérias, a saber, o amargo e o doce, venham de algum princípio material anterior. Ele acrescenta "talvez" porque certas coisas têm matérias diferentes, já que suas matérias não são redutíveis a qualquer matéria anterior, por exemplo, corpos corruptíveis e incorruptíveis.

1730. Pelas coisas que são ditas aqui, então, é evidente que há uma primeira matéria para todas as coisas geráveis e corruptíveis, mas matérias próprias diferentes para coisas diferentes.

1731. Ademais, há várias matérias (723).

Segundo, ele aponta como, em sentido oposto, há várias matérias para uma mesma coisa. Diz que há várias matérias da mesma coisa quando uma delas é a matéria da outra, como a matéria da fleuma é o gorduroso e o doce, se o gorduroso vem do doce. Pois o sabor do gorduroso é contado entre os sabores intermediários, e estes são produzidos a partir dos extremos, que são o doce e o amargo. Mas o gorduroso é o mais próximo do doce. Ora, nestes exemplos, devemos ter em mente que ele toma como matéria de cada coisa aquilo a partir do qual a coisa vem a ser, mesmo que não seja permanente, mas transitório.

1732. Portanto, para que alguém não pense que uma coisa é sempre dita vir de um princípio material, e não o contrário, ele acrescenta que algo também é dito vir da bile pela dissolução da bile em sua matéria primeira, e, em ordem inversa, a bile é dita vir da matéria primeira. Pois uma coisa é dita vir de outra de duas maneiras: ou porque a coisa da qual ela vem é naturalmente seu ponto de partida no processo de geração (pois este tipo de coisa é um princípio material); ou porque o processo de vir-a-ser é a dissolução de uma coisa em seu princípio material, ou seja, no sentido de que um princípio material é dito vir de um composto por dissolução. Pois um corpo misto vem dos elementos pelo processo de composição, enquanto os elementos vêm de um corpo misto pelo processo de dissolução.

1733. Ora, quando há uma matéria (724).

Ele estabelece o que é verdadeiro sobre a matéria em relação às outras causas. Primeiro, em relação apenas à causa agente, que produz algo a partir da matéria; e esta relação pertence à matéria enquanto ela é um princípio de vir-a-ser. Segundo (725:C 1737), em relação a todas as causas, conforme a matéria constitui um princípio de conhecimento ("Portanto, quando se pergunta").

Mas, como ele disse acima (722:C 1729) que havia uma primeira matéria de todas as coisas, pode-se perguntar como uma diversidade de coisas poderia vir de uma única matéria comum. Pois os antigos filósofos da natureza atribuíam isso ao acaso quando desconsideravam a causa agente e afirmavam que a diversidade das coisas vem de uma única matéria por um processo de rarefação e condensação.

1734. Portanto, ao rejeitar isso, o Filósofo diz, primeiro (724), que quando há uma matéria, é possível que coisas diferentes venham a existir devido à causa do movimento, seja porque há causas de movimento diferentes, seja porque uma mesma causa de movimento está disposta de maneira diferente para produzir efeitos diferentes. Isso é mais evidente no caso das coisas feitas pela arte. Pois vemos que um baú e uma cama são feitos de madeira por um mesmo artesão em virtude das diferentes formas de arte que ele próprio possui.

1735. Mas, mesmo que haja uma primeira matéria comum a todas as coisas, as matérias próprias de coisas diferentes são diferentes. Portanto, para que alguém não atribua a diversidade das coisas em sua totalidade à causa do movimento e de modo algum ao princípio material, ele acrescenta que em algumas das coisas que são diferentes, a matéria é necessariamente diferente, a saber, a matéria própria. Pois nem tudo é naturalmente disposto a vir a ser a partir de qualquer matéria, como uma serra não vem da madeira. Nem está ao alcance do artesão realizar isso; pois ele nunca atribui uma única matéria a cada obra, porque não é capaz de fazer uma serra nem de madeira nem de lã, que, devido à sua maciez, não são adequadas para o trabalho de uma serra, que é cortar.

