# Lição 15: A matéria se distingue da privação; ela não é gerável nem corruptível per se

*Bekker: 191 b 35-192 b 5*

> A MATÉRIA SE DISTINGUE DA PRIVAÇÃO\. A MATÉRIA NÃO É GERÁVEL NEM CORRUPTÍVEL *PER SE*

129\. Tendo excluído os problemas e erros dos filósofos antigos que decorrem de sua ignorância da matéria, o Filósofo aqui exclui os erros que decorrem de sua ignorância da privação\.

Sobre isso, ele faz três pontos\. Primeiro, expõe os erros daqueles que se desviaram da verdade\. Segundo, onde diz: 'Agora distinguimos\.\.\.' (192 a 2 #132), mostra como essa posição difere da verdade determinada por ele acima\. Terceiro, onde diz: 'Pois o que persiste\.\.\.' (192 a 13 #134), prova que sua própria opinião é verdadeira\.

130\. Ele diz, portanto, primeiro que alguns filósofos tocaram na matéria, mas não a compreenderam suficientemente\. Pois não distinguiram entre matéria e privação\. Logo, atribuíram à matéria o que pertence à privação\. E porque a privação, considerada em si mesma, é não-ser, disseram que a matéria, considerada em si mesma, é não-ser\. E assim, assim como uma coisa vem a ser simplesmente e *per se* a partir da matéria, eles acreditavam que uma coisa vem a ser simplesmente e *per se* a partir do não-ser\.

E foram levados a sustentar essa posição por duas razões\. Primeiro, foram influenciados pelo argumento de Parmênides, que disse que tudo o que é outro que o ser é não-ser\. Visto que, então, a matéria é outra que o ser, porque não é ser em ato, disseram que ela é não-ser simplesmente\. Segundo, parecia-lhes que aquilo que é um em número ou sujeito também é um em natureza [ *ratio* ]\. E Aristóteles chama isso de estado de ser um em potência, porque as coisas que são um em natureza [ *ratio* ] são tais que cada uma tem o mesmo poder\. Mas as coisas que são um em sujeito, mas não um em natureza [ *ratio* ], não têm a mesma potência ou poder, como é claro no branco e no musical\. Mas o sujeito e a privação são um em número, como, por exemplo, o bronze e o informe\. Logo, pareceu-lhes que eles seriam o mesmo em natureza [ *ratio* ] ou em poder\. Logo, esta posição aceita a unidade de potência\.

131\. Mas para que ninguém, por causa dessas palavras, duvide sobre o que é a potência da matéria e se ela é uma ou múltipla, deve-se apontar que ato e potência dividem todo gênero dos entes, como é claro na *Metafísica*, IX:1, e no Livro III [L3] desta obra\. Logo, assim como a potência para a qualidade não é algo fora do gênero da qualidade, também a potência para o ser substancial não está fora do gênero da substância\. Portanto, a potência da matéria não é uma propriedade acrescentada à sua essência\. Antes, a matéria em sua própria substância é potência para o ser substancial\. Além disso, a potência da matéria é uma em sujeito com respeito a muitas formas\. Mas em sua natureza [ *ratio* ] há muitas potências segundo sua relação com formas diferentes\. Daí que no Livro III ainda será dito que poder ser curado e poder estar doente diferem segundo a natureza [ *ratio* ]\.

132\. Em seguida, onde diz: 'Agora distinguimos\.\.\.' (192 a 2), ele explica a diferença entre sua própria opinião e a opinião dada há pouco\.

Sobre isso, ele faz dois pontos\. Primeiro, amplia nosso entendimento de sua própria opinião\. Segundo, onde diz: 'Eles, por outro lado\.\.\.' (192 a 6 #133), mostra o que a outra opinião sustenta\.

