# Lição 8: Dúvida acerca do Amor de Si

> *Pergunta-se, porém, se é preciso amar a si mesmo ao máximo ou a algum outro. \[1855\]*
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> *Pois censuram aqueles que amam ao máximo a si mesmos e, como coisa torpe, chamam-nos amadores de si. \[1856\]*
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> *E parece que o mau faz tudo por causa de si mesmo, e tanto mais quanto pior for; acusam-no, pois, como quem nada faz por si mesmo. Já o virtuoso age por causa do bem, e quanto melhor for, mais age por causa do bem e por amor do amigo, e negligencia o que é seu. \[1857\]*
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> *Mas com estas razões as obras dissoam, o que não é sem razão. Pois dizem que é preciso amar ao máximo o amigo, e amigo ao máximo é aquele que quer o bem àquele a quem o quer ao máximo por amor dele, mesmo que ninguém venha a saber; ora, estas coisas existem ao máximo no próprio homem para consigo mesmo. E igualmente todas as demais coisas pelas quais se determina o amigo; pois foi dito que dele procedem todas as coisas amigáveis que se dirigem aos outros. \[1858-1859\]*
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> *Mas também todos os provérbios estão de acordo, por exemplo este: Uma só alma, e Comuns são as coisas dos amigos, e A amizade é igualdade, e O joelho está próximo da canela. Pois todas estas coisas existem ao máximo para consigo mesmo; pois cada um é ao máximo amigo de si mesmo. E, portanto, deve-se amar ao máximo a si mesmo. \[1860\]*
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> *Pergunta-se, porém, convenientemente, a qual das duas opiniões se deve seguir, tendo ambas credibilidade. \[1861\]*
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> *Talvez, pois, seja preciso dividir tais argumentos e determinar em que medida e em que sentido cada um diz a verdade. Se, pois, tomarmos como cada um usa a expressão "amador de si", talvez se torne manifesto. \[1862\]*
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> *Assim, os que o tomam por opróbrio chamam amadores de si àqueles que atribuem a si mesmos mais em dinheiro, em honras e em prazeres corporais; pois estas coisas a maioria deseja e por elas se esforça como pelos entes ótimos, razão pela qual são também objeto de disputa. Ora, os que abundam nestas coisas dão-se às concupiscências e, em geral, às paixões e à parte irracional da alma. E tais são a maioria, razão pela qual a denominação foi tomada da maioria, que é má. Assim, com justiça, é censurado o amador de si nesse sentido. \[1863\]*
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> *Ora, não é obscuro que a maioria costuma chamar amadores de si os que atribuem a si mesmos tais coisas; pois, se alguém se esforça sempre por praticar as coisas justas mais do que todos, ou as temperantes, ou quaisquer outras das que são segundo as virtudes e, em geral, adquire sempre para si mesmo o bem, ninguém o chamará amador de si nem o vituperará. \[1865\]*

**1855**. ***Pergunta-se, porém*** etc. Depois que o Filósofo tratou da conservação e da dissolução da amizade e, de novo, das obras da amizade, aqui suscita algumas dúvidas acerca da amizade.

E primeiro por parte do que ama;

segundo por parte dos que são amados, ali: ***se, pois, os mais numerosos*** etc.

Acerca do primeiro, faz duas coisas:

primeiro resolve a dúvida sobre o amor do que ama para consigo mesmo;

segundo sobre o amor do que ama para com outrem, ali: ***pergunta-se, porém, também acerca do feliz*** etc.

Acerca do primeiro, faz três coisas:

primeiro propõe a dúvida;

segundo mostra que ela é razoável, ali: ***pois censuram*** etc.;

terceiro resolve, ali: ***talvez, pois, tais*** etc.

Diz, portanto, primeiro que a dúvida é se é preciso que alguém ame a si mesmo ao máximo ou a algum outro mais do que a si.

**1856**. Depois, quando diz: ***pois censuram*** etc., mostra que a dúvida é razoável.

E primeiro objeta por uma parte;

segundo pela outra, ali: *mas com estas razões* etc.;

terceiro conclui a duvidabilidade da questão, ali: *pergunta-se, porém* etc.

E acerca do primeiro faz duas coisas.

Acerca do primeiro, primeiro aduz o fato de que os homens censuram aqueles que amam ao máximo a si mesmos, e de que o serem alguns amadores de si é reputado como algo mau.

**1857**. Segundo, ali: ***e parece*** etc., aduz que o homem mau faz tudo por causa da sua utilidade e tanto mais observa isto quanto pior é, e quanto mais faz isto, mais é acusado pelos homens como quem nada faz fora de si mesmo, isto é, que seja por causa do bem dos outros, mas somente por causa do seu. Mas os homens virtuosos não agem apenas por causa de si mesmos, e antes agem por causa do bem honesto e por causa dos amigos, por causa dos quais muitas vezes negligenciam as suas próprias utilidades.

**1858**. Depois, quando diz: ***mas com estas razões*** etc., objeta pela parte contrária. E diz que das razões precedentes dissoam as obras, segundo as quais os homens se mostram amar ao máximo a si mesmos, e isto não sem razão.