1736. É evidente, então, que a diversidade das coisas é resultado da causa eficiente e da matéria. Portanto, se for adequado que algo especificamente idêntico seja produzido a partir de uma matéria diferente, como uma tigela de ouro e de prata, é óbvio que o princípio eficiente, ou seja, a arte, deve ser o mesmo. Pois se tanto a matéria quanto a causa do movimento fossem diferentes, a coisa produzida teria que ser diferente.

1737. Portanto, quando se pergunta (725). Ele trata da matéria em relação às outras causas conforme a matéria é um princípio de conhecimento. Quanto a isso, ele faz duas coisas. Primeiro (725), mostra que, no caso das coisas geráveis e corruptíveis, devemos atribuir matéria juntamente com as outras causas. Segundo (728:C 1740), mostra como a matéria é encontrada nas substâncias naturais que são eternas ("No caso das substâncias naturais"). Terceiro (729:C 1743), explica como a matéria é atribuída aos acidentes ("Assim, todas aquelas coisas").

Quanto à primeira, ele faz três coisas. Pois, primeiro (725), visto que os antigos filósofos da natureza atribuíam apenas a causa material, ele diz que, quando se pergunta qual é a causa de algo, é necessário afirmar todas as causas "envolvidas", ou seja, todas as que contribuem para o ser da coisa em questão, já que as causas são ditas em vários sentidos. Pois nem todas as coisas têm todas as causas, embora os seres naturais, e especialmente os geráveis e corruptíveis, tenham todas as causas. Por exemplo, na geração do homem, sua causa material é o fluido menstrual; sua causa ativa é o sêmen, no qual o poder ativo está contido; sua causa formal é sua essência, que é significada pela definição; e sua causa final é seu fim [ou objetivo]. Mas talvez essas duas causas, a saber, o fim e a forma, sejam numericamente as mesmas. Ele diz isso porque em algumas coisas elas são as mesmas e em outras não. Pois o objetivo da geração de um homem é sua alma, enquanto o objetivo de suas operações é a felicidade.

1738. É necessário também (726).

Em segundo lugar, mostra que não é necessário apenas atribuir todas as causas, mas também declarar as causas próximas, para que, começando pelas primeiras causas, possamos chegar às próximas. Pois o conhecimento de uma coisa através das primeiras causas é apenas um conhecimento geral e incompleto, enquanto o conhecimento de uma coisa através das causas próximas é um conhecimento completo. Por exemplo, se alguém pergunta sobre a causa material do homem, não deve atribuir como sua causa o fogo ou a terra, que são a matéria comum de todas as coisas geráveis e corruptíveis, mas deve declarar sua matéria própria, como carne e ossos e similares.

1739. De fato, quanto às substâncias naturais (727).

Terceiro, ele resume o que foi dito. Diz que é necessário proceder assim em relação às substâncias naturais e geráveis, se alguém quiser considerar corretamente as causas, dando todas as causas, incluindo as próximas. Isso é necessário tendo em vista que as causas são desse número, como foi explicado (725:C 1737). E é necessário apreender as causas de uma coisa para que ela possa ser conhecida cientificamente, porque a ciência é um conhecimento da causa.

1740. No caso das substâncias naturais (728).

Ele mostra como há matéria nas substâncias naturais que são eternas, a saber, nos corpos celestes. Diz que a matéria nas substâncias naturais que são eternas, ou seja, nos corpos celestes, não é a mesma que a dos corpos sujeitos à geração e corrupção. Pois talvez tais substâncias não tenham matéria, ou, se a têm, não têm o tipo de matéria que os corpos geráveis e corruptíveis possuem, mas apenas aquela que está sujeita ao movimento local.

1741. Pois, como foi dito acima (725:C 1737), no caso das coisas geráveis e corruptíveis, a geração e a corrupção nos levam ao conhecimento da matéria; porque no processo de geração e corrupção deve haver um sujeito comum tanto à privação quanto à forma. Portanto, como em um corpo celeste não há potencialidade para a privação da forma, mas apenas para lugares diferentes, ele não tem uma matéria que está em potência para a forma e a privação, mas uma que está em potência para lugares diferentes.