Ele diz, portanto, primeiro que há uma grande diferença entre uma coisa ser uma em número ou sujeito e ser uma em potência ou natureza [ *ratio* ]\. Pois dizemos, como está claro acima [L12 #104], que a matéria e a privação, embora uma em sujeito, são outras em natureza [ *ratio* ]\. E isso é claro por duas razões\. Primeiro, a matéria é não-ser acidentalmente, enquanto a privação é não-ser *per se*\. Pois 'informe' significa não-ser, mas 'bronze' não significa não-ser exceto na medida em que 'informe' ocorre estar nele\. Segundo, a matéria é 'próxima da coisa' e existe em certo aspecto, porque está em potência para a coisa e é em certo aspecto a substância da coisa, visto que entra na constituição da substância\. Mas isso não pode ser dito da privação\.

133\. Em seguida, onde diz: 'Eles, por outro lado\.\.\.' (192 a 6), ele esclarece seu entendimento da opinião dos platônicos\.

Ele diz que os platônicos também sustentaram uma certa dualidade por parte da matéria, a saber, o grande e o pequeno\. Mas essa dualidade é diferente da de Aristóteles\. Pois Aristóteles sustentou que a dualidade era matéria e privação, que são uma em sujeito mas diferentes em natureza [ *ratio* ]\. Mas os platônicos não sustentaram que um desses é privação e o outro matéria, mas juntaram a privação a ambos, i\.e\., ao grande e ao pequeno\. Ou tomaram ambos juntos, não distinguindo em seu discurso entre o grande e o pequeno, ou então tomaram cada um separadamente\. Donde fica claro que os platônicos, que puseram a forma e o grande e o pequeno, sustentaram três princípios completamente diferentes de Aristóteles, que pôs matéria e privação e forma\.

Os platônicos perceberam mais do que os outros filósofos antigos que é necessário supor alguma natureza única para todas as formas naturais, natureza essa que é a matéria primeira\. Mas eles a fizeram uma tanto em sujeito quanto em natureza [ *ratio* ], não distinguindo entre ela e a privação\. Pois embora sustentassem uma dualidade por parte da matéria, a saber, o grande e o pequeno, não fizeram nenhuma distinção entre matéria e privação\. Antes, falaram apenas da matéria, sob a qual incluíram o grande e o pequeno\. E ignoraram a privação, não fazendo menção dela\.

134\. Em seguida, onde diz: 'Pois o que persiste\.\.\.' (192 a 13), ele prova que sua opinião é verdadeira\. Sobre isso, ele faz dois pontos\. Primeiro, ele afirma sua posição, i\.e\., que é necessário distinguir a privação da matéria\. Segundo, onde diz: 'A matéria vem a ser\.\.\.' (192 a 25),¹ ele mostra como a matéria é corrompida ou gerada\.

Ele trata o primeiro ponto de duas maneiras: primeiro, por explicação, e segundo, reduzindo [a opinião oposta] ao impossível, quando diz: ‘\.\.\. o outro tal\.\.\.’ (192 a 18)\.

135\. Ele diz, portanto, primeiro que esta natureza que é o sujeito, isto é, a matéria, juntamente com a forma, é causa das coisas que vêm a ser segundo a natureza, à maneira de uma mãe\. Pois assim como uma mãe é causa da geração ao receber, assim também é a matéria\.

Mas, se considerarmos a outra parte da contrariedade, a saber, a privação, podemos imaginar, estendendo nosso entendimento, que ela não pertence à constituição da coisa, mas sim a algum tipo de mal para a coisa\. Pois a privação é totalmente não-ser, já que não é nada além da negação de uma forma em um sujeito, e está fora de todo o ser\. Assim, o argumento de Parmênides de que tudo o que é diferente do ser é não-ser tem lugar com relação à privação, mas não com relação à matéria, como disseram os platônicos\.

Ele mostra que a privação pertenceria ao mal da seguinte maneira\. A forma é algo divino e muito bom e desejável\. É divina porque toda forma é uma certa participação na semelhança do ser divino, que é ato puro\. Pois cada coisa, na medida em que está em ato, tem forma\. A forma é muito boa porque o ato é a perfeição da potência e é o seu bem; e disso segue como consequência que a forma é desejável, porque toda coisa deseja sua própria perfeição\.