Primeiro, porque, como os homens comumente dizem, é preciso que o homem ame ao máximo aquele que nos é ao máximo amigo; ora, aquele é ao máximo amigo de alguém que ao máximo lhe quer o bem por amor dele, ainda que nenhum outro o soubesse, coisas que existem ao máximo no homem para consigo mesmo (pois cada um quer ao máximo os bens para si); assim, pois, é patente que o homem deve amar ao máximo a si mesmo.

**1859**. Segundo, ali: ***e as demais coisas*** etc., aduz em favor desta parte o que foi dito. E diz que todas as demais coisas pelas quais se determina e se define quem é amigo existem ao máximo no homem para consigo mesmo; donde acima foi dito que todas as coisas amigáveis que se consideram em comparação aos outros procedem das coisas amigáveis que o homem experimenta para consigo mesmo.

**1860**. Em terceiro lugar, em ***mas também os provérbios*** etc., conduz ao mesmo ponto por meio de alguns provérbios. E diz que todos os provérbios que se dizem vulgarmente concordam nesta parte, a saber, que o homem ame a si mesmo ao máximo, como aquilo que se diz: que dois amigos são uma só alma, e que as coisas dos amigos são comuns, e que a amizade é uma certa igualdade, e que o amigo se relaciona com o amigo como o joelho com a canela, que têm máxima proximidade. Ora, por meio de tudo isso dá-se a entender que a amizade consiste em uma certa unidade, a qual pertence sobretudo a alguém em relação a si mesmo, e assim todos os provérbios mencionados verificam-se ao máximo de alguém em relação a si mesmo, e isso porque o homem é ao máximo amigo de si mesmo. E assim o homem deve amar a si mesmo ao máximo.

**1861**. Em seguida, quando diz: ***mas põe-se em dúvida*** etc., conclui a dubitabilidade da questão. E diz que convenientemente se põe em dúvida qual dessas razões mencionadas se deve seguir, uma vez que ambas têm algo de crível.

**1862**. Em seguida, quando diz: ***talvez, pois*** etc., resolve a dúvida proposta.

E primeiro determina o modo de resolver;

segundo, resolve, em: ***com efeito, para o opróbrio*** etc.

Diz, pois, primeiro que tais discursos que têm razões prováveis para uma e outra parte é preciso distinguir e determinar em que medida de uma e outra parte se diz algo de verdadeiro e em quê. E assim, se considerarmos de que modo alguém se diz amante de si segundo uma e outra parte das objeções, tornar-se-á manifesto aquilo que se busca.

**1863**. Em seguida, quando diz: ***com efeito, para o opróbrio*** etc., resolve a dúvida mencionada distinguindo.

E primeiro mostra de que modo se diz amante de si segundo aquilo pelo qual é censurado;

segundo, de que modo se diz segundo aquilo pelo qual é louvado, em: ***mas certamente parecerá*** etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, manifesta o propósito;

segundo, prova o que tinha dito, em: ***ora, uma vez que tais coisas*** etc.

Diz, pois, primeiro que aqueles que reputam ser motivo de opróbrio o amante de si chamam amantes de si àqueles que atribuem a si mesmos mais nos bens corporais, a saber, em riquezas e honras e nos deleites corporais, quais são os dos alimentos e dos prazeres venéreos; pois a multidão dos homens deseja bens dessa espécie e os homens atentam a eles como se fossem os melhores

**1864**. e, porque muitos buscam nessas coisas uma superabundância que nem todos podem ter ao mesmo tempo, segue-se que a respeito de bens dessa espécie surgem lutas e contendas. Ora, aqueles que abundam mais em tais coisas convertem essa abundância para satisfazer as concupiscências e, de modo geral, as demais paixões, e por consequência a parte irracional da alma, à qual pertencem as paixões, e assim aqueles que desejam tais bens amam a si mesmos segundo a parte irracional da alma, isto é, a sensitiva. Ora, a multidão dos homens é tal que segue mais o sentido do que o intelecto, e por isso a própria denominação de amante de si tomou-se daquilo que é depravado, o que convém a muitos. E assim é claro que o *philautos*, isto é, o amante de si mesmo, segundo essa acepção enquanto se encontra na maioria, é justamente censurado.

**1865**. Em seguida, quando diz: ***ora, uma vez que*** etc., prova o que tinha dito. E diz ser manifesto que muitos costumam chamar *philautoi*, isto é, amantes de si mesmos, àqueles que atribuem mais a si dos bens mencionados que pertencem à parte irracional, pois, se alguém quisesse superabundar nos bens da razão, que são as obras das virtudes, por exemplo, se quisesse entre os demais praticar ao máximo as obras da justiça ou da temperança ou quaisquer outras obras de virtude, de modo que sempre quisesse adquirir para si o bem honesto, ninguém da multidão mencionada o chamaria *philautos*, isto é, amante de si, ou, se algum sábio o chamasse *philautos*, não o diria em sua censura.