1742. No entanto, um corpo se relaciona com o lugar não como a matéria se relaciona com a forma, mas como o sujeito se relaciona com o acidente. E embora em um aspecto um sujeito se relacione com um acidente como a matéria se relaciona com a forma, ainda assim um sujeito não deve ser identificado com a matéria, como é dito abaixo (729:C 1743). Assim, um corpo celeste como tal não tem matéria de forma alguma, se sujeito não implica matéria; ou tem matéria quanto ao lugar, se sujeito implica matéria.

Matéria

1743. Assim, todos aqueles (729).

Ele mostra como a matéria é atribuída aos acidentes. Diz que aquelas coisas que existem por natureza, mas não são substâncias, e sim acidentes, (~) não têm uma matéria da qual elas venham a ser, mas (+) têm um sujeito, que é a substância. Ora, um sujeito tem alguma semelhança com a matéria, na medida em que é receptivo de um acidente. Mas difere da matéria neste aspecto: enquanto a matéria só tem ser atual através da forma, um sujeito não é constituído no ser por um acidente.

1744. Portanto, se alguém pergunta qual é a causa de um eclipse, não se pode dar sua (~) matéria, mas a lua é o (+) sujeito que sofre essa modificação.

E a causa eficiente que extingue a luz é a terra colocada diretamente entre o sol e a lua.

Mas talvez seja impossível dar a causa final; pois aquelas coisas que dizem respeito a um defeito não existem por causa de algum fim, mas são antes um resultado da necessidade natural ou da necessidade da causa eficiente. No entanto, ele diz "talvez" porque uma investigação das causas de eventos particulares que ocorrem nos movimentos celestes é especialmente difícil.

E a causa formal de um eclipse é sua definição. Mas essa definição não é clara a menos que a causa [eficiente] seja dada nela. Assim, a definição de um eclipse lunar é a privação de luz na lua. Mas se alguém acrescenta que essa privação é causada pela terra estar colocada diretamente entre o sol e a lua, essa definição conterá a causa [eficiente].

1745. Isso também é evidente em relação ao acidente do sono. Mas no caso do sono, não é claro qual é o sujeito primário que sofre essa modificação, embora seja claro que o animal é o sujeito do sono. No entanto, não é claro a qual parte do animal o sono pertence primariamente — se ao coração ou a alguma outra parte; pois alguns homens sustentam que o órgão primário da sensação é o cérebro e outros o coração. No entanto, o sono é a cessação da operação sensorial. Então, tendo chegado a um acordo sobre o sujeito do sono, é necessário considerar a partir do que, como sua causa eficiente, o sono vem — se da evaporação do alimento, do trabalho físico ou de algo desse tipo. Em seguida, devemos considerar que modificação o sono é, [definindo] seu sujeito primário, que será alguma parte do animal e não o animal inteiro. Pois o sono é um tipo de imobilidade. Mas pertence primariamente a um animal em razão de alguma parte que é o sujeito de tal modificação. Ora, na definição do sono, devemos declarar esse sujeito primário, assim como na definição de todo acidente devemos declarar seu sujeito primário e próprio. Pois a cor é definida pela superfície, mas não pelo corpo.

746. Mas uma vez que alguns "podem ser" e "não ser" sem geração e corrupção (730).

Ele trata da matéria em relação ao processo pelo qual uma coisa é transformada em outra. Portanto, primeiro (730), ele mostra como a mudança ocorre de maneiras diferentes em coisas diferentes. Segundo (731:C 1748), ele propõe alguns problemas ("Novamente, há o problema").