A privação, por outro lado, é oposta à forma, já que não é nada além da remoção da forma\. Portanto, já que aquilo que é oposto ao bem e o remove é mal, é claro que a privação pertence ao mal\. Donde se segue que a privação não é o mesmo que a matéria, que é a causa de uma coisa como uma mãe\.

136\. Em seguida, onde ele diz: ‘o outro tal\.\.\.’ (192 a 18), ele prova a mesma coisa por um argumento que reduz [a posição oposta] ao impossível\.

Já que a forma é um tipo de bem e é desejável, a matéria, que é diferente da privação e diferente da forma, naturalmente busca e deseja a forma segundo sua natureza\. Mas, para aqueles que não distinguem a matéria da privação, isso envolve o absurdo de que um contrário busca sua própria corrupção, o que é absurdo\. Que isso seja assim, ele mostra da seguinte maneira\.

Se a matéria busca a forma, ela não busca a forma na medida em que está sob esta forma\. Pois, neste último caso, a matéria não necessita de ser através desta forma\. (Todo apetite existe por causa de uma necessidade, pois um apetite é um desejo por aquilo que não é possuído\.) Da mesma forma, a matéria não busca a forma na medida em que está sob o contrário ou a privação, pois um dos contrários é corruptivo do outro, e assim algo buscaria sua própria corrupção\. É claro, portanto, que a matéria, que busca a forma, é outra por natureza [*ratio*] tanto da forma quanto da privação\. Pois, se a matéria busca a forma segundo sua natureza própria, como foi dito, e se se sustenta que a matéria e a privação são as mesmas por natureza [*ratio*], segue-se que a privação busca a forma e, assim, busca sua própria corrupção, o que é impossível\. Portanto, é também impossível que a matéria e a privação sejam as mesmas por natureza [*ratio*]\.

No entanto, a matéria é ‘um isto’, isto é, algo que tem privação\. Portanto, se o feminino busca o masculino, e se o vil busca o bem, isso não ocorre porque a própria vileza busca o bem, que é seu contrário; antes, ela o busca acidentalmente, porque aquilo em que a vileza acontece de estar busca ser bom\. E, da mesma forma, a feminilidade não busca a masculinidade; antes, aquilo em que a feminilidade acontece de estar busca a masculinidade\. E, de modo semelhante, a privação não busca ser forma; antes, aquilo em que a privação acontece de estar, a saber, a matéria, busca ser forma\.

137\. Mas Avicena se opõe a esta posição do Filósofo de três maneiras\.

Primeiro, a matéria não tem apetite animal (como é óbvio por si mesmo) nem apetite natural, pelo qual buscaria a forma\. Pois a matéria não tem qualquer forma ou poder que a incline a algo, como, por exemplo, o pesado naturalmente busca o lugar mais baixo na medida em que é inclinado por sua pesadez a tal lugar\.

Em segundo lugar, ele objeta que, se a matéria busca a forma, isso se dá porque ela carece de toda forma, ou porque busca possuir muitas formas ao mesmo tempo, ambas coisas impossíveis, ou porque não gosta da forma que tem e busca ter outra forma, e isso também não tem sentido\. Portanto, parece que devemos dizer que a matéria de modo algum busca a forma\.

Sua terceira objeção é a seguinte\. Dizer que a matéria busca a forma como o feminino busca o masculino é falar figurativamente, isto é, como um poeta, não como um filósofo\.

138\. Mas é fácil resolver objeções desse tipo\. Pois devemos notar que tudo o que busca algo ou conhece aquilo que busca e se ordena a isso, ou então tende para isso pela ordenação e direção de alguém que conhece, como a flecha tende para um alvo determinado pela direção e ordenação do arqueiro\. Portanto, o apetite natural não é nada além da ordenação das coisas para seu fim de acordo com suas naturezas próprias\. No entanto, um ser em ato não é ordenado apenas ao seu fim por um poder ativo, mas também por sua matéria na medida em que é potência\. Pois a forma é o fim da matéria\. Portanto, para a matéria buscar a forma não é nada além de a matéria ser ordenada à forma como potência ao ato\.