Ele diz, primeiro (730), que algumas coisas às vezes são e às vezes não são, mas "sem geração e corrupção", ou seja, sem serem geradas e corrompidas em si mesmas, por exemplo, pontos e todos os princípios especificantes e formas em geral, sejam substanciais ou acidentais. Pois, propriamente falando, o branco não vem a ser, mas a madeira branca sim; pois tudo o que vem a ser vem "de algo", i.e., da matéria, e vem a ser aquilo em que o processo de vir a ser é terminado, que é a forma. Assim, tudo o que vem a ser é composto de matéria e forma. Logo, aquelas coisas que são apenas formas não podem vir a ser em si mesmas. Portanto, quando se diz que os contrários vêm a ser uns dos outros, isso tem um significado no caso das coisas compostas e outro no caso das coisas simples. Pois o homem branco vem do homem negro de uma maneira diferente do que o branco vem do negro, porque o homem branco significa um composto e pode, portanto, vir a ser em si mesmo. Mas o branco significa apenas uma forma e, portanto, vem a ser do negro apenas por causa de outra coisa.

1747. A partir do exposto, então, fica claro que a matéria não existe em tudo, mas apenas naquelas coisas que são geradas ou transformadas essencialmente umas nas outras. No entanto, aquelas coisas que às vezes são e às vezes não são, sem serem transformadas essencialmente, são tais que sua matéria não é aquilo de onde elas vêm, mas elas têm como sua matéria o sujeito no qual existem.

1748. Novamente, há o problema (731).

Ele levanta duas questões em relação ao que foi dito. A primeira delas diz respeito ao modo como a matéria se relaciona com os contrários, ou seja, se em todas as coisas que parecem ter contrariedade ou oposição, a matéria está em potência para cada contrário igualmente e na mesma ordem. Pois a saúde é uma certa igualdade dos humores, enquanto a doença é sua desigualdade. Mas tanto a desigualdade quanto a igualdade estão relacionadas ao seu sujeito na mesma ordem. Portanto, parece que a água, que é a matéria dos humores, está em potência para o vinho e o vinagre como contrários, e está disposta igualmente para ambos.

1749. Mas, ao resolver este problema, o Filósofo diz que isso não é verdade. Pois a forma do vinho é um certo estado positivo e natureza, enquanto a forma do vinagre é a privação e corrupção do vinho. Logo, a matéria está disposta primeiro ao vinho como um estado positivo e forma, mas ao vinagre como a privação e corrupção do vinho. E assim ela se relaciona com o vinagre apenas através do meio do vinho.

1750. Agora, isso levanta o problema (732).

Ele propõe um segundo problema, que é o seguinte. Aquilo de onde uma coisa vem a ser parece ser a matéria dessa coisa; por exemplo, os corpos mistos vêm a ser a partir dos elementos, que constituem sua matéria. Portanto, uma vez que o vinagre vem do vinho e um corpo morto de um vivo, surge o problema de por que o vinho não é a matéria do vinagre e um corpo vivo a matéria de um corpo morto, já que um está relacionado ao outro como a potência está para o ato.

1751. Mas a resposta para isso é que o vinagre é a corrupção do próprio vinho, e um corpo morto é a corrupção de um corpo vivo. Logo, o vinagre não vem do vinho como matéria, nem um corpo morto de um vivo; mas diz-se que um vem do outro em virtude de outra coisa, na medida em que vem de sua matéria. Portanto, a matéria de uma tigela não é um copo, mas prata. Similarmente, um corpo vivo não é a matéria de um corpo morto, mas os elementos o são.

1752. Mas porque se diz que um corpo morto vem de um vivo ou vinagre de vinho, esta preposição "de" significará ordem se for feita referência à própria forma do vinho ou do corpo vivo; pois na mesma matéria, após a forma do vinho, vem o vinagre, e após a forma de um corpo vivo, vem um corpo morto. E é desta maneira que dizemos que a noite vem do dia. Portanto, em todas as coisas que vêm umas das outras desta forma, como o vinagre do vinho e um corpo morto de um vivo, o processo de mudança é revertido apenas quando essas coisas são dissolvidas em sua matéria. Por exemplo, se um corpo vivo deve vir de um morto, este último deve primeiro ser dissolvido em sua matéria prima, na medida em que um corpo morto é dissolvido nos elementos; e a partir dos elementos novamente, na devida ordem, um corpo vivo é constituído. O mesmo ocorre em relação ao vinagre e ao vinho.

1753. A razão para isso é que, sempre que a matéria está disposta a diferentes formas em uma certa ordem, ela não pode ser trazida de volta de um estado subsequente para um que é anterior nessa ordem. Por exemplo, na geração de um animal, o sangue vem do alimento; e o sêmen e o fluido menstrual, a partir dos quais o animal é gerado, vêm do sangue. Mas esta ordem não pode ser invertida de modo que o sangue venha do sêmen e o alimento do sangue, a menos que estes sejam resolvidos em sua matéria prima; porque para cada coisa há um modo definido de geração. E o mesmo [no outro caso], porque a matéria do vinho se relaciona com o vinagre apenas através do meio do vinho, ou seja, na medida em que é a corrupção do vinho. O mesmo também é verdadeiro para um corpo morto e um vivo, para um cego e um que enxerga, e assim por diante. Portanto, a partir de tais privações, pode haver um retorno a uma forma anterior apenas quando tais coisas são dissolvidas na matéria prima.

1754. No entanto, se existe alguma privação à qual a matéria está imediatamente disposta, e isso não significa nada além da não-existência da forma na matéria que carece de uma disposição para a forma, então o processo de reverter de tal privação para uma forma [anterior], como da escuridão para a iluminação, será possível porque isso [i.e., a escuridão] nada mais é do que a ausência de luz no meio transparente.

LIÇÃO 5 - Por que as Definições e as Matérias são Unidades. A União da Matéria e da Forma

TEXTO DE ARISTÓTELES — Livro VIII, Capítulo 6: 1045a 7–1045b 23

733. Parece que devemos discutir a seguir o problema que foi mencionado a respeito das definições e dos números: o que é que os faz serem unos. Pois todas as coisas que têm várias partes, e das quais o todo não é uma espécie de amontoado, mas é algo além das partes, têm alguma causa que as faz unas. Pois, em alguns corpos, o contato é a causa de sua unidade, e, em outros, a viscosidade ou alguma outra qualidade desse tipo. Mas uma definição é uma estrutura inteligível una, não pela conexão de suas partes, como a Ilíada, mas por ser uma coisa una. Que é, então, que faz o homem ser uno; e por que ele é uma coisa una e não muitas, por exemplo, animal e bípede?

734. E se, de um modo diferente, como alguns afirmam, há um animal-em-si e um bípede-em-si, por que o homem não é essas duas coisas? E, se fosse esse o caso, os homens não seriam tais por participarem no homem, isto é, por participarem em uma coisa una, mas em duas, a saber, em animal e bípede. Daí, em geral, o homem não será uma coisa una, mas muitas, a saber, animal e bípede.

735. É evidente, então, que aqueles que aceitam essa posição e discutem e definem as coisas do modo como estão acostumados a fazer não podem encontrar uma resposta ou solução para este problema. Mas, se (como dizemos) uma parte é como matéria e a outra como forma, ou uma está em potência e a outra em ato, o problema com o qual estamos lidando não mais parecerá ser uma dificuldade.

736. Pois este problema é exatamente o mesmo que teríamos se a definição de manto fosse bronze redondo. Ora, suponhamos que este termo é o sinal dessa definição. Então, quando alguém pergunta o que faz o redondo e o bronze serem uma coisa una, não haverá mais um problema, porque um é como matéria e o outro como forma. Que é, então, à parte da causa eficiente, que faz o que está em potência tornar-se em ato no caso das coisas que são geradas? Pois não há outra causa de a esfera em potência ser uma esfera em ato; mas esta era a essência de cada uma.

737. Ademais, alguma matéria é inteligível e alguma é sensível. E uma parte de uma definição é sempre como matéria e a outra como atualidade; por exemplo, um círculo é uma figura plana.