E porque a matéria ainda permanece em potência para outra forma enquanto está sob alguma forma, há sempre nela um apetite pela forma\. Isso não se deve a uma aversão pela forma que tem, nem porque busca ser o contrário ao mesmo tempo, mas porque está em potência para outras formas enquanto tem alguma forma em ato\.

Ele também não usa aqui uma figura de linguagem; antes, emprega um exemplo\. Pois foi dito acima [L13 #118] que a matéria primeira é cognoscível por meio de proporção, na medida em que se relaciona às formas substanciais assim como as matérias sensíveis se relacionam às formas acidentais\. E, assim, para explicar a matéria primeira, é necessário usar um exemplo extraído das substâncias sensíveis\. Portanto, assim como ele usou o exemplo do bronze informe e o exemplo do homem não musical para explicar a matéria, agora, para explicar a matéria, ele usa o exemplo do apetite da mulher pelo homem e o exemplo do apetite do vil pelo bem\. Pois isso acontece com essas coisas na medida em que possuem algo que é da natureza [*ratio*] da matéria\. No entanto, deve-se notar que Aristóteles está aqui argumentando contra Platão, que usava tais expressões metafóricas, comparando a matéria a uma mãe e ao feminino, e a forma ao masculino\. E assim Aristóteles usa as próprias metáforas de Platão contra ele\.

139\. Em seguida, onde ele diz: 'A matéria vem a ser\.\.\. (192 a 25)', mostra como a matéria é corrompida\. Ele diz que, sob certo aspecto, a matéria é corrompida e, sob outro, não\. Pois, na medida em que a privação está nela, ela é corrompida quando a privação cessa de estar nela, como se disséssemos que o bronze informe é corrompido quando cessa de ser informe\. Mas em si mesma, na medida em que é um certo ser em potência, não é gerada nem corruptível\. Isso fica claro pelo que se segue\. Se a matéria viesse a ser, teria de haver algo que é o sujeito do qual ela vem a ser, como é claro pelo que foi dito acima [L12 #7,10ff]\. Mas aquilo que é o primeiro sujeito na geração é a matéria\. Pois dizemos que a matéria é o primeiro sujeito do qual uma coisa vem a ser *per se*, e não *per accidens*, e está na coisa depois de ela ter vindo a ser\. (E a privação difere da matéria em ambos esses pontos\. Pois privação é aquilo a partir do qual uma coisa vem a ser *per accidens*, e é aquilo que não está na coisa depois de ela ter vindo a ser\.) Segue-se, portanto, que a matéria existiria antes de vir a ser, o que é impossível\. E, de modo semelhante, tudo o que é corrompido se resolve na matéria primeira\. Portanto, no próprio momento em que a matéria primeira já é, ela seria corrompida; e, assim, se a matéria primeira é corrompida, terá sido corrompida antes de ser corrompida, o que é impossível\. Portanto, é impossível que a matéria primeira seja gerada e corrompida\. Mas com isso não negamos que ela venha à existência mediante a criação\.

140\. Em seguida, onde ele diz: 'A determinação precisa\.\.\.' (192 a 34), indica que, uma vez eliminados os erros sobre a matéria e a privação, também devem ser eliminados os erros e problemas sobre a forma\. Pois alguns postularam formas separadas, isto é, ideias, que reduziram a uma única ideia primeira\.

E assim ele diz que a filosofia primeira trata de questões como se o princípio formal é um ou múltiplo, e quantos são, e de que tipo são\. Portanto, essas questões serão reservadas para a filosofia primeira\. Pois a forma é um princípio de existir, e o ser enquanto tal é o sujeito da filosofia primeira\. Mas a matéria e a privação são princípios do ser mutável, que é considerado pelo filósofo natural\. No entanto, trataremos das formas naturais e corruptíveis nos livros seguintes desta disciplina\.

Finalmente, ele resume o que foi dito\. Foi determinado que existem princípios, quais são os princípios e quantos são\. Mas é necessário fazer um novo começo em nosso estudo da ciência natural, investigando, isto é, os princípios da ciência\.