738. Mas cada uma daquelas coisas que não têm matéria, seja inteligível, seja sensível, é imediatamente uma coisa una, assim como é um ente: uma coisa particular, uma qualidade ou uma quantidade; e, por esta razão, nem o ente nem a unidade são expressos em suas definições. E sua essência é imediatamente uma coisa una, assim como é também um ente. Por esta razão, não há alguma outra causa de cada uma delas ser una ou de ser algo; pois cada uma é imediatamente um ente e uma unidade, não como pertencendo à classe do ente ou da unidade, nem porque essas distinções existam separadamente das coisas singulares.

739. E é por causa desta dificuldade que alguns homens falam de participação e levantam a questão sobre o que causa a participação e o que é participar. Pois alguns falam da coexistência da alma, como Licofron, que diz que o conhecimento é a coexistência do ato de conhecer e da alma; e outros dizem que a vida é a composição ou conexão da alma com o corpo.

740. O mesmo argumento se aplica em todos os casos. Pois o ser sadio será ou a coexistência, ou a conjunção, ou a composição da alma e da saúde; e o ser um triângulo de bronze será a composição de bronze e triângulo; e o ser branco será a composição de superfície e brancura.

741. Ora, a razão desta posição é que esses pensadores estão procurando algum princípio unificador e diferença entre a potencialidade e a atualidade. Mas, como já assinalamos (736), tanto a matéria última como a forma são o mesmo, uma potencialmente e a outra atualmente. Daí, perguntar qual é a causa de sua unidade é o mesmo que perguntar o que as faz unas; pois cada coisa particular é uma unidade, e o que é potencial e o que é atual são, em certo sentido, uma coisa una. Daí, não há outra causa exceto aquela que causa o movimento da potencialidade à atualidade. E todas aquelas coisas que não têm matéria são simplesmente unas.

COMENTÁRIO

1755. Tendo tratado dos princípios material e formal, Aristóteles pretende agora resolver a questão sobre o modo pelo qual eles estão unidos entre si; e, com respeito a isso, ele faz três coisas. Primeiro (733:C 1755), ele levanta a questão. Segundo (735:C 1758), ele a responde («É evidente»). Terceiro (739:C 1765), ele rejeita as opiniões falsas sobre esta questão («E é por causa»).

Com respeito à primeira, ele dá duas razões para dizer que esta questão envolve uma dificuldade. Ele diz (733) que, com respeito à questão que foi tocada acima sobre as definições e os números, quanto ao que faz cada um deles ser uno, deve-se notar que todas as coisas que têm várias partes (e cujo todo não é meramente um amontoado de partes, mas é algo constituído de partes e está além das próprias partes) têm algo que as faz unas. Pois, em alguns corpos que têm unidade deste modo, o contato é a causa de sua unidade, e, em outros, a viscosidade ou algo mais desse tipo.

1756. Ora, é evidente que, embora um conceito definidor seja uma coisa una composta de muitas partes, não é uma coisa una meramente pela adição de suas partes, «como a Ilíada», isto é, o poema escrito sobre a história dos troianos, que é uma coisa una apenas por modo de agregação. Mas uma definição é uma coisa una em sentido absoluto, pois significa uma coisa una. É razoável, então, perguntar o que faz tanto a definição de homem ser uma coisa una, como também o próprio homem, cuja estrutura inteligível é a definição. Pois, uma vez que o homem é animal e bípede, e estes parecem ser duas coisas, é razoável perguntar por que o homem é uma coisa una e não muitas.

1757. E se, de um modo diferente (734).

Depois, ele dá a razão pela qual esta questão é um problema. Pois, se o que alguns homens afirmam é verdadeiro, isto é, se o próprio animal é uma coisa particular que existe por si mesma e é separada, e o mesmo é verdadeiro quanto ao bípede, como os platônicos sustentavam, então é razoável perguntar por que o homem não é essas duas coisas conectadas entre si, de modo que os homens particulares são tais somente por participarem no homem, e não por participarem em uma coisa una, mas em duas, animal e bípede. E, segundo isso, o homem não será uma coisa una, mas duas, a saber, animal e bípede.

1758. É evidente (735).

Ele resolve o problema acima; e, com respeito a isso, faz duas coisas. Primeiro, oferece uma explicação que parece fornecer uma solução ao problema. Ele diz que, se alguns homens aceitam as coisas que foram ditas sobre a posição de Platão e mudam as naturezas das coisas desse modo porque sustentam que os universais são separados, como os platônicos estavam acostumados a definir e a falar deles, será evidentemente impossível dar a causa da unidade de um homem ou resolver o problema precedente. Mas, se, como se afirmou acima (706:C 1700), alguém sustenta que, nas definições, uma parte é como matéria e a outra como forma, isto é, uma como potencialidade e a outra como atualidade, então será fácil resolver a questão, porque não parece haver um problema.

1759. Pois este problema (736).

Segundo, ele resolve este problema do modo supracitado. Primeiro, resolve-o no caso das substâncias naturais que são geradas e corrompidas. Ele diz que este problema seria o mesmo que se perguntássemos por que o bronze é redondo. Pois suponhamos que a definição do termo manto é bronze redondo, e que este termo significa essa definição. Então, quando alguém pergunta por que a definição bronze redondo é una, não parece haver problema algum, porque o bronze é como matéria e o redondo como forma. Pois não há outra causa de estes serem unos exceto aquela que faz o que está em potência tornar-se em ato. E, em tudo aquilo em que há geração, este é o agente. Daí, uma vez que isto (o que está em potencialidade para tornar-se em ato) é a essência significada pela definição, então, no caso das coisas sujeitas à geração e à corrupção, é evidentemente o agente que faz a definição da essência ser una.

1760. Ademais, alguma matéria (737).

Depois, ele resolve o problema acima com respeito aos objetos da matemática. Ele diz que a matéria é de dois tipos, sensível e inteligível.

A matéria sensível é o que pertence às qualidades sensíveis, quente e frio, raro e denso e coisas semelhantes; e com esta matéria os corpos naturais são concretados. Ora, os objetos da matemática abstraem deste tipo de matéria.

Mas a matéria inteligível significa o que é entendido sem qualidades sensíveis ou diferenças, por exemplo, o que é contínuo. E os objetos da matemática não abstraem deste tipo de matéria.

1761. Daí, seja no caso das coisas sensíveis, seja no dos objetos da matemática, suas definições devem sempre conter algo como matéria e algo como forma; por exemplo, na definição de um círculo matemático, um círculo é uma figura plana: plano é como matéria e figura como forma. Pois uma definição matemática e uma definição natural são cada uma coisa una pelos mesmos fundamentos (ainda que não haja agente no reino das entidades matemáticas como há no reino das entidades naturais), porque em ambos os casos uma parte da definição é como matéria e a outra como forma.

1762. Ele resolve o problema acima com respeito às coisas que são totalmente separadas da matéria. Ele diz que, no caso de todas aquelas coisas que não têm matéria inteligível, como os objetos da matemática têm, ou matéria sensível, como os corpos naturais têm, isto é, no caso das substâncias separadas, cada uma delas é imediatamente uma coisa una [individuada pela forma].

Pois cada uma daquelas coisas que têm matéria não é imediatamente uma coisa una, mas são unas porque a unidade advém à sua matéria. Mas, se há algo que é apenas uma forma, é imediatamente uma coisa una, porque é impossível pôr nela algo anterior em qualquer ordem que seja, que deva aguardar a unidade de uma forma.

1763. Ele dá este exemplo: as dez categorias não derivam o ser por acrescentar algo ao ente, do modo como as espécies são estabelecidas acrescentando diferenças aos gêneros, mas cada uma é ela mesma um ente. E, como isso é verdadeiro, é evidente que o ente não aguarda que algo lhe seja acrescentado para que se torne uma destas, isto é, ou substância, ou quantidade, ou qualidade; mas cada uma destas, desde o princípio, é imediatamente ou uma substância, ou uma quantidade, ou uma qualidade.

Esta é a razão pela qual nem a unidade nem o ente são dados como gênero nas definições, porque a unidade e o ente teriam de se relacionar como matéria com as diferenças, pela adição das quais o ente se tornaria ou substância, ou qualidade.

1764. Similarmente, aquilo que é totalmente separado da matéria e é sua própria essência, como se afirmou acima (1708), é imediatamente uma coisa una, assim como é um ente; pois não contém matéria que aguarde uma forma da qual derivará o ser e a unidade. No caso de tais coisas, então, não há causa que as faça unas por meio do movimento.

No entanto, algumas delas têm uma causa que sustenta suas substâncias sem que suas substâncias sejam movidas [as substâncias simples separadas dependem de Deus para a existência], e não como no caso das coisas sujeitas à geração, que vêm a ser por meio do movimento. Pois cada uma delas é imediatamente um ente particular e uma unidade, mas não de modo que o ente e a unidade sejam certos gêneros ou que existam como indivíduos à parte das coisas singulares, como os platônicos sustentavam.

1765. E é por causa (739).

Depois, ele rejeita a opinião falsa que alguns homens sustentaram sobre esta questão; e, com respeito a isso, ele faz três coisas.

Primeiro, ele enuncia a posição deles. Ele diz que é por causa deste problema que alguns, a saber, os platônicos, puseram a participação, pela qual os entes inferiores participam nos superiores; por exemplo, este homem particular participa no homem, e o homem no animal e no bípede. E eles perguntaram qual é a causa da participação e o que é participar, a fim de que lhes pudesse ficar claro por que esta coisa que chamo de animal bípede é uma coisa una. E outros sustentaram que a causa da unidade de um homem é uma certa consubstancialidade ou coexistência da alma com o corpo, como se o ser da alma com o corpo fosse significado em abstrato; como se falássemos de animação, como Licofron disse que o conhecimento é um meio entre a alma e o ato de conhecer; e outros disseram que a própria vida é o meio pelo qual a alma está unida ao corpo.

1766. O mesmo argumento (740).

Ele rejeita essas posições. Ele diz que, se a afirmação feita sobre a alma e o corpo é correta, isto é, que há algum meio que os une, o mesmo argumento se aplicará em todas as coisas que se relacionam como forma e matéria. Pois, segundo isso, o ser sadio será um meio como uma espécie de consubstancialidade ou uma espécie de conexão ou vínculo entre a alma, pela qual o animal subsiste, e a saúde. E o ser um triângulo será um meio que combina figura e triângulo. E o ser branco será um meio pelo qual a brancura está ligada à superfície. Isto é obviamente falso. Daí será falso que a animação seja um meio pelo qual a alma está unida ao corpo, uma vez que animação significa meramente ser animado.

1767. Ora, a razão (740).

Ele dá as razões do erro nas posições acima. Ele diz que a razão pela qual esses pensadores sustentaram tais opiniões é que eles buscavam algum princípio que tornasse a potencialidade e a atualidade uma coisa una, e procuravam as diferenças destas como se fosse necessário que fossem unidas por algum meio único, como coisas que são atuais e diversas. Mas, como se afirmou, tanto a matéria última, que é apropriada a uma forma, como a própria forma são o mesmo; pois uma delas é como potencialidade e a outra como atualidade. Daí, perguntar o que causa uma coisa é o mesmo que perguntar o que a faz ser una, porque cada coisa é una na medida em que é um ente. E a potencialidade e a atualidade são também unas em certo aspecto, pois é o potencial que se torna atual; e, assim, não é necessário que sejam unidas por algum vínculo, como aquelas coisas que são completamente diferentes. Daí, não há outra causa que produza a unidade das coisas que são compostas de matéria e forma, exceto aquela causa que move as coisas da potencialidade à atualidade. Mas aquelas coisas que simplesmente não têm matéria são, por si mesmas, alguma coisa una, assim como são algo existente. Estas explicações serão suficientes para o Livro VIII.